<script data-pm-proxy="intercept"></script><?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Newsletter da Anna Freire]]></title><description><![CDATA[Escrevo sobre os livros que li, literatura e ficção. E o que mais der na telha.

]]></description><link>https://annafreire.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ar0c!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fannafreire.substack.com%2Fimg%2Fsubstack.png</url><title>Newsletter da Anna Freire</title><link>https://annafreire.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Fri, 04 Sep 2026 16:06:09 GMT</lastBuildDate><atom:link href="/__u/annafreire.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Anna]]></copyright><language><![CDATA[pt]]></language><webMaster><![CDATA[annafreire@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[annafreire@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Anna Freire]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Anna Freire]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[annafreire@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[annafreire@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Anna Freire]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[Queremos escrever ou apenas ter escrito?]]></title><description><![CDATA[Bem-vindos &#224; era dos 418 livros por autora.]]></description><link>https://annafreire.substack.com/p/queremos-escrever-ou-apenas-ter-escrito</link><guid isPermaLink="false">https://annafreire.substack.com/p/queremos-escrever-ou-apenas-ter-escrito</guid><dc:creator><![CDATA[Anna Freire]]></dc:creator><pubDate>Mon, 17 Aug 2026 13:52:40 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.theatlantic.com/technology/2026/07/daggermouth-novel-bestseller-ai/688067">Hoje temos cerca de 20% dos ebooks</a> contando com uma <em>ajuda substancial</em> de intelig&#234;ncia artificial. Esses mesmos ebooks representam 12% das vendas e 10% dos best-sellers.</p><p>De 2023 pra c&#225;, foram analisados mais de 14 mil livros e esses foram os resultados. E eu fiquei pensando se o esfor&#231;o para a cria&#231;&#227;o de livros foi reduzido e ainda h&#225; vendas, o que ser&#225; que vem por a&#237;?</p><p>A intelig&#234;ncia artificial j&#225; escreve textos, resume livros, organiza tudo bonitinho pra gente e chega at&#233; a programar. &#201; muito doido imaginar que uma m&#225;quina est&#225; fazendo tarefas que, at&#233; pouco tempo atr&#225;s, eram feitas exclusivamente por humanos. Enquanto estou produzindo conte&#250;do pra c&#225;, tamb&#233;m observo o uso de IA na escrita. Bom, existe um abismo de diferen&#231;a entre usar uma ferramenta para eliminar trabalho operacional e us&#225;-la para eliminar o processo que desenvolve uma capacidade em n&#243;s.</p><p>Se eu tenho centenas de anota&#231;&#245;es e uso uma IA para organiz&#225;-las, continuo sendo a pessoa que leu, pensou e produziu aquelas anota&#231;&#245;es. Se tenho um texto enorme e uso a ferramenta para localizar rapidamente uma informa&#231;&#227;o e fazer um compilado, eu mesma j&#225; estudei aquilo e estou apenas reduzindo o tempo de busca. Se estou escrevendo um romance e uso IA para verificar se a cronologia dos personagens est&#225; coerente, isso pode poupar um trabalho mec&#226;nico gigante.</p><p>Por outro lado, se eu n&#227;o quero ler um livro e pe&#231;o um resumo, n&#227;o quero elaborar uma interpreta&#231;&#227;o e pe&#231;o uma an&#225;lise ou entrego uma ideia de tr&#234;s linhas e pe&#231;o um romance pronto&#8230; a&#237; a gente est&#225; indo para um cen&#225;rio de terceiriza&#231;&#227;o de capacidades.</p><p>As pessoas continuam querendo ser reconhecidas como leitoras, escritoras, estudiosas, pessoas cultas, pessoas que conhecem determinadas obras. Ao mesmo tempo, come&#231;amos a desejar cada vez mais o resultado simb&#243;lico dessas atividades sem desejar o processo que produz esse resultado. Queremos ter lido sem necessariamente ler. Queremos saber o que um livro diz sem precisar atravessar o livro. Queremos publicar sem aprender a escrever.</p><p>Durante muito tempo, escrever um livro exigia uma s&#233;rie de compet&#234;ncias intermedi&#225;rias. Era preciso ter repert&#243;rio, saber construir frases e ritmo, organizar argumentos e cenas, abandonar p&#225;ginas, escrever de novo&#8230; Isso n&#227;o era requisito apenas para grandes autores. Era parte do processo de qualquer pessoa que quisesse escrever. Havia um limite pr&#225;tico para a quantidade de texto que algu&#233;m conseguia produzir sem dominar minimamente algumas dessas opera&#231;&#245;es.</p><p>Uma <a href="https://www.theatlantic.com/technology/2026/07/daggermouth-novel-bestseller-ai/688067/">reportagem</a> publicada pela <em>The Atlantic</em> trouxe uma discuss&#227;o interessante. Eles analisaram um livro chamado <em>Daggermouth</em>, um romance autopublicado na Amazon que viralizou, passou meses na lista dos mais vendidos do <em>USA Today</em>, chegou ao primeiro lugar entre os romances de fic&#231;&#227;o cient&#237;fica da Amazon e teve seus direitos comprados por uma quantia milion&#225;ria.</p><p>Alguns pesquisadores encontraram no livro uma quantidade alta de sinais associados &#224; produ&#231;&#227;o por intelig&#234;ncia artificial: algo em torno de 60% do texto. A autora negou todas as acusa&#231;&#245;es. Os pesquisadores tamb&#233;m analisaram aleatoriamente mais de 14 mil ebooks do Kindle e encontraram sinais de assist&#234;ncia substancial de intelig&#234;ncia artificial em aproximadamente um em cada cinco. Esses t&#237;tulos representam 12% das vendas e 10% dos mais vendidos em seus respectivos g&#234;neros.</p><p>L&#243;gico que isso n&#227;o &#233; um resultado escrito em pedra, porque esses detectores s&#227;o falhos. Ainda assim, estamos falando de livros que est&#227;o sendo comprados, lidos e chegando &#224;s listas de mais vendidos. O segundo ebook mais vendido desse conjunto &#233; de uma autora com 418 t&#237;tulos listados na Amazon. <em>N&#227;o &#233; um homem&#8230; &#233; uma m&#225;quina!</em> Literalmente, risos.</p><p>Independentemente da qualidade dessas obras, a escala de produ&#231;&#227;o mudou. Agora, a gente consegue colocar uma quantidade exorbitante de texto no mercado que seria impratic&#225;vel poucos anos atr&#225;s. E a intelig&#234;ncia artificial vai melhorar. Ela ser&#225; capaz de escrever um romance, como <em>ghostwriters</em> j&#225; fazem h&#225; anos. O que ser&#225; disso? S&#243; Deus sabe, mas imagino um mercado inundado de romances perfeitamente adequados aos seus g&#234;neros. Hist&#243;rias com os tropos certos, o n&#250;mero certo de cap&#237;tulos, personagens constru&#237;dos para funcionar, <em>cliffhangers</em> bem posicionados e di&#225;logos funcionais.</p><p>Seguir padr&#245;es tamb&#233;m n&#227;o &#233; algo ruim, at&#233; porque a gente n&#227;o precisa fazer algo revolucion&#225;rio ou experimental toda hora. S&#243; que a literatura se desenvolveu justamente quando algu&#233;m resolveu fazer algo estranho, inadequado, dif&#237;cil ou pouco comercial.</p><p>Se uma m&#225;quina consegue escrever por n&#243;s, interpretar por n&#243;s e resumir as coisas por n&#243;s&#8230; o que, exatamente, queremos preservar?</p><p>Ser&#225; que queremos apenas o livro pronto ou tamb&#233;m queremos preservar a capacidade de escrev&#234;-lo? Queremos apenas saber o que uma obra diz ou consideramos relevante desenvolver a capacidade de interpret&#225;-la?</p><p>Eu n&#227;o acredito que a IA v&#225; decretar o fim da literatura, mas certamente vai nos levar a pensar sobre o que consideramos literatura &#8212; e, talvez ainda mais importante, sobre quais capacidades estamos dispostos a terceirizar para chegar at&#233; ela.</p><p><em>E eu te vejo&#8230; no pr&#243;ximo texto.</em></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A literatura brasileira acabou ou estamos lendo errado?]]></title><description><![CDATA[Me v&#234; um Machado de Assis pra viagem, por favor.]]></description><link>https://annafreire.substack.com/p/a-literatura-brasileira-acabou-ou</link><guid isPermaLink="false">https://annafreire.substack.com/p/a-literatura-brasileira-acabou-ou</guid><dc:creator><![CDATA[Anna Freire]]></dc:creator><pubDate>Thu, 02 Jul 2026 01:50:41 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<p>Toda vez que algu&#233;m pergunta o que aconteceu com a literatura brasileira, parece que metade da resposta j&#225; vem pronta, embalada em nostalgia, m&#225; vontade e uma dose de &#8220;no meu tempo era melhor&#8221;, mesmo quando a pessoa nasceu em 1998.</p><p>A resposta mais f&#225;cil &#233; dizer que tudo piorou. Antes havia Machado de Assis, Graciliano Ramos, Clarice Lispector, Guimar&#227;es Rosa, Lima Barreto, Drummond, Cec&#237;lia Meireles, Jo&#227;o Cabral de Melo Neto, Lygia Fagundes Telles, Rachel de Queiroz. Agora, s&#243; haveria romances ideol&#243;gicos, pr&#234;mios previs&#237;veis, frases prontas com cara de post patrocinado e livros que parecem escritos para caber em uma publica&#231;&#227;o de Instagram.</p><p>Afinal, a literatura brasileira morreu?</p><p>Dizer que sim &#233; falso e pregui&#231;oso. Mas tamb&#233;m n&#227;o quero fazer o movimento contr&#225;rio e fingir que est&#225; tudo &#243;timo, que basta apoiar autores nacionais, que toda cr&#237;tica ao contempor&#226;neo &#233; elitismo e que qualquer livro publicado hoje precisa ser tratado como se estivesse salvando a cultura brasileira.</p><p>A minha impress&#227;o &#233; que a literatura brasileira n&#227;o est&#225; simplesmente em decad&#234;ncia, como se houvesse uma linha reta descendo de Machado at&#233; a prateleira dos &#250;ltimos lan&#231;amentos. O que me parece &#233; que temos dificuldade de formar leitores, sustentar uma conversa cr&#237;tica sem transformar discord&#226;ncia em ofensa, criar repert&#243;rio e fazer circular obras que exijam um pouco mais do que identifica&#231;&#227;o imediata.</p><h2>Por que n&#227;o temos outro Machado de Assis?</h2><p>Talvez uma das perguntas menos importantes que podemos fazer seja: por que n&#227;o temos outro Machado de Assis?</p><p>A pergunta parece l&#243;gica, mas trata a literatura como se ela estivesse atrasada na entrega de um novo g&#234;nio nacional. Uma pergunta melhor seria: que tipo de leitor o Brasil est&#225; formando para reconhecer uma obra complexa quando ela aparece?</p><p>Porque n&#227;o adianta ter Dom Casmurro na estante se o leitor s&#243; procura ali a confirma&#231;&#227;o de uma fofoca conjugal. A pergunta &#8220;Capitu traiu ou n&#227;o traiu Bentinho?&#8221; pode funcionar como porta de entrada. Ela intriga a gente e mant&#233;m o romance vivo no imagin&#225;rio popular. </p><p>Dom Casmurro &#233; muito maior do que isso porque Machado cria um narrador que organiza a pr&#243;pria mem&#243;ria como acusa&#231;&#227;o. Bentinho n&#227;o apenas conta uma hist&#243;ria; ele monta uma defesa, escolhe cenas, distribui suspeitas, manipula o leitor, transforma lembran&#231;as em prova e tenta dar coer&#234;ncia narrativa a uma vida atravessada por ci&#250;me, ressentimento, vaidade e fracasso.</p><p>Isso aparece desde o come&#231;o.</p><blockquote><p>N&#227;o consultes dicion&#225;rios. Casmurro n&#227;o est&#225; aqui no sentido que eles lhe d&#227;o, mas no que lhe p&#244;s o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de fidalgo. Tudo por estar cochilando! Tamb&#233;m n&#227;o achei melhor t&#237;tulo para a minha narra&#231;&#227;o - se n&#227;o tiver outro daqui at&#233; ao fim do livro, vai este mesmo. O meu poeta do trem ficar&#225; sabendo que n&#227;o lhe guardo rancor. E com pequeno esfor&#231;o, sendo o t&#237;tulo seu, poder&#225; cuidar que a obra &#233; sua. H&#225; livros que apenas ter&#227;o isso dos seus autores; alguns nem tanto.</p></blockquote><p>Bentinho abre o livro explicando a origem do apelido &#8220;Dom Casmurro&#8221;. A cena parece banal: ele encontra um rapaz no trem, o rapaz recita versos, Bentinho cochila, o rapaz se ofende e depois espalha o apelido. Ent&#227;o, ele come&#231;a o romance tentando controlar a pr&#243;pria imagem. Antes de falar de Capitu, antes de entrar no casamento, antes de levantar qualquer suspeita, ele quer dizer ao leitor quem ele &#233; ou, melhor, quem ele deseja parecer. Ele explica que &#8220;casmurro&#8221; n&#227;o deve ser entendido pelo dicion&#225;rio, mas pelo sentido que o povo deu &#224; palavra: homem calado, metido consigo. E ainda esclarece que o &#8220;Dom&#8221; veio por ironia, para lhe atribuir &#8220;fumos de fidalgo&#8221;.</p><p>Ou seja, Bentinho j&#225; come&#231;a corrigindo a leitura dos outros. Ele n&#227;o est&#225; apenas contando como recebeu um apelido. Est&#225; dizendo ao leitor como deseja ser lido. Um narrador que come&#231;a explicando demais talvez n&#227;o esteja apenas sendo gentil, talvez esteja montando as condi&#231;&#245;es da pr&#243;pria defesa.</p><h2>Eloqu&#234;ncia n&#227;o &#233; falar muito.</h2><p>Em <em>Vidas Secas</em>, a linguagem parece comprimida at&#233; o limite. A pobreza n&#227;o aparece apenas como tema social, ela entra na estrutura do livro. Est&#225; na repeti&#231;&#227;o, na aridez da linguagem, na dificuldade de comunica&#231;&#227;o entre os personagens e na aproxima&#231;&#227;o inc&#244;moda entre homem e bicho.</p><p>Fabiano n&#227;o &#233; um grande personagem porque &#8220;representa o sertanejo pobre&#8221;. Fabiano &#233; forte porque Graciliano constr&#243;i uma consci&#234;ncia limitada pela mis&#233;ria, pela explora&#231;&#227;o e pela falta de linguagem, sem transformar essa limita&#231;&#227;o em sentimentalismo.</p><p>H&#225; um trecho em que Fabiano est&#225; satisfeito porque conseguiu se arrumar. A fam&#237;lia, antes quase morrendo de fome, agora ocupa uma casa deserta e a lembran&#231;a do sofrimento come&#231;a a esmorecer.</p><blockquote><p>Fabiano ia satisfeito. Sim senhor, arrumara-se. Chegara naquele estado, com a fam&#237;lia morrendo de fome, comendo ra&#237;zes. Ca&#237;ra no fim do p&#225;tio, debaixo de um juazeiro, depois tomara conta da casa deserta. Ele, a mulher e os filhos tinham-se habituado &#224; camarinha escura, pareciam ratos &#8212; e a lembran&#231;a dos sofrimentos passados esmorecera. </p><p>Pisou com firmeza no ch&#227;o gretado, puxou a faca de ponta, esgaravatou as unhas sujas. Tirou do ai&#243; um peda&#231;o de fumo, picou-o, fez um cigarro com palha de milho, acendeu-o ao binga, p&#244;s-se a fumar regalado.</p><p> &#8212; Fabiano, voc&#234; &#233; um homem, exclamou em voz alta.</p></blockquote><p>Fabiano precisa dizer que &#233; homem porque o mundo inteiro parece empenhado em convenc&#234;-lo do contr&#225;rio. Ele &#233; empurrado o tempo todo para uma zona de rebaixamento. </p><p>Esses dois exemplos mostram uma coisa importante: a grande literatura brasileira nunca dependeu apenas de bons assuntos. Ela sempre precisou encontrar uma forma.</p><p>A quest&#227;o, ent&#227;o, n&#227;o &#233; apenas se os autores de hoje escrevem sobre temas importantes.</p><h2>Tema forte &#233; o que importa?