<script data-pm-proxy="intercept"></script><?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Crônicas do Badé]]></title><description><![CDATA[Crônicas do Badé]]></description><link>https://badecorrea.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!a5eo!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9eca8a54-f281-4b07-81bc-045415234929_782x782.png</url><title>Crônicas do Badé</title><link>https://badecorrea.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Fri, 04 Sep 2026 22:18:00 GMT</lastBuildDate><atom:link href="/__u/badecorrea.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[André Corrêa]]></copyright><language><![CDATA[en]]></language><webMaster><![CDATA[badecorrea@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[badecorrea@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Badé]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Badé]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[badecorrea@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[badecorrea@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Badé]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[A Chácara do Bacacheri]]></title><description><![CDATA[Alguns dias depois de voltarmos da viagem &#224; Argentina, retomei o percurso que fa&#231;o quase diariamente aqui no Bacacheri.]]></description><link>https://badecorrea.substack.com/p/a-chacara-do-bacacheri</link><guid isPermaLink="false">https://badecorrea.substack.com/p/a-chacara-do-bacacheri</guid><dc:creator><![CDATA[Badé]]></dc:creator><pubDate>Mon, 10 Aug 2026 08:30:27 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!a5eo!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9eca8a54-f281-4b07-81bc-045415234929_782x782.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Alguns dias depois de voltarmos da viagem &#224; Argentina, retomei o percurso que fa&#231;o quase diariamente aqui no Bacacheri. Levei meu cachorro, o branqu&#237;ssimo Snow, para passear de manh&#227;. Tradicionalmente, passamos pela casa bord&#244; com janelas verdes, por uma escultura de uma mulher negra de l&#225;bios vermelhos na sacada e, finalmente, por aquela com um papagaio na garagem. Naquele dia, por&#233;m, Snow me conduziu por outro caminho, naquela manh&#227; fria e enevoada de Curitiba.</p><p>Provavelmente por manter a cabe&#231;a sempre direcionada ao ch&#227;o, mais interessado na grama &#250;mida, Snow n&#227;o percebeu que o Bacacheri, naquela parte, &#233; bem menos atrativo. As casas exc&#234;ntricas d&#227;o lugar a pr&#233;dios baixos e de cores p&#225;lidas. Das janelas de alguns deles, cachorros observam, tristes, o passeio de Snow, que segue indiferente.</p><p>Mais &#224; frente, ele vira em uma rua &#224; esquerda, que julguei ter visto certa vez. Veio-me alguma mem&#243;ria vaga em que eu e D&#233;bora pass&#225;vamos por ali de carro. Era uma rua sem sa&#237;da, que terminava em um pr&#233;dio bege de dois ou tr&#234;s blocos. Um pr&#233;dio bege de dois ou tr&#234;s blocos, repeti mentalmente, enquanto Snow fazia outro xixi.</p><p>Por&#233;m, &#224; medida que ele seguia em busca de mais por&#231;&#245;es de grama, fui desconfiando da fidelidade da mem&#243;ria. Porque nenhum dos blocos apareceu, e a neblina deixou tudo mais indefinido. Instigado, tentei apressar Snow, que resistiu &#224; puxada da coleira e venceu o breve duelo. S&#243; pude, de longe, perceber n&#227;o um bloco, mas um pinheiro, meio escondido por detr&#225;s da n&#233;voa.</p><p>Quando chegamos ao final da rua, dei-me conta da trai&#231;&#227;o. Em vez de blocos, deparei-me com um port&#227;o de ferro, bem alto, que descia em curvas, com flores desenhadas demarcando cada n&#237;vel at&#233; o ch&#227;o. Ferro gelado, notei ao encostar a testa. E, al&#233;m daquele pinheiro, contei mais dois ou tr&#234;s, que percorriam um vasto campo verde, interrompido somente por um declive, onde a neblina parecia descansar.</p><p>Foi quando pus a m&#227;o na al&#231;a do port&#227;o que Snow, pela primeira vez, se desinteressou da grama. Ele me olhou fixamente, em posi&#231;&#227;o vigilante, como se quisesse adivinhar meu pr&#243;ximo movimento. De t&#227;o magn&#233;tico, afrouxei um pouco a<strong> </strong>for&#231;a e deixei a al&#231;a suavemente retornar &#224; posi&#231;&#227;o original. Voltei a apenas observar, o que tranquilizou Snow, que tornou a aspirar avidamente.</p><p>Automaticamente, busquei alguma casa que identificasse o lugar. Quem sabe uma no estilo &#8220;casa-grande&#8221;, com alpendre e uma rede pendurada. Ou s&#243; um casebre, em que o len&#231;ol no varal desse forma ao vento. Talvez uma mais moderna, com o beiral protegendo a janela do quarto do menino. Mas a <em>Ch&#225;cara do Bacacheri</em>, assim a denominei, n&#227;o tinha qualquer vest&#237;gio humano.<br><br>***</p><p>&#8212; Amor, voc&#234; n&#227;o vai acreditar &#8212; contei a D&#233;bora, antes mesmo de tirar o t&#234;nis.</p><p>Como de h&#225;bito, ela primeiro deu aten&#231;&#227;o ao Snow.</p><p>&#8212; Lembro, lembro &#8212; confirmou, indiferente, &#224; descri&#231;&#227;o do pr&#233;dio bege de dois ou tr&#234;s blocos.</p><p>Quando jurei que, no lugar dele, haviam colocado uma imensa ch&#225;cara, sem vest&#237;gio humano, ela achou gra&#231;a, me deu um beijo<strong> </strong>e me deixou no meio da sala. Perplexo e, principalmente, enganado.</p><p>Eu poderia ter revisitado a morada da mem&#243;ria e talvez confirmado que a <em>Ch&#225;cara do Bacacheri</em> sempre esteve ali, n&#227;o fosse o Snow. J&#225; sentado no sof&#225;, sereno, com as patas cruzadas, me olhava com benevol&#234;ncia. Se n&#227;o posso confiar na minha mem&#243;ria, o olhar do meu cachorro foi suficiente.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Vô Braz]]></title><description><![CDATA[&#8220;Oper&#225;rio morre no domingo pra n&#227;o atrapalhar o servi&#231;o de ningu&#233;m.&#8221; Acho que &#233; um in&#237;cio de cr&#244;nica melhor do que aquele, de uma das primeiras que escrevi, logo depois da minha m&#227;e nos chamar &#224; cozinha e explicar a sua situa&#231;&#227;o, v&#244;.]]></description><link>https://badecorrea.substack.com/p/vo-braz</link><guid isPermaLink="false">https://badecorrea.substack.com/p/vo-braz</guid><dc:creator><![CDATA[Badé]]></dc:creator><pubDate>Mon, 03 Aug 2026 13:00:55 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!flmT!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa1ab34f5-1a4d-4bc2-a858-701dd470c891_782x1280.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;Oper&#225;rio morre no domingo pra n&#227;o atrapalhar o servi&#231;o de ningu&#233;m.&#8221; Acho que &#233; um in&#237;cio de cr&#244;nica melhor do que aquele, de uma das primeiras que escrevi, logo depois da minha m&#227;e nos chamar &#224; cozinha e explicar a sua situa&#231;&#227;o, v&#244;. &#8220;C&#226;ncer&#8221; foi quase sussurrado, como se a doen&#231;a exigisse respeito. Sei que precisei escrever sobre voc&#234; e lancei m&#227;o do clich&#234;, roubado de <em>Os Sert&#245;es</em>: &#8220;meu av&#244;, antes de tudo, &#233; um oper&#225;rio&#8221;. O texto ficou parecendo um estranho obitu&#225;rio e, desde ent&#227;o, j&#225; se passaram quase dez anos.</p><p>Envelheceu mal a cr&#244;nica, v&#244;. Ao contr&#225;rio do senhor. Porque voc&#234; continuou trabalhando diariamente e s&#243; parou quando faltou ar. Viu os netos crescerem, um deles casar e at&#233; descobrir que teria um bisneto. Naquela noite, n&#243;s ligamos para voc&#234; e, depois do choro dividido, fez uma piada m&#243;rbida, como uma daquelas de que tanto gostava: &#8220;Se precisar de fralda, eu tenho aqui.&#8221;</p><p>Na vig&#237;lia no quarto do hospital, da qual participei arrastado pelo exemplo implac&#225;vel de seus filhos, achei curiosa a sua identifica&#231;&#227;o na parede, logo acima da cama: nome, data de nascimento e <em>nome da m&#227;e</em>. Ent&#227;o, no final, como eu j&#225; desconfiava, somos apenas isso. Nem esposos, nem pais, nem av&#243;s, nem bisav&#243;s. Apenas filhos da nossa m&#227;e. Fragil&#237;ssimos, carentes de cuidado e de olhos espantados.</p><p>Quem teria mais vida, v&#244;? Voc&#234;, arqueando o peito, com toda a for&#231;a, em busca de um fio de ar, ou seu bisneto, dentro da barriga da m&#227;e? Os dois com pulm&#245;es vulner&#225;veis, afinal. A &#250;nica diferen&#231;a era que um deles era elogiado pelos m&#233;dicos. Queria conversar a respeito tomando mais um caf&#233; na mesa da sua cozinha. S&#243; mais uma x&#237;cara, v&#244;.</p><p>Ent&#227;o minha m&#227;e nos trouxe outra not&#237;cia, na semana passada, agora com &#8220;c&#226;ncer&#8221; bem pronunciado. Pela satura&#231;&#227;o, n&#227;o sab&#237;amos o que poderia acontecer com voc&#234; no dia seguinte. Voc&#234; estava mal, mas estava l&#250;cido. &#8220;Despedida&#8221; era a palavra que agora calava.</p><p>Outra piada de mau gosto, pensei. &#8220;Se o senhor sair daqui, mudo o nome do pi&#225; para Braz.&#8221; Voc&#234; riria e completaria: &#8220;Pelo amor de Deus, pra que fazer isso com ele?&#8221;. Mas talvez voc&#234; n&#227;o entendesse e ela n&#227;o fizesse a menor gra&#231;a. O sil&#234;ncio, quem sabe, serviria para sufocar o choro e n&#227;o constranger ningu&#233;m. Ou, melhor, voc&#234; estaria dormindo, bem na minha hora de visita, e eu teria a desculpa.</p><p>Mas seus olhos estavam fixos na TV, com a respira&#231;&#227;o s&#244;frega e t&#227;o espessa. Peguei a mochila devagar e at&#233; chequei o celular para ver se havia algo mais importante, v&#244;. Queria ganhar tempo, como se isso fosse poss&#237;vel. Conversei com a v&#243;, sua companheira at&#233; o &#250;ltimo suspiro, e disse que tinha que ir ao trabalho. Fui at&#233; o seu lado e peguei na sua m&#227;o. As palavras vieram antes que eu pensasse.</p><p>&#8212; Te amo, v&#244;.</p><p>E, depois de tantos anos pegando sua m&#227;o com suavidade, abra&#231;ando-a para n&#227;o machucar, voc&#234; pareceu deslocar a for&#231;a do peito e coloc&#225;-la no pulso. Apertou minha m&#227;o com firmeza e at&#233; me assustei. Como se me ensinasse, de novo, a cumprimentar. Seus olhos se contra&#237;ram um pouco, e voc&#234; balan&#231;ou a cabe&#231;a afirmativamente. N&#227;o desviei o olhar, v&#244;.</p><p>&#8212; O v&#244; tamb&#233;m te ama.</p><p>Minha av&#243; disse o que era &#243;bvio, mas que precisava tanto ser dito.</p><p>Acho dif&#237;cil algu&#233;m dizer que eu, antes de tudo, sou um oper&#225;rio. Quem sabe, aos seus oitenta e poucos anos, v&#244;, isso mude. Mas, depois da despedida, fui ao trabalho ou, como voc&#234; prefere, ao &#8220;servi&#231;o&#8221;. Segurei o choro, ali entre o peito e a garganta, torcendo para que ningu&#233;m me perguntasse se estava tudo bem. Mas fui respons&#225;vel, diligente e fiz o que tinha que fazer.</p><p>Como voc&#234; fez sua vida inteira.</p><div><hr></div><p><em>Fique com Deus, v&#244;.</em></p><p><em>E que Santa Paulina, sua santa de devo&#231;&#227;o, interceda por n&#243;s por aqui.</em></p><p><em>Te amo, v&#244;. </em></p><p><em>E que saudades j&#225;.</em></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!flmT!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa1ab34f5-1a4d-4bc2-a858-701dd470c891_782x1280.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!flmT!, /__u/badecorrea.substack.com/w_424, /__u/badecorrea.substack.com/c_limit, /__u/badecorrea.substack.com/f_webp, /__u/badecorrea.substack.com/q_auto:good, 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casa.]]></description><link>https://badecorrea.substack.com/p/o-craque-argentino-do-bacacheri</link><guid isPermaLink="false">https://badecorrea.substack.com/p/o-craque-argentino-do-bacacheri</guid><dc:creator><![CDATA[Badé]]></dc:creator><pubDate>Mon, 15 Jun 2026 08:30:27 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!a5eo!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9eca8a54-f281-4b07-81bc-045415234929_782x782.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;Decadente&#8221; &#233; a palavra mais precisa para descrever a hamburgueria aqui na esquina de casa. H&#225; uma lousa na frente que tenta, com giz, anunciar a qualidade do hamb&#250;rguer e a vantagem do chope em dobro. Mas o branco &#233; t&#227;o p&#225;lido que n&#227;o causa impress&#227;o alguma em quem l&#234;. Para piorar, o poste que sustenta o an&#250;ncio exibe marcas escuras na base, em decorr&#234;ncia da urina dos cachorros que ali se aliviam.</p><p>Mas criei uma simpatia pelo local quando, em um jogo qualquer da Argentina, ouvi o &#8220;gol!&#8221;, com o &#8220;l&#8221; preso ao c&#233;u da boca, t&#237;pico do castelhano, ap&#243;s mais um tento da sele&#231;&#227;o. Dias depois, passei ali novamente e confirmei a nacionalidade dos donos pela discreta bandeira no balc&#227;o do caixa. Decidi que, na pr&#243;xima vez, entraria e daria uma chance ao estabelecimento.