<script data-pm-proxy="intercept"></script><?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[O Eremitério]]></title><description><![CDATA[Newsletter do Cartas na Ermida. Textos sobre tarot, história e outros devaneios. Por Guilherme Cavalheri.]]></description><link>https://cartasnaermida.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!4T2W!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F15942f22-58cd-4b7c-9178-a72b0c34a3ad_256x256.png</url><title>O Eremitério</title><link>https://cartasnaermida.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Wed, 02 Sep 2026 01:29:13 GMT</lastBuildDate><atom:link href="/__u/cartasnaermida.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[O Eremitério]]></copyright><language><![CDATA[pt]]></language><webMaster><![CDATA[cartasnaermida@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[cartasnaermida@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Guilherme Cavalheri]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Guilherme Cavalheri]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[cartasnaermida@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[cartasnaermida@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Guilherme Cavalheri]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[Karl Marx entra em uma loja esotérica]]></title><description><![CDATA[Trabalho, mercado e suas influ&#234;ncias sobre nossa rela&#231;&#227;o com o tar&#244;]]></description><link>https://cartasnaermida.substack.com/p/karl-marx-entra-numa-loja-esoterica</link><guid isPermaLink="false">https://cartasnaermida.substack.com/p/karl-marx-entra-numa-loja-esoterica</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Cavalheri]]></dc:creator><pubDate>Sun, 03 Nov 2024 21:27:04 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!PFFz!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8d45b3f5-7e1d-445b-aace-aaa11a4a8013_2916x1944.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span>Esta &#233; uma vers&#227;o revista e ampliada do texto publicado em 2024. Por mais que seu argumento central permanecesse v&#225;lido, achei que o material precisava de ajustes de tom e linguagem, al&#233;m de corre&#231;&#245;es em dados hist&#243;ricos importantes. A bibliografia tamb&#233;m foi consideravelmente revisada e expandida.</span></p><p></p><h2><strong><span>O tar&#244;, da hist&#243;ria material &#224; especula&#231;&#227;o</span></strong></h2><p style="text-align: justify;">O <span>tar&#244; &#233; um artefato cercado de mist&#233;rios. Sei que parece uma frase clich&#234;, mas n&#227;o &#233;. Quem se debru&#231;a sobre ele, ao observar uma leitura ou durante os primeiros contatos de estudo, o faz combinando estranheza e encanto. Mas ele &#233; misterioso tamb&#233;m por outras raz&#245;es. Quem busca por refer&#234;ncias hist&#243;ricas &#224;s cartas, encontrar&#225; bons pesquisadores, acad&#234;micos ou n&#227;o, produzindo materiais de boa qualidade. No entanto, esses bons trabalhos n&#227;o s&#227;o encontrados com tanta facilidade quanto o caudal de materiais duvidosos, que ainda propagam ideias equivocadas sobre as origens do baralho e de suas imagens. No melhor dos cen&#225;rios, os estudos s&#227;o historicamente defasados e imprecisos; no pior, restam as teses absurdas.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Muita gente se orgulha de afirmar que o tar&#244; surgiu entre altos sacerdotes eg&#237;pcios. Outros, talvez com maior repert&#243;rio esot&#233;rico, defendem a origem herm&#233;tica dos arcanos. Algumas dessas lendas chegam a esbo&#231;ar um ar de historicidade, como a de que o tar&#244; chegou &#224; Europa com os ciganos da Bo&#234;mia, durante sua di&#225;spora na Idade M&#233;dia. Existem ainda, nos rec&#244;nditos da internet, conte&#250;dos relacionando os arcanos do tar&#244; a ra&#231;as alien&#237;genas e uma Atl&#226;ntida de milhares de anos. Entre as hip&#243;teses mais sensatas e o completo del&#237;rio, h&#225; um subtexto ideol&#243;gico bastante claro. Todas elas omitem uma das caracter&#237;sticas mais relevantes para a compreens&#227;o do tar&#244; desde suas origens: sua dimens&#227;o material.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O objetivo deste texto &#233; pensar como esse aspecto impacta nossa rela&#231;&#227;o com o tar&#244;. Ou melhor, o quanto esse impacto pode ser grande, justamente quando n&#227;o pensamos nele. Acredito que equ&#237;vocos s&#233;rios s&#227;o cometidos quando n&#227;o levamos em conta as dimens&#245;es econ&#244;micas e mercadol&#243;gicas de nossa rela&#231;&#227;o com as cartas, sobretudo para quem trabalha com elas. Meu inc&#244;modo surge do desconforto com discursos difusos, que associam o tar&#244; a uma dimens&#227;o sublime, sobrenatural, mas que para isso o acaba desenraizando da realidade. Esse tipo de suspens&#227;o &#233; tamb&#233;m um artif&#237;cio. Uma forma de mascaramento. Por isso, argumento que recuperar o horizonte material dos arcanos, como suas circunst&#226;ncias hist&#243;ricas de produ&#231;&#227;o e as rela&#231;&#245;es de classe inerentes ao mercado dos baralhos, pode ser um caminho para desmantelar discursos que super espiritualizam o tar&#244;, justamente para refor&#231;ar seu consumo sem reflex&#227;o.</span></p><h2>Economia e trabalho nas origens do tar&#244;</h2><p style="text-align: justify;"><span>Alguns dos registros hist&#243;ricos mais importantes das origens do tar&#244; s&#227;o notas fiscais, ordens de pagamento e registros em invent&#225;rios</span><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a><span>. Outras fontes, como as pr&#243;prias cartas e men&#231;&#245;es liter&#225;rias diversas (homilias, tratados, poemas etc.) tamb&#233;m est&#227;o conectadas a essa dimens&#227;o comercial. Pro&#237;be-se um jogo que &#233; vendido, especula-se sobre imagens que resultaram do trabalho de algu&#233;m. O tar&#244; nasceu como uma mercadoria.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Caracter&#237;stico da forma mercadoria, o tar&#244; &#233; o produto hist&#243;rico de rela&#231;&#245;es de trabalho e explora&#231;&#227;o de recursos materiais. Papel, fibras de algod&#227;o, madeira, tinta, ferramentas de metal, tipos m&#243;veis. Tudo isso somado ao trabalho remunerado de um funcion&#225;rio de ateli&#234; de pintura (e posteriormente, de uma imprensa) para a cria&#231;&#227;o das l&#226;minas. Os baralhos s&#227;o empacotados e precificados com base nos custos de produ&#231;&#227;o, lucro dos propriet&#225;rios das oficinas e impostos. Para fechar a conta, sua produ&#231;&#227;o era marcada por rela&#231;&#245;es de trabalho desiguais, condi&#231;&#245;es prec&#225;rias e remunera&#231;&#227;o irregular dos artes&#227;os.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Embora os primeiros baralhos iluminados do s&#233;culo XV sejam obra da elite art&#237;stica italiana, como Bonifacio Bembo e Francesco Zavattari, os tar&#244;s nem sempre eram obra de ateli&#234;s refinados. Giordano Berti nos conta que o Registro de Ordens de Pagamento do governo de Leonello d&#8217;Este (1407-1450), em Ferrara, cita o pagamento de uma quantia a Iacomo Guerzo, chamado &#8220;famelio&#8221;, por um baralho de cartas dado de presente aos filhos mais novos de Leonello. &#8220;Famelio&#8221; era o termo usado para o servi&#231;al dom&#233;stico que desempenhava diversas fun&#231;&#245;es, inclusive, as art&#237;sticas, se tivesse habilidades para tal. Outra ocorr&#234;ncia citada por Berti &#233; a de um &#8220;paggio di corte&#8221;, Petrecino de Firenze, tamb&#233;m comissionado a produzir um dos baralhos da corte d&#8217;Este</span><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a><span>.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O pagamento por baralhos variava de acordo com uma s&#233;rie de fatores. Os tar&#244;s produzidos para as cortes italianas eram objetos de luxo, produzidos de forma artesanal a partir de materiais nobres, mas variavam seu pre&#231;o e consequente valor de pagamento de seus realizadores. Podemos dividi-los em tr&#234;s categorias. Os primeiros s&#227;o os &#8220;prot&#243;tipos ducais&#8221;, &#250;nicos e car&#237;ssimos, como o baralho de Parisina Malatesta (1423), pintado por Giovanni dela Gabella com ouro e l&#225;pis-laz&#250;li, e que teria custado 40 ducados de ouro, valor muito alto para a &#233;poca. Outro caso ocorreu entre 1420 e 1425, quando o pintor Marziano de Tortona recebeu 1500 ducados de ouro por um baralho produzido a Filipo Maria Visconti, cifra extraordin&#225;ria para a confec&#231;&#227;o de um &#250;nico item. Este &#233; um caso exemplar, mas raro, especialmente quando os registros cont&#225;beis avan&#231;am pelo s&#233;culo XV. A segunda categoria &#233; a dos baralhos de luxo de uso mais amplo. Feitos tamb&#233;m sob encomenda, serviam como presentes diplom&#225;ticos e levavam materiais nobres. &#201; nessa categoria que se encontra o trabalho do servo Iacomo Guerzo (1442), que recebeu em torno de 12 liras pela produ&#231;&#227;o de um &#250;nico baralho; Giovanni di Lazzaro (1454), um pintor de of&#237;cio que recebeu 32 liras pela produ&#231;&#227;o de onze baralhos pintados em conjunto com um assistente chamado Messore, algu&#233;m de quem nada sabemos (inclusive, sua parte no pagamento). Por fim, o &#250;ltimo exemplo &#233; o de Petrecino da Firenze (1457), o pajem de corte que, por suas habilidades art&#237;sticas, teria recebido um pagamento estimado de 4 liras por um baralho</span><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a><span>.