<script data-pm-proxy="intercept"></script><?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Andarilha]]></title><description><![CDATA[Era pra ser um ano sabático e nunca mais voltei pro corporativo. Viajo Brasil e o mundo desde set/2021 e aqui compartilho histórias das
minhas andanças e reflexões sobre a vida. Entre, fique à vontade, chega pro papo.]]></description><link>https://andarilha.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!u5XR!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F699e3394-9069-45d6-a073-ba1e7b98f9be_4032x3024.jpeg</url><title>Andarilha</title><link>https://andarilha.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Wed, 02 Sep 2026 22:13:27 GMT</lastBuildDate><atom:link href="/__u/andarilha.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Andarilha]]></copyright><language><![CDATA[pt-br]]></language><webMaster><![CDATA[andarilha@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[andarilha@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[andarilha]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[andarilha]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[andarilha@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[andarilha@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[andarilha]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[Ruanda, estou apaixonada]]></title><description><![CDATA[mas talvez voc&#234; seja um boy lixo]]></description><link>https://andarilha.substack.com/p/ruanda-estou-apaixonada</link><guid isPermaLink="false">https://andarilha.substack.com/p/ruanda-estou-apaixonada</guid><dc:creator><![CDATA[andarilha]]></dc:creator><pubDate>Mon, 31 Aug 2026 19:27:54 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!wWJe!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F82ab1f39-d242-4f80-9d18-5a9a49271ad4_4000x2252.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Se tudo o que voc&#234; sabe sobre a Ruanda &#233; o que viu no filme Hotel Ruanda, voc&#234; est&#225; como eu, dois meses atr&#225;s, quando minha amiga Joana me enviou um v&#237;deo contando o quanto o pa&#237;s era limpo. Bastou esse conte&#250;do para me fazer incluir o local em minha rota pelo leste africano e que sorte ele chegou at&#233; mim. Obrigada, J&#244;.</p><p>Sa&#237; de uma Luanda agitada, cheia de gente e poeira, pousei em uma Kigali calma, espa&#231;osa, limpa. Era noite e eu j&#225; podia perceber a cidade silenciosa, as ruas sem lixo, com pavimento e cal&#231;adas. Fatos que poderiam ser tidos como triviais, n&#227;o fosse a escassez de cidades assim pelo mundo, somada ao passado de Ruanda. Em 1994, h&#225; apenas 32 anos, o pa&#237;s foi palco de um genoc&#237;dio, culminando na morte de cerca de 1 milh&#227;o de pessoas. O terror durou cem dias e quem sobreviveu inevitavelmente teve a sua vida marcada por aqueles cem dias. Quase 2 milh&#245;es foram julgados, outros 2 milh&#245;es de pessoas fugiram do pa&#237;s. Hoje metade de Ruanda &#233; formada por jovens que nasceram ap&#243;s o genoc&#237;dio, ou seja, tem menos de 32 anos. N&#227;o viram o que aconteceu, seus pais sim, nasceram e cresceram em fam&#237;lias marcadas pela dor. Por isso foi t&#227;o surpreendente ver um pa&#237;s t&#227;o jovem e t&#227;o machucado reconstruir-se em t&#227;o pouco tempo, como Ruanda foi capaz.</p><p>A reconstru&#231;&#227;o partiu de 3 pilares: educa&#231;&#227;o para a paz, tratamento do trauma e garantia de meios de vida sustent&#225;veis &#224; popula&#231;&#227;o, nessa ordem de import&#226;ncia e cronologia. A educa&#231;&#227;o para paz fala de mem&#243;ria, responsabilidade, preven&#231;&#227;o e inevitavelmente passou pelo perd&#227;o e a n&#227;o busca por vingan&#231;a. At&#233; eu, que sou mergulhada no rancor, entendi que era o &#250;nico modo de um pa&#237;s t&#227;o devastado seguir em frente. N&#227;o foi um perd&#227;o sem justi&#231;a. Os principais l&#237;deres foram presos, julgados e condenados. O pa&#237;s implementou Gacaca, uma esp&#233;cie de tribunal comunit&#225;rio que buscava justi&#231;a e reconcilia&#231;&#227;o. Durante o genoc&#237;dio pessoas viram vizinhos, padres e conhecidos matarem seus familiares. A hierarquiza&#231;&#227;o das etnias Hutus e Tutsi come&#231;ou durante a coloniza&#231;&#227;o belga e o conflito surgiu ao longo dos anos, incentivado pelos ocupantes do poder e grupos extremistas. Em agosto de 93, por influ&#234;ncia internacional, um acordo de paz foi assinado e sofreu forte resist&#234;ncia dos extremistas. Oito meses depois, assassinaram o presidente e a primeira ministra da &#233;poca. O grupo tomou o poder e planejava eliminar os Tutsi. Hutus, cidad&#227;os comuns foram instigados a uma ca&#231;a aos Tutsi, encurralados, perseguidos, mortos. Em est&#225;dios, igrejas, nas suas casas e nas ruas. Como perdoar uma atrocidade dessas? Eu n&#227;o saberia, mas foi necess&#225;rio. Al&#233;m disso a solu&#231;&#227;o passava pelos jovens, ensinados a acabar com a diferencia&#231;&#227;o. A hist&#243;ria conta que ap&#243;s o genoc&#237;dio um grupo de extremistas entrou em uma escola com as mesmas pr&#225;ticas de antes, a pedir que se separassem em etnia. As crian&#231;as negaram. Somos todos ruandenses. O grupo ent&#227;o atirou em todos, deixando mortos e feridos. Nos meus dias ali, muita gente citou o genoc&#237;dio, ningu&#233;m citou sua etnia. </p><p>Depois, o tratamento do trauma. Por mais que eu tentasse n&#227;o trazer o assunto &#224; tona em qualquer conversa, o genoc&#237;dio &#233; t&#243;pico. A guia, que nasceu ap&#243;s 1994, contou que o pai passou anos sem falar no assunto, at&#233; come&#231;ar a frequentar os encontros dos grupos de apoio ao trauma. Agora ele pode acessar o tema. No memorial do genoc&#237;dio corpos foram enterrados e a dura hist&#243;ria &#233; viva, com fotos, roupas, an&#225;lises e relatos. Estava repleto de pessoas, nossos olhos diante da dureza da hist&#243;ria, testemunhando a barb&#225;rie humana e o que aconteceu depois. Um trauma desse tamanho provavelmente n&#227;o &#233; poss&#237;vel de ser tratado em vida. Imagino algo como redu&#231;&#227;o de danos. Falar do assunto, acessar os sentimentos, compartilhar com que viveu algo parecido, recome&#231;ar, construir novas fam&#237;lias e novos afetos. Todos h&#225;bitos da sa&#250;de mental que Ruanda abra&#231;ou para tentar sobreviver. Em uma das hist&#243;rias contadas no museu via-se fotos das bodas de um jovem casal, ambos &#243;rf&#227;os do genoc&#237;dio. Com os olhos marejados diziam que na festa na havia gente mais velha, apenas jovens. Na pr&#243;xima cena brincavam com suas duas filhas, os novos amores de suas vidas e esperan&#231;a de um futuro menos traum&#225;tico.</p><p>Por fim, a terceira medida: meios de vida sustent&#225;veis &#224; popula&#231;&#227;o, pois "n&#227;o h&#225; paz se h&#225; fome". Ruanda &#233; um pa&#237;s ainda financeiramente pobre, majoritariamente agr&#225;rio, que ainda conta com cerca de 27% da popula&#231;&#227;o abaixo da linha nacional da pobreza, 38% abaixo da internacional, vivendo com menos de 3 d&#243;lares por dia. Um percentual alto, por&#233;m ainda consideravelmente menor que o dos seus pa&#237;ses vizinhos. Essa taxa tamb&#233;m vem caindo ao longo dos anos, no in&#237;cio dos anos 2000, quando a medi&#231;&#227;o come&#231;ou, a taxa da popula&#231;&#227;o abaixo da linha nacional da pobreza era de 58%. N&#227;o h&#225; dados para a medida internacional.</p><p>Para al&#233;m desses pilares, o pequeno pa&#237;s africano quer ser verde, limpo e incentiva tanto o trabalho comunit&#225;rio quanto a participa&#231;&#227;o das mulheres no poder. A limpeza e o verde est&#227;o diante dos olhos de qualquer visitante. N&#227;o h&#225; sacolas pl&#225;sticas nos estabelecimentos, vi pouqu&#237;ssima lixeiras e ruas muito limpas. A cultura parece forte a ponto de n&#227;o precisar delas e as pessoas levam seus res&#237;duos para casa. Tamb&#233;m n&#227;o comem enquanto caminham, o que inevitavelmente causa sujeira quando feito. As ruas s&#227;o repletas de &#225;rvores, a cidade cheia de parques. O verde &#233; visto por toda a parte, pintado pelo roxo das flores de uma outra &#225;rvore muito comum por ali. H&#225; pol&#237;tica e metas de reflorestamento e prote&#231;&#227;o da biodiversidade. Al&#233;m disso existe o verde que n&#227;o podemos ver, mas sim respirar e por ele Ruanda tem o objetivo de aumentar sua frota de carros, &#244;nibus e motos el&#233;tricas. Quando o assunto &#233; comunidade, todo &#250;ltimo s&#225;bado do m&#234;s acontece o Umuganda, onde a popula&#231;&#227;o entre 18 e 65 anos &#233; obrigada a participar de 3h de servi&#231;o comunit&#225;rio. O pa&#237;s para em prol do evento e todos os estabelecimentos fecham, o transporte de motos tamb&#233;m. As atividades s&#227;o definidas de acordo com a necessidade de cada bairro e podem ir de limpeza das ruas at&#233; apoio a fam&#237;lias em vulnerabilidade. Achei um jeito forte e bonito de incentivar a vida em comunidade, mas n&#227;o parece ser a opini&#227;o comum por a&#237; e talvez a mentalidade de cada um por si tenha ganhado mais for&#231;a entre os jovens, pois conversei com v&#225;rios que n&#227;o participavam. J&#225; eu, sa&#237; certa de que todos os pa&#237;ses do mundo deveriam fazer o mesmo e percebi j&#225; ter meu pr&#243;prio Umuganda, quando convido mulheres para irem ao parque lermos juntas uma vez por m&#234;s, mas quero amplia-lo, com a&#231;&#245;es mais concretas para a comunidade, furando a bolha em que vivo quando voltar ao Rio. Ruanda me deu essa ideia.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!wWJe!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F82ab1f39-d242-4f80-9d18-5a9a49271ad4_4000x2252.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!wWJe!, /__u/andarilha.substack.com/w_424, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, /__u/andarilha.substack.com/q_auto:good, /__u/andarilha.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F82ab1f39-d242-4f80-9d18-5a9a49271ad4_4000x2252.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!wWJe!, /__u/andarilha.substack.com/w_848, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, 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Para chegar ao lago Muhazi, passei por v&#225;rias comunidades rurais. O pa&#237;s, conhecido como a terra das mil colinas, seguia verde, tomado por suas planta&#231;&#245;es de arroz e estradas limpas e em boas condi&#231;&#245;es. As pessoas estavam na dura lida do campo, mas tamb&#233;m arrumadas e prontas para a igreja - era domingo e o pa&#237;s &#233; majoritariamente crist&#227;o, cat&#243;lico ou protestante. Quando chego a hora da estrada de terra, crian&#231;as e adultos corriam a dizer Hello! A pobreza era mais percept&#237;vel, mas ainda assim a regi&#227;o era limpa e verde, no lago &#233; um dos v&#225;rios existentes no pa&#237;s, havia crian&#231;as a pescar, al&#233;m de um restaurante onde pudemos descansar da viagem e almo&#231;ar um prato t&#237;pico, com bananas, frango e molho vermelho.</p><p>Em uma das noites em Kigali, fui parar no Come Again, um bar de m&#250;sica e esportes. Durante a primeira metade do tempo em que estivemos ali, eu e meu amigo do hostel &#233;ramos os &#250;nicos turistas. Quando a mulher ao meu lado me olhou sorrindo eu disse o quanto seu cabelo era lindo. Eu j&#225; estava h&#225; um tempo olhando para os pequenos brilhos presos em suas mechas. Gl&#243;ria veio at&#233; mim instantaneamente, s&#243; esperava aquela brecha. Conversamos, pediu meu telefone e em pouco tempo rimos e dan&#231;avamos juntas, poucos minutos depois outra mulher se escorou no meu banco e ali ficou, como se f&#244;ssemos velhas conhecidas. Quando tocou B&#250;falo Soldier o bar todo se agitou e levantei tamb&#233;m, a fazer parte da festa. Era uma sexta-feira normal onde Girls just wanna have fun (garotas s&#243; querem se divertir). Elas se divertiram, eu tamb&#233;m. Na outra noite uma jovem me levou at&#233; um centro de conv&#237;vio, o Zara Court, com restaurantes, lojas, quadras de basquete, at&#233; um hotel. O lugar &#233; frequentado por locais e no s&#225;bado &#224; noite jovens dan&#231;avam, jogavam basquete, se alongavam, grupos comiam juntos. A arte &#233; outra atividade comum entre os jovens e Kigali &#233; famosa por suas galerias. O governo tem incentivado o turismo de diversas formas e umas delas &#233; pela marca visitRuanda, que tornou-se at&#233; patrocinadora de times da Premier League. No meu dia do Come Again passava o jogo do Arsenal, um dos patrocinados, com muitos f&#227;s a assistir.</p><p>Passei poucos dias nesse pa&#237;s e nesse texto inevitavelmente repito propaganda governamental, mas independente do que de fato acontece ali, vi um pa&#237;s como nenhum outro no mundo. Ao pesquisar porque o her&#243;i do filme Hotel Ruanda n&#227;o &#233; citado no memorial do genoc&#237;dio descobri que ele nunca apoiou o atual governo, que toma conta do pa&#237;s desde 1994. Desde ent&#227;o vive fora, foi preso, acusado de terrorismo e solto, ap&#243;s perd&#227;o presidencial. Sua principal cr&#237;tica acusa o atual governo de um regime autorit&#225;rio que mant&#233;m controle excessivo sobre a sociedade. Diz n&#227;o haver democracia real, pois a oposi&#231;&#227;o n&#227;o pode crescer, nem liberdade de express&#227;o, questiona as elei&#231;&#245;es e as atua&#231;&#245;es do partido, que governo o pa&#237;s desde 1994. Por outro lado o governo e algumas v&#237;timas dizem que seu papel no filme &#233; exagerado e n&#227;o condiz com a realidade. O presidente Paul Kagame est&#225; no poder desde que era o comandante das for&#231;as militares que derrotaram o regime genocida e vence as supostas elei&#231;&#245;es com cerca de 99% dos votos. Por isso estudiosos dizem n&#227;o haver democracia livre em Ruanda, j&#225; que algumas candidaturas s&#227;o at&#233; impedidas. Esse mesmo governo garante e incentiva a participa&#231;&#227;o das mulheres no poder e atualmente 64% da c&#226;mara das deputadas &#233; composta por elas. O n&#250;mero cai quando falamos do executivo, 30%, mas ainda &#233; uma participa&#231;&#227;o expressiva.</p><p>Talvez eu tenha sido enganada por um boy lixo que faz belas propagandas e n&#227;o &#233; l&#225; tudo isso, mas por enquanto sigo apaixonada. Com medo de escrever a pr&#243;xima frase, assumo que tenho tido pouca f&#233; nas democracias ao redor do mundo. E, convenhamos, o cara que entendia a democracia como um sistema ruim, mas ainda o melhor que temos, Churchill, n&#227;o era l&#225; grande coisas. Meus olhos sedentos ruas limpas e cidades verdes junto com minha alma admiradora da paz podem ter me impedido de ver grandes problemas, mas o que vi em Ruanda me pareceu promissor e se for s&#243; fachada, por favor n&#227;o me contem por agora. Quero dormir esperan&#231;osa e apaixonada por mais alguns dias.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Dormindo no chão duro]]></title><description><![CDATA[O colch&#227;o da minha &#250;ltima casa era muito confort&#225;vel.]]></description><link>https://andarilha.substack.com/p/dormindo-no-chao-duro</link><guid isPermaLink="false">https://andarilha.substack.com/p/dormindo-no-chao-duro</guid><pubDate>Fri, 31 Jul 2026 20:01:44 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!pIY2!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd91027e0-7305-46be-ae08-0008f287a8ff_2257x2507.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>O colch&#227;o da minha &#250;ltima casa era muito confort&#225;vel. E grande. Cobria uma cama queen, maior que a cama de casal padr&#227;o e era todo meu. Tinha a densidade perfeita, sali&#234;ncias massageadoras e tecnologia magn&#233;tica com ondas infravermelhas. Normalmente era coberto por um macio len&#231;ol e eu me esticava sobre ele muito feliz com a aquisi&#231;&#227;o. Fora escolhido minuciosamente pouco mais de dois anos antes de eu desfazer meu apartamento e por isso (al&#233;m da cren&#231;a de que eu voltaria rapidamente) n&#227;o o vendi ou doei, como fiz com a maior parte dos meus bens, o deixei emprestado na casa de uma amiga que queria trocar o dela. Em abril fez cinco anos em que ela dorme naquele colch&#227;o, enquanto eu durmo em espumas de todas as densidades e tamanhos poss&#237;veis, algumas vezes em redes, outras no ch&#227;o duro de uma barraca, muitas na poltrona de um &#244;nibus ou no aperto da classe econ&#244;mica de um avi&#227;o.  </p><p>&#201; comum ouvir pessoas dizerem que n&#227;o viajam para lugares menos confort&#225;veis do que suas pr&#243;prias casas. Eu entendo a l&#243;gica, principalmente num mundo que suga nossas energias, mas acho um desperd&#237;cio. Da mesma forma que a obsess&#227;o das pessoas por preservar a paz interior e impor limites nas rela&#231;&#245;es, n&#227;o aceitando a fric&#231;&#227;o inerente a qualquer relacionamento est&#225; gerando um mundo de solit&#225;rios, ter o conforto como imprescind&#237;vel limita sim a nossa experi&#234;ncia na Terra. Penso em todas as coisas que eu n&#227;o teria visto e vivido, nas sensa&#231;&#245;es que o meu corpo n&#227;o teria experimentado e nas pessoas das quais agora eu posso nem me lembrar, mas est&#227;o aqui, em alguma parte minha, se eu tivesse dormido todas essas noites no meu colch&#227;o magn&#233;tico e len&#231;ol de 300 fios. Acabo com a certeza de que o conforto n&#227;o me fez tanta falta. </p><p>Semanas antes de eu iniciar uma trilha de 12 dias at&#233; o Campo Base do Everest uma amiga perguntou se havia formas da experi&#234;ncia ser mais confort&#225;vel. A ideia era: uma pessoa muito rica que queira pagar para ter regalias enquanto faz essa trilha, consegue? Eu imaginava que n&#227;o, mas n&#227;o podia afirmar. Durante a trilha percebi que eu estava certa. Quanto mais sub&#237;amos, mais imposs&#237;vel ficava viver uma experi&#234;ncia luxuosa, mesmo com todo o dinheiro do mundo. No &#250;ltimo ponto de descanso, a 5200 metros de altitude, havia apenas dois alojamentos - e ambos com a mesma estrutura prec&#225;ria: sem aquecimento nos quartos, com energia el&#233;trica e card&#225;pio restritos. A n&#227;o ser que a pessoa obtivesse uma autoriza&#231;&#227;o para construir uma estrutura especial e esperasse o tempo para tal, teria que viver como o restante de n&#243;s. O mesmo se deu nos sete dias de trilha do Monte Roraima, na Venezuela. Algu&#233;m pode at&#233; pagar para chegar ao topo de helic&#243;ptero, receber uma comida diferente, ter um carregador particular com todos os itens que deixem a experi&#234;ncia melhor, mas quem quiser viver a trilha, subir o pared&#227;o, passar noites na montanha sagrada, precisar&#225; dormir no frio das barracas dispostas em cavernas. O desconforto &#233; parte da experi&#234;ncia.    </p><p>Quando visitei a Amaz&#244;nia pela primeira vez conheci um jovem holand&#234;s muito rico. Ap&#243;s 3 horas de barco, uma de kombi, outra num barco menor, comida simples, mas peixe fresco, um quarto dividido por duas noites e outra dormindo em rede, no meio da floresta, ap&#243;s um jantar sob ataques de pernilongos, ele me confessou: h&#225; um m&#234;s estava nas Maldivas, sem pagar nada, a convite de um amigo. Viajamos no jatinho dele, fiquei em bangal&#244;s cujas di&#225;rias eram 1000 d&#243;lares e posso te garantir que eu n&#227;o estava l&#225; mais feliz do que estou aqui. Apesar de nunca ter estado nas Maldivas, entendi perfeitamente o que ele quis dizer, pois j&#225; vivi situa&#231;&#245;es confort&#225;veis e luxuosas o suficiente para saber como s&#227;o. E n&#227;o as acho muito melhores do que a vida que escolhi, n&#227;o a ponto de me fazerem mais feliz. Vivo muito bem no desconforto f&#237;sico (no emocional nem tanto - pauta para outro texto).</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!mh9y!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe7cb21ae-ea46-440b-a263-c6a63582f114_4032x2268.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!mh9y!, /__u/andarilha.substack.com/w_424, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, /__u/andarilha.substack.com/q_auto:good, /__u/andarilha.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe7cb21ae-ea46-440b-a263-c6a63582f114_4032x2268.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!mh9y!, /__u/andarilha.substack.com/w_848, 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banca o desconforto?</a> Produzido pelo The Summer Hunter, o epis&#243;dio fala sobre a experi&#234;ncia de tr&#234;s dos dezoito participantes de uma expedi&#231;&#227;o pela Amaz&#244;nia e come&#231;a com a pergunta: o que acontece quando a nossa busca por conforto come&#231;a a estreitar a nossa experi&#234;ncia de viver? Ou ainda: em que momento o conforto deixa de proteger e come&#231;a a limitar? Nos cinquenta minutos de epis&#243;dio discorrem de maneiras diferentes sobre o tema e eu, que pelas redes sociais achava conhecer &#8220;muito bem&#8221; os participantes, entendi que percebia aquelas pessoas muito mais vividas do que realmente eram, muito mais dispostas do que se mostravam ao descrever aquela viagem. Respondi a pergunta mentalmente: acontece que ficamos menores, o tempo passa mais r&#225;pido, a vida n&#227;o tem toda a gra&#231;a que poderia ter. Por isso acredito que ter condi&#231;&#245;es e n&#227;o topar nadinha de desconforto te impede de ver um mundo gigantesco e limita as refer&#234;ncias. </p><p>O que mais me assusta &#233; perceber o quanto as pessoas est&#227;o anestesiadas, aceitam o desconforto do tr&#226;nsito e das horas de trabalho di&#225;rias, da priva&#231;&#227;o de sono durante o puerp&#233;rio, da aus&#234;ncia de rela&#231;&#245;es profundas ou conversas significativas, mas n&#227;o o de estar dentro da natureza. No podcast ouvi estupefata eles dizerem que dentre as 18 pessoas do barco apenas uma pulou no Rio Negro. SENHOR! VOC&#202; J&#193; EST&#193; NO MEIO DA AMAZ&#212;NIA! COMO ASSIM, N&#195;O VAI PULAR NO RIO? (Desculpem, precisei sim gritar!). Pouqu&#237;ssimos optaram por dormir uma noite na floresta e ningu&#233;m dividiu quarto, cada um reinou sozinho na sua cabine de barco com ar condicionado, ou seja, uma expedi&#231;&#227;o de quase luxo dentro da Amaz&#244;nia. Tudo que o que eles se recusaram a experenciar s&#227;o coisas t&#227;o triviais pra mim, que levei um tempo para lembrar da bolha aventureira na qual vivo.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!pIY2!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd91027e0-7305-46be-ae08-0008f287a8ff_2257x2507.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!pIY2!, /__u/andarilha.substack.com/w_424, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, /__u/andarilha.substack.com/q_auto:good, /__u/andarilha.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd91027e0-7305-46be-ae08-0008f287a8ff_2257x2507.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!pIY2!, 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Nem todo viajante pensa assim, tem quem ache o tempo em tr&#226;nsito apenas perda de tempo nos destinos. Eu vejo gente. O chat GPT tamb&#233;m n&#227;o entende. Pela primeira vez estou usando a IA para me ajudar no planejamento de uma viagem e ap&#243;s ela repetir v&#225;rias vezes que eu deveria pegar voos para determinados trechos, precisei explicar: Quero pegar o m&#237;nimo de voos poss&#237;veis. Tudo que der pra fazer terrestre, eu prefiro. Voc&#234; precisa entender isso sobre mim. N&#227;o me importo com longos deslocamentos. Isso &#233; experi&#234;ncia de viagem. &#8220;Perfeito &#8212; entendido. Vou passar a tratar isso como uma premissa do roteiro&#8221;, foi a resposta do rob&#244; e completou: &#8220;Eu n&#227;o vou mais te empurrar solu&#231;&#227;o com voo s&#243; porque &#8220;fica mais f&#225;cil&#8221;. Se houver duas op&#231;&#245;es: a mais confort&#225;vel com voo, a mais interessante por terra, eu vou partir da segunda como padr&#227;o &#8212; e s&#243; te alertar quando a log&#237;stica ficar realmente ruim&#8221;. Passamos a nos entender melhor. </p><p>Sou prova viva de que conex&#245;es fortes e divertidas acontecem quando as pessoas est&#227;o presas e entediadas. Se n&#227;o fosse a nossa cabine dividida na Transiberiana, eu n&#227;o teria compartilhado uma cerveja com aquelas mulheres russas, nem jogado baralho com meninos de quatorze anos. Estou ali para ver a vida, pelo prazer de viajar e conhecer gente nova. E apesar de achar que, sim, todo mundo deveria passar uns dias na floresta ou fazer uma trilha nas montanhas, que os ganhos dessa imers&#227;o na natureza s&#227;o dos n&#237;veis mudan&#231;a de vida, o meu objetivo com esse texto &#233; menos audacioso do que te convencer a viver qualquer uma dessas experi&#234;ncias e s&#243; pretendo refletir sobre o tipo de desconforto que cada um j&#225; aceita na vida e o porqu&#234;. Acontece quase sem ver, pouca ou nenhuma reflex&#227;o, sem escolha, por acharmos que n&#227;o h&#225; outras op&#231;&#245;es.  </p><p>Do lado de c&#225;, por escolha, subo montanhas, encaro o frio de um jeito diferente do qual eu encarava antes, dou risada quando algu&#233;m diz que oito horas &#233; muito tempo num &#244;nibus. Minhas refer&#234;ncias f&#237;sicas foram para um patamar t&#227;o alto que &#233; comum me ver em situa&#231;&#245;es desconfort&#225;veis at&#233; quando n&#227;o preciso. Sustento. Minha r&#233;gua, que j&#225; era alta, mudou tanto que &#224;s vezes preciso me lembrar das op&#231;&#227;o de conforto, da minha ag&#234;ncia sobre algumas situa&#231;&#245;es. De t&#227;o acostumada, me esque&#231;o. Desde que seja algo me pinicando fisicamente. Emocionalmente meu primeiro impulso &#233; o mesmo daqueles famosos da rede social: ir sozinha para o meu quarto luxuoso com ar condicionado. O que, na minha linguagem quer dizer: sair pelo mundo. Essa ainda &#233; a coisa mais confort&#225;vel a se fazer na minha vida.  </p><p>Mas estou pensando em parar. E quando penso em parar pouca coisa &#233; confort&#225;vel &#224; minha volta. Pois quando paro eu tenho mais tempo e me d&#225; um siricutico de fazer coisas, aceito todos os convites, fico louca na cidade cheia de est&#237;mulos, quero colocar um projeto no mundo, mas o mundo &#233; t&#227;o diferente do que vivo e do que acredito, que &#233; &#243;bvio que n&#227;o dar&#225; certo, ou no m&#237;nimo levar&#225; muito tempo. E eu terei que lidar com as pessoas que n&#227;o bancam desconfortos, fogem de conversas dif&#237;ceis, n&#227;o dizem n&#227;o, mas tamb&#233;m n&#227;o dizem sim. Se eu ficar, elas ficar&#227;o ali, com suas dores e del&#237;cias, estagnadas, dizendo que querem sem conseguir se mexer. E eu terei que fazer coisas que odeio, sujeitar-me a rejei&#231;&#245;es, bancar conflitos. E nessas horas eu s&#243; quero comprar uma passagem e sair pelo mundo, desistir de comprar outro colch&#227;o magn&#233;tico e colocar a rede na mochila. O sin&#244;nimo de desconforto para a maioria das pessoas, &#233; a minha zona de conforto. </p><p>Sair da zona de conforto &#233; um conselho que j&#225; virou motivo de muita piada. &#8220;N&#227;o quero sair da minha zona de conforto, quero ficar aqui, bem confort&#225;vel&#8221; , as pessoas respondem. Mas algu&#233;m est&#225; de fato confort&#225;vel nesse mundo? Para isso viemos? No meu desconforto curioso, fico tr&#234;s meses no Rio, coloco um projeto no mundo, vivo altos e baixos, troco o colch&#227;o do Airbnb v&#225;rias vezes, me espregui&#231;o diferente enquanto durmo num len&#231;ol de muitos fios e desejo que toda a minha pele tenha contato com aquele tecido, mas tamb&#233;m durmo sorrindo no ch&#227;o duro de uma barraca e nem preciso me esticar quando pulo no rio, toda o meu corpo j&#225; sente a &#225;gua na temperatura ideal e guarda pra sempre a experi&#234;ncia de felicidade. Ent&#227;o me pego questionando: nos momentos mais felizes da sua vida, voc&#234; estava muito confort&#225;vel? Aposto que n&#227;o. </p><p></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Blasê é o caralho]]></title><description><![CDATA[Correu pela internet, alguns meses atr&#225;s, a hist&#243;ria de uma mulher que se &#8220;apaixonou&#8221; por um cara que ela viu rapidamente e com qual trocou alguns olhares.]]></description><link>https://andarilha.substack.com/p/blase-e-o-caralho</link><guid isPermaLink="false">https://andarilha.substack.com/p/blase-e-o-caralho</guid><dc:creator><![CDATA[andarilha]]></dc:creator><pubDate>Tue, 30 Jun 2026 20:22:17 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!b1xG!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7c701055-8592-4e7a-a7b7-5c2236ecbb09_4000x2252.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Correu pela internet, alguns meses atr&#225;s, a hist&#243;ria de uma mulher que se &#8220;apaixonou&#8221; por um cara que ela viu rapidamente e com qual trocou alguns olhares. Ele era funcion&#225;rio do hotel onde elas estava hospedada na Tanz&#226;nia e quando voltou pro Brasil, ligou, mandou um email, n&#227;o lembro, mas enfim, contou o caso para as pessoas e conseguiu o contato dele. Meses depois namoravam, apesar da nada singela dist&#226;ncia geogr&#225;fica e cultural entre Brasil e Tanz&#226;nia. Enquanto pessoas me contam essa hist&#243;ria com esperan&#231;a e romantismo, balan&#231;o a cabe&#231;a desacreditada em adultos querendo viver contos de fadas que todo mundo deveria saber que n&#227;o existem.   </p><p>Meu ceticismo reina e acho que as pessoas fabricam o gostar e em tempos de internet est&#227;o &#225;vidas por hist&#243;rias que engajam. J&#225; que a &#250;ltima coisa que me passa pela cabe&#231;a enquanto estou vivendo uma forte emo&#231;&#227;o &#233; pegar um c&#226;mera para filmar, o engajamento tamb&#233;m n&#227;o tem apelo na minha vida. Mas a minha falta de romantismo &#233; anterior ao tempo das redes sociais. N&#227;o sei onde, nem quando ele foi destru&#237;do, ou se simplesmente nunca brotou, mas definitivamente os anos na estrada o lapidaram. Chego j&#225; cantando <a href="https://open.spotify.com/intl-pt/track/12NHx94ARQJbvBibYFl0rf?si=9221e8d516c74046">N&#227;o vim pra ficar</a>. E, claro, todo mundo sente. Somado a uma personalidade que pensa antes de sentir e a total descren&#231;a em almas g&#234;meas (no sentido de que n&#227;o acredito que existe apenas uma pessoa para cada no universo, mas as pessoas escolhem de acordo com as circunst&#226;ncias), temos o ant&#237;doto perfeito antirromantismo. </p><p>Talvez eu seja a encarna&#231;&#227;o dos relacionamentos l&#237;quidos de Baumman e ano passado dois caras me chamaram de blas&#234; pelos mesmos motivos: eu n&#227;o me mostrava extremamente empolgada com aqueles encontros. Nada emocionada, como dizem hoje. Fique cabreira, como pode algu&#233;m me chamar de blas&#234; sem nem me conhecer direito? Se eu adoro Maria Beth&#226;nia, ando pelas ruas de novas cidades com olhos marejados, <em>rindo &#224; toa, sem saber porque</em>, assisto a lua brilhar no c&#233;u, sinto o cheiro do mar, do milho cozido e do que mais representar o lugar, fotografo as cores da feira, me deslumbro com a vis&#227;o dos morros cariocas, mesmo olhando para eles h&#225; mais de um m&#234;s e ainda ontem fiquei injuriada com um cara que me disse ter morrido por dentro, estar sem vontades, atribuindo a morte a seu trabalho. Precisaria de tr&#234;s meses de f&#233;rias para recuperar alguma chama vivente, completou. Quis salva-lo, evitar que se afogasse naquela apatia, ou eu mesma colocar fogo nas cinza, para que ele renascesse, como F&#234;nix. Como pode? Estar morto por dentro e falar nessa tranquilidade? Tentei contar a quanto tempo eu estava sem trabalhar, disse que precisava andar mais comigo, quem sabe eu podia inspira-lo, mas ele n&#227;o me deu ouvidos, estava mais preocupado em me provar o qu&#227;o morto estava (e, n&#227;o, n&#227;o era um quadro depressivo). No come&#231;o duvidei, mas depois disse a mim mesma que n&#227;o podia duvidar de algu&#233;m que me falava com todas as letras estar morto. Ele estava. E n&#227;o se importava o suficiente.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!5xrA!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa902ccbc-7aec-4142-9831-62c1ad34feed_347x380.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!5xrA!, /__u/andarilha.substack.com/w_424, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, /__u/andarilha.substack.com/q_auto:good, /__u/andarilha.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa902ccbc-7aec-4142-9831-62c1ad34feed_347x380.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!5xrA!, /__u/andarilha.substack.com/w_848, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, 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E me lembro que n&#227;o estou morta todos os dias, apesar do <em>desromance</em> que carrego no meu ser, vivo por minhas outras rela&#231;&#245;es de afeto. Mas &#233; dif&#237;cil demais criar - e viver - uma vida diferente da maioria. E mais ainda, viv&#234;-la para al&#233;m da teoria. Porque hoje a teoria j&#225; da conta, na minha bolha muita gente fala da n&#227;o hierarquiza&#231;&#227;o de afetos, questiona a sociedade desenhada, que coloca as rela&#231;&#245;es de casais e os n&#250;cleos familiares acima de qualquer outra. Antes mesmo desses nomes, eu vivia assim. E me sentia sozinha nesse &#226;mbito, frequentemente achando que eu oferecia mais &#224;s minhas rela&#231;&#245;es de amizade que recebia. Mas a import&#226;ncia das amizades &#233; uma verdade, uma cren&#231;a fundante de quem eu sou e eu n&#227;o poderia parar de procurar, precisava achar minha turma.</p><p>A consequ&#234;ncia principal do meu modo de viver a vida e minhas rela&#231;&#245;es &#233; n&#227;o ser a n&#250;mero um de ningu&#233;m. Veja bem, tenho in&#250;meros afetos, mas ningu&#233;m morreria por mim e se eu morrer hoje n&#227;o deixarei grandes traumas, ningu&#233;m depende apenas do meu ser, tem no meu amor e afeto a sua fonte principal. Questiono-me o que essa constata&#231;&#227;o me faz sentir e percebo que nada, porque &#233; coerente com o que acredito: distribui&#231;&#227;o de afetos e liberdade individual. &#201; uma resposta honesta. Por mais que o mundo me diga que &#233; estranho, eu sei que est&#225; tudo bem n&#227;o ser a n&#250;mero um de ningu&#233;m, pois me sinto amada de v&#225;rias formas, em v&#225;rios lugares. Esse meu nada &#233; diferente de quando minha &#250;ltima terapeuta perguntava: &#8220;o que voc&#234; est&#225; sentindo?&#8221; e eu olhava pra ela sem saber o que responder, como se ela perguntasse qual m&#250;sica tocava para uma pessoa surda. Eu quase nunca sei descrever o que sinto. Ser&#225; que &#233; isso o ser blas&#234;? </p><p>N&#227;o pode ser, porque sei n&#227;o estar nem um pouco morta por dentro. Hoje mesmo conheci um poema que nunca lera antes e achei lindo, sabia exatamente do que ele falava, eu j&#225; senti isso in&#250;meras vezes: &#8220;Li uma vez que os antigos eg&#237;pcios tinham cinquenta palavras para areia e os esquim&#243;s tinham cem palavras para neve. Eu gostaria de ter mil palavras para amor, mas tudo o que me vem &#224; mente &#233; a maneira como voc&#234; se move contra mim enquanto voc&#234; dorme e n&#227;o h&#225; palavras para isso&#8221;. Quase procurei o casal Brasil-Tanz&#226;nia para pedir desculpas e dizer que, sim, eu acreditava no amor eterno deles e valia a pena todo aquele esfor&#231;o. Mas a&#237; lembrei que o tempo passa, &#233; preciso comprar mantimentos, decidir o que comer, ter desejos alinhados e desisti. Voltei para a minha cr&#244;nica sobre amizade. &#8220;Eu poderia suportar, embora n&#227;o sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!&#8221;, amigas, no meu caso. Paulo Sant&#8217;Ana, escreveu, Vin&#237;cius de Moraes popularizou.   </p><p>No dia em que cheguei em Girona, para visitar uma amiga que eu conhecera por dois dias em Belize, h&#225; dois anos daquele encontro, que um ano antes revi no Brasil, apresentei o carnaval, levei pra passar uma semana com minha fam&#237;lia e dali fomos para um m&#234;s juntas na Argentina, eu respirei emocionada enquanto com&#237;amos uma tortilla de abobrinha. Era o terceiro ano seguido em que nos v&#237;amos e naquela rela&#231;&#227;o eu nunca senti que dava mais, a percebia t&#227;o feliz quanto eu com o reencontro e via nossos esfor&#231;os totalmente equiparados, duas pessoas cuidando igualmente da rela&#231;&#227;o, mesmo com a imensa dist&#226;ncia geogr&#225;fica e cultural entre Brasil e Catalunha. Essa dist&#226;ncia eu me permito atravessar porque n&#227;o &#233; a &#250;nica nem a mais importante rela&#231;&#227;o de afeto da minha vida, me permito porque j&#225; sei precisar de v&#225;rias fontes de amor e que nunca estarei contente com apenas uma, forte, principal, prometida como inesgot&#225;vel. </p><p>Tento espalhar a palavra aos quatro ventos e acho que me captaram, pois essa semana recebi, de cinco pessoas diferentes, um post que dizia: &#8220;Com quais amigos voc&#234; vai morar na velhice?&#8221; Todo mundo &#224; minha volta sabe desse meu plano, muitos j&#225; disseram topar, eu realmente acredito que &#233; o &#250;nico futuro poss&#237;vel para as rela&#231;&#245;es e para combater a epidemia de solid&#227;o enfrentada pela humanidade. Acredito piamente que o isolamento em nossos caixotes de poucos metros quadrados &#233; um dos mais nocivos comportamentos da atualidade. Nos tornamos menos complacentes, mais individualistas e infelizes. Cada fam&#237;lia tem os mesmos problemas que as fam&#237;lias vizinhas: a log&#237;stica dos filhos, a comida, o t&#233;dio, mas poucos se ajudam, mal se conhecem. Por mim estar&#237;amos todos ainda vivendo em aldeias e, quem sabe nessas circunst&#226;ncias eu at&#233; entendesse melhor a rela&#231;&#227;o da mo&#231;a do hotel.    </p><p>Mas eu n&#227;o sou aquela mo&#231;a e acredito em coisas muito diferentes do que me foram ensinadas a come&#231;ar que a rela&#231;&#227;o de casal dever ser a mais importante da sua vida. Por mais dif&#237;cil que seja nadar contra essa correnteza, tento viver essas cren&#231;as em todas as minhas decis&#245;es: sem perder a capacidade de me deslumbrar com o mundo e testando solu&#231;&#245;es nas quais acredito, mesmo que fora do senso comum. Nada clich&#234;, ou blas&#234;.</p><p>Pensando em me estabelecer numa cidade, escolhi o Rio para teste e fui morar com uma amiga, a rela&#231;&#227;o mais est&#225;vel dos meus &#250;ltimos cinco anos. Ser&#225; que a gente vai brigar? Nos perguntamos antes. Muito provavelmente, mas tamb&#233;m vamos resolver, porque somos boas de conversa e de risada. Ligar o foda-se para quem dizia, num misto de espanto, julgamento e inveja: &#8220;nossa! Voc&#234; vai morar com amiga depois de velha&#8221;, j&#225; que na concep&#231;&#227;o da sociedade, estamos velhas, mas n&#227;o velhas o suficiente para morar com amigas. A cobran&#231;a ainda &#233; por uma rela&#231;&#227;o rom&#226;ntica e filhos. J&#225; morei sozinha, com parceiro, com pessoas que mal conhecia, com amigas. E, sim, a configura&#231;&#227;o atual tem sido a melhor at&#233; agora. Na pr&#225;tica nunca foi t&#227;o f&#225;cil escolher o que assistir juntas, dividir as tarefas da casa, lavar a lou&#231;a, fazer a comida.  </p><p>Foi ela quem me apontou o homem. Tem um mo&#231;o ali que &#233; a sua cara, disse. Me conhecendo bem, tinha raz&#227;o, ele era a minha cara, mas estava morto por dentro. Eu continuo vivona. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!b1xG!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7c701055-8592-4e7a-a7b7-5c2236ecbb09_4000x2252.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!b1xG!, /__u/andarilha.substack.com/w_424, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, /__u/andarilha.substack.com/q_auto:good, /__u/andarilha.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7c701055-8592-4e7a-a7b7-5c2236ecbb09_4000x2252.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!b1xG!, /__u/andarilha.substack.com/w_848, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, 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Eu n&#227;o me acostumo. </figcaption></figure></div><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Me vê uma foca assada]]></title><description><![CDATA[entre o precisar e o saber fazer]]></description><link>https://andarilha.substack.com/p/me-ve-uma-foca-assada</link><guid isPermaLink="false">https://andarilha.substack.com/p/me-ve-uma-foca-assada</guid><dc:creator><![CDATA[andarilha]]></dc:creator><pubDate>Sun, 31 May 2026 13:25:12 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Nhtd!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc586b325-e97f-4e6c-bfc6-ed7c72df7b12_2268x3348.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Quando no dia anterior aquela menina me ofereceu um passeio de moto, no lugar da caminhada prevista, n&#227;o imaginei que eu iria na sua garupa com seu beb&#234; de quatro meses entre n&#243;s. Ainda assim, ao receber o capacete, preferi ir com ela e n&#227;o com o garoto alem&#227;o que viajava comigo. Deslizamos por estreitas passagens entre os campos de arroz das montanhas no norte do Vietn&#227; e ela nem titubeou, dominou a moto como na noite anterior dominou as panelas que faziam nosso jantar, os curativos que cuidaram do bra&#231;o cortado do marido, a conversa com seus h&#243;spedes e linha/ agulha, ao consertar a al&#231;a rasgada de uma mochila. Eu, completamente in&#250;til.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Nhtd!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc586b325-e97f-4e6c-bfc6-ed7c72df7b12_2268x3348.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Nhtd!, /__u/andarilha.substack.com/w_424, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, /__u/andarilha.substack.com/q_auto:good, /__u/andarilha.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc586b325-e97f-4e6c-bfc6-ed7c72df7b12_2268x3348.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Nhtd!, /__u/andarilha.substack.com/w_848, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, 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seus filhos, ancestrais vindos da Mong&#243;lia. Atravessaram a China, instalaram-se no norte do Vietn&#227; e buscavam manter as tradi&#231;&#245;es, inclusive o idioma mongol. N&#227;o se consideram vietnamitas, mas aquela menina falava a l&#237;ngua da sua fam&#237;lia, vietnamita e ingl&#234;s, que aprendeu com turistas, desde quando pequena acompanhava sua m&#227;e, que tamb&#233;m &#233; guia. </p><p>Minhas duas av&#243;s moraram na fazenda durante muitos anos. A paterna criou quatro filhos ali, outros dois na cidade, n&#227;o sei ao certo quantas vezes engravidou. A cidade mais pr&#243;xima estava a v&#225;rias horas de dist&#226;ncia, &#224; cavalo. O marido vivia na estrada, tocando gado, no maior estilo menino da porteira. Como voc&#234; j&#225; deve imaginar n&#227;o havia energia el&#233;trica, telefone, carro ou banheiro. Aos 18 anos deixou m&#227;e, pai, v&#225;rios irm&#227;os e irm&#227;s mais novos em outra fazenda e foi viver sozinha, onde cuidava de tudo. Fazia sab&#227;o, comida, cuidava de ferimentos, arrumava a casa. Uma vida de afazeres, n&#227;o s&#243; dom&#233;sticos. </p><p>Hoje ela tem 85 anos de pura lucidez, mora na cidade h&#225; uns 50. N&#227;o parou no tempo, faz pix, usa Whats app, Instagram, Facebook e raramente visita uma fazenda. J&#225; cumpriu sua cota, penso. H&#225; dois anos caiu, quebrou o punho, precisou operar. No dia de tirar os pontos o m&#233;dico perguntou se ela queria deitar. Olhou pra ele intrigada: Por que? Vai doer muito? &#8220;N&#227;o, mas muita gente passa mal&#8221;, respondeu. Soltou sua risada alta, imaginando aqueles coitados que n&#227;o suportavam a retirada de pontos e listou pro m&#233;dico os nomes de v&#225;rias pessoas das quais ela j&#225; retirara pontos. Impressionado ele concluiu: a senhora j&#225; fez curso de primeiros socorros? Ainda gargalhando ela respondeu: na vida. Minha av&#243; tem at&#233; a quarta s&#233;rie. Nunca sentou formalmente num banco de escola e sabe fazer muito mais coisas que eu, aluna exemplar durante uns vinte anos e viajante que j&#225; visitou meio mundo. </p><p>Tudo o que aprendi na escola e nesses quatro anos viajando est&#225; na minha cabe&#231;a e n&#227;o me garantiria sobreviv&#234;ncia em nenhuma situa&#231;&#227;o limite (a n&#227;o ser que a solu&#231;&#227;o fosse pilotar uma moto para chamar ajuda, pelo menos isso!). Tenho pensado muito no absurdo que &#233; eu n&#227;o saber fazer quase nada pr&#225;tico ou &#250;til para a sobreviv&#234;ncia - ou mesmo para facilitar a vida humana. Longe de mim querer voltar no tempo das minhas av&#243;s ou ter a vida daquela menina do Vietn&#227;, ainda assim, o outro extremo em que vivo tem me instigado. Por ter op&#231;&#245;es reneguei qualquer aprendizado que essas mulheres obtiveram for&#231;osamente. E ultimamente tenho sido avessa a extremos.  </p><p>Quando a Tamara Klink invernou na Groenl&#226;ndia, passando 8 meses sozinha, ela se preparou aprendendo muitas coisas que antes n&#227;o sabia fazer. Nas entrevistas conta sobre o valor e o prazer do aprendizado pr&#225;tico. Aprendeu sobre el&#233;trica, mec&#226;nica, como suturar a pr&#243;pria pele, limpar uma foca, atirar. Entendeu o que fazer para viver no desconforto do frio e como  interpretar os sinais do seu corpo. Ao ser perguntada porque escolheu viver essa experi&#234;ncia, mesmo n&#227;o precisando, respondeu que escolheu justamente por ter a op&#231;&#227;o. Tanto a escolha quanto os aprendizados geraram prazeres, al&#233;m de experi&#234;ncias interessantes e engrandecedoras. Concordo que, muitas vezes, est&#225; a&#237;, justamente na op&#231;&#227;o, a grande diferen&#231;a entre olhar para o que fazemos da vida com curiosidade ou raiva. </p><p>Recentemente estive obcecada pela hist&#243;ria de uma expedi&#231;&#227;o &#224; Ant&#225;rtica, que em 1915 foi ao continente gelado com o objetivo de atravessa-lo &#224; p&#233;, mas nunca concluiu o prop&#243;sito. A  hist&#243;ria &#233; narrada no livro <a href="https://www.amazon.com.br/incr%C3%ADvel-viagem-Shackleton-extraordin%C3%A1ria-aventura/dp/6555642556/ref=asc_df_6555642556?mcid=efc1303b1a5f3ecc827fc4edfb740400&amp;tag=googleshopp00-20&amp;linkCode=df0&amp;hvadid=709857900468&amp;hvpos=&amp;hvnetw=g&amp;hvrand=11629719539940960271&amp;hvpone=&amp;hvptwo=&amp;hvqmt=&amp;hvdev=c&amp;hvdvcmdl=&amp;hvlocint=&amp;hvlocphy=9193043&amp;hvtargid=pla-1637010866104&amp;psc=1&amp;hvocijid=11629719539940960271-6555642556-&amp;hvexpln=0&amp;language=pt_BR">A Incr&#237;vel viagem de Shackleton</a> que conta como no primeiro m&#234;s o navio ficou preso no gelo e a tripula&#231;&#227;o de 28 homens passou quase dois anos anos vivendo num imenso desconforto, ainda maior que o j&#225; previsto no in&#237;cio da viagem. Voltaram &#224; prim&#225;ria realidade humana: sobreviver. Com v&#225;rios agravantes: temperaturas abaixo de zero, ventos fortes, comida escassa e aus&#234;ncia de terra firme (nos primeiros meses viveram no navio encalhado e quando ele se rompeu foram para banquisas - grandes plan&#237;cies de gelo flutuantes). </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!SFgb!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Faa8b4ba6-dc1a-4453-83a6-ceb9a5efd661_795x539.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!SFgb!, /__u/andarilha.substack.com/w_424, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, /__u/andarilha.substack.com/q_auto:good, 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capaz de aguentar, o que a mente pode suportar e as habilidades e conhecimento necess&#225;rios para mant&#234;-los vivos: ca&#231;ar, estripar focas, pinguins e le&#245;es marinhos, usar a gordura desses animais como combust&#237;vel, cozinhar, tomar decis&#245;es r&#225;pidas, reformar um barco, ler mapas, usar b&#250;ssolas e sextantes, orientar-se pelas estrelas, navegar, usar a for&#231;a f&#237;sica mesmo diante da exaust&#227;o, operar, tratar os ferimentos, suportar temperaturas negativas e ventos cortantes, tomar decis&#245;es r&#225;pidas sobre press&#227;o e exaust&#227;o. Nada que eu saiba fazer.</p><p>O mundo atual n&#227;o nos obriga a ter nenhum desses conhecimentos. Nos tornamos totalmente passivos, recebendo informa&#231;&#245;es, comprando servi&#231;os, incapazes de executar tarefas sem tutoriais. A minha sensa&#231;&#227;o &#233; que, j&#225; muito antes da intelig&#234;ncia artificial, o conhecimento ficou raso e apenas te&#243;rico. Falo principalmente por mim, pela educa&#231;&#227;o formal que obtive. E se hoje n&#227;o precisamos dessas habilidades para sobreviver, quando escolhemos n&#227;o aprende-las, aceitamos o nosso destino de pobres roladores de feed, presos a telefones com t&#227;o pouca autonomia de bateria quanto n&#243;s de vida. Com menos dopamina e foco, mais stress a ansiedade. Na maior parte do tempo confort&#225;veis, poucas vezes entusiasmados. </p><p>457 inacredit&#225;veis dias na Ant&#225;rtida. Todos voltaram vivos e essa informa&#231;&#227;o n&#227;o &#233; um spoiler, &#233; o principal motivo pelo qual o caso &#233; famoso. As habilidades daqueles homens, a capacidade de suportar o desconforto, trabalhar em equipe, manter o &#226;nimo e a esperan&#231;a foram fundamentais para que voltassem vivos. E um tanto de sorte tamb&#233;m, quem vive na estrada sabe a import&#226;ncia dela. Durante a prepara&#231;&#227;o da expedi&#231;&#227;o, entre os anos 1913 e 1914, foram enviadas cerca de 5.000 inscri&#231;&#245;es, das quais haviam 3 mulheres, nunca consideradas. Se eu sei um pouco sobre suportar desconfortos, n&#227;o sei nada sobre princ&#237;pios b&#225;sicos de sobreviv&#234;ncia e teria sido apenas mais um peso. Minhas av&#243;s n&#227;o. Elas saberiam o que fazer e teriam sido muito &#250;teis a qualquer expedi&#231;&#227;o. Quem mata e prepara um porco, faz tamb&#233;m uma foca assada, mas naquele tempo mulheres n&#227;o podiam viajar. Agora eu posso, por&#233;m n&#227;o sei o que fazer com um fac&#227;o, muito menos me orientar pelas estrelas. Me inscrevi num curso de primeiros socorros, v&#243;.  </p><div><hr></div><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Meu mundo caiu]]></title><description><![CDATA[Quando estou em situa&#231;&#245;es fisicamente desconfort&#225;veis &#233; comum pensar nas minhas escolhas e nas pessoas que n&#227;o possuem esse poder.]]></description><link>https://andarilha.substack.com/p/meu-mundo-caiu</link><guid isPermaLink="false">https://andarilha.substack.com/p/meu-mundo-caiu</guid><dc:creator><![CDATA[andarilha]]></dc:creator><pubDate>Thu, 30 Apr 2026 18:26:42 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!N0Kr!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc20fd6e2-4db6-4ad7-94a7-bd479f52df24_707x397.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Quando estou em situa&#231;&#245;es fisicamente desconfort&#225;veis &#233; comum pensar nas minhas escolhas e nas pessoas que n&#227;o possuem esse poder. No &#244;nibus pelo interior do Nepal, que continuava aceitando passageiros, mesmo quando parecia n&#227;o caber mais ningu&#233;m, nos t&#243;rridos chicken-bus da Nicar&#225;gua e Costa Rica, apelidados assim pelos turistas por comumente carregarem pessoas e galinhas, nas vans da Guiana, com mais gente que sua capacidade, em uma viagem de 24h e, mais recentemente, a van paradeira da Praia do Forte para Salvador que demorou o dobro do tempo normal para o trajeto, olho pra mim e para as pessoas &#224; minha volta sabendo dessa diferen&#231;a. Frequento esses lugares como uma experi&#234;ncia antropol&#243;gica, aberta para ver de perto como as pessoas vivem, viver o novo e consciente que essa pluralidade torna minha vida (e a mim mesma) mais interessante. </p><p>[a partir daqui h&#225; spoilers do filme <a href="/__u/www.google.com/search?q=trailer+filme+entre+dois+mundos&amp;oq=trailer+filme+entre+dois+mundos&amp;gs_lcrp=EgZjaHJvbWUyBggAEEUYOTIICAEQABgWGB4yCAgCEAAYFhgeMggIAxAAGBYYHjIICAQQABgWGB4yBwgFEAAY7wUyBwgGEAAY7wUyBwgHEAAY7wXSAQk1NTIzajBqMTWoAgiwAgHxBX8qNVg5LLdJ&amp;sourceid=chrome&amp;ie=UTF-8#fpstate=ive&amp;vld=cid:ead9e000,vid:wXRtfT40U6A,st:0">Entre Dois Mundos</a>]</p><p>Quero achar diferen&#231;as, mas talvez eu seja um pouco como Marianne, a protagonista de Entre dois mundos, filme franc&#234;s que conta a hist&#243;ria de uma aclamada escritora que se disfar&#231;a de faxineira para colher material para um novo livro. O motivo parece nobre: ela come&#231;a o projeto com o objetivo de falar da precariedade do trabalho na sociedade francesa, mas Marianne cria la&#231;os, faz amizades, vai para dentro da casa das colegas, conhece os filhos delas, recebe surpresas de anivers&#225;rio e, minutos ap&#243;s trocarem acordos futuros de que manteriam a conex&#227;o, &#233; desmascarada, ao esbarrar com um amigo do seu mundo real. Ali termina seu disfarce e tamb&#233;m as rela&#231;&#245;es.</p><p>No lan&#231;amento do livro, apesar dos aplausos da maior parte das pessoas que cruzaram seu caminho enquanto ela lavava banheiros e arrumava camas, havia a aus&#234;ncia do som das m&#227;os de suas duas companheiras mais pr&#243;ximas. Elas chegam no final, n&#227;o traziam palmas nem perd&#227;o, mas uma proposta: limparem juntas, pela &#250;ltima vez. Eu j&#225; tinha as m&#227;os no avental quando Marianne disse n&#227;o, deixando suas "amigas" com a impress&#227;o que j&#225; tinham: a amizade tamb&#233;m era parte do disfarce e a rela&#231;&#227;o s&#243; existiria nos termos da autora privilegiada. Limparia banheiros por um texto, n&#227;o o faria porque duas pessoas, a quem supostamente tinha afeto, a pediam. </p><p>Talvez para saberem se de fato significavam algo, se parte do que trocaram fora real, ou apenas por vingan&#231;a, o motivo das duas amigas terem feito esse pedido n&#227;o ficou claro e sinceramente nem me interessou. Se era o que elas precisavam, o pedido n&#227;o me pareceu absurdo, a recusa de Marianne sim. Ao abrir m&#227;o de qualquer chance de resgate, ou ao menos de contribuir para que aquelas duas mulheres se sentissem melhor, menos usadas, a escritora confirmou n&#227;o ter nenhum interesse nelas, para al&#233;m do seu conte&#250;do. Enquanto meu companheiro de filme achou natural aquela recusa, sa&#237; do cinema indignada. Marianne me enganara tamb&#233;m.</p><p>Sou versada em psican&#225;lise o suficiente para perceber que muito desse inc&#244;modo veio das nossas similaridades: n&#227;o sou escritora aclamada, mas escrever &#233; minha forma de processar experi&#234;ncias, n&#227;o altero minha identidade, mas me coloco em lugares onde eu tenho a op&#231;&#227;o de n&#227;o estar, diferentemente da maioria das pessoas dali, somado a um agravante: valorizo extremamente as rela&#231;&#245;es e tenho horror &#224; atual liquidez sob a qual a maioria se comp&#245;e. Ind&#237;cios de porque, um ano ap&#243;s assistir o filme ainda tento processar meu inc&#244;modo e, quem sabe, o meu n&#237;vel de hipocrisia. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!N0Kr!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc20fd6e2-4db6-4ad7-94a7-bd479f52df24_707x397.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!N0Kr!, /__u/andarilha.substack.com/w_424, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, /__u/andarilha.substack.com/q_auto:good, /__u/andarilha.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc20fd6e2-4db6-4ad7-94a7-bd479f52df24_707x397.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!N0Kr!, 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passam por aquele desconforto com certa frequ&#234;ncia. Naquele &#244;nibus do interior do Nepal, pessoas continuavam subindo, idosos, sobretudo. O aperto era tanto que nem era poss&#237;vel levantar e ceder meu assento, como eu gostaria e tentei fazer. Se amontoavam no ch&#227;o durante as curvas da estrada e eu pensava que aquela era a &#250;nica forma de acessarem a cidade grande. Durante a viagem de 24h para Lethem, desci no meio do caminho, para quebrar a viagem e dormir uma noite numa reserva florestal. Aproveitei o verde e o rio, fiz uma bel&#237;ssima refei&#231;&#227;o no jantar. O colch&#227;o mole e o quarto calorento cheio de mosquitos ainda foram melhores que as horas na van apertada, com um passageiro a mais e meus joelhos doloridos. Eu tinha essa op&#231;&#227;o, venezuelanas, brasileiros, colombianos e guianeses da van, n&#227;o. Sabendo que era tempor&#225;rio e sem a preocupa&#231;&#227;o de pagar as contas no final do m&#234;s, Marianne madrugava para uma jornada de trabalho exaustiva ao lado de suas colegas que contavam moedas para pagarem a gasolina dividida. Esse &#233; um dos poucos momentos em que assistimos a autora questionar abertamente suas atitudes. As minhas vivem no banco dos r&#233;us e talvez por isso me ache uma pessoa um pouco diferente dela. </p><p>Em um dia de trilha na Nicar&#225;gua eu visitava um parque com um viajante portugu&#234;s e abordamos um grupo de quatro jovens para dividir o valor do guia, algo normal em pontos tur&#237;sticos. Com poucos minutos de trilha embaixo da chuva percebi que aqueles quatro jovens viviam situa&#231;&#245;es financeiras muito diferentes das nossas, mas por algum motivo eles toparam dividir o custo. Rodamos por pouco mais de uma hora o parque do vulc&#227;o Mombacho por dentro de sua floresta nebulosa, por baixo de uma extrema neblina e recebendo explica&#231;&#245;es muito interessantes do guia. A verdade &#233; que o jovem grupo tamb&#233;m se divertiu e gostaram da experi&#234;ncia de passar um tempo com dois gringos, algo que eles nunca haviam feito antes. Tiramos v&#225;rias fotos de grupo que o portugu&#234;s recusou-se a enviar por whats app, pois a resolu&#231;&#227;o era melhor por email.