<script data-pm-proxy="intercept"></script><?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Átomo]]></title><description><![CDATA[Átomo é a estrutura básica que forma toda a matéria, mais ou menos como toda palavra estrutura o pensamento dentro da cabeça da gente]]></description><link>https://anacarowlina.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!9S-X!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fec8b3601-2d81-44e2-81a5-31d2f46962a8_266x266.png</url><title>Átomo</title><link>https://anacarowlina.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Thu, 03 Sep 2026 03:59:01 GMT</lastBuildDate><atom:link href="/__u/anacarowlina.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Ana Carolina]]></copyright><language><![CDATA[en]]></language><webMaster><![CDATA[anacarowlina@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[anacarowlina@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Ana Carolina Gomes]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Ana Carolina Gomes]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[anacarowlina@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[anacarowlina@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Ana Carolina Gomes]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[Formas de voltar para casa]]></title><description><![CDATA[Ou por que a Odisseia segue nos comovendo]]></description><link>https://anacarowlina.substack.com/p/formas-de-voltar-para-casa</link><guid isPermaLink="false">https://anacarowlina.substack.com/p/formas-de-voltar-para-casa</guid><dc:creator><![CDATA[Ana Carolina Gomes]]></dc:creator><pubDate>Wed, 22 Jul 2026 23:14:02 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!9S-X!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fec8b3601-2d81-44e2-81a5-31d2f46962a8_266x266.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>H&#225; alguns anos, resolvi ler uma vers&#227;o adaptada da Odisseia com meus alunos de onze anos. Eu era uma professora inexperiente e me pareceu acertado apresentar para as crian&#231;as um dos maiores cl&#225;ssicos da literatura mundial &#8212; e a minha hist&#243;ria favorita. O que eu n&#227;o imaginava era que o livro faria tanto sucesso entre eles: me escutavam de olhos vidrados e faziam &#8220;ahhh&#8221; quando acabava o cap&#237;tulo do dia. Empolgavam-se com os ardis de Odisseu que ludibriava deuses, derrubava gigantes e desafiava o poder do canto das sereias. Queriam ser inteligentes e corajosos como Odisseu. Vibraram, &#225;vidos, no retorno do her&#243;i ap&#243;s vinte anos e provavelmente dois meses de leitura di&#225;ria da professora. Queriam todos os pretendentes mortos. Eu tive medo de receber reclama&#231;&#245;es das fam&#237;lias diante de toda aquela viol&#234;ncia do final, mesmo sendo um texto adaptado pela Ruth Rocha, mas felizmente ningu&#233;m protestou, estavam felizes porque as crian&#231;as iam na biblioteca da escola e brigavam pelos poucos exemplares da Odisseia que encontravam l&#225;. Tr&#234;s mil anos depois, bem longe da Gr&#233;cia, crian&#231;as em uma escola p&#250;blica de um pa&#237;s da Am&#233;rica do Sul sofreram e amaram a jornada desse her&#243;i t&#227;o imperfeito.</p><p>Eu vi a adapta&#231;&#227;o do Nolan para o cinema e gostei muito, como era de se esperar, mas achei o Odisseu do filme bem mais introspectivo e cheio de remorso do que o que eu me lembrava. Isso n&#227;o &#233; um dem&#233;rito, talvez seja uma atualiza&#231;&#227;o, pois na Gr&#233;cia antiga, com outros deuses e sem culpa crist&#227;, os tempos eram radicalmente outros. Tamb&#233;m achei o filme do Nolan muito sombrio e focado na morte, quando a Odisseia &#233; uma grande celebra&#231;&#227;o dos que sobrevivem. &#201; isso o que mais me comove. Nas p&#225;ginas dessa obra que atravessou o tempo &#233; poss&#237;vel encontrar a subst&#226;ncia fundamental da nossa vida. Algo que eu tento capturar chamando de &#8220;alma&#8221;, mas n&#227;o &#233; bem isso. &#201; uma coisa que observamos nas pinturas das cavernas de Chauvet, na Fran&#231;a, datadas de trinta mil anos atr&#225;s (indico muito o document&#225;rio do Herzog sobre isso). Um conjunto de ang&#250;stias, esperan&#231;as e belezas indiscutivelmente humanas que nos conecta, costurando o tempo. </p><p>Costurar o tempo &#233; algo que a Pen&#233;lope faz na Odisseia. Antes de me separar, eu passava longos per&#237;odos sozinha e, sentada &#224; minha mesa de madeira, com seu cora&#231;&#227;o de floresta, lembro de pensar muito na Pen&#233;lope. Um dia eu liguei para o meu ex-marido e expliquei que na vida eu era o Odisseu e n&#227;o a Pen&#233;lope. Que eu nasci para ver o mundo e n&#227;o para ficar na ilha esperando o retorno do her&#243;i. Talvez eu e Christopher Nolan tenhamos subestimado Pen&#233;lope, hoje eu reflito, pois ela, assim como tantas mulheres na Odisseia, &#233; engenhosa e perspicaz; uma hero&#237;na da pr&#243;pria hist&#243;ria. Pen&#233;lope &#233; mais forte que o mais forte dos deuses, o tempo; ela o controla destruindo a noite o que foi tecido de dia. N&#227;o desiste e n&#227;o se acovarda. E &#233; paciente. H&#225; que se admirar quem sabe ser Pen&#233;lope na vida. A maior parte de n&#243;s s&#243; consegue ser Odisseu.</p><p>Tanto no poema como na adapta&#231;&#227;o para o cinema, Odisseu &#233; um her&#243;i fal&#237;vel, vaidoso e chor&#227;o, mesmo que suas virtudes e intelig&#234;ncia sejam capazes de tocar at&#233; as deusas. Torcemos tanto por ele porque tamb&#233;m somos cheios de defeitos e procuramos, desesperadamente, por formas de voltar para casa. Seja essa casa um lugar, uma pessoa ou mesmo uma vers&#227;o de n&#243;s mesmos que deixamos pelo caminho. </p><p>Eu fiquei pensando bastante nisso enquanto via o filme. Eu fui embora da minha cidade natal e h&#225; quase cinco anos n&#227;o a reconhe&#231;o como lar. Hoje minha casa &#233; uma ilha (como a &#205;taca do Odisseu), uma ilha m&#225;gica, criativa e solid&#225;ria, mas eu n&#227;o tenho fam&#237;lia aqui. Meu maior sonho &#233; construir para mim aqui um lar com fogueira acesa, uma fam&#237;lia, mas est&#225; piegas falar sobre isso na internet hoje em dia e eu entendo. A fam&#237;lia burguesa &#233; cringe e tal, mas no fim das contas a gente s&#243; quer ter um cachorro que abana o rabo pra gente antes de morrer depois de nos esperar por vinte anos em uma ilha que n&#227;o &#233; mais a que a gente conheceu, e nem a gente &#233; a mesma pessoa, mas o cachorro nos reconhece, n&#227;o &#233; poss&#237;vel que eu tenha mudado tanto assim, algo de mim n&#227;o se perdeu no tempo. De um jeito ou de outro, estamos sempre buscando uma maneira de retornar a n&#243;s mesmos e talvez a Odisseia seja sobre o que sobra de n&#243;s depois que a vida nos estra&#231;alhou. Ou sobre o quanto ainda resta de coragem para nos vulnerabilizarmos uma vez mais e depois outra e depois outra e depois outra at&#233; vencermos todos os monstros e deuses que governam uma hist&#243;ria para que seja poss&#237;vel, enfim, talvez, com um punhado de sorte ou muita boa vontade, olhar para o horizonte sem remorso e descansar.</p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://anacarowlina.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading &#193;tomo! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A face oculta da lua]]></title><description><![CDATA[Ningu&#233;m perguntou se ela queria se mostrar]]></description><link>https://anacarowlina.substack.com/p/a-face-oculta-da-lua</link><guid isPermaLink="false">https://anacarowlina.substack.com/p/a-face-oculta-da-lua</guid><dc:creator><![CDATA[Ana Carolina Gomes]]></dc:creator><pubDate>Sun, 12 Apr 2026 21:02:54 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!BIS_!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fea72f5ef-86e4-4d1e-9bad-72f7efd8b9af_1280x720.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Estudos sugerem que a Lua existe h&#225; uns 4,5 bilh&#245;es de anos. Nosso sat&#233;lite seria uma esp&#233;cie de filha da Terra, o que eu acho bonito. Foi para longe, quase 400 mil quil&#244;metros de dist&#226;ncia, mas segue olhando por n&#243;s. Tipo uma filha enjeitada que nunca perde completamente o v&#237;nculo com a fam&#237;lia que a expulsou de casa. Antes da exist&#234;ncia de qualquer fagulha de vida no nosso planeta, uma enorme colis&#227;o com outro corpo celeste de propor&#231;&#245;es inimagin&#225;veis teria permitido que esse pedacinho de n&#243;s, esse escombro de n&#243;s e de outras mat&#233;rias do universo, flutuasse pelo espa&#231;o e acabasse ficando por aqui, em nossa &#243;rbita, conferindo previsibilidade &#224;s nossas vidas. Pois alguns bilh&#245;es de anos mais tarde existir&#237;amos n&#243;s, que temos olhos para olhar e amamos a lua. Ela nos olha de volta? </p><p>A lua, la lune, la luna, sempre ela. Uma donzela misteriosa. Movimenta mar&#233;s e emo&#231;&#245;es nas mulheres, seres c&#237;clicos. Quando a lua fica cheia e uma f&#234;mea est&#225; gr&#225;vida, a barriga pesa e o beb&#234; se posiciona para descer. No tar&#244;, a lua &#233; uma carta enigm&#225;tica que fala da nossa intui&#231;&#227;o, mas tamb&#233;m do que nos ilude. Porque a lua nunca se mostra inteira. Se voc&#234; pergunta ao tar&#244; sobre um boy e ele te mostra a carta da lua, humm, fique atenta com esse boy, a&#237; tem coisa. </p><p>Do que eu mais gosto na lua &#233; justamente o mist&#233;rio. Em 2015 realizei o sonho de conhecer Paris e um dos primeiros lugares que eu fui visitar foi o cemit&#233;rio onde estava o m&#225;gico ilusionista e cineasta George M&#233;li&#232;s, que em 1902 criou um dos primeiros filmes de fic&#231;&#227;o cient&#237;fica de todos os tempos, que tratava de uma viagem &#224; lua. No filme, alguns astr&#244;nomos est&#227;o discutindo sobre a possibilidade da viagem e quem os conduz &#233; um feiticeiro que, durante o congresso, transforma lunetas em cadeiras. Eu tenho nostalgia desse tempo que eu n&#227;o vivi em que para sonhar com a viagem &#224; lua a ci&#234;ncia n&#227;o bastava, se fazia necess&#225;rio um copo de vinho e o pensamento m&#225;gico. </p><p>No filme, os astr&#244;nomos s&#227;o velhinhos barbudos que chegam &#224; lua em um foguete-c&#225;psula que parece uma bala de rev&#243;lver que atinge bem o olho do nosso sat&#233;lite. Os astr&#244;nomos, sem vestes de astronauta nem nada, descem da nave e descansam na lua. Enquanto dormem, astros e deuses passam por eles, aborrecidos com essa intromiss&#227;o, e fazem nevar sobre os humanos. Ao acordar, os astr&#244;nomos v&#227;o explorar a lua, que tem cachoeiras e cogumelos gigantes, e s&#227;o surpreendidos por extraterrestres que vivem l&#225;. Eu acho tudo nesse filme maravilhoso, principalmente os efeitinhos especiais (os astr&#244;nomos explodem os ET&#8217;s com guarda-chuvas) e a total falta de compromisso com um pensamento dito &#8220;cient&#237;fico&#8221;. A viagem &#224; lua como um compromisso de artistas.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!BIS_!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fea72f5ef-86e4-4d1e-9bad-72f7efd8b9af_1280x720.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!BIS_!, /__u/anacarowlina.substack.com/w_424, /__u/anacarowlina.substack.com/c_limit, /__u/anacarowlina.substack.com/f_webp, /__u/anacarowlina.substack.com/q_auto:good, /__u/anacarowlina.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fea72f5ef-86e4-4d1e-9bad-72f7efd8b9af_1280x720.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!BIS_!, /__u/anacarowlina.substack.com/w_848, /__u/anacarowlina.substack.com/c_limit, 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Em algum momento me perguntei se a lua ficava feliz com essa nossa curiosidade a respeito dela, mas acredito que ela apenas tenha se sentido um pouco como a do M&#233;li&#232;s com essa nova incurs&#227;o em seus territ&#243;rios. Certas coisas talvez n&#227;o tenham sido feitas para os olhos humanos. O que a face oculta da lua nos revela &#233; uma forma f&#237;sica de amor: cicatrizes que ela carrega de tantas vezes em que se deixou atingir por objetos que vinham em nossa dire&#231;&#227;o. Os astronautas nomearam crateras, que engra&#231;ado &#233; isso, como se n&#227;o fosse direito inalien&#225;vel de qualquer sonhador olhar para a lua e ver coelho, Raul Seixas (sempre o vi) e nomear suas crateras como bem entendesse. Me irrita a tentativa de colonizar a lua. Me irrita que na&#231;&#245;es a sondem para mais tarde explorarem seus recursos. Me irrita a ideia de que ela possa deixar de ser esse astro enigm&#225;tico que nos inspira a escrever poemas para virar um posto Shell do espa&#231;o.</p><p>Uma vez eu tive um sonho que era como se eu estivesse fora do planeta observando os astros no exato momento em que eu nasci. E o astro regente do meu signo ascendente, c&#226;ncer, era um homem de ombros largos e dentes lustrosos que olhava para a Terra, onde minha m&#227;e me paria, e sorria para o seu beb&#234;, sorria para mim. O astro regente de c&#226;ncer &#233; a lua.</p><p>Quando eu era pequena, me assustava a imensid&#227;o do c&#233;u noturno, me dava ang&#250;stia olhar. Hoje &#233; um dos meus passatempos favoritos. Em sua solid&#227;o p&#225;lida, me pergunto se a lua nos olha enquanto nos tornamos, a seus olhos, crescentes, cheios, minguantes e novos. Se nossa gravidade brinca com suas emo&#231;&#245;es. Se ela fica angustiada pensando &#8220;eles est&#227;o chegando&#8221; ou se simplesmente entende tudo pois conhece melhor o tempo, tem bilh&#245;es de anos de vida e talvez sinta saudade do planeta azul do qual um dia ela tamb&#233;m fez parte. Hoje a lua est&#225; minguando e eu estou a poucos dias de menstruar. Sinto irrita&#231;&#227;o e vontade de ficar escondida em um buraco lendo. Eu n&#227;o posso viver como eu quero, tenho que trabalhar, ent&#227;o escrevo mais um texto sobre a lua, sobre a solid&#227;o e sobre tudo que eu n&#227;o entendo.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://anacarowlina.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading &#193;tomo! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Inventar e acreditar]]></title><description><![CDATA[S&#243; n&#227;o tem empatia pelo louco aquele que se contenta com a mis&#233;ria da realidade]]></description><link>https://anacarowlina.substack.com/p/inventar-e-acreditar</link><guid isPermaLink="false">https://anacarowlina.substack.com/p/inventar-e-acreditar</guid><dc:creator><![CDATA[Ana Carolina Gomes]]></dc:creator><pubDate>Sat, 03 Jan 2026 18:39:55 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!4dcu!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbe798573-83d3-46d1-ad23-78d5575f4426_1080x1200.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Li um livro da Rosa Montero que particularmente n&#227;o me agradou muito, mas talvez n&#227;o tenha me agradado justamente porque foi identifica&#231;&#227;o absoluta e n&#227;o &#233; muito agrad&#225;vel ser eu. O livro &#233; A louca da casa e nele a autora escreve sobre processos criativos, imagina&#231;&#227;o e sobre a vida dela (essas partes eu achei chatas, ela conta umas quatro hist&#243;rias diferentes de atores de cinema com quem se relacionou nos anos setenta e, sei l&#225;, who cares). Eu tamb&#233;m achei ela meio colonialista, mas da&#237; tamb&#233;m &#233; o infort&#250;nio da pessoa ter nascido europeia e achar que o mundo todo &#233; um chiqueiro incivilizado, o que eu acho meio bobo, meio triste e limitante, mas tamb&#233;m meio insuper&#225;vel para os escritores do norte global. Deixa eles.</p><p>Eu vou focar na parte que me toca, a da imagina&#231;&#227;o, e &#8220;focar&#8221; &#233; uma palavra forte porque eu consegui perder o livro, n&#227;o sei se emprestei para alguma amiga e n&#227;o lembro, ent&#227;o vou retomar de mem&#243;ria alguns pontos que me marcaram. Um deles dialoga com este fato recorrente no meu dia-a-dia que &#233; perder as coisas, eu perco coisas o tempo todo, tenho que andar com um molho de chaves rid&#237;culo com chave do carro, da casa, da escola, da bicicleta, todas juntas. J&#225; aconteceu de eu vir para a casa a p&#233; e lembrar que deixei o carro na escola e in&#250;meras vezes eu fiquei trancada para fora. Resolvi o problema deixando todas as chaves reunidas, como um velho de oitenta anos, amparadas em meus chaveiros protetivos de Guadalupe, Ox&#243;ssi e elefante m&#225;gico. Eu esque&#231;o nome de pessoas, datas, me atrapalho com prazos, esque&#231;o de pagar contas se n&#227;o as deixo em d&#233;bito autom&#225;tico, esque&#231;o at&#233; raz&#245;es pelas quais eu deveria estar brava com algu&#233;m. Quanto dinheiro ainda tem na minha conta ou em que dia da semana estamos &#233; sempre um mist&#233;rio absoluto. Muitas vezes, no meio de uma conversa, me distraio completamente e quando volto n&#227;o sei mais do que o interlocutor est&#225; falando e sinto que estou conversando com um ET (ou, mais comum, que o ET sou eu). Se eu n&#227;o fosse concursada e tivesse ponto para bater, minha vida seria um completo caos. TDAH? Eu prefiro a Rosa Montero que diz que reger a vida pr&#225;tica &#233; dif&#237;cil para quem tem muita criatividade, rs.</p><p>A cabe&#231;a o tempo todo ocupada com a fun&#231;&#227;o de inventar hist&#243;rias. O hd do c&#233;rebro todo comprometido com detalhezinhos insignificantes que poderiam ter sido deletados h&#225; muito tempo para ceder espa&#231;o a fun&#231;&#245;es mais &#250;teis; eu lembro at&#233; hoje das sardinhas no rosto do primeiro menino que gostei, mas esqueci a senha do meu portal do servidor. Minha m&#227;e diz que desde pequena eu j&#225; dava sinais dessa, digamos, inaptid&#227;o para as funcionalidades b&#225;sicas da vida em sociedade. O que acontecia para fora da janela da sala me parecia muito mais interessante do que o que o professor de matem&#225;tica falava (at&#233; que chegou um dia que me tiraram da janela, fato que me marcou profundamente). Notas medianas e uma certa intelig&#234;ncia que parecia n&#227;o servir para nada emolduraram todo o meu percurso escolar. E foi piorando: quase repeti os tr&#234;s anos do ensino m&#233;dio, s&#243; passava porque em humanidades eu era boa e mais dormia nas aulas do que qualquer outra coisa, ent&#227;o sempre tinha um bom parecer nos conselhos escolares. Acabei passando no vestibular, para enorme surpresa de meus amigos e familiares, ent&#227;o acho que ficou tudo mais ou menos bem.</p><p>Mas eu queria escrever sobre o carnaval permanente que &#233; dentro da minha cabe&#231;a. E por carnaval eu quero que voc&#234;s entendam: o desfile incessante de alegorias inusitadas, monstros ingovern&#225;veis, as fantasias, o descontrole, a gritaria, sobretudo a gritaria. Alguns amigos n&#227;o entendem porque eu n&#227;o consigo falar quando tem m&#250;sica de fundo, mas &#233; que &#233; tanto ru&#237;do interior. Eu n&#227;o consigo me concentrar no que eu mesma estou dizendo se estiver tocando uma m&#250;sica, n&#227;o consigo jogar palavras cruzadas ou escrever enquanto escuto m&#250;sica e acho todos voc&#234;s que conseguem absolutamente geniais. No que mais me concentro, no que presto aten&#231;&#227;o, no que tento custosamente n&#227;o errar &#233; no cuidado com os gatos e com as crian&#231;as. O resto &#233; desordem.