<script data-pm-proxy="intercept"></script><?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[All Things Considered]]></title><description><![CDATA[A bit of everything]]></description><link>https://allthings.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!xvRd!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8211c4b9-83d8-44bf-81f5-9a166f3637a6_256x256.png</url><title>All Things Considered</title><link>https://allthings.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Wed, 02 Sep 2026 00:26:00 GMT</lastBuildDate><atom:link href="/__u/allthings.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Nadia Lapa]]></copyright><language><![CDATA[en]]></language><webMaster><![CDATA[allthings@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[allthings@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Nadia Lapa]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Nadia Lapa]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[allthings@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[allthings@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Nadia Lapa]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[Carga mental não é só um jargão ]]></title><description><![CDATA[Voc&#234; sabe, eu sei, e at&#233; eles sabem. Todo o trabalho &#233; nosso. Mas, e agora, o que fazemos com essa informa&#231;&#227;o?]]></description><link>https://allthings.substack.com/p/carga-mental-nao-e-so-um-jargao</link><guid isPermaLink="false">https://allthings.substack.com/p/carga-mental-nao-e-so-um-jargao</guid><dc:creator><![CDATA[Nadia Lapa]]></dc:creator><pubDate>Tue, 28 Jul 2026 17:13:06 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!xvRd!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8211c4b9-83d8-44bf-81f5-9a166f3637a6_256x256.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>O texto de ontem &#233; uma loucura. Um vai-e-volta, um sobe-e-desce, um monte de coisas <em>quase</em> ditas, mas meio que sem sentido para quem o texto caiu, do nada, na inbox. <br><br>Porque ele era pra ser outra coisa: o relato de um reencontro comigo mesma. Uma conversa cheia de esperan&#231;a, com algumas passagens engra&#231;adas, como se a luz no fim do t&#250;nel estivesse muito pr&#243;xima. Ou&#8230; at&#233; me autocorrijo! A luz da qual queria falar &#233; a do sol do ver&#227;o no Mediterr&#226;neo. E o t&#250;nel? Ele sequer existe. <br><br>Mas eu escrevo no fluxo do pensamento e nunca edito, ent&#227;o ficou aquela salada meio azeda. Tamb&#233;m n&#227;o escrevo consistentemente h&#225; anos. Tentei criar uns blogs nos &#250;ltimos anos, por&#233;m perdia as senhas, j&#225; nem lembrava com qual e-mail inventado havia feito o cadastro, e acabava desistindo de continuar. <br><br>Ent&#227;o, desculpem a poeira, o enferrujado entre as palavras, e esse mont&#227;o de voltas que eu dou para falar algo que deveria ser simples. &#201; assim que meu c&#233;rebro funciona. Estou com o pensamento aqui, mas tamb&#233;m acol&#225;. Talvez eu n&#227;o edite os textos porque, quando os releio, j&#225; at&#233; mudei de ideia sobre o assunto. <br><br>Vou tentar engrenar. <br><br><strong>Vou engrenar.</strong><br><br>Mas o texto de ontem, apesar de ca&#243;tico, fala de algo que atravessa a vida de toda mulher em relacionamentos heterossexuais: o peso que carregamos ao decidirmos dividir a vida (ou mesmo s&#243; alguns momentos) com um homem.<br><br>A essa altura, todas n&#243;s j&#225; ouvimos falar de <strong>carga mental</strong> e temos alguma ideia do que isso significa. J&#225; &#233; um come&#231;o; minha m&#227;e n&#227;o tinha como nomear o trabalho (em tese) invis&#237;vel do cuidado com os filhos, ou como expressar qu&#227;o cansativo era saber se o arroz estava acabando, qual a melhor marca de sab&#227;o em p&#243;, onde estavam guardadas as nossas certid&#245;es de nascimento. <br><br>Ela simplesmente carregava esse peso por a&#237;, a cabe&#231;a a milh&#227;o, o cansa&#231;o constante, e nenhum tempo para cuidar de si mesma. <br><br>Hoje, a gente tem um nome, e at&#233; joga o termo no meio de um carrossel de Instagram ou numa hashtag no TikTok. Ficamos indignadas. <em>&#8220;N&#227;o se pode continuar vivendo assim&#8221;, &#8220;as tarefas dom&#233;sticas devem ser divididas&#8221;, &#8220;t&#225; achando que &#233; minha obriga&#231;&#227;o s&#243; porque sou mulher?&#8221;</em><br><br>E, ainda assim, continuamos, porque simplesmente parece n&#227;o haver alternativa sen&#227;o o div&#243;rcio ou a solid&#227;o rom&#226;ntica. Ficamos em uma encruzilhada. &#201; suficiente para uma separa&#231;&#227;o? E o amor, como fica? Ou, algumas de n&#243;s (<s>eu)</s> continuamos com a esperan&#231;a de que &#8220;vai mudar, ele vai perceber, ele vai entender se eu explicar direitinho&#8221;.<br><br>Eu queria dizer que tal esperan&#231;a n&#227;o &#233; em v&#227;o. No meu caso certamente foi, assim como para a maior parte das mulheres que conhe&#231;o. Tamb&#233;m devemos lembrar da exist&#234;ncia de uns unic&#243;rnios por a&#237;, homens que dividem o trabalho dom&#233;stico, o emocional, e tamb&#233;m o de cuidado. &#201; o que dizem.