<script data-pm-proxy="intercept"></script><?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Canibal]]></title><description><![CDATA[Sátira, contos, contos eróticos e ensaios.]]></description><link>https://canibal69.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!LKx6!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3be97480-ddfc-4d37-928b-8aece45cd004_385x385.png</url><title>Canibal</title><link>https://canibal69.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Fri, 04 Sep 2026 19:11:32 GMT</lastBuildDate><atom:link href="/__u/canibal69.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[New World Cannibal]]></copyright><language><![CDATA[en]]></language><webMaster><![CDATA[canibal69@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[canibal69@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Canibal]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Canibal]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[canibal69@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[canibal69@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Canibal]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[Ambiente Metabólico]]></title><description><![CDATA[Um conto longo, talvez uma noveleta]]></description><link>https://canibal69.substack.com/p/ambiente-metabolico</link><guid isPermaLink="false">https://canibal69.substack.com/p/ambiente-metabolico</guid><dc:creator><![CDATA[Canibal]]></dc:creator><pubDate>Tue, 21 Jul 2026 18:47:40 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!7f7P!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9fd9692d-d940-4a95-872b-a69a80d960df_879x543.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><em>Disclaimer:</em></p><p>O conto abaixo &#233; inteiramente ficcional. Em tempos de moralismo conservador anti-arte, fa&#231;o um alerta aos que facilmente se escandalizam: n&#227;o prossigam.</p><p>Repito: n&#227;o prossigam.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://canibal69.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/canibal69.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://canibal69.substack.com/p/ambiente-metabolico?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Share&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/canibal69.substack.com/p/ambiente-metabolico?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Share</span></a></p><div><hr></div><h2>1. Dois gordos e um sonho de BYD</h2><p>Milton Jr. reduzia a marcha do Onix antes de parar o carro e pegar o passageiro numa rua de Laranjeiras. Ele tirou carteira velho, a mem&#243;ria muscular pra passar marcha n&#227;o tava l&#225;. Ele sempre tinha que pensar antes de reduzir. Aquilo n&#227;o era natural pra ele.</p><p>Como seria bom ter um carro autom&#225;tico. Um BYD silencioso. Um Dolphin Mini.</p><p>Cedo da manh&#227;, dois obesos branquelos na cal&#231;ada. A mulher, j&#225; uma senhora, deu um beijo carinhoso no rapaz, ainda mais gigantesco que ela. M&#227;e e filho? Acho que sim. O menino entrou no carro. Loirinho, alto, cara de novinho, devia pesar uns 130 quilos.</p><p>Talvez ele nem fosse t&#227;o moleque assim, j&#225; tinha uns fiapos de barba loira na cara e no pesco&#231;o adiposo.</p><p>&#8220;Carlos?&#8221; Milton Jr. perguntou sem olhar. Sil&#234;ncio. &#8220;Carlos??&#8221; dessa vez olhando pra tr&#225;s.</p><p>O rapaz, nervoso, parecia paralisado, olhando pra frente.</p><p>&#8220;O c&#243;digo, qual &#233; o c&#243;digo?&#8221;</p><p>Nada, puta que pariu, ser&#225; que esse moleque &#233; retardado?</p><p>J&#225; suando, o gord&#227;o tirou um cord&#227;o colorido do bolso, com formatos geom&#233;tricos infantis e um crach&#225; na ponta, e colocou no pesco&#231;o.</p><p>Com coragem, disse: &#8220;3187. Isso, isso, isso.&#8221;</p><p>Era o tal cord&#227;o dos autistas, Milton Jr. sacou na hora.</p><p>Ele &#233; especial! Ele &#233; at&#237;pico! Ele &#233; PCD!</p><h2>2. Os filhos de Tancredo e Doutor Ulisses</h2><p>Eliane Ribeiro Werner foi gata e gostosa entre 1985 e 1997.</p><p>Nas Diretas, tinha 16 ou 17 anos, n&#227;o participou direito porque n&#227;o entendia muito bem aquilo tudo. Uma loira do olho verde. Bem lindinha. Bunda meio quadradinha mas muito bem formada, peitos fartos e perninhas torneadas. Isso era bem antes que fazer agachamento na academia virasse moda. Alta, 1,75. Coisa at&#233; rara de ver no Brasil, havia aquele qu&#234; de gringa loira que pega bronze no sol, n&#227;o a t&#237;pica branquela-celta-encardida que voc&#234; encontra por a&#237;. Fen&#243;tipo n&#227;o t&#227;o incomum na zona sul carioca mas que ainda chamava aten&#231;&#227;o. E, ao contr&#225;rio da maioria dessas gatas bronzeadas que chamam aten&#231;&#227;o, Eliane era inteligente e estudiosa. <em>Caxias</em>, como o pessoal costumava dizer.</p><p>N&#227;o sei quando ela perdeu a virgindade. N&#227;o sei v&#225;rias coisas da sua hist&#243;ria, mas gosto de especular. O sexo anal&#243;gico. J&#225; me masturbei algumas vezes pra imagem da Brigitte Bardot dando prum mulato pescador em B&#250;zios. Inocente, magro, forte e ereto. A praia de Jo&#227;o Fernandes era deserta nos anos 60. Olympio Mour&#227;o Filho, meu conterr&#226;neo, movia tropas e ativos militares pra divisa com o Rio. Mulatos inocentes, magros, fortes e eretos. Enquanto isso, a areia entrava na lubrificada rosa de Madame Bardot, que urrava de dor e prazer. Dor e Gl&#243;ria na Estrada da Uni&#227;o e Ind&#250;stria.</p><p>Seu pai tinha sido arenista, homem conservador. Doutor Carlos Francisco Sampaio Werner. N&#227;o era m&#233;dico ou advogado nem tinha doutorado, mas era assim que as dom&#233;sticas o chamavam. D&#244;t&#244; Carlos. Ficou vi&#250;vo e aposentou-se, acima de qualquer teto ou ilus&#227;o de teto, antes da Constitui&#231;&#227;o ser promulgada. Havia sido funcion&#225;rio p&#250;blico, come&#231;ou quando o Rio ainda era capital. Quando homem usava terno e chap&#233;u na rua e Bras&#237;lia era um terreno baldio no Goi&#225;s. Filha &#250;nica. Ele casou velho, a m&#227;e de Eliane tinha tido tuberculose quando menina, a imunidade dela era baixa. S&#243; conseguiu ter uma filha, numa &#233;poca em que as mulheres tinham 5,34, e depois morreu nova.</p><p>Eliane formou-se em Hist&#243;ria numa universidade p&#250;blica, n&#227;o nomearei institui&#231;&#245;es aqui, emendou o mestrado, que acabou fazendo no departamento de Ci&#234;ncias Sociais. Escreveu sua tese sobre <em>Cidadania</em> e <em>Classe</em> na belle &#233;poque carioca. N&#227;o me lembro do t&#237;tulo, mas li, gostei. Tema interessante mas que hoje seria lido como defasado, por n&#227;o tocar direito em coisas de g&#234;nero e ra&#231;a. Ou, pior, lido como algo datado.</p><p>Toda essa efervesc&#234;ncia pol&#237;tica e cultural foi consolidada nos anos 90. Ali que Eliane se fez como mulher pensante. Tinha acabado de entrar no mestrado, 24 anos, absolutamente deliciosa. At&#233; o presidente da UNE, rapaz charmoso e bonit&#227;o com nome do aviador, deu em cima dela. Mas ela n&#227;o liberou a rosinha, ela at&#233; que era bem seletiva. Deu menos que voc&#234; imagina que tivesse dado.</p><p>Entre 97 e 99, Eliane continuou gostosa mas deixou de ser gata. Foi diagnosticada com c&#226;ncer de tireoide. Ele n&#227;o a levaria, como o de mama levou sua m&#227;e uns dez anos antes. Assustou o velho, ser&#225; que maldi&#231;&#227;o da mulher caiu pra filha? Assim como exemplarmente cuidou da esposa que morria, exemplarmente cuidaria da filha que adoecia. Voc&#234; pode n&#227;o gostar das predile&#231;&#245;es pol&#237;ticas do Dr. Carlos Francisco Sampaio Werner, dos seus coment&#225;rios mis&#243;ginos e racistas, mas o velho era um homem de fibra e car&#225;ter.</p><p>Nunca havia faltado dinheiro. E por muito tempo continuaria n&#227;o faltando. O Dr. Carlos Werner nasceu em Juiz de Fora, tinha muito filho feij&#227;o de alem&#227;o por aqueles cantos. Foi pro Rio adolescente. N&#227;o era pobre mas tamb&#233;m n&#227;o era rico. Quando adulto, comprou im&#243;vel e terreno barato na metr&#243;pole em expans&#227;o, financiamento do BNH e os caralho. Hiperinfla&#231;&#227;o, os nomes de moedas que ningu&#233;m lembra em ordem. Foda-se, os pr&#233;dios e escrituras dos terrenos tavam l&#225;, isso que importa.</p><p>Logo depois do Plano Real, o velho, por meio de um gerente amigo, conseguiu entrar num obsceno CDB prefixado, emitido pelo pr&#243;prio Banerj, onde tinha conta. Ele, que era engenheiro pela Universidade do Brasil, tinha vendido um apartamento na Tijuca e n&#227;o sabia o que era CDB ou CDI. Depois da privatiza&#231;&#227;o do Banerj e sua venda pro Ita&#250;, o velho virou Personnalit&#233;. O Ita&#250; havia comprado o Banco Franc&#234;s e Brasileiro em 95, de onde veio o nome da linha premium pra clientes com um pouco mais de grana.</p><p>Sua grana foi rendendo junto com os reajustes gostosos da sua pens&#227;o. Dava tranquilo pra bancar coisas b&#225;sicas tipo ter dom&#233;stica em casa todo dia, pagar TV a cabo e Pay Per View da Globo pra ver jogo do Fluminense. Felizmente, ele n&#227;o era v&#233;io de bingo. Deu tamb&#233;m pra viajar com a filha e com o neto pra Europa algumas vezes. Tempos de real forte no final dos anos 2000. E, ainda, bancou todos os enormes custos extras quando, depois, come&#231;ou a babar de Alzheimer. A&#237; ele morreu e acabou tudo.</p><p>O tratamento do c&#226;ncer de tireoide de Eliane foi bem sucedido, apesar de demorado, e o rosto dela ficou terrivelmente inchado e vermelho. Seu namorado &#224; &#233;poca, que n&#227;o vou nomear aqui, continuava transando com ela, afinal, ela continuava gostosa.</p><p>Em 99, Eliane voltou a ser gata. Curou-se. O rosto desinchou e desavermelhou. Por&#233;m, infelizmente, ali ela come&#231;ou a deixar de ser gostosa. O tumor, o tratamento e as disfun&#231;&#245;es hormonais cobraram o pre&#231;o e cobraram r&#225;pido. Seu metabolismo, como dizem, foi pro caralho. Seu namorado continuou metendo, afinal, o rostinho continuava lindo e ela foi engordando aos poucos.</p><p>O namorado era artista pl&#225;stico ou m&#250;sico, n&#227;o me lembro ao certo. N&#227;o sei onde se conheceram. Charmoso, bonito, mas havia algo de errado no cara. Muito esquisito, as tais <em>red flags</em> e tudo mais. Eliane nunca conheceu sua fam&#237;lia, sobre a qual ele sempre desconversava quando o assunto surgia. Como era branco, bonito e n&#227;o tinha cara de pobre, longe disso, dava pra passar. Se n&#227;o fosse, ficaria &#243;bvio que era furada. Que tipo de homem normal desconversa sobre isso? Que tipo de sujeito &#233; esse que &#233; esperto e extrovertido mas parece n&#227;o ter nenhum amigo de verdade?</p><p>O namorado e sogro n&#227;o se davam. Mas o importante &#233; que o cara ficou com a sua filha enquanto ela adoecia de coisa s&#233;ria. O namorado, por mais suspeito que fosse, respeitou a gravidade da situa&#231;&#227;o. C&#226;ncer, cacete. Eu mesmo evito falar essa palavra. O mineiro s&#243; &#233; solid&#225;rio no karma, <em>you know the drill</em>. Por causa disso, o velho n&#227;o p&#244;s impedimentos ao relacionamento, mesmo que tivesse na cara que aquilo ia dar merda. A filhinha querida podia fazer o que bem quisesse, essa &#233; a verdade. N&#227;o sei se casaram no civil mas isso &#233; irrelevante. Em junho de 2001 descobriram a gravidez.</p><p>Ap&#243;s as torres ca&#237;rem e a barriga de Eliane crescer, o cara sumiu. Eu n&#227;o sei os detalhes, s&#243; sei que foi coisa pesada. Traum&#225;tica, terr&#237;vel. Tenho minhas hip&#243;teses, mas &#233; tudo especula&#231;&#227;o. Aparentemente, ele surtou em algum momento, n&#227;o sei se bateu nela, &#233; poss&#237;vel que tenha batido. N&#227;o era picareta, mas era doido ou drogado. Possivelmente os dois. Evaporou. Dizem que o sogro usou seus contatos na pol&#237;cia, tinha um antigo conhecido que havia sido da Le Cocq nos anos 70. Era pra pelo menos deixar claro pro vagabundo pra ele nunca mais aparecer em Laranjeiras, que a mulher e o menino que tava pra nascer n&#227;o eram dele. N&#227;o sei como isso foi feito, talvez at&#233; seja lenda. S&#243; sei que funcionou e ele nunca mais voltou.</p><p>Nunca mais voltou. Havia um boato que, alguns anos depois, ele e o maluco que depois veio a matar o Glauco tinham sido expulsos de uma comunidade do Santo Daime em Mucug&#234;, no meio da Chapada Diamantina. Os daimistas devem ter botado esses dois caras pra correr porque eles certamente fizeram merda. Surtaram, roubaram ou tentaram pegar alguma menina na for&#231;a. Hoje chamam isso de estupro. Mas, sinceramente, n&#227;o fa&#231;o ideia do que aconteceu. S&#243; sabemos que, em 2006, logo antes da Copa, o cara apareceu morto no acostamento da BR, acho que &#233; a Bel&#233;m-Bras&#237;lia, do lado do aer&#243;dromo de Alto Para&#237;so do Goi&#225;s.</p><p>Meu tio Evaldo diz ter presenciado um rasante de disco voador por ali em 86 ou 87.</p><p>Eliane s&#243; descobriu meses depois por meio de terceiros que ele havia morrido. At&#233; hoje ela n&#227;o sabe nada sobre a fam&#237;lia do cara, se &#233; que ela existe.