<script data-pm-proxy="intercept"></script><?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Bruna Liana]]></title><description><![CDATA[Uma miscelânia de ideias, pensamentos e indagações.]]></description><link>https://brunaliana.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!JaSV!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbrunaliana.substack.com%2Fimg%2Fsubstack.png</url><title>Bruna Liana</title><link>https://brunaliana.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Thu, 03 Sep 2026 12:22:08 GMT</lastBuildDate><atom:link href="/__u/brunaliana.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Bruna Liana]]></copyright><language><![CDATA[pt]]></language><webMaster><![CDATA[brunaliana@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[brunaliana@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Bruna Liana]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Bruna Liana]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[brunaliana@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[brunaliana@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Bruna Liana]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[Quando nenhum sinal é suficiente]]></title><description><![CDATA[Sobre a incredulidade que n&#227;o procura respostas, mas desculpas para n&#227;o se converter.]]></description><link>https://brunaliana.substack.com/p/quando-nenhum-sinal-e-suficiente</link><guid isPermaLink="false">https://brunaliana.substack.com/p/quando-nenhum-sinal-e-suficiente</guid><dc:creator><![CDATA[Bruna Liana]]></dc:creator><pubDate>Mon, 20 Jul 2026 15:06:35 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/0fbf2cc3-657e-48a7-a034-ee8358ac2203_1672x941.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>H&#225; um certo tipo de incredulidade proveniente n&#227;o da aus&#234;ncia de sinais, mas da recusa em aceitar aquilo que os sinais exigem de n&#243;s. Foi essa disposi&#231;&#227;o que Cristo encontrou nos escribas e fariseus quando lhe pediram uma nova demonstra&#231;&#227;o de seu poder, como se tudo o que j&#225; haviam visto e ouvido ainda n&#227;o fosse suficiente. N&#227;o buscavam uma raz&#227;o para crer; buscavam um pretexto para permanecer onde estavam, protegidos da convers&#227;o que a presen&#231;a de Jesus lhes impunha.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Quem decidiu n&#227;o acreditar sempre exigir&#225; mais uma prova. Quando ela vier, encontrar&#225; uma explica&#231;&#227;o que a torne insuficiente, duvidosa ou incompleta e, logo depois, pedir&#225; outra. A exig&#234;ncia de sinais torna-se um mecanismo pelo qual o homem mant&#233;m Deus sob julgamento, reservando para si o direito de decidir quando Ele ter&#225; finalmente apresentado credenciais suficientes para ser obedecido. Por tr&#225;s dessa aparente prud&#234;ncia costumeiramente reside uma mal&#237;cia profunda: n&#227;o queremos conhecer a vontade de Deus, mas submet&#234;-la aos nossos crit&#233;rios; n&#227;o desejamos que Ele nos conduza, mas que confirme aquilo que j&#225; decidimos fazer.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Jesus n&#227;o aceita participar desse jogo. Aos que lhe pedem um sinal, oferece o sinal de Jonas, an&#250;ncio de sua morte e ressurrei&#231;&#227;o. N&#227;o se trata de mais uma manifesta&#231;&#227;o destinada a alimentar a curiosidade, mas do acontecimento diante do qual toda neutralidade se torna imposs&#237;vel. Cristo n&#227;o veio ao mundo para satisfazer a necessidade humana de acumular provas, e sim para chamar cada pessoa &#224; convers&#227;o. Sua ressurrei&#231;&#227;o n&#227;o &#233; um espet&#225;culo acrescentado aos demais milagres, mas a revela&#231;&#227;o definitiva de quem Ele &#233; e daquilo que espera de n&#243;s.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A compara&#231;&#227;o com os habitantes de N&#237;nive torna a advert&#234;ncia ainda mais severa. Eles se converteram diante da prega&#231;&#227;o de Jonas, enquanto aquela gera&#231;&#227;o permanecia endurecida diante de algu&#233;m infinitamente maior. A rainha do Sul percorreu uma longa dist&#226;ncia para ouvir a sabedoria de Salom&#227;o, enquanto os homens que tinham diante de si a pr&#243;pria Sabedoria encarnada continuavam exigindo sinais. O problema nunca foi a escassez de evid&#234;ncias, mas a falta de docilidade e abertura &#224; Gra&#231;a para reconhecer o que j&#225; lhes havia sido dado.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Tamb&#233;m n&#243;s podemos transformar a espera por um sinal em uma maneira religiosa de adiar a obedi&#234;ncia. Pedimos que Deus esclare&#231;a aquilo que j&#225; compreendemos, confirme aquilo que j&#225; nos mostrou e repita aquilo que j&#225; nos disse, como se a sua voz precisasse vencer todas as resist&#234;ncias que escolhemos conservar. Muitas vezes, afirmamos que acreditar&#237;amos se Deus agisse de modo mais evidente, quando, no fundo, sabemos que uma manifesta&#231;&#227;o ainda maior apenas nos obrigaria a procurar uma desculpa mais sofisticada.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Deus continua oferecendo sinais, mas eles n&#227;o dispensam a liberdade humana de responder. Est&#227;o nas gra&#231;as recebidas, nas palavras que nos alcan&#231;aram no momento necess&#225;rio, nas portas que foram abertas ou fechadas, na verdade que a consci&#234;ncia insiste em recordar e, acima de tudo, em Cristo, morto e ressuscitado. A f&#233; n&#227;o exige que abandonemos a raz&#227;o; exige que deixemos de utilizar a raz&#227;o como abrigo para uma vontade que se recusa a mudar.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Devaneios sobre o teste do tempo.]]></title><description><![CDATA[Um ode sobre o verdadeiro significado do amor.]]></description><link>https://brunaliana.substack.com/p/devaneios-sobre-o-teste-do-tempo</link><guid isPermaLink="false">https://brunaliana.substack.com/p/devaneios-sobre-o-teste-do-tempo</guid><dc:creator><![CDATA[Bruna Liana]]></dc:creator><pubDate>Thu, 16 Jul 2026 16:53:16 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/68c2499e-bb63-4655-a6fc-63115845555f_1536x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>Triste &#233;poca a nossa, em que tentam nos convencer a todo custo de que o amor precisa ser sentido o tempo inteiro, em sua m&#225;xima intensidade.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Se um dia acordamos menos entusiasmados, alguma coisa parece errada. Se a rotina chega, imaginamos que a paix&#227;o morreu. Se o outro j&#225; n&#227;o provoca o mesmo frio na barriga, come&#231;amos a suspeitar que talvez tenhamos escolhido a pessoa errada.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#201; curioso como aprendemos a desconfiar da paz.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Talvez porque tenhamos sido educados por uma cultura que associa amor &#224; intensidade. Filmes, m&#250;sicas, redes sociais &#8211; tudo parece repetir que amar &#233; viver permanentemente &#224; beira de um precip&#237;cio emocional. H&#225; sempre uma nova emo&#231;&#227;o para buscar, uma nova experi&#234;ncia para sentir, uma nova pessoa capaz de despertar aquilo que a anterior deixou de provocar.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Bauman chamou esse fen&#244;meno de amor l&#237;quido. Rela&#231;&#245;es constru&#237;das para durar apenas enquanto produzem satisfa&#231;&#227;o imediata. La&#231;os que existem sob a condi&#231;&#227;o silenciosa de nunca exigirem peso demais.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Fato inconteste &#233; que nenhum relacionamento sobrevive se depender apenas do entusiasmo.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ao fim e ao cabo, o entusiasmo &#233; um visitante. A fidelidade &#233; quem constr&#243;i a casa.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Existe um momento praticamente can&#244;nico em toda rela&#231;&#227;o no qual os sentimentos deixam de ser suficientes. N&#227;o porque desapareceram, mas porque amadureceram. Quando amar deixa de significar &#8220;sentir muito&#8221; para significar &#8220;continuar escolhendo&#8221;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Neste exato ponto &#233; que muitos largam tudo. Desistem quando chegam &#224; p&#225;gina 2. Porque descobriram que o amor tamb&#233;m tem ter&#231;a-feira. Tamb&#233;m tem contas para pagar, conversas dif&#237;ceis, sil&#234;ncios, cansa&#231;o, desencontros, dias comuns. E os dias comuns n&#227;o oferecem a descarga de dopamina que nossa &#233;poca aprendeu a confundir com felicidade.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Vivemos t&#227;o acostumados ao est&#237;mulo constante que a estabilidade come&#231;ou a parecer t&#233;dio. Esquecemos que estabilidade nunca teve a ver com t&#233;dio, mas sim com descanso.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Os melhores relacionamentos n&#227;o s&#227;o aqueles em que nunca existe conflito, mas aqueles em que o conflito n&#227;o coloca o v&#237;nculo em d&#250;vida. Aqueles em que uma discuss&#227;o n&#227;o faz nascer o medo do abandono. Aqueles em que n&#227;o precisamos interpretar cada sil&#234;ncio como um pren&#250;ncio do fim.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Existe uma paz dif&#237;cil de explicar quando sabemos que o outro continuar&#225; ali amanh&#227;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>N&#227;o porque acordar&#225; apaixonado todos os dias. Nem porque jamais sentir&#225; d&#250;vidas. Mas porque decidiu permanecer, e leva essa decis&#227;o a s&#233;rio.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Considero que seja uma das grandes d&#225;divas humanas poder descansar na palavra de algu&#233;m.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Saber que ela n&#227;o reconstruir&#225; toda a rela&#231;&#227;o a partir do humor daquela manh&#227;. Que um dia ruim n&#227;o ser&#225; suficiente para apagar anos de hist&#243;ria. Que as emo&#231;&#245;es ter&#227;o voz, mas n&#227;o ocupar&#227;o o lugar da vontade.