<script data-pm-proxy="intercept"></script><?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Gustavo Bertoche]]></title><description><![CDATA[Gustavo Bertoche é filósofo, professor e ensaísta. Escreve sobre filosofia, educação e cultura em tempos difíceis. Neste espaço não há lugar para IA: todos os textos são escritos com idéias e dedos humanos.]]></description><link>https://bertoche.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Mq70!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F28b92bf4-eb12-4daa-b1ec-862c25f3ddf4_1599x1599.jpeg</url><title>Gustavo Bertoche</title><link>https://bertoche.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Fri, 04 Sep 2026 09:24:16 GMT</lastBuildDate><atom:link href="/__u/bertoche.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Gustavo Bertoche]]></copyright><language><![CDATA[pt-br]]></language><webMaster><![CDATA[bertoche@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[bertoche@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Gustavo Bertoche]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Gustavo Bertoche]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[bertoche@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[bertoche@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Gustavo Bertoche]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[Contando os sobreviventes]]></title><description><![CDATA[Os bons n&#250;meros da exclus&#227;o na escola paranaense]]></description><link>https://bertoche.substack.com/p/contando-os-sobreviventes</link><guid isPermaLink="false">https://bertoche.substack.com/p/contando-os-sobreviventes</guid><dc:creator><![CDATA[Gustavo Bertoche]]></dc:creator><pubDate>Sun, 30 Aug 2026 11:03:54 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Mq70!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F28b92bf4-eb12-4daa-b1ec-862c25f3ddf4_1599x1599.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Vou contar uma hist&#243;ria que vivi recentemente. &#201; a hist&#243;ria de como descobri um dos problemas estruturais da escola brasileira.</p><p style="text-align: justify;">Em 2023, ap&#243;s ter vivido e lecionado em Portugal, retornei ao Brasil. Prestei um concurso para professor do estado do Paran&#225;. Ap&#243;s tomar posse, fui escolher, no meu n&#250;cleo regional, a escola onde lecionaria.</p><p style="text-align: justify;">Na rede estadual do Paran&#225;, o professor que escolhe primeiro &#233; o que tem mais pontos no sistema: tempo de magist&#233;rio, n&#237;vel e classe do servidor, cursos realizados, quantidade de faltas. E, no caso de novos professores, a ordem na fila de aprova&#231;&#227;o. Isso &#233; uma fila de m&#233;rito e antig&#252;idade &#8211; &#233; p&#250;blica, &#233; confer&#237;vel, e todo professor conhece as suas regras. Eu havia sido o primeiro colocado geral de todo o Paran&#225; entre os professores de Filosofia; eu deveria ter a prioridade de escolha entre os novos concursados da minha &#225;rea.</p><p style="text-align: justify;">Por&#233;m, descobri que algumas escolas sem professores n&#227;o poderiam ser selecionadas &#8211; porque um professor somente entrava l&#225; por convite do diretor, de acordo com seus crit&#233;rios particulares, que n&#227;o estavam publicados em nenhum lugar.</p><p style="text-align: justify;">Essas escolas s&#227;o as da Pol&#237;cia Militar e as c&#237;vico-militares. Nessas escolas, o diretor escolhe todo o corpo docente. Essa pr&#225;tica funciona em todo o estado, e todo professor da rede a conhece.</p><p style="text-align: center;">* * *</p><p style="text-align: justify;">Nos primeiros meses de trabalho, soube que eu havia sido cogitado para dar aulas numa dessas escolas, ou para, alternativamente, compor o quadro do N&#250;cleo Regional da Secretaria de Educa&#231;&#227;o &#8211; afinal, na pequena Uni&#227;o da Vit&#243;ria, a cidade que eu escolhera, estava o primeiro lugar geral do concurso, com grande experi&#234;ncia docente, inclusive no exterior, com doutorado e livros publicados. Por&#233;m, nessa &#233;poca o Sindicato dos Professores prop&#244;s dois dias de greve, com manifesta&#231;&#227;o em Curitiba, contra a privatiza&#231;&#227;o da administra&#231;&#227;o das escolas estaduais. N&#227;o s&#243; fui o &#250;nico professor a aderir &#224; greve em minha escola, como viajei a Curitiba, onde eu e centenas de outros professores fomos recebidos, diante da Assembl&#233;ia Legislativa, com bombas de efeito moral lan&#231;adas pela Pol&#237;cia de Choque. Ap&#243;s esse epis&#243;dio, como era de se esperar, passei a ser tido como o &#8220;professor comunista&#8221;, e todas aquelas sondagens desapareceram. N&#227;o que houvesse um problema com isso: eu n&#227;o daria mesmo aulas em escolas da pol&#237;cia (se eu lecionasse l&#225;, acabaria certamente sendo removido), e n&#227;o combino com o trabalho burocr&#225;tico (pois amo a rotina di&#225;ria do contato com os estudantes).</p><p style="text-align: justify;">Depois, durante a minha pr&#225;tica docente, vim a descobrir que o que acontece com o professor-problema tamb&#233;m acontece com o aluno indesejado. Quando o desempenho acad&#234;mico ou comportamental do estudante da escola militarizada &#233; considerado inadequado, acaba sendo transferido para a escola comum &#8211; que n&#227;o pode recus&#225;-lo. Isso completa uma f&#243;rmula muito curiosa: de um lado, os professores das escolas militarizadas s&#227;o escolhidos por fora do sistema; por outro lado, os alunos-problema s&#227;o devolvidos para a escola comum. O estudante obrigado a sair da escola militarizada leva consigo a quantidade grande de faltas, a nota baixa, a poss&#237;vel reprova&#231;&#227;o. Dois coelhos com uma s&#243; cajadada: basta excluir os estudantes de pior desempenho, para que o &#237;ndice de avalia&#231;&#227;o da escola dispare.</p><p style="text-align: justify;">Ali&#225;s, certa vez o secret&#225;rio de educa&#231;&#227;o Roni Miranda explicou, sem nenhum constrangimento, por que os col&#233;gios da Pol&#237;cia Militar est&#227;o entre as escolas com maior IDEB no estado: &#8220;o aluno, para ingressar em um col&#233;gio da Pol&#237;cia Militar, tem que realizar uma prova, ent&#227;o acaba sendo feita uma sele&#231;&#227;o entre os melhores alunos&#8221; (veja <a href="https://www.gazetadopovo.com.br/parana/colegios-da-pm-escolas-civico-militares-e-institutos-federais-se-destacam-em-estado-lider-do-ideb/">aqui</a>). Ele elogiava o modelo da escola militarizada, que pode estabelecer uma sele&#231;&#227;o rigorosa por prova como condi&#231;&#227;o para o ingresso, mas se calava sobre as condi&#231;&#245;es sob as quais as escolas comuns funcionam &#8211; recebendo todos os alunos, cumprindo o papel educacional estabelecido pela Constitui&#231;&#227;o Federal.</p><p style="text-align: center;">* * *</p><p style="text-align: justify;">Ao refletir sobre esse mecanismo de sele&#231;&#227;o de professores e de estudantes, compreendi a pol&#237;tica geral da Secretaria de Educa&#231;&#227;o do Paran&#225;.</p><p style="text-align: justify;">Essa pol&#237;tica &#233; simples, porque seu prop&#243;sito &#233; simpl&#243;rio: &#233; necess&#225;rio demonstrar ao contribuinte (que, naturalmente, &#233; o eleitor) que o sistema educacional paranaense &#233; de alta qualidade.</p><p style="text-align: justify;">E como a qualidade dos sistemas escolares &#233; avaliada no Brasil? Em primeiro lugar, pelo IDEB. A composi&#231;&#227;o da nota do IDEB &#233; simples: <strong>IDEB = N x P</strong>, onde <strong>N </strong>&#233; a profici&#234;ncia em Portugu&#234;s e Matem&#225;tica numa escala de zero a dez, e <strong>P</strong> &#233; a m&#233;dia harm&#244;nica das taxas de aprova&#231;&#227;o. Isto &#233;: profici&#234;ncia vezes fluxo.</p><p style="text-align: justify;">Esses dois fatores &#8211; a nota de Matem&#225;tica e Portugu&#234;s, e a taxa de aprova&#231;&#227;o m&#233;dia &#8211; s&#227;o simplesmente multiplicados como se fossem grandezas da mesma natureza. Mas n&#227;o s&#227;o. A nota do IDEB &#233; equivalente ao produto de bananas vezes ma&#231;&#227;s.</p><p style="text-align: justify;">Basta entender que, no campo da profici&#234;ncia (a vari&#225;vel <strong>N</strong>), o aumento de um ponto na nota padronizada de Matem&#225;tica no ensino m&#233;dio corresponde a um aumento de 35,6 pontos na escala SAEB (cujos valores m&#225;ximos costumam se situar na faixa de 500 pontos). Isso &#233; dif&#237;cil de obter: entre 2019 e 2023, a nota padronizada do ensino m&#233;dio da rede estadual do Paran&#225; foi de 4,9 para... 4,9. O avan&#231;o da profici&#234;ncia dos estudantes nesse per&#237;odo foi pequeno demais para alterar sequer a primeira casa decimal.</p><p style="text-align: justify;">J&#225; para mexer na taxa de aprova&#231;&#227;o (a vari&#225;vel <strong>P</strong>), basta aprovar. N&#227;o custa tempo, nem dinheiro, nem esfor&#231;o, e produz um grande efeito no mesmo ano.</p><p style="text-align: center;">* * *</p><p style="text-align: justify;">Os dados oficiais mostram tudo. Eles s&#227;o p&#250;blicos e est&#227;o dispon&#237;veis no site do INEP.</p><p style="text-align: justify;">Nos anos finais do ensino fundamental da rede estadual, a nota padronizada era 5,5 em 2019 &#8211; e tamb&#233;m continuou 5,5 em 2023. O fluxo foi de 0,92 para 0,98 &#8211; e o IDEB subiu de 5,1 para 5,4.</p><p style="text-align: justify;">No ensino m&#233;dio estadual, como vimos, a nota padronizada era 4,9 em 2019, e permaneceu 4,9 em 2023. O fluxo, todavia, passou de 0,90 para 0,97 &#8211; e o IDEB subiu de 4,4 para 4,7.</p><p style="text-align: justify;">Isso significa, muito simplesmente, que entre 2019 e 2023, nas duas etapas majoritariamente ofertadas pela rede estadual do Paran&#225;, o avan&#231;o do IDEB veio integralmente do aumento da taxa de aprova&#231;&#227;o &#8211; que j&#225; era alt&#237;ssimo, superior a 90%, e avan&#231;ou at&#233; o ponto em que a reprova&#231;&#227;o &#233; quase imposs&#237;vel.</p><p style="text-align: center;">* * *</p><p style="text-align: justify;">Nas escolas estaduais do Paran&#225;, atualmente a taxa de aprova&#231;&#227;o est&#225; entre 97% e 99%, conforme a etapa, e nos anos finais do fundamental j&#225; passou de 99%. Isso corresponde, na pr&#225;tica, &#224; aprova&#231;&#227;o autom&#225;tica. No fim, ningu&#233;m repete, a n&#227;o ser por n&#250;mero de faltas.</p><p style="text-align: justify;">Acontece que a reprova&#231;&#227;o, com todos os seus defeitos (e s&#227;o muitos), &#233; ainda o &#250;nico ponto em que a avalia&#231;&#227;o do professor sobre a aprendizagem do estudante se transforma em um dado. Se todas as escolas da rede estadual decidem, em fun&#231;&#227;o de benef&#237;cios que podem ser obtidos ou perdidos, aprovar praticamente todos os alunos, enquanto 52% dos estudantes do ensino m&#233;dio da rede p&#250;blica do estado est&#227;o abaixo do b&#225;sico, ent&#227;o a aprova&#231;&#227;o j&#225; n&#227;o tem mais nenhuma rela&#231;&#227;o com o aprendizado. No Brasil, 91,5% dos concluintes do ensino m&#233;dio n&#227;o alcan&#231;aram o n&#237;vel adequado em Matem&#225;tica em 2025, e 64,8% n&#227;o alcan&#231;aram o n&#237;vel adequado em Portugu&#234;s. Para obter a melhoria no &#237;ndice IDEB, o Paran&#225; destruiu o que era leg&#237;timo na distin&#231;&#227;o entre aprova&#231;&#227;o e reprova&#231;&#227;o &#8211; uma distin&#231;&#227;o que j&#225; n&#227;o tem mais nenhum sentido.