<script data-pm-proxy="intercept"></script><?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Síncope]]></title><description><![CDATA[Síncope investiga como tecnologia, trabalho, educação e comportamento reorganizam a vida adulta. Um ensaio por semana para separar o sinal do ruído e transformar ideias em critérios que você consegue usar.]]></description><link>https://allanpscheidt.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!b2e8!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb7735296-b982-4024-9570-2a50f0df44c9_512x512.png</url><title>Síncope</title><link>https://allanpscheidt.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Sat, 05 Sep 2026 01:51:41 GMT</lastBuildDate><atom:link href="/__u/allanpscheidt.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Allan Pscheidt]]></copyright><language><![CDATA[pt-br]]></language><webMaster><![CDATA[allanpscheidt@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[allanpscheidt@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Allan Pscheidt]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Allan Pscheidt]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[allanpscheidt@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[allanpscheidt@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Allan Pscheidt]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[A abstração não pode ser privilégio]]></title><description><![CDATA[Oferecer apenas empregabilidade imediata ao estudante de baixa renda amplia a matr&#237;cula, mas mant&#233;m a autonomia intelectual concentrada.]]></description><link>https://allanpscheidt.substack.com/p/a-abstracao-nao-pode-ser-privilegio</link><guid isPermaLink="false">https://allanpscheidt.substack.com/p/a-abstracao-nao-pode-ser-privilegio</guid><dc:creator><![CDATA[Allan Pscheidt]]></dc:creator><pubDate>Sun, 30 Aug 2026 13:04:17 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/68534048-1a28-415b-8475-9938e2c97eba_2816x1536.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>H&#225; uma imagem que reaparece sempre que algu&#233;m quer provar que a universidade parou no tempo: um professor diante de uma lousa cheia. Sem &#243;culos de realidade virtual, paredes interativas ou anima&#231;&#245;es. H&#225; linhas, setas, corre&#231;&#245;es e um racioc&#237;nio que ocupa espa&#231;o aos poucos.</p><p>A ironia &#233; que boa parte da tecnologia educacional tenta reconstruir essa experi&#234;ncia. Aplicativos oferecem quadros infinitos, canetas digitais, mapas visuais e telas compartilhadas. O que difere o material digital da lousa e giz? A necessidade cognitiva permanece em qualquer espa&#231;o, ela diz respeito sobre colocar o pensamento para fora, decompor um problema e acompanhar uma ideia enquanto ela &#233; constru&#237;da.</p><p>Isso n&#227;o santifica o giz. E eu n&#227;o quero dizer que giz &#233; a melhor ferramenta quando estamos num mundo repleto de telas e IAs. Uma aula ruim continua ruim em alta resolu&#231;&#227;o ou diante de uma lousa verde ou um quadro branco manchado. Estamos, novamente, confundindo a apar&#234;ncia da inova&#231;&#227;o com a qualidade da aprendizagem. </p><p>A mesma confus&#227;o aparece quando se reduz a universidade &#224; prepara&#231;&#227;o para o emprego dispon&#237;vel neste momento. O estudante leva, ao menos, 4 anos para concluir a gradua&#231;&#227;o. Em 4 anos o cen&#225;rio pode ser completamente diferente, como o surgimento de uma tecnologia, o in&#237;cio de uma crise econ&#244;mica ou novas profiss&#245;es.</p><p>As duas discuss&#245;es nascem da mesma pressa de pular a forma&#231;&#227;o conceitual e chegar logo &#224; sa&#237;da pronta.</p><p></p><h2>A lousa ficou velha apenas na fotografia</h2><p>A lousa pode funcionar como superf&#237;cie de racioc&#237;nio compartilhado. Quando bem usada, revela a ordem da constru&#231;&#227;o, preserva a posi&#231;&#227;o espacial dos elementos, permite voltar, apagar, reorganizar e mostrar que uma resposta possui hist&#243;ria.</p><p>Um slide, um tablet ou um simulador tamb&#233;m pode fazer isso. Nenhum suporte carrega virtude pedag&#243;gica por conta pr&#243;pria. A pergunta relevante &#233; se o recurso torna o processo intelectual vis&#237;vel ou&#8230; ele entrega apenas o resultado embalado?</p><p>Uma pesquisa sobre escrita manual oferece ind&#237;cios, n&#227;o um veredito contra teclados. Vamos l&#225;. Esse estudo com eletroencefalografia analisou dados de 36 universit&#225;rios destros e encontrou conectividade cerebral mais ampla durante a escrita &#224; m&#227;o. O desenho exige cautela, pois os participantes repetiam palavras e digitavam com um dedo, situa&#231;&#227;o distante de uma aula ou mesmo do cotidiano de qualquer pessoa. </p><p>Outro experimento encontrou diferen&#231;as neurais favor&#225;veis &#224; caneta, mas nenhuma diferen&#231;a significativa no n&#250;mero de palavras memorizadas ou na precis&#227;o comportamental entre caneta, caneta digital e teclado; a familiaridade com o recurso digital tamb&#233;m importou.