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>N&#243;s nos tornamos ansiosos quando nunca sabemos qual vers&#227;o do outro encontraremos. Quando todo desacordo parece uma amea&#231;a. Quando cada oscila&#231;&#227;o emocional pode significar uma ruptura.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#201; imposs&#237;vel repousar num ch&#227;o que muda de lugar todos os dias.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Desconfio ser esta uma das pobrezas afetivas do nosso tempo: n&#227;o a falta de paix&#227;o, mas a falta de pessoas capazes de sustentar aquilo que um dia escolheram.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Confundimos autenticidade com espontaneidade. Como se toda emo&#231;&#227;o precisasse ser obedecida imediatamente. Esquecemos do fato de que os sentimentos s&#227;o excelentes conselheiros, por&#233;m p&#233;ssimos governantes.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Nenhum casamento, nenhuma amizade profunda, nenhuma fam&#237;lia atravessa os anos porque seus membros sentiram exatamente a mesma coisa todos os dias. Eles atravessam porque algu&#233;m permaneceu quando teria sido mais f&#225;cil partir.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Porque algu&#233;m sustentou uma promessa mesmo quando a emo&#231;&#227;o j&#225; n&#227;o fazia o trabalho sozinha. Porque algu&#233;m compreendeu que o amor n&#227;o &#233; apenas aquilo que sentimos pelo outro; &#233; tamb&#233;m aquilo que fazemos quando deixamos de sentir.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Amar, no fim das contas &#233; dar ao outro um lugar onde ele possa descansar. Onde ele n&#227;o precise conquistar novamente o pr&#243;prio espa&#231;o a cada manh&#227;. Onde n&#227;o viva em estado de alerta, tentando adivinhar se ainda &#233; amado. Onde saiba que os sentimentos podem mudar de intensidade sem que a decis&#227;o de permanecer mude junto com eles.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Infelizmente para n&#243;s, meros mortais, esta &#233; uma das formas mais raras de amor  nos dias de hoje. Talvez justamente por isso, uma das mais belas.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A perda silenciosa do espanto.]]></title><description><![CDATA[Demorei, mas voltei!]]></description><link>https://brunaliana.substack.com/p/a-perda-silenciosa-do-espanto</link><guid isPermaLink="false">https://brunaliana.substack.com/p/a-perda-silenciosa-do-espanto</guid><dc:creator><![CDATA[Bruna Liana]]></dc:creator><pubDate>Tue, 17 Feb 2026 15:44:33 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!bYfM!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3e28249e-6594-40b6-8a9a-4d1200805b2f_1536x1024.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" 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E o motivo foi: uma inquieta&#231;&#227;o &#8220;deveras inquietante&#8221;.</p><p>Estava preparando um material sobre a Teologia do Corpo, de S&#227;o Jo&#227;o Paulo II, para pais e professores, refletindo sobre a import&#226;ncia de preservarmos a pureza do cora&#231;&#227;o das nossas crian&#231;as, quando me perguntei: e a nossa pureza? Onde foi parar?</p><p>Entre o Carnaval rec&#233;m-passado, o iminente in&#237;cio da Quaresma e as leituras lit&#250;rgicas que falam do endurecimento do cora&#231;&#227;o dos Ap&#243;stolos &#8212; influenciados pelos fariseus e herodianos &#8212; percebi o quanto &#233; f&#225;cil endurecermos o nosso cora&#231;&#227;o &#8220;por osmose&#8221;. Mesmo sem participa&#231;&#227;o ativa, somos atingidos. N&#227;o &#233; preciso estar no centro da desordem para ser lentamente moldado por ela.</p><p>Em alguns momentos, a paisagem moral de uma cultura se revela sem disfarces: m&#225;scaras, sons, corpos expostos, excessos celebrados. O que durante meses permanece dilu&#237;do emerge com naturalidade. Mas o que mais impressiona n&#227;o &#233; o esc&#226;ndalo expl&#237;cito &#8212; &#233; a normaliza&#231;&#227;o silenciosa. O mundo aprende a chamar de leve o que &#233; grave, de liberdade o que &#233; desordem, de express&#227;o o que &#233; exposi&#231;&#227;o. E quase sem perceber, come&#231;amos a relativizar.</p><p>S&#227;o Jo&#227;o escreve com clareza: &#8220;O mundo inteiro jaz sob o poder do maligno&#8221; (1Jo 5,19). N&#227;o &#233; pessimismo, &#233; realismo espiritual. Santo Agostinho lembrava que duas cidades se constroem a partir de dois amores: o amor de Deus at&#233; o esquecimento de si, e o amor de si at&#233; o esquecimento de Deus. O problema n&#227;o est&#225; apenas nas manifesta&#231;&#245;es externas, mas na dire&#231;&#227;o interior do nosso amor.</p><p>&#201; aqui que a quest&#227;o da pureza se amplia. N&#227;o basta proteger a inoc&#234;ncia das crian&#231;as; &#233; preciso preservar a nossa pr&#243;pria pureza de cora&#231;&#227;o. Cristo declara: &#8220;Bem-aventurados os puros de cora&#231;&#227;o, porque ver&#227;o a Deus&#8221; (Mt 5,8). Pureza n&#227;o &#233; ignor&#226;ncia do mal, mas ordena&#231;&#227;o do amor. &#201; manter o olhar alinhado &#224; verdade, sem permitir que o erro se torne crit&#233;rio.</p><p>S&#227;o Jo&#227;o Paulo II falava da &#8220;reden&#231;&#227;o do cora&#231;&#227;o&#8221;. O problema n&#227;o est&#225; apenas no corpo, mas no modo como olhamos. Quando o olhar se torna utilit&#225;rio, o outro deixa de ser pessoa e passa a ser objeto. A pureza restaura o sentido do corpo como dom, n&#227;o como palco.</p><p>O perigo maior talvez n&#227;o esteja nos grandes esc&#226;ndalos, mas na anestesia da consci&#234;ncia. O que se repete, normaliza. O que se normaliza, deixa de incomodar. O que antes causava estranhamento passa a parecer apenas &#8220;cultural&#8221;. E o cora&#231;&#227;o se adapta.</p><p>Cristo &#233; claro: &#8220;Se n&#227;o vos converterdes e n&#227;o vos tornardes como crian&#231;as, n&#227;o entrareis no Reino dos C&#233;us&#8221; (Mt 18,3). O cora&#231;&#227;o de crian&#231;a n&#227;o &#233; ing&#234;nuo; &#233; humilde. Ele ainda se espanta. Ainda distingue. Ainda confia. Manter essa pureza na vida adulta &#233; exigente. Em um mundo saturado de est&#237;mulos, conservar o olhar puro &#233; decis&#227;o di&#225;ria.</p><p>Talvez dev&#234;ssemos nos perguntar com honestidade: o que j&#225; n&#227;o me incomoda como antes? O que comecei a justificar em nome da cultura? Que tipo de olhar tenho cultivado? A pureza n&#227;o se mant&#233;m por acaso. Ela exige vigil&#226;ncia e ora&#231;&#227;o: &#8220;Criai em mim um cora&#231;&#227;o puro, &#243; Deus&#8221; (Sl 50,12).</p><p>Proteger as crian&#231;as &#233; necess&#225;rio. Mas &#233; insuficiente se n&#227;o preservarmos nossa pr&#243;pria integridade interior. O mundo continuar&#225; oferecendo ru&#237;do, excesso e relativiza&#231;&#227;o. Continuar&#225; chamando de progresso aquilo que muitas vezes &#233; apenas perda de medida.</p><p>Cristo, por&#233;m, n&#227;o nos pede adapta&#231;&#227;o &#8212; pede convers&#227;o. N&#227;o nos pede sofistica&#231;&#227;o moral, mas cora&#231;&#227;o simples. Um cora&#231;&#227;o de crian&#231;a: humilde, vigilante, inteiro.</p><p>Uma vers&#227;o mais completa desta reflex&#227;o ser&#225; publicada na edi&#231;&#227;o de mar&#231;o da Revista <em>Veritas</em>. Que esta Quaresma nos encontre atentos &#8212; n&#227;o apenas ao que vemos no mundo, mas ao que permitimos que permane&#231;a dentro de n&#243;s.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Santa Catarina de Alexandria]]></title><description><![CDATA[rogai por n&#243;s.]]></description><link>https://brunaliana.substack.com/p/santa-catarina-de-alexandria</link><guid isPermaLink="false">https://brunaliana.substack.com/p/santa-catarina-de-alexandria</guid><dc:creator><![CDATA[Bruna Liana]]></dc:creator><pubDate>Tue, 25 Nov 2025 15:04:57 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!_4PH!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4d2cf1aa-5372-4f83-a421-661f62c227f2_599x840.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" 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Cresci sabendo que ela era a padroeira do meu estado, figura imponente na tradi&#231;&#227;o crist&#227;, jovem culta que enfrentou imperadores, fil&#243;sofos e carrascos com uma serenidade que parecia imposs&#237;vel. Mas foi s&#243; quando minha pr&#243;pria vida come&#231;ou a sair do eixo, quando eu j&#225; n&#227;o reconhecia mais meus rumos e me sentia enfraquecida por dentro, que a hist&#243;ria dela deixou de ser uma narrativa distante e ganhou carne, gesto e significado na minha rotina.</p><p>Tem algo realmente transformador na forma como ela unia intelig&#234;ncia e f&#233;; n&#227;o como polos opostos, mas como duas l&#226;mpadas acesas iluminando o mesmo caminho. Catarina debatia com fil&#243;sofos sem perder a delicadeza, desafiava reis sem perder a humildade, defendia sua convic&#231;&#227;o sem fazer disso uma arma. E foi ali que algo me tocou: essa combina&#231;&#227;o improv&#225;vel de firmeza e suavidade, coragem e do&#231;ura, lucidez e devo&#231;&#227;o. Ela enfrentou coer&#231;&#245;es, pris&#245;es e a promessa de morte n&#227;o com altivez arrogante, mas com aquela postura silenciosa de quem sabe que a verdade e a dignidade s&#227;o companheiras mais leais do que qualquer poder terreno.</p><p>Quando voltei para a hist&#243;ria dela, j&#225; adulta, foi como mirar um espelho que me mostrava n&#227;o apenas quem eu era, mas tamb&#233;m quem eu poderia voltar a ser. Aos poucos, a vida foi me empurrando de volta para o prumo &#8211; e, se hoje eu digo que me tornei devota dela, &#233; porque encontrei em Santa Catarina um tipo de norte moral que eu sentia falta. N&#227;o um norte r&#237;gido, militante ou moralista, mas uma b&#250;ssola clara, tendo como base a virtude da firmeza interior, a virtude da intelig&#234;ncia a servi&#231;o do bem, a virtude da liberdade espiritual que n&#227;o se dobra diante da injusti&#231;a, ainda que tudo &#224; volta pare&#231;a desabar.