</p><p style="text-align: center;">* * *</p><p style="text-align: justify;">H&#225; mais uma coisa. No mesmo per&#237;odo em que o IDEB subiu, a aprendizagem medida pelo SAEB efetivamente piorou. No ensino m&#233;dio estadual, a propor&#231;&#227;o de estudantes com aprendizagem adequada em Portugu&#234;s e Matem&#225;tica caiu de 8% em 2019 para 6% em 2023, e a propor&#231;&#227;o dos que est&#227;o abaixo do n&#237;vel b&#225;sico subiu de 47% para 52%; somente 7% tinham a profici&#234;ncia esperada para a sua s&#233;rie em Matem&#225;tica. Nos anos finais do ensino fundamental, o mesmo aconteceu: em 2019 a propor&#231;&#227;o de estudantes com desempenho abaixo do b&#225;sico era de 22%; esse n&#250;mero subiu para 26% em 2023.</p><p style="text-align: justify;">O governo do Paran&#225; se vangloria de ser o primeiro colocado nacional no IDEB dos anos finais, e o segundo colocado no ensino m&#233;dio. Por&#233;m, mais da metade de seus estudantes de ensino m&#233;dio est&#225; abaixo do n&#237;vel b&#225;sico.</p><p style="text-align: justify;">H&#225; a&#237; um mecanismo institucional perfeitamente adequado para produzir a melhoria dos dados, sem a correspondente melhoria da qualidade.</p><p style="text-align: center;">* * *</p><p style="text-align: justify;">E por que os professores, os professores decentes, os bons professores, participam desse mecanismo institucional?</p><p style="text-align: justify;">No Paran&#225; existe uma coisa chamada &#8220;B&#244;nus de Resultado de Aprendizagem&#8221;, que paga cerca de tr&#234;s mil reais a todos os profissionais (professores, pedagogos, merendeiras e administrativos, efetivos e tempor&#225;rios) da escola que atingir a meta do IDEB estabelecida pela Secretaria de Educa&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Isto &#233;: os professores recebem vantagens reais, financeiras, com a melhoria das notas do IDEB. Se eles reprovam alunos, eles podem perder dinheiro. N&#227;o s&#243; os professores, mas todo mundo &#8211; da diretora &#224; merendeira. Tr&#234;s mil reais &#233; bastante dinheiro para um professor, e &#233; mais ainda para uma merendeira. Perder esse dinheiro &#233; algo inaceit&#225;vel. Nos conselhos de classe &#233; muito grande a press&#227;o: os professores que defendem a reprova&#231;&#227;o de algum aluno s&#227;o a minoria, e essa minoria &#233; quase sempre derrubada na hora da vota&#231;&#227;o pela aprova&#231;&#227;o ou reten&#231;&#227;o do estudante. Afinal, a progress&#227;o, ainda que o estudante n&#227;o tenha nenhuma capacidade acad&#234;mica, corresponde ao interesse material de toda a comunidade escolar. &#201; brutal, mas &#233; assim.</p><p style="text-align: center;">* * *</p><p style="text-align: justify;">Um fator que j&#225; est&#225; em 0,97 e caminha para 0,99 n&#227;o tem mais para onde ir: o m&#225;ximo &#233; 1. O caminho de melhorar o IDEB por meio do avan&#231;o da vari&#225;vel <strong>P</strong>, por meio da aprova&#231;&#227;o autom&#225;tica, j&#225; est&#225; esgotado.</p><p style="text-align: justify;">De fato, de 2023 a 2025 o &#237;ndice continuou subindo, agora pela nota da prova SAEB: nos anos finais do ensino fundamental, a Matem&#225;tica da rede estadual foi de 265 para 277 pontos, enquanto a aprova&#231;&#227;o, j&#225; no teto, passava de 98,5% para 99,4%. Aparentemente houve um avan&#231;o na aprendizagem &#8211; mas &#233; necess&#225;rio observar um outro lado da quest&#227;o: numa rede que ano a ano fecha mais escolas noturnas e encerra os programas de Educa&#231;&#227;o de Jovens e Adultos (EJA), perdendo milhares de matr&#237;culas, onde est&#225; realmente a melhora?</p><p style="text-align: justify;">Porque diante da impossibilidade de otimizar ainda mais a vari&#225;vel <strong>P</strong>, devido ao fato de ela j&#225; estar pr&#243;xima do valor m&#225;ximo, que &#233; 1, restam duas estrat&#233;gias para seguir aumentando o &#237;ndice IDEB.</p><p style="text-align: justify;">A primeira &#233; a de efetivamente melhorar a profici&#234;ncia acad&#234;mica, algo mensur&#225;vel na prova SAEB. S&#243; que isso exige muito investimento financeiro, e o seu resultado &#233; verific&#225;vel n&#227;o em meses, mas em d&#233;cadas. Os governantes n&#227;o t&#234;m esse tempo &#8211; as elei&#231;&#245;es sempre est&#227;o logo ali. De todo modo, eu vi os mecanismos que favorecem os n&#250;meros da prova SAEB em a&#231;&#227;o: os estudantes mais capazes buscados em casa no dia dessa avalia&#231;&#227;o; os estudantes fracos poupados, avisados de que poderiam faltar e a falta seria justificada; a semana de prepara&#231;&#227;o intensiva de Portugu&#234;s e Matem&#225;tica (as &#250;nicas mat&#233;rias da prova SAEB) ocupando todo o hor&#225;rio letivo. Mas esses mecanismos s&#227;o limitados, pontuais, e n&#227;o provocam um aumento sist&#234;mico not&#225;vel nas notas gerais.</p><p style="text-align: justify;">A segunda estrat&#233;gia &#233; a de mudar <em>quem</em> &#233; medido. A vari&#225;vel de profici&#234;ncia, a vari&#225;vel <strong>N</strong>, &#233; uma m&#233;dia, e a composi&#231;&#227;o da popula&#231;&#227;o que comp&#245;e essa m&#233;dia &#233;, por sua vez, uma vari&#225;vel livre do sistema.</p><p style="text-align: center;">* * *</p><p style="text-align: justify;">A distor&#231;&#227;o idade-s&#233;rie, que indica o percentual de estudantes com dois anos ou mais de atraso, caiu, na rede p&#250;blica do Paran&#225;, de 20% em 2019 para 9% em 2025 no ensino m&#233;dio, e de 19% para 8% nos anos finais. O atraso escolar foi cortado pela metade em seis anos. N&#227;o h&#225; pol&#237;tica pedag&#243;gica conhecida que possa produzir isso; a decis&#227;o foi tomada verticalmente pela Secretaria Estadual de Educa&#231;&#227;o, e eu estava l&#225; para assistir &#224;s suas conseq&#252;&#234;ncias. Na Escola Estadual do Campo em que eu lecionava, cinco estudantes de 9&#186; ano do Ensino Fundamental foram, de repente, no m&#234;s de abril, rematriculados em turmas de 1&#186; e 2&#186; ano do Ensino M&#233;dio, de acordo com sua idade. Todos eles j&#225; tinham dificuldades acad&#234;micas no 9&#186; Ano; o reposicionamento em turmas muito mais avan&#231;adas foi o desastre para todos &#8211; porque eles absolutamente n&#227;o eram capazes, naquele momento, de acompanhar a mat&#233;ria, e com isso criavam problemas de relacionamento e de comportamento que prejudicavam a sua nova turma.</p><p style="text-align: center;">* * *</p><p style="text-align: justify;">Nas escolas c&#237;vico-militares, a m&#233;dia geral de estudantes em turno noturno, em que h&#225; preval&#234;ncia de estudantes mais velhos, caiu de 85 alunos por unidade em 2017 para somente seis em 2024, e os estudantes na EJA foram da m&#233;dia de 11 por escola para menos de um. Isto &#233;: o turno da noite praticamente desapareceu das escolas militarizadas, e a EJA foi simplesmente abolida.</p><p style="text-align: justify;">Se tomarmos a rede estadual do Paran&#225; por inteiro, verificamos o mesmo padr&#227;o. Houve uma queda de 60,5% na quantidade de vagas noturnas &#8211; de 210 mil em 2019 para 82 mil em 2025 &#8211;, e as vagas da EJA ca&#237;ram, nesse mesmo per&#237;odo, de 125 mil para 35 mil.</p><p style="text-align: justify;">O aluno atrasado para sua s&#233;rie, o aluno trabalhador, o aluno do turno noturno s&#227;o, muitas vezes, a mesma pessoa &#8211; vista por tr&#234;s perspectivas diferentes. &#201; essa pessoa que desapareceu da vari&#225;vel <strong>N</strong> na nota IDEB: uma pessoa que tem dificuldades acad&#234;micas, e que simplesmente abandona a escola, por n&#227;o haver escola que ela possa freq&#252;entar, n&#227;o puxa a nota para baixo.</p><p style="text-align: center;">* * *</p><p style="text-align: justify;">O aluno-problema que &#233; transferido continua na estat&#237;stica da rede. O aluno fraco poupado no dia da prova continua na estat&#237;stica, mas desaparece daquela vari&#225;vel, e portanto n&#227;o &#233; contado na pontua&#231;&#227;o. Mas o aluno que n&#227;o se matricula porque naquele ano j&#225; n&#227;o h&#225; mais escola para ele na cidade, porque a &#250;ltima escola com turno noturno ou com EJA fechou, j&#225; n&#227;o entra mais em conta nenhuma. Para o sistema somente h&#225; vantagens: esse aluno n&#227;o pesa na vari&#225;vel <strong>P</strong> porque n&#227;o est&#225; matriculado, e portanto n&#227;o &#233; reprovado; ele n&#227;o abandona a escola, e portanto n&#227;o entra nas estat&#237;sticas de evas&#227;o; ele n&#227;o faz a prova SAEB, e portanto n&#227;o atrapalha o avan&#231;o da vari&#225;vel <strong>N</strong>. A rede atende menos gente, e o conjunto de estudantes avaliado tem menos idade, &#233; mais escolarizado, &#233; mais f&#225;cil de lidar, e tem resultados consistentemente melhores.</p><p style="text-align: justify;">Eu vi as escolas noturnas fechando, eu vi a EJA sendo eliminada: havia uma disposi&#231;&#227;o clara da Secretaria de Educa&#231;&#227;o em acabar com a escolariza&#231;&#227;o de adultos. Nunca houve uma declara&#231;&#227;o p&#250;blica do secret&#225;rio de educa&#231;&#227;o assumindo isso como pol&#237;tica; quando indagada, a Secretaria de Educa&#231;&#227;o optou pelo sil&#234;ncio. Mas todos sab&#237;amos o que estava acontecendo, porque as coisas eram feitas &#224;s claras.</p><p style="text-align: center;">* * *</p><p style="text-align: justify;">Posso oferecer dois exemplos desse processo. Antes, &#233; preciso lembrar que o INEP, o instituto que organiza os processos do IDEB, exige que ao menos 80% dos alunos matriculados fa&#231;am a prova SAEB. Se menos de 80% fizerem a prova, a escola n&#227;o recebe nota nenhuma &#8211; o que significa que ela se exclui dos crit&#233;rios de bonifica&#231;&#227;o do governo estadual. De fato, nenhuma escola ficou abaixo do piso m&#237;nimo; 89 escolas pararam no n&#237;vel imediatamente acima, entre 80% e 85%. Basta, ent&#227;o, que os 15% ou 20% de menor desempenho n&#227;o estejam presentes no dia da prova &#8211; e o IDEB da escola aumenta magicamente.</p><p style="text-align: justify;">&#201; muito interessante ver como isso acontece na pr&#225;tica. O Col&#233;gio Estadual Comendador Geremias Lunardelli, em Grandes Rios, saltou de IDEB 4,5 com 92% de participa&#231;&#227;o dos alunos para IDEB 7,5 com 80% de participa&#231;&#227;o; a matr&#237;cula avaliada caiu de 37 para 20 estudantes.</p><p style="text-align: justify;">Do mesmo modo, o Col&#233;gio Estadual de Papanduva de Cima, em Prudent&#243;polis, subiu o IDEB de 5,6 com 26 alunos para 6,6 com 13 alunos.