</h2><p>Quando falamos de literatura brasileira, aparece com frequ&#234;ncia uma cobran&#231;a meio burocr&#225;tica: este livro mostra o Brasil?</p><p>S&#243; que um romance brasileiro n&#227;o precisa carregar a tarefa de explicar quem somos como pa&#237;s. Isso, &#224;s vezes, n&#227;o parece t&#227;o &#243;bvio.</p><p>O que uma obra precisa fazer &#233; criar uma experi&#234;ncia de leitura. Essa experi&#234;ncia pode ser hist&#243;rica, familiar, psicol&#243;gica, c&#244;mica, urbana, rural, er&#243;tica, espiritual ou seja l&#225; o que for. Em alguns casos, ela ilumina aspectos da vida brasileira; em outros, mergulha em zonas da consci&#234;ncia e da linguagem que n&#227;o dependem de uma leitura nacional para fazer sentido.</p><p>Ent&#227;o, se &#233; para perguntar alguma coisa, que seja: o que este livro faz com a experi&#234;ncia que escolheu narrar?</p><p>Ele cria uma voz pr&#243;pria? Constr&#243;i personagens que n&#227;o parecem apenas ilustra&#231;&#245;es de uma ideia? Organiza a trama de modo a produzir tens&#227;o, ambiguidade ou descoberta? Transforma o tema em forma liter&#225;ria ou apenas anuncia sua import&#226;ncia?</p><p>Essa experi&#234;ncia pode envolver uma fam&#237;lia em ru&#237;na, como em Dois Irm&#227;os, de Milton Hatoum, ou pode surgir de uma voz degradada, c&#244;mica e corrosiva, como em O Cheiro do Ralo, de Louren&#231;o Mutarelli.</p><p>O Brasil oferece mat&#233;ria para romance todos os dias, infelizmente at&#233; demais: viol&#234;ncia, desigualdade, mem&#243;ria familiar, religi&#227;o, ressentimento social, racismo, ascens&#227;o e queda de classe, precariza&#231;&#227;o do trabalho, envelhecimento, solid&#227;o urbana e muitos outros conflitos. Mas isso, por si s&#243;, ainda &#233; pauta.</p><p>Uma coisa &#233; escrever sobre viol&#234;ncia, trauma, identidade, mem&#243;ria ou desigualdade. Outra coisa &#233; encontrar uma forma capaz de fazer esses temas deixarem de ser pauta e se tornarem experi&#234;ncia est&#233;tica. Esse talvez seja um dos pontos mais delicados da literatura contempor&#226;nea: muita produ&#231;&#227;o recente trabalha com temas reconhec&#237;veis e uma sensibilidade aceit&#225;vel, mas escorrega na linguagem e na estrutura da hist&#243;ria. Quando isso acontece, o romance corre o risco de virar cartilha.</p><h2>Cr&#237;ticos precisam fazer carinho?</h2><p>Valorizar a literatura brasileira contempor&#226;nea n&#227;o pode significar elogiar tudo, evitar qualquer julgamento mais duro e tratar toda cr&#237;tica como suspeita ou preconceito. Uma obra liter&#225;ria precisa poder ser discutida em seus acertos e fracassos.</p><p>Quando todo coment&#225;rio sobre literatura se transforma em recomenda&#231;&#227;o simp&#225;tica, a conversa perde densidade. O leitor recebe um texto florido, cheio de est&#237;mulo ao consumo, mas nem sempre recebe instrumentos de an&#225;lise.</p><p>Hoje muitos livros precisam parecer comunic&#225;veis antes mesmo de serem lidos. O mercado editorial sabe muito bem disso, porque tamb&#233;m responde a demandas, cria demandas e segue tend&#234;ncias. Isso torna um livro automaticamente ruim? N&#227;o. O ponto &#233; outro: quando estacionamos nesse ciclo de leituras r&#225;pidas, l&#237;quidas e esquec&#237;veis, outros ciclos mais demorados, mais profundos e que pedem mais paci&#234;ncia do leitor passam a ter menos espa&#231;o.</p><p>A literatura brasileira contempor&#226;nea n&#227;o se reduz ao que aparece com mais destaque na vitrine, no clube do m&#234;s, na mesa de entrada ou no ranking de vendas. Existe produ&#231;&#227;o interessante fora do centro mais vis&#237;vel: em editoras pequenas, em obras menos f&#225;ceis de classificar, em autores que n&#227;o cabem t&#227;o bem nos r&#243;tulos prontos e em livros que talvez n&#227;o tenham uma frase perfeita para virar chamada, mas sustentam uma boa hist&#243;ria.</p><p>O problema &#233; que, para chegar a esses livros, o leitor precisa de media&#231;&#227;o. Em muitos espa&#231;os, essa media&#231;&#227;o foi substitu&#237;da por publicidade, algoritmo e entusiasmo de lan&#231;amento. Hoje, fala-se muito de livro como produto, mas nem sempre se fala de literatura com um pouco mais de profundidade. Existem v&#237;deos, newsletters, podcasts, clubes, feiras, listas, rankings, resenhas r&#225;pidas, projetos de leitura e uma circula&#231;&#227;o intensa de capas e opini&#245;es. Tudo isso pode aproximar pessoas dos livros, e seria injusto da minha parte desqualificar esse movimento inteiro, at&#233; porque eu perten&#231;o a ele tamb&#233;m. Mas aproxima&#231;&#227;o n&#227;o &#233; a mesma coisa que forma&#231;&#227;o.</p><p>Quando olhamos para o passado, esquecemos que a tradi&#231;&#227;o tamb&#233;m foi formada por disputa, erro cr&#237;tico, esquecimento, recupera&#231;&#227;o e mudan&#231;a de leitura. O c&#226;none n&#227;o nasceu pronto, organizado em uma estante definitiva, com consenso absoluto. Autores hoje consagrados foram lidos de modos diferentes ao longo do tempo, e alguns at&#233; foram subestimados.</p><p>Quando comparamos os melhores autores mortos com todos os livros vivos do presente, cometemos uma injusti&#231;a b&#225;sica. O passado j&#225; foi filtrado. O presente ainda est&#225; misturado.</p><p>Hoje, obras excelentes, boas, medianas, ruins, oportunistas, infladas, promissoras e esquec&#237;veis disputam espa&#231;o ao mesmo tempo. A mediocridade do passado costuma desaparecer. A mediocridade do presente chega at&#233; n&#243;s com campanha, capa bonita e uma quantidade imensa de coment&#225;rios instant&#226;neos.</p><p>Isso n&#227;o significa suspender a cr&#237;tica ao presente. A conversa contempor&#226;nea d&#225; sinais de empobrecimento: muitas obras s&#227;o elogiadas por raz&#245;es extraliter&#225;rias e muita gente confunde tema importante com realiza&#231;&#227;o est&#233;tica. Tamb&#233;m existe uma tend&#234;ncia a premiar certa respeitabilidade liter&#225;ria: livros que parecem saber de antem&#227;o quais temas abordar, que tom assumir e que sensibilidade exibir.</p><p>Mas essa cr&#237;tica n&#227;o autoriza a conclus&#227;o de que tudo acabou.</p><p>A literatura contempor&#226;nea produz obras interessantes. Editoras pequenas continuam fazendo trabalho s&#233;rio, leitores procuram caminhos menos &#243;bvios, professores e cr&#237;ticos tentam qualificar a discuss&#227;o, mesmo quando o debate p&#250;blico insiste em reduzir tudo a gosto pessoal e identidade de grupo. Tamb&#233;m existem livros que talvez ainda n&#227;o tenham recebido a aten&#231;&#227;o que merecem.</p><p>Entre venerar o passado e aplaudir o presente sem crit&#233;rio nenhum, sigo querendo fazer um trabalho mais dif&#237;cil: ler melhor.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Sábado de agosto no Rio de Janeiro]]></title><description><![CDATA[Um dia para agradecer e n&#227;o saber de nada]]></description><link>https://annafreire.substack.com/p/sabado-de-agosto-no-rio-de-janeiro</link><guid isPermaLink="false">https://annafreire.substack.com/p/sabado-de-agosto-no-rio-de-janeiro</guid><dc:creator><![CDATA[Anna Freire]]></dc:creator><pubDate>Fri, 16 Jan 2026 02:42:39 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<p>Como uma ben&#231;&#227;o, em um s&#225;bado de agosto, fez-se sol no Rio de Janeiro. Com ele, veio aquela agonia de gente tentando pegar o &#244;nibus em dire&#231;&#227;o &#224;s praias de Copacabana ou Ipanema. J&#225; era quase meio-dia, e Rubinho esperava com certa impaci&#234;ncia pelo pr&#243;ximo &#244;nibus, pois o &#250;ltimo passara direto.</p><p>Ele descarregava a tens&#227;o em um chiclete j&#225; sem gosto, e o maxilar balan&#231;ava como se estivesse solto enquanto recebia alguns empurr&#245;es de pessoas que tentavam se abrigar do sol debaixo do ponto de &#244;nibus. Quando o 457 finalmente deu as caras, Rubinho respirou fundo e abriu um pouco mais os ombros, porque sabia que, quando aquele &#244;nibus parasse, deveria entrar, custasse o que custasse. O ve&#237;culo vinha vazio, o motorista tranquilo, assoviando uma m&#250;sica de seresta, mas, mesmo assim, Rubinho pulou porta adentro, passou o cart&#227;o e se sentou no seu lugar preferido: janela, no in&#237;cio do &#244;nibus. Fingiu n&#227;o ouvir o muxoxo nem os olhares atravessados quando uma mulher, quatro vezes o seu tamanho, vestida com um biquinizinho que n&#227;o escondia nenhuma das suas vergonhas, lhe disse, ao entrar: &#8220;vai passar por cima?&#8221;. Rubinho sabia que, se fosse necess&#225;rio, passaria, sim.</p><p>No fone de ouvido tocava algum pagode bem furreca, mas ele s&#243; queria ver o mar. Um mergulho, e ele acreditava que dava para tirar algum vest&#237;gio, sabe-se l&#225; de qu&#234;. Algu&#233;m, por&#233;m, dentro daquele &#244;nibus, sabia exatamente o que Rubinho gostaria de lavar. Das roupas saem as manchas, das m&#227;os tamb&#233;m, mas e do pensamento?</p><p>Dois bancos atr&#225;s, do lado oposto, sentara-se outro rapaz, com os fones desligados e os olhos atentos em Rubinho. Distra&#237;do como sempre, o nosso her&#243;i sequer olhou para tr&#225;s. S&#243; queria chegar &#224; areia de Copacabana e, quanto mais queria chegar, mais lento o motorista parecia andar, demorando em cada ponto da cidade. O outro rapaz comia os dedos, pois as unhas j&#225; n&#227;o existiam mais.</p><p>O &#244;nibus seguia devagar demais para quem tinha pressa e r&#225;pido demais para quem precisava pensar. Rubinho encostou a cabe&#231;a no vidro quente e fechou os olhos sem perceber. N&#227;o foi um sono bonito nem profundo, apenas um cochilo curto, desses que n&#227;o descansam.</p><p>Quando acordou, o &#244;nibus estava quase vazio. As luzes internas j&#225; haviam sido acesas, e o c&#233;u n&#227;o tinha mais aquele azul que promete alguma coisa. Era noite em Copacabana, e a praia aparecia pela janela com poucos sobreviventes: um casal caminhando sem conversar, um homem vendendo cerveja quente, dois cachorros sem dono definido. Nada de areia cheia, nada de gente, nada de alma coletiva para se misturar.</p><p>Rubinho levantou-se num pulo meio atrasado, puxou a canga da mochila e desceu no ponto como quem n&#227;o queria perder a viagem. N&#227;o tinha feito todo aquele esfor&#231;o para voltar para casa seco. Mar &#233; mar em qualquer hor&#225;rio, pensou. Caminhou alguns passos em dire&#231;&#227;o &#224; areia sem olhar para tr&#225;s, convicto de que, naquele dia, ningu&#233;m mais existia al&#233;m dele.</p><p>A m&#227;o pousou pesada no seu ombro esquerdo.</p><p>Rubinho tentou se soltar por reflexo, levantando o ombro como quem espanta mosquito, mas a m&#227;o apertou mais forte. Virou-se j&#225; irritado, pronto para reclamar de qualquer coisa que fosse, mas a cara que encontrou n&#227;o era de conversa. Era a mesma cara suada do &#244;nibus, agora mais perto, com os olhos fundos e a boca marcada de tabaco.</p><p>&#8212; Cad&#234; meu dinheiro?</p><p>Rubinho n&#227;o entendeu de imediato. Ou melhor, entendeu, mas resolveu n&#227;o entender. Disse que n&#227;o sabia do que o outro estava falando, que devia estar confundindo, que nunca tinha visto aquele sujeito na vida. Quando conseguiu se levantar, j&#225; n&#227;o tinha mais pressa nenhuma. Caminhou at&#233; o mar com a camisa grudada no corpo e entrou na &#225;gua como quem cumpre um ritual mal explicado, deixando-se boiar um pouco, sentindo o sal arder nos lugares certos. N&#227;o morreu nem teve revela&#231;&#227;o, mas saiu de l&#225; com a sensa&#231;&#227;o tranquila de quem acredita ter feito o que era certo.</p><p>Afinal, tinha pago um ano inteiro de cursinho para a irm&#227;&#8230; O fato de ela n&#227;o frequentar sequer o ensino m&#233;dio n&#227;o era algo que Rubinho soubesse. Era s&#243; uma dessas coisas que n&#227;o servem para nada, mesmo quando bem-intencionadas, e que o mar, como sempre, n&#227;o resolve.</p><p></p><p><em>Se gostou desse texto, considere se inscrever na newsletter</em></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://annafreire.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/annafreire.substack.com/subscribe"><span>Subscreva agora</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A literatura russa para além de Dostoiévski]]></title><description><![CDATA[Dois outros autores para voc&#234; conhecer a literatura russa com outros olhos]]></description><link>https://annafreire.substack.com/p/literatura-russa-para-alem-de-dostoievski</link><guid isPermaLink="false">https://annafreire.substack.com/p/literatura-russa-para-alem-de-dostoievski</guid><dc:creator><![CDATA[Anna Freire]]></dc:creator><pubDate>Wed, 10 Dec 2025 01:34:26 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/0f462a1e-c8bf-4ce9-a8eb-b4a150ad242d_928x568.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>J&#225; demos um jeito de achar um apelido para Dostoi&#233;vski (Dost&#243;, se n&#227;o sabe) e de encontrar nos russos similaridades que nos fazem l&#234;-los com afinco.</p><p>As pessoas mais aventuradas no mundo das leituras sabem que Dostoi&#233;vski &#233; bom. Se ainda n&#227;o sabem, um dia saber&#227;o. O que elas talvez n&#227;o saibam &#233; que ele n&#227;o &#233; a &#250;nica voz da literatura russa.</p><p>Sim, isso pode parecer evidente para voc&#234;, mas quem chega agora para ler literatura russa geralmente esbarra em <em>Crime e Castigo</em> e, ou desiste, ou diz que n&#227;o gosta. Ou s&#243; n&#227;o l&#234; e emite opini&#227;o baseada em resenha de v&#237;deo de tiktok.</p><p>Em 2018, no segundo ou terceiro per&#237;odo do curso de Letras na UFRJ, um colega me disse: &#8220;<em>Anna, acho que voc&#234; vai gostar desse livro.</em>&#8221; Eu, que quase nunca recuso uma recomenda&#231;&#227;o &#8212; salvo se for autoajuda &#8212;, e que nesse caso n&#227;o recusaria porque o sujeito era inteligente, fui l&#225; e comecei a ler.</p><p>Se voc&#234; j&#225; leu esse livro, sabe que h&#225; diversos momentos em que Rask&#243;lnikov conversa consigo mesmo, num looping de culpa e mania de persegui&#231;&#227;o. Foram justamente esses momentos que eu n&#227;o entendi: eu estava dentro da mente de algu&#233;m que transformava pensamentos corridos em p&#225;ginas inteiras.</p><p>N&#227;o foi uma experi&#234;ncia traum&#225;tica. O que me salvou foi procurar entender como o livro funcionava. Isso fez diferen&#231;a para mim &#8212; e para algumas pessoas que comentam nos meus v&#237;deos do YouTube.</p><p>Isso n&#227;o significa que Dostoi&#233;vski n&#227;o &#233; uma porta de entrada na literatura russa, nem que ele seja dif&#237;cil a ponto de ser ileg&#237;vel.</p><p>Significa apenas que literatura russa n&#227;o se resume a Dostoi&#233;vski. Significa que d&#225; para come&#231;ar na literatura russa mesmo que voc&#234; seja um leitor iniciante ou s&#243; n&#227;o quer ler um livro mais complexo. Vou te mostrar isso com dois livros.</p><p></p><h3>&#8220;Todos n&#243;s sa&#237;mos do <em>Capote</em> de G&#243;gol.&#8221;</h3><p>A frase, atribu&#237;da a Dostoi&#233;vski, deixa clara a import&#226;ncia que G&#243;gol teve n&#227;o s&#243; para ele, mas tamb&#233;m para Tolst&#243;i.