</p><p>Santa Catarina de Alexandria me ensina, todos os dias, que integridade n&#227;o &#233; uma palavra decorativa; &#233; um exerc&#237;cio cont&#237;nuo, uma disposi&#231;&#227;o de permanecer inteira mesmo quando o mundo tenta nos fragmentar. Me ensina que n&#227;o existe verdadeira for&#231;a sem coer&#234;ncia, nem verdadeira f&#233; sem questionamento, nem verdadeira serenidade sem a coragem de enfrentar aquilo que nos desafia. E me ensina tamb&#233;m que a vida s&#243; ganha sentido quando alinhamos cabe&#231;a e cora&#231;&#227;o, raz&#227;o e esp&#237;rito, escolhas e valores &#8211; mesmo que isso custe algumas batalhas internas.</p><p>Talvez por isso o dia de Santa Catarina nunca mais passou despercebido para mim. Porque, para al&#233;m da festa lit&#250;rgica, ele me lembra do momento em que recuperei meu pr&#243;prio eu; do instante em que a hist&#243;ria de uma jovem m&#225;rtir de Alexandria atravessou s&#233;culos para tocar a minha, me devolvendo clareza, prop&#243;sito e uma f&#233; menos ing&#234;nua, mais adulta, mais firme. E porque, de alguma forma que eu ainda n&#227;o sei explicar, sinto que ela tem acompanhado meus passos desde ent&#227;o &#8211; como quem segura discretamente a roda da vida para que ela n&#227;o descarrile de novo.</p><p>Certas figuras n&#227;o se aproximam de n&#243;s por acaso; se aproximam porque precisamos de exemplos que transcendam nossos limites imediatos e nos chamem de volta para n&#243;s mesmos. Obrigada, Santa Catarina, por ter me levantado quando eu estava pequena, por ter me ensinado a ser maior sem ser soberba, e por ter me mostrado que a verdadeira sabedoria est&#225; justamente no equil&#237;brio entre firmeza e suavidade, entre consci&#234;ncia e f&#233;, entre coragem e miseric&#243;rdia. Se hoje caminho mais alinhada, mais l&#250;cida e mais inteira, &#233; porque, em algum ponto do caminho, Santa Catarina de Alexandria me colocou de volta no eixo.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O que se abre no reflexo também se abre em nós]]></title><description><![CDATA[Reflex&#245;es antigas; situa&#231;&#245;es atemporais.]]></description><link>https://brunaliana.substack.com/p/o-que-se-abre-no-reflexo-tambem-se</link><guid isPermaLink="false">https://brunaliana.substack.com/p/o-que-se-abre-no-reflexo-tambem-se</guid><dc:creator><![CDATA[Bruna Liana]]></dc:creator><pubDate>Thu, 20 Nov 2025 22:10:08 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!gZQR!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F22a42f2c-7bb3-4449-a845-0f3e578c4419_1536x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link 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N&#227;o desses modernos, lisos demais, que devolvem apenas o rosto que a gente ensaia. Era um espelho antigo &#8211; a prata um pouco gasta, as bordas irregulares, o tipo de espelho que n&#227;o falha em mostrar exatamente aquilo que evitamos ver. Os espelhos assim sempre revelam mais do que pedimos. Mais do que gostar&#237;amos. Mais do que est&#225;vamos prontos para admitir.</p><p>E, no entanto, algumas pessoas funcionam exatamente desse jeito na nossa vida. N&#227;o porque querem, nem porque estudaram nossas arestas, mas porque simplesmente s&#227;o quem s&#227;o. Pessoas que chegam naturalmente, ocupam um espa&#231;o sem esfor&#231;o, e de repente, sem inten&#231;&#227;o alguma, refletem de volta aquilo que passamos anos escondendo at&#233; de n&#243;s mesmos. A sombra que fingimos n&#227;o existir. O medo que maquiamos. A parte tr&#234;mula que deixamos no por&#227;o da alma para n&#227;o lidar com ela.</p><p>&#201; quase paralisante perceber isso.</p><p>Porque n&#227;o h&#225; c&#225;lculo.<br>N&#227;o h&#225; vontade de expor.<br>N&#227;o h&#225; desejo de nos desmontar.</p><p>Elas apenas vivem.<br>E viver, no caso delas, ilumina.</p><p>&#201; a espontaneidade que toca fundo.<br>A naturalidade com que observam.<br>A forma simples &#8211; &#224;s vezes at&#233; distra&#237;da &#8211; com que encostam em lugares nossos que nem sab&#237;amos que estavam &#224; flor da pele.</p><p>Um coment&#225;rio despretensioso, e l&#225; vem o reflexo.<br>Um olhar que dura meio segundo a mais, e algo interno se revira.<br>Uma pergunta inocente, e o que era sombra se mostra inteiro.</p><p>Essas pessoas n&#227;o t&#234;m ideia do que acionam. N&#227;o percebem que, s&#243; por estarem ali, se tornam catalisadoras das nossas pr&#243;prias verdades. Mostram sem querer aquilo que tentamos esconder, com ou sem inten&#231;&#227;o. E &#233; justamente porque n&#227;o existe c&#225;lculo que o reflexo delas &#233; t&#227;o honesto. T&#227;o cru. T&#227;o imposs&#237;vel de ignorar.</p><p>E d&#243;i.<br>Claro que d&#243;i.</p><p>Ser visto al&#233;m das camadas que constru&#237;mos machuca o orgulho, bagun&#231;a a ordem que inventamos, exp&#245;e vulnerabilidades que escondemos no fundo da nossa alma at&#233; nem lembrarmos que existem. Mas, ao mesmo tempo, h&#225; uma leveza secreta nesse tipo de exposi&#231;&#227;o involunt&#225;ria. Uma sensa&#231;&#227;o quase libertadora de que finalmente algo em n&#243;s est&#225; sendo chamado pelo nome.</p><p>Porque quando algu&#233;m nos revela sem querer, o que aparece n&#227;o vem com julgamento &#8211; vem com luz. Luz que incomoda, que atravessa, que desloca&#8230; mas que permite enxergar a poeira acumulada nos cantos que evit&#225;vamos limpar.</p><p>E &#233; assim que come&#231;a o processo de cura (daquilo que muitas vezes nem faz&#237;amos ideia): n&#227;o quando dominamos todas as nossas sombras, mas quando paramos de fugir delas. Quando encontramos algu&#233;m que, apenas sendo quem &#233;, nos obriga &#8211; com delicadeza ou com espanto &#8211; a sustentar o pr&#243;prio espelho sem desviar o olhar.</p><p>Algumas pessoas nos espelham para nos ferir.<br>Outras, sem inten&#231;&#227;o alguma, nos espelham para nos despertar.</p><p>S&#227;o essas que importam. As que desmontam nossas defesas sem perceber. As que revelam rachaduras que fing&#237;amos inexistentes. As que, sem esfor&#231;o, mostram que crescer n&#227;o &#233; esconder melhor &#8211; &#233; iluminar o suficiente para que n&#227;o exista mais motivo para temer o pr&#243;prio reflexo.</p><p>O reflexo que mais transforma &#233; aquele que n&#227;o pedimos. E a pessoa que mais nos ajuda nesse processo &#233; justamente aquela que nunca tentou nos decifrar, mas que nos fez enxergar, pela primeira vez, o que sempre esteve ali. </p><p>O mais curioso? Ela pode nem se dar conta disso.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Era sal que me faltava]]></title><description><![CDATA[&#192;s vezes eu passo dias acreditando que estou inteira, at&#233; que encosto o p&#233; na areia e percebo: faltava sal.]]></description><link>https://brunaliana.substack.com/p/era-sal-que-me-faltava</link><guid isPermaLink="false">https://brunaliana.substack.com/p/era-sal-que-me-faltava</guid><dc:creator><![CDATA[Bruna Liana]]></dc:creator><pubDate>Mon, 17 Nov 2025 20:08:28 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!xlfq!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F04a796b8-6ee8-4bdc-b44c-c61c7f89f0e3_1024x683.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!xlfq!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F04a796b8-6ee8-4bdc-b44c-c61c7f89f0e3_1024x683.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!xlfq!, /__u/brunaliana.substack.com/w_424, /__u/brunaliana.substack.com/c_limit, /__u/brunaliana.substack.com/f_webp, /__u/brunaliana.substack.com/q_auto:good, /__u/brunaliana.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F04a796b8-6ee8-4bdc-b44c-c61c7f89f0e3_1024x683.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!xlfq!, /__u/brunaliana.substack.com/w_848, /__u/brunaliana.substack.com/c_limit, /__u/brunaliana.substack.com/f_webp, /__u/brunaliana.substack.com/q_auto:good, 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title="Praia do Campeche: saiba o que fazer e como aproveitar" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!xlfq!, /__u/brunaliana.substack.com/w_424, /__u/brunaliana.substack.com/c_limit, /__u/brunaliana.substack.com/f_auto, /__u/brunaliana.substack.com/q_auto:good, /__u/brunaliana.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F04a796b8-6ee8-4bdc-b44c-c61c7f89f0e3_1024x683.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!xlfq!, /__u/brunaliana.substack.com/w_848, /__u/brunaliana.substack.com/c_limit, /__u/brunaliana.substack.com/f_auto, /__u/brunaliana.substack.com/q_auto:good, /__u/brunaliana.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F04a796b8-6ee8-4bdc-b44c-c61c7f89f0e3_1024x683.jpeg 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!xlfq!, /__u/brunaliana.substack.com/w_1272, /__u/brunaliana.substack.com/c_limit, /__u/brunaliana.substack.com/f_auto, 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stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p>&#192;s vezes eu passo dias acreditando que estou inteira, at&#233; que encosto o p&#233; na areia e percebo: faltava sal. Faltava esse vento cheio de &#237;ons e insol&#234;ncias boas, faltava esse barulho que n&#227;o pede licen&#231;a, esse horizonte que me puxa pelos ombros e diz <em>vem, volta</em>.</p><p>O mar tem essa ousadia bonita de reorganizar o que eu desorganizei por dentro.<br>&#201; como se cada onda viesse recolher um excesso, uma pressa, uma preocupa&#231;&#227;o que eu deixei cair pelo caminho. Ele n&#227;o julga, n&#227;o pergunta, n&#227;o faz relat&#243;rio. S&#243; leva. S&#243; lava. S&#243; lembra.</p><p>E eu lembro junto.</p><p>Porque ali, com o cabelo grudado de sol e sal, tudo volta a ganhar cor. O mundo fica mais leve, como se o mar me devolvesse em vers&#227;o atualizada &#8211; menos carregada, mais viva, mais eu.</p><p>E &#233; curioso como, na beira da &#225;gua, aquilo que parecia enorme encolhe. A ansiedade perde argumento. A exaust&#227;o tira f&#233;rias. A vida respira de um jeito mais comprido, mais satisfeito. A gente ri mais f&#225;cil. Pensa mais simples. Ama mais r&#225;pido.