</p><p style="text-align: center;">* * *</p><p style="text-align: justify;">H&#225; uma vers&#227;o antiga dessa pol&#237;tica de exclus&#227;o que resulta na apar&#234;ncia de melhor educa&#231;&#227;o. &#201; comum escutarmos, de quem freq&#252;entou a escola nos anos 1950, 1960, 1970, que naquele tempo a escola era mais s&#233;ria, mais forte, melhor: a pessoa tem a &#8220;quarta s&#233;rie&#8221;, mas escreve melhor do que muito universit&#225;rio de nosso tempo. Sim, isso &#233; mesmo verdade. Por&#233;m, a pergunta de in&#237;cio &#233;: por que havia tanta gente &#8220;com quarta s&#233;rie&#8221;, e nunca com &#8220;terceira&#8221; ou &#8220;quinta s&#233;rie&#8221;? Porque na quarta s&#233;rie havia um gargalo: para subir do prim&#225;rio (primeira &#224; quarta s&#233;rie) ao gin&#225;sio (quinta &#224; oitava s&#233;rie) era preciso passar por um exame de admiss&#227;o que reprovava e eliminava a maioria. S&#243; chegava ao gin&#225;sio, e depois ao segundo grau (ao Cl&#225;ssico, ao Cient&#237;fico, ao Normal, ao t&#233;cnico) quem passasse por novos exames, ainda mais dif&#237;ceis. Ficavam pelo caminho, invis&#237;veis, todos os que n&#227;o obtinham a profici&#234;ncia atestada por uma prova. &#201; verdade: na escola daquele tempo, quem n&#227;o estivesse plenamente alfabetizado e n&#227;o dominasse as quatro opera&#231;&#245;es n&#227;o chegava &#224; quinta s&#233;rie. Mas isso n&#227;o significa que aquela escola fosse melhor; isso significa que ela <em>parecia </em>melhor, porque somente contava os sobreviventes. Quando a escolariza&#231;&#227;o se tornou obrigat&#243;ria, e substituiu a divis&#227;o &#8220;prim&#225;rio/ginasial&#8221; por &#8220;fundamental I e II&#8221;, sem nenhum exame de admiss&#227;o, houve uma queda do n&#237;vel geral da aprendizagem. A m&#233;dia desceu; mas essa descida &#233; a aritm&#233;tica da inclus&#227;o. Em outras palavras: a escola, em si, n&#227;o piorou; ela simplesmente passou a contar os resultados de quem antes n&#227;o sobrevivia ao sistema.</p><p style="text-align: justify;">&#201; exatamente o movimento oposto que est&#225; sendo realizado hoje na escola estadual paranaense &#8211; e n&#227;o s&#243; l&#225;; se falo dessa escola, &#233; porque conhe&#231;o a sua realidade por dentro. Como o IDEB &#233; profici&#234;ncia vezes taxa de aprova&#231;&#227;o, e como retirar os mais fracos da avalia&#231;&#227;o melhora instantaneamente a nota do sistema, uma rede que administre quem &#233; contado pode elevar o seu &#237;ndice sem investir mais nada &#8211; tempo, esfor&#231;o, dinheiro &#8211; na melhoria das condi&#231;&#245;es de ensino.</p><p style="text-align: center;">* * *</p><p style="text-align: justify;">E aqui chegamos ao n&#250;cleo do problema: a medida utilizada em todo o Brasil para medir a qualidade dos sistemas escolares, o IDEB, n&#227;o &#233; natural nem &#233; neutro. Ele &#233; uma cria&#231;&#227;o artificial, deliberada, produto de uma concep&#231;&#227;o te&#243;rica educacional espec&#237;fica. Toda medida &#233; j&#225; uma teoria materializada, e o seu resultado &#233; um fen&#244;meno constru&#237;do, recortado &#224; medida do instrumento montado para apreend&#234;-lo. A medida do IDEB &#233; justamente isso: um recorte que estabelece, antes de qualquer coisa, o que importa na escola. E o que importa? O desempenho em l&#237;ngua portuguesa e em Matem&#225;tica, e a taxa de reprova&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">O IDEB serve para organizar as pol&#237;ticas escolares &#8211; inclusive para estabelecer incentivos e puni&#231;&#245;es aos profissionais da escola. Assim, um &#237;ndice criado com a fun&#231;&#227;o de medida acaba funcionando, na pr&#225;tica, como orienta&#231;&#227;o estrutural do sistema. Nesse sentido, podemos dizer que todas as conseq&#252;&#234;ncias do IDEB &#8211; da aprova&#231;&#227;o de alunos analfabetos &#224; exclus&#227;o pura e simples dos estudantes fora da idade ideal &#8211; s&#227;o efetivamente resultados decididos politicamente. N&#227;o, eu n&#227;o acredito que haja um grupo de pessoas no MEC pensando em como arrebentar cada vez mais a nossa forma&#231;&#227;o cultural, intelectual e acad&#234;mica; n&#227;o &#233; nada disso, n&#227;o existe uma <em>decis&#227;o pol&#237;tica deliberada</em> neste sentido. O que h&#225; &#233; a decis&#227;o, muitas vezes movida por uma vis&#227;o de curto alcance, no sentido de estabelecer pol&#237;ticas limitadas de avalia&#231;&#227;o, de medida, de classifica&#231;&#227;o &#8211; que, seguidas por anos e d&#233;cadas, acabam se transformando, pelo simples h&#225;bito, em pilares estruturais do sistema, de modo que aquilo que servia somente para criar subs&#237;dios para a&#231;&#227;o pol&#237;tico-educacional se torna a pr&#243;pria pol&#237;tica educacional. Em outros termos: a medida passa a ser o projeto, a prova passa a ser o prop&#243;sito. E a escola vai se adaptando a isso, encontrando novas estrat&#233;gias para obter os resultados exigidos pelos gestores p&#250;blicos.</p><p style="text-align: center;">* * *</p><p style="text-align: justify;">A cr&#237;tica corrente diz que os n&#250;meros do IDEB do Paran&#225;, e das redes estaduais em geral, s&#227;o falsos. N&#227;o &#233; esse o problema. Os n&#250;meros s&#227;o exatos: a aprova&#231;&#227;o subiu mesmo, o fluxo melhorou mesmo, o &#237;ndice mede com precis&#227;o aquilo que ele foi designado para medir. O problema n&#227;o est&#225; no resultado da medida; o problema est&#225; na pr&#243;pria medida: a escola vai, aos poucos, se estreitando, para se tornar a coisa limitada que o IDEB mensura. E n&#227;o h&#225; exatamente fraude aqui; dada a natureza do IDEB (entendido n&#227;o mais como medida, mas como centro organizador dos sistemas &#8211; um centro organizador inclusive de recursos financeiros), todos os n&#237;veis da institui&#231;&#227;o escolar, do MEC ao professor, passando pelas secretarias estaduais e municipais de educa&#231;&#227;o, est&#227;o trabalhando bem, est&#227;o fazendo o que podem para melhorar os seus &#237;ndices educacionais.</p><p style="text-align: justify;">&#205;ndices educacionais que, no fim das contas, muito pouco t&#234;m a ver com a educa&#231;&#227;o &#8211; e que melhoram, quer seja pela falsifica&#231;&#227;o das aprova&#231;&#245;es, quer seja pela exclus&#227;o de parte dos educandos, <em>impedindo </em>que a educa&#231;&#227;o aconte&#231;a.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O que a escola não vê]]></title><description><![CDATA[O abandono das aptid&#245;es singulares]]></description><link>https://bertoche.substack.com/p/o-que-a-escola-nao-ve</link><guid isPermaLink="false">https://bertoche.substack.com/p/o-que-a-escola-nao-ve</guid><dc:creator><![CDATA[Gustavo Bertoche]]></dc:creator><pubDate>Sun, 23 Aug 2026 11:00:56 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Mq70!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F28b92bf4-eb12-4daa-b1ec-862c25f3ddf4_1599x1599.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">No ensaio da semana passada, argumentei que a id&#233;ia central que rege o nosso modelo escolar, a id&#233;ia da escola igualit&#225;ria, com um curr&#237;culo e uma organiza&#231;&#227;o unificados, n&#227;o produz igualdade &#8211; produz, pelo contr&#225;rio, mais desigualdade. Estava certo Bourdieu, que, em <em>A Reprodu&#231;&#227;o</em>, apontou que aquilo que a avalia&#231;&#227;o escolar reconhece como dom &#233;, na verdade, uma heran&#231;a cultural &#8211; o que leva a institui&#231;&#227;o a tomar por disposi&#231;&#227;o natural o que &#233; adquirido socialmente. As crian&#231;as chegam &#224; escola a partir de lugares diferentes; oferecer uma forma &#250;nica de forma&#231;&#227;o a quem &#233; diferente, e premiar quem chega j&#225; adaptado a essa forma &#250;nica, &#233; cometer uma injusti&#231;a fundamental.</p><p style="text-align: justify;">Por&#233;m, h&#225; tamb&#233;m outra injusti&#231;a perpetrada pela institui&#231;&#227;o escolar igualit&#225;ria e normalizadora contra as crian&#231;as. Mesmo as que v&#234;m de lugares semelhantes t&#234;m interesses, aptid&#245;es, voca&#231;&#245;es e projetos diferentes. A escola &#233; simplesmente incapaz de enxergar isso &#8211; porque a medida de sucesso escolar &#233; sempre a do saber verbal abstrato: ler, escrever, calcular, reter, e despejar tudo na prova. Tudo o que est&#225; para al&#233;m disso escapa da capacidade de avalia&#231;&#227;o docente &#8211; e o que n&#227;o pode ser avaliado &#233;, para todos os efeitos da burocracia institucional, inexistente.</p><p style="text-align: justify;">Isso significa que a crian&#231;a que tem o talento de construir mecanismos; a que tem uma agilidade corporal extraordin&#225;ria; a que &#233; capaz de, a m&#227;o livre, com seu l&#225;pis comum, desenhar perfeitamente pessoas e coisas; a que toca viol&#227;o de ouvido; a que exerce naturalmente a lideran&#231;a entre os colegas; e tamb&#233;m aquela cujo talento excepcional florescer&#225; tardiamente, j&#225; na idade adulta &#8211; essa crian&#231;a, com seu talento singular, n&#227;o encontra na escola o reconhecimento de que precisa para progredir. Afinal, o professor avalia o que nada tem a ver com aquilo: a rigidez do boletim n&#227;o oferece espa&#231;o para o que ultrapassa o curr&#237;culo, e que conseq&#252;entemente n&#227;o recebe nota, e n&#227;o existe para a escola. Mas isso &#233; um absurdo: essas pot&#234;ncias que ultrapassam o curr&#237;culo s&#227;o justamente o que h&#225; de mais importante: &#233; o desenvolvimento e a realiza&#231;&#227;o dessas pot&#234;ncias individuais que pode permitir que cada um encontre o seu lugar pr&#243;prio na ordem da humanidade e, assim, contribua, com o que tem de melhor, para a necess&#225;ria diversidade dos projetos de vida.</p><p style="text-align: justify;">O resultado desse absurdo &#233; que a crian&#231;a cuja aptid&#227;o aponta para algo que a escola n&#227;o pode medir passa a ser conhecida por aquilo em que vai mal, e &#233; totalmente ignorada naquilo em que vai bem. Ano ap&#243;s ano, essa crian&#231;a escutar&#225; que falta esfor&#231;o, que falta compromisso, que falta talento &#8211; mas nunca ouvir&#225; um elogio em rela&#231;&#227;o ao seu desempenho nas atividades e nas pr&#225;ticas para as quais, por sua pr&#243;pria configura&#231;&#227;o e disposi&#231;&#227;o singular, &#233; bem talhada. E o pior: tudo isso em que ela n&#227;o somente &#233; incomumente boa, como tem prazer em realizar, tudo isso passa a ser considerado, primeiro pela escola e depois pela pr&#243;pria crian&#231;a, como perda de tempo, como irrelevante, e mesmo como obst&#225;culo, como se o objetivo do processo de forma&#231;&#227;o fosse preparar a pessoa para a escola, a escola como uma finalidade em si. Quantas aptid&#245;es extraordin&#225;rias n&#227;o ter&#227;o sido descartadas e abandonadas assim, em benef&#237;cio da ordem escolar?</p><p style="text-align: center;">* * *</p><p style="text-align: justify;">Eu fui professor no sistema estadual do Paran&#225;. Trabalhei em escolas em regi&#245;es muito pobres no interior paranaense, num momento em que j&#225; havia realizado a minha convers&#227;o educacional &#8211; eu j&#225; havia estudado e refletido longamente sobre o desastre da escola, j&#225; havia escrito um livro sobre o tema, e j&#225; estava com o olhar mais sens&#237;vel e atento.</p><p style="text-align: justify;">Acompanhei o desenvolvimento de in&#250;meros estudantes.</p><p style="text-align: justify;">Lembro-me do jovem repetente que adorava trabalhar com motores &#8211; e consertava, por prazer, os mecanismos que eventualmente quebravam na escola. Uma vez, diante de meus olhos, ele desmontou um cortador de grama que ningu&#233;m conseguia consertar, disp&#244;s as pe&#231;as sobre a mesa, localizou o defeito, consertou com uma pe&#231;a adaptada, e remontou a m&#225;quina. O cortador de grama agora funcionava perfeitamente &#8211; e o meu aluno estava feliz. Ele possu&#237;a uma intelig&#234;ncia pr&#225;tica incomum: mesmo sem treinamento formal, era capaz de visualizar todo o funcionamento de um mecanismo, e assim encontrar onde poderia estar a falha. Mas como essa habilidade n&#227;o passava pelo discurso verbal, nem pela organiza&#231;&#227;o dos n&#250;meros em f&#243;rmulas matem&#225;ticas, a escola n&#227;o podia mensurar o seu talento: n&#227;o h&#225; nenhuma mat&#233;ria chamada &#8220;conserto de motores&#8221;. Ele, que era competent&#237;ssimo na oficina, era, no boletim, um repetente, e tudo se encaminhava para a evas&#227;o escolar definitiva.