<br><br>Voltando ao texto de ontem, confesso ter ficado at&#233; um pouco envergonhada depois da publica&#231;&#227;o. Se eu ainda estou para conhecer os tais unic&#243;rnios, j&#225; perdi as contas de quantos homens conheci que fazem <em>uns e outros</em> parecerem um pr&#237;ncipe encantado. <br><br>&#201; absolutamente padr&#227;o nos relacionamentos heterossexuais as mulheres gerenciarem tudo. Alguns homens pensam estar sendo suuuuuper sol&#237;citos e dizem: &#8220;faz uma lista do que precisa ser feito&#8221;. Em vez de tomarem a responsabilidade para si, eles acabam colocando mais uma tarefa na nossa conta. Qu&#227;o revolucion&#225;rio seria se eles simplesmente olhassem em volta?<br><br>Sem querer comparar com quest&#245;es mais graves e urgentes, como viol&#234;ncia dom&#233;stica ou sexual, o impacto dessa carga na nossa sa&#250;de f&#237;sica, mental e emocional tende a ser devastador. <br><br>No meu caso, sobrava pouca energia mental para cuidar dos meus interesses. Erro meu, sem d&#250;vida, em priorizar o bem-estar do outro antes do meu (mas a&#237; temos muitos traumas a resolver, e toda uma socializa&#231;&#227;o para desconstruir). <br><br>Em fam&#237;lias com filhos, sequer consigo imaginar a que hora do dia a mulher tem algum respiro para bater papo com as amigas, ler um livro, tomar um banh&#227;o daqueles beeem demorados. <br><br>E a&#237; tudo passa a girar em torno do outro, da casa, da maternidade. A mulher vai diminuindo, desaparecendo, e em algum momento j&#225; nem sabe mais quem ela verdadeiramente &#233; fora daquela din&#226;mica. <br><br>Sem sabermos quem somos, como saber o que desejamos? Como vislumbrar uma outra vida, se n&#227;o h&#225; espa&#231;o para sonhar?<br><br>Repito: que bom que agora temos um nome, que bom que j&#225; n&#227;o achamos mais natural sermos as respons&#225;veis por tudo. </p><p>Mas, sejamos honestas: estamos fazendo algo al&#233;m de simplesmente reconhecer o problema? <br><br><br><br></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://allthings.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading All Things Considered! 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Tamb&#233;m n&#227;o consigo dizer quando percebi e se, ao me dar conta, achei que devia continuar, que era "da vida", que &#233; "o que todo mundo faz".<br><br>S&#243; sei que continuei, por anos, a viver de um jeito que n&#227;o era meu. <br><br>Logo eu, que antes dele s&#243; fazia o que desejava, viajava sozinha, tomava decis&#245;es impulsivas em busca de prazer, experimentava o mundo, olhava para tudo com curiosidade constante. <br><br>Tento buscar na mem&#243;ria quando foi que tudo mudou. Logo no in&#237;cio, ainda andei descal&#231;a pelas ruas de Copenhagen, vestida de noiva, quando meu salto quebrou. E dancei, abra&#231;ada a ele, a m&#250;sica que cant&#225;vamos um para o outro. <br><br>Viajamos sem rumo, entramos em um pa&#237;s s&#243; para ele ter mais um carimbo no passaporte (e eu, uma multa por excesso de velocidade) e, finalmente, tive a coragem de, com ele, realizar o maior sonho da minha vida: mudar para Londres. <br><br>Eu me sentia invenc&#237;vel. Via nos olhos dele a admira&#231;&#227;o, e jamais, nem por mil&#233;simo de segundo, aqueles olhos me demonstravam reprova&#231;&#227;o por decidir andar descal&#231;a (coisa pequena) ou por ter vivido sexualmente livre (coisa grande). Eu podia, finalmente, ser eu. <br><br>Mas a vida real ficou real r&#225;pido demais. Diziam ser f&#225;cil conseguir emprego; pelo menos a l&#237;ngua eu falava, ao contr&#225;rio dos meus dois anos anteriores na Alemanha. Talvez j&#225; tivesse esquecido dos meus tempos no Brasil, onde recebi incont&#225;veis negativas desde as minhas primeiras buscas por est&#225;gio, mesmo estudando em universidades de renome. <br><br>Eu s&#243; queria pagar as contas do apartamento microsc&#243;pico naquele bairro horr&#237;vel. Via os avisos nas vitrines "we are hiring", entregava o curr&#237;culo, ningu&#233;m me chamava. Lembro-me claramente de um take away desses t&#237;picos da Inglaterra. Um balc&#227;o, uns peda&#231;os de peixe empanado na estufa, o card&#225;pio na parede oferecendo o famoso fish &amp; chips. N&#227;o havia mesas. Era p&#225;-pum: pede, paga, pega, vaza. Nunca me retornaram.<br><br>Os dias ficaram longos e solit&#225;rios. As noites, mais dif&#237;ceis ainda, quando ele come&#231;ou a trabalhar longe e voltava quando j&#225; n&#227;o havia metr&#244;, dependendo de um &#244;nibus demorado e irregular. Pelo menos era o que eu, ent&#227;o, imaginava estar acontecendo (e um dia falo sobre isso novamente; s&#243; n&#227;o &#233; o ponto desse texto).<br><br>Foram meses at&#233; conseguir emprego e, finalmente, nos mudarmos para um lugar onde achei que seria feliz. A autoestima j&#225; estava quebrada, e as d&#250;vidas sobre as decis&#245;es tomadas me assombravam, mas de alguma maneira eu ainda encontrava for&#231;as para tentar mostrar a ele por que Londres havia sido meu sonho por duas d&#233;cadas. <br><br>&#201;ramos de mundos diferentes e eu, com uma certa arrog&#226;ncia de quem acha que sabe de tudo, tinha certeza de que ele s&#243; precisaria experimentar. Ir a um museu, comer algo diferente, aprender um pouco de hist&#243;ria. Ele veria o mundo com os meus olhos. </p><p><br>Ele n&#227;o se interessava. Reclamava de cansa&#231;o. Queria jogar videogame. Ficar trancafiado em casa. <br><br>E eu, ent&#227;o, que antes tinha sido t&#227;o independente, fui me trancafiando tamb&#233;m. Tinha passado por uma dor emocional dilacerante, e n&#227;o havia me recuperado. O