</p><p>O mar me coloca no prumo sem nem tentar.<br>Me movimenta para dentro enquanto me balan&#231;a por fora.<br>Me lembra que renascer &#233; permitido todos os dias &#8211; basta encostar o corpo nessa imensid&#227;o azul e deixar que ela me ensine, de novo, que felicidade tamb&#233;m tem gosto.</p><p>E que, &#224;s vezes, tudo que faltava era isso:<br>um punhado de sal, um peda&#231;o de c&#233;u, e essa alegria l&#237;quida me chamando de volta pra casa.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://brunaliana.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigada por acompanhar o meu trabalho! Subscreva-se e receba tudo em primeira m&#227;o (:</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Canções que não são – nem de longe – apenas canções]]></title><description><![CDATA[#11 You only live once - The Strokes]]></description><link>https://brunaliana.substack.com/p/cancoes-que-nao-sao-nem-de-longe-993</link><guid isPermaLink="false">https://brunaliana.substack.com/p/cancoes-que-nao-sao-nem-de-longe-993</guid><dc:creator><![CDATA[Bruna Liana]]></dc:creator><pubDate>Sun, 09 Nov 2025 13:20:36 GMT</pubDate><enclosure 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De novo.<br>Porque h&#225; fases em que a gente volta para os mesmos sons, para os mesmos refr&#245;es, para os mesmos lugares que j&#225; conhecem nossas luzes e nossas sombras.<br>Tenho andado meio monotem&#225;tica musicalmente &#8211; afundada em Julian Casablancas como quem mergulha em um ver&#227;o antigo que ainda brilha dentro da mem&#243;ria.</p><p>Essa m&#250;sica &#233; luz atravessando as cortinas.<br>&#201; o som que escapa de um carro velho na esquina, enquanto o mundo parece meio suspenso no calor da tarde.<br>&#201; juventude engarrafada num refr&#227;o simples e, por isso mesmo, eterno.</p><p>Ela fala sobre o instante antes da queda.<br>Sobre o segundo em que tudo parece poss&#237;vel, e o futuro ainda &#233; s&#243; uma promessa pregui&#231;osa.<br>H&#225; algo de solar e melanc&#243;lico ao mesmo tempo &#8211; como rir com os olhos marejados.</p><p>Julian canta como quem n&#227;o acredita muito no que diz, mas diz mesmo assim.</p><blockquote><p><em>&#8220;You only live once.&#8221;</em></p></blockquote><p>E o jeito que ele arrasta as palavras, quase desinteressado, parece dizer o oposto:<br>que viver &#233; justamente isso &#8211; n&#227;o levar t&#227;o a s&#233;rio o fato de viver.</p><p>Essa can&#231;&#227;o &#233; Peter Pan em vers&#227;o nova-iorquina.<br>Cabelos desalinhados, cigarro na m&#227;o, e uma recusa serena em crescer demais.<br>N&#227;o &#233; fuga &#8211; &#233; resist&#234;ncia.<br>&#201; o desejo de continuar dan&#231;ando, mesmo que o rel&#243;gio marque a hora da responsabilidade.<br>Em cada verso, h&#225; um eco de <em>Neverland</em>: o lugar onde o tempo hesita.<br>E cada acorde &#233; uma tentativa de voltar para l&#225; &#8211; nem que seja por tr&#234;s minutos e doze segundos.</p><p>Mas o mundo gira.<br>E toda juventude, um dia, se descobre adulta.<br>Por isso h&#225; algo de J. M. Barrie e de Saturno nessa faixa &#8211; o autor que criou o menino que nunca envelhece e o deus que nos lembra que o tempo, cedo ou tarde, cobra a conta.<br>Strokes canta desse lugar entre os dois. O instante em que o sol ainda est&#225; alto, mas j&#225; h&#225; sombra no ch&#227;o.</p><p>H&#225; Marte em G&#234;meos nessa can&#231;&#227;o &#8211; impulso e dispers&#227;o convivendo em um mesmo corpo.</p><blockquote><p><em>A &#226;nsia de ter, seguida do t&#233;dio de possuir.</em></p></blockquote><p>H&#225; Sol em Le&#227;o tamb&#233;m &#8211; radiante, vaidoso, mas vulner&#225;vel &#224; pr&#243;pria claridade.<br>E, escondido entre os riffs, um Saturno disfar&#231;ado, lembrando que at&#233; a liberdade tem um pre&#231;o; que at&#233; o ver&#227;o tem fim.</p><p>Ainda assim&#8230; H&#225; alegria.<br>Uma alegria leve, quase descuidada, que nasce quando a gente entende que n&#227;o vai dar tempo para tudo &#8211; e tudo bem.<br>Que n&#227;o d&#225; para consertar todos os erros, mas d&#225; para rir de alguns deles.<br>Que viver n&#227;o &#233; colecionar momentos perfeitos, &#233; aceitar o improviso.</p><p>&#201; isso que <em>You Only Live Once</em> tenta dizer, sem precisar dizer nada.<br>Viver n&#227;o &#233; uma meta, &#233; um ritmo.<br>E quem tenta medir demais, perde o compasso.</p><p>O recado aqui &#233; curto e grosso.</p><p>Se &#233; para viver uma vez s&#243;,<br>que seja com o rosto virado para o sol,<br>rindo das pr&#243;prias urg&#234;ncias,<br>e deixando o vento bagun&#231;ar o cabelo<br>sem tentar arrum&#225;-lo de novo.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://brunaliana.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigada por acompanhar o meu trabalho! Subscreva-se e receba tudo em primeira m&#227;o (:</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O silêncio antes da luz]]></title><description><![CDATA[Quando o cora&#231;&#227;o desce &#224; caverna para aprender a respirar no escuro.]]></description><link>https://brunaliana.substack.com/p/o-silencio-antes-da-luz</link><guid isPermaLink="false">https://brunaliana.substack.com/p/o-silencio-antes-da-luz</guid><dc:creator><![CDATA[Bruna Liana]]></dc:creator><pubDate>Fri, 07 Nov 2025 20:43:52 GMT</pubDate><enclosure 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Se dobra.</p><p>&#201; o lugar onde o mundo termina e come&#231;a outra vez.<br>Onde n&#227;o h&#225; ningu&#233;m para testemunhar o que nasce.<br>Onde o que se quebra, se refaz em segredo.</p><p>Foi ali que Orfeu desceu, dizem.<br>N&#227;o para cantar &#8211; mas para calar.<br>Porque &#224;s vezes, o sil&#234;ncio &#233; a &#250;nica forma de can&#231;&#227;o poss&#237;vel.</p><p>Ele havia perdido tudo. Eur&#237;dice, o amor, a voz.<br>E quando o eco de sua pr&#243;pria m&#250;sica se tornou insuport&#225;vel, restou o subterr&#226;neo.<br>O ventre escuro da Terra, onde as palavras se dissolvem em pedra e o som vira mem&#243;ria.</p><p>Mas o mito nunca contou o que aconteceu <em>depois</em> &#8211; depois que ele olhou para tr&#225;s e a perdeu novamente.<br>N&#227;o disseram que Orfeu ficou.<br>Que vagou entre sombras at&#233; n&#227;o saber mais onde terminava o luto e come&#231;ava o homem.<br>Que aprendeu a respirar o sil&#234;ncio como quem aprende a respirar embaixo d&#8217;&#225;gua.</p><p>H&#225; recolhimentos assim.<br>N&#227;o s&#227;o fuga &#8211; s&#227;o retorno.<br>Um mergulho for&#231;ado ao fundo do pr&#243;prio mapa.<br>Porque h&#225; tr&#226;nsitos que s&#243; se atravessam sozinhos.</p><p>Penso em Plut&#227;o, o planeta invis&#237;vel.<br>Senhor das profundezas, regente das mortes pequenas e renascimentos sutis.<br>Quando ele toca algo em n&#243;s, n&#227;o destr&#243;i &#8211; depura.<br>Leva tudo o que &#233; excesso. Deixa s&#243; o n&#250;cleo.<br>E &#233; ali, na escurid&#227;o interior, que se aprende o peso do pr&#243;prio nome.</p><p>A solid&#227;o &#233; a inicia&#231;&#227;o dos que renascem.<br>&#201; o ventre onde se rasga a pele antiga e se costura uma nova, mais ajustada ao tamanho da alma.<br>Nenhum mestre conduz. Nenhum ombro ampara.<br>Porque h&#225; vit&#243;rias que precisam acontecer no sil&#234;ncio &#8211;<br>para que o eco seja s&#243; nosso.</p><p>Os antigos chamavam isso de <em>nigredo</em>, a fase negra da alquimia.<br>A putrefa&#231;&#227;o que antecede o ouro.<br>O momento em que tudo parece perdido, mas &#233; apenas o come&#231;o da purifica&#231;&#227;o.</p><p>E ent&#227;o, um dia, sem aviso, a luz volta.<br>N&#227;o com fanfarra, mas com brisa.<br>O ar entra nos pulm&#245;es como quem pede licen&#231;a.<br>E o corpo, ainda cansado, percebe que est&#225; de volta.</p><p>N&#227;o curado &#8211; mas inteiro.<br>N&#227;o imune &#8211; mas desperto.</p><p>Porque a for&#231;a que vem de fora &#233; emprestada,<br>mas a que nasce no escuro &#233; nossa.</p><p>O que se ergueu de novo sabe o  custo disso.<br>Sabe o pre&#231;o do sil&#234;ncio, o valor do pr&#243;prio peso.<br>E ao sair da caverna, o mundo parece o mesmo &#8211; mas n&#227;o &#233;.<br>Porque quem saiu n&#227;o &#233; mais quem entrou.</p><p>H&#225; renascimentos que n&#227;o precisam de testemunhas.<br>Basta o c&#233;u l&#225; fora e o cora&#231;&#227;o pulsando de novo,<br>livre, pleno, e um pouco mais firme naquilo que &#233;.</p><p>O mito chamaria isso de ressurrei&#231;&#227;o.<br>A astrologia, de tr&#226;nsito conclu&#237;do.<br>Mas n&#243;s &#8211; n&#243;s chamamos de vida voltando a acontecer.</p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://brunaliana.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigada por apoiar o meu trabalho! Subscreva-se e receba tudo em primeira m&#227;o :)</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Dias que florescem]]></title><description><![CDATA[Um ode &#224; primavera, um tanto quanto atrasado.]]></description><link>https://brunaliana.substack.com/p/dias-que-florescem</link><guid isPermaLink="false">https://brunaliana.substack.com/p/dias-que-florescem</guid><dc:creator><![CDATA[Bruna Liana]]></dc:creator><pubDate>Wed, 05 Nov 2025 18:07:04 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/2f446a74-ee1c-4436-b272-095089af8a73_1536x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Tem &#233;pocas em que a vida parece se espregui&#231;ar.<br>Os dias acordam cedo, o sol entra sem pedir licen&#231;a, e at&#233; o vento resolve dan&#231;ar com as cortinas.</p><p>A primavera chega assim &#8211; espalhando alegria como quem joga confete no ar. E a gente, sem perceber, come&#231;a a andar mais devagar na rua, olhar mais para o c&#233;u, sorrir de leve por motivos que nem sabe direito.</p><p>O corpo quer viver. O cora&#231;&#227;o tamb&#233;m.