</p><p>A conclus&#227;o &#250;til &#233; modesta. O modo de registrar uma ideia altera movimentos, ritmo, sele&#231;&#227;o, organiza&#231;&#227;o espacial e aten&#231;&#227;o. Papel e lousa podem favorecer essas opera&#231;&#245;es. Meios digitais tamb&#233;m podem, desde que o estudante n&#227;o vire espectador da solu&#231;&#227;o. Escrever ou digitar n&#227;o tem diferen&#231;a para adultos, o problema seria apenas na educa&#231;&#227;o infantil durante a alfabetiza&#231;&#227;o, pois ali o controle motor &#233; importante para que o pequeno saiba manusear o l&#225;pis e escrever corretamente cada tra&#231;o de cada letra e palavra e assim ir criando novas sinapses que possibilitar&#227;o a leitura fina posteriormente.</p><p>Aprender exige subida. O problema aparece quando o curso monta o primeiro degrau, mostra uma tela com o &#250;ltimo e chama o salto de inova&#231;&#227;o. Teve at&#233; lugar que distribu&#237;a tablets ao mesmo tempo que reclamava da falta de visitas &#224; biblioteca universit&#225;ria.</p><p></p><h2>O mercado troca de vers&#227;o antes da formatura</h2><p>Abra agora qualquer rede social e veja qualquer post de um professor falando sobre o que ensinou. Logo surgem aqueles que defendem uma educa&#231;&#227;o melhor, pois a que temos est&#225; obsoleta, n&#227;o forma gente para o mercado.</p><p>A defesa de uma universidade inteiramente alinhada ao mercado cont&#233;m uma contradi&#231;&#227;o simples: o mercado n&#227;o permanece alinhado consigo mesmo por tempo suficiente. Universidades s&#227;o espa&#231;os de conhecimento, e conhecimento &#233; atemporal. </p><p>No relat&#243;rio <em>Future of Jobs 2025</em>, empregadores consultados pelo F&#243;rum Econ&#244;mico Mundial estimaram que 39% das compet&#234;ncias centrais dos trabalhadores mudariam at&#233; 2030. Sete em cada dez empresas classificaram o pensamento anal&#237;tico como essencial. O levantamento registra expectativas empresariais, cujo valor preditivo &#233; limitado. Ainda assim, os resultados exp&#245;em o problema de organizar um curso superior em torno da plataforma ou do procedimento valorizado nesta temporada de previs&#245;es. </p><p>Imagine que surgiu uma nova tecnologia, um rob&#244; que aplica inje&#231;&#245;es em pacientes, sem interven&#231;&#227;o humana. Se um novo enfermeiro n&#227;o &#233; capaz de manipular uma seringa, contar unidades e verificar a presen&#231;a de bolhas, imagine quando ocorrer um conflito que leve &#224; queda de energia ou dificuldades na fabrica&#231;&#227;o desses rob&#244;s. Alguns conceitos mesmo que pouco usados no cotidiano s&#227;o importantes para mostrar como a tecnologia de hoje veio de um modo manual que ainda funciona.</p><p>Uma forma&#231;&#227;o amarrada &#224; interface da moda envelhece junto com ela. Quem aprende a formular problemas, representar fen&#244;menos, escolher m&#233;todos, examinar pressupostos e revisar conclus&#245;es adquire crit&#233;rios para aprender o que vier depois.</p><p>Um advogado que saiba ler o andamento de um processo sem precisar que uma IA forne&#231;a a conclus&#227;o. Um professor que saiba dar aula quando o cabo HDMI falha ou a l&#226;mpada do projetor queima. Um programador que saiba escrever linhas de c&#243;digo caso um novo app apresente problemas de conex&#227;o.</p><p>A legisla&#231;&#227;o brasileira tamb&#233;m recusa a escolha simplista entre profiss&#227;o e pensamento. O artigo 43 da Lei de Diretrizes e Bases inclui, entre as finalidades da educa&#231;&#227;o superior, estimular o esp&#237;rito cient&#237;fico e o pensamento reflexivo, formar diplomados aptos &#224; inser&#231;&#227;o profissional, incentivar a pesquisa e promover aperfei&#231;oamento cont&#237;nuo.</p><p>Uma universidade indiferente ao trabalho falha com estudantes que precisam construir uma vida material. Uma universidade subordinada &#224; vaga do trimestre falha com o futuro desses mesmos estudantes.</p><p>Ferramentas atuais, projetos com empresas, est&#225;gios, laborat&#243;rios e problemas aplicados t&#234;m lugar. A diferen&#231;a est&#225; na arquitetura. A pr&#225;tica pode ser o lugar em que conceitos ganham consequ&#234;ncia. Quando ocupa o lugar dos conceitos, produz usu&#225;rios eficientes enquanto tudo permanece igual.</p><p></p><h2>A divis&#227;o da abstra&#231;&#227;o</h2><p>O debate fica mais s&#233;rio quando entra a desigualdade social.</p><p>Em 2024, segundo o IBGE, 31,2% dos brasileiros de 18 a 24 anos frequentavam alguma institui&#231;&#227;o de ensino, mas apenas 27,1% estavam na etapa educacional adequada, o ensino superior. Entre jovens brancos, 37,4% estavam nessa etapa; entre pretos ou pardos, 20,6% (<a href="https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/43699-indicadores-educacionais-avancam-em-2024-mas-atraso-escolar-aumenta">Ag&#234;ncia de Not&#237;cias IBGE</a>).</p><p>Tamb&#233;m seria confort&#225;vel demais dizer a um estudante de baixa renda que ignore a empregabilidade e se dedique &#224; teoria enquanto outra pessoa paga as contas. A urg&#234;ncia econ&#244;mica &#233; real. Uma universidade que a despreza pode reproduzir o privil&#233;gio de quem possui tempo, contatos e prote&#231;&#227;o contra o risco.