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Esses breves exemplos nos mostram dados importantes. Apesar do trabalho ser frequentemente creditado aos chefes dos ateli&#234;s, esse of&#237;cio n&#227;o era exclusivo dessas figuras. Trabalhadores comuns e mesmo n&#227;o especializados participavam da cadeia produtiva dos baralhos iluminados. Entretando, os baralhos n&#227;o parecem ter sido considerados obras de arte </span><em><span>per se</span></em><span>, mas t&#227;o somente produtos manufaturados de alto valor agregado. Podemos dizer, inclusive, que o valor agregado desses tar&#244;s artesanais, o que inclu&#237;a custos de produ&#231;&#227;o e material, s&#243; se efetivava em raz&#227;o dos nobres simbolicamente associados a essas cartas.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Mesmo renomados artistas n&#227;o escapavam da clivagem social que envolvia a presta&#231;&#227;o de servi&#231;os &#224; nobreza italiana. Francesco Sforza, duque de Mil&#227;o e mecenas dos tar&#244;s hoje conhecidos como Pierpont Morgan-Bergamo e Cary-Yale, mantinha uma r&#237;gida rela&#231;&#227;o com seus artistas comissionados. Mesmo Bonifacio Bembo era tratado por Sforza como um artes&#227;o subalterno, e n&#227;o como grande expoente art&#237;stico</span><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-4" href="#footnote-4" target="_self">4</a><span>. Ali&#225;s, ainda pesam suspeitas se tais baralhos tiveram de fato Bembo como autor, visto que hoje se sabe que parte das cartas do Pierpont Morgan-Bergamo s&#227;o evidente trabalho de outro artista. Atualmente, a autoria do Visconti-Sforza tem sido atribu&#237;da tamb&#233;m a Francesco Zavattari, outro artista milan&#234;s</span><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-5" href="#footnote-5" target="_self">5</a><span>. Muitos &#8220;autores de segunda m&#227;o&#8221;, auxiliares dos propriet&#225;rios de ateli&#234;s e outros tipos de ajudantes sequer s&#227;o mencionados nas fontes documentais, com exce&#231;&#227;o dos raros casos envolvendo pagamentos a servos de corte, como vimos acima.</span></p><p style="text-align: justify;"></p><h2>Tar&#244;s impressos e seu modo de produ&#231;&#227;o</h2><p style="text-align: justify;"><span>A realidade dos artes&#227;os de tar&#244;s iluminados era muito particular, e n&#227;o se repetiu na produ&#231;&#227;o massiva de baralhos s&#233;culos adiante. Nessa primeira etapa de produ&#231;&#227;o, ainda havia possibilidade de ganhos reais a artistas da n&#227;o-elite (mesmo os n&#227;o profissionais), ainda que o trabalho, muitas vezes, n&#227;o fosse creditado. Tal quadro muda profundamente com a populariza&#231;&#227;o dos baralhos impressos, cuja l&#243;gica de produ&#231;&#227;o j&#225; se acomoda ao nascente modo de produ&#231;&#227;o capitalista. A ascens&#227;o da xilogravura representou uma revolu&#231;&#227;o tecnol&#243;gica muito importante, transformando o tar&#244; de um objeto de luxo, s&#237;mbolo aristocr&#225;tico, em um bem de consumo popular. Cidades como Bolonha, Ferrara, Mil&#227;o e Veneza j&#225; haviam se tornado centros importantes da produ&#231;&#227;o de tar&#244;s impressos no final do s&#233;culo XV.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Para atender a crescente demanda do mercado de cartas de jogar, os fabricantes precisaram organizar uma cadeia produtiva especializada e, ao mesmo tempo, reduzir os custos de produ&#231;&#227;o. Nessa linha de produ&#231;&#227;o se organizava por meio de uma r&#237;gida hierarquia de profissionais, reguladas por guildas de impressores. Entre esses profissionais estavam o </span><em><span>ilustrador</span></em><span>, que criava o design das cartas; o </span><em><span>talhador</span></em><span>, que esculpia os moldes de madeira; e os trabalhadores de menor status, que entintavam as matrizes e operavam a prensa</span><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-6" href="#footnote-6" target="_self">6</a><span>. A rotina de trabalho era extenuante. Na Fran&#231;a, o trabalho nas oficinas come&#231;ava &#224;s 5h da manh&#227; e chegava a 14 horas di&#225;rias. Os oper&#225;rios eram pobres e recebiam sal&#225;rios &#237;nfimos, e mesmo os mestres cartistas, propriet&#225;rios e respons&#225;veis pela produ&#231;&#227;o dos tar&#244;s, tinham sua estabilidade financeira garantida.</span></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!PFFz!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8d45b3f5-7e1d-445b-aace-aaa11a4a8013_2916x1944.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!PFFz!, /__u/cartasnaermida.substack.com/w_424, /__u/cartasnaermida.substack.com/c_limit, /__u/cartasnaermida.substack.com/f_webp, /__u/cartasnaermida.substack.com/q_auto:good, 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Jornadas exaustivas, lucros baixos e forte vigil&#226;ncia do Estado faziam parte da rotina desses trabalhadores.</figcaption></figure></div><p style="text-align: justify;"><span>Em raz&#227;o da baixa qualidade dos baralhos impressos, seu pre&#231;o era tamb&#233;m muito baixo, o que levava a obten&#231;&#227;o de um lucro l&#237;quido que sequer igualava o sal&#225;rio pago aos oper&#225;rios. J&#225; no s&#233;culo XVI, a fabrica&#231;&#227;o de cartas foi posta no rol dos &#8220;of&#237;cios med&#237;ocres&#8221; pela coroa francesa</span><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-7" href="#footnote-7" target="_self">7</a><span>. Soma-se a essas condi&#231;&#245;es o problema fiscal que envolvia a produ&#231;&#227;o de cartas, tanto na It&#225;lia quanto na Fran&#231;a. No s&#233;culo XVII, o imposto recolhido na produ&#231;&#227;o de cartas era um pilar crucial do or&#231;amento franc&#234;s. O controle estatal era tamanho que at&#233; mesmo os moldes de madeira e o papel usado nas oficinas eram regulados pelo Estado, garantindo a fiscaliza&#231;&#227;o e tributa&#231;&#227;o das cartas em diferentes etapas de produ&#231;&#227;o. A consequ&#234;ncia imediata desse controle estatal foi toda sorte de desvios e com&#233;rcio ilegal dos baralhos como forma de burlar o fisco</span><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-8" href="#footnote-8" target="_self">8</a><span>. Apesar da produ&#231;&#227;o de cartas ser abundante na Europa da &#233;poca, muitas oficinas fechavam e seus mestres eram obrigados a migrar para regi&#245;es onde a tributa&#231;&#227;o fosse mais amena, inclusive, fora da Fran&#231;a. H&#225; ao menos um caso famoso de 1642 no qual fabricantes de cartas de Lyon chegaram a manifestar-se &#224;s autoridades locais em raz&#227;o da fabrica&#231;&#227;o ilegal de baralhos feita por artes&#227;os de Marselha</span><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-9" href="#footnote-9" target="_self">9</a><span>.</span></p><p></p><h3>Impactos pol&#237;tico-econ&#244;micos no design das cartas</h3><p style="text-align: justify;"><span>O padr&#227;o visual que chamamos hoje de &#8220;marselh&#234;s&#8221;, na realidade, tem origem numa adapta&#231;&#227;o simplificada do modelo milan&#234;s, mais econ&#244;mico em detalhes e mais pr&#225;tico de ser produzido em grande quantidade. O barateamento de custos poderia ocorrer de diversas formas: uso de papel barato feito com farrapos de algod&#227;o, pintura mec&#226;nica, aplicada por meio de est&#234;ncil (j&#225; que a pintura &#224; m&#227;o era mais demorada e cara) e, por fim, limita&#231;&#245;es crom&#225;ticas, j&#225; que era preciso um est&#234;ncil para a aplica&#231;&#227;o de cada cor</span><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-10" href="#footnote-10" target="_self">10</a><span>.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O contexto pol&#237;tico tamb&#233;m impactou o padr&#227;o imag&#233;tico das cartas. A partir do s&#233;culo XVII, a Europa central viu suas guerras de religi&#227;o se acirrando cada vez mais, com dinastias cat&#243;licas e protestantes disputando tronos, territ&#243;rios e definindo pol&#237;tica e com&#233;rcio locais. Em regi&#245;es protestantes, circulavam baralhos com motivos alterados. Papa e Papisa d&#227;o lugar &#224; J&#250;piter, Juno, Baco e o Capit&#227;o Fracassa, figura rid&#237;cula da </span><em><span>commedia dell&#8217;arte</span></em><span>. Segundo Isabelle Nadolny, essa mudan&#231;a foi motivada por adapta&#231;&#245;es que evitavam atritos com autoridades religiosas locais e pela aprecia&#231;&#227;o anticat&#243;lica dos consumidores dessas regi&#245;es</span><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-11" href="#footnote-11" target="_self">11</a><span>. </span></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!1rok!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7bd35c48-d04e-41fe-908e-aeb46b9fe510_701x404.