<script data-pm-proxy="intercept"></script><?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[A Página Inútil]]></title><description><![CDATA[André Luís Oliveira. Um lugar que não vai te tornar mais produtivo. Texto novo toda quinta.]]></description><link>https://apaginainutil.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!XhPq!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F357c183d-ec97-42ca-8318-2c703f8574f5_1080x1080.png</url><title>A Página Inútil</title><link>https://apaginainutil.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Thu, 03 Sep 2026 21:08:55 GMT</lastBuildDate><atom:link href="/__u/apaginainutil.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[André Luís Oliveira]]></copyright><language><![CDATA[pt-br]]></language><webMaster><![CDATA[apaginainutil@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[apaginainutil@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[André Luís Oliveira]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[André Luís Oliveira]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[apaginainutil@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[apaginainutil@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[André Luís Oliveira]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[A criança foi à feira. O livro, não.]]></title><description><![CDATA[H&#225; uma cena bonita que se repete em muitas cidades brasileiras.]]></description><link>https://apaginainutil.substack.com/p/a-crianca-foi-a-feira-o-livro-nao</link><guid isPermaLink="false">https://apaginainutil.substack.com/p/a-crianca-foi-a-feira-o-livro-nao</guid><dc:creator><![CDATA[André Luís Oliveira]]></dc:creator><pubDate>Thu, 03 Sep 2026 12:04:35 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!CRzR!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9a577fa4-aac1-4c11-bf9e-3db1cf1b6fbf_1122x1402.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">H&#225; uma cena bonita que se repete em muitas cidades brasileiras. &#212;nibus escolares estacionam diante de centros culturais, pra&#231;as, gin&#225;sios, pavilh&#245;es. Crian&#231;as descem em fila, algumas de uniforme, outras com crach&#225;s coloridos pendurados no pesco&#231;o. H&#225; uma excita&#231;&#227;o diferente no ar. N&#227;o &#233; dia de aula, embora talvez seja um dos dias mais importantes de aula do ano. &#201; dia de Feira do Livro.</p><p style="text-align: justify;">Agosto, a segunda quinzena de agosto, setembro. O segundo semestre parece ter uma esta&#231;&#227;o pr&#243;pria para quem ama livros. &#201; tempo de feiras, bienais, encontros, autores viajando de cidade em cidade e crian&#231;as descobrindo que aqueles nomes impressos nas capas s&#227;o, afinal, pessoas de verdade. E talvez seja justamente a&#237; que esteja o cora&#231;&#227;o de tudo isso: na forma&#231;&#227;o de novos leitores.</p><p style="text-align: justify;">Durante muito tempo, algumas dessas feiras pareciam precisar pedir desculpas por serem de livros. Para atrair p&#250;blico, patrocinadores e holofotes, colocavam ao lado dos escritores grandes nomes da m&#250;sica popular. O livro dividia o palco com o show. Nada contra a m&#250;sica, evidentemente. Mas talvez uma feira de livros possa ter a ousadia de acreditar que livros bastam. E muitas come&#231;aram a acreditar.</p><p style="text-align: justify;">Tenho participado de feiras grandes e pequenas, em capitais e cidades do interior, e h&#225; experi&#234;ncias realmente bonitas. Munic&#237;pios que organizam a visita das escolas, professores que leem antecipadamente as obras dos autores convidados, crian&#231;as que chegam sabendo quem est&#225; sentado diante delas. Isso muda tudo. A pergunta deixa de ser: &#8220;De onde voc&#234; tira suas ideias?&#8221; E passa a ser: &#8220;Por que aquele personagem ficou sozinho no final?&#8221; Pronto. Ali aconteceu alguma coisa. A literatura entrou.</p><p style="text-align: justify;">No ano passado, na Feira Internacional do Livro de Ribeir&#227;o Preto, tive a alegria de ser o autor homenageado. E sa&#237; dali impressionado com uma coisa que merece aplauso: o trabalho realizado pelos professores e pelas crian&#231;as das escolas municipais. Eles n&#227;o apenas leram meus livros. Transformaram minhas hist&#243;rias em teatro, em m&#250;sica, em rap. Deram bra&#231;os novos &#224;quilo que eu havia escrito. Inventaram caminhos que eu jamais teria imaginado. &#201; disso que uma feira pode ser feita.</p><p style="text-align: justify;">J&#225; vivi encontros em que crian&#231;as prepararam pe&#231;as de teatro inspiradas em livros meus. J&#225; ouvi poemas decorados, perguntas improv&#225;veis, interpreta&#231;&#245;es que jamais me ocorreriam. J&#225; vi menino t&#237;mido subir ao palco e falar diante de centenas de colegas porque tinha alguma coisa para dizer sobre uma hist&#243;ria. Esses momentos justificam uma feira inteira.</p><p style="text-align: justify;">A prefeitura organizou os &#244;nibus. A escola preparou os alunos. A professora leu o livro. O autor viajou. A crian&#231;a ouviu, perguntou, riu, pensou. Talvez tenha descoberto que atr&#225;s de um livro existe uma pessoa de carne e osso que um dia sentou diante de uma folha em branco e decidiu inventar alguma coisa.</p><p style="text-align: justify;">Ent&#227;o chega a &#250;ltima parte da experi&#234;ncia. A crian&#231;a recebe seu cheque-livro: trinta reais, quarenta, cinquenta. E entra na feira para escolher o que levar para casa. &#201; justamente a&#237; que, muitas vezes, o encanto desanda. No meio dos livros aparecem os livros-armadilha.</p><p style="text-align: justify;">Aprendi essa express&#227;o com o escritor L&#233;o Cunha e nunca mais consegui deixar de enxerg&#225;-los. Eles est&#227;o por toda parte. Nas grandes bienais ficam um pouco dilu&#237;dos entre estandes enormes, lan&#231;amentos e montanhas de livros. Nas feiras menores aparecem com ainda mais nitidez. O livro-armadilha tem brilho. Tem personagem conhecido da televis&#227;o, do cinema, do YouTube. &#192;s vezes tem adesivo. &#192;s vezes vem com canetinha. &#192;s vezes promete ensinar a desenhar. &#192;s vezes &#233; quase um brinquedo fantasiado de livro. E quase sempre custa pouco. Muito pouco.</p><p style="text-align: justify;">A crian&#231;a olha o cheque de trinta reais e faz uma conta absolutamente compreens&#237;vel. Um livro de literatura custa trinta. Mas por trinta ela pode levar tr&#234;s daqueles. Tr&#234;s! &#201; dif&#237;cil competir com a matem&#225;tica. Ainda mais quando ningu&#233;m est&#225; ao lado para explicar que, naquele caso, tr&#234;s pode ser menos que um.</p><p style="text-align: justify;">A crian&#231;a passou a manh&#227; inteira cercada de literatura. Ouviu um escritor. Conheceu personagens. Viu colegas encenando uma hist&#243;ria. Recitou poema. Fez perguntas. Talvez tenha segurado pela primeira vez a coragem de levantar a m&#227;o diante de um audit&#243;rio inteiro. Depois caminha entre as barracas e volta para casa com um caderninho de colorir, um passatempo, uma publica&#231;&#227;o de acabamento prec&#225;rio e uma hist&#243;ria qualquer impressa &#224;s pressas sobre algum personagem que ela j&#225; conhecia antes de entrar na feira.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o culpo a crian&#231;a. Seria absurdo. Ela escolheu entre aquilo que colocamos diante dela. Tamb&#233;m n&#227;o se trata de transformar professor em fiscal de sacola. Professor n&#227;o precisa decidir, como um guarda de fronteira liter&#225;ria, qual livro a crian&#231;a pode ou n&#227;o levar para casa. Mas talvez seja preciso compreender que formar leitores exige media&#231;&#227;o at&#233; o fim. N&#227;o basta levar a crian&#231;a &#224; feira. N&#227;o basta entregar o cheque-livro. N&#227;o basta dizer: &#8220;Agora voc&#234; pode escolher.&#8221; Escolher tamb&#233;m se aprende.</p><p style="text-align: justify;">Durante anos ensinamos crian&#231;as a escolher alimentos, amizades, palavras, caminhos. Por que imaginamos que escolher livros seja uma compet&#234;ncia que nasce pronta? Talvez uma professora possa caminhar com a turma pelas bancas. Talvez possa pegar um livro nas m&#227;os. Abrir. Ler um trecho. Dizer: &#8220;Olha este aqui.&#8221; Talvez a pr&#243;pria feira possa organizar seus espa&#231;os de maneira que o vale destinado &#224; compra de livros cumpra de fato a fun&#231;&#227;o para a qual foi criado. Literatura. N&#227;o estou defendendo censura. Estou defendendo curadoria. S&#227;o coisas muito diferentes.</p><p style="text-align: justify;">E n&#227;o estou falando de uma feira espec&#237;fica. Falo das feiras. Das pequenas e das grandes. Das cidades do interior e das capitais. Porque existe uma cadeia bonita sendo constru&#237;da: o poder p&#250;blico investe, a escola prepara, os professores leem, os autores viajam, as crian&#231;as participam, os estandes se enchem. Mas o fechamento dessa cadeia n&#227;o pode ser tratado como detalhe.</p><p style="text-align: justify;">A crian&#231;a entrou no &#244;nibus. Fez o passeio. Ouviu o autor. Fez perguntas. Se encantou. O que falta &#233; ela voltar para casa levando esse encantamento dentro de uma sacola. Uma hist&#243;ria. Um livro de literatura. N&#227;o digo isso como autor que quer vender livros. Digo como autor que acredita no que a literatura pode fazer. E como professor que sabe que um livro pode, &#224;s vezes, inaugurar uma conversa que a escola inteira n&#227;o conseguiria provocar de outro modo.</p><p style="text-align: justify;">H&#225; algo profundamente triste em uma crian&#231;a sair de uma Feira do Livro sem um livro. Pode sair com um marcador. Uma sacolinha. Um aut&#243;grafo. Uma foto. Um desenho. Uma lembran&#231;a. Mas precisa sair tamb&#233;m com uma hist&#243;ria. Uma hist&#243;ria que v&#225; para o quarto. Que fique esquecida alguns dias sobre a mesa. Que seja aberta numa tarde de chuva. Que seja relida. Emprestada. Rabiscada. Talvez perdida. Talvez reencontrada muitos anos depois numa caixa durante uma mudan&#231;a. &#201; assim que um livro continua uma feira depois que a feira termina.</p><p style="text-align: justify;">E n&#227;o precisamos transformar nossas feiras em espet&#225;culos gigantescos. Grandeza n&#227;o &#233; tamanho. Grandeza &#233; consequ&#234;ncia. Podemos ter uma feira pequena numa pra&#231;a de uma cidade pequena. Alguns autores. Alguns livros. Algumas crian&#231;as. Um palco modesto. Um cheque-livro bem aplicado. E ainda assim realizar uma experi&#234;ncia imensa. Desde que a gente n&#227;o pare exatamente antes do &#250;ltimo passo.</p><p style="text-align: justify;">Porque o ciclo da literatura tem uma simplicidade quase infantil. Algu&#233;m escreve. Algu&#233;m publica. Algu&#233;m apresenta. Algu&#233;m l&#234;. E algu&#233;m leva o livro para casa. Quando essa &#250;ltima parte n&#227;o acontece, alguma coisa fica aberta. Como uma hist&#243;ria em que arrancaram a &#250;ltima p&#225;gina.</p><p style="text-align: justify;">A crian&#231;a foi &#224; feira. Ouviu o autor. Recitou o poema. Subiu ao palco. Riu. Perguntou. Se encantou. Depois entrou no &#244;nibus levando tr&#234;s livros-armadilha numa sacola. E a literatura ficou l&#225;. Na barraca. Esperando a pr&#243;xima excurs&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Andr&#233; Lu&#237;s Oliveira</p><p style="text-align: justify;">tio Visconde</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!CRzR!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9a577fa4-aac1-4c11-bf9e-3db1cf1b6fbf_1122x1402.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!CRzR!, /__u/apaginainutil.substack.com/w_424, /__u/apaginainutil.substack.com/c_limit, /__u/apaginainutil.substack.com/f_webp, /__u/apaginainutil.substack.com/q_auto:good, /__u/apaginainutil.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9a577fa4-aac1-4c11-bf9e-3db1cf1b6fbf_1122x1402.jpeg 424w, 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N&#227;o por uma m&#250;sica qualquer. Paulinho sabia: bastava me ver chegando e, vez ou outra, os primeiros acordes de Serra do Luar, de Walter Franco, atravessavam o sal&#227;o. Era sua maneira de dizer boa noite. Talvez at&#233; de dizer: voc&#234; chegou.</span></p><p><span>O Barmania era assim. Um bar em Ribeir&#227;o Preto, &#233; verdade, mas chamar o Barmania apenas de bar seria cometer com ele uma injusti&#231;a semelhante &#224; de chamar uma casa de paredes. Havia paredes, mesas, balc&#227;o, cerveja, mas havia, sobretudo, gente. E talvez seja isso que fa&#231;a alguns lugares permanecerem depois que desaparecem: gente.</span></p><p><span>Paulinho Bras&#237;lia, m&#250;sico, dono, anfitri&#227;o e uma esp&#233;cie de maestro daquela pequena orquestra noturna, conhecia seus frequentadores. Sabia os gostos, as hist&#243;rias, os amores, os exageros e, mais importante, sabia as m&#250;sicas. Cada integrante daquela confraria parecia possuir uma can&#231;&#227;o, uma ou duas, pelo menos. Era quase uma identidade musical. Antes dos aplicativos descobrirem que podiam montar playlists a partir de nossos h&#225;bitos, Paulinho j&#225; fazia isso artesanalmente, olhando no olho. Voc&#234; entrava, ele olhava e tocava sua m&#250;sica. O algoritmo tinha barba, sorriso e bebia conosco.</span></p><p><span>O Barmania foi, durante muitos anos, um dos templos da boa m&#250;sica de Ribeir&#227;o Preto. Templo talvez seja uma palavra exagerada, mas quem frequentou certos bares sabe que alguns deles possu&#237;am, sim, uma esp&#233;cie de liturgia: havia o hor&#225;rio de chegar, o lugar preferido, a primeira cerveja, o reconhecimento dos rostos, o cumprimento de mesa em mesa, o momento em que algu&#233;m aparecia e aquele em que algu&#233;m desaparecia. Havia, ainda, aquele instante curioso em que voc&#234; podia chegar sozinho e ningu&#233;m estranhava. Sentava-se &#224; mesa ou apoiava o cotovelo no balc&#227;o. Paulinho entendia. Os outros tamb&#233;m.</span></p><p><span>N&#227;o era tristeza, nem abandono, muito menos aquela inten&#231;&#227;o de &#8220;ficar escondido fazendo fita&#8221;, como cantava Agenor de Miranda Ara&#250;jo Neto, que o Brasil preferiu chamar de Cazuza. Era uma esp&#233;cie de licen&#231;a po&#233;tica, um intervalo, o direito de ficar alguns minutos sozinho antes de ser inevitavelmente arrastado para dentro da noite. Porque ningu&#233;m permanecia sozinho muito tempo no Barmania. Logo algu&#233;m chegava, depois outro. Uma cadeira mudava de mesa, depois duas; uma cerveja aparecia, uma hist&#243;ria come&#231;ava, outra era interrompida e uma terceira j&#225; estava sendo contada simultaneamente. De repente, aquilo que deveria ser apenas uma passagem r&#225;pida pelo bar transformava-se em madrugada.</span></p><p><span>O Barmania era uma rotina feita de grandes novidades. Nenhuma noite era exatamente igual &#224; outra. Os protagonistas mudavam: &#224;s vezes era uma paix&#227;o rec&#233;m-inaugurada; &#224;s vezes, um amor que todo mundo percebia estar terminando, menos os dois envolvidos. Havia reencontros, desencontros, porres memor&#225;veis, declara&#231;&#245;es definitivas que duravam at&#233; a manh&#227; seguinte, amigos de toda uma vida, amigos de uma &#250;nica noite, paix&#245;es avassaladoras, solid&#245;es acompanhadas e aquelas conversas que come&#231;am tentando explicar o sentido da exist&#234;ncia e terminam discutindo se o lateral esquerdo deveria ou n&#227;o ter acompanhado o atacante.</span></p><p><span>Ali&#225;s, futebol tamb&#233;m fazia parte da confraria. Durante alguns anos, a segunda-feira tinha uma programa&#231;&#227;o pr&#243;pria. De manh&#227;, jog&#225;vamos bola com os gar&#231;ons do bar. Era uma invers&#227;o curiosa: na noite anterior eles nos serviam cerveja; na manh&#227; seguinte davam carrinho na gente. Talvez fosse uma maneira eficiente de acertar alguma conta atrasada.</span></p><p><span>Havia um campo, uma bola e aquele entusiasmo caracter&#237;stico de homens que imaginam jogar muito mais futebol do que efetivamente jogam. At&#233; que, numa dessas segundas-feiras, aconteceu um dos jogos mais curtos da hist&#243;ria. A bola mal havia sido solta. Primeiro minuto, talvez nem isso. Uma disputa qualquer, um movimento errado, e algu&#233;m sofreu uma fratura. Fim de jogo. Nem deu tempo de jogar mal. Voltamos todos para casa com aquela sensa&#231;&#227;o estranha de quem havia se preparado para uma Copa do Mundo e participado de aproximadamente quarenta segundos dela.</span></p><p><span>S&#227;o lembran&#231;as assim que constroem os lugares. N&#227;o apenas os grandes acontecimentos, principalmente as pequenas bobagens. Porque o Barmania tamb&#233;m nos ofereceu coisas grandes. Pelo seu palco passaram artistas extraordin&#225;rios. Belchior esteve ali. L&#244; Borges esteve ali. E tantos outros m&#250;sicos que ajudaram a escrever a trilha sonora de uma gera&#231;&#227;o passaram por aquele pequeno territ&#243;rio bo&#234;mio de Ribeir&#227;o Preto.</span></p><p><span>Era uma d&#225;diva. Est&#225;vamos pr&#243;ximos deles, sem a solenidade dos grandes teatros, sem aquela dist&#226;ncia quase religiosa dos grandes espet&#225;culos. A m&#250;sica acontecia perto, respirava perto, &#224;s vezes bebia perto, e n&#243;s t&#237;nhamos a impress&#227;o de que aquilo era normal.</span></p><p><span>Esse talvez seja um dos grandes equ&#237;vocos da juventude: achar que as coisas extraordin&#225;rias s&#227;o normais apenas porque acontecem muitas vezes. Belchior cantava, Paulinho tocava, os amigos estavam ali, a cerveja chegava, a noite avan&#231;ava e ningu&#233;m percebia que o tempo tamb&#233;m estava bebendo conosco. Talvez estivesse sentado no canto do balc&#227;o, esperando.</span></p><p><span>Porque toda noite do Barmania possu&#237;a tamb&#233;m seu &#250;ltimo ato. Os frequentadores iam embora, as mesas esvaziavam, as conversas diminu&#237;am e os gar&#231;ons come&#231;avam aquele movimento silencioso de quem deseja informar, educadamente, que at&#233; a boemia possui hor&#225;rio comercial. Algumas cadeiras subiam para cima das mesas, depois outras, e n&#243;s permanec&#237;amos. Os &#250;ltimos. Olh&#225;vamos em volta e v&#237;amos mais duas ou tr&#234;s mesas ainda ocupadas, pequenos barcos alegres &#224; deriva depois do naufr&#225;gio da noite.</span></p><p><span>Ningu&#233;m queria ser exatamente o primeiro a partir. Talvez porque todos soub&#233;ssemos, sem saber, que alguma coisa terminava toda vez que uma noite terminava. At&#233; que chegava o momento: abra&#231;os nos gar&#231;ons, abra&#231;o em Paulinho, promessas absolutamente sinceras de que no dia seguinte ningu&#233;m beberia. E a porta finalmente fechava.</span></p><p><span>Hoje penso na quantidade de hist&#243;rias que ficaram guardadas naquele lugar. Conversas que ningu&#233;m registrou, piadas que desapareceram, olhares que come&#231;aram alguma coisa, olhares que terminaram outras, can&#231;&#245;es, copos, cadeiras, amigos. A juventude tem essa arrog&#226;ncia encantadora de acreditar que seus bares ser&#227;o eternos. N&#227;o ser&#227;o. Os bares fecham, as pessoas mudam, algumas v&#227;o embora, outras ficam apenas dentro das hist&#243;rias.</span></p><p><span>E ent&#227;o, um dia, passamos diante do endere&#231;o onde existiu um lugar importante e descobrimos uma coisa terr&#237;vel: a cidade n&#227;o tem mem&#243;ria. N&#243;s &#233; que temos. Talvez por isso alguns bares continuem abertos dentro da gente.</span></p><p><span>O Barmania ainda abre algumas noites. Paulinho toca. Belchior aparece. Algu&#233;m pede mais uma. Os gar&#231;ons reclamam, brincando, que j&#225; est&#225; tarde. Uma cadeira sobe sobre a mesa, depois outra, e n&#243;s continuamos ali: mais jovens do que somos, mais irrespons&#225;veis do que dever&#237;amos, mais felizes do que sab&#237;amos.</span></p><p><span>H&#225;, por&#233;m, uma lembran&#231;a que coloca todas as outras numa posi&#231;&#227;o secund&#225;ria. Entre tantas noites, tantos m&#250;sicos, tantos amigos, tantas cervejas e tantas hist&#243;rias, em algum momento entrou no Barmania uma mulher. Ou talvez eu tenha entrado. N&#227;o importa. Os bares s&#227;o especialistas nesses desencontros que acabam virando encontros.</span></p><p><span>Eu a conheci ali. Depois vieram os dias, os anos, a vida. E eu me casei com ela.</span></p><p><span>Por isso, quando penso no Barmania, n&#227;o sinto apenas saudade de um bar. Tenho saudade de uma esp&#233;cie de porto, um lugar onde uma gera&#231;&#227;o aportava noite ap&#243;s noite sem perceber que estava atravessando a pr&#243;pria juventude.</span></p><p><span>E, se hoje eu pudesse empurrar aquela porta mais uma vez, talvez Paulinho me visse chegando, sorrisse do outro lado do sal&#227;o e come&#231;asse outra vez:</span></p><p><span>&#8220;Eu s&#243; voltei pra te contar...&#8221;</span></p><p><span>E eu responderia, em sil&#234;ncio:</span></p><p><span>Eu tamb&#233;m, Paulinho. Eu tamb&#233;m.<br></span></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!7-Yt!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fac45552f-d9f3-42ca-b547-069937792f25_1024x1536.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!7-Yt!, /__u/apaginainutil.substack.com/w_424, /__u/apaginainutil.substack.com/c_limit, /__u/apaginainutil.substack.com/f_webp, /__u/apaginainutil.substack.com/q_auto:good, /__u/apaginainutil.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fac45552f-d9f3-42ca-b547-069937792f25_1024x1536.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!7-Yt!, /__u/apaginainutil.substack.com/w_848, /__u/apaginainutil.substack.com/c_limit, 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embora.]]></description><link>https://apaginainutil.substack.com/p/eu-me-demito</link><guid isPermaLink="false">https://apaginainutil.substack.com/p/eu-me-demito</guid><dc:creator><![CDATA[André Luís Oliveira]]></dc:creator><pubDate>Thu, 20 Aug 2026 12:03:29 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!qCbl!