</p><p>E &#233; uma linha t&#227;o t&#234;nue essa que separa a criatividade da loucura. A Rosa escreve sobre isso em algum cap&#237;tulo do livro. Eu fiquei lembrando de diversos momentos da vida em que senti que minha mente me enganava; n&#227;o &#233; exagero dizer que o medo de enlouquecer me acompanha h&#225; muitos anos e, quem sabe por isso, sempre experimentei drogas com intimidada parcim&#244;nia. Uma vez usei cogumelos e fui parar em um reino debaixo da terra t&#227;o mais interessante que o nosso que tive medo de nunca mais voltar. Por semanas fiquei me questionando se a realidade era esse mundo cheio de gente chocha ou o fascinante mist&#233;rio que me fora revelado pelos cogumelos, kkkkkk. Eu rio mas fiquei com medo. Tamb&#233;m teve uma &#233;poca em que comecei a treinar e controlar meus sonhos. Conseguia saber que estava sonhando e voar, me dar prazer, ter o que a vida desperta n&#227;o me permitia. Mas, mais uma vez, tive medo de n&#227;o diferenciar mais realidade e fantasia e parei com os treinos.</p><p>Quando tinha uns doze anos, me dei conta da finitude da vida e experienciei algo que posteriormente eu iria chamar de &#8220;ang&#250;stia&#8221;. Uma crise de ang&#250;stia. Esse fato me marcou enormemente, um grande momento da vida de quase louca que tenho vivido. Eu tinha rec&#233;m menstruado pela primeira vez e olhava pela janela do quarto do meu irm&#227;o na casa intermin&#225;vel que os meus pais estavam construindo e subitamente pensei: uma hora dessas vamos todos morrer. Era ano novo, a gente tinha subido para observar os fogos de artif&#237;cio e eu me escorei na parede, agachei e fiquei pensando na morte de um por um da minha fam&#237;lia, nos mais variados cen&#225;rios e com riqueza de detalhe. N&#227;o consegui dormir naquela noite e nas posteriores passei a sentir algo que mais tarde eu entenderia como crise de ansiedade mas, na &#233;poca, eu entendia como prova&#231;&#245;es demon&#237;acas. O diabo, eu pensava, sacudia a minha cama num embalo infernal e queria a minha alma. Eu acordava suada sentindo que a cama e o quarto tremiam como em um terremoto de magnitude quatro a cinco na escala l&#225; do Richter e evitava pensar no dem&#244;nio pois n&#227;o queria que ele me possu&#237;sse, naquela &#233;poca eu tinha um medo danado de ser possu&#237;da pelo dem&#244;nio, ent&#227;o eu rezava. Rezava e pedia para n&#227;o sentir mais aquelas coisas.</p><p>Eu n&#227;o falava do que eu sentia para ningu&#233;m pois j&#225; naquele tempo despontava em mim uma consci&#234;ncia e exaust&#227;o de mim mesma que posteriormente eu entenderia como &#8220;existencialismo&#8221;, mas na &#233;poca era s&#243; um grande medo de me acharem ainda mais esquisita do que eu era. Sempre vivi tr&#234;s vidas: a real, chata e limitada pela falta de recursos, a on&#237;rica, povoada por criaturas intrat&#225;veis e vergonhas que eu escondia dentro da minha enorme escurid&#227;o e a vida imaginada, que eu defendia com toda for&#231;a, mas tamb&#233;m temia que me engolisse. Escrevia e escrevo na tentativa de delimitar essa vida imaginada que me assombra, me maravilha. Escrevo, invento e de vez em quando acredito. N&#227;o s&#227;o raras as vezes em que inventei uma hist&#243;ria que posteriormente se tornou realidade. O que a gente imagina tem muita for&#231;a. E isso &#233; maravilhoso, mas tamb&#233;m muito assustador.</p><p>De pequena eu tinha amigos imagin&#225;rios, antes da grande crise de consci&#234;ncia da morte e do medo do diabo, e me divertia criando historinhas com eles. Sempre fui uma crian&#231;a que passava bastante tempo sozinha, ent&#227;o era uma vantagem enorme construir castelos com a for&#231;a da minha imagina&#231;&#227;o. Esses castelos me abrigaram, me trouxeram um conforto que muitas vezes eu n&#227;o encontrei na mis&#233;ria da realidade. </p><p>No final do ano passado, me entristeceu e enterneceu muito a hist&#243;ria do Gerson, o Vaqueirinho, o jovem de dezenove anos que foi atacado por uma leoa em Jo&#227;o Pessoa. Sempre senti empatia por pessoas mentalmente adoecidas porque sei como &#233; reconfortante viver em um mundo que inventamos. Eu tive sanidade, apoio e recursos para discernir o real do imaginado, pelo menos at&#233; agora, mas suponho que deva ser t&#227;o dif&#237;cil voltar, quando &#233; t&#227;o brutal e violento o mundo em que se vive. Faz tempo que eu queria escrever sobre esse rapaz que entrou sozinho na jaula da leoa imaginando sabe-se deus o qu&#234;, esse rapaz t&#227;o sozinho, valente e cheio de imagina&#231;&#227;o. Que sua coragem povoe nossas hist&#243;rias e que sua vida nos inspire a cuidar mais e melhor uns dos outros. Falhamos com ele e a &#250;nica coisa que me conforta &#233; saber que ele encontrava algum ref&#250;gio no mundo maravilhoso que arquitetou para si mesmo dentro das paredes do seu inconsciente. Um mundo que o reconhecia, um mundo em que ele, como Orfeu, domava a e cuidava da leoa.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!4dcu!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbe798573-83d3-46d1-ad23-78d5575f4426_1080x1200.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!4dcu!, /__u/anacarowlina.substack.com/w_424, /__u/anacarowlina.substack.com/c_limit, /__u/anacarowlina.substack.com/f_webp, /__u/anacarowlina.substack.com/q_auto:good, /__u/anacarowlina.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbe798573-83d3-46d1-ad23-78d5575f4426_1080x1200.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!4dcu!, /__u/anacarowlina.substack.com/w_848, 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Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A vida protege a vida]]></title><description><![CDATA[No planeta h&#225; microorganismos indispens&#225;veis, cianobact&#233;rias vitais, fungos e polinizadores imprescind&#237;veis, mas h&#225; tamb&#233;m eu]]></description><link>https://anacarowlina.substack.com/p/a-vida-protege-a-vida</link><guid isPermaLink="false">https://anacarowlina.substack.com/p/a-vida-protege-a-vida</guid><dc:creator><![CDATA[Ana Carolina Gomes]]></dc:creator><pubDate>Fri, 03 Oct 2025 00:40:19 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!V8V3!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fffbe963e-fc80-42d0-88cf-7ed3452f1970_4032x3024.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Esses tempos li um livro de um paleont&#243;logo brit&#226;nico chamado Henry Gee. O livro se chama Uma hist&#243;ria (muito) curta da vida na terra, e nele o cientista se prop&#245;e a apresentar 4,6 bilh&#245;es de anos em doze cap&#237;tulos, o que &#233; uma bagun&#231;a danada. A ideia dele era fazer um livro acess&#237;vel ao p&#250;blico leigo e acho que ele at&#233; que consegue ter bastante &#234;xito nisso porque eu consegui ler e entender boa parte. Mesmo com o c&#233;rebro meio frito pelas redes sociais e pela depress&#227;o e pelo pay-per-view do genoc&#237;dio etc. Na verdade, esse livro foi uma das &#250;nicas coisas que consegui ler do in&#237;cio ao fim neste ano. </p><p>Sabe, abrindo o meu cora&#231;&#227;o aqui, eu sou uma nerdzinha frustrada que queria ser bi&#243;loga. Queria saber das enormes baleias ou das microsc&#243;picas cianobact&#233;rias, mas acabei virando outro tipo de cientista, a social, e estudo os medianos e entediantes seres humanos. Queria entender do que as baleias falam quando cantam seu canto misterioso, mas o que me cabe &#233; analisar um pleito eleitoral em uma mesa de bar e apresentar com precis&#227;o cient&#237;fica um palpite sobre qual vai ser o percentual de cada candidato (acertei o 50,8% do Lula). Grandes bosta. N&#227;o sei de voc&#234;s, mas eu estou t&#227;o exausta de seres humanos, do que fazemos uns com os outros. Exausta at&#233; de estar bem informada, acompanhar tudo tempo real, compartilhar nas redes, ir em atos e ficar esperando pela pr&#243;xima cat&#225;strofe. Milhares de crian&#231;as mortas, bombardeio em escola, hospital, m&#233;dica fazendo parto de mulher decapitada. Minha vontade era pegar um barco, cruzar o oceano e ir ajudar quem precisa, mas eu n&#227;o posso, me resta observar e rezar e maldizer e observar e rezar e cobrar e chorar. Eu vi o <a href="https://www.youtube.com/watch?v=9GiM7Zgb8eI">v&#237;deo do Guilherme Terreri</a>, que interpreta a Rita von Hunty, dizendo que n&#227;o tinha capacidade de atravessar esse acontecimento hist&#243;rico e me identifiquei. N&#227;o encontro mais em mim ferramentas para lidar com essa extrema dor. Mas que direito tenho eu de n&#227;o aguentar passar por isso?</p><p>Eu penso e penso e penso. Ent&#227;o eu lembro da vida que nos precede, sem a qual n&#227;o existir&#237;amos, do grande caos que a impulsionou e ali eu descanso e consigo encontrar algum conforto. As bases da vida est&#227;o fincadas na exist&#234;ncia de criaturas maravilhosas, &#250;teis e estranhas que cooperaram umas com as outras. Esponjas que silenciosamente trabalharam incansavelmente por, sei l&#225;, dezenas de milh&#245;es de anos, filtrando o lodo e garantindo que houvesse oxig&#234;nio e a vida pudesse se desenvolver no mar. Esp&#233;cies que sobreviveram &#224;s mais terr&#237;veis intemp&#233;ries porque souberam se adaptar, do jeito que deu. Algumas sa&#237;ram da &#225;gua, como os ancestrais das baleias, n&#227;o deu certo, voltaram. N&#227;o h&#225; orgulho nem ordem na natureza. Explode um vulc&#227;o, cai um meteoro e volta todo mundo umas seiscentas milh&#245;es de casas. Acho que o mais reconfortante para mim ao fazer leitura desse livro foi isso: entender que o motor da transforma&#231;&#227;o na hist&#243;ria da vida na Terra &#233; nada menos que uma enorme balb&#250;rdia. </p><p>Tamb&#233;m aprendi que a vida recua quando ataca, mas cresce quando se protege. Revolu&#231;&#245;es na natureza foram causadas pelo advento dos ovos e das flores, que protegem a vida; a menopausa nas f&#234;meas humanas &#233; um mecanismo evolutivo: permite que elas se dediquem mais &#224;s crias, por mais tempo, e vivam melhor. Grandes predadores tiveram temporada limitada por aqui &#8212; assim como ser&#225; a nossa &#8212; e organismos simples perduraram por eras apenas cuidando uns dos outros. Exemplos s&#227;o as esponjas, descomplicadas e eficientes, provavelmente os primeiros animais da Terra, que sobreviveram a eras e mais eras de extin&#231;&#227;o em massa, mas agora sofrem com o aumento da temperatura do oceano e com os fucking micropl&#225;sticos. Tenho f&#233;, no entanto, que as divas v&#227;o se reinventar mais uma vez e mijar&#227;o em nossas covas.</p><p>Se voc&#234; parar para pensar, vai logo perceber que essa ideia de que o homo sapiens &#233; o &#225;pice da evolu&#231;&#227;o &#233; burra demais. Nem precisa ir longe: pensemos nos nossos parentes antigos, os neandertais, que eram pensativos e profundos. Meio disformes e forjados em temperaturas extremas inimagin&#225;veis para os homo sapiens, tinham c&#233;rebros grandes, cuidavam dos velhos e doentes, faziam colares de conchinhas, pintavam cavernas e enterravam seus mortos. Tiveram uma passagem bonita por aqui e foram extintos por motivos ainda n&#227;o muito bem delimitados, provavelmente uma combina&#231;&#227;o de fatores, pois eram poucos, se reproduziam entre si e foram se enfraquecendo geneticamente. Mas eu n&#227;o diria que somos uma evolu&#231;&#227;o de nada que veio antes s&#243; porque criamos um monte de bugigangas que nos tornaram pregui&#231;osos e in&#250;teis. </p><p>Estamos voltando v&#225;rias casas na dan&#231;a da vida sem quaisquer condicionantes externas; estamos n&#243;s mesmos recriando uma era de caos e mal viver (at&#233; onde conseguimos, pois n&#227;o temos o poder de destrui&#231;&#227;o de um meteoro &#8212; bom, tem a bomba at&#244;mica e tem muita gente est&#250;pida, n&#233;). Ao observar as rotinas da natureza, acho que s&#243; h&#225; um imperativo invari&#225;vel: a vida protege a vida. Assinamos nossa rescis&#227;o de contrato aqui na Terra quando abrimos m&#227;o do pacto de cuidarmos uns dos outros. O velho &#233; repulsivo, algo a se combater. E a crian&#231;a &#233; um ser sem valor em si mesmo, um projeto dos adultos. Parece ser mais f&#225;cil pegar o celular e conversar com um rob&#244; a ligar para a m&#227;e e perguntar que ch&#225; que toma pra dor de barriga. Todo mundo tem medo da morte e de ir a funerais, os rituais coletivos v&#227;o pouco a pouco perdendo o sentido, virando folclore, porque estamos atomizados em nossas pr&#243;prias certezas e aspira&#231;&#245;es individuais. Eu volto &#224; Palestina, um massacre colonial sem precedentes para a minha gera&#231;&#227;o, e &#224; nossa apatia diante disso. O v&#237;deo que hoje n&#227;o saiu da minha mente foi o da <a href="https://www.youtube.com/watch?v=j8IKa_-mKgA">Greta Thunberg</a>, mais uma vez interceptada em uma flotilha humanit&#225;ria para Gaza, dizendo que n&#227;o tem medo de Israel, tem medo &#233; de um mundo que perdeu completamente o senso de humanidade. O que ocorre hoje em Gaza deveria despertar revolta e um levante sem precedentes e eu infelizmente n&#227;o sou paleont&#243;loga, sou cientista social e li mais Marx que Darwin, Marx, que acreditava que o ser humano era o topo, o must, e eu queria que Marx estivesse certo quando disse que a viol&#234;ncia &#233; a parteira da hist&#243;ria, mas eu n&#227;o vejo o novo emergir de tanta desgra&#231;a, eu s&#243; vejo um sombrio e intermin&#225;vel t&#250;nel que muitos de n&#243;s v&#227;o perecer antes de conseguir atravessar. </p><p>Eu escrevo para os delicados, para aqueles que, no tempo das cavernas, desenhariam bis&#245;es dan&#231;ando. Penso na vida, na imensa vida e tento desenhar os bis&#245;es dan&#231;ando nas paredes desse t&#250;nel intermin&#225;vel.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!V8V3!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fffbe963e-fc80-42d0-88cf-7ed3452f1970_4032x3024.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!V8V3!, /__u/anacarowlina.substack.com/w_424, /__u/anacarowlina.substack.com/c_limit, /__u/anacarowlina.substack.com/f_webp, /__u/anacarowlina.substack.com/q_auto:good, /__u/anacarowlina.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fffbe963e-fc80-42d0-88cf-7ed3452f1970_4032x3024.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!V8V3!, 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Um organismo que perdura no ecossistema por mais de 600 milh&#245;es de anos porque coopera</figcaption></figure></div><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://anacarowlina.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading &#193;tomo! 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N&#227;o foi dif&#237;cil nem doloroso para mim entender isso porque desde sempre eu adoro ser irm&#227; mais nova.</p><p>Uma das raz&#245;es para gostar de ser irm&#227; mais nova &#233; desconhecer uma exist&#234;ncia em que as coisas todas da vida n&#227;o s&#227;o divididas. I think that&#8217;s beautiful. Justi&#231;a social sempre fez total sentido para mim. Cora&#231;&#227;o comunista. Na minha inf&#226;ncia n&#227;o existia isso de, por exemplo, comer uma trufa sozinha. A trufa era cortada ao meio, milimetricamente, e dividida entre os dois irm&#227;os. Eu sou ruim de matem&#225;tica e sempre cortava errado e meu irm&#227;o ficava bravo e dizia que eu fazia isso s&#243; para comer a parte maior. Mas n&#227;o &#233; verdade, eu tentava mesmo deixar os dois peda&#231;os iguais, mas n&#227;o nasci com a reguinha acoplada no c&#233;rebro que ele tem. Eu tinha inveja dele, dele ser canhoto e inteligente, saber fazer conta direito. Meu irm&#227;o era bagunceiro e briguento, mas sempre o primeiro da escola, brilhante. Eu era quietinha e distra&#237;da, tipo uma irm&#227; do Jorel. De vez em quando, se algum menino me enchia o saco, ele ia l&#225; me proteger e eu ficava com vergonha, mas achava legal.</p><p>Dividimos o amor desde o dia 01. Minha m&#227;e e meu pai nunca foram s&#243; meus. Eu sei que todo mundo divide os genitores com o mundo, mesmo os filhos &#250;nicos, mas dividir com um irm&#227;o &#233; diferente. Aquele amor incondicional tamb&#233;m repartido em (ou multiplicado por) dois faz com que a gente veja as coisas de outra perspectiva. Bem l&#225; no fundo sab&#237;amos, a gente sempre sabe, que a m&#227;e era mais dele e o pai era mais meu, mas eu tinha que lidar com o fato de que n&#227;o havia exclusividade na din&#226;mica familiar e isso moldou aspectos da minha psique. Nunca exigi o amor de ningu&#233;m s&#243; para mim.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!fM00!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff745d445-4157-48fb-b1f6-342ea5167401_960x1200.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!fM00!, /__u/anacarowlina.substack.com/w_424, /__u/anacarowlina.substack.com/c_limit, /__u/anacarowlina.substack.com/f_webp, /__u/anacarowlina.substack.com/q_auto:good, /__u/anacarowlina.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff745d445-4157-48fb-b1f6-342ea5167401_960x1200.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!fM00!, /__u/anacarowlina.substack.com/w_848, /__u/anacarowlina.substack.com/c_limit, 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juntos. Meu irm&#227;o fazia escolinha de futebol e meus pais o obrigavam a me levar junto. Eu ficava l&#225; sentada olhando, de vez em quando me deixavam jogar um pouquinho e aquele era sempre o melhor momento da semana. Eu tinha uma chuteira branca de pano da P&#234;nalty que era o meu cal&#231;ado favorito, acho at&#233; que tinha sido dele, e desfilava com ela e minhas cal&#231;as pu&#237;das no joelho pela escola. Eu amava jogar bola, talvez por causa dele, nem tanto pelo meu pai. Lembro de num recreio fazer um gol no &#226;ngulo que na minha cabe&#231;a foi o mais bonito da hist&#243;ria e de ficar procurando meu irm&#227;o com o olhar para saber se ele tinha visto.</p><p>Meu irm&#227;o se rebelou, como fazem os melhores filhos, e n&#227;o quis torcer para o time do nosso pai. Meu pai n&#227;o ligava muito, n&#227;o era fan&#225;tico por futebol, mas pode-se dizer que era um palmeirense mais ou menos dedicado, como eu sou hoje. Acho que meu irm&#227;o quis ser s&#227;o-paulino por causa do meu av&#244;, o que foi uma baita for&#231;a de vontade dele, pois era muito bom torcer para o Palmeiras nos anos 90. Depois o SPFC come&#231;ou a ganhar tudo e meu irm&#227;o virou um sommelier de t&#237;tulos, o que era muito chato. Teve uma &#233;poca em que cheg&#225;vamos da escola e ele me obrigava a assistir Debate bola, ele sempre monopolizou o controle da televis&#227;o, e foi naquele tempo que eu decidi que o S&#227;o Paulo seria o time que eu mais detestaria at&#233; o fim dos meus dias.</p><p>Eu gostava mesmo era quando meu irm&#227;o queria ver MTV. Fic&#225;vamos vendo os clipes e aqueles programas com a Didi Wagner, Sarah Oliveira, Rafatata, Leo Madeira e companhia. Eu anotava tudo mentalmente, sabia que antes de gostar de Nirvana era preciso gostar de Pixies, R.E.M., Velvet Underground e Sonic Youth. Um passatempo nosso era ficar ouvindo 89fm e coreografando as m&#250;sicas. Eu dan&#231;ava, na verdade, e ele s&#243; morria de rir. Principalmente com as do CPM22. M&#250;sica sempre uniu a gente. Fomos ver R.E.M. na &#250;ltima apresenta&#231;&#227;o deles no Brasil antes da banda acabar, em 2008. Tamb&#233;m est&#225;vamos juntos quando Bob Dylan veio a S&#227;o Paulo pela &#250;ltima vez - eu nunca vou me esquecer do som daquela gaita. Vimos v&#225;rios showz&#245;es, Pearl Jam, Depeche Mode (no gramado sagrado do Palestra), Belle and Sebastian. Meu irm&#227;o tinha sa&#237;do de casa aos dezessete anos para morar em outra cidade e estudar e eu achava tudo que ele fazia muito descolado. Ele foi pra &#193;frica do Sul cuidar de animais e treinar o ingl&#234;s, deu v&#225;rios rol&#234;s maneiros pela Europa, mochilou na Am&#233;rica do Sul com os amigos, leu quase todos os livros fundamentais, tem um filho que &#233; a crian&#231;a mais linda que j&#225; existiu na face da terra e nunca postou uma foto sequer de nada disso.