</p><p>O problema come&#231;a quando a urg&#234;ncia justifica uma forma&#231;&#227;o intelectualmente menor.</p><p>Surge ent&#227;o uma divis&#227;o social da abstra&#231;&#227;o. Um grupo aprende a formular o problema, construir o modelo, selecionar a ferramenta e julgar a resposta. Outro &#233; treinado para operar a ferramenta, seguir o protocolo e reconhecer a sa&#237;da esperada. O primeiro pode criar, auditar e substituir sistemas. O segundo depende de que o sistema continue funcionando como no tutorial.</p><p>Essa distin&#231;&#227;o, claro, n&#227;o diminui a educa&#231;&#227;o t&#233;cnica nem glorifica automaticamente a universidade. Um curso profissional pode exigir enorme rigor conceitual. Um curso universit&#225;rio tradicional pode se resumir a conte&#250;dos memorizados. A linha relevante separa forma&#231;&#227;o s&#233;ria de forma&#231;&#227;o superficial.</p><p>O elitismo universit&#225;rio aparece dentro dos port&#245;es. O estudante entra, mas recebe somente a parte imediatamente vend&#225;vel do conhecimento, enquanto investiga&#231;&#227;o, teoria, m&#233;todo e liberdade para errar continuam reservados a quem pode adiar o retorno financeiro e passar mais tempo na faculdade, se matriculando em poucas disciplinas.</p><p>Democratizar a matr&#237;cula sem democratizar a abstra&#231;&#227;o produz uma inclus&#227;o pela metade.</p><p></p><h2>Quatro degraus entre apertar e compreender</h2><p>Uma forma de avaliar uma disciplina, uma aula ou uma proposta de inova&#231;&#227;o &#233; perguntar at&#233; onde ela leva o estudante na escada da autonomia intelectual.</p><ol><li><p><strong>Operar:</strong> usar a ferramenta e executar o procedimento.</p></li><li><p><strong>Explicar:</strong> compreender o conceito, o modelo e os pressupostos.</p></li><li><p><strong>Julgar:</strong> reconhecer erro, limite, incerteza e sa&#237;da sem confian&#231;a.</p></li><li><p><strong>Transferir:</strong> reconstruir a solu&#231;&#227;o quando mudam ferramenta, formato ou contexto.</p></li></ol><p>O primeiro degrau tem valor. Ningu&#233;m aprende estat&#237;stica sem calcular, programa&#231;&#227;o sem programar ou qu&#237;mica sem procedimentos. O risco est&#225; em confundir o in&#237;cio com a forma&#231;&#227;o completa. E tem muito curso que oferece apenas o in&#237;cio em troca de descontos atraentes.</p><p>Para entender os degraus da forma&#231;&#227;o: Um programa devolve um gr&#225;fico, uma classifica&#231;&#227;o ou um n&#250;mero. O operador sabe onde clicar e aqui est&#225; formado no primeiro degrau. No segundo degrau, o profissional explica o que foi calculado. No terceiro, verifica se os dados e pressupostos autorizam a conclus&#227;o. No quarto, enfrenta uma mudan&#231;a de software, um caso fora do padr&#227;o ou uma sa&#237;da in&#233;dita sem paralisar.</p><p>O problema nem &#233; que a intelig&#234;ncia artificial est&#225; acabando com vagas de acesso ou cargos de n&#237;vel j&#250;nior, mas sim a quantidade de gente com diploma na m&#227;o que treme as pernas quando precisa demonstrar se sabe algum conceito simples e n&#227;o consegue. A IA torna a distin&#231;&#227;o mais vis&#237;vel. Produzir uma resposta bem escrita ficou f&#225;cil. Detectar uma premissa falsa, uma categoria trocada ou uma infer&#234;ncia sem evid&#234;ncia continua exigindo forma&#231;&#227;o.</p><p>Essa quest&#227;o amplia um problema que j&#225; explorei em <em><a href="/__u/allanpscheidt.substack.com/p/terceirizacao-da-responsabilidade">Terceiriza&#231;&#227;o da responsabilidade intelectual</a></em>: delegar a produ&#231;&#227;o sem manter a capacidade de responder pelo resultado.</p><p>Prefiro n&#227;o atribuir essa fragilidade a uma gera&#231;&#227;o. Estudantes respondem aos incentivos que desenhamos e entregamos a eles. Quando a avalia&#231;&#227;o recompensa a sa&#237;da e ignora o caminho, otimizar a sa&#237;da &#233; racional. Quando o curso valoriza velocidade, apar&#234;ncia e dom&#237;nio de interface, poucos ter&#227;o motivo para reconstruir o mecanismo.</p><p>O d&#233;ficit de abstra&#231;&#227;o costuma ser pedag&#243;gico antes de ser geracional.</p><p></p><h2>Formar uma postura cient&#237;fica</h2><p>Eu reformularia a frase &#8220;a faculdade deve formar um cientista&#8221;.</p><p>Nem todo graduado precisa seguir carreira acad&#234;mica ou publicar artigos. Aplica&#231;&#245;es de mercado tamb&#233;m podem exigir enorme intelig&#234;ncia. Projetar uma ponte, organizar uma rede hospitalar, detectar fraude ou ensinar matem&#225;tica em uma escola com poucos recursos pode exigir mais julgamento do que uma pesquisa acad&#234;mica med&#237;ocre.</p><p>A universidade deveria formar uma postura cient&#237;fica, e isso nos falta, infelizmente.