dinheiro continuava curto, muito curto, e eu n&#227;o me sentia confort&#225;vel em gast&#225;-lo sozinha em restaurantes, viagens ou uma simples ida &#224; esquina. <br><br>Todos os meus esfor&#231;os giravam em torno de faz&#234;-lo feliz. Afinal, tinha sido eu a traz&#234;-lo para c&#225;. Eu <strong>precisava</strong> mostrar para ele que era poss&#237;vel ter uma vida bacana aqui. Eu me sentia respons&#225;vel, como se a felicidade dele fosse minha obriga&#231;&#227;o. Ele, que n&#227;o fazia qualquer movimento para se achar no mundo. <br><br>Ele, que h&#225; muito j&#225; n&#227;o tentava retribuir o cuidado que recebia. <br><br>Passei a analisar minuciosamente o card&#225;pio de cada restaurante a que pretend&#237;amos ir. Fiquei tensa todas as vezes em que o hamb&#250;rguer chegava &#224; mesa. Teria a cozinha tirado todos os molhos, a cebola, o picles? Ser&#225; que o catchup tocou na batata frita? <br><br>E foi assim que passei anos sem ir a um restaurante chin&#234;s. Tailandeses, fui a alguns, mas com colegas de trabalho. Viagens? Fizemos algumas &#243;timas, mas quase sempre &#224; praia, pois de nada adiantaria escolher uma cidade onde poder&#237;amos visitar museus ou lugares hist&#243;ricos. Isso <em>me</em> faria feliz, mas meu foco era a felicidade <em>dele</em>.<br><br>Eu fui diminuindo meu mundo para caber no dele. Eu, que sa&#237; do Brasil para expandir minha vis&#227;o, para conhecer outras culturas, para saciar aquela curiosidade que j&#225; nem sei por onde anda. <br><br>Eu me apequenei. <br><br>Deixei de falar com estranhos na rua porque s&#243; no olhar dele, eu j&#225; sentia o julgamento. Aqueles mesmos olhos que demonstravam tanta admira&#231;&#227;o por eu conseguir me virar em qualquer situa&#231;&#227;o, passaram a assinalar reprova&#231;&#227;o. &#192;s vezes, a boca acompanhava: &#8220;intrometida&#8220;, &#8220;fala demais&#8220;, &#8220;deixa os outros em paz&#8220;. <br><br>Mas eram essas intera&#231;&#245;es que outrora alimentavam minha criatividade, me faziam querer escrever a respeito, me traziam amizades intensas e inesquec&#237;veis mesmo que s&#243; durassem um par de horas. <br><br>E eu n&#227;o o culpo, pelo menos n&#227;o totalmente. Eu j&#225; era uma mulher adulta e, ali&#225;s, mais velha do que ele. Por isso questionei no in&#237;cio desse texto, que agora j&#225; vira novela, se eu s&#243; estava repetindo um comportamento padr&#227;o do casamento heterossexual no patriarcado. A mulher vira a sombra, a figura invis&#237;vel que carrega toda a carga mental do cuidado com a casa e com o relacionamento, a pessoa que segue, que se adapta, que, como eu o fiz, se anula. <br><br>Eu fui criada nessa sociedade. Eu vi isso acontecer dentro da minha pr&#243;pria casa no relacionamento dos meus pais. Eu li as revistas femininas que continuaram pregando a submiss&#227;o, ainda que mais light. Eu acompanhei - e acompanho - discuss&#245;es online em que mulheres s&#227;o consideradas culpadas por tudo, e quase nunca celebradas. <br><br>Eu n&#227;o consegui escapar, mesmo tendo feito an&#225;lise, lido tantos livros, participado de palestras feministas. Eu repeti um padr&#227;o. <br><br>Mas eu tamb&#233;m vi minha m&#227;e sair de um casamento fracassado em uma &#233;poca em que mulheres divorciadas eram consideradas perigosas. Os tais livros est&#227;o fisicamente comigo aqui, empoeirados, e o que aprendi com eles vai voltar &#224; superf&#237;cie quando eu finalmente me libertar dessa culpa por ele n&#227;o ter sido feliz (responsabilidade que nunca foi minha, ali&#225;s). Tenho um par de amigas com quem ainda posso desabafar. <br><br>E, por mais que uma parte de mim ainda se sinta muito respons&#225;vel pelo &#8220;fracasso&#8221; e tenha muita dificuldade de seguir em frente, h&#225; um m&#234;s eu tive um breve reencontro com aquela mulher curiosa e falante. Era sobre isso que eu queria ter escrito agora, mas a minha mente preferiu colocar alguns pingos nos is antes de chegarmos l&#225; (<em>ah, e como h&#225; is ainda sem pingos nessa hist&#243;ria toda&#8230;</em>). <br><br>Aquela mulher curiosa e falante costumava escrever. Ela podia at&#233; se sentir inadequada, mas era corajosa para se expressar livremente, e forte o suficiente para aguentar - ainda que &#224;s vezes com uma certa dor - a reprova&#231;&#227;o que sempre viria de algum lugar. <br><br>A mulher de ontem ficava paralisada com a reprova&#231;&#227;o que vinha do olhar que antes lhe trouxera tanto conforto.<br><br>Eu espero que a mulher de hoje, que conseguiu sentar na frente do computador para escrever, se reconecte com aquela do passado, se reabra para o mundo, se reconhe&#231;a inteira. E que, pelo menos dessa vez, ela n&#227;o seja t&#227;o dura com a vers&#227;o de si que, por anos, n&#227;o conseguiu desabrochar. </p><p><br><br></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://allthings.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading All Things Considered! 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Descobri tardiamente essa deusa - como assim ela j&#225; existe nesse mundo h&#225; trinta anos e s&#243; agora entrou na minha vida?</p><p>Ela chegou chegando com um v&#237;deo que assisto com uma frequ&#234;ncia que seria dif&#237;cil de admitir se eu tivesse alguma vergonha na cara, mas como n&#227;o tenho, confesso: passa do limite do razo&#225;vel.