</p><p>Quando a trilha acabou havia a op&#231;&#227;o de pagar um transporte que nos levaria at&#233; a entrada do parque mas n&#243;s dois decidimos descer a p&#233;. Nos despedimos do grupo e eu, que j&#225; estava culpada por ter dividido o custo do guia, mas nada fiz sobre isso, deixei para o grupo o valor do transporte - apesar da veemente recusa - em seguida o portugu&#234;s fez o mesmo. Porque o parque j&#225; estava para fechar o caminh&#227;o de transporte nos pegou no caminho, obrigando que entr&#225;ssemos. Reencontramos o grupo e todos pegamos o mesmo &#244;nibus para o centro da cidade. Quando o cobrador passou um deles fez quest&#227;o de pagar nossa passagem, mesmo diante de nossos protestos. Entendi que aquilo era importante para ele e deixei, agradecendo. &#192;s vezes &#233; mais sobre ser visto do que sobre o dinheiro. As fotos nunca recebemos, apesar dos diversos pedidos o portugu&#234;s n&#227;o as enviou e partiu meu cora&#231;&#227;o pensar que nenhum de n&#243;s teria essas lembran&#231;as. Era t&#227;o pouco o que ele precisava fazer. No meu di&#225;rio daquele dia escrevi: <em>me culpei por n&#227;o ter prestado aten&#231;&#227;o na condi&#231;&#227;o financeira dos jovens antes e n&#227;o ter sido generosa para pagar a parte deles no guia. N&#227;o posso salvar as pessoas, mas da pr&#243;xima vez serei mais generosa</em>. Odeio perceber que &#224;s vezes sou como Marianne.   </p><p>N&#227;o consigo definir se eu estava mais incomodada com o disfarce, com os custos que ela dividia sem precisar, com a discrep&#226;ncia entre as realidades e a desigualdade social mais uma vez escancarada, com a decep&#231;&#227;o que ela causou naquelas mulheres, por entender que, diferentemente de v&#225;rias outras pessoas que encontro pelo caminho, que vivem alegremente uma vida mais simples, aquelas mulheres tinham poucas alegrias e sofriam para fechar o m&#234;s ou com o fato de Marianne n&#227;o ter dado a elas nenhum euro do que lucrou com o livro. Provavelmente com um pouco de tudo e tenho certeza que falaria de Entre Dois Mundos em terapia, caso fizesse. Pois enquanto os mundos daquelas mulheres se conectaram, mas n&#227;o de verdade, o meu caiu e nunca mais se estruturou sobre as mesmas bases. Mas o que constitui nossos mundos? A quantidade de dinheiro que cada um tem? De onde viemos? As possibilidades, as escolhas, ou apenas nossas caracter&#237;sticas humanas de sobreviventes no mesmo planeta, <a href="/__u/andarilha.substack.com/p/mais-iguais-que-diferentes-sobretudo?utm_source=publication-search">mais iguais que diferentes</a>?</p><p>Pergunto-me como misturar os distintos mundos legitimamente. Converso, n&#227;o minto, percebo alegre que cada encontro leva um pouco de movimento para aquelas vidas. Encontraram uma forasteira. Percebo que gostam da experi&#234;ncia tanto quanto eu gosto de conviver com pessoas locais. Ao mesmo tempo, nesses ambientes nunca criei la&#231;os a ponto de manter contato ou pensar em visita-las novamente, provavelmente porque nossas realidades s&#227;o muito distintas. As pessoas da estrada com quem ainda tenho v&#237;nculos eram todas viajantes como eu. Ent&#227;o me vejo mais uma vez como Marianne. Consolo-me pensando que algumas diferen&#231;as s&#227;o certas: conscientemente eu n&#227;o engano ningu&#233;m e teria atendido aquele &#250;ltimo pedido sem pestanejar, pois n&#227;o vou pelo texto, vou pela vida e a vida n&#227;o acontece s&#243; no conforto. Por algum motivo eg&#243;ico, agora penso ser melhor que ela.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://andarilha.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/andarilha.substack.com/subscribe"><span>Assine agora</span></a></p><div><hr></div><h2>Boas Novas e obrigada</h2><p>Nessa semana essa newsletter completou 300 pessoas inscritas e num mundo onde estamos cada vez mais vidrados em v&#237;deos que palavras eu achei um marco bonito. Por outro lado, me vi tamb&#233;m com mais responsabilidade e qui&#231;&#225; um pouco de receio de desperdi&#231;ar o t&#227;o valioso tempo de voc&#234;s ou, pior, n&#227;o fazer jus &#224;s indica&#231;&#245;es de pessoas que tanto admiro. Estou falando com voc&#234;s <a href="https://www.instagram.com/mariacarolmedeiros/">Maria Carol Medeiros</a> e <a href="https://www.instagram.com/suzanaveiga/">Suzana Veiga</a>. Toda vez que uma delas indica meus escritos chove de gente nova por aqui. Obrigada, mulheres. Ter a possibilidade de esbarrar com voc&#234;s nesse mundo de internet &#233; o que faz ainda estar ali valer a pena. </p><p>Se por um lado fico feliz pela leitura e confian&#231;a depositadas, por outro me vi envolta numa s&#237;ndrome que pouco me acomete: a da impostora. Costumo saber no que sou boa e aceitar tranquilamente aquilo em que n&#227;o sou, mas a escrita &#233; muitas vezes uma zona cinza pra mim. E fica dessa cor porque leio tanta gente maravilhosa que nem sempre me sinto totalmente confiante no meu texto, mas ele acontece porque eu preciso processar e uma vez escrito o publico como um ato de coragem.</p><p>Enfim, agrade&#231;o a quem l&#234; esses relatos de uma viajante viva, seja esse o seu primeiro ou quinquag&#233;simo texto meu. Obrigada tamb&#233;m a quem indica h&#225; tempos (essa inclui voc&#234;, <a href="/__u/gabri.substack.com/">Gabriel Brasil, companheiro de Substack</a>, com o &#243;timo Fuso Hor&#225;rio Zero e remetente/destinat&#225;rio de emails reflexivos). Pra quem chegou por agora, sejam bem-vindas, puxem uma cadeira e um papo, comentando no post ou respondendo os emails. Minhas publica&#231;&#245;es s&#227;o no m&#237;nimo mensais, &#224;s vezes quinzenais. Convido voc&#234;s a aproveitarem o que j&#225; tem por <a href="/__u/andarilha.substack.com/">aqui</a>. Passem os olhos pelo que j&#225; foi publicado, desde 2023, quando cerca de dez pessoas me liam e era bem mais f&#225;cil apertar o enter. </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Ilha do Ferro, de portas e janelas abertas]]></title><description><![CDATA[Um peda&#231;o de terra cercado por &#225;gua, eis a defini&#231;&#227;o de uma ilha.]]></description><link>https://andarilha.substack.com/p/ilha-do-ferro-de-portas-e-janelas</link><guid isPermaLink="false">https://andarilha.substack.com/p/ilha-do-ferro-de-portas-e-janelas</guid><dc:creator><![CDATA[andarilha]]></dc:creator><pubDate>Tue, 31 Mar 2026 20:46:54 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!rUyc!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff09cbc0e-fa2c-4951-b1e9-0585fb3d9b46_2268x2675.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Um peda&#231;o de terra cercado por &#225;gua, eis a defini&#231;&#227;o de uma ilha. Apesar do nome, a Ilha do Ferro n&#227;o &#233; exatamente uma ilha. H&#225; estrada, n&#227;o h&#225; transporte p&#250;blico. Na falta de um carro as op&#231;&#245;es s&#227;o: caminhar por 20km desde a P&#227;o de A&#231;ucar alagoana, pagar 200 reais para um taxista, subir na garupa de uma moto por 40 ou pegar uma carona. Dei a sorte da &#250;ltima op&#231;&#227;o. Caso fosse ilha eu teria precisado de um barco ou uma ponte, mas n&#227;o &#233; ilha, nem cidade, sequer um povoado, pra ser precisaria ter mais gente. A Ilha que n&#227;o &#233; ilha tem entre 340 e 500 habitantes. H&#225; controv&#233;rsias sobre o n&#250;mero exato, mas um mo&#231;o me prometeu contar. Seja como for, &#233; vila, nem &#233; povoado.</p><p>Superada a quest&#227;o log&#237;stica, as ruas de pedra aparecem ap&#243;s meia hora de uma decente estrada de terra. N&#227;o sei o que vi primeiro, se as pedras, as casas coloridas, o letreiro dizendo seja bem-vindo &#224; Ilha do Ferro, ou os cactus xiquexique. Em contrapartida lembro perfeitamente quando avistei o Velho Chico, logo ap&#243;s uma descida, o rio que banha o vilarejo apontou l&#225; embaixo, no final de uma rua estreita, entre a casa rosa com peixinhos azuis e a lanchonete. Se chegar logo ap&#243;s uma temporada de chuva, como foi o meu caso, &#233; prov&#225;vel que a popula&#231;&#227;o n&#227;o o ache t&#227;o belo, eu ainda achei.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!rUyc!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff09cbc0e-fa2c-4951-b1e9-0585fb3d9b46_2268x2675.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!rUyc!, /__u/andarilha.substack.com/w_424, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, /__u/andarilha.substack.com/q_auto:good, /__u/andarilha.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff09cbc0e-fa2c-4951-b1e9-0585fb3d9b46_2268x2675.jpeg 424w, 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N&#227;o &#233; sempre que tem festa, me disseram, sorte de viajante, respondi. Tri&#226;ngulo, zabumba, sanfona e suor, o ch&#227;o tremendo com o pandeiro de seu Joaci. Calor do carai, a bandeira vermelha informava. N&#227;o dava pra dizer que ningu&#233;m avisou. Vai pro sert&#227;o, vai. Apesar das roupas molhadas, a festa estendeu-se madrugada a dentro, n&#227;o importava se era domingo, se no outro dia tinha feira. Forr&#243; &#233; forr&#243; e na Ilha do Ferro &#233; evento grande.</p><p>Mercadinho h&#225; apenas um, toda segunda-feira moradores dali v&#227;o at&#233; a feira de P&#227;o de A&#231;&#250;car para as compras. N&#227;o fui, no segundo dia me abasteci de ovos e tapioca, um miojo para emerg&#234;ncia. E elas s&#227;o comuns. No terceiro dia, um pequeno atraso no apito da fome, que soou duas horas ap&#243;s o meio-dia deixou meu rec&#233;m formado grupo sem comida. A comida do &#250;nico restaurante aberto acabara, ap&#243;s atender um grupo de dez pessoas vindo da mais famosa vizinha Piranhas. Nos divertimos ao sabor de macarr&#227;o instant&#226;neo galinha caipira, mas nem todo mundo que chega tem essa personalidade. Houve quem dissesse: &#8220;mal cheguei e j&#225; tenho vontade de ir embora&#8221;, ao perceber que a ilha n&#227;o teria um almo&#231;o tardio para ser servido ao alecrim dourado viajante. Algumas pessoas esquecem que viajar n&#227;o &#233; sobre ser servida, mas sim sobre aprender a viver no tempo (e no jeito) do outro. Se acalme, mulher, frite um ovo.</p><p>Algu&#233;m que vai para uma vila de poucos habitantes esperando ser atendida em qualquer momento chegou totalmente desavisada, caiu de para-quedas e deveria estar em terras estadunidenses pedindo um mac. Na Ilha do Ferro n&#227;o tem comida servida no seu prato quando voc&#234; desejar, tem casas coloridas com suas portas e janelas quase sempre abertas, como se a convidar pra uma visita. &#201; que em cada uma delas h&#225; um artista. Artes&#227;os, bordadeiras, pintoras. E se n&#227;o h&#225; artista, h&#225; conversa. As portas abertas a dizer: chegue pro papo. Passando na frente da casa rosa com peixinhos, vejo uma linda mulher sentada com vestido branco, as pernas estendidas sobre outra cadeira, a cachorra Ternurinha deitada na sua frente. A cozinha, logo atr&#225;s, &#233; linda, a decora&#231;&#227;o impec&#225;vel em tons de verde e rosa. Me apresento, conversamos sobre a vida, ou&#231;o a hist&#243;ria de Dona Carmem e saio inspirada pela mulher de 80 anos que foi e &#233; mais livre que muitas de 30. Espero que sua vida vire um livro. Quando n&#227;o paro espontaneamente me gritam, chamam pro churrasco de um aniversariante que eu nem conhecia, mas n&#227;o tem problema, &#233; a Ilha do Ferro. Fico ali para descobrir que boa parte da popula&#231;&#227;o migrou para perto da minha cidade, a 2000km do sert&#227;o alagoano. Concei&#231;&#227;o das Alagoas &#233; o nome do destino que fica a apenas 170km da minha Arax&#225;, mas eu desconhecia. O nome at&#233; poderia ser pela quantidade de alagoanos l&#225;, mas &#233; pelo mesmo motivo que o estado carrega seu t&#237;tulo: a abund&#226;ncia de lagoas. Vou-me embora antes da tempestade chegar e termino a noite como todas as outras: tomando uma cerveja no Macuco, maravilhada com a cole&#231;&#227;o de vinis e a decora&#231;&#227;o do dono, Andr&#233;. Apesar da dist&#226;ncia e da dificuldade em chegar, aqui ningu&#233;m est&#225; ilhado.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!LAOz!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3d43a906-64a4-43b2-a047-effd078988b6_2268x2238.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!LAOz!, /__u/andarilha.substack.com/w_424, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, /__u/andarilha.substack.com/q_auto:good, /__u/andarilha.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3d43a906-64a4-43b2-a047-effd078988b6_2268x2238.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!LAOz!, /__u/andarilha.substack.com/w_848, 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Os quadros de Dona Roxinha, as m&#225;scaras de seu Joaci, as banquetas e caras de on&#231;a de Z&#233; Crente, ele simp&#225;tico e sorridente, me mostrou seu processo quando passei por sua rua. O outro, que faz lindas lumin&#225;rias, as &#225;rvores com p&#225;ssaros de Genauro, aqueles, das bailarinas a levitar. Quando o sol se vai e o calor do sert&#227;o abranda, cadeiras v&#227;o para as ruas e cal&#231;adas, pessoas a conversar e ver a vida acontecer. A rua &#233; casa, o rio tamb&#233;m. Nesse mesmo dia a &#225;gua acabou e eu nem percebera, at&#233; ver Dona Vana descer para o rio. Cabelos curtinhos, bermuda comprida e camiseta regata, entrou no S&#227;o Francisco para se banhar. Saiu do rio com as roupas enxarcadas e subiu rumo a sua casa, pingando &#225;gua pelas ruas de pedra, declarando com orgulho ser seu segundo banho do dia. Quando a partida de futebol terminou, os jogadores e Sofia, a &#250;nica jogadora, tamb&#233;m se banharam por ali. Despreparada, desabituada, perdi a oportunidade, enquanto assistia o espet&#225;culo de ver a comunidade descer para se banhar, esqueci que devia fazer o mesmo, usei as &#250;ltimas gostas da caixa d&#8217;&#225;gua de minha pousada. Depois da &#225;gua foi a energia, acabou durante o jantar. No mesmo bar de todos os dias, eram as velas a nos iluminar.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!69T1!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1e7313f4-dd82-4620-b31c-e71fd552fc6a_1272x1180.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!69T1!, /__u/andarilha.substack.com/w_424, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, /__u/andarilha.substack.com/q_auto:good, /__u/andarilha.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1e7313f4-dd82-4620-b31c-e71fd552fc6a_1272x1180.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!69T1!, /__u/andarilha.substack.com/w_848, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, 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sizes="100vw"><img src="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!69T1!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1e7313f4-dd82-4620-b31c-e71fd552fc6a_1272x1180.jpeg" width="1272" height="1180" 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Foi no meu dia seis que o vi brilhante. Raios de sol na &#225;gua a dan&#231;ar. Adentramos de barco, mergulhei. Do meio dele vi o amarelo do barco escolar, o verde dos campos, o ocre do sert&#227;o, um rio prateado. Do outro lado &#233; Sergipe, basta atravessar. O sol, que at&#233; ent&#227;o estivera todos os dias entre nuvens, se descobriu na minha despedida e o vi sumir atr&#225;s dos morros e das &#225;guas azul-prateadas. O S&#227;o Francisco &#233; fonte de beleza, banho, alimento, trabalho com o turismo. &#201; avenida, que leva para qualquer vilarejo a margear. Como voc&#234;s chamam ele, de Velho Chico? perguntei. A gente chama de rio mesmo, respondeu o rapaz. Ali, rio s&#243; tem um, vidas, s&#227;o v&#225;rias. </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Aprender a ficar, ser e ter aldeia]]></title><description><![CDATA[se &#233; que preciso]]></description><link>https://andarilha.substack.com/p/aprender-a-ficar-para-ser-e-ter-aldeia</link><guid isPermaLink="false">https://andarilha.substack.com/p/aprender-a-ficar-para-ser-e-ter-aldeia</guid><dc:creator><![CDATA[andarilha]]></dc:creator><pubDate>Sat, 28 Feb 2026 23:00:40 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!qXbq!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0bdd0624-3a2d-4122-8f89-4e63b6d769b4_4032x2268.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Olhando de longe pode parecer que tenho facilidade em encerrar ciclos, uma vez que mudo de vida, cidade, casa e emprego com uma suposta tranquilidade. Mas essa n&#227;o &#233; bem a verdade. A verdade &#233; que eu fa&#231;o tudo isso com tanta frequ&#234;ncia porque n&#227;o encerro os ciclos, os levo comigo. E todo ano preciso passar uns dias pelas cidades onde j&#225; morei, porque l&#225; tem gente querida, eventos importantes de se estar. &#201; quando eu sou aldeia.</p><p>Mas tenho ouvido e presenciado constantemente aquela hist&#243;ria de que todo mundo quer TER aldeia, mas ningu&#233;m quer SER. E a&#237;, na hora de participar do que &#233; importante pra algu&#233;m, quem n&#227;o reconhce a import&#226;ncia de ser aldeia diz que a vida t&#225; corrida, a grana curta, inventa mil outras prioridades. S&#243; vive o venham at&#233; mim, ou nem isso. Vejo pessoas isoladas, antissociais, abra&#231;ando a solid&#227;o, n&#227;o a solitude necess&#225;ria, a solid&#227;o que adoece. Sim. &#201; comprovado nos mais diversos meios e diferentes pesquisas que a solid&#227;o mata e pa&#237;ses como a Inglaterra e o Jap&#227;o j&#225; at&#233; criaram minist&#233;rios para tratar o tema. Tecnologia, estafa, capitalismo. Independentemente das raz&#245;es, o problema precisa ser enfrentado e, apesar de concordar que existe a responsabilidade governamental e que precisamos nos reorganizar como sociedade, h&#225; tamb&#233;m o compromisso individual. &#201; preciso sair de casa, abrir a porta, fazer e aceitar convites.</p><p>Costumo dizer que o prov&#225;vel motivo pelo qual deixarei a vida n&#244;made &#233; comunidade. Sinto falta de ver as mesmas pessoas mais vezes, mas em nossos encontros anuais muitas me dizem: &#8220;a gente s&#243; se v&#234; quando voc&#234; est&#225; aqui&#8221; ou pelo menos: &#8220;a gente se encontra muito mais quando voc&#234; est&#225; aqui&#8221;. A minha partida iminente deixa os encontros mais urgentes e raramente adiados, o que acontece com frequ&#234;ncia quando se tem a pseudo certeza de que as outras est&#227;o por perto. Eu n&#227;o aprendi a ficar, sigo dizendo adeus ou at&#233; logo, mesmo que o pensamento de ficar esteja ganhando for&#231;a, ainda que eu n&#227;o saiba onde.</p><p>A verdade &#233; que tenho receio do que o ficar me reserva. A monotonia, a falta de novidades, a pouca disposi&#231;&#227;o das pessoas, o reconhecimento que a vida parada me cansa mais que a estrada, de que n&#227;o quero mais viver daquele jeito que j&#225; vivi. Tenho brincado que eu preciso encontrar a minha terceira via - sem o rosto do Ciro Gomes, muito menos vivida em Paris, mas talvez esteja chegando a hora de criar um novo estilo de vida, mas que coisa dif&#237;cil &#233; essa de criar, inventar o pr&#243;prio caminho, cismar de fazer diferente do que os outros est&#227;o fazendo porque o padr&#227;o n&#227;o me agrada. Quanta for&#231;a exige sair da in&#233;rcia, Newton, mesmo da in&#233;rcia do movimento. &#201; t&#227;o f&#225;cil pra mim pegar a estrada, tr&#234;s meios de transporte no mesmo dia, esperar por horas num estacionamento de vans ou sentada na pra&#231;a conversando com estranhos at&#233; chegar num povoado de 500 habitantes no interior de Alagoas. &#201; t&#227;o f&#225;cil pra mim conversar com estranhos, aceitar uma carona, um almo&#231;o, um caf&#233;, bater papo, olhar e ouvir, mesmo que esteja olhando e ouvindo com os meus sentidos, n&#227;o com os dos outros.</p><p>Eu olho pros outros, pro mundo, mas tamb&#233;m olho muito pra mim, assumo, quase envergonhada. J&#225; devia me conhecer o suficiente - e me conhe&#231;o muito, mas tamb&#233;m mudo constantemente e preciso de checagens. Exceto algumas coisas que n&#227;o mudam. Eu confio, como confiei em Val, que essa semana me disse que o transporte passava a cada dez minutos. Ap&#243;s quase uma hora esperando no ponto comecei a preocupar-me em perder meu compromisso, enquanto o suor do ver&#227;o alagoano escorria pelas minhas costas pensei no plano B e movimentei-me em busca de outras op&#231;&#245;es. Pedi mais informa&#231;&#245;es, confiei de novo. No estudante que passou chupando um pirulito, no homem que me viu perdida e ofereceu: te acompanho at&#233; l&#225;. E fomos, enquanto ele me contava o quanto amava sua cidade, Penedo. No caminho o transporte passou, parou fora do ponto e entrei quase aliviada. Eu estava atrasada, mas al&#233;m de confiar eu converso e perto da chegada contei pro motorista a minha situa&#231;&#227;o. Eu era a &#250;ltima passageira e ele decidiu: vou te levar l&#225;, ou voc&#234; chegar&#225; atrasada. Desci na porta do meu destino com quinze minutos de anteced&#234;ncia, por&#233;m faminta. O guia, no lugar de me indicar onde comprar comida, insistia que eu n&#227;o tinha tempo. O deixei falando sozinho e disse que voltava antes das 14h, sete minutos depois eu retornava com uma marmita de arroz, feij&#227;o, carne e salada, encarando os olhos assustados do cara que mediu o tempo pela sua velocidade, n&#227;o pela minha. E isso n&#227;o muda: eu sou r&#225;pida, corro riscos e viro o c&#227;o com fome, nesse caso melhor n&#227;o arriscar. Comi tudo enquanto ele fazia a introdu&#231;&#227;o ao passeio e, alimentada, conheci um ec&#243;tono, que descobri ser a transi&#231;&#227;o de biomas e nesse tinha caatinga, mata atl&#226;ntica e cerrado, senti o vento por cima das dunas e ap&#243;s um mergulho no Velho Chico o vi desaguar no mar, para depois navegar 13km por ele, de volta &#224; cidade de Pia&#231;abu&#231;u.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!qXbq!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0bdd0624-3a2d-4122-8f89-4e63b6d769b4_4032x2268.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!qXbq!, /__u/andarilha.substack.com/w_424, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, 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penso n&#227;o precisar de uma terceira via, a segunda t&#225; boa, essa em que vivo agora. Naquele dia Val, Nivaldo, Lilian, Julia e outros sem nome na minha hist&#243;ria foram a minha comunidade. Talvez seja mais f&#225;cil ser aldeia de quem n&#227;o se v&#234; todos os dias, ou de quem est&#225; prestes a ir embora. E retiro o talvez pra assumir que, certamente, estou com medo de confirmar - e enfrentar - essa realidade caso eu reaprenda a ficar. Porque eu quero SER e TER aldeia. </p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[o cheiro de um estereótipo]]></title><description><![CDATA[Sa&#237; da minha hospedagem ainda na madrugada.]]></description><link>https://andarilha.substack.com/p/o-cheiro-de-um-estereotipo</link><guid isPermaLink="false">https://andarilha.substack.com/p/o-cheiro-de-um-estereotipo</guid><dc:creator><![CDATA[andarilha]]></dc:creator><pubDate>Fri, 30 Jan 2026 18:01:58 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!LX7X!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2420eced-bc24-41af-9569-37603d24c091_1080x1194.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Sa&#237; da minha hospedagem ainda na madrugada. Nos dois quarteir&#245;es que eu precisava caminhar at&#233; o metr&#244; avistei a lua cheia, linda, j&#225; baixa, cintilando &#224; minha frente. Eu vivera felizes dias em Lyon, a cidade ganhou meu cora&#231;&#227;o e como poucas, pensei que poderia ser morada, talvez confundindo a cidade com o mo&#231;o. Quase ningu&#233;m no metr&#244;, cheguei na esta&#231;&#227;o de trem em poucos minutos e o imenso rel&#243;gio da Gare de Lyon apontava 6:20, um senhor tocava uma bela m&#250;sica no acorde&#227;o, deixei uma moeda, j&#225; quase inverno europeu, ainda estava totalmente escuro e do outro lado vi o grande pr&#233;dio da biblioteca municipal, onde eu queria ter passado algumas horas, entrei numa cafeteria e pedi um croassaint, si vou plait.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!LX7X!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2420eced-bc24-41af-9569-37603d24c091_1080x1194.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!LX7X!, /__u/andarilha.substack.com/w_424, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, 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Pela janela admirava as &#225;rvores e montanhas, pensava na vida, nos meus &#250;ltimos dias, na amiga querida que eu encontraria numa cidadezinha ap&#243;s meu dia em Toullose, no mo&#231;o que eu deixara em Lyon. Durante meus devaneios entrou uma pessoa, sentou-se ao meu lado, desceu do trem em poucos minutos. Duas horas depois surpreendi-me com o fato de n&#227;o querer cochilar, apesar de ter acordado t&#227;o cedo. Minha mente estava acelerada quando comecei a sentir um cheiro desagrad&#225;vel. Olhei pro lado e deparei-me uma jovem vestindo jeans e um su&#233;ter rosa, o longo cabelo preso num rabo de cavalo que se transformava numa tran&#231;a. Parecia uma universit&#225;ria estudando pra prova, n&#227;o tirava os olhos do tablet, abria abas e aplicativos, fazia dezenas de perguntas ao chat GPT. Tinha um ar fresco, de quem acabara de sair do banho, a pele iluminada, jovial, brilhante. Algu&#233;m que definitivamente passou alguns minutos se olhando no espelho e se arrumando para sair. Preocupava-se com sua apar&#234;ncia, mas cheirava mal. Recostei-me na janela, enrolando meu len&#231;o azul marinho no nariz e passei o restante da viagem ali, me movendo pouqu&#237;ssimo em dire&#231;&#227;o ao outro banco, qualquer cent&#237;metro naquela dire&#231;&#227;o aumentava o meu desconforto. Fantasieie sobre sua rea&#231;&#227;o se eu lhe dissesse algo, deixasse um desodorante no banco, explicasse gentilmente sobre os princ&#237;pios de higiene do meu pa&#237;s, contasse que as pessoas ao seu lado podiam sentir o mau cheiro. Jamais o faria, mas perguntei-me como era esse ensinamento (ou a falta dele) na Fran&#231;a. A cada esta&#231;&#227;o desejei que a mo&#231;a decesse, mas ela ficou at&#233; a parada final. Eu estava no pa&#237;s h&#225; uma semana, comendo queijo, baguete, bebendo bons vinhos e ainda n&#227;o me deparara com o estere&#243;tipo do cheiro franc&#234;s. At&#233; que demorou. Descemos juntas em Toulosse e com muito prazer a perdi de vista. Au revoir, at&#233; nunca mais. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!gfoW!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F439e6c77-ef68-4729-b513-3b6d0e417e1d_3968x2232.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!gfoW!, /__u/andarilha.substack.com/w_424, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, /__u/andarilha.substack.com/q_auto:good, /__u/andarilha.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F439e6c77-ef68-4729-b513-3b6d0e417e1d_3968x2232.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!gfoW!, /__u/andarilha.substack.com/w_848, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, 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Algumas semanas depois fui a um festival de m&#250;sica com um grupo de espanholas e todas dan&#231;avam com muita alegria e empolga&#231;&#227;o enquanto a batida da m&#250;sica Gnawa nos contagiava a ponto de ningu&#233;m ficar parada. Vez ou outra eu sentia um cheiro forte se intensificar, que, percebi aos poucos, acontecia quando uma delas estava mais perto de mim. Conectei alguns pontos, lembrei-me de conversas que eu ouvira e conclu&#237;: a garota espanhola n&#227;o usava desodorate. Comentei com minha amiga e ela confirmou, sem alarde. &#8220;N&#227;o usa. &#201; um estilo de vida, n&#227;o quer colocar qu&#237;micos no seu corpo&#8221;. Mas hoje em dia existem desodorantes naturais, retruquei. Ela insistiu: &#8220;sim, mas &#233; uma escolha dela, n&#227;o vejo nenhum problema&#8221;. Eu poderia argumentar que a menina era do pa&#237;s basco espanhol, muito perto da Fran&#231;a, mas minha amiga, que, com muito mais facilidade que eu aceitou a escolha por n&#227;o usar desodorante e impor as pessoas a sua volta o seu odor natural era de Madrid, usava desodorante, cheirava bem, mas n&#227;o via problemas com as escolhas da outra garota. Fui dormir pensando se meu corpo, minhas regras aplicava-se &#224; situa&#231;&#227;o e acordei na certeza que n&#227;o. Nos pr&#243;ximos dias dancei cada vez mais distante e n&#227;o nos tornamos amigas.   </p><p>E ent&#227;o chegamos nos Estados Unidos, por enquanto s&#243; na teoria. N&#227;o estive no pa&#237;s durante meu per&#237;odo sab&#225;tico, mas recentemente deparei-me com o trabalho de Susan Sontang e leio tudo o que me aparece por aqui sobre ela. Por enquanto o algoritmo do Substack tem feito um bom trabalho, indicando textos sobre o meu tema de interese, por&#233;m com informa&#231;&#245;es distintas (uma das minhas revoltas com o  instragam &#233; receber constantemente o mesmo conte&#250;do s&#243; porque curti ou li algo similar). Eis que essa semana descubro que Sontang n&#227;o tomava banho. N&#227;o estou falando de pular o banho num dia frio em que ela nem saiu de casa, coisa que quem me conhece  sabe que eu at&#233; defenderia. Refiro-me a passar semanas sem banho, lavar o cabelo apenas uma vez por m&#234;s e ainda assim sair de casa, dar aulas, relacionar-se com as pessoas. Um dos coment&#225;rios desse texto relata que sim, ela fedia (obviamente) e todos a sua volta percebiam. Desde ent&#227;o n&#227;o consegui ler mais nenhum texto da autora sem pensar no seu cheiro. Estaria ela a quantos dias sem contato com &#225;gua quanto escreveu sobre a fotografia? O cabelo co&#231;ava enquanto citou Virginia Wolf no primeiro cap&#237;tulo de sobre a dor dos outros? Olho suas fotos e v&#237;deos e at&#233; invejo aquele cabelo que estava h&#225; n&#227;o sei quantos dias sem shampoo e ainda assim volumoso (o meu, mesmo lavado todos os dias rapidamente gruda na cabe&#231;a). Pergunto-me se len&#231;os umedecidos substituiam a ducha e como as pessoas a sua volta conseguiam se concentrar. Estudantes aprendiam, entrevistadores n&#227;o perdiam a linha de racioc&#237;nio? Meu pesamento vai e volta tentando justificar como uma mulher que apreciava a beleza da obra de Machado de Assis, preocupou-se com tantas quest&#245;es sociais, escreveu sobre a dor dos outros e discorreu sobre temas t&#227;o importantes aceitava inflingir o sofrimento do seu mau cheiro  a quem estava ao seu lado. N&#227;o tenho respostas.