</p><p>O lugar exibia uma tem&#225;tica &#8220;rock&#8217;n&#8217;roll&#8221;, com quadros do Led Zeppelin, da Harley-Davidson e at&#233; de Don Corleone pendurados nas paredes. Escolhi a mesa ao fundo, lugar mais seguro para um observador, e peguei o card&#225;pio. Havia op&#231;&#245;es demais e, entediado, escolhi logo a primeira: o tal &#8220;classic burger&#8221;. Mas, ao procurar o gar&#231;om, meu olhar foi imediatamente desviado para o cliente que entrava pela porta.</p><p>&#201; curioso como todo craque canhoto, pelo menos os que vi pessoalmente, tem a mesma caracter&#237;stica. O maior de todos eles n&#227;o era diferente: a perna esquerda vai antes da direita, havendo um intervalo no movimento. Assim, s&#227;o um pouco mancos. O gar&#231;om que eu procurava surge inesperadamente, ignora a ordem de chegada e atende ao maior argentino de todos os tempos. Dirige-se a ele de cabe&#231;a baixa e oferece a melhor mesa, que ele aceita.</p><p>O craque n&#227;o usava uma camisa da sele&#231;&#227;o, mas uma sugestiva &#8212; e imensa &#8212; camiseta azul da Adidas, complementada por uma cal&#231;a folgada de moletom, da mesma cor. No pulso direito, ostentava um rel&#243;gio prateado que rebrilhava a parca luz da hamburgueria. A cada gesto reverente do gar&#231;om, o prestigiado cliente reagia com seu tradicional jeito de ator canastr&#227;o. Ao agradecer, cruzava os bra&#231;os sobre o peito e simulava uma emo&#231;&#227;o arrebatadora.</p><p>Enquanto olhava o card&#225;pio, vieram-me, em sequ&#234;ncia, algumas imagens: um gol de longe no campeonato italiano, a comemora&#231;&#227;o enfurecida na Copa do Mundo e tamb&#233;m uma reportagem um julgamento por porte de drogas. No instante em que amea&#231;ou fazer o pedido, o gar&#231;om, como um zagueiro ingl&#234;s, veio ao seu encal&#231;o.</p><p>O hamb&#250;rguer, bem maior que o &#8220;classic burger&#8221;, chegou rapidamente. Foi trazido especialmente pelo pr&#243;prio chapeiro, que se postava como um chef de cozinha, explicando as min&#250;cias do processo de elabora&#231;&#227;o da iguaria. Ao final, sugeriu o molho de ketchup, que trazia em uma das m&#227;os.</p><p>&#8212; Oh! &#8212; gemeu o craque.</p><p>Em um lance r&#225;pido, ele desarmou o hamb&#250;rguer, que j&#225; se desintegrava no prato de alum&#237;nio. E driblou os guardanapos, que n&#227;o conseguiram defender o canto de sua boca das pequenas manchas vermelhas. A cada duas ou tr&#234;s mordidas, parava para tomar f&#244;lego, retomando os movimentos em seguida.  &#8220;Um jogador brutal&#8221;, lembrei de uma descri&#231;&#227;o em algum document&#225;rio.</p><p>Ao final, o gar&#231;om recusou qualquer pagamento dele, que for&#231;ou um choro emocionado. Levantou-se e voltou a mancar at&#233; a porta por onde havia entrado, apoiando-se, quando necess&#225;rio, nas mesas. Ao chegar &#224; cal&#231;ada, virou &#224; esquerda, e calculei que ele morava na Rua Costa Rica.</p><p>Quando pe&#231;o a conta, o gar&#231;om chega, e n&#227;o resisto a perguntar, embora j&#225; soubesse a resposta.</p><p>&#8212; S&#237; &#8212; ele confirma, sinceramente comovido, a identidade do t&#227;o conhecido, mas j&#225; decadente, morador do Bacacheri.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Frederico e Salieri]]></title><description><![CDATA[Mal t&#237;nhamos retornado ao Bacacheri quando Frederico, um grande amigo, naturalmente apelidado de &#8220;Fred&#8221;, me mandou a mensagem: &#8220;Bad&#233;, estamos indo pra Buenos Aires!]]></description><link>https://badecorrea.substack.com/p/frederico-e-salieri</link><guid isPermaLink="false">https://badecorrea.substack.com/p/frederico-e-salieri</guid><dc:creator><![CDATA[Badé]]></dc:creator><pubDate>Thu, 14 May 2026 19:34:58 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!a5eo!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9eca8a54-f281-4b07-81bc-045415234929_782x782.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Mal t&#237;nhamos retornado ao Bacacheri quando Frederico, um grande amigo, naturalmente apelidado de &#8220;Fred&#8221;, me mandou a mensagem: &#8220;Bad&#233;, estamos indo pra Buenos Aires! Pr&#243;ximo s&#225;bado!&#8221;. No<em> imediatamente</em> seguinte. N&#227;o com seis meses de anteced&#234;ncia, como eu e D&#233;bora cuidadosamente planejamos. Ele me explicou que sua esposa teve de tirar f&#233;rias, que o Nordeste estava caro e que n&#227;o sei mais o qu&#234;. Gentilmente, quase no autom&#225;tico, coloquei-me &#224; disposi&#231;&#227;o para qualquer dica. Uma semana e pouco depois, ele me enviou quatro ou cinco &#225;udios e uma dezena de fotos da bem-sucedida viagem.</p><p>O casal n&#227;o estava em lua de mel, mas tamb&#233;m ficou em um hotel na Recoleta. O primeiro &#225;udio explicava que o quarto era grande e dispunha de uma pequena sala, conforto do qual o nosso carecia. Havia at&#233; servi&#231;o de quarto, por meio do qual pediram um &#8220;ojo de bife&#8221; que, segundo Fred, era melhor do que o de alguns restaurantes. Foi em seguida que comparei os pre&#231;os das respectivas hospedagens e lamentei que eram mais semelhantes do que eu imaginava.</p><p>Sendo in&#237;cio de maio, Buenos Aires exibia temperaturas amenas, o que facilitava as caminhadas e at&#233; diminu&#237;a o n&#250;mero de turistas, o que tamb&#233;m &#233; desej&#225;vel. Lembrei do dia em que eu e D&#233;bora decidimos voltar mais cedo para o hotel, exaustos do sol e de um japon&#234;s que foi grosseiro com ela na entrada de um museu. Frederico completou dizendo que as &#225;rvores ficam ainda mais bonitas no outono. Mentalmente, achei a descri&#231;&#227;o desnecess&#225;rio e pobre.</p><p>Pulo para o pr&#243;ximo &#225;udio e recebo o relato de uma livraria no bairro do Retiro, de curiosa orienta&#231;&#227;o: no centro dela, um senhor se sentava diante de uma enorme mesa, sobre a qual estavam uma caneca, um cinzeiro e v&#225;rias pe&#231;as de madeira. O simp&#225;tico dono, al&#233;m de vender livros, trabalhava com marcenaria. Os livros orbitavam ao redor dele, como se fosse um planeta &#224; parte. E ainda usava mon&#243;culo. &#8220;Um mon&#243;culo, Bad&#233;!&#8221;, Fred quase vibrou ao final do &#225;udio, sozinho.</p><p>Leitor destas cr&#244;nicas, acertadamente ele evitou os shows de tango. &#8220;E voc&#234; n&#227;o acredita, cara...&#8221; &#8212; acertou novamente. Fred me contou que sua esposa descobriu um site de venda de ingressos remanescentes para o disputad&#237;ssimo Teatro Col&#243;n. O mais elegante teatro da Am&#233;rica Latina s&#243; recebe espet&#225;culos de m&#250;sica cl&#225;ssica, bal&#233; e &#243;pera. Os ingressos costumam ser comprados com meses de anteced&#234;ncia, exceto para o inacreditavelmente sortudo casal. Quando vi a foto dos dois, bem-trajados, sob o teatro repleto e majestosamente vermelho, afastei o celular, fingindo desinteresse.</p><p>Fui at&#233; a geladeira e abri uma &#225;gua com g&#225;s. Lembrei que, por l&#225;, elas t&#234;m tampas azuis e n&#227;o, como eu julgava que deveriam ter, amarelas, vermelhas ou verdes. Queria dividir isso com Fred, mas imaginei que ele teria pena da minha pobre lembran&#231;a. A plateia do Teatro Col&#243;n riria de mim, e eu olharia para meu rival como Salieri olhava Mozart &#8212; pelo menos no filme &#8220;Amadeus&#8221;.</p><p>Foi talvez o agrad&#225;vel gole de &#225;gua com g&#225;s, de uma garrafa com tampa amarela, refrescante e efervescente, que me fez pensar melhor. Peguei de novo o celular e n&#227;o mandei um &#8220;j&#243;inha&#8221; para todos os conte&#250;dos, no melhor estilo passivo-agressivo de WhatsApp.</p><p>A viagem a Buenos Aires havia ficado para tr&#225;s e rendido algumas cr&#244;nicas. Foi muito melhor do que imagin&#225;vamos, e at&#233; hoje eu e D&#233;bora a recordamos com carinho. Agora ela seria a viagem de outros casais apaixonados, em lua de mel ou n&#227;o.</p><p>E dei meu primeiro passo, quase um ato de f&#233;: &#8220;Fico feliz que gostaram, Fred&#8221;.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Livros e livrarias de Buenos Aires]]></title><description><![CDATA[Que eram numerosas, eu sabia.]]></description><link>https://badecorrea.substack.com/p/livros-e-livrarias-de-buenos-aires</link><guid isPermaLink="false">https://badecorrea.substack.com/p/livros-e-livrarias-de-buenos-aires</guid><dc:creator><![CDATA[Badé]]></dc:creator><pubDate>Mon, 27 Apr 2026 10:10:03 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!a5eo!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9eca8a54-f281-4b07-81bc-045415234929_782x782.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Que eram numerosas, eu sabia. Mas pensava que as livrarias ainda eram lugares ex&#243;ticos, pr&#243;ximas talvez das lojas de discos ou dos antiqu&#225;rios. A surpresa foi que elas tamb&#233;m eram protagonistas, situadas nos lugares mais agitados da cidade. Assim, em qualquer roteiro, uma livraria &#8212; ou um livro &#8212; vai te atravessar em Buenos Aires.</p><p>Rec&#233;m-chegados &#224; Recoleta, fomos a uma ao lado do nosso hotel. Nela, chamou-me a aten&#231;&#227;o a confort&#225;vel disposi&#231;&#227;o dos livros. Longas prateleiras de madeira, em que cada exemplar teria espa&#231;o suficiente para esticar seus bra&#231;os, se os tivesse. E, a cada lance, como se precisassem se recolher para descansar, davam lugar a outros produtos relacionados. Lindos cadernos bordados, criativos apoios e marcadores de p&#225;gina tem&#225;ticos &#8212; comprei um do Papa Francisco.</p><p>J&#225; o bairro de Palermo concentrava mais livrarias por metro quadrado. Na primeira, interessei-me pelos contos de Cort&#225;zar, mas estavam caros. D&#233;bora (troco, adiante, o &#8220;ela&#8221; por seu nome, para evitar ambiguidades) aconselhou-me a esperar a pr&#243;xima livraria, que haveria de aparecer mais &#224; frente. Assim, como se estiv&#233;ssemos em um shopping e diss&#233;ssemos ao vendedor que ir&#237;amos &#8220;dar uma voltinha&#8221;. Afinal, haveria outra &#8220;loja de sapatos&#8221; no mesmo lugar. E comprei um &#8220;sapato&#8221; do Cort&#225;zar, que hoje marco com o Papa Francisco.</p><p>J&#225; esquecido disso de literatura, passe&#225;vamos &#224; noite pela agitada Avenida Corrientes. &#201; talvez a rua principal da cidade, onde ficam pizzarias repletas, teatros cheios e, na rua, artistas disputam sua aten&#231;&#227;o, vestidos de Maradona ou de Michael Jackson. Ao final, o Obelisco, vis&#237;vel de qualquer lugar. Foi depois de desviarmos de um grupo de adolescentes b&#234;bados que me surpreendi:</p><p>&#8212; Amor, olha! Uma livraria.</p><p>Ali, exatamente onde deveria haver uma loja de roupas, que faturaria muito bem, mais uma loja de livros. Entrei, com passos inseguros, surpreendendo-me com a estante principal. Nenhum livro de autoajuda, mas uma boa sele&#231;&#227;o. Prometi, ent&#227;o, que os poemas de Borges seriam a &#250;ltima compra da viagem. Promessa n&#227;o cumprida.</p><p>Logo o &#250;ltimo dia de viagem chegou, e est&#225;vamos na vibrante feira de San Telmo. O cansa&#231;o e o dinheiro curto nos indicavam que era hora de voltar para o Bacacheri. D&#233;bora comprava, em um armaz&#233;m, um queijo parmes&#227;o de capa preta, o favorito de seu pai, enquanto eu esperava na cal&#231;ada. Foi quando, do outro lado da quadra, notei a voz mais alta de todas:</p><p>&#8212; Libros! Libros! Libros!</p><p>Em uma m&#227;o, o sujeito segurava uma al&#231;a que terminava em um isopor velho. Adivinhava-se o conte&#250;do, pois, na outra, ele segurava uma amostra do produto:</p><p>&#8212; Libros! Libros! Libros!</p><p>Cada palavra parecia me desconcertar. Precisava, o quanto antes, chamar D&#233;bora para testemunhar aquela imagem. Ela n&#227;o entendeu minha impaci&#234;ncia quando fiz sinal para que apressasse o passo. Logo ela chegou, com o queijo parmes&#227;o de capa preta em uma sacola, quando disse algo que nunca havia dito:</p><p>&#8212; Amor, olha! Um <em>vendedor ambulante de livros</em>.</p><p>Agora n&#243;s dois olh&#225;vamos a figura ins&#243;lita, meu sorriso ainda maior porque dividia com o dela. O vendedor ambulante de livros ent&#227;o ergueu o isopor e o apoiou no ombro direito, enquanto o livro permanecia na outra m&#227;o. A figura foi desaparecendo, &#224; medida que chegava ao final da quadra. N&#227;o tive coragem de me aproximar, preferindo apenas testemunhar. Foi a &#250;ltima imagem de Buenos Aires que guardamos.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Meu avô, uma menina e um cachorro]]></title><description><![CDATA[Cada bairro deveria ter o seu pr&#243;prio cemit&#233;rio.]]