</p><p>Aqui, por&#233;m, n&#227;o quero falar de <em>O Capote</em>, mas de <em>Almas Mortas</em>. O livro foi publicado em 1842 e, embora G&#243;gol n&#227;o estivesse morando na R&#250;ssia naquele momento, ele conseguiu traduzir o que o pa&#237;s vivia sob Nicolau I: servid&#227;o plenamente vigente, burocracia sufocante e uma nobreza decadente.</p><p>Essa s&#225;tira conta a hist&#243;ria de Tch&#237;tchikov, n&#227;o exatamente um exemplo de beleza &#8212; com certa pancinha &#8212; que chega a uma cidade russa e rapidamente chama a aten&#231;&#227;o. Ele passa a procurar os latifundi&#225;rios que perderam parte de seus mujiques, mas que ainda precisavam pagar impostos sobre eles. Tch&#237;tchikov v&#234; a&#237; um excelente neg&#243;cio: compra essas &#8220;almas mortas&#8221; e paga um valor que os propriet&#225;rios dificilmente veriam. Por serem neg&#243;cios que beneficiam ambos os lados, eles n&#227;o o denunciam &#8212; e ele segue sua empreitada muito simples: se tornar um homem de posses para que seja bem visto na sociedade e frequente os melhores lugares e as <em>melhores</em> pessoas tamb&#233;m.</p><p>A hist&#243;ria em si j&#225; &#233; interessante, mas a forma como G&#243;gol decide cont&#225;-la &#233; ainda melhor. H&#225; um di&#225;logo direto com o leitor. Ele utiliza a narra&#231;&#227;o onisciente, mas com um narrador intrusivo:</p><blockquote><p>&#8220;Essa opini&#227;o ao seu respeito, bastante lisonjeira para o visitante, estabeleceu-se na cidade, e se manteve at&#233; que uma estranha caracter&#237;stica do visitante e de sua empreitada ou, como dizem nas prov&#237;ncias, de sua passagem, <strong>que o leitor logo ficar&#225; sabendo</strong>, levasse &#224; complexa perplexidade quase toda a cidade.&#8221; [grifos meus]</p></blockquote><p>E justamente por se tratar de uma s&#225;tira, a ironia e o exagero s&#227;o n&#227;o apenas bem-vindos, mas necess&#225;rios para entender aquela sociedade e o motivo de um homem como Tch&#237;tchikov cair nas gra&#231;as de quase toda a cidade. Essa estrutura chama aten&#231;&#227;o para um ponto essencial: n&#227;o se trata de uma hist&#243;ria de intriga tradicional, nem de uma jornada &#233;pica nos moldes do s&#233;culo XIX. O livro &#233; constru&#237;do por epis&#243;dios. Em um deles, por exemplo, Tch&#237;tchikov vai visitar um potencial vendedor de almas mortas e se depara com um sujeito falador, inconveniente, que nada lhe interessa. Mesmo assim, ele segura o impulso de mand&#225;-lo ao inferno, movido apenas pela vontade de concluir seus neg&#243;cios e adquirir mais mujiques mortos.</p><blockquote><p>&#8220;Queria terminar tudo r&#225;pido, sem engavetar nada. Resolveu compor ele mesmo os contratos, redigi-los e copi&#225;-los, para n&#227;o pagar nada aos escriv&#227;es. Ele conhecia o regulamento oficial perfeitamente: com desenvoltura, colocou, em letras grandes: &#8216;ano de mil oitocentos e tanto&#8217;, depois em pequenas: &#8216;eu, latifundi&#225;rio fulano&#8217;, e tudo da forma devida. Em duas horas estava tudo pronto. Ao olhar depois para aquelas folhinhas, para mujiques que outrora tinham sido mujiques de verdade, trabalharam, lavraram, embriagaram-se, atuaram como cocheiros, enganaram o patr&#227;o e, talvez, foram simplesmente bons mujiques, um sentimento estranho e incompreens&#237;vel apossou-se dele. Era como se cada listinha tivesse um <em>car&#225;ter especial</em>, e assim os pr&#243;prios mujiques adquirissem um car&#225;ter particular.&#8221; [grifos meus]</p></blockquote><p>S&#227;o cenas que, isoladas, parecem irrelevantes. Podem at&#233; dar a impress&#227;o de que &#8220;nada acontece&#8221;, se partirmos da l&#243;gica contempor&#226;nea que exige um acontecimento estrondoso em todo cap&#237;tulo. Aqui, &#233; preciso observar os detalhes. Cada propriet&#225;rio visitado por Tch&#237;tchikov &#233; a caricatura de um v&#237;cio: pregui&#231;a, vaidade, ignor&#226;ncia satisfeita, gan&#226;ncia. Talvez por isso P&#250;chkin, ao ler os primeiros cap&#237;tulos, tenha dito: &#8220;Deus, como &#233; triste a nossa R&#250;ssia.&#8221;</p><p><em>Almas Mortas</em> pretendia ser a <em>Divina Com&#233;dia</em> russa. Pelo menos era assim que Gogol imaginava, mas de repente ele entrou em uma crise profunda.  Alguns diziam que ele n&#227;o poderia criticar a R&#250;ssia porque mal vivera l&#225;, tendo passado boa parte da vida na Europa. Assim como acredito que um brasileiro compreende os problemas do Brasil, tamb&#233;m acredito que Gogol conhecia bem as mazelas russas. Se uma na&#231;&#227;o pudesse mudar rapidamente, eu rezaria para que o Brasil recebesse essa d&#225;diva.</p><p>O plano era simples: o primeiro volume seria o Inferno; o segundo, o Purgat&#243;rio &#8212; do qual ele queimou boa parte &#8212;; o terceiro, o Para&#237;so, que nunca foi escrito. Mas o abandono do projeto n&#227;o se deu por incapacidade t&#233;cnica. Na verdade, ao final da vida ele entrou em uma profunda crise e quis trazer para as suas obras uma forma de convers&#227;o espiritual.</p><p></p><h3>Um lugar feio, escuro e vazio.</h3><p>Agora, passando para <em>Enfermaria n&#186; 6</em> e nos afastando da s&#225;tira gogoliana, Anton Tch&#233;khov descreve um hospital provincial com olhos cl&#237;nicos. Aquele lugar &#233; um dep&#243;sito de seres humanos esquecidos pelo mundo. A enfermaria &#233; uma zona de abandono absoluto: sujeira, viol&#234;ncia institucionalizada, brutalidade cotidiana e a sensa&#231;&#227;o permanente de que ningu&#233;m ali &#233; tratado como pessoa.</p><p>O conflito central &#233; filos&#243;fico e &#233;tico. De um lado, Ivan Dmitritch, o paciente que percebe a injusti&#231;a e se recusa a normalizar o absurdo. De outro, o Dr. Ragin, o m&#233;dico-chefe que transforma tudo em abstra&#231;&#227;o, em teoria distante da experi&#234;ncia concreta. Ele utiliza filosofia mal assimilada para justificar sua pr&#243;pria passividade. &#201; assim que Tch&#233;khov mostra que a fronteira entre sanidade e loucura &#233; muito mais estreita do que imaginamos.</p><p>A filosofia de Ragin s&#243; &#233; coerente enquanto ele est&#225; protegido da realidade: um estoicismo de gabinete que prega a aceita&#231;&#227;o do destino, o desprezo pela dor, a indiferen&#231;a &#224;s desigualdades, a vida como acidente sem sentido. Quando o pr&#243;prio Ragin &#233; internado na enfermaria, tudo se revela. Ele perde o controle, entra em desespero, tenta fugir. Sua teoria n&#227;o sustenta uma hora de experi&#234;ncia concreta. A filosofia que repetia era apenas um mecanismo de defesa para n&#227;o agir. Tch&#233;khov antecipa quest&#245;es que depois seriam analisadas por Foucault: hospital como extens&#227;o da pris&#227;o, pris&#227;o como extens&#227;o do hospital, institui&#231;&#245;es que n&#227;o curam nem protegem &#8212; apenas mant&#234;m.</p><p>A frieza narrativa &#233; m&#233;todo. Tch&#233;khov n&#227;o oferece solu&#231;&#227;o, reforma, den&#250;ncia inflam&#225;vel ou esperan&#231;a. Ele descreve. Observa a fal&#234;ncia &#233;tica de uma comunidade inteira e deixa o leitor lidar com isso sem amortecedor liter&#225;rio. O conto &#233; seco porque o mundo retratado &#233; seco. E &#233; exatamente essa secura que produz o desconforto.</p><p>Os dois livros  mostram duas faces da R&#250;ssia que raramente aparecem quando s&#243; se fala do mesmo autor de sempre. </p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Crônicas de um homem apavorado]]></title><description><![CDATA[A hist&#243;ria de um homem que nunca aprendeu a enfrentar nem a pr&#243;pria vida.]]></description><link>https://annafreire.substack.com/p/cronicas-de-um-homem-apavorado</link><guid isPermaLink="false">https://annafreire.substack.com/p/cronicas-de-um-homem-apavorado</guid><dc:creator><![CDATA[Anna Freire]]></dc:creator><pubDate>Tue, 18 Nov 2025 10:10:39 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/600a9d4f-0478-4cc8-a26e-0197a603b018_315x420.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Combinei de encontrar um amigo num bar do centro.</p><p>&#8220;V&#225; no mais <em>p&#233; rapado</em> poss&#237;vel! Eu quero encher minha cara e n&#227;o tenho muito dinheiro&#8221;.</p><p>Tinha brigado com a mulher e, pelo que disse, at&#233; apanhado. Pegou uma mulher braba que n&#227;o aceita desaforo e muito menos homem com mais de uma mulher.</p><p>&#8220;Ou voc&#234; anda na linha ou eu te coloco nela.&#8221;</p><p>Ele se endireitou. Largou a maluca da Barra, nem se atrevia a passar l&#225; para n&#227;o ficar com vontade. A paz reinou no seu lar.</p><p>Mas a sua esposa nunca mais foi a mesma. Aparentemente, nem ele.</p><p>Ficou com pavor de apanhar. Traumatizado a ponto de a mulher levantar o bra&#231;o para pegar algo no arm&#225;rio, ele se abaixar e pedir miseric&#243;rdia.</p><p>Cheguei cedo no bar, ainda estavam limpando a bagun&#231;a da noite anterior, ent&#227;o tudo tinha um cheiro de urina e v&#244;mito, um eterno carnaval.</p><p>Pedi uma long neck, gelada, num copo igualmente gelado. Mal dava o primeiro gole e o meu amigo moribundo chegou. Barba rala, olhos fundos, camiseta amassada e um cigarro no canto da boca.</p><p>&#8212; Traga um copo para esse desgra&#231;ado aqui &#8212; eu pedi, erguendo o bra&#231;o e apontando para ele &#8212; Quando que essa autoflagela&#231;&#227;o vai parar? &#8212; voltei o meu olhar para ele</p><p>Ele se encolheu na cadeira e eu suspirei fundo. H&#225; 20 anos, no ensino m&#233;dio, est&#225;vamos na mesm&#237;ssima situa&#231;&#227;o.</p><p>Ele com medo de dizer que gostava da loirinha da nossa sala. A menina n&#227;o tinha nada demais, mas o fato de nos olhar de cima abaixo fazia-o arrepiar de medo.</p><p>Ele pensou tanto sobre o assunto, acho que foi metade do ano, que quando resolveu falar a loirinha estava beijando outro.</p><p>&#8212; E eu n&#227;o sei o que fazer! Quando ela arregala aqueles olhos azuis, que eu tanto gostava, me enche de pavor.</p><p>&#8212; Voc&#234; tem medo de tudo. Voc&#234; lembra do dia da fechadura? &#8212; perguntei terminando o primeiro copo</p><p>&#8212; Eu &#233; que n&#227;o seria o primeiro a abrir a porta, oras! Se tivesse uma bomba ali prestes a explodir com o ranger da dobradi&#231;a?</p><p>&#8212; J&#225; terminou de ler todos os livros de Sherlock Holmes?</p><p>&#8212; Preste aten&#231;&#227;o! Ela disse que vai me matar. &#8212; ele falou baixo, sentando na ponta da cadeira</p><p>&#8212; E o que voc&#234; disse? Ali&#225;s, foi antes de ela de perdoar, n&#227;o?</p><p>&#8212; N&#227;o interessa! Ela ainda est&#225; com &#243;dio&#8230;</p><p>&#8212; Voc&#234;s conversaram? Agora, &#233; deixar o tempo passar &#8212; declarei</p><p>&#8212; Eu apanhei. Fiquei ajoelhado no milho. Rezei 10 ave-marias.</p><p>&#8212; Ajoelhado no milho? &#8212; repeti, rindo &#8212; Voc&#234; &#233; frouxo demais! Se d&#234; o respeito.</p><p>&#8212; Queria ver se fosse voc&#234; com uma faca no pesco&#231;o &#8212; falou, encostando na cadeira.</p><p>Ficamos em sil&#234;ncio por um longo tempo. Um gole de cerveja. Mastiga&#231;&#227;o de batatas fritas cheias de &#243;leo.</p><p>L&#225; pelas tentas, ele com um aspecto incrivelmente mais v&#237;vido e &#233;brio, se despediu de mim sem dizer tchau. Acendeu mais um cigarro e pulou no bonde em movimento.</p><p>Eu andei mais uns quil&#244;metros sem coragem de ir para casa.</p><p>Aquela tarde foi a &#250;ltima vez que vi o meu amigo. Num ato de coragem &#250;nico, saiu escondido e &#224;s pressas de casa, comprou um bilhete para <em>sabe-se l&#225; onde</em> e largou a mulher. Mas n&#227;o sei antes tomar um safan&#227;o por ter ido beber em plena quarta-feira.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Ler apenas os clássicos não te faz mais inteligente]]></title><description><![CDATA[Ler o presente protege sua sanidade]]></description><link>https://annafreire.substack.com/p/ler-apenas-os-classicos-nao-te-faz</link><guid isPermaLink="false">https://annafreire.substack.com/p/ler-apenas-os-classicos-nao-te-faz</guid><dc:creator><![CDATA[Anna Freire]]></dc:creator><pubDate>Sat, 05 Jul 2025 13:01:59 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/ad45c89a-f90f-4488-897d-1a2ad693d97d_1280x720.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div id="youtube2-r-8JvKfoipc" class="youtube-wrap" data-attrs="{&quot;videoId&quot;:&quot;r-8JvKfoipc&quot;,&quot;startTime&quot;:null,&quot;endTime&quot;:null}" data-component-name="Youtube2ToDOM"><div class="youtube-inner"><iframe src="https://www.youtube-nocookie.com/embed/r-8JvKfoipc?rel=0&amp;autoplay=0&amp;showinfo=0&amp;enablejsapi=0" frameborder="0" loading="lazy" gesture="media" allow="autoplay; fullscreen" allowautoplay="true" allowfullscreen="true" width="728" height="409"></iframe></div></div><p></p><h1><strong>Ler o presente &#233; um ato de rebeldia.</strong></h1><p>Rebeldia porque quem sabe ler o presente n&#227;o se deixa levar pelo hype, pelas tend&#234;ncias nem pelos algoritmos.</p><p>Ser diferente hoje &#233; quase uma aberra&#231;&#227;o para o sistema.</p><p>O ser humano sabe se adaptar muito bem. </p><p>No meio do caos, do ru&#237;do, das guerras, dos terremotos, dos del&#237;rios e das doen&#231;as&#8230; <strong>no meio disso tudo aprendemos a viver nossa vida com relativa normalidade.</strong></p><h3>Mas o que &#233; comum n&#227;o &#233; normal.</h3><p>N&#227;o &#233; normal acordar todo dia com o cora&#231;&#227;o pesado pelo cansa&#231;o de viver.</p><p>N&#227;o &#233; normal tratar os livros como indicadores de performance, como se f&#244;ssemos m&#225;quinas que s&#243; engolem p&#225;ginas e vomitam discursos prontos recheados de clich&#234;s.</p><p>N&#227;o &#233; normal parar de sentir nossa humanidade em troca de alguns likes, nem ter que falar o &#243;bvio uma e outra vez, mas algu&#233;m tem que ler o presente. Algu&#233;m tem que ser esse rebelde.</p><div class="pullquote"><p>A not&#237;cia boa? N&#227;o &#233; complicado ser esse algu&#233;m.</p></div><p>Voc&#234; pode (e deve) recuperar a normalidade e o sentido da sua vida. Encontrar paz no caos. Ter um olhar fixo no presente, para perceber, n&#227;o as luzes, mas a escurid&#227;o que nos permeia.</p><p><strong>Ler o presente exige coragem.</strong></p><p>Por isso, dentro da segunda temporada do Clube Leituras Em S&#233;rie iremos abordar o tema da CONTEMPORANEIDADE atrav&#233;s de 4 livros <strong>sobre pessoas comuns, como voc&#234; e eu, tentando existir com lucidez em mundos que as querem surdas, cegas e anestesiadas.</strong></p><ul><li><p>Vamos ler <em>A Amiga Genial, </em>da Elena Ferrante, que retrata duas meninas crescendo num lugar que sufoca quem pensa demais. Um retrato brutal e &#237;ntimo da amizade, da ambi&#231;&#227;o e do que significa ser mulher <strong>num mundo que te quer menor.</strong></p></li><li><p>Vamos ler <em>Federico Luar no Copacabana Place, </em>do Alexandre Soares Silva, um livro que se passa nos anos 20 carioca, <strong>mas com cheiro de Brasil atual:</strong> fam&#237;lias poderosas, amizades oportunistas e n&#243;s observamos tudo isso pela &#243;tica de um d&#226;ndi brasileiro.