</p><p>Dizem que os cheiros exalados pelo nosso corpo tem grande influ&#234;ncia da nossa alimenta&#231;&#227;o, mas n&#227;o s&#243;, &#233; tamb&#233;m gen&#233;tico e j&#225; contei aqui que orientais n&#227;o tem as gl&#226;ndulas respons&#225;veis pelo odor do suor. Tamb&#233;m &#233; sabido que h&#225;bitos de higiene s&#227;o parte da cultura e euroupeus costumam se assustar com a quantidade de banhos que n&#243;s brasileiros tomamos. O desodorante vencer &#233; uma express&#227;o existente e real no portugu&#234;s tupiniquim e nos deixa preocupados a ponto de visitarmos uma farm&#225;cia no caminho de qualquer compromisso. Ainda assim, longe de mim ser a puritana do olfato ou fiscal de banhos. Na minha primeira longa trilha, quando passei doze dias enfrentando o frio das montanhas do Nepal, cinco deles foram sem banho, a base de len&#231;os umedecidos para as partes essenciais e meu cabelo n&#227;o viu &#225;gua. Encarei como uma situa&#231;&#227;o extrema, transit&#243;ria e muito diferente de uma escolha pelo mau cheiro constante. Com todo o respeito que tento ter pelas diferen&#231;as culturais, qualquer catinga &#233; ruim de cheirar. </p><p>Costumo brincar que minha incurs&#227;o pelo mundo deu-me a habilidade for&#231;ada de diferenciar cheiros continentais e em um teste &#224; cega saberei identificar se a pessoa suada na trilha &#233; indiana, europ&#233;ia ou latina. Mas nem sempre. Enquanto subia o vulc&#227;o Acatenango, na Guatemala, diante de um repentino mau cheiro logo pensei: certeza que &#233; um euroupeu, o desodorante desse povo, quando passam, n&#227;o d&#225; conta de uma trilha dessas.  J&#225; at&#233; imaginava qual garoto do grupo era respons&#225;vel por aquele odor e fiquei esperando a pessoa, cujo cheiro chegou antes em mim, chegar mais perto para  confirmar minha adivinha&#231;&#227;o. Passaram-se alguns minutos e eu n&#227;o encontrava a pessoa, mas cheiro tamb&#233;m n&#227;o passava. Eu parecia estar sozinha nessa parte da trilha. Foi quando decidi olhar embaixo da minha bota e descobri de onde vinha o odor. E percebi: &#224;s vezes t&#244; culpando os outros, mas a merda t&#225; em mim. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!IWGN!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F87e59a49-e0e1-457a-b3ec-51b944eeaf77_1074x1907.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!IWGN!, /__u/andarilha.substack.com/w_424, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, /__u/andarilha.substack.com/q_auto:good, /__u/andarilha.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F87e59a49-e0e1-457a-b3ec-51b944eeaf77_1074x1907.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!IWGN!, /__u/andarilha.substack.com/w_848, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, 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pessoas]]></title><description><![CDATA[ainda que alguns sejam ruins]]></description><link>https://andarilha.substack.com/p/mais-iguais-que-diferentes-sobretudo</link><guid isPermaLink="false">https://andarilha.substack.com/p/mais-iguais-que-diferentes-sobretudo</guid><dc:creator><![CDATA[andarilha]]></dc:creator><pubDate>Tue, 30 Dec 2025 17:02:27 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ZWPH!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F28b326ae-cc55-43fb-93a2-dc4c63db984f_682x584.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Come&#231;arei direto ao ponto: as pessoas s&#227;o boas. Em sua maioria esmagadora ajudar&#227;o, no lugar de fazer mal. Essa desconfian&#231;a j&#225; andava comigo e confirmou-se nos meus quatro anos de estrada. Por todos os cantos do mundo as pessoas s&#227;o majoritariamente boas. Eu sei que &#233; dif&#237;cil acreditar, quase imposs&#237;vel ter f&#233; nesssa afirma&#231;&#227;o. As not&#237;cias s&#227;o avassaladoras: estupros, assassinatos, feminic&#237;dios, roubo de aposentados, abuso infantil, um sistema judici&#225;rio que deixa preso quem roubou para comer e solta que tirou de comer de milh&#245;es. Desigualdade, polariza&#231;&#227;o, falta de interpreta&#231;&#227;o de texto, pouca paci&#234;ncia para ouvir o diferente, uma sociedade cansada e ansiosa.</p><p>Meu amigo delegado se indigna toda vez que compartilho minha afirma&#231;&#227;o sobre a bondade humana. Anos de discuss&#227;o e nunca nos entendemos, at&#233; que um dia ele teve um insight: &#8220;a sua vida &#233; conhecer novas pessoas, precisar delas, confiar, voc&#234; vive vendo o lado bom. A minha &#233; investigar, prender, estar cercado de pessoas que deixam o seu pior como atra&#231;&#227;o principal, nossos meios s&#227;o opostos, n&#227;o h&#225; como termos vis&#245;es de mundo parecidas.&#8221; Ele tinha raz&#227;o e apesar de meus exemplos - e o fato de eu estar viva at&#233; hoje - o convencerem que h&#225; gente boa no mundo ele ainda teme o dia em que esbarrarei com as pessoas que ele costuma prender e acha que me arrisco demais. A parte da minha personalidade adepta aos n&#250;meros e &#224; l&#243;gica trabalha com estat&#237;sticas, conclui que se os ruins fossem maioria o mundo j&#225; teria acabado, se implodido. No olho por olho dente por dente estar&#237;amos todos cegos e banguelas. N&#227;o estamos, apesar de muitos estarem. A parte de humanas do meu ser apega-se a minha experi&#234;ncia positiva e tudo em min tem f&#233; e uma imensa vontade de acreditar na humanidade, portanto n&#227;o &#233; imposs&#237;vel que eu esteja usando o vi&#233;s da confirma&#231;&#227;o. </p><p>Energia, sorte de viajante, maior aten&#231;&#227;o ao lado bom da vida, otimismo. S&#227;o muitas as raz&#245;es para minha vis&#227;o esperan&#231;osa, aquela que teima em acreditar nas pessoas, por mais que pare&#231;a que tudo est&#225; se acabando, que estamos regredindo e n&#227;o evoluindo. Al&#233;m desses fatores pessoais, h&#225; o externo, onde o lado ruim faz muito mais barulho que o lado bom. A bondade &#233; silenciosa, a maldade barulhenta, por isso hoje farei barulho pelo bem. N&#227;o usarei teoria psicanal&#237;tica ou filosofia antiga, apenas minha experi&#234;ncia.</p><p>No ano 1 explorei o sudeste asi&#225;tico e na volta pra casa fiz uma parada no Oirente m&#233;dio, visitando Israel e Jord&#226;nia. Quando perdi meu voo do Nepal para o Vietn&#227;, por  n&#227;o saber precisar de visto para a minha conex&#227;o na &#205;ndia, o atendente tentou me ajudar de todas as formas e ao n&#227;o conseguir me fez companhia no meu &#250;ltimo jantar nepal&#234;s. Na Mal&#225;sia fiquei sem dinheiro vivo e uma equatoriana que eu conhecera no aeroporto um dia antes me deu dinheiro para que eu pudesse me alimentar. Numa ilha da Indon&#233;sia notei que deixara meu celular no suporte da moto, estacionada h&#225; quinze minutos de onde me dei conta da desaten&#231;&#227;o. Voltei correndo e cheguei sem ar para encontr&#225;-lo no mesmo lugar e rir com os homens que estavam por ali e tamb&#233;m se deram conta do meu esquecimento. Incomodei-me com o comportamento masculino e olhares assim que pisei na Jord&#226;nia, mas algumas horas depois, ao me ver perdida na rua, uma mulher apareceu para perguntar se eu precisava de ajuda, usou o seu celular para me localizar e indicar o caminho.  </p><p>No ano 2 o destino era Am&#233;rica Latina. Agora sim era hora de experimentar a ruindade humana. Conhecidos mundialmente como destinos perigosos, encarei Equador, Peru, Col&#244;mbia, todos os setes pa&#237;ses da Am&#233;rica Central continental e o M&#233;xico com muita aten&#231;&#227;o, mas tamb&#233;m com a mesma f&#233; com a qual encaro qualquer grande cidade brasileira. Ao meu ver os perigos eram os mesmos, principalmente roubo e ass&#233;dio. Em Honduras, o pa&#237;s mais temido, pela viol&#234;ncia e gangues, entrei em um &#244;nibus lotado e ofereci um peda&#231;o da minha rosquinha ao senhor do meu lado, enquanto tentava acostumar-me com o cheito do saco de camar&#245;es frescos que ele levava embaixo do banco. Ele aconselhou-me a n&#227;o aceitar alimentos oferecidos por outras pessoas, pois poderiam estar evenenados. Olhei intrigada quando ele pegou o peda&#231;o de rosca. Ent&#227;o por que o senhor est&#225; aceitando o meu? perguntei. Ele assustou-se com a incoer&#234;ncia pontuada e questionou: foi voc&#234; que fez? Como se nosso imediato contato servisse para a confian&#231;a, respondi que n&#227;o, comprara numa padaria. N&#227;o sei se foi f&#233;, meu sorisso amig&#225;vel ou o delicioso recheio de goiabada, mas ele seguiu comendo e me contando hist&#243;rias. Em El Salvador outro viajante decidiu juntar-se &#224; minha viagem de moto, mas n&#227;o havia capacetes adequados para o trajeto. A solu&#231;&#227;o foi dada por um senhor que fazia um trabalho no hostel e ofereceu emprestar os seus. Saiu para busca-los e nos emprestou seus capacetes por 3 dias. Quando entrei no barco que me levaria at&#233; Belize comendo uma baleada - esp&#233;cie de tortilla hondurenha - todos me olharam assustados. &#8220;Balan&#231;a muito, voc&#234; pode passar mal, n&#227;o coma&#8221;, diziam j&#225; com um rem&#233;dio anti enjoo nas m&#227;os para me dar. </p><p>No ano 3 eu quis dar conta de grandes desejos ainda n&#227;o visitados e minha louca rota atravessou a Argentina do sul ao norte, cruzou para a Bol&#237;via, passou dois meses nos Balc&#227;s, voou para a Austr&#225;lia e terminou em parte do BRICS, com R&#250;ssia, China e &#205;ndia, passando tamb&#233;m por Mong&#243;lia e Cor&#233;ia do Sul. Nesse &#250;ltimo perdi a conta de quantos me ofereceram comida ou pagaram minhas passagens de &#244;nibus, quando os motoristas n&#227;o tinham troco. Numa R&#250;ssia sob san&#231;&#245;es internacionais nenhum cart&#227;o funcionava e meu tempo no pa&#237;s foi definido a partir da quantidade de dinheiro vivo que eu tinha dispon&#237;vel - n&#227;o era muito e passei dias austeros no pa&#237;s para j&#225; quase na fronteria com a Mong&#243;lia perceber que sobrava um pouco de dinheiro, provalvelmente devido &#224; quantidade de comida que me foi ofertada durante o meu trajeto na Transiberiana. Na minha &#250;ltima cidade, ao ver um casal estrangeiro - o &#250;nico que encontrei o pa&#237;s- em apuros, eu, que poucos dias antes pensei que teria que escolher entre acomoda&#231;&#227;o ou comida, lhes dei dinheiro para jantarem, seguindo a corrente do bem que tanto me ajuda. Quando pedi a uma mulher no ponto de &#244;nibus da capiptal da Mong&#243;lia se ela conseguia chamar um taxi que me levasse at&#233; o aeroporto ela disse que estava indo para l&#225; e fez quest&#227;o que eu fosse junto. Cheguei na China sem dinheiro vivo mas com o aplicativo de pagamentos instalado. Quando ele n&#227;o funcionou o taxista me ofereceu a corrida como presente de boas vindas e foi embora, mesmo eu insistindo para pegar seus dados e pagar quando o problema fosse regularizado. Dias depois, perdida em Pequim, v&#225;rias pessoas tentavam me ajudar em mandarim, apesar da completa inutilidade. Uma chinesa que falava ingl&#234;s aproximou-se e desviou quinze minutos do seu caminho para me guiar at&#233; minha acomoda&#231;&#227;o. Quando ofereci lhe pagar um caf&#233; em retribui&#231;&#227;o ela recusou, dizendo que no Brasil muito gente a ajudou. Era a corrente do bem aumentando.</p><p>No ano 4 a rota Amaz&#244;nica gerou receio e frio na espinha. &#8220;N&#227;o v&#225; vacilar aqui depois de j&#225; ter rodado o mundo inteiro." N&#227;o vacilei, nem vacilaram comigo. Corri o norte do Brasil e da Am&#233;rica do Sul com boas pessoas no meu caminho - inclusive nas pouco conhecidas <a href="/__u/andarilha.substack.com/p/amapa-e-tres-guianas-no-meio-do-caminho?r=18kjee">Guianas e Suriname</a>. Terminei o ano no Egito e Marrocos, outros dois pa&#237;ses com m&#225; fama. Cheguei tensa na terra das pir&#226;mides e o que encontrei na sa&#237;da do aeroporto n&#227;o ajudou: taxistas com pre&#231;os abusivos, uber que aceitava a corrida e ao entrar no carro informava que o valor era mais que o dobro, nenhum &#244;nibus dispon&#237;vel. Enquanto pensava no que fazer aproximei-me de um casal que parecia estar em situa&#231;&#227;o similar. Acabei no taxi com eles, que al&#233;m de me darem v&#225;rias dicas ainda foram companhia em outras cidades. Naquela tarde, paralizada na cal&#231;ada, buscando coragem para atravessar o turbilh&#227;o da avenida sem sem&#225;foros ou faixas de pedestre em Cairo, um homem me olhou e fez sinal para que o seguisse. Saiu abrindo caminho por meio dos carros e fui atr&#225;s, do outro lado da rua agradeci acenando com a cabe&#231;a e ele seguiu seu caminho, sem pedir nada em troca. Na tur&#237;stica cidade marroquina de Marrakech, perder-se no labirinto das ruas da medina faz parte da experi&#234;ncia, mas com a mochila nas costas n&#227;o &#233; uma experi&#234;ncia agrad&#225;vel, por isso meu reflexo foi responder e j&#225; virar para seguir o homem que perguntou qual era o meu hotel, ap&#243;s me reconhecer perdida. Mas ao girar lembrei do famoso golpe marroquino, onde homens fingem te ajudar e te deixam mais perdida, para depois exigir dinheiro para que de fato a ajudem. Recusei segui-lo e voltei para o meu caminho, que em poucos metros chegou numa rua sem sa&#237;da. Aquela breve intera&#231;&#227;o foi assistida por um outro mo&#231;o, que enrolava o seu tapete, ap&#243;s suas ora&#231;&#245;es. Vestido com um uniforme de hotel fez a mesma perguntou e apontou para o mesmo caminho. Encurralada, achei melhor segui-lo. Ao passar pelo primeiro homem o ouvi resmungar que n&#227;o estava ali para me enganar, abaixei a cabe&#231;a um pouco envergonhada, por&#233;m mais confiante em seguir quem acabara de rezar.</p><p>Visitei todos os estados do Brasil, 75 pa&#237;ses e territ&#243;rios ultramarinos, atravessei sozinha desertos e oceanos, compartilhei casa, comida, cama, hist&#243;rias. E se jogo esses n&#250;meros aqui &#233; para afirmar que em todos esses lugares recebi ajuda e me deparei com atitudes bondosas. Esse era o padr&#227;o. Apesar das diferen&#231;as culturais nos vi iguais nas necessidades, diferentes nos modos de atend&#234;-las. Iguais no desenho do corpo - dois bra&#231;os, duas pernas, cora&#231;&#227;o, pulm&#245;es, c&#233;rebro - , diferentes no fen&#243;tipo: muda a estatura m&#233;dia, a textura do cabelo, a cor dos olhos, a propens&#227;o a exalar odores corporais ou n&#227;o, permanecem as necessidades fisiol&#243;gicas e sociais: todo mundo come, dorme, dan&#231;a, chora, sorri, se locomove, se relaciona, tem cren&#231;as e rituais, lida com desejos, busca realiza-los ou suprimi-los. Quase ningu&#233;m vive s&#243;. Pessoas que n&#227;o est&#227;o no mundo em busca de fazer mal &#224;s outras, mas sim viver suas vidas tranquilamentes, momentos de alegria e descanso. Humanos curiosos pelo diferente, que salta aos olhos mais que as semelhan&#231;as. E curiosidade &#233; o &#250;nico resultado que ver algu&#233;m diferente de si deveria gerar. Sede de conhecimento, n&#227;o necessariamente de entender, mas de conhecer como o outro faz e vive, sem julgamento&#185;.</p><p>&#8220;O meu ego&#237;smo &#233; t&#227;o ego&#237;sta que o auge do meu ego&#237;smo &#233; querer ajudar&#8221;. Assim canta Raul na can&#231;&#227;o Carpinteiro do universo. T&#225; l&#225; ele, da sua grande sabedoria nos colocando no devido lugar: at&#233; a ajuda &#233; ego&#237;sta, vem da necessidade de nos sentirmos bem. Talvez essa seja a maior natureza animal do ser humano: buscar os pr&#243;prios interesses. Por sorte - e por isso ainda tenho f&#233; na humanidade - para muitas pessoas seus pr&#243;prios interesses, o que as nutre e as faz feliz, &#233; ajudar o pr&#243;ximo, ver o outro contente, viver em harmonia. Nenhum dos exemplos do texto tem o intuito de dizer que a maldade n&#227;o existe. Consigo imaginar os pensamentos de muitos que me leem: pessoas fingem ser boas antes de serem ruins, aceitar qualquer desses favores era arriscado, algo muito ruim poderia ter acontecido. Eu sei de tudo isso, mas que vida &#233; essa onde vivemos calculando os riscos, desconfiando de todas as pessoas? A vida que n&#227;o quero viver. A que quero passsa pela hist&#243;ria que vou contar.</p><p>Diz-se que quando perguntada sobre qual era o maior sinal de civiliza&#231;&#227;o da humanidade, enquanto alunos pensavam em algum artefato ou qualquer ferramenta relevante, a antrop&#243;loga Margaret Mead respondeu ser o f&#234;mur colado&#178;. Completou dizendo que no mundo selvagem um f&#234;mur quebrado &#233; sin&#244;nimo de morte, mas dentre os humanos ele cola, a pessoa se cura, volta a caminhar, o que s&#243; &#233; poss&#237;vel porque outras pessoas a cuidaram, protegeram, alimentaram. &#201; esse, segundo ela, o primeiro e maior sinal de civiliza&#231;&#227;o: o cuidado, a empatia, a vida em comunidade. N&#227;o &#233; o fogo, a escrita, a roda, muito menos as armas. Em todas as partes do mundo f&#234;murs humanos cicatrizam. N&#227;o importa se &#233; servido pho - a sopa vietnamita, ovos mexidos, baguete com queijo ou p&#227;o com manteiga no caf&#233; da manh&#227; da pessoa enferma, se ouvem tango, samba, gwana, m&#250;sica intrumental ou sertanejo. Se as mulheres cobrem os cabelos ou os deixavam &#224; mostra, se deixam o sol tocar suas peles ou protegem-se dele. O f&#234;mur pode ter sido o primeiro sinal da civiliza&#231;&#227;o, mas hoje temos muitos outros. Pessoas sobrevivem com doen&#231;as raras e limitantes porque s&#227;o cuidadadas, quando almas se partem e n&#227;o h&#225; nenhum rompimento vis&#237;vel, enquanto corpo e mente teimam em doer pessoas tamb&#233;m s&#227;o cuidadas, alimentadas, protegidas, por estranhos ou conhecidos. Num processo de luto, talvez uma das maiores dores da humanidade, a &#250;nica certamente vivida por qualquer ser humano, &#233; o cuidado dos que ficaram que nos mant&#233;m respirando. E &#233; assim no mundo todo, independente da cor do luto e da quantidade de dias. Todos lembraremos de exemplos em que o ser humano n&#227;o &#233; civilizado, em que no lugar de curar, quebram nossos ossos, fazendo um barulho ensurdecedor. N&#227;o tenho certeza do quanto &#233; reconfortante pensar nos momentos em que fomos cuidados, lembrar que s&#227;o maioria. Espero que seja. Dentre tantas outras raz&#245;es, viajo para ampliar minha f&#233;, testo as hip&#243;teses para provar o contr&#225;rio do que me dizem, vou ver de perto porque preciso confirmar minhas cren&#231;as mais belas, minha f&#233; na comunidade. E mesmo que pequenas coisas ruins aconte&#231;am, a maior parte &#233; boa. A grande parte &#233; beleza maravilhosa e &#233; ela que me tr&#225;z esperan&#231;a. Tal qual Suassuna, sou uma realista esperan&#231;osa, minha raz&#227;o &#233; que ando o mundo a ver bondades silenciosas. Desejo a voc&#234;s um 2026 cheio delas.</p><p>Obrigada por acompanharem esssa jornada de esperan&#231;a e f&#233; na civiliza&#231;&#227;o humana, aquela que cuida, n&#227;o a que quebra. Que venham mais exemplos no pr&#243;ximo ano. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ZWPH!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F28b326ae-cc55-43fb-93a2-dc4c63db984f_682x584.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ZWPH!, /__u/andarilha.substack.com/w_424, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, /__u/andarilha.substack.com/q_auto:good, /__u/andarilha.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F28b326ae-cc55-43fb-93a2-dc4c63db984f_682x584.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ZWPH!, /__u/andarilha.substack.com/w_848, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, 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Se uma cultura fere e desrespeita corpos constantemente, ela est&#225; ultrapassada e deve sim ser questionada. Quando n&#227;o se trata do tipo de alimento ou de m&#250;sica, mas de atitudes como a mutila&#231;&#227;o genital de meninas, ou o banimento de homossexuais n&#227;o h&#225; regras culturais que justifiquem. <a href="https://www.instagram.com/reel/DSNENVVgknr/?igsh=MWYyc3ppZjJmMXFkOA==">Aqui</a> uma fala de Susan Sontag e um texto de D&#233;bora Diniz sobre o tema. V&#225; ver, conhe&#231;a de perto, mas entenda o que est&#225; al&#233;m da linha do respeito.</p><p> (2) a hist&#243;ria que contei sobre a civiliza&#231;&#227;o n&#227;o &#233; confirmada como sendo uma resposta de Margaret Mead, por&#233;m historiadoras acreditam n&#227;o ser imposs&#237;vel a veracidade, visto que &#233; coerente com muito do que a antrop&#243;loga pesquisava e acreditava. </p><p></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[intimidade desprotegida]]></title><description><![CDATA[seres &#237;ntimos pelo mundo]]></description><link>https://andarilha.substack.com/p/intimidade-abandonada</link><guid isPermaLink="false">https://andarilha.substack.com/p/intimidade-abandonada</guid><dc:creator><![CDATA[andarilha]]></dc:creator><pubDate>Sun, 30 Nov 2025 21:06:09 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ZQSG!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7dadf5e7-f774-459e-8284-a695374da4e2_4032x2268.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Eu dormia encolhida devido ao frio causado pelo ar condicionado, ligado numa temperatura inferior &#224;quela agrad&#225;vel ao meu sono. Muito sonolenta para perceber onde estava e como resolver o problema, fiquei na cama, com os joelhos perto do meu cora&#231;&#227;o e os bra&#231;os debaixo do tronco, sem me mexer, at&#233; que senti o peso de um cobertor sobre mim. Parecia sonho, ou uma volta ao passado, quando meu pai costumava cobrir as filhas ao passar pelos nossos quartos, no interior de Minas Gerais. N&#227;o abri os olhos, estiquei as pernas e relaxei no calor que aquele gesto e o cobertor trouxeram. J&#225; aquecida, lembrei onde dormia: num hostel em Corfu, na Gr&#233;cia, h&#225; muitos quil&#244;metros de dist&#226;ncia do meu pai. Deve ter sido a Elisa, pensei.</p><p>Elisa era uma italiana com quem eu trocara algumas poucas e r&#225;pidas palavras na tarde anterior. Vi que em sua cama havia um cobertor, vi outros dispon&#237;veis no quarto, mas me esqueci de pegar um quando deitei. Na manh&#227; seguinte ela confirmou: ao entrar no quarto e me ver encolhida, trouxe o calor. Um gesto aparentemente &#237;ntimo, totalmente simples. Antes de Elisa me cobrir eu acharia invasivo pensar em cobrir algu&#233;m num quarto de hostel. Depois, n&#227;o. </p><p>Dividir casa, quarto, cama. Compartilhar o banheiro, sentar lado a lado na poltrona do &#244;nibus, do avi&#227;o, do trem. Tanto que ao dormir a cabe&#231;a pode tombar para o ombro da pessoa desconhecida. Subir na garupa de uma moto, abra&#231;ar quem pilota, pois assim &#233; mais f&#225;cil manter o equil&#237;brio na condu&#231;&#227;o. Ter o n&#250;mero do whats app, ligar sem avisar, ligar de v&#237;deo, ser atendida. Mandar &#225;udios longos, ouvir na velocidade um, n&#227;o ter nenhuma d&#250;vida de que a mensagem ser&#225; respondida. Pedir ajuda, chorar, rir. Gargalhar, a sua gargalhada mais estranha, n&#227;o ter vergonha dos sons que ela emite. Nem dos sons da sua barriga, ou do ronco enquanto dorme. Escovar dentes ao mesmo tempo, cuspir na mesma pia, passar fio dental enquanto conversa, compartilhar roupas, desodorante, sabonetes, l&#226;mina de depilar. N&#227;o trancar a porta do banheiro, entrar enquanto a outra est&#225; fazendo n&#250;mero 2, ter a aud&#225;cia de reclamar do cheiro. Saber o endere&#231;o, conhecer a casa, os pais, a fam&#237;lia. Ouvir hist&#243;rias da inf&#226;ncia, os maiores medos de adulta. <a href="/__u/andarilha.substack.com/p/colo-coreano?r=18kjee">Deitar no colo</a>, abra&#231;ar, abra&#231;ar demorado, dar, receber uma massagem. Despir-se, de roupas e segredos. </p><p>A minha no&#231;&#227;o de intimidade, que j&#225; n&#227;o era muito comum, alterou-se consideravelmente ap&#243;s quatro anos na estrada. Compartilhei v&#225;rios desses momentos &#8220;&#237;ntimos&#8221; com pessoas cujos nomes nem sei, vozes n&#227;o me lembro, rostos nunca mais verei. Se digitar a palavra intimidade a intelig&#234;ncia artifical informar&#225; que h&#225; quatro componentes essenciais: vulnerabilidade, respeito/cuidado m&#250;tuo, conforto/seguran&#231;a perto daquela pessoa e profundo conhecimento sobre ela. Com exce&#231;&#227;o do &#250;ltimo item, que requer tempo, todos os outros podem se dar com estranhos, mas por algum motivo, nos guardamos, reservamos nossa &#8220;intimidade" para poucos. Desconfio que mais por regras culturais que por necessidade ou vontade. </p><p>Pessoas de nacionalidade marroquina e sexo oposto n&#227;o podem compartilhar um quarto de hotel se n&#227;o forem casadas uma com a outra. Est&#225; na lei. Elas podem ser presas por isso e o estabelecimento teria problemas. No Marrocos o conceito de intimidade passa tamb&#233;m pela lei. Turistas buscam informa&#231;&#245;es antes de visitar o pa&#237;s: &#8220;vou viajar para o Marrocos de f&#233;rias, posso dividir quarto com minha namorada?&#8221; A resposta &#233; sim, o pa&#237;s adaptou-se aos costumes estrangeiros, desde de que nenhuma parte do casal seja marroquina, podem sim dividir o quarto sem apresentarem certid&#227;o de casamento. Junto com essa resposta &#233; comum surgir uma explica&#231;&#227;o sobre PDA (Public displays of affection - demonstra&#231;&#245;es p&#250;blicas  de afeto), informando que elas s&#227;o consideradas inapropriadas por ali e casais devem ser discretos quanto a essas demonstra&#231;&#245;es. Nada de beijos, sentar no colo, andar abra&#231;ados, reservem esse contato para  ambientes privados. Exceto entre homens. &#201; comum ver homens de m&#227;os dadas e se acariciando, sem nenhuma conota&#231;&#227;o sexual. Se na cultura brasileira meninos aprendem desde cedo que devem manter-se longe fisicamente dos amigos ou de qualquer outro homem e a maioria cresce na bolha da masculinida fr&#225;gil,  onde qualquer demonstra&#231;&#227;o de afeto &#233; bizarramente vinculada a uma poss&#237;vel orienta&#231;&#227;o sexual, no Marrocos eles se acariciam no rosto, beijam as bochecas, recebem cafun&#233; em p&#250;blico. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!gwDa!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa70bf6cd-1804-46fb-a4d0-37cac0876366_1046x871.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!gwDa!, /__u/andarilha.substack.com/w_424, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, 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Homens tamb&#233;m podem frequenta-lo, mas em hor&#225;rios ou casas diferentes. A primeira amiga que me falou sobre o Hamman p&#250;blico o descreveu como selvagem. N&#227;o havia julgamento no adjetivo escolhido, era sua forma de descrever algo com poucas regras. Mulheres nuas, num ambiente quente, como uma sauna, esfoliando os corpos umas das outras, conversando ininterruptamente, com a pele e cabelos &#224; mostra (algo totalmente incomum pelas ruas do Marrocos). Apesar de n&#227;o entender o idioma, percebeu que ali era o espa&#231;o privado delas, embora p&#250;blico. &#205;ntimo, mesmo sem um papel formalizando a rela&#231;&#227;o. N&#227;o necessariamente amigas, mas com uma exist&#234;ncia an&#225;loga: nascerem mulheres no Marrocos e terem no banho um ambiente reservado apenas para elas. Existiam ali com naturalidade, peles dobradas, p&#234;los &#224; vista, peitos ca&#237;dos, nenhuma extremamente magra, adultas, com corpos reais, mulheres, doando e recebendo, cuidado e tempo. O toque na pele come&#231;a intenso, ap&#243;s molhar o meu corpo com &#225;gua morna e espalhar um sab&#227;o preto, a mulher utilizou uma luva &#225;spera para esfregar minha pele e retirar tudo o que estava morto. Deitada, de olhos fechados, sentia o meu corpo sendo arranhado, ficando vermelho, como quando cortamos em algo e fica um verg&#227;o. Ao abrir os olhos eu ainda podia ver a pele morta, como pequenos gr&#227;os, ou grossos fiapos morenos espalhados por todo o meu corpo. A mulher marroquina que me esfoliava estava na minha frente, vestindo apenas uma bermuda, seu corpo tamb&#233;m &#224; mostra. Vi seu cabelo negro, a pele clara, nenhuma tonalidade diferente como a minha, que tem duas cores, diferenciando a parte que &#233; frequentemente exposta ao sol daquela protegida pelo biquini. A pele daquela mulher nunca foi exposta ao sol, seu cabelo tamb&#233;m n&#227;o. S&#227;o expostos ao calor do Hammam. Com m&#237;micas me orientava a deitar de barriga pra cima, virar de bru&#231;os, sentar de frente, de costas. Me esfoliou, ensaboou, enxaguou, lavou meus cabelos. Sem chuveiro, sem &#225;gua correndo ininterruptamente, as sensa&#231;&#245;es eram mais vivas, latentes, pude perceber o l&#237;quido escorrendo pelo meu corpo, a espuma, as m&#227;os, o ar quente da sala, a pedra onde eu estava deitada. Ela passou os dedos pelas minhas p&#225;lpebras, atr&#225;s das minhas pequenas orelhas, na nuca, jogou baldes de &#225;gua morna sobre o meu corpo, lavou partes que eu nunca alcancei. Nunca me senti t&#227;o limpa. Desejei termos esse h&#225;bito no Brasil: dar banho umas nas outras, como fazemos com crian&#231;as. Muito &#237;ntimo? Talvez, mas n&#227;o deveria. S&#227;o apenas corpos. Corpos que dormem, acordam, comem, trabalham, amam, cuidam, sofrem. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!taZh!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe719e347-0351-4795-a43c-3d7f52697f7e_3024x4032.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!taZh!, /__u/andarilha.substack.com/w_424, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, /__u/andarilha.substack.com/q_auto:good, /__u/andarilha.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe719e347-0351-4795-a43c-3d7f52697f7e_3024x4032.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!taZh!, /__u/andarilha.substack.com/w_848, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, 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Quem n&#227;o &#233; &#237;ntimo n&#227;o pode nos machucar facilmente, por isso reservamos essa posibilidade a poucas pessoas. Por vergonha, mas a vergonha s&#243; vai embora com o uso e a quem ela serve, afinal? Por h&#225;bito, porque algu&#233;m nos disse a vida toda o que podia e o que n&#227;o podia ser feito, o que deveria ser reservado para poucas rela&#231;&#245;es. Por medo do desconhecido, por higiene, porque alguns contatos &#237;ntimos podem trasmitir doen&#231;as - o &#250;nico motivo realmente v&#225;lido para mim. No geral o conceito de intimidade foi constru&#237;do socialmente e pensamos pouco sobre ele. A amiga que me falou sobre o Hamman &#233; uma pessoa do toque. Ela conversa tocando, n&#227;o importa se tenha crescido contigo ou acabado de te conhecer, &#233; como ela se expressa. Preocupada com a diferen&#231;a cultural, que tanto separa homens de mulheres no Marrocos, no primeiro dia que a vi tocando de leve o peito de um marroquino enquanto conversava, a alertei, para ouvir que ela era assim e pronto. N&#227;o era a primeira vez que ela ouvia esse tipo de repreens&#227;o (da qual me arrependi). No Marrocos ou na Alemanh&#227; pessoas tem dificuldade com o seu jeito de se expressar. J&#225; eu, n&#227;o me sinto confort&#225;vel tocando homens que n&#227;o conhe&#231;o. O toque &#233; para mim algo permitido entre pessoas que j&#225; s&#227;o amigas ou um convite para algo mais, uma demonstra&#231;&#227;o de interesse. Est&#225; a&#237; o meu limite da intimidade f&#237;sica. Ao mesmo tempo, quase contraditoriamente, n&#227;o me sinto mais &#237;ntima de algu&#233;m apenas porque tivemos contato f&#237;sico, depende da situa&#231;&#227;o, do contexto. Via de regra acredito que trocar confid&#234;ncias &#233; mais &#237;ntimo que transar, que o sexo pode ser simplesmente um desejo carnal, desde que cosentido por ambas as partes. Mas essa n&#227;o &#233; uma opini&#227;o  comum, na nossa sociedade, muita gente - principalmente mulheres, ainda percebe o sexo como a maior express&#227;o de intimidade. Minha amiga, que &#233; muito mais aberta ao toque inicial que eu, enxerga o sexo assim: uma profunda e &#237;ntima troca de energia. Exemplos como esses indicam que intimidade, al&#233;m de cultural, &#233; um conceito singular, que deveria ser constru&#237;do a partir de experi&#234;ncias individuais e n&#227;o por conven&#231;&#245;es sociais.</p><p>Uma coisa &#233; certa: intimidade vai muito al&#233;m do sexo e da nudez e pergunto-me se o custo-benef&#237;cio de proteger todos os aspectos da nossa intimidade vale a pena, se faz sentido economizar, permitir-se ser humana apenas ao lado de poucas pessoas. Tendo a achar que n&#227;o. Pessoas est&#227;o cada vez mais sozinhas, literamente morrendo de solid&#227;o e preservar com afinco qualquer vestigio de intimidade (ou seria humanidade?) pode estar contribuindo para essa doen&#231;a. Protegemos algo como se fosse in&#233;dito, s&#243; nosso, mas somos muito similares, &#250;nicas no interior, iguais na forma, nas necessidades e dores humanas. Nos protegemos sem perceber que o ato, no lugar de nos salvar, nos afasta. A solid&#227;o das pessoas deixou de ocorrer apenas nas capitais. Alteramos as conven&#231;&#245;es sociais dos nossos antepassados ind&#237;genas, que viviam em comunidades e n&#227;o acredito que estejamos melhores. Mais vestidos e mais solit&#225;rios, com certeza. Descubro a resposta para a minha pergunta olhando para os &#250;ltimos meses da minha vida, nos quais vivi um tour europeu com o intuito de rever pessoas que conheci e me conectei durante meus primeiros anos viajantes. Atravessar um oceano por encontros, lembrar das suas hist&#243;rias, escolher e ser escolhida, mesmo que n&#227;o tenhamos nem a nacionalidade em comum. Reencontros, &#233; o que reservo para as minhas pessoas especiais. Dividiremos mais momentos &#237;ntimos, ainda que meus momentos &#237;ntimos n&#227;o sejam apenas para elas, essas tem direito a recorr&#234;ncia. </p><p>Deveria ser mais f&#225;cil esse movimento de dedicar tempo, mas nos fizeram colocar esse ato no fim da lista de prioridades. Mais importante &#233; focar a vida em oito horas de trabalho (m&#237;nimo) e escolher pouqu&#237;ssimas rela&#231;&#245;es. Um n&#250;cleo familiar estreito, na minha bolha formado por um casal e dois filhos. A responsabilidade pelo afeto necess&#225;rio ao ser humano est&#225; restrita a poucas pessoas do c&#237;rculo social. Al&#233;m de ser uma estrat&#233;gia ruim, de colocar todos os ovos na mesma cesta (filhos crescem e partem, a sua pessoa pode morrer ou decidir ir embora a qualquer momento), acho tamb&#233;m um desperd&#237;cio antropol&#243;gico n&#227;o conhecer e relacionar-se com mais gente, n&#227;o se doar nem receber de seres distintos. Sei que expandir o c&#237;rculo social e desproteger sua intimidade exige um esfor&#231;o imenso para determinados perfis. N&#227;o &#233; preciso virar um livro aberto como eu, contando todos os seus traumas em cinco minutos de conversa, mas d&#225; para afrouxar os limites, avaliar o que &#233; seu, o que &#233; social. Limites r&#237;gidos podem ter consequ&#234;ncias desastrosas: pessoas solit&#225;rias, depressivas, doentes, sem rede de apoio, protegendo-se com tanto afinco que deixam de viver. Tem gente que constr&#243;i intimidade com poucas pedras, uma marmita dividida, disposi&#231;&#227;o para perguntas profundas, um quarto em comum, onde &#233; preciso perguntar se pode apagar a luz, h&#225; barulho pela manh&#227; e situa&#231;&#245;es inc&#244;modas. Tem gente que acorda a noite e pergunta se pode dividir a cama comigo porque n&#227;o consegue dormir na cama ao lado e eu, sonolenta, chego pro canto da cama de solteira. Dormimos apertadas, com uma cama livre ao lado, mas dormimos. Tem gente que reorganiza a rotina, alegra-se em abrir suas casas, marca o pr&#243;ximo encontro pra daqui um ano, em qualquer lugar do mundo. Corre riscos, cobre algu&#233;m na noite pra no outro dia reconhecer que era seu tipo de gente: gente que n&#227;o economiza intimidade e, principalmente, n&#227;o vive s&#243;.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://andarilha.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigada pela leitura e pela troca nos coment&#225;rios, por email, pessoalmente ou whast app. Se voc&#234; chegou aqui agora sinta-se convidada a assinar gratuitamente e receber hist&#243;rias de minhas andan&#231;as pelo mundo.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p></p><div><hr></div><h3>Um pouco mais das tr&#234;s semanas no Marrocos:</h3><p>1. Para mais um relato sobre o Hamman, leia <a href="https://www.journeywithjas.com/what-to-expect-from-a-traditional-moroccan-hammam/">aqui</a>. (em caso de necessidade coloque o tradutor pra trabalhar).  </p><p>2. O deserto &#233; um mist&#233;rio. Meu corpo grita no primeiro momento em que piso nessas regi&#245;es &#225;ridas. 19%, era a umidade do ar durante meus dias no Saara. Minha pele co&#231;a, meu nariz sangra, a cabe&#231;a lateja, fico let&#225;rgica, me falta &#225;gua e energia. Acho incr&#237;vel o fato de pessoas viverem ali a vida toda, provavelmente a teoria da evolu&#231;&#227;o foi implac&#225;vel e essas etnias possuem genes melhores adaptados que os meus a ambientes t&#227;o secos. Ainda assim a paisagem &#233; estupenda e sempre que poss&#237;vel sujeitarei meu corpo a alguns dias de exaust&#227;o des&#233;rtica.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ZQSG!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7dadf5e7-f774-459e-8284-a695374da4e2_4032x2268.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ZQSG!, /__u/andarilha.substack.com/w_424, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, /__u/andarilha.substack.com/q_auto:good, /__u/andarilha.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7dadf5e7-f774-459e-8284-a695374da4e2_4032x2268.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ZQSG!, 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Voltei apaixonada pela m&#250;sica Gnawa e com muita vontade de ver mais festivais na &#193;frica e conhecer outras partes dessa cultura musical t&#227;o rica. Abaixo uma playlist e <a href="https://www.instagram.com/reel/DRqR89bCJtf/?igsh=MXhwMTJrbjBxdWhtdg==">aqui</a> um v&#237;deo que n&#227;o consegui adicionar no Substack.</p><iframe class="spotify-wrap playlist" data-attrs="{&quot;image&quot;:&quot;https://image-cdn-ak.spotifycdn.com/image/ab67706c0000da847f206bf02ae15fc96fe94831&quot;,&quot;title&quot;:&quot;Gnawa Afro Essence&#127928;&#127474;&#127462;&quot;,&quot;subtitle&quot;:&quot;By X&quot;,&quot;description&quot;:&quot;Playlist&quot;,&quot;url&quot;:&quot;https://open.spotify.com/playlist/0PxYtaWWPUDGsBBXn1lZo6&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;noScroll&quot;:false}" src="https://open.spotify.com/embed/playlist/0PxYtaWWPUDGsBBXn1lZo6" frameborder="0" gesture="media" allowfullscreen="true" allow="encrypted-media" loading="lazy" data-component-name="Spotify2ToDOM"></iframe><p> </p><div class="captioned-button-wrap" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://andarilha.substack.com/p/intimidade-abandonada?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Compartilhar&quot;}" data-component-name="CaptionedButtonToDOM"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Se voc&#234; gostou, compartilhe esse post, um belo presente pra quem escreve (o Natal t&#225; chegando e eu acabei de aniversariar). </p></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://andarilha.substack.com/p/intimidade-abandonada?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Compartilhar&quot;}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/andarilha.substack.com/p/intimidade-abandonada?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Compartilhar</span></a></p></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Os homens estão envelhecendo mal ]]></title><description><![CDATA[e eu n&#227;o estou falando sobre calv&#237;cie]]></description><link>https://andarilha.substack.com/p/os-homens-estao-envelhecendo-mal</link><guid isPermaLink="false">https://andarilha.substack.com/p/os-homens-estao-envelhecendo-mal</guid><dc:creator><![CDATA[andarilha]]></dc:creator><pubDate>Fri, 31 Oct 2025 16:43:11 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!y51h!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0767c974-d3d2-490d-bbcc-466bafd6229b_4032x2268.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;Voc&#234; n&#227;o tem curiosidade?&#8221; Bradou a mulher pro marido que ficara no barco. Sem exaltar-se ele respondeu negativamente. N&#227;o havia curiosidade nem interesse. Ela continuou a desabafar com a filha: "Ficou assim. Perdeu o interesse em tudo. N&#227;o &#233; mais o mesmo." De fora do barco, com os p&#233;s no mangue, assist&#237;amos a demonstra&#231;&#227;o de como o povo de Soure, na Ilha do Maraj&#243;, retira o turu da &#225;rvore e o prepara para comer. Algo que n&#227;o se v&#234; todos os dias, mas o marido ficou no barco, desinteressado. N&#227;o era a primeira vez que eu me deparava com mulheres reclamando da falta de interesse dos homens &#224; sua volta. Na minha fam&#237;lia, nas fam&#237;lias das minhas amigas, entre desconhecidos que encontro pela estrada &#233; constante a reclama&#231;&#227;o feminina de que o parceiro perdeu o gozo pela vida a partir de certa idade.</p><p>Tampouco &#233; um fen&#244;meno brasileiro. Nessa semana, enquanto eu tirava uma selfie na esfinge de Giza, uma senhora se aproximou, no comum intuito de oferecer uma foto para depois pedir outra. Enquanto convers&#225;vamos ela me contou que ano passado esteve ali, caiu, quebrou a perna e n&#227;o p&#244;de continuar a visita. Recuperada, decidiu voltar esse ano e terminar o que ficou pendente. Aos 75 anos, estava sozinha e curiosa em frente &#224;s pir&#226;mides do Egito. &#8220;My husband stayed back home. He said he's done traveling&#8221;. Where is home? &#8220;San Diego, in the US&#8221;. (Meu marido ficou em casa. Ele disse que chega de viajar. Onde &#233; casa? San Diego, nos Estados Unidos). Ela atravessou sozinha metade do mundo, voltou ao Egito apenas um ano ap&#243;s uma perna quebrada para matar seus desejos, ver com os pr&#243;prios olhos, viver na pele, realizar sonhos. Me lembrou Jane, que conheci na Nam&#237;bia, em 2019. Tamb&#233;m viajava sozinha e o marido tamb&#233;m estava &#8220;done traveling&#8221;. Naquela &#233;poca eu nem imaginava que minha vida tornaria-se o que tornou-se, mas lembro de j&#225; pensar que queria ser como Jane. Falei o mesmo para a senhora que conheci essa semana, mas cujo nome eu nem perguntei: no meu futuro serei como voc&#234;.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!g-RE!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4c361352-ae28-4c33-8cd4-5a8d5e4edf7c_4032x2268.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!g-RE!, /__u/andarilha.substack.com/w_424, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, /__u/andarilha.substack.com/q_auto:good, /__u/andarilha.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4c361352-ae28-4c33-8cd4-5a8d5e4edf7c_4032x2268.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!g-RE!, /__u/andarilha.substack.com/w_848, 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Separados ou vi&#250;vos, uma das primeiras a&#231;&#245;es &#233; um novo casamento. Enquanto isso, perco a conta de quantas mulheres conhecidas nunca mais se casaram ap&#243;s experimentarem a primeira uni&#227;o. Uma estat&#237;stica que pode ter a ver com a frase de que o casamento &#233; bom para o homem e ruim para a mulher, mas essa &#233; outra conversa). Os homens p&#243;s 60 com quem cruzei pela estrada viajavam com interesses sexuais, acompanhados por meninas d&#233;cadas mais jovens e milhares de d&#243;lares mais pobres. No Camboja, Tailandia, Filipinas, Vietn&#227;. O Sudeste Asi&#225;tico est&#225; cheio de exemplos de homens que deixam seus pa&#237;ses para abusarem de meninas com poucas oportunidades. Uma dessas me disse: &#8220;nunca na minha vida imaginei que um dia estaria aqui.&#8221; Aqui era um passeio em uma bela e tur&#237;stica ilha das Filipinas, a muitos quil&#244;metros de dist&#226;ncia de onde ela nascera, outra ilha, mesmo pa&#237;s. Ela parecia feliz e achava ter tirado a sorte grande por aquele australiano mais velho que seu pai a ter levado at&#233; ali. N&#227;o tive conragem de discordar da sua felicidade, muito menos conseguiria expressar a minha dor por entender que essa era a &#250;nica oportunidade que o mundo lhe oferecia. Enquanto mulheres saem a explorar, matar curiosidades e fazer novas amizades, em excurs&#245;es ou sozinhas, homens ficam, ou pior, quando saem &#233; em busca de mulheres suscet&#237;veis. Para serem cuidados, para aplacar a solid&#227;o, para tentarem provar uma virilidade que foi exclusivamente baseada em performance sexual ou for&#231;a de trabalho, portanto acabou-se com o avan&#231;o da idade. Menos viris, eles se perdem. N&#227;o sabem o que fazer com as m&#227;os, muito menos consigo mesmos. Est&#227;o &#8220;done&#8221;. Acabados.</p><p>Muito tenho ouvido sobre a dificuldade das mulheres ao envelhecerem e da posi&#231;&#227;o de quase invisibilidade que a sociedade nos reserva nessa fase da vida, mas vejo de outra forma. O assunto est&#225; na mesa, a conversa aberta, deixando espa&#231;o para que essas mulheres se redescubram na maturidade, ganhem mais liberdade, fa&#231;am coisas pela primeira vez, valorizem a vida, a comunidade, as descobertas. Elas est&#227;o no mundo,  assumindo as dores, buscando solu&#231;&#245;es, vivas! A diferen&#231;a de posicionamento perante a idade tem criado um abismo entre casais e n&#227;o &#224; toa a taxa de div&#243;rcio ap&#243;s mais de 20 anos de casados cresceu nas &#250;ltimas d&#233;cadas. N&#227;o &#233; preciso desejar ir ao Egito para ser algu&#233;m interessado, mas h&#225; de haver alguma emo&#231;&#227;o para al&#233;m do sexo e do trabalho.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!y51h!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0767c974-d3d2-490d-bbcc-466bafd6229b_4032x2268.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!y51h!, /__u/andarilha.substack.com/w_424, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, /__u/andarilha.substack.com/q_auto:good, /__u/andarilha.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0767c974-d3d2-490d-bbcc-466bafd6229b_4032x2268.jpeg 424w, 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Faleceu cedo, viril e famoso. A julgar pela grandeza de seus t&#250;mulos, fara&#243;s pensavam muito na morte. Corredores tomados de pinturas, homenagens a deuses, centenas de tesouros e grandes tumbas de granito garantiam que fossem lembrados quando a vida acabasse. E a vida naquele tempo durava menos que atualmente. Essa &#233; a op&#231;&#227;o para al&#233;m do envelhecer. Seria o que muitos desses homens que j&#225; n&#227;o possuem mais desejos teriam preferido? Morrer cedo? No caso de alguns tenho a impress&#227;o de que a vida ficou longa demais.</p><p>Obviamente essa &#233; uma an&#225;lise vinda de uma pequena amostra e perdoem-me a generaliza&#231;&#227;o. Foi para chamar a aten&#231;&#227;o. &#201; claro que o famigerado &#8220;nem todo homem&#8221; cabe aqui e enquanto escrevia lembrei de alguns poucos &#224; minha volta que felizmente n&#227;o encaram essa realidade, mas me assusta a quantidade deles que vejo assim: nem sempre calvos, frequentemente desinteressados. Aposto que voc&#234; tamb&#233;m conhece esses exemplos. A calv&#237;cie pode at&#233; ser um charme, pra quem n&#227;o gosta, j&#225; h&#225; solu&#231;&#227;o. Na mesma propor&#231;&#227;o em que envelhecem fazem implante capilar. Para a perda do gozo pela vida, n&#227;o. </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A foz não é o fim]]></title><description><![CDATA[Quinto e &#250;ltimo cap&#237;tulo de uma jornada pelo norte, estrelando Amazonas, Rond&#244;nia e Acre]]></description><link>https://andarilha.substack.com/p/a-foz-nao-e-o-fim</link><guid isPermaLink="false">https://andarilha.substack.com/p/a-foz-nao-e-o-fim</guid><dc:creator><![CDATA[andarilha]]></dc:creator><pubDate>Wed, 01 Oct 2025 20:31:40 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!IkFO!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd5047ece-3398-4fa0-a33e-100bebec1241_1272x1272.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Eu nasci longe da &#225;gua. Apesar de a poucos quil&#244;metros da nascente do famoso rio S&#227;o Francisco, a &#225;gua que brota da terra demorou a ser presente em minha vida. No tempo da inf&#226;ncia o corpo d&#8217;&#225;gua que me era conhecido vinha com cloro e cercado por azulejos: piscinas. Me divertia, j&#225; entendendo o prazer que &#233; ter o corpo submerso nesse l&#237;quido misterioso e vital. N&#227;o lembro da primeira vez em que fui a uma cachoeira, mas a certo ponto comecei a explorar os arredores do interior de Minas Gerais e senti a energia da &#225;gua caindo de cima. Apesar de ser origem e destino das quedas d'&#225;gua que via de perto, o rio ainda era distante. Eu n&#227;o navegava. Na &#226;nsia de ampliar horizonte aqu&#225;ticos, o destino normalmente era o mar. &#193;gua salgada. Muitas piscinas, eventuais banhos gelados em cachoeiras, mergulhos anuais no mar: essa era a minha realidade no cerrado mineiro. </p><p>J&#225; o norte &#233; feito de rio. Nos meandros da Floresta Amaz&#244;nica o norte da Am&#233;rica do sul navega. Por rios sinuosos, largos ou estreitos, negros ou barrentos, a nortista nasce na &#225;gua. Tenho pra mim que crian&#231;as aprendem a nadar antes mesmo de andar. O cora&#231;&#227;o da Amaz&#244;nia est&#225;  distante do mar, mas perto da &#225;gua. Os rios fazem parte da vida, ditam as esta&#231;&#245;es, s&#227;o fonte de trabalho e divers&#227;o. Tomam lugar das estradas, enquando barcos substituem carros e motos. S&#227;o a base de casas e cidades, constru&#237;das sobre palafitas. &#193;gua doce ali tem nome e import&#226;ncia. </p><p>O Rio Branco desce das margens de Boa Vista, capital de Roraima e des&#225;gua no rio Negro, pouco acima da cidade de Novo Air&#227;o, no estado do Amazonas. A regi&#227;o &#233; envolta por parques nacionais, que n&#227;o possuem montanhas, mas sim florestas alagadas, rios e lagos. Anavilhanas e Ja&#250; s&#227;o morada de botos, peixes, p&#225;ssaros, jacar&#233;s, cobras e on&#231;as. A rica fauna convive com a flora e suas &#225;rvores gigantescas. Sama&#250;ma, cip&#243; api. Em Novo Air&#227;o e Manaus o rio Negro banha praias e o povo. Mais ao leste da capital amazonense, se encontra com o rio Amazonas, mas n&#227;o se misturam, a olho nu assistimos as duas cores ainda vis&#237;veis quando se juntam, como &#225;gua e &#243;leo, mas aqui &#225;gua e &#225;gua, uma negra, como o nome do rio, outra marrom. Crescemos achando que &#225;gua n&#227;o tinha cor. Na Amaz&#244;nia tem. Cor e magia.  </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!IkFO!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd5047ece-3398-4fa0-a33e-100bebec1241_1272x1272.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!IkFO!, /__u/andarilha.substack.com/w_424, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, /__u/andarilha.substack.com/q_auto:good, /__u/andarilha.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd5047ece-3398-4fa0-a33e-100bebec1241_1272x1272.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!IkFO!, /__u/andarilha.substack.com/w_848, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, 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Orgulho brasileiro nas aulas de geografia, nascido nos andes peruanos, des&#225;gua no oceano Atl&#226;ntico, a oeste da Ilha do Maraj&#243; e leste do estado do Amap&#225;. S&#227;o 6400 km de extens&#227;o percorridos da nascente &#224; foz. De balsa passei pelo rio negro, naveguei sobre o encontro dos rios e atravessei o Amazonas, caindo na rodovia 319 at&#233; Porto Velho, em Rond&#244;nia. Se tivesse ido de barco, como era o plano inicial, teria descido pelo rio Madeira, outro afluente do Amazonas, que des&#225;gua poucos quilometros ao leste de Manaus. No sentido Manaus - Porto Velho, contra a correnteza, a viagem teria durado cinco dias e foi abortada para que eu tivesse tempo de revisitar Presidente Figueiredo, o para&#237;so amaz&#244;nico das cachoeiras, onde igarap&#233;s e rios liberam a energia da queda que vi pela primeira vez em terras mineiras. Aqui s&#227;o centenas, &#225;guas cristalinas, esverdeadas, azul, vermelha e negra. A floresta faz sua pintura, brinca com cores e formas, cria buracos na cachoeira do Mutum, espuma na Neblina, colore o igarap&#233; vermelho, cai por um buraco na Pedra Furada. </p><p>Encontrei o rio Madeira j&#225; em Porto Velho, &#224;s margens da cidade, ainda num n&#237;vel baixo, o per&#237;odo de chuvas desse ano est&#225; para come&#231;ar. O nome &#233; quase t&#227;o literal como o do rio Negro e remete &#224; sua cor marrom, amadeirada. Em 2022 eu tinha uma passagem de avi&#227;o pra Porto Velho, mas n&#227;o usei. Com cinco meses de nova vida n&#244;made era a segunda vez que perdia uma passagem, a primeira por mudan&#231;a de planos, por preferir estar em outro lugar e n&#227;o no planejado semanas antes. Perdi a passagem, o dinheiro gasto e entendi que a nova vida n&#227;o comportava planos t&#227;o antecipados. A verdadeira economia estava em esperar, sentir. Se tivesse conhecido Rond&#244;nia tr&#234;s anos atr&#225;s n&#227;o teria voltado agora, provalvemente pegaria uma voo de Manaus para o Acre, mas naquele ano fiz um amigo e com ele desviei para Roraima e a Serra do Tepequ&#233;m, na minha primeira viagem com desconhecidos que tornaram-se conhecidos rapidamente. Algo que passaria a ser frequente na minha vida. Tr&#234;s anos atr&#225;s eu n&#227;o tinha a rela&#231;&#227;o que hoje tenho com rios e talvez n&#227;o entendesse o Madeira passasse despercebido.  </p><p>Acre &#233; nome de rio e de estado. Banha a capital Rio Branco e delimita boa parte das fronteiras do Brasil com Bol&#237;via e Peru. Na cidade de Xapuri, que tamb&#233;m &#233; nome de rio, acontece o encontro dos dois rios e na cheia a &#225;gua toma conta das pra&#231;as e ruas. Antigas casas de palafitas lidam com os ciclos da natureza. As &#225;guas se misturam, o povo tamb&#233;m. O volume sobe e desce, as folhas caem e renascem, a seringueira sangra e se recupera, a castanheira d&#225; seus frutos, de novo e de novo. &#201; a cotia que espalha suas sementes e por n&#227;o conseguir atravessar o rio Purus, a castanha se limitam &#224; parte sul do estado. Croa &#233; o grande rio da parte norte do estado, conhecido por sua superf&#237;cie coberta por verdes plantas aqu&#225;ticas, a criar uma bel&#237;ssima paisagem.</p><p>No caminho para Xapuri as margens da estrada eram tomadas por pastos, gado e algumas solit&#225;rias castanheiras. Uma surpresa pra quem ingenuamente achou que o pasto n&#227;o subira do Centro-oeste para o norte do Brasil. S&#237;mbolo da luta pela floresta, ampliada na voz de Chico Mendes, assassinado por inimigos da luta, o Acre ainda tem uma longa batalha contra o desmatamento. Essa parte do Brasil &#233; mais parecida com a regi&#227;o de Pando da Bol&#237;via que com o restante do Brasil. A regi&#227;o de Pando &#233; mais parecida com essa parte do Brasil que com o restante da Bol&#237;via. O Acre existe e vive seus rios. S&#243; l&#225; entendi o absurdo que &#233; t&#227;o pouco sabermos de um estado t&#227;o rico em cultura e natureza. </p><p>Um dos meus poemas favoritos usa o rio como met&#225;fora e come&#231;a assim: &#8220;Diz-se que antes de entrar no mar um rio treme de medo. (&#8230;)  v&#234; um oceano t&#227;o vasto, que entrar nele nada mais &#233; do que desaparecer para sempre.&#8221; A autoria do poema n&#227;o &#233; confirmada. Nomes v&#227;o de Kalhil Gilbram a Osho, mas a despeito de quem tenha sido, suspeito que a pessoa n&#227;o viveu perto de rios. N&#227;o dos rios do norte brasileiro. S&#243; vivendo os rios entendi que era imposs&#237;vel o rio Amazonas tremer de medo ao aproximar-se da sua foz. Um rio que nasce com filetes de &#225;gua brotando das montanhas andinas e transforma-se no maior volume de &#225;gua do mundo, inundando florestas e navegando barcos, sabe o que &#233; transformar-se. 6 mil e 400 kms depois, duvido que o rio acharia ser poss&#237;vel desaparecer, que a trajet&#243;ria acabaria. Ele sabia chegariam outras &#225;guas  outras cores e temperaturas, outros caminhos, novos destinos e pessoas. A cheia e seca, mar&#233; alta e baixa. O rio j&#225; conhecia sua capacidade de tranforma&#231;&#227;o. A foz &#233; s&#243; um nome, criado pelo homem, que pouco entendeu a for&#231;a dos rios. </p><p>Esse mesmo poema termina dizendo: &#8220;o rio n&#227;o pode voltar, ningu&#233;m pode voltar, voltar &#233; imposs&#237;vel na exist&#234;ncia humana&#8221; e a&#237; sim acerta. O movimento do rio &#233; o da vida. A vida n&#227;o para, o rio tamb&#233;m n&#227;o. A vida n&#227;o volta, o rio tamb&#233;m n&#227;o. Se essa verdade fosse internalizada, se nossa vida passasse por ver os rios seguirem e nos inspirar neles, talvez haveria menos sofrimento. Eu tamb&#233;m tenho adora&#231;&#227;o pelo mar, mas n&#227;o gosto do ir e voltar das ondas, como se n&#227;o sa&#237;ssem do lugar. Os rios n&#227;o, eles seguem um caminho e movimento &#233; solu&#231;&#227;o, mesmo quando n&#227;o se sabe bem pra onde. Viajantes tem f&#233;: o caminho se faz ao caminhar. Eu acredito. Acredito em ver de perto novas perspectivas, em estar no meio da vastid&#227;o. </p><p>Minha cabe&#231;a doia nos &#250;ltimos dias pelo norte. Falta antecipada de &#225;gua doce, pensei. A garganta entalada, sem saber como contar da vida por sobre e &#224;s margens dos rios. Sei que n&#227;o desaparecerei, ainda assim me aproximar da foz de cada temporada mexe comigo. E dessa vez mexeu muito. O s&#237;mbolo de ter conhecido os &#250;ltimos estados do Brasil que faltavam, a certeza de que h&#225; um valor imensur&#225;vel no nosso povo, um orgulho do que me propus e de tudo que aprendi &#233; uma sensa&#231;&#227;o dif&#237;cil de explicar. Uma vontade de sair gritando por a&#237;: &#8220;conhe&#231;a o norte! Se interesse e respeite o que &#233; diferente de voc&#234;!