<br></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!tkaT!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F963e7cc7-9b4a-451d-9a1e-d94a7fcf7bcd_1125x1762.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!tkaT!, /__u/allthings.substack.com/w_424, /__u/allthings.substack.com/c_limit, /__u/allthings.substack.com/f_webp, 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Fa&#231;a-se um grande favor e <a href="https://www.instagram.com/reel/CZsI1PVDANN/?utm_source=ig_web_copy_link">v&#225; ali assistir essa preciosidade</a></figcaption></figure></div><p><br>Sem d&#250;vida nenhuma eu poderia fazer um post inteiro sobre os motivos pelos quais algu&#233;m <em><strong>precisa</strong></em> ser f&#227; da Aline; eu, por exemplo, quero ser amiga dela, ou ter 10% da sensualidade dela, ou at&#233; mesmo ser ela daqui a tr&#234;s vidas. Por enquanto, estou considerando seriamente fazer uma assinatura para assistir as aulas de dan&#231;a, apesar de ser cosplay de Coisinha de Jesus, com um b&#244;nus de um tornozelo ferrado. <br><br>Mas, claro, n&#227;o &#233; esse o intuito do post. Eu me divirto vendo os stories da Aline, amo acompanhar a vida dela, e normalmente rola uma vibe muito pra cima - totalmente diferente do conte&#250;do que geralmente consumo (e que j&#225; produzi na vida). <br><br>At&#233; que, h&#225; uns dez dias, ela fez uma s&#233;rie de postagens sobre como estava enfrentando dificuldades em lidar com o ass&#233;dio que agora sofre online. Segundo a dan&#231;arina, antes sua audi&#234;ncia era basicamente de mulheres, e ela se sentia mais livre. Repetindo: <strong>entre mulheres, ela se sentia mais livre.</strong></p><p>Isso deveria ficar em replay na nossa cabe&#231;a tanto quanto os v&#237;deos da Aline. </p><p>Eu demorei muito a me dar conta de que &#233; com mulheres que quero estar. Sempre passei longe da grande parte dos estere&#243;tipos de feminilidade. Adolescente, me orgulhava, at&#233;, de ter mais amigos homens do que mulheres. Dizia me identificar mais com eles. Repetia bord&#245;es sobre a <em>fraqueza </em>feminina. Eu efetivamente me afastava de qualquer coisa dita &#8220;de mulher&#8221; por medo de parecer rid&#237;cula. <br><br>Boba, duas vezes. Primeiro, por n&#227;o ter me deixado viver as coisas usuais para meu grupo e minha idade. E, segundo e mais importante, por ter acreditado que aquelas coisas, como maquiagem, salto alto ou vestido, eram <em>o que</em> me fariam mulher. <br><br>Burra, por acreditar piamente que, me afastando da mulheridade, eu estaria sendo <em>melhor*</em>. </p><p>Foi s&#243; j&#225; muito adulta, depois daquele blog l&#225;, que eu consegui perceber qu&#227;o imprescind&#237;veis as mulheres s&#227;o na minha vida. Foram elas que me apoiaram, me deram for&#231;a e me aconselharam - exatamente o mesmo feedback que Aline diz ter recebido ap&#243;s a postagem. </p><p>&#201; como se fosse uma revela&#231;&#227;o. Diante de obst&#225;culos importantes e sensa&#231;&#227;o aterrorizante de solid&#227;o, conseguimos ver &#224; nossa volta outras incont&#225;veis mulheres nos estendendo a m&#227;o, por solidariedade e, infelizmente, por conhecerem bem o mesmo caminho. </p><p>Seja o olhar c&#250;mplice trocado com uma total estranha quando a gente percebe que a menstrua&#231;&#227;o veio antes da hora, seja o bra&#231;o da amiga nos acompanhando em uma delegacia ao denunciar viol&#234;ncia, s&#227;o <strong>elas</strong> que est&#227;o ali. <br><br>Sofremos uma lavagem cerebral muito bem orquestrada para nos enxergarmos mutuamente como inimigas, como rivais, como advers&#225;rias. Pat&#233;tico: ainda nos colocam em guerra, batalhando por&#8230; homens. Homens! Podem imaginar absurdo maior?<br><br>E, assim, separadas, n&#227;o conversamos, e nos tornamos incapazes de perceber que as viol&#234;ncias que sofremos n&#227;o s&#227;o &#250;nicas. Que, na verdade, s&#227;o tristemente corriqueiras e fazem parte de uma estrutura firmemente arquitetada para nos manter em posi&#231;&#227;o de subjuga&#231;&#227;o. De <em>fraqueza</em>, bem como eu achava aos 14 anos. </p><p>Por isso, louvo os stories da Aline e de tantas outras mulheres que abrem o jogo e exp&#245;em o que elas, naquele momento, creem ser uma vulnerabilidade. N&#227;o o &#233;: ao fazerem isso, elas desnudam a cruel realidade da vida de uma mulher. De qualquer mulher, obviamente levando em considera&#231;&#227;o determinados marcadores sociais. </p><p>Mas mesmo que coloquemos de lado o que temos de diferente&#8230; afinal, como poderia eu, aqui de Londres, aos 42 anos, entender o que uma mulher bem mais jovem, moradora do Vidigal, exercendo outra profiss&#227;o totalmente diversa, est&#225; falando?</p><p>Eu entendo porque tamb&#233;m sou mulher. E, como tal, sofri e sofrerei diversas viol&#234;ncias em virtude disso. Por outro lado, hoje j&#225; sei que s&#227;o outras mulheres que estar&#227;o ao meu lado quando eu precisar. Espero que Aline tamb&#233;m j&#225; saiba disso. </p><p>O que eu n&#227;o sei &#233; se a Aline vai conseguir dar um jeito no meu n&#227;o-requebrado. Vamos ser honestas&#8230; provavelmente, n&#227;o. Mas ela trouxe de novo &#224; tona um sentimento que est&#225; sempre ali &#224; espreita, o da sororidade e de luta. E, no meu mundo de faz-de-conta, n&#243;s j&#225; somos amigas, mulheres que somos.