</p></li><li><p>Vamos ler <em>Uma Negra Com&#233;dia</em>, do F&#225;bio Gon&#231;alves, um livro que retrata a masculinidade, o amor e o ressentimento <strong>sem ser previs&#237;vel</strong>, em um Brasil urbano e afogado em si mesmo.</p></li><li><p>E vamos ler 1Q84, de Haruki Murakami, onde acompanhamos dois personagens solit&#225;rios vivem em mundos paralelos &#8212; quase id&#234;nticos ao nosso, mas com algo profundamente errado. Um romance sobre amor, mem&#243;ria e a estranheza de estar vivo no presente.</p></li></ul><div class="pullquote"><p>Estes 4 livros nos ajudar&#227;o a lidar com realidades que <br>se dobram ou rompem por dentro.</p></div><p>Nos ajudar&#227;o a pensar por conta pr&#243;pria, mesmo sendo um gesto de rebeldia contra o algoritmo.</p><p>Nos ajudar&#227;o a entender que nem toda leitura precisa performar. Algumas leituras existem para expandir e abrir espa&#231;o a novas possibilidades.</p><p>Ser contempor&#226;neo &#233; ser l&#250;cido, &#233; encontrar paz no caos, &#233; ler o presente com inten&#231;&#227;o e senso cr&#237;tico.</p><p>E se nunca leu antes na vida, n&#227;o se preocupe. Voc&#234; n&#227;o precisa entender tudo. S&#243; precisa estar disposto a ler com verdade.</p><p>Dentro do clube, a gente cuida do resto.</p><p><a href="https://bit.ly/grupo-anna-freire">Para saber mais, entre no grupo gratuito tocando neste link aqui.</a></p><div><hr></div><p>No dia 11.07.25 iremos abrir as portas do Clube. Em breve trarei mais detalhes para quem quiser participar, mas quem est&#225; no grupo gratuito ter&#225; mais vantagens.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O que Madame Bovary e um livro de produtividade têm em comum?]]></title><description><![CDATA[A semelhan&#231;a &#233; maior do que voc&#234; imagina]]></description><link>https://annafreire.substack.com/p/o-que-madame-bovary-e-um-livro-de</link><guid isPermaLink="false">https://annafreire.substack.com/p/o-que-madame-bovary-e-um-livro-de</guid><dc:creator><![CDATA[Anna Freire]]></dc:creator><pubDate>Mon, 23 Jun 2025 22:00:33 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/72a67c8c-a75b-47e8-91e4-c9754a2cae93_736x981.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>&#192; primeira vista, <em>Madame Bovary</em> e um manual de produtividade sobre <em>Ultraaprendizado</em> parecem habitar planetas diferentes. De um lado, uma mulher entediada no interior da Fran&#231;a, afundada em fantasias rom&#226;nticas e frustra&#231;&#245;es dom&#233;sticas. Do outro, um livro que promete te ensinar como aprender qualquer coisa em tempo recorde.</p><p>Um fala de desejo. O outro, de m&#233;todo. Um &#233; pura est&#233;tica. O outro, pura utilidade. Mas, para quem l&#234; com aten&#231;&#227;o, os dois fazem a mesma pergunta: <strong>o que voc&#234; vai fazer com isso?</strong></p><h2><strong>Ler n&#227;o &#233; s&#243; passar os olhos pelas palavras. &#201; se deixar afetar por elas.</strong></h2><p>Mesmo quando a inten&#231;&#227;o &#233; aprender algo pr&#225;tico &#8212; como montar um plano de estudos &#8212;, existe uma camada subjetiva que escapa da instru&#231;&#227;o e entra no campo da experi&#234;ncia. Quando um livro te ensina algo, ele est&#225;, antes de tudo, te propondo uma forma de ver o mundo. E isso vale tanto para <em>Ultraaprendizado</em>, do Scott Young, quanto para o romance do Flaubert.</p><p>Em <em>Ultraaprendizado</em>, aprendemos a pensar o estudo como projeto. H&#225; estrat&#233;gia, esfor&#231;o deliberado, organiza&#231;&#227;o. Mas, ao ler esse tipo de livro, &#233; comum parar no meio e pensar: &#8220;T&#225;, mas isso serve para mim?&#8221; Ou melhor: &#8220;O que eu posso fazer com isso agora?&#8221;</p><p>Falei um pouco mais disso no v&#237;deo aqui:</p><div id="youtube2-RylP8J9pQvk" class="youtube-wrap" data-attrs="{&quot;videoId&quot;:&quot;RylP8J9pQvk&quot;,&quot;startTime&quot;:null,&quot;endTime&quot;:null}" data-component-name="Youtube2ToDOM"><div class="youtube-inner"><iframe src="https://www.youtube-nocookie.com/embed/RylP8J9pQvk?rel=0&amp;autoplay=0&amp;showinfo=0&amp;enablejsapi=0" frameborder="0" loading="lazy" gesture="media" allow="autoplay; fullscreen" allowautoplay="true" allowfullscreen="true" width="728" height="409"></iframe></div></div><p>&#192;s vezes, a resposta vem r&#225;pido na forma de um insight, uma t&#233;cnica, um plano de a&#231;&#227;o. Outras vezes, ela demora. E tudo bem. Porque nem toda resposta &#233; imediata. &#192;s vezes, a gente precisa de tempo para transformar uma ideia em pr&#225;tica.</p><p>E o mesmo vale para a fic&#231;&#227;o. Quando Ema Bovary se pergunta por que o amor n&#227;o &#233; como nos livros, o leitor atento tamb&#233;m se pergunta:</p><ul><li><p>Por que eu espero que a vida seja como imaginei?</p></li><li><p>Por que me frustro quando as coisas reais n&#227;o se parecem com os meus planos?</p></li><li><p>Por que&#8230; <em>complete voc&#234; a pergunta</em>.</p></li></ul><h2><strong>Aqui est&#225; o ponto: a fic&#231;&#227;o n&#227;o &#233; o oposto da pr&#225;tica.</strong></h2><p>Ela &#233; uma forma mais sofisticada de pr&#225;tica &#8212; uma que treina o olhar, a escuta, a empatia. Que nos prepara, n&#227;o para repetir uma t&#233;cnica, mas para reconhecer quando uma escolha se repete. Quando um padr&#227;o se revela. Quando o desejo atrapalha a realidade, ou quando a expectativa distorce o presente.</p><p>Ler sobre Ema n&#227;o vai te ensinar a montar um cronograma. Mas talvez te ajude a perceber por que voc&#234; abandona tantos. Talvez te ajude a entender que n&#227;o &#233; s&#243; quest&#227;o de disciplina, mas de desejo mal canalizado. De um impulso por novidade, por intensidade, por recompensa imediata &#8212; o mesmo que move Ema, de certo modo.</p><p>No fim, tanto um livro de produtividade quanto um romance cl&#225;ssico pedem o mesmo do leitor: aten&#231;&#227;o. N&#227;o s&#243; ao que est&#225; sendo dito, mas ao modo como isso ressoa em voc&#234;. A diferen&#231;a &#233; que um entrega ferramentas. O outro, espelhos.</p><p>Ambos podem ser &#250;teis. Desde que voc&#234; esteja com os ouvidos atentos e pare para a escutar.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://annafreire.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Entre aqui, n&#8217;O Poderoso Text&#227;o, e receba e-mails exclusivos na sua caixa de entrada!</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Como saber se um livro realmente te tocou?]]></title><description><![CDATA[Dica: quando voc&#234; consegue responder uma pergunta simples]]></description><link>https://annafreire.substack.com/p/como-saber-se-um-livro-realmente</link><guid isPermaLink="false">https://annafreire.substack.com/p/como-saber-se-um-livro-realmente</guid><dc:creator><![CDATA[Anna Freire]]></dc:creator><pubDate>Mon, 16 Jun 2025 15:44:16 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/92e644fd-358d-4675-be23-41fe89d88a3e_638x960.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Existe um momento &#8212; silencioso, quase impercept&#237;vel &#8212; em que um livro deixa de ser apenas uma hist&#243;ria e se transforma em alguma coisa a mais. Pode ser uma frase. Um gesto de personagem. Uma sensa&#231;&#227;o inc&#244;moda que n&#227;o vai embora. Pode ser um trecho que parece ter sido escrito ontem, sobre voc&#234;, por algu&#233;m que nunca te conheceu. &#201; nesse momento que o livro te toca.</p><p><strong>Mas como saber se isso aconteceu mesmo?</strong></p><p>Mortimer Adler, no cl&#225;ssico <em>Como Ler Livros</em>, prop&#245;e quatro perguntas que transformam a forma como nos relacionamos com a leitura. A &#250;ltima delas &#233;, de longe, a mais dif&#237;cil: <em>E da&#237;?</em></p><p>Parece simples, mas n&#227;o &#233;. Porque essa pergunta nos puxa para fora do livro. E exige que a gente olhe para o que ficou.</p><ul><li><p>O que mudou depois da leitura?</p></li><li><p>Que ideia ficou ressoando?</p></li><li><p>Que cena voc&#234; n&#227;o consegue esquecer?</p></li><li><p>O que essa hist&#243;ria significou para voc&#234; agora?</p></li></ul><h2><strong>Responder &#8220;e da&#237;?&#8221; &#233; um exerc&#237;cio de consci&#234;ncia.</strong></h2><p>E &#233; isso que torna a leitura mais rica: a chance de transformar o que lemos em algo que nos acompanha. Um olhar mais atento. Um pensamento novo. Uma pergunta que n&#227;o t&#237;nhamos feito ainda.</p><p>E aqui est&#225; a boa not&#237;cia: esse tipo de leitura n&#227;o &#233; privil&#233;gio de quem estudou Letras ou l&#234; cem livros por ano. Ela est&#225; ao alcance de qualquer pessoa que esteja disposta a prestar aten&#231;&#227;o. Que n&#227;o corra da d&#250;vida. Que goste de pensar junto com o texto, e n&#227;o apenas sobre ele.</p><p>N&#227;o &#233; sobre tornar a leitura um dever. &#201; sobre descobrir que ela pode ser mais do que distra&#231;&#227;o. Pode ser descanso, pode ser companhia &#8212; mas tamb&#233;m pode ser crescimento.</p><p>Pode te dar palavras que faltavam. Pode mudar a maneira como voc&#234; enxerga uma situa&#231;&#227;o, uma pessoa, at&#233; a si mesmo.</p><p>Por isso, da pr&#243;xima vez que fechar um livro, respira.</p><p>Espera.</p><p>N&#227;o se apresse a dar um veredito. Em vez de &#8220;gostei&#8221; ou &#8220;n&#227;o gostei&#8221;, tenta perguntar: <strong>e da&#237;?</strong></p><p><strong>Se vier uma resposta, &#243;timo</strong>.</p><p>Se vier uma pergunta, melhor ainda.</p><p>Porque talvez seja isso que fa&#231;a de n&#243;s leitores melhores: n&#227;o os que correm para o pr&#243;ximo livro, mas os que sabem reconhecer quando um livro ainda est&#225; acontecendo por dentro.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Dostoiévski não é difícil. Ele só não entrega tudo pronto.]]></title><description><![CDATA[E isso j&#225; &#233; um al&#237;vio.]]></description><link>https://annafreire.substack.com/p/dostoievski-nao-e-dificil-ele-so</link><guid isPermaLink="false">https://annafreire.substack.com/p/dostoievski-nao-e-dificil-ele-so</guid><dc:creator><![CDATA[Anna Freire]]></dc:creator><pubDate>Wed, 11 Jun 2025 22:00:36 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/beafc560-2158-4ba1-9383-ce87f9b938c7_736x920.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>N&#227;o julgo quem sentir que ler Dostoi&#233;vski causa um certo desconforto. N&#227;o &#233; que o texto seja herm&#233;tico, nem que ele escreva palavras complicadas.</p><p>&#201; outra coisa. </p><p>Um tipo de inc&#244;modo que aparece quando o livro n&#227;o faz quest&#227;o de te guiar pela m&#227;o.</p><p>Em outras palavras: o livro confia em voc&#234;.</p><p>Voc&#234; est&#225; ali, tentando entender por que um personagem age de determinada maneira &#8212; e n&#227;o h&#225; nenhuma narra&#231;&#227;o explicando que ele est&#225; com medo, com ci&#250;mes, com culpa.</p><p>S&#243; h&#225; a a&#231;&#227;o. Um gesto contido. Um pensamento entrecortado. Um olhar que n&#227;o se sustenta.</p><p>Dostoi&#233;vski escreve assim: deixando espa&#231;os. E talvez seja por isso que ele pare&#231;a, &#224; primeira vista, &#8220;dif&#237;cil&#8221;.</p><p>N&#227;o porque seja incompreens&#237;vel, mas porque exige uma escuta diferente. Um outro ritmo.</p><p>&#201; como conversar com algu&#233;m que n&#227;o se apressa para concluir uma ideia. Que faz pausas longas. Que muda de assunto e depois volta &#8212; e que te deixa com a sensa&#231;&#227;o de que ali tem mais coisa, mesmo quando n&#227;o est&#225; tudo dito.</p><p>A gente est&#225; acostumado a livros que j&#225; v&#234;m com legenda: &#8220;essa personagem &#233; forte&#8221;, &#8220;esse relacionamento &#233; abusivo&#8221;, &#8220;essa hist&#243;ria &#233; sobre supera&#231;&#227;o&#8221;. Quando aparece um autor que n&#227;o explica, s&#243; mostra &#8212; a gente estranha. Mas tamb&#233;m respira. Porque tem algo de muito bom em ser tratado como algu&#233;m capaz de perceber nuances.</p><p>Nos livros dele, os personagens n&#227;o s&#227;o estere&#243;tipos. S&#227;o pessoas. E como pessoas, eles erram, repetem erro, falam o que n&#227;o sentem, sentem o que n&#227;o sabem nomear. &#192;s vezes parecem incoerentes. &#192;s vezes, s&#227;o.</p><div><hr></div><p><strong>&#128073; Neste v&#237;deo aqui, eu falo sobre como Dostoi&#233;vski escreve e por que essa &#8220;dificuldade&#8221; &#233;, na verdade, um presente para quem l&#234; com aten&#231;&#227;o.</strong></p><div id="youtube2-upDP7pti0k0" class="youtube-wrap" data-attrs="{&quot;videoId&quot;:&quot;upDP7pti0k0&quot;,&quot;startTime&quot;:null,&quot;endTime&quot;:null}" data-component-name="Youtube2ToDOM"><div class="youtube-inner"><iframe src="https://www.youtube-nocookie.com/embed/upDP7pti0k0?rel=0&amp;autoplay=0&amp;showinfo=0&amp;enablejsapi=0" frameborder="0" loading="lazy" gesture="media" allow="autoplay; fullscreen" allowautoplay="true" allowfullscreen="true" width="728" height="409"></iframe></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Por que livros ruins vendem tanto?]]></title><description><![CDATA[Uma hist&#243;ria rasa, um marketing esperto, e pronto: um best-seller.]]></description><link>https://annafreire.substack.com/p/por-que-livros-ruins-vendem-tanto</link><guid isPermaLink="false">https://annafreire.substack.com/p/por-que-livros-ruins-vendem-tanto</guid><dc:creator><![CDATA[Anna Freire]]></dc:creator><pubDate>Sat, 07 Jun 2025 23:00:33 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/8675eb81-4ef0-43ae-a51c-76a094629d6d_736x736.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Tem gente que tenta responder isso com um suspiro: &#8220;ah, o mundo est&#225; perdido&#8221;. Tem gente que culpa o leitor. E tem quem diga que n&#227;o existe isso de &#8220;livro ruim&#8221;, que tudo &#233; quest&#227;o de gosto.</p><p>Mas a pergunta continua ecoando: por que livros mal escritos, com personagens fr&#225;geis, tramas frouxas e linguagem empobrecida vendem tanto &#8212; e continuam sendo celebrados?</p><p>A resposta passa por v&#225;rios caminhos: mercado, algoritmo, tempo, vaidade. Mas talvez o mais inc&#244;modo deles seja outro: a leitura, hoje, virou tamb&#233;m uma performance.</p><h1><strong>O livro como produto de impacto r&#225;pido</strong></h1><p>Antes de qualquer coisa: n&#227;o &#233; pecado gostar de best-seller. Voc&#234; pode gostar de Crep&#250;sculo e de Tolst&#243;i. De Colin Hoover e de Dostoi&#233;vski. N&#227;o &#233; sobre fazer uma patrulha do gosto &#8212; &#233; sobre entender o que est&#225; sendo vendido como literatura. E por qu&#234;.</p><p>Muitos dos t&#237;tulos que dominam listas de mais vendidos t&#234;m algo em comum: s&#227;o livros pensados para virar frases de efeito. Di&#225;logos que rendem print. Cenas que parecem feitas para o TikTok. Ganchos emocionais imediatos. Nenhuma complexidade de linguagem. Nenhuma exig&#234;ncia de interpreta&#231;&#227;o.</p><h2><strong>&#201; uma escrita constru&#237;da para impactar, n&#227;o para reverberar.</strong></h2><p>E quando um livro se molda inteiramente ao ritmo das redes, ele precisa ser &#225;gil, emocional, carregado de drama e facilmente compartilh&#225;vel.