</p><p>No fim de 2001, o filho nasceu. N&#227;o veio da rosa. Foi ces&#225;rea. Talvez por isso que tenha ficado retardado, deficiente mental, autista. Vai saber. Microbiota, imunidade, vacina, sei l&#225;. <em>M&#227;e solo</em>, termo horrendo que usam por a&#237; hoje em dia, e o av&#244; segurando a barra naquela situa&#231;&#227;o terr&#237;vel. Se fosse menina, ela pensava num nome tupi: Iara, Iracema, algo assim. Como veio menino, decidiu homenagear o velho: Carlos Francisco Werner Neto. Nem pessoas progressistas, esclarecidas s&#227;o imunes a essas coisas. Ficar fazendo m&#233;dia intergeracional, legado familiar bl&#225;-bl&#225;-bl&#225;. Mas foi sincero.</p><p>O velho realmente mereceu. Sem ele, o tro&#231;o teria sido muito, muito pior. Eliane continuava morando com o pai, o seu grande alicerce ap&#243;s a trag&#233;dia e a fuga do maluco.</p><p>No come&#231;o do primeiro governo Lula, ela j&#225; n&#227;o era mais nem gata, nem gostosa. O sol, o c&#226;ncer, a radioterapia, a gravidez, uma hecatombe em forma de um casamento que n&#227;o foi. H&#225; vantagens na tal da branquitude, o formato da curva de deprecia&#231;&#227;o das suas mulheres n&#227;o &#233; uma delas. Sobretudo nestes nossos tr&#243;picos tristes. Em meio aos percal&#231;os e azares, ela continuava em frente. Na mesma universidade p&#250;blica que frequentava desde o governo Sarney, no mesmo departamento do seu mestrado, com os mesmos temas de <em>Cidadania</em> e <em>Classe</em>, sempre permeados por um otimismo ing&#234;nuo, ela terminou seu doutorado e passou num concurso de professora. Inteligente, culta, articulada.</p><p>Eliane, e d&#243;i dizer isso, tornou-se uma mulher gorda. O tempo passa, o oxig&#234;nio &#233; degradado e o carbono se acumula em cadeias de &#225;cidos graxos. O rosto come&#231;ou a ficar envelhecido antes dos 40. Os cabelos brancos chegaram r&#225;pido.</p><p>A sexualiza&#231;&#227;o dela acaba aqui.</p><h2>3. Da Rep&#250;blica Pensionista ao Imp&#233;rio Homecare</h2><p>O filho tamb&#233;m foi engordando com o tempo. Hoje, j&#225; com 25 anos de idade e obesidade grau 2, &#233; diagnosticado com autismo n&#237;vel 1 de suporte. Funcional. Mas essa suposta precis&#227;o psiqui&#225;trica &#233; coisa recente. Nos anos 2000, assim como em boa parte do come&#231;o dos 2010s, ainda havia espa&#231;o pra especular sobre o que passava na cabe&#231;a de crian&#231;as como o Carlinhos sem correr imediatamente pro reducionismo psiqui&#225;trico. E, naqueles tempos, gente cabe&#231;a aberta, que gostava do Suplicy, como nossa Eliane, era suspeita de sair engolindo tarja preta por a&#237;. Ainda mais sair dando pro seu menino, que poderia desenvolver tantas das suas <em>potencialidades</em>. Mais uma coisa que mudou de l&#225; pra c&#225; e o DSM virou a senzala da esquerda.</p><p>O menino era muito esquisito. No come&#231;o, era lento, tapado, falava como voc&#234; espera que um retardado falasse. Voz anasalada, intercalando graves e agudos. Acima de tudo, infantil. Logo de cara foi pra escola de garotos especiais. Vantagem de uma m&#227;e inteligente, esclarecida e com os meios. N&#227;o insistiu e fez o correto. Blindou, segregou e o integrou estrategicamente.</p><p>Carlinhos n&#227;o sofreu. N&#227;o sofreu nas m&#227;os de colegas maldosos, n&#227;o sofreu nas m&#227;os de professoras insens&#237;veis, n&#227;o sofreu nas m&#227;os de primos sacanas. H&#225; poucas coisas mais est&#250;pidas do que for&#231;ar normalidade em situa&#231;&#245;es essencialmente anormais. O menino &#233; mong&#227;o e pronto. Seu espa&#231;o de socializa&#231;&#227;o foi a m&#227;e, suas amigas e colegas da universidade, o av&#244;, alguns familiares e os poucos colegas em que o delta de retardo era pequeno o suficiente pra n&#227;o inviabilizar a conviv&#234;ncia.</p><p>Mong&#227;o mas n&#227;o mongol, mongoloide. Nos ambientes especiais que Carlinhos frequentou, ele era o menos especial, e, de longe, o mais esperto. Terra de cego etc etc. Ele foi ficando articulado. Ainda tem o problema da terr&#237;vel ansiedade quando est&#225; longe da m&#227;e. Mas ele est&#225; aprendendo a lidar com isso. E tamb&#233;m sempre teve o h&#225;bito, ou tique, de berrar frases prontas em momentos de sil&#234;ncio. E tamb&#233;m um talento impressionante em mimetizar as opini&#245;es, trejeitos e at&#233; mesmo as falas da m&#227;e e dos adultos com os quais ele socializa. Foi melhorando com o tempo. Carlinhos, mesmo sem entender direito o contexto e o subtexto de tudo aquilo, acabou virando um papagaio obeso e loiro dos principais <em>talking points</em> do progressismo brasileiro ao longo deste novo mil&#234;nio. Eu gosto do Carlinhos. &#192;s vezes ele enche o saco, mas &#233; um bom garoto.</p><p>Eliane, nos anos 2000, fez o arco do otimismo de esquerda na esteira do F&#243;rum Social Mundial. Socialismo democr&#225;tico, ambientalismo, n&#227;o viol&#234;ncia, cidadania, Cidadania, CIDADANIA. Ela, ao contr&#225;rio de v&#225;rios de seus amigos, permaneceu fiel ao Partido dos Trabalhadores, n&#227;o embarcando na sua principal dissid&#234;ncia, que veio a ser t&#227;o forte no Rio de Janeiro e encampou pautas t&#227;o caras a ela. Pro seu pai, Lula era um para&#237;ba filho da puta e velhos assim foram as v&#237;timas preferenciais da vers&#227;o 2.0 da histeria udenista do mar de lama. Tocada, dessa vez, por aquele jornalista da ent&#227;o popular&#237;ssima Revista Veja. Sujeito inteligente, raivoso e histri&#244;nico, hoje virou a casaca e &#233; o principal apologista do Regime de 88.</p><p>Mas o velho j&#225; era t&#227;o velho que quest&#245;es pol&#237;ticas n&#227;o eram mais relevantes assim. Nem ele tinha mais hardware ou software pra entender o mundo. Ent&#227;o, Eliane n&#227;o ligava pras diverg&#234;ncias com o pai. E o velho sempre gostou de ver a intelig&#234;ncia, a coragem e a independ&#234;ncia da filha, inclusive pra acreditar em coisas que ele nem entendia direito e, se entendia, as achava repugnantes.</p><p>O cume de todo aquele otimismo foi alcan&#231;ado em 2013. E como sabemos, dali pra frente foi ladeira abaixo.</p><p>Voc&#234;s n&#227;o v&#227;o acreditar nisso mas, naquela &#233;poca, as esquerdas eram profundamente otimistas com a tal da internet livre. Por mais que dissessem combater o tal do neoliberalismo, havia ali uma esp&#233;cie de triunfalismo liberal-fukuyamista, da inexor&#225;vel vit&#243;ria das boas ideias, da Primavera &#193;rabe. Coletivos, redes horizontais, aus&#234;ncia de hierarquias. Fora do Eixo. Aquele rapaz com um bei&#231;o gigante e um desagrad&#225;vel problema dermatol&#243;gico e um certo professor mineiro radicado nos EUA, atleticano como eu, acusado injustamente de enviar imagens do pr&#243;prio falo para mulheres comprometidas. Ningu&#233;m mais lembra desses caras, mas o &#201;den da liberdade das redes havia sido prometido pra eles aqui no Brasil. &#201; constrangedor, d&#225; at&#233; certa gastura, falar dessas coisas datadas.</p><p>Carlinhos pegou o jeito dessa turma e, em certa medida, o mant&#233;m at&#233; hoje. Mas, o que veio com mais for&#231;a, e tomou a esquerda a partir dali, se encaixou melhor no contexto de m&#227;e e filho. A valoriza&#231;&#227;o dos verdadeiros coitados. O acerto de contas em favor das v&#237;timas da Hist&#243;ria e da Biologia. Os detratores chamam isso de identitarismo, os gringos chamam de wokeness. N&#227;o existem mais <em>deficientes</em>, agora s&#227;o <em>pessoas com defici&#234;ncia</em>.</p><p>A causa PCD fazia jus &#224; situa&#231;&#227;o realmente excepcional de Eliane e Carlinhos. V&#237;timas e vencedores do Destino. A dificuldade de criar um filho at&#237;pico numa sociedade m&#225; e hostil suplanta qualquer privil&#233;gio que a branquitude ou o conforto material possam oferecer. Era, ainda &#233;, uma puta duma vida dura.</p><p>E seu passado de v&#237;tima da canalhice masculina nunca foi explorado. Ou foi pesado demais, ou ela &#233; uma pessoa privada demais. Um misto dos dois, possivelmente. Como disse antes, n&#227;o sei bem o que aconteceu entre ela e o pai do Carlinhos.</p><p>A situa&#231;&#227;o poderia ter sido pior, &#233; claro. Eliane, junto de outras m&#227;es cariocas, fluminenses, com filhos especiais, fundou uma ONG. Vou omitir o nome em respeito ao nobre trabalho delas. Uma branquelona loira, gorda, grisalha e desbotada, mas ainda com aqueles olhos verd&#237;ssimos, cuidando do loirinho gord&#227;o e abobado, mas funcional, cada vez mais funcional. O que &#233; isso perto da realidade das suas semelhantes em contexto, e distintas em casta, nas favelas e sub&#250;rbios da merda do Rio de Janeiro?</p><p>Era traficante do CV torturando filho autista de empregada dom&#233;stica porque tomou fora da irm&#227;zinha adolescente gostosinha dele. Era traficante do TCP tacando fogo no terreiro e fazendo o neto com Tourette da m&#227;e de santo cheirar a fuma&#231;a preta pra ver se tirava o capeta dele e dali. Era pretinho esquizofr&#234;nico dando tapa na cara de PM durante o surto e recebendo o tratamento do Amarildo em seguida. Era pastor 171 roubando o BPC da m&#227;e de menino vegetal pra pagar puta e presta&#231;&#227;o de Honda Civic.</p><p>&#201; desgra&#231;a que nem a minha mente pervertida &#233; capaz de descrever em paz. Como n&#227;o ser de esquerda numa terra castigada dessas?</p><p>O tempo passou, o fascismo &#224; brasileira chegou. Primeiro com A&#233;cio Neves, depois com Michel Temer e, finalmente, com Jair Bolsonaro. O velho viu a derrota do Fluminense de Renato Ga&#250;cho naquela eletrizante final da Libertadores de 2008 contra a LDU. Viu a campanha lend&#225;ria de perman&#234;ncia na S&#233;rie A em 2009, capitaneada pelo grande Alexis Stival, o Cuca, e depois o t&#237;tulo do Brasileir&#227;o de 2010 com o Muricy. O de 2012, meio roubado e comandado pelo Abel&#227;o, ele j&#225; n&#227;o entendeu direito por causa do Alzheimer. O vergonhoso tapet&#227;o de 2013, que os salvou de mais um rebaixamento e acabou fodendo a Portuguesa, ele nem tomou conhecimento.</p><p>O velho ainda viveu mais uns anos, com o c&#233;rebro j&#225; completamente putrefato com essa doen&#231;a maldita. Mas, agora, numa situa&#231;&#227;o que ficava cada vez mais prec&#225;ria. A mesma Unimed-RJ que havia financiado essas gl&#243;rias do tricolor uns anos antes, quase faliu o velho e a fam&#237;lia Werner. A cooperativa, j&#225; meio quebrada, tirou um monte de coisa <em>extra</em> do plano de sa&#250;de dele. Coisas bobas, que somadas, batiam na casa dos cem pau por ano, tranquilamente.</p><p>O custo com velho demente, mesmo o das coisas bobas, especialmente o das coisas bobas, tende ao infinito. Eliane acabou tendo que cobri-las com o principal da grana que o velho havia poupado ao longo da vida. A pens&#227;o dele j&#225; n&#227;o aguentava o grosso do tranco sozinha.</p><p>A&#237; o senhor Carlos Werner finalmente morreu. Primeiro ano do governo Bolsonaro, que ele nem sequer tomou conhecimento. Eliane, tamb&#233;m, nem prestou tanta aten&#231;&#227;o quando o Jair apareceu de verdade. Ficou at&#233; pouco impactada com o absurdo que era ter aquele animal na presid&#234;ncia. Pra algu&#233;m como ela, que cultivou um progressismo t&#227;o otimista assim, ver aquele troglodita desqualificado na presid&#234;ncia era papo pra ficar ou hist&#233;rico ou catat&#244;nico, como tantos ficaram. </p><p>Mas era tanta dor de cabe&#231;a, tanta tristeza de ver o pai babando, tanto stress de uma vida que se aproximava sem a pens&#227;o e o patrim&#244;nio dele. Filho autista atingindo a maioridade, dinheiro escorrendo no ralo. O entra-e-sai de enfermeiro no <em>homecare</em>. As tr&#234;s gera&#231;&#245;es da fam&#237;lia Werner foram, e continuam sendo, participantes ativas da Economia do Cuidado.</p><p>Repare nas ruas de qualquer bairro mais rico, daqueles mais centrais e tradicionais, cheios de velho. As ambul&#226;ncias dos planos de sa&#250;de, as mocinhas negras vestidas de branco. N&#227;o s&#227;o dom&#233;sticas, praticamente n&#227;o existem mais dom&#233;sticas como antes. S&#227;o profissionais da sa&#250;de. Elas todas estudaram, fizeram a escolha certa, est&#227;o em um mercado promissor. Est&#227;o compradas na curva demogr&#225;fica, <em>long</em> na decrepitude desses velhos que esqueceram de morrer. Enfermeiras, cuidadoras, fisioterapeutas respirat&#243;rias. Todo edif&#237;cio j&#225; &#233; parcialmente um asilo, um hospital bem equipado, cheio de idoso babando de Alzheimer, Parkinson e outros horrores.</p><p>O velho j&#225; havia votado no Jair pra deputado federal uma vez, n&#227;o me lembro em qual elei&#231;&#227;o. Ele tamb&#233;m n&#227;o p&#244;de orgulhar-se de ver o seu neto t&#227;o amado entrar na faculdade.</p><p>Ter ensino superior &#233;, entre gente mais velha, uma das coisas mais importantes que algu&#233;m pode conseguir no Brasil. No caso de Carlinhos, um rapaz especial, ainda mais. Uma leg&#237;tima conquista. Cada ano que passava ele ficava menos especial perto dos seus antigos colegas da escola pra garotos especiais. Passou numa particular pro curso de Letras.