<br></p><p></p><p><em>*Tem muito, mas muito mesmo que eu poderia falar sobre isso, por&#233;m n&#227;o &#233; o ponto do post. N&#227;o desse, ao menos.</em></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Como se quebrada]]></title><description><![CDATA[Antes de tudo: j&#225; leu minha reportagem na CLAUDIA de maio?]]></description><link>https://allthings.substack.com/p/como-se-quebrada</link><guid isPermaLink="false">https://allthings.substack.com/p/como-se-quebrada</guid><dc:creator><![CDATA[Nadia Lapa]]></dc:creator><pubDate>Thu, 24 Jun 2021 14:24:41 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!xvRd!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8211c4b9-83d8-44bf-81f5-9a166f3637a6_256x256.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Antes de tudo: j&#225; leu minha reportagem na CLAUDIA de maio? <br><br>A pandemia aparece como grande vil&#227; no aumento do n&#250;mero de separa&#231;&#245;es, mas talvez o problema seja outro. <a href="https://claudia.abril.com.br/amor-e-sexo/pandemia-casais-divorcio/">Clica aqui para ler mais. </a></p><div><hr></div><p><em>Na &#250;ltima postagem eu comecei a contar como foi minha vinda para Londres. A inten&#231;&#227;o era continuar mas a vida deu aquela famosa atropelada. Por um &#244;nibus de dois andares, para ser tem&#225;tico. Um dia eu retomo o fio.</em></p><div><hr></div><p>Ontem eu comecei uma terapia focada em um problema que resolveu surgir sorrateiramente no &#250;ltimo ano (&#244; ano prop&#237;cio para desgra&#231;ar totalmente a sa&#250;de mental!). <br><br>J&#225; t&#244; nessa vida de terapia h&#225; um tempo, e conhe&#231;o o esquema: primeira sess&#227;o, hora de desencavar v&#225;rias coisas, dando um pequeno resumo de tudo o que te levou at&#233; ali. Achei engra&#231;ado quando a terapeuta disse para eu ir no meu tempo, que era dif&#237;cil falar de si mesma. Tamb&#233;m estou na vida de oversharing h&#225; muito tempo, <em>dot&#244;ra</em>, tem at&#233; um livro contando mil coisas que jamais deveria ter compartilhado.</p><p>Em pouco mais de uma hora, voltamos no tempo. Primeiro, falando sobre a quest&#227;o do momento*, e navegando pelo tempo at&#233; a minha inf&#226;ncia. Quando a gente tenta pontuar os epis&#243;dios que julgamos mais relevantes (perda da minha irm&#227;, mudan&#231;as de casa, conflitos familiares, cora&#231;&#245;es partidos) em um curto intervalo, n&#227;o h&#225; como n&#227;o se sentir devastada. </p><p>As palavras saem com facilidade para mim, mas obviamente elas est&#227;o acompanhadas de emo&#231;&#227;o, dor, e saudade. Tive de trabalhar logo depois da sess&#227;o, e consegui manter o ritmo sem pensar muito a respeito. <br><br>Mas ela me avisou: &#8220;talvez nos pr&#243;ximos dias voc&#234; se sinta um pouco mal&#8221;.<em> Touch&#233;</em>. Hoje parece que um caminh&#227;o passou por cima de mim. Tentei cuidar do jardim, tentei comer comida gostosa, tentei programar algumas coisas divertidas. O que est&#225; dentro de mim, todavia, &#233; apenas ang&#250;stia pelo que j&#225; vivi, e n&#227;o tenho o poder de mudar.</p><p>H&#225; quest&#245;es do passado marcadas indelevelmente em mim, e eu segui apesar de. Constru&#237; coisas (destru&#237; outras, sejamos honestas), e n&#227;o me deixo comandar por tais percal&#231;os. Em outra ocasi&#227;o, ao mencionar tais acontecimentos para a psicanalista, ela mandou um &#8220;putaquepariu, voc&#234; n&#227;o merecia passar por isso, eu sinto muito&#8221; ap&#243;s o t&#233;rmino da sess&#227;o. Ela, sempre classuda e com ar distante, mudou o discurso. Ali, eu precisava de apoio. </p><p>Ao compartilhar a mesma hist&#243;ria ontem, a terapeuta me chamou de &#8220;resiliente&#8221;, adjetivo que escuto muito a meu respeito. Concordo, mas gostaria de juntar a isso o adjetivo &#8220;gentil consigo mesma&#8221;. Pois eu n&#227;o o sou, e acredito que grande parte das mulheres tamb&#233;m n&#227;o o &#233;.</p><p>Estou o tempo todo cobrando demais de mim mesma, me sentindo diminu&#237;da pelas circunst&#226;ncias, n&#227;o apenas n&#227;o confiando no meu taco como colocando fogo nele. N&#227;o se trata de buscar a perfei&#231;&#227;o, n&#227;&#227;&#227;&#227;o, &#233; de fato se enxergar deveras imperfeita, como se quebrada, como se sem solu&#231;&#227;o. <strong>Como se precisasse de solu&#231;&#227;o. </strong></p><p>Eu sou eu, uma mulher de 41 anos que j&#225; passou por bastante coisa e que carrega uma bagagem pesada, mas nada disso me faz menor. Bonito o discurso, pouco colocado em pr&#225;tica. </p><p>Gostaria de terminar esse texto dizendo como superei as adversidades e depois escrever mil elogios a mim mesma. Mas simplesmente n&#227;o consigo. Me acho uma mulher ordin&#225;ria, comum, e deveria estar tudo bem ser assim, n&#227;o? </p><p>Pois&#8230; n&#227;o. </p><p>Quando adolescente, li em uma revista feminina um conselho jamais esquecido: &#8220;nunca fale para si mesma o que voc&#234; n&#227;o diria para sua melhor amiga&#8221;. Volta e meia lembro disso; parece uma frase boba, juvenil (se n&#227;o me engano, li na Capricho ou na Nova - <em>toma essa, gera&#231;&#227;o X!