<br> Mas o problema n&#227;o &#233; ser acess&#237;vel. O problema &#233; ser raso.</p><h1><strong>Narrativas formatadas, personagens descart&#225;veis</strong></h1><p>Em muitos best-sellers, o leitor n&#227;o &#233; tratado como c&#250;mplice &#8212; mas como algu&#233;m que precisa ser guiado pela m&#227;o, o tempo inteiro.</p><p>O personagem j&#225; aparece com tr&#234;s adjetivos de cara.</p><p>Forte. Sens&#237;vel. Corajosa.</p><p>E o resto do livro &#233; o autor tentando provar aquilo que j&#225; afirmou &#8212; como se o leitor n&#227;o fosse capaz de perceber por conta pr&#243;pria.</p><h2><strong>Repito essa ideia nesta newsletter sobre Anna Kari&#234;nina</strong></h2><p></p><div class="digest-post-embed" data-attrs="{&quot;nodeId&quot;:&quot;cbbeda0d-84f5-4633-941c-9b5b55ed2df3&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;Voc&#234; sabe que est&#225; diante de uma grande personagem quando, depois de cem p&#225;ginas, ainda n&#227;o consegue descrev&#234;-la em uma frase &#8212; mas sabe exatamente quem ela &#233;. Sente que poderia reconhec&#234;-la se a visse num caf&#233;. Sabe como ela se sentaria. O que observaria. O que esconderia.&quot;,&quot;cta&quot;:&quot;Read full story&quot;,&quot;showBylines&quot;:true,&quot;showDescription&quot;:true,&quot;showImage&quot;:true,&quot;size&quot;:&quot;md&quot;,&quot;isEditorNode&quot;:true,&quot;title&quot;:&quot;A personagem que ningu&#233;m descreve, mas todo mundo reconhece&quot;,&quot;publishedBylines&quot;:[{&quot;id&quot;:55134865,&quot;name&quot;:&quot;Anna Freire&quot;,&quot;bio&quot;:&quot;quem escreve O Poderoso Text&#227;o e &#233; p&#233;ssima em matem&#225;tica.&quot;,&quot;photo_url&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/ed2bb159-3ffc-47c3-ac0a-6dc0fcc0a362_3024x3024.jpeg&quot;,&quot;is_guest&quot;:false,&quot;bestseller_tier&quot;:null}],&quot;post_date&quot;:&quot;2025-05-19T22:30:27.580Z&quot;,&quot;cover_image&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F55d6e3c8-7fb2-4ce4-af1b-98905660cc7d_666x1000.png&quot;,&quot;cover_image_alt&quot;:null,&quot;canonical_url&quot;:&quot;https://annafreire.substack.com/p/a-personagem-que-ninguem-descreve&quot;,&quot;section_name&quot;:null,&quot;video_upload_id&quot;:null,&quot;id&quot;:163466637,&quot;type&quot;:&quot;newsletter&quot;,&quot;reaction_count&quot;:5,&quot;comment_count&quot;:0,&quot;publication_id&quot;:null,&quot;publication_name&quot;:&quot;O Poderoso Text&#227;o&quot;,&quot;publication_logo_url&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2c308999-fbb3-4129-89ba-a8659c4fe8fc_256x256.png&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;youtube_url&quot;:null,&quot;show_links&quot;:null,&quot;feed_url&quot;:null}"></div><p></p><p>N&#227;o h&#225; espa&#231;o para constru&#231;&#227;o.</p><p>O personagem n&#227;o se revela por a&#231;&#245;es, contradi&#231;&#245;es, sil&#234;ncios. Ele &#233; anunciado. Rotulado. Carimbado.</p><p>A narrativa n&#227;o sugere. Explica. Reexplica. Sublinha.</p><p>Tudo &#233; entregue mastigado, pronto para o consumo &#8212; como se o leitor n&#227;o suportasse a ambiguidade, o subentendido, a lacuna.</p><p>O enredo, por sua vez, se organiza em torno de gatilhos f&#225;ceis: trauma, romance, briga, reconcilia&#231;&#227;o. N&#227;o h&#225; tempo para respirar, nem margem para interpretar. <strong>O livro n&#227;o quer que voc&#234; pense. Quer que voc&#234; sinta &#8212; e vire a p&#225;gina.</strong></p><p>O resultado &#233; um texto que n&#227;o desafia. N&#227;o prop&#245;e. S&#243; confirma o que voc&#234; j&#225; sabia. Porque, no fundo, o autor n&#227;o confia em voc&#234;. N&#227;o acha que voc&#234; d&#225; conta de montar o quebra-cabe&#231;a. Ent&#227;o ele entrega tudo pronto.</p><p>S&#243; que literatura que se explica o tempo todo... n&#227;o dura.</p><h1><strong>A l&#243;gica da valida&#231;&#227;o</strong></h1><p>Muita gente l&#234; hoje com uma c&#226;mera imagin&#225;ria ligada. A leitura virou parte do branding pessoal.</p><p>Voc&#234; posta a capa do livro, marca que est&#225; na metade, solta um coment&#225;rio que provoque engajamento e, claro, a avalia&#231;&#227;o de 1 a 5.</p><p>A leitura vira imagem. Opini&#227;o vira moeda social. E, nesse cen&#225;rio, o livro mais lido nem sempre &#233; o mais marcante. &#201; o mais coment&#225;vel.</p><p>E o mercado entendeu isso.</p><p>Editoras passaram a escolher livros n&#227;o s&#243; pelo conte&#250;do, mas pelo potencial de virar tend&#234;ncia. Livros que j&#225; v&#234;m com uma fanbase. Que t&#234;m cara de adapta&#231;&#227;o para s&#233;rie. Que podem ser resenhados em um v&#237;deo de 30 segundos. A obra n&#227;o precisa ser boa. Precisa gerar barulho.</p><h3><strong>Mas o que &#233; &#8220;bom&#8221;, afinal?</strong></h3><p>&#8220;Bom&#8221;, aqui, n&#227;o &#233; sin&#244;nimo de dif&#237;cil. Nem de cl&#225;ssico. Um livro pode ser bom sendo leve. Pode ser bom sendo simples.</p><p>Clarice Lispector &#233; boa. Mas <em>Extraordin&#225;rio</em>, da R. J. Palacio, tamb&#233;m &#233;. Machado de Assis &#233; bom. Mas <em>O Pequeno Pr&#237;ncipe</em> tamb&#233;m &#233;.</p><p>O que torna um livro bom n&#227;o &#233; a fama, nem o tema. &#201; a constru&#231;&#227;o. &#201; a coer&#234;ncia interna. A consist&#234;ncia emocional. A honestidade na escrita. O espa&#231;o que ele oferece ao leitor para pensar, sentir, interpretar. Um livro pode ser direto sem ser raso. Pode ser acess&#237;vel sem ser med&#237;ocre Mas quando a prioridade vira &#8220;bombar no TikTok&#8221;, muita coisa se perde. O livro n&#227;o precisa ser lido &#8212; precisa ser vendido.</p><p>Acredito que h&#225; um risco s&#233;rio quando a leitura vira s&#243; performance. A gente para de buscar o que nos transforma &#8212; e come&#231;a a procurar o que nos enfeita.</p><p>E quem escreve tamb&#233;m sente isso. Sente que precisa produzir uma hist&#243;ria com reviravoltas a cada cap&#237;tulo. Que precisa criar personagens que cabem em camiseta. Que precisa terminar o livro com uma moral bem expl&#237;cita &#8212; de prefer&#234;ncia, sublinhada.</p><p>Mas a literatura nunca foi feita para ser consumida assim. Ela n&#227;o quer a sua pressa. N&#227;o se adapta ao seu feed. Ela pede tempo. Exige pausa. E, acima de tudo, confia no leitor.</p><p>Porque um bom livro n&#227;o te serve respostas. Ele te devolve perguntas. E talvez, por isso mesmo, venda menos.</p><p>Mas permanece.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://annafreire.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Se inscreva no blog &#8220;O Poderoso Text&#227;o&#8221;</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><div><hr></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Kafka escreveu sobre um inseto — mas falou sobre a gente]]></title><description><![CDATA[Quando Gregor Samsa acorda transformado, a rea&#231;&#227;o da fam&#237;lia revela mais que mil di&#225;logos.]]></description><link>https://annafreire.substack.com/p/kafka-escreveu-sobre-um-inseto-mas</link><guid isPermaLink="false">https://annafreire.substack.com/p/kafka-escreveu-sobre-um-inseto-mas</guid><dc:creator><![CDATA[Anna Freire]]></dc:creator><pubDate>Fri, 23 May 2025 22:30:10 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!cWxu!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F16452034-8fb0-479f-adca-af86920cbdc6_512x358.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Voc&#234; pode achar absurdo: um homem que vira um inseto da noite para o dia. Mas o que realmente perturba em <em>A Metamorfose</em> n&#227;o &#233; o imposs&#237;vel &#8212; &#233; o que h&#225; de mais poss&#237;vel ali. O que nos prende ao conto de Kafka n&#227;o &#233; a casca grossa, nem as patinhas tremulando no ar. &#201; a forma como as pessoas ao redor de Gregor lidam com sua transforma&#231;&#227;o. E, principalmente, com sua inutilidade.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!cWxu!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F16452034-8fb0-479f-adca-af86920cbdc6_512x358.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!cWxu!, /__u/annafreire.substack.com/w_424, /__u/annafreire.substack.com/c_limit, /__u/annafreire.substack.com/f_webp, /__u/annafreire.substack.com/q_auto:good, /__u/annafreire.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F16452034-8fb0-479f-adca-af86920cbdc6_512x358.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!cWxu!, /__u/annafreire.substack.com/w_848, /__u/annafreire.substack.com/c_limit, /__u/annafreire.substack.com/f_webp, 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src="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!cWxu!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F16452034-8fb0-479f-adca-af86920cbdc6_512x358.png" width="512" height="358" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/16452034-8fb0-479f-adca-af86920cbdc6_512x358.png&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:358,&quot;width&quot;:512,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:null,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:null,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!cWxu!, /__u/annafreire.substack.com/w_424, /__u/annafreire.substack.com/c_limit, 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Tinha um emprego que detestava, mas o carregava como um dever moral, sustentando pai, m&#227;e e irm&#227;. Trabalhava para que os outros n&#227;o precisassem trabalhar.</p><p>Quando acorda em forma de inseto, sua primeira preocupa&#231;&#227;o n&#227;o &#233; com o que aconteceu com o corpo &#8212; &#233; com o trem das 7h.</p><p>Ele n&#227;o pensa: &#8220;me tornei uma aberra&#231;&#227;o&#8221;. Ele pensa: &#8220;vou me atrasar&#8221;.</p><p>Essa invers&#227;o &#233; o que Kafka faz de melhor. Ele mostra como a identidade de Gregor estava t&#227;o fundida &#224; ideia de trabalho que, mesmo diante do colapso do corpo, ele s&#243; enxerga o rel&#243;gio. N&#227;o h&#225; espa&#231;o para o espanto. H&#225; metas a cumprir. E &#233; nesse ponto que <em>A Metamorfose</em> deixa de ser f&#225;bula e vira diagn&#243;stico.</p><p>Gregor n&#227;o foi desumanizado quando virou inseto. Ele j&#225; estava desumanizado desde antes.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!I26I!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3cc2ef03-3950-4dd4-906e-35d3228fa0ce_770x1089.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!I26I!, /__u/annafreire.substack.com/w_424, /__u/annafreire.substack.com/c_limit, /__u/annafreire.substack.com/f_webp, /__u/annafreire.substack.com/q_auto:good, /__u/annafreire.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3cc2ef03-3950-4dd4-906e-35d3228fa0ce_770x1089.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!I26I!, /__u/annafreire.substack.com/w_848, /__u/annafreire.substack.com/c_limit, /__u/annafreire.substack.com/f_webp, 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choque. Mas n&#227;o por amor. <strong>Por medo.</strong> Medo do que aquela criatura &#8212; agora trancada no quarto &#8212; representa. Medo de perder o sustento. Medo da vergonha. Medo da responsabilidade que, por anos, foi terceirizada para Gregor.</p><h2><strong>E &#233; a&#237; que est&#225; a perversidade: a transforma&#231;&#227;o de Gregor apenas revela o que j&#225; estava em curso.</strong></h2><p>O pai, que n&#227;o trabalhava havia anos. A m&#227;e, que pouco se envolvia com o filho. A irm&#227;, que sonhava em estudar m&#250;sica, sustentada pelo esfor&#231;o alheio. Todos aceitaram sua dedica&#231;&#227;o enquanto ela era &#250;til. Quando deixou de ser, passaram a trat&#225;-lo como fardo. Ou pior: como um inc&#244;modo.</p><p>E quantas vezes isso acontece fora da literatura?</p><p>Pessoas que s&#227;o a base da fam&#237;lia at&#233; que adoe&#231;am. At&#233; que percam o emprego. At&#233; que deixem de funcionar. E ent&#227;o s&#227;o &#8220;dif&#237;ceis&#8221;. &#8220;Negativas&#8221;. &#8220;Problem&#225;ticas&#8221;. Kafka escreve sobre isso com uma frieza que incomoda. Porque no fundo sabemos que j&#225; vimos isso acontecer. Talvez at&#233; tenhamos feito parte disso.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!vamY!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffb511339-1792-43a2-b2d7-fbac1b3c8606_250x333.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!vamY!, /__u/annafreire.substack.com/w_424, /__u/annafreire.substack.com/c_limit, /__u/annafreire.substack.com/f_webp, /__u/annafreire.substack.com/q_auto:good, /__u/annafreire.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffb511339-1792-43a2-b2d7-fbac1b3c8606_250x333.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!vamY!, /__u/annafreire.substack.com/w_848, /__u/annafreire.substack.com/c_limit, /__u/annafreire.substack.com/f_webp, 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Tiram os m&#243;veis, trancam a porta, limitam seus movimentos. <strong>A irm&#227; &#8212; a &#250;nica que demonstrava cuidado &#8212; &#233; quem prop&#245;e que ele seja eliminado.</strong> O pai, em um momento de f&#250;ria, arremessa ma&#231;&#227;s. Uma delas perfura o corpo de Gregor. A ferida apodrece. E ele come&#231;a a definhar.</p><p>Quando a faxineira encontra o corpo, j&#225; seco e morto, a rea&#231;&#227;o da fam&#237;lia &#233;... al&#237;vio.</p><blockquote><p><em>&#8220;Agora podemos agradecer a Deus&#8221;, diz o pai.</em></p></blockquote><p>N&#227;o h&#225; luto. N&#227;o h&#225; remorso. H&#225; uma paz inquietante, como se um problema tivesse sido resolvido. E isso &#233; o que mais assusta: a normalidade com que a morte &#233; tratada, desde que o morto j&#225; n&#227;o servia para nada.</p><h3><strong>Kafka escreveu sobre um inseto. Mas falou sobre a gente.</strong></h3><p>Falou sobre a l&#243;gica da utilidade. Sobre rela&#231;&#245;es baseadas em performance. Sobre como o valor de algu&#233;m pode ser reduzido &#224; sua capacidade de entregar, de sustentar, de manter tudo funcionando.</p><p>E falou tamb&#233;m sobre o sil&#234;ncio. Gregor quase n&#227;o fala no conto. Literalmente &#8212; porque virou inseto. Mas simbolicamente tamb&#233;m: porque nunca foi ouvido. Quando podia trabalhar, n&#227;o havia espa&#231;o para conversa. Quando deixou de trabalhar, n&#227;o havia interesse. E essa aus&#234;ncia de escuta transforma qualquer lar em cela.</p><p>Kafka n&#227;o precisava gritar para mostrar o absurdo. Ele escreveu com a ponta da faca, n&#227;o com o cabo. E &#233; por isso que o conto, mais de cem anos depois, ainda corta.</p><div><hr></div><p><strong>P.S.: Fiz um v&#237;deo falando sobre este conto de Kafka. Pode assistir aqui embaixo ou ir pro canal <a href="https://youtu.be/wu58saX6h2k?si=1Zwq9ZopiKVqKGnx">aqui no link e se inscrever para receber novos v&#237;deos.