</p><p>De repente, o caf&#233; da manh&#227; tem outro gosto, as m&#250;sicas soam mais bonitas, o tempo parece cooperar. A cada esquina, uma flor que n&#227;o estava ali ontem. E &#233; imposs&#237;vel n&#227;o sentir uma certa esperan&#231;a, esse tipo de otimismo que n&#227;o vem dos planos, mas da pr&#243;pria vontade de existir.</p><p>H&#225; quem diga que a primavera &#233; a esta&#231;&#227;o das flores.<br>Mas talvez ela seja mesmo a esta&#231;&#227;o da leveza &#8211; daquelas pequenas alegrias que a gente esquece de notar: o cheiro da grama cortada, a roupa secando ao sol, o vento morno da tarde, o som das crian&#231;as na rua.</p><p>Tudo parece ganhar cor. At&#233; o que era rotina se veste de novidade.<br>E o que antes parecia esfor&#231;o vira prazer. &#201; o tempo das portas abertas, das mesas ao ar livre, dos amigos que reaparecem, das risadas que demoram pra terminar.</p><p>A felicidade, no fim das contas, consiste na soma dos dias bons que a gente deixa acontecer.<br>Sem pressa, sem roteiro, s&#243; o desejo genu&#237;no de viver um pouco mais leve.</p><p>A primavera &#233; um convite.<br>Para se reinventar de um jeito simples, para cuidar das plantas, para cuidar da alma, para lembrar que beleza tamb&#233;m &#233; abrigo.</p><p>Que o mundo est&#225; florescendo outra vez &#8211; e que n&#243;s podemos florescer com ele.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Trilhas da Memória]]></title><description><![CDATA[O tempo parou feito fotografia.]]></description><link>https://brunaliana.substack.com/p/trilhas-da-memoria</link><guid isPermaLink="false">https://brunaliana.substack.com/p/trilhas-da-memoria</guid><dc:creator><![CDATA[Bruna Liana]]></dc:creator><pubDate>Tue, 21 Oct 2025 19:04:43 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/dd18f56f-2bfe-40e2-ac04-f56ecf74cbc8_1536x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="pullquote"><p><em>O tempo parou feito fotografia. Amarelou tudo o que n&#227;o se movia.</em></p></div><p>Eu sempre soube que meu c&#233;rebro funcionava diferente do das outras pessoas. N&#227;o melhor, n&#227;o pior &#8211; apenas diferente. Meu modo de processar o mundo, principalmente as mem&#243;rias, beira o absurdo. E o fato de eu lembrar de tudo quase como se tirasse uma fotografia do momento s&#243; complica as coisas.</p><p>Quando passo por um lugar onde j&#225; estive, consigo ver as pessoas, ouvir o que foi dito, sentir o clima no ar. &#201; como se o tempo se dobrasse, e eu atravessasse de volta aquele instante &#8211; completo, intacto.</p><p>Se uma m&#250;sica tocou naquele momento, ent&#227;o o roteiro se amplia. A letra volta a vibrar nos ossos, como se a vida inteira tivesse trilha sonora pr&#243;pria. Ininterrupta, quer eu queira ou n&#227;o. &#192;s vezes no shuffle do spotify durante uma tarde lotada de trabalho, &#224;s vezes s&#243; dentro da cabe&#231;a, repetindo o mesmo refr&#227;o que eu jurei ter superado.</p><p>&#201; curioso como as m&#250;sicas se misturam a tudo; a uma risada que j&#225; n&#227;o existe, a uma estrada cujo ritmo das curvas ainda sei de cor, ao cheiro de algu&#233;m que ficou preso num acorde.</p><p>A vida tem dessas ironias. Voc&#234; acha que est&#225; apenas ouvindo uma can&#231;&#227;o qualquer &#8211; e, de repente, ela se abre como um portal. Um verso basta para arrastar voc&#234; de volta a um tempo em que tudo parecia mais inteiro, ou ao menos mais suport&#225;vel.</p><p>Acho que esse &#233; o problema de lembrar demais: nada permanece quieto. Cada lembran&#231;a &#233; uma porta, e atr&#225;s dela sempre h&#225; outra, e mais outra, como se o passado fosse uma casa antiga cheia de c&#244;modos escondidos.</p><p>De repente, a m&#250;sica alegre j&#225; n&#227;o &#233; sobre alegria. O caf&#233; na esquina j&#225; n&#227;o &#233; s&#243; um caf&#233;. A cidade onde voc&#234; se sentia vivo agora tem o gosto agridoce de tudo que se perdeu.</p><p>Ent&#227;o, o que fazer? A gente aprende a costurar sentidos novos no tecido das lembran&#231;as. Ressignificar (eu continuo odiando essa palavra) &#233; uma forma silenciosa de sobreviv&#234;ncia &#8211; um modo de continuar ouvindo sem sentir tanto.</p><p>Voc&#234; escuta a mesma m&#250;sica, mas agora ela fala de voc&#234;. Caminha pelo mesmo lugar, mas com outro olhar. Reencontra as mesmas pessoas, mas dentro de uma nova vers&#227;o da sua hist&#243;ria.</p><p>Acho que no fim das contas, viver (ou sobreviver) se trata disso. Recompor a trilha sonora, trocar os acordes, mudar o tom da mem&#243;ria. Porque o que um dia foi m&#250;sica de despedida pode, com o tempo, virar can&#231;&#227;o de recome&#231;o. E o que antes do&#237;a demais acaba virando apenas parte da melodia &#8211; aquela nota que s&#243; existe para anunciar o sil&#234;ncio que vem depois.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Canções que não são – nem de longe – apenas canções]]></title><description><![CDATA[#10 505 - Arctic Monkeys]]></description><link>https://brunaliana.substack.com/p/cancoes-que-nao-sao-nem-de-longe-b1e</link><guid isPermaLink="false">https://brunaliana.substack.com/p/cancoes-que-nao-sao-nem-de-longe-b1e</guid><dc:creator><![CDATA[Bruna Liana]]></dc:creator><pubDate>Mon, 20 Oct 2025 13:06:28 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!jdxg!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb8cb6f93-5f20-477b-bce0-9d3347b80b18_1536x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!jdxg!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb8cb6f93-5f20-477b-bce0-9d3347b80b18_1536x1024.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!jdxg!, /__u/brunaliana.substack.com/w_424, /__u/brunaliana.substack.com/c_limit, /__u/brunaliana.substack.com/f_webp, /__u/brunaliana.substack.com/q_auto:good, /__u/brunaliana.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb8cb6f93-5f20-477b-bce0-9d3347b80b18_1536x1024.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!jdxg!, /__u/brunaliana.substack.com/w_848, /__u/brunaliana.substack.com/c_limit, /__u/brunaliana.substack.com/f_webp, /__u/brunaliana.substack.com/q_auto:good, 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recome&#231;o.<br>E todo recome&#231;o &#233; um campo minado entre o desejo e a covardia.<br>Turner escreveu essa m&#250;sica para Johanna Bennet, a namorada da &#233;poca, e nela h&#225; algo de confiss&#227;o e castigo.<br>Ele &#233; o homem que chega atrasado, suando culpa e esperan&#231;a, imaginando que ela ainda estar&#225; l&#225; &#8211; deitada, esperando, iluminando o quarto com uma paci&#234;ncia imposs&#237;vel.</p><p>Quando a guitarra entra, algo se abre dentro da m&#250;sica &#8211; e dentro dele.<br>O som cresce, mas n&#227;o explode. &#201; como um cora&#231;&#227;o acelerando, ainda tentando fingir que est&#225; tudo sob controle.<br>E no verso <em>&#8220;But I crumble completely when you cry&#8221;</em>, o disfarce acaba.<br>Turner, o roqueiro frio e articulado, se revela fr&#225;gil, dependente, humano demais.</p><p>&#201; nessa hora que o medo toma forma.<br>Porque desejar &#233; se entregar ao poder do outro &#8211; e quem ama sempre teme o momento em que o outro percebe esse poder.<br>O amor, em <em>505</em>, n&#227;o &#233; abrigo. &#201; exposi&#231;&#227;o.<br>&#201; o corpo encostado na beira da cama, torcendo para que o outro n&#227;o v&#225; embora antes da pr&#243;xima batida da bateria.</p><p>Na ponte, o ritmo muda, o som se espalha, e a m&#250;sica ganha um ar quase de trilha de fuga.<br>Mas n&#227;o h&#225; fuga poss&#237;vel.<br>Cada instrumento soa como um retorno inevit&#225;vel, uma espiral que o leva de volta ao mesmo quarto, &#224; mesma lembran&#231;a, ao mesmo arrependimento.<br>A vulnerabilidade, que sempre foi o que ele mais temia, agora &#233; tamb&#233;m o que o mant&#233;m vivo.</p><p>E quando o refr&#227;o se repete, j&#225; n&#227;o &#233; sobre ela. &#201; sobre ele.<br>Sobre o homem que se olha no espelho e reconhece a pr&#243;pria fraqueza como a &#250;nica forma de sinceridade.<br>O amor em <em>505</em> &#233; o lugar onde o medo e o desejo se abra&#231;am &#8211; e n&#227;o se soltam mais.</p><p>H&#225; algo de <em>Orfeu e Eur&#237;dice</em> nesse retorno cont&#237;nuo. Ele sabe que olhar para tr&#225;s pode destruir tudo, mas olha mesmo assim.<br><em>Porque o amor que n&#227;o enfrenta o medo &#233; s&#243; um acordo.</em><br>E Alex Turner nunca escreveu sobre acordos &#8211; escreveu sobre o abismo de sentir.</p><p>Depois de <em>505</em>, o Arctic Monkeys deixou de ser banda de garagem.<br>Virou banda de confiss&#245;es.<br>A partir dali, o sarcasmo virou melancolia, e a juventude virou vulnerabilidade.<br>Foi o ponto em que o barulho virou sil&#234;ncio &#8211; e o sil&#234;ncio, poesia.</p><p>Ao fim e ao cabo, <em>505</em> n&#227;o &#233; um n&#250;mero de um quarto de hotel.<br>&#201; o c&#243;digo de um retorno imposs&#237;vel, o eco de quem entra num c&#244;modo vazio e acende a luz apenas para n&#227;o se sentir t&#227;o s&#243;.<br>&#201; a lembran&#231;a de que todo amor, quando &#233; verdadeiro, tem um pouco de medo &#8211; e &#233; justamente a&#237; que mora a coragem.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Canções que não são – nem de longe – apenas canções]]></title><description><![CDATA[#09 I Appear Missing - Queens of the Stone Age]]></description><link>https://brunaliana.substack.com/p/cancoes-que-nao-sao-nem-de-longe-4df</link><guid isPermaLink="false">https://brunaliana.substack.com/p/cancoes-que-nao-sao-nem-de-longe-4df</guid><dc:creator><![CDATA[Bruna Liana]]></dc:creator><pubDate>Fri, 17 Oct 2025 17:29:34 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!k-gz!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F90a0f5e9-5aae-4463-9b0b-ad66879e1030_1536x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!k-gz!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F90a0f5e9-5aae-4463-9b0b-ad66879e1030_1536x1024.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!k-gz!, /__u/brunaliana.substack.com/w_424, /__u/brunaliana.substack.com/c_limit, /__u/brunaliana.substack.com/f_webp, /__u/brunaliana.substack.com/q_auto:good, /__u/brunaliana.