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!1rok!, /__u/cartasnaermida.substack.com/w_424, /__u/cartasnaermida.substack.com/c_limit, /__u/cartasnaermida.substack.com/f_webp, 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Vandaborre (1780). Ambos modelos circularam em regi&#245;es de popula&#231;&#227;o predominantemente protestante. </figcaption></figure></div><p style="text-align: justify;"><span>O impacto da Revolu&#231;&#227;o Francesa tamb&#233;m foi sentido na produ&#231;&#227;o dos baralhos. Durante o per&#237;odo da Conven&#231;&#227;o Nacional (1792-1795), foram emitidos decretos que exigiam a laiciza&#231;&#227;o for&#231;ada dos baralhos, pela remo&#231;&#227;o de atributos her&#225;ldicos e aristocr&#225;ticos das cartas de jogar. Os fabricantes foram for&#231;ados a &#8220;corrigir&#8221; suas matrizes xilogr&#225;ficas, resultando nos chamados </span><em><span>Jeus R&#233;volutionnaires</span></em><span>; essas altera&#231;&#245;es inclu&#237;am a elimina&#231;&#227;o de s&#237;mbolos de nobreza (coroas, cetros, globos imperais, &#225;guias etc.) e altera&#231;&#227;o dos nomes dos Reis para &#8220;G&#234;nios&#8221;, Damas para &#8220;Liberdades&#8221; e Pajens para &#8220;Igualdades&#8221;, entre outras</span><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-12" href="#footnote-12" target="_self">12</a><span>. Estes s&#227;o apenas alguns dos in&#250;meros exemplos na hist&#243;ria do Tar&#244; que nos revelam como implica&#231;&#245;es econ&#244;micas, modos de produ&#231;&#227;o e interfer&#234;ncias pol&#237;ticas movimentaram a cria&#231;&#227;o das cartas, suas transforma&#231;&#245;es e, de v&#225;rias formas, determinam como o tar&#244; foi apreciado em diferentes regi&#245;es da Europa. Aos que poder&#227;o considerar essas informa&#231;&#245;es sup&#233;rfluas &#224; interpreta&#231;&#227;o dos s&#237;mbolos, uma pergunta: que entendimento podemos construir sobre um s&#237;mbolo, quando o alienamos de seu tempo hist&#243;rico e das condi&#231;&#245;es materiais que o possibilitaram?</span></p><p></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!A-dV!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F55aee676-2f60-434e-914f-355f0cea7fc7_593x471.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!A-dV!, /__u/cartasnaermida.substack.com/w_424, /__u/cartasnaermida.substack.com/c_limit, /__u/cartasnaermida.substack.com/f_webp, /__u/cartasnaermida.substack.com/q_auto:good, 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(1791).</figcaption></figure></div><p style="text-align: justify;"><span>Meu texto n&#227;o &#233; um estudo de hist&#243;ria do Tar&#244;, mas acredito que retomar esses e outros epis&#243;dios da hist&#243;ria da cartomancia e da produ&#231;&#227;o de cartas nos coloca uma quest&#227;o &#233;tica: se algum or&#225;culo, culto, conhecimento esot&#233;rico ou religioso possui alguma dimens&#227;o de materialidade (seus objetos, adere&#231;os, livros, instrumentos, espa&#231;os de performance), ent&#227;o se faz necess&#225;rio pensar no quanto as circunst&#226;ncias que permitem a exist&#234;ncia desses conhecimentos e pr&#225;ticas oraculares impactam o modo como os experimentamos. Outro ponto diz respeito ao quanto quem est&#225; no topo dessa cadeia produtiva est&#225; consciente dos impactos de seus interesses econ&#244;micos e do quanto eles interferem na experi&#234;ncia oracular dos consulentes.</span><br><br></p><h2>Corpora&#231;&#245;es na mesa de jogo</h2><p style="text-align: justify;"><span>Enquanto mercadoria, quem produz um tar&#244; visa lucrar com sua venda. Isso &#233; &#243;bvio, mas nem sempre &#233; um dado considerado entre as preocupa&#231;&#245;es de quem se dedica ao of&#237;cio das cartas. A variedade de op&#231;&#245;es de baralhos e toda sorte de produtos relacionados ao tar&#244; t&#234;m crescido vertiginosamente nas &#250;ltimas d&#233;cadas. H&#225; editoras mais respons&#225;veis, que se especializam em tar&#244;s de boa qualidade e reconstitui&#231;&#245;es de baralhos hist&#243;ricos. Mesmo &#224;s op&#231;&#245;es de tar&#244;s modernos, h&#225; uma boa curadoria que re&#250;ne designers e uma robusta assessoria especializada de tar&#243;logos, escritores e estudiosos de temas afins. No entanto, mesmo as editoras que prezam por esse cuidado precisam vender. Quase sempre bons tar&#244;s s&#227;o caros, precisam ser importados e muitas vezes s&#227;o produzidos em baixas tiragens, o que dificulta ainda mais nosso acesso a eles. As op&#231;&#245;es mais baratas de tar&#244;s tradicionais (especialmente Marselha e Smith-Waite, mas n&#227;o s&#243; eles) sacrificam a gramatura do papel, verniz e qualidade de impress&#227;o. As op&#231;&#245;es nacionais s&#227;o a sa&#237;da para quem come&#231;a a estudar e, mesmo assim, a regra tem sido pagar caro por materiais cuja qualidade n&#227;o vale o investimento.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Pois bem, assim como acontece no mercado de livros e discos, grandes editoras tendem a compensar a produ&#231;&#227;o nichada com uma contraparte que garanta maior vendagem. Temos a&#237; um dos grandes problemas. Existem tar&#244;s tem&#225;ticos que ainda respeitam os rudimentos j&#225; estabelecidos na iconografia dos baralhos antigos, de modo que, substituir uma figura humana por um gatinho ou personagem da cultura pop n&#227;o ir&#225;, necessariamente, comprometer seus estudos. Por&#233;m, os exemplos problem&#225;ticos s&#227;o numerosos. No intuito de gerar demanda, editoras aproveitam tend&#234;ncias que geram engajamento. Da&#237; surgem incont&#225;veis tar&#244;s de super-her&#243;is, filmes, s&#233;ries de TV, franquias de videogames; al&#233;m dos feitos para nichos espec&#237;ficos de espiritualidade e colecionismo. O que h&#225; de problema nessas propostas? A princ&#237;pio nada. Nada mesmo. Mas um consumo acr&#237;tico desses produtos certamente tem seus impactos. O quanto a empresa respons&#225;vel por esses materiais est&#225; de fato preocupada com quem os utilizar&#225; para fins divinat&#243;rios? O quanto os ru&#237;dos produzidos pela arte desses tar&#244;s, com altera&#231;&#245;es de naipes, a inclus&#227;o de novos arcanos ou a invers&#227;o de s&#237;mbolos j&#225; reconhecidos na hist&#243;ria e literatura tarol&#243;gica podem comprometer o aprendizado e a pr&#225;tica de quem ainda n&#227;o tem condi&#231;&#245;es de depurar essas especificidades todas?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Talvez, o ponto mais importante aqui seja entendermos que, por tr&#225;s de todo tipo de sensibilidade pessoal que possamos construir pelo tar&#244; enquanto ferramenta oracular, h&#225; uma ind&#250;stria que sabe muito bem fetichizar essa sensibilidade, j&#225; que ela tamb&#233;m torna seu produto comercialmente atrativo. Obviamente, isso n&#227;o significa que as qualidades supra materiais que culturalmente atribu&#237;mos ao tar&#244; (por exemplo, para quem trabalha com ele a partir de uma compreens&#227;o medi&#250;nica) devam ser esvaziadas. Afinal, acredito que lutar contra esse esvaziamento que o capitalismo produz em tudo o que ele toca &#233; um modo poss&#237;vel de resistirmos &#224; preda&#231;&#227;o que ele exerce sobre as coisas. Tamb&#233;m n&#227;o penso que esse seja um problema essencialmente moral. N&#227;o acredito que grandes empresas dedicadas a produzir baralhos e livros o fazem de maneira absolutamente c&#237;nica a respeito da baixa qualidade do que pretendem nos vender. O problema do capitalismo n&#227;o &#233; moral. Pensando nisso, consegui chegar em algumas sugest&#245;es poss&#237;veis para uma pr&#225;tica tarol&#243;gica que ao menos nos ajude a evitar as armadilhas dessa grande ind&#250;stria de bens e servi&#231;os esot&#233;ricos.</span></p><p style="text-align: justify;"></p><h2>O <em>lumpemprolet&#225;rio</em> dos servi&#231;os oraculares</h2><p style="text-align: justify;"><span>Na economia pol&#237;tica de Karl Marx, o proletariado &#233; a classe social que, desvalida e alienada da riqueza que produz, vive de vender sua for&#231;a de trabalho &#224; burguesia, classe que det&#233;m os meios de produ&#231;&#227;o e que, por isso, pode explorar a for&#231;a de trabalho prolet&#225;ria. Ao prolet&#225;rio, sujeito massacrado e cujo corpo, for&#231;a f&#237;sica e subjetividade s&#227;o transformados em m&#225;quina e mercadoria, resta a organiza&#231;&#227;o pol&#237;tica e revolucion&#225;ria como meio de entender e modificar sua pr&#243;pria condi&#231;&#227;o nesse sistema. No entanto, &#224; margem desse processo temos a figura do lumpemprolet&#225;rio</span><em><span> </span></em><span>(do alem&#227;o </span><em><span>lumpen</span></em><span>, &#8220;farrapo&#8221;), o estrato social mais empobrecido e degradado da sociedade capitalista, formado por sujeitos que foram expulsos ou nunca plenamente integrados ao mercado de trabalho formal.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Marx e Engels mencionam o lumpemprolet&#225;rio em seu </span><em><span>Manifesto do Partido Comunista</span></em><span> em termos nada elogiosos: &#8220;O l&#250;mpen-proletariado, putrefa&#231;&#227;o passiva das camadas mais baixas da velha sociedade, pode, &#224;s vezes, ser arrastado ao movimento por uma revolu&#231;&#227;o prolet&#225;ria; todavia, suas condi&#231;&#245;es de vida o predisp&#245;em mais a vender-se &#224; rea&#231;&#227;o&#8221;</span><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-13" href="#footnote-13" target="_self">13</a><span>. Em outros escritos, Marx descreve o lumpemproletariado como uma classe oportunista e reacion&#225;ria, a servi&#231;o da burguesia e de governos autorit&#225;rios em troca de favores imediatos. Em </span><em><span>As Lutas de Classes na Fran&#231;a</span></em><span>, Marx chega a expandir a defini&#231;&#227;o, comparando a aristocracia financeira francesa ao lumpemproletariado, pois ambos dividiriam o mesmo desejo de enriquecer, n&#227;o pela produ&#231;&#227;o, mas pela atitude parasit&#225;ria sobre a riqueza alheia</span><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-14" href="#footnote-14" target="_self">14</a><span>. Tomo aqui o conceito de Marx e Engels com certa liberdade para buscarmos essa figura dentro da cadeira produtiva do tar&#244;. Por &#8220;cadeia produtiva&#8221;, est&#227;o aqui contemplados tanto a produ&#231;&#227;o material dos baralhos quanto seu uso para o oferecimento de servi&#231;os oraculares ou terap&#234;uticos.