</em>), por&#233;m acho que faz todo sentido. </p><p>Eu falo muito para mim coisas que n&#227;o diria nem a inimigas, se as tivesse. Olho para mim e enxergo uma mulher t&#227;o, t&#227;o cheia de defeitos, que fica dif&#237;cil seguir em frente &#224;s vezes, se jogar em oportunidades, buscar melhorias, pois o pensamento de inadequa&#231;&#227;o esperneia dentro de mim. </p><p>N&#227;o vou prometer parar com isso. Prometo tentar. Por enquanto, o elogio a mim &#233;: sou resiliente. Um dia, talvez, eu consiga acrescentar algum a mais. </p><p></p><p><em>*um dia eu falo qual &#233; o problema me atormentando agora. preciso primeiro entender melhor. </em><br><br></p><p><br></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Uma brasileira vivendo em Londres]]></title><description><![CDATA[A melhor decis&#227;o da minha vida tamb&#233;m veio cheia de desafios e muita, muita inseguran&#231;a]]></description><link>https://allthings.substack.com/p/uma-brasileira-vivendo-em-londres</link><guid isPermaLink="false">https://allthings.substack.com/p/uma-brasileira-vivendo-em-londres</guid><dc:creator><![CDATA[Nadia Lapa]]></dc:creator><pubDate>Fri, 26 Feb 2021 11:26:32 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!bkJp!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3ac7dbb3-72de-48fc-932f-86c4a224e9dc_720x458.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Vim para Londres pela primeira vez em 1999. Apaixonada pela cidade, decidi que moraria aqui. Na &#233;poca, eu estava no meio da faculdade de direito, n&#227;o tinha dinheiro para essa mudan&#231;a e, verdade seja dita, me faltava coragem.</p><p></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!bkJp!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3ac7dbb3-72de-48fc-932f-86c4a224e9dc_720x458.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!bkJp!, /__u/allthings.substack.com/w_424, /__u/allthings.substack.com/c_limit, /__u/allthings.substack.com/f_webp, /__u/allthings.substack.com/q_auto:good, /__u/allthings.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3ac7dbb3-72de-48fc-932f-86c4a224e9dc_720x458.jpeg 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aqui, me questionando como teria sido minha vida caso tivesse jogado tudo pro alto e vindo. Consegui revisitar a cidade um par de vezes muitos anos mais tarde, e o encantamento permanecia o mesmo. Quando tirei o passaporte europeu, deveria ser &#243;bvio o pr&#243;ximo passo.<br><br>Mas, como diriam alguns, existe o desejo de ter um desejo insatisfeito. Se finalmente eu conseguisse vir, o sonho se realizaria&#8230; e ent&#227;o, com o qu&#234; eu sonharia agora? Mais ainda: e se tudo desse errado? Teria eu passado literalmente duas d&#233;cadas condicionando a minha felicidade a essa mudan&#231;a, quando na verdade ela nem traria qualquer satisfa&#231;&#227;o?<br><br>Fiz o que toda pessoa que n&#227;o quer se deparar com a realidade faria &#8212; me mudei para Berlim! Sim, foi necess&#225;ria uma puta conex&#227;o em outro pa&#237;s, onde falam uma l&#237;ngua que n&#227;o fui capaz de aprender, antes de eu dar o salto. </p><p>Eventualmente, dei (o salto, ok?). Em 8 de abril de 2019, pousei em Stansted, a uma hora de Londres. Tentei organizar o m&#225;ximo minha vida antes de chegar. Eu j&#225; estava procurando emprego, aluguei um apartamento, cuidei de todos os detalhes burocr&#225;ticos para estabelecer resid&#234;ncia antes do Brexit. Sabia como me registrar no NHS (o SUS daqui), quais documentos deveria tirar, como pegar o transporte p&#250;blico. E, al&#237;vio, conseguia entender o que as pessoas falam e, <em>n&#227;o somente isso!!!</em>, eu conseguia efetivamente conversar com as pessoas. </p><p></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!FukG!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb95433a1-cfd9-4ea7-8bce-cd69b688cb71_640x1080.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!FukG!, /__u/allthings.substack.com/w_424, /__u/allthings.substack.com/c_limit, /__u/allthings.substack.com/f_webp, /__u/allthings.substack.com/q_auto:good, /__u/allthings.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb95433a1-cfd9-4ea7-8bce-cd69b688cb71_640x1080.jpeg 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Por&#233;m, nada na vida est&#225; sob nosso controle, e o &#250;ltimo ano esfregou isso na nossa cara de forma um pouco bruta. <br><br>Logo na chegada, o apartamento ainda n&#227;o estava pronto. Ainda precisavam montar os m&#243;veis e havia gente ainda instalando a cozinha. Era min&#250;sculo, mas muito maior e, receio dizer, melhor do que o que muitos brasileiros conseguem logo ao chegar (e falarei mais sobre isso outro dia). Quarto, sala, cozinha, banheiro com banheira e pia, e mais um c&#244;modo onde ficava o sanit&#225;rio. &#201;, isso &#233; bizarro, mas super comum por aqui. </p><p>Aluguei com um brasileiro (erro de novata), e hoje sei que fui engabelada, pois a pocilga n&#227;o valia o que cobravam &#8212; mil e duzentas libras por m&#234;s. Como geralmente voc&#234; precisa de um hist&#243;rico de cr&#233;dito para alugar im&#243;vel aqui, o que eu e 99,9% dos imigrantes n&#227;o t&#234;m logo de cara, muitos conterr&#226;neos se aproveitam da nossa fragilidade e fazem muita grana em cima. </p><p>Mas eu n&#227;o ia deixar isso me abalar, n&#233;?! Arrumei o ap&#234; o mais bonitinho poss&#237;vel, e logo, logo, eu arranjaria um emprego e conseguiria me mudar. Por&#233;m, n&#227;o. Na verdade, apesar de falar um bom ingl&#234;s, eu n&#227;o era sequer chamada para entrevistas. <br><br>Tentei de tudo. Empregos &#8220;de escrit&#243;rio&#8221; e como atendente de fast-food. Gar&#231;onete. Ajudante de gar&#231;onete. Mudei meu curr&#237;culo. Deixei mais simples. Teria sido a idade? Ou s&#243; m&#225; sorte, mesmo? <br><br>Eu via outros imigrantes conseguindo trampo com muita rapidez. Isso foi pr&#233;-pandemia, a cidade lotaaaaada de turistas, restaurantes cheios, vagas de emprego abundantes. E eu? Nem um telefonema, convite para entrevista, nada. <br><br>E sozinha eu ficava no microapartamento, num calor do dem&#244;nio, reconsiderando todas as escolhas tomadas, sendo consumida pelo medo de ter errado. Enquanto entrava em parafuso, vi um trocinho escuro correndo pelo ch&#227;o da sala.