</p><p style="text-align: justify;">Lembro-me tamb&#233;m daquela menina de notas baixas, cheia de advert&#234;ncias por conversar com colegas durante a aula, que no hor&#225;rio do recreio se tornava a grande refer&#234;ncia dos estudantes: era em torno dela que os grupinhos se reuniam, era ela quem apartava as brigas, era ela quem coordenava, sem precisar discutir com ningu&#233;m, as a&#231;&#245;es do gr&#234;mio estudantil &#8211; todos a seguiam porque ela conduzia os colegas sem viol&#234;ncia, escutando todo mundo antes, agindo com muita sensatez. Ela possu&#237;a, por si, a capacidade de liderar pessoas, o que &#233; uma das aptid&#245;es mais raras e necess&#225;rias da vida em comunidade. Contudo, os professores n&#227;o sabiam o que fazer com ela: o talento pol&#237;tico n&#227;o &#233; examinado numa prova escrita.</p><p style="text-align: justify;">E me lembro ainda daquela outra menina que morava com o pai desempregado, e que enchia as p&#225;ginas do caderno com desenhos melhores do que tudo o que era passado no quadro, mas que j&#225; n&#227;o acreditava em seu talento art&#237;stico, e para o futuro aspirava a ser barista em algum caf&#233; no centro da cidade. E aquele que vendia balas no port&#227;o, ap&#243;s a aula, e que, a despeito de j&#225; administrar um pequeno com&#233;rcio com clientela e lucro, a dire&#231;&#227;o sempre amea&#231;ava &#8211; porque com aquela idade ele deveria somente estudar, e n&#227;o se preocupar com dinheiro. E a menina que cantava perfeitamente afinada, com voz de mezzo-soprano, as can&#231;&#245;es mais dif&#237;ceis de Whitney Houston. E o rapaz que fazia, na m&#225;quina da m&#227;e, as suas pr&#243;prias roupas, muit&#237;ssimo bem cortadas e costuradas, por sinal. E o que pilotava a sua bicicleta como um acrobata, sem nenhuma prote&#231;&#227;o, mas tamb&#233;m sem nenhum arranh&#227;o. E a que cuidava dos estudantes menores com evidente voca&#231;&#227;o de pedagoga, ou de pediatra, ou de assistente social.</p><p style="text-align: justify;">Enquanto me recordo, me emociono: cada uma daquelas crian&#231;as, cada um daqueles jovens, tinha j&#225; pronto, somente &#224; espera de orienta&#231;&#227;o, algo com que poderia contribuir para a humanidade, e ao mesmo tempo obter, com dignidade, o seu sustento. Eles apresentavam isso tudo <em>dentro da escola</em>. Mas a escola n&#227;o os enxergava. Ela somente enxergava n&#250;meros. Dois tipos de n&#250;meros: a quantidade de faltas e as notas no boletim.</p><p style="text-align: justify;">O que mais me d&#243;i &#233; que, por cada crian&#231;a cujo talento eu pude ver, h&#225; milhares, h&#225; milh&#245;es, que n&#227;o vi; e por cada talento que sobreviveu, h&#225; uma quantidade incalcul&#225;vel de talentos que a escola enterrou.</p><p style="text-align: center;">* * *</p><p style="text-align: justify;">Toda aptid&#227;o precisa de condi&#231;&#245;es para se tornar meio de vida: precisa de reconhecimento, orienta&#231;&#227;o, disciplina, encorajamento. Sem isso, a aptid&#227;o, o talento, a facilidade para fazer alguma coisa permanece somente uma possibilidade que nunca se realiza plenamente.</p><p style="text-align: justify;">A nossa escola &#8211; unit&#225;ria, igualit&#225;ria, normalizadora &#8211; s&#243; favorece um tipo de aptid&#227;o. A quem tem aptid&#227;o para o estudo te&#243;rico, para a matem&#225;tica, para as letras, a escola oferece o reconhecimento, a orienta&#231;&#227;o, a disciplina, os aplausos ao fim de cada etapa do percurso. Para a crian&#231;a que j&#225; chega ajustada a esse percurso, tudo &#233; oferecido, e a vida na escola &#233; suave. Mas para as demais, que s&#227;o a maioria, os percal&#231;os s&#227;o imensos; a escola n&#227;o oferece percursos alternativos para quem n&#227;o cabe no leito de Procusto da aptid&#227;o acad&#234;mica. N&#227;o h&#225; caminho suave para o menino que consertava motores, para a lideran&#231;a nata, para a desenhista, para o comerciante, para a cantora, para o costureiro, para o ciclista, para a cuidadora.</p><p style="text-align: center;">* * *</p><p style="text-align: justify;">O que acontece com uma aptid&#227;o abandonada?</p><p style="text-align: justify;">Na maioria das vezes, a aptid&#227;o n&#227;o reconhecida e n&#227;o orientada simplesmente definha. Sem que algu&#233;m enxergue o talento da crian&#231;a, sem algu&#233;m que valorize as coisas dif&#237;ceis que ela faz sem esfor&#231;o, nada se sustenta. Aos poucos, a crian&#231;a vai desistindo daquilo, vai esquecendo o que sabe fazer, e acaba se tornando um adulto que nunca saber&#225; do que &#233; capaz. Eventualmente, j&#225; maduro, vai lembrar daquilo que t&#227;o bem sabia fazer, vai finalmente compreender que era portador de um talento incomum, e vai se perguntar o que teria sido de sua vida se tivesse sido orientado a se aperfei&#231;oar. E depois novamente vai esquecer disso, retornando a um trabalho que n&#227;o escolheu, o trabalho da sobreviv&#234;ncia, o trabalho que &#233;, no fundo, o resultado de uma desist&#234;ncia, ainda que uma desist&#234;ncia involunt&#225;ria, exigida pelas circunst&#226;ncias. A sua vida adulta &#233;, sem meias-palavras, uma vida desperdi&#231;ada em sil&#234;ncio: sem drama, sem grito, a vida vai se tornando menor do que poderia ter sido. Se isso j&#225; &#233; tr&#225;gico na exist&#234;ncia de uma pessoa singular, imaginemos a perda provocada por esse desperd&#237;cio de talento quando multiplicado por milh&#245;es &#8211; porque s&#227;o milh&#245;es, s&#227;o dezenas de milh&#245;es de pessoas em nosso pa&#237;s vivendo uma vida que n&#227;o escolheram, fazendo muito menos do que podiam, produzindo para si e para a civiliza&#231;&#227;o uma fra&#231;&#227;o do que poderiam produzir. Essas pessoas, cujo in&#237;cio da vida continha possibilidades extraordin&#225;rias, s&#227;o conduzidas pela nossa escola &#224; cren&#231;a de que eram med&#237;ocres &#8211; quando, na verdade, med&#237;ocre era a escola.</p><p style="text-align: justify;">Mas &#224;s vezes o talento sobrevive &#8211; contra tudo, contra todos, a chama permanece acesa. N&#227;o por causa da escola, porque a escola quase nunca incentiva esses talentos; eles competem pelo tempo da aula, eles atrapalham o movimento escolar, eles incomodam; a escola, via de regra, tenta convencer a crian&#231;a de que tudo aquilo que ela sabe fazer pode at&#233; ser bonitinho, legalzinho, mas no fim das contas &#233; uma perda de tempo. O talento n&#227;o sobrevive <em>por causa </em>da escola; ele sobrevive <em>apesar</em> da escola, <em>contra</em> a escola, numa insubordina&#231;&#227;o di&#225;ria, e muitas vezes numa forma&#231;&#227;o verdadeiramente clandestina, realizada &#224;s margens da institui&#231;&#227;o escolar. Quando esse talento permanece e &#233; desenvolvido, isso acontece quase sempre <em>contra</em> a pr&#243;pria institui&#231;&#227;o que deveria t&#234;-lo cultivado. Quando compreendemos que a escola, que deveria encontrar e favorecer as aptid&#245;es dos estudantes, &#233;, de fato, um obst&#225;culo &#224; sua realiza&#231;&#227;o, chegamos &#224; conclus&#227;o de que h&#225; algo terrivelmente errado nela.</p><p style="text-align: justify;">Por&#233;m, as chances de sobreviv&#234;ncia dos talentos na escola s&#227;o muito pequenas. E existe uma possibilidade, que se realiza mais freq&#252;entemente do que desejar&#237;amos, de que esses talentos abortados se transformem em for&#231;as destrutivas. Afinal, uma aptid&#227;o &#233; uma pot&#234;ncia, e uma pot&#234;ncia mal dirigida pode n&#227;o se dissipar, pode se realizar em um campo completamente diferente. Um jovem que tem as suas habilidades desprezadas pela escola, que &#233; humilhado por cada boletim, que escuta que &#233; limitado, que n&#227;o presta, que &#233; um fracassado, um jovem assim pode acabar caminhando para outro lado: o lado da esperteza, da transgress&#227;o, do gosto de vencer um sistema que somente lhe oferece a derrota. Ilustro: a capacidade de liderar, por exemplo, quando tratada como indisciplina em vez de reconhecida como talento e voca&#231;&#227;o, n&#227;o desaparece &#8211; ela troca de objeto. O jovem que poderia ter liderado uma equipe, que poderia ter gerenciado uma empresa, que poderia ter se tornado uma lideran&#231;a pol&#237;tica, vai continuar liderando &#8211; por&#233;m, talvez o que lhe reste seja liderar outras pessoas, igualmente invisibilizadas, desprezadas, abandonadas pelas institui&#231;&#245;es. Nem sempre o que h&#225; para liderar num bairro abandonado &#233; algo que as institui&#231;&#245;es mantidas pela sociedade se orgulham de haver contribu&#237;do para formar. Aqui estamos com Plat&#227;o: as naturezas mais fortes, quando mal orientadas, produzem os maiores males, e n&#227;o os menores; a mesma t&#234;mpera que resultaria no homem excelente, quando desvirtuada, acaba engendrando o homem mais terr&#237;vel. Repito com mais &#234;nfase para deixar mais claro o que estou afirmando: parte da viol&#234;ncia que a sociedade teme &#233; constru&#237;da passo a passo, diariamente, na escola; &#233; feita de talentos, de lideran&#231;as, de intelig&#234;ncias, de capacidades que a escola n&#227;o somente desprezou, mas tamb&#233;m ativamente suprimiu &#8211; &#233; constru&#237;da, enfim, de energias criativas e produtivas que, abandonadas e desencaminhadas, acabam por gerar algo bem diferente, oferecendo-se a quem primeiro lhe prometer algum tipo de reconhecimento.</p><p style="text-align: center;">* * *</p><p style="text-align: justify;">A grande trag&#233;dia produzida pela escola de matriz &#250;nica, pela escola igualit&#225;ria, em que todos devem percorrer exatamente o mesmo caminho, &#233; exatamente esta: a maior parte das aptid&#245;es da na&#231;&#227;o &#233; perdida, abandonada, suprimida; o que h&#225; de mais valioso, tanto culturalmente, quanto socialmente, quanto economicamente, que &#233; a pluralidade de projetos de exist&#234;ncia, acaba simplesmente descartado como produto indesej&#225;vel de um processo cujo fim n&#227;o se projeta para fora, construtivamente, mas permanece sempre auto-referente &#8211; o processo de escolariza&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Ora, isso n&#227;o acontece por acaso. Um desenho institucional que rege a forma&#231;&#227;o de todos os jovens de um pa&#237;s, que define e organiza a escola pela qual todos os brasileiros devem passar &#8211; um desenho assim, que produz, por sua pr&#243;pria natureza, a decad&#234;ncia da nossa civiliza&#231;&#227;o, por meio da supress&#227;o das nossas maiores e melhores pot&#234;ncias, &#233; um desenho pol&#237;tico. A regularidade de resultados tenebrosos produzidos pela nossa institui&#231;&#227;o escolar, regida toda pelas normas e determina&#231;&#245;es do MEC, &#233; uma regularidade produzida por a&#231;&#227;o ou omiss&#227;o pol&#237;tica, ainda que ningu&#233;m o diga em voz alta &#8211; at&#233; porque, tenho certeza, ningu&#233;m nas Secretarias de Educa&#231;&#227;o ou no MEC sabe exatamente por que est&#225; fazendo o que faz.