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F90a0f5e9-5aae-4463-9b0b-ad66879e1030_1536x1024.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!k-gz!, /__u/brunaliana.substack.com/w_848, /__u/brunaliana.substack.com/c_limit, /__u/brunaliana.substack.com/f_webp, /__u/brunaliana.substack.com/q_auto:good, 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N&#227;o o colapso heroico, mas o cotidiano &#8211; o que se repete, o que se arrasta, o que apodrece devagar. Em <em>I Appear Missing</em>, Josh Homme n&#227;o canta, sangra. A m&#250;sica soa como algu&#233;m que acorda no meio de um acidente, ainda preso dentro do corpo, tentando se lembrar de quem era antes do impacto. Tudo nela pulsa em espasmos. A bateria trope&#231;a em si mesma. A guitarra parece procurar uma sa&#237;da que nunca vem. &#201; como assistir o pr&#243;prio pensamento se partindo ao meio.</p><p>Essa can&#231;&#227;o &#233; uma aut&#243;psia em movimento. Um corpo que fala antes de ser encontrado. As palavras chegam fragmentadas, cheias de espa&#231;o entre si, como se o narrador estivesse tentando se recompor enquanto se despede. H&#225; um pedido de socorro, mas tamb&#233;m uma desist&#234;ncia, como quem percebe que j&#225; n&#227;o h&#225; ningu&#233;m escutando. &#201; o som de um homem que se v&#234; de fora &#8211; ca&#237;do, im&#243;vel, e mesmo assim consciente demais.</p><p>H&#225; algo de terrivelmente humano nessa lucidez doente. O sujeito ainda pensa, ainda sente, ainda tenta compreender o que restou. Mas o mundo j&#225; passou dele. Tudo gira, e ele fica. Como um fantasma aprisionado dentro da pr&#243;pria carne. A cada verso, o tempo se dobra. As imagens do clipe &#8211; o corpo que flutua sem rosto, os pr&#233;dios passando em sil&#234;ncio &#8211; s&#227;o mais do que met&#225;foras. S&#227;o retratos do desencaixe. A queda n&#227;o &#233; para baixo. &#201; para dentro.</p><p>O mais assustador &#233; a serenidade. N&#227;o h&#225; grito. N&#227;o h&#225; f&#250;ria. S&#243; a constata&#231;&#227;o de que o eu se tornou ru&#237;do. O que resta &#233; a mec&#226;nica da sobreviv&#234;ncia, onde o corpo ainda respira, o cora&#231;&#227;o ainda bate, mas a presen&#231;a j&#225; n&#227;o mora ali. &#201; uma can&#231;&#227;o sobre o instante em que o sentido se dissolve, e o sujeito, mesmo entendendo, n&#227;o consegue reagir. O que era alma vira est&#225;tica. O que era voz vira eco.</p><p>H&#225; momentos em que o refr&#227;o parece abrir uma fresta de reden&#231;&#227;o, mas ela nunca se cumpre. A melodia cresce, mas n&#227;o resolve. &#201; um voo interrompido, em que vemos o impulso de algu&#233;m que quis sair do ch&#227;o e percebe que esqueceu as asas em algum lugar. A aus&#234;ncia se torna um personagem. O eu desaparece, mas ainda observa o pr&#243;prio sumi&#231;o. A dor de continuar vendo, continuar pensando, mesmo depois de ter deixado de existir, se torna palp&#225;vel.</p><p>No fim, <em>I Appear Missing</em> &#233; uma confiss&#227;o feita a ningu&#233;m. Uma tentativa de registrar o instante exato em que a consci&#234;ncia entende que n&#227;o volta mais. E h&#225; beleza nisso &#8211; uma beleza seca, desumana, quase cl&#237;nica. A beleza de um corpo que ainda reflete luz mesmo depois de morto.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A nameless void.]]></title><description><![CDATA[Acredito que todo mundo, em maior ou menor intensidade, possua um vazio dentro de si.]]></description><link>https://brunaliana.substack.com/p/a-nameless-void</link><guid isPermaLink="false">https://brunaliana.substack.com/p/a-nameless-void</guid><dc:creator><![CDATA[Bruna Liana]]></dc:creator><pubDate>Thu, 16 Oct 2025 13:44:44 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/3d2e66a0-af8c-443b-95c6-9ecf9be29965_1536x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Acredito que todo mundo, em maior ou menor intensidade, possua um vazio dentro de si.</p><p>Ele chega de mansinho &#8211; sem aviso, sem trag&#233;dia &#8211; e se instala como quem conhece o caminho. Por vezes, n&#227;o h&#225; um motivo claro, uma perda recente, uma saudade identific&#225;vel. &#201; s&#243; uma sensa&#231;&#227;o que ocupa o corpo inteiro, como se algo tivesse se deslocado por dentro. &#192;s vezes, &#233; no meio de uma quinta-feira comum: o sol brilha, o caf&#233; tem o mesmo gosto de sempre, a vida segue seu compasso habitual &#8211; e mesmo assim, algo parece faltar. Uma pequena rachadura entre o que se vive e o que se sente.</p><p>Esse vazio d&#243;i, mas n&#227;o sangra. N&#227;o d&#225; febre, n&#227;o tem cura prescrita. &#201; uma dor que se espalha em sil&#234;ncio e se alimenta do que a gente n&#227;o diz. Ele cresce quando fingimos estar bem, quando sorrimos por obriga&#231;&#227;o, quando seguimos o roteiro sem acreditar na cena. Cresce quando o corpo est&#225; presente, mas a alma ficou em outro lugar. A gente se acostuma a sobreviver no autom&#225;tico, e o vazio vai ficando ali, quieto, mastigando tudo o que n&#227;o teve espa&#231;o para existir.</p><p>No fundo, ele vive das sobras. Das conversas que param na superf&#237;cie, dos abra&#231;os que viraram apenas mem&#243;ria, das vontades que a gente arquiva por medo de parecer fraco. Vive da pressa, da necessidade constante de estar ocupado, da tentativa desesperada de preencher o tempo para n&#227;o precisar encarar o pr&#243;prio eco. Alimentamos o vazio como quem cria um cachorro &#8211; damos pequenas por&#231;&#245;es de distra&#231;&#227;o e fingimos que ele dorme. Mas ele n&#227;o dorme. Ele observa. Espera.</p><p>H&#225; dias em que o vazio se disfar&#231;a de paz &#8211; e a gente acredita. Acha que o cora&#231;&#227;o finalmente sossegou, quando na verdade ele apenas cansou de pedir. Outras vezes, ele vem como inquietude, dando aquela sensa&#231;&#227;o de que estamos vivendo algo pela metade, de que h&#225; um sentido escondido que n&#227;o conseguimos alcan&#231;ar. E &#233; nesse vai e vem entre o torpor e o desassossego que o vazio se sustenta, como um lembrete mudo de que alguma coisa essencial ficou para tr&#225;s.</p><p>Pode ser que esse vazio seja o intervalo necess&#225;rio entre um ciclo e outro; o tempo que o cora&#231;&#227;o precisa para se reorganizar antes de sentir de novo. Nem sempre &#233; um buraco &#8211; &#224;s vezes &#233; um ber&#231;o. E o que d&#243;i n&#227;o &#233; o vazio em si, mas o susto de perceber que h&#225; algo nascendo dentro dele.</p><p>O vazio sem nome &#233; o que sobra quando o mundo perde a nitidez, mas ainda n&#227;o ganhou outro contorno. &#201; o ponto cego da alma, aquele que a raz&#227;o n&#227;o alcan&#231;a, mas onde a vida se refaz em sil&#234;ncio. A dor que ele traz &#233; o pre&#231;o de continuar sens&#237;vel num tempo que praticamente ensina a endurecer. E talvez, s&#243; talvez, o que chamamos de vazio seja a forma mais honesta de ainda estar vivo.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A Comala em cada um de nós]]></title><description><![CDATA[Minha experi&#234;ncia com Pedro P&#225;ramo, de Juan Rulfo.]]></description><link>https://brunaliana.substack.com/p/a-comala-em-cada-um-de-nos</link><guid isPermaLink="false">https://brunaliana.substack.com/p/a-comala-em-cada-um-de-nos</guid><dc:creator><![CDATA[Bruna Liana]]></dc:creator><pubDate>Thu, 16 Oct 2025 13:10:18 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/6a01f33f-ab94-4d8d-b4b1-07718e58e711_1536x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Entrei em <em>Pedro P&#225;ramo</em> como quem entra num sonho ruim:<br>com a esperan&#231;a de entender, e a certeza de que alguma coisa ia me perseguir depois.</p><p>No come&#231;o, &#233; s&#243; um filho indo atr&#225;s do pai.<br>Mas logo o ch&#227;o muda de consist&#234;ncia.<br>As vozes chegam primeiro, depois v&#234;m os rostos &#8211; meio apagados, meio lembran&#231;a.<br>E ent&#227;o a constata&#231;&#227;o de que ningu&#233;m est&#225; realmente vivo em Comala.<br>Nem mesmo quem fala.</p><p>Juan Preciado caminha por uma cidade que parece feita de eco.<br>Cada casa murmura, cada sombra tem nome, cada sil&#234;ncio carrega uma confiss&#227;o.<br>E eu leio com a sensa&#231;&#227;o de estar ouvindo as paredes respirarem.</p><p>Pedro P&#225;ramo, o pai que ele procura, &#233; um homem que confundiu amor com posse.<br>Amou Susana San Juan com o mesmo desespero com que se domina uma terra &#8211; sem perceber que h&#225; coisas que n&#227;o se governam.<br>Quando ela morre, ele deixa o mundo morrer junto.<br>Comala seca, o tempo p&#225;ra, e o pr&#243;prio vento parece desistir de soprar.</p><p>Juan Rulfo <strong>sussurra atrav&#233;s dos mortos</strong>.<br>A l&#237;ngua dele &#233; feita de poeira e remorso.<br>Cada frase &#233; um peda&#231;o de ch&#227;o rachado onde o leitor pisa descal&#231;o, tentando n&#227;o acordar os fantasmas.</p><p>Mas o que mais me assombra n&#227;o &#233; a morte &#8211; &#233; o que fica.<br>Essas vozes que n&#227;o param, esses nomes que n&#227;o se apagam, esse M&#233;xico de almas presas.<br>Comala &#233; como um espelho do mundo. Um lugar onde as pessoas n&#227;o descansam porque n&#227;o souberam perdoar.</p><p><br>Ser&#225; por isso que o livro d&#243;i tanto? Porque reconhecemos algo de nosso ali?</p><p>A gente tamb&#233;m carrega pequenas Comalas no peito.<br>Lugares que esquecemos de enterrar direito.<br>Amores, culpas, promessas, pessoas que ainda falam na nossa cabe&#231;a mesmo depois de partirem.</p><p><em>Pedro P&#225;ramo</em> n&#227;o &#233; sobre morte; &#233; sobre <strong>o que continua existindo mesmo depois do fim</strong>.</p><p><br>Fechei o livro com a sensa&#231;&#227;o de que as vozes de Comala ficaram presas nas minhas costelas &#8211; sussurrando devagar, lembrando que h&#225; fantasmas que s&#243; descansam quando a gente aprende a escutar.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Curtinhos de terça.]]