</p><p>Isso envolve transformar inquieta&#231;&#245;es em perguntas examin&#225;veis; distinguir observa&#231;&#227;o de interpreta&#231;&#227;o; representar um problema sem confundir modelo e realidade; escolher m&#233;todos por adequa&#231;&#227;o; procurar evid&#234;ncias contr&#225;rias; declarar incerteza; revisar conclus&#245;es; comunicar o racioc&#237;nio para que outra pessoa possa critic&#225;-lo.</p><p>Essa postura fortalece a prepara&#231;&#227;o profissional. Quem entende fundamentos aprende ferramentas novas com mais velocidade, reconhece quando o procedimento conhecido deixou de servir e assume responsabilidade pelo resultado.</p><p>Uma forma&#231;&#227;o assim alterna movimentos. Parte de situa&#231;&#245;es concretas, sobe a conceitos gerais, retorna &#224; aplica&#231;&#227;o, encontra um limite e volta &#224; teoria. Usa lousa, laborat&#243;rio, c&#243;digo, texto, simula&#231;&#227;o, est&#225;gio e discuss&#227;o. A tecnologia amplia possibilidades sem ocupar o lugar do pensamento do estudante.</p><p>O mercado ganha um profissional adapt&#225;vel. A sociedade ganha algu&#233;m capaz de perguntar para quem uma solu&#231;&#227;o funciona, quem assume o risco e qual evid&#234;ncia justificaria uma decis&#227;o diferente.</p><p></p><h2>O teste da tomada</h2><p>Para avaliar uma inova&#231;&#227;o educacional, retire por um instante o aplicativo, a assinatura, o modelo, a bateria e a tomada. Depois pergunte:</p><ul><li><p>O estudante consegue explicar o fen&#244;meno sem repetir a interface?</p></li><li><p>Consegue antecipar o tipo de resultado antes de apertar o bot&#227;o?</p></li><li><p>Consegue identificar uma sa&#237;da imposs&#237;vel, enganosa ou insuficiente?</p></li><li><p>Consegue reconstruir o caminho com outra ferramenta?</p></li></ul><p>A aus&#234;ncia dessas capacidades n&#227;o prova que a tecnologia prejudicou a aprendizagem. Mostra que a conveni&#234;ncia ainda n&#227;o se converteu em forma&#231;&#227;o.</p><p>A boa tecnologia educacional, obviamente amplia acesso, acessibilidade, colabora&#231;&#227;o, experimenta&#231;&#227;o, visualiza&#231;&#227;o e retorno r&#225;pido. Seu valor cresce quando ajuda o estudante a subir os quatro degraus. Como atalho permanente entre pergunta e resposta, produz depend&#234;ncia com apar&#234;ncia de compet&#234;ncia.</p><p>Por isso a velha lousa continua incomodando. Ela lembra que pensar leva tempo, ocupa espa&#231;o e deixa rastros. Mostra o erro antes da corre&#231;&#227;o. Obriga algu&#233;m a construir o caminho diante de outras pessoas.</p><p>Democratizar a universidade significa distribuir mais do que vagas e diplomas. Significa distribuir o direito de teorizar, investigar, modelar, duvidar e reconstruir. O estudante de baixa renda precisa de condi&#231;&#245;es reais para entrar no mercado. Precisa tamb&#233;m do poder de mudar de fun&#231;&#227;o, criar ferramentas, questionar sistemas e continuar aprendendo quando o mercado trocar de vers&#227;o.</p><p>A abstra&#231;&#227;o n&#227;o pode continuar como luxo de quem tem tempo para pensar. Ela &#233; uma tecnologia de liberdade.</p><h3>Continue na S&#237;ncope</h3><p>O artigo<em> <a href="/__u/allanpscheidt.substack.com/p/por-que-o-futuro-do-trabalho-pode">Por que o Futuro do Trabalho pode n&#227;o ser o que nos Prometeram</a></em> amplia a discuss&#227;o sobre a dist&#226;ncia entre promessas tecnol&#243;gicas e condi&#231;&#245;es reais de trabalho.</p><p>Em sua &#225;rea, qual ferramenta come&#231;ou a ser ensinada antes do fundamento que permitiria julg&#225;-la?</p><p>Se este texto organizou uma inquieta&#231;&#227;o que voc&#234; reconhece, envie-o a algu&#233;m que merece oxigenar a mente. A S&#237;ncope investiga como tecnologia, educa&#231;&#227;o e trabalho reorganizam nossa autonomia. Assine para receber as pr&#243;ximas edi&#231;&#245;es.</p><p>Bjo!</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Bullshit job, AI slop e workslop]]></title><description><![CDATA[E o motivo que que os tr&#234;s contam a mesma hist&#243;ria em tr&#234;s tempos]]></description><link>https://allanpscheidt.substack.com/p/bullshit-job-ai-slop-e-workslop</link><guid isPermaLink="false">https://allanpscheidt.substack.com/p/bullshit-job-ai-slop-e-workslop</guid><dc:creator><![CDATA[Allan Pscheidt]]></dc:creator><pubDate>Sat, 22 Aug 2026 13:52:37 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/43a5d919-d6ce-443c-bef0-085d199947a3_2752x1536.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Existe um tipo de tarefa que a gente entrega toda semana e n&#227;o conseguiria explicar para uma crian&#231;a de sete anos por que ela precisa existir. E eu tenho certeza que voc&#234; j&#225; pensou no quanto estudou para chegar ali e que tudo aquilo n&#227;o &#233; utilizado para a maioria das coisas que faz.</p><p>O relat&#243;rio mensal que ningu&#233;m l&#234; e mesmo assim atrasa a sua sexta-feira. A ata da reuni&#227;o que re&#250;ne informa&#231;&#245;es &#250;teis, mas que o colega ao lado insiste em te perguntar esses mesmos detalhes e roubar sua paz. O e-mail de alinhamento que alinha o qu&#234;, exatamente? A gente faz, entrega, recebe o &#8220;show!&#8221; e a vida segue.