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Muito do sucesso dos produtos ruins, confusos ou deliberadamente enganadores envolvendo o tar&#244; &#233; baseado na for&#231;a de sua divulga&#231;&#227;o e no modo como s&#227;o aderidos pelo p&#250;blico. H&#225; quem escolha, para ganhos pr&#243;prios, sacrificar abordagens respons&#225;veis sobre a hist&#243;ria e o ensino do tar&#244; em troca dos pequenos benef&#237;cios que essa m&#225;quina o pode proporcionar. Voc&#234; j&#225; deve ter encontrado algum conte&#250;do mais ou menos assim: um influencer do ramo esot&#233;rico fazendo reviews de baralhos, com um discurso subjetivista e difuso sobre conex&#245;es pessoais com os arcanos e uma profunda indiferen&#231;a a respeito dos aspectos t&#233;cnicos e, at&#233; mesmo, das refer&#234;ncias te&#243;ricas &#224;s quais esses tar&#244;s podem estar ligados. Nada disso parece importar, apenas o refor&#231;o, mais ou menos escamoteado, de levar a audi&#234;ncia &#224; compra desses mesmos produtos (por meio de links comissionados e propagandas em postagens patrocinadas). Frequentemente, os baralhos em quest&#227;o s&#227;o produtos estranhos, com design pasteurizado e refer&#234;ncias m&#225;gico-espiritualistas sobrepostas sem crit&#233;rio algum.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Do mesmo modo, s&#227;o divulgados com entusiasmo livros de tar&#244; que capricham no projeto gr&#225;fico, com capa dura, cores cintilantes, mas que, no entanto, falham por seu conte&#250;do ruim. Na melhor das hip&#243;teses, o conte&#250;do &#233; mais do mesmo. Na pior, cont&#233;m graves erros hist&#243;ricos e metodol&#243;gicos. H&#225; quem celebre esse tipo de produto em nome de publicidade, patroc&#237;nios e contratos vantajosos com editoras e plataformas de m&#237;dia. Este &#233; um dos ambientes em que esse lumpemprolet&#225;rio do tar&#244; pode prosperar. Ele &#233; encontrado pelo feed, com algum conte&#250;do que vai lhe induzir a comprar produtos bonitos, caros, mas que levar&#227;o a caminhos problem&#225;ticos de aprendizado e a uma rela&#231;&#227;o utilitarista com o tar&#244;. Na economia algor&#237;tmica, a responsabilidade &#233;tica sempre ficar&#225; em &#250;ltimo plano para muitos desses profissionais.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A situa&#231;&#227;o n&#227;o se restringe ao mercado editorial. A venda de cursos de tar&#244; pelas redes sociais tamb&#233;m &#233; afetada por essa mesma l&#243;gica. Existem profissionais que, conscientemente, decidem abolir qualquer consenso sobre leitura dos s&#237;mbolos, teorias e literaturas fundamentais para venderem forma&#231;&#245;es que prometem rapidez, leituras superficiais e retorno financeiro. Forma&#231;&#227;o r&#225;pida e discurso disruptivo sobre o que j&#225; est&#225; estabelecido na tradi&#231;&#227;o n&#227;o s&#227;o exclusividades da bolha tarol&#243;gica. Isso &#233; pr&#243;prio da linguagem algor&#237;tmica das redes.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Comento com amigos do ramo que, n&#227;o fosse o tar&#244;, essas pessoas poderiam atuar em qualquer outro nicho da internet...cursos de investimento, vendas franqueadas, mentorias para qualquer assunto. Ainda que n&#227;o sejam conscientes do impacto disso para o p&#250;blico, e mesmo admitindo que agem assim porque essa &#233; a regra da rede social, o escolher fazer do pior modo poss&#237;vel. Talvez, alguns at&#233; saibam que est&#227;o disseminando desinforma&#231;&#227;o, e apenas n&#227;o se importam. Quem ganha com isso? Em primeiro lugar, as pr&#243;prias plataformas, que ignoram se o produto vendido &#233; um curso sobre arcanos maiores do tar&#244; Smith-Waite ou uma mentoria enganosa qualquer.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ter uma rela&#231;&#227;o consciente com o tar&#244; em nossos tempos passa por sabermos como essas grandes corpora&#231;&#245;es afetam nossa rela&#231;&#227;o n&#227;o s&#243; com o or&#225;culo, mas com os consulentes. &#201; preciso tamb&#233;m saber distinguir amigos e inimigos dentro desse sistema. A plataforma tende a nos explorar, a impor seu regime ao nosso trabalho, exigir produ&#231;&#227;o de conte&#250;do. De fato, isso parece inescap&#225;vel. Mas h&#225; diferen&#231;a entre se ter consci&#234;ncia das peculiaridades do algoritmo, buscando, tanto quanto poss&#237;vel, uma rela&#231;&#227;o saud&#225;vel com as redes e seu p&#250;blico, e o papel de c&#250;mplice que se beneficia do car&#225;ter mais grosseiro e predat&#243;rio do trabalho digital. E pior, inserindo essa l&#243;gica no discurso sobre o pr&#243;prio tar&#244;.</span></p><p style="text-align: justify;"></p><h2>Considera&#231;&#245;es finais</h2><p style="text-align: justify;"><span>Voltando &#224; hist&#243;ria do tar&#244;, uma s&#233;rie de correspond&#234;ncias parecem conectar problemas passados e presentes. At&#233; o surgimento dos primeiros baralhos esot&#233;ricos no s&#233;culo XVIII, a produ&#231;&#227;o das cartas, seu material e seu complexo de s&#237;mbolos eram direta e profundamente afetados por circunst&#226;ncias econ&#244;micas e pol&#237;ticas. A cartomancia j&#225; estava em curso h&#225; tempos na Europa, se valendo de tar&#244;s e outros tipos de baralhos. O que muitos hoje consideram s&#237;mbolos universais, imagens sublimes que pairam sobre a hist&#243;ria e as convuls&#245;es humanas, na verdade &#233; fruto de incont&#225;veis transforma&#231;&#245;es culturais que, por sua vez, se consolidam nas profundas intercorr&#234;ncias da realidade material.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A riqueza de um arcano se encontra, tamb&#233;m e, para mim, principalmente, na concretude de suas causas e transforma&#231;&#245;es. Tomemos o Tar&#244; de Marselha como exemplo. H&#225; in&#250;meras especula&#231;&#245;es na literatura tarol&#243;gica sobre as raz&#245;es para certas cartas terem a apar&#234;ncia que t&#234;m. Especula-se a respeito dos significados ocultos das cores, do padr&#227;o dos tra&#231;os e das diversas imprecis&#245;es e erros presentes em imagens de v&#225;rios baralhos (por exemplo, o famoso caso dos seis dedos no p&#233; da figura humana que ilustra a carta d&#8217;A For&#231;a). Essas especula&#231;&#245;es s&#227;o facilmente dispersadas quando entendemos as dificuldades t&#233;cnicas e condi&#231;&#245;es de produ&#231;&#227;o desses baralhos. Muitos erros, inclusive, acabavam se cristalizando na tradi&#231;&#227;o de produ&#231;&#227;o de algumas regi&#245;es por exig&#234;ncia dos pr&#243;prios consumidores, e funcionavam como um atestado de boa proced&#234;ncia do produto. Em que isso impacta nossa interpreta&#231;&#227;o da carta na mesa de jogo? Precisamente, na seguran&#231;a que esse conhecimento nos d&#225; em n&#227;o sermos levados por especula&#231;&#245;es vazias, que mais poluem do que ajudam nossa compreens&#227;o sobre o or&#225;culo.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A postura </span><em><span>lumpen</span></em><span> na hist&#243;ria do tar&#244; &#233; tamb&#233;m muito anterior &#224; internet. T&#227;o logo a cartomancia se profissionalizou na Fran&#231;a, tamb&#233;m foi afetada pela clivagem social que o mercado imp&#245;e a seus produtos. Por um lado, os caros servi&#231;os de prestigiados cartomantes, oferecidos nos sal&#245;es da aristocracia e da alta burguesia. De outro, cartomantes empobrecidos, em sua maioria mulheres, ofereciam seus servi&#231;os por valores irris&#243;rios, por meio de panfletos distribu&#237;dos em bancas de jornais. Nessa mesma &#233;poca, a ind&#250;stria de baralhos divinat&#243;rios e manuais para or&#225;culos dom&#233;sticos come&#231;ou a se consolidar na Fran&#231;a, de certo modo, explorando a ansiedade coletiva gerada pelas convuls&#245;es pol&#237;ticas que estremeceram Estado e sociedade. At&#233; mesmo figuras c&#233;lebres do meio oracular passaram por escrut&#237;nios p&#250;blicos sobre suas pr&#225;ticas abusivas. Mademoiselle Lenormand foi levada ao tribunal por diversas queixas de charlatanismo</span><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-15" href="#footnote-15" target="_self">15</a><span>, e Etteilla tornou-se infame por cobrar valores astron&#244;micos pela confec&#231;&#227;o de talism&#227;s, al&#233;m da venda de hor&#243;scopos prontos enviados por correio, associados a uma s&#233;rie de procedimentos que visavam prender os clientes a uma intermin&#225;vel rela&#231;&#227;o de depend&#234;ncia, sempre pagando por novos servi&#231;os espirituais</span><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-16" href="#footnote-16" target="_self">16</a><span>.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Como visto, essa hist&#243;ria n&#227;o &#233; nova. Vivemos hoje na economia da aten&#231;&#227;o, da mercantiliza&#231;&#227;o de absolutamente qualquer dimens&#227;o da vida. Os or&#225;culos tamb&#233;m s&#227;o alvo dessas media&#231;&#245;es. Essa naturaliza&#231;&#227;o &#233; fundamental para que as contradi&#231;&#245;es do sistema n&#227;o fiquem t&#227;o evidentes aos afetados. Concluo retornando ao in&#237;cio de nossa reflex&#227;o. Hoje, a quem interessa o esquecimento (e at&#233; mesmo o apagamento) das circunst&#226;ncias econ&#244;micas e materiais que envolvem a hist&#243;ria do tar&#244;? Qual o objetivo pr&#225;tico de se resgatar, &#224;s custas dos problemas e desafios envolvendo fontes prim&#225;rias, a hist&#243;ria an&#244;nima de trabalhadores da produ&#231;&#227;o de cartas de s&#233;culos atr&#225;s? Quem se interessaria hoje por entender as raz&#245;es da disparidade social entre cartomantes da alta sociedade e sua contraparte, atuante nas ruas e pra&#231;as, sem condi&#231;&#245;es de circular pelos sal&#245;es onde o dinheiro criava a fama dos adivinhos? Essas n&#227;o s&#227;o quest&#245;es exclusivas de historiadores, tampouco s&#227;o problemas do passado.