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F02d75451-2f12-488a-98ef-51a00b7e2d65_1080x1350.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>H&#225; crian&#231;as que, quando contrariadas, amea&#231;am ir embora.</p><p style="text-align: justify;">Outras avisam que o pai vai aparecer.</p><p style="text-align: justify;">Algumas anunciam processos, pris&#245;es, mudan&#231;as de escola e interven&#231;&#245;es de autoridades que, em sua imagina&#231;&#227;o, permanecem de prontid&#227;o para reparar qualquer frustra&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Agora conheci uma que queria demitir a professora.</p><p style="text-align: justify;">Era o final da tarde, um dos primeiros dias depois da volta &#224;s aulas. A coordenadora me procurou porque uma menina queria conversar com o diretor.</p><p style="text-align: justify;">Ela chegou &#224; minha sala com o rosto vermelho, as bochechas acesas e o choro entrecortado por solu&#231;os. Era uma menina linda, inteligente, espirituosa, cheia de recursos e acostumada, talvez, a descobrir que sua vontade costuma produzir algum movimento ao redor.</p><p style="text-align: justify;">Chamarei a menina de Maria.</p><p style="text-align: justify;">Maria havia se desentendido com a professora depois de machucar uma colega com uma caneta. N&#227;o chegou a ser uma agress&#227;o grave, mas foi o suficiente para que a professora interrompesse a brincadeira e a retirasse do grupo por alguns momentos.</p><p style="text-align: justify;">Era preciso que ela se acalmasse.</p><p style="text-align: justify;">Maria n&#227;o se acalmou.</p><p style="text-align: justify;">Revoltou-se com a retirada, chorou, protestou e anunciou que o pai poderia prender a professora. Depois, decidiu recorrer &#224; mais alta inst&#226;ncia dispon&#237;vel no pequeno organograma de seu mundo:</p><p style="text-align: justify;">O tio Andr&#233;.</p><p style="text-align: justify;">A coordenadora pediu que ela me explicasse o que desejava.</p><p style="text-align: justify;">Maria respirou entre dois solu&#231;os e declarou:</p><p style="text-align: justify;"><em>&#8220;Eu quero que voc&#234; demita a professora.&#8221;</em></p><p style="text-align: justify;">N&#227;o era uma sugest&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Era uma determina&#231;&#227;o administrativa.</p><p style="text-align: justify;">Em sua cabe&#231;a, bastaria apresentar a den&#250;ncia ao diretor, esperar que ele reconhecesse a gravidade de ela ter sido contrariada e acompanhar a retirada imediata da profissional.</p><p style="text-align: justify;">Talvez imaginasse a professora recolhendo seus materiais numa caixa enquanto eu comunicava:</p><p style="text-align: justify;"><em>&#8220;Lamento, mas Maria n&#227;o aprovou sua conduta.&#8221;</em></p><p style="text-align: justify;">Procurei n&#227;o sorrir.</p><p style="text-align: justify;">Expliquei que a atitude dela com a colega n&#227;o havia sido correta. A professora fizera o que precisava fazer: interrompera a brincadeira, protegendo a outra crian&#231;a e dando a Maria um tempo para recuperar o controle.</p><p style="text-align: justify;">Disse tamb&#233;m que ela provavelmente teria voltado a brincar pouco depois, caso n&#227;o tivesse transformado a pequena pausa numa insurrei&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Maria me ouviu ainda vermelha.</p><p style="text-align: justify;">Ent&#227;o precisei dizer uma coisa que talvez esteja se tornando mais necess&#225;ria nas escolas:</p><p style="text-align: justify;"><em>&#8220;Na sua casa, seu pai e sua m&#227;e s&#227;o os adultos respons&#225;veis. Aqui, os respons&#225;veis somos n&#243;s. A escola &#233; conduzida pelos adultos da escola.&#8221;</em></p><p style="text-align: justify;">N&#227;o disse isso para diminu&#237;-la.</p><p style="text-align: justify;">Disse justamente porque ela era uma crian&#231;a.</p><p style="text-align: justify;">Crian&#231;as precisam ser ouvidas, respeitadas, protegidas e levadas a s&#233;rio. Mas isso n&#227;o significa entregar a elas o comando de situa&#231;&#245;es para as quais ainda n&#227;o possuem recursos emocionais.</p><p style="text-align: justify;">Escutar uma crian&#231;a n&#227;o &#233; obedecer a tudo o que ela exige.</p><p style="text-align: justify;">Acolher n&#227;o &#233; abdicar.</p><p style="text-align: justify;">Respeitar a inf&#226;ncia n&#227;o significa abandonar a crian&#231;a dentro de sua pr&#243;pria vontade.</p><p style="text-align: justify;">Expliquei que a professora era uma &#243;tima profissional, trabalhava havia bastante tempo conosco e havia agido corretamente.</p><p style="text-align: justify;">Portanto, n&#227;o seria demitida.</p><p style="text-align: justify;">O caso estava encerrado.</p><p style="text-align: justify;">Maria continuou chorosa por alguns minutos, mas foi desacelerando. Eu disse que ela precisava se acalmar para sair da escola com uma express&#227;o melhor, porque o dia n&#227;o precisava terminar dentro daquela explos&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Pouco depois, eu estava no microfone organizando a sa&#237;da dos alunos.</p><p style="text-align: justify;">Maria apareceu, deu-me um beijo e come&#231;ou a conversar sobre outro assunto, como se nossa reuni&#227;o de emerg&#234;ncia administrativa tivesse acontecido semanas antes.</p><p style="text-align: justify;">As crian&#231;as possuem essa extraordin&#225;ria capacidade de voltar ao presente quando encontram um adulto que n&#227;o se assusta com a tempestade.</p><p style="text-align: justify;">Enquanto fazia a sa&#237;da, lembrei-me de outro menino.</p><p style="text-align: justify;">Vou cham&#225;-lo de Davi.</p><p style="text-align: justify;">Davi tinha sete anos, gostava muito de futebol e jogava bem. Era r&#225;pido, habilidoso e apaixonado pela bola. O problema &#233; que seu talento era acompanhado por um estopim curto.</p><p style="text-align: justify;">Quando o jogo n&#227;o seguia como esperava, seus p&#233;s e m&#227;os reagiam antes que o pensamento tivesse tempo de chegar.</p><p style="text-align: justify;">J&#225; hav&#237;amos conversado algumas vezes.</p><p style="text-align: justify;"><em>&#8220;Voc&#234; pode sentir raiva, Davi. Todo mundo sente. Mas n&#227;o pode machucar o amigo.&#8221;</em></p><p style="text-align: justify;">Sentir raiva n&#227;o era o problema.</p><p style="text-align: justify;">O problema era entreg&#225;-la o comando das m&#227;os.</p><p style="text-align: justify;">Nas aulas e nos recreios, esse conflito reaparecia. Futebol tem essa capacidade de revelar rapidamente aquilo que as pessoas conseguem esconder em atividades mais tranquilas. Quando a bola corre, os humores tamb&#233;m correm.</p><p style="text-align: justify;">At&#233; que, certo dia, Davi voltou &#224; minha sala depois de mais um incidente.</p><p style="text-align: justify;">Entrou chorando, com as bochechas vermelhas.</p><p style="text-align: justify;">Para algumas crian&#231;as, minha sala carregava certa ambiguidade. Ali estava o diretor, respons&#225;vel por conversar sobre regras e consequ&#234;ncias. Mas tamb&#233;m estava o tio Andr&#233;, professor de leitura, brincadeiras, hist&#243;rias e jogos corporais.</p><p style="text-align: justify;">Davi talvez n&#227;o soubesse exatamente qual dos dois o aguardava.</p><p style="text-align: justify;">Eu tamb&#233;m nem sempre sei.</p><p style="text-align: justify;">Conversei com ele.</p><p style="text-align: justify;">Disse que era um menino bacana, inteligente e bom de bola. Mas, se continuasse machucando os colegas, teria de ficar algum tempo fora dos jogos. N&#227;o como vingan&#231;a, mas porque brincar junto exige uma condi&#231;&#227;o b&#225;sica: ningu&#233;m pode precisar se defender do companheiro.</p><p style="text-align: justify;">Davi chorou mais.</p><p style="text-align: justify;">Ent&#227;o ergueu um dedo e anunciou:</p><p style="text-align: justify;"><em>&#8220;Eu vou falar uma coisa que vai machucar o seu cora&#231;&#227;o.&#8221;</em></p><p style="text-align: justify;">Preparei-me.</p><p style="text-align: justify;">Disse que ele poderia falar. Confessei que n&#227;o desejava ter o cora&#231;&#227;o machucado, mas que, se fosse importante, eu o ouviria.</p><p style="text-align: justify;">Ele respirou fundo, mantendo o dedo levantado como quem pede a palavra numa assembleia decisiva.</p><p style="text-align: justify;"><em>&#8220;Eu... eu...&#8221;</em></p><p style="text-align: justify;">A voz falhou.</p><p style="text-align: justify;">Depois, conseguiu concluir:</p><p style="text-align: justify;"><em>&#8220;Eu me demito.&#8221;</em></p><p style="text-align: justify;">Precisei segurar o riso e a emo&#231;&#227;o ao mesmo tempo.</p><p style="text-align: justify;">Davi estava se demitindo.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o sabia exatamente de qual cargo. Talvez estivesse pedindo demiss&#227;o da escola, do futebol, da nossa conversa ou da condi&#231;&#227;o de menino obrigado a aprender a controlar as pr&#243;prias m&#227;os.</p><p style="text-align: justify;">Sua frase queria dizer muitas coisas:</p><p style="text-align: justify;"><em>&#8220;Eu desisto.&#8221;</em></p><p style="text-align: justify;"><em>&#8220;Eu vou embora.&#8221;</em></p><p style="text-align: justify;"><em>&#8220;Voc&#234; n&#227;o pode mais me repreender se eu n&#227;o estiver aqui.&#8221;</em></p><p style="text-align: justify;"><em>&#8220;N&#227;o sei fazer o que voc&#234; est&#225; me pedindo.&#8221;</em></p><p style="text-align: justify;">Talvez acreditasse que a raiva fazia parte de sua natureza e que controlar as m&#227;os era uma tarefa imposs&#237;vel. Diante disso, preferia abandonar o emprego de ser aluno, jogador ou crian&#231;a em processo de aprendizagem.</p><p style="text-align: justify;">Um dia, uma menina entrou na minha sala para demitir a professora.</p><p style="text-align: justify;">Anos antes, um menino havia entrado para demitir a si mesmo.</p><p style="text-align: justify;">As duas situa&#231;&#245;es parecem opostas, mas talvez tenham nascido do mesmo lugar.</p><p style="text-align: justify;">Maria desejava controlar o mundo exterior porque ainda n&#227;o conseguia controlar completamente o que acontecia dentro dela.</p><p style="text-align: justify;">Davi queria retirar-se do mundo exterior porque n&#227;o acreditava conseguir governar o pr&#243;prio impulso.</p><p style="text-align: justify;">Ela dizia:</p><p style="text-align: justify;"><em>&#8220;Demita quem me contrariou.&#8221;</em></p><p style="text-align: justify;">Ele dizia:</p><p style="text-align: justify;"><em>&#8220;Demita-me daquilo que eu ainda n&#227;o consigo fazer.&#8221;</em></p><p style="text-align: justify;">Nenhum dos dois precisava de uma demiss&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Precisavam de adultos.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o de adultos autorit&#225;rios, incapazes de escutar. Tampouco de adultos assustados, que recuam diante de cada choro para evitar desconforto.</p><p style="text-align: justify;">Precisavam de gente capaz de acolher a emo&#231;&#227;o sem entregar a ela o governo da escola.</p><p style="text-align: justify;">Limite n&#227;o &#233; o contr&#225;rio de afeto.</p><p style="text-align: justify;">&#192;s vezes, &#233; sua forma mais respons&#225;vel.</p><p style="text-align: justify;">&#201; poss&#237;vel dizer &#8220;n&#227;o&#8221; sem humilhar.</p><p style="text-align: justify;">&#201; poss&#237;vel reconhecer a raiva de uma crian&#231;a e, ao mesmo tempo, impedir que ela machuque algu&#233;m.</p><p style="text-align: justify;">&#201; poss&#237;vel ouvir uma solicita&#231;&#227;o absurda com seriedade, explicar por que ela n&#227;o ser&#225; atendida e permitir que, pouco depois, a mesma crian&#231;a volte para dar um beijo e falar sobre qualquer outra coisa.</p><p style="text-align: justify;">Davi n&#227;o se demitiu.</p><p style="text-align: justify;">Continuou na escola, jogou muitas outras partidas e, com o tempo, aprendeu a comandar melhor as m&#227;os e os p&#233;s. N&#227;o se tornou uma crian&#231;a sem raiva. Tornou-se algu&#233;m mais capaz de escolher o que fazer com ela.</p><p style="text-align: justify;">Maria tamb&#233;m n&#227;o demitiu a professora.</p><p style="text-align: justify;">Na sa&#237;da, j&#225; havia retornado ao lugar que lhe cabia e que, afinal, &#233; um lugar muito melhor do que o de chefe de recursos humanos da escola.</p><p style="text-align: justify;">Era novamente uma menina.</p><p style="text-align: justify;">Uma menina inteligente, engra&#231;ada, intensa, ainda aprendendo que o mundo n&#227;o se desfaz quando algu&#233;m lhe diz n&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Talvez educar seja exatamente isso: ajudar uma crian&#231;a a perceber que ela n&#227;o precisa demitir o outro nem pedir demiss&#227;o de si mesma cada vez que a realidade contraria sua vontade.</p><p style="text-align: justify;">O verdadeiro trabalho come&#231;a quando ela decide permanecer.</p><p><strong><span>Andr&#233; Lu&#237;s Oliveira<br>Tio Visconde</span></strong></p><p></p><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/02d75451-2f12-488a-98ef-51a00b7e2d65_1080x1350.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/2659ecb6-889c-4b40-902d-772018ccabb9_1080x1350.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/25231c10-8ec8-41cf-8fb4-0cc369a179cd_1080x1350.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/a07e64f6-fb38-47a4-a626-449aab37f077_1080x1350.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/dcf1a423-a61b-4f7f-88d9-faefa21c6ad9_1080x1350.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/1f91fbbf-e319-4d17-a11c-882078fa3706_1080x1350.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/63a0ecca-c9a3-4cd3-bab0-b488d88d204f_1080x1350.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;EU ME DEMITO&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/be9a25d8-9bdf-469a-a00a-cf98e157dfd4_1456x1946.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Antes de culpar a tela]]></title><description><![CDATA[H&#225; algum tempo, as telas foram eleitas uma esp&#233;cie de novo vil&#227;o da inf&#226;ncia.]]></description><link>https://apaginainutil.substack.com/p/antes-de-culpar-a-tela</link><guid isPermaLink="false">https://apaginainutil.substack.com/p/antes-de-culpar-a-tela</guid><dc:creator><![CDATA[André Luís Oliveira]]></dc:creator><pubDate>Thu, 13 Aug 2026 12:03:26 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!zzV0!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbd6f082d-4e30-4df0-b393-3689853ed5cb_1254x1254.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">H&#225; algum tempo, as telas foram eleitas uma esp&#233;cie de novo vil&#227;o da inf&#226;ncia. Evidentemente, existem raz&#245;es para preocupa&#231;&#227;o. Uma crian&#231;a precisa de terra no p&#233;, &#225;gua na m&#227;o, joelho ralado, &#225;rvore, quintal, parque, bicicleta, bola, corda, esconde-esconde. Precisa conviver com outras crian&#231;as, aprender a negociar a vez, suportar uma pequena frustra&#231;&#227;o, inventar uma regra, desobedecer &#224; regra inventada cinco minutos antes e depois criar outra melhor. Precisa tamb&#233;m de uma coisa que estamos quase extinguindo da inf&#226;ncia: t&#233;dio.</p><p style="text-align: justify;">Aquele pequeno vazio em que ningu&#233;m aparece para dizer o que fazer. N&#227;o h&#225; professora conduzindo, recreacionista, aplicativo sugerindo nem adulto organizando uma din&#226;mica. H&#225; apenas uma crian&#231;a olhando para outra crian&#231;a. E ent&#227;o, milagrosamente, alguma coisa come&#231;a: uma pedra vira moeda, uma &#225;rvore vira castelo, um peda&#231;o de madeira vira espada, varinha, remo ou qualquer outra coisa que duas crian&#231;as decidam que ele seja.</p><p style="text-align: justify;">Por isso, sempre me incomodaram um pouco aqueles recreios excessivamente dirigidos. &#201; claro que h&#225; momentos para propostas, jogos e interven&#231;&#245;es. Mas, se at&#233; a brincadeira precisar permanentemente de um adulto ministrando, estaremos formando crian&#231;as que talvez saibam participar de atividades, mas j&#225; n&#227;o saibam invent&#225;-las. Tudo isso me parece bastante claro.</p><p style="text-align: justify;">O que talvez seja menos confort&#225;vel admitir &#233; que o problema das telas pode estar um pouco mais embaixo. Talvez tenhamos come&#231;ado a demoniz&#225;-las porque &#233; mais f&#225;cil discutir o aparelho do que discutir a nossa disponibilidade para estar com as crian&#231;as. Tenho a impress&#227;o de que muitos adultos foram perdendo o interesse pela conviv&#234;ncia com a inf&#226;ncia. N&#227;o necessariamente o amor pelos filhos. Amor &#233; outra coisa. Estou falando de conviv&#234;ncia: sentar junto, escutar uma hist&#243;ria que demora mais do que gostar&#237;amos, assistir pela d&#233;cima vez a uma demonstra&#231;&#227;o absolutamente extraordin&#225;ria de uma cambalhota bastante comum, responder a uma pergunta que come&#231;a com &#8220;por qu&#234;?&#8221; sabendo que ela ser&#225; imediatamente seguida por outros sete &#8220;por qu&#234;s?&#8221;. Conviver com uma crian&#231;a exige uma rela&#231;&#227;o diferente com o tempo. E talvez n&#243;s, adultos, estejamos cada vez piores nisso.</p><p style="text-align: justify;">Quando meu filho era pequeno, havia telas em casa. Naturalmente havia menos do que hoje, e eu procurava cuidar do tempo e daquilo que ele assistia. Mas muitas vezes eu assistia junto. N&#227;o porque eu fosse um pai exemplar. Tamb&#233;m tinha pressa, trabalho, telefone tocando, cansa&#231;o e todas as solicita&#231;&#245;es que qualquer adulto conhece. Mas havia ali alguma coisa que hoje me parece essencial: media&#231;&#227;o. A tela n&#227;o precisava substituir o adulto; podia ser compartilhada com ele. Essa diferen&#231;a talvez seja muito maior do que pare&#231;a.</p><p style="text-align: justify;">Porque uma crian&#231;a diante de uma tela e uma crian&#231;a diante de uma tela acompanhada por um adulto n&#227;o est&#227;o necessariamente vivendo a mesma experi&#234;ncia. Uma pergunta transforma a cena: &#8220;Voc&#234; viu o que aconteceu?&#8221;, &#8220;Por que ser&#225; que ele fez isso?&#8221;, &#8220;Voc&#234; sabia que o guepardo corre mais de cem quil&#244;metros por hora?&#8221;. De repente, aquilo que poderia ser apenas consumo ganha linguagem, compara&#231;&#227;o, curiosidade, v&#237;nculo.</p><p style="text-align: justify;">&#201; por isso que tenho alguma dificuldade com certos discursos absolutos sobre a tecnologia na inf&#226;ncia. Uma escola n&#227;o deveria, evidentemente, transformar um dia de chuva em uma desculpa para estacionar vinte crian&#231;as diante de um desenho enquanto os adultos resolvem outras coisas. H&#225; livros, hist&#243;rias, jogos, tintas, pap&#233;is, massinha, m&#250;sica, teatro, constru&#231;&#227;o. A inf&#226;ncia, especialmente nos primeiros anos, precisa desesperadamente de artesania. Precisa da m&#227;o, do corpo, da mat&#233;ria.</p><p style="text-align: justify;">Mas imagine outra situa&#231;&#227;o. As crian&#231;as est&#227;o estudando os animais da savana africana. A professora contou hist&#243;rias. A bibliotec&#225;ria apresentou um livro impresso daqueles que ainda permitem que uma crian&#231;a descubra o mundo virando p&#225;ginas. A turma desenhou, pintou, dramatizou, construiu animais, mediu pegadas imagin&#225;rias no ch&#227;o. E ent&#227;o algu&#233;m pergunta: &#8220;Professora, como &#233; um guepardo correndo de verdade?&#8221;. Vamos responder que a tela &#233; proibida? Talvez cinco minutos de um document&#225;rio sejam justamente a janela que faltava para aquela investiga&#231;&#227;o. A crian&#231;a dificilmente ver&#225; um guepardo correndo diante dela, mas pode v&#234;-lo ali, em movimento, entender sua velocidade, seu corpo, sua forma de ca&#231;ar. A tecnologia, naquele instante, n&#227;o diminuiu a experi&#234;ncia. Ampliou.</p><p style="text-align: justify;">O mesmo vale para tantas outras coisas. Uma crian&#231;a pode ouvir hist&#243;rias sobre o folclore, fabricar um brinquedo artesanal, pular amarelinha, brincar de p&#233; de lata, construir um pi&#227;o, ouvir causos e depois assistir a uma anima&#231;&#227;o bem feita sobre aqueles mesmos personagens. Por que uma experi&#234;ncia precisaria anular a outra? Talvez nosso erro esteja em pensar sempre em substitui&#231;&#227;o: tela ou livro, tela ou natureza, tela ou brincadeira, tela ou conviv&#234;ncia. Quando a quest&#227;o talvez seja outra: tela depois do livro, junto da brincadeira, a servi&#231;o da curiosidade e mediada pela conviv&#234;ncia.</p><p style="text-align: justify;">H&#225; ainda uma contradi&#231;&#227;o curiosa. Estamos educando crian&#231;as que provavelmente viver&#227;o em um mundo ainda mais tecnol&#243;gico do que o nosso. Trabalhar&#227;o com ferramentas que talvez sequer tenham sido inventadas. Precisar&#227;o criar, selecionar informa&#231;&#245;es, compreender imagens, v&#237;deos, intelig&#234;ncia artificial, linguagens digitais e outras tantas coisas que ainda n&#227;o sabemos nomear. E a nossa prepara&#231;&#227;o para isso seria simplesmente mant&#234;-las afastadas de qualquer tela at&#233; determinado anivers&#225;rio? H&#225; um hiato a&#237;. N&#227;o se aprende a usar tecnologia de maneira inteligente apenas chegando um dia diante dela. Essa aprendizagem tamb&#233;m precisa ser constru&#237;da, com limites, idade adequada, conte&#250;do adequado, tempo adequado e, principalmente, com adultos adequadamente presentes.</p><p style="text-align: justify;">Talvez esteja a&#237; uma das partes mais inc&#244;modas dessa conversa. Porque proibir &#233; relativamente f&#225;cil. Medir minutos tamb&#233;m. Trinta minutos, quarenta, uma hora. O cron&#244;metro &#233; objetivo e nos d&#225; uma agrad&#225;vel sensa&#231;&#227;o de controle. Mais dif&#237;cil &#233; perguntar: como est&#225; a vida dessa crian&#231;a quando a tela est&#225; desligada? Ela brinca? Tem amigos? Corre? Conversa? Fica entediada? Vai ao parque? Encontra &#225;rvores? Mexe com terra? Inventa coisas? Tem adultos que falam com ela sem olhar o pr&#243;prio celular a cada trinta segundos?