&#8221;, mas saber que gritar n&#227;o adianta. A necessidade de me redimensionar, ocupar o meu novo espa&#231;o. Eu, que nasci umas gotinhas de &#225;gua no interior de Minas Gerais, a cada destino recebo afluentes e cres&#231;o, me transformo em oceano. Sei poder ser muitas, morro e renas&#231;o, sem desaparecer. A foz n&#227;o &#233; o fim. Repito. Prometo que voltarei. Amaz&#244;nia tamb&#233;m sou eu, agora que aprendi a navegar.</p><div><hr></div><h4>O poema completo:</h4><p>Medo</p><p>Diz-se que antes de entrar no mar um rio treme de medo.</p><p>Olha para tr&#225;s, para todo o caminho que percorreu pelos picos e montanhas, pela longa estrada sinuosa que atravessou florestas e aldeias.</p><p>E na frente v&#234; um oceano t&#227;o vasto que entrar nele nada mais &#233; do que desaparecer para sempre.</p><p>Mas n&#227;o h&#225; outra maneira.</p><p>O rio n&#227;o pode voltar.</p><p>Ningu&#233;m pode voltar atr&#225;s. Voltar &#233; imposs&#237;vel na exist&#234;ncia.</p><p>O rio precisa correr o risco de entrar no oceano porque s&#243; ent&#227;o o medo desaparecer&#225; e saber&#225; que n&#227;o se trata de desaparecer, mas de tornar-se o oceano.</p><div><hr></div><h4>Recebendo afluentes</h4><p>A rede social nos permite muito. De bom e ruim. De bom podemos escolher o que aprender, apesar do poder dos algoritmos ainda est&#225; a nosso alcance direcion&#225;-los. Quem voc&#234; segue do norte? O que sabe sobre a Amaz&#244;nia? Como se prepara para n&#227;o ser xen&#243;fobo dentro do seu pr&#243;prio pa&#237;s? O que conhece das sabedorias ancestrais, dos povos que j&#225; estavam nessas terras que hoje denominamos Brasil? (Dica: use # para procurar novos conte&#250;dos: #norte #amaz&#244;nia #ribeirinhos)</p><p>Assisti e ouvi muita coisa sobre o norte, a Amaz&#244;nia e rios. Aqui v&#227;o algumas indica&#231;&#245;es:</p><p>*<strong>As crian&#231;as perdidas</strong>: tenho pra mim que uma das coisas que tanto assusta a respeito da natureza &#233; a falta de controle. Mas o controle &#233; inexistente, at&#233; dentro de um apartamento. Olh&#225;-la como mist&#233;rio e aceitar que n&#227;o teremos todas as respostas pode ser a solu&#231;&#227;o pra essa rela&#231;&#227;o. Esse document&#225;rio traz uma perspectiva misteriosa da floresta ao narrar o que aconteceu a partir de um acidente a&#233;reo na Col&#244;mbia. </p><p>*<strong>Entrevista da Marina Silva no podcast do Mano Brown</strong>: Marina conta da inf&#226;ncia no seringal do Acre, da vida, da rela&#231;&#227;o com a floresta e de propostas para um futuro mais equilibrado. Vale cada minuto.  </p><p>*<strong>Pissica</strong>: pesado, mas se passa entre a Ilha do Maraj&#243;,  Bel&#233;m e Cayenne, Guiana Francesa. Tem mulheres fortes e um pouco da vida sobre &#225;guas. Queria filmes que mostrassem s&#243; a beleza da vida ribeirinha, mas n&#227;o encontrei. </p><p>*<strong>O &#218;ltimo Azul</strong>: uma distopia sobre um Brasil que trata muito mal seus idosos. Gravado pelas &#225;guas do Rio Negro e Floresta Amaz&#244;nica, tem uma fotografia linda, atua&#231;&#245;es bel&#237;ssimas e faz pensar. </p><p>*<strong>Xingu</strong>: hist&#243;ria da reserva Xingu e do primeiro contato com ind&#237;genas da regi&#227;o.</p><p>*<strong>A flor do Buriti</strong>: a luta das comunidades ind&#237;genas para se adaptarem e terem a vida</p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Roraima, o monte da desilusão ]]></title><description><![CDATA[cap&#237;tulo quatro de uma jornada que desviou-se do Brasil]]></description><link>https://andarilha.substack.com/p/roraima-o-monte</link><guid isPermaLink="false">https://andarilha.substack.com/p/roraima-o-monte</guid><dc:creator><![CDATA[andarilha]]></dc:creator><pubDate>Mon, 08 Sep 2025 18:30:51 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!1n-M!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0529a3ea-1778-45bc-9182-cd23bf9c477a_4032x2268.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>De longe, a quil&#244;metros de dist&#226;ncia, o Kukenan parece mais alto que o Monte Roraima. Caminhei tr&#234;s dias olhando aquelas montanhas, com a ilus&#227;o de que o Kukenan era mais alto. A cada subida, descida ou curva, l&#225; estavam elas, a nos vigiar e iludir. A Gran Sabana &#233; uma &#225;rea montanhosa da Venezuela onde h&#225; sete tepuys, como s&#227;o chamadas as montanhas de formato quase reto no topo. Todos sabem que o Monte Roraima &#233; o mais alto, mas s&#243; podemos confirmar ao chegar no topo dele. &#201; a caminhada, a aten&#231;&#227;o, o chegar perto que destr&#243;i nossas ilus&#245;es. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!1n-M!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0529a3ea-1778-45bc-9182-cd23bf9c477a_4032x2268.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!1n-M!, /__u/andarilha.substack.com/w_424, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, /__u/andarilha.substack.com/q_auto:good, /__u/andarilha.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0529a3ea-1778-45bc-9182-cd23bf9c477a_4032x2268.jpeg 424w, 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Dever&#237;amos celebrar nossas desilus&#245;es, &#233; a partir delas que enxergamos a verdade. E sim, a verdade nos liberta, mesmo quando h&#225; dor. Des.ilus&#227;o: deixar de se iludir, de acreditar em algo que n&#227;o era real. Eu ando obcecada por me desiludir, por ver de perto. Montanhas, lugares e pessoas. Entender o tamanho real e as sombras, tentar desfazer qualquer ilus&#227;o, lidar com a realidade. N&#227;o sei ao certo quando come&#231;ou, nem quanta ilus&#227;o cultivei ao longo desses 40 anos de vida, mas em algum momento, ali na metade dos 30, a chave virou, sem que eu conseguisse nomear o que nomeio hoje. Tendo a concordar com Paulinho da Viola em muita coisa, mas nesse caso, &#8220;desilus&#227;o, desilus&#227;o, dan&#231;o eu, dan&#231;a voc&#234; na dan&#231;a da solid&#227;o&#8221;, eu trocaria por comunh&#227;o. A busca por desilus&#245;es n&#227;o me deixa s&#243;, abre caminhos para rela&#231;&#245;es reais, nunca perfeitas, mas de gente que est&#225; inteira. </p><p>Anos atr&#225;s, me envolvi numa grande ilus&#227;o amorosa, com um cara que poderia ser o protagonista daquele filme "ele n&#227;o est&#225; t&#227;o afim de voc&#234;". Como esses protagonistas costumam fazer, mesmo n&#227;o t&#227;o afim, ele estava l&#225;, rondando, oferecendo migalhas, que eu catava do ch&#227;o com muita auto cr&#237;tica e disposi&#231;&#227;o. Quando ele jogava suas pernas sobre as minhas eu n&#227;o me mexia, mal respirava, envolta no medo dele dar-se conta daquele contato f&#237;sico &#237;ntimo e cessa-lo. Num momento xoxa, fraca, capenga, tamb&#233;m fiquei. Iludida de que um dia ele mudaria, passaria a gostar o suficiente de mim, n&#227;o mais me deixaria viver na ansiedade constante pelo momento em que come&#231;aria a dar sinais de que era hora de eu partir da sua casa. Me iludir era a &#250;nica coisa que eu podia naquele momento, eu n&#227;o tinha for&#231;as para escalar o monte da desilus&#227;o. Quando ele se foi - e gra&#231;as ao universo ele se foi - entendi que parte da minha fraqueza vinha da pr&#243;pria ilus&#227;o. Naquela pseudo rela&#231;&#227;o eu usava minha energia para pisar em ovos, cavar espa&#231;os de afeto, n&#227;o me mexer por debaixo de suas pernas, me apequenar. Sem esse gasto minha energia foi dirigida a me recuperar e eu nunca mais evitei ver a verdade. A ilus&#227;o nos impede de sermos n&#243;s mesmas e o espa&#231;o &#233; limitado e apertado quando evitamos nos mexer por debaixo das pernas de algu&#233;m. </p><p>De longe o Monte Roraima parece ser s&#243; pedras. &#201; chegando perto que observamos a floresta. &#201; passando por ela que sentimos a &#225;gua das cachoeiras a tocar nossa pele e a energia do monte o nosso esp&#237;rito. &#201; l&#225; em cima que descobrimos o verde das folhas e o colorido de flores diversas. Mas a caminhada exige for&#231;a, requer que estejamos dispon&#237;veis, certas de quem somos, com a alma - talvez at&#233; mais que o f&#237;sico - fortalecida. Mais que tudo,  exige saber quem somos, o que &#233; importante e inegoci&#225;vel na nossa hist&#243;ria. Destruir ilus&#245;es tem o seu pre&#231;o e tudo bem se por um tempo precisarmos nos manter iludidas, enquanto nossa alma se fortalece, entendemos quem somos, reconhecemos nossos verdadeiros valores e amores. Dispostas (eu tinha escrito pronta, mas por acaso alguma vez estamos realmente prontas? O caminho se faz ao caminhar - toda caminhante sabe). Dispostas, fortalecidas, a caminhada come&#231;a, passo a passo subimos o monte, passamos por sobre as pedras, por debaixo das &#225;vores, sentimos a &#225;gua e o vento no rosto. Largamos o cara, mandamos o chefe &#224; merda, somos honesta com as amigas, verdadeira com a fam&#237;lia, vamos embora de onde o amor n&#227;o chega. Precisei de v&#225;rios empregos, em todos os tipos de empresa, para me desiludir por completo com o mundo corporativo, de in&#250;meros suspiros e falas diretas pra aceitar que aquele cara n&#227;o estava t&#227;o afim de mim e n&#227;o justificava me moldar pra tentar caber naquela pseudo rela&#231;&#227;o, de tr&#234;s mensagens n&#227;o respondidas e outra amiga de intermedi&#225;ria pra entender que uma amizade de quase dez anos acabara ap&#243;s o primeiro conflito e que aquela ex amiga nem me comunicaria sobre o fim.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!kApc!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F66c20fa1-e1ff-4b69-b94a-261de682f039_4032x2268.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!kApc!, 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elaborei perguntas profundas s&#227;o as desilus&#245;es que procuro. O que as incomoda me custou muito a lapidar, s&#227;o os inegoci&#225;veis da minha alma e dos quais muito me orgulho. A depender do meu amor e do nosso tempo de rela&#231;&#227;o posso at&#233; tentar ser supeficial por um tempo, mas por todo o tempo, seria como pedir que o Monte Roraima fosse mais baixo, menos verde, sem flores amarelas e vermelhas, com poucas brom&#233;lias e cavernas. Nenhuma jacuzzi ou cachoeira, zero fendas e p&#225;ssaros. Ser apenas pedra, nada de poesia. N&#227;o h&#225; como, nem porque. Prefiro caminhar em busca das minhas desilus&#245;es. Em montanhas e pessoas. </p><div><hr></div><h4>Roraima do monte, da Venezuela, do Brasil</h4><p>A entrada para o Monte Roraima se d&#225; pela cidade venezuelana de Santa Elena de Uair&#233;n, fronteira com a cidade de Pacairama, no estado brasileiro de Roraima. A palavra Roraima vem de um idioma ind&#237;gena e parece significar monte verde ou serra verde. Remete ao monte e ao estado brasileiro. Ali, onde Brasil e Venezuela se encontram o idioma &#233; espanhol, mas a moeda &#233; o real. A l&#237;ngua nativa, ind&#237;gena, tamb&#233;m &#233; ensinada na escola e falada nas casas. Na Roraima estado, que vai se afastando da Venezuela, por&#233;m ainda se mantendo mais perto que de boa parte do Brasil, Boa Vista &#233; a capital (a &#250;nica do Brasil acima de linha do Equador), h&#225; outra serra verde, o Tepequ&#233;m, que tamb&#233;m leva nome ind&#237;gena, belas paisagens e foi o meu destino na primeira visita ao estado, em 2022. Bonfim &#233; a cidade da fronteira com a Guyana, logo depois de Lethem, pela qual cheguei agora em 2025 e onde pela primeira vez na vida tive o passaporte carimbado para entrar de volta ao Brasil (aeroportos e v&#225;rias outras fronteiras terrestres n&#227;o carimbam). Quatro cidades, de um estado com 15 municipios. Posso orgulhasamente dizer que Roraima foi bem visitada. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!mkFX!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0009b0a4-15b4-414b-8547-f2ae4dffae68_2048x1536.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!mkFX!, /__u/andarilha.substack.com/w_424, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, /__u/andarilha.substack.com/q_auto:good, /__u/andarilha.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0009b0a4-15b4-414b-8547-f2ae4dffae68_2048x1536.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!mkFX!, /__u/andarilha.substack.com/w_848, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, 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caminho]]></title><description><![CDATA[Cap&#237;tulo 3 de uma jornada pelo Brasil, lembrando do que eu j&#225; sabia]]></description><link>https://andarilha.substack.com/p/amapa-e-tres-guianas-no-meio-do-caminho</link><guid isPermaLink="false">https://andarilha.substack.com/p/amapa-e-tres-guianas-no-meio-do-caminho</guid><dc:creator><![CDATA[andarilha]]></dc:creator><pubDate>Sat, 23 Aug 2025 14:01:52 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Eka_!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe7e45737-719f-4d20-b2f2-5e97079ecfe1_1456x819.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>N&#227;o conta pra ningu&#233;m que voc&#234; est&#225; sozinha, disse a mulher sentada ao meu lado no &#244;nibus de Macap&#225; ao Oiapoque. Quanto mais eu me aproximava dos meus destinos, mais as pessoas se impressionavam com meus planos e tentavam me aconselhar. Apesar de sempre atenta a avisos de locais, como daquela amapaense que j&#225; morara na Guiana Francesa, estou calejada de conselhos, e naquela altura j&#225; avaliara cuidadosamente os riscos, por isso perguntei: voc&#234; me diria isso tamb&#233;m em Macap&#225;? Eu acabara de sair da cidade e conseguiria medir se aquele era um conselho de quem tem o medo generalizado ou algo mais s&#233;rio, que tinha a ver com meu pr&#243;ximo destino. &#8220;Sim, em qualquer lugar, nunca devemos falar para os outros que estamos sozinhas&#8221;. Relaxei. N&#227;o era sobre o destino, era sobre a vida.</p><p>Em Macap&#225;, onde ela tamb&#233;m me recomendaria n&#227;o andar s&#243;, vivi uma cidade amistosa e pessoas agrad&#225;veis, principalmente no final da tarde, quando surgia uma brisa fresca, n&#227;o se sabe de onde, e a temperatura caia. Situada sobre a linha do Equador, a cidade tem apenas duas esta&#231;&#245;es: o ver&#227;o, quente com chuva e o inverno, quente sem chuva. Mas apesar dos mais de 30 graus durante o dia, no final da tarde havia frescor. A orla do rio Amazonas &#233; desfrutada para atividades f&#237;sicas, shows e banhos de rio, a cidade mescla natureza e atividades culturais e a lua cheia nascendo ao fundo do rio foi um presente bonito e inesperado. O museu Sacaca, um espa&#231;o a c&#233;u aberto que reproduz a vida dos ribeirinhos, me fez sentir de perto as vidas que eu vira de longe h&#225; poucos dias, durante o trajeto de barco entre Bel&#233;m e Macap&#225;. O estado do Amap&#225; n&#227;o &#233; uma ilha, mas est&#225; ilhado, sendo poss&#237;vel acess&#225;-lo apenas por rio ou ar, j&#225; que n&#227;o h&#225; vias terrestres que o liguem ao restante do Brasil. Cheguei bem guiada, com a ajuda de um maranhense que conheci no barco e apresentou a cidade com o mesmo orgulho que alguns pa&#237;ses pouco visitados tem de receber turistas. Essa alegria em receber algu&#233;m de longe era vis&#237;vel em quase todos que cruzavam meu caminho. Dicas, novos lugares para visitar, o falar bem de seu estado e cultura. No &#250;ltimo dia descobri que deveria ter inclu&#237;do a Serra do Navio, que tem muito do que gosto: trilhas e cachoeiras, mas era tarde demais. Ficou uma pend&#234;ncia e motivos para voltar.  Contei pra todo mundo que estava sozinha e s&#243; recebi ajuda, por&#233;m dali tamb&#233;m vinham os avisos sobre as Guianas (aqui incluso o Suriname, ex Guiana Holandesa). Esse tipo de aviso &#233; frequente na minha vida e sinto estar repetitiva no tema, mas dessa vez eles quase me pegaram.  </p><p>Por alguns dias questionei meus planos, me preocupei, desejei que estivesse comigo o colega su&#237;&#231;o que cogitou acompanhar-me nessa viagem. J&#225; no sudeste me informavam sobre uma briga entre Venezuela e Guiana e fui aos jornais entender se corria o risco de encontrar um pa&#237;s em guerra. A cada novo conselho e express&#227;o assustada pensava que seria melhor n&#227;o estar sozinha naquela travessia pelos tr&#234;s pequenos e pouco explorados pa&#237;ses da Am&#233;rica do Sul. &#8220;O primo do cunhado da minha irm&#227; morreu l&#225;&#8221;, &#8220;n&#227;o existe estrada a&#237;, voc&#234; ter&#225; que pegar um voo&#8221;, &#8220;n&#227;o ande s&#243;, nem em dupla, apenas em grupo, &#233; muito perigoso&#8221;, &#8220;costumam sequestrar &#244;nibus entre Albina e Paramaribo, roubam tudo e te deixam sem nada", &#8220;mas na Guiana? E o Maduro? Tem conflito l&#225; &#8221;. At&#233; quem j&#225; tinha ido trazia not&#237;cias n&#227;o muito animadoras: &#8220;foi o pior pa&#237;s em que j&#225; estive&#8221;, dizia o blog que me deu informa&#231;&#245;es bem completas sobre a travessia das fronteiras. Li mais alguns textos, percebi que eu e o autor &#233;ramos viajantes totalmente diferentes, no que diz respeito &#224; perfis, expectativas e motiva&#231;&#245;es. Me acalmei. Ele poderia me dar informa&#231;&#245;es pr&#225;ticas, n&#227;o opini&#245;es subjetivas. Confirmei as pesquisas que eu j&#225; fizera e garanti que, sim, era poss&#237;vel atravessar como eu desejava, provavelmente com perrengue, mas as estradas existiam. Entendi a realidade das pessoas que me contavam as hist&#243;rias e elas entenderam a minha, at&#233; perceberem: &#8220;n&#227;o &#233; a primeira vez que voc&#234; faz esse tipo de viagem n&#233;? Est&#225; acostumada&#8221;. N&#227;o, n&#227;o era a primeira vez. </p><p>Ap&#243;s per&#237;odos de preocupa&#231;&#227;o, me lembrei que onde alguns enxergam perrengues eu vejo desafios e at&#233; gosto de enfrent&#225;-los. Me animei, lembrei que os at&#233; ent&#227;o campe&#245;es do pavor, Honduras e El Salvador, apresentaram-se totalmente diferentes do pintado pelos medos das pessoas. Recordei as habilidades j&#225; adquiridas nesses anos de estrada e fui. No &#244;nibus pro Oiapoque a sorte me abra&#231;ou e n&#227;o soltou mais. A mesma mulher que me sugeriu n&#227;o contar que eu viajava sozinha passou o contato da irm&#227;, que morava em Cayenne, meu primerio destino, e poderia me ajudar caso eu precisasse. N&#227;o precisei, tudo corria bem. No segundo dia conheci uma brasileira que ap&#243;s a trilha me deu uma carona e me levou pra conhecer o centro da cidade. Na capital da Guiana Francesa caminhei tranquilamente, ouvi m&#250;sica na praia, conheci locais.</p><p>Ao chegar em Paramaribo, a capital do Suriname, perguntei ao recepcionista: &#233; seguro caminhar por aqui? Ap&#243;s sua confirma&#231;&#227;o rodei pela cidade, sem sentir nenhum inc&#244;modo al&#233;m do natural enfrentado pelas mulheres em muitos pa&#237;ses: homens mexendo, mandando beijo, chamando de &#8220;baby&#8221;, &#8220;beautiful". N&#227;o me abordaram de perto, meu telefone esteve o tempo todo em minha m&#227;o, para fotos e localiza&#231;&#227;o, sem riscos de roubo.</p><p>Em Georgetown, capital da Guiana, fiquei um pouco mais irritada. Continuavam fisicamente distantes, mas al&#233;m do verbal havia um som com a boca, um tipo de assobio pra dentro, que me arrepiava s&#243; de ouvir. Pode ser que seja um jeito local de chamar pessoas e n&#227;o apenas mulheres, ainda assim eu queria xingar todos, mas preferi fingir que n&#227;o era comigo. No final, o lixo nas ruas me incomodou mais que homens mexendo comigo. &#192;s vezes precisamos dissociar para aproveitar algo, ter algum tipo de prazer nos lugares, conseguir falar e olhar para outros aspectos al&#233;m do de ser mulher em um mundo de homens. E eu queria ver outras coisas, mesmo que estivessem tentando chamar minha aten&#231;&#227;o. N&#227;o foram os primeiros e infelizmente n&#227;o ser&#227;o os &#250;ltimos pa&#237;ses onde isso aconteceu.</p><p>As preocupa&#231;&#245;es com a minha seguran&#231;a e as dificuldades log&#237;sticas n&#227;o me permitiram um bom planejamento at&#233; que eu chegasse em cada pa&#237;s. Por serem pequenos e com pouca estrutura as capitais s&#227;o os pontos &#243;bvios de chegada e partida e diante da minha pregui&#231;a de mudar diariamente de lugares achei que poderiam ser meus pontos de apoio e os &#250;nicos locais de hospedagem. Me esqueci que tenho gostado pouco de cidades, principalmente quentes, sujas e de pa&#237;ses e territ&#243;rios cujas &#225;reas s&#227;o tomadas por florestas - mais de 80%. Definitivamente haveria melhores op&#231;&#245;es onde ficar. E havia.</p><p>Na Guiana Francesa eram as praias de Cayenne. Montabo estava h&#225; quinze minutos da minha hospedagem e me ganhou logo de cara. Praia com mata verde, poucos estabelecimentos, boa para caminhar, deitar e assistir araras azuis e amarelas a passear pelos coqueiros. A cidade ainda tinha trilhas e parques que visitei, mas foi Montabo minha const&#226;ncia di&#225;ria durante meus dias no pa&#237;s, para ver o c&#233;u mudar de cor durante o por do sol, crian&#231;as a brincar e ouvir uma m&#250;sica no descolado Cocosoda. &#8220;J&#225; &#233; quase uma guianense&#8221;, me disse uma local ao ouvir que l&#225; estive por dias seguidos. </p><p>No Suriname o ref&#250;gio tinha nome e sobrenome. Bigi Pan. O maior lago do pa&#237;s, &#233; envolto pela Amaz&#244;nia e ber&#231;o de p&#225;ssaros. Cen&#225;rio de uma natureza estonteante, me deixou completamente agradecida por ter encontrado esse lugar sobre o qual eu nada sabia antes de pisar no pa&#237;s. Ele estava, literalmente, no meio do meu caminho, quase na fronteira com a Guiana, desci em Nickerie para uma noite no para&#237;so. Um chuva torrencial durante boa parte da tarde deixou a paisagem igualmente bonita. No intervalo, um passeio de caiaque e o deixar as gotas da chuva que recome&#231;ara, agora mais leve, me banharem. Sin&#244;nimo de felicidade pode ser amor, mas &#233; tamb&#233;m natureza. Quando voltamos do passeio de barco durante o por do sol, a ver p&#225;ssaros buscarem as &#225;rvores onde passariam a noite, a luz mais bonita do dia deixava a paisagem ainda mais bela. At&#233; as &#225;rvores que morreram porque tem sal demais na &#225;gua comp&#245;em a beleza do quadro. Sou passsarinha presa num corpo humano, olhei para os meus, a voar, brincar, buscar comida, novos ares e pouso noturno, muitas vezes em comunidade, perto dos seus. Vez em quando voam s&#243;, outros em dupla ou grupo, mas est&#227;o sempre a voar. Imaginem, uma vida a ver o Bigi Pan e a Amaz&#244;nia de cima. Se ali debaixo eu j&#225; quis chorar. Deitei sob o c&#233;u estrelado no ch&#227;o de palafitas da minha varanda e agradreci. Sorte, acaso, universo, energia, boas escolhas. N&#227;o importava. Eu estava no para&#237;so e ele tinha muitas cores e aves. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Eka_!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe7e45737-719f-4d20-b2f2-5e97079ecfe1_1456x819.webp" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Eka_!, /__u/andarilha.substack.com/w_424, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, /__u/andarilha.substack.com/q_auto:good, /__u/andarilha.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe7e45737-719f-4d20-b2f2-5e97079ecfe1_1456x819.webp 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Eka_!, /__u/andarilha.substack.com/w_848, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, 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sizes="100vw"><img src="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Eka_!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe7e45737-719f-4d20-b2f2-5e97079ecfe1_1456x819.webp" width="1456" height="819" 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N&#227;o h&#225; foto capaz de retratar esse lugar com justi&#231;a </figcaption></figure></div><p>Na Guiana eu parecia estar perdida e presa a uma reserva de tr&#234;s noites na capital Georgetown, mas uma olhada no mapa e o acerto no Suriname me mostrou que eu poderia cortar a longa viagem de 24h at&#233; a fronteira com o Brasil, passando um tempo no Iwokrama Forest, uma reserva &#224;s margens do rio Essequibo. Aceitar o custo j&#225; perdido daquela acomoda&#231;&#227;o, lembrar que sou mais feliz e menos estressada na floresta me levou a ir embora um dia antes e desembarcar no meio do trajeto, ap&#243;s 12 horas presa em uma van que tinha um passageiro a mais do que o n&#250;mero de assentos. Eu chegara na minha paz. Passei a tarde dormindo, deitada na rede, olhando o rio, os passarinhos e a floresta. Me recuperei da longa viagem e recarreguei energia para o dia seguinte, que prometia uma estrada mais esburacada e com atoleiros. Estavam certos, mas no lugar de pegar outra van apertada, apareceu uma carona com um brasileiro que vivia em Georgetown e me levou at&#233; Boa Vista, o que reduziu consideravelmente o tempo de viagem e aumentou o conforto. Fui ouvindo hist&#243;rias de vida, de garimpo, de fam&#237;lia, mal vi o tempo passar, entre as sortes e revezes de sua vida, a vida como pai de seis filhos e as declara&#231;&#245;es de amor &#224; esposa. A sorte n&#227;o me soltava.  </p><p>Duas semanas depois, os maiores perigos que corri foram o meu joelho que latejava de dor durante a viagem entre Georgetown e Iowkrama, na van apertada e uma barata que invadiu meu quarto em Paramaribo, quase andando sobre minha perna e me fazendo jogar o livro pra cima. Provavelmente dormiu comigo, pois n&#227;o consegui mat&#225;-la. N&#227;o busco dizer que s&#243; porque tudo correu bem comigo, &#233; sinal de que perigos s&#227;o inexistentes nesses locais, mas sim que as  pessoas exageram e geralmente trazem o lado ruim. Tentaram me avisar sobre muitas coisas, mas se esqueceram de me avisar a cerca das belezas naturais, dos pa&#237;ses tomados por florestas, do absurdo que &#233; pa&#237;ses com tanta &#225;rea verde, que poderiam ser guardi&#245;es da floresta, n&#227;o se beneficiarem economicamente disso, mas serem pobres, terem o garimpo como atividade relevante e estarem comemorando a descobertas de petr&#243;leo como forma de enriquecerem. Ningu&#233;m falou da incoer&#234;ncia misturada com tristeza que &#233; a natureza abundante e o volume de pl&#225;sticos e lixo nas ruas, da corrup&#231;&#227;o e do ouro. N&#227;o me alertaram sobre como estavam esses pequenos pa&#237;ses explorados por tanto tempo, ou discutiu o que as coloniza&#231;&#245;es europ&#233;ias fizeram com essas terras e seus povos. Os que aqui viviam praticamente dizimados, os que foram trazidos &#224; for&#231;a ou que vieram tentar a vida, navegando &#225;guas e costumes t&#227;o distantes.</p><p>As tr&#234;s Guianas pouco se parecem com o Brasil ou outros pa&#237;ses da Am&#233;rica Latina, com os quais dividem a posse da floresta Amaz&#244;nia. No geral, o povo me pareceu menos festivo e menos miscigenado, apesar das muitas etnias. A sensa&#231;&#227;o &#233; de que vivem separados, cada um no seu grupo, sem uma identidade de pa&#237;s. Meu palpite &#233; que o fato de ainda receberem tantos europeus (no caso da Guiana Francesa s&#227;o parte da Fran&#231;a), e da alta taxa de imigra&#231;&#227;o, de povos t&#227;o distintos, os deixou sem um esp&#237;rito nacional.</p><p>Mas passei quinze dias ali e obviamente falo de opini&#245;es e sensa&#231;&#245;es, n&#227;o tenho a pretens&#227;o de escrever uma tese de doutorado sobre o tema, apenas apresentar uma vis&#227;o recente e menos enviesada, mais ampla. Durante o meu &#250;ltimo trajeto, j&#225; em dire&#231;&#227;o &#224; fronteira com o Brasil, o homem me perguntou como os meus pais lidavam com o meu estilo de vida e disse que se uma das filhas dele inventasse isso ele lhe daria um pau, porque era perigoso. Onde est&#225; o perigo? Perguntei? Ele come&#231;oou a listar os de sempre, me olhando como prova viva de que tamb&#233;m h&#225; a grande (e maior) chance de tudo correr bem. No final me disse: &#8220;a Guiana Francesa &#233; perigosa. Voc&#234; passou por l&#225;&#8221;. Voc&#234; j&#225; foi? Perguntei. &#8220;N&#227;o&#8221;, me respondeu.</p><p>Eu fui. Sozinha atravessei quatro fronteiras e voltei ao Brasil. Segura. E lembrando de muito do que aprendi nos &#250;ltimos anos: confiar em mim, na vida, no que eu j&#225; sei, ir ver de perto, voltar pra natureza.