></description><link>https://badecorrea.substack.com/p/meu-avo-uma-menina-e-um-cachorro</link><guid isPermaLink="false">https://badecorrea.substack.com/p/meu-avo-uma-menina-e-um-cachorro</guid><dc:creator><![CDATA[Badé]]></dc:creator><pubDate>Mon, 20 Apr 2026 08:02:15 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!a5eo!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9eca8a54-f281-4b07-81bc-045415234929_782x782.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Cada bairro deveria ter o seu pr&#243;prio cemit&#233;rio. Afirmo isso sem receio de soar m&#243;rbido, porque &#233; uma verdade. Infelizmente, em Curitiba, eles est&#227;o cada vez mais isolados e o percurso at&#233; os vel&#243;rios tem sido longo, pois muitos ficam em outros munic&#237;pios. Ainda mais grave, os lugares evitam a palavra original e preferem eufemismos, como se estes fossem homenagens aos mortos e consolo aos vivos: &#8220;Jardim da Saudade&#8221;, &#8220;Recanto Eterno&#8221; ou simplesmente &#8220;Recolhimento&#8221;.</p><p>O Bacacheri segue o padr&#227;o e tamb&#233;m n&#227;o tem o seu. O mais pr&#243;ximo fica no bairro Santa C&#226;ndida, quase no limite com a cidade de Colombo. Desde que moro aqui, percebia que &#8220;Cemit&#233;rio do Santa C&#226;ndida&#8221; soava familiar, sem que eu nunca me atentasse ao porqu&#234;. Em uma pedalada, parei em frente e decidi entrar.</p><p>Foi quando lembrei do motivo da familiaridade e, imediatamente, liguei para minha av&#243;.</p><p style="text-align: center;">***</p><p>O cemit&#233;rio do bairro da Recoleta &#233; motivo de orgulho para os habitantes. Tanto que &#233; preciso pagar ingresso, passar pela catraca e agradecer pelo folder que nos &#233; entregue, com o mapa dos t&#250;mulos ilustres, muitos com est&#225;tuas esculpidas sobre eles. Sugeri a ela que f&#244;ssemos a, pelo menos, dois: o de Evita Per&#243;n e o de Adolfo Bioy Casares.</p><p>Repleto de turistas, todos armados com celulares, no primeiro s&#243; consegui ver um retrato amarelado. Um guia contava como havia sido o dia do vel&#243;rio, mas n&#227;o me interessei em ouvir. No de Bioy Casares, vi que ele estava enterrado com seus familiares, sem encontrar a placa do mais interessante deles, o escritor.</p><p>Foi um pouco antes da sa&#237;da que parei, ao notar uma das est&#225;tuas. Era a de uma menina, esculpida em contornos vagos, fugazes, como se nos escapasse a todo momento. Mas, de alguma forma, permanecia ali, serena e fixa na forma. Na l&#225;pide, versos em italiano, dos quais s&#243; apreendi as palavras iniciais:</p><p><em>Perche?</em></p><p><em>Perche?</em></p><p><em>Perche?</em></p><p>Eram os lamentos do pai inconformado, que assinava ao final. Na pergunta, a d&#250;vida e a revolta, ao mesmo tempo. Contra Deus, contra os homens, contra o cemit&#233;rio da Recoleta e at&#233; mesmo contra a menina. Ao lado dela, ainda, a est&#225;tua de um cachorro, obedientemente sentado. &#8220;Sab&#250;&#8221;, o simp&#225;tico nome inscrito na coleira. Uma menina junto de seu cachorro, como qualquer outra. Mas que se foi cedo demais, como s&#243; ela.</p><p style="text-align: center;"> ***</p><p>Minha av&#243; confirmou e, finalmente, entendi o porqu&#234; da lembran&#231;a assonante. Ali foi enterrado o meu av&#244;, h&#225; mais de vinte anos. O &#250;nico dia em que vi meu pai derrotado, com a cabe&#231;a permanentemente baixa, s&#243; conseguindo ficar em p&#233; porque apoiava o p&#233; direito em uma pedra, enquanto alternava entre olhar o caix&#227;o suspenso e o pr&#243;prio ch&#227;o.</p><p>Perguntei &#224; minha av&#243; onde ficava o do meu av&#244;: &#8220;L&#225; em cima&#8221;, respondeu, mas havia muitos naquela regi&#227;o. Pedi o n&#250;mero dele e ela disse n&#227;o se lembrar. </p><p>Do t&#250;mulo do meu av&#244;, hoje, tenho apenas essa vaga indica&#231;&#227;o e outra informa&#231;&#227;o, que soube por outra pessoa.</p><p>Minha av&#243; n&#227;o toma refrigerante, mas guarda sempre no porta-malas duas ou tr&#234;s garrafas pet vazias. Frequentemente, visita sozinha o seu ex-esposo. Para limpar o ac&#250;mulo de p&#243; que fica no granito, passa a m&#227;o e o deposita em uma daquelas mesmas garrafas. Ao sair do &#8220;Cemit&#233;rio do Santa C&#226;ndida&#8221;, joga o conte&#250;do na lixeira em frente, zelando pelo meu av&#244;.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Crônica de um tango anunciado]]></title><description><![CDATA[Foi em uma pequena escola no Bacacheri que dei meus primeiros passos na dan&#231;a, sem adivinhar aonde isso iria chegar.]]></description><link>https://badecorrea.substack.com/p/cronica-de-um-tango-anunciado</link><guid isPermaLink="false">https://badecorrea.substack.com/p/cronica-de-um-tango-anunciado</guid><dc:creator><![CDATA[Badé]]></dc:creator><pubDate>Mon, 13 Apr 2026 10:33:30 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!a5eo!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9eca8a54-f281-4b07-81bc-045415234929_782x782.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Foi em uma pequena escola no Bacacheri que dei meus primeiros passos na dan&#231;a, sem adivinhar aonde isso iria chegar. A oferta da aula experimental e a proximidade foram motivos suficientes. Soma-se a isso a cena ic&#244;nica de Al Pacino em &#8220;Perfume de Mulher&#8221;, como exemplo distante, e fiz um m&#234;s de aulas, integralmente pagas.</p><p style="text-align: center;">***</p><p>&#8220;Em Buenos Aires, tem que ver um show de tango. Ah, tem que ver&#8230;&#8221;, aconselha qualquer um que j&#225; esteve l&#225;, finalizando a dica at&#233; com um suspiro. Eu discordava mentalmente, por educa&#231;&#227;o, pelo mesmo motivo que n&#227;o acho necess&#225;rio ir a Paris e ver a Torre Eiffel, que, ali&#225;s, me pareceu desinteressante. Vai-se onde quiser, sem precisar fazer <em>checklist</em> nenhum, nem soltar suspiros pouco convincentes no retorno.</p><p>Mas de nada adiantou esse meu argumento. At&#233; porque lua de mel n&#227;o serve para provar opini&#227;o e assim fomos no &#8220;Tango Show&#8221;. Poupo o nome oficial, mas atesto que era algo assim &#8212; gen&#233;rico e meio brega. Em um bairro pr&#243;ximo ao centro, erguia-se uma estrutura de galp&#227;o, onde estava pintado um casar&#227;o de madeira, com telhado vermelho e tinta descolorida. Assim, na entrada, linda e elegante s&#243; estava ela, com seu vestido de renda indefect&#237;vel.</p><p>J&#225; ao entrarmos, tive a primeira e constrangedora surpresa. Os gar&#231;ons se enfileiravam, cada um ocupando um degrau da escada, dando sucessivos <em>bienvenidos</em>, nos obrigando a respond&#234;-los ao mesmo tempo em que sub&#237;amos. Consegui responder s&#243; dois deles com &#8220;obrigados&#8221; desequilibrados e, no terceiro, simplesmente abaixei a cabe&#231;a e segui em frente.</p><p>O lugar me remeteu &#224; boate do filme &#8220;Os Bons Companheiros&#8221;, do Martin Scorsese, em que os mafiosos frequentavam &#224; noite. Traves met&#225;licas, paredes em tons avermelhados, um andar em cima e o palco centralizado. Senti-me um pouco como Tommy DeVito, o personagem de Joe Pesci, acompanhado da minha <em>mob wife</em>. O dan&#231;arino que n&#227;o ousasse olhar para ela, caso contr&#225;rio &#8212; e afastei um pensamento.</p><p>Ent&#227;o um daqueles gar&#231;ons enfileirados veio at&#233; a nossa mesa e, buscando ser simp&#225;tico, nos perguntou de onde &#233;ramos. E achou uma boa ideia tentar adivinhar: &#8220;Corinthians?&#8221;, &#8220;Flamengo?&#8221;, &#8220;S&#227;o Paulo!&#8221; e, a cada erro dele, ainda que pensasse que minha excita&#231;&#227;o aumentava, cresciam em mim impulsos semelhantes aos de Tommy. Como eu queria ter um cigarro e um olhar amea&#231;ador ao responder: &#8220;Athletico Paranaense&#8221;.</p><p>Pensamentos violentos devidamente &#224; parte, o &#8220;Tango Show&#8221; se inicia, com sua sucess&#227;o sufocante de movimentos. Um sujeito de peruca canta em <em>playback</em> um primeiro tango, exageradamente emotivo. O casal de dan&#231;arinos entra logo depois e o gelo seco invade nossas narinas. Os passos deles se aceleram demais, cada vez mais acrob&#225;ticos, e logo a dan&#231;arina est&#225; suspensa no ar, presa por uma corda, como em um estranho circo. J&#225; em desespero, percebo que minha garrafa de vinho est&#225; quase acabando.</p><p>Naturalmente, o &#8220;Tango Show&#8221; se encaminha para um final apote&#243;tico, ainda que tudo fosse um anticl&#237;max. Ent&#227;o, o cantor de peruca, os m&#250;sicos e os dan&#231;arinos se postam militarmente, em rever&#234;ncia a uma bandeira argentina, que surge inesperadamente no meio do palco. Um radialista, pelo alto-falante, anuncia, com d&#233;cadas de atraso, a morte de Evita Per&#243;n, e a detest&#225;vel m&#250;sica da Madonna &#233; executada: &#8220;Don&#8217;t Cry For Me, Argentina&#8221;, com todos de m&#227;o no peito, como se fosse o hino nacional.</p><p>&#8220;&#201; Argentina que voc&#234;s querem, <em>brasile&#241;os de mierda</em>?&#8221;, uma voz distante ecoa na minha cabe&#231;a e mato a garrafa.</p><p>Talvez a bebida, ou talvez a consci&#234;ncia me preservando, mas as lembran&#231;as s&#227;o confusas. Pois s&#243; agora lembro de &#8220;Garota de Ipanema&#8221; tocada em ritmo de tango, com os m&#250;sicos olhando para n&#243;s a sorrir, esperando talvez que eu sacasse meu chap&#233;u Panam&#225; e fizesse embaixadinhas. Pouco depois, ou antes, o gar&#231;om volta e perde a gorjeta, que dou pelo mesmo motivo que daria em um assalto: para poder voltar para casa o quanto antes.</p><p style="text-align: center;">***</p><p>&#8220;&#201; um quadrado: um passo para frente, outro para o lado, volte para tr&#225;s e chegue onde iniciou&#8221;, ainda lembrava da primeira li&#231;&#227;o daquelas aulas. Assim, mesmo com as luzes do &#8220;Tango Show&#8221; acesas, com os gar&#231;ons agora desinteressados, decidi agir.</p><p>Ainda tocava um tango indistinto, em volume razo&#225;vel, e eu me levantei da cadeira. Olhei para ela, o verdadeiro espet&#225;culo daquela noite, e a convidei a se levantar. Comecei devagar, desenhando o quadrado, que logo se formou perfeitamente. Ao final, abaixei-a, segurando-a delicadamente pelo pesco&#231;o, e terminei com um beijo &#8212; este, sim, apote&#243;tico e comovente, como em um show de tango na Argentina, muito longe dali.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Aeroporto do Bacacheri (ADB) - Aeroporto de Buenos Aires (AEP)]]></title><description><![CDATA[Facilitou bastante a nossa viagem, de Curitiba a Buenos Aires, o voo direto entre o Aeroporto do Bacacheri e o Aeroporto Internacional Jorge Newbery.]]></description><link>https://badecorrea.substack.com/p/aeroporto-do-bacacheri-adb-aeroporto</link><guid isPermaLink="false">https://badecorrea.substack.com/p/aeroporto-do-bacacheri-adb-aeroporto</guid><dc:creator><![CDATA[Badé]]></dc:creator><pubDate>Mon, 06 Apr 2026 08:02:06 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!a5eo!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9eca8a54-f281-4b07-81bc-045415234929_782x782.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Facilitou bastante a nossa viagem, de Curitiba a Buenos Aires, o voo direto entre o Aeroporto do Bacacheri e o Aeroporto Internacional Jorge Newbery. O Afonso Pena, o principal aqui da cidade, fica longe e, dominado pelas grandes companhias a&#233;reas, oferece passagens caras. Ao contr&#225;rio do &#8220;ADB&#8221;, em que seu Armando, ex-piloto e morador antigo do bairro, cobra s&#243; a gasolina ou, &#224;s vezes, nem isso. Como desta vez, quando soube que nos casamos e fez quest&#227;o de nos dar de presente o trajeto da lua de mel.</p><p>De pouco adiantou dizer que poder&#237;amos ir a p&#233;, afinal, nossa casa ficava a uma caminhada de apenas 10 minutos do aeroporto bacacherista. Assim, al&#233;m de nos levar pelo ar, seu Armando nos buscaria por terra, no dia seguinte ao grande dia de nossas vidas.</p><p>Ent&#227;o, n&#243;s dois, de ressaca ap&#243;s uma noite mal dormida, mas exaustivamente felizes, descemos, e seu Armando j&#225; estava de p&#233;, encostado em seu carro &#8212; o inconfund&#237;vel Astra vermelho &#8212;, sorrindo:</p><p>&#8212; Os noivos!</p><p>Ele nos abra&#231;ou, j&#225; adiantando um dos bra&#231;os at&#233; nossas malas de rodinha. Conseguiu pegar s&#243; a dela, e eu fiz quest&#227;o de, pelo menos, pegar a minha e coloc&#225;-la no porta-malas. Dentro do carro, com o mesmo sorriso, seu Armando queria saber como tinha sido a festa. Falamos aquilo de que lembr&#225;vamos e, entre uma mem&#243;ria ou outra, olhei para o meu rel&#243;gio. Seu Armando imediatamente me tranquilizou:</p><p>&#8212; Calma, que temos tempo, Bad&#233;.