</p><p style="text-align: justify;">Porque talvez seja uma cena bastante contempor&#226;nea esta: o adulto retirando a tela da crian&#231;a para proteg&#234;-la das telas enquanto continua deslizando o dedo na pr&#243;pria tela. A&#237; o problema j&#225; n&#227;o est&#225; exatamente no aparelho. O buraco &#233; mais embaixo.</p><p style="text-align: justify;">H&#225; crian&#231;as que precisam de menos tela, sem d&#250;vida. Mas talvez haja tamb&#233;m muitas crian&#231;as precisando de mais adultos: adultos dispon&#237;veis, curiosos, capazes de compartilhar aquilo que aparece na tela e tamb&#233;m de deslig&#225;-la para sair de casa; adultos que levem uma crian&#231;a para ver uma &#225;rvore e depois pesquisem com ela o nome daquela &#225;rvore, que contem uma hist&#243;ria e depois procurem juntos onde aquele lugar fica no mapa, que assistam a um guepardo correndo e, cinco minutos depois, digam: &#8220;Agora chega. Vamos ver quem corre mais r&#225;pido at&#233; aquela &#225;rvore?&#8221;.</p><p style="text-align: justify;">Talvez seja menos confort&#225;vel do que simplesmente demonizar as telas. Mas educa&#231;&#227;o quase nunca acontece pelo caminho mais confort&#225;vel. A tecnologia n&#227;o precisa ocupar o lugar da inf&#226;ncia. Precisa encontrar seu lugar dentro dela. E esse lugar n&#227;o ser&#225; definido apenas por aplicativos, pediatras, escolas ou cron&#244;metros. Ser&#225; definido, sobretudo, pela qualidade da presen&#231;a dos adultos que est&#227;o ao redor da crian&#231;a.</p><p style="text-align: justify;">Porque, antes de perguntar quanto tempo nossos filhos passam diante das telas, talvez seja importante fazer uma pergunta um pouco mais dif&#237;cil: quanto tempo n&#243;s ainda conseguimos passar verdadeiramente diante deles?</p><p style="text-align: justify;"></p><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/bd6f082d-4e30-4df0-b393-3689853ed5cb_1254x1254.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/ed61024d-54a5-4b3b-ac8e-4500e0bd9da0_1254x1254.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/d860810e-2890-4b6c-9c84-7c034b946395_1254x1254.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/d57e9122-ac10-47a6-8e92-e6877bdf998d_1254x1254.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/69fd1d99-21e9-4d4b-89a6-1327052e2539_1254x1254.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/3b412231-1238-489d-8911-9fb045a0d93e_1254x1254.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/d61146cf-242e-4877-8c17-0a028c2073e1_1254x1254.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/e5b11081-8bb7-47b7-81e6-95862c95fd80_1254x1254.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;Antes de culpar a tela&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/d0af33c6-c5ce-43fb-bb92-d0e367e3046a_1456x1700.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p style="text-align: justify;"></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A alma e a alminha]]></title><description><![CDATA[Cr&#244;nica]]></description><link>https://apaginainutil.substack.com/p/a-alma-e-a-alminha</link><guid isPermaLink="false">https://apaginainutil.substack.com/p/a-alma-e-a-alminha</guid><dc:creator><![CDATA[André Luís Oliveira]]></dc:creator><pubDate>Thu, 06 Aug 2026 12:00:40 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!qf3G!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F95e84e1f-a87e-45c1-b91b-7baf0c0de738_1122x1402.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>Houve um tempo em que eu ainda n&#227;o era diretor, talvez nem soubesse direito o que seria, mas j&#225; fazia a sa&#237;da da escola.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Era o fim da tarde, aquele momento em que todas as crian&#231;as parecem precisar ir embora ao mesmo tempo e todos os carros parecem ter sido convocados para a mesma esquina. Havia buzinas contidas, motores ligados, pais olhando o rel&#243;gio, professores conduzindo mochilas, casacos, recados e meninos. E havia um microfone.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Minha m&#227;e costumava comandar aquele pequeno caos com uma autoridade que n&#227;o precisava se anunciar. Auxiliadora sabia o nome das crian&#231;as, reconhecia os carros, percebia o pai impaciente, a av&#243; preocupada, o menino distra&#237;do. Sua voz atravessava o port&#227;o e colocava alguma ordem no tr&#226;nsito e no mundo.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Mas ela viajava bastante naquela &#233;poca. Meu pai, m&#233;dico, participava de congressos, e minha m&#227;e o acompanhava. Dizia, brincando, que n&#227;o viajaria como uma dama. Enquanto ele frequentava palestras e encontros cient&#237;ficos, ela estudava, fazia cursos e visitava escolas. Na Europa dos anos 1960 e 1970, quando um olhar mais atento para a inf&#226;ncia come&#231;ava a ganhar novos contornos, ela entrava em salas de aula, conversava com educadores, observava espa&#231;os, materiais e modos de acolher as crian&#231;as. Voltava com cadernos preenchidos, ideias, perguntas e a certeza de que uma escola nunca est&#225; pronta.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Essas viagens duravam duas semanas, &#224;s vezes mais. E, na aus&#234;ncia dela, algu&#233;m precisava pegar o microfone.</span></p><p style="text-align: center;"><em><span>Eu pegava.</span></em></p><p style="text-align: justify;"><span>Ainda jovem, encarava o port&#227;o, os carros e aquela cerim&#244;nia di&#225;ria. Chamava os alunos, tentava desatar o gargalo da rua, respondia aos pais e fazia o poss&#237;vel para que ningu&#233;m percebesse que eu estava aprendendo enquanto fazia.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Foi depois de alguns dias assim que uma senhora muito simp&#225;tica, m&#227;e ou av&#243; de um aluno, baixou o vidro do carro e perguntou:</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Cad&#234; a Auxiliadora?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Expliquei que estava viajando. Ela fez uma express&#227;o saudosa e declarou, com a convic&#231;&#227;o de quem anunciava uma verdade conhecida por todos:</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Nossa, ela faz muita falta. A Auxiliadora &#233; a alma desta escola.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A frase era bonita. E verdadeira. O problema &#233; que eu estava ali, segurando o microfone, desempenhando o papel da alma.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>N&#227;o me lembro de ter respondido nada. Talvez eu tenha apenas fechado um pouco o semblante. Talvez fosse o calor, o barulho, a tens&#227;o da sa&#237;da. Talvez fosse a estranha sensa&#231;&#227;o de se esfor&#231;ar para ocupar um lugar e ouvir, justamente naquele momento, que o lugar continuava vazio.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A senhora percebeu. O menino j&#225; havia entrado no carro, ela se preparava para arrancar, mas resolveu me consolar:</span></p><p style="text-align: justify;"><span>N&#227;o liga, n&#227;o. Voc&#234; &#233; a alminha.</span></p><p style="text-align: center;"><em><span>E foi embora.</span></em></p><p style="text-align: justify;"><span>H&#225; consolos que chegam para diminuir a dor e acabam diminuindo a pessoa.</span></p><p style="text-align: center;"><em><span>Eu era a alminha.</span></em></p><p style="text-align: justify;"><span>O diminutivo, em nossa l&#237;ngua, tem muitos talentos. Pode aproximar, acariciar, proteger. Um cafezinho parece mais acolhedor do que um caf&#233;. Uma casinha pode caber inteira dentro da mem&#243;ria. Mas h&#225; momentos em que o diminutivo n&#227;o afaga. Encolhe.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Eu n&#227;o queria ser a vers&#227;o pequena de ningu&#233;m. Muito menos de minha m&#227;e.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Substituir algu&#233;m muito grande &#233; uma tarefa ingrata. &#201; como entrar em campo no lugar de Pel&#233;. Voc&#234; pode correr, acertar passes, fazer um gol, mas parte da arquibancada continuar&#225; perguntando quando ele volta. N&#227;o por maldade. Apenas porque certas presen&#231;as se confundem com o pr&#243;prio lugar.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Minha m&#227;e era, de fato, uma dessas presen&#231;as. N&#227;o apenas por ter fundado a escola com outras duas mulheres fundamentais, mas por sua maneira de habitar o cotidiano. A escola passava por ela. Pelos estudos que fazia, pelas viagens, pela curiosidade, pelas conversas com as professoras, pelo olhar sobre cada crian&#231;a. E continua passando. Aos 83 anos, vai &#224; escola todas as tardes, como se ainda houvesse sempre alguma coisa a aprender, alguma hist&#243;ria para ouvir, alguma sala para visitar.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Talvez por isso eu tenha dado tantas voltas antes de assumir plenamente o meu lugar ali.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Em parte, obedeci ao conselho de meu pai e procurei caminhos que me ajudassem a prover minha fam&#237;lia. Mas havia outra busca, menos vis&#237;vel. Eu precisava descobrir se existia alguma coisa em mim que n&#227;o fosse apenas continua&#231;&#227;o. Precisava saber quem eu seria sem o microfone da sa&#237;da, sem o sobrenome da fundadora, sem a compara&#231;&#227;o inevit&#225;vel.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Vieram a literatura, os livros, as hist&#243;rias, os personagens. Veio o tio Visconde. Vieram a Escola Calidosc&#243;pio, as palestras, os encontros com crian&#231;as, as forma&#231;&#245;es de professores. Vieram experi&#234;ncias que pareciam me afastar da escola de minha m&#227;e, mas que, olhando hoje, me preparavam para voltar a ela de outra maneira.</span></p><p style="text-align: center;"><em><span>N&#227;o eram desvios. Eram ferramentas.</span></em></p><p style="text-align: center;"><em><span>Eu precisava sair para n&#227;o retornar como c&#243;pia.</span></em></p><p style="text-align: justify;"><span>Durante muito tempo, talvez eu tenha lutado contra aquela palavra dita no port&#227;o. Alminha. Como se meu trabalho fosse provar que eu havia crescido, que tamb&#233;m possu&#237;a ideias, repert&#243;rio e uma voz capaz de atravessar o p&#225;tio. Como se fosse necess&#225;rio medir almas e estabelecer qual delas ocupava mais espa&#231;o.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Hoje, entretanto, penso diferente.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Uma escola n&#227;o tem uma alma &#250;nica. Embora algumas pessoas sejam t&#227;o importantes que pare&#231;am carreg&#225;-la inteira, uma escola &#233; feita de muitas almas. Das fundadoras. Das professoras que permaneceram d&#233;cadas. Das crian&#231;as que chegaram chorando e depois n&#227;o queriam ir embora. Das fam&#237;lias que confiaram. Dos funcion&#225;rios que conhecem a escola antes que ela acorde e depois que todos se v&#227;o.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>H&#225; tamb&#233;m as almas que partem e permanecem. E as que, gra&#231;as a Deus, continuam chegando todas as tardes.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Talvez eu tenha precisado de uma vida inteira para compreender que n&#227;o precisava substituir minha m&#227;e. Nem ocupar o espa&#231;o dela. Nem provar que a alma da escola havia mudado de dono.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Eu precisava apenas encontrar uma forma de caminhar ao lado dela sem desaparecer.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A literatura me deu isso. Os livros me deram um territ&#243;rio pr&#243;prio. As crian&#231;as, os professores, as hist&#243;rias e todos os caminhos que percorri me permitiram voltar ao col&#233;gio n&#227;o como algu&#233;m que toma o lugar da fundadora, mas como algu&#233;m que acrescenta outro lugar &#224; funda&#231;&#227;o.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Minha m&#227;e continua sendo alma daquela escola. N&#227;o h&#225; conflito nisso. H&#225; heran&#231;a, gratid&#227;o e presen&#231;a.</span></p><p style="text-align: center;"><em><span>E eu?</span></em></p><p style="text-align: center;"><em><span>Talvez ainda seja a alminha.</span></em></p><p style="text-align: justify;"><span>Mas j&#225; n&#227;o escuto a palavra como escutei naquela tarde. Porque uma alminha n&#227;o precisa ser uma alma menor. Pode ser uma alma em forma&#231;&#227;o, procurando sua voz, seu tamanho e sua maneira de servir. Pode ser a pequena centelha que percorre muitos caminhos antes de entender onde deve permanecer acesa.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Naquela sa&#237;da, a senhora ligou o carro e foi embora sem imaginar que havia me deixado uma frase para a vida inteira.</span></p><p style="text-align: center;"><em><span>A alma e a alminha.</span></em></p><p style="text-align: justify;"><span>Hoje, quando vejo minha m&#227;e atravessando o p&#225;tio e quando percebo que tamb&#233;m deixei um pouco de mim nas salas, nos livros, nas crian&#231;as e nas hist&#243;rias, penso que talvez uma escola n&#227;o precise escolher entre uma e outra.</span></p><p><span>Talvez sua beleza esteja justamente em permitir que muitas almas, grandes e pequenas, antigas e rec&#233;m-chegadas, aprendam a caminhar juntas.<br><br></span></p><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/95e84e1f-a87e-45c1-b91b-7baf0c0de738_1122x1402.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/962c8358-9e45-4c23-8c79-ef7cc81bda16_1122x1402.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/d96a574d-465a-479d-88fa-11c559a91b81_1122x1402.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/9f16291d-cb56-4c5b-ac3b-751da834fd49_1122x1402.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/d2197378-c029-4eed-828a-afcc63f8e5b1_1122x1402.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/760654a2-6841-41b7-b411-87526800beca_1122x1402.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/871eef8a-1b2e-40bd-a96e-62e384b5f1c8_1122x1402.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;A alma e a alminha&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;Cr&#244;nica&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/dd5cc563-1037-47b9-b444-ea6dd1dde457_1456x1946.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O dia em que quase fui o Ziraldo]]></title><description><![CDATA[Cr&#244;nica - A P&#225;gina In&#250;til | Tio Visconde]]></description><link>https://apaginainutil.substack.com/p/o-dia-em-que-quase-fui-o-ziraldo</link><guid isPermaLink="false">https://apaginainutil.substack.com/p/o-dia-em-que-quase-fui-o-ziraldo</guid><dc:creator><![CDATA[André Luís Oliveira]]></dc:creator><pubDate>Sun, 02 Aug 2026 19:00:34 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!bnzf!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe1499c7e-9522-4d5c-a9fc-512393464d3c_1080x1350.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Na semana passada, recebi um convite para participar da Feira do Livro de S&#227;o Joaquim da Barra, em 2026.</p><p>Fiquei feliz, claro. Convite para feira de livro &#233; sempre uma esp&#233;cie de abra&#231;o com crach&#225;. Mas, antes da alegria fazer barulho, veio um sil&#234;ncio. Um sil&#234;ncio comprido, cheio de lembran&#231;as. Porque S&#227;o Joaquim da Barra e eu j&#225; nos conhecemos de outros carnavais liter&#225;rios.</p><p>A primeira vez foi em 2011.</p><p>O telefone tocou dois dias antes do evento. Do outro lado, algu&#233;m da Secretaria de Cultura me explicava, com aquela urg&#234;ncia educada das v&#233;speras, que meu nome havia sido indicado. Queriam saber se eu poderia participar de um bate-papo liter&#225;rio com crian&#231;as, na pra&#231;a central da cidade.</p><p>- Neste s&#225;bado? - perguntei.</p><p>- Neste s&#225;bado.</p><p>Naquela &#233;poca, eu tinha quatro ou cinco livros publicados, todos independentes. Livros que a gente n&#227;o apenas escreve: carrega, empilha, divulga, vende e defende com o calor das pr&#243;prias m&#227;os. Eu ainda era muito mais mochila do que cat&#225;logo. Mas uma vitrine &#233; uma vitrine. E eu fui.</p><p>Cheguei uns quinze minutos antes do meu hor&#225;rio. No palco, estava Karina Giannecchini, contadora de hist&#243;rias maravilhosa, dessas que n&#227;o contam uma hist&#243;ria: acendem uma fogueira em volta dela. Fiquei assistindo de lado, com as minhas borboletas internas fazendo acrobacias. Entrar depois dela parecia uma miss&#227;o ingrata.</p><p>Mas eu estava inspirado.</p><p>A pra&#231;a estava cheia. Crian&#231;as de escola p&#250;blica, municipal, particular, aquela mistura bonita que s&#243; feira de livro consegue produzir sem pedir licen&#231;a. Levei meu pe&#227;o, brinquei, li, chamei crian&#231;as para o palco, improvisei, suei. E deu certo. Deu certo daquele jeito que a gente percebe antes mesmo dos aplausos, quando o olho da crian&#231;a entrega que alguma coisa aconteceu ali.</p><p>Quando desci, a prefeita e a secret&#225;ria de educa&#231;&#227;o vieram falar comigo. Pareciam surpresas.</p><p>- Nossa, voc&#234; que &#233; o Andr&#233;? Que bom que a gente te chamou. Foi melhor do que a encomenda.</p><p>Eu agradeci, meio sem jeito, feliz da vida.</p><p>Foi ent&#227;o que, num daqueles momentos raros em que a administra&#231;&#227;o p&#250;blica se revela com uma sinceridade quase po&#233;tica, a secret&#225;ria virou-se para a prefeita e comentou:</p><p>- E ainda economizamos um dinheirinho, n&#233;?</p><p>A prefeita corou. Eu fingi que n&#227;o entendi. Fui criado bem.</p><p>Recebi meus quatrocentos reais, agradeci novamente e s&#243; depois descobri o restante da hist&#243;ria: o convidado original havia adoecido. E o convidado original era o Ziraldo.</p><p>Ou seja: por algumas horas, por quatrocentos reais e por absoluta falta de op&#231;&#227;o, eu fui o substituto do Ziraldo.</p><p>Confesso que fiquei imaginando o cach&#234; dele. Mas preferi n&#227;o saber. H&#225; informa&#231;&#245;es que podem abalar a autoestima de um escritor iniciante.</p><p>S&#243; que a minha hist&#243;ria com Ziraldo vinha de antes.</p><p>Quando eu era menino, numa tarde de chuva, o pessoal do bairro me chamou para jogar bola. O problema era simples: estavam sem goleiro. Eu nunca tinha jogado no gol. Mas como eu era um pouco espoleta, fui o escolhido para a empreitada futebol&#237;stica. Saltava, voava, ca&#237;a, defendia. Era uma crian&#231;a com panela na cabe&#231;a e coragem no corpo inteiro, tal qual &#8220; O Menino Maluquinho&#8221; , ic&#244;nico personagem criado por Ziraldo, em 1980.</p><p>Eu torcia para o Botafogo do Rio. O goleiro era o Wendel, grande goleiro, daqueles que a gente ouvia antes de ver, pela voz do r&#225;dio. E havia uma frase que me encantava: &#8220;Espaaaalllmaaaa, Wendel!&#8221; O narrador dizia aquilo com uma musicalidade que parecia abrir o c&#233;u.</p><p>Wendel jogava com camisa amarela, num tempo em que todos os goleiros usavam preto.</p><p>Ent&#227;o, para ser goleiro, eu precisava de uma camisa amarela.</p><p>Procurei em casa. Ningu&#233;m tinha. At&#233; que abri o arm&#225;rio do meu pai e l&#225; estava ela: uma camisa amarela, de abotoar, manga comprida. Camisa de adulto. Camisa que, evidentemente, n&#227;o havia sido comprada para um menino se atirar no barro.</p><p>Vesti a camisa e fui para o campinho.</p><p>Joguei como o Menino Maluquinho: sem prud&#234;ncia nenhuma. Pulei. Voei. Espalmei bolas imagin&#225;rias e reais. Ca&#237; de lado, de frente, de costas. Quando voltei para casa, a camisa amarela estava mais marrom do que amarela.</p><p>Meu pai e minha m&#227;e olharam para mim. Depois olharam para a camisa. Havia nela um jacarezinho bordado. Era uma camisa de sair..</p><p>Levei uma das maiores broncas da minha inf&#226;ncia.</p><p>Anos depois, quando li o livro de maior sucesso de Ziraldo, ainda adolescente, apaxonei-me pelo autor.</p><p>Anos depois, 2017, talvez 2018; as datas, numa cr&#244;nica, &#224;s vezes se comportam como crian&#231;as em fila, fui convidado para a Feira Liter&#225;ria do Cerrado, em Uberl&#226;ndia. Eu j&#225; tinha um pouco mais de estrada, um editor por perto, um livro novo para lan&#231;ar. Foram dois dias de encontros, palestras para professores, conversas com crian&#231;as. Eu estava feliz.</p><p>At&#233; que algu&#233;m, com aquela criatividade misteriosa que &#224;s vezes visita os organizadores de eventos, marcou o meu lan&#231;amento para as cinco da tarde.</p><p>No mesmo hor&#225;rio do lan&#231;amento do Ziraldo.</p><p>Eram dois livros infantis. Duas mesas. Duas filas.</p><p>Uma delas era a minha.</p><p>Em vinte minutos, minhas duas ou tr&#234;s leitoras fi&#233;is professoras que tinham assistido &#224;s palestras e gostado de verdade j&#225; tinham ido embora. A fila ao lado, n&#227;o. A fila ao lado parecia n&#227;o acabar nunca. Crian&#231;as passavam com panelinhas na cabe&#231;a, como se o livro tivesse escapado das p&#225;ginas e invadido a feira.</p><p>Fechei a caneta.</p><p>Levantei-me.</p><p>E entrei na fila do Ziraldo.</p><p>Fui quase por &#250;ltimo, de prop&#243;sito. Porque quando uma fila termina, &#224;s vezes come&#231;a uma conversa.</p><p>Quando chegou minha vez, sentei diante dele e contei tudo: a camisa amarela do meu pai, a bronca, o Menino Maluquinho goleiro, S&#227;o Joaquim da Barra, o pe&#227;o na pra&#231;a, os quatrocentos reais, a substitui&#231;&#227;o involunt&#225;ria.</p><p>Ziraldo riu. Um riso largo, generoso, desses de quem sabe que a vida &#233; mesmo uma escritora melhor do que n&#243;s.</p><p>Eu disse a ele que dois dos escritores que eu mais amava eram ele e Bartolomeu Campos de Queir&#243;s.