</p><p>E o problema &#233; que a IA ir&#225; roubar nossos empregos. Mas aqui estamos falando de qual parte dos nossos empregos especificamente?</p><p></p><h2>O antrop&#243;logo que perguntou se aquilo servia para alguma coisa</h2><p>Em agosto de 2013, David Graeber, antrop&#243;logo da London School of Economics, publicou um ensaio numa revista pequena, com o t&#237;tulo &#8220;On the Phenomenon of Bullshit Jobs&#8221;. Em duas semanas, o texto foi visto mais de um milh&#227;o de vezes e traduzido para doze idiomas. Ele n&#227;o esperava nada disso.</p><p>A tese ali era simples e grosseira, mas revelava um problema dos nossos tempos sobre como desperdi&#231;amos talentos com tarefas sem sentido. Ele escreveu que uma parte enorme do trabalho moderno existe sem motivo, e quem executa sabe disso melhor que qualquer consultor. </p><p>Voc&#234;, com diploma e cheio de ideias &#233; colocado para digitar e responder e-mails, e sempre que pensa numa solu&#231;&#227;o para um problema importante &#233; interrompido, pois n&#227;o &#233; a sua fun&#231;&#227;o. E vai a empresa e contrata algu&#233;m de fora, que chega cheio de ideais, estressa toda a equipe e inventa solu&#231;&#245;es absurdas que geram trabalho e retrabalho.</p><p>Muita gente hoje se queixa nas redes sociais. O n&#250;mero de casos de burnout / esgotamento mental nunca esteve t&#227;o elevado. E sabemos que n&#227;o se trata apenas de sal&#225;rio nem de cansa&#231;o f&#237;sico, mas de sentido, de perder o tes&#227;o por algo que parecia incr&#237;vel nos anos anteriores.</p><p>O instituto YouGov foi atr&#225;s. Perguntou a brit&#226;nicos se o emprego deles dava alguma contribui&#231;&#227;o significativa ao mundo. 37% responderam que n&#227;o. Na Holanda, na mesma pergunta, foram 40%. Fa&#231;a voc&#234; esse teste agora. Veja quantas tarefas cotidianas n&#227;o ajudam em nada, s&#227;o apenas coisas sem sentido como um e-mail que ningu&#233;m ir&#225; ler ou um ajuste na planilha que algu&#233;m vai errar e bagun&#231;ar toda a formata&#231;&#227;o, para identificar algo que &#233; &#243;bvio e bastaria um olho-no-olho para resolver.</p><p>Traduzindo enquanto voc&#234; l&#234; esse artigo. Quatro em cada dez pessoas acham que poderiam sumir amanh&#227; e o mundo n&#227;o sentiria falta. E elas nem est&#227;o reclamando do chefe em si, mas dizendo que a cadeira n&#227;o precisava existir. E chefe ruim existe aos montes, e os poucos bons e que lideram, est&#227;o super estressados.</p><p>No livro de 2018, David organizou os tipos de empregados mais comuns no escrit&#243;rio.</p><p>Temos o capacho, que existe para fazer o chefe parecer importante, sempre na sombra e na aus&#234;ncia da chefia incorpora a si mesmo um cargo imagin&#225;rio de substituto e destila a s&#237;ndrome do pequeno poder. Tem o capanga, contratado porque o concorrente contrataria primeiro e &#233; interessante ter essa pessoa ali por ser parente de algu&#233;m importante na alta lideran&#231;a. O remend&#227;o, que passa o dia consertando um problema que algu&#233;m se recusa a resolver na origem e nunca tem reconhecimento por isso. O marcador de caixinha, que produz o documento que prova que a empresa faz algo que ela n&#227;o faz, ganha os louros e fala com a boca cheia que conhece tudo e todos. E o feitor, que supervisiona gente que n&#227;o precisa de supervis&#227;o. Leia a lista de novo pensando na sua semana. </p><p>Ai ai.</p><p></p><h2>Antes de culpar a internet</h2><p>O inc&#244;modo &#233; bem mais velho que o Slack, Miro, Microsoft Teams e Zoom. Em 1955, C. Northcote Parkinson, historiador naval brit&#226;nico, publicou na The Economist uma conta que d&#243;i at&#233; hoje na gente: entre 1914 e 1928, a frota do Reino Unido encolheu 68%, ou seja, menos navios sendo colocados nas &#225;guas e, com isso, perdeu cerca de um ter&#231;o dos marinheiros, enquanto os funcion&#225;rios administrativos do Almirantado, o &#243;rg&#227;o que administrava a Marinha, subiram 78%, de 2.000 para 3.569. </p><p>Parece bem comum n&#227;o? Muita gente mandando e pedindo coisas, mas s&#243; voc&#234; ali para dar conta de tudo e ainda tendo que sorrir e acenar como se ningu&#233;m estivesse vendo o problema bem no centro da sala.</p><p>Menos navio, menos marinheiro, mais gente preenchendo formul&#225;rio sobre navio e ordenando coisas. Da&#237; saiu a frase que virou lei em cada trabalhador exausto: o trabalho se expande at&#233; ocupar todo o tempo dispon&#237;vel para a sua conclus&#227;o. Aqui a burocracia inflou sozinha e criou mais e mais travas, dando a impress&#227;o que diariamente apagamos inc&#234;ndios e n&#227;o trabalhamos.</p><p>E cabe uma ressalva honesta. Em 2022, Magdalena Soffia, Alex Wood e Brendan Burchell publicaram na revista Work, Employment and Society uma cr&#237;tica emp&#237;rica ao Graeber. Nas Pesquisas Europeias de Condi&#231;&#245;es de Trabalho, perguntados de forma direta se sentem que fazem um trabalho &#250;til, apenas 4,8% dos europeus responderam que raramente ou nunca, contra 7,8% em 2005. </p><p>Quantas horas do seu emprego &#250;til v&#227;o para tarefas que n&#227;o pedem nada de voc&#234;?