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Aos que militam no trabalho oracular, seja voc&#234; um profissional ou simplesmente algu&#233;m encantada pela cartomancia, n&#227;o nos esque&#231;amos de que nossa pr&#225;tica, estudos e escolhas materiais relativos ao tar&#244; tamb&#233;m est&#227;o cercados de ambival&#234;ncias maiores que n&#243;s. Ter consci&#234;ncia de nosso lugar nesse sistema pode ser um caminho para uma pr&#225;tica mais respons&#225;vel e cr&#237;tica. Para compreender e atuar responsavelmente com o tar&#244; em tempos t&#227;o complexos, &#233; preciso ter sempre presente as implica&#231;&#245;es &#233;ticas do passado de nosso of&#237;cio. Digo, inclusive, que o tar&#244; exige consci&#234;ncia de classe. O passado est&#225; aqui, e nos inspira responsabilidade. A cada um de n&#243;s cabe discernir em que lugar dessa hist&#243;ria nos encontramos, e que pre&#231;o nos dispomos a pagar para nos mantermos nele.</span></p><p style="text-align: justify;"></p><h2 style="text-align: justify;">Refer&#234;ncias</h2><p><span>BANDERA, Sandrina; ZUFFI, Stefano. </span><em><span>Brera</span></em><span>: I tarocchi di Bonifacio Bembo e la cultura cortese tardogotica. Electra, 1999.</span></p><p><span>BERTI, Giordano. </span><em><span>Storia dei tarocchi</span></em><span>: verit&#224; e leggende sulle carte pi&#249; misteriose del mondo. Milano: Mandadori Libri, 2007. [edi&#231;&#227;o eletr&#244;nica].</span></p><p><span>DECKER, Ronald; DEPAULIS, Thierry; DUMMETT, Michael. </span><em><span>A wicked pack of cards</span></em><span>: the origins of the Occult Tarot. London: Duckworth &amp; Co., 1996.</span></p><p><span>DEPAULIS, Thierry. </span><em><span>Tarot, jeu et magie</span></em><span>. Paris: Biblioth&#232;que Nationale, 1984.</span></p><p><span>DEPAULIS, Thierry. The Tarot of Marseille &#8211; facts and fallacies, part 1. </span><em><span>The Playing-Card</span></em><span>, v. 42, n. 1, pp. 21-41, 2013.</span></p><p><span>FLORNOY, Jean-Claude. </span><em><span>Le p&#232;lerinage des bateleurs</span></em><span>. &#201;dicions letarot.com, 2007. [edi&#231;&#227;o eletr&#244;nica].</span></p><p><span>KAPLAN, Stuart R. </span><em><span>The Encyclopedia of Tarot</span></em><span>. v. 1. Stanford: U. S. Games, 1978.</span></p><p><span>MARX, Karl. </span><em><span>As lutas de classes na Fran&#231;a de 1848 a 1850</span></em><span>. Trad. N&#233;lio Schneider. S&#227;o Paulo: Boitempo, 2012.</span></p><p><span>MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. </span><em><span>Manifesto comunista</span></em><span>. Trad. &#193;lvaro Pina. S&#227;o Paulo: Boitempo, 1998.</span></p><p><span>NADOLNY, Isabelle. </span><em><span>Hist&#243;ria do tar&#244;</span></em><span>. Trad. Karina Jannini. S&#227;o Paulo: Pensamento, 2022.</span></p><p><span>PLACE, Robert M. </span><em><span>The Tarot</span></em><span>: history, symbolism, and divination. New York: Penguin, 2005. [edi&#231;&#227;o eletr&#244;nica].</span></p><p><span>SOARES, Julio. </span><em><span>Tar&#244;</span></em><span>: arqueologia do s&#237;mbolo. Belo Horizonte: Palimpsestus, 2025.</span></p><p></p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p><span>Nadolny, 2022, p. 62; Soares, 2025, pp. 38-39.</span></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>Berti, 2007, p. 27, 32.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="#footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p>Berti, <em>op. cit</em>. pp. 31-32.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-4" href="#footnote-anchor-4" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">4</a><div class="footnote-content"><p>Bandera &amp; Zuffi, 1999, p. 8.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-5" href="#footnote-anchor-5" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">5</a><div class="footnote-content"><p>Nadolny, <em>op. cit</em>. p. 91.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-6" href="#footnote-anchor-6" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">6</a><div class="footnote-content"><p>Place, 2005, p. 22.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-7" href="#footnote-anchor-7" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">7</a><div class="footnote-content"><p>Nadolny, <em>op. cit.</em> pp. 111-112.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-8" href="#footnote-anchor-8" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">8</a><div class="footnote-content"><p>Flornoy, 2007, pp. 22-23; Berti, <em>op. cit</em>. pp. 59-60.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-9" href="#footnote-anchor-9" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">9</a><div class="footnote-content"><p>Depaulis, 2013, p. 31.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-10" href="#footnote-anchor-10" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">10</a><div class="footnote-content"><p>Kaplan, 1978, p. 124.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-11" href="#footnote-anchor-11" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">11</a><div class="footnote-content"><p>Nadolny, <em>op. cit. </em>p. 117, 120.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-12" href="#footnote-anchor-12" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">12</a><div class="footnote-content"><p>Depaulis, 1984, p. 76.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-13" href="#footnote-anchor-13" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">13</a><div class="footnote-content"><p>Marx &amp; Engels, 1998, p. 49</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-14" href="#footnote-anchor-14" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">14</a><div class="footnote-content"><p>Marx, 2012. </p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-15" href="#footnote-anchor-15" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">15</a><div class="footnote-content"><p>Decker, Depaulis &amp; Dummett, 1996, pp. 127-128.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-16" href="#footnote-anchor-16" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">16</a><div class="footnote-content"><p>Nadolny, <em>op. cit. </em>pp. 160-163.</p><p><br><br></p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O Tarot como escrita de si]]></title><description><![CDATA[Ou como nos constru&#237;mos pelo esfor&#231;o de entender o outro]]></description><link>https://cartasnaermida.substack.com/p/o-tarot-como-escrita-de-si</link><guid isPermaLink="false">https://cartasnaermida.substack.com/p/o-tarot-como-escrita-de-si</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Cavalheri]]></dc:creator><pubDate>Sun, 20 Oct 2024 23:36:14 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F568ab2fe-44b4-4189-b35c-8d9c0c495083_564x519.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong>Um r&#225;pido agradecimento</strong></p><p>Oi, pessoal! Espero que tenham gostado do texto anterior. Fiquei feliz que ele tenha atra&#237;do gente nova por aqui e l&#225; no perfil do Instagram tamb&#233;m. Como sou meio prolixo, acabo divagando demais e textos mais curtos podem se tornar um desafio pra mim. Por um lado, isso &#233; &#243;timo. Cortar o sup&#233;rfluo exige mais aten&#231;&#227;o do que qualquer enche&#231;&#227;o de lingui&#231;a. Aqui n&#8217;O Eremit&#233;rio, posso explorar alguns temas mais complicados com espa&#231;o e recursos melhores para a apresenta&#231;&#227;o de ideias e refer&#234;ncias. Se voc&#234; est&#225; curtindo o que escrevo, considere compartilhar com os amigos e ajudar a formarmos uma comunidade para pensar o Tarot e outros temas interessantes. Futuramente, com as b&#234;n&#231;&#227;os da endorfina e das boas noites de sono, pretendo publicar material mais t&#233;cnico sobre Tarot (interpreta&#231;&#245;es das cartas e conte&#250;do mais te&#243;rico, voltado &#224; estrutura, iconografia e m&#233;todos de tiragem). At&#233; l&#225;, muito obrigado! Agora, vamos ao texto de hoje.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://cartasnaermida.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler O Eremit&#233;rio! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><h2>Introdu&#231;&#227;o: leio uma carta pela manh&#227;</h2><p>H&#225; pouco mais de dois anos, tenho cultivado dois h&#225;bitos quase di&#225;rios. O primeiro &#233; o de escrever. Na verdade, desde que entrei no mestrado tenho andado pra l&#225; e pra c&#225; com um caderninho onde anoto tudo que acho interessante, que precisa ser lembrado ou que valha a pena ser retomado no futuro. Nada muito organizado, mas eficiente o bastante para ter me salvado de v&#225;rios imbr&#243;glios acad&#234;micos. Esse h&#225;bito cresceu, e desde quando comecei a fazer terapia, tamb&#233;m mantenho um di&#225;rio. J&#225; s&#227;o muitos cadernos de l&#225; para c&#225;: registros de sonhos, ideias de textos, confiss&#245;es, mem&#243;rias, listas, muitas listas&#8230;Fui percebendo que estava construindo neles uma esp&#233;cie de mem&#243;ria material. Um tipo de fotografia textual de certo estado de esp&#237;rito da &#233;poca em que os escrevi. Retomando suas p&#225;ginas, me vem muita coisa: constrangimento, surpresas, estranhamentos diversos. &#192;s vezes nem me reconhe&#231;o em algumas dessas p&#225;ginas. Faz parte do processo. A gente muda, n&#227;o &#233; mesmo?