</p><p>De fato, t&#237;nhamos. At&#233; porque, no ADB, n&#227;o havia necessidade de &#8220;check-in&#8221;. Ali&#225;s, seu Armando n&#227;o compreendia muito bem essa ideia. Para ele, se a pessoa dissesse que iria viajar, iria viajar. Qualquer coisa, era s&#243; avisar no dia anterior e pronto. Pelo menos, era assim com os moradores do Bacacheri, a quem gostava de dizer que eram &#8220;tudo boa gente&#8221;.</p><p>Enfim, chegamos l&#225; e ficamos em uma sala, encostando as malas ao lado de uma confort&#225;vel poltrona, na qual ela se sentou. Juntos, lembramos do seu vestido com la&#231;o na cintura, da valsa que praticamos por dias e da banda que tanto animou os convidados. Em seguida, conseguimos rascunhar um roteiro do primeiro dia em Buenos Aires, quando conhecer&#237;amos o bairro da Recoleta. Tivemos que interromp&#234;-lo quando seu Armando voltou, desta vez com uma garrafa t&#233;rmica e um bolo, que veio dentro de uma forma.</p><p>&#8212; Meus noivos, voc&#234;s v&#227;o me desculpar, &#233; que a patroa hoje dorme at&#233; tarde. Mas fez quest&#227;o de deixar um bolinho para voc&#234;s.</p><p>Desconcertados com o gesto, pedimos que ele enviasse todos os agradecimentos poss&#237;veis &#224; dona Elenice, sua amada esposa de tantos anos. O bolo era de fub&#225;, com cobertura de goiabada, acompanhado de caf&#233; quente. Buscamos raspar o prato para facilitar a lou&#231;a e nos servimos de mais uma x&#237;cara.</p><p>&#8212; Vamos subir, casal?</p><p>&#8220;Subir&#8221;, em vez de &#8220;embarcar&#8221;, soou muito mais l&#250;dico e mais claro, at&#233; porque ouvi o aviso diretamente da pessoa, e n&#227;o de um alto-falante, com aquela voz mec&#226;nica e abafada.</p><p>A porta da sala dava direto na pista, envolta por um gramado seco, t&#237;pico aqui do Bacacheri e manchado, em alguns lugares, de marrom. Um cachorro pregui&#231;oso tomava um pouco de sol e nos lan&#231;ou um olhar desinteressado. O avi&#227;o de seu Armando era cinza, com uma listra vermelha cortando cada uma das asas. Percebi que, diferente dos avi&#245;es modernos, este tamb&#233;m tinha uma h&#233;lice na frente.</p><p>Ainda que antigo, por dentro o avi&#227;o era muito mais espa&#231;oso do que qualquer outro. Um sof&#225; marrom, duas poltronas beges postadas em frente e, ao meio, uma mesa baixa de madeira, com um arranjo de flores roxas &#8212; que atribu&#237; &#224; delicadeza de dona Elenice. Encostada na parede, embaixo da janela, havia uma pequena geladeira, que abri e contei: um suco de laranja, presunto, queijo e quatro garrafas de &#225;gua com g&#225;s geladas.</p><p>&#8212; Fiquem &#224; vontade. O avi&#227;o &#233; de voc&#234;s.</p><p>Seu Armando ent&#227;o entrou em sua cabine, l&#225; na frente. Ficamos sozinhos enquanto &#8220;sub&#237;amos&#8221;. Conseguimos, pela janela, ver o Bacacheri se distanciando.</p><p>&#8212; Olha, amor!</p><p>Ela apontou para a nossa casa, como se a visse pela primeira vez, at&#233; ela diminuir de tamanho. Quando a vista n&#227;o p&#244;de mais divis&#225;-la, voltamos a rascunhar o roteiro de Buenos Aires. No segundo dia, visitar&#237;amos o bairro de Palermo. Mas foi s&#243; isso, pois ela logo dormiu, deitada com a cabe&#231;a no meu colo.</p><p>Acordei no meio da viagem ou, pelo menos, foi isso que havia calculado. Ela ainda dormia o sono justo das noivas cansadas, e decidi ir at&#233; a cabine. Seu Armando virou-se para tr&#225;s e me convidou a sentar ao seu lado. Ainda de p&#233;, vi, pela janela da frente, a noite imensa e infinita. Desci um breve lance de escadas e sentei-me. &#192; frente, os bot&#245;es e uma alavanca, que toquei com o m&#225;ximo cuidado. Voltei o olhar &#224; imensid&#227;o noturna e levei um susto quando seu Armando interrompeu minha funda contempla&#231;&#227;o:</p><p>&#8212; E a&#237;, Bad&#233;. Feliz?</p><p>Lembrei da noite anterior e daquela em que a pedi em casamento, ainda fixado no c&#233;u.  A resposta n&#227;o veio, mas seu Armando entendeu tudo. O sil&#234;ncio de Deus, imposs&#237;vel de se ouvir l&#225; na terra, disse tudo.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Club Atlético Bacacheri de Chacarita]]></title><description><![CDATA[Foi no bairro de La Boca, cercados por Messis e Maradonas, desenhados, enchaveirados, encamisados e at&#233; corporificados, que tivemos essa conversa.]]></description><link>https://badecorrea.substack.com/p/club-atletico-bacacheri-de-chacarita</link><guid isPermaLink="false">https://badecorrea.substack.com/p/club-atletico-bacacheri-de-chacarita</guid><dc:creator><![CDATA[Badé]]></dc:creator><pubDate>Mon, 30 Mar 2026 08:30:20 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!a5eo!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9eca8a54-f281-4b07-81bc-045415234929_782x782.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Foi no bairro de <em>La Boca</em>, cercados por Messis e Maradonas, desenhados, enchaveirados, encamisados e at&#233; corporificados, que tivemos essa conversa. Em volume um pouco mais alto do que o normal, pois tangos e rumbas insistiam em rivalizar. Pr&#243;ximos ao <em>Caminito</em> e ao lado da <em>Bombonera</em>, o clich&#234; foi irresist&#237;vel: cada um pediu um <em>chorip&#225;n</em> e sua lata de cerveja <em>Quilmes</em>.</p><p>Enquanto ela observava o hist&#243;rico est&#225;dio do Boca Juniors, antecipei sua pergunta futebol&#237;stica com a seguran&#231;a de quem sabe uma coisa ou outra:</p><p>&#8212; Azul e amarelo o Boca, n&#233;, amor? Engra&#231;ado.</p><p>Saquei a primeira carta:</p><p>&#8212; Sabe por qu&#234;?</p><p>Depois de um gole na Quilmes, expliquei a ela a curiosa g&#234;nese do clube. Um grupo de portenhos decidiu fundar um time de futebol, adotando o nome do bairro, faltando s&#243; um acerto em rela&#231;&#227;o &#224;s cores. A quest&#227;o crom&#225;tica seria definida pela bandeira do primeiro barco que aparecesse no rio Riachuelo, que corria a poucos metros de onde est&#225;vamos. As cores do pa&#237;s seriam as cores do clube nascente.</p><p>&#8212; Ali, amor, onde compramos o &#237;m&#227; de geladeira pro meu av&#244;.</p><p>Ela arqueou a sobrancelha diante dessa liga&#231;&#227;o entre uma hist&#243;ria centen&#225;ria e a nossa, t&#227;o atual e pr&#243;xima. Mais um gole de Quilmes enquanto, com paci&#234;ncia s&#225;dica, eu esperava sua pr&#243;xima pergunta.</p><p>&#8212; O barco era do&#8230; Brasil?!</p><p>Ri, satisfeito.</p><p>&#8212; N&#227;o, n&#227;o. Su&#233;cia, meu amor. Su&#233;cia.</p><p>Cheio de confian&#231;a, resolvi puxar um assunto que, ali&#225;s, deu origem a estas cr&#244;nicas: os bairros ou, melhor, <em>los barrios</em>. No mesmo lugar em que o barco sueco foi avistado, est&#225; erguida uma est&#225;tua do pintor argentino Benito Quinquela Mart&#237;n, que resume bem o assunto:</p><p>&#8220;O que fiz e o que consegui, ao meu bairro devo&#8221;.</p><p>Passei a gastar seu delicado ouvido elogiando essa cultura de bairro e explicando que da&#237; vem cada particularidade de Buenos Aires &#8212; como La Boca, Palermo, Recoleta e&#8230; Chacarita. Falei do Lan&#250;s, que se orgulha de ser &#8220;o maior clube de bairro do mundo&#8221;, do cl&#225;ssico de Avellaneda, entre Racing e Independiente, e de Boedo, bairro querido do San Lorenzo.</p><p>&#8212; Amor, se o Bacacheri fosse mesmo um bairro daqui, provavelmente teria um time tamb&#233;m.</p><p>E fica, portanto, registrada a ata de funda&#231;&#227;o do &#8220;Club Atl&#233;tico Bacacheri de Chacarita&#8221;, &#250;nico da capital argentina criado por um casal, e n&#227;o por um grupo de homens. O &#8220;Baca&#8221;, como seus torcedores carinhosamente o chamam, ostenta o azul, em homenagem &#224; saia que a fundadora usava no dia, e o vermelho, em refer&#234;ncia a um clube brasileiro amado pelo fundador.</p><p>&#8212; Amor, al&#233;m de fundador, eu seria atacante e dedicaria todos os gols a voc&#234;.</p><p>Em lua de mel, todo clich&#234; funciona.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Bacacheri, bairro de Buenos Aires]]></title><description><![CDATA[Caminh&#225;vamos pelo bairro da Recoleta, em Buenos Aires, na lua de mel.]]></description><link>https://badecorrea.substack.com/p/bacacheri-bairro-de-buenos-aires</link><guid isPermaLink="false">https://badecorrea.substack.com/p/bacacheri-bairro-de-buenos-aires</guid><dc:creator><![CDATA[Badé]]></dc:creator><pubDate>Mon, 23 Mar 2026 08:02:43 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!a5eo!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9eca8a54-f281-4b07-81bc-045415234929_782x782.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Caminh&#225;vamos pelo bairro da Recoleta, em Buenos Aires, na lua de mel. Ela, linda em sua camisa rosa de listras brancas, com uma saia azul-escura e t&#234;nis Adidas &#8212; toque informal e necess&#225;rio para uma viagem que, diariamente, nos convidava a andar pelas cal&#231;adas. Encantados pela cidade, inclusive j&#225; planejando uma volta em breve, me veio uma pergunta que pareceu interessante:</p><p>&#8212; Amor, se o Bacacheri fosse um bairro de Buenos Aires, qual seria?</p><p>Notei que ela gostou do assunto, pois esbo&#231;ou um sorriso e fixou o olhar &#224; frente, j&#225; pensando na resposta. Mas, arrisco, fixou menos do que deveria e deixou a excita&#231;&#227;o influenciar por demais o julgamento:</p><p>&#8212; Recoleta! N&#227;o&#8230;Palermo! Quer dizer, acho que Recoleta mesmo.</p><p>Agora eu &#233; que me pus a pensar, menos preocupado em apontar o bairro correspondente do Bacacheri e mais no tom da resposta. Deveria explicar que o bairro curitibano pouco se assemelhava ao charmoso, harmonioso e parisiense bairro portenho, a n&#227;o ser pelo carinho que ela dedicava a ambos. E, como agravante, havia meu caso com o bairro da Vila Izabel, o que, aos seus olhos, poderia corromper minha avalia&#231;&#227;o, pela implac&#225;vel l&#243;gica do ci&#250;me.</p><p>&#8212; Mas, amor, n&#243;s nem andamos pelo Bacacheri.</p><p>Assim eu queria dizer que pouco, no bairro curitibano, nos convidava a caminhar. Nada como a Plaza Francia, a Mitre ou a Rodr&#237;guez Pe&#241;a. Nenhum ateli&#234;, livraria ou antiqu&#225;rio. Havia, sim, um caf&#233; de que gostamos, mas a cal&#231;ada era t&#227;o irregular, em uma rua t&#227;o movimentada, que &#237;amos raramente &#8212; e sempre de carro. Passe&#225;vamos, sim, no Parque Bacacheri, mas, a bem da verdade, por necessidade fisiol&#243;gica do nosso cachorro.</p><p>&#8212; Mas ent&#227;o qual bairro voc&#234; acha que &#233;?!</p><p>Ela me questionou, diminuindo o passo e agora fixando o olhar em mim, j&#225; sem esbo&#231;o de sorriso. De m&#227;os entrela&#231;adas, fiz quest&#227;o de acariciar delicadamente seu pulso, esperando que isso amenizasse o impacto da resposta indesejada. At&#233; busquei, com o olhar, algum assunto que surgisse ao redor, mais interessante do que aquele. Passou por n&#243;s um senhor, de palet&#243; e len&#231;o no pesco&#231;o, que poderia render uma observa&#231;&#227;o, mas em outra ocasi&#227;o. Acho o adere&#231;o elegante.</p><p>Ainda bem que conservo um h&#225;bito antigo, como talvez aquele senhor, para o in&#237;cio de qualquer viagem: dispenso o Google Maps e compro, na primeira banca, um mapa da cidade. O aplicativo n&#227;o me salvaria daquela situa&#231;&#227;o &#8212; n&#227;o daquela forma. Apanhei o mapa do bolso esquerdo, desdobrando-o com cuidado, j&#225; percebendo que seu sorriso voltava. Ela se aproximou, curiosa. O primeiro bairro que me apareceu era tamb&#233;m da zona norte, com uma asson&#226;ncia irresist&#237;vel:</p><p>&#8212; &#8220;Chacarita&#8221;! O Bacacheri &#233; a Chacarita, amor!</p><p>Ela ria, agora totalmente rendida, quando lhe dei outro beijo, pressionando sua linda camisa rosa contra mim, &#224; sombra de uma das in&#250;meras &#225;rvores do bairro da Recoleta. E o senhor de len&#231;o no pesco&#231;o, ainda que j&#225; tivesse passado, voltou o olhar para contemplar a cena.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Edgar, o incômodo morador]]></title><description><![CDATA[Ningu&#233;m entende por que Edgar sai imediatamente da academia quando outro morador comete o disparate de entrar enquanto ele corre na esteira.]]></description><link>https://badecorrea.substack.com/p/edgar-o-incomodo-morador</link><guid isPermaLink="false">https://badecorrea.substack.com/p/edgar-o-incomodo-morador</guid><dc:creator><![CDATA[Badé]]></dc:creator><pubDate>Mon, 05 Jan 2026 12:43:30 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!a5eo!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9eca8a54-f281-4b07-81bc-045415234929_782x782.