</p><p style="text-align: justify;">E assim seguimos, por decis&#227;o pol&#237;tica, sob governos de direita e de esquerda, d&#233;cada ap&#243;s d&#233;cada, desperdi&#231;ando a capacidade dos brasileiros, jogando fora aquilo de que mais precisamos: os engenheiros que n&#227;o formamos, os criadores que n&#227;o reconhecemos, os artistas que desprezamos, os l&#237;deres que empurramos para as margens da sociedade &#8211; uma riqueza que estava ali, mas que a escola deliberadamente, ativamente, decidiu destruir.</p><p style="text-align: justify;">A escola se apresenta como a institui&#231;&#227;o por excel&#234;ncia que descobre aptid&#245;es, que identifica as capacidades, que forma os futuros cidad&#227;os. Mas, de perto, descobrimos que ela faz o contr&#225;rio: &#233; nela que os talentos de milh&#245;es de pessoas, todos os anos, s&#227;o inviabilizados. Mas esses talentos n&#227;o somem simplesmente; eles ou definham, ou sobrevivem a duras penas, ou se pervertem. A nossa na&#231;&#227;o paga por tudo isso ao mesmo tempo: paga pelos capazes reprovados em s&#233;rie; paga pelos l&#237;deres tratados como encrenqueiros; paga pelos criadores cuja voca&#231;&#227;o foi considerada perda de tempo; e paga por todos os que, de um modo ou de outro, foram expulsos do conv&#237;vio institucional, e foram encontrar o seu lugar &#224;s margens.</p><p style="text-align: center;">* * *</p><p style="text-align: justify;">Para que serve uma escola?</p><p style="text-align: justify;">Se uma escola serve para encontrar, em cada crian&#231;a, as suas aptid&#245;es, e para desenvolver os seus talentos na dire&#231;&#227;o de sua voca&#231;&#227;o, ent&#227;o a nossa escola cumpre, metodicamente, em escala civilizat&#243;ria, o exato oposto de sua fun&#231;&#227;o &#8211; porque somente reconhece e valoriza um tipo de aptid&#227;o, a aptid&#227;o acad&#234;mica, e recusa todas as demais.</p><p style="text-align: justify;">Em vinte e sete anos de magist&#233;rio, fui professor em todos os n&#237;veis: no fundamental, no m&#233;dio, no superior, na p&#243;s-gradua&#231;&#227;o. Fui diretor e propriet&#225;rio de escola. Dei aulas no ensino m&#233;dio em Minas Gerais, no Rio de Janeiro, no Paran&#225;, em Santa Catarina; na rede de ensino estadual, fui professor concursado no Rio e no Paran&#225;. Fui professor universit&#225;rio no Brasil e em Portugal. Lecionei em escolas muito pobres, em regi&#245;es muito carentes e violentas; lecionei tamb&#233;m em escolas car&#237;ssimas cujo p&#250;blico era a elite econ&#244;mica. Vi e vivi muito na sala de aula. Da minha experi&#234;ncia, guardo uma certeza: h&#225;, em cada escola deste pa&#237;s, muito talento, muita voca&#231;&#227;o, muita genialidade &#8211; muit&#237;ssimo mais do que a institui&#231;&#227;o escolar pode reconhecer. Mas toda essa pot&#234;ncia de vida sai pela porta, ano ap&#243;s ano, sem que ningu&#233;m jamais a registre.</p><p style="text-align: justify;">Eis a primeira e maior responsabilidade de todos n&#243;s, brasileiros, professores ou n&#227;o, que nos preocupamos com o futuro: &#233; preciso reformular inteiramente o nosso modelo escolar &#8211; para que nele caibam todos os caminhos, e que esses caminhos sejam reconhecidos, acolhidos, incentivados e guiados. Sem isso, sem essa transforma&#231;&#227;o integral da nossa escola, n&#227;o haver&#225; nenhuma solu&#231;&#227;o para a civiliza&#231;&#227;o brasileira.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A ficção da igualdade]]></title><description><![CDATA[Quando escola igualit&#225;ria promove a desigualdade]]></description><link>https://bertoche.substack.com/p/a-ficcao-da-igualdade</link><guid isPermaLink="false">https://bertoche.substack.com/p/a-ficcao-da-igualdade</guid><dc:creator><![CDATA[Gustavo Bertoche]]></dc:creator><pubDate>Sun, 16 Aug 2026 11:04:14 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Mq70!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F28b92bf4-eb12-4daa-b1ec-862c25f3ddf4_1599x1599.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A escola igualit&#225;ria promove a desigualdade.</p><p style="text-align: justify;">Eu descobri isso muito cedo na minha carreira de professor. O discurso da igualdade na escola acaba produzindo o seu contr&#225;rio. Se cada crian&#231;a &#233; singular, todas as tentativas de normalizar os estudantes a partir de um &#250;nico padr&#227;o, todas as tentativas de torn&#225;-los <em>iguais</em>, sempre resultam em viol&#234;ncia.</p><p style="text-align: justify;">Nesse sentido, a escola &#233; um leito de Procusto.</p><p style="text-align: justify;">Voc&#234;s conhecem a lenda: Procusto oferecia pouso a quem percorria a estrada de El&#234;usis. Quem aceitava o abrigo dormia numa cama de ferro. Por&#233;m, Procusto era rigoroso com as medidas: os viajantes grandes demais para a cama tinham as pernas serradas, e os pequenos demais eram esticados - para, assim, caberem perfeitamente no leito.</p><p style="text-align: justify;">Ou seja: para Procusto, n&#227;o importava o bem-estar do viajante. Importava era a sua adapta&#231;&#227;o perfeita &#224; medida da cama.</p><p style="text-align: justify;">A nossa escola funciona de modo semelhante. Ela exige das crian&#231;as a adapta&#231;&#227;o a uma medida pr&#233;via e deliberada: a s&#233;rie, os hor&#225;rios, o curr&#237;culo, as notas. Todas as crian&#231;as, independentemente de seus talentos, independentemente de seus projetos, devem ter exatamente a mesma medida.</p><p style="text-align: justify;">Se ela for grande demais, ter&#225; as pernas quebradas.</p><p style="text-align: justify;">Se ela for demasiadamente pequena, ser&#225; esticada &#224; for&#231;a.</p><p style="text-align: justify;">E ela quase sempre &#233; ou grande demais, ou pequena demais.</p><p style="text-align: center;">* * *</p><p style="text-align: justify;">H&#225; crian&#231;as que chegam pequenas. Uma crian&#231;a pequena demais para o leito de Procusto a ela reservado freq&#252;entemente vem de onde a palavra &#233; escassa, os adultos n&#227;o l&#234;em livros, as refei&#231;&#245;es s&#227;o feitas com o prato na m&#227;o, em sil&#234;ncio, diante da televis&#227;o, e n&#227;o h&#225; tempo nem condi&#231;&#227;o para tratar de assuntos abstratos. Essa crian&#231;a n&#227;o acompanha a exig&#234;ncia acad&#234;mica da escola; o abismo entre o que ela traz e o que a escola exige logo se transforma em ju&#237;zo sobre a sua qualidade e em nota objetificada: ela &#233; fraca, ela &#233; lenta, ela n&#227;o leva jeito, &#233; pregui&#231;osa, &#233; burra. Acontece que a escola &#233; uma institui&#231;&#227;o que simultaneamente produz e legitima verdade &#8211; n&#227;o s&#243; verdade acad&#234;mica, como tamb&#233;m verdade moral. A crian&#231;a que escuta que &#233; incapaz acaba carregando essa medalha invertida pelo resto da vida: &#8220;eu sou lenta mesmo, eu sou fraca e pregui&#231;osa, eu realmente n&#227;o presto para muita coisa&#8221;; ela ter&#225; consigo, presa ao peito, a certeza de que o leito estava certo, e ela errada, e que a sua defasagem &#233; realmente sinal de falta de intelig&#234;ncia, de talento e de capacidade. Ela mansamente aceitar&#225; n&#227;o saber, e se conformar&#225; com o lugar de exclus&#227;o que lhe foi preparado na ordem social, sem jamais desconfiar que o erro nunca esteve nela &#8211; sem sequer saber formular que o problema estava na pr&#243;pria ordem escolar, que trata os diferentes como se fossem o mesmo.</p><p style="text-align: justify;">Outras crian&#231;as chegam grandes demais. A crian&#231;a que teve a sorte de vir de uma casa com muitos livros, viagens, conversas tranquilas sobre assuntos abstratos &#224; mesa, adultos dispon&#237;veis, e a certeza de que o estudo leva a algum lugar, dado o exemplo dos pr&#243;prios pais &#8211; essa crian&#231;a chega maior do que o leito de Procusto, porque traz de ber&#231;o o capital cultural que a escola cobra sem jamais ensinar. Ela aprende depressa; ela entende a explica&#231;&#227;o antes que o professor termine a li&#231;&#227;o, ou mesmo j&#225; a sabia antes de a aula come&#231;ar; resolve em tr&#234;s minutos o exerc&#237;cio preparado para ocupar os alunos por todo o restante da aula. Por&#233;m, em lugar de ser incentivada e encorajada, essa crian&#231;a &#233; reprimida: ela deve esperar, ela deve copiar do quadro (ou do <em>educatron</em>, a televis&#227;o em cada sala de aula que conheci no Paran&#225;) o que j&#225; sabe, ela deve refazer o dever, ela deve ajudar o colega do lado &#8211; tudo isso &#233; estrat&#233;gia para que ela interrompa o seu progresso, e para que n&#227;o exija do professor aquilo que ele n&#227;o pode lhe dar, porque o tempo &#233; limitado, porque ele precisa cuidar de trinta ou quarenta alunos ao mesmo tempo. Essa crian&#231;a descobre cedo o t&#233;dio escolar. Com o t&#233;dio, um outro aprendizado, que fica gravado para o resto da vida: pensar r&#225;pido n&#227;o compensa, sobressair atrai antipatia, aparecer faz mal, e &#233; preciso, enfim, esconder a sua capacidade. E, com isso, a escola produz uma invisibilidade de um tipo pouco explorado: a crian&#231;a com dificuldades, a crian&#231;a reprovada, aparece nos indicadores, e os media apontam, escandalizados, a m&#225; alfabetiza&#231;&#227;o dos nossos alunos; mas ningu&#233;m na escola, na imprensa, na classe pol&#237;tica se comove com a crian&#231;a que atrasa seu passo, fingindo-se de ocupada para n&#227;o chamar a aten&#231;&#227;o, murchando em sil&#234;ncio &#8211; porque essa crian&#231;a n&#227;o consta da estat&#237;stica: ela n&#227;o faz barulho, embora o seu custo seja car&#237;ssimo em termos civilizacionais.</p><p style="text-align: justify;">Some-se uma viol&#234;ncia &#224; outra: eis o tamanho do estrago produzido pela nossa escola contra as nossas crian&#231;as. O leito de Procusto da escola &#250;nica, da escola pensada em termos de igualdade, destr&#243;i quem chega pequeno, e tamb&#233;m quem chega j&#225; grande; ele &#233; preparado para um tamanho ao qual s&#243; por muita sorte algu&#233;m se ajustar&#225;.</p><p style="text-align: center;">* * *</p><p style="text-align: justify;">De todo modo, &#233; aquela crian&#231;a que j&#225; chega portadora do capital cultural exigido pela escola que, de um modo ou de outro, atravessar&#225; os doze anos da escolariza&#231;&#227;o obrigat&#243;ria sem ser humilhada; ela passar&#225; inc&#243;lume por todas as peneiras institucionais, das notas ao vestibular &#8211; n&#227;o porque a escola lhe prepara para isso, mas porque a prepara&#231;&#227;o para essas peneiras acad&#234;micas efetivamente n&#227;o &#233; realizada na escola. Um exemplo j&#225; do in&#237;cio do percurso: pede-se &#224; turma de segundo ano do fundamental uma reda&#231;&#227;o sobre uma viagem; a crian&#231;a que viajou escreve sobre o que viu, enquanto a que nunca saiu da sua cidade hesita e se cala; a nota registrar&#225; essa diferen&#231;a n&#227;o como o resultado de um desn&#237;vel social relativo &#224; sua condi&#231;&#227;o familiar, mas como diferen&#231;a objetiva de compet&#234;ncia individual. A medida &#250;nica da escola igualit&#225;ria avalia, essencialmente, <em>o que a crian&#231;a recebeu fora da escola</em>, avalia as circunst&#226;ncias familiares da crian&#231;a, estabelecendo como m&#233;rito o que &#233; simplesmente origem. A peneira da escola igualit&#225;ria deixa passar quem j&#225; vinha por cima e ret&#233;m quem j&#225; vinha por baixo &#8211; e faz isso com a consci&#234;ncia tranq&#252;ila de quem aplicou a todos a mesma prova. Isto &#233;: a igualdade de curr&#237;culo e de medida, oferecida como uma estrat&#233;gia de elimina&#231;&#227;o do privil&#233;gio, acaba reproduzindo e refor&#231;ando, agora com o peso de uma institui&#231;&#227;o, esse mesmo privil&#233;gio. Todavia, a escola promove o privil&#233;gio de modo muito mais perverso: se o privil&#233;gio exercido &#224; luz do dia provoca uma justa revolta, o privil&#233;gio disfar&#231;ado de prova igual para todos se exerce sem culpa, protegido pela apar&#234;ncia da igualdade.