</p><p></p><h2>A lavagem do porco</h2><p>Pulamos agora para 2024. Aparece na internet uma palavra nova para o conte&#250;do gerado por m&#225;quina e despejado sem revis&#227;o. Nasce o &#8220;AI Slop&#8221;.</p><p>Em ingl&#234;s, slop &#233; a lavagem, aquele balde de restos, a tal "lavagem&#8221; que se d&#225; ao porco por quem n&#227;o sabe criar porcos e acha que esses animais comem de tudo. A palavra circulava desde 2022 em f&#243;runs como o 4chan e o Hacker News e ganhou tra&#231;&#227;o de vez em maio de 2024, quando o programador Simon Willison escreveu que ela precisava virar o &#8220;spam&#8221; da intelig&#234;ncia artificial, sendo um nome curto, feio e universal para uma sujeira que todo mundo reconhece hoje.</p><p>&#8220;N&#227;o &#233; sobre X, &#233; sobre Y&#8221;.</p><p>&#8220;Crucial&#8221;.</p><p>&#8220;Na tape&#231;aria dos nossos tempos&#8221;.</p><p>Enfim, qualquer jeito de escrita que denuncia que aquele conte&#250;do ali foi escrito por IA e n&#227;o foi revisado pelo humano que copiou, colou e publicou.</p><p>O argumento tem lastro. &#8220;Spam&#8221; tamb&#233;m nasceu de piada, num quadro do Monty Python de 1970 em que um restaurante s&#243; serve pratos com presunto enlatado da marca Spam e um coro de vikings canta a palavra at&#233; ningu&#233;m conseguir mais conversar. Voc&#234; sabia disso? Eu n&#227;o!</p><p>E falando em spam, o LinkedIn que em 2023 criou artigos colaborativos feitos por IA, deu selos dourados para quem mais contribu&#237;sse nesses artigos e chegou at&#233; a criar um bot&#227;o para o usu&#225;rio usar a IA para &#8220;melhorar o texto&#8221;, voltou atr&#225;s e em 2026 entrou numa nova pol&#237;tica contra o uso exagero de IA na plataforma e criou o bot&#227;o de &#8220;denunciar lixo de IA&#8221; para aqueles conte&#250;dos exageradamente sem sentindo algum.</p><p>T&#225; tudo bem mudar de rota viu? T&#225; tudo bem investigar algo, perceber que n&#227;o funciona ou que n&#227;o deu certo e voltar atr&#225;s.</p><p></p><h2>Quando a lavagem chega na sua caixa de entrada</h2><p>Faltava a vers&#227;o corporativa do spam ou do slop. Mas n&#227;o se preocupe! Seus problemas acabaram! (Como num comercial de algum produto revolucion&#225;rio e duvidoso num canal de propagandas na TV na d&#233;cada de 1990). </p><p>Em 22 de setembro de 2025, na Harvard Business Review, assinada pelo BetterUp Labs e pelo Social Media Lab de Stanford, Kate Niederhoffer, Jeffrey Hancock e colegas ouviram 1.150 trabalhadores americanos de escrit&#243;rio e batizaram um novo termo: workslop.</p><p>Workslop &#233; o entreg&#225;vel que tem a apar&#234;ncia exata do trabalho bom e n&#227;o move a tarefa um cent&#237;metro. Claro que em portugu&#234;s temos um termo maravilhoso e mais agrad&#225;vel aos ouvidos: encher lingui&#231;a (mas sem o trema, pois a reforma ortogr&#225;fica mudou ling&#252;i&#231;a para lingui&#231;a). Slide bonito, relat&#243;rio comprido, resumo redondo, planilha sem contexto, literalmente coisas bonitas que n&#227;o informam nada. </p><p>40% daquelas pessoas que eles entrevistaram tinham recebido um no m&#234;s anterior, e cada ocorr&#234;ncia custava, em m&#233;dia, duas horas de retrabalho de quem recebeu.</p><p>Por exemplo, imagine que voc&#234; precise dar feedback. Para isso seu gestor encaminha o resultado de uma pesquisa de satisfa&#231;&#227;o com perguntas gen&#233;ricas que n&#227;o informam nada concreto. Voc&#234; recebe tudo aquilo, n&#227;o sabe o que faz e decide ativar o modo feeling, que &#233; exatamente sua impress&#227;o e como voc&#234; percebe o funcion&#225;rio. O feedback acontece porque voc&#234; &#233; um &#243;timo gestor que observa a equipe, mas a alta lideran&#231;a fica satisfeita porque acha que voc&#234; s&#243; conseguiu dar o feedback gra&#231;as aos resultados da pesquisa que realizaram. Lixo. Lingui&#231;a, workslop.</p><p>Repare no mecanismo, porque ele &#233; o cora&#231;&#227;o da coisa. O trabalho mudou de mesa, por algu&#233;m que se acha inteligente. Quem enviou economizou quarenta minutos, quem recebeu perdeu duas horas tentando descobrir o que aquilo queria dizer. Cruel? &#201;. A conta que a pesquisa fecha d&#225; 186 d&#243;lares por funcion&#225;rio por m&#234;s, ou 9 milh&#245;es por ano numa empresa de 10 mil pessoas. &#201; o tanto de grana que vai para o ralo por colocarem profissionais despreparados em cargos de lideran&#231;a.</p><p></p><h2>O teste do papagaio</h2><p>Junte as tr&#234;s palavras e elas contam uma hist&#243;ria s&#243;, em tr&#234;s tempos. Bullshit job &#233; a suspeita de 2013. AI slop &#233; a evid&#234;ncia de 2024. Workslop &#233; a fatura de 2025.</p><p>De um lado temos a intelig&#234;ncia artificial ficando t&#227;o boa que j&#225; faz o trabalho intelectual humano, e voc&#234; &#233; v&#237;tima de um salto tecnol&#243;gico e uma transforma&#231;&#227;o acontecendo diante dos nossos olhos. Por outro, a IA ainda n&#227;o ficou t&#227;o boa assim, segue sendo generalista para dar conta de tudo e acaba gerando conte&#250;do que um leigo &#233; incapaz de perceber sua utilidade ou inutilidade para o objetivo proposto.