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Ningu&#233;m entende por que Edgar sai imediatamente da academia quando outro morador comete o disparate de entrar enquanto ele corre na esteira. Ao intruso, concede a esmola de um olhar aborrecido e ignora absolutamente o &#8220;bom dia&#8221;. Uns cinco minutos depois, no m&#225;ximo, Edgar desliga o equipamento, e o barulho descendente das roletas anuncia sua despedida abrupta.</p><p>O inc&#244;modo morador, de certo pr&#233;dio do bairro do Bacacheri, tem pouco mais de quarenta anos e uma calv&#237;cie j&#225; bem come&#231;ada. &#201; muito magro &#8212; e assim s&#227;o tamb&#233;m suas pernas. Quem consegue observ&#225;-lo na esteira pode v&#234;-las em r&#225;pida e curta sucess&#227;o de movimentos.</p><p>A chatice de Edgar n&#227;o &#233; apenas reativa e, caso ningu&#233;m a provoque, ele age ativamente, se preciso. N&#227;o tendo vaga pr&#243;pria de garagem, n&#227;o v&#234; qualquer problema em usar a dos outros. Se alguma estiver vazia, tal qual nas vagas de rua, julga-se de pleno direito para ali estacionar seu carro. O morador estupefato que manda mensagem no grupo recebe uma resposta bastante serena: &#8220;&#233; meu, j&#225; tiro&#8221;. O adv&#233;rbio &#233; dele &#8212; e o tempo estimado tamb&#233;m.</p><p>Edgar mora sozinho e, em seu apartamento, se arrisca a cozinhar, preferindo sempre as gordurosas e econ&#244;micas frituras: hamb&#250;rgueres congelados, bistecas de porco imersas em &#243;leo e at&#233; a cl&#225;ssica por&#231;&#227;o de calabresa com cebola. O seu andar &#233; o mais arom&#225;tico e as paredes j&#225; denunciam marcas de gordura em tons um pouco mais escuros.</p><p>Aos fins de semana, Edgar gosta de ouvir m&#250;sica e n&#227;o tem repert&#243;rio muito bem definido. No volume amplificado e mal equalizado da TV, toca Adele, Ed Sheeran, Linkin Park e Coldplay, quando se anima e arrisca algum refr&#227;o.</p><p>Era quest&#227;o de tempo at&#233; eu me tornar uma das v&#237;timas da chatice de Edgar. Tolerava silenciosamente o cheiro, o som desequalizado e os maus modos na academia, sem conceber qual rea&#231;&#227;o eu teria caso ele estacionasse na minha garagem. At&#233; o dia em que divisei seu Twingo vermelho a ocupando. Reparei no adesivo de uma marca de surf da d&#233;cada de 90, j&#225; bem gasto.</p><p>A mensagem que imediatamente comecei a digitar deveria ser agressiva, para humilhar o alvo. Queria criticar desproporcionalmente o comportamento e, quem sabe, at&#233; depreciar o Twingo vermelho. Mas saiu apenas uma ironia leve: &#8220;esta vaga &#233; minha, mas, como podem ver, h&#225; outro carro nela. Por favor, o dono pode tirar?&#8221;. O n&#250;mero desconhecido come&#231;ou a digitar, at&#233; que veio a mensagem: &#8220;&#233; meu, t&#244; indo&#8221; &#8212; pelo menos sem adv&#233;rbio.</p><p>Pouco aliviou minha raiva o passo tranquilo de Edgar, vindo do elevador e, pior, de cabe&#231;a erguida. O certo seria ele se aproximar cabisbaixo, quem sabe de joelhos. Agora sua magreza parecia uma evidente defici&#234;ncia de car&#225;ter, nesse longo percurso at&#233; a minha vaga. Ele me olhou e falou com inacredit&#225;vel confian&#231;a:</p><p>&#8212; Desculpa, precisei levar umas compras e tive que p&#244;r o carro a&#237;.</p><p>Explicou objetivamente, sem qualquer tra&#231;o de hesita&#231;&#227;o. No mundo das ideias de Edgar, seu comportamento inc&#244;modo era, portanto, l&#243;gico. No silogismo, havia a premissa &#8220;precisei levar as compras&#8221;, que saltava lepidamente para a conclus&#227;o &#8220;tive que p&#244;r o carro a&#237;&#8221;, sem margem para &#8220;n&#227;o tenho uma vaga&#8221;. Foi rapidamente tamb&#233;m que sondei outras l&#243;gicas irretoc&#225;veis para seus h&#225;bitos inc&#244;modos.</p><p>&#8212; Tranquilo, Edgar.</p><p>Sem querer, chamei-o pelo nome e ele n&#227;o estranhou.</p><p>Fato &#233; que Edgar nunca mais usou a minha vaga, embora tenha continuado a usar outras. Voltei &#224; academia algum tempo depois e me deparei novamente com sua complei&#231;&#227;o raqu&#237;tica, quase fantasmag&#243;rica. Desta vez, ficou por alguns minutos a mais, completando todo o exerc&#237;cio. S&#243; n&#227;o fechou a porta direito e a deixou encostada. Interrompi o meu exerc&#237;cio e a fechei corretamente. Aborrecido, mas conformado.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Seu Azor e Maninho]]></title><description><![CDATA[Seu Azor sai todo dia de casa &#224;s sete da manh&#227;, s&#243; depois de deixar o caf&#233; dela pronto.]]></description><link>https://badecorrea.substack.com/p/seu-azor-e-maninho</link><guid isPermaLink="false">https://badecorrea.substack.com/p/seu-azor-e-maninho</guid><dc:creator><![CDATA[Badé]]></dc:creator><pubDate>Mon, 29 Dec 2025 10:19:54 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!a5eo!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9eca8a54-f281-4b07-81bc-045415234929_782x782.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Seu Azor sai todo dia de casa &#224;s sete da manh&#227;, s&#243; depois de deixar o caf&#233; dela pronto. A garrafa t&#233;rmica &#233; posta sobre o papel-toalha, para n&#227;o manchar a bancada branca. A x&#237;cara e o pires, com flores desenhadas &#8212; presentes do casamento &#8212; ficam ao lado. Ele veste um conjunto esportivo azul, cal&#231;a o t&#234;nis e vai, sozinho, ao Parque Bacacheri.</p><p>Diariamente, d&#225; uma volta e, nos fins de semana, completa uma e meia. Gosta da n&#233;voa pairando acima do rio e do cheiro de gramado &#250;mido. Quem caminha nesse hor&#225;rio conversa pouco ou quase nada. Assim, Seu Azor consegue ouvir melhor os pr&#243;prios pensamentos.</p><p>Os dois se casaram cedo: ele com 19 anos, ela com 18, quando Seu Azor sequer tinha emprego. Prometeu que logo se ajeitaria, assim que se juntassem de vez. Ela deu f&#233; &#224; promessa, e Seu Azor diligentemente a cumpriu ao longo dos anos. N&#227;o sem a ajuda do pai, que lhe legou um caminh&#227;o para come&#231;ar a vida. Vermelho, com o rosto do Cristo olhando para cima, em piedade, pintado na parte de tr&#225;s.</p><p>O servi&#231;o come&#231;ou a vir com frequ&#234;ncia e ent&#227;o tentaram o primeiro filho. Imaginava o pi&#225; sentado na cabine, sempre de cinto, enquanto conversavam entre um conselho e outro. Ou talvez nem desse tantos conselhos assim, deixando que ele aprendesse as coisas da vida por conta pr&#243;pria. Poderia fazer carga ou, se quisesse virar doutor, melhor ainda. Ela &#8212; a m&#227;e &#8212; provavelmente preferiria.</p><p>J&#225; tinham at&#233; um quarto mais ou menos preparado. De manh&#227;, ela abria a janela, como fazia com todos os outros c&#244;modos, e passava um produto com cheiro de lavanda. Repreendia Seu Azor quando ele achava razo&#225;vel deixar ali suas coisas, como a caixa de ferramentas depois de usada. Exigia que o lugar estivesse sempre organizado.</p><p>Mas o teste insistia no negativo &#8212; duas listras vermelhas indicando que, ainda, o pi&#225; n&#227;o viria. Depois do resultado, o dia seguia silencioso, sem qualquer conversa. Seu Azor percebeu que ela come&#231;ava a inventar desculpas: n&#227;o tinha na farm&#225;cia, hoje estava corrido, ou simplesmente n&#227;o encontrei a caixinha em casa. &#8220;&#201; vontade de Deus, meu bem&#8221;, tentava confort&#225;-la.</p><p>O quarto passou a ficar mais tempo fechado, com a caixa de ferramentas permanecendo aberta, at&#233; ele notar o pr&#243;prio descuido. O cheiro era s&#243; o da madeira antiga dos arm&#225;rios vazios. Seu Azor passou ent&#227;o a cuidar um pouco mais: abria a janela de manh&#227; e guardava a caixa de ferramentas, sem que ela pedisse.</p><p>A feira de cachorros ficaria aberta durante todo o m&#234;s, aos fins de semana. Os c&#227;es ficavam expostos no estacionamento do shopping, aquele ao lado do trilho do trem. Seu Azor comentou que iria dar uma olhada e notou a curiosidade dela.</p><p>&#8220;Maninho&#8221;, sugeriu como nome, e ela gostou, rindo em assentimento. Era o apelido secreto do seu pai, que ouvia de certos amigos e nunca soube o motivo. &#8220;O Maninho&#8221;, escutava nas mesas de jantar, no jogo do Athletico ou no Clube Duque de Caxias, onde ele ia jogar bola de vez em quando.</p><p>Maninho nunca dormiu no quarto do pi&#225; e tinha a cama colocada em um canto da despensa. Mas, &#224; tarde, podia deitar no ch&#227;o, quando o sol iluminava o piso. Os olhos se fechavam lentamente e se abriam r&#225;pido quando a campainha tocava. Um rosnar ao mudar de posi&#231;&#227;o. </p><p>Seu Azor desacelera o passo na caminhada quando v&#234; um cachorro da mesma cor de Maninho, cheirando algum poste no Parque Bacacheri. &#201; pena que os mais jovens se assustem com a interrup&#231;&#227;o abrupta e desajeitada dele. A maioria finge n&#227;o ouvir e puxa o cachorro pela coleira. Alguns poucos sorriem de volta, sem muito entender, quando Seu Azor comenta:</p><p>&#8212; Eu tamb&#233;m tive um cachorro. &#8220;Maninho&#8221;, o nome.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[20º BIB, a morte do sargento e uma noiva]]></title><description><![CDATA[Naquela manh&#227;, compareci ao 20&#186; Batalh&#227;o de Infantaria Blindado Sargento Max Wolff Filho, aqui no Bacacheri, bem mais empolgado do que os outros convocados, que chegaram depois de mim.]]></description><link>https://badecorrea.substack.com/p/20-bib-a-morte-do-sargento-e-uma</link><guid isPermaLink="false">https://badecorrea.substack.com/p/20-bib-a-morte-do-sargento-e-uma</guid><dc:creator><![CDATA[Badé]]></dc:creator><pubDate>Mon, 03 Nov 2025 10:42:33 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!a5eo!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9eca8a54-f281-4b07-81bc-045415234929_782x782.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Naquela manh&#227;, compareci ao 20&#186; Batalh&#227;o de Infantaria Blindado Sargento Max Wolff Filho, aqui no Bacacheri, bem mais empolgado do que os outros convocados, que chegaram depois de mim. &#201; que eu estava entre os poucos que realmente desejavam servir ao Ex&#233;rcito Nacional, mas por uma raz&#227;o bem menos patri&#243;tica do que eu tentava aparentar.</p><p>Todos os meus tios serviram e tinham hist&#243;rias a respeito. Comoventes, engra&#231;adas, determinantes. Um foi picado por uma cobra em um acampamento, e isso se tornou uma esp&#233;cie de rito inici&#225;tico &#8212; nas costas, depois, tatuou a algoz. Outro aprendeu a atirar e explica o funcionamento de qualquer tipo de arma nos almo&#231;os de domingo. Por fim, o mais velho deles era obrigado a gritar &#8220;Trov&#227;o Azul&#8221;, o seu infame apelido, todas as manh&#227;s no batalh&#227;o.</p><p>Assim, com a fei&#231;&#227;o mais s&#233;ria que consegui apresentar e com um &#8220;opa&#8221; solene para o soldado na portaria, adentrei o 20&#186; BIB convicto da minha miss&#227;o. Dirigi-me &#224;s fileiras e recebi a prancheta com um formul&#225;rio a ser preenchido. &#8220;DESEJA SERVIR?&#8221;. O &#8220;X&#8221; no &#8220;SIM&#8221; at&#233; saiu um pouco do quadrante.</p><p>*</p><p>Joel Silveira foi um jornalista brasileiro daquela &#233;poca em que quase todo jornalista escrevia bem. &#8220;Inverno da Guerra&#8221;<em> </em>&#233; o livro com seus relatos como correspondente na It&#225;lia, durante a campanha brasileira na 2&#170; Guerra Mundial. H&#225; hist&#243;rias comoventes e determinantes, mas nenhuma engra&#231;ada.</p><p>A primeira frase do cap&#237;tulo &#8220;A morte do sargento&#8221; me impactou por dois motivos. &#8220;Vi perfeitamente quando a rajada da metralhadora alem&#227; rasgou o peito do sargento Max Wolff&#8221; me trouxe uma raiva insuspeita dos &#8220;teutos&#8221;, como diz Joel no livro, e me provocou a associa&#231;&#227;o imediata com o nome daquele batalh&#227;o.</p><p>Joel conviveu com Max Wolff, aquele que imagino ser o paranaense mais ilustre da campanha brasileira. &#8220;Menos de uma hora antes eu estivera conversando com o sargento (...) Falou-me de sua filha, uma menina de dez anos de idade, que deixara em Curitiba.&#8221; A carta ficou com o jornalista: &#8220;&#192; minha querida filhinha: papai vai bem e voltar&#225; breve.&#8221; Sargento Max Wolff nunca voltou.</p><p>*</p><p>Passeava com minha ent&#227;o namorada pela Rua Erasto Gaertner, ap&#243;s um almo&#231;o, quando cruzamos o portal do 20&#186; BIB, que, no mesmo momento, se abriu. O soldado na portaria, desta vez, saiu do posto e empunhou uma corneta. A melodia era naturalmente marcial, mas isso n&#227;o a tornava menos bonita.</p><p>N&#227;o meditei muito a respeito e a conclus&#227;o de que era uma homenagem para n&#243;s dois durou por toda a execu&#231;&#227;o. De m&#227;os dadas, ouvimos ele toc&#225;-la inteira e, ao final, olhei para os olhos dela, risonho e surpreso com aquilo. O suficiente para dar-lhe mais um beijo.