</p><p style="text-align: center;">* * *</p><p style="text-align: justify;">Isaiah Berlin escreveu, em 1958, um longo ensaio chamado &#8220;Dois Conceitos de Liberdade&#8221; (de cujas id&#233;ias parti para escrever e publicar, h&#225; uns vinte anos, &#8220;Democracia, Cidadania e Liberdade&#8221;, dispon&#237;vel, em PDF, a quem quiser procurar na internet). Nesse ensaio, Isaiah Berlin caracteriza a oposi&#231;&#227;o entre a &#8220;liberdade positiva&#8221;, que seria a liberdade dos antigos, e a &#8220;liberdade negativa&#8221;, a liberdade dos modernos; para ele, boa parte da incompreens&#227;o entre a direita e a esquerda teria, como fundo, uma confus&#227;o conceitual: sob a mesma palavra, &#8220;liberdade&#8221;, podem ser entendidas duas coisas completamente distintas.</p><p style="text-align: justify;">&#201; preciso fazer o mesmo tipo de distin&#231;&#227;o em rela&#231;&#227;o ao termo &#8220;igualdade&#8221;. Na escola, h&#225; a igualdade que consiste em dar o mesmo a todos &#8211; o mesmo curr&#237;culo, a mesma prova, o mesmo leito de ferro &#8211;, e h&#225; a igualdade que consiste em dar a cada um aquilo de que precisa para que possa florescer. O primeiro tipo de igualdade est&#225; estabelecido em fun&#231;&#227;o da oferta; o segundo tipo de igualdade est&#225; estabelecido em fun&#231;&#227;o de um conceito espec&#237;fico de justi&#231;a, o conceito proposto por Arist&#243;teles, segundo o qual a justi&#231;a consiste em tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais.</p><p style="text-align: justify;">O problema &#233; que, de modo geral, a escola brasileira n&#227;o formula essa diferen&#231;a entre os conceitos de igualdade. A igualdade &#233; sempre vista como uma qualidade desej&#225;vel <em>per se</em>, e com isso toda a discuss&#227;o &#233; automaticamente encerrada. Afinal, quem pode ser <em>a favor da desigualdade</em>? Ora, essa pergunta esconde um equ&#237;voco fundamental: a igualdade de tratamento, aplicada a crian&#231;as desiguais, s&#243; pode agravar a desigualdade com que elas vieram ao mundo. As mais inspiradoras das palavras &#8211; liberdade!, igualdade! &#8211; podem acabar conduzindo a institui&#231;&#245;es que efetivamente restringem, e mesmo eliminam, aquilo que juram promover.</p><p style="text-align: justify;">A igualdade que devemos &#224;s nossas crian&#231;as n&#227;o &#233; a igualdade atualmente oferecida, a igualdade de Procusto, na qual todos devem ter a mesma estatura. N&#227;o: a igualdade que lhes devemos &#233; a de considerar todos os talentos, capacidades, voca&#231;&#245;es e projetos dos nossos estudantes <em>igualmente</em> valiosos e importantes &#8211; cada um em seu caminho pr&#243;prio, e todos contribuindo, com sua singularidade, para a nossa civiliza&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">&#201; essa a escola que, nas pr&#243;ximas semanas e nos pr&#243;ximos meses, desenharemos aqui, um tra&#231;o de cada vez.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A escola de um só caminho]]></title><description><![CDATA[Quando igualdade &#233; injusti&#231;a]]></description><link>https://bertoche.substack.com/p/a-escola-de-um-so-caminho</link><guid isPermaLink="false">https://bertoche.substack.com/p/a-escola-de-um-so-caminho</guid><dc:creator><![CDATA[Gustavo Bertoche]]></dc:creator><pubDate>Sat, 08 Aug 2026 11:02:32 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Mq70!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F28b92bf4-eb12-4daa-b1ec-862c25f3ddf4_1599x1599.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>A origem de boa parte dos problemas da escola brasileira &#233; uma s&#243;: a nossa escola oferece uma forma&#231;&#227;o uniforme a crian&#231;as que possuem conhecimentos pr&#233;vios, ritmos de aprendizagem, interesses, necessidades e condi&#231;&#245;es sociais muito diferentes. Sim, &#233; assim t&#227;o simples, t&#227;o &#243;bvio, que custa acreditar que um mal t&#227;o grande caiba em um nome apenas: a forma de um caminho de m&#227;o &#250;nica, com um &#250;nico destino ao fim, percorrido por uma multid&#227;o de crian&#231;as que nada t&#234;m em comum sen&#227;o o fato de terem come&#231;ado a andar, pelo mesmo caminho e no mesmo passo, a partir do mesmo dia. Tudo o que eu vi &#8211; o curr&#237;culo que ningu&#233;m domina, o espa&#231;o que se amolda a esse desenho, o t&#233;dio das que ficaram para tr&#225;s, a ang&#250;stia de todas as outras &#8211; come&#231;a a fazer sentido no instante em que me dou conta de que, sob a apar&#234;ncia da desordem, h&#225; um princ&#237;pio &#250;nico ao qual cada coisa responde: o princ&#237;pio do uno.</p><p style="text-align: justify;">Imaginemos uma estrada. Numa fila, esperam crian&#231;as de toda esp&#233;cie: as que l&#234;em em voz alta com prazer e as que l&#234;em aos trope&#231;os; as que resolvem quebra-cabe&#231;as matem&#225;ticos e as que se perdem entre os n&#250;meros, ainda nos primeiros passos da contagem; as que sonham com motores, e n&#227;o com livros; e muitas outras que, at&#233; ali, nunca tiveram tempo nem meios para ler. A crian&#231;a r&#225;pida desacelera de vez, &#224; espera. A crian&#231;a lenta descobre que sua velocidade n&#227;o basta &#8211; &#233; como se tivesse as pernas quebradas dentro da pr&#243;pria cabe&#231;a. A crian&#231;a que deseja outro tipo de estrada fica perdida, sem saber qual &#233; a m&#227;o correta e qual &#233; a contram&#227;o. Mas todas elas entram numa pista de faixa &#250;nica, com carros passando a toda velocidade ao lado; uma estrada que todas t&#234;m de enfrentar enquanto tentam extrair sentido de coisas que, desde o come&#231;o, n&#227;o faziam sentido algum. E logo muitas delas concluem que n&#227;o s&#227;o capazes de seguir adiante. A &#250;nica coisa que se construiu sobre aquele asfalto foi uma fila: uma linha s&#243;, puxada na frente por uns poucos a quem o &#234;xito pertence, l&#225; no ponto final. Todos os demais ficam esperando do lado de fora, e ano ap&#243;s ano lhes informam que seu progresso &#233; pouco; que seus p&#233;s continuam distantes demais do destino, para o qual, ali&#225;s, quase n&#227;o h&#225; lugar. Depois de doze, treze, catorze anos de caminhada, restam pouqu&#237;ssimas vagas, porque sempre houve um destino s&#243;, um destino escasso. A sele&#231;&#227;o da minoria e a exclus&#227;o da maioria, que parecem defeitos do projeto, nada t&#234;m de defeituoso: s&#227;o os componentes b&#225;sicos do projeto mesmo, que funciona exatamente como deve.</p><p style="text-align: justify;">O &#250;nico caminho que essa escola reconhece termina no diploma superior &#8211; mais precisamente, na universidade que concede o diploma e, com ele, o acesso aos empregos de prest&#237;gio. Foi em torno dessa rota &#250;nica que a escola brasileira se organizou. Ela reconhece um s&#243; destino digno e pr&#243;prio para a sua juventude, e por isso permanece uma linha s&#243;. O curr&#237;culo inteiro &#233; uma grande proped&#234;utica: cada ano existe em fun&#231;&#227;o do ano seguinte, e todos existem em fun&#231;&#227;o de um ponto que a imensa maioria jamais alcan&#231;ar&#225;. Aos que n&#227;o chegam &#8211; e s&#227;o quase todos &#8211; resta a humilha&#231;&#227;o em massa e o desperd&#237;cio do tempo, dos anos e das capacidades de muit&#237;ssima gente. N&#227;o &#233; que falte talento; o talento &#233; que n&#227;o tem para onde ir. Confrontado com o fracasso, ele &#233; negado, e o desperd&#237;cio acaba convertido em mat&#233;ria-prima da pr&#243;pria institui&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: center;"><span>* * *</span></p><p style="text-align: justify;">A igualdade: quem ousaria, &#224; primeira vista, querer coisa diferente? Vamos supor, todavia, um m&#233;dico que, em nome da igualdade, receitasse a todos os doentes a mesma dose do mesmo rem&#233;dio, sem perguntar o peso, a idade ou o mal de cada um: chamar&#237;amos o seu gesto de justi&#231;a ou de imper&#237;cia? O que o Estado faz com os esp&#237;ritos &#233; exatamente o que esse m&#233;dico faria com os corpos: tratar de modo id&#234;ntico os que s&#227;o diferentes. Em outras palavras: incluir todos foi o gesto que se pareceu com a justi&#231;a; e quanto mais esse gesto se ampliou, mais injusti&#231;a produziu. A estrada concebida para incluir &#233; justamente a que exclui; o que mais se parece com a justi&#231;a &#233; o que mais produz injusti&#231;a; e a igualdade prometida na largada &#233; cobrada, com juros, na chegada. No limite, a escola de um s&#243; caminho funciona como uma m&#225;quina que recebe crian&#231;as desiguais e tem por of&#237;cio devolv&#234;-las desiguais, agora com a diferen&#231;a carimbada e com a apar&#234;ncia de que a culpa por n&#227;o terem conseguido sair com sucesso acad&#234;mico coube a cada uma.</p><p style="text-align: justify;">E a escola pode convencer a crian&#231;a de que ela &#233; incapaz. Depois de anos ouvindo, e enfim repetindo para si mesma, que &#233; atrasada, pregui&#231;osa, incapaz de acompanhar, ela acaba se identificando com a pr&#243;pria incapacidade e passa a acreditar que aquele &#233; o seu lugar verdadeiro. A senten&#231;a acaba pronunciada em seu pr&#243;prio peito, ressoando o que lhe disse, a partir de uma posi&#231;&#227;o de autoridade pedag&#243;gica, a sua escola. &#201; assim que a desigualdade produzida pela estrada se disfar&#231;a de desigualdade dos talentos, e a v&#237;tima assume a culpa do carrasco, saindo da escola sem o saber que lhe negaram e, por cima disso, persuadida de que merecia a nega&#231;&#227;o. Eis a obra-prima do sistema: fazer com que o exclu&#237;do assine, de pr&#243;prio punho, a sua exclus&#227;o.</p><p style="text-align: center;"><span>* * *</span></p><p style="text-align: justify;">Conv&#233;m desfazer, ent&#227;o, a maior das ilus&#245;es que sustentam esse arranjo: a ilus&#227;o de que o nosso modelo escolar &#233; natural. Fazemos de conta que ela sempre existiu assim, e que a forma&#231;&#227;o educacional passa necessariamente por essa estrada &#250;nica, como um rio corre pelo leito de sempre &#8211; e &#233; a isso que chamamos, sem mais exame, &#8220;sistema escolar&#8221;. Ora, &#233; justamente essa naturaliza&#231;&#227;o que o torna, em seu &#226;mago, um estado de coisas que n&#227;o se justifica e que, ao mesmo tempo, n&#227;o se deixa criticar. Por&#233;m, a estrada foi tra&#231;ada em algum momento: algu&#233;m decidiu o seu destino, algu&#233;m fixou o seu passo, algu&#233;m escolheu o que entraria no curr&#237;culo e o que ficaria de fora; onde h&#225; decis&#227;o, h&#225; interesse, e onde h&#225; um caminho &#250;nico com um fim escasso h&#225;, inevitavelmente, os que chegam e os que esperam. E os que chegam s&#227;o, com uma regularidade que nada deve ao acaso, as crian&#231;as que v&#234;m de onde aquela exata estrada j&#225; era falada, lida e percorrida h&#225; gera&#231;&#245;es. &#201; preciso perguntar, pois: quem desenharia uma estrada em que a maioria est&#225;, desde o primeiro dia, por v&#225;rias raz&#245;es &#8211; da desigualdade sociocultural &#224; varia&#231;&#227;o de talentos e interesses &#8211;, condenada a n&#227;o chegar? E por que raz&#227;o essa estrada permanece estabelecendo os caminhos de todas as crian&#231;as brasileiras, mesmo que enxerguemos, gera&#231;&#227;o ap&#243;s gera&#231;&#227;o, o seu completo fracasso? A resposta tem hist&#243;ria, e a essa hist&#243;ria voltarei nas pr&#243;ximas semanas; por enquanto, basta retirar do caminho &#250;nico o disfarce de fatalidade, e mostrar que ele &#233; uma escolha.