</p><p>N&#227;o sei se ele j&#225; leu ou consegue ler um livro grande todo. Mas ele sabe bastante <em>trivia</em> de autores. Ele sabe, por exemplo, que Machado de Assis &#233; um &#237;cone negro, sendo a ra&#231;a o principal tema de sua obra, assim como Carolina Maria de Jesus e Toni Morrison. <em>Beloved</em>. Ele lia, escutava e at&#233; falava ingl&#234;s muito bem. Eliane foi diligente com isso. J&#225; que n&#227;o tinha como colocar o moleque no cursinho de ingl&#234;s, ela contratava uma professora particular <em>mindful of the circumstances</em>.</p><p>A pandemia veio logo depois. Ali ela j&#225; prestava aten&#231;&#227;o no Jair, o avatar final da necropol&#237;tica bras&#237;lica. Eliane deu o suporte que o filho precisava e Carlinhos, passados alguns anos, conseguiu se formar bacharel. J&#225; na &#233;poca do GPT e do Claude. Ao contr&#225;rio dos seus colegas de faculdade, n&#227;o usou nenhum desses no TCC. A b&#250;ssola moral do rapaz era firme e bem orientada. A m&#227;e foi sua revisora e editora e mentora.</p><p>Com a doen&#231;a e morte do av&#244;, morreu tamb&#233;m o &#250;ltimo contato de Carlinhos com o mundo masculino. Sem futebol, no folclore brasileiro, o menino aviada. Vira bicha. Ainda mais sem pai. N&#227;o deu outra. Mas ao inv&#233;s disso acontecer na inf&#226;ncia, como costuma acontecer com os boiolas que n&#227;o ligam pra futebol, aconteceu na faculdade. Carlinhos, sei l&#225; como, descobriu-se homossexual aos 19 anos, durante os anos do <em>fique em casa!</em> covidianos. M&#227;e e filho, &#233; claro, mergulharam fundo em toda aquela histeria sanit&#225;ria. Estavam certos. Ambos resistentes &#224; insulina, com apneia do sono, com&#243;rbidos, &#225;cidos.</p><p>O despertar sexual dele deu-se, pelo menos em rela&#231;&#227;o &#224;s identidades, ali. Sozinho, em casa, com m&#225;scaras, respiradores N95, &#225;lcool gel e os caralho. Isso &#233; um mist&#233;rio pra mim. Nem tento compreender a sexualidade dos at&#237;picos. Ela existe, obviamente, mas como ela se manifesta? Ele sempre foi obeso, havia ambiente metab&#243;lico para esse florescer? S&#227;o perguntas v&#225;lidas.</p><p>N&#227;o sei como ele passou a gostar de homem. Ele gosta de homem? J&#225; viu um pornozinho gay? Nunca beijou. Obviamente nunca deu ou meteu. N&#227;o imagino que ele consiga te explicar a mec&#226;nica de dar ou de meter. E falando em mec&#226;nica, n&#227;o consigo nem imaginar como ele bateria uma punheta. O fato &#233; que ele gostava das bandeiras e, de fato, a bandeira LGBTQIA+ &#233; muito bonita. Ele colocava as bandeirinhas no &#237;cone dele no Zoom ou no Teams nas aulas online da faculdade.</p><p>Carlinhos sempre custou caro. Agora havia a mensalidade da faculdade, mas antes era o col&#233;gio pra at&#237;picos, as psic&#243;logas especializadas, fonoaudi&#243;loga, professora de ingl&#234;s formada em psicologia e interc&#226;mbio pra Universidade de Birmingham. Ci&#234;ncia Sem Fronteiras. Rem&#233;dios. Mesmo com o apartamento pr&#243;prio em Laranjeiras que herdou do pai, um sal&#225;rio bom pra padr&#245;es brasileiros e uma aposentadoria tamb&#233;m boa que j&#225; se avizinhava, Eliane precisava garantir o futuro conforto do Carlinhos. Na ONG, ela viu de perto o que &#233; ser um <em>at&#237;pico</em> pobre, miser&#225;vel, arruinado.</p><p>Tudo bem que aqueles n&#227;o tinham outro horizonte nem conheciam coisa diferente. Dinheiro &#233; o que tira sono, mesmo pra pessoas que n&#227;o est&#227;o totalmente fodidas. Especialmente pra elas.</p><p>Mas a sorte, finalmente, come&#231;ou a sorrir pra Eliane.</p><p>Primeiro, Carlinhos formou-se na faculdade. O menino tomou jeito. Um feito.</p><p>Depois, algo ainda mais incr&#237;vel.</p><h2>4. A Realpolitik do Bismarck da regi&#227;o dos Lagos foi feliz pros Werner</h2><p>O prefeito de Maric&#225; &#233; um homem pragm&#225;tico. Ele &#233; da ala direita do Partido dos Trabalhadores. Eliane o considera, sempre o considerou, um homem chucro. Mas, como Lula, ele &#233; um sujeito diplom&#225;tico, capaz de colocar, agregar diferentes grupos debaixo do seu guarda-chuva pol&#237;tico. <em>Alinhar</em>. O prefeito precisava acomodar os diferentes interesses da sua coaliz&#227;o. Agradou &#224;s for&#231;as conservadoras comprando picapes S10 novinhas pra Guarda Municipal. Os guardas, equipou-os com Berettas 9mm importadas. Nada de Taurus ou CBC.</p><p>&#192;s for&#231;as progressistas, agradou com um programa ambicioso de a&#231;&#245;es afirmativas para cargos municipais. Al&#233;m de reserva de vagas em todos os concursos da prefeitura, criou cargos espec&#237;ficos para posi&#231;&#245;es estrat&#233;gicas numa agenda de longo prazo. <em>Diversity, Equity and Inclusion</em>. O or&#231;amento municipal, turbinado pelos royalties do pr&#233;-sal, aguentava. Abriu um concurso. Analista de Diversidade e Inclus&#227;o. Contratou uma banca s&#233;ria, com reputa&#231;&#227;o. N&#227;o iriam dar espa&#231;o pra concurseiros picaretas com seus diagn&#243;sticos criativos e at&#233; mesmo fraudulentos. Seriam duros e criteriosos. Os deficientes, assim como os negros, teriam que ser de verdade.</p><p>Mandaram o edital no grupo de WhatsApp da ONG de at&#237;picos. Servi&#231;o p&#250;blico, o sonho molhado de todos aqueles pobrinhos ali. Cargo novo, cotas, vai que d&#225;, n&#233;. Eliane viu e inscreveu Carlinhos. N&#227;o falou pra mais ningu&#233;m. Ela, al&#233;m de constrangida com a situa&#231;&#227;o, n&#227;o queria constranger nenhum deles ali. Analista de Diversidade e Inclus&#227;o da Prefeitura de Maric&#225;. Ela comprou apostilas e pacotes de videoaulas dos dois melhores cursinhos de concursos. Direito Constitucional, Direito Administrativo, &#201;tica e Conduta, Inova&#231;&#227;o no Setor P&#250;blico, L&#237;ngua Portuguesa e L&#237;ngua Inglesa. A prova de ingl&#234;s foi dif&#237;cil pra cacete. N&#227;o sei exatamente o porqu&#234; de ter tido uma, mas, como disse, a banca foi dura e criteriosa.</p><p>Nenhum outro candidato PCD teve aulas de ingl&#234;s desde a inf&#226;ncia. Muitos at&#233; estudaram depois de adultos. Mas n&#227;o &#233; a mesma coisa. Brasil, n&#233;. <em>Low human capital</em>. Carlinhos passou. Sete vagas no total. Duas vagas reservadas para PCDs. PCDs de verdade. Os aprovados foram Carlinhos e uma mo&#231;a com distrofia muscular formada em direito. Daquelas bem aleijadinhas. Um enorme obeso loiro e uma pardinha toda atrofiada. Carlinhos postava suas vit&#243;rias no Instagram. At&#233; come&#231;ou a gravar v&#237;deos curtos que republicava no TikTok. Temas pol&#237;ticos, dicas de leituras, at&#233; conselhos de vida. Ele era concursado, ent&#227;o era capaz de ter algum coitado desesperado que levasse os conselhos a s&#233;rio. Exposi&#231;&#227;o excessiva, na minha opini&#227;o. Eliane sabia disso. Mas o filho era solit&#225;rio, era a maneira dele de interagir com o mundo.</p><p>Analista de Diversidade e Inclus&#227;o. Carlinhos tomou posse ganhando 9.572 reais + benef&#237;cios. Estabilidade. 1 dia de trabalho presencial a cada duas semanas. Regime especial PCD. As mesmas bandeirinhas no Zoom e no Teams agora nas reuni&#245;es em que alguma mulher burrinha usaria o termo <em>alinhar</em> repetidas vezes.</p><p>O amor venceu.</p><p>Eliane o levava de carro nos dias de presencial, &#233; uma viagem longa. Tinham que sair de manh&#227; cedinho de Laranjeiras pra n&#227;o ficarem presos no tr&#226;nsito. Mas naquele dia ela n&#227;o podia, tinha um compromisso.</p><p>A&#237; chamaram um Uber.</p><h2>5. O Master &#233; um Esc&#226;ndalo da Direita</h2><p>Passou um tempo do choque inicial que Milton Jr. teve ao descobrir que o gord&#227;o era autista pra valer. Era cedo demais pra ele ligar na sua live matutina de prefer&#234;ncia, a do ICL Not&#237;cias no YouTube do Xiaomi conectado ao sistema de som do Onix. Aquilo era suficientemente s&#233;rio e profissional pra ouvir no carro com passageiro atr&#225;s. Lives mais explicitamente esquerdistas ou informais, n&#227;o. O Brasil ainda n&#227;o &#233; plenamente civilizado pra isso acontecer sem risco. Voc&#234; n&#227;o sabe o qu&#227;o chucro, violento e reacion&#225;rio &#233; o seu passageiro. Ligou a CBN. A corrida ia ser longa.</p><p>Falavam de Banco Master. Danny Vorcaro, algum ministro do STF, filmes, orgias, Martha Graeff, loiras gostosas em jatos particulares.</p><p>&#8220;O MAAAAAAAASTER &#201; UM ESC&#194;NDALO DA DIREITA&#8221;</p><p>Milton Jr. at&#233; olhou pro banco de tr&#225;s com o susto que ele tomou. A frase saiu em forma de grito, bem desafinado, pela boca do passageiro autista.</p><p>&#8220;&#201; isso mesmo&#8221; disse Milton Jr. e os dois, que compartilhavam as mesmas predile&#231;&#245;es pol&#237;ticas, come&#231;aram a conversar, por mais esquisito que fosse conversar com o Carlinhos.</p><p>Falaram bastante. A situa&#231;&#227;o brasileira, o feliz calv&#225;rio da fam&#237;lia Bolsonaro, a necessidade de diversidade e inclus&#227;o, o genoc&#237;dio em Gaza, os assentamentos criminosos na Cisjord&#226;nia. Milton Jr. era muito mais simp&#225;tico &#224; resist&#234;ncia heroica do Ir&#227; frente &#224; agress&#227;o dos EUA e dos judeus. Para Carlinhos, os sucessos militares n&#227;o justificavam o hist&#243;rico abomin&#225;vel da Rep&#250;blica Isl&#226;mica no tratamento das minorias, especialmente de mulheres e homossexuais.</p><p>&#8220;Finalmente peguei um passageiro esclarecido. C&#234; sabe, a maioria dos passageiros, quando o assunto &#233; pol&#237;tica... s&#227;o bolsonaristas e evang&#233;licos. Assim, n&#227;o tem problema em ser evang&#233;lico... mas... O pessoal n&#227;o &#233; esclarecido, sabe?&#8221;</p><p>Essa frase significou muito pra Carlinhos. O elogio. Ele nem entendeu o deslize.</p><p>&#8220;Obrigado. Voc&#234; tamb&#233;m &#233; muito inteligente&#8221;.</p><p>Milton Jr. havia dito esclarecido, n&#227;o inteligente. Mas beleza.</p><p>&#8220;Valeu cara!&#8221;</p><p>&#8220;DE NADA&#8221;</p><p>Falaram mais sobre pol&#237;tica, sobre hist&#243;ria, livros e cultura. Sobre o novo emprego de Carlinhos. Ele deu muitos detalhes. Detalhes demais.</p><h2>6. Os filhos de Lula e Jair</h2><p>O Esp&#237;rito Santo s&#243; existe pra aumentar o tempo de viagem at&#233; a Bahia. Isso, ou algo parecido, disse Cl&#225;udio Besserman, o Bussunda.</p><p>Minha av&#243; tinha uma casa perto da praia de Santa M&#244;nica em Guarapari. N&#227;o era na praia em si, mas era pertinho. Casa branca de madeira com uns coqueiro na frente. Era num morrinho, ent&#227;o tinha vista pro mar antes de constru&#237;rem um monte de merda na frente. Simples, mas antigamente devia ter sido at&#233; bem charmosinha. A praia nessa &#233;poca, dizem, era quase deserta. Poucas casas, afastada da cidade. Mas a&#237; enfarofou r&#225;pido. O resto da mineirada invadiu.</p><p>Passei meus primeiros cinco ou seis janeiros l&#225;, muito tempo depois, quando j&#225; tinha um favel&#227;o atr&#225;s da casa. Durante o resto do ano, minha av&#243; n&#227;o deixava mais nada l&#225; porque sempre roubavam. Lou&#231;a, roupa, roupa de cama, tudo. Num dos roubos, os ladr&#245;es ficaram com raiva de n&#227;o ter porra nenhuma pra roubar e cagaram no ch&#227;o da casa em protesto.</p><p>O Esp&#237;rito Santo &#233; esquecido mas &#233; um bom estado pra viver, um dos melhores do Brasil. Milton Jr. nasceu e cresceu l&#225;. A fam&#237;lia da m&#227;e &#233; de Teixeira de Freitas, na Bahia, e a do pai eu n&#227;o sei. A m&#227;e &#233; dona de casa e o pai trabalha com conserto de ar condicionado central de shoppings, supermercados e lojonas. Na Grande Vit&#243;ria e em outros lugares do estado. Trabalha com o irm&#227;o, o tio Marcel&#227;o. Trabalha pro irm&#227;o, na verdade. O Milton pai &#233; meio tapado, n&#227;o &#233; s&#243;cio de firma do irm&#227;o, esse sim um empreendedor, mas recebe um sal&#225;rio fixo e comiss&#245;es. Trabalham desde sempre com isso. Nasceram pobres e hoje s&#227;o classe m&#233;dia, seja l&#225; o que isso signifique. T&#234;m casa pr&#243;pria, uma Saveiro, um Onix e tr&#234;s filhos. Milton Jr., Marina e o Marcelinho, nascidos em sequ&#234;ncia, com intervalos de menos de 3 anos entre eles.</p><p>Milton Jr. &#233; negro.</p><p>Negro pardo. Pardo claro. Algo no nariz, algo no l&#225;bio superior e o cabelo levemente crespo faziam dele pardo ao inv&#233;s de branco. Cara de pobre, mas aquele estilo 100% trabalhador. Tipo o Matias do Tropa de Elite mas sem ser preto. Milton Jr. tem 29 anos e nunca foi parado pela pol&#237;cia, mesmo quando for&#231;ava a barra usando aquele bigodinho na risca de vagabundo, seja no Rio ou no Esp&#237;rito Santo.</p><p>Marina, a irm&#227;, &#233; bem gostosa e se formou em odonto numa particular. Hoje j&#225; tem consult&#243;rio. O Instagram dela intercala posts sobre odontologia e est&#233;tica com v&#237;deos fazendo agachamento no Smith, praticamente sendo encoxada pelo personal. Tamb&#233;m frases motivacionais. Agachamento b&#250;lgaro unilateral, o gl&#250;teo m&#233;dio dela flexionado.