</a></strong></p><div id="youtube2-wu58saX6h2k" class="youtube-wrap" data-attrs="{&quot;videoId&quot;:&quot;wu58saX6h2k&quot;,&quot;startTime&quot;:null,&quot;endTime&quot;:null}" data-component-name="Youtube2ToDOM"><div class="youtube-inner"><iframe src="https://www.youtube-nocookie.com/embed/wu58saX6h2k?rel=0&amp;autoplay=0&amp;showinfo=0&amp;enablejsapi=0" frameborder="0" loading="lazy" gesture="media" allow="autoplay; fullscreen" allowautoplay="true" allowfullscreen="true" width="728" height="409"></iframe></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A personagem que ninguém descreve, mas todo mundo reconhece]]></title><description><![CDATA[Sedutora, ego&#237;sta, carism&#225;tica &#8212; e nada disso &#233; dito. &#201; mostrado.]]></description><link>https://annafreire.substack.com/p/a-personagem-que-ninguem-descreve</link><guid isPermaLink="false">https://annafreire.substack.com/p/a-personagem-que-ninguem-descreve</guid><dc:creator><![CDATA[Anna Freire]]></dc:creator><pubDate>Mon, 19 May 2025 22:30:27 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F55d6e3c8-7fb2-4ce4-af1b-98905660cc7d_666x1000.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Voc&#234; sabe que est&#225; diante de uma grande personagem quando, depois de cem p&#225;ginas, ainda n&#227;o consegue descrev&#234;-la em uma frase &#8212; mas sabe exatamente quem ela &#233;. Sente que poderia reconhec&#234;-la se a visse num caf&#233;. Sabe como ela se sentaria. O que observaria. O que esconderia.</p><p>Agora compare com certos livros contempor&#226;neos, onde a personagem &#233; apresentada com tr&#234;s adjetivos na primeira linha:</p><h2><strong>Forte. Determinada.Sens&#237;vel.</strong></h2><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!piXw!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6c6850d0-c4bc-408c-8ce5-fcdc302ddb50_1000x563.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!piXw!, /__u/annafreire.substack.com/w_424, /__u/annafreire.substack.com/c_limit, /__u/annafreire.substack.com/f_webp, /__u/annafreire.substack.com/q_auto:good, /__u/annafreire.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6c6850d0-c4bc-408c-8ce5-fcdc302ddb50_1000x563.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!piXw!, /__u/annafreire.substack.com/w_848, /__u/annafreire.substack.com/c_limit, /__u/annafreire.substack.com/f_webp, 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pronto. A descri&#231;&#227;o vira defini&#231;&#227;o. E a defini&#231;&#227;o, senten&#231;a. O resto do livro? &#201; s&#243; o autor tentando provar o que j&#225; afirmou.</p><p>Com <em>Anna Kari&#234;nina</em>, acontece o oposto.</p><p>Tolst&#243;i nunca nos diz que ela &#233; sedutora. Nem que &#233; ego&#237;sta. Nem que &#233; tr&#225;gica. Mas a gente sabe. A gente sente. A gente deduz &#8212; sem que nada seja mascado.</p><p>E &#233; a&#237; que mora a li&#231;&#227;o: <strong>bons personagens n&#227;o precisam ser ditos. Eles se mostram.</strong></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Vktw!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F55d6e3c8-7fb2-4ce4-af1b-98905660cc7d_666x1000.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Vktw!, /__u/annafreire.substack.com/w_424, /__u/annafreire.substack.com/c_limit, /__u/annafreire.substack.com/f_webp, /__u/annafreire.substack.com/q_auto:good, /__u/annafreire.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F55d6e3c8-7fb2-4ce4-af1b-98905660cc7d_666x1000.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Vktw!, /__u/annafreire.substack.com/w_848, /__u/annafreire.substack.com/c_limit, /__u/annafreire.substack.com/f_webp, 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n&#227;o-dito</strong></h3><p>Quando Anna aparece pela primeira vez, ela n&#227;o &#233; apresentada com pompa. Ela chega, literalmente, de trem. E basta um olhar entre ela e Vronsky para que algo comece &#8212; mas n&#227;o &#233; o narrador que diz. &#201; o detalhe. A linguagem indireta. O deslocamento m&#237;nimo no gesto, no olhar, no que ela tenta esconder e no que, sem querer, revela.</p><p>Aqui est&#225; o trecho em tradu&#231;&#227;o de Boris Schnaiderman (Companhia das Letras):</p><blockquote><p><em>&#8220;Os olhos cinzentos e brilhantes, que pareciam escuros por causa dos c&#237;lios espessos, pousaram amig&#225;veis no rosto de Vronski. Parecia que o haviam reconhecido e tentavam lembrar. Ela, subitamente, desviou os olhos dele e voltou-se para o irm&#227;o. O gesto foi t&#227;o natural que Vronski teve tempo de observar a express&#227;o contida que parecia cintilar no rosto dela, nos olhos e no leve sorriso dos l&#225;bios.&#8221;</em></p></blockquote><p>E um pouco depois:</p><blockquote><p><em>&#8220;Era como se um excesso de vida transbordasse involuntariamente dela, apesar da tentativa evidente de cont&#234;-lo. [...] <strong>E Vronski teve a sensa&#231;&#227;o de que jamais na vida vira uma mulher como aquela.</strong>&#8221;</em></p></blockquote><p>Nenhuma frase do narrador afirma: &#8220;Anna &#233; sedutora&#8221;. Nem &#8220;eles se apaixonaram &#224; primeira vista&#8221;.</p><p>Pelo contr&#225;rio, Tolst&#243;i descreve os olhos, o leve sorriso, a postura. Logo, o efeito &#233; outro: a sensa&#231;&#227;o de que ali tem algo. Um magnetismo. Uma presen&#231;a.</p><p>N&#227;o h&#225; um letreiro dizendo &#8220;personagem complexa chegando&#8221;. S&#243; o desconforto suave de quem l&#234; e pensa: &#8220;tem algum neg&#243;cio acontecendo aqui&#8221;.</p><div><hr></div><h3><strong>Personagens n&#227;o s&#227;o perfis de LinkedIn</strong></h3><p>Anna n&#227;o &#233; uma mulher &#8220;forte&#8221; no sentido de Pinterest. Ela &#233; forte porque resiste a um casamento sem amor. Mas tamb&#233;m &#233; fr&#225;gil, porque precisa da valida&#231;&#227;o do outro. &#201; sedutora, mas n&#227;o de prop&#243;sito. &#201; m&#227;e, mas abandona o filho. Ama, mas destr&#243;i.</p><p>Ela n&#227;o &#233; coerente. Ela &#233; <strong>consistente</strong>. E isso &#233; muito mais dif&#237;cil de escrever &#8212; e ainda mais raro de encontrar.</p><p>O problema de muitos romances atuais &#233; a tentativa de encaixar o personagem em arqu&#233;tipos prontos: &#8220;a protagonista feminista&#8221;, &#8220;o homem sens&#237;vel e introspectivo&#8221;, &#8220;o vil&#227;o carism&#225;tico que &#233; s&#243; mal-entendido&#8221;. O resultado? Personagens que parecem mais slides de apresenta&#231;&#227;o que gente viva.</p><p>Anna Kari&#234;nina, ao contr&#225;rio, <strong>oscila</strong>. E isso n&#227;o &#233; erro de constru&#231;&#227;o. &#201; exatamente o que a torna convincente.</p><div><hr></div><h3><strong>O ponto cego dos clich&#234;s bem-intencionados</strong></h3><p>Existe uma obsess&#227;o recente por criar personagens que sejam, de sa&#237;da, modelos. Refer&#234;ncias. Exemplo de for&#231;a, resili&#234;ncia, moralidade. E embora isso tenha seu valor &#8212; a gente precisa de representa&#231;&#245;es &#8212;, h&#225; um risco grande aqui: transformar a personagem em um conceito.</p><p>Tolst&#243;i n&#227;o faz isso. Anna n&#227;o &#233; um conceito. &#201; uma mulher aristocrata, com as contradi&#231;&#245;es do seu tempo e do seu contexto. Ela tem poder, mas n&#227;o liberdade. Tem um filho, mas n&#227;o o direito de ser quem &#233;. E quando escolhe o amor, escolhe tamb&#233;m a ru&#237;na.</p><p>E o mais importante: <strong>n&#227;o somos convidados a aplaudi-la. Somos convidados a compreend&#234;-la.</strong></p><div><hr></div><h3><strong>Como Tolst&#243;i escreve isso?</strong></h3><p>Com uma coisa chamada sutileza.</p><p>Veja a cena do baile.</p><blockquote><p><em>&#8220;<strong>Kitty esperava v&#234;-la vestida de lil&#225;s, como haviam combinado. </strong>Em vez disso, <strong>Anna usava um vestido preto de veludo, decotado, que deixava &#224; mostra o colo, os ombros e os bra&#231;os de marfim.</strong> No vestido n&#227;o havia um &#250;nico adorno, exceto uma grinalda de capins escuros entre os cabelos e um colar de p&#233;rolas no pesco&#231;o. [...]</em></p><p><em>Kitty via Anna todos os dias, mas, naquele momento,<strong> ela parecia inteiramente diferente</strong>. Um encanto novo, inesperado, envolvia todo o seu ser. Anna estava encantadora com aquele vestido simples e com aquele ar de mod&#233;stia contida &#8212; e <strong>Kitty compreendeu que ela havia subestimado seu poder.&#8221;</strong></em></p></blockquote><p>O vestido, o impacto silencioso, o olhar de Kitty. Aqui, o narrador nunca diz que Anna quer provocar. Mas o efeito &#233; evidente.</p><p>A tens&#227;o n&#227;o est&#225; em <em>como</em> o vestido &#233; descrito, mas <strong>no efeito que ele causa nos outros</strong> &#8212; especialmente em Kitty, que come&#231;a a ver Anna de outro modo. Tolst&#243;i n&#227;o escreve &#8220;ela era provocante&#8221; ou &#8220;ela queria se destacar&#8221;. Ele mostra <strong>como a presen&#231;a de Anna desmonta a expectativa alheia</strong>.</p><div><hr></div><p>Mais tarde, em um trem, Anna l&#234; um romance e se projeta na protagonista. &#201; um momento de espelho. Ela fantasia, deseja, se confunde:</p><blockquote><p><em>&#8220;Sentiu uma &#226;nsia desmedida de viver por si mesma. Lia como hero&#237;na do romance: cuidava de um doente, discursava no Parlamento, provocava a cunhada, sa&#237;a a galope numa ca&#231;ada. [...]</em></p><p><em>Nada havia para ela fazer. Anna, apertando a esp&#225;tula com for&#231;a nas m&#227;os, relia sem entender uma linha, s&#243; para manter a ilus&#227;o de leitura.</em></p><p><em>De repente, ergueu os olhos com um sobressalto, como se n&#227;o soubesse se o trem estava indo para frente ou para tr&#225;s. [...]</em></p><p><em>&#8216;Serei eu mesma... ou outra?&#8217; &#8212; pensou, assustada com os pr&#243;prios pensamentos.&#8221;</em></p></blockquote><p>Anna l&#234;, imagina, se desloca mentalmente &#8212; e se perde. Mas Tolst&#243;i n&#227;o precisa dizer &#8220;ela est&#225; em crise&#8221;. Ele mostra <strong>o embaralhamento da percep&#231;&#227;o</strong>, o desejo de viver algo fora do papel esperado, o desconforto com a pr&#243;pria identidade.</p><h2>E &#233; isso que falta em tanta fic&#231;&#227;o rasa: <strong>o direito do leitor de interpretar.</strong></h2><div><hr></div><h3><strong>O leitor como c&#250;mplice, n&#227;o como consumidor</strong></h3><p>Tolst&#243;i exige de quem l&#234;. Ele entrega, mas n&#227;o embala. E isso muda a experi&#234;ncia.<br> Com Anna, somos c&#250;mplices &#8212; n&#227;o espectadores. Participamos da forma&#231;&#227;o daquela mulher. N&#227;o apenas a seguimos.</p><p><strong>O autor que diz tudo o tempo todo n&#227;o confia no leitor. </strong>Quer controlar a leitura, o julgamento, a emo&#231;&#227;o. Tolst&#243;i n&#227;o. Ele nos entrega fragmentos, camadas, momentos. E deixa que a gente monte o quebra-cabe&#231;a. Ou n&#227;o. Depende de quanto queremos ver.</p><div><hr></div><h3><strong>Em conclus&#227;o&#8230;</strong></h3><p>Voc&#234; n&#227;o precisa gostar de Anna. Pode at&#233; odi&#225;-la. Mas n&#227;o tem como dizer que ela &#233; mal escrita. Porque ela existe. Fora da p&#225;gina. E &#233; isso que Tolst&#243;i ensina: <strong>criar personagem &#233; construir presen&#231;a.</strong> N&#227;o r&#243;tulo. N&#227;o fala pronta. Presen&#231;a.</p><p>E presen&#231;a, como a da Anna, &#233; o que fica quando o livro termina.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://annafreire.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption"><em>Toda semana os assinantes d&#8217;O Poderoso Text&#227;o recebem na sua caixa de entrada textos assim. Voc&#234; j&#225; recebeu algum?</em></p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Nem todo livro difícil é bom. Mas os bons costumam ser difíceis.]]></title><description><![CDATA[Sim, d&#225; pra criticar livros sem cair na armadilha do elitismo.]]></description><link>https://annafreire.substack.com/p/nem-todo-livro-dificil-e-bom-mas</link><guid isPermaLink="false">https://annafreire.substack.com/p/nem-todo-livro-dificil-e-bom-mas</guid><dc:creator><![CDATA[Anna Freire]]></dc:creator><pubDate>Sat, 17 May 2025 15:00:49 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/0aede56f-07ea-4836-ad3a-30746976d15e_193x261.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Tem livro dif&#237;cil que &#233; s&#243; dif&#237;cil mesmo. Que voc&#234; termina &#8212; ou abandona &#8212; com a sensa&#231;&#227;o de que foi uma perda de tempo, uma armadilha de palavras pomposas que n&#227;o dizem nada.</p><p>A boa not&#237;cia? Isso acontece com todo mundo.</p><p>A m&#225; not&#237;cia? Isso n&#227;o significa que todo livro dif&#237;cil seja ruim. E menos ainda que os livros bons precisam ser f&#225;ceis.</p><p><strong>O problema &#233; que a gente anda confundindo dificuldade com arrog&#226;ncia </strong>&#8212; e facilidade com qualidade. E n&#227;o &#233; bem por a&#237;.</p><p>Vamos por partes.</p><div><hr></div><h3><strong>A ilus&#227;o do &#8220;complexo = genial&#8221;</strong></h3><p>Muita gente cai nesse erro: se o livro &#233; enigm&#225;tico, truncado, com vocabul&#225;rio arcaico ou frases de tr&#234;s p&#225;ginas, ent&#227;o ele <em>deve</em> ser profundo. &#201; como se a dificuldade funcionasse como um selo autom&#225;tico de qualidade. Mas isso n&#227;o &#233; crit&#233;rio &#8212; &#233; pregui&#231;a cr&#237;tica.</p><p>Pensa comigo: usar palavras dif&#237;ceis, estruturas labir&#237;nticas e met&#225;foras cr&#237;pticas &#233; f&#225;cil. Dif&#237;cil mesmo &#233; dizer algo significativo atrav&#233;s disso tudo. &#201; fazer o esfor&#231;o valer. &#201; quando, mesmo que a leitura exija, ela devolve. E voc&#234; sente que saiu maior do que entrou.</p><p>Tem livro que dificulta o caminho&#8230; mas n&#227;o te entrega o ouro no final. E tem livro que exige, sim, mas vai te dando pistas, sust&#226;ncia, provoca&#231;&#245;es. Esses valem a pena.</p><div><hr></div><h3><strong>O outro extremo: facilidade como virtude absoluta</strong></h3><p>Por outro lado, a gente tem uma leva de livros que parecem ter medo de exigir. Livros que se explicam demais, repetem ideias tr&#234;s vezes na mesma p&#225;gina, usam frases de efeito no lugar de pensamento. S&#227;o livros que voc&#234; l&#234; em um dia&#8230; e esquece no outro.</p><p>Claro que h&#225; espa&#231;o pra leveza. Mas quando tudo vira &#8220;acess&#237;vel&#8221; demais, a literatura come&#231;a a se parecer com story do Instagram: visualmente agrad&#225;vel, emocionalmente apelativo, cognitivamente raso.</p><p>A quest&#227;o aqui &#233;: voc&#234; est&#225; lendo para confirmar o que j&#225; sabe? Ou est&#225; disposto a ser desafiado &#8212; ainda que seja s&#243; um pouquinho?</p><div><hr></div><h3><strong>Nem dif&#237;cil, nem f&#225;cil: o que &#233; bom, &#233; bom</strong></h3><p>O crit&#233;rio precisa ser outro: o livro <em>constr&#243;i</em> algo em voc&#234;? Ele te obriga a reorganizar o pensamento, rever uma certeza, prestar aten&#231;&#227;o em detalhes que voc&#234; nunca tinha considerado? Ele te provoca a pensar, mesmo que voc&#234; discorde?</p><p>A dificuldade, nesse caso, n&#227;o &#233; um obst&#225;culo: &#233; o caminho. &#201; como escalar uma trilha que exige f&#244;lego, mas te entrega uma vista in&#233;dita l&#225; no alto. Voc&#234; pode cansar, claro. Mas tamb&#233;m pode dizer: &#8220;valeu a pena&#8221;.