</p><p style="text-align: center;"><span>* * *</span></p><p style="text-align: justify;">Tudo isso, que dito assim soa abstrato, revela-se concretamente todos os dias, em todas as escolas brasileiras. Tudo isso est&#225;, por exemplo, na sala de s&#233;timo ano em que um &#250;nico programa &#233; lido, no mesmo tom e no mesmo ritmo, para quarenta crian&#231;as que v&#227;o daquela que poderia discutir o assunto de igual para igual com o professor &#224;quela que ainda n&#227;o atravessou o par&#225;grafo de abertura, e em que o professor, encurralado pelo calend&#225;rio, segue adiante, deixando para tr&#225;s metade da turma para n&#227;o atrasar a outra metade, que tamb&#233;m ser&#225; deixada para tr&#225;s na semana seguinte. Est&#225;, por exemplo, na reuni&#227;o em que se diz a uma m&#227;e que o seu filho n&#227;o consegue acompanhar a turma, f&#243;rmula mansa e corriqueira que imputa a uma crian&#231;a um estigma permanente: a partir daquele momento, fica estabelecido que o seu filho &#233; um fracasso, porque ele se encontra num ponto da estrada diferente daquele onde a estrada o queria, numa estrada que ele escolheu e cujo destino ningu&#233;m lhe perguntou se desejava. Est&#225;, por exemplo, no boletim, que mede menos o que a crian&#231;a sabe e mais a sua posi&#231;&#227;o na coluna; est&#225; tamb&#233;m na recupera&#231;&#227;o, que manda andar mais depressa quem tem pernas que n&#227;o d&#227;o para aquele passo; est&#225;, enfim, no que acontece com aquela menina que copia sem entender e aprende a fingir, porque fingir &#233; o que resta a quem foi posto numa estrada onde n&#227;o cabe e da qual n&#227;o lhe permitem sair.</p><p style="text-align: justify;">A&#237; est&#225; a fic&#231;&#227;o pol&#237;tica que mant&#233;m impotente a nossa escola: a fic&#231;&#227;o da igualdade, a fic&#231;&#227;o de que todas as crian&#231;as precisam exatamente do mesmo curr&#237;culo, porque todas s&#227;o perfeitamente iguais. Oferecer a mesma estrada a todos os p&#233;s, e dizer que isso &#233; a necess&#225;ria igualdade, &#233; a primeira, e a pior, das injusti&#231;as que cometemos contra as nossas crian&#231;as na escola brasileira.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Sala de professores]]></title><description><![CDATA[Comecei a dar aulas no Ensino M&#233;dio em 1999, quando estava no segundo ano da gradua&#231;&#227;o em Filosofia.]]></description><link>https://bertoche.substack.com/p/sala-de-professores</link><guid isPermaLink="false">https://bertoche.substack.com/p/sala-de-professores</guid><dc:creator><![CDATA[Gustavo Bertoche]]></dc:creator><pubDate>Sun, 02 Aug 2026 11:01:20 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Mq70!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F28b92bf4-eb12-4daa-b1ec-862c25f3ddf4_1599x1599.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>Comecei a dar aulas no Ensino M&#233;dio em 1999, quando estava no segundo ano da gradua&#231;&#227;o em Filosofia. H&#225; vinte e sete anos passei a freq&#252;entar a sala de professores.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Naquele ambiente, quase n&#227;o presenciei discuss&#245;es sobre processo pedag&#243;gico, sobre curr&#237;culo, sobre m&#233;todos de ensino. Em lugar disso, ouvi com enorme regularidade reclama&#231;&#245;es quanto a prazos para entrega de notas, quanto a sal&#225;rios baixos, quanto a alunos &#8220;mal-educados&#8221;, quanto a resultados de jogos de futebol.</span></p><p style="text-align: center;"><span>* * *</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Um professor &#233; um intelectual. O seu principal instrumento profissional &#233; o seu pensamento &#8211; o que inclui a sua mem&#243;ria, a sua erudi&#231;&#227;o e a sua capacidade de reflex&#227;o. Por isso, sup&#245;e-se que ele seja capaz de refletir sobre o seu trabalho, isto &#233;: sobre o sentido da Educa&#231;&#227;o, sobre a meta do processo pedag&#243;gico, sobre os m&#233;todos adequados ou inadequados para que essa meta seja alcan&#231;ada.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Todavia, at&#233; recentemente raras vezes havia encontrado colegas educadores interessados em discutir a pr&#243;pria Educa&#231;&#227;o. Quando levantava a quest&#227;o, a maior parte das rea&#231;&#245;es dos meus colegas variava entre a galhofa e a repreens&#227;o &#8211; sim, repreens&#227;o, sob a acusa&#231;&#227;o corporativista de que eu estaria atrapalhando os interesses de classe.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Por &#8220;interesse de classe&#8221;, entendam-se dois interesses distintos: de um lado, os professores da rede particular, interessados em manter a maior carga hor&#225;ria semanal poss&#237;vel para aumentar o seu sal&#225;rio; de outro lado, os professores da rede p&#250;blica, interessados em pegar a menor carga hor&#225;ria semanal poss&#237;vel quando t&#234;m um sal&#225;rio fixo. Esses interesses divergentes convergem, dialeticamente, na busca pela maior efici&#234;ncia: pela obten&#231;&#227;o do maior sal&#225;rio poss&#237;vel, com o menor esfor&#231;o poss&#237;vel.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Essa situa&#231;&#227;o &#233; compreens&#237;vel: viver no Brasil &#233; dif&#237;cil. Parece que tudo conspira contra n&#243;s: o Estado sempre nos atrapalhando, os diversos fen&#244;menos da viol&#234;ncia nos restringindo a a&#231;&#227;o, os sal&#225;rios baixos, a falta de incentivos para a forma&#231;&#227;o continuada. O trabalho intelectual padece ainda de outro mal: o desprezo do governo e do povo diante da produ&#231;&#227;o acad&#234;mica. Os professores n&#227;o s&#227;o incentivados a pensar, a estudar, a pesquisar: a busca incessante da satisfa&#231;&#227;o das condi&#231;&#245;es materiais para a sua sobreviv&#234;ncia &#233; um obst&#225;culo real &#224; reflex&#227;o sobre o processo educacional.</span></p><p style="text-align: center;"><span>* * *</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Com isso, n&#243;s, professores brasileiros, acabamos por naturalizar a nossa situa&#231;&#227;o profissional absurda: como denunciou em 1952 o f&#237;sico Richard Feynman, ensinamos os nossos alunos &#8220;a resolver provas&#8221;, mas ignoramos o porqu&#234; e o para qu&#234; disso. Adestramos os estudantes a solucionar exerc&#237;cios sobre o conte&#250;do do curr&#237;culo, do livro did&#225;tico, da &#8220;apostila&#8221;, mas jamais refletimos sobre as raz&#245;es, as metas e as conseq&#252;&#234;ncias do ensino desse conte&#250;do.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Quase sempre queremos simplesmente &#8220;cumprir o planejamento&#8221; para evitar aborrecimentos. Se o curr&#237;culo expl&#237;cito nesse planejamento n&#227;o tem nenhuma liga&#231;&#227;o com o talento e a voca&#231;&#227;o de um aluno, o problema n&#227;o &#233; nosso. Se n&#227;o existe nenhuma conex&#227;o do conte&#250;do curricular com a vida social e espiritual dos estudantes, n&#227;o &#233; nosso o problema.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Se vamos &#8220;reprovar&#8221; crian&#231;as por n&#227;o conseguirem resolver exerc&#237;cios sobre assuntos com que jamais se deparar&#227;o na vida, o problema &#233; delas.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>N&#227;o nos importa que o curr&#237;culo seja absurdo, que os m&#233;todos pedag&#243;gicos sejam ma&#231;antes, que n&#227;o exista nenhuma liga&#231;&#227;o do mundo escolar com a vida real. Estamos cumprindo o nosso trabalho, e &#233; isso o que importa.</span></p><p style="text-align: center;"><span>* * *</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O que poucos professores percebem &#233; que, ao participarmos dessa fantasia que s&#227;o as nossas escolas, agimos diretamente para a perpetua&#231;&#227;o e a amplia&#231;&#227;o da pobreza material, intelectual e espiritual da nossa sociedade.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Afinal, ao lado do curr&#237;culo oficial que n&#227;o tem o menor sentido existe outro, bem mais influente: o curr&#237;culo oculto. E qual &#233; o nosso curr&#237;culo oculto?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Em outras palavras: o que ensinamos realmente na escola enquanto fingimos ensinar a mat&#233;ria curricular?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>- Ensinamos a realizar atividades absurdas, sem prop&#243;sito claro, com a finalidade de obter notas abstratas que decidir&#227;o o futuro deles;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>- ensinamos a obedecer &#224; autoridade, a baixar a cabe&#231;a diante de ordens arbitr&#225;rias;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>- ensinamos que os alunos n&#227;o t&#234;m direito nem mesmo &#224; autonomia do pr&#243;prio corpo, ao autorizarmos ou desautorizarmos o ato de ir ao banheiro, de beber &#225;gua, de sentar-se ou de levantar-se;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>- ensinamos que n&#227;o &#233; preciso saber nada de fato, mas sim dar a impress&#227;o de saber, para que seja resolvida uma prova com quest&#245;es muito parecidas com aquelas que foram resolvidas em classe;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>- enfim, ensinamos a ser desonestos, quando marcamos uma avalia&#231;&#227;o e esperamos que os alunos estudem especificamente para ela; memorizar textos e solu&#231;&#245;es de exerc&#237;cios no dia anterior, para uso utilit&#225;rio e imediato esquecimento ap&#243;s a prova, &#233; um tipo de cola, &#233; um tipo de desonestidade intelectual. E somos n&#243;s, professores, quem encorajamos, por a&#231;&#227;o ou omiss&#227;o, essa m&#225; utiliza&#231;&#227;o das faculdades cognitivas dos estudantes.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Isso significa que a nossa escola, longe de ser a solu&#231;&#227;o para os problemas estruturais da nossa sociedade, &#233; em grande parte causa deles. A escola brasileira &#233; uma escola de autoritarismo e de desonestidade, e o seu curr&#237;culo oculto se constitui essencialmente de li&#231;&#245;es de obedi&#234;ncia e de &#8220;jeitinho&#8221;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Isso tudo vale tanto para a escola p&#250;blica quanto para a privada. Digam o que disserem os an&#250;ncios publicit&#225;rios das redes de escolas particulares, simplesmente n&#227;o h&#225; boas institui&#231;&#245;es escolares no Brasil &#8211; n&#227;o, pelo menos, entre as que seguem o curr&#237;culo oficial, e certamente n&#227;o entre as que preparam para o vestibular ou para o Enem. E &#233; preciso dizer: do ponto de vista da forma&#231;&#227;o humana, as escolas que est&#227;o no topo do </span><em><span>ranking</span></em><span> do Enem geralmente s&#227;o as piores que podemos encontrar.