</p><p>Na hora de autografar, ele demorou um pouco mais do que o normal. Ent&#227;o escreveu e me disse:</p><p>- Andr&#233;, voc&#234; est&#225; saindo com dois aut&#243;grafos. O meu e o do Bart&#244;. Porque o Bart&#244; me d&#225; procura&#231;&#227;o l&#225; do c&#233;u para assinar por ele.</p><p>Sa&#237; daquela feira com o livro Flicts autografado pelo Ziraldo e, por procura&#231;&#227;o afetiva, pelo fant&#225;stico, magn&#237;fico e saudoso Bartolomeu Campos de Queir&#243;s.</p><p>Quando recebi agora o convite de S&#227;o Joaquim da Barra para 2026, fiquei quieto por um tempo.</p><p>Pensei na secret&#225;ria e sua gafe sincera. Pensei na prefeita corando. Pensei no pe&#227;o girando na pra&#231;a. Pensei na camisa amarela do meu pai voltando para casa marrom. Pensei na fila que eu abandonei para entrar em outra. Pensei no Bart&#244; assinando pelas m&#227;os do Ziraldo, como se a literatura tamb&#233;m tivesse seus cart&#243;rios secretos.</p><p>A vida liter&#225;ria &#233; assim.</p><p>&#192;s vezes a gente pensa que est&#225; substituindo algu&#233;m.</p><p>Mas, no fundo, est&#225; apenas chegando ao lugar certo, na hora poss&#237;vel, com a camisa errada, o bolso modesto e o cora&#231;&#227;o completamente amarelo.</p><p><em><span>- Tio Visconde<br><br></span></em></p><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/e1499c7e-9522-4d5c-a9fc-512393464d3c_1080x1350.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/bd8b71a3-dca0-4511-ba5f-4eb023cce1b1_1080x1350.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/314643be-0f11-4055-aa8e-b8722a77cee9_1122x1402.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/972d730b-ab17-453f-a67d-0121293d162c_1122x1402.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/a5b0c403-4a5d-491f-adf3-d4a8bf3f9653_1122x1402.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/7ffab3ad-8120-47cd-b88c-ca5d4fd6951f_1122x1402.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;O dia em que quase fui o Ziraldo&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;Cr&#244;nica - A P&#225;gina In&#250;til | Tio Visconde&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/47a86a9a-92fd-4fa4-8d39-0a31d60434e0_1456x964.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A GELADEIRA DAS COISAS BONITAS]]></title><description><![CDATA[Cr&#244;nica para A P&#225;gina In&#250;til]]></description><link>https://apaginainutil.substack.com/p/a-geladeira-das-coisas-bonitas</link><guid isPermaLink="false">https://apaginainutil.substack.com/p/a-geladeira-das-coisas-bonitas</guid><dc:creator><![CDATA[André Luís Oliveira]]></dc:creator><pubDate>Thu, 30 Jul 2026 12:04:10 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!9QsX!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3b7de9a3-8c1f-468a-990e-3039ad078e30_1122x1402.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Era setembro em Ribeir&#227;o Preto.</p><p style="text-align: justify;">Um daqueles poucos dias do ano em que a cidade ainda n&#227;o est&#225; completamente entregue ao calor. O c&#233;u muito azul, o ar seco, uma delicadeza quase provis&#243;ria pairando sobre as coisas.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://apaginainutil.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Substack de Andr&#233;! Assine gratuitamente para receber novos posts e apoiar meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p style="text-align: justify;">Eu tinha uma aula marcada com as crian&#231;as. Teatro, leitura, hist&#243;rias. Era o momento da semana em que eu deixava a sala da dire&#231;&#227;o, as planilhas, os telefonemas e os problemas de gente grande, para me sentar no ch&#227;o com quem ainda acreditava que uma caixa de papel&#227;o podia ser um navio.</p><p style="text-align: justify;">Na v&#233;spera, recebi uma liga&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Uma emissora de televis&#227;o estava preparando uma reportagem sobre um espa&#231;o de leitura que seria inaugurado em um posto policial. Uma pequena estante para que as pessoas pudessem ler enquanto aguardavam atendimento.</p><p style="text-align: justify;">Havia livros para adultos.</p><p style="text-align: justify;">Faltavam livros para crian&#231;as.</p><p style="text-align: justify;">Algu&#233;m se lembrou de mim.</p><p style="text-align: justify;">Naquele tempo, eu ainda era um escritor de poucos livros e muitos sonhos. Tinha algumas publica&#231;&#245;es independentes, um ou outro t&#237;tulo por uma editora maior e aquela vontade, que os escritores conhecem bem, de que as palavras escritas no sil&#234;ncio encontrassem algu&#233;m do lado de fora.</p><p style="text-align: justify;">A reportagem seria exibida no jornal do meio-dia.</p><p style="text-align: justify;">Televis&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Hor&#225;rio do almo&#231;o.</p><p style="text-align: justify;">As fam&#237;lias sentadas &#224; mesa.</p><p style="text-align: justify;">Meu nome aparecendo na tela.</p><p style="text-align: justify;">Cancelei a aula.</p><p style="text-align: justify;">Contei &#224;s crian&#231;as que n&#227;o estaria com elas porque iria gravar uma reportagem. Disse que provavelmente apareceria na televis&#227;o. Elas ficaram animadas. Algumas prometeram assistir. Outras disseram que avisariam os pais e os av&#243;s.</p><p style="text-align: justify;">Fui para a grava&#231;&#227;o levando meus livros e a import&#226;ncia um pouco desajeitada de quem ainda n&#227;o aprendeu a fingir indiferen&#231;a diante de uma c&#226;mera.</p><p style="text-align: justify;">Gravamos numa pra&#231;a.</p><p style="text-align: justify;">Falei sobre livros, inf&#226;ncia, leitura e sobre a estranha beleza de existir uma estante de hist&#243;rias dentro de um lugar acostumado a receber conflitos.</p><p style="text-align: justify;">Voltei para casa com a sensa&#231;&#227;o de que tinha dado certo.</p><p style="text-align: justify;">No dia seguinte, perto do hor&#225;rio do almo&#231;o, liguei a televis&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">A reportagem n&#227;o passou.</p><p style="text-align: justify;">Disseram que talvez fosse exibida no dia seguinte.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o foi.</p><p style="text-align: justify;">Depois, talvez na outra semana.</p><p style="text-align: justify;">Tamb&#233;m n&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Naqueles dias, um novo esc&#226;ndalo pol&#237;tico ocupava os jornais. Havia investiga&#231;&#245;es, acusa&#231;&#245;es, gente importante envolvida e imagens suficientes para alimentar muitas edi&#231;&#245;es.</p><p style="text-align: justify;">Uma estante de livros infantis dentro de um posto policial n&#227;o podia competir com aquilo.</p><p style="text-align: justify;">A mat&#233;ria foi para a geladeira.</p><p style="text-align: justify;">Foi assim que me explicaram.</p><p style="text-align: justify;">&#8220;Mat&#233;ria de geladeira&#8221; &#233; aquela que pode ser guardada. N&#227;o estraga de um dia para o outro. N&#227;o depende de uma trag&#233;dia, de uma vota&#231;&#227;o ou de uma pris&#227;o. Pode ser exibida depois.</p><p style="text-align: justify;">S&#243; que o depois nunca chegou.</p><p style="text-align: justify;">Durante algum tempo, as crian&#231;as me perguntaram:</p><p style="text-align: justify;">&#8220;Quando voc&#234; vai aparecer na televis&#227;o?&#8221;</p><p style="text-align: justify;">Eu respondia que ainda n&#227;o sabia.</p><p style="text-align: justify;">&#8220;Mas voc&#234; n&#227;o disse que ia passar?&#8221;</p><p style="text-align: justify;">Tinha dito.</p><p style="text-align: justify;">E cada pergunta delas parecia fazer crescer alguns cent&#237;metros no meu nariz.</p><p style="text-align: justify;">Eu n&#227;o havia mentido. Pelo menos n&#227;o intencionalmente. Mas, diante daquela plateia de olhos atentos, explica&#231;&#245;es sobre edi&#231;&#227;o jornal&#237;stica, prioridades de pauta e esc&#226;ndalos pol&#237;ticos n&#227;o adiantavam muito.</p><p style="text-align: justify;">Para elas, era simples: eu havia cancelado a aula porque apareceria na televis&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">E n&#227;o apareci.</p><p style="text-align: justify;">Por alguns dias, tornei-me uma esp&#233;cie de Pin&#243;quio sem marionetista.</p><p style="text-align: justify;">Depois, consertei a hist&#243;ria. Voltei para a sala, sentei-me novamente no ch&#227;o e fiz o que talvez devesse ter feito desde o come&#231;o: contei &#224;s crian&#231;as o que havia acontecido.</p><p style="text-align: justify;">Elas compreenderam rapidamente.</p><p style="text-align: justify;">Crian&#231;as, quando recebem a verdade inteira, costumam compreend&#234;-la melhor do que os adultos imaginam.</p><p style="text-align: justify;">Eu &#233; que demorei mais.</p><p style="text-align: justify;">Um ano depois, encontrei o jornalista respons&#225;vel pela reportagem. Perguntei por que a mat&#233;ria nunca havia sido exibida.</p><p style="text-align: justify;">Havia ainda algum ressentimento na minha pergunta.</p><p style="text-align: justify;">Ele respondeu com a serenidade de quem j&#225; vira centenas de hist&#243;rias entrarem e sa&#237;rem de uma ilha de edi&#231;&#227;o:</p><p style="text-align: justify;">&#8220;As mat&#233;rias de geladeira geralmente s&#227;o as mais bonitas.&#8221;</p><p style="text-align: justify;">Carrego essa frase desde ent&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Talvez porque ela revele muito mais do que o funcionamento de uma reda&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">As not&#237;cias urgentes quase sempre chegam gritando. Trazem sangue, medo, esc&#226;ndalo, guerra, corrup&#231;&#227;o, confronto. Exigem espa&#231;o porque acabam de acontecer e porque, de alguma maneira, fomos treinados a n&#227;o desviar os olhos daquilo que nos assusta.</p><p style="text-align: justify;">As coisas bonitas, n&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Uma crian&#231;a descobrindo um livro pode esperar.</p><p style="text-align: justify;">Uma professora mudando silenciosamente a vida de um aluno pode esperar.</p><p style="text-align: justify;">Uma estante de hist&#243;rias num posto policial pode esperar.</p><p style="text-align: justify;">Um gesto de delicadeza pode esperar.</p><p style="text-align: justify;">A poesia, quase sempre, pode esperar.</p><p style="text-align: justify;">Foi assim na televis&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">&#201; assim tamb&#233;m nas redes sociais.</p><p style="text-align: justify;">Mudaram as telas, mudaram os aparelhos, mudaram os hor&#225;rios. J&#225; n&#227;o precisamos esperar o jornal do meio-dia. A not&#237;cia nos encontra antes mesmo que tenhamos decidido procur&#225;-la.</p><p style="text-align: justify;">Mas a geladeira continua l&#225;.</p><p style="text-align: justify;">Os algoritmos tamb&#233;m aprenderam que a indigna&#231;&#227;o segura nossos olhos por mais tempo. O medo provoca coment&#225;rios. A disputa produz compartilhamentos. A agressividade chama a agressividade, e o barulho vai se reproduzindo como se fosse a &#250;nica linguagem poss&#237;vel.</p><p style="text-align: justify;">Enquanto isso, uma hist&#243;ria bem contada passa devagar.</p><p style="text-align: justify;">Um poema toca poucas pessoas.</p><p style="text-align: justify;">Uma reflex&#227;o que exige sil&#234;ncio perde espa&#231;o para aquilo que pode ser consumido antes do pr&#243;ximo movimento do dedo.</p><p style="text-align: justify;">A geladeira agora cabe na palma da m&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Nela ficam guardadas as palavras que n&#227;o gritam, as imagens que n&#227;o chocam, as hist&#243;rias que n&#227;o prometem mudar nossa vida em trinta segundos.</p><p style="text-align: justify;">Talvez por isso eu tenha aprendido a olhar para a geladeira com menos ressentimento.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o porque seja justo que as coisas bonitas recebam menos espa&#231;o.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o &#233;.</p><p style="text-align: justify;">Mas porque o valor de uma hist&#243;ria nunca dependeu completamente do lugar em que ela aparece.</p><p style="text-align: justify;">Aquela reportagem n&#227;o foi exibida. Ainda assim, a estante existiu. Os livros chegaram &#224;s crian&#231;as. A conversa aconteceu. A aula cancelada transformou-se numa hist&#243;ria que conto at&#233; hoje.</p><p style="text-align: justify;">At&#233; o meu nariz de Pin&#243;quio voltou ao tamanho normal.</p><p style="text-align: justify;">A P&#225;gina In&#250;til talvez seja tamb&#233;m uma pequena geladeira.</p><p style="text-align: justify;">Um lugar para guardar aquilo que o mundo considera pouco urgente: lembran&#231;as, afetos, d&#250;vidas, inf&#226;ncias, encontros e palavras que n&#227;o sabem disputar aten&#231;&#227;o aos gritos.</p><p style="text-align: justify;">Coisas aparentemente in&#250;teis.</p><p style="text-align: justify;">Coisas que n&#227;o interrompem a programa&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Coisas que n&#227;o viralizam.</p><p style="text-align: justify;">Mas talvez sejam justamente essas as coisas que nos conservam humanos.</p><p style="text-align: justify;">De vez em quando, portanto, &#233; preciso abrir a porta.</p><p style="text-align: justify;">A luz se acende.</p><p style="text-align: justify;">E l&#225; dentro, entre tantas hist&#243;rias esquecidas, podemos encontrar aquilo que o barulho do mundo quase nos fez perder.</p><p style="text-align: justify;">As coisas mais bonitas.</p><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/3b7de9a3-8c1f-468a-990e-3039ad078e30_1122x1402.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/a2059140-a7e9-48fb-9412-5f65c6af05b9_1122x1402.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/c384704b-4775-4623-900a-0c02236fff07_1122x1402.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/987136c1-ee23-46ff-9c3e-4ce7a5e61b86_1122x1402.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/d0bc0e31-82d8-4657-af36-eab72ae76b6a_1122x1402.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/81e41888-c830-4d72-bcb2-5c3c450d1062_1122x1402.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/41697b1d-ea10-4d1a-b160-5e1183925d1f_1122x1402.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;A GELADEIRA DAS COISAS BONITAS&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;Cr&#244;nica para A P&#225;gina In&#250;til&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/79b07831-7c78-431a-8942-fb5059c2cb3c_1456x1946.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p style="text-align: justify;"></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://apaginainutil.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Substack de Andr&#233;! Assine gratuitamente para receber novos posts e apoiar meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Querendo incenso]]></title><description><![CDATA[Cr&#244;nica para a P&#225;gina In&#250;til]]></description><link>https://apaginainutil.substack.com/p/querendo-incenso</link><guid isPermaLink="false">https://apaginainutil.substack.com/p/querendo-incenso</guid><dc:creator><![CDATA[André Luís Oliveira]]></dc:creator><pubDate>Thu, 23 Jul 2026 12:02:58 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!9DaG!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F63e5f945-169c-46de-bd21-83a90ad9106e_1254x1254.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Na minha juventude, havia uma cena bastante comum nos bares.</p><p>A gente estava ali, conversando, comendo algum aperitivo, tomando alguma coisa, quando apareciam os vendedores ambulantes. Alguns traziam pulseiras, outros pequenos quadros, xilogravuras, artesanato. Havia tamb&#233;m os vendedores de incenso.</p><p><strong><span>E havia os poetas.</span></strong></p><p>Chegavam com seus livretos impressos de maneira artesanal, &#224;s vezes grampeados, outras vezes encadernados como era poss&#237;vel. Aproximavam-se da mesa e diziam, com uma mistura de timidez, coragem e esperan&#231;a:</p><p style="text-align: center;"><em><span>&#8220;Este &#233; o meu trabalho.&#8221;</span></em></p><p>Confesso que, muitas vezes, a gente entortava um pouco a cara.</p><p>Fazia aquela express&#227;o de quem n&#227;o queria ser interrompido, de quem j&#225; pressentia que teria de comprar alguma coisa ou inventar uma desculpa. Talvez diss&#233;ssemos que est&#225;vamos sem dinheiro. Talvez nem abr&#237;ssemos o livreto. Talvez o poeta fosse embora antes mesmo de termos descoberto se havia ali um verso capaz de nos acompanhar pelo resto da vida.</p><p><strong><span>O vendedor de incenso queria vender incenso.</span></strong></p><p><strong><span>O poeta, de algum modo, tamb&#233;m queria incenso.</span></strong></p><p>Queria aten&#231;&#227;o. Queria reconhecimento. Queria que algu&#233;m olhasse para aquilo que havia criado e dissesse: &#8220;Isto tem valor.&#8221; Queria, certamente, algum dinheiro, porque poetas tamb&#233;m comem, pagam contas e precisam voltar para casa. Mas talvez quisesse, sobretudo, que algu&#233;m recebesse suas palavras.</p><p>Hoje, tantos anos depois, penso que todos n&#243;s, escritores, artistas, professores, m&#250;sicos, ilustradores e criadores, continuamos circulando entre as mesas.</p><p>Mudaram os bares. Mudaram as abordagens. Mudaram os livretos.</p><p>Agora temos redes sociais, v&#237;deos, links, plataformas, newsletters, sites, algoritmos, impulsionamentos, capas bem produzidas e fotografias cuidadosamente escolhidas. Em vez de nos aproximarmos de uma mesa com alguns poemas debaixo do bra&#231;o, aparecemos na tela de algu&#233;m e dizemos:</p><p style="text-align: center;"><em><span>&#8220;Este &#233; o meu trabalho.&#8221;</span></em></p><p>Talvez o ambiente tenha se tornado mais confort&#225;vel. Talvez um pouco mais elegante. Talvez menos constrangedor. N&#227;o precisamos suportar imediatamente o olhar de impaci&#234;ncia de quem n&#227;o deseja nos ouvir.</p><p><strong><span>Mas, no fundo, continuamos querendo incenso.</span></strong></p><p>Queremos visibilidade. Queremos leitores. Queremos curtidas, coment&#225;rios, compartilhamentos, assinantes. Queremos vender livros, receber convites, ser lembrados, reconhecidos e, por que n&#227;o?, admirados.</p><p>N&#227;o h&#225; necessariamente nada de errado nisso.</p><p>Uma obra que n&#227;o encontra o outro fica incompleta. A literatura precisa de quem escreve, mas tamb&#233;m de quem l&#234;. Paulo Leminski lembrava que a poesia acontece tanto no emissor quanto no receptor. O poema n&#227;o termina quando o poeta coloca o ponto final. Termina, ou talvez recomece, quando encontra algu&#233;m disposto a receb&#234;-lo.</p><p>O problema &#233; que todos desejamos ser emissores, mas nem sempre estamos igualmente dispostos a ser receptores.</p><p>Queremos que parem para ler nosso texto, mas passamos rapidamente pelo texto alheio. Desejamos coment&#225;rios generosos, mas oferecemos apenas uma curtida distra&#237;da. Queremos que comprem nossos livros, mas quase nunca compramos o livreto do poeta que se aproxima da nossa mesa.</p><p>Queremos protagonismo, mas nem sempre concedemos ao outro alguns minutos de plateia.</p><p>Talvez exista a&#237; uma pequena contradi&#231;&#227;o de nosso tempo. Nunca houve tanta gente produzindo, escrevendo, filmando, desenhando, compondo e publicando. E talvez nunca tenha sido t&#227;o dif&#237;cil encontrar quem pare para receber.</p><p><strong><span>Todos falam.</span></strong></p><p><strong><span>Todos mostram.</span></strong></p><p><strong><span>Todos divulgam.</span></strong></p><p><strong><span>Poucos escutam.</span></strong></p><p>Sempre tive uma rela&#231;&#227;o muito estreita com os livros. Cresci numa casa em que eles estavam presentes. Meu pai me deixava bilhetes, frases e cita&#231;&#245;es. Minha m&#227;e era dona de escola. Tive, portanto, o privil&#233;gio de conviver com palavras desde cedo.</p><p>Ainda assim, devo ter virado o rosto para muitos poetas.</p><p>Talvez hoje eu compreenda melhor a coragem necess&#225;ria para chegar a uma mesa, abrir uma pasta, estender um livreto e dizer:</p><p style="text-align: center;"><em><span>&#8220;Eu fiz isto.&#8221;</span></em></p><p>Depois que come&#231;amos a escrever, corremos ainda outro risco: o de deixar de ler. O tempo da produ&#231;&#227;o come&#231;a a ocupar o tempo da recep&#231;&#227;o. Escrevemos textos, gravamos v&#237;deos, divulgamos livros, respondemos mensagens, pensamos em novas ideias. E aquele leitor voraz que fomos vai sendo apertado pela agenda do autor que nos tornamos.</p><p><strong><span>Procuro resistir a isso.</span></strong></p><p>Certamente leio menos do que j&#225; li. Escrever tamb&#233;m leva tempo. Mas tento n&#227;o abandonar o leitor que existe em mim, porque desconfio que, no dia em que eu deixar de receber as palavras dos outros, alguma coisa tamb&#233;m empobrecer&#225; nas palavras que ofere&#231;o.</p><p>Talvez a verdadeira evolu&#231;&#227;o n&#227;o esteja apenas em termos encontrado meios mais modernos de mostrar nosso trabalho.</p><p>Talvez esteja em aprender a olhar com mais delicadeza para quem ainda circula entre as mesas.</p><p>Nem todo poema ser&#225; bom. Nem todo quadro nos tocar&#225;. Nem todo livro nos interessar&#225;. N&#227;o precisamos comprar tudo, elogiar tudo ou fingir encantamento.</p><p><strong><span>Mas podemos olhar.</span></strong></p><p><strong><span>Podemos ouvir.</span></strong></p><p><strong><span>Podemos reconhecer a coragem.</span></strong></p><p>Podemos, de vez em quando, abrir espa&#231;o para que o outro tamb&#233;m seja protagonista.</p><p>Porque, no fundo, todos carregamos algum livreto debaixo do bra&#231;o.</p><p>Todos estamos tentando mostrar ao mundo aquilo que fizemos com nossa solid&#227;o, nossas mem&#243;rias, nossos afetos e nossos espantos.</p><p><strong><span>Todos queremos ganhar a vida.</span></strong></p><p><strong><span>E, em alguma medida, todos continuamos querendo incenso.