</p><p>Os contornos do meu mundo foram em grande medida tracejados pelo meu irm&#227;o. Meus gostos, as m&#250;sicas que eu escuto, os filmes que assisto e at&#233; o jeito como me relaciono com os homens (al&#244;, Freud). Eu costumo dizer para as pessoas que meu irm&#227;o &#233; uma montanha, a gente tem que ir at&#233; ele, ele n&#227;o vem at&#233; n&#243;s. Ningu&#233;m me ignora como ele, com seus joinha no zap e suas visualiza&#231;&#245;es sem resposta de memes que envio no insta, mas foi meu irm&#227;o que me deu meu primeiro computador, que ele trouxe do Canad&#225; e que era um trambolh&#227;o da Semp Toshiba, para eu estudar e escrever. Porque acreditava em mim. O olhar dele, a despeito de suas palavras malvadas de irm&#227;o mais velho, me engrandecia. Com seu amor quieto, esteve comigo durante todo o percurso formid&#225;vel e desolador e assombroso e inimagin&#225;vel da inf&#226;ncia. Na mitologia eg&#237;pcia, Amon-R&#225; era um deus solar supremo, um senhor da cria&#231;&#227;o. Hoje eu penso em n&#243;s e percebo que, na verdade, meu irm&#227;o para mim sempre foi um pequeno deus-sol em torno do qual eu me aquecia e me desenvolvia. &#201; muito bom acordar e saber que ele est&#225; l&#225;. Meu futebol no recreio hoje &#233; uma pavlova de Natal, que todo ano eu tento melhorar e ele zoa, porque nunca est&#225; perfeita. Mas e voc&#234; que n&#227;o faz nada, eu argumento, da&#237; no ano seguinte aprimoro a receita e sempre fico um pouco ansiosa na esperan&#231;a de receber, enfim, o seu aplauso.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!lsvd!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd1f5ba7e-e88b-46cd-987a-6b812f27acd9_1080x1080.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!lsvd!, /__u/anacarowlina.substack.com/w_424, /__u/anacarowlina.substack.com/c_limit, /__u/anacarowlina.substack.com/f_webp, /__u/anacarowlina.substack.com/q_auto:good, /__u/anacarowlina.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd1f5ba7e-e88b-46cd-987a-6b812f27acd9_1080x1080.jpeg 424w, 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data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://anacarowlina.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading &#193;tomo! 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Eu cozinhava um assado para eles. At&#233; faria uma piada aqui pedindo socorro a Freud, mas sou uma hist&#233;rica t&#227;o cl&#225;ssica e o sonho &#233; t&#227;o did&#225;tico que a piada talharia, passaria um pouco do ponto, e eu acabaria ficando triste.</p><p>Ali&#225;s, vamos falar de ficar triste. Eu sempre tive um problema com isso de ficar triste. Na minha cabe&#231;a, existe uma medida correta, sagrada e mundial de se estar triste e eu a maculei. Ora estando triste demais, a ponto de ficar doente (sobretudo na adolesc&#234;ncia e in&#237;cio da vida adulta, per&#237;odo que com sua caracter&#237;stica reconfigura&#231;&#227;o neural fez com que eu me entregasse &#224;s emo&#231;&#245;es como uma personagem das irm&#227;s Bront&#235;), ora obliterando todos os sentimentos negativos com piadas ruins e certa positividade t&#243;xica, otimismo sagitariano, repetindo para mim mesma que passar por aquilo faria de mim uma pessoa melhor (e a esse artif&#237;cio recorro at&#233; os dias atuais e n&#227;o posso dizer que tem funcionado, n&#227;o sou uma pessoa melhor porque sofri). </p><p>Eu forcei tanto a barra nisso de ver os perrengues como oportunidades de crescimento que em algum momento (ainda na inf&#226;ncia, presumo) perdi completamente a m&#227;o e a capacidade de chorar, o que &#233; um inferno. Experimente estar no meio de uma discuss&#227;o acalorada na qual voc&#234; se sente humilhada e ofendida e n&#227;o ser capaz derramar uma s&#243; lagriminha para a outra pessoa se sentir um pouco culpada e voc&#234; se aliviar. Ver morrer de exaust&#227;o uma amiga em um ambiente de trabalho no qual voc&#234; odiava quase todo mundo e n&#227;o conseguir chorar. A dor de cabe&#231;a que d&#225;, parece que todas as l&#225;grimas se juntam ali dentro do c&#233;rebro e formam um tsunami nos seus miolos. Ver filme triste com cachorro morrendo e n&#227;o chorar. Ler a Lila sendo espancada e proibida de estudar e n&#227;o despender uma l&#225;grima sequer. Voc&#234; se sente o pr&#243;prio Ves&#250;vio prestes a explodir e a partir a Terra em duas. </p><p>Eu interpretava a minha dificuldade de chorar como uma manifesta&#231;&#227;o da minha personalidade durona. Que baita cora&#231;&#227;o de pedra eu tenho, pensava (e no fundo ficava at&#233; um pouco orgulhosa). Tive um namorado que me dizia isso quando, diante de suas crises de choro, eu n&#227;o conseguia esbo&#231;ar nenhuma rea&#231;&#227;o al&#233;m de certa incredulidade ou curiosidade cient&#237;fica: aquilo me intrigava demais. </p><p>Eu n&#227;o vou dizer que NUNCA chorava. Eu chorei, por exemplo, em 2018, na v&#233;spera do meu casamento e da elei&#231;&#227;o do Bolsonaro (sim, escolhemos um momento top para a cerim&#244;nia), quando uma tia bolsonarista me disse que meu pai se revirava no t&#250;mulo pela pessoa que eu sou. Isso &#233; at&#233; um pouco engra&#231;ado porque meu pai jamais seria bolsonarista e nem possui t&#250;mulo, j&#225; que foi foi cremado, mas eu chorei mesmo assim. Lembro de ter chorado quando aquele bosta foi eleito e, depois, quando tomei a Astrazeneca, pela emo&#231;&#227;o da imunidade ap&#243;s um per&#237;odo de tanta incerteza e porque doeu muito por 24hs ininterruptas. Chorei quando vi nascer o beb&#234; de uma moradora de rua cuja gravidez eu havia acompanhado desde o princ&#237;pio; chorei porque foi emocionante e porque ela se alimentou durante os nove meses s&#243; com os lanches que a gente oferecia ali no Centro Pop, que n&#227;o eram l&#225; muito nutritivos, e o beb&#234; nasceu forte e perfeito. Beb&#234;s em geral sempre foram curiosas criaturinhas capazes de romper minha barreira, verdade seja dita, esses pestinhas misteriosos. Foi chorando que fiz meu sobrinho dormir pela primeira vez enquanto cantava Baby do Caetano para ele.</p><p>O Cort&#225;zar tem um pequeno texto que eu gosto muito no <em>Hist&#243;rias de cron&#243;pios e de famas</em> que se chama Instru&#231;&#245;es para chorar. Ele come&#231;a dizendo que para chorar &#233; necess&#225;rio dirigir a imagina&#231;&#227;o para si mesmo, mas, &#8220;se isso acabar sendo imposs&#237;vel pelo h&#225;bito de acreditar em um mundo exterior&#8221;, voc&#234; pode pensar em um pato morto ou em um golfo no Estreito de Magalh&#227;es onde ningu&#233;m nunca entra. Esses dias segui as instru&#231;&#245;es dele e chorei. N&#227;o sei se foi porque voltei a imagina&#231;&#227;o para mim mesma ou porque pensei no pato e no golfo. Enfim. Provavelmente tudo junto, o Estreito de Magalh&#227;es me emociona e sempre penso nos malucos dando a primeira volta ao mundo e passando por ali em 1520. H&#225; algo de m&#225;gico no Estreito de Magalh&#227;es que eu gostaria muito de conhecer. Esses dias, a prop&#243;sito, um menino foi engolido por uma baleia na regi&#227;o e eu fiquei reflexiva e um pouco euf&#243;rica com esse raro epis&#243;dio do humano entregue &#224; natureza; uma not&#237;cia que lemos hoje, mas poderia ter acontecido h&#225; mil anos. Mas tergiverso, o assunto era o texto do Cort&#225;zar. Eu gosto muito e valorizo que algu&#233;m formule instru&#231;&#245;es para chorar, mas a verdade &#233; que o choro acaba sendo um evento muito particular de cada pessoa e eu estou escrevendo este texto porque tem uns meses que algo mudou aqui dentro e eu devo admitir que tenho chorado bastante. </p><p>Comentei com uma amiga disso, que estava preocupada, perguntei se ela achava que eu poderia estar deprimida. &#8220;&#192;s vezes &#233; o oposto do adoecimento, amiguinha&#8221;, ela me disse, j&#225; que provavelmente pela primeira vez na vida eu estou olhando de volta para o abismo que me espreita h&#225; d&#233;cadas. Eu costumava ouvir o Jair Rodrigues cantando Disparada e me reconhecer naquilo, o Sert&#227;o sendo o meu Munhoz e eu tamb&#233;m tendo aprendido ali a ver a morte sem chorar, eu tamb&#233;m vivendo para consertar a morte e o destino, tudo.</p><p>Mas acontece que ningu&#233;m conserta a morte e o destino, a gente no m&#225;ximo arranja um lugarzinho confort&#225;vel para sentar e contemplar o fim das coisas. Claro que a gente pode lutar, s&#243; acaba quando termina e os jogos mais emocionantes s&#227;o decididos na prorroga&#231;&#227;o. S&#243; que a gente decide se vai levar &#224; exaust&#227;o, como um jogador de futebol que s&#243; se aposenta quando as dores, les&#245;es e esc&#226;ndalos come&#231;am a ofuscar o passado de gl&#243;rias ou se a gente vai parar de um jeito bonito, n&#227;o carece de ser no auge, ningu&#233;m precisa ter essa coragem avassaladora, mas quando percebemos que todos os t&#237;tulos poss&#237;veis foram conquistados e, de forma elegante, declaramos que &#233; hora de voltar para casa e se dedicar a outros assuntos. Tenho outra amiga que me disse &#8220;Carol, n&#227;o &#233; futebol, &#233; amor&#8221;, mas o futebol tamb&#233;m desencadeia processos qu&#237;micos no meu c&#233;rebro e me ajuda a sentir meus sentimentos.</p><p>No centro da minha mesa de madeira estava ele, que n&#227;o gosta de futebol e vai talvez se irritar com algumas partes desse texto, e ele me sorria. Sempre foi ele. Estava ansioso pelo meu assado e eu para saber se ele ia gostar. Tinha temperado do jeito que ele gosta. Eu achava que seria para sempre, e que bom que achei, e que bem que nos fez esse casamento. Uma rela&#231;&#227;o de quase oito anos que nos deixou fortes, seguros e valentes. Enquanto foi poss&#237;vel, partilhamos do mesmo sol e dos mesmos nutrientes como duas &#225;rvores em uma floresta. Nos amamos do melhor jeito que conseguimos e acho que pouca gente pode dizer isso quando est&#225; ali sentada observando o fim das coisas: l&#225; se vai, adeus, obrigada por tudo. Fechar os olhos e chorar porque d&#243;i muito. E, se d&#243;i, &#233; s&#243; porque valeu a pena ter vivido. E, se valeu ter vivido, faz bem pensar que vez ou outra nos esbarraremos pelos corredores do meu inconsciente e nas linhas tortas dos meus cadernos.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://anacarowlina.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading &#193;tomo! 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Com essa frase melanc&#243;lica Claude L&#233;vi-Strauss inicia um dos livros mais importantes da minha vida. Teve um ano em que tudo que fiz em termos intelectuais foi ler Tristes Tr&#243;picos com aten&#231;&#227;o e considero que foi um ano absolutamente produtivo. Trabalhava muito (at&#233; quase ter um piripaque e tirar licen&#231;a psiqui&#225;trica por alguns meses) e estudava Ci&#234;ncias Sociais &#224; noite na USP. O departamento de antropologia era o meu favorito. Eu vivia de salgado da cantina (saudosa Tia Bia) e caf&#233;. Lia no &#244;nibus, metr&#244;, lia e relia, grifava, lia, relia, n&#227;o entendia, grifava. </p><p>N&#227;o &#233; um livro demasiadamente erudito, mas eu n&#227;o diria que chega a ser popular. &#201; literatura, &#233; pessoal, mas &#233; tamb&#233;m um estudo etnogr&#225;fico dos mais competentes. Eu n&#227;o sei direito o que &#233;. H&#225; reflex&#245;es sobre o nosso lugar no mundo e as transforma&#231;&#245;es que operamos na natureza; h&#225; o deslumbramento (e, em certa medida, o terror) do antrop&#243;logo do velho mundo com as infinitas possibilidades das Am&#233;ricas. &#201; um livro muito, muito bonito.</p><p>Eu li h&#225; muitos anos e o deixei na casa da minha m&#227;e. Nunca lembro de pegar de volta. Volta e meia me recordo da frase de abertura do livro e me identifico muito com o L&#233;vi-Strauss: principalmente nos &#250;ltimos anos, viajar para mim n&#227;o tem sido exatamente um prazer, o que amo mesmo &#233; ficar em casa. N&#227;o obstante, sinto uma necessidade visceral de sair de mim mesma e me reconhecer no outro. Seja o outro uma pessoa, um animal ou mesmo uma montanha, c&#226;nion, vulc&#227;o, rio, mar. Viajar &#233; um meio que viabiliza essa minha enorme busca. </p><p>&#201; esquisito isso?</p><p>E eu gosto do L&#233;vi-Strauss porque ele se deixou afetar por um outro que era t&#227;o radicalmente diferente dele sem depreciar ou fetichizar a novidade que se apresentava, o que seria muito f&#225;cil para um europeu; o jovem antrop&#243;logo permitiu-se encantar e sentir, antes de escrever. Ele estava l&#225; e observou, ouviu, buscou entender e dividiu o que aprendeu com o mundo, sem julgamentos. Na minha caminhada, que &#233; bem mais insignificante que a do L&#233;vi-Strauss, eu reconhe&#231;o alteridade em tudo que me cerca e tamb&#233;m busco compreender. Tenho que tentar compreender. &#201; fundamental no meu processo de <em>estar viva</em>. Viajar para mim &#233; ter a oportunidade de conhecer lugares e pessoas com os quais eu n&#227;o compartilho o mesmo espa&#231;o e tempo, mas <em>poderia compartilhar</em> e isso &#233; fundamental; &#233; fascinante conversar, me esfor&#231;ar para me comunicar na l&#237;ngua local, conhecer h&#225;bitos diferentes dos meus e reconhecer o que h&#225; de semelhante, sentir como &#233; viver com menos oxig&#234;nio circulando nas veias, que concess&#245;es o corpo exigir&#225; para um povo que vive no topo de montanhas ou em meio a tempestades de areia no deserto. Ouvir de verdade o que o outro me traz, sentir de verdade. Depois voltar e repartir, como na m&#250;sica do Emicida com o Gil.</p><p>S&#243; que acontece que viajar se tornou nos &#250;ltimos anos um fim em si mesmo, um life style. Eu agora vou ser bem rabugenta e dizer que n&#227;o suporto pessoas que, de maneira irrefletida, usam de suas viagens para se autodefinir. &#8220;Sou algu&#233;m que ama viajar&#8221;. Gente que contabiliza pa&#237;ses visitados, coloca na bio do instagram, se descreve como &#8220;wanderlust&#8221;, tatua mapa, compra pino e marca no mapa os locais que conheceu e, na maior parte das vezes, dedicou um total de zero horas para conversar genuinamente com quem vive nesses locais, ouvir suas m&#250;sicas, comer suas comidas, observar o que angustia e o que faz essas pessoas felizes. Nesse sentido, sim, eu odeio as viagens e os exploradores e penso que nosso bom velhinho, se vivo fosse, tamb&#233;m estaria em um caf&#233; escondido de Paris maldizendo essa galera. Quer dizer&#8230; Na verdade n&#227;o, n&#233;? Ele olharia sorrindo para esse povo, ficaria enternecido e cheio de curiosidade antropol&#243;gica por esse fen&#244;meno cada vez mais recorrente que &#233; n&#227;o saber o nome do vizinho e n&#227;o se interessar por nada da vida de quem te atende num servi&#231;o, mas gastar rios de dinheiro e cruzar oceanos em busca de &#8220;conex&#245;es&#8221;, &#8220;energia&#8221; e likes. </p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://anacarowlina.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading &#193;tomo! 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As mais massivas, gigantes com v&#225;rias vezes o tamanho do sol, s&#227;o as primeiras a falecer e a&#237; talvez esteja a primeira li&#231;&#227;o (e a mais clich&#234;): tamanho n&#227;o &#233; documento. As estrelas menores conseguem economizar por dezenas de bilh&#245;es de anos seus estoques de energia e as grandes, umas festeiras, vivem intensamente (custa caro a beleza e a pompa), e explodem em apenas alguns milh&#245;es de anos, um piscar de olhos na dan&#231;a c&#243;smica. N&#227;o tem posto de abastecimento no espa&#231;o: quando acaba o hidrog&#234;nio para se converter em h&#233;lio formando luz e calor, bum, adeus estrela, foi bom te conhecer. Mas &#233; a&#237; que toda a m&#225;gica acontece.</p><p>Quando se encerra o ciclo de vida de um desses astros, h&#225; v&#225;rios desdobramentos poss&#237;veis, a depender do tamanho dele. Eu acho a morte de uma estrela um evento muito bonito. Um dos funerais mais dram&#225;ticos e interessantes &#233; quando a estrela explode e d&#225; origem a uma supernova, expulsando uma parte dela para o espa&#231;o (aqueles gases, aquele monte de cor) e reduzindo seu n&#250;cleo de forma bem compacta, t&#227;o compacta que ele fica super denso. Uma colherinha de estrela de n&#234;utrons, que &#233; essa estrela moribunda e resignada que fica no interior da supernova, pesaria milh&#245;es de toneladas. A gente &#233; feito de p&#243; de estrela, voc&#234;s sabem, isso &#233; algo que todo mundo fala. Todo ano milhares de toneladas de poeira c&#243;smica caem sobre nossas cabe&#231;as, sobre as planta&#231;&#245;es, o mar, tudo coberto de estrelas. Ser&#225; que guardamos essa mem&#243;ria, eu me pergunto, sobre como sobreviver projetando no infinito espa&#231;o o que temos de melhor? Voc&#234;s tamb&#233;m sentem que &#224;s vezes a gente atira para o exterior o que temos de bonito e valoroso e guardamos bem guardadinho o peso do que &#233; feio e vergonhoso? N&#227;o sei voc&#234;s, mas eu sinto, &#224;s vezes, que uma colherinha do que escondo no meu cora&#231;&#227;o pesaria mais que uma estrela de n&#234;utrons.</p><p>Mas que cafonice esse texto comparando cora&#231;&#227;o e supernova. Calma que fica pior. Pois eu agora gostaria de interromper a palestrinha interestelar (repleta de imprecis&#245;es) para contar um sonho que tive h&#225; alguns anos. Desses sonhos emblem&#225;ticos que margeiam a vida feito mata ciliar. No sonho, a doceria Sodi&#234; tinha feito um bolo inspirado na pessoa que eu sou (sonho muito com comida). No bolo Carolina, vamos cham&#225;-lo assim, havia uma cobertura suave de chantilly batido com morango, num equil&#237;brio bem del&#237;cia entre doce e azedinho. A camada intermedi&#225;ria do meu bolo tinha um p&#233; de moleque muito duro, quase inquebr&#225;vel. O bolo era como um planeta, redondo, e o n&#250;cleo dele era uma bolinha de chocolate muito, muito amargo. A atendente comentava comigo: &#8220;n&#227;o &#233; todo mundo que gosta&#8221; e eu comia um peda&#231;o e achava bom.</p><p>Penso em mim, no bolo e nas supernovas. No &#250;ltimo dia dezoito completei trinta e quatro anos, se tudo der certo ainda vivo mais uns cinquenta, bem menos que os bilh&#245;es a que est&#227;o condenados os astros - e os deuses. Ainda assim, mais uma vez me pergunto, pretensiosamente, se temos algo em comum, eu, os astros e os deuses, algo que nos conecte na fa&#237;sca de tempo que passamos juntos. A f&#250;ria, a solid&#227;o ou a inseguran&#231;a, quem sabe. Cada um a seu modo, todos apavorados com o esquecimento.