<br></p><div><hr></div><h4>A rec&#237;proca &#233; verdadeira</h4><p>Se no Brasil sabemos pouco sobre as Guianas, l&#225; tamb&#233;m sabem pouco de n&#243;s. Desde que entrei no barco em Bel&#233;m, "virei" francesa. Desacostumados com a fisionomia sudestina - seja l&#225; o que isso signifique, pessoas se assustavam com minha identidade inteiramente brasileira mineira, e um sotaque cujo R franc&#234;s n&#227;o aparecia. Eu garantia meu passaporte 100% Brasil e difundia minha teoria de que qualquer pessoa no mundo pode a brasileira. Voc&#234;. Ele. Ela. Voc&#234;. Um garoto no Suriname me disse: tenho dificuldade em acreditar que no Brasil existam pessoas com a cor da minha pele. Ele era negro. </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Pará e seu espetáculo marajoara]]></title><description><![CDATA[cap&#237;tulo 2 de uma jornada pelo Brasil]]></description><link>https://andarilha.substack.com/p/para-e-seu-espetaculo-marajoara</link><guid isPermaLink="false">https://andarilha.substack.com/p/para-e-seu-espetaculo-marajoara</guid><dc:creator><![CDATA[andarilha]]></dc:creator><pubDate>Thu, 07 Aug 2025 14:00:44 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!6ovv!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fff9ec7d3-92e6-4a13-96c7-c8a08389bd87_4032x3024.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Antes da pe&#231;a, eu pouco sabia. A olhar de longe, mapas e fotos, tudo parecia compreens&#237;vel, f&#225;cil, perto. Guardei palavras soltas: b&#250;falos, rios, barco. Pensei que atravessaria a ilha de Maraj&#243;, no norte do Par&#225;, parando em v&#225;rias cidades, at&#233; chegar de frente pra Macap&#225;, no estado vizinho. Na realidade fiquei presa em Soure, por vontade e restri&#231;&#245;es log&#237;sticas. Mesmo quando decidi e consegui passagem pra ir embora, uma for&#231;a maior me fez ficar e, pela primeira vez na vida, tirei minha mochila de dentro do &#244;nibus, j&#225; embarcado na balsa e voltei. Minha cena naquela terra ainda n&#227;o tinha acabado. </p><p>No ensaio, que come&#231;ou quando pisei em Bel&#233;m, capital do estado, a pe&#231;a j&#225; se apresentava. Tu comprastes sua passagem da lancha? N&#227;o? Chegue cedo. Elas acabam. A lancha sai &#224;s 8h pra Soure? Chegue no terminal hidrovi&#225;rio &#224;s 6. Na tarde anterior, um setlist na feira de domingo da pra&#231;a da Rep&#250;blica colocava as pessoas para dan&#231;ar ao som de samba, brega e carimb&#243;, independentemente das circunst&#226;ncias. Em frente ao imponente Teatro da Paz, cal&#231;adas com patins, debaixo de um sol escaldante ou da chuva que se iniciou, as pessoas mexiam o corpo. Ali olhei pro nome diferente da comida e perguntei o que era mani&#231;oba. Tipo uma feijoada, mas sem feij&#227;o, foi a resposta. Experimenta. Ao ver aquele comida estranha e feia aos meus olhos, levei a colher at&#233; minha boca j&#225; pensando em como explicar ao cozinheiro e dono da barraca que eu n&#227;o gostara daquilo. N&#227;o deu tempo, nem foi preciso. Mo&#231;o do c&#233;u, que coisa boa! Me d&#225; logo um prato, foi minha resposta. No outro dia, entrei no barco pra ilha. A pe&#231;a marajoara se iniciava. </p><p>No primeiro ato, pedimos licen&#231;a. Assim que a lancha atraca no porto de Soure a energia da floresta toma conta, se tu deixas. Licen&#231;a, m&#227;e, aprendi na primeira hora. Terra de encantaria, tem que pedir licen&#231;a. Pra entrar na floresta, no rio, no igarap&#233;. N&#227;o disseram como chamar, s&#243; pra respeitar. A dona era ela. Na cabeceira, no canto de Iara, as cren&#231;as convivem junto com os caruanas, seres encantados que os locais acreditam tomar conta da floresta. Decidi chamar de m&#227;e. &#201; mesmo a m&#227;e natureza. Essa for&#231;a, capaz de me ajudar a respirar, fornecer sombra, oxig&#234;nio, &#225;gua e comida. Inexplicavelmente &#233; mat&#233;ria-prima pra uma energia que n&#227;o consigo ver. Cura qualquer mau humor e melancolia. </p><p>No segundo ato, contemplamos, na menor invas&#227;o poss&#237;vel. Seu Manoel tira os peixes da rede, de acordo com o n&#237;vel do rio e do mar. Com suas redes instaladas na praia, ele sabe o que fazer, ele &#233; filho de mar&#233;, ele &#233; marajoara. A mar&#233; transforma tanto a paisagem que em poucas horas temos a sensa&#231;&#227;o de termos mudado de praia, mas foi a &#225;gua que subiu, cobrindo a faixa de areia e as &#225;rvores. A lua &#233; a respons&#225;vel, mesmo que olhos n&#227;o enxerguem a m&#225;gica acontecendo, todo mundo ali sabe: &#8220;quem manda no Maraj&#243; &#233; a mar&#233;, quem manda na mar&#233; &#233; a lua&#8221;. No Igarap&#233; Mata Fome o rio afunila, os pasarinhos cantam, o mar, que tamb&#233;m &#233; rio, se faz ouvir, logo detr&#225;s do mangue e das &#225;rvores que guardam o turu, um molusco que vira comida e m&#250;sica. O rio Paracauari banha Soure e guarda seus segredos. Dizem que um toco a passar, indo contra a correnteza, &#233; sinal que algu&#233;m morrer&#225; afogado. &#8220;Tenham cuidado com o rio se algu&#233;m avistar o toco, j&#225; aconteceu muitas vezes de o sinal estar correto&#8221;, as pessoas da ilha avisam. No caminho pra praia de Caju-Una, b&#250;falos nadam em lagos que ainda n&#227;o secaram por completo, as &#225;rvores parecem podadas, mas s&#227;o naturais. O verde da floresta contrasta com o vermelho dos guar&#225;s, o branco das gaivotas e o preto dos urubus, que s&#227;o presen&#231;a constante e falam de vida, n&#227;o de morte. O vento alivia o sol quente, o pedalar nos ajuda a chegar. Se caminhando tudo &#233; longe, de bicicleta qualquer lugar parece ser alcan&#231;ado em 5 minutos. At&#233; o lago do pedral, que fica a 8kms do centro. Ali, na hora certa, o sol bate na &#225;gua esverdeada formando pontinhos brilhantes, a &#225;gua tem a temperatura perfeita e se as pedras machucam um pouco os p&#233;s antes de mergulhar, dentro d&#8217;&#225;gua &#233; uma lama grossa que nos recebe. Ficar na &#225;gua at&#233; os dedos enrugarem, descansar embaixo da sombra da &#225;rvore mais bonita da cidade, que parece ter sido desenhada. O ato da contempla&#231;&#227;o. Estar, sem interferir, sem protagonizar, deixar que a natureza ocupe o seu lugar. Lembrar que ela tem todas as respostas. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!6ovv!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fff9ec7d3-92e6-4a13-96c7-c8a08389bd87_4032x3024.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!6ovv!, /__u/andarilha.substack.com/w_424, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, /__u/andarilha.substack.com/q_auto:good, /__u/andarilha.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fff9ec7d3-92e6-4a13-96c7-c8a08389bd87_4032x3024.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!6ovv!, /__u/andarilha.substack.com/w_848, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, 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Dan&#231;amos. Descal&#231;os, p&#233;s rodopiam pelo sal&#227;o, corpos se inclinam, m&#227;os levantam as saias, formando um espet&#225;culo enquanto as mulheres giram. As m&#227;os na cintura, o corpo suado, o som do flauta que se inicia alguns segundos ap&#243;s o tambor e o vibrado do marac&#225;. O sal&#227;o lotado, adultos, crian&#231;as, senhoras e senhores de todas as idades, uma dan&#231;a democr&#225;tica. Forasteiras, como eu, pegam as saias emprestadas, enquanto marajoaras nos ensinam a dan&#231;ar. A saia traz poder e coragem, qui&#231;&#225; at&#233; equil&#237;brio no girar. Quando o boi chega no sal&#227;o para bumbar, descubro quem em Soure ele &#233; um b&#250;falo, s&#237;mbolo orgulhoso da cidade. Na terra do Carimb&#243;, n&#227;o importa a noite da semana, haver&#225; um sal&#227;o onde girar e pessoas com quem dan&#231;ar. Comunidade, natureza, respeito, a cidade parece seguir um script pra pe&#231;a da qualidade de vida, mas &#233; tudo natural. Fui embora aplaudindo. Viva a cidade de Soure e a ilha do Maraj&#243;, um espet&#225;culo paraense no norte do nosso Brasil. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!oAWT!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8b738dd1-c219-4e81-b916-90b9892cb722_1280x720.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!oAWT!, /__u/andarilha.substack.com/w_424, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, /__u/andarilha.substack.com/q_auto:good, /__u/andarilha.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8b738dd1-c219-4e81-b916-90b9892cb722_1280x720.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!oAWT!, /__u/andarilha.substack.com/w_848, 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coment&#225;rio&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/andarilha.substack.com/p/para-e-seu-espetaculo-marajoara/comments"><span>Deixe um coment&#225;rio</span></a></p><div><hr></div><h4>Um pouco de geografia:</h4><p>A ilha de Maraj&#243; &#233; a maior ilha fluviomar&#237;tima (banha por mar e rio) do mundo. Na real, no per&#237;odo em que estive, julho, nem dava pra sentir o mar. A for&#231;a do rio &#233; tanta que ele tomava conta e a &#225;gua nem ficava salobra.</p><p>A ilha &#233; composta por 16 munic&#237;pios, com situa&#231;&#245;es econ&#244;micas muito diferentes. Para dar alguns exemplos: Soure &#233; considerada a parte rica da ilha, Melga&#231;o &#233; a cidade com menor IDH (&#237;ndice de desenvolvimento humano) do Brasil e Afu&#225; &#233; uma charmosa cidade, de frente ao estado do Amap&#225;, constru&#237;da sobre palafitas, com casas e pra&#231;as coloridas, onde o &#250;nico meio de locomo&#231;&#227;o s&#227;o bicicletas. Nada de carros ou motos.</p><p>Apesar da proximidade entre as cidades da ilha, os desafios log&#237;sticos s&#227;o grandes. Quase n&#227;o h&#225; estradas por dentro de Maraj&#243;, nem embarca&#231;&#245;es ligando diretamente as cidades. Bel&#233;m e Macap&#225; concentram a maioria da rotas, que na maioria das vezes n&#227;o s&#227;o di&#225;rias e &#233; comum precisarmos ir para alguma dessas capitais para depois seguirmos em dire&#231;&#227;o a outra cidade marajoara.</p><p></p><p></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O Maranhão é um país inteiro]]></title><description><![CDATA[cap&#237;tulo um da minha rota pelo Brasil]]></description><link>https://andarilha.substack.com/p/o-maranhao-e-um-pais-inteiro</link><guid isPermaLink="false">https://andarilha.substack.com/p/o-maranhao-e-um-pais-inteiro</guid><dc:creator><![CDATA[andarilha]]></dc:creator><pubDate>Thu, 24 Jul 2025 19:00:41 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!h9yX!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9dc1fc3a-3aff-4867-95c2-f0d3dadbe719_4032x3024.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Quando Catirina estava gr&#225;vida, desejou comer l&#237;ngua de boi, mas n&#227;o de qualquer boi, do boi mais estimado pelo senhor que os escravizava. Pai Francisco, seu marido, estava numa encruzilhada: matar o boizinho ou arriscar ver seu filho chegar ao mundo com cara de boi? Acabou arrancando a l&#237;ngua do querido boi. Catirina saciou-se e enquanto o boizinho desfalecia eles tiveram medo do que viria e procuraram ajuda para, quem sabe, salvar a vida do animal. Fizeram de tudo com os conhecimentos que possuiam, mas o boizinho continuava a desfalecer. Como &#250;ltima alernativa, recorreram aos ind&#237;genas da regi&#227;o, num ritual de pajel&#226;ncia. Sinos, fogueira e pandeiros davam o tom da roda, chegou Cazumba, o mascarado, pra espantar a morte, que tem medo de cara feia. Entre matracas e cantoria, o boi se remexe, ainda cambaleante se levanta, renasce bumbando, mais vivo que nunca. Dan&#231;ando a vida, vira o Bumba meu boi. A festa que tomou o norte do pa&#237;s, nasceu de uma lenda do Maranh&#227;o. </p><p>Nos dias de S&#227;o Pedro e S&#227;o Mar&#231;al devotos lotam uma igreja cat&#243;lica de S&#227;o Luis, alguns sobem a imensa escadaria de joelhos, a pagarem suas promessas, bebem e cantam, a celebrar o boi e os santos, sincretizados na f&#233;. O Maranh&#227;o, feito de negros, ind&#237;genas, nativos e euroupeus, pegou influ&#234;ncias de todos esses povos e criou sua cultura, como quem diz: me d&#225; aqui, posso at&#233; aceitar, mas farei do meu jeito. Uma maravilha, cheia de encantaria e cores, que explode nos meses de junho e julho, durante o S&#227;o Jo&#227;o.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!h9yX!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9dc1fc3a-3aff-4867-95c2-f0d3dadbe719_4032x3024.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!h9yX!, /__u/andarilha.substack.com/w_424, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, /__u/andarilha.substack.com/q_auto:good, /__u/andarilha.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9dc1fc3a-3aff-4867-95c2-f0d3dadbe719_4032x3024.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!h9yX!, /__u/andarilha.substack.com/w_848, 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Uma mulher gr&#225;vida dan&#231;a ao lado de um homem com um fac&#227;o e mascarados tocam sinos. A fogueira homenagea os santos e aquece o couro dos pandeiros. Em outra esquina, homens batucam os tambores para o Tambor de Crioula, enquanto mulheres dan&#231;am descal&#231;as, com suas saias floridas e colares. Dizem que S&#227;o Benedito todos os dias deixava o convento carregando comida para os pobres, burlando as regras da igreja. No dia em que um superior tentou conferir o que tinha no cesto a comida transformou-se em flores, como no milagre de Jesus, que transformou &#225;gua em vinho. &#201; por isso que o santo passa de m&#227;o em m&#227;o durante a dan&#231;a e as saias s&#227;o floridas.</p><p>Pelas ruas de pedra do centro hist&#243;rico o cacuri&#225; celebra o Divido Esp&#237;rito Santo e a dan&#231;a Portuguesa &#233; bailada por lindos negros e negras, com cabelos afros e dreads, em suas roupas brilhantes e pesadas, apesar do sol a pino, como se a mandar um foda-se para o colonizador escravocrata. O pa&#237;s agora &#233; nosso. No fim da noite, em uma escadaria qualquer, em frente a sobrados com fachadas de azulejos franceses ou portugueses, radiolas soltam o reggae, m&#250;sicas s&#227;o chamadas de pedradas de respeito, pois antigamente era t&#227;o dif&#237;cil obter os vinis que eles eram como pedras preciosas. O maranhense dan&#231;a o reggae agarradinho, l&#225; tudo ganha a sua forma pr&#243;pria. O Maranh&#227;o &#233; &#250;nico, generoso, africano, ind&#237;gena, europeu, caribenho. Brasileiro.   </p><p>Capital nacional do reggae, por ter incorporado o ritmo ao seu cotidiano, Athenas brasileira, por ter sido ber&#231;o de v&#225;rios intelectuais, Ilha do amor, talvez por &#8220;meu amor" ser vocativo por ali. &#201; como Z&#233; Luis responde ao amigo que o invoca: &#8220;oi, meu amor&#8221;, escancarando um sorriso na sua boca com apenas um dente. &#201; como o mo&#231;o pra quem pe&#231;o informa&#231;&#227;o me diz: &#8220;vai por aqui, meu amor. Se meu amor for por ali tamb&#233;m d&#225; certo, mas acho mais arriscado.&#8220; Pode ser por isso, ou poque a ilha arrebata cora&#231;&#245;es, como o meu.  </p><p>Barcos pesqueiros navegam diante dos nossos olhos e a pesca ainda pode ser artesanal. O que vem do mar vira comida e subsist&#234;ncia. Bem pr&#243;xima &#224; linha do Equador, a mar&#233; tem uma aplitude maior que no sul do pa&#237;s e rege os hor&#225;rios das embarca&#231;&#245;es, a lembrar quem manda, ensinar o povo a n&#227;o ter rotina. Se numa semana o barco sai &#224;s 16h, na outra pode sair &#224;s 13. Assim como atravessamos um peda&#231;o do oceano pra ir de S&#227;o Luis para Alc&#226;ntara, o Maranh&#227;o nos atravessa, se deixamos. Nos transforma, se estamos atentas.</p><p>Em tempos de pouca diversidade, Jesus como o &#250;nico salvador e o Brasil tomado por uma religi&#227;o que muito pro&#237;be e pouco tolera, o Maranh&#227;o abre espa&#231;o pra tudo, ensina respeito e toler&#226;ncia em cada uma de suas esquinas, a dan&#231;ar num ritmo diferente. Recorda o significado de sincretismo: &#233; MISTURA, com letra maiuscula,  que Zeca Pagodinho j&#225; cantava, na igreja e no terreiro, mas s&#243; reconheci aqui. </p><p>&#8220;Sincretizado na f&#233;<br>Sou carregado de ax&#233;<br>E protegido por um cavaleiro nobre</p><p>Sim, vou na igreja festejar meu protetor (&#8230;)<br>Sim, vou no terreiro pra bater o meu tambor&#8221;</p><p>Uma f&#233; ampla, uma cidade diversa, onde cabe todo mundo, cada um do seu jeito. Seu amor a Jesus n&#227;o precisa ter medo de outras devo&#231;&#245;es. Deixe o &#8220;ide e pregai o evangelho&#8221; de lado, concentre-se no &#8220;ame ao pr&#243;ximo como a ti mesmo". O Maranh&#227;o ensina, em cada beco da sua capital, a beleza e a for&#231;a de um povo que se orgulha da sua cultura rica, misturada, constru&#237;da, com adultos e crian&#231;as a representa-la, cada um a celebrar da forma que escolher, com dan&#231;a e festa.  </p><p>Eu sei que o estado n&#227;o se resume a S&#227;o Lu&#237;s e que ao adentrar o interior, no caminho para Bel&#233;m, na entrada da cidade de Z&#233; Doca havia um letreiro imenso, dizendo: &#8220;Z&#233; Doca &#233; do Senhor Jesus&#8221;, com uma mensagem bem clara sobre poder e propriedade, contrariando tudo o que escrevi acima, mas me deixem sonhar. Passar dias de S&#227;o Jo&#227;o na capital do estado me encheu de esperan&#231;a, ao ver um povo que sabe e deseja conviver, respeita e entende que o diferente n&#227;o o ataca, pelo contr&#225;rio, torna o mundo mais encantado.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!KPdB!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F36fccf5b-c9da-4df9-a105-74ab95298e09_2268x2165.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!KPdB!, /__u/andarilha.substack.com/w_424, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, /__u/andarilha.substack.com/q_auto:good, 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No &#250;nico deserto com &#225;gua do mundo, dunas abrem espa&#231;o pra lagoas, com peixinhos e aguap&#233;s, &#225;gua cristalina e quentinha. Todo ano secam e enchem, no espet&#225;culo dos ciclos da natureza, que s&#243; n&#227;o est&#225; em nenhuma lista das maravilhas naturais do mundo, porque provavelmente os jurados dormiam. Fazer a travesia a p&#233;, caminhando por quadro dias sobre as dunas, assistindo cores mudarem ao longo do dia, testemunhadas pelo c&#233;u,  lua, sol e n&#243;s, pequenos humanos, min&#250;sculos, dentro dessa morada, &#233; puls&#227;o de vida. Se eu fechar os olhos posso sentir o vento passar pela minha pele e cabelos, a areia sob os meus p&#233;s e a casca deles endurecendo pelo caminhar descal&#231;a. Um pouco mais e entro na lagoa, banhando, atravesso o rio, at&#233; chegar no red&#225;rio onde vamos dormir. Meu sonho de futuro feliz &#233; ainda fazer essa travessia muitas outras vezes na vida. Duas n&#227;o bastaram. </p><p>Se pegar o trem da Vale, em S&#227;o Luis, e saltar em Imperatriz, antes do ponto final, em Paraupebas, no Par&#225;, estar&#225; pertinho de Carolina, a cidade maranhense que &#233; ponto de entrada para a Chapada das Mesas, ber&#231;o de cachoeiras e po&#231;os azulados e esverdeados. Na cachoeira do Santu&#225;rio, uma queda d'&#225;gua potente e bem escondida, quase dentro de uma caverna, andorinhas sobrevoam nossas cabe&#231;as, chegamos nadando e precisamos nos segurar em cordas para ficar ali sem sermos levadas pel for&#231;a d'&#225;gua.  H&#225; quatro anos, quando l&#225; estive, senti a natureza me carregar no colo. </p><p>O Maranh&#227;o &#233; um pa&#237;s inteiro, meu amor. Gentil, se deixa ser parte do Brasil.</p><p></p><div class="captioned-button-wrap" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://andarilha.substack.com/p/o-maranhao-e-um-pais-inteiro?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Compartilhar&quot;}" data-component-name="CaptionedButtonToDOM"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigada por ler Andarilha! Se voc&#234; gostou, compartilhe esse post. &#201; um bonito presente para quem escreve.</p></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://andarilha.substack.com/p/o-maranhao-e-um-pais-inteiro?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Compartilhar&quot;}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/andarilha.substack.com/p/o-maranhao-e-um-pais-inteiro?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Compartilhar</span></a></p></div><p></p><p></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O que é que eu vou fazer com essa tal liberdade]]></title><description><![CDATA[Como a Pangeia foi se separando h&#225; milh&#245;es de anos, sinto partes minhas espalhadas pelo mundo.]]></description><link>https://andarilha.substack.com/p/o-que-e-que-eu-vou-fazer-com-essa</link><guid isPermaLink="false">https://andarilha.substack.com/p/o-que-e-que-eu-vou-fazer-com-essa</guid><pubDate>Wed, 09 Jul 2025 12:31:28 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!o57J!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff423c6af-c5da-4337-81f3-62a864b7bef5_1563x964.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Como a Pangeia foi se separando h&#225; milh&#245;es de anos, sinto partes minhas espalhadas pelo mundo. Algumas que costumavam ser pr&#243;ximas, conectadas, est&#227;o distantes e a rota dispon&#237;vel para acess&#225;-las tornou-se consideravelmente mais longa. Talvez eu nunca queira voltar l&#225;, saber que existem me basta. Cresci, surgiram novos territ&#243;rios, assim como os oceanos ganharam espa&#231;o quando os continentes se desintegraram. Atravessei tantos mares e montanhas que me pergunto se conseguirei deixar-me parada em terra firme. A mem&#243;ria me lembra que j&#225; consegui tanta coisa que julgava ser incapaz. A d&#250;vida passa a ser sobre querer. Quererei eu parar de me mover?</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!o57J!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff423c6af-c5da-4337-81f3-62a864b7bef5_1563x964.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!o57J!, /__u/andarilha.substack.com/w_424, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, /__u/andarilha.substack.com/q_auto:good, /__u/andarilha.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff423c6af-c5da-4337-81f3-62a864b7bef5_1563x964.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!o57J!, /__u/andarilha.substack.com/w_848, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, 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psicanalista Contardo Calligaris, algu&#233;m que viajou o mundo e sentia na alma o peso da senten&#231;a. Eu tamb&#233;m sinto. Esse mesmo Contardo sintetizou o que eu j&#225; aceitara antes de saber quem ele era: &#8220;n&#227;o h&#225; escolhas sem perdas&#8221; e viajou, apesar da ang&#250;stia de se ver dividido, pertencente a v&#225;rios lugares, amando pessoas espalhadas pelo mundo, sentindo saudades constantes. Ironicamente s&#243; um viajante poderia reconhecer essa divis&#227;o. Talvez, se viajar fosse proibido, sua vida teria sido mais f&#225;cil. A minha tamb&#233;m. Talvez, se n&#227;o vislumbr&#225;ssemos essa possibilidade, estar&#237;amos inteiros em casa, por&#233;m menores, certamente menos belos. </p><p>Fa&#231;o planos de morar no Rio de Janeiro, penso em come&#231;ar um mestrado, at&#233; mesmo outra faculdade, tenho ideias para dezenas de projetos. No mesmo dia pesquiso passagens s&#243; de ida para uma pr&#243;xima temporada na estrada. Penso: ano que vem eu paro, assim como nos dois &#250;ltimos anos pensei que pararia no pr&#243;ximo. Olho o mapa, a lista dos mais de 80 pa&#237;ses que ainda quero conhecer, uma lista que aumenta numa propor&#231;&#227;o maior do que pa&#237;ses s&#227;o riscados. Lembro das pessoas que quero rever, dos lugares onde quero voltar. Desconfio estar viciada em adrenalina e presa na armadilha de quem se v&#234; muito livre mas acorrentada ao movimento. No fim, n&#227;o h&#225; vida sem pris&#227;o. Privil&#233;gio &#233; poder escolher onde me encarcerar.</p><p>O pre&#231;o da liberdade &#233; estar dividida. A recompensa, estar inteira em qualquer lugar. Maya Angelou, uma artista estadunidense e mulher do mundo, que na d&#233;cada de 60 j&#225; perambulava por a&#237;, certa vez disse: &#8220;voc&#234; s&#243; &#233; verdadeiramente livre quando sente n&#227;o pertencer a nenhum lugar, mas a todos os lugares.&#8221; Finalmente a entendo. Liberdade &#233; ser inteira, mesmo dividida, em qualquer lugar do mundo. &#201; o que me faz sofrer nas despedidas, provavelmente o que Contardo chamou de n&#227;o sarar. &#201; como me sinto agora, ap&#243;s seis meses no sudeste do Brasil, o lugar onde mais tempo passei, durante meus quarenta anos de exist&#234;ncia. Preparo-me para a partida, dividida, mas certa do movimento. A minha liberdade consiste em ir, sabendo pra onde e pra quem voltar, no plural. N&#227;o &#8220;estou na solid&#227;o, pensando em voc&#234;&#8221;. A menos que o voc&#234; dessa frase sejam amizades, pa&#237;ses e cidades do mundo.</p><p>N&#227;o troquei minha vida por uma ilus&#227;o, troquei por mim mesma. E sinto que &#8220;n&#227;o &#233; assim que acaba uma grande paix&#227;o&#8221;. Ainda n&#227;o. O problema (ou a solu&#231;&#227;o) de pertencer a qualquer lugar, &#233; pensarmos ser imbat&#237;veis. Confio no meu super poder de me fazer chegar onde quiser, me virar em qualquer situa&#231;&#227;o, olhar com carinho pra quem nem conhe&#231;o, ver beleza no incomum, encontrar minha turma, ser alegre, gargalhar. A partir do momento em que larguei tudo, sinto poder viver v&#225;rias vidas em uma, me reinventar. Por enquanto as escolhas dizem por si s&#243;.</p><p>H&#225; duas semanas, no mesmo dia em que tirei carteira de moto pedi minha v&#243; para me ensinar a pregar um bot&#227;o. Um resumo da minha personalidade, que aos quarenta anos sabe pilotar uma moto, mas n&#227;o sabe pregar um bot&#227;o. Motos pedem estrada, bot&#245;es pedem casa. N&#227;o aprendi a prega-los, mas a carteira de habilita&#231;&#227;o chegou. Liberdade est&#225; no topo da minha lista de valores e pauta a maioria das minhas decis&#245;es. Um dia provavelmente ser&#225; substitu&#237;da, por enquanto estou algu&#233;m que prefere voltar pra estrada a decidir onde viver, que tem energia para montar roteiros e comprar passagens, mas n&#227;o para escolher uma casa, fixar-se em uma cidade, come&#231;ar um projeto em tempo integral. Confio no sexto sentido, &#233; minha intui&#231;&#227;o que ao final me diz &#8220;o que &#233; que vou fazer com essa tal liberdade&#8221;. Ligo o som, cantarolo, &#8220;n&#227;o sei se fico aqui, ou mudo de cidade, sinceramente, amor, n&#227;o sei o que fazer&#8221;, mas no fundo eu sei. E principalmente sei que &#8220;n&#227;o troco a liberdade&#8221; por nada n&#227;o. Contardo estava meio certo, a divis&#227;o n&#227;o sara nunca, mas viajantes se reconstro&#233;m a cada destino, se reencontram, permanecem inteiras. No meu caso, pra saber: &#8220;sou do mundo, sou Minas Gerais.&#8221;</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!uVhm!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F38fe7bf2-74f4-4906-8ba6-d8d71cbf2a23_1200x1424.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!uVhm!, /__u/andarilha.substack.com/w_424, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, /__u/andarilha.substack.com/q_auto:good, /__u/andarilha.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F38fe7bf2-74f4-4906-8ba6-d8d71cbf2a23_1200x1424.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!uVhm!, /__u/andarilha.substack.com/w_848, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, 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Se tudo der certo, nos pr&#243;ximos meses revisitarei lugares onde amei estar e pisarei nos tr&#234;s &#250;ltimos estados do Brasil que me faltam conhecer. Ser&#227;o novos peda&#231;os da cultura de um Brasil de dimens&#245;es e diversidade continentais. Espero contar mais por aqui.</p><div><hr></div><h3>Pra viajar sem pegar a estrada: </h3><p>A <a href="https://revistatrip.uol.com.br/trip/contardo-calligaris">entrevista de Contardo Calligaris</a>.</p><p>A <a href="https://youtu.be/zr7Sxv9RSdM?si=G63Fx2GUu95V1luO">entrevista da Maya </a>Angelou.</p><p>Voc&#234; <a href="https://open.spotify.com/track/3EjxAbEOH28icEK1ZFOUSh?si=w5y_LbexSEW1PE_03rVcnQ">j&#225; ouviu S&#243; pra Contrariar</a> hoje?</p><p>E <a href="https://open.spotify.com/track/4Hr5VM6DtRAy8eD3bqNb0o?si=6Y1nXqIoSeij0S7CIBojGg">Milton, j&#225; ouviu</a>?</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Quando a morte chegar, me encontrará vivendo ]]></title><description><![CDATA[bal&#245;es, trillhas e vulc&#245;es]]></description><link>https://andarilha.substack.com/p/quando-a-morte-chegar-me-encontrara</link><guid isPermaLink="false">https://andarilha.substack.com/p/quando-a-morte-chegar-me-encontrara</guid><dc:creator><![CDATA[andarilha]]></dc:creator><pubDate>Fri, 27 Jun 2025 20:14:20 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!VPir!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F38f21fed-a414-40b1-99a7-8c6ef9dce7fa_1077x807.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Muito j&#225; foi falado sobre as trag&#233;dias dos &#250;ltimos dias, principalmente sobre a queda da Juliana Marins, enquanto fazia uma trilha no vulc&#227;o Rinjani, na Indon&#233;sia, e ap&#243;s quatro dias foi resgata sem vida. Devido &#224; semelhan&#231;a em nosso modo de viver passei a semana recebendo mensagens. Em tons de reprova&#231;&#227;o, aviso, cr&#237;tica, admira&#231;&#227;o ou consolo, os textos chegavam. As pessoas estavam certas, o caso me abalou muito. Quando uma viajante solo morre, todas morremos um pouquinho.