</span></strong></p><p style="text-align: right;"><strong><span>Andr&#233; Lu&#237;s Oliveira</span></strong></p><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/63e5f945-169c-46de-bd21-83a90ad9106e_1254x1254.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/2dff3da7-f57e-4fa1-b1ee-a4c52d4419ed_1254x1254.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/7f35a2fc-612c-43ef-851f-de1931e08a69_1254x1254.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/3ae4759f-9a96-4d1b-905a-2a08fa36f75b_1254x1254.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/bfbf6c9a-a2df-4ee9-8b25-59387d54b848_1254x1254.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/fe749ea6-d72c-483d-9337-ecc6a777ef9f_1254x1254.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/94d16ec4-7bf2-4a1b-b7ce-d271dc11a52a_1254x1254.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;Querendo incenso&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;Cr&#244;nica para a P&#225;gina In&#250;til&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/47a3ad85-cdc4-44f0-9788-81add38c11f8_1456x1946.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Quando os livros começam a ficar cinza]]></title><description><![CDATA[Entre livros e telas, o perigo que escolhemos enxergar]]></description><link>https://apaginainutil.substack.com/p/quando-os-livros-comecam-a-ficar</link><guid isPermaLink="false">https://apaginainutil.substack.com/p/quando-os-livros-comecam-a-ficar</guid><dc:creator><![CDATA[André Luís Oliveira]]></dc:creator><pubDate>Thu, 16 Jul 2026 12:03:09 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!mrDW!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3e8884bd-0cce-437d-96c5-e1a34e8853c3_1254x1254.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Ontem &#224; noite, assistindo ao Roda Viva, reencontrei Ana Maria Machado.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o pessoalmente, claro. Reencontrei-a naquele lugar onde os escritores talvez existam de maneira ainda mais inteira: entre as hist&#243;rias que contaram, as perguntas que continuam provocando e os leitores que ajudaram a formar.</p><p style="text-align: justify;">A entrevista passava por sua trajet&#243;ria, pela literatura infantil, pela educa&#231;&#227;o, pela forma&#231;&#227;o de leitores e tamb&#233;m por um fen&#244;meno que ela conhece bem: a censura que hoje j&#225; n&#227;o chega necessariamente pelas m&#227;os de um governo, de um censor oficial ou de uma reparti&#231;&#227;o p&#250;blica. &#192;s vezes, ela nasce de um recorte, atravessa um grupo de WhatsApp e desembarca na escola com a autoridade de uma senten&#231;a.</p><p style="text-align: justify;">Foi ent&#227;o que me lembrei de Lucas.</p><p style="text-align: justify;">Eu havia come&#231;ado, fazia pouco tempo, minha carreira de pedagogo quando vi, pela primeira vez, um livro fininho, de capa colorida, sendo contado numa roda de crian&#231;as dos anos oitenta.</p><p style="text-align: justify;">O menino se chamava Lucas.</p><p style="text-align: justify;">E Lucas, segundo Ana Maria Machado, tinha o dom, ou o v&#237;cio, dependendo de quem julgasse, de espiar para dentro de si mesmo. Ficava ali, no meio da aula, no meio da conversa, aparentemente distra&#237;do, os olhos abertos, mas a alma em outro lugar.</p><p style="text-align: justify;">As professoras liam.</p><p style="text-align: justify;">As crian&#231;as se debru&#231;avam sobre a hist&#243;ria.</p><p style="text-align: justify;">E ningu&#233;m, absolutamente ningu&#233;m, pensava em morrer.</p><p style="text-align: justify;">Pensavam em voar.</p><p style="text-align: justify;">Em morar dentro de uma concha.</p><p style="text-align: justify;">Em atravessar paredes.</p><p style="text-align: justify;">Em ver autom&#243;veis com juba de le&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Pensavam, enfim, naquilo que as crian&#231;as sempre fizeram quando algu&#233;m lhes ofereceu uma boa hist&#243;ria: pensavam al&#233;m do poss&#237;vel.</p><p style="text-align: justify;">Muitos anos depois, uma passagem da p&#225;gina 23, na qual o menino comia uma ma&#231;&#227; para atravessar a fronteira entre o mundo real e o mundo de dentro, transformou-se, nas m&#227;os de pais alarmados e mensagens encaminhadas, numa suposta cartilha de incita&#231;&#227;o ao suic&#237;dio infantil.</p><p style="text-align: justify;">A editora precisou explicar o que a leitura inteira j&#225; explicava.</p><p style="text-align: justify;">A ma&#231;&#227; era a de Branca de Neve.</p><p style="text-align: justify;">O fuso era o da Bela Adormecida.</p><p style="text-align: justify;">O sono era o territ&#243;rio simb&#243;lico dos contos de fadas.</p><p style="text-align: justify;">E a hist&#243;ria terminava, como sempre havia terminado, com a m&#227;e acordando o menino e Lucas descobrindo que a vida do lado de fora, feita de afeto, conversa, presen&#231;a e conviv&#234;ncia, valia mais do que permanecer para sempre trancado dentro de si.</p><p style="text-align: justify;">Mas o print j&#225; havia chegado antes do livro.</p><p style="text-align: justify;">E, em nosso tempo, chegar primeiro muitas vezes significa parecer verdadeiro.</p><p style="text-align: justify;">Um deputado estadual ainda quis levar a discuss&#227;o ao plen&#225;rio. Perguntada mais tarde sobre a pol&#234;mica, Ana Maria Machado respondeu com a eleg&#226;ncia de quem j&#225; havia assistido a outras fogueiras:</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o fui envolvida. Apenas assisti.</p><p style="text-align: justify;">Talvez seja esse um dos dramas mais estranhos reservados aos escritores: passar anos construindo uma obra e, de repente, assistir a ela ser julgada por algu&#233;m que leu tr&#234;s linhas, recebeu uma fotografia de p&#225;gina e decidiu que j&#225; conhecia o livro inteiro.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o conhecia.</p><p style="text-align: justify;">Conhecia o pr&#243;prio susto.</p><p style="text-align: justify;">E susto n&#227;o &#233; leitura.</p><p style="text-align: justify;">Susto &#233; rea&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Leitura exige demora.</p><p style="text-align: justify;">Aconteceu tamb&#233;m com O Menino Marrom, de Ziraldo, livro sobre a amizade entre dois meninos, um negro e um branco, atravessada pelas descobertas da inf&#226;ncia e pelas perguntas sobre cor, identidade e diferen&#231;a. D&#233;cadas depois de publicado, trechos isolados foram considerados agressivos por alguns respons&#225;veis. Em 2024, o trabalho com a obra chegou a ser suspenso em escolas municipais de uma cidade mineira, ap&#243;s a press&#227;o de pais.</p><p style="text-align: justify;">Outra vez, o fragmento ocupou o lugar do todo.</p><p style="text-align: justify;">Outra vez, a escola precisou decidir entre mediar a literatura ou elimin&#225;-la.</p><p style="text-align: justify;">Outra vez, o livro foi tratado n&#227;o como territ&#243;rio de conversa, mas como objeto contaminado.</p><p style="text-align: justify;">E fico pensando tamb&#233;m em Elmer, o elefante xadrez de David McKee.</p><p style="text-align: justify;">Em sua manada, todos os elefantes s&#227;o cinzentos.</p><p style="text-align: justify;">Elmer, n&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Elmer &#233; amarelo, vermelho, azul, verde, preto, branco, cor-de-rosa. &#201; uma esp&#233;cie de vitral caminhando entre elefantes. Ele &#233; engra&#231;ado, inventivo, amado pelos outros, mas chega a acreditar que sua diferen&#231;a talvez seja um defeito. Por isso, cobre o corpo de cinza, tentando desaparecer dentro da normalidade.</p><p style="text-align: justify;">At&#233; que a chuva cai.</p><p style="text-align: justify;">E a chuva, como certas boas hist&#243;rias, retira a tinta com que tentamos esconder quem somos.</p><p style="text-align: justify;">&#201; poss&#237;vel ler Elmer como uma hist&#243;ria sobre diversidade.</p><p style="text-align: justify;">&#201; poss&#237;vel l&#234;-lo como uma hist&#243;ria sobre identidade.</p><p style="text-align: justify;">Como uma reflex&#227;o sobre pertencimento.</p><p style="text-align: justify;">Sobre a viol&#234;ncia silenciosa de desejar ser igual apenas para n&#227;o incomodar.</p><p style="text-align: justify;">Sobre o medo que sentimos de destoar da manada.</p><p style="text-align: justify;">Ou simplesmente como a hist&#243;ria bonita, engra&#231;ada e colorida de um elefante que aprende a n&#227;o ter vergonha de si.</p><p style="text-align: justify;">Uma boa obra n&#227;o se esgota numa legenda.</p><p style="text-align: justify;">Esse talvez seja o ponto que este nosso tempo parece ter desaprendido.</p><p style="text-align: justify;">Tudo precisa ser rapidamente classificado, etiquetado, aprovado ou condenado. Antes mesmo de terminar a leitura, queremos saber de que lado o livro est&#225;, o que ele pretende ensinar, qual mensagem correta devemos extrair e se algum trecho poder&#225; gerar reclama&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Como se a literatura fosse um rem&#233;dio acompanhado de bula.</p><p style="text-align: justify;">Como se toda hist&#243;ria devesse declarar antecipadamente suas inten&#231;&#245;es.</p><p style="text-align: justify;">Como se a fun&#231;&#227;o de um livro fosse proteger o leitor de qualquer inc&#244;modo.</p><p style="text-align: justify;">Mas a literatura n&#227;o nasceu para confirmar nossas certezas.</p><p style="text-align: justify;">Nasceu tamb&#233;m para perturb&#225;-las.</p><p style="text-align: justify;">Ela nos empresta olhos que n&#227;o s&#227;o os nossos. Coloca-nos dentro de fam&#237;lias diferentes, corpos diferentes, &#233;pocas diferentes, medos diferentes. Faz uma crian&#231;a conversar com uma bisav&#243; que vive dentro dela. Faz um menino visitar o mundo de dentro. Faz um elefante colorido desejar ser cinza. Faz dois meninos olharem para a pr&#243;pria pele e perceberem que cor tamb&#233;m &#233; hist&#243;ria, mem&#243;ria e modo de ser visto pelo outro.</p><p style="text-align: justify;">Um livro n&#227;o &#233; perigoso porque apresenta uma pergunta.</p><p style="text-align: justify;">Talvez seja mais perigoso um mundo no qual nenhuma pergunta possa ser apresentada.</p><p style="text-align: justify;">E aqui, leitor, est&#225; a virada que me inquieta.</p><p style="text-align: justify;">Durante a ditadura, quem cortava um livro era o Estado.</p><p style="text-align: justify;">Hoje, muitas vezes, quem corta &#233; o cliente.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o digo isso com desprezo pelos pais. Sou educador, diretor de escola e pai. Conhe&#231;o a ang&#250;stia leg&#237;tima de quem entrega um filho a uma institui&#231;&#227;o e espera que ele seja cuidado. Sei que fam&#237;lia e escola n&#227;o deveriam ocupar lados opostos de uma trincheira. Ao contr&#225;rio: precisam caminhar juntas.</p><p style="text-align: justify;">Mas caminhar juntas n&#227;o significa que uma delas deva desaparecer.</p><p style="text-align: justify;">Em algum ponto do percurso, especialmente na escola particular, transformamos o pai-parceiro em pai-consumidor.</p><p style="text-align: justify;">E consumidor se acostumou a ter sempre raz&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Consumidor n&#227;o deseja necessariamente compreender uma escolha pedag&#243;gica. Deseja que sua insatisfa&#231;&#227;o seja atendida.</p><p style="text-align: justify;">Consumidor n&#227;o participa de uma conversa. Abre uma reclama&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Consumidor n&#227;o pergunta por que determinado livro foi escolhido. Exige saber quem autorizou sua presen&#231;a.</p><p style="text-align: justify;">E a escola, dependente de mensalidades, acuada por grupos de mensagens e temerosa de crises p&#250;blicas, come&#231;a a retirar antes mesmo que algu&#233;m pe&#231;a.</p><p style="text-align: justify;">&#201; a&#237; que a censura se torna mais profunda.</p><p style="text-align: justify;">Quando o outro manda cortar, ainda sabemos que estamos sendo censurados.</p><p style="text-align: justify;">Quando cortamos antecipadamente para evitar uma poss&#237;vel reclama&#231;&#227;o, passamos a chamar a censura de prud&#234;ncia.</p><p style="text-align: justify;">Autores come&#231;am a evitar temas.</p><p style="text-align: justify;">Editores retiram palavras.</p><p style="text-align: justify;">Professores abandonam obras.</p><p style="text-align: justify;">Coordenadores escolhem apenas o que n&#227;o produz ru&#237;do.</p><p style="text-align: justify;">E a literatura vai sendo arredondada, higienizada, almofadada, at&#233; que nenhuma aresta reste para tocar verdadeiramente uma crian&#231;a.</p><p style="text-align: justify;">Criamos, assim, uma esp&#233;cie de pedagogia da rasura.</p><p style="text-align: justify;">Rasuramos o conflito.</p><p style="text-align: justify;">Rasuramos a ambiguidade.</p><p style="text-align: justify;">Rasuramos as palavras que envelheceram, em vez de conversar sobre o tempo em que foram escritas.</p><p style="text-align: justify;">Rasuramos personagens imperfeitos, como se a imperfei&#231;&#227;o n&#227;o fosse justamente uma das mat&#233;rias-primas da humanidade.</p><p style="text-align: justify;">Rasuramos o que exige media&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">No final, talvez estejamos rasurando n&#227;o apenas os livros, mas a pr&#243;pria possibilidade de pensar.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o sei se a palavra &#233; desculturamento.</p><p style="text-align: justify;">Talvez seja empobrecimento.</p><p style="text-align: justify;">Um estreitamento do repert&#243;rio.</p><p style="text-align: justify;">Uma incapacidade crescente de permanecer diante de algo que n&#227;o se oferece completamente mastigado. Os adultos leem cada vez menos literatura e, quando leem um trecho isolado de um livro infantil, exigem dele uma literalidade que jamais exigiriam de uma can&#231;&#227;o, de uma novela ou de uma piada compartilhada entre amigos.</p><p style="text-align: justify;">A met&#225;fora passa a ser suspeita.</p><p style="text-align: justify;">O duplo sentido torna-se amea&#231;a.</p><p style="text-align: justify;">A fantasia precisa prestar depoimento.</p><p style="text-align: justify;">Enquanto isso, h&#225; um paradoxo dif&#237;cil de ignorar.</p><p style="text-align: justify;">Pais que se mobilizam para retirar um livro de uma estante muitas vezes n&#227;o sabem exatamente o que os filhos assistem durante horas numa tela.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o por desamor.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o necessariamente por neglig&#234;ncia consciente.</p><p style="text-align: justify;">Mas porque a vida corre.</p><p style="text-align: justify;">Porque o trabalho invade a casa.</p><p style="text-align: justify;">Porque o cansa&#231;o chega.</p><p style="text-align: justify;">Porque o celular oferece alguns minutos de sil&#234;ncio.</p><p style="text-align: justify;">E porque os perigos das telas n&#227;o costumam vir encadernados, com t&#237;tulo, nome do autor, editora e indica&#231;&#227;o et&#225;ria impressa na contracapa.</p><p style="text-align: justify;">Eles chegam em fluxo.</p><p style="text-align: justify;">Um v&#237;deo conduz ao pr&#243;ximo.</p><p style="text-align: justify;">Uma brincadeira conduz a um desafio.</p><p style="text-align: justify;">Uma imagem conduz a outra mais intensa.</p><p style="text-align: justify;">O algoritmo n&#227;o participa da reuni&#227;o de pais.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o envia planejamento pedag&#243;gico.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o explica seus objetivos.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o conhece a crian&#231;a, mas aprende rapidamente aquilo que prende seus olhos.</p><p style="text-align: justify;">O livro, ao contr&#225;rio, est&#225; ali.</p><p style="text-align: justify;">Pode ser lido pelo adulto.</p><p style="text-align: justify;">Pode ser discutido com a escola.</p><p style="text-align: justify;">Pode ser interrompido.</p><p style="text-align: justify;">Retomado.</p><p style="text-align: justify;">Contextualizado.</p><p style="text-align: justify;">Pode gerar perguntas e receber contrapontos.</p><p style="text-align: justify;">Entre a crian&#231;a e o livro, existe a possibilidade de media&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Entre a crian&#231;a e o fluxo infinito de uma tela, muitas vezes existe apenas um dedo que continua deslizando.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o se trata de demonizar a tecnologia. Isso tamb&#233;m seria uma leitura pobre, apressada e bin&#225;ria. As telas podem ensinar, aproximar, criar e ampliar horizontes.</p><p style="text-align: justify;">Mas &#233; curioso que direcionemos tamanha vigil&#226;ncia &#224;s met&#225;foras de um livro e t&#227;o pouca aten&#231;&#227;o aos mecanismos constru&#237;dos precisamente para manter uma crian&#231;a conectada.</p><p style="text-align: justify;">Tememos a ma&#231;&#227; imagin&#225;ria de Lucas, mas entregamos &#224;s crian&#231;as um pomar inteiro administrado por algoritmos.</p><p style="text-align: justify;">Tememos que Elmer confunda uma crian&#231;a ao ser colorido demais, mas permitimos que ela passe horas diante de modelos inalcan&#231;&#225;veis de beleza, felicidade e sucesso.</p><p style="text-align: justify;">Tememos uma conversa sobre cor em Ziraldo, mas muitas vezes ignoramos o racismo que circula disfar&#231;ado de humor nas redes.</p><p style="text-align: justify;">Talvez porque seja mais f&#225;cil retirar um livro do que reorganizar uma rotina.</p><p style="text-align: justify;">Mais f&#225;cil reclamar com a escola do que enfrentar o pr&#243;prio cansa&#231;o.</p><p style="text-align: justify;">Mais f&#225;cil controlar uma professora do que compreender uma plataforma bilion&#225;ria.</p><p style="text-align: justify;">Ainda assim, n&#227;o acredito que a solu&#231;&#227;o seja culpar os pais.</p><p style="text-align: justify;">A culpa tamb&#233;m empobrece a conversa.</p><p style="text-align: justify;">O que precisamos recuperar &#233; a parceria.</p><p style="text-align: justify;">Pais n&#227;o s&#227;o apenas clientes.</p><p style="text-align: justify;">Professores n&#227;o s&#227;o prestadores de servi&#231;o.</p><p style="text-align: justify;">Diretores n&#227;o s&#227;o gerentes de conten&#231;&#227;o de crises.</p><p style="text-align: justify;">E crian&#231;as n&#227;o s&#227;o consumidores em treinamento.</p><p style="text-align: justify;">A escola precisa ouvir as fam&#237;lias, mas tamb&#233;m precisa ter coragem para explicar suas escolhas. Precisa reconhecer quando uma obra &#233; inadequada, quando envelheceu mal ou quando exige outra forma de apresenta&#231;&#227;o. Mas precisa igualmente defender aquilo que merece ser lido.</p><p style="text-align: justify;">Educar &#233; tamb&#233;m sustentar conversas dif&#237;ceis.</p><p style="text-align: justify;">&#201; ensinar que compreender uma obra n&#227;o significa concordar com tudo o que existe nela.</p><p style="text-align: justify;">Que uma frase n&#227;o &#233; um livro inteiro.</p><p style="text-align: justify;">Que o narrador n&#227;o &#233; necessariamente o autor.</p><p style="text-align: justify;">Que personagens podem errar.</p><p style="text-align: justify;">Que palavras possuem hist&#243;ria.</p><p style="text-align: justify;">Que livros escritos em outros tempos podem ser lidos com os olhos de hoje sem que precisem ser queimados pelos olhos de hoje.</p><p style="text-align: justify;">A media&#231;&#227;o n&#227;o apaga o problema.</p><p style="text-align: justify;">Ela ilumina.</p><p style="text-align: justify;">Fico pensando novamente no menino Lucas, sonhando dentro de si, acreditando que poderia permanecer para sempre naquele mundo particular, at&#233; perceber que n&#227;o era poss&#237;vel. O breu tomava conta quando faltava o mundo de fora para alimentar sua imagina&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Talvez seja essa a met&#225;fora mais honesta para o nosso tempo.</p><p style="text-align: justify;">A literatura infantil continua ensinando &#224;s crian&#231;as que podemos visitar o mundo de dentro, mas n&#227;o devemos morar nele sozinhos.</p><p style="text-align: justify;">Enquanto isso, muitos adultos se fecham dentro da pr&#243;pria indigna&#231;&#227;o, cercados por recortes, certezas e mensagens encaminhadas, sem espiar o texto inteiro antes de conden&#225;-lo.</p><p style="text-align: justify;">Elmer tentou tornar-se cinza para n&#227;o destoar da manada.</p><p style="text-align: justify;">Talvez estejamos fazendo o mesmo com os livros.</p><p style="text-align: justify;">Retirando suas cores, suas contradi&#231;&#245;es, suas perguntas e suas pequenas ousadias, at&#233; que todos caibam numa estante perfeitamente segura, perfeitamente correta e perfeitamente sem vida.</p><p style="text-align: justify;">Uma estante onde nada assusta.</p><p style="text-align: justify;">Nada incomoda.</p><p style="text-align: justify;">Nada transforma.</p><p style="text-align: justify;">E uma literatura que n&#227;o transforma talvez j&#225; tenha sido retirada da escola, mesmo que continue fisicamente sobre a prateleira.</p><p style="text-align: justify;">Antes de recolhermos o pr&#243;ximo livro, portanto, conv&#233;m perguntar:</p><p style="text-align: justify;">Estamos protegendo nossas crian&#231;as de uma hist&#243;ria perigosa?</p><p style="text-align: justify;">Ou estamos protegendo os adultos do desconforto de precisar conversar sobre ela?</p><p style="text-align: right;"><strong>Andr&#233; Lu&#237;s Oliveira</strong></p><p style="text-align: right;"><em><span>tio Visconde</span></em></p><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/3e8884bd-0cce-437d-96c5-e1a34e8853c3_1254x1254.