</p><p>V&#237;deo de mulata gostosa agachando no Instagram &#233; mais excitante que porn&#244;. Mas ela era mulata? Na minha classifica&#231;&#227;o, sim. A pele at&#233; que era clarinha mas aqui analisamos o fen&#243;tipo como um todo. Ela n&#227;o entenderia porra nenhuma se me visse a chamando de mulata. Brasileiro, felizmente, n&#227;o pensa nessas coisas. Ela fazia chapinha pra deixar o cabelo liso, mas aqueles fiapos ainda crespos logo acima da testa n&#227;o deixavam enganar. Talvez fosse pra se diferenciar da secret&#225;ria e assistente dela no consult&#243;rio, dois dedos mais escura. J&#225; eram amigas, conviv&#234;ncia &#243;tima. O tio Marcel&#227;o que ajudou a pagar a faculdade e o aluguel do consult&#243;rio. Hoje o trem j&#225; se banca.</p><p>O Marcelinho, o mais esperto e escurinho entre eles, j&#225; sacou novo que o futuro dele era com o tio, de quem ele recebeu o nome em homenagem. N&#227;o era de escola e n&#227;o perdeu tempo com faculdade. Come&#231;ou ainda adolescente a acompanhar o pai, o tio e a pe&#227;ozada nos plant&#245;es. Eram plant&#245;es porque &#233; um trabalho de hor&#225;rios escrotos. Conserto em shopping acontece de madrugada ou cedinho de manh&#227;. Aprendeu a falar a l&#237;ngua dos pe&#227;o e o jeito de lidar com eles. J&#225; que o Marcel&#227;o tem duas filhas novinhas, o futuro da firma t&#225; com o sobrinho.</p><p>Acho que Marcelinho e Marina deveriam virar crentes. N&#227;o crentinho de culto em galp&#227;o, de Igreja de pobre. Esse tipo de fuleiragem n&#227;o tem futuro, a mat&#233;ria-prima de ot&#225;rio e gente fragilizada que tolera tanto abuso assim j&#225; t&#225; secando. Mas o novo crente, tipologia goiana, do networking, do empreendedorismo, esse sim. Baita futuro. Como oportunidade de mercado, t&#244; <em>bullish</em>. Sei-l&#225;-o-qu&#234; Church, culto em forma de baladinha. Numa dessas, a irm&#227; dentista arruma um marido empres&#225;rio e o irm&#227;o empreendedor faz bons contatos pro business da fam&#237;lia. Talvez o Marcelinho arrume at&#233; uma esposa branquinha, capixaba pomerana, sei l&#225;. Investimento nas gera&#231;&#245;es futuras, p&#244;.</p><p>A chegada das Lojas Havan foi boa demais pra eles. Fazem o servi&#231;o da loja em Linhares, no norte do estado. Eles pagam bem e t&#227;o construindo uma loja gigantesca em Vila Velha. O subgerente regional tem contato direto com o bra&#231;o direito do bra&#231;o direito do Luciano Hang pra assuntos operacionais. Ele j&#225; t&#225; negociando um contrato longo de reparo e manuten&#231;&#227;o do ar condicionado central da nova megaloja. A Hilux do tio Marcel&#227;o esteve presente nas caravanas e motociatas do Mito de 2018 pra frente. Marcel&#227;o vota 22 na urna e tem posse de um .38 que, quando a PM capixaba entrou em greve em fevereiro de 2017 e a Grande Vit&#243;ria virou o Haiti por uns dias, ele quase usou.</p><p>Milton Jr. se assumiu gay uns anos antes disso, quando seu tio ainda n&#227;o era ostensivamente pol&#237;tico e ideol&#243;gico. O tio era, como continua sendo, um chucro. Nunca sofreu um pingo de homofobia vindo dele. As piadinhas foram parando com o tempo. S&#243; houve um conflitinho quando Milton Jr. se entusiasmou na milit&#226;ncia da faculdade nos anos do Fora Temer. A&#237; passou a corrigir o pai e o tio quando chamavam algu&#233;m de viado, bicha etc durante jogo do Vasco. Ele acabou parando com isso, ele nem ligava pra futebol, e o pai e o tio pararam de usar essas palavras na frente de Milton Jr. Por mais que falasse pros outros que vinha de uma fam&#237;lia homof&#243;bica, ele n&#227;o sofreu nada naquela fam&#237;lia de limpadores de ar condicionado central que votavam no Bolsonaro.</p><p>Ele fez um ano de cursinho pr&#233;-vestibular. O professor de hist&#243;ria do cursinho era um belo homem negro. Tamb&#233;m gay. J&#225; assumido, comprometido com outro homem. Eloquente, culto, saiu de baixo, neto de um quilombola do Vale do Rio Doce. Estudou em col&#233;gio particular em Vit&#243;ria por causa de uma bolsa do Instituto Terra, do Sebasti&#227;o Salgado. O fot&#243;grafo, embora mineiro de Aimor&#233;s, na divisa, fez-se primeiro no Esp&#237;rito Santo. Antes de virar fot&#243;grafo, estudou economia na UFES, se n&#227;o me engano. Se formos consider&#225;-lo como capixaba, ele &#233;, na minha opini&#227;o, o maior deles. Maior at&#233; que o Roberto Carlos.</p><p>Milton Jr. pediu conselhos pro professor. Isso foi no ano da reelei&#231;&#227;o da Dilma. O professor estava otimista com o Brasil. Sempre haver&#225; oportunidades para historiadores, soci&#243;logos, antrop&#243;logos. O Pr&#233;-Sal est&#225; a&#237;, dizia ele. Investimento em educa&#231;&#227;o, ci&#234;ncia e tecnologia. Precisaremos de cada vez mais gente pra pensar, e mudar, o Brasil.</p><p>O professor escapou do buraco de onde ele veio. A opress&#227;o das circunst&#226;ncias de merda. Milton Jr. n&#227;o veio de um buraco desses, nem d&#225; pra comparar. A opress&#227;o era a mediocridade da sua fam&#237;lia, dos seus leves preconceitos, seus h&#225;bitos, o baixo n&#237;vel cultural. O mesmo otimismo que tirou o neto do quilombola do buraco, prometeu muito ao nosso Milton Jr. Prometeu demais.</p><p>A mim, esse otimismo n&#227;o prometeu. Esta terra j&#225; foi prometida pra mim h&#225; muito tempo atr&#225;s. Ele s&#243; encheu meu saco. Minha vida foi uma sequ&#234;ncia de Elianes, energizadas por esse otimismo, quase sempre bem intencionadas, me dando li&#231;&#227;o de moral. Uma moraliza&#231;&#227;o constante, cada vez mais insuport&#225;vel. Um corredor. Professoras do col&#233;gio, psic&#243;logas, mediadoras educacionais, as mo&#231;as do RH. Todas elas enfileiradas ali, me esperando, sorrindo, pra me atacar e moralizar. Era uma casa. Eu caminhava interminavelmente pelo corredor daquela casa, e elas ali. Elas moravam ali, naquela casa, aquela casa longa, aquele longo corredor. Eu precisava de Espa&#231;o, atravessei dois oceanos pra fugir delas. Elas continuam atr&#225;s de mim.</p><p>Por essas e outras, Sebasti&#227;o Salgado, que Deus tenha recebido sua alma, me chamaria, talvez, de fascista. Mas meu Brasil &#233; o dele, n&#227;o o desses crentes, crente fuleiro ou crente goiano. &#201; o da Eliane, mas puta que pariu, ela encheu demais o meu saco. Secular, Sincr&#233;tico e Cat&#243;lico. Nessa ordem. Primeiro curvamos concreto na Mata Atl&#226;ntica pra ver se ficava charmoso. Depois, vendo a maravilha que t&#237;nhamos feito, o curvamos ambiciosamente no meio do Cerrado. A&#237; quase antes do fim, colocamos a Cruz em cima. Em respeito aos nossos antepassados. No centro do continente conquistado. Fincada nos grandes l&#225;bios da Fronteira Estuprada.</p><h2>7. Trabalha e Confia e chupa pau</h2><p>Milton Jr. decidiu, ent&#227;o, virar cientista. Passou no ENEM pra Ci&#234;ncias Sociais na Federal do Esp&#237;rito Santo. Demorou um pouco pra se formar, fez todo o circuito de estudante de humanas de esquerda de universidade p&#250;blica. O tio Marcel&#227;o se incomodava mais com isso, que ele chamava vagabundagem, do que com o fato do sobrinho chupar rola e dar o cu.</p><p>O que Marcel&#227;o n&#227;o sabia era que Milton Jr. ainda n&#227;o chupava rola ou dava o cu. Ele se assumiu gay ainda virgem e continuou, por um bom tempo, sem trepar. Ele at&#233; tinha oportunidades, era magrinho e viado adora comer magrinho. Mas d&#225; medo. Ele deu o cu pela primeira vez aos 20 anos e gostou. Sangrou, a regi&#227;o perineal dele era especialmente fr&#225;gil. Pra meter ele tinha dificuldades. N&#227;o conseguia manter a pot&#234;ncia de ere&#231;&#227;o suficiente pra dentro do &#226;nus masculino. S&#227;o violentas as contra&#231;&#245;es e os espasmos <em>sphincterianos</em>. Milton Jr. se masturbava compulsivamente desde os 13 anos. M&#227;os firmes, impulsos visuais que n&#227;o podem ser repetidos. O que ele descobriu e faz at&#233; hoje, sua paix&#227;o, &#233; chupar rola.</p><p>Ele formou-se cientista social habilitado em antropologia e foi pro Rio com 25 anos. Passou num mestrado numa universidade fluminense. Como na hist&#243;ria de Eliane e Carlinhos, n&#227;o citarei nomes de institui&#231;&#245;es aqui. Pelo menos n&#227;o no Rio.</p><p>Eu me dei o trabalho de ler a tese de mestrado da Eliane. Gostei e j&#225; fiz minhas ressalvas. A de doutorado, baixei e pedi pro Claude resumir e opinar. Deve ter ficado boa. A do Milton Jr., nem isso. Li umas p&#225;ginas e o tro&#231;o &#233; uma bosta. At&#233; o Claude, que &#233; sempre muito diplom&#225;tico, concordou comigo depois que o pressionei. Pretensioso e mal escrito. Nem me lembro do tema pra ser sincero. Name dropping de autorzinhos ou aquela obsess&#227;o com um autor espec&#237;fico e sua suposta excepcionalidade explicativa. Observa&#231;&#245;es banais da realidade por meio de verbos gen&#233;ricos no infinitivo. J&#225; li em algum lugar que isso &#233; tudo culpa do Heidegger. O orientador gostava de ler a tese e os esbo&#231;os dela no seu celular, ent&#227;o ficava puto porque s&#243; recebia os arquivos em Word do Milton Jr. Pra ler f&#225;cil no celular, tem que ser em PDF e o nosso antrop&#243;logo sempre esquecia de mandar o arquivo certo.</p><p>Antropologia eu gosto das curiosidades sobre povos e culturas ex&#243;ticos, inclusive o meu povo e minha cultura. N&#227;o tenho muita simpatia pelo resto do pessoal, especialmente os da academia. &#201; gente demais, professor demais, pretens&#227;o demais, autorzinho demais e o Brasil &#233; pobre demais. Mas justi&#231;a seja feita, essa turma foi sacaneada, ent&#227;o n&#227;o xingo muito. Judia&#231;&#227;o. S&#227;o v&#237;timas, tamb&#233;m. V&#237;timas do mesmo otimismo que deu a possibilidade material da nossa Eliane vencer. Que a energizou pra continuar vencendo, mesmo com todo o seu azar no Tigrinho da vida.</p><p>A facilidade que o pai dela teve pra comprar im&#243;veis, os reajustes gostosos na sua pens&#227;o, a Selic de dois d&#237;gitos, ganhando nas duas pontas da festa. A promessa cumprida de que a educa&#231;&#227;o te entregaria um futuro confort&#225;vel. Voc&#234; teria a possibilidade de viver uma <em>vida de classe m&#233;dia</em> estudando coisas que engrandecem a sua alma. Coisas que t&#234;m a possibilidade de mudar o pa&#237;s.</p><p>Quem acreditou nisso se fodeu. Eliane nunca esteve abaixo dos top 10% da popula&#231;&#227;o brasileira. Talvez top 5%. Br&#226;mane enraizada. Em renda, em patrim&#244;nio, em amigos. Respeito, status social, intelig&#234;ncia org&#226;nica e outras vantagens n&#227;o capitalistas frente aos outros. Essas &#250;ltimas devem ser as mais importantes e Eliane talvez esteja no top 2.5%, 1%, 0.5% em algumas delas. Ela diz que &#233; classe m&#233;dia por vergonha. Mas &#233; elite, mesmo com a vida coitada dela.</p><p>Achando que era isso que o esperava, coitado, Milton Jr. se mudou pro Rio. E foi assumindo aos poucos aquela identidade rid&#237;cula da malandragem carioca socialmente respons&#225;vel. Bigodinho, camisa do Vasco porque foi o primeiro time a aceitar preto l&#225; na puta que pariu da pr&#233;-hist&#243;ria brasileira. Transou com uns 150 homens desde ent&#227;o. Tinha trepado com apenas 20 e poucos em todo o seu tempo no Esp&#237;rito Santo. Dessas 150 fodas, acho que chupou uns 146 paus. Sangrou analmente mais algumas vezes. Foi bom, viva o Grindr!, mas n&#227;o foi suficiente. Continuou se masturbando compulsivamente, mesmo em meio a tanta rola. Foi se tornando mon&#243;tono. Ele era cuidadoso, sempre usava camisinha e o m&#225;ximo que pegou foi virose. Pegou v&#225;rias, o que foi agravado por ter recebido tanto s&#234;men, um imunossupressor, na cara.</p><p>Por ser cauteloso e avesso aos riscos, seus fetiches mais pesados ficavam no celular. Membro do grupo <em>Mamadores de Macho no Sigilo 8.0</em> no Telegram. Gays tarados e aventureiros. Chupando e filmando uma mamada num PM enrustido numa Duster da Pol&#237;cia Militar do Mato Grosso do Sul e postando pra galera ver. Uns nem se davam o trabalho de borrar a cara do sujeito que recebia a mamada. Em SP, tem uns que gostam de cracudo, trombadinha, assaltante de celular. &#201; nojento, repugnante, mas eu admiro a aud&#225;cia. V&#225;rios j&#225; morreram. Deram a vida ao fetiche.</p><p>Oferecer um oral pra um pe&#227;o r&#250;stico em algum cu do Brasil, mesmo com grana na m&#227;o, &#233; perigoso. Se expressou do jeito errado e o cabra acha que voc&#234; feriu a honra dele. N&#227;o importa que ele t&#225; recebendo 100 conto pra deixar um viad&#227;o chupar o pau dele. <em>Honor-based societies</em>, tipo aqueles &#237;ndios da Papua Nova Guin&#233;, com o piru pra fora, que voc&#234; v&#234; em preto e branco no G&#234;nesis do Sebasti&#227;o Salgado. &#201; a entona&#231;&#227;o errada, o grunhido diferente e o pe&#227;o j&#225; t&#225; te esfaqueando.</p><p>O &#250;nico risco real que Milton Jr. tomou foi sair no Bumble com uma linda trans. Mulher negra, magra, alta. O papo estava bom. Decidiu dar uma chance &#224;s mulheres. Chegou l&#225;, um muquifo desgra&#231;ado no fim de um desses corredores longos de im&#243;veis subdivididos em que os favelados moram. Longo, uma casa longa. Era um baita dum travec&#227;o esquisito. Essa parte Milton Jr. n&#227;o ligou, depois de recuperado do susto, ele n&#227;o gostava de mulher mesmo. Tinha pau e era pau grande, ent&#227;o &#243;timo. O problema foi durante. Era golpe do programa. Sem contesta&#231;&#227;o, n&#227;o h&#225; contesta&#231;&#227;o no fim de um corredor longo de barrac&#245;es com um traveco maior que voc&#234; te cobrando. Morreu em mil conto. Comeu o resto daquele m&#234;s s&#243; na merda do bandej&#227;o da universidade e encheu garrafas de 2L no bebedouro com gosto de cloro pra levar pra casa.