</p><p>Sou uma mulher que viaja sozinha, se interessa por novas culturas e por estar perto da natureza, o que significa subir montanhas, nadar em rios, explorar florestas e vulc&#245;es (na maioria das vezes inativos). Por mais que a maioria das coisas que fa&#231;o serem estatisticamente menos perigosas do que atravessar a rua, ou como bem lembrou um amigo, morrer de dengue no Brasil, s&#227;o elas que assustam as pessoas ao meu redor. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!TmgD!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2462cfe8-5d12-4a66-81ac-ea57f61fdcc4_1080x401.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!TmgD!, /__u/andarilha.substack.com/w_424, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, /__u/andarilha.substack.com/q_auto:good, 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Alguns meses antes da minha viagem brasileiros feriram-se em um bal&#227;o que caiu ali. Entendi como uma fatalidade. Por dia, entre 100 e 150 bal&#245;es levantam voo, cada um carregando cerca de 15 pessoas e eu s&#243; ouvira falar daquele acidente. A estat&#237;stica estava a favor da vida, da experi&#234;ncia. Al&#233;m disso, durante dois dias em que estive l&#225; acordei de madrugada, na expectativa de voar e n&#227;o voamos, pois as condi&#231;&#245;es clim&#225;ticas n&#227;o permitiam. Apesar da frustra&#231;&#227;o entendi que as medidas de seguran&#231;a estavam sendo aplicadas e me senti ainda mais segura. Consegui voar na minha terceira e &#250;ltima noite, ap&#243;s uma manobra e exce&#231;&#227;o da empresa, que nos levou diretamente para o aeroporto ap&#243;s o fim da experi&#234;ncia. Al&#233;m da barriga gelada, o sorriso no rosto, revezando com a boca aberta em deslumbramento, diante de mim havia centenas de bal&#245;es coloridos, sobre uma relevo diferente de tudo o que eu j&#225; vira e n&#227;o, n&#227;o me bastaria v&#234;-lo em fotografias.   </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!VPir!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F38f21fed-a414-40b1-99a7-8c6ef9dce7fa_1077x807.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!VPir!, /__u/andarilha.substack.com/w_424, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, /__u/andarilha.substack.com/q_auto:good, 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As pessoas do meu instagram ficaram enlouquecidas. Minha m&#227;e diz que andava pela rua e pessoas da nossa cidade olhavam para ela com pena, perguntando se ela era a mulher cuja filha caminhava por vulc&#245;es. (Acho que tem um certo exagero materno a&#237;, mas estou reproduzindo a hist&#243;ria). Enquanto isso h&#225; milhares de pessoas morando nesses lugares, aos p&#233;s dos vulc&#245;es, o que n&#227;o &#233; naturalizado para n&#243;s, brasileiros, que vivemos distantes do cintur&#227;o de fogo. Essas pessoas n&#227;o pensam em sair de onde nasceram por estarem perto de vulc&#245;es.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!IG0V!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F53995b50-9eab-4595-aae2-4a885beece71_1067x587.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!IG0V!, /__u/andarilha.substack.com/w_424, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, /__u/andarilha.substack.com/q_auto:good, /__u/andarilha.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F53995b50-9eab-4595-aae2-4a885beece71_1067x587.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!IG0V!, /__u/andarilha.substack.com/w_848, 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corta a R&#250;ssia de leste a oeste, partindo de Moscou. Tinha esperan&#231;as que at&#233; minha partida o conflito com Ucr&#226;nia j&#225; teria terminado, mas n&#227;o. Pela proximidade com o conflito n&#227;o senti seguran&#231;a para seguir o plano e com pesar eliminei a R&#250;ssia do meu roteiro. Meses depois percebi que o leste daquele imenso pa&#237;s era bem pr&#243;ximo da C&#243;reia do Sul, onde eu estaria em pouco tempo. Encontrei um navio que fazia o trajeto e achei que visitar aquele trecho n&#227;o seria t&#227;o arriscado. Desembarquei em Vladivostok por mar e a atendente da imigra&#231;&#227;o russa, acostumada aos passaportes coreanos e japoneses precisou de um manual para entender o que fazer com o meu passaporte brasileiro. Ao descobrir, o carimbou com um sorriso e dicas sobre o pa&#237;s. Eu adentrava uma na&#231;&#227;o em guerra, medindo riscos e fazendo concess&#245;es. Meu maior receio n&#227;o era minha integridade f&#237;sica, mas sim como um amigo ucraniano encararia a minha decis&#227;o de visitar a R&#250;ssia. </p><p>O que aconteceu com Juliana Marins, que caiu de uma trilha na Indon&#233;sia foi, primeiramente, um acidente, em segundo lugar um descaso da ag&#234;ncia de viagens e do guia que a acompanhava e por fim, um tremendo despreparo do parque e das institui&#231;&#245;es do pa&#237;s para resgat&#225;-la. Me arde por dentro pensar que apesar do tipo de tecnologia existente n&#227;o foram capazes de enviar mantimentos e prote&#231;&#227;o contra o frio para ela, que n&#227;o possuiam corda do tamanho suficiente para acess&#225;-la, nem pessoas treinadas nesse tipo de resgate de prontid&#227;o. &#201; como ir ao Rio de Janeiro e n&#227;o ter salva-vidas na praia. Espero que o caso seja uma li&#231;&#227;o para a mudan&#231;a. </p><p>Dentre todas as mudan&#231;as que me aconteceram durante esses anos na estrada, uma &#233; gritante: viajar me tornou mais tolerante. Minha experi&#234;ncia grita todos os dias no p&#233; do meu ouvido: "s&#243; sei que nada sei&#8221;, mesmo que eu saiba muito mais agora. &#201; por essa toler&#226;ncia que n&#227;o tentarei te convencer a seguir meus passos, fazer o que fa&#231;o, viajar o mundo, sair sozinha por a&#237;, n&#227;o ficar em casa nos feriados, provar do meu ant&#237;doto: o movimento. Posso at&#233; escorregar e olhar torto quando vejo pessoas apegadas a suas rotinas, mas logo sou lembrada - por mim mesma - que h&#225; muitos jeitos de viver a vida. &#201; meu conhecimento do mundo que me tr&#225;z essa lembran&#231;a. &#201; por ele que aceito suas escolhas, sem tentar te convencer a viajar mais, n&#227;o ter filhos ou n&#227;o buscar um relacionamento. Ver o mundo mata minha sede de vida. Eu tenho sede e entendo que n&#227;o nos saciamos com a mesma &#225;gua.   </p><p>Mas n&#227;o entendo quem procura preservar a vida a qualquer custo, quem tem tanto medo que protege-se a ponto de n&#227;o viver. No livro Sobre a Brevidade da vida, que no geral eu achei chato e machista (tamb&#233;m pudera, Seneca o escreveu em 49 a.C.) h&#225; passagens (muitas) poss&#237;veis de aproveitamento e alguma delas dizem: &#8220;N&#227;o &#233; que tenhamos pouco tempo para viver, mas sim que desperdi&#231;amos muito dele.&#8221; e &#8220;A vida &#233; como uma pe&#231;a de teatro: n&#227;o importa qu&#227;o longa ela seja, mas sim qu&#227;o bem ela &#233; representada". O fil&#243;sofo estoico dizia que a vida n&#227;o &#233; breve, n&#243;s temos essa impress&#227;o por n&#227;o aproveit&#225;-la plenamente, sempre deixando para fazer coisas no futudo, ou preocupados com o passado. N&#227;o vivemos o presente, nem a vida que planejamos e gostar&#237;amos para n&#243;s mesmas, mas sim a imposta pela sociedade ou a que d&#225;.  A vida &#233; breve quando n&#227;o fizemos o que gostar&#237;amos e a&#237; n&#227;o importa se a morte chegou aos 26, 40, 82 ou 100. Ela ter&#225; sido pequena. (Esse final &#233; meu, n&#227;o do Seneca).      </p><p>Eu n&#227;o sei mais como explicar que pouco me interessa uma vida sem riscos ou provar a quem se preocupa ou me critica que os riscos tamb&#233;m existem em uma vida rotineira. Por isso meu texto n&#227;o &#233; sobre isso, eu j&#225; desisti dessa fun&#231;&#227;o. Meu texto &#233; sobre toler&#226;ncia, sobre aceitar formas de viver diferentes da sua, sobre expandir a vis&#227;o de mundo, mesmo que voc&#234; prefira (ou s&#243; possa) faz&#234;-lo do sof&#225; da sua casa. N&#227;o critique quem escolheu uma vida diferente. Eu sinto muito pelas pessoas que me amam e n&#227;o conseguem entender as minhas escolhas, sentem medo por mim e por elas, mas tirar minhas aventuras &#233; como amar muito uma passarinha e prend&#234;-la na gaiola.   </p><p>Eu n&#227;o morrerei em uma mesa de lipo, mas posso morrer fazendo uma trilha. N&#227;o morrerei dando a luz a uma crian&#231;a, mas posso morrer nadando em um rio. Espero n&#227;o morrer em acidente de moto, ao mesmo tempo n&#227;o deixarei de subir em uma. Talvez eu at&#233; morra atravessando a rua, mas seria uma surpresa. Velhinha, contando hist&#243;rias das minhas viagens, morando em uma comunidade com minhas amigas, &#233; o meu novo sonho de morte, de vida. &#201; claro que tenho pena de morrer, como a av&#243; de Saramago aos seus 90 anos ainda dizia: &#8220;o mundo &#233; t&#227;o bonito que d&#225; tanta pena de morrer", por&#233;m tenho mais pena de n&#227;o viver. Prometo redobrar meus cuidados, mas uma coisa &#233; certa: quando a morte chegar ela me encontrar&#225; vivendo. Do meu jeito. </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O muito que pode ser pouco]]></title><description><![CDATA[Um balde, cerca de 15 litros.]]></description><link>https://andarilha.substack.com/p/o-muito-que-pode-ser-pouco</link><guid isPermaLink="false">https://andarilha.substack.com/p/o-muito-que-pode-ser-pouco</guid><dc:creator><![CDATA[andarilha]]></dc:creator><pubDate>Thu, 12 Jun 2025 19:30:29 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!BPmx!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F408b1f33-7c4f-46b2-8498-76c329815142_4032x2268.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Um balde, cerca de 15 litros. &#201; o que gasto de &#225;gua em um banho, desde que n&#227;o lave o cabelo, nem use chuveiro. Aprendi na &#205;ndia, onde qualquer banheiro tem um balde grande com uma cumbuca menor embaixo do chuveiro. Aprendi o volume de um balde padr&#227;o, reconheci nem precisar de todo o conte&#250;do pra me fazer limpa. O final &#233; apenas para aquecer meu corpo, sentir a &#225;gua quente escorrendo pela minha pele, n&#227;o para me enxaguar. </p><p>Um rolo de papel higi&#234;nico. Dos pequenos. 30 metros em um m&#234;s. &#201; do que preciso para manter minha dignidade limpa. Aprendi na China, onde h&#225; banheiros p&#250;blicos a cada esquina das grandes cidades, mas n&#227;o h&#225; papel. Cada pessoa carrega o seu.   </p><p>100 ml de shampoo nesse mesmo m&#234;s, considerando que lavo o cabelo dia sim dia n&#227;o, 15 lavagens, quase 7ml por lavagem, torcendo para que encontrasse chuveiros e n&#227;o apenas baldes para esse processo. Uma barra, 60 gramas a cada 2 meses. O shampoo s&#243;lido ocupa menos espa&#231;o na mochila e dura mais, por&#233;m &#233; dif&#237;cil de encontrar. A depender do pa&#237;s e do shampoo n&#227;o h&#225; necessidade de condicionador. </p><p>14 minutos, &#233; o quanto gasto para caminhar por 1km em uma velocidade normal, no plano. 3 vezes mais r&#225;pido. Se o terreno &#233; subida sei n&#227;o poder considerar essas medidas, mas ainda n&#227;o aprendi a calcular a inclina&#231;&#227;o, transformar o desn&#237;vel em quilometragem. Se a altitude &#233; superior a 2 mil metros a conta muda. A 5 mil metros de altura levei 2 horas para caminhar quase 3 km, num desn&#237;vel de 640 metros e chegar nos 5.640 metros de altitude. O ponto mais alto em que j&#225; pisei na vida. Para ver de frente a montanha mais alta do mundo. 8.849 metros, &#233; a altura do Monte Everest.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!BPmx!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F408b1f33-7c4f-46b2-8498-76c329815142_4032x2268.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!BPmx!, /__u/andarilha.substack.com/w_424, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, /__u/andarilha.substack.com/q_auto:good, /__u/andarilha.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F408b1f33-7c4f-46b2-8498-76c329815142_4032x2268.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!BPmx!, /__u/andarilha.substack.com/w_848, 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O Everest &#233; o da esquerda, se n&#227;o me engano.</figcaption></figure></div><p>3 cal&#231;as, 10 camisetas, 1 blusa de frio, 10 calcinhas, 5 meias, 1 chinelo, 1 t&#234;nis, a bota de trilha no p&#233;. &#201; o conte&#250;do b&#225;sico da minha mochila em cada temporada. 10 quilos &#233; o peso m&#225;ximo para lev&#225;-la na cabine do avi&#227;o. 50 litros &#233; o volume. Excedido tantas vezes que o z&#237;per j&#225; come&#231;a a abrir. </p><p>3 anos de ensino m&#233;dio, 5 anos de faculdade, 18 morando em Arax&#225;, 12 em Belo Horizonte, 5 em S&#227;o Paulo. 14 anos trabalhando, 3 e meio fora do mercado. 25 anos de amizade. 6 anos solteira. Apesar de acreditar que a for&#231;a dos encontros independe do tempo, percebo esperar mais de quem est&#225; na minha vida h&#225; v&#225;rios anos. N&#227;o sei o ponto de transi&#231;&#227;o, quando passam de ser uma pessoa com quem eu posso trocar profundamente, mas nada esperar, a algu&#233;m capaz de me decepcionar. Cinco anos? 60 encontros? 400 fotos ocupando os meus 2GB de mem&#243;ria na nuvem? Quantos caracteres trocados no whats app me d&#227;o o direito de ser decepcionada ou decepcionar algu&#233;m?</p><p>Seis amigos pr&#243;ximos, 150 pessoas no m&#225;ximo, &#233; o que diz um estudo sobre a quantidade de pessoas que conseguimos manter em nossas vidas, com qualidade. Desconfio. Meu n&#250;mero aumenta exponencialmente a medida que viajo. Pessoas que nunca mais verei mudaram minha vida e s&#227;o lembradas com frequ&#234;ncia. Outras, teimo em buscar, insisto em rever. Para caber tanta gente nova, que chega balan&#231;ando as estruturas, &#233; preciso liberar espa&#231;os. Estou aprendendo. Talvez por isso tenha deixado outras irem com tanta facilidade.  Desisti de contar pessoas e lugares, de tentar medir a intensidade das minhas re(l)a&#231;&#245;es. Preciso dos n&#250;meros, mas tamb&#233;m do sentir. Busco l&#243;gica pro sentimento, padr&#245;es, at&#233; me lembrar que n&#227;o meu &#250;nico caminho. Sou engenheira, mas posso ser poeta.</p><p>Conhe&#231;o v&#225;rias medidas, mas n&#227;o sei a medida do amor, nem da dor. Desconhe&#231;o o limite entre o meu e do outro quando entramos em conflito. Tento computar, numa l&#243;gica utilitarista, quem perde mais, quem deveria ceder, mas sem medidas exatas me perco no quanto posso pedir. Testo. Aceito migalhas, exagero no pedido, imploro desculpas n&#227;o aceitas, resigno-me, programada para desistir. Talvez o ponto de transi&#231;&#227;o n&#227;o seja 5. Ele depende de mais dados do que o n&#250;mero de anivers&#225;rios celebrados juntos. Dados que eu claramente n&#227;o sei medir. Me engano, comparando medidas para as quais ningu&#233;m tem a r&#233;gua. Eu queria ser exata, mas sou humana.</p><p>Muito. Pouco. Suficiente. Tento retirar os adjetivos do meu vocabul&#225;rio, substitu&#237;-los por n&#250;meros exatos. Mas quando me distraio est&#227;o l&#225;, invadindo minhas frases. Respondo que o evento foi muito bom, sem nenhum compromisso com a descri&#231;&#227;o. Digo que algu&#233;m fez pouco caso, como se a medida do caso fosse universal. O muito pra mim pode ser pouco para o outro, o pouco pra um pode ser suficiente para quem nada tem. Atento-me ao que posso medir, buscando n&#227;o julgar o resultado. Descubro n&#227;o ter o treinamento necess&#225;rio para a tarefa. Ainda descrevo experi&#234;ncias como boas, ruins, interessantes, sem conseguir explicar o porqu&#234;.</p><p>N&#227;o sei medir nem descrever, n&#227;o me atento ao uso exato, ao que elas de fato significam. Chamo de incr&#237;vel o que est&#225; na minha frente, o que estou vendo com meus pr&#243;prios olhos e n&#227;o &#233; t&#227;o inacredit&#225;vel assim, apenas n&#227;o fazia parte das imagens que meus olhos acessavam diariamente. IN-CR&#205;-VEL, algo n&#227;o cr&#237;vel, no qual n&#227;o se pode acreditar.</p><p>&#201; incr&#237;vel que eu tenha visitado 65 pa&#237;ses e perdido a conta das pessoas que tocaram minha vida, mas &#233; cr&#237;vel que eu n&#227;o saiba medir o que mudou em mim. Ser&#225; que preciso?  </p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Eu não sei como mudar o mundo]]></title><description><![CDATA[Escolha o seu bilion&#225;rio preferido.]]></description><link>https://andarilha.substack.com/p/eu-nao-sei-como-mudar-o-mundo</link><guid isPermaLink="false">https://andarilha.substack.com/p/eu-nao-sei-como-mudar-o-mundo</guid><dc:creator><![CDATA[andarilha]]></dc:creator><pubDate>Mon, 26 May 2025 13:10:54 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Fdrw!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F152cd796-b2a9-4081-8e5d-67f67ed1721e_1370x1476.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Escolha o seu bilion&#225;rio preferido. Enquanto Elon Musk fecha organiza&#231;&#245;es filantr&#243;picas, Bill Gates anuncia que acelerar&#225; a distribui&#231;&#227;o de sua fortuna, repassando 99% dela nos pr&#243;ximos 25 anos. Os filhos herdar&#227;o menos de 1% (n&#227;o se assuste, ainda assim cada um receber&#225; cerca de 1 bilh&#227;o de d&#243;lares). No palanque do an&#250;ncio, Gates criticou o homem mais rico do mundo, que cortou verbas de ajuda humanit&#225;ria, contribuindo para a morte de crian&#231;as pobres. Os bilion&#225;rios brigam e rio do fato de vez ou outra ser criticada por nada estar produzindo, sendo cobrada por produtividade, n&#227;o alegria. Como se minha for&#231;a de trabalho pudesse fazer algo grande e bom pelo mundo. Algo que nem bilion&#225;rios privilegiados conseguem, nem mesmo aqueles e que ousam doar parte da fortuna. </p><p>Ando pelas ruas de qualquer grande cidade do sudeste brasileiro e a cada poucos metros algu&#233;m pede dinheiro ou oferece um produto, escancarando a desigualdade social j&#225; t&#227;o conhecida. Balan&#231;o a cabe&#231;a ao lembrar da minha ingenuidade juvenil, por um dia ter acreditado que poderia mudar algo e ao mesmo tempo dizendo, n&#227;o, obrigada, hoje n&#227;o quero comprar nada. Quando passa por mim um garoto cheio de medalhas no peito, dizendo precisar de ajuda financeira para participar de um campeonato, compro tr&#234;s caixinhas de bala, na esperan&#231;a de ajudar a realizar o seu sonho. Mas n&#227;o &#233; s&#243; de dinheiro que pessoas carecem. Nas rodas em que me sento para conversar ou&#231;o relatos de ansiedade e tristeza, leio not&#237;cias informando que as pessoas est&#227;o mais infelizes e pessimistas, meu entorno &#233; tomado por reclama&#231;&#245;es e cr&#237;ticas, mesmo de quem n&#227;o tem a conta no vermelho ao final do m&#234;s. Ou&#231;o emudecida, me solidarizo, divago propostas simplistas, como se f&#225;cil fosse sair desses lugares - sei que n&#227;o &#233;. Quando me dizem n&#227;o terem tempo para mais nada sugiro se cobrarem menos, deixarem uns pratinhos ca&#237;rem, refletirem sobre seus reais desejos e o porqu&#234;, termino passando o telefone da minha terapeuta, ciente de que n&#227;o s&#227;o problemas que consigo resolver. Eu n&#227;o sei como mudar o mundo, mas a terapia mudou o meu.</p><p>Talvez tenha perdido a f&#233; na possibilidade, desacreditado na utopia de qualquer mudan&#231;a coletiva. Talvez porque vejo um mundo cada dia mais individualista e centralizado. Talvez seja apenas a idade que j&#225; me faz achar que o passado era melhor (eu nem acho inteiramente). Talvez porque eu tenha perdido a f&#233; na pol&#237;tica, apesar de n&#227;o ter perdido nas pessoas. Perdi a f&#233; nos sistemas que rodeam as pessoas, que s&#227;o, ironicamente, criados por algumas delas. Seguindo a m&#225;xima de seguran&#231;a, coloquei a m&#225;scara de oxig&#234;nio primeiro em mim, soube mudar minha vida, mas travei. Eu n&#227;o sei como mudar o mundo, fazer (ou ao menos tentar) das minhas conquistas individuais, conquistas coletivas.</p><p>Coincidentemente nesse m&#234;s morreram dois homens que tentaram: Pepe Mujica e Sebasti&#227;o Salgado. Pela pol&#237;tica ou pela arte, tentaram. Pepe dizia: "me dediquei a mudar o mundo e n&#227;o mudei nada&#8221;. O ex-presidente do Uruguai era considerado o presidente mais pobre do mundo, dos poucos (o &#250;nico?) que vivia o que pregava, no seu caso a n&#227;o necessidade de luxo para uma boa vida. J&#225; Salgado dedicou-se &#224; arte e &#224; natureza. Fot&#243;grafo renomado e sens&#237;vel, documentou por v&#225;rios anos o norte brasileiro. Junto com a esposa Lelia Wanick fundou o <a href="https://www.instagram.com/institutoterraoficial/">Instituto Terra</a>, cujo projeto &#233; reflorestar parte da mata Atl&#226;ntica e durante seus quase 30 anos de exist&#234;ncia j&#225; deixa um belo legado. N&#227;o mudaram o mundo, n&#227;o erradicaram a pobreza, nem impediram o colapso ambiental, tampouco desistiram. N&#227;o eram santos, perfeitos sem defeitos. Mas de onde enxergo, viveram suas cren&#231;as, agiram localmente. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Fdrw!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F152cd796-b2a9-4081-8e5d-67f67ed1721e_1370x1476.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Fdrw!, /__u/andarilha.substack.com/w_424, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, /__u/andarilha.substack.com/q_auto:good, /__u/andarilha.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F152cd796-b2a9-4081-8e5d-67f67ed1721e_1370x1476.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Fdrw!, /__u/andarilha.substack.com/w_848, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, 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Meu cora&#231;&#227;o se apertava a cada vez pessoa deitada na rua. Ao ver levantar-se uma mulher que acabara de urinar na cal&#231;ada, em plena luz do dia, sem a menor cerim&#244;nia, provavelmente porque qualquer resqu&#237;cio de dignidade j&#225; lhe foi tomado h&#225; um tempo, sinto um aperto no peito, que dura poucos segundos, enquanto continuo a caminhar, talvez at&#233; mais apressada, pro aperto n&#227;o ficar mais forte e pra chegar a tempo no meu almo&#231;o vegano que ser&#225; seguido por uma volta de bicicleta pela orla carioca. Eu definitivamente n&#227;o sei como mudar o mundo.</p><p>Mas h&#225; quem tente. Marina Silva saiu do Acre e est&#225; h&#225; anos enfrentando misoginia, egos inflados e briga de poderes, em uma Bras&#237;lia que al&#233;m disso tudo conta com uma baix&#237;ssima umidade do ar. Tentou, saiu, voltou. Faz o que d&#225;. &#201; a sensa&#231;&#227;o que tenho ao ouvi-la e v&#234;-la nos espa&#231;os que ocupa. Adaptou-se, provavelmente mexeu no seu limite do aceit&#225;vel, n&#227;o sei. Descrente da pol&#237;tica, sabendo que eu n&#227;o seria capaz de tanta concess&#227;o, uma parte minha celebra que pessoas como ela, das poucas minimamente admir&#225;veis, ainda estejam por ali. H&#225; poucos dias acordei com um v&#237;deo de uma de suas <a href="https://www.instagram.com/reel/DGsm1D2OXiC/">entrevistas</a>, onde ela fala sobre o consumo e o impacto no planeta. Eu separo meu lixo, ando por meses com algo na mochila, at&#233; encontrar uma coleta seletiva. Uso canudos de papel que derretem na minha boca, n&#227;o pego sacolinhas no supermercado, mas tomo banhos quentes e demorados, gastando &#225;gua e energia, pego muitos avi&#245;es, que utilizam combust&#237;veis f&#243;sseis. Eu n&#227;o sei como mudar o mundo, eu questiono o peso das a&#231;&#245;es individuais, frente empresas impactando fortemente na natureza, frente uma cultura que celebra o consumo. Marina parece tamb&#233;m n&#227;o saber mudar o mundo, mas tenta. E nessa entrevista prega o que acredita: &#8220;somos 7 bilh&#245;es de pessoas desejando infinitamente ter coisas (&#8230; ) H&#225; limites para ter, mas n&#227;o h&#225; limites para ser&#8221;, nos incitando ao consumo e crescimento intelectual no lugar de bens f&#237;sicos, totalmente de acordo com Mujica. </p><p>Naquele mesmo Rio de Janeiro assisto um &#244;nibus, que j&#225; iniciara a curva, parar antes de completa-la, como se o sinal estivesse aberto quando ele come&#231;ou e fechado depois. Uma mulher atravessa, a passos r&#225;pidos,  dando a volta pela frente do &#244;nibus, o que tornava o percurso maior. Eu n&#227;o enxergava o sinal de pedestres, n&#227;o sabia se estava aberto ou fechado e esperei. Na rua, bem rente &#224; roda dianteira da direita do &#244;nibus, vejo uma senhora, apoiada em sua bengala. Tudo aconteceu muito rapidamente e enquanto eu tentatava entender o que fazer o &#244;nibus recome&#231;ou o movimento para completar a curva, aproximando-se cada vez mais da senhora, que parecia n&#227;o conseguir se mexer e gritou &#8220;ai, mo&#231;o&#8221;, como se o motorista pudesse ouvi-la. Por muito pouco o &#244;nibus n&#227;o a tocou. O sinal dos carros agora estava aberto e outros carros come&#231;aram a passar. Algu&#233;m gritou pra ela sair da rua e ela n&#227;o se mexeu, falando algo sobre como o sinal de pedestres ficava pouco tempo aberto e era imposs&#237;vel atravessar. Tr&#234;s mulheres ent&#227;o foram at&#233; ela para servir de apoio e traz&#234;-la de volta &#224; cal&#231;ada, dizendo: n&#243;s atravessaremos com a senhora a tempo. Esperaram de m&#227;os dadas e na hora de atravessar, enquanto uma conduzia a senhora pelo bra&#231;o livre da bengala, as outras duas iam a passos lentos, acompanhando o ritmo da senhora, uma de cada lado, como se escudos a dizer para os carros que esperassem, mesmo que o sinal de pedestres fechasse. O sinal para os carros de fato abriu um pouco antes de completarmos a travessia, mas n&#227;o houve alvoro&#231;o. Pisamos do outro lado da rua, desejamos boa tarde uma a outra e cada uma seguiu o seu caminho, a duas quadras da praia, cruzando moradores de rua, pr&#233;dios de luxo e provavelmente dezenas de pessoas a sofrer de ansiedade. Eu n&#227;o sei como mudar o mundo, mas posso ajudar senhorinhas a atravessar a rua.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://andarilha.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigada por ler Andarilha! Se inscreva gratuitamente para receber os textos na sua caixa de email. </p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><div><hr></div><h2>Pra pensar mais</h2><p>H&#225; tamb&#233;m uma certa arrog&#226;ncia em querer mudar o mundo, Raul me lembra a cada frase dessa m&#250;sica, principalmente nessa:</p><p>&#8220;O meu ego&#237;smo &#233; t&#227;o ego&#237;sta que o auge do meu ego&#237;smo &#233; querer ajudar&#8221;.</p><iframe class="spotify-wrap" data-attrs="{&quot;image&quot;:&quot;https://i.scdn.co/image/ab67616d0000b27381c4ac65ae75c8378a692627&quot;,&quot;title&quot;:&quot;Carpinteiro do universo&quot;,&quot;subtitle&quot;:&quot;Marcelo Nova, Raul Seixas&quot;,&quot;description&quot;:&quot;&quot;,&quot;url&quot;:&quot;https://open.spotify.com/track/2bR5bWePrqEFh3ovft8LrD&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;noScroll&quot;:false}" src="https://open.spotify.com/embed/track/2bR5bWePrqEFh3ovft8LrD" frameborder="0" gesture="media" allowfullscreen="true" allow="encrypted-media" loading="lazy" data-component-name="Spotify2ToDOM"></iframe><p><strong>&#8220;</strong>Carpinteiro do universo inteiro eu sou <br>N&#227;o sei por que nasci<br>Pra querer ajudar a querer consertar<br>O que n&#227;o pode ser<br><br>N&#227;o sei, pois nasci para isso e aquilo.<br>E o engui&#231;o de tanto querer<br>Carpinteiro do universo inteiro eu sou <br><br>Estou sempre<br>Pensando em aparar o cabelo de algu&#233;m<br>E sempre tentando mudar a dire&#231;&#227;o do trem<br>&#192; noite a luz do meu quarto eu n&#227;o quero apagar<br>Pra que voc&#234; n&#227;o tropece na escada quando chegar<br><br>Carpinteiro do universo inteiro eu sou <br>Carpinteiro do universo inteiro eu sou </p><p>O meu ego&#237;smo &#233; t&#227;o ego&#237;sta                                                                                                Que o auge do meu ego&#237;smo &#233; querer ajudar&#8221;</p><p></p><h4>FACTFULNESS </h4><p>Era um livro de esperan&#231;a. Ele mostra, com dados, que o mundo melhorou. Quando falamos de acesso a mais recursos que melhoraram a qualidade de vida, mas foi escrito 10 anos atr&#225;s. Provavelmente precisa de uma revis&#227;o p&#243;s pand&#234;mica e v&#237;cios em redes sociais, mas independentemente disso ele nos ensina a pensar, analisar dados e informa&#231;&#245;es. Altamente recomend&#225;vel. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!BiwT!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7c48c199-2ae9-4538-b3b2-99dd7eb0b5d9_340x452.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!BiwT!, /__u/andarilha.substack.com/w_424, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, /__u/andarilha.substack.com/q_auto:good, /__u/andarilha.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7c48c199-2ae9-4538-b3b2-99dd7eb0b5d9_340x452.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!BiwT!, /__u/andarilha.substack.com/w_848, /__u/andarilha.substack.com/c_limit, /__u/andarilha.substack.com/f_webp, 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