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/107a69a9-8f4a-407b-967d-7249c97be506_1254x1254.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/4d5269f4-d014-4348-a0c2-6fba2f70084f_1254x1254.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/36ad8c27-36ba-4ded-8016-5937b242c6c5_1254x1254.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/192bf46f-aa96-4151-aa68-a4037636c3e8_1254x1254.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/2b9e1734-6d01-48b9-a20f-ae0faec93573_1254x1254.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/42215730-61bb-4645-a913-9c6eee4b5f79_1456x964.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p style="text-align: right;"></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O futebol de nome e sobrenome]]></title><description><![CDATA[Uma cr&#244;nica sobre grife, apelidos e a bola que j&#225; n&#227;o sabe como se chamar]]></description><link>https://apaginainutil.substack.com/p/o-futebol-de-nome-e-sobrenome</link><guid isPermaLink="false">https://apaginainutil.substack.com/p/o-futebol-de-nome-e-sobrenome</guid><dc:creator><![CDATA[André Luís Oliveira]]></dc:creator><pubDate>Tue, 14 Jul 2026 12:07:13 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!XhPq!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F357c183d-ec97-42ca-8318-2c703f8574f5_1080x1080.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Houve um tempo em que o futebol brasileiro cabia num apelido.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Pel&#233;.</strong></p><p style="text-align: justify;"><strong>Didi.</strong></p><p style="text-align: justify;"><strong>Zito.</strong></p><p style="text-align: justify;"><strong>Garrincha.</strong></p><p style="text-align: justify;"><strong>Zico.</strong></p><p style="text-align: justify;"><strong>Tita.</strong></p><p style="text-align: justify;"><strong>Falc&#227;o.</strong></p><p style="text-align: justify;"><strong>Magr&#227;o.</strong></p><p style="text-align: justify;">Nomes que pareciam ter sido escolhidos no recreio, no campinho de terra, no port&#227;o da escola ou durante uma briga de rua. Ningu&#233;m precisava saber o nome completo de Garrincha para entender que ele faria alguma coisa que o nome de batismo jamais conseguiria explicar.</p><p style="text-align: justify;">O apelido j&#225; entrava em campo driblando.</p><p style="text-align: justify;">Pel&#233; n&#227;o parecia nome de cart&#243;rio. Parecia barulho de bola batendo na trave.</p><p style="text-align: justify;">Didi tinha a leveza de quem poderia jogar de meias.</p><p style="text-align: justify;">Zico parecia coisa r&#225;pida, um risco de giz atravessando a defesa.</p><p style="text-align: justify;">Magr&#227;o j&#225; chegava com um corpo inteiro dentro da palavra.</p><p style="text-align: justify;">Falc&#227;o n&#227;o precisava de sobrenome porque j&#225; tinha asas.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Hoje, n&#227;o.</strong></p><p style="text-align: justify;">Hoje o jogador entra em campo com nome, sobrenome, segundo sobrenome, nome art&#237;stico, marca registrada, assessoria de imprensa e possibilidade futura de linha pr&#243;pria de perfumes.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o &#233; mais o ponta.</p><p style="text-align: justify;">&#201; o Gabriel alguma coisa.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o &#233; mais o meia.</p><p style="text-align: justify;">&#201; o Bruno qualquer sobrenome.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o &#233; mais o centroavante.</p><p style="text-align: justify;">&#201; o Jo&#227;o Pedro de sobrenome internacional, ainda que tenha nascido a tr&#234;s ruas do mercadinho do seu Nivaldo.</p><p style="text-align: justify;">Nada contra Jo&#227;o Pedro.</p><p style="text-align: justify;">Meu filho, inclusive, chama-se Jo&#227;o Pedro.</p><p style="text-align: justify;">O nome composto sempre existiu. Tivemos Jo&#227;o Paulo, ponta esquerda. Tivemos Carlos Alberto, Paulo Roberto, Lu&#237;s Carlos. Eram nomes de gente. Nomes que a m&#227;e gritava da janela:</p><p style="text-align: center;"><em>&#8220;Carlos Alberto, vem tomar banho!&#8221;</em></p><p style="text-align: justify;">O que mudou n&#227;o foi o nome composto.</p><p style="text-align: justify;">Mudou a embalagem.</p><p style="text-align: justify;">Antes, o jogador tinha dois nomes porque seus pais haviam escolhido dois nomes.</p><p style="text-align: justify;">Hoje, ele tem nome e sobrenome como quem apresenta uma cole&#231;&#227;o de inverno.</p><p style="text-align: justify;">H&#225; alguma coisa de loja de shopping no futebol contempor&#226;neo.</p><p style="text-align: justify;">O jogador n&#227;o parece apenas jogar.</p><p style="text-align: justify;">Parece estar lan&#231;ando uma marca.</p><p style="text-align: justify;">Voc&#234; ouve a escala&#231;&#227;o e tem a impress&#227;o de que algu&#233;m apresentar&#225;, logo depois, uma linha de rel&#243;gios, uma franquia de barbearias ou um empreendimento imobili&#225;rio pr&#243;ximo ao litoral.</p><p style="text-align: justify;">&#201; o futebol de grife.</p><p style="text-align: justify;">Ou, talvez, o futebol que quer ter grife.</p><p style="text-align: justify;">Porque grife de verdade n&#227;o se anuncia.</p><p style="text-align: justify;">Pel&#233; era uma grife sem precisar de logotipo.</p><p style="text-align: justify;">Garrincha era uma marca imposs&#237;vel de falsificar.</p><p style="text-align: justify;">Zico n&#227;o precisava colocar o pr&#243;prio nome em letras douradas na chuteira. O nome j&#225; estava escrito no movimento.</p><p style="text-align: justify;">A grife vinha da jogada.</p><p style="text-align: justify;">Hoje, muitas vezes, a jogada vem depois da grife. Quando vem.</p><p style="text-align: justify;">H&#225; jogadores com nomes que parecem ocupar mais espa&#231;o na camisa do que eles ocupam no jogo.</p><p style="text-align: justify;">Correm com eleg&#226;ncia publicit&#225;ria.</p><p style="text-align: justify;">Caem em c&#226;mera lenta.</p><p style="text-align: justify;">Reclamam com dic&#231;&#227;o de coletiva de imprensa.</p><p style="text-align: justify;">Fazem um gesto ensaiado depois de um passe para o lado.</p><p style="text-align: justify;">O futebol ficou cafona.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o cafona como uma camisa florida, um sof&#225; de veludo ou uma m&#250;sica rom&#226;ntica tocada num teclado eletr&#244;nico. Essas coisas podem ter uma beleza irresist&#237;vel.</p><p style="text-align: justify;">O futebol ficou cafona de outro modo.</p><p style="text-align: justify;">Ficou cafona porque deseja parecer sofisticado.</p><p style="text-align: justify;">A verdadeira cafonice come&#231;a quando algu&#233;m precisa provar que n&#227;o &#233; cafona.</p><p style="text-align: justify;">O futebol brasileiro j&#225; usou mullet, bigode, mei&#227;o ca&#237;do, camisa para dentro do cal&#231;&#227;o e n&#250;meros tortos nas costas. E era bonito.</p><p style="text-align: justify;">S&#243;crates entrava em campo parecendo ter acabado de sair de uma assembleia ou de um bar. Falc&#227;o tinha cabelo de cantor italiano. Zico suava como um homem que realmente trabalhava. Garrincha carregava as pernas tortas sem procurar um especialista em imagem pessoal.</p><p style="text-align: justify;">Ningu&#233;m era produzido.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Eram jogadores.</strong></p><p style="text-align: justify;">Hoje h&#225; penteados geom&#233;tricos, tatuagens conceituais, comemora&#231;&#245;es registradas, iniciais bordadas, contratos de imagem e uma enorme preocupa&#231;&#227;o em parecer protagonista.</p><p style="text-align: justify;">O problema &#233; que protagonismo n&#227;o se parece.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Acontece.</strong></p><p style="text-align: justify;">&#201; poss&#237;vel que esta implic&#226;ncia seja apenas coisa de velho.</p><p style="text-align: justify;">Todo homem que envelhece come&#231;a a desconfiar do futebol contempor&#226;neo. Primeiro reclama da chuteira colorida. Depois, do cabelo. Em seguida, percebe que est&#225; comparando cada lateral-direito a Carlos Alberto Torres e cada ponta a Garrincha.</p><p style="text-align: justify;">&#201; um caminho sem volta.</p><p style="text-align: justify;">Daqui a pouco, a pessoa estar&#225; dizendo que jogador bom mesmo era aquele que atravessava o campo de &#244;nibus e ainda chegava antes da partida.</p><p style="text-align: justify;">Mas minha desconfian&#231;a n&#227;o &#233; exatamente contra os jogadores de hoje.</p><p style="text-align: justify;">&#201; contra esta necessidade de transformar tudo em produto antes que se transforme em hist&#243;ria.</p><p style="text-align: justify;">O menino ainda nem deu o primeiro drible e j&#225; tem empres&#225;rio.</p><p style="text-align: justify;">Ainda n&#227;o fez um gol importante e j&#225; possui um gesto pr&#243;prio de comemora&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Ainda n&#227;o virou &#237;dolo e j&#225; &#233; chamado de fen&#244;meno.</p><p style="text-align: justify;">Ainda n&#227;o tem hist&#243;ria, mas j&#225; tem document&#225;rio.</p><p style="text-align: justify;">Talvez o futebol tenha come&#231;ado a piorar quando passou a se preocupar demais em parecer grande.</p><p style="text-align: justify;">A grandeza antiga era quase distra&#237;da.</p><p style="text-align: justify;">Pel&#233; fazia o gol e sorria.</p><p style="text-align: justify;">Garrincha driblava porque o advers&#225;rio estava na frente.</p><p style="text-align: justify;">Zico batia a falta porque havia uma barreira e, atr&#225;s dela, um gol.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o havia a obriga&#231;&#227;o de construir uma narrativa de marca. A narrativa nascia do que acontecia dentro do campo.</p><p style="text-align: justify;">Agora, &#224;s vezes, parece o contr&#225;rio.</p><p style="text-align: justify;">A narrativa est&#225; pronta.</p><p style="text-align: justify;"><strong>S&#243; falta o futebol.</strong></p><p style="text-align: justify;">Talvez seja mera coincid&#234;ncia que o nosso jogo tenha perdido parte da alegria justamente na era dos nomes e sobrenomes.</p><p style="text-align: justify;">Mas gosto de imaginar que n&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Gosto de pensar que o apelido libertava o jogador do curr&#237;culo.</p><p style="text-align: justify;">Quem entrava em campo como Pel&#233; n&#227;o precisava representar Edson Arantes do Nascimento.</p><p style="text-align: justify;">Quem era Garrincha podia deixar Manoel Francisco dos Santos no vesti&#225;rio.</p><p style="text-align: justify;">O apelido retirava o peso da identidade civil.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Era quase uma fantasia.</strong></p><p style="text-align: justify;">E futebol sempre precisou de fantasia.</p><p style="text-align: justify;">O nome e o sobrenome exigem compostura.</p><p style="text-align: justify;"><strong>O apelido permite o improviso.</strong></p><p style="text-align: justify;">O nome e o sobrenome querem construir uma carreira.</p><p style="text-align: justify;"><strong>O apelido quer jogar bola.</strong></p><p style="text-align: justify;">O nome e o sobrenome chegam &#224; coletiva.</p><p style="text-align: justify;"><strong>O apelido chega &#224; &#225;rea.</strong></p><p style="text-align: justify;">Talvez o nosso futebol n&#227;o precise de novos esquemas t&#225;ticos, centros de excel&#234;ncia ou relat&#243;rios de desempenho.</p><p style="text-align: justify;">Talvez precise apenas de algu&#233;m capaz de olhar para um menino chamado Gabriel Henrique de alguma coisa e dizer:</p><p style="text-align: center;"><em>&#8220;A partir de hoje, voc&#234; &#233; o Bicudo.&#8221;</em></p><p style="text-align: justify;">Pode parecer pouco.</p><p style="text-align: justify;">Mas talvez o futebol brasileiro s&#243; esteja esperando que algu&#233;m lhe devolva um apelido.</p><p style="text-align: right;"><strong>Andr&#233; Lu&#237;s Oliveira</strong></p><p style="text-align: right;"><em><span>tio Visconde</span></em></p><p><span>P&#225;gina In&#250;til</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Mentiras sinceras me interessam]]></title><description><![CDATA[Tr&#234;s mentiras kamikazes de um menino t&#237;mido &#8226; Andr&#233; Lu&#237;s Oliveira &#8212; Tio Visconde]]></description><link>https://apaginainutil.substack.com/p/mentiras-sinceras-me-interessam</link><guid isPermaLink="false">https://apaginainutil.substack.com/p/mentiras-sinceras-me-interessam</guid><dc:creator><![CDATA[André Luís Oliveira]]></dc:creator><pubDate>Thu, 09 Jul 2026 12:03:06 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!XhPq!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F357c183d-ec97-42ca-8318-2c703f8574f5_1080x1080.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">&#8226; &#8226; &#8226;</p><p style="text-align: justify;"><em>&#8220;Palavras s&#227;o erros, e os erros s&#227;o seus.&#8221;</em></p><p style="text-align: justify;">A frase da Legi&#227;o Urbana sempre me pareceu de uma honestidade quase desconcertante. Talvez porque, logo depois de apontar o dedo para o outro, a can&#231;&#227;o recolha a m&#227;o: &#8220;N&#227;o quero lembrar que eu erro tamb&#233;m.&#8221;</p><p style="text-align: justify;">&#201; assim tamb&#233;m com a mentira.</p><p style="text-align: justify;">A gente fala dela como se fosse sempre um v&#237;cio alheio. Mentirosos s&#227;o os outros. N&#243;s, quando muito, apenas aumentamos um pouco a hist&#243;ria, protegemos algu&#233;m, esquecemos um detalhe, embelezamos a verdade ou contamos os fatos de um &#226;ngulo mais favor&#225;vel.</p><p style="text-align: justify;">Cazuza foi ainda mais direto: &#8220;Mentiras sinceras me interessam.&#8221;</p><p style="text-align: justify;">Deixo aos psicanalistas a tarefa de explicar por que mentimos. Eu, que j&#225; cheguei &#224; condi&#231;&#227;o de sexagen&#225;rio, prefiro lembrar de tr&#234;s mentiras da juventude. Tr&#234;s mentiras kamikazes. Daquelas que, antes de atingirem o alvo, quase sempre explodem no colo de quem as inventou.</p><p style="text-align: justify;">A primeira nasceu de um viol&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Eu devia ter uns dez anos quando meus pais me colocaram numa aula de m&#250;sica. Eu era muito t&#237;mido, e eles acreditavam que o viol&#227;o poderia ser uma sa&#237;da. Naquele tempo, antes das baladas, dos DJs e das caixas de som capazes de fazer tremer at&#233; os pensamentos, eram os tocadores de viol&#227;o que emprestavam o verdadeiro el&#227; &#224;s festinhas.</p><p style="text-align: justify;">Quem tocava viol&#227;o possu&#237;a uma esp&#233;cie de salvo-conduto social. Podia ser chamado para o centro da roda, recebia olhares interessados e, de quebra, ainda conhecia todas as meninas pelo nome.</p><p style="text-align: justify;">Meus pais, na melhor das inten&#231;&#245;es, talvez tenham imaginado: quem sabe o viol&#227;o solta esse menino?</p><p style="text-align: justify;">O problema &#233; que eu n&#227;o soltava nem os dedos.</p><p style="text-align: justify;">A primeira m&#250;sica foi &#8220;Marinheiro S&#243;&#8221;. Depois veio &#8220;Sereno&#8221;: &#8220;Sereno, eu caio, eu caio, sereno, deixa cair...&#8221;</p><p style="text-align: justify;">Eu tocava t&#227;o devagar que o sereno parecia nunca cair. A m&#250;sica permanecia</p><p style="text-align: justify;">suspensa no ar enquanto eu tentava mudar a posi&#231;&#227;o dos dedos.</p><p style="text-align: justify;">Anos depois, nos almo&#231;os e churrascos da fam&#237;lia, minha m&#227;e, mineira e brincalhona,</p><p style="text-align: justify;">dizia que eu havia ficado eternamente constipado: de tanto permanecer no sereno, nunca</p><p style="text-align: justify;">conseguira sair dele.</p><p style="text-align: justify;">Ainda assim, ganhei um viol&#227;o bonito. Um viol&#227;o que, pelo menos visualmente,</p><p style="text-align: justify;">sugeria que o dono sabia o que estava fazendo.</p><p style="text-align: justify;">Talvez a&#237; tenha come&#231;ado o problema.</p><p style="text-align: justify;">Na escola, a professora organizou um semin&#225;rio que teria tamb&#233;m uma apresenta&#231;&#227;o</p><p style="text-align: justify;">musical. Uma menina da sala, por quem eu era secretamente apaixonado, foi escolhida</p><p style="text-align: justify;">para comandar o pequeno grupo de m&#250;sica.</p><p style="text-align: justify;">Ela tocava viol&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">A professora perguntou quem mais sabia tocar.</p><p style="text-align: justify;">Duas m&#227;os se levantaram.</p><p style="text-align: justify;">E, logo depois, levantou-se a minha.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o pensei nas consequ&#234;ncias. N&#227;o pensei que, em algum momento, seria necess&#225;rio</p><p style="text-align: justify;">transformar aquela m&#227;o erguida em acordes. N&#227;o pensei no ensaio, na m&#250;sica ou no</p><p style="text-align: justify;">inevit&#225;vel instante em que algu&#233;m me pediria para tocar.</p><p style="text-align: justify;">Pensei apenas que estaria perto dela.</p><p style="text-align: justify;">A menina olhou para mim. Lembro-me de seus olhos azuis brilhando, como se</p><p style="text-align: justify;">tivessem acabado de descobrir em mim uma qualidade inesperada.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Uau! Voc&#234; toca viol&#227;o?</p><p style="text-align: justify;">Aquele &#8220;uau&#8221; valeu a mentira inteira.</p><p style="text-align: justify;">Durante dois dias, fui o menino que tocava viol&#227;o. Foram provavelmente os dois dias</p><p style="text-align: justify;">mais musicais da minha vida.</p><p style="text-align: justify;">At&#233; que chegou o ensaio.</p><p style="text-align: justify;">Marcado no contraturno, est&#225;vamos n&#243;s tr&#234;s: a menina, o Rubens e eu. Cada um com</p><p style="text-align: justify;">seu viol&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Ela sugeriu um acorde. Talvez sol maior. A mem&#243;ria n&#227;o guardou a nota exata, mas</p><p style="text-align: justify;">guardou o abismo que se abriu diante de mim.</p><p style="text-align: justify;">Eu n&#227;o sabia faz&#234;-lo.</p><p style="text-align: justify;">Olhei para o bra&#231;o do viol&#227;o como quem olha para o painel de um avi&#227;o durante uma</p><p style="text-align: justify;">turbul&#234;ncia.</p><p style="text-align: justify;">Rubens me encarou. Ela tamb&#233;m.</p><p style="text-align: justify;">Primeiro com estranhamento. Depois com compreens&#227;o. E, finalmente, com aquela piedade silenciosa que costuma anteceder uma demiss&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Fui eliminado do conjunto antes de tocar a primeira m&#250;sica.</p><p style="text-align: justify;">Durante dois dias, por&#233;m, impressionei a menina dos olhos azuis.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o foi uma mentira in&#250;til. Foi uma esp&#233;cie de aluguel tempor&#225;rio de coragem.</p><p style="text-align: justify;">A segunda mentira me rendeu uma gl&#243;ria maior e um preju&#237;zo mais dolorido.</p><p style="text-align: justify;">Na minha sala havia outro Andr&#233;.</p><p style="text-align: justify;">Eu era mais alto, mas muito magro. Ele era baixo, forte e praticava jud&#244;.</p><p style="text-align: justify;">Apesar da estatura, ele era o Andrez&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Eu, apesar da altura, era o Andrezinho.</p><p style="text-align: justify;">Certa manh&#227;, pr&#243;ximo ao hor&#225;rio do recreio, sa&#237; da sala para beber &#225;gua. No corredor, encontrei o Andrez&#227;o. Obcecado por lutas, golpes e demonstra&#231;&#245;es de for&#231;a, ele resolveu fazer um teste.</p><p style="text-align: justify;">Deitou-se no ch&#227;o e disse:</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Segura meus bra&#231;os. Quero ver se consigo escapar.</p><p style="text-align: justify;">Eu segurei.</p><p style="text-align: justify;">Ele tentou sair.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o conseguiu imediatamente.</p><p style="text-align: justify;">Foram talvez quinze segundos. O tempo suficiente para que uma menina que passava pelo corredor visse a cena e come&#231;asse a gritar:</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Gente! O Andrezinho est&#225; batendo no Andrez&#227;o!</p><p style="text-align: justify;">As portas das salas se abriram.</p><p style="text-align: justify;">Em segundos, formou-se uma plateia.</p><p style="text-align: justify;">O fato era in&#233;dito: o magrelo Andrezinho havia rendido o temido Andrez&#227;o do jud&#244;.</p><p style="text-align: justify;">At&#233; aquele momento, eu apenas participava de um teste. Mas, quando percebi que havia p&#250;blico, passei a participar de uma lenda.</p><p style="text-align: justify;">Segurei com mais for&#231;a.</p><p style="text-align: justify;">Andrez&#227;o come&#231;ou a ficar constrangido.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Andr&#233;, fala para eles que &#233; s&#243; um treino!</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o falei.</p><p style="text-align: justify;">Apertei ainda mais os bra&#231;os dele.</p><p style="text-align: justify;">Naquele instante, eu sabia que a verdade destruiria a cena. E a cena estava boa demais para ser destru&#237;da.</p><p style="text-align: justify;">Andy Warhol falou sobre os quinze minutos de fama. Eu tive os meus no corredor da escola.</p><p style="text-align: justify;">A professora precisou intervir e nos separar. Mas a hist&#243;ria j&#225; estava pronta: Andrezinho, o magrelo, havia rendido Andrez&#227;o, o judoca mais temido do col&#233;gio.</p><p style="text-align: justify;">Na sa&#237;da, sem plateia, sem professora e sem nenhuma testemunha interessada em proteger a vers&#227;o oficial dos fatos, Andrez&#227;o me deu um belo soco no rosto.