</p><p>Na mitologia grega, a personifica&#231;&#227;o do Sol &#233; o deus H&#233;lio, que todos os dias surgia no c&#233;u em sua carruagem de cavalos de fogo que o conduziam at&#233; o oceano para que a noite come&#231;asse. H&#233;lio era vaidoso e rigoroso, era tamb&#233;m o deus da onisci&#234;ncia, e teve uma por&#231;&#227;o de filhos, como &#233; do feitio dos deuses, e quase nenhum o suportava. De seus filhos, minha favorita &#233; Circe, poderosa deusa da feiti&#231;aria, exilada em uma ilha por desafiar seus pares. Circe tinha o h&#225;bito de transformar homens em porcos (adoro), vivia cercada por animais selvagens como leoas e era versada nos mais diversos encantamentos, conhecia o poder das plantas e as transformava em infal&#237;veis po&#231;&#245;es m&#225;gicas. Transmutou toda a tripula&#231;&#227;o de Ulisses e s&#243; n&#227;o conseguiu vencer o her&#243;i grego porque homem ajuda homem e ele foi alertado por Hermes a se proteger da deusa. </p><p>N&#227;o pare&#231;o muito com H&#233;lio, mas talvez tenha algo em comum com sua filha; n&#243;s duas moramos em uma ilha e vivemos sozinhas no meio do mato. Tenho minhas feras selvagens tamb&#233;m, tr&#234;s gatos travessos que moram comigo e mais dois do quintal que eu alimento. Nunca transformei um homem em porco (lamentavelmente, ainda n&#227;o desenvolvi de tal forma minhas habilidades de feiticeira, um dia chegamos l&#225;). Mas eu sou feita de poeira estelar e ela n&#227;o, n&#227;o sei de que mat&#233;ria s&#227;o feitos os deuses. Ser feita de estrela faz com que eu me sinta especial de um jeito que talvez Circe n&#227;o tenha conhecido. Uma poeira magn&#237;fica, rica, cheia de mem&#243;ria de tudo que &#233; belo e enorme e triste. Um dia me lamentava com algu&#233;m sobre n&#227;o ser mais a estrela da vida de ningu&#233;m e a pessoa me disse: voc&#234; tem que ser a estrela da sua vida. As estrelas ficam l&#225; brilhando e sendo bonitas e sendo sozinhas e um dia, milhares de anos luz depois, a gente as conhece, d&#225; nome, elas fazem sentido pra gente, formam bichos no c&#233;u, guiam at&#233; o menino Jesus, a gente faz pedidos e, de repente, aquela solid&#227;o vira um pouquinho de esperan&#231;a onde a gente pode at&#233; descansar.</p><p>Se eu fosse uma estrela, ia prestar aten&#231;&#227;o nos pontinhos insignificantes do planeta insignificante e azul. Eu me alimentaria de seus desejos, sonhos, ang&#250;stias, esperan&#231;as, arrependimentos, vergonhas, vaidades, segredos, tudo que os pontinhos experienciariam ao olhar para mim. Guardaria at&#233; o dia da minha morte, quando explodiria solenemente e faria jorrar no espa&#231;o uma mat&#233;ria linda e sinistra cheia de inten&#231;&#227;o, resili&#234;ncia, medo, liberdade e prazer. Faria brilhar no c&#233;u at&#233; chegar a quem precisasse, ent&#227;o me recolheria em meu n&#250;cleo denso e firme e, depois, seria o enorme sil&#234;ncio.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!eKLj!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fea7234a4-2763-4ea1-9bb1-6a4cb0e73584_1536x1542.webp" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!eKLj!, /__u/anacarowlina.substack.com/w_424, /__u/anacarowlina.substack.com/c_limit, /__u/anacarowlina.substack.com/f_webp, /__u/anacarowlina.substack.com/q_auto:good, /__u/anacarowlina.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fea7234a4-2763-4ea1-9bb1-6a4cb0e73584_1536x1542.webp 424w, 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Isso foi no ano passado. Eu estava voltando do almo&#231;o, levando a turma para sala, vi o nome e a foto dele na tela e fui me escorando na parede porque as pernas perderam a for&#231;a. Atendi, tr&#234;mula, e perguntei com o pouco de voz que me alcan&#231;ava: o que aconteceu com a m&#227;e? Foi t&#227;o estranho meu irm&#227;o me ligar que eu tinha certeza que a minha m&#227;e tinha morrido (tudo bem que, verdade seja dita, eu tenho esse problema de sempre achar que as pessoas morreram). </p><p>Felizmente minha m&#227;e n&#227;o tinha morrido, meu irm&#227;o me ligou para contar que eu ia ser titia. Ent&#227;o eu comecei a gritar pelos corredores da escola e contei a boa nova para todos que encontrei pela frente. Foi um dos dias mais felizes da minha vida porque, no instante em que ele disse &#8220;n&#227;o, tonta, eu t&#244; ligando para contar uma novidade&#8221; eu j&#225; soube que a novidade era um beb&#234; e que seria um menino e que eu seria louca por ele. Sei l&#225;, n&#227;o teve ch&#225; revela&#231;&#227;o nem nada disso, eles escolheram s&#243; saber o sexo do nen&#234; na hora do parto (o que eu achei muito cool e de um autocontrole invej&#225;vel), mas eu sempre soube que quem estava a caminho era o Gabriel.</p><p>Meu sobrinho tem o nome de um dos escritores favoritos do meu irm&#227;o, e meu tamb&#233;m, o Garc&#237;a M&#225;rquez. Quando era bem bebezinho, Gabriel se acalmava olhando os livros e manipulando-os com suas m&#227;ozinhas errantes. Quero muito que ele goste de ler, me empenho nisso comprando para ele livros de beb&#234; que servem para ele morder. Os dentinhos nascendo e ele devorando os livros no sentido literal, &#233; t&#227;o bonito isso. Eu acho fofo tudo que o Gabriel faz. Lembro da primeira vez que o vi e de ficar um pouco sem ar: eu nunca tinha visto algo t&#227;o profundamente belo na minha vida. Ele virou o rostinho como se sentisse vergonha, um trejeito que ele tem desde os primeiros dias.</p><p>O batizado do Gabriel foi um dia antes do meu anivers&#225;rio e ser escolhida para ser a madrinha dele foi de longe o melhor presente que eu j&#225; ganhei. Na hora em que o padre jogou a &#225;gua na cabe&#231;a dele, ele n&#227;o chorou imediatamente, acho que curtiu porque estava calor, mas depois chorou um pouquinho. Eu que estava segurando e foi um momento tenso porque eu n&#227;o entendo muito de segurar beb&#234;s. </p><p>Eu e Gabriel nos vemos pouco porque vivemos a centenas de quil&#244;metros um do outro e &#233; por isso que toda vez que vou a S&#227;o Paulo ele me estranha. De fato, o correr do tempo &#233; muito mais significativo para ele do que &#233; para mim. Meus dias &#224;s vezes s&#227;o meio iguais, s&#227;o tipo aquela m&#250;sica do Chico Buarque, com sorrisos pontuais. Os dele, no entanto, s&#227;o repletos de novidades: sempre vivendo algo diferente pela primeira vez. Balbuciando as primeiras palavrinhas, provando as frutas todas, tentando ficar de p&#233;, aprendendo a descer do sof&#225; de um modo seguro. A m&#227;e dele &#233; fisioterapeuta e ensina para ele muitas coisas, &#233; uma super mam&#227;e. Quando eu chego l&#225;, Gabriel nunca lembra direito quem &#233; a cabeluda dentu&#231;a que o abra&#231;a. &#8220;Sou eu, a madrinha&#8221;, e ele me olha bastante desconfiado e s&#243; sorri depois de um tempo. Eu acho que ele parece meu irm&#227;o quando faz a cara de desconfiado, mas ela &#233; rara, ele &#233; risonho na maior parte do tempo. Todo mundo gosta dele e as bab&#225;s o ensinam truques como fazer joinha ou &#8220;charminho&#8221;. Olho para ele tentando entender onde esteve antes, tentando entender como &#233; poss&#237;vel o universo se expandir na barriga de uma mulher e dar origem a m&#227;os e p&#233;s e olhinhos azuis t&#227;o faiscantes que ignoram solenemente a insond&#225;vel solid&#227;o dos que est&#227;o aqui h&#225; mais tempo. </p><p>H&#225; muitos anos atribuo a solid&#227;o dos Buend&#237;a &#224; da minha pr&#243;pria fam&#237;lia. O insulamento que nos divide e, paradoxalmente, sempre nos uniu. Eu achava que nossas estirpes estavam condenadas a cem anos de solid&#227;o at&#233; olhar pela primeira vez para o Gabriel e ficar um pouco emocionada, ver algo do meu pai nele, um pedacinho da eternidade. Uma nova chance.</p><p>Meu irm&#227;o, um f&#227; de Gabriel Garc&#237;a M&#225;rquez, sempre riu de mim dizendo que eu vivia em um realismo m&#225;gico. Ele diz que eu fantasio nossas mem&#243;rias, que falo as coisas de um jeito muito diferente de como elas aconteceram de verdade. &#201; prov&#225;vel mesmo. Ele &#233; mais velho, lembra com mais clareza de muitos epis&#243;dios, e eu tenho consci&#234;ncia de que meu jeito de lidar com o trauma sempre foi atrav&#233;s da narra&#231;&#227;o (&#224;s vezes exagerada e fantasiosa) at&#233; daquilo que me faz mal. </p><p>Mas o Gabriel chegou e agora ningu&#233;m nos segura, minha rela&#231;&#227;o com ele &#233; o realismo m&#225;gico em seu estado puro. Eu invento o amor como quem desenha um elefante, acordo de manh&#227; e o desenho e ele est&#225; ali, &#233; s&#243; pensar no Gabriel, n&#227;o importa qu&#227;o ruim esteja o dia, meu sobrinho &#233; uma fonte inesgot&#225;vel de felicidade. Eu amo meu irm&#227;o t&#227;o mais do que eu imaginava ser poss&#237;vel depois de existir o Gabriel. Tanto, tanto, tanto. Um ano hoje daquele dia em que tudo ficou mais real e mais m&#225;gico. Feliz anivers&#225;rio, meu amor.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://anacarowlina.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading &#193;tomo! 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S&#227;o hist&#243;rias de ca&#231;ador com meu av&#244; materno no papel principal e nelas os animais se organizam e meu av&#244; ca&#231;ador sempre termina fugindo, pendurado em uma &#225;rvore ou fazendo coc&#244; na cal&#231;a enquanto os bichos riem e se sentem vingados. Talvez meu pai tamb&#233;m se sinta vingado. Eu acho as hist&#243;rias fascinantes e quero saber os detalhes, mas meu pai, cansado do dia, cochila no meio da maioria delas. Eu encosto a cabe&#231;a no seu peito e fico ali sentindo o cheiro dele, que &#233; um um cheiro de graxa de carro misturado com sabonete e desodorante Avan&#231;o. </p><p>Eu estou sentada na escada da escola com meu irm&#227;o, sinto uma pontada no est&#244;mago que &#233; como se houvesse um bichinho amarrado dentro de mim se debatendo. Tenho muita vergonha porque meu pai bebe muito e todos sabem e ele mais uma vez esqueceu de buscar a gente. Quando anoitece e a escola vai fechar, a diretora nos coloca no carro e nos leva para casa.</p><p>Eu estou num a&#231;ude fundo e tenho um pouco de medo, meu pai me segura e fala para eu bater as pernas, est&#225; tentando me ensinar a nadar. Eu sempre achei t&#227;o bonito ele nadando. Eu moro em Guarulhos e nunca fiz nata&#231;&#227;o, esse a&#231;ude em Moreno-PE &#233; para mim a maior por&#231;&#227;o de &#225;gua parada j&#225; vista. Eu me sinto segura e selvagem e leve e amada.</p><p>Estou sozinha em casa e n&#227;o deveria, pois sou muito pequena. Meu pai chega e me olha com carinho e culpa, est&#225; sentimental, eu n&#227;o gosto quando ele bebe e fica assim. Ele entra no banho e eu escuto um barulho de corpo caindo, encontro-o desmaiado no ch&#227;o em meio a uma piscina de sangue e acho que ele est&#225; morto. Entro em desespero e saio correndo para chamar o meu irm&#227;o, que brinca na rua. Ele vai chamar o meu av&#244; e eu fico com meu pai, que n&#227;o acorda, e tem cheiro de &#225;lcool e ferro do sangue.</p><p>Eu estou na cozinha e meu pai me pergunta o que foi mesmo que eu disse mais cedo, pois foi algo muito engra&#231;ado e ele n&#227;o consegue lembrar. Ele est&#225; tentando contar para minha m&#227;e e n&#227;o lembra as palavras exatas que eu usei e comenta, entusiasmado, que eu sou muito esperta e boa de piadas e eu sinto felicidade. Secretamente tamb&#233;m me sinto invenc&#237;vel, gosto de ser esperta e engra&#231;ada. Ele nunca usou as palavras &#8220;princesa&#8221; ou &#8220;linda&#8221; para me descrever, mas usa muito &#8220;sabida&#8221;, &#8220;safada&#8221;, &#8220;esperta&#8221; e algumas palavras que inventa, como &#8220;espericulosa&#8221; (que &#233; como espirituosa). Eu me empenho em faz&#234;-lo rir porque ele &#233; bom nisso, em rir e em fazer rir. Tem uma risada alta de sagitariano e uns dentes bonitos e todo mundo gosta dele.</p><p>Eu tenho dez anos, mudei de escola e acho que ningu&#233;m gosta de mim, exceto um menino nerd que me trata com gentileza e com quem eu fiz amizade. Talvez eu goste dele mais do que como amigo, mas ele nunca saber&#225;. Eu entro no carro e esperamos mais alguns minutos at&#233; o hor&#225;rio do meu irm&#227;o sair. Nesse meio tempo, meu pai come&#231;a a me dar os conselhos que eu jamais receberei de nenhuma mulher que me criou: que eu devo estar alerta com os homens e que sob hip&#243;tese alguma devo dar uma chance a qualquer um deles que implicar com o tamanho da saia que eu usar. Eu acho a conversa meio constrangedora, nem saia eu uso, e n&#227;o respondo nada, mas guardo a informa&#231;&#227;o.</p><p>Eu estou na faculdade, quero ser brilhante e leio muito. Estou concluindo um relat&#243;rio de Inicia&#231;&#227;o Cient&#237;fica e minha pesquisa concorre a um importante pr&#234;mio nacional, eu tenho gastrite, n&#227;o durmo direito e meu pai vem me chamar para o jantar. Ele cozinhou feij&#227;o com verdura porque esfriou e essa &#233; uma comida quentinha. Ele me olha com certa condescend&#234;ncia e diz que se eu continuar daquele jeito eu vou ficar louca. Eu acredito, sempre acredito em tudo que ele me fala, fecho os livros e vou comer e assistir novela com ele.</p><p>Eu estou chegando em casa fora do meu hor&#225;rio costumeiro e surpreendo meu pai no meio de uma faxina ouvindo Clara Nunes no &#250;ltimo volume no r&#225;dio. Ele gosta muito da Clara Nunes e fica meio desconcertado com a minha apari&#231;&#227;o. Eu acho legal que ele escute no &#250;ltimo volume o CD com a discografia da Clara Nunes que eu pedi para a minha amiga gravar para ele, mas n&#227;o falo nada, n&#243;s somos assim.</p><p>Estou sentada sozinha na praia de Boa Viagem, onde acabei de jogar as cinzas do meu pai. Vejo as ondas rebentarem calmamente nos arrecifes e penso no tubar&#227;o que no passado comeu um de seus amigos de inf&#226;ncia. No meu imagin&#225;rio de crian&#231;a, o tubar&#227;o o perseguiria por todos os mares at&#233; peg&#225;-lo tamb&#233;m, o que me aterrorizava. &#8220;A&#237; est&#225;&#8221;, eu penso, &#8220;pode ficar&#8221;, prendo a respira&#231;&#227;o e mergulho.</p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://anacarowlina.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading &#193;tomo! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Estamos cansados porque não podemos ser preguiçosos]]></title><description><![CDATA[Li Byung-Chul Han e lembrei da Natalia Ginzburg]]></description><link>https://anacarowlina.substack.com/p/estamos-cansados-porque-nao-podemos</link><guid isPermaLink="false">https://anacarowlina.substack.com/p/estamos-cansados-porque-nao-podemos</guid><dc:creator><![CDATA[Ana Carolina Gomes]]></dc:creator><pubDate>Sun, 09 Jun 2024 22:14:28 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!9S-X!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fec8b3601-2d81-44e2-81a5-31d2f46962a8_266x266.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Chegou at&#233; a minha m&#227;o um livrinho muito famoso, A sociedade do cansa&#231;o. Digo livrinho porque tem 128 pequenas p&#225;ginas, mas &#233; uma leitura muito precisa (e o fato dele ser t&#227;o pequeno chega a ser at&#233; complementar &#224; tem&#225;tica abordada &#8212; o que &#233; um pouco engra&#231;ado). Eu n&#227;o vou fazer resenha do livro porque voc&#234;s encontram gente mais competente que eu fazendo isso internet afora, mas vou falar de partes que mais me instigaram e que &#8212; acredite &#8212; me fizeram pensar muito na minha autora favorita, a Natalia Ginzburg. Recentemente li um livro de ensaios dela com um texto em especifico que me tocou muito, sobre a pregui&#231;a da qual ela sempre sentiu muita vergonha e que a fazia acreditar que era menos competente que os outros (a Natalia Ginzburg, veja bem). Depois eu volto na Natalia.</p><p>Desse livro do Chul Han poderia-se ficar horas conversando numa boa mesa de bar: achei muito legal pensar que o sujeito hipervigilante e capturado pela avalanche de informa&#231;&#245;es das redes sociais &#233; um retrocesso evolutivo, j&#225; que quem n&#227;o podia descansar por minutos eram os nossos parentes l&#225; da &#233;poca das cavernas, cujo menor deslize poderia ser fatal. Os avan&#231;os da ind&#250;stria hoje nos permitiriam muitas horas de descanso, n&#227;o fosse o capitalismo, claro, mas temos usado nosso pouco tempo livre para 1. &#8220;auto-aperfei&#231;oamento&#8221; a partir de gurus da internet que prometem exerc&#237;cios capazes de alinhar corpo e mente, desejo e realidade; 2. bisbilhotar a vida de pessoas que nem sequer conhecemos e que produzem conte&#250;dos sobre o que comem, o que vestem, para onde viajam e como VOC&#202; pode chegar at&#233; uma vida daquele jeitinho, se correr bastante atr&#225;s dos seus sonhos (prepare as pernas) ou 3. os charlatanismos mais diversos que cabem dentro do guarda-chuva do autocuidado: skincare, yoga, leitura (que de tanto ver vlog de booktuber eu tendo a achar que ningu&#233;m mais est&#225; lendo de verdade), match&#225; (fala s&#233;rio, quem toma isso, voc&#234; toma? eu nunca tomei) e vers&#245;es de brigadeiro que substituem leite condensado por abacate, ab&#243;bora, banana (spoiler: nenhuma delas &#233; brigadeiro). Esse excesso de positividade, diz o Chul Han, essa busca alucinada pela melhor vers&#227;o de n&#243;s mesmos gera ansiedade, burnout e depress&#227;o, al&#233;m de fragilizar a perspectiva de coletividade, a busca por um bem comum. Vivemos um per&#237;odo p&#243;s-marxista, diz o autor, em que o trabalho n&#227;o mais aliena o sujeito, mas ele pr&#243;prio explora a si mesmo na esperan&#231;a de que isso v&#225; torn&#225;-lo uma pessoa mais realizada.</p><p>E onde entra a Natalia Ginzburg? Em contraposi&#231;&#227;o &#224; depress&#227;o, a doen&#231;a do nosso tempo, que gera in&#233;rcia e destr&#243;i o senso de coletividade (n&#227;o raras vezes levando ao rompimento extremo do indiv&#237;duo com o seu grupo, o suic&#237;dio), o Chul Han observa que a melancolia, essa forma mais antiga de sentir as coisas, estava ligada ao v&#237;nculo, ao outro, associada a perdas, ao luto. E, ao contr&#225;rio da depress&#227;o, a melancolia n&#227;o gera in&#233;rcia: &#233; o pr&#243;prio motor da nossa vida. Amamos as coisas porque sabemos que podemos perd&#234;-las. A melancolia, em muitas ocasi&#245;es, produz as mais finas obras de arte. Ent&#227;o eu lembrei da Natalia porque ela &#233; uma baita melanc&#243;lica e, al&#233;m de tudo, uma desajustada, uma &#8220;pregui&#231;osa&#8221;. Tomando por pregui&#231;a o ato de se negar a ser a melhor vers&#227;o de voc&#234; mesma. E nesse texto dela ao qual me refiro e que se chama A pregui&#231;a e est&#225; no livro N&#227;o me pergunte jamais ela escreve: &#8220;Salvo criar filhos, fazer as tarefas dom&#233;sticas com lentid&#227;o extrema e inaptid&#227;o e escrever romances, n&#227;o havia feito mais nada na vida&#8221;. Ela n&#227;o est&#225; sendo ir&#244;nica hahahah, e continua: &#8220;Sempre fui muito pregui&#231;osa. Minha pregui&#231;a n&#227;o consistia em dormir at&#233; tarde de manh&#227; (sempre acordei com o amanhecer e nunca tive dificuldade em me levantar), mas em perder um tempo infinito com o &#243;cio e a fantasia. Era por isso que eu nunca conclu&#237;a um estudo ou um trabalho&#8221; (p. 30). Esse &#233; um ensaio dela sobre uma &#233;poca da vida em que ela estava h&#225; um tempo longe do mercado de trabalho &#8220;s&#243;&#8221; escrevendo romances e criando filhos sozinha porque o marido tinha sido assassinado. Natalia fugia da persegui&#231;&#227;o nazista no meio disso tudo e tinha vergonha e medo de que as pessoas descobrissem esse grande segredo dela, essa pregui&#231;a enorme que ela sentia. As muitas horas que ela passava fazendo nada.