</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!EoRX!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbcbfb413-a7d3-4a60-a970-8febc8c0a75c_1280x855.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!EoRX!, /__u/cartasnaermida.substack.com/w_424, /__u/cartasnaermida.substack.com/c_limit, /__u/cartasnaermida.substack.com/f_webp, /__u/cartasnaermida.substack.com/q_auto:good, /__u/cartasnaermida.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbcbfb413-a7d3-4a60-a970-8febc8c0a75c_1280x855.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!EoRX!, /__u/cartasnaermida.substack.com/w_848, /__u/cartasnaermida.substack.com/c_limit, 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data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/bcbfb413-a7d3-4a60-a970-8febc8c0a75c_1280x855.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:855,&quot;width&quot;:1280,&quot;resizeWidth&quot;:538,&quot;bytes&quot;:263205,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!EoRX!, /__u/cartasnaermida.substack.com/w_424, /__u/cartasnaermida.substack.com/c_limit, /__u/cartasnaermida.substack.com/f_auto, /__u/cartasnaermida.substack.com/q_auto:good, 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Pela manh&#227;, antes de come&#231;ar o dia, fa&#231;o caf&#233;, passeio com a cachorra e puxo uma carta do meu baralho de uso. N&#227;o sei ao certo se &#233; uma previs&#227;o ou um conselho. Depende do dia. Desse costume j&#225; sa&#237;ram muitas coisas assustadoramente certeiras, como o dia em que tirei uma <em>Roda da Fortuna</em> e, minutos depois, descobri que o pneu do carro estava no ch&#227;o. Tive que pegar um Uber at&#233; o trabalho na cidade vizinha. Outra experi&#234;ncia quase traum&#225;tica com cartas do dia foi com <em>A Torre</em>, tirada horas antes de saber que um familiar havia falecido caindo do telhado da pr&#243;pria casa. A pr&#225;tica se estendeu ao perfil do <em>Cartas na Ermida</em>, e uma das coisas mais interessantes na intera&#231;&#227;o com os seguidores da p&#225;gina &#233; a rea&#231;&#227;o de alguns deles com as cartas tiradas nos <em>stories</em> di&#225;rios. O que pode ser uma oportunidade para mim, vira temor aos olhos do outro. </p><p>Com o tempo, fui percebendo que esse exerc&#237;cio tinha cada vez menos a ver com uma investiga&#231;&#227;o acerca dos eventos do dia, e mais sobre a maneira como eu reagia &#224; pr&#243;pria carta. Por que uma Torre me trazia desconforto? Algu&#233;m poder&#225; argumentar que se trata de uma carta dif&#237;cil em v&#225;rios aspectos. A ansiedade decorrente da possibilidade de um problema mais s&#233;rio, de um acidente grave, de qualquer decep&#231;&#227;o com algo em andamento que acaba por desmoronar. Tudo isso pode revelar bem mais do que o medo de uma previs&#227;o catastr&#243;fica.</p><p>Foi pensando nisso que comecei a fazer anota&#231;&#245;es sobre minhas impress&#245;es &#224;s cartas do dia. O que pensava quando virei a carta? Qual foi minha primeira associa&#231;&#227;o? Que sensa&#231;&#245;es f&#237;sicas eu senti ao me deparar com ela? Aos poucos, me dei conta de que, por meio da leitura das cartas, eu mesmo tentava me entender. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!_1fW!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F76c32d90-717b-44fe-ae66-6bafbb6c32f6_527x1020.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!_1fW!, /__u/cartasnaermida.substack.com/w_424, /__u/cartasnaermida.substack.com/c_limit, /__u/cartasnaermida.substack.com/f_webp, /__u/cartasnaermida.substack.com/q_auto:good, /__u/cartasnaermida.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F76c32d90-717b-44fe-ae66-6bafbb6c32f6_527x1020.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!_1fW!, /__u/cartasnaermida.substack.com/w_848, 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percebi que algo semelhante acontecia na rela&#231;&#227;o dos consulentes com o Tarot. Apesar da pretensa objetividade, &#233; o desenrolar da consulta que revela as nuances que essas perguntas engendram. Nem sempre o jogo aponta a resposta simples, e n&#227;o foram poucas vezes em que uma leitura linear revelou elementos n&#227;o ditos durante a contextualiza&#231;&#227;o e feitura da pergunta. Um terceiro sujeito aparece, um problema n&#227;o pronunciado anteriormente. Os sil&#234;ncios tamb&#233;m participam do jogo. Isso nos leva ao cerne da quest&#227;o: o ato de explicar uma situa&#231;&#227;o, de ouvir e reagir &#224; interpreta&#231;&#227;o de um jogo &#233; uma pequenina pe&#231;a na intermin&#225;vel tarefa de construirmos nossa subjetividade.</p><p>Ao tratarmos de uma situa&#231;&#227;o espec&#237;fica numa consulta, somos levados a exteriorizar e tentar organizar, discursivamente, todo um conjunto de pensamentos, mem&#243;rias e afetos que nos formam. Esse processo tamb&#233;m nos transforma, j&#225; que, como seres inacabados que somos, nos constru&#237;mos tamb&#233;m a partir do modo como narramos nossa pr&#243;pria vida. &#192; medida em que a mem&#243;ria &#233; transformada em narrativa, moldamos a lembran&#231;a na mesma intensidade pela qual ela tamb&#233;m nos atinge no presente. Dito de outro modo, se debru&#231;ar diante das cartas e fazer perguntas a elas &#233; um esfor&#231;o constitutivo, que nos forma, nos exige posicionamento e crit&#233;rios de pensamento. Para quem est&#225; do outro lado, a tarefa tamb&#233;m n&#227;o &#233; menos fundante. A quem interpreta, a sutileza de saber ouvir, mas tamb&#233;m de entender que esse processo, a princ&#237;pio alheio &#224; sua pr&#243;pria subjetividade, tamb&#233;m a toca.</p><p>J&#225; faz um tempo que tenho pensando na ideia da <em>escrita de si</em>, como pensada por Michel Foucault. Em um pequeno texto de 1983, Foucault escreve sobre o exerc&#237;cio filos&#243;fico fundamental no mundo antigo de tomar notas nos <em>hypomn&#234;mata</em>, anota&#231;&#245;es que serviam de mem&#243;ria material para aprendizes e pensadores experientes, usados para guardar trechos de livros, frases, notas pessoais de todo tipo. Sua fun&#231;&#227;o, no entanto era maior do que servir de apoio &#224; mem&#243;ria. Segundo o fil&#243;sofo, </p><blockquote><p>&#8220;[Elas] <em>constituem de prefer&#234;ncia um material e um enquadre para exerc&#237;cios a a serem frequentemente executados: ler, reler, meditar, conversar consigo mesmo e com outros etc.&#8221;</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a></p></blockquote><p>Essa esp&#233;cie de <em>Commonplace Book </em>da Antiguidade Tardia funcionava como um instrumento para que o pensador pudesse fabular sobre si mesmo, construir um registro visual de sua vida interior. Al&#233;m disso, funcionavam como uma fuga &#224;s agita&#231;&#245;es do pensamento, criando marcos de leitura e fabula&#231;&#227;o que preservassem a mente da dispers&#227;o ou de preocupa&#231;&#245;es sobre o futuro. Nesse per&#237;odo, mais do que um exerc&#237;cio de estilo, escrever era uma forma de visualizar a constru&#231;&#227;o de um corpo, um sujeito. Esse princ&#237;pio &#233; radicalizado na m&#237;stica do deserto vivida pelos primeiros monges crist&#227;os do Egito, S&#237;ria e Palestina. Tomando a Vida de Santo Ant&#227;o como refer&#234;ncia, Foucault aponta a import&#226;ncia da escrita de si como atividade espiritual: nos tormentos noturnos, durante o embate com os dem&#244;nios interiores, o asceta l&#234; sobre si para n&#227;o se perder em seus pr&#243;prios pesadelos.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!smBC!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F568ab2fe-44b4-4189-b35c-8d9c0c495083_564x519.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!smBC!, /__u/cartasnaermida.substack.com/w_424, /__u/cartasnaermida.substack.com/c_limit, /__u/cartasnaermida.substack.com/f_webp, /__u/cartasnaermida.substack.com/q_auto:good, 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Detalhe de <em>As Tenta&#231;&#245;es de Santo Ant&#227;o</em>, de David Teniers, o Jovem (1650).</figcaption></figure></div><p>Podemos muito bem imaginar o Tarot como uma esp&#233;cie de caderno de notas, que assim como um di&#225;rio, um livro de mem&#243;rias ou um <em>planner</em> anual, se constr&#243;i a partir de uma estrutura: entender e interpretar os arcanos a partir da proposta de leitura que emerge de sua pr&#243;pria l&#243;gica interna. O Tarot &#233; um caderno de notas que, dispensando l&#225;pis e caneta, escrevemos no ato de tiragem. Fiquei pensando se o Tarot tamb&#233;m n&#227;o se qualifica como um poss&#237;vel suporte de escrita de si. Os <em>hypomn&#234;mata</em> da antiguidade se destinavam ao exerc&#237;cio pessoal da autorreflex&#227;o e ao reposit&#243;rio de ideias que comp&#245;e o pr&#243;prio sujeito na sua comunica&#231;&#227;o exterior. Sua fun&#231;&#227;o era a de instrumento na <em>constru&#231;&#227;o de si mesmo</em>, a partir dos fragmentos que vamos elaborando e reunindo ao longo da vida<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a>. Os arcanos do Tarot desempenham fun&#231;&#227;o semelhante. Na falta de caneta e grafite, escrevemos pelas tiragens. Uma escrita que &#233; sempre mediada pelo exerc&#237;cio da enuncia&#231;&#227;o. A inten&#231;&#227;o do jogo se transforma em discurso. Discurso que constru&#237;mos diante do cartomante, mas tamb&#233;m de n&#243;s mesmos. De qualquer modo, inevitavelmente ouvimos o que perguntamos, reagimos ao que &#233; discursado a nosso respeito (e no caso de sermos n&#243;s os int&#233;rpretes do jogo, o quanto o que se diz sobre o outro&nbsp; tamb&#233;m nos pertence). Interpretar um jogo requer o estranhamento a n&#243;s mesmos, exige questionar a raz&#227;o da raz&#227;o pela qual dispomos as cartas.