</span></p><p style="text-align: center;"><span>* * *</span></p><p style="text-align: justify;"><span>E de onde vem esse nosso curr&#237;culo oficial?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A despeito de v&#225;rias reformas na legisla&#231;&#227;o educacional brasileira, ainda vivemos sob a sombra da organiza&#231;&#227;o escolar imposta pelos militares por meio da lei 5692/71. Essa lei estabelecia o curr&#237;culo b&#225;sico que ainda hoje se faz presente nos vestibulares e nos livros did&#225;ticos.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A lei 5692/71 determinava a forma&#231;&#227;o focada no mercado de trabalho t&#233;cnico-industrial t&#237;pico dos anos 60 e 70: os governantes militares queriam que a maior parte dos estudantes brasileiros sa&#237;sse do Segundo Grau pronta para assumir postos t&#233;cnicos numa f&#225;brica ou para cursar uma faculdade de Engenharia. Da&#237; a &#234;nfase desmedida na &#225;rea de ci&#234;ncias naturais que ainda vemos no nosso curr&#237;culo.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>E o resultado disso? Al&#233;m de termos um curr&#237;culo oficial generalista, autorit&#225;rio e absurdo, que n&#227;o leva em considera&#231;&#227;o as aptid&#245;es e voca&#231;&#245;es dos nossos alunos, a nossa escola prepara para os empregos de 50 anos atr&#225;s.</span></p><p style="text-align: center;"><span>* * *</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Mas nada disso &#233; discutido na sala de professores. Afinal, os professores s&#227;o intelectuais que, por for&#231;a das circunst&#226;ncias, acabam por abandonar a reflex&#227;o, transformando-se em t&#233;cnicos do ensino: profissionais preocupados com os aspectos pr&#225;ticos do seu trabalho, sem o interesse em compreender as raz&#245;es e as conseq&#252;&#234;ncias do que fazem.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Os nossos professores escolares, portanto, quase nunca educam: eles escolarizam. E a escolariza&#231;&#227;o que eles proporcionam &#233; completamente equivocada: est&#225; distante dos interesses e das aptid&#245;es dos nossos alunos, est&#225; apartada das necessidades da vida da sociedade e do esp&#237;rito, ensina a desonestidade e o fingimento, e prepara os jovens para um mundo que j&#225; n&#227;o mais existe.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Afinal, os termos </span><em><span>escolariza&#231;&#227;o</span></em><span> e </span><em><span>Educa&#231;&#227;o</span></em><span> n&#227;o s&#227;o sin&#244;nimos. Uma escola pode deseducar; &#233; a situa&#231;&#227;o que infelizmente encontramos no nosso pa&#237;s. Neste caso, mais escolariza&#231;&#227;o significa menos Educa&#231;&#227;o, significa mais estupidez, significa mais desonestidade.</span></p><p style="text-align: center;"><span>* * *</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A escola &#233; importante: ela &#233; a institui&#231;&#227;o basilar da Modernidade. Por&#233;m, da&#237; n&#227;o se segue que devamos defender todos os sistemas escolares. H&#225; sistemas escolares viciosos, que mais prejudicam do que beneficiam os indiv&#237;duos e a sociedade. Em nome da Educa&#231;&#227;o, eles precisam ser reinventados para que possam propiciar algo que entre n&#243;s &#233; quase desconhecido: uma escola educadora. Uma escola educadora, com professores que n&#227;o sejam meros t&#233;cnicos da Educa&#231;&#227;o: com professores que sejam tamb&#233;m educadores, e que na sala de professores tenham prazer em criar estrat&#233;gias conjuntas para impulsionar o talento espec&#237;fico de cada um dos seus alunos.</span></p><p style="text-align: justify;">Ser&#225; que um dia poderemos ter salas de professores assim em todas as escolas?</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Vi e aprendi]]></title><description><![CDATA[Sobre uma trag&#233;dia sem culpados]]></description><link>https://bertoche.substack.com/p/vi-e-aprendi</link><guid isPermaLink="false">https://bertoche.substack.com/p/vi-e-aprendi</guid><dc:creator><![CDATA[Gustavo Bertoche]]></dc:creator><pubDate>Sun, 26 Jul 2026 11:02:38 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Mq70!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F28b92bf4-eb12-4daa-b1ec-862c25f3ddf4_1599x1599.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Por muitos anos, senti que havia algo errado na escola, sem conseguir formular com clareza o que me perturbava. A atitude desinteressada de muitos colegas professores, o conte&#250;do desconectado da vida real, o sofrimento das crian&#231;as &#8211; tudo aquilo me parecia ruim, mas inevit&#225;vel: era o pre&#231;o pago pelo aprendizado. Demorei a entender que sob aquele mal-est&#8230;</p>
      <p>
          <a href="/__u/bertoche.substack.com/p/vi-e-aprendi">
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          </a>
      </p>
   ]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A partir de amanhã, uma série de ensaios]]></title><description><![CDATA[Amanh&#227; come&#231;arei uma longa s&#233;rie de ensaios.]]></description><link>https://bertoche.substack.com/p/a-partir-de-amanha-uma-serie-de-ensaios</link><guid isPermaLink="false">https://bertoche.substack.com/p/a-partir-de-amanha-uma-serie-de-ensaios</guid><dc:creator><![CDATA[Gustavo Bertoche]]></dc:creator><pubDate>Sat, 25 Jul 2026 13:53:38 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Mq70!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F28b92bf4-eb12-4daa-b1ec-862c25f3ddf4_1599x1599.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Amanh&#227; come&#231;arei uma longa s&#233;rie de ensaios.</p><p>Eu passei quase trinta anos dentro da escola brasileira. Estive em v&#225;rios lugares institucionais: no lugar de aluno, de professor, de diretor, de formador de professores. Vi de perto o que a institui&#231;&#227;o escolar faz com as crian&#231;as. Demorei a compreender que o que inicialmente me parecia um pre&#231;o necess&#225;rio a s&#8230;</p>
      <p>
          <a href="/__u/bertoche.substack.com/p/a-partir-de-amanha-uma-serie-de-ensaios">
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          </a>
      </p>
   ]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A hiperatividade, a escola e a revolução industrial]]></title><description><![CDATA[Ou: como o sistema econ&#244;mico utiliza a medicina para normalizar os trabalhadores]]></description><link>https://bertoche.substack.com/p/a-hiperatividade-a-escola-e-a-revolucao</link><guid isPermaLink="false">https://bertoche.substack.com/p/a-hiperatividade-a-escola-e-a-revolucao</guid><dc:creator><![CDATA[Gustavo Bertoche]]></dc:creator><pubDate>Sun, 19 Jul 2026 11:01:29 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Mq70!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F28b92bf4-eb12-4daa-b1ec-862c25f3ddf4_1599x1599.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Por que h&#225; muito mais crian&#231;as e adolescentes hiperativos hoje do que havia h&#225; trinta anos?</p><p>Porque a escola n&#227;o percebeu a transforma&#231;&#227;o social profunda que teve in&#237;cio nos anos 1990. Devido &#224; sua incapacidade de enxergar para al&#233;m dos seus muros, ela permaneceu a mesma quando a sociedade mudou; at&#233; hoje, ela segue preparando os jovens para o mundo de 19&#8230;</p>
      <p>
          <a href="/__u/bertoche.substack.com/p/a-hiperatividade-a-escola-e-a-revolucao">
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          </a>
      </p>
   ]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A responsabilidade da escola]]></title><description><![CDATA[Ou: &#233; poss&#237;vel ser bem-intencionado num sistema perverso.]]></description><link>https://bertoche.substack.com/p/a-responsabilidade-da-escola</link><guid isPermaLink="false">https://bertoche.substack.com/p/a-responsabilidade-da-escola</guid><dc:creator><![CDATA[Gustavo Bertoche]]></dc:creator><pubDate>Sat, 18 Jul 2026 11:01:50 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Mq70!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F28b92bf4-eb12-4daa-b1ec-862c25f3ddf4_1599x1599.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Em v&#225;rios textos (inclusive no meu livro &#8220;Escola Brasileira&#8221;) eu me refiro &#224; responsabilidade da escola na organiza&#231;&#227;o da sociedade - inclusive na prepara&#231;&#227;o de grande parte do que h&#225; de pior em nosso pa&#237;s: a ignor&#226;ncia, a corrup&#231;&#227;o, a superficialidade, a credulidade, a mansid&#227;o diante da injusti&#231;a.</p><p>Sempre que escrevo isso algu&#233;m reclama: &#8220;n&#227;o podemos re&#8230;</p>
      <p>
          <a href="/__u/bertoche.substack.com/p/a-responsabilidade-da-escola">
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          </a>
      </p>
   ]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Crise existencial, crise cultural]]></title><description><![CDATA[E crise metaf&#237;sica]]></description><link>https://bertoche.substack.com/p/crise-existencial-crise-cultural</link><guid isPermaLink="false">https://bertoche.substack.com/p/crise-existencial-crise-cultural</guid><dc:creator><![CDATA[Gustavo Bertoche]]></dc:creator><pubDate>Fri, 17 Jul 2026 23:30:07 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Mq70!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F28b92bf4-eb12-4daa-b1ec-862c25f3ddf4_1599x1599.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Thomas Niederkrotenthale, professor do departamento de Medicina Social e Preventiva da Universidade de Viena, coordenou um estudo, publicado no BMJ em dezembro de 2021, sobre os &#237;ndices de suic&#237;dio na popula&#231;&#227;o norte-america entre 2010 e 2018.</p><p>A interessante conclus&#227;o da pesquisa: no m&#234;s subseq&#252;ente a tr&#234;s eventos particulares, a Lifeline (uma linha tele&#8230;</p>
      <p>
          <a href="/__u/bertoche.substack.com/p/crise-existencial-crise-cultural">
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          </a>
      </p>
   ]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Eu acuso!]]></title><description><![CDATA[O desastre da escola brasileira]]></description><link>https://bertoche.substack.com/p/eu-acuso</link><guid isPermaLink="false">https://bertoche.substack.com/p/eu-acuso</guid><dc:creator><![CDATA[Gustavo Bertoche]]></dc:creator><pubDate>Fri, 17 Jul 2026 18:09:48 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Mq70!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F28b92bf4-eb12-4daa-b1ec-862c25f3ddf4_1599x1599.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Sou professor doutor em Filosofia. Trabalhei no ensino b&#225;sico e superior, tanto na rede p&#250;blica quanto na particular. Fui propriet&#225;rio e diretor de uma escola que atuava no ensino fundamental. Lecionei numa universidade particular no Rio de Janeiro; na Federal de Ouro Preto; na Universidade da Beira Interior, em Portugal; na Universidade Estadual do Par&#8230;</p>
      <p>
          <a href="/__u/bertoche.substack.com/p/eu-acuso">
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          </a>
      </p>
   ]]></content:encoded></item></channel></rss>