</p><p>Foi a pregui&#231;a da Natalia e a sua melancolia que tornaram sua obra t&#227;o original, sens&#237;vel e atemporal. Se ela estivesse ocupada demais se auto-aperfei&#231;oando e buscando a melhor vers&#227;o dela mesma ou indo atr&#225;s de cura para a tristeza que sentia, haveria L&#233;xico Familiar? Eu acho que n&#227;o. Meus artistas favoritos seguem sendo aqueles e aquelas que se apresentam com a cara lavada, o gatinho no colo e falam da vida, das rela&#231;&#245;es com os outros, do que perderam e do que s&#243; se deram conta que era felicidade quando j&#225; era tarde demais. Gente que na vida perdeu parentes, fracassou e n&#227;o ia bem na escola. Gente que n&#227;o est&#225; com a academia e com a terapia em dia, mas que presta aten&#231;&#227;o de verdade no que as outras pessoas dizem, e n&#227;o responde, mas fica horas pensando, horas fazendo nada e reinventando o mundo em sua formid&#225;vel cabe&#231;a pregui&#231;osa.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://anacarowlina.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading &#193;tomo! 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Mesopot&#226;micos, hebreus, gregos, abor&#237;genes, tupinamb&#225;s, guaranis&#8230; cada povo tem uma hist&#243;ria para tentar explicar per&#237;odos de grandes cheias e imensa destrui&#231;&#227;o. &#201; preciso tentar explicar. Penso que, se n&#227;o organiz&#225;ssemos em linguagem, se n&#227;o pass&#225;ssemos &#224;s novas gera&#231;&#245;es o sofrimento vivido atrav&#233;s de hist&#243;rias, acho que j&#225; ter&#237;amos todos sido tragados pelo grande trauma de estarmos vivos. O mito abriu caminho e provavelmente seja ele o barqueiro da humanidade.</p><p>Minha hist&#243;ria de dil&#250;vio favorita &#233; a da Boitat&#225;, na variante que escutei aqui no Sul. Nessa hist&#243;ria, o mundo era antes uma imensa noite, por muito tempo. Depois veio uma forte chuva que durou dias e dias e engoliu tudo, at&#233; as montanhas. Poucas pessoas e animais conseguiram sobreviver. Um deles foi a boigua&#231;u, a cobra-grande, que esperou na &#225;rvore mais alta da floresta at&#233; que a &#225;gua baixasse. Quando os rios voltaram a seu curso normal, a cobra desceu da &#225;rvore e encontrou boiando v&#225;rios corpos de diversas criaturas mortas. Ela sentia muita fome. Desesperada, devorava os olhos das criaturas; curiosamente, comia s&#243; os olhos. Esses olhos guardavam o brilho do que haviam visto pela &#250;ltima vez e, conforme a cobra se alimentava, ela ia incorporando o brilho daqueles tristes olhares e adquiria uma luz forte, azulada e fria. Os ind&#237;genas que viram a boigua&#231;u daquele jeito n&#227;o a reconheceram e passaram a cham&#225;-la de Boitat&#225;, a cobra de fogo (m&#8217;boi em tupi &#233; cobra e tata, fogo). A Boitat&#225; se alimentou de muitos olhos at&#233; ficar enorme, n&#227;o aguentar mais e finalmente explodir, espalhando aquela claridade por toda a parte, dando origem a todo o universo e ao nosso sol, trazendo o dia &#224;quele povo desamparado.</p><p>Essa &#233; a minha hist&#243;ria favorita por v&#225;rios motivos: primeiro porque &#233; como um big-bang e s&#243; comprova que o pensamento dos povos origin&#225;rios &#233; (tamb&#233;m) cient&#237;fico. Eu tamb&#233;m gosto muito desse mito pela ingenuidade, ou pretens&#227;o, ou coragem de colocar no centro de todo o universo algo t&#227;o fugaz: o nosso olhar. &#201; o brilho do nosso olhar que d&#225; origem ao cosmos. Talvez porque n&#227;o fizesse sentido antes, quando n&#227;o exist&#237;amos para ver as estrelas e inventar hist&#243;rias sobre elas.</p><p>Racionalmente falando, at&#233; onde chega nosso entendimento, n&#227;o est&#225;vamos aqui no come&#231;o do mundo e certamente n&#227;o estaremos em seu final; existimos mediante uma s&#233;rie de acidentes c&#243;smicos incontrol&#225;veis. Um dos mais not&#225;veis foi o meteoro que causou uma noite imensa (como na hist&#243;ria da Boitat&#225;) e destruiu quase 90% da fauna existente na Terra h&#225; milh&#245;es de anos para que outras formas de vida tivessem vez, inclusive nossos parentes antigos, uns animaizinhos pequenos que jamais seriam p&#225;reo para os dinossauros. Voc&#234; j&#225; parou para pensar nisso? Trabalhando com crian&#231;as, eu me vejo pensando nisso todos os dias. Outro dia, em uma atividade sobre gratid&#227;o, uma aluna agradeceu ao meteoro e eu achei bastante perspicaz da parte dela.</p><p>Estamos aqui como homo sapiens h&#225; mais ou menos uns duzentos mil anos, um piscar de olhos nessa dan&#231;a celestial, mas nos sentimos especiais porque ningu&#233;m modificou o mundo como n&#243;s, sobretudo ap&#243;s a Revolu&#231;&#227;o Industrial. Criamos algumas coisas belas e outras terr&#237;veis. Normal se sentir especial, mas bem perigoso tamb&#233;m.</p><p>Esse &#8220;desenvolvimento&#8221; cobra um pre&#231;o. O Davi Kopenawa na Queda do C&#233;u, um livro ao qual todo mundo deveria ter acesso, alerta para o perigo de mexer no que est&#225; nas entranhas da Terra; tirar de l&#225; o ouro, petr&#243;leo, mexe com o equil&#237;brio do planeta, adoece as pessoas e a floresta. Certas coisas precisam ficar estabilizadas no cora&#231;&#227;o da Terra para que o c&#233;u n&#227;o caia sobre nossas cabe&#231;as: isso &#233; uma sabedoria antiga. Retroceder no impacto ambiental parece ser imposs&#237;vel, mas ainda podemos frear essa destrui&#231;&#227;o para que mais trag&#233;dias como as do RS n&#227;o aconte&#231;am. Isso passa por parar de abra&#231;ar o discurso nacional-desenvolvimentista de que precisamos de mais e mais petr&#243;leo e cobrar os governantes por uma agenda ambientalista radical de verdade. A ind&#250;stria do petr&#243;leo e o agroneg&#243;cio est&#227;o acabando com a gente. Sobre isso, indico leitura do <a href="https://www.intercept.com.br/2024/05/07/solidariedade-e-essencial-mas-a-crise-climatica-exige-acoes-energicas-do-estado/">artigo da Sabrina Fernandes no Intercept</a> sobre o tema.</p><p>Como internet virou esse lugar onde a gente se justifica por tudo, quero dizer que n&#227;o tenho a inten&#231;&#227;o de insinuar que sairemos melhor disso tudo ou que a trag&#233;dia veio para nos ensinar algo. N&#227;o veio e n&#227;o sairemos melhores, estamos todos de cora&#231;&#227;o estra&#231;alhado e cheios de ecoansiedade. Eu tenho um carinho muito grande por gente diretamente afetada por essa trag&#233;dia e &#233; tudo muito, muito triste. Por isso quero usar esse espacinho para indicar algumas iniciativas que podem ajudar o povo ga&#250;cho (j&#225; que quem pode ajudar de verdade n&#227;o se move, cabe a n&#243;s a partilha do pouco que temos):</p><p>A Nat&#225;lia Frazza &#233; minha amiga escritora e mora em Canoas/RS, uma das cidades mais afetadas pelas chuvas. A fam&#237;lia dela perdeu tudo e ela t&#225; fazendo uma a&#231;&#227;o de venda do livro dela para ajudar, <a href="https://www.instagram.com/p/C6wYMXkLqUc/">clica aqui</a> pra saber mais.</p><p>Por falar em c&#233;u, tem a <span class="mention-wrap" data-attrs="{&quot;name&quot;:&quot;B&#225;rbara Ariola&quot;,&quot;id&quot;:82449815,&quot;type&quot;:&quot;user&quot;,&quot;url&quot;:null,&quot;photo_url&quot;:&quot;https://bucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com/public/images/b25284e1-9e11-4d4d-9448-10137c0023c8_750x1334.jpeg&quot;,&quot;uuid&quot;:&quot;0db237ae-baa4-4ab6-aa36-5eb556fffd25&quot;}" data-component-name="MentionToDOM"></span> que se ocupa de olhar para o c&#233;u e fazer previs&#245;es e tamb&#233;m &#233; minha amiga e tamb&#233;m est&#225; com uma a&#231;&#227;o para ajudar o povo ga&#250;cho que consiste na venda de uns cursos dela com um excelente desconto e todo o valor arrecadado vai para a reconstru&#231;&#227;o de aldeias ind&#237;genas afetadas pelas enchentes. <a href="https://www.instagram.com/p/C6y_L_wLomx/?img_index=1">Clica aqui</a> para saber mais.</p><p>Se for para enviar pix para alguma institui&#231;&#227;o, indico o <a href="https://www.instagram.com/p/C6rF0M0REUp/">MST</a>, que &#233; organizado e confi&#225;vel ou para<a href="https://www.instagram.com/p/C64Xy_fu8du/?img_index=7"> alguma comunidade ind&#237;gena</a> que vai precisar de muita ajuda para se reerguer.</p><p>A <span class="mention-wrap" data-attrs="{&quot;name&quot;:&quot;Tati Guedes&quot;,&quot;id&quot;:35250623,&quot;type&quot;:&quot;user&quot;,&quot;url&quot;:null,&quot;photo_url&quot;:&quot;https://bucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com/public/images/93ccd7e4-16e0-4d85-9076-4cdb961e64fe_400x400.jpeg&quot;,&quot;uuid&quot;:&quot;d796fc25-25bb-408b-b989-5ef8489f7e78&quot;}" data-component-name="MentionToDOM"></span> t&#225; com uma a&#231;&#227;o de compra de ra&#231;&#227;o para animaizinhos ga&#250;chos, tamb&#233;m vale dar uma olhada e ajudar.</p><p></p><p>Toda essa conversa de cosmos me lembrou de um trecho do Erasmo no Elogio da Loucura que eu li no livro do Foucault, Hist&#243;ria da Loucura, h&#225; um mont&#227;o de anos e nunca esqueci: </p><p></p><p>&#8220;Em suma, se pudessem olhar da Lua as in&#250;meras agita&#231;&#245;es da Terra, como outrora Menipo, acreditariam ver um enxame de moscas ou mosquitos que lutam entre si, combatem-se e preparam-se armadilhas, voam, brincam, pulam, caem e morrem, e n&#227;o se pode imaginar que perturba&#231;&#245;es, que trag&#233;dias produz um t&#227;o min&#250;sculo animalzinho destinado a logo perecer.&#8221;</p><p></p><p>Que bichinhos infelizes n&#243;s somos. Um pouco encantadores, mas t&#227;o infelizes.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://anacarowlina.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigada por me ler. Se quiser, coloca aqui seu email que de vez em quando voc&#234; vai receber um texto viajado desse na sua caixa de entrada.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Velha roupa colorida]]></title><description><![CDATA[Poucas coisas nos colocam t&#227;o diante de n&#243;s mesmas quanto uma mudan&#231;a]]></description><link>https://anacarowlina.substack.com/p/velha-roupa-colorida</link><guid isPermaLink="false">https://anacarowlina.substack.com/p/velha-roupa-colorida</guid><dc:creator><![CDATA[Ana Carolina Gomes]]></dc:creator><pubDate>Sat, 13 Apr 2024 23:24:27 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!9S-X!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fec8b3601-2d81-44e2-81a5-31d2f46962a8_266x266.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>J&#225; mudei de casa algumas vezes. Umas tr&#234;s na inf&#226;ncia e seis na vida adulta. Em nenhuma fui feliz: mudan&#231;a &#233; sempre um momento de enorme sofrimento para mim. Eu sou um animal que gosta da estabilidade de ter o passado sempre ao alcance de uma m&#227;o. Farejar as mem&#243;rias escondidas em gavetas empoeiradas cada vez que o presente n&#227;o me agrada; ficar l&#225; um pouquinho. Me esconder nas recorda&#231;&#245;es feito uma gata que passa dias dentro de um arm&#225;rio. </p><p>&#201; por isso que, para mim, &#233; doloroso jogar fora objetos que me remetem a pessoas que nem sequer fazem parte da minha vida mais. Gente que eu n&#227;o vejo h&#225; 10, 15 anos. Cada pessoa teve sua import&#226;ncia, tem detalhes bonitos e &#250;nicos e conheceu uma vers&#227;o de mim que se perdeu em algum lugar do tempo. Essa vers&#227;o hoje vive na mem&#243;ria dos outros - ou virou p&#243;, quando os outros tamb&#233;m me esquecem. Eu &#224;s vezes tenho vontade de me encontrar com algu&#233;m que me conheceu h&#225; quinze anos e perguntar: quem eu era? Sinto saudade de mim, mas n&#227;o consigo responder a essa pergunta.</p><p>Eu leio os di&#225;rios de inf&#226;ncia, adolesc&#234;ncia e in&#237;cio da vida adulta e busco, desesperadamente, uma pista de quem era aquela menina e para onde ela foi. Tenho a impress&#227;o de que corri demais e a deixei cair pelo caminho. Ela foi substitu&#237;da por uma vers&#227;o c&#237;nica e esnobe de quem nem sempre eu gosto. Hoje n&#227;o estou gostando. Talvez eu tenha que sentar em algum local e esperar por ela - como em um livro lindo da Olga Tokarczuk que li. Esperar que minha alma volte para mim. Me angustia me livrar de objetos do passado porque eu n&#227;o sei se minha alma vai me encontrar sem eles. Ela que talvez tamb&#233;m me fareje por a&#237;, nas oferendas que deixei pelo mundo, e quem sabe at&#233; sinta saudade do que vivemos.</p><p>Mas &#233; um pouco dif&#237;cil ser assim e as pessoas nem sempre entendem. Eu mesma acho o m&#225;ximo quando algu&#233;m &#233; bem clean, tem um guarda-roupa c&#225;psula super funcional e uma casa que nunca fica suja e cheia de &#225;caros e pelos de gatos que entram no nosso pulm&#227;o e deixam a gente sufocada. Fico me perguntando: sou acumuladora? Eu n&#227;o queria ser acumuladora. </p><p>Eu gosto de ter um relacionamento longo, emprego p&#250;blico que dura uma eternidade, eu gosto de ter uma casa que eu nem tenho ainda mas que &#233; onde eu vou viver at&#233; morrer (provavelmente de complica&#231;&#245;es respirat&#243;rias ap&#243;s uma vida de neglig&#234;ncia &#224;s diversas alergias). Eu gosto disso. De mudar eu n&#227;o gosto, fa&#231;o porque preciso. Mas l&#225; se foram uns quinze sacos de lixo nessa mudan&#231;a que fiz sozinha com as minhas recorda&#231;&#245;es (e a ajuda valiosa de amigas incr&#237;veis). Na minha casa nova n&#227;o cabe todo o meu passado. Selecionei o que fica em duas pequenas caixinhas, o que me entristeceu, mas tamb&#233;m me proporcionou uma paz indescrit&#237;vel. Dif&#237;cil andar com o peso de tanta mem&#243;ria, as costas v&#227;o encurvando. Eis que abre-se espa&#231;o para o novo. No meu bra&#231;o esquerdo h&#225; dez anos vive um p&#225;ssaro preto, blackbird, que me responde: tudo j&#225; ficou pra tr&#225;s.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://anacarowlina.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading &#193;tomo! 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Eu acho a vida desperta bem interessante, n&#227;o me entenda mal, mas nessa noite eu salvei meu pai da morte e pilotei a Millennium Falcon lan&#231;ando m&#237;sseis nas naves inimigas&#8230; numa mesma noite.</p><p>Quando eu era crian&#231;a me angustiava a hora de dormir e a insond&#225;vel solid&#227;o &#224; qual nos entregamos quando fechamos os olhos. Sonhar sempre foi um grande evento para mim, mesmo quando a vida on&#237;rica era uma cole&#231;&#227;o de cl&#225;ssicos pesadelos: com o predador, com a Cuca, com a minha casa pegando fogo e eu sem tempo de salvar a minha boneca. Tinha os sonhos que se repetiam e tamb&#233;m um ou outro que eu sonhei s&#243; uma vez e nunca me esqueci. Certa feita, por exemplo, sonhei que estava no a&#231;ougue do bairro, do portugu&#234;s Justino, e, enquanto esperava ser atendida, me via no espelho do a&#231;ougue e eu n&#227;o era mais eu, mas era eu: preservava meu corpo, mas minha cabe&#231;a era um desenho que eu tinha feito com uma caneta dessas douradas de gel que eram moda nos anos 90. Eu me olhava, intrigada, e talvez em algum lugar j&#225; pensasse: aqui eu posso ser quem eu quiser.</p><p>Hoje sonhei que minha m&#227;e me ligava chorando e dizia para eu ir r&#225;pido, mas n&#227;o me explicava o que era. Eu pensava: algu&#233;m est&#225; prestes a morrer. No sonho eu estava, de repente, no meu antigo quarto, na minha casa no Munhoz, o bairro onde eu cresci. Eu s&#243; abria a porta e via um corpo estendido no ch&#227;o e meu cora&#231;&#227;o gelava, mas era s&#243; o meu irm&#227;o dormindo. Ele acordava e me falava que meu pai estava no quarto, que ele estava passando mal e ia morrer. Eu abria a porta do quarto e l&#225; estava ele, o corpo arqueava buscando ar, estava inconsciente. Mas estava quente, n&#227;o era o corpo gelado do qual eu tenho a &#250;ltima lembran&#231;a. Eu chegava pertinho do meu pai e o abra&#231;ava e falava no seu ouvido que o amava tanto, tanto, e que eu queria que ele me visitasse em Floripa, que eu adorava a comida dele, falava assuntos nossos e ele de repente foi recobrando a consci&#234;ncia, foi melhorando e acordou. E, como num passe de m&#225;gica, meu falat&#243;rio em seu ouvido o salvou da morte.</p><p>Acordei &#224;s 04:30 com os gatos fazendo bagun&#231;a e n&#227;o consegui dormir mais, mas tudo bem porque estou de f&#233;rias e posso repor esse sonho numa siesta &#224; tarde. Levantei e fiquei pensando que, sim, talvez narrar seja um dos muitos jeitos de n&#227;o deixar as pessoas irem embora. Enquanto eu puder falar do meu pai, em algum lugar eu o salvo e ele desperta do reino dos mortos para ficar um pouquinho mais comigo.</p><p>Nesse ano j&#225; v&#227;o se completar 15 anos desde sua morte e eu fico intrigada com esse luto em ondas. &#192;s vezes ainda parece que aconteceu h&#225; pouco tempo e me vejo desnorteada de existir um mundo inteiro sem meu pai. &#201; uma sensa&#231;&#227;o de desarrimo muito grande. &#201;ramos muito apegados e nos entend&#237;amos muito, eu n&#227;o me lembro de nunca ter brigado com o meu pai, o que me faz pensar: que sorte. Tanta gente passa uma vida sem conhecer esse amor. Para o meu pai eu era mesmo a hero&#237;na dos meus sonhos, capaz de pilotar uma Millennium Falcon e salvar o mundo da bandidagem, embora o sonho dele mesmo fosse que eu apresentasse o Jornal Nacional. Tudo que eu fazia era bonito e interessante para ele e essa aprova&#231;&#227;o inicial me fez levar a vida mais leve, sem esperar a aprova&#231;&#227;o de todos os outros.</p><p>N&#227;o tem conclus&#227;o esse texto. Acho que &#233; s&#243; um aviso para mim mesma de que lembrar e sentir saudade &#233; tamb&#233;m uma esp&#233;cie de felicidade (&#224;s vezes a &#250;nica que resta).</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://anacarowlina.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigada por me ler :) se quiser receber outros textos, coloca seu e-mail aqui:</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Viver como se amanhã eu fosse ganhar na mega]]></title><description><![CDATA[Um ano a mais &#233; um ano a menos]]></description><link>https://anacarowlina.substack.com/p/viver-como-se-amanha-eu-fosse-ganhar</link><guid isPermaLink="false">https://anacarowlina.substack.com/p/viver-como-se-amanha-eu-fosse-ganhar</guid><dc:creator><![CDATA[Ana Carolina Gomes]]></dc:creator><pubDate>Sun, 31 Dec 2023 01:48:51 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!9S-X!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fec8b3601-2d81-44e2-81a5-31d2f46962a8_266x266.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Existem esses pobres dias entre 28 e 31 de dezembro, que ficam flutuando entre a nossa vida velha mofada e a vida nova para a qual olhamos e suspiramos, apaixonados. Esses dias s&#227;o feitos pra gente sonhar e se perdoar. Geralmente nesse per&#237;odo eu (muito de n&#243;s) fa&#231;o (fazemos) minha (nossa) &#250;nica aposta em jogo de azar do ano, o jogo de azar regulamentado pelo Estado, claro, e tamb&#233;m o mais dif&#237;cil de ganhar, a mega-sena da virada. Seis numerozinhos infelizes. Hoje perguntei para o meu marido se ele deixaria pessoas encapuzadas me levarem embora em troca de 570 milh&#245;es de reais e ele levou tr&#234;s segundos para responder que n&#227;o.</p><p>Para o dinheiro tenho alguns planos. Eu doaria, evidentemente, uns bons milh&#245;es para causas ambientais e ind&#237;genas, financiaria a campanha do Boulos e do Marquito aqui em Floripa, ajudaria a Palestina, construiria uma casa no meio da floresta com uma biblioteca cujas paredes seriam todas de vidro, ajudaria mil parentes, teria uma personal trainer, faria esses neg&#243;cios de colora&#231;&#227;o pessoal a partir dos quais a gente s&#243; se veste bonita, pagaria viagens para os meus amigos, faria o Caminho de Santiago e jantaria com o Paulo Coelho, subiria o Monte Fuji etc. Mas me peguei pensando que se eu ganhasse na mega eu finalmente me dedicaria &#224; escrita e isso me deixou triste. Eu n&#227;o preciso ser multimilion&#225;ria para viver esse sonho besta: acordar todos os dias, tomar o meu caf&#233; e escrever um pouquinho. Eu posso anotar meus devaneios, escrever uma carta para minha m&#227;e, uma historinha para o meu afilhado, um poema para o meu gato sem ficar esperando que um dia eu v&#225; acordar e me tornar a Natalia Ginzburg. </p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://anacarowlina.