</p><p>Milton Jr. sabia que n&#227;o tinha grana ali quando escolheu cursar o que cursou e estudar o que estudou. O lindo e negro professor do cursinho em Vit&#243;ria tava errado, n&#227;o h&#225; demanda pra pensarem o Brasil. Milton Jr. continuava se masturbando pro Instagram dele. Agora esse cara tava bem, bem de verdade. Virou s&#243;cio de um pr&#233;-ENEM com boa presen&#231;a online. Virou um influencer, tem que ficar gravando tiktokzinho retardado. Ossos do of&#237;cio. At&#233; mudar o pa&#237;s por meio da educa&#231;&#227;o libertadora ficou dif&#237;cil.</p><p>Os concursos pra professor de boas escolas p&#250;blicas s&#227;o dific&#237;limos. Milton Jr. n&#227;o queria mandar curr&#237;culo pra escola privada, o dele era meia boca. Nunca deu aula de porra nenhuma e tem nego com p&#243;s-doutorado em pedagogia com dificuldade de achar emprego decente. Professor de escola p&#250;blica gen&#233;rica, os colegas de Milton Jr. disseram que n&#227;o d&#225;. Aparentemente o tal Novo Ensino M&#233;dio fodeu tudo.</p><p>Ele s&#243; se tocou que ali n&#227;o havia futuro de um ano pra c&#225;, nas fases finais do seu mestrado. Olhou pra frente e n&#227;o viu nada. Deixou de receber a m&#237;sera bolsa do CAPES, voltou pra Vit&#243;ria e pegou o Onix do pai. Rodaria Uber enquanto esperava abrir vaga em alguma faculdade p&#250;blica pra um doutorado. O pix mensal de 1.500 conto que o pai mandava, sozinho, n&#227;o dava pra morar no Rio e a &#250;ltima coisa que Milton Jr. queria era voltar pra Vit&#243;ria. Ele tirou carteira s&#243; aos 22 anos e por insist&#234;ncia do pai e do tio, que achavam simplesmente absurdo o moleque n&#227;o sequer se interessar em dirigir. Ele deixou o carro morrer em dois ped&#225;gios diferentes na 101 voltando pro Rio.</p><p>Chegando ao Rio num fim de tarde de um dia claro e limpo, ele virou prum lado e viu o Dedo de Deus, distante em Teres&#243;polis, no horizonte. Virou pro outro e viu o sol batendo no resto dos morros ao redor da Guanabara.</p><h2>8. Os Morros perto do Mar</h2><p>Depois que cagaram no ch&#227;o da casa de praia e minha av&#243; finalmente vendeu o tro&#231;o, acho que em 2004 ou 2005, meus pais come&#231;aram a me levar pra outros lugares durante os janeiros da minha inf&#226;ncia. Sou filho &#250;nico e, nos primeiros anos de vida do filho, ter a casa de praia da m&#227;e ou da sogra quebra um galho. Depois n&#227;o precisou mais. De l&#225; pra c&#225;, mais de vinte anos depois, n&#227;o parei de viajar. Tive todas as vantagens que Eliane teve e mais um pouco. Bem mais, na verdade. E nenhum azar como os dela. Vi essas desgra&#231;as acontecerem com gente relativamente pr&#243;xima, mas sempre a uma dist&#226;ncia salutar.</p><p>&#205;amos bastante pro Rio de Janeiro durante o resto do ano, minha m&#227;e n&#227;o suportava os janeiros l&#225;.</p><p>Meu outro av&#244;, do outro lado da fam&#237;lia, morou no Rio nos anos 40. Ele &#233; mais velho, morreu com 99 e hoje teria 110 anos. J&#225; era adulto, &#233; uns 10, 12 anos mais velho que o sr. Carlos Werner. Viveu l&#225; solteiro, morou numa pens&#227;o, fazia excursionismo nos morros da Guanabara. Eles usavam sapato social, h&#225; fotos excepcionais dele em morros famosos mas irreconhec&#237;veis, que hoje s&#227;o favel&#245;es. Ser&#225; que ele comeu alguma polaca no porto? Eu teria comido, n&#227;o sei se esse meu av&#244; era homem de puta.</p><p>Fico emocionado pensando no meu av&#244; subindo e descendo os morros nesse Rio distante e sublime. A beleza daquele lugar operou uma magia t&#227;o grande na minha cabe&#231;a que n&#227;o gosto nem de visitar. N&#227;o gosto de descrever, &#224;s vezes nem de lembrar.</p><p>Depois de adulto fui morar em Hong Kong e fiz de l&#225; meu Rio imagin&#225;rio. A geografia &#233; parecida, n&#227;o t&#227;o exuberante, mas ainda maravilhosa. Morr&#245;es levantando abruptamente do mar. Est&#227;o em latitudes quase id&#234;nticas, s&#243; que transpostas no globo. Climas parecidos, quentes, &#250;midos.</p><p>O seu Rio de Janeiro eles te roubaram, ent&#227;o voc&#234; foi encontr&#225;-lo do outro lado do mundo. Um magn&#237;fico inferno claustrof&#243;bico, cyberpunk e canton&#234;s, em que as chinesinhas magrinhas comem Siu Mei e Dim Sum. A mesma t&#225;bua lindinha que come de boca aberta e arrota na mesa comendo <em>soup noodles</em>, se interessa pelas suas hist&#243;rias do Brasil.</p><p>Inconveniente a princ&#237;pio, voc&#234; passa a achar isso fofo. Com aqueles olhinhos, convenhamos, tudo que ela faz &#233; fofo. Aquele cabelinho curto. Ela veio de uma prov&#237;ncia mais ao norte, n&#227;o tinha ido bem no Gaokao e o pai dela, que tem dinheiro, a mandou pra fazer faculdade naquela <em>Special Administrative Region</em> da Rep&#250;blica Popular. O ingl&#234;s dela, como o seu, &#233; perfeito. Os sotaques e maneirismos da primeira gera&#231;&#227;o de br&#226;manes, mandarins e bandeirantes globalizados. Os morros, os pr&#233;dios, o mar. Voc&#234;s dois abra&#231;adinhos vendo os segundos melhores pores do sol do planeta.</p><p>Ela te idolatra. Se encanta com suas hist&#243;rias. Voc&#234; floreia, claro, at&#233; exagera um pouco. Dos assaltos que voc&#234; sofreu, dos <em>favela savages</em> de quem voc&#234; correu, das brigas de torcida organizada que voc&#234; viu, dos primos do seu pai em Valadares que ainda resolvem as coisas na bala. <em>Wild Brazil</em>. Se encanta com a sua inf&#226;ncia de liberdade, com a sua juventude de alguma aventura urbana. Espa&#231;o. Ela n&#227;o teve nada disso, os pais dela em cima, a obrigando a estudar, at&#233; a brincadeira era regrada.</p><p>Voc&#234; apresentou a m&#250;sica brasileira, primeiro em ingl&#234;s, pra ela. Bossa Nova, Transa do Caetano e algum remix espetacular de funk proibid&#227;o, que voc&#234; traduziu e ela riu. Triste Bahia, o Choro e o Samba. A madeira do cacetete da cavalaria da PMMG no lombo de algum preto da Galoucura nos arredores do Mineir&#227;o antigo. As cenas da sua inf&#226;ncia. As fotos do bom selvagem surfando em cima dos &#244;nibus indo e voltando do jogo. Voc&#234; narrava isso com o mesmo entusiasmo que perguntava como foi a experi&#234;ncia do av&#244; acad&#234;mico dela na Revolu&#231;&#227;o Cultural. Foi tranquila, ele foi pra ro&#231;a e ficou uns anos l&#225;, escondido, mocado.</p><p>Ela se impressionou de voc&#234; saber de onde ela vinha e do dialeto escroto que ela falava, t&#227;o escroto que o Chiang Kai-shek mandou usar de c&#243;digo na guerra porque os japoneses n&#227;o conseguiam decifrar. Voc&#234; foi l&#225; depois, j&#225; sem ela. Terras m&#225;gicas de lindas montanhas perto do mar, mais uma vez. Ela n&#227;o sabia onde era BH antes de te conhecer, entendeu que era uma cidade grande pra dentro do Brasil, mas s&#243; isso.</p><p>Ent&#227;o ela situava as suas hist&#243;rias no Rio.</p><p>A bucetinha dela, que n&#227;o era rosa e estava sempre seca, chorava pro primeiro homem que a amou. Que bobagem, as rosas n&#227;o choram. Sempre nervosa, ela parecia n&#227;o ter transado muito na vida. &#201; estranha a rela&#231;&#227;o da mulher amarela com o sexo. Seu romance de Wong Kar-wai, aos 23 anos do novo mil&#234;nio, foi com uma femcelzinha deliciosa. Deus, Canibal, &#233; bom demais com voc&#234;. Voc&#234; tinha sido transparente com ela que &#224;s vezes, muitas vezes, voc&#234; perdia a pot&#234;ncia da ere&#231;&#227;o l&#225; dentro. Tinha sido transparente com ela sobre seu onanismo. &#212;nus do b&#244;nus que te tira o stress sem tarja preta. Isso a deixava ainda mais maravilhada. No <em>Wild Brazil</em> falamos abertamente de sexo, n&#227;o somos caretas e conservadores como os amarelos, filhos do Mestre Kong. <em>In Rio during Carnival people fuck in the streets.</em></p><p>Mas voc&#234; n&#227;o foi 100% transparente, n&#227;o tinha por que ser. Ela nervosa mesmo assim. Massagem nela pra ver se ela relaxa. Pega o creme que tava ali do lado. Aesop Geranium Leaf Body Moisturiser. Que cheiro maravilhoso, espalha nela. Com as m&#227;os, com a boca, o corpo dela &#233; seu. N&#227;o precisa falar pra ela que voc&#234; a acharia duzentas vezes mais deliciosa se aquela t&#225;bua perfeitinha tivesse uns contrastes mais fortes. N&#227;o era peito nem bunda. Mais marcado, mais machucado, at&#233; mutilado. Morde, chupa, espalha o creme com a boca. Creme na sua boca, na sua barba. Sua boca, sua barba na buceta dela. Que tro&#231;o delicioso, o creme, a buceta. Deve ser caro pra caralho. 50, 60 d&#243;lares. Ela come&#231;a a urrar de dor.</p><p>Dor e prazer. Aquilo n&#227;o era lubrificante. Foda-se. J&#225; t&#225; dentro. Vigor. Dentro. <em>Stop, you don&#8217;t stop, stop, you don&#8217;t stop</em>. Voc&#234; j&#225; gastou 20% do pote. Ela urrando e chorando. Assustada, maravilhada, com a sua pot&#234;ncia. Lapsos de racionalidade dentro do tes&#227;o. Voc&#234; se via de cima, coisas maiores te guiando, as grandes for&#231;as hist&#243;ricas que permitiram aquilo tudo acontecer. Choro, gozo, espasmos. Pergunte pro seu Orix&#225;. O amor s&#243; &#233; bom se doer.</p><p>Voc&#234; pensava em Deng Xiaoping. </p><p>Ela pensava, chorava e gozava pro Rio de Janeiro.</p><h2>9. A Nova Putaria no mundo que Deng construiu</h2><p>No fim de 22, ainda com a China Continental fechada por causa do Covid, eu fui subir um morro no extremo norte do territ&#243;rio da Regi&#227;o Especial Administrativa de Hong Kong, j&#225; quase na divisa com Shenzhen. Vi o p&#244;r do sol de l&#225;, um frio e vento do caralho. N&#227;o t&#227;o longe de mim, uma quantidade monstruosa de pr&#233;dios gigantescos e iluminados daquela nova metr&#243;pole aparecia na minha frente. Quando Eliane era crian&#231;a, aquilo era uma vila de pescadores com uns campos de arroz. Um estu&#225;rio lamacento onde chineses miser&#225;veis com aqueles chapel&#245;es catavam ostra. Quando ela era adolescente, abriram umas f&#225;bricas l&#225; pra aproveitar a proximidade com Hong Kong, j&#225; pr&#243;spera e pujante.</p><p>Foi em 92, ali em Shenzhen, a representa&#231;&#227;o m&#225;xima da modernidade chinesa, que Deng Xiaoping terminou seu lend&#225;rio <em>Southern Tour</em>. Seu &#250;ltimo ato ap&#243;s uma vida de revolu&#231;&#245;es. Dessa vez, a favor do mercado. A vida que foi a sublima&#231;&#227;o da era dos extremos. O Demiurgo discursava, antologicamente, perto daquele morro em que, trinta anos depois, o mineirinho subia e se maravilhava com a vista. E o mineirinho, avaliando o que ganhara, seguia fren&#233;tico, com suas m&#227;os onanistas, at&#233; o gozo.</p><p>Tudo que aconteceu no mundo desde ent&#227;o foi permeado pela import&#226;ncia, simb&#243;lica e objetiva, do <em>Southern Tour</em> de Deng Xiaoping. Os cremes caros da chinesinha, o trabalho de Milton Sr., Marina, Marcelinho e Marcel&#227;o, a megaloja da Havan em Vila Velha, os royalties do pr&#233;-sal que pagam o sal&#225;rio e o vale-refei&#231;&#227;o do novo emprego do Carlinhos na prefeitura de Maric&#225;. O Xiaomi de Milton Jr.</p><p>Um celular intermedi&#225;rio que oferece basicamente tudo o que voc&#234; precisa num celular custando pouco. Ele escuta lives do ICL Not&#237;cias e do Jones Manoel em velocidade 2x. O som do celular &#233; t&#227;o potente que nem &#233; preciso ligar no Bluetooth pra tocar no sistema de som do Onix. Ele gozava dentro do Onix, masturbava-se vigorosamente para os v&#237;deos em ultra HD que ele baixava em poucos segundos nos grupos e canais dos <em>Mamadores de Macho no Sigilo 8.0</em> no Telegram. Equipamentos da Huawei nas torres de 5G. A sede da Huawei fica em Shenzhen num pr&#233;dio a poucos quil&#244;metros do morro de onde eu vi as luzes da nova cidade enquanto tomava vento na cara no Lam Tsuen Country Park. A sede da Xiaomi International &#233; ali do lado tamb&#233;m. O QG &#233; em Beijing mas os caras que determinam o tipo de celular que o Milton Jr. vai preferir comprar sentam em salas de reuni&#227;o ali. Devia dar pra ver o morro onde eu tava dali.</p><p>De um passageiro pro outro no Uber, ele escutava lives e podcasts e, quando dava, batia punheta. As janelas laterais do Onix tinham insulfilme, se estacionasse no lugar certo, com a frente bloqueada, era relativamente tranquilo de tocar uma no banco do motorista. Ele gozava r&#225;pido. Rolos de papel higi&#234;nico baratos eram usados pra limpar a porra de Milton Jr. E a porra de Milton Jr. primeiro encharcava o papel e depois o desidratava. Eles eram jogados debaixo do banco. Quando esses restos de papel, j&#225; desidratados com a porra seca, se acumulavam, Milton Jr. pegava tudo, constrangido, e colocava numa sacolinha pl&#225;stica do Assa&#237;, onde ele comprava os rolos de papel higi&#234;nico na promo&#231;&#227;o. Constrangido mas n&#227;o humilhado. Nunca deu nada, nunca bateram no vidro dele. Pol&#237;cia, assalto, curiosos. A quantidade certa de risco e seguran&#231;a. De noite ou se estacionasse na quina certa de um estacionamento. Dava nada. Aquilo era o <em>thrill</em> que restava j&#225; que a foda normal tinha perdido a gra&#231;a.