</p><p>Um carro preto ent&#227;o avan&#231;ou pela cal&#231;ada e logo alcan&#231;ou o portal, ao final da m&#250;sica. N&#227;o pude identificar quem estava dentro, no banco de tr&#225;s, conduzido pelo motorista. S&#243; vi que era opulento e percebi um uniforme. O verdadeiro homenageado daquela manh&#227;. Um sargento, quem sabe.</p><p>*</p><p>Apesar do meu inequ&#237;voco preenchimento, o Ex&#233;rcito Nacional me dispensou. N&#227;o havendo linhas para a justificativa, nem a obriga&#231;&#227;o para tanto, nunca soube o motivo e guardo certo ran&#231;o da corpora&#231;&#227;o desde ent&#227;o. Fui rejeitado e n&#227;o aprendi nada com isso.</p><p>Talvez meu formul&#225;rio tenha chegado a um sargento, no dia em que ele recordava seu antecessor, um verdadeiro her&#243;i de guerra. Revoltado com a morte e com o pouco reconhecimento de seus feitos, resolveu, naquele dia, convocar apenas os que <em>n&#227;o</em> queriam servir ao Ex&#233;rcito.</p><p>Sei que, tivesse me alistado, n&#227;o teria conhecido ela. Inclusive, alguns meses depois daquela surpreendente execu&#231;&#227;o, fiz uma pergunta e ela me respondeu: &#8220;SIM&#8221;. Inequ&#237;voco tamb&#233;m, dispensando qualquer justificativa.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Impressões acerca da etimologia de “Bacacheri”]]></title><description><![CDATA[Talvez seja a hist&#243;ria mais simp&#225;tica dentre as dos bairros de Curitiba.]]></description><link>https://badecorrea.substack.com/p/impressoes-acerca-da-etimologia-de</link><guid isPermaLink="false">https://badecorrea.substack.com/p/impressoes-acerca-da-etimologia-de</guid><dc:creator><![CDATA[Badé]]></dc:creator><pubDate>Mon, 27 Oct 2025 08:30:31 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!a5eo!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9eca8a54-f281-4b07-81bc-045415234929_782x782.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Talvez seja a hist&#243;ria mais simp&#225;tica dentre as dos bairros de Curitiba. Lembro de t&#234;-la ouvido pela primeira vez em certa aula de portugu&#234;s do curso preparat&#243;rio para o vestibular. Exatamente naquela parte em que o professor tenta trazer alguma curiosidade para resgatar os alunos do abismo do t&#233;dio. Sei que ele conseguiu salvar uns dois, al&#233;m de mim, que ent&#227;o prestaram aten&#231;&#227;o quando perguntou:</p><p>&#8212; E tem aquela hist&#243;ria do nome do &#8220;Bacacheri&#8221;. N&#227;o sei se voc&#234;s sabem, pessoal.</p><p>N&#227;o me arrisquei, l&#225; do fundo, a dizer que n&#227;o. Talvez o outro aluno atento tenha meneado a cabe&#231;a negativamente, e o terceiro balbuciado um &#8220;n&#227;o&#8221;. Reservei-me apenas a me adiantar um pouco na cadeira, como se isso me fizesse ouvir melhor.</p><p>&#8212; Tinha um franc&#234;s que morava por l&#225; e era dono de uma vaca chamada <em>ch&#233;rie</em>. Certo dia, a vaca fugiu e ele, desesperado, passou a gritar pelo bairro: &#8220;vaca ch&#233;rie! vaca ch&#233;rie!&#8221;. E logo ficou &#8220;Bacacheri&#8221;.</p><p>Achei fascinante e simplesmente ignorei a pouca verossimilhan&#231;a da vers&#227;o. Somente agora me detenho em analis&#225;-la mais a fundo.</p><p>Moro h&#225; poucos meses aqui, mas nunca vi nenhum franc&#234;s. N&#227;o que isso provasse uma liga&#231;&#227;o hist&#243;rica com a teoria, mas certamente seria um ind&#237;cio. E um franc&#234;s dono de uma vaca fica ainda mais espec&#237;fico &#8212; e improv&#225;vel. Estranho tamb&#233;m ele perd&#234;-la, como se perde um &#225;gil cachorro para o mato ou um furtivo gato para qualquer beco. A <em>vaca ch&#233;rie</em> haveria de deixar um rastro e n&#227;o conseguiria ocultar com sucesso toda a sua extens&#227;o. E, a certa altura da noite, como o espirro, n&#227;o poderia esconder o mugido. E por que o franc&#234;s gritou &#8220;vaca ch&#233;rie!&#8221; e n&#227;o simplesmente &#8220;ch&#233;rie!&#8221;?</p><p>Sei que a teoria se difundiu. Tanto, que at&#233; o jornal <a href="https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/vaca-querida-e-polemica-no-bacacheri-amfaz7a622av2g608nspxgeoe/">Gazeta do Povo</a> falou a respeito, em 2007, por causa de uma proposta da C&#226;mara de Vereadores de Curitiba. Um vereador teve a iniciativa de homenagear o animal e mito fundador do bairro com um portal na entrada. Imaginei um arco de madeira marrom-escuro, com uma vaca inacreditavelmente suspensa e sorrindo vacamente para quem chegasse: &#8220;Bem-vindo ao Bacacheri&#8221;. Por&#233;m, a resposta dos moradores foi dura: &#8220;N&#227;o queremos ser rotulados de curral&#8221;. E a proposta foi engavetada.</p><p>N&#227;o consegui enxergar m&#225;-f&#233; no legislador. A homenagem n&#227;o me pareceu depreciativa, pelo contr&#225;rio. Achei que os bacacheristas desprezaram o s&#237;mbolo e se apegaram demais ao ch&#227;o da realidade, como um boi procurando pasto. Enfim, lamentei que o arco n&#227;o exista hoje e que tenhamos perdido a oportunidade de ser o &#250;nico bairro da cidade assim agraciado.</p><p><em>Vaca ch&#233;rie</em> de lado, h&#225; outra teoria mais veross&#237;mil, caudalosamente verdadeira. &#8220;Bacacheri&#8221;, em tupi &#8212; e n&#227;o em franc&#234;s &#8212;, significa &#8220;rio pequeno&#8221; e &#233; o nome do rio que por aqui corre. E o rio existe, sendo observ&#225;vel por qualquer um. O &#237;ndio origin&#225;rio decidiu que somente esse atributo de tamanho era o essencial, dispensando qualquer simbologia ou hist&#243;ria. Um rio &#8220;pequeno&#8221; e mais nada.</p><p>Mas h&#225; uma teoria melhor, a mista, que une as duas e, quem sabe, agradaria a todos. A <em>vaca ch&#233;rie</em> existiu, sim, e pertencia a um franc&#234;s &#8212; naturalmente chamado Jean Louis &#8212; que distribu&#237;a leite engarrafado nas portas dos moradores. A <em>ch&#233;rie</em> fugiu num dia em que Jean se encharcou de vinho, enquanto cantava velhas cantigas francesas, chorando de saudade da sua p&#225;tria. A vaca aproveitou o curral aberto e saiu a percorrer o trajeto onde hoje &#233; a Rua Erasto Gaertner. Mas, ao acordar, Jean notou o sumi&#231;o e, de ressaca, saiu pelo bairro a procur&#225;-la. S&#243; que a <em>ch&#233;rie</em> foi encontrada, sim, bebendo &#225;gua exatamente ali no Rio Bacacheri. Eu que atesto.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Vila Izabel em retrospectiva]]></title><description><![CDATA[Por motivos que explicarei em outro momento, ando meio distante do bairro tema destas cr&#244;nicas.]]></description><link>https://badecorrea.substack.com/p/vila-izabel-em-retrospectiva</link><guid isPermaLink="false">https://badecorrea.substack.com/p/vila-izabel-em-retrospectiva</guid><dc:creator><![CDATA[Badé]]></dc:creator><pubDate>Mon, 06 Oct 2025 09:42:39 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!a5eo!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9eca8a54-f281-4b07-81bc-045415234929_782x782.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Por motivos que explicarei em outro momento, ando meio distante do bairro tema destas cr&#244;nicas. N&#227;o sei como est&#225; o <a href="/__u/badecorrea.substack.com/p/eric-clapton-morador-da-vila-izabel?utm_source=publication-search">Eric Clapton</a>, s&#243; que ele continua por l&#225;, vivo. Faz bastante tempo que n&#227;o converso com <a href="/__u/badecorrea.substack.com/p/o-milagre-de-seu-antonio?utm_source=publication-search">Seu Ant&#244;nio</a>, mas tenho certeza de que ele tem ido &#224; missa. De mudan&#231;as mais significativas, fiquei sabendo que o caf&#233; que tanto frequentei vai passar o ponto. &#8220;Mudou Vila Isabel ou mudei eu?&#8221;, fa&#231;o a mesma pergunta de Aldir Blanc e Jo&#227;o Bosco, s&#243; trocando o &#8220;s&#8221; pelo &#8220;z&#8221;, como l&#225; na primeira cr&#244;nica.</p><p>J&#225; s&#227;o alguns anos desde a minha cr&#244;nica inicial e me ponho a pensar se o per&#237;odo j&#225; &#233; suficiente para a nostalgia se assenhorear de mim. Ser&#225; que, quando eu cheguei, isso aqui era tudo mato, como diria um senhor aposentado do bairro? Vejamos as mudan&#231;as concretas, pela &#243;tica precisa da objetividade.</p><p>A ideia destas cr&#244;nicas veio de um dia em que fui a um restaurante, na rua D&#225;rio Veloso. O restaurante n&#227;o est&#225; mais l&#225;, de fato. Sobreviveu por um tempo, pouco depois mudou de dono e acho que, em uma quinta-feira, comi por l&#225; uma dobradinha razo&#225;vel. Por&#233;m, passei a almo&#231;ar mais em casa. O restaurante, finalmente, fechou e a mudan&#231;a foi radical. Agora, ali, funciona um terreiro de umbanda onde, nas segundas &#224; noite, ocorre o culto principal, quando da rua se ouvem os batuques.</p><p>A <a href="/__u/badecorrea.substack.com/p/a-nova-distribuidora-de-agua?utm_source=publication-search">misteriosa distribuidora</a> continua ali, a princ&#237;pio vendendo as mesmas &#225;guas engarrafadas em brilhantes filtros azul ou rosa. Sempre, por&#233;m, razoavelmente cheia para um lugar t&#227;o aparentemente desinteressante. Chega a transmitir jogos de futebol na TV e alguns clientes ficam no balc&#227;o, conversando e tomando&#8230;&#225;gua. Certa feita, de bicicleta, parei para ver quanto que estava o jogo do Brasil e se o Neymar estava jogando. Acho que estava 2x0 para n&#243;s, contra o Paraguai.</p><p>Um bar de esquina, que Barc&#237;mio Sicupira frequentava para jogar domin&#243; e tomar Cuba Libre, passou por transforma&#231;&#245;es tamb&#233;m. Lembro de um dia em que dois clientes brigaram, chegando a usar garrafas de cerveja como recursos leg&#237;timos. A pol&#237;cia cercou o lugar e os vizinhos foram &#224; cal&#231;ada por curiosidade. Ap&#243;s o epis&#243;dio, a clientela do bairro, receosa, foi se afastando e logo o dono passou o bar pra frente. Em um domingo, fui l&#225; com uns amigos e tomamos quase todas as Serra Maltes do estoque, at&#233; ganharmos uma de cortesia do dono. Um sujeito tocou Nei Lisboa no viol&#227;o - &#8220;Telhados de Paris&#8221;? - e eu me comovi exageradamente. <em>Meus olhos doidos, doidos, doidos&#8230;</em></p><p>A <a href="/__u/badecorrea.substack.com/p/o-velho-o-mar-e-a-padaria?utm_source=publication-search">padaria</a> segue no mesmo lugar, agora com um letreiro novo. Eles come&#231;aram, h&#225; algum tempo, a trabalhar tamb&#233;m aos domingos, quando servem frango assado. A rotina deles &#233; intensa, mas o esfor&#231;o deve valer a pena. O filho do dono come&#231;ou a tocar o neg&#243;cio e, no balc&#227;o, enquanto faz a conta com uma m&#227;o, na outra j&#225; segura o pr&#243;prio filho. De vez em quando, o terceiro na linha sucess&#243;ria at&#233; brinca no gramado em frente, abaixo daquele letreiro.</p><p>Portanto, n&#227;o diria que, quando eu cheguei aqui, tudo era mato, pois muita coisa permaneceu, me parece. Teve uma rua que era de m&#227;o &#250;nica e virou de m&#227;o dupla, agora me recordo. Ou foi o contr&#225;rio disso. Mas sei que consigo responder ao verso de Aldir e Jo&#227;o: mudei eu. Ah, como mudei. Nost&#225;lgico sou de mim mesmo: quando cheguei aqui, eu &#233; que era mato.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Três pães]]></title><description><![CDATA[Seria a primeira vez que o filho voltava &#224; casa depois daquele dia, quando sa&#237;ra &#224;s pressas, com a m&#227;e dando poucas justificativas.]]></description><link>https://badecorrea.substack.com/p/tres-paes</link><guid isPermaLink="false">https://badecorrea.substack.com/p/tres-paes</guid><dc:creator><![CDATA[Badé]]></dc:creator><pubDate>Mon, 22 Sep 2025 08:02:18 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!a5eo!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9eca8a54-f281-4b07-81bc-045415234929_782x782.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Seria a primeira vez que o filho voltava &#224; casa depois daquele dia, quando sa&#237;ra &#224;s pressas, com a m&#227;e dando poucas justificativas. Mas a casa ainda era dele, afinal. Jos&#233; repetia isso, na maioria das vezes para si mesmo, inconformado com tantas cadeiras sobrando &#224; mesa, com o sil&#234;ncio da geladeira roncando, com a TV agora sempre desligada. Nada tinha acontecido &#8212; tamb&#233;m para si mesmo &#8212;, mas n&#227;o importava. J&#225; estava consumado.</p><p>O tempo ficara mais longo, pontuado pelos cigarros a mais que se habituara a fumar. O ma&#231;o di&#225;rio tornara-se insuficiente, e Jos&#233; percebeu que ia mais vezes &#224; banca em frente de casa. Buscava dormir cada vez mais cedo &#8212; &#224;s vezes 20h &#8212;, caso fosse necess&#225;rio. Quando a casa, ou o que restara do lar, fosse s&#243; um espesso e sufocante t&#233;dio.