<br><br>Um rato.<br><br>O sonho oficialmente se tornara pesadelo.<br></p><div><hr></div><p>Voc&#234; pode comentar esse post no pr&#243;prio site e no bot&#227;o abaixo mas, se quiser falar comigo diretamente, basta responder ao e-mail. :)<br><br>Como esta &#233; uma iniciativa nova, eu agrade&#231;o muito qualquer feedback, dica, sugest&#227;o. </p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://allthings.substack.com/p/uma-brasileira-vivendo-em-londres/comments&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Leave a comment&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/allthings.substack.com/p/uma-brasileira-vivendo-em-londres/comments"><span>Leave a comment</span></a></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Tempo perdido]]></title><description><![CDATA[Coment&#225;rio: Recebi algumas mensagens sobre o post e quero esclarecer uns pontos.]]></description><link>https://allthings.substack.com/p/tempo-perdido</link><guid isPermaLink="false">https://allthings.substack.com/p/tempo-perdido</guid><dc:creator><![CDATA[Nadia Lapa]]></dc:creator><pubDate>Sun, 21 Feb 2021 22:46:49 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!xvRd!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8211c4b9-83d8-44bf-81f5-9a166f3637a6_256x256.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><br><br><strong>Coment&#225;rio: </strong><em>Recebi algumas mensagens sobre o post e quero esclarecer uns pontos. Eu acredito que todo mundo deve, de vez em quando, fazer auto-avalia&#231;&#333;es. Isso n&#227;o significa se culpar; evidentemente &#233; mais f&#225;cil falar do que fazer. <br>Ver as mensagens antigas me deixou encafifada mas achei produtivo. Tenho absoluta certeza de que n&#227;o quero envolvimento em determinadas quest&#333;es na internet, mas, mais ainda, me fez lembrar que o que &#224;s vezes parece o fim do mundo&#8230; n&#227;o t&#234;m a menor import&#226;ncia depois que o tempo passa. <br><br>(de quebra, ainda achei UM MONTE de foto do Eddie, o cachorro mais gostoso que existiu na face da terra.)<br><br></em><br>****<br><br>Nos &#250;ltimos dias andei mexendo em cart&#333;es de mem&#243;ria e computadores antigos. Quis fazer a famosa &#8220;limpa&#8221;. Por um lado, tem sido &#243;timo &#8212; as fotos de viagem e de c&#233;u azul me deram um certo &#226;nimo, uma esperan&#231;a boba de que isso tudo vai passar. O inverno, felizmente, j&#225; d&#225; sinais de despedida.</p><p>Por&#233;m eu tamb&#233;m me deparei com uma N&#225;dia que n&#227;o lembrava ter existido. Tenho o h&#225;bito de salvar conversas e tirar print screen de muitas coisas, sejam elas importantes ou apenas indica&#231;&#227;o de um restaurante in-cr&#237;-vel que obviamente esquecerei de visitar. </p><p>Houve um per&#237;odo da minha vida em que certos coment&#225;rios na internet me moviam demais. Sentia raiva, frustra&#231;&#227;o, medo. Tive brigas hom&#233;ricas e absolutamente infrut&#237;feras com pessoas cujo paradeiro hoje desconhe&#231;o. Sequer lembrava o nome delas; os prints salvos, por&#233;m, falam muito mais sobre mim do que eu gostaria de aceitar.</p><p>Acredito ser comum logo que se mergulha em quest&#333;es feministas querer GRITAR com todo mundo para tentar ser ouvida. Hoje, vejo pequenos v&#237;deos do BBB, e n&#227;o consigo deixar de me reconhecer, um pouquinho, em certas &#8220;falas&#8221;. A lacra&#231;&#227;o, a resposta na ponta da l&#237;ngua, o falar dif&#237;cil para mostrar erudi&#231;&#227;o. <br><br>Quanta bobagem.<br>Quanto tempo perdido.<br>Quanta arrog&#226;ncia de se achar revolucion&#225;ria atr&#225;s de um teclado. </p><p>H&#225; muito reconheci quanta energia gastei com o que n&#227;o valia. Todas aquelas brigas tiveram um efeito avassalador sobre a minha vida. Entrei em ciclos de agress&#227;o que me tiravam o sono, acabavam com minha autoestima, me deixavam terrivelmente triste. </p><p>Como consequ&#234;ncia, aquele amargor permeou meus relacionamentos (amorosos, pseudoamorosos, e at&#233; de amizades). Tem print disso tamb&#233;m, &#244;! Ao ver essas imagens, senti vergonha de mim. Eu j&#225; n&#227;o tinha idade para culpar o mundo pelos meus dissabores. O tal blog entrou no ar quando eu tinha 31 anos, j&#225; tinha comido muito p&#227;o amassado pelo diabo e deveria saber como me comportar melhor. </p><p>Mas n&#227;o soube, e sinto os efeitos disso at&#233; hoje. Tenho receio de voltar a escrever, pois n&#227;o sei se algu&#233;m vai tirar algo de contexto, jogar no Twitter, e um um mont&#227;o de gente vai vir me xingar. Aconteceu muito no passado (e n&#227;o sendo apenas o alvo de ataques; ataquei muito tamb&#233;m). </p><p>Finalmente estou dando sentido a tudo o que vivi at&#233; alguns anos atr&#225;s. Esse vai-e-volta de