</p><p>Seria muito melhor se fosse num BYD. O sonho de consumo de qualquer motorista de aplicativo. S&#243; se fala deles nos grupos de Uber. Ele come&#231;ou a ver esses carros espetaculares ao mesmo tempo em que come&#231;ou a escutar podcasts e lives falando mais sobre o sucesso do modelo chin&#234;s, sobre quest&#245;es geopol&#237;ticas, sobre discuss&#245;es s&#233;rias sobre perspectivas revolucion&#225;rias. Elias Jabbour, Breno Altman, Comandante Farinazzo. Por mais que Milton Jr. j&#225; estivesse em meios de esquerda h&#225; mais de dez anos, aquilo tudo era novo. Ele tava cansado de dar e de receber li&#231;&#227;o de moral.</p><p>Toda moraliza&#231;&#227;o religiosa chega r&#225;pido ao seu limite. Como disse, n&#227;o tive saco pra ler a tese de mestrado de Milton Jr. e n&#227;o sei exatamente o que ele estudou, o que ele <em>pesquisou</em>. Perspectivas decoloniais? Cosmovis&#245;es dos povos origin&#225;rios do Brasil? O que &#233; o Brasil? Ailton Krenak, Eduardo Viveiros de Castro, David Graeber. Name dropping, capital cultural, pau no seu cu, filho da puta. J&#225; falei que n&#227;o ligo pra essas coisas. Conhecimento superficial, talvez nem isso. Mas Milton Jr. terminou concordando comigo.</p><p>Ele ainda n&#227;o conseguiu racionalizar isso verbalmente, talvez nem consiga porque &#233; doloroso demais. Mas ele sabe. Ele precisa de vencedores. O Sul Global precisa de vencedores. De Mao Zedongs, de Khomeinis e Larijanis, de Deng Xiaopings. Toda a exposi&#231;&#227;o ao sucesso do socialismo com caracter&#237;sticas chinesas sensibilizou Milton Jr. ao mundo material. Ele tinha tido pouca exposi&#231;&#227;o ao marxismo na faculdade. Leu uns resumos e umas passagens do Capital. N&#227;o entendeu porra nenhuma. Levemente familiarizado com a hist&#243;ria. Mas n&#227;o com a grandiosidade da Revolu&#231;&#227;o Chinesa, a mais formid&#225;vel delas.</p><p>O Onix passava na Rio-Niter&#243;i. Milton Jr. olhava praqueles navios, gruas, terminais de cont&#234;ineres, fragatas, submarinos, estaleiros. Cada vez mais BYDs, sofisticados e silenciosos, passando por ele. Quando jovem, ele nunca tinha reparado no Porto de Tubar&#227;o, em Vit&#243;ria, o mais impressionante terminal de min&#233;rio do mundo quando foi feito. Na &#233;poca, anos 60 ou 70, a China era a ro&#231;a das ro&#231;as. Obra-prima de engenharia, pioneirismo brasileiro, o projeto foi idealizado e tocado pelo pai do Eike Batista, o Dr. Eliezer.</p><p>Esses caras tentaram modernizar o Brasil na base do estupro. Eu acho que conseguiram, mas n&#227;o vejo problema se voc&#234; discordar de mim. Milton Jr. estava sendo estuprado pela grandiosidade do mundo material, pela grandiosidade dos homens que fazem suas pr&#243;prias hist&#243;rias. Estuprado pelas circunst&#226;ncias hist&#243;ricas que determinam a porra toda. Chupar aquele pau, engolir aquela porra. Porra, n&#227;o dava pra continuar sujando o Onix com a pr&#243;pria porra daquele jeito. A pervers&#227;o, a parafilia, o fetiche, eles n&#227;o s&#227;o o problema. Pelo pecado seremos salvos e salvaremos o Sul Global. Mas o pecado precisa de t&#225;tica, estrat&#233;gia e seriedade. Foco na vit&#243;ria.</p><h2>10. O Gato Pardo ca&#231;a o Rato Gordo</h2><p>Milton Jr. lembrou que, na mesma Ponte Presidente Costa e Silva, o gord&#227;o esquisito pronunciou umas palavras num ingl&#234;s muito bem falado, &#243;tima pron&#250;ncia. O gord&#227;o tinha uma defici&#234;ncia mental, ou melhor, era uma pessoa com defici&#234;ncia. Mental. J&#225; ele era bacharel e mestre em universidade p&#250;blica, dizia que lia em ingl&#234;s, espanhol e franc&#234;s. No Lattes tava assim, isso &#233; s&#233;rio. Mas n&#227;o consegue ouvir um podcast ou entrevista gringos mais complicadinhos no YouTube. Entrevista do Norman Finkelstein sobre a luta de liberta&#231;&#227;o palestina? Tem que ser a que ele deu pro canal do Breno Altman e foi traduzida pro portugu&#234;s. Podcast da Revista Jacobin entrevistando o Vivek Chibber ou o Yanis Varoufakis? Sem chance. Humilhante. Que raiva que ele sentia dos seus opressores e algozes.</p><p>Seus pais, seu tio, a classe pol&#237;tica brasileira, a portuguesa. O Imp&#233;rio Brit&#226;nico e o imperialismo estadunidense que espalharam aquela l&#237;ngua horr&#237;vel pelo mundo e fizeram dela essencial, at&#233; pros que quiseram, e querem, destru&#237;-los.</p><p>O gord&#227;o autista fez sua parte. A m&#227;e, gordona, parece que cuidou bem dele. Havia carinho ali. Mais importante, havia vis&#227;o estrat&#233;gica. O que ele tinha contado mesmo? Tava trabalhando na prefeitura de Maric&#225; como alguma coisa de diversidade e inclus&#227;o. Concursado? Puta que pariu, n&#227;o &#233; poss&#237;vel. Joga no Google. Carlos, Maric&#225;, prefeitura, diversidade. Di&#225;rio Oficial Municipal. 9.572 reais e estabilidade. Analista de Diversidade e Inclus&#227;o. Carlos Francisco Werner Neto. Alem&#227;o filho da puta, com certeza o av&#244; era nazista. Ser&#225; que ele tem Instagram? Meu deus, ele posta tudo aqui. Ele acha que &#233; influencer? Todo mundo virou influencer nesse mundo de merda. A irm&#227; gostosa, o professor do cursinho gostoso, o gord&#227;o autista. Bandeiras LGBTQIA+? Ele &#233; gay? N&#227;o &#233; poss&#237;vel. Ele nunca deve ter trepado. Carente hein? Coitado.</p><p>Milton Jr. ficou obcecado com Carlinhos nos dias seguintes &#224; descoberta. Stalkeou o Instagram todo dele. Um sentimento misto de admira&#231;&#227;o, inveja, pena e raiva. M&#233;ritos da prefeitura e do Estado brasileiro. A&#231;&#245;es afirmativas s&#227;o importantes. Carlinhos postou a foto com todos os aprovados naquele concurso pra Analista de Diversidade e Inclus&#227;o da Prefeitura de Maric&#225;. 7 pessoas, precisa disso tudo? Claro que precisa, p&#244;, tema importante. 5 mulheres, 2 homens, 5 negros. Negros diversos como Milton Jr., a pardinha bem aleijadinha. Coitadinha. Nenhum homem branco, pelo menos. Tinha o Carlinhos, mas ele &#233; um homem branco? &#201; e n&#227;o &#233;, n&#233;.</p><p>Uma semana stalkeando o Carlinhos sem parar. Nos intervalos entre uma corrida e outra, ao inv&#233;s de lives ou podcasts, passou a revirar o Instagram dele. Reduziu consideravelmente a frequ&#234;ncia masturbat&#243;ria. No s&#233;timo dia, n&#227;o se masturbou. No oitavo, ao gozar rapidamente prum v&#237;deo gen&#233;rico de boquete no carro, ele pensou no Carlinhos. Ele tava apaixonado? N&#227;o &#233; poss&#237;vel, isso &#233; constrangedor demais. Ele n&#227;o conseguia racionalizar o tes&#227;o no Carlinhos. Era tes&#227;o? N&#227;o sei, parecia mais ser a situa&#231;&#227;o, o contexto. Cada BYD que ele via o constrangia. Constrangia pelo esfor&#231;o coletivo praquilo ali sair. Esfor&#231;o coletivo de pa&#237;s, de civiliza&#231;&#227;o. De pragmatismo criativo, de disciplina t&#225;tica, de intelig&#234;ncia estrat&#233;gica.</p><p>Chegou a hora de Milton Jr. agir. Finalmente. Pra cima. Chamou o gord&#227;o na DM. Ele respondeu na hora. Como flerta com ele? Ser&#225; que ele entende? Claro que entende, o moleque &#233; esperto. N&#227;o &#233; mais moleque. Dois adultos agindo com consentimento numa rela&#231;&#227;o homoafetiva.</p><p>No limite, um ato de caridade.</p><p>De todos os pensamentos p&#233;rfidos, doentios e pervertidos de Milton Jr., esse foi o mais escroto.</p><p>Das DMs do Instagram foram pro Zap. Carlinhos digita de um jeito muito esquisito. Formal, sempre responde imediatamente. Se voc&#234; usa uma g&#237;ria ou abrevia&#231;&#227;o espec&#237;fica, ele vai us&#225;-la logo depois na conversa. Milton Jr. come&#231;ou a sentir raiva do gord&#227;o. A&#237; voltou a sentir pena. Se chupasse o gord&#227;o no carro, ele com certeza estaria aberto a fazer um Pix de 5 conto. E se eles namorassem? Em 3 meses dava pra dar uma entrada num Dolphin Mini. 6 meses? Leasing da Localiza? Talvez. Milton Jr. n&#227;o fazia ideia dessas coisas, desses valores. E se ele roubasse o gord&#227;o? Ser&#225; que &#233; a m&#227;e que cuida das finan&#231;as dele? Velho n&#227;o costuma entender de banco, celular, Pix e etc. Ele poderia gravar com seu Xiaomi e mandar no <em>Mamadores no Sigilo 8.0</em>. Borraria a cara do Carlinhos, claro. Seria o primeiro v&#237;deo dele que ele mandaria. Anos assistindo, gozando, e n&#227;o tinha mandado nada at&#233; agora. J&#225; tinha sido exclu&#237;do de encarna&#231;&#245;es diferentes daquele grupo porque n&#227;o mandava nada. Retribuir, contribuir pra comunidade.</p><p>Dava pra mamar?</p><h2>11. Os Poderosos Elevadores Otis do Daycare</h2><p>N&#227;o, &#243;bvio que n&#227;o. Mesmo a mente j&#225; febril de Milton Jr., em meio &#224;quele surto dengxiaopingniano de a&#231;&#227;o e ambi&#231;&#227;o, sabia que n&#227;o tinha jeito. Arriscado demais, imoral demais. Nojento demais, infelizmente. N&#227;o havia, em Carlinhos, ambiente metab&#243;lico pro sexo. Seja qual fosse a forma que o sexo tomasse. N&#227;o havia log&#237;stica. O excesso energ&#233;tico j&#225; inviabilizara qualquer tipo de pot&#234;ncia fisiol&#243;gica. A materializa&#231;&#227;o do excesso, a adiposidade densa e volumosa, inflamou. E a inflama&#231;&#227;o, sist&#234;mica, acidificou. O pH foi derrubado. Carlinhos era &#225;cido. Ent&#227;o sobrou a amizade.</p><p>Os dois continuaram conversando no Zap. O tom do Carlinhos mudou. Ficou mais assertivo. Parecia at&#233; menos autista. Ele tava flertando? Meu deus, ser&#225; que ele consegue? Ele &#233; t&#227;o autista que n&#227;o entendia o conceito de um motorista de aplicativo. Mesmo tendo feito uma corrida de uma hora e vinte minutos no Uber de Milton Jr. e conversado por dez dias sem parar com ele no Zap. Talvez ele achasse que Milton Jr. morasse em Maric&#225; ou que n&#227;o houvesse custo de tempo ou combust&#237;vel para atravessar, circular ou rodear a Ba&#237;a da Guanabara.</p><p>O gord&#227;o chamou Milton Jr. pra almo&#231;ar no dia seguinte. Nem sequer passou pela cabe&#231;a dele que estava convidando um trabalhador aut&#244;nomo para almo&#231;ar com ele em um dia de semana. Um empreendedor precarizado num munic&#237;pio distante. Faltou sensibilidade progressista ao nosso gord&#227;o.</p><p>Milton Jr. fez, pelo novo amigo dele, o tipo de coisa que voc&#234; s&#243; faz por paix&#227;o galopante de princesa ou buceta garantida de gostosa. Ou pr&#237;ncipe, ou pica, no caso dele. Humilhante. Na manh&#227; do dia seguinte, enquanto Eliane levava o filho de carro pro trabalho, Milton Jr. programava-se no aplicativo do Uber pra pegar uma corrida pra Maric&#225;. Demorou pra aparecer mas ele tinha que ir.</p><p>Ela deixava Carlinhos na prefeitura para o seu dia de trabalho presencial e ficava por l&#225;. Tinha acabado de se aposentar. N&#227;o valia a pena voltar pro Rio, era melhor passar o dia l&#225;, poderia resolver quest&#245;es da ONG de at&#237;picos naquelas bandas, talvez sentar numa padaria com ar condicionado e ficar mexendo no celular. A&#237; buscar o filho &#224;s 17:30 e voltar com ele. Pegavam rush, foda-se. Era bom pra conversarem, ele contar como foi o dia de trabalho. Ela sentir orgulho e al&#237;vio com aquilo tudo.</p><p>No hor&#225;rio de almo&#231;o, Eliane buscava manter certa dist&#226;ncia. Incentivava o filho a confraternizar com os colegas. A turma da Secretaria de Diversidade e Inclus&#227;o era boa. Os dias presenciais eram bacanas. Muitas reuni&#245;es pra alinharem, alinharem e alinharem. Almo&#231;avam na pr&#243;pria prefeitura, um pr&#233;dio vermelho e branco no centro da cidade. N&#227;o t&#227;o distante do aeroporto municipal. Pediam iFood, era sempre um banquete. Dos 7 analistas de diversidade e inclus&#227;o, s&#243; a pardinha com distrofia muscular continua magra. Magrinha, toda atrofiada. &#201; aflitivo v&#234;-la comer, mas acho que ela consegue se alimentar sozinha se deixarem a comida arrumadinha na sua frente e amarrarem uma colher na m&#227;ozinha dela. Os outros 6, todos est&#227;o gordos. 3, Carlinhos e outras 2 mulheres negras, s&#227;o obesos.</p><p>O passageiro que Milton Jr. pegou lembrava seu irm&#227;o. Pardo um pouco mais escuro. Jovem, magro, trabalhador din&#226;mico. Tava no banco de tr&#225;s e levava uma caixa grande lacrada junto. Era coisa de trabalho, ficava mandando e ouvindo &#225;udios. Algo sobre luvas, helic&#243;ptero, entrega r&#225;pida, que o carro da firma tava no conserto e ele tinha que entregar o tro&#231;o urgentemente. Atravessando a Guanabara, o rapaz come&#231;ou a contar que aquilo ali eram luvas especiais pra serem usadas por mec&#226;nicos de helic&#243;pteros que saem de Maric&#225; e v&#227;o pras plataformas de petr&#243;leo. Campo de B&#250;zios da Bacia de Santos, o maior campo de &#243;leo e g&#225;s em &#225;guas profundas do planeta.