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading &#193;tomo! 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Minha casa &#233; muito pequena, eu tenho muitos livros e me sinto sufocada por tanto cacareco (sem falar a rinite, peloamordedeus). Para 2024 eu tamb&#233;m desejo menos telas (ah t&#225;), e que eu me mantenha lendo bastante, n&#227;o mais do que eu j&#225; leio, o tanto que eu leio t&#225; bom, talvez s&#243; me falte ler com mais rigor. Quero ler melhor. &#201; que, se eu ler mais, acho que posso ficar louca. Tamb&#233;m desejo para 2024 ter menos medo de ficar louca. Desejo continuar estudando e pensar num tema de estudos para o mestrado; me matricular em disciplinas como ouvinte, talvez. E fazer algum curso de literatura ou escrita por prazer.</p><p>Desejo pegar mais firme na academia, continuar indo tr&#234;s vezes na semana, mas sem faltar quando eu estou menstruada ou de TPM ou com c&#243;lica de ovula&#231;&#227;o ou estressada com os alunos sen&#227;o quase n&#227;o sobra mesmo dia para treinar. Desejo tomar meus litros di&#225;rios de ch&#225;s, dormir minhas horas necess&#225;rias, seguir minhas rotinas que me fazem um bem danado.</p><p>Desejo ver o sol nascer mais vezes, nadar mais no mar, observar os passarinhos em seus diversos ciclos: acasalando, fazendo os ninhos, chocando, cuidando do beb&#234;, ensinando a voar. Eu encontrei uma carta que escrevi para mim mesma no auge da pandemia e nela eu sonhava com uma vida bem igual a que eu tenho hoje, com um ou outro detalhe a mais que o tempo se encarregar&#225; de corrigir - ou n&#227;o - mas eu sonhei tanto com o que eu tenho hoje. N&#227;o posso perder isso de vista, essa imensa d&#225;diva.</p><p>A 2023 agrade&#231;o pela sa&#250;de, pelo trabalho, pela paci&#234;ncia e at&#233; pela solid&#227;o que em tantos momentos me machucou. E n&#227;o agrade&#231;o por mera formalidade ou positividade t&#243;xica (odeio gente gratiluz). Eu agrade&#231;o porque acredito que era a &#250;nica forma poss&#237;vel que eu tinha para viver naquele momento, e eu aprendi com isso. Lendo Cartas a um jovem poeta esses dias relembrei da li&#231;&#227;o preciosa de Rilke ao jovem e aflito Kappus: <strong>a vida tem raz&#227;o, seja como for</strong>.</p><p>Aos 33, talvez eu esteja come&#231;ando a entender.</p><p>Adeus, ano velho. Eu n&#227;o vou prometer escrever mais por aqui porque eu n&#227;o vou cumprir. Te desejo promessas vi&#225;veis e amores poss&#237;veis. E boa sorte, seja na mega da virada ou na arruma&#231;&#227;o da mesinha de estudos. Se ganhar na mega, n&#227;o esquece de mim, me manda um pix, me chama pra uma viagem extravagante com tudo pago?</p><p></p><p>Feliz ano novo, terr&#225;queos. Um brinde a n&#243;s.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://anacarowlina.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading &#193;tomo! 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Tenho pavor de viajar de avi&#227;o. Mas nem sempre foi assim.</p><p>Eu lembro da primeira vez que viajei de avi&#227;o, eu tinha acabado de completar nove anos e vestia uma jardineira xadrezinha muito elegante. Est&#225;vamos indo visitar minha tia em Recife, eu ia conhecer novos parentes e estava ansiosa. Viajava com o bra&#231;o enfaixado porque havia machucado meu ded&#227;o no caminh&#227;o. Lembro de muitos detalhes daquele dia, inclusive de ir na janelinha do lado do meu pai. Minha m&#227;e e meu irm&#227;o foram no outro banco. Lembro de um senhor no avi&#227;o fazendo um esc&#226;ndalo quando a comiss&#225;ria pediu para ele se sentar, lembro que achei muito chique poder pedir um suco e lembro que fui ao banheiro no avi&#227;o porque queria ver como era. Lembro das nuvens, do frio na barriga de quando o bicho levantou voo, mas eu n&#227;o me lembro de em nenhum momento ter sentido medo. Jamais me ocorria, &#224;quela &#233;poca, que minha vida ou a de algu&#233;m que eu conhecesse simplesmente poderia ser interrompida. </p><p>Eu tenho muita pena das crian&#231;as que convivem com a morte desde pequenininhas, porque a morte &#233; realmente como aquela criatura meio r&#233;ptil e meio cavalo do livro da JK Rowling, o testr&#225;lio. Depois que voc&#234; a viu, ela fica com voc&#234;. E quem n&#227;o a conhece dificilmente vai te entender. A morte te cobre com um manto de solid&#227;o e ang&#250;stia que te acompanham durante o seu percurso por aqui. Por mais que tenhamos momentos alegres, e h&#225; muitos, eventualmente o testr&#225;lio nos aparece. E ele &#233; doce e nos desperta carinho, mas ele nos lembra de quem nos deixou e isso nunca para de doer. Acho um fardo pesado para uma crian&#231;a pequena e fico agradecida por ter conhecido a morte relativamente tarde, aos 15 anos, quando meu v&#244; Z&#233; morreu ap&#243;s muito tempo doente.</p><p>Depois que algu&#233;m morre, voc&#234; se d&#225; conta de que as pessoas s&#227;o morr&#237;veis e isso &#233; horroroso. Voc&#234; se pega o tempo todo pensando que um desastre pode acontecer para bagun&#231;ar a sua vida de novo, voc&#234; nunca mais se entrega a um bom momento porque tem medo de que ele seja interrompido; voc&#234; n&#227;o quer ser pega de surpresa. Voc&#234; sabe que o fim &#233; certo, mas, diferentemente das outras pessoas, voc&#234;, que &#233; super sabida e especial, estar&#225; preparada. A morte te faz prepotente. Voc&#234; entra em um avi&#227;o e pensa: ele vai cair, ele com certeza vai cair. Por que raios n&#227;o cairia? Eu estou aqui.</p><p>Eu sempre fui ansiosa. Eu era ansiosa a ponto de desintegrar uma prova com o suor da minha m&#227;o, de travar em apresenta&#231;&#227;o de semin&#225;rio e ter caganeira para conversar com o crush. Mas eu n&#227;o tinha medo de avi&#227;o. Eu tinha ang&#250;stia de viver - e n&#227;o de que tudo acabasse de repente. Isso foi a morte que me trouxe.</p><p>Quando minha vida est&#225; muito boa, eu fecho os olhos para dormir e sinto um pouco de vontade de chorar. Come&#231;o a imaginar que algo m&#225;gico vai acontecer, algo incr&#237;vel, e depois vir&#225; o desastre; sonho com maternidade, mas meu filho vir&#225; doente ou morto. Meu marido vai morrer, eu vou descobrir um c&#226;ncer e morrer, meus gatos v&#227;o morrer, meus parentes v&#227;o todos morrer. &#201; um inferno.</p><p>Lembro de quando eu lia Peter Pan, naquela &#233;poca mesmo em que eu conheci o avi&#227;o, e de entend&#234;-lo muito bem: eu tamb&#233;m n&#227;o queria crescer. O menino se aventurava e arriscava e respondia com atrevimento que a morte seria a maior das aventuras. Eu pensava daquele jeito e sinto saudade disso, dessa menina corajosa que eu nunca mais consegui ser. Hoje eu jogo meu corpo no mundo morrendo de pavor e, naquele tempo, eu impregnava as paredes do meu pequeno quarto com a minha bravura. De vez em quando, me pego pensando: onde eu estaria, se n&#227;o fosse a morte? </p><p>Talvez ainda naquele quartinho cheio da coragem que me serviu, fortaleceu e protegeu para crescer. Pensando bem, quem expulsa a gente de casa e nos impulsiona a viver &#233; a morte. A real for&#231;a motriz da vida &#233; ela: quem faz a gente se enfiar em um p&#225;ssaro de ferro de 100 toneladas, mesmo se cagando de medo, porque tudo pode mesmo acabar de uma hora para outra, ent&#227;o n&#227;o d&#225; para perder tempo.</p><p>Eu sa&#250;do a morte, essa amiga que me acompanha h&#225; uns dezessete anos. Mas agora acho ok tomar um remedinho para viajar de avi&#227;o numa boa sem aquela palpita&#231;&#227;o e falta de ar. Ningu&#233;m merece.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://anacarowlina.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscrever-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading &#193;tomo! 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Eu escrevia os textos com capricho em um caderno e depois, geralmente ap&#243;s a meia-noite, quando a internet ficava mais barata, eu digitava no blog e postava. A gente escrevia sobre atualidades, coisas que t&#237;nhamos lido, escola, vestibular e - pasmem - nostalgia. Rio muito de lembrar daquela adolescente que j&#225; se atrevia a pensar que a vida de antes fora melhor. Aquele quase nada de vida. Eu era uma militante pacifista naquela &#233;poca, minha maior refer&#234;ncia de vida era a Jan Rose Kasmir, uma estudante de ensino m&#233;dio que em 1967 foi fotografada em frente a um batalh&#227;o de soldados armados com uma flor na m&#227;o pedindo para que eles parassem a guerra no Vietn&#227;. Eu tinha uma camisa igual a dela e talvez secretamente (ou n&#227;o t&#227;o secretamente, afinal eu escrevia disso no blog) eu at&#233; quisesse viver naquele tempo e espa&#231;o, lutar por uma causa maior, me colocar diante de um pelot&#227;o de fuzilamento, parar um tanque de guerra com uma margarida e viver um amor livre. Minha vida n&#227;o era t&#227;o emocionante. Eu vivia em Guarulhos, estudava na Zona Leste, tinha muitas espinhas, nunca tinha beijado ningu&#233;m nem beijaria num futuro pr&#243;ximo, mas lia muito e imaginava como ningu&#233;m. Quando voc&#234; &#233; muito t&#237;mida, s&#227;o incont&#225;veis as situa&#231;&#245;es em que voc&#234; fica depois, na sua casa, conjecturando o que poderia ter sido. Chega a ser meio cansativo: voc&#234; vive a vida real e aquela vida na sua cabe&#231;a com as festas para as quais voc&#234; seria convidada e iria com as roupas mais descoladas e falaria coisas espirituosas e n&#227;o teria os dentes tortos e todo mundo ia querer ser seu amigo e voc&#234; ia morar fora do pa&#237;s e ser uma rep&#243;rter investigativa e ter uma casa s&#243; sua e falar franc&#234;s fluentemente. Voc&#234; planeja cada detalhezinho e a realidade tende a ficar menos densa, menos impositiva e at&#233; mais male&#225;vel. Eu acho que o Manuel Bandeira talvez fosse um sujeito meio introvertido porque ele escreveu aquele poema sobre o porquinho da &#205;ndia e tamb&#233;m aquele outro em que ele admite que qualquer sofrimento &#233; desnecess&#225;rio j&#225; que ele tem o pensamento livre na noite. Aben&#231;oados sejam aqueles que vivem um dia de bosta e &#224; noite deixam os pensamentos vagarem para os vales mais distantes. Acho que nada &#233; mais nosso que os sonhos, talvez por isso eu goste tanto de sonhar. Ontem mesmo fui para a R&#250;ssia, hoje invoquei um esp&#237;rito da floresta. </p><p>Mas eu estava falando sobre o blog. Era f&#225;cil escrever no blog. Eu escrevia muito e era lida pelos meus amigos, e lia os textos deles com o maior entusiasmo. Foi a era de ouro da internet. Eu lia algo, por exemplo, na Caros Amigos, e depois pesquisava e escrevia sobre no blog, me sentia uma jornalista. Escrevia cr&#244;nicas sobre pessoas que eu tinha visto no metr&#244; ou um menino de rua com quem eu tinha conversado. Eu tinha (ainda tenho) um interesse genu&#237;no pelas pessoas que cruzavam meu caminho, queria congelar os momentos e escrevia sem medo de escrever mal. Hoje eu tenho tanto medo de escrever mal que eu n&#227;o escrevo mais nada. Sinto saudade n&#227;o de quem eu era, j&#225; que hoje eu sonho menos e fa&#231;o mais (com meu bra&#231;o o meu viver), mas daquela impulsividade criativa e ing&#234;nua que me fazia terminar os textos com &#8220;aloha, companheiros!&#8221; desejando um bom dia a todos sem em nenhum momento parar para pensar se aquilo era rid&#237;culo. Era s&#243; quem eu era; eu era t&#227;o t&#237;mida, mas sustentava com tanta coragem aquilo que eu era. Isso me deixa orgulhosa.</p><p></p><h1><strong>O que vi e li nos &#250;ltimos dias </strong></h1><p></p><p>Percebi que minhas amigas que t&#234;m news separam umas abas no texto para falar do que leram e assistiram nos &#250;ltimos dias. Achei chic e quis fazer tamb&#233;m, at&#233; pra n&#227;o ficar perdido no instagram. </p><p>Eu assisti &#224;quela famosa trilogia do Richard Linklater (melhor nome de diretor) com o Before Sunrise (1995), Before Sunset (2004) e Before Midnight (2013). Eu j&#225; tinha visto sem muito entusiasmo os dois primeiros, mas nunca tinha assistido ao &#250;ltimo. Foi muito interessante rever sendo adulta, casada e tal. Eu me identifiquei muito com a C&#233;line, seu desejo de salvar o mundo todo, o jeito como finge n&#227;o ligar para os homens, seu apego aos pequenos detalhes das pessoas. &#201; mais f&#225;cil amar o mundo, essa entidade em abstrato, que admitir seus sentimentos diante de outro ser humano. Sei como &#233;. Achei uma hist&#243;ria bonita, comovente, bastante fact&#237;vel, inclusive. Di&#225;logos muito humanos mesmo. Sens&#237;veis, ternos. Foi muito gostoso assistir. </p><p>Tamb&#233;m vi a s&#233;rie do Woody Allen no Prime, Crisis em Six Scenes, e achei surpreendentemente legal, melhor que v&#225;rios dos filmes recentes dele. &#201; bem divertida e at&#233; dialoga com o come&#231;o deste texto, j&#225; que trata de uma jovem ativista procurada pela pol&#237;cia que busca abrigo na casa de um velho meio conservador. </p><p>Hoje vi o aclamado &#8220;Tudo em todo lugar ao mesmo tempo&#8221; e devo dizer que ele me cativou, mas me deixou meio cansada. Desacostumei desses filmes de a&#231;&#227;o cheios de gente se batendo, credo. Mas como ele &#233; at&#233; meio caricato, fica bem engra&#231;ado. Pra mim, tamb&#233;m conversa com o que escrevi anteriormente aqui, j&#225; que o filme fala de uma mulher que precisa visitar mil realidades paralelas para se dar conta, afinal, da preciosidade que &#233; a vida que ela j&#225; tem. &#201; um bom filme, mas ainda acho absurdo que Aftersun n&#227;o tenha sido sequer nomeado ao Oscar de melhor filme. </p><p>Hoje terminei tamb&#233;m Americanah, da Chimamanda Ngozi Adichie e amei um monte. Al&#233;m de ser uma hist&#243;ria de amor super bem contada com personagens complexos e bem desenvolvidos, &#233; tamb&#233;m um mapa do racismo norte-americano como eu nunca tinha lido em texto algum de antropologia ou sociologia na faculdade. &#201; um livro que nos ajuda a pensar tamb&#233;m no nosso pa&#237;s e em como operam as nossas elites (sempre lembrando que aqui tamb&#233;m &#233; terceiro mundo, embora o brasileiro goste de se pensar como ocidental e tal). Gosto muito do jeito de narrar das nigerianas, me prende muito. Uma vez fiz um curso com uma cr&#237;tica liter&#225;ria famosa e ela desdenhou de um livro escrito por uma escritora nigeriana dizendo que &#8220;parecia uma novela mexicana&#8221;. Eu amo uma novela. Li mais de 500 p&#225;ginas em menos de 15 dias em qualquer folga do trabalho, todo dia antes de dormir, at&#244;nita. Qual &#233; o problema de uma hist&#243;ria que voc&#234; n&#227;o quer largar? &#192;s vezes acho que esse povo da academia gosta mesmo &#233; desses livros cheios de palavras dif&#237;ceis que a gente l&#234; s&#243; pra ficar se sentindo burra, voltando a cada par&#225;grafo at&#233; n&#227;o aguentar mais e desistir. Aff.</p><p>Eu tamb&#233;m li esses dias O retrato de Dorian Gray e do que eu mais gostei foi dele morrendo no final, desculpa o spoiler, aquele mis&#243;gino antissemita de merda, mas que experi&#234;ncia foi ler. Eu tenho um instagram pra falar dos livros que eu gosto, eu quase nunca posto mas a arroba &#233; @anacarowlina, me segue l&#225;.</p><p></p><p>Ufa, at&#233; que saiu um texto.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://anacarowlina.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscrever-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading &#193;tomo! 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Ele me explicou que isso &#233; economia b&#225;sica; voc&#234; gasta um pouquinho de azar ali naquele pequeno acidente e depois fica com cr&#233;ditos para ter mais sorte no futuro. Tem alguma hist&#243;ria da Tor&#225; que talvez explique isso, de como Deus uma vez demonstrou sua ira destruindo coisas e n&#227;o pessoas (o criador do antigo testamento era muito temperamental, fico me perguntando se ele ainda estava se acostumando com a gente &#8212; ou se depois se apiedou observando a in&#233;pcia e, por que n&#227;o, a bondade do ser imperfeito que colocou no mundo). O ponto &#233; que, de certa forma, as pessoas naquele tempo estavam t&#227;o acostumadas a atravessar desafios f&#237;sicos extenuantes que quaisquer danos exclusivamente materiais eram vistos como contorn&#225;veis. Porque s&#227;o mesmo.</p><p>Estamos no primeiro m&#234;s do ano e eu j&#225; enfrentei um acidente automobil&#237;stico e uma jararaca que entrou dentro da minha casa. Um desavisado poderia dizer que est&#225; sendo um ano ruim mas, em se tratando de economia de sorte, estamos muito bem, j&#225; que nas duas ocasi&#245;es a minha vida e a de quem eu amo foram poupadas. Al&#233;m disso, o epis&#243;dio do carro me motivou a compartilhar algo que eu escrevi, o que eu n&#227;o fazia h&#225; anos e que me provoca muita vergonha ainda, e o epis&#243;dio da jararaca me motivou a limpar melhor a casa (na realidade, a contratar algu&#233;m para me ajudar, o que eu postergava h&#225; muito tempo por convic&#231;&#245;es pessoais que nem fazem tanto sentido mais. Eu precisava de ajuda. Obrigada, Elayne). </p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://anacarowlina.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscrever-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading &#193;tomo! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscrever-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Parece filosofia barata, mas a forma como manejamos uma simples frustra&#231;&#227;o como a quebra de um copo pode nos ensinar muitas coisas. Eu gosto de pensar que &#233; um evento auspicioso porque isso &#233; lidar com os acontecimentos da vida a partir de uma perspectiva de abund&#226;ncia &#8212; de que o melhor est&#225; sempre por vir. &#201; bonito pensar assim.</p><p>Sei l&#225;, hoje &#233; anivers&#225;rio de S&#227;o Paulo, minha cidade natal, e hoje faz tamb&#233;m exatamente um ano que eu sa&#237; de l&#225; para morar numa ilha onde eu ainda n&#227;o conhecia ningu&#233;m, para trabalhar com algo que era novo para mim, saindo de um apartamento rec&#233;m-reformado perto de tudo para viver num s&#237;tio longe de ag&#234;ncia de banco, farm&#225;cia, padaria. Sa&#237; de S&#227;o Paulo com uma por&#231;&#227;o de inseguran&#231;as mas s&#243; uma certeza: eu seria feliz. Eu tinha que ser.</p><p>De modo algum estou dizendo aqui que as condi&#231;&#245;es materiais de exist&#234;ncia de uma pessoa n&#227;o exercem influ&#234;ncia sobre sua atitude e temperamento, isso seria irrespons&#225;vel, mas &#233; que s&#227;o uma por&#231;&#227;o de copos quebrados no percurso de uma vida, n&#233;. A gente pode esbravejar e fechar a cara ou a gente pode sorrir e agradecer. Eu sorri e agradeci quando, h&#225; seis anos, chamei um rapaz para o meu anivers&#225;rio e ele derrubou um monte de vinho na parede da minha sala. Nunca saiu. Estamos casados at&#233; hoje e ele me ensinou sobre economia de sorte, mas acho que no fundo eu sempre soube.</p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://anacarowlina.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscrever-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading &#193;tomo! 