</p><p>&#201; assim com <em>A Montanha M&#225;gica</em>, de Thomas Mann. Com A Po&#233;tica, de Arist&#243;teles. Com <em>Crime e Castigo</em>, de Dostoi&#233;vski. Livros que n&#227;o s&#227;o &#8220;imediatos&#8221;, mas que v&#227;o te moldando por dentro &#224; medida que voc&#234; l&#234;.</p><div><hr></div><h3><strong>Como diferenciar um do outro?</strong></h3><p>N&#227;o existe uma f&#243;rmula, mas h&#225; pistas:</p><ul><li><p>Se voc&#234; termina o cap&#237;tulo sem saber <em>o que foi dito</em>, desconfie.<br><br></p></li><li><p>Se voc&#234; termina o cap&#237;tulo com mais perguntas que respostas &#8212; mas boas perguntas &#8212;, insista.<br><br></p></li><li><p>Se voc&#234; sente que o autor quer se mostrar mais do que comunicar, cuidado.<br><br></p></li><li><p>Se voc&#234; sente que o autor est&#225; confiando na sua intelig&#234;ncia, aproveite.<br><br></p></li></ul><p>E, claro: isso depende tamb&#233;m de voc&#234;. Do momento que voc&#234; est&#225;, do repert&#243;rio que carrega, do tipo de leitura que busca naquele instante. Livro dif&#237;cil n&#227;o &#233; teste de QI. &#201; exerc&#237;cio de tempo, aten&#231;&#227;o e presen&#231;a.</p><div><hr></div><h3><strong>N&#227;o desista antes de pensar</strong></h3><p>A maior perda em evitar todo livro que exige esfor&#231;o &#233; que, aos poucos, a gente vai perdendo o h&#225;bito do pensamento longo. Da leitura que n&#227;o se resolve em um par&#225;grafo. Da ideia que n&#227;o cabe num tweet.</p><p>E isso afeta muito mais do que nossa leitura: afeta nossa forma de enxergar o mundo.</p><p>Ent&#227;o, da pr&#243;xima vez que voc&#234; se deparar com um livro dif&#237;cil, pergunte: ele &#233; dif&#237;cil <em>porque &#233; mal escrito</em> ou porque est&#225; te tirando do lugar comum?</p><p>Essa pergunta vale mais do que qualquer resenha na Amazon.</p><div><hr></div><p><strong>P.S.: </strong>fiz um v&#237;deo no meu canal de YouTube onde comento os principais motivos pelos quais um livro pode parecer dif&#237;cil e como distinguir entre o que &#233; realmente complexo e o que s&#243; est&#225; mal embalado.</p><div id="youtube2-7OIjE6mNF7M" class="youtube-wrap" data-attrs="{&quot;videoId&quot;:&quot;7OIjE6mNF7M&quot;,&quot;startTime&quot;:&quot;45s&quot;,&quot;endTime&quot;:null}" data-component-name="Youtube2ToDOM"><div class="youtube-inner"><iframe src="https://www.youtube-nocookie.com/embed/7OIjE6mNF7M?start=45s&amp;rel=0&amp;autoplay=0&amp;showinfo=0&amp;enablejsapi=0" frameborder="0" loading="lazy" gesture="media" allow="autoplay; fullscreen" allowautoplay="true" allowfullscreen="true" width="728" height="409"></iframe></div></div><p> &#128073; <a href="https://www.youtube.com/watch?v=7OIjE6mNF7M&amp;t=45s">Ou toque aqui. A ideia &#233; descobrir por que, sim, vale a pena insistir em alguns livros dif&#237;ceis.</a></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Ficção é só distração?]]></title><description><![CDATA[Nem toda fic&#231;&#227;o precisa ser profunda &#8211; mas at&#233; o livro mais leve pode fazer a gente pensar]]></description><link>https://annafreire.substack.com/p/ficcao-e-so-distracao</link><guid isPermaLink="false">https://annafreire.substack.com/p/ficcao-e-so-distracao</guid><dc:creator><![CDATA[Anna Freire]]></dc:creator><pubDate>Tue, 13 May 2025 15:02:35 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/youtube/w_728,c_limit/2bBrSV2ddSk" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Tem dia em que a cabe&#231;a n&#227;o colabora.</p><p>O notici&#225;rio &#233; ruim, o humor &#233; pior, e tudo o que a gente quer &#233; um tempo fora de si. Ent&#227;o voc&#234; pega um livro. De prefer&#234;ncia leve. De prefer&#234;ncia curto. De prefer&#234;ncia com final feliz. Mas a fic&#231;&#227;o tem seus truques. Mesmo os romances feitos para entreter, de vez em quando, deixam escapar uma frase que cola. Um gesto que inquieta. Uma escolha que poderia ter sido sua.</p><p>Voc&#234; entra na hist&#243;ria achando que est&#225; escapando.</p><p>E de repente se pergunta: &#8220;por que isso me pegou tanto?&#8221;</p><p>N&#227;o &#233; que o livro seja um tratado filos&#243;fico. Mas ele aciona alguma coisa.</p><p>Um eco. Um desconforto. Uma pergunta mal resolvida.</p><p>Nem toda fic&#231;&#227;o soca o est&#244;mago. Por&#233;m, toda boa fic&#231;&#227;o deixa uma marca &#8212; mesmo que discreta.</p><p>Por isso, essa ideia de que fic&#231;&#227;o &#233; &#8220;s&#243; escapismo&#8221; n&#227;o se sustenta. Fic&#231;&#227;o &#233; forma de fuga, sim &#8212; mas tamb&#233;m &#233; forma de retorno. Ela nos afasta para que possamos nos ver de outro &#226;ngulo. E isso vale tanto para quem l&#234; quanto para quem escreve.</p><p>Ao mesmo tempo, n&#227;o acho que toda leitura precise virar ensaio. Tem livro que &#233; descanso. Que &#233; respiro. Que &#233; s&#243; um copo d&#8217;&#225;gua depois do calor. Mas at&#233; esse copo d&#8217;&#225;gua, &#224;s vezes, tem gosto de alguma coisa.</p><p>No v&#237;deo mais recente do meu canal eu falo sobre isso.</p><p>Sobre como a fic&#231;&#227;o entret&#233;m &#8212; mas tamb&#233;m ensina.</p><p>Sobre como ela oferece f&#244;lego &#8212; e tamb&#233;m fundo.</p><p>E sobre por que a pergunta &#8220;fic&#231;&#227;o &#233; fuga ou reflex&#227;o?&#8221; talvez esteja mal formulada desde o in&#237;cio.</p><p>Talvez a resposta seja: &#233; os dois.</p><p>E talvez seja exatamente por isso que ela permanece necess&#225;ria.</p><div id="youtube2-2bBrSV2ddSk" class="youtube-wrap" data-attrs="{&quot;videoId&quot;:&quot;2bBrSV2ddSk&quot;,&quot;startTime&quot;:null,&quot;endTime&quot;:null}" data-component-name="Youtube2ToDOM"><div class="youtube-inner"><iframe src="https://www.youtube-nocookie.com/embed/2bBrSV2ddSk?rel=0&amp;autoplay=0&amp;showinfo=0&amp;enablejsapi=0" frameborder="0" loading="lazy" gesture="media" allow="autoplay; fullscreen" allowautoplay="true" allowfullscreen="true" width="728" height="409"></iframe></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Como reconhecer um personagem mal escrito em 3 frases]]></title><description><![CDATA[Se ele muda de vida do nada, reage como se nada, ou ama quem destr&#243;i tudo, desconfie.]]></description><link>https://annafreire.substack.com/p/como-reconhecer-um-personagem-mal</link><guid isPermaLink="false">https://annafreire.substack.com/p/como-reconhecer-um-personagem-mal</guid><dc:creator><![CDATA[Anna Freire]]></dc:creator><pubDate>Mon, 12 May 2025 15:02:36 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/27377c95-46cd-4238-8488-e0ef52c2207f_620x834.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Toda hist&#243;ria come&#231;a com uma promessa: algo vai acontecer. E para isso acontecer, algu&#233;m precisa <em>agir</em>. Esse algu&#233;m &#233; o <strong>personagem</strong>. E &#233; ele &#8212; n&#227;o a trama em si &#8212; que faz a literatura acontecer de verdade.</p><p>S&#243; que tem livro por a&#237; em que os personagens n&#227;o agem: eles reagem mal, falam frases que n&#227;o combinam com quem s&#227;o, tomam decis&#245;es convenientes para o enredo, e no fundo parecem... fantasmas.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://annafreire.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption"><em>Entre agora n&#8217;O Poderoso Text&#227;o e receba novos textos todas as semanas!</em></p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Se movem sem peso.</p><p>Sentem sem causa.</p><p>E de repente <em>mudam</em>.</p><p>Assim, do nada.</p><p>&#201; por isso que hoje eu quero te ajudar a reconhecer um personagem mal escrito. Aqueles que existem mais na cabe&#231;a do autor do que no corpo da narrativa. Que parecem mais um boneco articulado que um ser ficcional com consist&#234;ncia. E, como prometido no t&#237;tulo, vou te dar <strong>tr&#234;s frases</strong> que voc&#234; pode usar como alerta.<strong> Se um personagem se encaixa nelas, ligue o sinal amarelo.</strong></p><p><strong>ALERTA DE SPOILER:</strong></p><p>Vou falar de <em>&#201; Assim Que Acaba</em> e como sua escrita &#233; ruim &#8211; com embasamento l&#243;gico. Se voc&#234; j&#225; ir&#225; se sentir ofendido, melhor sair daqui.</p><div><hr></div><h3><strong>1. &#8220;Do nada, eu decidi mudar de vida.&#8221;</strong></h3><p>Esse &#233; o cl&#225;ssico. O personagem vive uma coisa a vida inteira &#8212; odeia plantas, por exemplo &#8212; e na p&#225;gina 97 decide abrir uma floricultura. Por qu&#234;? <strong>Porque sim.</strong> Porque o autor quis.</p><p>N&#227;o h&#225; nenhum ind&#237;cio anterior, nenhuma constru&#231;&#227;o lenta, nenhum conflito interno.</p><p>&#201; o que acontece em <em>&#201; Assim Que Acaba</em>, quando Lily Bloom resolve empreender com flores como quem muda de aba no navegador. At&#233; cinco p&#225;ginas antes, ela nunca tinha mostrado nenhum interesse especial por bot&#226;nica. Mas o enredo exigia que ela tivesse um sonho &#8220;bonito&#8221;. Pronto: nasceu a voca&#231;&#227;o.</p><p><strong>A boa literatura mostra a transforma&#231;&#227;o como processo.</strong> Mesmo uma mudan&#231;a radical precisa ter rachaduras vis&#237;veis antes de virar ruptura. Personagens reais mudam porque algo dentro deles entra em conflito. E o leitor precisa ver isso.</p><div><hr></div><h3><strong>2. &#8220;Aconteceu algo terr&#237;vel&#8230; e eu reagi como se fosse um an&#250;ncio do YouTube.&#8221;</strong></h3><p>Aqui est&#225; outro ind&#237;cio: <strong>as rea&#231;&#245;es n&#227;o condizem com a gravidade da situa&#231;&#227;o</strong>. O personagem descobre uma trai&#231;&#227;o, ou perde algu&#233;m, ou apanha de algu&#233;m que ama &#8212; e a rea&#231;&#227;o &#233; uma meia frase solta, uma l&#225;grima isolada, ou pior: tes&#227;o.</p><p>Sim, tes&#227;o. Em <em>&#201; Assim Que Acaba</em>, h&#225; uma cena em que o namorado agride a protagonista e, imediatamente depois, a narrativa mergulha numa reconcilia&#231;&#227;o quente. O pedido de desculpas &#233; erotizado. A dor &#233; suavizada por desejo. A narrativa romantiza aquilo que deveria ser tratado com aten&#231;&#227;o, complexidade e camadas.</p><p>Aten&#231;&#227;o: isso n&#227;o &#233; sobre moralismo, mas sobre <strong>verossimilhan&#231;a psicol&#243;gica</strong>. Quando a narrativa trata a viol&#234;ncia como reviravolta de s&#233;rie adolescente &#8212; sem consequ&#234;ncias profundas &#8212; o problema n&#227;o &#233; s&#243; de gosto, mas de escrita mesmo.</p><div><hr></div><h3><strong>3. &#8220;Eu amo quem me destr&#243;i.&#8221;</strong></h3><p>N&#227;o me entenda mal: a literatura &#233; cheia de amores destrutivos. (<em>O Morro dos Ventos Uivantes</em>, por exemplo, &#233; praticamente um estudo de caso.) Mas quando o amor se mant&#233;m por pura conveni&#234;ncia narrativa, sem conflito, sem nuance, sem transforma&#231;&#227;o&#8230; a coisa desanda.</p><p>&#201; o que vemos em personagens que caem de joelhos pelo t&#237;pico &#8220;homem misterioso&#8221; que n&#227;o fala, n&#227;o escuta, e ainda agride &#8212; mas, mesmo assim, &#233; pintado como irresist&#237;vel. A gente n&#227;o entende por que a personagem se apega. A &#250;nica explica&#231;&#227;o poss&#237;vel &#233;: &#8220;porque o roteiro manda&#8221;.</p><p>Em <em>Anna Kari&#234;nina</em>, a paix&#227;o de Anna por Vronsky tamb&#233;m tem algo de autodestrutivo &#8212; mas Tolst&#243;i trabalha isso com complexidade. A gente v&#234; os motivos dela, mesmo sem concordar com todos. V&#234; a hesita&#231;&#227;o, a culpa, o desejo, a vaidade, o medo. E isso nos prende. Porque ali h&#225; contradi&#231;&#227;o humana &#8212; n&#227;o s&#243; fun&#231;&#227;o de cena.</p><div><hr></div><h3><strong>E por que isso importa?</strong></h3><p>Porque personagens mal escritos n&#227;o s&#243; tornam o livro menos interessante &#8212; eles esvaziam sua capacidade de gerar reflex&#227;o. Quando a gente se apega a personagens sem motiva&#231;&#227;o, a gente come&#231;a a achar normal que as coisas <em>s&#243; aconte&#231;am</em>. Que tudo mude sem constru&#231;&#227;o. Que qualquer dor possa ser esquecida numa p&#225;gina.</p><p>A boa literatura faz o oposto. Ela nos ensina a reconhecer a transforma&#231;&#227;o verdadeira &#8212; aquela que d&#243;i, que leva tempo, que n&#227;o se resolve em tr&#234;s frases. E quando encontramos personagens assim, bem feitos, com contradi&#231;&#245;es, com sil&#234;ncios, com gestos que dizem mais que mil adjetivos&#8230; a gente entende por que ainda vale a pena ler com aten&#231;&#227;o.</p><div><hr></div><p>Eu fiz um v&#237;deo pro meu canal de YouTube onde leio os trechos mais absurdos de <em>&#201; Assim Que Acaba</em> e comparo com a constru&#231;&#227;o minuciosa de Anna Kari&#234;nina &#8211; uns dos meus livros favoritos.</p><p>Vem rir (e pensar) comigo.</p><p>Pode assistir aqui mesmo sem sair do Substack:</p><div id="youtube2-bvtR5Vf0w5Y" class="youtube-wrap" data-attrs="{&quot;videoId&quot;:&quot;bvtR5Vf0w5Y&quot;,&quot;startTime&quot;:null,&quot;endTime&quot;:null}" data-component-name="Youtube2ToDOM"><div class="youtube-inner"><iframe src="https://www.youtube-nocookie.com/embed/bvtR5Vf0w5Y?rel=0&amp;autoplay=0&amp;showinfo=0&amp;enablejsapi=0" frameborder="0" loading="lazy" gesture="media" allow="autoplay; fullscreen" allowautoplay="true" allowfullscreen="true" width="728" height="409"></iframe></div></div><p> &#128073; <strong><a href="https://youtu.be/bvtR5Vf0w5Y?si=nupu00cZNC0pme-i">Ou clique aqui para assistir (e aproveite para se inscrever).</a></strong></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://annafreire.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler O Poderoso Text&#227;o! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O último almoço em família]]></title><description><![CDATA[Ningu&#233;m sabe quando &#233; a &#250;ltima vez que vai estar todo mundo reunido.]]></description><link>https://annafreire.substack.com/p/o-ultimo-almoco-em-familia</link><guid isPermaLink="false">https://annafreire.substack.com/p/o-ultimo-almoco-em-familia</guid><dc:creator><![CDATA[Anna Freire]]></dc:creator><pubDate>Tue, 01 Oct 2024 17:20:41 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/eaa0c9b7-062a-41e5-a7a6-396d0c8ce82c_1456x816.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>N&#227;o houve o <em>boom</em> do mil&#234;nio. Guga era o n&#250;mero um. Barrichello havia ganhado sua primeira corrida. E j&#225; havia submarino afundado na R&#250;ssia. Os anos 2000 transcorreu sem p&#226;nico depois que descobriram que o mundo n&#227;o ia acabar&#8230; As coisas ainda estavam apenas come&#231;ando.&nbsp; N&#227;o sei se por medo ou goza&#231;&#227;o com o tal do <em>boom</em>, a minha fam&#237;lia decidiu se reunir para jogar conversa fora. Meu tio, sempre com um ar m&#237;stico meio Raul Seixas, dizia que: "Ningu&#233;m sabe quando &#233; a &#250;ltima vez que vai estar todo mundo unido, vai que&#8230;". Ele nunca foi vidente, mas acabou preconizando o fato: a fam&#237;lia brigou.