</p><p>Os detalhes ouvidos, pensados e observados de um jogo constituem o importante exerc&#237;cio de aten&#231;&#227;o que o Tarot instiga. Os antigos entendiam o ato da escrita de si como parte de uma esp&#233;cie de exerc&#237;cio do esp&#237;rito. Rachel Pollack tem uma impress&#227;o semelhante sobre o Tarot, j&#225; que o entende como um meio pelo qual treinamos nossa percep&#231;&#227;o a respeito das coisas ao nosso redor, de nossos interlocutores e, claro, de n&#243;s mesmos. </p><blockquote><p><em>&#8220;Aprendemos a ter o h&#225;bito de prestar aten&#231;&#227;o. Pois, se come&#231;armos a interpretar as cartas automaticamente, com base em livros confi&#225;veis ou em leituras anteriores, perdemos a verdade, e as leituras se tornam superficiais e confusas. &#201; importante manter um registro com as leituras anteriores, mas n&#227;o para us&#225;-lo simplesmente como exemplo para trabalhos futuros. Em vez disso, esse registro pode nos ajudar a lembrar a multiplicidade e a renova&#231;&#227;o constante do comportamento humano&#8221;</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a><em> .</em></p></blockquote><h2>Conclus&#227;o: uma carta me l&#234; pela manh&#227;</h2><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!eygl!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0ceaa962-e5d9-4330-bfb7-244467a8bcd8_763x1051.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!eygl!, /__u/cartasnaermida.substack.com/w_424, /__u/cartasnaermida.substack.com/c_limit, /__u/cartasnaermida.substack.com/f_webp, /__u/cartasnaermida.substack.com/q_auto:good, 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data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/0ceaa962-e5d9-4330-bfb7-244467a8bcd8_763x1051.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:1051,&quot;width&quot;:763,&quot;resizeWidth&quot;:286,&quot;bytes&quot;:194018,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!eygl!, /__u/cartasnaermida.substack.com/w_424, /__u/cartasnaermida.substack.com/c_limit, /__u/cartasnaermida.substack.com/f_auto, /__u/cartasnaermida.substack.com/q_auto:good, 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<em>totalmente subjetiva</em> dos arcanos. Se assim fosse, qual a raz&#227;o de se escrever um livro todo apresentando propostas gerais &#224; leitura de cada carta? Aten&#231;&#227;o aqui me parece algo mais voltado ao modo como integramos o Tarot na vida cotidiana, um exerc&#237;cio que exige reflex&#227;o constante e uma iniciativa que, de fato, n&#227;o cabe nos manuais. Tamb&#233;m n&#227;o me parece adequado pensar o Tarot como um instrumento de <em>escrita de si</em> a partir do mero registro da anota&#231;&#227;o. Afinal, podemos pensar sobre n&#243;s mesmos sem a ajuda das cartas. </p><p>Ent&#227;o, por que us&#225;-las? Pessoalmente, porque elas me parecem um recurso muito did&#225;tico. Ainda que n&#227;o se escreva um &#8220;di&#225;rio de tiragens&#8221; ou algo assim (apesar de ser algo recomendado, especialmente a quem est&#225; iniciando os estudos de Tarot), buscar nas cartas as recorr&#234;ncias de nossa vida e as raz&#245;es das conex&#245;es que fazemos pode ser uma forma l&#250;dica de construirmos um modo de pensar sobre n&#243;s mesmos. Ao mesmo tempo, sua complexidade est&#233;tica tamb&#233;m exige um esfor&#231;o de aproxima&#231;&#227;o, familiaridade, aprendizado e receptividade, algo que nunca nos deixa do mesmo modo. </p><p>Voltando &#224; pr&#225;tica das cartas di&#225;rias, uma coisa interessante nesse processo foi o fato dessas tiragens acabarem, vez ou outra, se tornando assunto na pr&#243;pria terapia. N&#227;o estou dizendo que utilizo o Tarot para fins terap&#234;uticos. Ali&#225;s, a proposta do texto, ao relacionar o Tarot com os cadernos de anota&#231;&#227;o antigos, &#233; bem mais modesta. No fim das contas, a grande gra&#231;a dessa hist&#243;ria &#233; que, ao tentar compreender uma carta, somos levados a nos compreender tamb&#233;m. Quem l&#234; quem, afinal?</p><p>Pr&#225;tica, intui&#231;&#227;o, ou qualquer outro elemento que possamos integrar &#224; nossa viv&#234;ncia com o or&#225;culo torna-se acess&#243;rio quando tomamos como centro da atividade a observa&#231;&#227;o ~ das cartas, mas, principalmente, de n&#243;s mesmos. De certo modo, pensar sobre o Tarot &#233; pensar sobre n&#243;s mesmos, e assim como notas em um caderno de pensamentos, retornamos a esse grande livro ilustrado para construir nossas pr&#243;prias narrativas, dispondo cartas sobre a mesa. Nos lemos pelas cartas, afinamos nossa percep&#231;&#227;o sobre elas, fazemos delas uma ferramenta de nossa pr&#243;pria elabora&#231;&#227;o.</p><div class="captioned-button-wrap" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://cartasnaermida.substack.com/p/o-tarot-como-escrita-de-si?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Partilhar&quot;}" data-component-name="CaptionedButtonToDOM"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por chegar at&#233; aqui! O Eremit&#233;rio &#233; uma Newsletter gratuita, ent&#227;o fique &#224; vontade para compartilhar o post. Seu apoio &#233; fundamental.</p></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://cartasnaermida.substack.com/p/o-tarot-como-escrita-de-si?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Partilhar&quot;}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/cartasnaermida.substack.com/p/o-tarot-como-escrita-de-si?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Partilhar</span></a></p></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>Michel Foucault. A Escrita de Si (1983). In: <em>Ditos e Escritos</em>. v. 5. Rio de Janeiro: Forense Universit&#225;ria, 2004. p. 148.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>Ibidem, p. 162.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="#footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p>Rachel Pollack. S<em>etenta e Oito Graus de Sabedoria</em>. S&#227;o Paulo: Pensamento, 2022. p. 386-387.</p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Memórias de uma tarde arcana]]></title><description><![CDATA[Notas sobre o sagrado, o profano e minha experi&#234;ncia com o Tarot]]></description><link>https://cartasnaermida.substack.com/p/memorias-de-uma-tarde-arcana</link><guid isPermaLink="false">https://cartasnaermida.substack.com/p/memorias-de-uma-tarde-arcana</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Cavalheri]]></dc:creator><pubDate>Mon, 14 Oct 2024 16:15:58 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/e3c8249b-853e-444b-8076-565f7d22c548_474x436.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<h2><strong>Introdu&#231;&#227;o pessoal de um texto pessoal</strong></h2><p>Esse &#233; o primeiro texto da minha Newsletter. Fiquei pensando muito no que escrever aqui. Ali&#225;s, ainda n&#227;o sei ao certo. As palavras v&#234;m e tento organizar algum pensamento, um fio condutor para encaixar as ideias vagas que me aparecem enquanto digito. Bem, essa &#233; a Newsletter de uma p&#225;gina de tarot, acima de tudo. Devo escrever sobre interpreta&#231;&#245;es arcanas, algo da hist&#243;ria das cartas, seus autores e escolas de interpreta&#231;&#227;o. Certamente, um assunto predominante por aqui ser&#225; minha pr&#243;pria vis&#227;o sobre o tarot e todas as suas conex&#245;es poss&#237;veis (e at&#233; imposs&#237;veis, desde que sejam interessantes) entre ele e interesses particulares. </p><p>Por isso, ser&#225; inevit&#225;vel n&#227;o tornar esse espa&#231;o um local de reflex&#245;es mais pessoais. N&#227;o consigo pensar o tarot fora de outros &#226;mbitos da minha vida. A m&#237;stica em torno das cartas, suas interpreta&#231;&#245;es esot&#233;ricas e na heran&#231;a crist&#227; ~ em seus aspectos mais problem&#225;ticos, inclusive ~ dos primeiros baralhos me levam, irremediavelmente, a quest&#245;es &#237;ntimas. Tarot e espiritualidade s&#227;o assuntos que se entrela&#231;am na minha experi&#234;ncia de vida. E antes de qualquer coisa, de forma alguma estou me referindo &#224;quela espiritualidade pasteurizada que satura p&#225;ginas de marketing espiritual do Instagram, ou daquela est&#233;tica azul-violeta, com leds estrobosc&#243;picos e cheiro de palo santo que encontramos em feiras esot&#233;ricas dos grandes centros brasileiros. </p><p>Definir espiritualidade &#233; algo especialmente dif&#237;cil para mim, e haver&#225; muita ocasi&#227;o para eu explicar o porqu&#234; disso. Acho que certas experi&#234;ncias interiores s&#227;o mais f&#225;ceis de serem descritas do que explicadas de fato. De qualquer modo, minha hist&#243;ria com o tarot n&#227;o tem nada de espetacular. Pelo contr&#225;rio, acho que sua for&#231;a est&#225; justamente no car&#225;ter banal como ele me apareceu. E tudo come&#231;ou quando eu era um reverendo muito angustiado.