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Um Fox prata de duas portas todo manual, sem ar-condicionado, mas o primeiro carro zero km do meu pai, a verdadeira materializa&#231;&#227;o de um sonho &#8211; naqueles tempos &#225;ureos em que a express&#227;o &#8220;carro popular&#8221; existia e pessoas comuns podiam pagar em um autom&#243;vel um valor que n&#227;o correspondesse a um im&#243;vel de tr&#234;s andares de frente para o mar. Essa &#233; uma hist&#243;ria de amor, saudade, aventura e muitos litros de gasolina.</p><p>Meu pai era um ciumento de carros, n&#227;o deixava a gente pisar com p&#233; sujo nas partes de carpete, brigava se entr&#225;vamos comendo salgadinho, lavava o carro e o lustrava como quem cuida de um diamante raro. Eu achava engra&#231;ado e um tanto quanto desnecess&#225;rio, n&#227;o gostava de carros, pensava que pod&#237;amos andar de &#244;nibus como eu fazia sempre e usar o dinheiro do carro para conhecer Paris, naquela &#233;poca eu s&#243; pensava em conhecer Paris e em como a minha vida mudaria ap&#243;s este acontecimento. Minha vida de fato mudou poucos meses depois, n&#227;o por ter ido a Paris (que s&#243; fui conhecer anos mais tarde), mas porque meu pai morreu subitamente de infarto, jogando a todos n&#243;s num po&#231;o de merda. Pode-se dizer que, por necessidade, essa foi a primeira vez que eu olhei com aten&#231;&#227;o para o carro e, ao observ&#225;-lo sem meu pai por ali limpando e explicando como era bom o motor da wolskwagen, eu s&#243; sentia tristeza e pavor. Eu tinha 18 anos e n&#227;o dirigia, mas fui logo fazer autoescola porque meu irm&#227;o morava em outra cidade e eu precisava levar minha m&#227;e &#8211; que n&#227;o sabia conduzir &#8211; para os lugares. A autoescola foi um completo pesadelo, eu vivia deprimida e ansiosa naquela &#233;poca e sempre achava que um desastre aconteceria a qualquer momento, sa&#237;a das aulas pr&#225;ticas suada e com o pesco&#231;o travado.&nbsp; N&#227;o consegui, evidentemente, aprender a dirigir de modo satisfat&#243;rio, mas tirei a carta e ela ficou guardada numa gaveta por mais de dez anos. O carro seguiu rodando por a&#237; com meu irm&#227;o e viveu as suas aventuras enquanto esperava que eu estivesse pronta.</p><p>No in&#237;cio de 2020, meu irm&#227;o havia me passado o carro ap&#243;s ter comprado um melhor e eu resolvi, n&#227;o sem press&#227;o do Ciro, meu marido, que n&#227;o gostava de ser meu motorista, aprender de verdade a dirigir. Comecei a ir trabalhar de carro, tentando manter a calma, j&#225; que o medo de morrer de covid conseguia superar o de morrer em desastre automobil&#237;stico. Foi dif&#237;cil, mas no fim foi bom, uma mulher precisa dirigir o seu carrinho, e posso dizer que aprendi at&#233; a tirar certo prazer da atividade, todos os dias passando aproximadamente duas horas dentro do carro ouvindo minhas m&#250;sicas e meus podcasts, pensando nas enormidades da vida e lembrando do meu pai, como se ali fosse um local especial de comunica&#231;&#227;o onde s&#243; exist&#237;amos eu e ele. Passamos por momentos lindos, eu e o carrinho. Lembro da nossa primeira viagem solit&#225;ria interestadual, de S&#227;o Paulo a Itatiaia, e de como me senti livre e pertencente a um cl&#227; t&#227;o magn&#237;fico, o das mulheres que dirigem, mulheres que simplesmente pegam a chave do carro e saem por a&#237; sem esperar a boa vontade de ningu&#233;m. Glorioso.</p><p>Em janeiro do ano passado o carro desceu o mapa com a gente, viemos morar em Florian&#243;polis. Era um plano antigo que se tornou vi&#225;vel com o home office do Ciro e a convoca&#231;&#227;o de um concurso que eu havia prestado em 2019. Por aqui, o carro deu altos rol&#234;s com a gente em estradas de terra e areia e serras congeladas. E foi em Floripa que fiz uma amiga t&#227;o maluca quanto eu, a Barbara, e essa hist&#243;ria come&#231;a bem come&#231;ada mesmo no dia em que ela me perguntou o que eu ia fazer nas f&#233;rias de ver&#227;o. Como eu n&#227;o tinha nada em mente, ela prop&#244;s de irmos at&#233; o Uruguai com nossos companheiros logo ap&#243;s o ano novo, descendo pelo litoral, ao que eu respondi prontamente que sim.</p><p>Sa&#237;mos em um dia quente &#224;s 06:30 da manh&#227; com o carro abarrotado de mochilas e caixas com panelas, fogareiro, comidas, barracas. O plano era tornar a viagem a mais econ&#244;mica e ecol&#243;gica poss&#237;vel, por isso acampar&#237;amos em vez de pagar hotel. Fizemos o procedimento padr&#227;o de toda viagem, checamos &#243;leo, &#225;gua, calibramos pneus, estava tudo tranquilo. Partimos. Eu estava animada com a ideia de cruzar uma fronteira nacional dirigindo o meu carrinho.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!xoeT!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F40a15244-a2d8-4894-b997-2772834cf3b5_1544x1160.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!xoeT!, /__u/anacarowlina.substack.com/w_424, /__u/anacarowlina.substack.com/c_limit, /__u/anacarowlina.substack.com/f_webp, /__u/anacarowlina.substack.com/q_auto:good, /__u/anacarowlina.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F40a15244-a2d8-4894-b997-2772834cf3b5_1544x1160.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!xoeT!, /__u/anacarowlina.substack.com/w_848, 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O carro estava tinindo, nos sent&#237;amos super-her&#243;is. Tomamos uma balsa disputada com viol&#234;ncia pelos locais num bairro portu&#225;rio bastante feio mas um tanto interessante para mim, eu que sempre me intrigo pelas coisas feias. Na balsa, vimos algo que nos chocou fortemente e que, pensando em retrospecto, poder&#237;amos interpretar como mau agouro: uma pessoa jogou pela janela do carro uma fralda suja no mar. At&#233; aquele momento &#233;ramos personagens de Kerouak &#225;vidos por experi&#234;ncias, mas aquela fralda cheia de pl&#225;stico e coc&#244; nos trouxe de volta &#224; realidade de mis&#233;ria do cora&#231;&#227;o dos seres humanos. Ficamos meio calados at&#233; cruzar aquele bra&#231;o de mar e enfim chegarmos &#224; maior praia do mundo com seus 254km de extens&#227;o, a Praia do Cassino, conhecida por alguns ga&#250;chos como &#8220;chocolat&#227;o&#8221;. &#201; que a &#225;gua da praia &#233; marrom. N&#227;o de coc&#244;, calma; &#233; por causa de umas algas ou de uns rios que desaguam por l&#225;, ou pelas duas coisas, n&#227;o sei. Uma praia bem peculiar e in&#243;spita que anunciava o tom dessa viagem.</p><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/a94338c9-64e8-4b9c-ad49-af7a7b934892_2016x1512.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/2c1cf46e-2609-425e-928c-2aad4e086f2e_2016x1512.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/2a9fa2bd-5470-41b9-af42-2736aeddf322_2016x1512.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/c25e4fe8-69cb-4d77-bada-cec48e892d7a_2016x1512.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;No dia da nossa visita, a praia do Cassino nem estava t&#227;o chocolatuda&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/99c9c1fd-a148-4c00-8cb7-d3b4d83c1fe2_1456x1456.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p>Ficamos em um camping do Sindicato dos Ferrovi&#225;rios ao lado de um circo politicamente incorreto. Fizemos um macarr&#227;o ao molho pesto no fogareiro, tomamos um banho e nos preparamos para dormir, ou tentar dormir, enquanto ouv&#237;amos o palha&#231;o humilhar crian&#231;as no picadeiro. O dia foi de sol esturricado e a noite era de vento gelado e muito frio dentro da barraca, o que me fez pensar que o extremo sul do Brasil era um pouco como eu imaginava que fosse um deserto e que a vida l&#225; talvez fosse como o que eu lia nos livros do Tempo e o Vento: &#225;rida, bruta e apaixonada. No escuro da barraca eu pensava que minha natureza me colocaria obst&#225;culos para encontrar felicidade em um local t&#227;o seco e sem montanha, caso um dia eu precisasse morar l&#225;, j&#225; que eu era um bicho sortudo de sombra, &#225;gua fresca e mata atl&#226;ntica. Mas que era fascinante poder conhecer isso.</p><p>Acordamos com o nascer do sol e a sinfonia de uma nuvem de maritacas que dormia em uma &#225;rvore em cima das nossas barracas. Era bonito ou assustador como um filme do Hitchcock, a depender da interpreta&#231;&#227;o. Sem muito tempo para refletir a respeito, tomamos nosso caf&#233; e seguimos viagem. Naquele dia nossos p&#233;s pisariam no Uruguai!</p><p>At&#233; aquele ponto do caminho j&#225; hav&#237;amos passado por uma imensid&#227;o de monocultura de soja e ainda passar&#237;amos por muito mais. Eu n&#227;o sabia que o Rio Grande do Sul tamb&#233;m era terra de latif&#250;ndio, mas que ingenuidade a minha, o Brasil inteiro &#233;. &#201; que andar quil&#244;metros e quil&#244;metros sem um localzinho para comer um p&#227;o de queijo, tomar uma &#225;gua, encher o tanque, s&#243; vendo as mesmas plantas e os mesmos passarinhos (que pareciam tizius, provavelmente a &#250;nica esp&#233;cie que sobreviveu na regi&#227;o, deve comer soja) foi t&#227;o desolador. Ap&#243;s algumas horas de pastoesoja chegamos a uma (pode-se dizer, comparando com os latif&#250;ndios que a precedem) pequena reserva que busca resgatar a vegeta&#231;&#227;o original da regi&#227;o, aquela que foi devastada pela soja e pelo eucalipto e pelo pasto, chamada Reserva do Taim. A coisa mais linda do mundo. Fiquei encantada pelas pradarias com suas capivaras, rat&#245;es do banhado, jacar&#233;s, cisnes, flamingos e vaquinhas livres. Foi um dos momentos mais emocionantes da viagem presenciar o que poderia ser toda aquela extens&#227;o do Rio Grande, caso preserv&#225;ssemos nossos biomas naturais.</p><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/5cf9e265-a805-49db-bdff-e2da9f2f2311_2016x1512.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/6c7a1fc9-924d-4eef-8e60-53d2b811c776_2016x1512.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;As lindas pradarias. Aqui vivem as capivaras quando n&#227;o est&#227;o no rio Tiet&#234;!&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/8e800297-11ff-466b-8a32-3b5cb94396cb_1456x720.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p>Mais ou menos pela hora do almo&#231;o chegamos ao Chu&#237;, no extremo sul do Brasil, um peda&#231;o de terra onde se falam dois idiomas e circulam duas moedas. Os uruguaios cruzam a fronteira para fazer compras e abastecer o carro, j&#225; que no Uruguai o litro de gasolina est&#225; R$11,00. Lo siento, hermanos. Sorte de quem mora na fronteira porque o neg&#243;cio l&#225; &#233; meio tenso. Tamb&#233;m aproveitamos para ir ao mercado e encher o tanque. De novo a realidade, impiedosa, se pronunciou quando fomos cortados na fila do posto por uma uruguaia que parecia a Alanis Morissette. Foi bem esquisito ver algu&#233;m que parece a Alanis dirigindo de modo t&#227;o ofensivo e nos tratando com grosseria. E o mo&#231;o do posto ficou do lado dela, o que nos magoou; cad&#234; o patriota quando a gente precisa dele?</p><p>Na fronteira fiquei bem tensa, eu sempre fico tensa ao encontrar autoridades policiais, mesmo quando n&#227;o fiz nada de errado, n&#227;o que eu eventualmente fa&#231;a algo de errado, veja bem. Est&#225;vamos com os documentos todos em ordem e entramos, que emo&#231;&#227;o, mas esquecemos de trocar o dinheiro. Achei que era uma boa ideia trocar com a pr&#243;pria mo&#231;a da imigra&#231;&#227;o sem fazer quaisquer pesquisas de pre&#231;o antes e levei um pequeno golpe, uns vinte centavos por real que eu deixei de ganhar, mas eu estava t&#227;o nervosa que nem pensei nisso. Na verdade, eu achei que quanto menos pagasse melhor seria o neg&#243;cio, matem&#225;tica n&#227;o &#233; meu forte e eu n&#227;o penso direito em espanhol.</p><p>O Uruguai seguiu na linha do Rio Grande, seco e sem montanhas no horizonte, mas com casinhas mais bonitas. Ap&#243;s alguns quil&#244;metros chegamos ao local onde ir&#237;amos acampar, o militarizado Parque Nacional Santa Teresa, com seus mais de 3000 hectares de vegeta&#231;&#227;o preservada, fortes hist&#243;ricos e praias estonteantes. Nem t&#227;o estonteantes para quem estava vindo da Ilha da Magia, verdade seja dita, mas bastante dignas. Um uruguaio numa mesa de bar pode, sim, se gabar de seu litoral, principalmente se estiver bebendo com um ga&#250;cho.</p><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/22ded4da-1a39-4a6b-ae2f-da04600b2d94_1512x2016.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/cfe8e29e-1263-41ee-8d03-bd30a2eabb62_2016x1512.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/59dfeed7-20d7-4d34-80a3-3ad734461cc5_2016x1512.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/7bed32f4-245d-45f8-8222-a13388d2096b_2016x1512.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;Uma motorista orgulhosa e as belas paisagens onde as quatro rodas podem nos levar&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/e6e8fc5b-42b3-4336-b253-5c8dd12ea730_1456x1456.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p>Descobrimos que Santa Teresa era um destino tur&#237;stico bem familiar, o que foi muito legal. Eram mais ou menos R$87,00 por pessoa com direito a tr&#234;s di&#225;rias. Vimos muitas crian&#231;as carregando pequenas toras de madeira para ajudar os pais a montar acampamento e eu adorei, para mim n&#227;o h&#225; som mais reconfortante que risada de crian&#231;a com fundinho de floresta. Estava uma lua cheia bem linda que eu observava entre os pinheiros e vi pela primeira vez na vida um escorpi&#227;o pretinho. Um bicho enigm&#225;tico. Tomei um banho revigorante em um banheiro p&#250;blico sujo e fedido e minha amiga riu quando eu falei &#8220;foi um dos melhores banhos da minha vida&#8221;, mas eu estava sendo sincera: o Uruguai logo de cara me seduziu e me emocionou. Compramos o &#250;nico vinho dispon&#237;vel da pequena tendinha do camping e era um vinho suave horroroso que bebemos com entusiasmo enquanto cont&#225;vamos hist&#243;rias e com&#237;amos arroz com lentilha feito no pequeno fogareiro. Nossa primeira noite no Uruguai foi bem especial para mim.</p><p>No dia seguinte acordamos por volta de 7:30, o que &#233; tarde quando se trata de acampamento, mas est&#225;vamos muito cansados e passamos bastante frio. Eu acordei assustada porque tive pesadelo, sonhei que minha m&#227;e estava doente. Lavamos os rostos e fomos caminhar numa praia do Parque pr&#243;xima a onde est&#225;vamos, lind&#237;ssima. N&#227;o lembro bem, mas acho que foi nesse dia que vi uma arraia ser pescada e fiquei observando a vida abandonar seu pequeno corpo, o que me deixou meio melanc&#243;lica. A bichinha pulsava, a arraia tem um formato de boca que esbo&#231;a um sorriso, ent&#227;o ela se debatia com aquela carinha amistosa at&#233; finalmente enrijecer. Tamb&#233;m vimos carca&#231;as de outros bichos, como tartarugas imensas, e achamos um ossinho de lobo marinho que eu guardei de recuerdo. Agradeci ao imenso mar pela vida, ele que abrigou a todos n&#243;s em tempos imemoriais, e perto da hora do almo&#231;o nos despedimos de Santa Teresa para seguir viagem.</p><p>Nossa pr&#243;xima parada foi Punta del Diabo, onde tentar&#237;amos trocar uns dinheiros. &#201; que s&#243; eu tinha trocado dinheiro na fronteira naquela transa&#231;&#227;o desvantajosa, mas meus amigos foram mais espertos. Punta era um lugar que eu queria conhecer s&#243; pelo nome, mas fui surpreendida positivamente. &#201; uma pena que est&#225;vamos meio que sempre com pressa nessa viagem, o que eu at&#233; agora nem entendi direito, e n&#227;o pudemos sentar num lugar para, sei l&#225;, tomar um mate, comer uma empanada e apreciar com calma aquelas praias diferentes, terrosas, vermelhas, e aquela gente absolutamente bronzeada que parecia nunca na vida ter visto um protetor solar. O uruguaio &#233; antes de tudo um sujeito muito marcado pelo sol.</p><p>Saindo de Punta fomos para um destino muito aguardado. N&#243;s ainda n&#227;o sab&#237;amos, mas aquele seria o melhor e o pior dia de todos: Cabo Pol&#244;nio. Trata-se de uma pequena vila de pescadores muito frequentada por animais marinhos do &#225;rtico como baleias, lobos e le&#245;es marinhos. A gente pegou tipo um caminh&#227;ozinho para cruzar os 7km de areia e conseguimos ir l&#225; em cima, foi m&#243; alto astral. A passagem de ida e volta &#233; tipo uns R$50,00. Al&#233;m de ver os bichos, voc&#234; pode nadar em praias fant&#225;sticas, ver an&#234;monas e gastar at&#233; seu &#250;ltimo centavo em drinks para gringos. L&#225; tem umas casas tortas e coloridas e incr&#237;veis, o pessoal meio que vive sem energia el&#233;trica e existe um farol bem enorme. Uma coisa que eu n&#227;o sabia &#233; que o local me deixaria uma mem&#243;ria olfativa t&#227;o pronunciada: le&#245;es e lobos marinhos s&#227;o barulhentos e fedidos. Mas &#233; que eles estavam em &#233;poca de reprodu&#231;&#227;o e as emo&#231;&#245;es estavam a mil, entre orgias e assassinatos, ent&#227;o nos deparamos com algumas carca&#231;as pelo caminho que cheiravam bem mal. &#8220;Que intenso!&#8221;, eu pensava, e o narrador da minha vida ria &#8220;hahaha! Ela n&#227;o viu nada ainda!&#8221;.</p><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/8af4f8cb-cea8-4c9d-9740-417386212fcc_2016x1512.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/33b44879-b115-4f44-b5bb-4cbc14949aa6_2016x1512.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/cf853f53-3e73-41b1-9a6a-e5a988f44911_2016x1512.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/43dcce9f-f0f9-4cab-b366-311923a70eb0_1456x474.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p>Se eu soubesse o desfecho daquele dia, teria gastado muitos pesos em Cabo Pol&#244;nio, pagado cerveja superfaturada para todos, tomado muitos helados e comprado lembrancinhas. Obviamente n&#227;o tinha como eu saber, se eu soubesse eu teria evitado, mas de alguma maneira meu corpo me avisava desde quando acordei angustiada por um pesadelo e pedi para minha amiga dirigir porque eu n&#227;o estava me sentindo segura. Algo que essa viagem me ensinou &#233; que eu preciso dar mais ouvidos ao que meu corpo me diz. Ele costuma estar certo.</p><p>Sa&#237;mos de Cabo Pol&#244;nio rumo a um pueblito chamado Punta Rubia, a poucos quil&#244;metros de La Paloma, onde hav&#237;amos reservado um airbnb. Eu estava dirigindo em uma rodovia e meus copilotos me avisaram que mais para frente eu viraria &#224; esquerda. Como as estradas do Uruguai at&#233; ent&#227;o tinham se mostrado &#243;timas e bem sinalizadas, imaginei que viraria em uma rotat&#243;ria e seguia a aproximadamente 90km/h quando minha amiga falou &#8220;&#233; aqui que tem que virar&#8221;. As decis&#245;es estupidas que a gente toma, n&#233;? Eu poderia simplesmente ter seguido para retornar l&#225; adiante, mas achei que era uma boa ideia simplesmente virar em alta velocidade, pois pelo menos tive o discernimento de observar os outros carros e vi que tinha um atr&#225;s de mim, se eu diminu&#237;sse ele bateria na minha traseira. Virei a toda, j&#225; arrependida e j&#225; freando, enquanto todos gritavam &#8220;cuidado com a vala!