</p><p>Bras&#237;lia &#233; uma cidade seca. &#201; uma cidade que d&#225; choque. Meus av&#243;s se mudaram para l&#225; pouco depois que a cidade ficou pronta. Constru&#237;da pelos conterr&#226;neos de meu av&#243;, nordestino de pele seca, como ele mesmo dizia, a cidade &#233; a mais quadrada que eu j&#225; vi. As quadras s&#227;o iguais, as ruas tamb&#233;m, n&#227;o h&#225; nomes, apenas n&#250;meros. Uma cidade que respira organiza&#231;&#227;o no seu centro, mas basta ir para a regi&#227;o metropolitana que se parece com qualquer cidade que foi constru&#237;da na faca, como a sua ou a minha.&nbsp; Meu av&#244;, funcion&#225;rio do Banco do Brasil, recebeu a oportunidade irrecus&#225;vel de ir para essa cidade, povo&#225;-la com seus filhos e com seu trabalho. Em troca, ganharia um apartamento, educa&#231;&#227;o e a chance de uma boa aposentadoria. E l&#225; se foram 4 piauienses e mais uma na barriga, que seria a filha mais nova, j&#225; nascida na cidade de Juscelino Kubitschek. . Minha av&#243; amava seus filhos, mas vivia em fun&#231;&#227;o do marido. Era sempre Ded&#233; para c&#225; e para l&#225;. Quando dava o hor&#225;rio dele chegar, ela tomava banho, colocava j&#243;ias, perfume e arrumava o cabelo. Quando eles chegavam, dan&#231;avam um pouco na sala e seus filhos querendo ver o que se passava na TV.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://annafreire.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Anna Freire - OPT! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Nessa &#233;poca, os irm&#227;os brigavam, mas al&#233;m das brigas serem bobas, como o meu tio ter escondido a goiabada no seu arm&#225;rio para s&#243; ele comer, eram intermediadas pela minha av&#243;, ou a demora do banho de um dos meninos ou simplesmente porque um queria assistir um canal diferente. Iam todos juntos para a escola e se separaram no caminho porque cada um estudava em uma escola diferente. Mas a ordem era a mesma: se comportem.&nbsp;</p><p>Os meninos cresceram, se formaram na UnB, casaram e a casa foi ficando vazia e minha av&#243; se deu conta que aqueles meninos faziam falta. Foi ficando triste, com medo de ficar s&#243;, e implorava para o meu av&#244;, todas as noites: n&#227;o morra antes de mim, Ded&#233;. N&#227;o me deixe sozinha. Mas a tristeza foi aliviada e, talvez, preenchida com felicidade, quando os netos chegaram. Foram muitos. A filha mais velha casou, lhe deu 3 netos, depois o do meio casou e veio mais um neto, os outros casaram e, de netos, ela tinha 11.&nbsp;</p><p>Ela se animou, reformou o apartamento, substituiu as paredes brancas amareladas pela cor salm&#227;o, trocou os m&#243;veis da sala e colocou um sof&#225; que combinasse com o hack da TV. Trocou os azulejos da cozinha e comprou geladeira, fog&#227;o e mesa brancas. Colocou a sua t&#227;o sonhada cristaleira na sala, com todas as suas ta&#231;as e tigelas de cristal e qualquer crian&#231;a que passava por perto ouvia: Saia de perto, menino! Comprava caixas de batom para os netos e sempre tinha alguma sobremesa muito gostosa na geladeira. N&#227;o seria diferente nesse dia tamb&#233;m. Os quartos, que outrora eram dos filhos, agora eram de visitas e tinha uma mesa com um computador. Faz&#237;amos fila, mas nem sempre dava certo porque um queria ir primeiro que o outro.&nbsp;</p><p>N&#227;o era por causa do <em>boom</em> do mil&#234;nio que est&#225;vamos reunidos, n&#227;o me lembro direito, mas acho que era anivers&#225;rio da minha av&#243;. A casa estava arrumada, ela havia escolhido a toalha de mesa e feito a comida preferida de todo mundo: bob&#243; de camar&#227;o. Estava um calor de matar, o ventilador de ch&#227;o dava para o gasto, mas o sol que entrava pela janela deixava tudo mais abafado. Por&#233;m, aquele cheiro da comida de Dona Z&#233;lia era inebriante e fazia todo mundo esquecer de calor e qualquer <em>boom</em> do mil&#234;nio que seja. Meu av&#244; sentou na cabeceira, &#224; sua direita minha av&#243; e minha m&#227;e do outro lado. A comida estava t&#227;o boa, mas t&#227;o boa que todo mundo comeu em sil&#234;ncio, o que &#233; rar&#237;ssimo de acontecer na minha fam&#237;lia.&nbsp; S&#243; se ouvia estalos e murm&#250;rios "V&#243;, isso aqui t&#225; muito bom", uma prima dizia.&nbsp;</p><p>Depois do almo&#231;o, das lou&#231;as lavadas, do rocambole de goiaba como sobremesa e as crian&#231;as deitaram no <em>cuzeiro</em>, o nome carinhoso que minha av&#243; deu &#224; sua cama quando os netos estavam em casa, eu preferi ficar na sala vendo a TV em volume baixo. Do lado da TV, havia uns santinhos da minha av&#243;( devota de sabe quantos santos), e um deles era um S&#227;o Francisco, que me encarava com um olhar sofrido. Ele olhava para o al&#233;m e nos seus p&#233;s havia uma placa branca com letras pretas que dizia: Ame a todos. O amor &#233; universal. E era mesmo, havia uma paz e um sil&#234;ncio confort&#225;vel e familiar na casa.&nbsp;</p><p>Dizem que quando a casa cheia est&#225; em sil&#234;ncio &#233; porque &#233; o sil&#234;ncio que est&#225; falando. Havia um sil&#234;ncio confort&#225;vel, como um parente que chega e voc&#234; n&#227;o se preocupa porque ele &#233; de casa. Mas esse sil&#234;ncio foi cortado ao meio quando minha tia, com o dedo em riste, come&#231;ou a gritar. Come&#231;ou a falar improp&#233;rios, ainda que outros adultos apontassem para mim e para o quarto, como quem diz: cuidado com as crian&#231;as. As palavras sa&#237;am mastigadas da boca dela, como se a raiva a impedisse de falar direito ou raciocinar. Se assemelhava a urros ou como se estiv&#233;ssemos ouvindo em 2x. Ela gritava com um irm&#227;o, depois com outro at&#233; chegar na minha m&#227;e. Lembro que come&#231;ou a acusar minha m&#227;e, a debochar da vida que ela levava e como o pai delas a amava mais.</p><p>Minha m&#227;e n&#227;o &#233; de discutir, ouviu calada e assim permaneceu. N&#227;o havia nenhum espa&#231;o entre os l&#225;bios da minha m&#227;e, ainda que ela quisesse n&#227;o o faria. Da mesma forma que a discuss&#227;o come&#231;ou, ela terminou com minha tia respirando fundo como se o diabo houvesse sa&#237;do do corpo dela, mas era s&#243; ela ali mesmo. Os adultos esqueceram que eu estava ali, mas eu assisti, pela primeira vez, algu&#233;m dizer aquelas coisas para algu&#233;m da fam&#237;lia. Olhei para S&#227;o Francisco e me perguntei se eu conseguiria amar minha tia como antes. Mas aquela lente havia ca&#237;do como uma cortina de um espet&#225;culo que se abre e come&#231;a uma hist&#243;ria. Todo mundo agiu normal, ainda que em sil&#234;ncio, e evitando os olhares. Meu av&#244; pegou a m&#227;o de minha m&#227;e e disse: N&#227;o ligue, a sua irm&#227; &#233; assim mesmo.&nbsp; E de repente, n&#227;o importava mais se eu estava na casa da minha av&#243;, se havia <em>boom</em> do mil&#234;nio, se o Guga era n&#250;mero um, se Barrichello havia ganhado pela primeira vez ou se um submarino afundou na R&#250;ssia. N&#227;o me importava se ela &#233; assim mesmo. O que importava &#233; que esse seria o meu &#250;ltimo almo&#231;o em fam&#237;lia <em>gostando de todo mundo</em>.&nbsp;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a></p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>Essa cr&#244;nica foi escrita para um exerc&#237;cio da <em>Oficina de Escrita</em>. </p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[ Por que você sente falta do twitter? (ou X, que seja)]]></title><description><![CDATA[Uma novela das nove sendo escrita aos nossos olhos.]]></description><link>https://annafreire.substack.com/p/por-que-voce-sente-falta-do-twitter</link><guid isPermaLink="false">https://annafreire.substack.com/p/por-que-voce-sente-falta-do-twitter</guid><dc:creator><![CDATA[Anna Freire]]></dc:creator><pubDate>Fri, 06 Sep 2024 22:02:07 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!qJeH!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa299c7e7-d063-489e-bff5-b16a7bd5d028_1024x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Ainda bem que o Substack n&#227;o pertence ao Elon Musk, sen&#227;o n&#227;o sei se estar&#237;amos aqui discutindo esse tipo de assunto.</p><p>Desde que o X caiu, as pessoas t&#234;m se sentido um pouco... estressadas. Surgiram discuss&#245;es desnecess&#225;rias &#8212; na verdade, amplificadas, pois j&#225; existem discuss&#245;es triviais na internet &#8212; sobre se o Threads &#233; melhor que o Bluesky, e a galera que tem opini&#227;o sobre tudo est&#225;, evidentemente, dando a sua opini&#227;o sobre qual rede social &#233; superior.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://annafreire.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Anna Freire - OPT! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>N&#227;o vou entrar no m&#233;rito se a queda foi por raz&#245;es certas ou erradas, nem se cobrar VPN de um cara que nada tem a ver com essa briga de cachorro grande &#233; algo aceit&#225;vel.</p><p>N&#227;o existe uma rede social como o X, isso &#233; fato. O <em>time</em> deles &#233; muito bom. A forma como as not&#237;cias s&#227;o apresentadas, as intera&#231;&#245;es e at&#233; alguns conte&#250;dos por l&#225; t&#234;m seu pr&#243;prio estilo. N&#227;o &#233; como o Threads, que &#233; o famoso "copia, mas n&#227;o faz igual". Eles tentaram, mas deixaram o servi&#231;o do jeito deles: voc&#234; n&#227;o pode ter um perfil de anime para falar bobagens por l&#225;, mas pode ocultar um post ou coment&#225;rio se ele estiver te incomodando.</p><p>O X era a rede onde tudo sa&#237;a primeiro. Mas, al&#233;m dessa vantagem, o X era um local de trabalho para muitas pessoas e uma plataforma de networking para tantas outras. Tanto que o Brasil &#233; o terceiro pa&#237;s que mais interage por l&#225;. Eles j&#225; est&#227;o at&#233; comentando que sentem falta dos brasileiros interagindo por l&#225;.</p><p>Para ser sincera, eu n&#227;o uso o Twitter h&#225; 2 anos. N&#227;o foi por causa da extrema direita ou da esquerda radical, mas porque deixei de me sentir confort&#225;vel consumindo conte&#250;do o tempo inteiro. E, bom, tamb&#233;m parei de falar sobre a minha vida.</p><p>Isso n&#227;o me trouxe aliena&#231;&#227;o, diga-se de passagem, porque comecei a consumir conte&#250;do mais selecionado e na hora que eu queria.</p><p>Ganhei tempo para escrever melhor (tanto &#233; que estou aqui), para estudar melhor, trabalhar melhor e n&#227;o ficar de olho na vida alheia. Ah, e tamb&#233;m para n&#227;o querer saber do que est&#225; acontecendo no mundo o tempo inteiro.</p><p>Entendo a vontade de saber o que est&#225; acontecendo em todos os lugares, como em "Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo". J&#225; fui assim tamb&#233;m.</p><p>No entanto, n&#227;o posso deixar de mencionar que o Twitter tamb&#233;m pode ser um esgoto a c&#233;u aberto, com todo tipo de conte&#250;do,<a href="https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/forum-de-pedofilos-e-nu-artistico-de-criancas-regras-do-twitter-preocupam-especialistas/"> incluindo os horripilantes relacionados a crian&#231;as ou ao nazismo</a>.</p><p>Por outro lado, fiquei pensando nas pessoas que, como mencionei, tinham seus perfis de arte e servi&#231;os por l&#225; &#8212; e que, eventualmente, n&#227;o tinham tanta presen&#231;a em outras redes sociais. Como &#233; que, do dia para a noite, elas perderam o acesso ao seu ganha-p&#227;o?</p><p>&#201; uma mistura de sentimentos mesmo. Alguns d&#227;o gra&#231;as a Deus, enquanto outros podem estar pedindo a Ele que o juiz careca se acalme e reative a rede social.</p><p>O que posso dizer &#233; que esse sentimento de vazio ou de n&#227;o saber nada sobre o mundo passa. As coisas pequenas e reais, como a sua pr&#243;pria vida, come&#231;am a ter mais import&#226;ncia e o tempo que antes parecia correr agora passa devagar, como se voc&#234; o sentisse nas suas m&#227;os. &#201; uma del&#237;cia viver e saber que est&#225; vivendo.</p><p>Outro motivo pelo qual voc&#234; pode estar sentindo falta do X &#233; que n&#227;o foi voc&#234; que quis sair; voc&#234; foi tirado de l&#225;. &#201; como se voc&#234; tivesse sido expulso de uma festa muito boa sem ter feito nada, apenas porque o seu irm&#227;o mais velho imbecil deu um soco no dono da festa.</p><p>Voc&#234; estava dan&#231;ando com a pessoa mais interessante ou o menino mais legal da festa finalmente te olhou, e quando as coisas iam acontecer, algu&#233;m estalou os dedos na sua frente e disse: &#8220;Ei, sai fora, voc&#234; n&#227;o deveria estar aqui&#8221;.</p><p>&#201; dif&#237;cil.</p><p>Agora, na minha opini&#227;o, todo esse alvoro&#231;o de &#8220;X caiu&#8221;, &#8220;para onde vamos agora&#8221;, &#8220;X ou Threads?&#8221; e &#8220;Threads ou Bluesky?&#8221; se resume a uma coisa: <strong>as pessoas n&#227;o sabem fazer outra coisa sen&#227;o mexer no celular.</strong></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!qJeH!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa299c7e7-d063-489e-bff5-b16a7bd5d028_1024x1024.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!qJeH!, /__u/annafreire.substack.com/w_424, /__u/annafreire.substack.com/c_limit, /__u/annafreire.substack.com/f_webp, /__u/annafreire.substack.com/q_auto:good, /__u/annafreire.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa299c7e7-d063-489e-bff5-b16a7bd5d028_1024x1024.png 424w, 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tudo seja apresentado em 30 segundos. O Bertrand Russel diz &#8220;A suspens&#227;o do ju&#237;zo &#233; uma das opera&#231;&#245;es essenciais da mente&#8221;. A gente precisa saber desligar o ju&#237;zo, parar de sempre procurar uma mensagem cifrada em tudo e come&#231;ar a apreciar um texto e a sua escrita imaginativa. </p><p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Ud5BqCmIDw8&amp;t=1602s">Vi um corte do Desce a Letra</a> onde o cara que pesquisa conte&#250;do para eles falou que utilizava o X para pesquisar pautas para os apresentadores, mas que, quando o X caiu, conseguiu ler 200 p&#225;ginas de um livro que havia abandonado v&#225;rias vezes.</p><p>Na hora, me lembrei de Charlie Chaplin e de como estamos parecendo apertadores de parafusos, s&#243; que com o celular.</p><p>Se tirarem o celular das nossas m&#227;os, come&#231;a um p&#226;nico geral. </p><p>O seu mundinho era o X e agora n&#227;o &#233; mais. O que voc&#234; vai fazer? Ir a Bras&#237;lia procurar Alexandre de Moraes?</p><p>N&#227;o, cara. Ou sim, vai l&#225; montar um acampamento de novo.</p><p>Existem milh&#245;es de outras coisas para voc&#234; fazer. Aprender uma nova habilidade, conversar com um amigo, assistir a um filme no cinema, ler um novo livro.</p><p>N&#227;o h&#225; histeria ao descobrir que existe vida real al&#233;m da internet. E a vida real &#233; divertida, juro. (E olha que eu tenho v&#225;rios problemas).</p><p>E se voc&#234; aproveitar esse tempo ocioso &#8212; de pensar em qual rede social ir &#8212; para ler um livro, voc&#234; estar&#225; infinitamente mais bem acompanhado.</p><p></p><p></p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://annafreire.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Anna Freire - OPT! 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