</p><p>O pi&#225; &#8212; como Jos&#233; ainda o chamava &#8212; chegaria no s&#225;bado, no final da tarde, e a m&#227;e o apanharia &#224;s nove em ponto, conforme as instru&#231;&#245;es claras da mensagem. Ainda era cedo para perguntar como estava a nova vida na casa da sogra, se estavam precisando de alguma coisa ou o que planejavam dali em diante. Aquela noite amea&#231;ava cada palavra proferida, mesmo que ele n&#227;o tivesse feito nada. N&#227;o tinha feito nada.</p><p>Pela primeira vez, Jos&#233; teria de comprar qualquer coisa que o pi&#225; gostasse de comer. Achou absurdo n&#227;o lembrar o que ele preferia beber. Tomava Choco Milk, mas quando ainda era muito pequeno. Agora seria Coca-Cola ou Guaran&#225;? Compraria, quem sabe, os tr&#234;s, na <a href="/__u/badecorrea.substack.com/p/o-velho-o-mar-e-a-padaria?utm_source=publication-search">padaria mais frequentada da Vila Izabel</a>. No caminho, ainda fazia o c&#225;lculo do que pedir &#224; atendente. Assim parecia a vida: calculada, medida, muito exaustiva. Aquela noite interrompera um fluxo espont&#226;neo e pouco custoso, que exigia os tr&#234;s convivendo no mesmo lugar.</p><p>Finalmente, na fila, Jos&#233; reparou na mulher sendo atendida e a achou bonita. Saia preta, bota marrom, magra &#8212; estimou entre quarenta e cinquenta e poucos anos. Ainda sem entender como voltaria &#224;quela, tamb&#233;m cansativa, vida de solteiro. Rid&#237;culo um homem mais velho puxar conversa na fila da padaria, pensou.</p><p>&#8212; Pra voc&#234; &#233; o qu&#234;, senhor?</p><p>O vocativo da atendente afastou definitivamente a ideia. Dois p&#227;es &#8212; um para ele e outro para o pi&#225; &#8212; pareceram muito justos. Ele poderia querer outro, ou um deles estaria muito tostado. Tr&#234;s p&#227;es, ent&#227;o, soavam inexatos, e um certamente haveria de sobrar. Quem compra tr&#234;s p&#227;es? J&#225; quatro p&#227;es era um excesso. Irritou-se com a nova preocupa&#231;&#227;o com o bem-estar do pi&#225;, para quem, ali&#225;s, tinha dado tudo. At&#233; no s&#225;bado trabalhou, para comprar o aparelho que ele precisou usar nos dentes.</p><p>&#8212; Tr&#234;s p&#227;es.</p><p>&#8212; Tr&#234;s?</p><p>Para que confirmar? Saberia a atendente da angustiante d&#250;vida que o atravessava? Se soubesse, talvez sugerisse quatro.</p><p>Sem sequer sair do carro, ela deixou o filho na casa de Jos&#233;. Da porta, ele p&#244;de ver o longo beijo na bochecha e algum conselho dito com as m&#227;os no rosto do pi&#225;. Entrou pelo port&#227;o e sorriu de cabe&#231;a baixa para o pai, encostando a cabe&#231;a em sua barriga. Logo os dois estavam &#224; mesa, com os tr&#234;s p&#227;es ainda na sacola marrom da padaria. O pi&#225; comeu s&#243; um, e o terceiro sobrou.</p><p>*</p><p>Naquela noite, madrugada alta, n&#227;o adiantou Jos&#233; tomar banho e escovar os dentes por mais tempo. Abriu a porta do quarto devagar, suavizando ao fech&#225;-la, e conferiu a movimenta&#231;&#227;o da cama. Ela o esperou deitar, com cruel paci&#234;ncia, e logo se levantou, acendendo a luz. Chamou-o de &#8220;vagabundo&#8221;, e Jos&#233; aceitou em sil&#234;ncio. Foi a insinua&#231;&#227;o de n&#227;o ser suficientemente homem que o fez erguer a m&#227;o &#8212; o esfor&#231;o imenso de traz&#234;-la para baixo. O rosto dela transformado em absoluto pavor. </p><p>Mas n&#227;o aconteceu nada.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Dentro do Instituto Neo-Pitagórico]]></title><description><![CDATA[Isso j&#225; tem alguns anos, mas a cr&#244;nica s&#243; sai agora.]]></description><link>https://badecorrea.substack.com/p/dentro-do-instituto-neo-pitagorico</link><guid isPermaLink="false">https://badecorrea.substack.com/p/dentro-do-instituto-neo-pitagorico</guid><dc:creator><![CDATA[Badé]]></dc:creator><pubDate>Mon, 15 Sep 2025 08:02:02 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!a5eo!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9eca8a54-f281-4b07-81bc-045415234929_782x782.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Isso j&#225; tem alguns anos, mas a cr&#244;nica s&#243; sai agora. A justificativa, al&#233;m da procrastina&#231;&#227;o, foi a prud&#234;ncia. Excessiva, no caso. Depois de participar de uma reuni&#227;o no m&#237;tico Instituto da Vila Izabel, quis causar a melhor apar&#234;ncia poss&#237;vel para os donos de l&#225;. Daquela manh&#227; de domingo, sa&#237; convicto de que seria um guia do lugar, quem sabe o bibliotec&#225;rio. Trabalharia no lugar mais interessante do bairro, bem em frente de casa. &#201; que, tendo me apresentado tamb&#233;m como cronista, queria publicar uma cr&#244;nica perfeita que, obviamente, n&#227;o saiu. Saio-me com esta, tardiamente, pois.</p><p>Era um dia de sol, daqueles que h&#225; algum tempo n&#227;o se faz por aqui, e sa&#237; para pedalar. Devo dizer que eu vestia uma camisa do Santos, com o rosto do Pel&#233; ocupando a maior parte da frente. Gostava, e ainda gosto, de Edson Arantes e, quando um amigo me falou que visitaria a praia paulista, pedi humildemente uma lembran&#231;a. Ele, gentil, me trouxe. Estreei o alvo manto nessa pedalada.</p><p>Quando virei na Rua D&#225;rio Veloso, a imagem que me apareceu, &#224; direita, parecia irreal. A porta de ferro marrom, com uma Estrela de Davi incrustada, jamais estivera aberta. Pelo menos, n&#227;o no per&#237;odo hist&#243;rico compreendido entre a minha chegada &#224; Vila Izabel e aquele domingo. At&#233; olhei para o outro lado da rua, para confirmar se n&#227;o havia algu&#233;m me espiando. Detr&#225;s do arbusto, ningu&#233;m se mexeu. Assim, ganhei confian&#231;a para adiantar a bicicleta pela entrada.</p><p>Descobri ent&#227;o que a escadaria que levava at&#233; o templo era alaranjada, assim como a cal&#231;ada abaixo, com jardins ladeando o breve percurso. Por algum tempo, fiquei admirando o verde, ao som do canto de alguns p&#225;ssaros, at&#233; notar um sujeito vindo de cima da escadaria. Ele usava camisa social branca, por dentro de uma cal&#231;a preta, e sapato da mesma cor. Naquele calor, com certeza n&#227;o era a escolha ideal, pensei. Ainda tinha bastante cabelo, esbranqui&#231;ado, barba preenchida, cobrindo boa parte do pesco&#231;o. Associei-o a um &#8220;amish&#8221;.</p><p>Com alguma sensa&#231;&#227;o de que n&#227;o devia ter entrado, antecipei uma desculpa: a porta estava aberta &#8212; isso explicaria tudo. Mas logo ele me disse um &#8220;bem-vindo&#8221;, e afastei qualquer explica&#231;&#227;o, agora tentando assimilar aquela pron&#250;ncia. Tinha algum sotaque demarcado e parecia que havia pensado por alguns segundos antes de falar. &#8220;Veio de bicicleta?&#8221;, fez a pergunta de resposta &#243;bvia, educadamente puxando o assunto. O &#8220;eta&#8221; soou com um circunflexo. Respondi que sim e ele se apresentou: &#8220;En&#233;as&#8221;.</p><p>Hoje me surpreendo com minha rea&#231;&#227;o em seguida, logo ap&#243;s eu me apresentar. T&#237;mido, em situa&#231;&#245;es socialmente desafiadoras como essa, sempre escolhi o profundo sil&#234;ncio, deixando que a vermelhid&#227;o do meu rosto dissesse o suficiente. Mas, nesse dia, fiz o extremo oposto e me pus a falar incessantemente: moro no pr&#233;dio da frente, sou fascinado pelo Instituto, escrevo cr&#244;nicas do bairro, nunca vi a porta de ferro aberta, D&#225;rio Veloso. Assim que mencionei o nome, ele completou: &#8220;Meu tetrav&#244;&#8221;. Fiz uma fei&#231;&#227;o de espanto, esperando que isso o incentivasse a prosseguir. &#8220;Quero continuar o trabalho dele&#8221;, completou.</p><p>En&#233;as ent&#227;o me conduziu pela escadaria e chegamos ao sal&#227;o principal. O Instituto exibia uma disposi&#231;&#227;o de igreja: duas se&#231;&#245;es de bancos enfileirados, divididas por um corredor que terminava em um piso mais elevado, em formato de altar. Na parede, um retrato de D&#225;rio Veloso, quando ent&#227;o reparei nas semelhan&#231;as com o tetraneto, como o cabelo e os olhos bem arredondados. Ainda que em uma posi&#231;&#227;o soberana, o ilustre ancestral n&#227;o parecia em qualquer estado m&#237;stico. Isso me acalmou, pois soube que n&#227;o haveria chance de ele ser invocado ou exaltado exageradamente. &#8220;A reuni&#227;o a de hoje vai ser aqui&#8221;, disse En&#233;as, com uma constru&#231;&#227;o truncada da frase. </p><p>Em seguida, caminhamos por uma porta ao lado, atravessando um corredor estreito. Eu pisava na madeira do ch&#227;o e percebia que ela afundava levemente, parecendo a casa da minha bisav&#243;. &#192; esquerda, o primeiro c&#244;modo, onde entramos. A biblioteca de D&#225;rio Veloso era bem menor do que imaginei, mas seu tetraneto logo justificou, sem que eu precisasse perguntar: &#8220;&#201; s&#243; uma parte. Tem mais livros l&#225; dentro, mas n&#227;o est&#227;o catalogados.&#8221; O cat&#225;logo provis&#243;rio dividia as obras em temas como filosofia, matem&#225;tica, hist&#243;ria e religi&#227;o. A luz do sol entrava pelo vidro da janela e dividia uma mesa de madeira em um lado claro e outro escuro. Reparei em fiapos de madeira sobrevoando baixo na parte iluminada.</p><p>Quando voltei ao sal&#227;o principal, notei alguns bancos ocupados. Na se&#231;&#227;o &#224; direita, um senhor com roupas brancas e barba tamb&#233;m branca, lembrando Hermeto Pascoal. Algumas filas &#224; frente, uma senhora negra cuidava da filha, sentada com as pernas balan&#231;ando no ar. Na se&#231;&#227;o &#224; esquerda, um casal de idosos e um adolescente, um pouco gordo, usando uma camiseta preta do &#8220;Sepultura&#8221;. Consegui me ver com a camisa do Santos e, assim, analisar o conjunto de que fazia parte, sem encontrar o padr&#227;o.</p><p>Sentei ao fundo, como geralmente fa&#231;o, e aguardei a aula come&#231;ar &#8212; assim via aquele encontro a partir de ent&#227;o. En&#233;as saudou a classe e explicou que, primeiro, far&#237;amos uma &#8220;audi&#231;&#227;o&#8221; de Brahms, quando seria trazida tamb&#233;m uma pequena biografia do compositor. Em seguida, um trecho de uma obra de D&#225;rio Veloso seria lido e, ao final, uma explica&#231;&#227;o a respeito. E assim fizemos.</p><p>Brahms era de uma cidade do interior da Alemanha e teve uma fase rom&#226;ntica. J&#225; D&#225;rio Veloso teve uma fase nacionalista e o texto exaltava as belezas do Brasil, conclamando os brasileiros a defend&#234;-las. En&#233;as falou da import&#226;ncia da ecologia e disse que seu tetrav&#244; prezava muito as &#225;rvores do Instituto. Notei que a menina ficou at&#233; o final, sem demonstrar birra ou irrita&#231;&#227;o. O adolescente se manteve impass&#237;vel e n&#227;o olhou o celular sequer uma vez. O casal de idosos cochichou demais e foi o primeiro a sair, ainda antes de acabar.</p><p>Terminada a reuni&#227;o, sem palmas nem nada, o senhor que parecia o Hermeto Pascoal se levantou e se aproximou de En&#233;as. A menina foi embora, conduzida pela m&#227;e, e o adolescente um pouco depois, tirando do bolso um fone de ouvido com fio. Fui junto com eles, mas, na porta, me virei novamente para o centro do templo. Lembrei daquela cena de <em>The Searchers</em> e me achei um John Wayne santista. Caminhei firme pelo corredor at&#233; tamb&#233;m me aproximar de En&#233;as.</p><p>&#8212; Se precisar de qualquer coisa, me coloco &#224; disposi&#231;&#227;o.</p><p>Ele agradeceu e me deu um caderno, pedindo para que eu anotasse meu nome e n&#250;mero do celular, o que prontamente fiz. Queria ter tirado meu chap&#233;u, em rever&#234;ncia, mas s&#243; o cumprimentei normalmente.</p><p>J&#225; montado na bicicleta, de volta &#224; Rua D&#225;rio Veloso, imaginei uma liga&#231;&#227;o no dia seguinte. Excitado, at&#233; parei em um bar pr&#243;ximo para tomar uma cerveja, enquanto lembrava da reuni&#227;o de h&#225; pouco. Mandei &#225;udios para amigos e cheguei a ligar para meu pai, dividindo a novidade. &#8220;Extraordin&#225;ria&#8221; foi a palavra que, com algum exagero, eu defini aquela manh&#227;. Ainda que En&#233;as n&#227;o tenha me ligado e eu nunca mais tenha entrado no Instituto Neo-Pitag&#243;rico.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O sumiço de Reginaldo Rossi]]></title><description><![CDATA[Depois de mais de um m&#234;s sem aparecer no bar a que ia praticamente todo dia, o pessoal come&#231;ou a especular, n&#227;o sem certa maldade.]]></description><link>https://badecorrea.substack.com/p/o-sumico-de-reginaldo-rossi</link><guid isPermaLink="false">https://badecorrea.substack.com/p/o-sumico-de-reginaldo-rossi</guid><dc:creator><![CDATA[Badé]]></dc:creator><pubDate>Mon, 11 Aug 2025 10:31:25 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!a5eo!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9eca8a54-f281-4b07-81bc-045415234929_782x782.