</p><p>Em 2021, num artigo chamado &#8220;On the Dangers of Stochastic Parrots&#8221;, as pesquisadoras Emily Bender, Timnit Gebru, Angelina McMillan-Major e Margaret Mitchell argumentaram que um modelo de linguagem &#233; um papagaio estoc&#225;stico: costura peda&#231;os de linguagem que j&#225; viu, por probabilidade, sem nenhum acesso ao significado. Voc&#234; escuta, o papagaio realmente fala. Mas o papagaio n&#227;o entende o que est&#225; falando, n&#227;o existe ali um racioc&#237;nio para sustentar uma conversa.</p><p>Hoje temos excelentes papagaios que automatizam nossas vidas e ajudam muito na produtividade. Mas somente para quem entende que ali &#233; um papagaio e n&#227;o uma intelig&#234;ncia superior capaz de compreender todas as entrelinhas do prompt mal escrito.</p><p>Talvez esse o melhor nome para o que est&#225; acontecendo &#233; o &#8220;teste do papagaio&#8221;. Se o papagaio faz a sua tarefa bem, a tarefa nunca dependeu de compreender nada. Ela dependia de formato. E isso vale para muita coisa que a gente aprendeu a chamar de trabalho qualificado. Doeu? Doeu aqui tamb&#233;m. </p><p>Eu sou doutor, mas a grande parte da minha profissional nos &#250;ltimos dez anos foi preencher planilhas e responder e-mails com d&#250;vidas que poderiam ser tiradas se quem perguntava tivesse lido o material. Nenhum daqueles pedidos envolvia conhecimento t&#233;cnico refinado. Era localizar um arquivo, confirmar um n&#250;mero, trocar uma palavra num par&#225;grafo. E hoje o papagaio resolve todos eles antes de eu chegar ao aeroporto para ir palestrar sobre como usar a IA com potencial e intelig&#234;ncia.</p><p></p><h2>Clicando em n&#250;meros assustadores</h2><p>Quem viu Ruptura, no Apple TV (que era Apple TV+ at&#233; outubro de 2025, quando perderam o sinal de mais e ningu&#233;m notou exceto quem tem o dispositivo Apple TV), assistiu a esse argumento virar fic&#231;&#227;o.</p><p>Mark S., vivido por Adam Scott, trabalha no que a empresa chama de refinaria de macrodados. Ele encara uma tela cheia de n&#250;meros, sente que alguns s&#227;o assustadores e arrasta esses para uma caixinha digital. Quando a caixinha enche, toca uma musiquinha e ele ganha um pr&#234;mio rid&#237;culo, tipo festa com melancia esculpida.</p><p>Metade da internet riu, a outra metade sentiu um frio na barriga ao reconhecer a pr&#243;pria ter&#231;a-feira. Afinal, x&#243;vem, a gente j&#225; fez isso n&#227;o fez? Quantos bombons de agradecimento voc&#234; recebeu nessa vida?</p><p>No fundo, ali no refino de macrodados &#233; sobre um sujeito clicando em n&#250;mero que d&#225; medo para gerar gr&#225;fico bonito no fim do m&#234;s. A s&#233;rie que parece ser sobre uma distopia, na real, retrata o que acontece em muito desse mundo.</p><p></p><h2>O detalhe que ningu&#233;m leu </h2><p>Em julho de 2025, pesquisadores da Microsoft Research liderados por Kiran Tomlinson analisaram 200 mil conversas an&#244;nimas de usu&#225;rios com o Bing Copilot, coletadas entre janeiro e setembro de 2024. Parece absurdo? Absurdo &#233; quem n&#227;o l&#234; os termos de uso e acha que qualquer solu&#231;&#227;o gratuita &#233; uma doa&#231;&#227;o no maior estilo Madre Teresa de Calcut&#225; (embora ela mesma seja hoje tema de muitas cr&#237;ticas sobre a bondade que era vendida na m&#237;dia).</p><p>Ali na pesquisa, eles cruzaram cada pedido com um banco de dados oficial americano que descreve as atividades que comp&#245;em cada profiss&#227;o, e calcularam uma nota de aplicabilidade da IA por ocupa&#231;&#227;o.</p><p>A imprensa fez o de sempre e publicou a lista dos &#8220;empregos amea&#231;ados&#8221;. No topo: int&#233;rpretes e tradutores, historiadores, atendentes de passageiros, vendedores, escritores. No fundo, com nota zero, gente que opera lancha, lixa piso, levanta trilho, cuida de esta&#231;&#227;o de tratamento de &#225;gua e abre ponte levadi&#231;a. Borracheiro tirou 0,02, profiss&#227;o protegida.</p><p>Agora o detalhe que quase ningu&#233;m comentou &#233; que a maior nota da tabela inteira, entre 785 ocupa&#231;&#245;es, &#233; 0,49, e &#233; justamente a do int&#233;rprete e tradutor, o primeiro colocado.</p><p>Nem metade. A profiss&#227;o mais &#8220;substitu&#237;vel&#8221; do estudo tem menos da metade das suas atividades ao alcance da m&#225;quina. O p&#226;nico inteiro foi constru&#237;do sobre um n&#250;mero que, olhado de perto, diz o contr&#225;rio do que a manchete prometia.</p><p>Ent&#227;o, da pr&#243;xima vez que ouvir &#8220;a IA vai roubar o seu trabalho&#8221; responda &#8220;que &#243;timo, assim posso descansar de fazer coisas in&#250;teis&#8221;. Brincadeira, responda com uma pergunta &#8220;todo ele ou apenas uma parte, e qual parte?&#8221;. Quem  afirmou vai ficar com cara de paisagem, pois vai entregar que fez uma afirma&#231;&#227;o baseada no que ouviu por a&#237;, e desconhece completamente a natureza do seu trabalho.