escreve-n&#227;o-escreve, abre Twitter/fecha Twitter, fala sobre a vida mas nem tanto (o que &#233; super ok para algumas pessoas; eu, contudo, sou de explanar mesmo, mas me vejo reticente em faz&#234;-lo por puro medo). </p><p>Ainda n&#227;o sei direito qual caminho estou seguindo. Sei, com certeza, que minha milit&#226;ncia (sic) jamais ser&#225; apenas pela internet de novo. Quanto &#224;s consequ&#234;ncias na minha vida privada&#8230; ah, isso eu ainda preciso registrar para mim mesma qu&#227;o bizarramente eu me comportei no passado. Os prints v&#227;o me assombrar por algum tempo, ainda. <br><br>Por enquanto, vou deletando um a um, lendo antes de faz&#234;-lo, para que eu consiga processar tudo. Deve ser necess&#225;rio, sei l&#225;, n&#227;o se culpar tanto pelos erros do passado. Um dia chego l&#225;. </p><div><hr></div><h2>Modo de usar essa newsletter</h2><p>Acho que n&#227;o ficou claro para todo mundo, ent&#227;o vamos l&#225;:</p><ul><li><p>Voc&#234; vai receber a newsletter na sua caixa de email toda vez que eu publicar um texto novo;</p></li><li><p>N&#227;o conseguiu achar? Seus problemas acabaram: elas ficam online no <a href="/__u/allthings.substack.com/">site </a>tamb&#233;m;</p></li><li><p>Talvez ela esteja caindo na sua aba &#8220;promo&#231;&#333;es&#8221; ou &#8220;social&#8221;;</p></li><li><p>Para falar comigo, basta dar um reply no email em que voc&#234; recebeu a newsletter. No site, tamb&#233;m d&#225; para comentar e compartilhar.</p><div><hr></div><h2>Redes sociais</h2><p>Eu estou atualizando o <a href="https://www.instagram.com/nadialapa/">Instagram</a> com alguma frequ&#234;ncia. O <a href="https://twitter.com/nadialapa">Twitter</a>, menos. Mas pretendo voltar a ser mais ativa. Minha @ &#233; sempre nadialapa. <br><br><br><br></p></li></ul><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Por onde andei]]></title><description><![CDATA[E agora voltei...]]></description><link>https://allthings.substack.com/p/por-onde-andei</link><guid isPermaLink="false">https://allthings.substack.com/p/por-onde-andei</guid><dc:creator><![CDATA[Nadia Lapa]]></dc:creator><pubDate>Sun, 14 Feb 2021 15:55:44 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!viFf!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F961b9aa5-bd92-45cb-9d52-277c117c51f0_2000x1600.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Esse m&#234;s fazem exatos dez anos que comecei aquele blog que mudou irremediavelmente a minha vida. Incont&#225;veis foram as vezes em que me perguntei se tinha sido, afinal, uma boa id&#233;ia t&#234;-lo come&#231;ado &#8212; e t&#234;-lo abandonado. </p><p>Jamais chegarei a nenhuma conclus&#227;o pois, como quase tudo na vida, &#233; dif&#237;cil descobrir a verdade absoluta quando h&#225; tanta emo&#231;&#227;o em jogo. Pelas coisas que escrevi, sofri bullying, me questionei demais sobre minha pr&#243;pria sexualidade, briguei com pessoas que amo muito. </p><p>Por outro lado, tive apoio imensur&#225;vel de estranhos, conheci amigas incr&#237;veis, e me engajei em quest&#333;es sobre mulheridade que mudaram minha vida. </p><p>Tanta coisa em t&#227;o pouco tempo, junto com as coisas cotidianas que acontecem longe da tela de um computador, me assoberbaram e eu quis sumir. E o fiz. Arrumei as malas&#8230; e <em>Auf Wiedersehen</em>! </p><p></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!viFf!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F961b9aa5-bd92-45cb-9d52-277c117c51f0_2000x1600.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!viFf!, /__u/allthings.substack.com/w_424, /__u/allthings.substack.com/c_limit, /__u/allthings.substack.com/f_webp, /__u/allthings.substack.com/q_auto:good, /__u/allthings.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F961b9aa5-bd92-45cb-9d52-277c117c51f0_2000x1600.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!viFf!, /__u/allthings.substack.com/w_848, 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&#8216;tchau&#8217;). Casei. Mudei para Londres. Comecei outra carreira. E a vida gira gira gira e cai no mesmo lugar: hoje fa&#231;o mestrado em jornalismo. </p><p>Cada par&#225;grafo desses d&#225; uma hist&#243;ria, e eu sinto que deixei de registrar tanta coisa bacana dos &#250;ltimos quatro anos. Alguns dos percal&#231;os mudaram minha mente, ou me trouxeram mais certeza de quais temas me s&#227;o caros. </p><p>Agora, tendo que escrever mat&#233;rias para a faculdade, sempre caio em procurar pautas sobre mulheres. &#201; o que faz meu cora&#231;&#227;o bater mais r&#225;pido, e percebi que n&#227;o vejo a hora de voltar. Pois. Voltei. </p><div><hr></div><h2>O que esperar dessa newsletter</h2><p>Eu jamais deixarei de compartilhar mais do que devo sobre minha pr&#243;pria vida. Ent&#227;o pode esperar alguma informa&#231;&#227;o in&#250;til sobre meu dia a dia (e mais sobre isso voc&#234; encontra no meu <a href="https://www.instagram.com/nadialapa/">Instagram</a>). </p><p>Mas o que eu quero mesmo &#233; trazer &#224; discuss&#227;o alguns pontos que me tocam, em especial, obviamente, feminismo. E, agora mais do que nunca, o que &#233; ser uma imigrante amaz&#244;nida. </p><p>Text&#333;es est&#227;o previstos, mas uma vez por semana enviarei diversos links de reportagens e iniciativas bacanas. Quero falar sobre tudo. Vamos conversar?</p><p></p><p></p><p></p>]]></content:encoded></item></channel></rss>