</p><p>Helic&#243;pteros grandes, com turbinas potentes al&#233;m das p&#225;s. Um barulho distinto. Capazes de percorrer 200 km com 8, 10, 12 pessoas a bordo. A empresa em que ele trabalhava prestava algum servi&#231;o pras empresas de manuten&#231;&#227;o de helic&#243;ptero. Que por sua vez prestam servi&#231;o pras empresas de chartering de helic&#243;ptero. Que por fim prestam servi&#231;o pra Petrobras, pra Total, pra Shell, pra CNOOC.</p><p>Complexo, o rapaz explicou. N&#227;o sei se Milton Jr. entendeu tudo. Mas ele sentiu tes&#227;o.</p><p>O c&#233;u naquele dia tava de brigadeiro nos arredores da Ba&#237;a da Guanabara. Clar&#237;ssimo, sol quente. Milton Jr. deixou o cara no Aeroporto Municipal de Maric&#225; e ficou fazendo hora antes de pegar Carlinhos no pr&#233;dio da Prefeitura pra irem almo&#231;ar. N&#227;o fez nenhuma corrida nesse &#237;nterim. N&#227;o levou o carro pra algum mato pra bater uma punheta, como costumava fazer.</p><p>Milton Jr. se arrepender&#225; por anos, talvez d&#233;cadas, por n&#227;o ter batido aquela punheta.</p><h2>12. AgustaWestland AW139</h2><p>Ele pegou Carlinhos na frente do pr&#233;dio vermelho e branco da Prefeitura. Perto do aeroporto de onde os helic&#243;pteros gigantes sa&#237;am. O gord&#227;o entrou sem falar nada. J&#225; suando. J&#225; usando o cord&#227;o dos autistas. A protrus&#227;o adiposa central e a ginecomastia jogavam o cord&#227;o pra frente. Com seu crach&#225; de servidor p&#250;blico municipal concursado preso no fim dele. Camisa polo vermelha GG. Gordura visceral. &#193;cido. Visivelmente nervoso. Aterrorizado. N&#227;o falou nada. Entrou no carro. Milton Jr. o cumprimentou.</p><p>Puta que pariu, que situa&#231;&#227;o constrangedora.</p><p>&#8220;Onde vamos almo&#231;ar?&#8221;</p><p>Nada, ele parecia que j&#225; tava em surto. Respirou e parece que melhorou um pouco. O carro j&#225; estava em movimento. Carlinhos ainda n&#227;o havia dito nada.</p><p>&#8220;A gente encosta o carro ali na frente e procura no Google Maps&#8221;, Milton Jr. disse e Carlinhos balan&#231;ou a cabe&#231;a em concord&#226;ncia.</p><p>Encostaram. Passou um BYD Song preto ao lado. Marcelinho, o irm&#227;o, j&#225; convertido crist&#227;o protestante, ter&#225; um carro desses daqui a uns sete anos. Com ele buscar&#225; os sobrinhos, filhos da tamb&#233;m evang&#233;lica Marina, na escolinha de futebol. Gl&#243;ria! Deus, Deng, &#233; bom o tempo todo! O BYD acelerou ao lado do Onix j&#225; parado &#224; sua direita no acostamento. Voc&#234; s&#243; escuta o barulho das rodas girando sobre o asfalto. O Xiaomi foi colocado no console do carro. A m&#227;o de Milton Jr. foi pra coxa de Carlinhos. Era coxa ou quadril? Ali j&#225; pegava a gordura p&#233;lvica dele. Seu cinto de castidade que o mantinha puro. Sua armadura adiposa que o preservava do pecado do mundo.</p><p>Milton Jr. aproximou sua boca em dire&#231;&#227;o &#224; cara de Carlinhos.</p><p>&#8220;Me beija, vai.&#8221; Naquela voz sedenta de sexo.</p><p>Nada, nada veio de Carlinhos al&#233;m de mais suor e vermelhid&#227;o.</p><p>Milton Jr. se aproximou ainda mais e beijou a bochecha dele.</p><p>N&#227;o era a bochecha. Era o pesco&#231;o, a adiposidade cervical frontal e lateral. Os fiapos de barba loira. O suor. O vermelho. Carlinhos peidou silenciosamente.</p><p>&#8220;ASS&#201;DIO. AAAAAAAHHHHHH. ASS&#201;DIO SEXUAL. AAAAAAAHHHHHH ESTUPRO. VIOL&#202;NCIA. VIOL&#202;NCIA&#8221;</p><p>Carlinhos berrava, abriu a porta. Agarrou-se nela, j&#225; aberta, e se levantou. Come&#231;ou a correr e berrar. Deu a volta no carro. Ia pro meio da rua. 75% do peido ficou no carro. Terrivelmente &#225;cido.</p><p>&#8220;ASS&#201;DIO. ESTUPRO. AAAAAAAHHHHHH VIOL&#202;NCIA SEXUAL&#8221;</p><p>A porta direita continuava aberta. Milton Jr. ia deixar o carro morrer se sa&#237;sse dali agora.</p><p>Eliane, com um sorriso no rosto, almo&#231;ava um PF n&#227;o muito longe dali. Arroz, feij&#227;o, farofa, um bife um pouco seco e batatas fritas. Coca zero bem gelada.</p><p>&#8220;ASS&#201;DIO. AAAAAAAHHHHHH ESTUPRO.&#8221;</p><p>Carlinhos distanciava-se do Onix, correu por vinte segundos e agora andava. J&#225; estava exausto.</p><p>Um AgustaWestland AW139 branco levantou voo em dire&#231;&#227;o a uma plataforma offshore a 180 km ao sul dali. Quem estivesse sentado na janela esquerda poderia ver um pontinho vermelho desorientado pela rua, ali no ch&#227;o. O helic&#243;ptero, em poucos minutos, j&#225; estava voando calma e elegantemente sobre o Oceano Atl&#226;ntico. A Ba&#237;a da Guanabara continuava l&#225;. Os muitos morros ao redor daquele charmoso buraco, aquele lindo rasgo na borda do Continente, ficavam pra tr&#225;s.</p><p></p><p>FIM.</p><div><hr></div><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!7f7P!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9fd9692d-d940-4a95-872b-a69a80d960df_879x543.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!7f7P!, /__u/canibal69.substack.com/w_424, /__u/canibal69.substack.com/c_limit, /__u/canibal69.substack.com/f_webp, /__u/canibal69.substack.com/q_auto:good, /__u/canibal69.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9fd9692d-d940-4a95-872b-a69a80d960df_879x543.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!7f7P!, 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Brigadeiro Faria Lima, a vida de Isabelle tinha sido incrivelmente mon&#243;tona e desinteressante. T&#227;o mon&#243;tona e desinteressante que contarei - sem qualquer qualquer preju&#237;zo ao leitor e at&#233; mesmo com certo grau de detalhe - 24 anos e meio de vida em alguns par&#225;grafos.</p><div><hr></div><p><strong>Fortaleza (1999-2016)</strong></p><p>Isabelle nasceu no primeiro semestre de 1999. Cearense, primeira filha de um casal cearense, l&#225; nascida e criada. Da m&#227;e, vinda uma fam&#237;lia de Fortaleza, outrora aristocr&#225;tica, hoje decadente, herdou a pele branca. Do pai, um leg&#237;timo cearense vindo de algum interior &#225;rido, herdou a intelig&#234;ncia, o foco e os tra&#231;os fenot&#237;picos tidos como desagrad&#225;veis. Um corpo atarracado, pernas relativamente curtas, um tronco meio quadrado, um nariz largo e uma cabe&#231;a grande. </p><p>Isabelle era feia. N&#227;o era horrorosa, mas era feia.</p><p>18 meses ap&#243;s nascer Isabelle, nasceu seu irm&#227;o. Nasceu doente, diagn&#243;stico leg&#237;timo, horripilante. N&#227;o entrarei em detalhes, afinal, esse &#233; um assunto pessoal e, al&#233;m do mais, fico muito triste demais falando dessas coisas. N&#227;o pretendo contar aqui uma hist&#243;ria triste. </p><p>O pai ralou bastante, formou-se em engenharia e depois arrumou um &#243;timo emprego no servi&#231;o p&#250;blico. Tinha tempo livre suficiente para fazer dever de casa de matem&#225;tica com a filha pelas noites. A m&#227;e, frente ao chamado instintivo, resignou-se. Cuidou de seus dois filhos de maneira excepcional, o que, dadas as circunst&#226;ncias, significava gastar 80% do tempo com o menino e 20% com Isabelle; 90% da aten&#231;&#227;o pra ele, 10% pra ela. Mas mesmo assim, Isabelle teve uma inf&#226;ncia feliz: pais presentes, conforto material, empregada dom&#233;stica e tempo livre. </p><p>Na inf&#226;ncia, brincava de boneca, ia pra casa das amigas ou as recebia em sua casa pra brincar. Neste &#250;ltimo caso, sempre sentia um pequeno desconforto: o impacto de receber uma coleguinha que, invariavelmente, ficaria assustada com o aparato por tr&#225;s dos cuidados do irm&#227;o. N&#227;o s&#243; com o aparato, mas, principalmente, com o mist&#233;rio. O amadurecimento de Isabelle acontecia &#224; medida que percebia que as meninas j&#225; vinham <em>briefadas</em>, treinadas pelas suas pr&#243;prias m&#227;es para serem discretas. Quando menos infantis, mais as meninas eram capazes de dissimular: escondiam a curiosidade e fingiam que estava tudo normal ali. </p><p>Com o fim da inf&#226;ncia e a chegada da pr&#233;-adolesc&#234;ncia, as bonecas foram substitu&#237;das pelo The Sims no computador. O tempo livre foi dando lugar aos afazeres acad&#234;micos: cursinho de ingl&#234;s, at&#233; mesmo de espanhol, Kumon, o pai estudando ainda mais matem&#225;tica de noite com a filha. Isabelle gostava e era boa naquilo. O &#250;nico colateral da puberdade foi uma leve engordada, o que, no seu biotipo, a tornava praticamente invis&#237;vel em meio aos horm&#244;nios dos meninos. Se n&#227;o tivesse se mudado pra um desses col&#233;gios preparat&#243;rios para vestibular dif&#237;cil, t&#237;picos do Cear&#225;, teria se tornado uma presa f&#225;cil da maldade das adolescentes, fossem elas magrinhas ou, pior, rec&#233;m tornadas gostosinhas. </p><p>Felizmente, havia pouqu&#237;ssimas garotas no novo col&#233;gio, e, as poucas que l&#225; estavam eram t&#227;o ou mais feias que ela. Na verdade, a feiura era generalizada entre os alunos, homens e mulheres. Muitos deles cabe&#231;udos, como a protagonista. Pr&#243;s e contras do cabe&#231;&#227;o: todos ali eram inteligentes e, mais ainda, eram esfor&#231;ados. Isabelle estudou pra cacete no seu Ensino M&#233;dio. O n&#237;vel da matem&#225;tica - com aulas pesadas de pr&#233;-c&#225;lculo e at&#233; mesmo pinceladas de c&#225;lculo diferencial numa dessas turmas de preparat&#243;rio para o ITA - j&#225; fizera de seu pai obsoleto, ele j&#225; havia se esquecido daquilo tudo h&#225; d&#233;cadas, desde que se formou na faculdade de engenharia. N&#227;o havia brigas em casa, pai e m&#227;e, ocupados com o menino, apoiavam a filha fazendo o que podiam fazer de melhor durante sua adolesc&#234;ncia: n&#227;o enchendo o saco.</p><p>Isabelle n&#227;o mexia muito no Instagram, mas era usu&#225;ria ass&#237;dua do Facebook, n&#227;o postava muito, mas acompanhava, inicialmente, as fofocas e, com o passar do tempo, as discuss&#245;es. Gostava tamb&#233;m de acompanhar algumas coisas, sobretudo sobre carreira e cursos universit&#225;rios, no Reddit e no Quora. Ela at&#233; pensou em tentar arrumar uma bolsa de estudos para uma universidade americana, o seu ingl&#234;s era &#243;timo e o SAT seria moleza, mas havia todo o combo de rela&#231;&#245;es p&#250;blicas individuais necess&#225;rio pra agradar o pessoal dessas funda&#231;&#245;es de bilion&#225;rio: proatividade, atividades extra curriculares, vis&#227;o otimista do futuro, "Sonho Grande", o que fazer pra transformar a educa&#231;&#227;o brasileira, bl&#225;-bl&#225;-bl&#225;. </p><p>Por mais que at&#233; admirasse a tal menina bonitinha da periferia de S&#227;o Paulo, filha de um drogado ou algo assim, que foi pra Harvard estudar f&#237;sica ou astronomia, aquilo n&#227;o era pra Isabelle. Entre o marketing pessoal de ir estudar nos EUA e o autismo de prestar ITA, ela escolheu uma esp&#233;cie de meio termo: prestou a Fuvest. Aprovada, de primeira, em 11&#186; lugar para Engenharia de Produ&#231;&#227;o na POLI-USP, atra&#237;da pela possibilidade de ir trabalhar no mercado financeiro ou em alguma consultoria estrat&#233;gica. N&#227;o leu nenhum dos livros de literatura da lista da Fuvest e, mesmo assim, foi muito bem nas provas de Portugu&#234;s. As apostilas de seu col&#233;gio eram &#243;timas e a professora de literatura, excepcional. </p><p>Durante todo o Ensino M&#233;dio, Isabelle n&#227;o beijou ningu&#233;m. Estudou muito e viu v&#225;rias s&#233;ries no Netflix. O aplicativo do streaming no celular foi uma virada de chave: toda noite via alguma coisa na cama, antes de dormir. Mudou-se pra S&#227;o Paulo em fevereiro de 2017. Pais orgulhosos, talvez at&#233; o irm&#227;o se o c&#233;rebro dele funcionasse e ele entesse alguma coisa. Uma vida mon&#243;tona, mas, em momento algum, infeliz. </p><div><hr></div><p><strong>S&#227;o Paulo (2017-2023)</strong></p><p>A vida de Isabelle em S&#227;o Paulo - at&#233; o evento numa madrugada na Faria Lima, pr&#243;ximo ao cruzamento com a JK -  foi t&#227;o mon&#243;tona e desinteressante quanto sua vida em Fortaleza. N&#227;o foi ruim. N&#227;o explorou o gigantismo de S&#227;o Paulo, na verdade, sequer tomou conhecimento dele. Pra quem acabou de chegar, isso pode at&#233; fazer bem psicologicamente. Morou sozinha por 3 anos num apartamentinho no Jaguar&#233;, pr&#243;ximo da Cidade Universit&#225;ria da USP e um dos lugares mais feios do mundo. Vida simples que em momento algum deixou de ser c&#244;moda.</p><p>Criou uma disciplina de estudos impressionante, afinal, engenharia na POLI, mesmo pra gente inteligente, &#233; dif&#237;cil pra caramba. Sempre figurou entre os melhores alunos de sua turma e at&#233; fez algumas amigas. N&#227;o era t&#227;o dif&#237;cil fazer amigos num contexto como aquele: muitos diasp&#243;ricos como ela, abertos pra fazerem novas amizades. Muitos cabe&#231;udos, inclusive. Por&#233;m, como n&#227;o bebia, aproveitou muito pouco dos eventos universit&#225;rios, o que normalmente exigia muita bebedeira. Isabelle detestava o gosto do &#225;lcool e morria de medo de perder o controle e as estribeiras.