</p><p>A Microsoft, na pesquisa Work Trend Index feita pela Edelman com 31 mil profissionais em 31 pa&#237;ses entre fevereiro e mar&#231;o de 2025, mostrou onde o dia dessa gente est&#225; indo: de interrup&#231;&#227;o a cada dois minutos, 117 e-mails e 153 mensagens de Teams por dia, 60% do tempo em comunica&#231;&#227;o sobre o trabalho, e n&#227;o no trabalho.</p><p>Sessenta por cento do seu dia &#233; com coisas que n&#227;o se tratam de trabalho real. A famosa frase &#8220;essa reuni&#227;o poderia ter sido um e-mail de dois par&#225;grafos&#8221;. E eu j&#225; fiquei em reuni&#227;o com mais de 8 horas de dura&#231;&#227;o que n&#227;o resolveu nada e s&#243; atrasou ainda mais o trabalho real.</p><p>Tem um custo real nisso, e eu n&#227;o vou maquiar. Emprego de verdade some todo ano enquanto outros surgem, gente de verdade paga a conta, e falar em &#8220;transi&#231;&#227;o&#8221; para quem perdeu o sal&#225;rio &#233; grosseria e falta com empatia. Vivemos num mundo organizado num sistema de bens e consumo que depende das horas trabalhadas para um sal&#225;rio para comprar alimento, moradia, lazer. A falta de um trabalho implica em quest&#245;es s&#233;rias de sobreviv&#234;ncia. Ent&#227;o a preocupa&#231;&#227;o com perder o trabalho para a IA e ter que descobrir uma nova fun&#231;&#227;o &#233; genu&#237;na.</p><p>Mas olhando ali para a lavagem, se voc&#234; tirar sobra o que nenhum papagaio faz. Decidir o que merece ser feito, que &#233; bem diferente de executar bem o que mandaram. Sustentar uma conversa dif&#237;cil com algu&#233;m que est&#225; com medo. Julgar o caso que n&#227;o se parece com nenhum caso anterior. Assumir responsabilidade por um erro, e responsabilidade s&#243; existe onde tem corpo, nome e consequ&#234;ncia.</p><p>Repare que a lista de nota zero &#233; quase toda de gente que sustenta o mundo f&#237;sico funcionando. A &#225;gua que voc&#234; bebeu hoje passou por um operador de esta&#231;&#227;o de tratamento. Nota 0,00 no ranking do medo.</p><p>Mas isso pode mudar.</p><p>J&#225; s&#227;o in&#250;meros casos em todo o mundo em que pessoas s&#227;o colocadas para monitorar suas atividades, como se filmar lavando a lou&#231;a, para gerar dados que ir&#227;o para uma empresa de rob&#243;tica desenvolver um rob&#244; capaz de lavar toda e qualquer lou&#231;a. O mesmo com funcion&#225;rios em linhas de produ&#231;&#227;o em f&#225;bricas, com dispositivos em suas cabe&#231;as para gerar o mesmo tipo de dado que ser&#225; usado para substitu&#237;-los depois.</p><p>Nada novo nesse mundo c&#227;o. Ainda hoje tem professor especialista, por exemplo, sendo contratado para criar conte&#250;do que ser&#225; usado pela &#8220;eternidade&#8221; na empresa, sem a presen&#231;a dele, em troca de algumas centenas de reais. </p><p>Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.</p><p></p><h2>O que fazer com isso tudo?</h2><p>Gritar!</p><p>Hoje n&#227;o tenho protocolo, mas tenho perguntas que valem para qualquer profiss&#227;o e d&#227;o trabalho de responder com honestidade:</p><ul><li><p>Das tarefas que ocupam minha semana, quais um papagaio faria bem? Fa&#231;a a lista no papel. Vai ser mais longa do que voc&#234; gostaria.</p></li><li><p>Dessas, quantas existem porque algu&#233;m precisa de prova de que o trabalho aconteceu, e n&#227;o porque o trabalho precisa delas?</p></li><li><p>O que eu fa&#231;o que exige olhar uma situa&#231;&#227;o nova e decidir sobre algo?</p></li><li><p>Quando foi a &#250;ltima vez que algu&#233;m me procurou pelo julgamento, e n&#227;o pelo formato?</p><p></p></li></ul><h2>O papagaio &#233; s&#243; o exame</h2><p>A intelig&#234;ncia artificial n&#227;o inventou o trabalho vazio. Ficou boa o suficiente em imitar formato para revelar quanto do nosso dia era formato. Uma lente de contato colocada na frente de todo mundo que ignorava o grande elefante branco no centro da sala.</p><p>Isso assusta quem construiu uma carreira sendo confi&#225;vel na entrega de coisas que ningu&#233;m l&#234;. E &#233; a melhor not&#237;cia em d&#233;cadas para quem gosta da parte do trabalho que exige presen&#231;a e julgamento, e passou a vida sem tempo para ela, engolida pela ata da reuni&#227;o.</p><p>Papo reto: o papagaio n&#227;o veio tomar o seu lugar. Veio mostrar quanto do seu lugar j&#225; estava vazio.</p><p>Bjo!</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Quando toda conversa precisa virar sobre você]]></title><description><![CDATA[FOMO, protagonismo compuls&#243;rio e a dist&#226;ncia que existe entre n&#227;o ter sido convidado e estar sendo perseguido.]]></description><link>https://allanpscheidt.substack.com/p/quando-toda-conversa-precisa-virar</link><guid isPermaLink="false">https://allanpscheidt.substack.com/p/quando-toda-conversa-precisa-virar</guid><dc:creator><![CDATA[Allan Pscheidt]]></dc:creator><pubDate>Sat, 08 Aug 2026 13:02:48 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/3a02c377-3e2d-42f2-aa6d-64579d0602b8_2816x1536.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[
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