></title><description><![CDATA[A ferrugem do esp&#237;rito]]></description><link>https://brunaliana.substack.com/p/curtinhos-de-terca</link><guid isPermaLink="false">https://brunaliana.substack.com/p/curtinhos-de-terca</guid><dc:creator><![CDATA[Bruna Liana]]></dc:creator><pubDate>Tue, 07 Oct 2025 15:01:17 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/53436b0b-ea70-4ec0-a588-7367cb94fb15_1024x1536.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>A vulgaridade n&#227;o chega batendo &#224; porta.</p><p>Ela se infiltra &#8211; no tom de voz que imita o riso dos outros, na legenda que parece liberdade mas &#233; car&#234;ncia disfar&#231;ada, no olhar que busca aprova&#231;&#227;o e n&#227;o encontro. Aos poucos, ela se instala como quem n&#227;o quer nada, e quando a gente percebe&#8230; j&#225; n&#227;o h&#225; nada que n&#227;o tenha sido tocado por ela.</p><p>O amor perde o pudor.</p><p>A amizade perde o limite.</p><p>A admira&#231;&#227;o perde a inoc&#234;ncia.</p><p>A vulgaridade &#233; uma eros&#227;o lenta da alma.</p><p>Ela gasta o mist&#233;rio &#8211; e sem mist&#233;rio, nada permanece bonito.</p><p>Ela transforma o encantamento em consumo, o toque em vitrine, o sentir em performance. E o que era sagrado se torna barulhento.</p><p>Ser visto com pureza, hoje, &#233; quase fic&#231;&#227;o.</p><p>&#201; raro algu&#233;m olhar pra voc&#234; sem um c&#225;lculo escondido por tr&#225;s dos olhos.</p><p>Mas quando acontece, algo em n&#243;s desperta &#8211; como se um peda&#231;o do para&#237;so, por um instante, se lembrasse de existir. &#201; um al&#237;vio e uma dor.</p><p>Porque lembra o que a gente j&#225; foi, e o que deixou de ser.</p><p>A vulgaridade &#233; uma esp&#233;cie de ferrugem do esp&#237;rito.</p><p>Desgasta tudo o que toca, at&#233; o brilho de quem s&#243; queria ser amado com dec&#234;ncia.</p><p>Mas ainda h&#225; quem resista &#8211;</p><p>nos gestos pequenos, nos sil&#234;ncios respeitosos, nas palavras que n&#227;o precisam se exibir pra serem verdadeiras.</p><p>Talvez a pureza ainda exista.</p><p>Escondida.</p><p>Em quem n&#227;o se acostumou com o barulho do mundo.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Canções que não são – nem de longe – apenas canções]]></title><description><![CDATA[#08 Black Sabbath - It's Alright]]></description><link>https://brunaliana.substack.com/p/cancoes-que-nao-sao-nem-de-longe-da4</link><guid isPermaLink="false">https://brunaliana.substack.com/p/cancoes-que-nao-sao-nem-de-longe-da4</guid><dc:creator><![CDATA[Bruna Liana]]></dc:creator><pubDate>Tue, 07 Oct 2025 11:59:03 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!H8sd!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8e7e7bc0-eb35-473c-8d9f-b3faaff7c1eb_885x497.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!H8sd!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8e7e7bc0-eb35-473c-8d9f-b3faaff7c1eb_885x497.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!H8sd!, /__u/brunaliana.substack.com/w_424, /__u/brunaliana.substack.com/c_limit, /__u/brunaliana.substack.com/f_webp, /__u/brunaliana.substack.com/q_auto:good, /__u/brunaliana.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8e7e7bc0-eb35-473c-8d9f-b3faaff7c1eb_885x497.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!H8sd!, /__u/brunaliana.substack.com/w_848, /__u/brunaliana.substack.com/c_limit, /__u/brunaliana.substack.com/f_webp, /__u/brunaliana.substack.com/q_auto:good, /__u/brunaliana.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8e7e7bc0-eb35-473c-8d9f-b3faaff7c1eb_885x497.png 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!H8sd!, /__u/brunaliana.substack.com/w_1272, /__u/brunaliana.substack.com/c_limit, 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s&#243; chega quando j&#225; se chorou o suficiente.</p><p>O &#8220;tudo bem&#8221; que a m&#250;sica promete n&#227;o &#233; uma nega&#231;&#227;o da dor.<br>&#201; o contr&#225;rio: &#233; o abra&#231;o que ela d&#225;.<br>&#201; a voz que diz &#8211; <em>&#8220;sim, doeu, mas voc&#234; ainda est&#225; aqui.&#8221;</em></p><p>H&#225; uma sabedoria doce nos acordes, como se algu&#233;m mais velho, de m&#227;os calejadas, dissesse:<br>&#8220;voc&#234; ainda vai errar muito, mas vai aprender a se perdoar tamb&#233;m.&#8221;<br>Um verdadeiro al&#237;vio &#8211; perceber que n&#227;o h&#225; falha em ser humano.</p><p>No fundo, &#8220;It&#8217;s Alright&#8221; &#233; uma m&#250;sica sobre recome&#231;os discretos.<br>Sobre o instante em que o cora&#231;&#227;o, mesmo partido, volta a bater no ritmo certo.<br>Sobre continuar &#8211; n&#227;o por hero&#237;smo, mas por instinto de luz.</p><p>Quando ele canta &#8220;don&#8217;t you worry&#8221;, n&#227;o &#233; promessa.<br>&#201; lembran&#231;a.<br>De que o sol sempre volta, mesmo que &#224;s vezes precise atravessar o chumbo.<br>De que a alma, por mais cansada, sempre encontra um modo de reerguer-se.</p><p>E ent&#227;o a gente respira.<br>Devagar.<br>Como quem volta pra casa depois de muito tempo fora.<br>E entende, de uma vez por todas, que <em>tudo bem</em> &#8211;<br>porque, apesar de tudo, ainda h&#225; vida.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Entre flores do mal e refrões do abismo]]></title><description><![CDATA[Ecos baudelairianos em Bad Romance]]></description><link>https://brunaliana.substack.com/p/entre-flores-do-mal-e-refroes-do</link><guid isPermaLink="false">https://brunaliana.substack.com/p/entre-flores-do-mal-e-refroes-do</guid><dc:creator><![CDATA[Bruna Liana]]></dc:creator><pubDate>Tue, 16 Sep 2025 12:13:17 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!J-w3!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F34d19bf9-ebba-45a4-84bb-c3ba4beb14dd_1024x1536.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!J-w3!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F34d19bf9-ebba-45a4-84bb-c3ba4beb14dd_1024x1536.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!J-w3!, /__u/brunaliana.substack.com/w_424, /__u/brunaliana.substack.com/c_limit, /__u/brunaliana.substack.com/f_webp, /__u/brunaliana.substack.com/q_auto:good, 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rela&#231;&#227;o entre estes dois esp&#233;cimes separados por dois s&#233;culos e o oceano atl&#226;ntico.</p><p>Qual foi a minha surpresa ao ver que sim, h&#225; algo de baudelairiano pulsando no cora&#231;&#227;o de <em>Bad Romance</em>. Como se a can&#231;&#227;o de Lady Gaga, com seus beats eletr&#244;nicos e refr&#227;o febril, fosse um eco moderno das p&#225;ginas envenenadas de <em>As Flores do Mal</em>. Dois s&#233;culos distantes, mas a mesma sensa&#231;&#227;o: a beleza nasce no excesso, naquilo que queima e atrai, na vertigem que fascina e destr&#243;i.</p><p>Baudelaire escrevia como quem cheira um buqu&#234; de flores j&#225; apodrecendo. O perfume doce e o fedor da morte misturados num s&#243; sopro. Amar, para ele, era essa experi&#234;ncia: um v&#237;cio, um abismo, uma pris&#227;o onde o desejo e o veneno caminham de m&#227;os dadas. E Gaga, ao cantar que quer um <em>bad romance</em>, reivindica essa mesma experi&#234;ncia, mas em ritmo pop, dan&#231;ante, quase hipn&#243;tico. O corpo dan&#231;a, mas a alma reconhece a sombra.</p><p>O poeta franc&#234;s n&#227;o acreditava em amores puros. Ele preferia o que chamava de &#8220;beleza moderna&#8221;: feita de ru&#237;nas, de artif&#237;cios, de contradi&#231;&#245;es. Gaga tamb&#233;m se recusa a cantar sobre pr&#237;ncipes encantados. Sua m&#250;sica &#233; um ritual de atra&#231;&#227;o pelo feio, pelo estranho, pelo que escandaliza. Um desfile de monstros vestidos de alta-costura. Onde Baudelaire comparava amantes a vampiros e carrascos, Gaga transforma o amor em coreografia grotesca, cercada de olhos, ossos e l&#225;tex.</p><p>No fundo, ambos falam da mesma coisa: do amor como v&#237;cio. N&#227;o se ama o que salva, mas o que consome. N&#227;o se deseja o que eleva, mas o que arrasta para baixo. &#8220;Eu quero o seu amor ruim&#8221;, canta Gaga &#8211; e Baudelaire poderia ter escrito o mesmo verso em prosa, como quem assume a maldi&#231;&#227;o inevit&#225;vel do pr&#243;prio cora&#231;&#227;o.</p><p>E h&#225; ainda a quest&#227;o do choque. Baudelaire escandalizou o s&#233;culo XIX ao escrever poemas sobre necrofilia, lux&#250;ria e <em>spleen</em> (pesquise o termo). Gaga, no palco pop do s&#233;culo XXI, repete esse gesto: provoca, assusta, causa desconforto. O que antes era tinta no papel, agora &#233; performance em videoclipe. O esc&#226;ndalo n&#227;o &#233; gratuito: &#233; estrat&#233;gia est&#233;tica. &#201; a forma de arrancar do p&#250;blico a consci&#234;ncia de que o desejo nunca &#233; limpo.</p><p><em>Bad Romance</em> poderia estar dentro de <em>As Flores do Mal</em> sem causar estranhamento. Talvez como uma vers&#227;o dan&#231;ante de &#8220;O Veneno&#8221; ou de &#8220;O Vampiro&#8221;. A mesma l&#243;gica: o amor como uma mordida, o prazer como ferida, a beleza como m&#225;scara sobre o horror.</p><p>No fim, Gaga e Baudelaire se encontram num ponto secreto: ambos sabem que a alma humana n&#227;o se contenta com o sereno. Quer a tempestade. Quer o veneno. Quer o romance ruim.</p><p>Na dan&#231;a escura de Gaga, na poesia febril de Baudelaire, o amor deixa de ser idealiza&#231;&#227;o e se torna carne, v&#237;cio, maldi&#231;&#227;o. Um espet&#225;culo de fogo e cinzas onde, contraditoriamente, ainda encontramos beleza. Porque a beleza, para os dois, nunca foi pureza. Sempre foi excesso, desvio, queda.</p><p>Mas e a&#237;: Lady Gaga leu Baudelaire ou se baseou exclusivamente em suas experi&#234;ncias e vis&#227;o de mundo? Continua o questionamento.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Entre retratos e espelhos]]></title><description><![CDATA[&#201; curioso&#8230; eu olho minhas fotos antigas e quase n&#227;o me reconhe&#231;o.]]