</p><p>O que, inicialmente, mais a surpreendera em S&#227;o Paulo foi a quantidade de japoneses. De fato, em alguns momentos, andar pela Cidade Universit&#225;ria da USP, sobretudo nas cercanias da POLI, da FEA e dos Institutos de Exatas, &#233; como andar por Tokyo ou Osaka. Com o passar do tempo, come&#231;ou a reparar que muitos daqueles japoneses eram na verdade chineses e coreanos, e, como japas, eram at&#233; mais originais pois, sendo diasp&#243;ricos mais recentes, ainda falavam as suas respectivas l&#237;nguas. Fez duas boas amigas orientais. Voltava pro Cear&#225; nas f&#233;rias, as coisas l&#225; permaneciam iguais. Engordou um pouco em 2018 mas depois emagreceu. Uma mulher feia de corpo relativamente quadrado e baixa estatura andando pela POLI-USP n&#227;o chamava aten&#231;&#227;o. Pro bem e pro mal. </p><p>Isabelle continuou sem beijar ningu&#233;m. Seu &#250;nico luxo era assinar todos os streamings, que foram multiplicando-se ao longo do tempo. Quando o Covid-19 bateu, ela j&#225; tinha, al&#233;m do Netflix, o HBO+, o Amazon Prime e a Disney sei l&#225; o que. Em geral, n&#227;o assistia filmes, mas via todas as s&#233;ries, de todos os g&#234;neros. Desde s&#233;ries retardadas at&#233; as obras de arte que todos n&#243;s conhecemos e adoramos. Leu alguns livros de "neg&#243;cios" e "gest&#227;o": biografias chapa-branca de empres&#225;rios famosos, algumas coisas motivacionais e um ou outro livro interessante sobre business strategy. Deu-se bem melhor com os livros mais t&#233;cnicos de valuation, modelagem e finan&#231;as corporativas. At&#233; chegou a pegar o Antifr&#225;gil, do Nassim Taleb, mas acabou largando. </p><p>Com os atrasos causados pela pandemia, formou-se na USP no meio de 2022. Fez apenas um est&#225;gio, na &#225;rea de an&#225;lise de cr&#233;dito Corporate de um grande banco brasileiro. J&#225; havia mudado pra um flat em Pinheiros, ia de Uber para o Itaim Bibi, onde o escrit&#243;rio ficava. N&#227;o tirou carteira de motorista. Manteve-se relativamente magra o tempo todo, fundamental em qualquer ambiente profissional, especialmente no mercado financeiro brasileiro, em que a cada 5 mulheres, 2 s&#227;o gatas, 2 s&#227;o ok e 1 &#233; feia. Naquele meio, Isabelle pertenceria, invariavelmente, aos 20% das feias. </p><p>Era feia, mas n&#227;o era horrorosa.</p><p>Um tra&#231;o curioso, que acabou pegando, foi um certa transmuta&#231;&#227;o do sotaque, comum &#224;s garotas nordestinas que fazem a vida em S&#227;o Paulo no meio corporativo. Manteve o forte sotaque cearense, mas adquiriu alguns leves trejeitos orais de paulistana, percept&#237;veis sobretudo na pron&#250;ncia de ox&#237;tonas de maneira excessivamente nasal e na escolha vocabular. Ent&#226;&#226;&#227;&#227;o. Coisa natural, coisa org&#226;nica. Ela n&#227;o tinha vergonha das suas origens e nunca foi tratada diferente por isso.</p><p>9 meses ap&#243;s ser efetivada como analista de cr&#233;dito no banc&#227;o brasileiro, passou no processo seletivo de Investment Banking de um desses bancos enormes americanos de nome chique. Os famosos <em>Bulge Brackets</em>, no jarg&#227;o, e que foram, justamente, os que investiram pesado nas sopas de letrinhas da moda (ESG, DEI etc) no p&#243;s-George Floyd. Os caras precisavam contratar mais mulheres pra bater uma meta de diversidade: Isabelle foi super bem na entrevista, inclusive demonstrou conhecimento t&#233;cnico que a maioria dos candidatos n&#227;o tinha. Mereceu a vaga e come&#231;ou como Analyst, o cargo mais baixo de funcion&#225;rio efetivado, em mar&#231;o de 2023.</p><p>N&#227;o vou entrar em detalhes sobre como era seu novo emprego, &#233; algo quase irrelevante pra hist&#243;ria. Ela trabalhava no "ch&#227;o de f&#225;brica" de um banco de investimento, operando modelos financeiros no Excel e preparando apresenta&#231;&#245;es de Power Point com <em>pitches </em>(propostas) para grandes empresas mexerem de alguma forma em suas estruturas de capital e pagaram gord&#237;ssimos <em>fees </em>(taxas) ao banco: fus&#245;es, aquisi&#231;&#245;es, reestrutura&#231;&#245;es, aberturas de capital, fechamento de capital etc etc. Um emprego glamouroso e que pagava muito, muito bem, especialmente para uma garota de quase 24 anos. O que tinha de especial: exigia uma dedica&#231;&#227;o sobre-humana. 70-80h, pelo menos, por semana. Uma cultura, novamente no jarg&#227;o local, de "<em>face-time</em>", em que os analisas juniores tinham que mostrar servi&#231;o ficando no banco at&#233; de madrugada. Era normal sair 2 ou 3 da manh&#227; todo dia. Isabelle, que j&#225; sabia sobre a <em>&#8220;vida de IB&#8221;</em> desde quando acompanhava threads sobre carreira no Reddit no 3&#186; ano do col&#233;gio, n&#227;o se surpreendeu com o novo ritmo. </p><p>O ambiente de trabalho: s&#243; tinha filho da puta e, com isso sempre em mente, n&#227;o era t&#227;o ruim. Os tempos pregressos de "abusos" muito flagrantes j&#225; tinham passado, o RH estava de olho e chefe fazer merda com funcion&#225;ria em banco gringo &#233; ainda mais arriscado. E no mais: n&#227;o &#233; t&#227;o ruim ser abusado, escravizado, trabalhando at&#233; de madrugada, enquanto est&#225; recebendo muito dinheiro e com o banco pagando seus deliveries de &#243;timos restaurantes de SP. O problema &#233; a falta de sono e o enlouquecimento da clausura. Nenhum dos dois impactou Isabelle, que de certa forma j&#225; estava acostumada com aquilo. N&#227;o precisava de Vynvance, Ritalina, Modafinil ou coca&#237;na, se virava bem com 4-5h de sono. O lado ruim: praticamente n&#227;o assistia mais s&#233;rie, esse era o custo. </p><p>O choque social do novo ambiente foi bem menor do que era esperado pra uma nordestina feiosa como ela. N&#227;o fazia cagadas no trabalho, era sol&#237;cita e diplom&#225;tica no trato com os demais, e os demais eram diplom&#225;ticos, embora menos sol&#237;citos, no trato com ela. Sua menor exposi&#231;&#227;o &#224; vida social - bares, festas caras e coisas do tipo - fez com que ela ficasse mais isolada nas fofocas e nos boatos da sua equipe de trabalho. Como acabara de entrar, isso n&#227;o seria um problema, apenas no longo prazo viria a ser, mas, no longo prazo, ela j&#225; n&#227;o estaria mais l&#225;.</p><p>Naquele ambiente, os tipos sociais se dividiam em tr&#234;s grupos: jovens diasp&#243;ricos, nem sempre brancos, inteligentes e esfor&#231;ados vindos de todo o Brasil, como Isabelle; jovens ricos, brancos e, em geral, bonitos dos bons col&#233;gios e boas faculdades de S&#227;o Paulo, do Rio e dos EUA, e, por &#250;ltimo, os patr&#237;cios, tamb&#233;m brancos e geralmente bonitos, vindos das prov&#237;ncias, o meio termo entre os dois grupos. O &#250;nico personagem financista relevante nesta hist&#243;ria vinha do &#250;ltimo grupo. </p><p>Renato era alto, magro e tinha o cabelo jogado pra tr&#225;s. Filho das velhas elites mineiras, tinha um sotaque limpo e agrad&#225;vel: Rs cariocas e Ss paulistas, mas sem Rs paulistas e Ss cariocas. Estudou, simultaneamente, direito na UFMG e administra&#231;&#227;o no IBMEC-MG. N&#227;o era uma mente quantitativa e n&#227;o pegava as coisas r&#225;pido como Isabelle. Falava r&#225;pido, diziam que cheirava p&#243;. Era alguns anos mais velho que ela e tinha o cargo de Associate, uma posi&#231;&#227;o mais elevada, embora n&#227;o t&#227;o elevada, a qual a protagonista costumava responder diretamente em algumas opera&#231;&#245;es, ou "<em>deals</em>" como eles costumam dizer. Ainda era &#8220;ch&#227;o de f&#225;brica&#8221;, por&#233;m, com alguns anos de b&#244;nus seguidos, j&#225; tinha conseguido juntar uma grana. Fora a coca&#237;na, n&#227;o parecia ter nenhum h&#225;bito extravagante. Aparentemente n&#227;o tinha carro, andava de Uber e seu rel&#243;gio era um Garmin Fenix 7 Pro, lan&#231;ado no ano anterior. Costumava usar um casaco thermoball - daqueles estilo pluma de ganso s&#243; que sint&#233;tico - da North Face dentro do escrit&#243;rio, especialmente tarde da noite, quando o escrit&#243;rio ficava mais vazio e, o ar condicionado, mais forte.</p><p>Tinha fama de pregui&#231;oso e desatento, costumava deixar passar <em>typos </em>nas apresenta&#231;&#245;es e erros nas planilhas de Excel. Era, no entanto, um sujeito bem relacionado e socialmente safo, dos que d&#225; pra ver no olhar e na sua presen&#231;a espacial. Cavalheiro, abria a porta pra todos e era sempre muito educado com os servi&#231;ais. Cort&#234;s e agrad&#225;vel, puxava <em>small talk</em> sem ficar for&#231;ado ou <em>awkward</em>, talvez uma vantagem da mineiridade cosmopolita. Torcedor fan&#225;tico do Atl&#233;tico Mineiro, estava sempre conversando sobre futebol com outros homens nos corredores. </p><p>Isabelle, que n&#227;o chegava a desgostar de ningu&#233;m ali, at&#233; que gostava muito dele.  </p><div><hr></div><p><strong>Ter&#231;a feira, 21 de Novembro de 2023, 01:42 am, Av. Brigadeiro Faria Lima, n&#186; 3***       </strong></p><p>Isabelle saia de magrugada numa ter&#231;a-feira chuvosa, como j&#225; era costume. Trabalhava no pen&#250;ltimo andar, o &#250;ltimo andar do pr&#233;dio era reservado para fant&#225;sticas salas de reuni&#245;es. Coisa fina pra impressionar cliente. No lobby dos elevadores do &#250;ltimo andar, havia banheiros privativos extremamente luxuosos. N&#227;o eram divididos por sexo e possu&#237;am muito espa&#231;o, inclusive com box com chuveiro e muito m&#225;rmore e espelhos.</p><p>Quando Isabelle esperava o elevador que subia, Renato chegou perto, deu um sorisso e n&#227;o falou nada. O elevador abriu as portas, ele se aproximou, mantendo-as abertas e, cordialmente, fez o sinal pra Isabelle entrar. Rapidamente, se virou e apertou o bot&#227;o do &#250;ltimo andar. Esse pr&#233;dio, embora luxuoso, era um pouco mais velho e os bot&#245;es dos andares eram escolhidos dentro do elevador, ao contr&#225;rio dos mais novos, em que o andar era escolhido num painel no pr&#243;prio lobby.</p><p>Enquanto as portas se fechavam, ele disse <em>&#8220;vamo l&#225; em cima&#8221;</em> e deu mais um sorriso. Isabelle n&#227;o falou nada. Subiu, chegou, abriram-se as portas. Novamente, segurou-as cordialmente. Ela saiu, ele a acompanhou, apontou para o banheiro do lado oposto, &#224; direita do elevador. Abriu o banheiro, ela entrou, ele a seguiu, fechou, trancou as portas e a estuprou.</p><p>O elevador descia com Isabelle rumo ao t&#233;rreo sozinha. Aquilo era um del&#237;rio.</p><p>Renato, seminu, j&#225; sem cal&#231;as, mas ainda vestindo o casaco thermoball, e com os bot&#245;es inferiores da camisa abertos, metia violentamente em Isabelle, j&#225; praticamente nua. Metia no ch&#227;o, ela deitada, ele por cima, olhos de man&#237;aco, seu antebra&#231;o direito pressionando, de forma intercalada, contra o pesco&#231;o ou contra a boca de Isabelle. Ela n&#227;o gritava, nem sabia descrever o que sentia, se &#233; que sentia alguma coisa sen&#227;o dor. J&#225; via o sangue saindo de sua buceta nos momentos em que ela conseguia levantar a sua cabe&#231;a.</p><p>O elevador continuava descendo. Os AirPods Pro tocando m&#250;sica.</p><p>A sua buceta n&#227;o era bonita. Como muitas coisas no corpo feminino, a cercania importa mais do que o relevo e a vegeta&#231;&#227;o locais. Peluda, pentelhos escuros na superf&#237;cie branca, isso n&#227;o &#233; problema. Mas no encontro das pernas curtas com o troco quadrado, leve barriguinha acima. A localiza&#231;&#227;o geogr&#225;fica acabava com qualquer beleza que a biologia poderia oferecer. Renato perdia sua ere&#231;&#227;o. Levantou-se, tirou o resto da roupa, manteve apenas as meias. Pegou Isabelle e, enquanto repetia <em>"nuc&#250;, nuc&#250;, nuc&#250;"</em>, levantou-a, colocando-a de barriga pra baixo contra a tampa fria do vaso sanit&#225;rio fechado. Ergonomicamente, a posi&#231;&#227;o n&#227;o estava boa para o sexo anal, mesmo em um estupro. Renato n&#227;o sequer venceu o primeiro <em>sphincter</em>. Desistiu.</p><p>O elevador chegou ao t&#233;rreo, seu Uber j&#225; a esperava na avenida. O del&#237;rio continuava.</p><p>Irritou-se, jogou Isabelle no ch&#227;o e arrastou-a para a quina, no encontro de duas paredes. O banheiro era espa&#231;oso. Com ela deitada, nua, em choque e levemente ensanguentada, no ch&#227;o frio, Renato abaixou-se. Come&#231;ou a morder a panturrilha branca de Isabelle, que ficava assustadoramente roxa. Parou, encostou-se no vaso e come&#231;ou a se masturbar vigorosamente. Entoava ritmicamente <em>"rape, rape, rape"</em> e "<em>fight, fight, fight"</em> enquanto olhava pra protagonista de tronco quadrado - roxa, branca, preta e vermelha - deitada no ch&#227;o. Explodiu-se em s&#234;men rapidamente.</p><p>Ela caminhou at&#233; o Uber. Entrou, o del&#237;rio j&#225; havia passado. Sentada no banco traseiro, Isabelle finalmente sentiu o que, de forma muito bizarra, ela nunca havia sentido antes: ela queria amar, ela queria dar, ela queria sentir. </p><div><hr></div><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Mf9-!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe496ddf9-0251-4268-93c2-9a181645151b_3072x4080.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Mf9-!, /__u/canibal69.substack.com/w_424, /__u/canibal69.substack.com/c_limit, /__u/canibal69.substack.com/f_webp, /__u/canibal69.substack.com/q_auto:good, /__u/canibal69.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe496ddf9-0251-4268-93c2-9a181645151b_3072x4080.jpeg 424w, 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