</p><p style="text-align: justify;">Do&#237;a.</p><p style="text-align: justify;">Mas a fama anestesiava um pouco.</p><p style="text-align: justify;">Eu havia apanhado na realidade, mas vencido na narrativa.</p><p style="text-align: justify;">A terceira mentira veio alguns anos depois, no Guaruj&#225;.</p><p style="text-align: justify;">Eu tinha dezesseis ou dezessete anos e viajava com minha fam&#237;lia. Numa caminhada pela praia, conheci uma mo&#231;a que vendia sandu&#237;ches naturais.</p><p style="text-align: justify;">Existe uma idade em que estar perto da fam&#237;lia diante de uma mo&#231;a bonita parece uma esp&#233;cie de constrangimento p&#250;blico. &#201; como experimentar uma cal&#231;a numa loja da Levi&#8217;s enquanto a m&#227;e, que est&#225; pagando a compra, insiste em conferir se a pe&#231;a caiu bem.</p><p style="text-align: justify;">Voc&#234; gostaria de fingir que chegou sozinho ao mundo.</p><p style="text-align: justify;">Mas sua m&#227;e est&#225; ali.</p><p style="text-align: justify;">E quer olhar a barra da cal&#231;a.</p><p style="text-align: justify;">Foi nesse estado de falsa independ&#234;ncia que comecei a flertar com a mo&#231;a dos sandu&#237;ches naturais.</p><p style="text-align: justify;">Seu nome era Rosana. Ela j&#225; dirigia. Eu ainda n&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Havia alguma coisa de &#8220;Eduardo e M&#244;nica&#8221; naquela hist&#243;ria, s&#243; que, naquele momento, eu ainda n&#227;o sabia que o encantamento renderia um namoro de quase tr&#234;s anos.</p><p style="text-align: justify;">Naquele ver&#227;o, acontecia um festival de m&#250;sica em Santos. Rosana apareceu em seu Voyage, falou com meus pais e pediu autoriza&#231;&#227;o para me levar ao show da Blitz. No banco de tr&#225;s iria outro casal. Na frente, ela ao volante e eu tentando aparentar uma experi&#234;ncia de vida que, evidentemente, n&#227;o possu&#237;a.</p><p style="text-align: justify;">Para ir do Guaruj&#225; a Santos, era preciso atravessar de balsa.</p><p style="text-align: justify;">Quando nos aproxim&#225;vamos da fila, Rosana precisou sair do carro por alguns instantes. Antes de descer, olhou para mim e disse:</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Andr&#233;, se precisar, voc&#234; coloca o carro na balsa.</p><p style="text-align: justify;">Eu n&#227;o tinha dezoito anos.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o tinha carteira de motorista.</p><p style="text-align: justify;">E, pior do que tudo, n&#227;o sabia dirigir.</p><p style="text-align: justify;">Ainda assim, respondi com a serenidade de quem estacionava transatl&#226;nticos:</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Fica tranquila, broto. Eu coloco o carro na balsa.</p><p style="text-align: justify;">A mentira ficou ali, ligada em ponto morto.</p><p style="text-align: justify;">Rosana demorou.</p><p style="text-align: justify;">A fila andou.</p><p style="text-align: justify;">O Voyage tamb&#233;m precisava andar.</p><p style="text-align: justify;">Naquele instante, percebi que certas mentiras n&#227;o pedem explica&#231;&#245;es. Pedem embreagem, acelerador e coordena&#231;&#227;o motora.</p><p style="text-align: justify;">Olhei para o Adilson, no banco de tr&#225;s. Bastaria confessar que eu n&#227;o sabia dirigir e entregar a ele o volante.</p><p style="text-align: justify;">Mas a mentira j&#225; havia avan&#231;ado demais.</p><p style="text-align: justify;">Ou talvez eu tivesse come&#231;ado a acreditar nela.</p><p style="text-align: justify;">Passei para o banco do motorista. Coloquei as m&#227;os no volante e j&#225; me preparava para engatar o carro. N&#227;o sabia exatamente qual pedal apertar, em que marcha entrar ou como impedir que o Voyage, em vez de subir na balsa, inaugurasse uma travessia submarina para Santos.</p><p style="text-align: justify;">Foi quando Rosana reapareceu.</p><p style="text-align: justify;">At&#233; hoje n&#227;o sei se ela percebeu o perigo, a impostura ou apenas aquele adolescente im&#243;vel diante do volante, com a express&#227;o solene de quem estava prestes a realizar uma manobra perfeitamente cotidiana.</p><p style="text-align: justify;">Ela assumiu o carro.</p><p style="text-align: justify;">Eu mantive a pose.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o havia colocado o Voyage na balsa. Mas estivera a poucos segundos de tentar.</p><p style="text-align: justify;">Essa talvez seja a parte mais assustadora de certas mentiras: chega um momento em que n&#227;o queremos mais apenas convencer os outros. Come&#231;amos a colaborar com a nossa pr&#243;pria inven&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Eu n&#227;o sabia dirigir, mas, por alguns segundos, acreditei que talvez soubesse.</p><p style="text-align: justify;">Considerando a natureza kamikaze da mentira, o fato de n&#227;o termos ca&#237;do no mar j&#225; pode ser chamado de final feliz.</p><p style="text-align: justify;">Hoje, quando me lembro dessas tr&#234;s hist&#243;rias, percebo que minhas mentiras juvenis n&#227;o nasceram exatamente do desejo de enganar.</p><p style="text-align: justify;">Nasceram do desejo de ser outro por alguns instantes.</p><p style="text-align: justify;">O menino t&#237;mido queria ser o m&#250;sico capaz de impressionar a menina dos olhos azuis.</p><p style="text-align: justify;">O magrelo queria ser, diante da escola inteira, mais forte do que o lutador de jud&#244;.</p><p style="text-align: justify;">O adolescente apaixonado queria parecer um homem experiente, capaz de dirigir um Voyage, conduzir uma hist&#243;ria e atravessar qualquer balsa que aparecesse pela frente.</p><p style="text-align: justify;">Mentimos, &#224;s vezes, porque a verdade ainda nos parece pequena demais para o tamanho dos nossos desejos.</p><p style="text-align: justify;">Inventamos um acorde que n&#227;o sabemos tocar.</p><p style="text-align: justify;">Sustentamos um advers&#225;rio no ch&#227;o por alguns segundos a mais.</p><p style="text-align: justify;">Garantimos que sabemos dirigir quando mal sabemos para que serve a embreagem.</p><p style="text-align: justify;">Constru&#237;mos, com enorme esfor&#231;o, uma vers&#227;o de n&#243;s mesmos que gostar&#237;amos que fosse verdadeira.</p><p style="text-align: justify;">E talvez seja por isso que certas mentiras sejam t&#227;o sinceras.</p><p style="text-align: justify;">Elas n&#227;o revelam exatamente aquilo que somos.</p><p style="text-align: justify;">Revelam aquilo que, desesperadamente, gostar&#237;amos de ser.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o quero lembrar que eu minto tamb&#233;m.</p><p style="text-align: justify;">Mas lembro.</p><p style="text-align: justify;">E confesso que algumas de minhas mentiras ainda me interessam.</p><p style="text-align: justify;">Principalmente aquelas que, por dois dias, quinze minutos ou o tempo de uma fila de balsa, emprestaram coragem ao menino t&#237;mido que eu era.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O GOL EM ESTADO DE ESPERA]]></title><description><![CDATA[P&#193;GINA IN&#218;TIL &#8212; EDI&#199;&#195;O ESPECIAL | Andr&#233; Lu&#237;s Oliveira e Tio Visconde]]></description><link>https://apaginainutil.substack.com/p/o-gol-em-estado-de-espera</link><guid isPermaLink="false">https://apaginainutil.substack.com/p/o-gol-em-estado-de-espera</guid><dc:creator><![CDATA[André Luís Oliveira]]></dc:creator><pubDate>Fri, 03 Jul 2026 13:42:59 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!XhPq!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F357c183d-ec97-42ca-8318-2c703f8574f5_1080x1080.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Tenho 61 anos e, como quase todo brasileiro da minha gera&#231;&#227;o, acumulo tr&#234;s carreiras que nunca chegaram a existir: jogador de futebol, treinador da sele&#231;&#227;o e comentarista de arbitragem.</p><p style="text-align: justify;">Joguei bola, acompanhei campeonatos, sofri pelo Botafogo e cresci num tempo em que o futebol tamb&#233;m era feito de cera, catimba, goleiro abra&#231;ado &#224; bola, juiz cercado por jogadores e injusti&#231;as que atravessavam d&#233;cadas sem encontrar tribunal de recurso.</p><p style="text-align: justify;">Algumas delas ainda moram na mem&#243;ria.</p><p style="text-align: justify;">O empurr&#227;o em Ubirajara, na decis&#227;o de 1971. O escanteio de Zico contra a Su&#233;cia, em 1978, quando o &#225;rbitro encerrou o jogo enquanto a bola viajava pelo ar at&#233; o gol. Lances que continuam sendo julgados nas mesas dos bares por homens que jamais mudaram de opini&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Naquele tempo, a injusti&#231;a fazia parte da narrativa.</p><p style="text-align: justify;">Do&#237;a, revoltava, criava inimigos, alimentava conversas e, &#224;s vezes, produzia uma esp&#233;cie de folclore. O futebol era humano tamb&#233;m porque errava. O juiz n&#227;o tinha linhas coloridas, c&#226;meras em todos os &#226;ngulos nem uma central capaz de examinar o couro cabeludo de um atacante.</p><p style="text-align: justify;">Tinha apenas dois olhos, um apito e a pretens&#227;o imposs&#237;vel de enxergar tudo.</p><p style="text-align: justify;">O futebol mudou.</p><p style="text-align: justify;">Os est&#225;dios viraram arenas. A geral desapareceu. O torcedor pobre foi sendo empurrado para longe do campo. Em muitos jogos, especialmente em S&#227;o Paulo, uma &#250;nica torcida ocupa as arquibancadas. Sumiram o advers&#225;rio ao lado, a provoca&#231;&#227;o, o riso atravessado, o chiste que, quando n&#227;o descambava para a viol&#234;ncia, tamb&#233;m fazia parte do espet&#225;culo.</p><p style="text-align: justify;">Agora, at&#233; o gol est&#225; desaparecendo um pouco.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o o gol propriamente dito. A bola ainda atravessa a linha, a rede ainda balan&#231;a, o narrador ainda grita. Mas alguma coisa se rompeu entre o instante em que a bola entra e o instante em que podemos acreditar que ela entrou.</p><p style="text-align: justify;">Assistindo ao jogo entre Portugal e Cro&#225;cia num bar, vi um gol que parecia ser o empate croata. Houve a explos&#227;o, os bra&#231;os levantados, os jogadores correndo. Depois, a espera.</p><p style="text-align: justify;">A tecnologia encontrou um toque quase invis&#237;vel. Um ro&#231;ar de cabelo. Um impedimento capilar.</p><p style="text-align: justify;">E o gol deixou de ser gol.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o discuto aqui se a decis&#227;o foi tecnicamente correta. Provavelmente foi. A tecnologia existe para buscar a justi&#231;a, e a justi&#231;a &#233; sempre uma inten&#231;&#227;o respeit&#225;vel.</p><p style="text-align: justify;">Mas talvez tenhamos descoberto que a justi&#231;a absoluta tamb&#233;m cobra ingresso.</p><p style="text-align: justify;">E o pre&#231;o pode ser o espanto.</p><p style="text-align: justify;">Poucos dias antes, durante Brasil e Jap&#227;o, vivi outra cena desse novo futebol. Est&#225;vamos em casa assistindo pela Caz&#233;TV. Minha mulher falava ao celular com a m&#227;e, que mora em outra cidade e acompanhava o jogo por outra transmiss&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">De repente, do outro lado da linha, minha sogra gritou:</p><p style="text-align: justify;">Gol do Brasil!</p><p style="text-align: justify;">N&#243;s ainda n&#227;o t&#237;nhamos visto gol nenhum.</p><p style="text-align: justify;">Continuamos olhando para a tela com a estranha sensa&#231;&#227;o de assistir ao passado. Sab&#237;amos que o gol j&#225; havia acontecido em algum lugar do mundo, mas ainda n&#227;o tinha chegado &#224; nossa sala.</p><p style="text-align: justify;">Alguns segundos depois, a bola entrou para n&#243;s tamb&#233;m.</p><p style="text-align: justify;">Foi uma comemora&#231;&#227;o previamente anunciada, quase uma alegria com spoiler.</p><p style="text-align: justify;">E ainda havia uma segunda espera: depois que o gol finalmente chegasse &#224; nossa televis&#227;o, seria preciso saber se o VAR permitiria que ele permanecesse.</p><p style="text-align: justify;">O gol contempor&#226;neo parece ter tr&#234;s tempos. Primeiro, acontece.</p><p style="text-align: justify;">Depois, chega.</p><p style="text-align: justify;">Por fim, &#233; autorizado.</p><p style="text-align: justify;">Antigamente, o gol era uma explos&#227;o. Hoje, &#233; uma pergunta. </p><p style="text-align: justify;">Foi gol?</p><p style="text-align: justify;">Pode comemorar?</p><p style="text-align: justify;">Algu&#233;m estava impedido sete segundos antes?</p><p style="text-align: justify;">A bola tocou num bra&#231;o, numa unha, num fio de cabelo?</p><p style="text-align: justify;">Ou ser&#225; que o vizinho j&#225; gritou porque est&#225; assistindo sem atraso?</p><p style="text-align: justify;">O jogador abre os bra&#231;os, corre em dire&#231;&#227;o &#224; torcida, desliza de joelhos.</p><p style="text-align: justify;">Mas n&#243;s j&#225; n&#227;o vamos inteiros com ele. Uma parte de n&#243;s permanece sentada, prudente, desconfiada, esperando a confirma&#231;&#227;o numa tela.</p><p style="text-align: justify;">A alegria ganhou retic&#234;ncias.</p><p style="text-align: justify;">O gol, que era o momento mais definitivo do futebol, tornou-se provis&#243;rio.</p><p style="text-align: justify;">Talvez isso seja inevit&#225;vel. Talvez seja apenas o esporte acompanhando o mundo, cada vez mais medido, filmado, rastreado e transmitido por caminhos diferentes. Um mundo em que duas pessoas podem estar na mesma partida e, ainda assim, viver em tempos distintos.</p><p style="text-align: justify;">Talvez daqui a alguns anos ningu&#233;m mais se lembre de que j&#225; houve um tempo em que a gente comemorava sem pedir autoriza&#231;&#227;o e sem receber o resultado pelo telefone antes de v&#234;-lo.</p><p style="text-align: justify;">Ainda assim, sinto falta daquela fra&#231;&#227;o de segundo em que o mundo parecia simples.</p><p style="text-align: justify;">A bola entrou.</p><p style="text-align: justify;">Era gol.</p><p style="text-align: justify;">E pronto.</p><p style="text-align: justify;">Quem sabe essa alegria ainda sobreviva em algum campo de terra do interior de Pernambuco, do Piau&#237; ou de qualquer cidade pequena onde o VAR e o streaming ainda n&#227;o chegaram. Ali, um menino chuta, a bola passa perto da trave, o goleiro jura que foi para fora, o atacante garante que entrou, e ningu&#233;m possui uma c&#226;mera capaz de resolver a quest&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">E, sobretudo, ningu&#233;m recebe a not&#237;cia antes do lance. </p><p style="text-align: justify;">Eles discutem.</p><p style="text-align: justify;">Eles brigam.</p><p style="text-align: justify;">Eles recome&#231;am o jogo.</p><p style="text-align: justify;">Por alguns instantes, o futebol continua entregue &#224; deliciosa limita&#231;&#227;o do olhar humano.</p><p style="text-align: justify;">Talvez injusto.</p><p style="text-align: justify;">Talvez atrasado.</p><p style="text-align: justify;">Talvez imperfeito.</p><p style="text-align: justify;">Mas ainda capaz de fazer algu&#233;m gritar gol sem retic&#234;ncias.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Quando o livro entra de férias]]></title><description><![CDATA[P&#193;GINA IN&#218;TIL &#9670; Tio Visconde]]></description><link>https://apaginainutil.substack.com/p/quando-o-livro-entra-de-ferias</link><guid isPermaLink="false">https://apaginainutil.substack.com/p/quando-o-livro-entra-de-ferias</guid><dc:creator><![CDATA[André Luís Oliveira]]></dc:creator><pubDate>Thu, 02 Jul 2026 13:08:44 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!XhPq!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F357c183d-ec97-42ca-8318-2c703f8574f5_1080x1080.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">As f&#233;rias escolares est&#227;o chegando.</p><p style="text-align: justify;">Dentro de poucos dias, as mochilas ser&#227;o encostadas, os cadernos perder&#227;o temporariamente a import&#226;ncia e os despertadores poder&#227;o ser ignorados por algumas manh&#227;s.</p><p style="text-align: justify;">Tamb&#233;m desaparecer&#227;o, por algum tempo, as tarefas, as avalia&#231;&#245;es e as perguntas que costumam acompanhar os textos:</p><p style="text-align: justify;">Quem &#233; a personagem principal? Onde se passa a hist&#243;ria? Qual &#233; a ideia central? O que o autor quis dizer?</p><p style="text-align: justify;">Talvez seja justamente nesse momento, quando a escola diminui o volume de sua voz, que o livro tenha a oportunidade de mostrar que n&#227;o pertence apenas a ela.</p><p style="text-align: justify;">Durante muito tempo, a forma&#231;&#227;o do leitor foi uma responsabilidade mais compartilhada. A escola ensinava, apresentava autores, organizava bibliotecas e criava situa&#231;&#245;es de leitura. Mas muitas crian&#231;as tamb&#233;m encontravam, dentro de casa, adultos lendo.</p><p style="text-align: justify;">Havia um pai com o jornal aberto. Uma m&#227;e folheando uma revista. Um av&#244; que adormecia com um livro sobre o peito. Havia, sobretudo, o gesto vis&#237;vel de algu&#233;m que parava diante das palavras.</p><p style="text-align: justify;">Hoje, os adultos continuam lendo. Talvez leiam at&#233; mais do que antes. Mas grande parte dessa leitura acontece nas telas, de forma t&#227;o r&#225;pida e silenciosa que a crian&#231;a nem sempre consegue reconhec&#234;-la.</p><p style="text-align: justify;">Quem observa um adulto diante do telefone n&#227;o sabe se ele est&#225; lendo uma reportagem, pagando uma conta, respondendo a uma mensagem ou apenas passando o dedo sobre imagens que logo ser&#227;o esquecidas.</p><p style="text-align: justify;"><strong>O livro, ao contr&#225;rio, anuncia o gesto.</strong></p><p style="text-align: justify;">Quando um adulto abre um livro, a crian&#231;a sabe que alguma coisa est&#225; acontecendo</p><p style="text-align: justify;">ali.</p><p style="text-align: justify;">Como essa cena se tornou menos frequente em muitas casas, a escola passou a ocupar</p><p style="text-align: justify;">um espa&#231;o ainda maior na forma&#231;&#227;o do leitor. &#201; muitas vezes dentro da sala de aula que a crian&#231;a encontra o adulto que l&#234; em voz alta, muda a express&#227;o, faz uma pausa, sorri e se emociona com uma hist&#243;ria.</p><p style="text-align: justify;">A escola apresenta o livro.</p><p style="text-align: justify;">Cria o encontro.</p><p style="text-align: justify;">Aproxima.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Mas n&#227;o pode ser o destino final dessa rela&#231;&#227;o.</strong></p><p style="text-align: justify;">A escola ter&#225; cumprido uma parte importante de sua tarefa quando o livro conseguir</p><p style="text-align: justify;">atravessar seus muros.</p><p style="text-align: justify;">Quando a crian&#231;a descobrir que pode ler sem que ningu&#233;m pe&#231;a.</p><p style="text-align: justify;">Sem prova.</p><p style="text-align: justify;">Sem ficha.</p><p style="text-align: justify;">Sem resumo.</p><p style="text-align: justify;">Sem precisar explicar depois o que entendeu.</p><p style="text-align: justify;">&#201; por isso que as f&#233;rias podem ser um tempo t&#227;o importante para a leitura.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o porque a crian&#231;a deva continuar estudando durante o recesso, nem porque os</p><p style="text-align: justify;">pais precisem transformar os dias de descanso em uma extens&#227;o da sala de aula.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Muito pelo contr&#225;rio.</strong></p><p style="text-align: justify;">Nas f&#233;rias, o livro pode finalmente aparecer sem uniforme.</p><p style="text-align: justify;">Pode ser lido no sof&#225;, na cama, na varanda, dentro do carro ou na sombra de uma</p><p style="text-align: justify;">&#225;rvore.</p><p style="text-align: justify;">Pode ser abandonado pela metade, retomado alguns dias depois ou relido apenas</p><p style="text-align: justify;">porque uma passagem foi boa demais para acontecer uma &#250;nica vez.</p><p style="text-align: justify;">Pode ser escolhido pela capa, pelo t&#237;tulo, por uma ilustra&#231;&#227;o engra&#231;ada ou porque</p><p style="text-align: justify;">algu&#233;m de quem a crian&#231;a gosta disse:</p><p style="text-align: justify;">Leia este. Acho que voc&#234; vai gostar.</p><p style="text-align: justify;">Talvez o maior presente que uma fam&#237;lia possa oferecer nesse per&#237;odo n&#227;o seja uma</p><p style="text-align: justify;">lista de livros obrigat&#243;rios.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Talvez seja uma cena.</strong></p><p style="text-align: justify;">Um adulto lendo perto da crian&#231;a.</p><p style="text-align: justify;">Uma hist&#243;ria contada antes de dormir.</p><p style="text-align: justify;">Uma visita sem pressa a uma livraria ou biblioteca.</p><p style="text-align: justify;">Uma pequena pilha de livros ao alcance das m&#227;os. Um tempo em que a leitura n&#227;o seja apresentada como dever, mas como possibilidade.</p><p style="text-align: justify;">A escola pode abrir a porta. Pode emprestar a voz. Pode apresentar mundos.</p><p style="text-align: justify;">Mas, em algum momento, o livro precisa deixar de ser reconhecido apenas como objeto escolar.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Precisa passar a fazer parte da vida.</strong></p><p style="text-align: justify;"><strong>O verdadeiro leitor n&#227;o &#233; aquele que l&#234; somente quando algu&#233;m manda.</strong></p><p style="text-align: justify;">&#201; aquele que, em algum momento, percebe que um livro pode fazer companhia.</p><p style="text-align: justify;">Pode divertir. Pode consolar. Pode inquietar. Pode ajudar a compreender sentimentos que ainda n&#227;o t&#234;m nome.