></description><link>https://brunaliana.substack.com/p/entre-retratos-e-espelhos</link><guid isPermaLink="false">https://brunaliana.substack.com/p/entre-retratos-e-espelhos</guid><dc:creator><![CDATA[Bruna Liana]]></dc:creator><pubDate>Tue, 19 Aug 2025 14:13:31 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/11556338-73c5-4e50-aae2-f87a5cbef792_1536x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="native-audio-embed" data-component-name="AudioPlaceholder" data-attrs="{&quot;label&quot;:null,&quot;mediaUploadId&quot;:&quot;07a2c1be-4e80-4132-8f47-cb913c5d98a1&quot;,&quot;duration&quot;:259.26532,&quot;downloadable&quot;:false,&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p>&#201; curioso&#8230; eu olho minhas fotos antigas e quase n&#227;o me reconhe&#231;o.<br>Os olhos s&#227;o meus, mas carregam outros medos.<br>O sorriso &#233; meu, mas parece de outra vida.<br>E eu me pergunto: quantas vezes j&#225; fui algu&#233;m diferente dentro do mesmo rosto?</p><p>A identidade &#233; fr&#225;gil.<br>Um peda&#231;o meu ficou na inf&#226;ncia, outro na juventude, outro em algum sonho que nunca aconteceu.<br>Talvez eu seja apenas isso: fragmentos reunidos, um mosaico imperfeito que insiste em se chamar &#8220;eu&#8221;.</p><p>Cada retrato &#233; um recorte de tempo, um 3x4 guardando a ilus&#227;o de perman&#234;ncia.<br>Mas a verdade &#233; que nada &#233; permanente.<br>O que ontem parecia s&#243;lido hoje j&#225; se dissolve na lembran&#231;a.<br>Sou feita de movimento, de instantes que escorrem pelas m&#227;os.</p><p>&#192;s vezes, diante do espelho, me sinto estranha.<br>Como se houvesse sempre algu&#233;m a mais dentro de mim, algu&#233;m que nunca posa para a foto.</p><p>No fundo, acho que &#233; isso o que nos mant&#233;m vivos:<br>essa sensa&#231;&#227;o de nunca cabermos inteiros em um retrato.<br>De sermos sempre mais do que a imagem congelada,<br>de carregarmos hist&#243;rias invis&#237;veis nos olhos.</p><p>E quando o tempo me pergunta quem sou,<br>s&#243; sei responder com sil&#234;ncio.<br>Porque, afinal, n&#227;o h&#225; resposta definitiva.<br>A cada dia, a cada p&#225;gina, a cada foto,<br>sou algu&#233;m que j&#225; fui, algu&#233;m que sou, e algu&#233;m que ainda vou ser.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Os impulsos primários da alma]]></title><description><![CDATA[A palavra dada &#233; o alicerce onde o ser se sustenta.]]></description><link>https://brunaliana.substack.com/p/os-impulsos-primarios-da-alma</link><guid isPermaLink="false">https://brunaliana.substack.com/p/os-impulsos-primarios-da-alma</guid><dc:creator><![CDATA[Bruna Liana]]></dc:creator><pubDate>Fri, 15 Aug 2025 15:03:01 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!0QHl!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7621da1f-316a-448b-9236-335cb62a1aad_1536x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!0QHl!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7621da1f-316a-448b-9236-335cb62a1aad_1536x1024.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!0QHl!, /__u/brunaliana.substack.com/w_424, /__u/brunaliana.substack.com/c_limit, /__u/brunaliana.substack.com/f_webp, /__u/brunaliana.substack.com/q_auto:good, 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Alguns desses impulsos s&#227;o altos, claros e luminosos, voltados para o que n&#227;o passa; outros s&#227;o baixos, pesados, presos ao imediato. O problema &#233; que, na maior parte do tempo, &#233; o impulso mais baixo que faz mais barulho.</p><p>A fome, o medo, a busca por aprova&#231;&#227;o, a &#226;nsia por conforto e seguran&#231;a &#8211; nada disso &#233; mau em si, mas &#233; pequeno demais para sustentar uma vida inteira. Como dizia Jos&#233; Monir Nasser, aquilo que nasce apenas do ch&#227;o, cedo ou tarde volta ao ch&#227;o. S&#243; o que &#233; orientado para o transcendente, para o que n&#227;o se corrompe com o tempo, permanece.</p><p>Santo Agostinho argumentava que o cora&#231;&#227;o do homem s&#243; descansa em Deus. N&#227;o &#233; um bord&#227;o espiritual: &#233; uma lei ontol&#243;gica. Se a sua maior motiva&#231;&#227;o &#233; dinheiro, quando o dinheiro faltar, voc&#234; desmorona. Se &#233; o aplauso, quando o sil&#234;ncio vier, voc&#234; se desespera. E quando o impulso se reduz a uma necessidade imediata, a vida se fragmenta &#8211; porque tudo o que &#233; terreno &#233; tamb&#233;m provis&#243;rio.</p><p>A maturidade come&#231;a quando entendemos que uma vida boa n&#227;o se constr&#243;i obedecendo a cada capricho da alma. &#201; preciso disciplinar os impulsos, depur&#225;-los, submet&#234;-los &#224;quilo que n&#227;o muda. Como bem pontuou nosso querido professor Olavo, a coragem de permanecer fiel a um princ&#237;pio, mesmo que tudo em volta pare&#231;a desmoronar, &#233; o que realmente faz diferen&#231;a.</p><p>E &#233; aqui que a vida adulta se imp&#245;e. Ela n&#227;o nos cobra apenas sonhos e inten&#231;&#245;es; cobra a&#231;&#227;o. Cobra que fa&#231;amos o que precisa ser feito, mesmo quando n&#227;o temos vontade. Cobra que, diante do compromisso firmado e da palavra dada, n&#227;o haja recuo. Porque um homem que n&#227;o cumpre a pr&#243;pria palavra n&#227;o &#233; confi&#225;vel em nada. Ele &#233; inst&#225;vel n&#227;o apenas nas grandes coisas, mas tamb&#233;m nas pequenas, pois a mentira contamina tudo o que toca.</p><p>Lealdade mortal &#224; palavra dada &#8211; essa &#233; a base sobre a qual se ergue a confian&#231;a entre os homens. Um contrato verbal, sustentado por honra, vale mais que mil assinaturas sem integridade. E quem vive assim n&#227;o o faz por conveni&#234;ncia, mas por uma compreens&#227;o mais profunda: que a verdade dita &#233; uma extens&#227;o da pr&#243;pria alma. Romper com ela &#233;, de algum modo, corromper-se.</p><p>No fim, o que molda nossas motiva&#231;&#245;es &#233; aquilo a que entregamos nossa fidelidade. Se nos curvamos apenas ao que &#233; baixo e imediato, viveremos &#224; merc&#234; das mar&#233;s &#8211; um dia motivados, no outro paralisados. Mas se buscamos o transcendente, se deixamos que Ele seja a medida de cada passo, n&#227;o viveremos para o aplauso nem para o ganho r&#225;pido, mas para a perman&#234;ncia. Para aquilo que restar&#225; quando tudo o que passa, finalmente passar.</p><p>Perman&#234;ncia exige coragem. Coragem de dizer sim e sustentar at&#233; o fim. Coragem de dizer n&#227;o e suportar o peso da decis&#227;o. Coragem de enfrentar o desconforto tempor&#225;rio para manter a integridade eterna.</p><p>A vida &#233; breve demais para ser guiada por impulsos que se dissolvem no ar. &#201; preciso mirar alto, porque s&#243; o que &#233; alto resiste ao tempo. E, como bem nos ensinou Santo Agostinho, &#233; s&#243; no que &#233; eterno que a alma finalmente encontra descanso.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A coragem de deixar ir.]]></title><description><![CDATA[Muitas vezes, Deus acaba com seus planos para que eles n&#227;o acabem com voc&#234;.]]></description><link>https://brunaliana.substack.com/p/a-coragem-de-deixar-ir</link><guid isPermaLink="false">https://brunaliana.substack.com/p/a-coragem-de-deixar-ir</guid><dc:creator><![CDATA[Bruna Liana]]></dc:creator><pubDate>Thu, 14 Aug 2025 15:02:31 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!nTyE!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa99ff716-039f-4feb-beab-c97a0e74a1c9_1536x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!nTyE!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa99ff716-039f-4feb-beab-c97a0e74a1c9_1536x1024.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!nTyE!, /__u/brunaliana.substack.com/w_424, /__u/brunaliana.substack.com/c_limit, /__u/brunaliana.substack.com/f_webp, /__u/brunaliana.substack.com/q_auto:good, /__u/brunaliana.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa99ff716-039f-4feb-beab-c97a0e74a1c9_1536x1024.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!nTyE!, /__u/brunaliana.substack.com/w_848, /__u/brunaliana.substack.com/c_limit, /__u/brunaliana.substack.com/f_webp, /__u/brunaliana.substack.com/q_auto:good, 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A gente demora para perceber, porque existe um tipo de apego que se disfar&#231;a de esperan&#231;a &#8211; e confunde.</p><p>Seguramos pessoas, hist&#243;rias, projetos como quem segura uma corda j&#225; desfiada, acreditando que, se n&#227;o soltarmos, ela vai magicamente se refazer. Mas ela s&#243; se desfaz mais. E cada n&#243; que tentamos dar &#233; uma desculpa para n&#227;o admitir: n&#227;o vai dar em nada.</p><p>O problema &#233; que a gente romantiza a insist&#234;ncia. Coloca no altar da virtude algo que, muitas vezes, &#233; s&#243; teimosia. E chamamos essa teimosia de &#8220;f&#233;&#8221;, quando, na verdade, &#233; medo. Medo de abrir m&#227;o e ficar com as m&#227;os vazias. Medo do sil&#234;ncio que vem depois do fim.</p><p>Mas o fim, &#224;s vezes, &#233; o maior ato de generosidade que podemos ter conosco. Soltar &#233; declarar que a vida n&#227;o vai ser definida por algo que n&#227;o floresceu. &#201; confiar que Deus &#8211; que nunca desperdi&#231;a o vazio &#8211; vai preencher o espa&#231;o com algo novo.</p><p>Eu penso no deixar ir como abrir a janela depois de um longo inverno. O ar frio que entra assusta no come&#231;o. Traz um inc&#244;modo. Mas &#233; ele que renova, que afasta o mofo, que avisa que a primavera est&#225; se aproximando. Segurar o que j&#225; morreu &#233; como trancar a casa e reclamar da falta de luz.</p><p>A virada vem quando percebemos que &#8220;largar&#8221; n&#227;o &#233; desistir, &#233; criar espa&#231;o. &#201; o contr&#225;rio de perder: &#233; abrir campo para o que ainda nem sabemos que existe. &#201; permitir que Deus troque as nossas tentativas frustradas por hist&#243;rias que fazem sentido.</p><p>Hoje, olho para as coisas que j&#225; deixei ir e vejo que n&#227;o eram s&#243; cap&#237;tulos encerrados &#8211; eram p&#225;ginas arrancadas para dar lugar a um enredo melhor.<br>E aprendi que a vida n&#227;o recompensa a m&#227;o que fecha com for&#231;a.<br>Recompensa a m&#227;o que se abre.</p><p>Porque s&#243; quando soltamos o que j&#225; n&#227;o &#233;, podemos receber o que ainda ser&#225;.</p>]]></content:encoded></item></channel></rss>