&#8221;. No meio do caminho tinha uma vala, tinha uma vala no meio do caminho. Gra&#231;as a Deus que tinha, o carro podia ter capotado e o estrago seria bem maior. Eu estava tremendo e s&#243; conseguia repetir &#8220;desculpa, desculpa, desculpa&#8221;. Todos sa&#237;mos do carro e imediatamente dois carros pararam para nos auxiliar, dois casais, perguntando se a gente estava bem. Ningu&#233;m tinha se machucado. Eu continuava tremendo e pedindo desculpas, preocupada se iam achar que eu bebi pois eu n&#227;o tinha bebido nenhuma gota, pedia desculpas e secretamente agradecia ao carro, obrigada, obrigada, voc&#234; me protegeu, voc&#234; n&#227;o deixou que a gente se machucasse. At&#233; ent&#227;o eu n&#227;o tinha olhado para ele, quando olhei foi um choque bem grande, me senti culpada por ter feito aquilo com um carro que at&#233; ent&#227;o tinha sido t&#227;o companheiro para mim.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!KBnJ!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F848678be-089f-4eaf-b4aa-86d44f2b9230_2016x1512.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!KBnJ!, /__u/anacarowlina.substack.com/w_424, /__u/anacarowlina.substack.com/c_limit, /__u/anacarowlina.substack.com/f_webp, /__u/anacarowlina.substack.com/q_auto:good, 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Qual a chance? Esse verdadeiro anjo tirou nosso carro da vala, deu uma olhada no estrago e nos explicou que o radiador j&#225; era. Que pod&#237;amos seguir desligando o carro e observando a &#225;gua at&#233; a cidade seguinte, La Paloma, onde encontrar&#237;amos um taller mec&#225;nico, uma oficina de mec&#226;nica. Nossa cabe&#231;a estava completamente zonza, eu nem perguntei o nome daquele sujeito e da esposa dele, ela que fumava e deu um ma&#231;o de cigarros para o Ciro, que havia parado de fumar h&#225; anos, mas ali fumou compulsivamente. Ela dizia: &#8220;Tomalo, lo necesitas m&#225;s que yo. El dinero se recupera, estan todos bien&#8221;. </p><p>Em Punta Rubia conhecemos um dos seres humanos mais lament&#225;veis dessa aventura no Uruguai. Vamos cham&#225;-la de Julia. Simplesmente viramos o carro em alta velocidade em uma rua escondida de terra para chegar na pousada dela e ela dizer &#8220;ah, haha, eu esqueci de tirar o an&#250;ncio do airbnb&#8221;. Quando pedimos se, por favor, ela poderia nos ceder a senha do wi-fi para que pud&#233;ssemos nos comunicar com a seguradora do carro, ela respondeu &#8220;j&#225; tenho trabalho demais, n&#227;o posso ajudar voc&#234;s&#8221;. Eu fico me perguntando por que tem gente que se d&#225; ao trabalho de estar no mundo se &#233; para ser t&#227;o cuzona assim com os outros.</p><p>Para nossa sorte, tem mais gente bacana que gente ruim por a&#237;, pelo menos na Am&#233;rica do Sul, e logo que sa&#237;mos da pousada da Julia encontramos um franc&#234;s que se chamava Marvin, &#8220;como a m&#250;sica dos Tit&#227;s&#8221;, ele mesmo ressaltou, e o Marvin nos cedeu a internet do celular dele para que nos comunic&#225;ssemos com a seguradora e nossas fam&#237;lias. Al&#233;m disso ligou para um amigo dele que tinha um hostel e perguntou se tinha vagas, e tinha, e foi um milagre, pois era dia de reyes, feriado nacional, e todas as pousadas estavam lotadas.</p><p>No hostel que durante o restante viagem ficaria conhecido como &#8220;25 fucking d&#243;lares por cabe&#231;a&#8221; havia wi-fi e caf&#233; da manh&#227;, um verdadeiro luxo, ainda que o caf&#233; da manh&#227; se resumisse a p&#227;o e caf&#233; sol&#250;vel. Por que o uruguaios comem t&#227;o mal? Mas como n&#227;o havia exatamente op&#231;&#245;es, agradecemos ao universo e tentamos descansar. O funcion&#225;rio do hostel fazia piadas com minha inabilidade ao volante e nos ofereceu cigarillos para que relax&#225;ssemos. Ficamos felizes porque pelo menos t&#237;nhamos banheiro com papel higi&#234;nico e &#225;gua quente, o que era um diferencial at&#233; aquele ponto da viagem, e uma cama de verdade com travesseiro. Est&#225;vamos t&#227;o cansados e tristes. Al&#233;m de tudo, acab&#225;vamos de saber que o gatinho da minha amiga havia sido internado &#224;s pressas em Floripa; a preocupa&#231;&#227;o com o carro se tornava ainda mais angustiante. Uma das funcion&#225;rias do hostel era uma mineira, a Ana, e ela falou pra gente respirar, sentar num sofazinho que tinha l&#225; e observar a lua cheia que despontava no c&#233;u. Olhei e me senti um tiquinho melhor.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!V8LW!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F535f385f-eaf3-4d60-a9b6-d2f3ac889056_2016x1512.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!V8LW!, /__u/anacarowlina.substack.com/w_424, /__u/anacarowlina.substack.com/c_limit, /__u/anacarowlina.substack.com/f_webp, /__u/anacarowlina.substack.com/q_auto:good, /__u/anacarowlina.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F535f385f-eaf3-4d60-a9b6-d2f3ac889056_2016x1512.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!V8LW!, /__u/anacarowlina.substack.com/w_848, /__u/anacarowlina.substack.com/c_limit, 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oficina na cidade mais pr&#243;xima e torcer para n&#227;o sermos muito extorquidos. Um menino muito am&#225;vel chamado Ign&#225;cio, outro funcion&#225;rio do hostel, nos ajudou ligando para as oficinas dos arredores. Ali&#225;s, permitam-me falar de Ign&#225;cio, ele viajava pelo Uruguai com seu cachorro Sol vendendo granolas. Quando perguntei se o cachorro era menina, pois se chamava Sol, ele me disse que n&#227;o, que dizemos O Sol, e que o c&#227;ozinho na vida dele foi como um astro rei que o iluminou e aqueceu. Ign&#225;cio era um querido. Ligou para muitas oficinas pra gente, foi bem dif&#237;cil achar algu&#233;m que topasse o trabalho pois era feriado; o &#250;nico que concordou em nos encontrar foi um mec&#226;nico chamado Fabian. Pagamos o hostel, pegamos nossas mochilas, enchemos o carro de &#225;gua e fomos at&#233; a pr&#243;xima cidade, La Paloma, ao encontro de Fabian.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!zi8e!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe1a83e1b-0962-4086-b659-1a71f82436b4_2016x1512.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!zi8e!, /__u/anacarowlina.substack.com/w_424, /__u/anacarowlina.substack.com/c_limit, /__u/anacarowlina.substack.com/f_webp, /__u/anacarowlina.substack.com/q_auto:good, /__u/anacarowlina.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe1a83e1b-0962-4086-b659-1a71f82436b4_2016x1512.jpeg 424w, 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A Alba quase vomitou depois da massagem, o que deixou a B&#225;rbara um pouco preocupada</figcaption></figure></div><p>Foram provavelmente os 10km mais longos de nossas vidas. O radiador estava muito comprometido e, para que o carro n&#227;o aquecesse, o mec&#226;nico que havia nos ajudado na estrada havia dito que pod&#237;amos dirigir poucos quil&#244;metros desligando o carro em pleno movimento; conforme ele atingisse velocidade, deslig&#225;vamos, ele ia meio que em ponto morto e depois torn&#225;vamos a ligar. O Ciro que fez essa parte, eu n&#227;o tinha a menor condi&#231;&#227;o.</p><p>Deu tudo certo, chegamos &#224; oficina do Fabian, ele nos atendeu com boa vontade e pediu para que deix&#225;ssemos o carro l&#225;, ele ia ver o que conseguia fazer. J&#225; nos adiantou que tudo que envolvesse substitui&#231;&#227;o de pe&#231;as seria muito demorado; nessa viagem tamb&#233;m descobrimos que n&#227;o h&#225; pe&#231;as de carro no Uruguai e qualquer pe&#231;a que ele precisasse usar viria do Brasil e demoraria uns tr&#234;s dias &#250;teis para chegar. Eu e Ciro est&#225;vamos resignados e meus amigos estavam um pouco mais estressados pois, afinal de contas, eles tinham um gato doente esperando por eles no Brasil. Isso me deixava p&#233;ssima, mas devo dizer que, neste ponto da viagem, j&#225; me sentia inundada de um sentimento de gratid&#227;o muito piegas por n&#227;o ter morrido e n&#227;o ter matado ningu&#233;m, n&#227;o conseguia evitar, e era como se tudo para mim estivesse magn&#237;fico. Ao mesmo tempo eu tamb&#233;m sentia uma esp&#233;cie de stress p&#243;s-traum&#225;tico que me fazia questionar o tempo inteiro se tudo aquilo era real, se era um sonho ou se eu tinha morrido e est&#225;vamos no p&#243;s vida. As coisas adquiriam uma tonalidade esquisita, opaca, eu me beliscava, jogava &#225;gua na cara para ver se tudo estava acontecendo mesmo. N&#227;o conseguia dormir e, quando conseguia, tinha sonhos intranquilos e acordava com o cora&#231;&#227;o acelerado. Depois minha analista me disse que o nome daquilo era desrealiza&#231;&#227;o e que era comum ap&#243;s experi&#234;ncias que envolviam risco de morte. Na verdade eu ainda estou meio assim e eu espero que passe quando eu vir a fatura do cart&#227;o com os gastos do conserto e tudo o mais.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!awZE!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff133215e-ff01-41af-98da-8d33f5b549cd_2016x1512.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!awZE!, /__u/anacarowlina.substack.com/w_424, /__u/anacarowlina.substack.com/c_limit, /__u/anacarowlina.substack.com/f_webp, /__u/anacarowlina.substack.com/q_auto:good, /__u/anacarowlina.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff133215e-ff01-41af-98da-8d33f5b549cd_2016x1512.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!awZE!, 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Fiquem comigo.</p><p>Em La Paloma, enquanto o carro consertava, ficamos em um camping da pol&#237;cia, algo meio comum por ali, e comemos muita comida de mercado. Foi a primeira vez no Uruguai que tomei caf&#233; da manh&#227; com p&#227;ezinhos quentinhos locais, da padaria do mercado. L&#225; a gente tamb&#233;m andou muito a p&#233; para buscar as coisas, tudo era uma caminhada de muitos km, e ent&#227;o pegamos um bronzeado. Nessas caminhadas eu e o Ciro convers&#225;vamos muito e chegamos &#224; conclus&#227;o de que nossa rela&#231;&#227;o &#233; bastante s&#243;lida, j&#225; que em meio a tantos perrengues n&#227;o brigamos nenhuma vez e nos preocupamos o tempo todo em cuidar um do outro. Na verdade, nos abrimos e falamos de assuntos que h&#225; tempos deix&#225;vamos para l&#225;. O acidente aproximou a gente. Toda vez que &#237;amos dobrar nosso colch&#227;o infl&#225;vel quando levant&#225;vamos acampamento, aproveit&#225;vamos para nos abra&#231;ar longamente e uma hora o Ciro comentou: &#8220;isso parece terapia de casal! hahaha&#8221;.</p><p>Ap&#243;s um dia e meio de trabalho, o Fabian reparou o nosso radiador, n&#227;o trocou porque ia demorar muito at&#233; chegar um novo, e deu uma juntada nas pe&#231;as do para-choque para que a pol&#237;cia n&#227;o nos parasse na estrada. O carro ficou parecendo o Frankenstein. O Fabian disse que o conserto era uma gambiarra para cruzar a fronteira e que, chegando no Brasil, seria prudente que acion&#225;ssemos o seguro. Eu j&#225; tinha at&#233; acionado e agendado uma per&#237;cia para os pr&#243;ximos dias em Florian&#243;polis. Agradecemos &#224;quele bom homem e partimos. Finalmente est&#225;vamos voltando para casa.</p><p>De onde est&#225;vamos at&#233; o Chu&#237; eram mais ou menos 150km. Enchemos v&#225;rios gal&#245;es de &#225;gua e nos preparamos para observar se o carro n&#227;o iria super aquecer, como Fabian havia alertado que poderia acontecer. Est&#225;vamos bem frustrados porque 200km para frente estava Montevideu, que n&#227;o ir&#237;amos mais conhecer nessa viagem. Mas pelo menos o carro estava andando, pelo menos ningu&#233;m tinha morrido&#8230; mas que saco.</p><p>A viagem at&#233; o Chu&#237; foi surpreendentemente tranquila, o carro n&#227;o esquentou nenhuma vez. Resolvemos at&#233; passar uma noite por l&#225; para no dia seguinte dar uma olhada nas lojinhas do free shop, hahaha, na esperan&#231;a de dar mais alegria &#224;quela viagem toda maluca. O Chu&#237; estava lotada&#231;o e fomos at&#233; a cidade vizinha, Santa Vit&#243;ria do Palmar, procurar um hotel. Eu fico me perguntando se o leitor vai se interessar pela emo&#231;&#227;o que eu senti naquele ponto ao encontrar sabonetinhos, toalhas limpas e banheiro individual, ao comer um PF com v&#225;rias guarni&#231;&#245;es no restaurante, mas provavelmente o leitor est&#225; pensando &#8220;t&#225; bom, Carol, eu sou sua amiga, mas isso aqui j&#225; t&#225; chat&#227;o&#8221;&#8230; </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!CsR8!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2f318006-63aa-4aa8-b4d8-9449c19a8ff2_1544x1160.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!CsR8!, /__u/anacarowlina.substack.com/w_424, /__u/anacarowlina.substack.com/c_limit, /__u/anacarowlina.substack.com/f_webp, 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Pretend&#237;amos naquele dia chegar at&#233; Porto Alegre e dormir l&#225; antes de voltar para Floripa. Mas n&#227;o sab&#237;amos como o carro iria se comportar, afinal de contas o Fabian s&#243; tinha garantido o servi&#231;o dele at&#233; a fronteira. At&#233; aquele ponto, o carro tinha se mostrado fenomenal, mas, apesar das minhas supersti&#231;&#245;es, eu precisava aceitar: era s&#243; um carro. E estava bem cansado.</p><p>Na volta decidimos fazer um caminho diferente, mais curto, mas ainda passar&#237;amos pela Reserva do Taim, o que me alegrou. Quando est&#225;vamos mais ou menos na metade dela (ela tem uns 110km), ouvimos um barulho muito alto e sentimos que algo se desprendeu do carro. Encostamos, sa&#237;mos e vimos que o escapamento havia ca&#237;do. Simplesmente caiu num domingo, a quil&#244;metros e quil&#244;metros de quaisquer outros seres humanos e sem sinal de celular. Brilhante. Mas sabe qual &#233; a parte boa? O carro anda igual sem o escapamento. A gente s&#243; n&#227;o podia ser parado pela pol&#237;cia. O plano era chegar at&#233; Porto Alegre, dormir e trocar o escapamento na segunda de manh&#227; antes de seguir para casa. </p><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/10a44ff4-4360-4fae-86d3-243bec693b91_2016x1512.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/755022b5-837c-43f1-a4d8-16d0a9f091c2_1200x1600.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;O que faltava acontecer?&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/a3929b7a-76d3-4f0d-974b-2f664d930a24_1456x720.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p>Chegamos, de fato, a Porto Alegre ap&#243;s algumas boas horas de estrada e n&#227;o encontramos nenhuma autoridade policial pelo caminho. Atribu&#237;mos ao fato de que um grupo de alucinados estava em Bras&#237;lia bem naquele dia invadindo o Congresso, defecando em m&#243;veis, depredando obras de arte e roubando hd&#8217;s. Pensamos que o Brasil estava vidrado em outros assuntos e ningu&#233;m ia ligar para o escapamento do nosso carrinho. Em PoA t&#237;nhamos amigos e dormimos na casa deles, comemos pizza e tomamos cerveja. Eu estava estranha-fazendo-o-poss&#237;vel-para-parecer-normal mas por dentro ficava obsessivamente pensando &#8220;eu morri mas meu c&#233;rebro n&#227;o desligou completamente e ainda estou em estado de sonho&#8221;. </p><p>De manh&#227;, trocamos o escapamento e seguimos viagem. Mais umas cinco horas e estar&#237;amos em casa.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Cle9!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8fab8ffa-2c7a-4f5f-9858-f796a2671486_1512x2016.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Cle9!, /__u/anacarowlina.substack.com/w_424, /__u/anacarowlina.substack.com/c_limit, /__u/anacarowlina.substack.com/f_webp, /__u/anacarowlina.substack.com/q_auto:good, /__u/anacarowlina.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8fab8ffa-2c7a-4f5f-9858-f796a2671486_1512x2016.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Cle9!, /__u/anacarowlina.substack.com/w_848, /__u/anacarowlina.substack.com/c_limit, 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Conforme nos aproxim&#225;vamos, meu cora&#231;&#227;o apertava, pensava que logo veria meus gatos, minha casa, parecia que eu estava viajando h&#225; anos e n&#227;o h&#225; uma semana. Quando cruzamos a fronteira do Rio Grande do Sul com Santa Catarina eu estava quase emocionada, mas a&#237; paramos para comer num restaurante, vi uns patriot&#225;rios defendendo a&#231;&#245;es golpistas e pensei &#8220;que morta que nada, isso s&#243; pode ser a realidade&#8221;.</p><p>Nos &#250;ltimos km teve um caminh&#227;o de terra nos cegando em alta velocidade, freadas bruscas, muito calor, des&#226;nimo, ped&#225;gios, pausas para rir dos memes&#8230; e de repente l&#225; estava ela. L&#225; estava a nossa ilha. A nossa &#205;taca, ap&#243;s tantas sereias, ciclopes, bruxas&#8230; assim como o Ulisses, n&#243;s fomos testados e vencemos, voltamos para a casa. Eu s&#243; fui entender a Odisseia de verdade ap&#243;s essa viagem ao Uruguai. Eu era o Ulisses e a minha nau era esse carrinho. H&#225; muitos anos e, sobretudo, nos &#250;ltimos dias, atribu&#237; a esse autom&#243;vel o status de amuleto. Como se nos cilindros dele se materializasse algo do cuidado do meu pai comigo. Eu sei que n&#227;o faz sentido, que &#233; s&#243; um monte de ferro, mas sigo cuidando dele, pedindo desculpas, conversando, agradecendo por ele ser esse monte de lata com rodas que me envolve e protege e me leva para conhecer os lugares onde minhas pernas n&#227;o alcan&#231;am caminhar. Quando algu&#233;m morre, talvez seja isso o que sobra, a completa dissolu&#231;&#227;o em objetos e pessoas, que a gente tenta (na maior parte das vezes inutilmente) verter em palavra.</p><p></p><p>Se voc&#234; gostou desse texto, manifeste aqui seu interesse em se inscrever nessa newsletter e me ajude a pagar o conserto do carrinho me mandando um pix de qualquer valor no email acog.hester@gmail.com.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://anacarowlina.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/anacarowlina.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://anacarowlina.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Ana&#8217;s Substack! Eu ainda n&#227;o pensei num nome melhor que isso! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Atrasada na corrida espacial]]></title><description><![CDATA[Por&#233;m, em sonho, j&#225; fui e voltei da lua diversas vezes]]></description><link>https://anacarowlina.substack.com/p/coming-soon</link><guid isPermaLink="false">https://anacarowlina.substack.com/p/coming-soon</guid><dc:creator><![CDATA[Ana Carolina Gomes]]></dc:creator><pubDate>Tue, 17 Jan 2023 17:22:39 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/48a68b6e-2052-4c5d-a346-d526de4d9cf9_1400x788.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>S&#227;o tantas newsletters para assinar, tanta gente interessante escrevendo coisas edificantes e mais relevantes que o meu carro velho, que &#224;s vezes me sinto em uma corrida espacial. Eu me sinto a Fran&#231;a numa corrida espacial. De fora daquilo tudo, caf&#233; com leite, mas me divertindo. O primeiro a sonhar com a viagem &#224; lua foi um franc&#234;s, afinal de contas, o M&#233;li&#232;s, e o primeiro passo &#233; tomar uma ta&#231;a de vinho e sonhar. A foto dessa news &#233; em homenagem &#224; F&#233;licette, primeira gata enviada para o espa&#231;o em 1963, sacrificada dois meses depois para que os humanos examinassem os efeitos do v&#225;cuo em seu c&#233;rebro. Ela e mais 13 gatinhos foram raptados das ruas de Paris para se tornarem astronautas felinos. Ningu&#233;m perguntou se eles queriam. Eu sou a Carol e adoro escrever sobre os esquecidos.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://anacarowlina.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/anacarowlina.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p>]]></content:encoded></item></channel></rss>