</p><p style="text-align: justify;">As f&#233;rias chegam, e com elas o descanso merecido dos cadernos.</p><p style="text-align: justify;">Que descansem tamb&#233;m as perguntas de interpreta&#231;&#227;o, os exerc&#237;cios e as cobran&#231;as.</p><p style="text-align: justify;">Mas que os livros n&#227;o precisem entrar em recesso.</p><p style="text-align: justify;">Que possam permanecer por perto, livres da obriga&#231;&#227;o de ensinar alguma coisa.</p><p style="text-align: justify;">Porque, quando ningu&#233;m est&#225; avaliando, talvez a literatura consiga realizar uma de suas tarefas mais bonitas:</p><p style="text-align: justify;">fazer a crian&#231;a esquecer que est&#225; aprendendo.</p><p style="text-align: justify;"><strong>E descobrir que est&#225; vivendo.</strong></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Elogio do Mico]]></title><description><![CDATA[uma cr&#244;nica para A P&#225;gina In&#250;til]]></description><link>https://apaginainutil.substack.com/p/elogio-do-mico</link><guid isPermaLink="false">https://apaginainutil.substack.com/p/elogio-do-mico</guid><dc:creator><![CDATA[André Luís Oliveira]]></dc:creator><pubDate>Thu, 25 Jun 2026 12:00:53 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!XhPq!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F357c183d-ec97-42ca-8318-2c703f8574f5_1080x1080.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>H&#225; uma cena que<span> </span>se<span> </span>repete, hoje, nos arraiais de<span> </span>junho:<span> </span>o menino de<span> </span>quatro<span> </span>anos, m&#227;o suada na m&#227;o do pai, os olhos fixos no ch&#227;o, recusando-se a dan&#231;ar a quadrilha. N&#227;o &#233; cansa&#231;o. &#201; vergonha. E o curioso, o curioso que me persegue como pedagogo, como diretor, como av&#244; improv&#225;vel de quatrocentas crian&#231;as que n&#227;o s&#227;o minhas, &#233; que essa vergonha chegou cedo<span> </span>demais. Antigamente o mico s&#243; do&#237;a depois dos oito, dos nove anos, quando a crian&#231;a j&#225; tinha aprendido, com a vida, que existia plateia. Hoje, com quatro anos, a crian&#231;a j&#225; desconfia que todo erro pode ter plateia. J&#225; existe a possibilidade do erro p&#250;blico. J&#225; existe, portanto, o medo.</p></blockquote><p>Isso me intriga porque a inf&#226;ncia, se &#233; alguma coisa, &#233; a dimens&#227;o po&#233;tica da exist&#234;ncia: o lugar<span> </span>onde<span> </span>ainda<span> </span>se<span> </span>pode<span> </span>errar<span> </span>o<span> </span>passo,<span> </span>trocar<span> </span>a<span> </span>letra<span> </span>da<span> </span>m&#250;sica,<span> </span>cair<span> </span>de<span> </span>bunda<span> </span>no<span> </span>meio<span> </span>do<span> </span>sal&#227;o,<span> </span>rir disso e<span> </span>seguir. A espontaneidade &#233;<span> </span>o nome bonito que<span> </span>damos &#224; falta de<span> </span>vergonha de existir. E se<span> </span>a inf&#226;ncia est&#225;, cada vez mais cedo, sequestrada por esse medo adulto da exposi&#231;&#227;o, ent&#227;o talvez estejamos roubando das crian&#231;as justamente o tempo em que era permitido, e at&#233; esperado, dar <span>mico.</span></p><blockquote><p>N&#227;o estou falando do palco de madeira, com cortina, m&#250;sica e fam&#237;lias emocionadas. Esse palco<span> </span>pode<span> </span>ser<span> </span>uma<span> </span>festa.<span> </span>H&#225;<span> </span>crian&#231;as<span> </span>que,<span> </span>quando<span> </span>acompanhadas<span> </span>com<span> </span>cuidado,<span> </span>descobrem<span> </span>diante dele a pr&#243;pria voz, aprendem a falar, a representar, a recitar e a sustentar uma ideia diante dos outros.<span> </span>Vejo isso h&#225; muitos anos. Vejo crian&#231;as de<span> </span>tr&#234;s<span> </span>e<span> </span>quatro anos dizendo poemas num<span> </span>sarau e meninos<span> </span>de<span> </span>seis<span> </span>explicando<span> </span>a<span> </span>Amaz&#244;nia<span> </span>numa<span> </span>feira<span> </span>de<span> </span>ci&#234;ncias<span> </span>com<span> </span>uma<span> </span>desenvoltura<span> </span>que<span> </span>a<span> </span>minha gera&#231;&#227;o demorou muito mais para alcan&#231;ar.</p><p>O palco de que falo &#233; outro. &#201; aquele que se instala sem cortina e sem convite, quando a crian&#231;a come&#231;a a<span> </span>sentir<span> </span>que<span> </span>cada trope&#231;o pode<span> </span>se<span> </span>transformar<span> </span>em<span> </span>julgamento. Uma coisa &#233;<span> </span>o palco da express&#227;o. Outra &#233; o tribunal da exposi&#231;&#227;o. Talvez o problema n&#227;o esteja em aparecer. Esteja em sentir que &#233; preciso aparecer sem falhar.</p><p>Porque eu sou, confesso, um especialista em dar mico. N&#227;o por voca&#231;&#227;o, mas por of&#237;cio: ningu&#233;m dirige uma escola por trinta anos sem colecionar uma galeria de vexames dom&#233;sticos, pequenos e gloriosos.</p><p>Conto um. Festa junina se aproximando, eu correndo atr&#225;s de patroc&#237;nios e pr&#234;mios de bingo, entre eles, um jantar generos&#237;ssimo doado por um casal cearense, donos de um restaurante muito querido aqui na cidade. Naquele dia eu tinha chegado &#224; escola sem o tempo sagrado que reservo para passar de sala em sala, dar boa tarde, olhar no olho de cada crian&#231;a, brincar um<span> </span>pouco, porque diretor de gabinete eu nunca quis ser. E, no meio da correria, lembrei: preciso ligar para a m&#227;e do Pedro, confirmar a doa&#231;&#227;o. Disquei. E, como todo diretor que liga em hor&#225;rio de aula<span> </span>sabe,<span> </span>comecei pelo<span> </span>ritual<span> </span>de<span> </span>tranquilizar:<span> </span>&#8220;Fulana,<span> </span>tudo<span> </span>bem?<span> </span>Olha,<span> </span>antes<span> </span>de<span> </span>mais<span> </span>nada,<span> </span>est&#225;</p><p>tudo bem com o Pedro, viu, fica tranquila...&#8221; E a m&#227;e, do outro lado, com o barulho do mar de Fortaleza ao fundo, me interrompeu, rindo: &#8220;Andr&#233;, est&#225; tudo bem com o Pedro, ele est&#225; aqui do meu lado.&#8221;</p></blockquote><p>Eu n&#227;o sabia onde enfiar a cara. Fiquei procurando, em v&#227;o, algum buraco pedag&#243;gico dispon&#237;vel ali perto. Ela riu. Eu ri de mim mesmo. E aquele mico, paradoxalmente, fez mais pela nossa<span> </span>confian&#231;a m&#250;tua do<span> </span>que<span> </span>qualquer discurso de autoridade teria feito. Porque rir de<span> </span>si mesmo, na hora exata da falha, &#233; talvez a &#250;nica forma elegante de continuar sendo levado a s&#233;rio.</p><blockquote><p>Tem<span> </span>mais.<span> </span>Uma<span> </span>vez,<span> </span>numa<span> </span>sa&#237;da<span> </span>de<span> </span>aula,<span> </span>chamei<span> </span>uma<span> </span>menina<span> </span>de<span> </span>Mait&#234;<span> </span>Proen&#231;a.<span> </span>Ela<span> </span>se chamava s&#243; Mait&#234;, mas eu, com a musa na cabe&#231;a naquele dia, completei o sobrenome errado. O pai, gentil&#237;ssimo, devolveu: &#8220;Pode chamar de Bruna Lombardi tamb&#233;m, n&#227;o temos preconceito.&#8221; Outra<span> </span>vez,<span> </span>havia<span> </span>dois<span> </span>g&#234;meos<span> </span>lindos,<span> </span>Bento<span> </span>e<span> </span>Benjamin,<span> </span>e,<span> </span>na<span> </span>hora<span> </span>de<span> </span>entregar<span> </span>as<span> </span>crian&#231;as,<span> </span>eu gritei, com toda a convic&#231;&#227;o do mundo: &#8220;Bento<span> </span>e<span> </span>Benedini!&#8221;,<span> </span>nome<span> </span>de<span> </span>uma<span> </span>escola<span> </span>concorrente<span> </span>aqui da cidade. N&#227;o bastou errar o nome do menino. Ainda fiz propaganda gratuita para a escola rival,<span> </span>no port&#227;o da minha pr&#243;pria escola.</p></blockquote><p>E guardo, como rel&#237;quia, um mico antigo, de quando ainda nem sonhava em escrever livros sobre isso. Numa atividade de velocidade com os pequenos, uma crian&#231;a correu muito bem, e eu, empolgado,<span> </span>soltei:<span> </span>&#8220;Nossa,<span> </span>voc&#234;<span> </span>&#233; um<span> </span>Emerson Fittipaldi!&#8221;<span> </span>A crian&#231;a, sete<span> </span>anos,<span> </span>em<span> </span>2016<span> </span>ou<span> </span>2017, me<span> </span>olhou com<span> </span>aquela cara de<span> </span>quem<span> </span>encontrou um<span> </span>f&#243;ssil<span> </span>falante. N&#227;o<span> </span>fazia ideia de<span> </span>quem<span> </span>eu<span> </span>estava falando. Eu tamb&#233;m n&#227;o fazia ideia de que precisava, urgentemente, de uma atualiza&#231;&#227;o de refer&#234;ncias. Nem o Ayrton Senna salvaria aquele momento.</p><blockquote><p>Conto essas coisas, e conto tamb&#233;m, em Descobrindo<span> </span>o Storytelling, o epis&#243;dio do mico do diretor, n&#227;o por exibicionismo da falha, mas porque acredito, cada vez mais, que autoridade que n&#227;o erra em p&#250;blico &#233; autoridade que nunca foi, de fato, humana diante de quem a observa. A crian&#231;a que<span> </span>v&#234;<span> </span>o adulto trope&#231;ar<span> </span>e<span> </span>rir<span> </span>de<span> </span>si<span> </span>mesmo aprende<span> </span>uma li&#231;&#227;o que<span> </span>nenhuma cartilha ensina: o erro n&#227;o &#233; o fim da hist&#243;ria. &#201; apenas um par&#225;grafo c&#244;mico dela.</p></blockquote><p>Isso n&#227;o significa lan&#231;ar a crian&#231;a ao constrangimento para que ela &#8220;aprenda&#8221;. Significa construir lugares suficientemente generosos para que ela possa falar, cantar, representar, esquecer uma palavra, trocar um passo e ainda assim continuar inteira. O palco verdadeiro pode ser um desses lugares. A sala de aula tamb&#233;m. O p&#225;tio tamb&#233;m. O que n&#227;o pode &#233; a plateia transformar cada falha em senten&#231;a.</p><blockquote><p>Porque sobreviver ao mico &#233;, no fundo, uma das primeiras formas de coragem que se aprende na vida. E talvez dev&#234;ssemos, n&#243;s adultos, pais, professores, diretores de gabinete ou de ch&#227;o de<span> </span>p&#225;tio, dar<span> </span>o exemplo: errar<span> </span>visivelmente, rir<span> </span>de<span> </span>n&#243;s mesmos e<span> </span>seguir<span> </span>dan&#231;ando<span> </span>a quadrilha, ainda que fora do compasso, ainda que com o nome trocado, ainda que com o mar de Fortaleza ouvindo tudo.</p></blockquote><p>Talvez a inf&#226;ncia n&#227;o precise de menos palcos. Precise de palcos mais generosos. Lugares<span> </span>em que a crian&#231;a descubra a pr&#243;pria voz sem imaginar que precisa ser perfeita para continuar pertencendo. Porque o contr&#225;rio do mico n&#227;o &#233; a perfei&#231;&#227;o. &#201; a confian&#231;a de saber que, mesmo depois do trope&#231;o, ningu&#233;m ser&#225; expulso da brincadeira.</p><p><span>E voc&#234;? Qual foi o mico que, olhando agora, ensinou mais do que qualquer acerto? Conte aqui nos coment&#225;rios. Prometo n&#227;o trocar seu nome com o de ningu&#233;m.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Quando a Vida Te Chama pra Dançar]]></title><description><![CDATA[Tio Visconde | A P&#225;gina In&#250;til]]></description><link>https://apaginainutil.substack.com/p/quando-a-vida-te-chama-pra-dancar</link><guid isPermaLink="false">https://apaginainutil.substack.com/p/quando-a-vida-te-chama-pra-dancar</guid><dc:creator><![CDATA[André Luís Oliveira]]></dc:creator><pubDate>Thu, 18 Jun 2026 11:52:39 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!XhPq!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F357c183d-ec97-42ca-8318-2c703f8574f5_1080x1080.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Tem um momento no filme em que Agneta dan&#231;a. N&#227;o &#233; uma dan&#231;a ensaiada, n&#227;o &#233; uma dan&#231;a bonita no sentido convencional da palavra. &#201; aquela dan&#231;a que acontece quando algu&#233;m finalmente larga o peso que carregava nos ombros h&#225; anos e deixa o corpo fazer o que o corpo sempre soube fazer: mover-se em dire&#231;&#227;o &#224; vida.</p><p></p><p>Antes disso, ela era invis&#237;vel. N&#227;o do tipo fantasma, que ao menos assusta. Do tipo parede: todo mundo passa do lado, ningu&#233;m v&#234;. O marido criticava o jeito que ela comia um tomatinho. Como se a forma de existir dela fosse sempre ligeiramente errada, ligeiramente demais, ligeiramente de menos. Os filhos haviam crescido e partido, como filhos devem fazer, e ela ficara num escrit&#243;rio de tr&#226;nsito regulando a vida dos outros enquanto a dela parava no sinal vermelho h&#225; anos.</p><p></p><p>Ent&#227;o veio a demiss&#227;o. E com ela, estranhamente, uma porta.</p><p></p><p>Ela aceita trabalhar como au pair na Proven&#231;a. Esperava uma crian&#231;a. Encontrou Einar, um senhor idoso, exc&#234;ntrico, homossexual, absolutamente vivo. E com ele, uma comunidade inteira de pessoas que n&#227;o pedem licen&#231;a pra ser o que s&#227;o. Fil&#243;sofos do cotidiano. Habitantes plenos do pr&#243;prio corpo. Gente que ri alto, ama sem pudor, ocupa o espa&#231;o sem se desculpar por isso.</p><p></p><p>Agneta vai sendo, aos poucos, contaminada por essa vitalidade. N&#227;o de forma dram&#225;tica, n&#227;o num estalo. Vai sendo, como a luz da Proven&#231;a, que n&#227;o invade, ela simplesmente est&#225; l&#225;, e voc&#234; percebe que j&#225; estava iluminado h&#225; um tempo sem ter notado.</p><p></p><p>A&#237; o marido aparece. E ela quase vai. Entra no carro, p&#245;e a mala no portamalas, senta no banco. E dentro daquele carro, naquela conversa chata, naquele mundo que conhece de cor e que nunca a conheceu de verdade, o corpo dela come&#231;a a reagir. Uma coceira. Uma alergia. O organismo dizendo o que a voz ainda n&#227;o tinha coragem de dizer.</p><p></p><p>Ela sai do carro. Sem a mala. E volta.</p><p></p><p>Volta pra onde &#233; recebida. Volta pra onde a chamaram pra dan&#231;ar e ela dan&#231;ou. Volta pra casa, para a fam&#237;lia, n&#227;o a de sangue, mas a de escolha.</p><p></p><p>Existe um verbo que o portugu&#234;s ainda n&#227;o inventou, mas que precisava existir: <strong>agnetar-se</strong>. Significa isso. Sair do carro sem a mala. Deixar pra tr&#225;s o peso que nunca foi seu. Voltar, n&#227;o por obriga&#231;&#227;o, n&#227;o por medo, mas porque do outro lado tem gente te esperando com os bra&#231;os abertos e uma m&#250;sica no fundo.</p><p></p><p>Quando a vida te chama pra dan&#231;ar, voc&#234; pode ficar sentado explicando por que n&#227;o d&#225;.</p><p></p><p><em><strong>Ou voc&#234; pode se agnetar.</strong></em></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O BRINQUEDO QUE O TEMPO NÃO COLA]]></title><description><![CDATA[A P&#225;gina In&#250;til &#8212; Tio Visconde]]></description><link>https://apaginainutil.substack.com/p/o-brinquedo-que-o-tempo-nao-cola</link><guid isPermaLink="false">https://apaginainutil.substack.com/p/o-brinquedo-que-o-tempo-nao-cola</guid><dc:creator><![CDATA[André Luís Oliveira]]></dc:creator><pubDate>Fri, 12 Jun 2026 18:05:42 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!XhPq!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F357c183d-ec97-42ca-8318-2c703f8574f5_1080x1080.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>Tinha seis anos e o mundo cabia numa mesa.</p><p>N&#227;o numa mesa qualquer &#8212; numa mesa coberta por uma toalha de estampas psicod&#233;licas, onde reinava soberano um bolo retangular com cobertura verde-gramado, marshmallow demarcando o meio-campo, e dois times de futebol de bot&#227;o perfilados como se o apito fosse soar a qualquer momento. Era o meu anivers&#225;rio. Era o meu Maracan&#227; particular.</p><p>Quando meu pai se aproximou com as m&#227;os atr&#225;s das costas e revelou a bola &#8212; minha primeira bola de capot&#227;o &#8212;, o mundo parou. Os outros presentes tornaram-se irrelevantes num segundo. A bola tinha cheiro. Tinha textura. Tinha luz entrando pelo vitr&#244; da sala e pousando nela como se fosse sagrada. E era.</p><p>Essa mem&#243;ria ainda mora em mim inteira, sem uma rachadura.</p><p>Lembro disso tudo agora porque estou vendo uma cena parecida se repetir por a&#237;</p><p>&#8212; n&#227;o nas mesas de anivers&#225;rio, mas nas mochilas, nas filas de mercado, nos recreios. As figurinhas da Copa chegaram com aquela for&#231;a ancestral dos objetos que unem. Crian&#231;a segurando o pacotinho fechado com aquela expectativa de quem n&#227;o sabe o que vem, mas sabe que vai ser bom. O ritual do &#8220;tenho, tenho, falta&#8221; que &#233;, no fundo, um idioma secreto entre gera&#231;&#245;es.</p><p>Futebol de bot&#227;o era o meu brinquedo greg&#225;rio. As figurinhas s&#227;o os deles. A l&#243;gica &#233; a mesma: objetos pequenos que constroem mundos grandes, que ensinam a trocar, a colecionar, a narrar. Meu av&#244; Oliveiro me dizia que eu ainda ia balan&#231;ar as redes do Maracan&#227;. Eu n&#227;o balancei &#8212; mas aprendi a contar hist&#243;rias. Talvez seja o mesmo gol, em outro campo.</p><p>Esta Copa, confesso, n&#227;o tor&#231;o por nenhum resultado espec&#237;fico. Tor&#231;o pelas crian&#231;as. Tor&#231;o para que algum menino ou menina tenha um momento como o meu &#8212; aquele instante em que um objeto simples para o mundo inteiro e acende alguma coisa que dura a vida toda. Que o cheiro do pacote de figurinhas seja, para alguma crian&#231;a hoje, o que o cheiro de couro da bola foi para mim naquela manh&#227; de anivers&#225;rio.</p><p>A pol&#237;tica vai e vem. O gol que a inf&#226;ncia marca em n&#243;s, esse n&#227;o tem VAR que</p><p>anule.</p></blockquote><p></p><p><em>&#8212; Tio Visconde</em></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A literatura não serve para nada. E é exatamente por isso que ela serve para tudo.]]></title><description><![CDATA[Existe uma pergunta que domina a internet com uma efici&#234;ncia quase assustadora:]]></description><link>https://apaginainutil.substack.com/p/a-literatura-nao-serve-para-nada</link><guid isPermaLink="false">https://apaginainutil.substack.com/p/a-literatura-nao-serve-para-nada</guid><dc:creator><![CDATA[André Luís Oliveira]]></dc:creator><pubDate>Fri, 12 Jun 2026 18:03:49 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!XhPq!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F357c183d-ec97-42ca-8318-2c703f8574f5_1080x1080.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Existe uma pergunta que domina a internet com uma efici&#234;ncia quase assustadora:</p><blockquote><p><em>&#8220;Qual problema voc&#234; resolve?&#8221;</em></p><p>&#201; uma boa pergunta. Para um contador, para um personal trainer, para um consultor de marketing. Mas e para um escritor? E para um professor de literatura? E para quem acredita que o imagin&#225;rio &#233; uma forma leg&#237;tima, e urgente, de habitar o mundo?</p></blockquote><p>A l&#243;gica da &#8220;entrega de valor&#8221; chegou com tudo. E ela n&#227;o &#233; errada. Ela &#233;, digamos,</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://apaginainutil.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Substack de Andr&#233;! Assine gratuitamente para receber novos posts e apoiar meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><blockquote><p><em>incompleta.</em></p><p>Porque h&#225; uma categoria de experi&#234;ncias humanas que n&#227;o resolve nada, e que justamente por isso resolve tudo. A poesia n&#227;o te ensina a fazer planilhas. O conto n&#227;o te d&#225; um passo a passo. O romance n&#227;o tem m&#243;dulo b&#244;nus. E ainda assim, h&#225; algo que acontece quando voc&#234; l&#234; Guimar&#227;es Rosa &#224;s duas da manh&#227;, ou quando uma crian&#231;a de seis anos para diante de uma frase e pergunta: <em>&#8220;Por que esse personagem ficou quieto?&#8221;</em> que nenhuma solu&#231;&#227;o pr&#225;tica consegue reproduzir.</p></blockquote><p>Chama-se subjetividade. Chama-se imagin&#225;rio. Chama-se, numa palavra que virou quase xingamento no mercado digital, <em>in&#250;til.</em></p><p>Eu sou diretor pedag&#243;gico numa escola de educa&#231;&#227;o infantil. Sou autor de livros infantis. Finalista do Jabuti. Tenho livros distribu&#237;dos pelo PNLD. E convivo diariamente com a press&#227;o das fam&#237;lias, do mercado, &#224;s vezes at&#233; da pr&#243;pria escola, de transformar tudo em resultado mensur&#225;vel.</p><blockquote><p><em>A crian&#231;a leu? Quantas palavras por minuto? Entendeu o texto? Marcou a alternativa certa? Gostou? Isso n&#227;o aparece na avalia&#231;&#227;o.</em></p></blockquote><p>Mas &#233; exatamente a&#237;, no <em>gostou</em>, que mora o que importa.</p><p>A literatura n&#227;o serve para te tornar mais produtivo. Ela serve para te tornar mais <em>inteiro. </em>Ela n&#227;o te d&#225; respostas, ela te ensina a fazer perguntas melhores. Ela n&#227;o resolve seu problema, ela te ajuda a suportar, com eleg&#226;ncia e com humor, o fato de que alguns problemas n&#227;o t&#234;m solu&#231;&#227;o.</p><blockquote><p>Num mundo que s&#243; valoriza o que pode ser medido, defender a inutilidade da literatura &#233;, paradoxalmente, o ato mais &#250;til que conhe&#231;o.</p></blockquote><p>Ent&#227;o sim: eu vou continuar escrevendo hist&#243;rias que n&#227;o ensinam nada.</p><h3>Que ensinam tudo.</h3><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://apaginainutil.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Substack de Andr&#233;! 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O tema muda. O mote n&#227;o: a literatura, o imagin&#225;rio, e a defesa intransigente da subjetividade como forma de intelig&#234;ncia.</p><p>Se voc&#234; acredita que uma boa hist&#243;ria pode mais do que qualquer planilha, voc&#234; est&#225; no lugar certo.</p><p><em>Seja bem-vindo &#224; inutilidade.</em></p></blockquote><div><hr></div><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://apaginainutil.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler o Substack de Andr&#233;! 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