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Depois de mais de um m&#234;s sem aparecer no bar a que ia praticamente todo dia, o pessoal come&#231;ou a especular, n&#227;o sem certa maldade. &#8220;Deve ter sido internado&#8221; e fingiam um olhar grave, tra&#237;do por qualquer distra&#231;&#227;o no celular. Outro completou dizendo que <a href="/__u/badecorrea.substack.com/p/o-reginaldo-rossi-da-vila-izabel?utm_source=publication-search">Reginaldo Rossi</a> bebia demais, mesmo ele j&#225; no terceiro copo de cacha&#231;a com lim&#227;o, antes do meio-dia. Reginaldo havia entendido isso recentemente: amizade de boteco nem amizade &#233;.</p><p>A gar&#231;onete, Renata, de bra&#231;o tatuado, cabelo escuro <em>pixie </em>e t&#234;nis Vans, ouvia os coment&#225;rios maldosos e buscava ignorar. N&#227;o pensava que um dia fosse sentir falta daquelas bregu&#237;ssimas cantadas, mas lembrava de v&#225;rias delas. Percebia que Reginaldo ganhava coragem s&#243; na quarta dose de u&#237;sque nacional e depois de fumar um cigarro em tragadas r&#225;pidas. Ap&#243;s servir a quinta, Renata adivinhava. &#8220;Voc&#234; ia se surpreender comigo, menina&#8221;, e Reginaldo aguardava a rea&#231;&#227;o. Ela respirava fundo e dava a desculpa pra sair: &#8220;Mais alguma coisa, Seu Reginaldo?&#8221;.</p><p>Tivesse ele uns vinte, trinta anos a menos? E n&#227;o tivesse filho, nem ex-mulher, sem problema com bebida e com um pouco mais de dinheiro. Deve ter sido um cara bonito quando mais jovem. Tocava viol&#227;o, tinha confian&#231;a e jeito de homem. Reginaldo comporia uma m&#250;sica pra ela, o que ningu&#233;m tinha feito, com um t&#237;tulo cafona como &#8220;Olhos de mel&#8221;, &#8220;A mulher de tatuagem&#8221; ou s&#243; &#8220;Renata mulher&#8221;. Depois do show, um beijo urgente embaixo de uma marquise.</p><p>Quando varreu as folhas da cal&#231;ada, em frente ao bar, reparou na guimba de cigarro e pensou se n&#227;o seria dele. A s&#250;bita esperan&#231;a de v&#234;-lo vindo da esquina, de jaqueta de couro e cal&#231;a jeans. Na volta, reparou que a garrafa de u&#237;sque nacional estava cheia e n&#227;o precisaria repor neste m&#234;s.</p><p>&#8220;Qual o nome mesmo?&#8221;, fingiu n&#227;o lembrar, depois de descrever &#8220;aquele senhor, de jaqueta de couro, sabe?&#8221;, para o dono do bar. &#8220;Reginaldo&#8221;, ele respondeu, e Renata simulou indiferen&#231;a, tirando uma sujeira imagin&#225;ria do jaleco. &#8220;Nunca mais veio&#8221;, e tentou ver se ele percebia qualquer coisa.</p><p>As piadas maldosas no bar at&#233; cessaram. A mesma garrafa de u&#237;sque, ainda com um resto. S&#243; Renata que ficou com a incerteza, certo receio, talvez alguma vontade de cuidar. Queria acabar com a d&#250;vida, dizia para si mesma.</p><p>Lembrou de um coment&#225;rio de uma tia, que em um almo&#231;o disse que a prefeitura publicava o obitu&#225;rio do dia no site. Abriu a p&#225;gina, foi at&#233; a letra &#8220;R&#8221; e temeu que aparecesse &#8220;Reginaldo&#8221; r&#225;pido demais, sem ela se preparar. Por&#233;m, nenhum Reginaldo havia morrido naquele dia. Mortes anteriores seriam informadas a partir de protocolo a ser preenchido pelo solicitante. &#8220;Reginaldo Rossi&#8221;, digitou o nome com cuidado e, em solicitante, &#8220;Renata&#8221;, percebendo s&#243; agora que os dois come&#231;avam com as mesmas letras do teclado.</p><p>A resposta n&#227;o veio no dia seguinte, nem no outro. O prazo da prefeitura, informado no e-mail de resposta, era de 15 dias e, ali pelo d&#233;cimo, Renata ficou otimista. Pensou em uma funcion&#225;ria procurando o nome &#8220;Reginaldo&#8221; em arquivos f&#237;sicos e n&#227;o encontrando nada. A demora s&#243; poderia ser um bom sinal e a piada maldosa talvez estivesse certa. Ele estava em uma cl&#237;nica de reabilita&#231;&#227;o.</p><p><em>Informamos que consta em nossos registros o &#243;bito de Reginaldo Rossi, com endere&#231;o em Rua Parintins, Vila Izabel, Curitiba/PR.</em></p><p><em>Para c&#243;pia da certid&#227;o de &#243;bito, favor preencher o documento em anexo, com assinatura autenticada.</em></p><p><em>Prefeitura Municipal de Curitiba - Departamento de Servi&#231;os Especiais.</em></p><p>&#8220;Reginaldo&#8221;, Renata murmurou, um nome &#237;ntimo, agora t&#227;o seu. Naquele dia, teria sorrido a qualquer cantada, teria servido um chorinho de u&#237;sque nacional, teria aceitado o convite para o bailinho, toleraria a ex-mulher e conversaria com o filho. Ela saiu do bar e olhou para a cal&#231;ada, sem mais a guimba de cigarro, agora com raiva de uma morte que parecia trai&#231;&#227;o.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Uma entrevista com Seu Antônio]]></title><description><![CDATA[Alguns me perguntaram se o Seu Ant&#244;nio, da cr&#244;nica, era real.]]></description><link>https://badecorrea.substack.com/p/uma-entrevista-com-seu-antonio</link><guid isPermaLink="false">https://badecorrea.substack.com/p/uma-entrevista-com-seu-antonio</guid><dc:creator><![CDATA[Badé]]></dc:creator><pubDate>Mon, 04 Aug 2025 08:30:39 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!a5eo!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9eca8a54-f281-4b07-81bc-045415234929_782x782.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Alguns me perguntaram se o <a href="/__u/badecorrea.substack.com/p/o-milagre-de-seu-antonio?utm_source=publication-search">Seu Ant&#244;nio</a>, da cr&#244;nica, era real. Aos que n&#227;o perguntaram, respondo tamb&#233;m que ele &#233;, mora aqui na Vila Izabel e o tenho como amigo. J&#225; at&#233; tomamos algumas cervejas, quando conversamos sobre Deus e o bairro. Encontramo-nos quase sempre ao final da missa da Par&#243;quia Santa Isabel, nas vezes em que consigo chegar &#224;s 09:00, aos domingos. Ao final da &#250;ltima, apressei o passo para alcan&#231;&#225;-lo e sugeri esta entrevista, que ele autorizou e aqui a publico:</p><p><em>Gostou da cr&#244;nica, Seu Ant&#244;nio?</em></p><p>Da parte que &#233; verdade, sim. (risos).</p><p><em>Pessoal se interessou por voc&#234;.</em></p><p>Logo v&#227;o se desinteressar, vai ver.</p><p><em>Pensei em come&#231;ar falando aqui da Vila Izabel. Gosta do bairro? Do qu&#234;, especificamente?</em></p><p>Claro que gosto. &#201; silencioso, seguro, vizinhan&#231;a tranquila. Se n&#227;o gostasse j&#225; teria mudado faz tempo.</p><p><em>Sim, sim. E a missa da Par&#243;quia ali?</em></p><p>As homilias s&#227;o boas, a igreja &#233; bonita, comunidade ativa, s&#243; n&#227;o gosto das m&#250;sicas. Bateria eletr&#244;nica n&#227;o d&#225;. &#192;s vezes acho que a Renova&#231;&#227;o Carism&#225;tica quer ser carism&#225;tica demais. Mas o que importa &#233; a comunh&#227;o, sempre.</p><p><em>Com certeza. Voc&#234; &#233; cat&#243;lico desde quando, Seu Ant&#244;nio?</em></p><p>Desde que fui batizado, ora. Gra&#231;as a Deus.</p><p><em>E essa hist&#243;ria de que voc&#234; quase se tornou padre?</em></p><p>De novo essa pergunta, Bad&#233;?</p><p><em>&#201; pra entrevista aqui, Seu Ant&#244;nio.</em></p><p>Vamo l&#225;. Eu achei que tinha voca&#231;&#227;o, entrei at&#233; no semin&#225;rio, mas desisti no segundo ou terceiro ano. Entendi que n&#227;o era o que Deus queria pra mim. Tempo depois fui embora do Tocantins e vim pra c&#225;.</p><p><em>N&#227;o se arrepende?</em></p><p>Arrepender de qu&#234;, Bad&#233;?!</p><p><em>N&#227;o ter virado padre!</em></p><p>Bad&#233;, era o plano de Deus, te disse. Ele quis que eu cumprisse meu prop&#243;sito de outra forma.</p><p><em>Nessa sua caminhada da f&#233;, j&#225; viu muita coisa?</em></p><p>De tudo.</p><p><em>Vis&#245;es m&#237;sticas?</em></p><p>Sabia que voc&#234; ia perguntar isso.</p><p><em>Pra entrevista&#8230;</em></p><p>T&#225; bom. Sim, j&#225; tive vis&#245;es m&#237;sticas. Mas nem toda vis&#227;o m&#237;stica &#233; apari&#231;&#227;o. Esta Gra&#231;a ainda Deus n&#227;o me deu. Sei que, uma vez, senti uma profunda uni&#227;o com Ele. Vi minha liga&#231;&#227;o com o Pai, como se fosse crian&#231;a.</p><p><em>&#8220;Deixai vir a mim as crian&#231;as&#8221;...</em></p><p>Exatamente. Foi pouco depois de ter chegado aqui, sem nada no bolso. Sem falar no frio, que Curitiba era bem mais fria aquela &#233;poca. Era de noite, j&#225; escurecia e eu n&#227;o sabia o que ia comer, nem onde ia dormir. Eu tava sentado num banco, ali no Pa&#231;o da Liberdade e ent&#227;o comecei a rezar, assim sem saber direito o que eu estava fazendo, com o cora&#231;&#227;o bem apertado. Ent&#227;o pedi a Deus, implorei mesmo e meu cora&#231;&#227;o pareceu que se abriu. Chorei que nem crian&#231;a, ali no meio da pra&#231;a mesmo. Lembro de uma senhora do outro lado que veio perguntar se tava tudo bem.</p><p><em>Hoje voc&#234; consegue entender bem aquilo, n&#233;, Seu Ant&#244;nio?</em></p><p>Sim, sim. Era o Esp&#237;rito Santo agindo sobre mim, com certeza. A pra&#231;a tinha bastante gente at&#233;, mas mesmo assim eu conseguia ouvir Deus. Conseguia ouvir o sil&#234;ncio de Deus. Anota a&#237;, Bad&#233;, pro pessoal lembrar: o <em>sil&#234;ncio</em>.</p><p><em>Anotado, Seu Ant&#244;nio. O sil&#234;ncio.</em></p><p>PronMais alguma pergunta, Bad&#233;?</p><p><em>N&#227;o, n&#227;o, Seu Ant&#244;nio. Caso encerrado.</em></p><p>(risos)</p><p><em>Te passo depois a entrevista pronta.</em></p><p>Mande. Vou ler. Fica com Deus, Bad&#233;.</p><p><em>Am&#233;m, Seu Ant&#244;nio.</em></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Errando o alvo]]></title><description><![CDATA[Athletico 1x1 Ferrovi&#225;ria]]></description><link>https://badecorrea.substack.com/p/errando-o-alvo</link><guid isPermaLink="false">https://badecorrea.substack.com/p/errando-o-alvo</guid><dc:creator><![CDATA[Badé]]></dc:creator><pubDate>Wed, 23 Jul 2025 10:47:09 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!a5eo!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9eca8a54-f281-4b07-81bc-045415234929_782x782.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Dentre as teorias difundidas entre os athleticanos, alguns dizem que nossa urucubaca come&#231;ou quando o Thiago Heleno errou o p&#234;nalti contra o Bol&#237;var, nas oitavas de final da Libertadores. Ou foi um pouco depois, no exato momento em que Zapelli perdeu aquele gol na pequena &#225;rea, contra o Corinthians, quando lut&#225;vamos pela lideran&#231;a do campeonato. Eu tenho certeza de que as duas teorias erram o alvo, assim como o zagueiro e o meia, e nosso mart&#237;rio se explica pelo nosso pacto fracassado com o cramunh&#227;o.</p><p>Antes, um breve e infernal contexto: o clube da Baixada vem de derrota para o Goi&#225;s, em casa e de outra, fora, para o Volta Redonda, de virada, ap&#243;s vencer por 2x0 no primeiro tempo, jogando razoavelmente bem. Parecido com o jogo de ontem, quando, ali pelo segundo tempo, jog&#225;vamos de forma aceit&#225;vel. Mas a&#237;, o sete pele, como sempre, resolveu imitar Deus na frente do espelho e inverter as coisas.</p><p>Ap&#243;s o nosso gol, que dava uma vit&#243;ria aparentemente tranquila, o time da Ferrovi&#225;ria veio pela direita, o sujeito chegou na linha de fundo e fez um cruzamento rasteiro. Nosso zagueiro d&#225; o carrinho, a bola bate na sua cabe&#231;a e em seguida quica, inocentemente, no gramado. O juiz, como se fosse um agente das trevas, decide checar o VAR e mudar o curso natural do lance. P&#234;nalti e gol do advers&#225;rio. Ao final do jogo, vaias na Arena Mario Celso Petraglia.</p><p>O nome do est&#225;dio &#233; a nossa senten&#231;a, por ora. Estamos condenados ao centen&#225;rio, ainda que j&#225; tenhamos feito 101 anos em mar&#231;o. 2025 &#233;, evidentemente, um ap&#234;ndice de 2024. O pacto fracassou, mas ainda produz efeitos e nenhum juiz ainda foi capaz de anul&#225;-lo. &#201; por isso que Thiago Heleno e Zappelli s&#227;o inocentes. Os dois tentaram um alvo e acertaram outro, como todos n&#243;s.</p><p>Contra esta &#8220;zica&#8221;, ainda n&#227;o vou dedicar minhas rezas, pois tenho outras prioridades. S&#243; acho, talvez, que valeria a pena mudar o destinat&#225;rio dos cantos. Deixa o coxa pra l&#225; e manda o coisa-ruim tomar caju. Atirem o pau no excomungado pra ver como ele, covarde que &#233;, sai correndo. O time n&#227;o &#233; t&#227;o de merda assim, mas com certeza o tinhoso &#233;.</p><p>Ao contr&#225;rio do inferno, na catraca do est&#225;dio, o athleticano deixa <em>quase </em>toda sua esperan&#231;a e consegue levar um resto dela, no bolso de tr&#225;s. Na arquibancada, ela chega molhada de &#8220;sacol&#233;&#8221; e cheirando a cigarro avulso. Mas est&#225; l&#225;, sorrateira, despistando o amaldi&#231;oado e levantando a crian&#231;a da cadeira na hora do nosso ataque. N&#227;o me pe&#231;a para me explicar como. Por isso, pelo menos aqui nestas cr&#244;nicas, o sinistro pactuante nunca vai interferir. diabo sempre ser&#225; escrito em min&#250;scula, at&#233; no come&#231;o de frase. Gra&#231;as a Deus.</p>]]></content:encoded></item></channel></rss>