</p><h2>Tentativas de heresia</h2><p>Pois &#233;, voc&#234; n&#227;o leu errado. Por um curto per&#237;odo da minha vida, fui um distinto reverendo protestante. De um jeito bem torto e dif&#237;cil de explicar objetivamente, a fun&#231;&#227;o de l&#237;der religioso foi o efeito colateral de escolhas que fiz h&#225; muito tempo e que me levaram a estudar teologia. Digamos que ser al&#231;ado ao sacerd&#243;cio foi o mal necess&#225;rio ~ ao menos era o que o Guilherme de 21 anos de idade pensava ~ para sair de certa circunst&#226;ncia de vida e conseguir condi&#231;&#245;es de continuar meus estudos. Na &#233;poca, eu j&#225; era professor de hist&#243;ria formado e atuante, e o estudo das disciplinas religiosas nunca foi um ponto de crise pra mim. Pelo contr&#225;rio, mesmo durante a adolesc&#234;ncia como evang&#233;lico, eu era conhecido entre meus pr&#243;ximos como algu&#233;m que levantava quest&#245;es impertinentes e, mesmo sem ser combativo, me guiava por certa desobedi&#234;ncia civil, desacatando todo tipo de moralismo e p&#226;nico sat&#226;nico do pastor da igreja que frequentava na &#233;poca. Enfim, h&#225; muita hist&#243;ria absurda nesse balaio. Deixo isso para outra hora. O fato &#233; que estudar teologia me abriu horizontes. A faculdade onde estudei tinha m&#225; fama entre os crentes mais ardorosos da igreja, j&#225; que era conhecida por tornar seus alunos muito "cr&#237;ticos" [leia-se aqui: pessoas de bom senso, com apre&#231;o aos direitos humanos e respeito &#224;s cren&#231;as alheias].</p><p>No pen&#250;ltimo ano da gradua&#231;&#227;o, eu j&#225; ensaiava visitas ao Programa de P&#243;s-Gradua&#231;&#227;o em Ci&#234;ncias da Religi&#227;o da Universidade Metodista de S&#227;o Paulo, uma verdadeira Meca dos estudos de religi&#227;o no Brasil, que longe dos tempos &#225;ureos (ali pelos anos 80-90), ainda gozava de muito prest&#237;gio. Pelo contato de alguns amigos, me aproximei do finado <em>Or&#225;cula</em>, um grupo de pesquisa em m&#237;stica e apocal&#237;ptica judaico-crist&#227;s que na &#233;poca ampliava seus estudos &#224;s literaturas ap&#243;crifas, gn&#243;sticas e &#224;s rela&#231;&#245;es entre magia e cultura popular no mundo mediterr&#226;neo antigo. O encantamento foi imediato, e em 2017 me tornei mestrando com um projeto sobre as rela&#231;&#245;es entre o folclore greco-romano e a literatura ap&#243;crifa dos s&#233;culos II e III EC. Ali, conheci muita coisa que marcou minha vida. Obviamente, ampliar os horizontes, ler coisas diferentes, ter contato com outras experi&#234;ncias de vida e espiritualidade s&#243; refor&#231;aram meu j&#225; intenso desconforto com a fun&#231;&#227;o pastoral que eu colateralmente assumi pouco tempo antes. Era como se uma fenda se abrisse pouco a pouco, me engolindo. As coisas pareciam se encaminhar para uma crise incontorn&#225;vel. Minha vida (absolutamente tudo) girava em torno das atividades eclesi&#225;sticas e do meu trabalho da faculdade de teologia. Eu queria outro caminho, mas n&#227;o sabia o que fazer. A crise chegava de pressa. Foi a&#237; que os arcanos me alcan&#231;aram. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!e4Uy!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd990501e-f39d-46fb-9a4c-9166aae78566_563x894.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!e4Uy!, /__u/cartasnaermida.substack.com/w_424, /__u/cartasnaermida.substack.com/c_limit, /__u/cartasnaermida.substack.com/f_webp, /__u/cartasnaermida.substack.com/q_auto:good, /__u/cartasnaermida.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd990501e-f39d-46fb-9a4c-9166aae78566_563x894.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!e4Uy!, /__u/cartasnaermida.substack.com/w_848, /__u/cartasnaermida.substack.com/c_limit, 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Naquela &#233;poca eu morava na Sa&#250;de, em S&#227;o Paulo, e todos os dias ia ao terminal Jabaquara para pegar o intermunicipal at&#233; S&#227;o Bernardo do Campo, onde ficava a universidade. Me acostumei a passar a semana toda nos corredores do pr&#233;dio &#212;mega, casa do PPG, mesmo em dias sem aula. N&#227;o aguentava ficar em casa por causa da estafa que desenvolvi escrevendo a disserta&#231;&#227;o. Zanzar pela Biblioteca Ecum&#234;nica e tomar caf&#233; na sala do grupo de pesquisa eram formas de me distrair da minha pr&#243;pria crise. &#192;s vezes, em alguma quinta-feira depois da aula, o grupo de pesquisa ia at&#233; Santo Andr&#233; almo&#231;ar na casa de um membro da turma. Era ali que ocorriam &#243;timas tardes de conversa, com muita comida e cerveja gelada. No toca-discos sempre havia alguma coisa muito boa para ouvir.<br><br>Foi num desses dias. Eu estava apavorado naquela semana, quase n&#227;o fui. Nem queria sair da cama. Forcei a boa vontade, joguei caf&#233; na cara e me arrastei at&#233; l&#225;. A certa altura, j&#225; meio breaco de doses generosas de Claudionor, l&#225; estava eu chorando minhas ansiedades aos presentes. Foi a&#237; que o amigo anfitri&#227;o me disse: &#8220;olha, acho voc&#234; t&#225; precisando experimentar uma coisa&#8221;. Ele foi at&#233; uma estante na sala e pegou uma caixa alaranjada. Era aquele <em>Tar&#244; de Marselha do Carlos Godo</em>, o primeiro baralho de muita gente. Ali&#225;s, foi o meu primeiro. As cartas s&#227;o horrorosamente fr&#225;geis, papel&#227;o grosseiro, mas esse &#233; o tipo de preocupa&#231;&#227;o que passei a ter bem depois daquele dia. Ele abriu a caixa e puxou um ma&#231;o fino de cartas, encheu meu copo com mais uma dose de Claudionor e botou o vinil do <a href="https://youtu.be/kkrdFIbcdmg?list=PLriPIg0RpIgyhFe68Hwji06_az9rBGdV3&amp;t=5">"Offramp", do Pat Metheny Group</a>, para tocar. N&#227;o houve perguntas, s&#243; uma esp&#233;cie de tabuleiro aberto, e a conversa seguiu com interpreta&#231;&#245;es das cartas entrecortadas por coment&#225;rios sobre Jung, sincronicidade e energias que saem da caixa craniana. Como j&#225; disse, o ato da leitura em si teve um qu&#234; de trivial: amigos em volta de uma mesa e um pequeno veio de mist&#233;rio crepusculando aquela tarde quente.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!W_Lz!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F024c0b2b-e7a1-4640-af27-905977caa33a_1200x1200.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!W_Lz!, /__u/cartasnaermida.substack.com/w_424, /__u/cartasnaermida.substack.com/c_limit, /__u/cartasnaermida.substack.com/f_webp, /__u/cartasnaermida.substack.com/q_auto:good, /__u/cartasnaermida.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F024c0b2b-e7a1-4640-af27-905977caa33a_1200x1200.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!W_Lz!, /__u/cartasnaermida.substack.com/w_848, /__u/cartasnaermida.substack.com/c_limit, /__u/cartasnaermida.substack.com/f_webp, /__u/cartasnaermida.substack.com/q_auto:good, /__u/cartasnaermida.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F024c0b2b-e7a1-4640-af27-905977caa33a_1200x1200.jpeg 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!W_Lz!, /__u/cartasnaermida.substack.com/w_1272, /__u/cartasnaermida.substack.com/c_limit, /__u/cartasnaermida.substack.com/f_webp, /__u/cartasnaermida.substack.com/q_auto:good, /__u/cartasnaermida.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F024c0b2b-e7a1-4640-af27-905977caa33a_1200x1200.jpeg 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!W_Lz!, /__u/cartasnaermida.substack.com/w_1456, /__u/cartasnaermida.substack.com/c_limit, /__u/cartasnaermida.substack.com/f_webp, /__u/cartasnaermida.substack.com/q_auto:good, /__u/cartasnaermida.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F024c0b2b-e7a1-4640-af27-905977caa33a_1200x1200.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!W_Lz!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F024c0b2b-e7a1-4640-af27-905977caa33a_1200x1200.jpeg" width="382" height="382" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/024c0b2b-e7a1-4640-af27-905977caa33a_1200x1200.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:1200,&quot;width&quot;:1200,&quot;resizeWidth&quot;:382,&quot;bytes&quot;:null,&quot;alt&quot;:&quot;&#8206;Offramp - Album by Pat Metheny Group - Apple Music&quot;,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:null,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="&#8206;Offramp - Album by Pat Metheny Group - Apple Music" title="&#8206;Offramp - Album by Pat Metheny Group - Apple Music" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!W_Lz!, /__u/cartasnaermida.substack.com/w_424, /__u/cartasnaermida.substack.com/c_limit, /__u/cartasnaermida.substack.com/f_auto, /__u/cartasnaermida.substack.com/q_auto:good, /__u/cartasnaermida.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F024c0b2b-e7a1-4640-af27-905977caa33a_1200x1200.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!W_Lz!, /__u/cartasnaermida.substack.com/w_848, /__u/cartasnaermida.substack.com/c_limit, /__u/cartasnaermida.substack.com/f_auto, /__u/cartasnaermida.substack.com/q_auto:good, /__u/cartasnaermida.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F024c0b2b-e7a1-4640-af27-905977caa33a_1200x1200.jpeg 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!W_Lz!, /__u/cartasnaermida.substack.com/w_1272, /__u/cartasnaermida.substack.com/c_limit, /__u/cartasnaermida.substack.com/f_auto, /__u/cartasnaermida.substack.com/q_auto:good, /__u/cartasnaermida.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F024c0b2b-e7a1-4640-af27-905977caa33a_1200x1200.jpeg 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!W_Lz!, /__u/cartasnaermida.substack.com/w_1456, /__u/cartasnaermida.substack.com/c_limit, /__u/cartasnaermida.substack.com/f_auto, /__u/cartasnaermida.substack.com/q_auto:good, /__u/cartasnaermida.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F024c0b2b-e7a1-4640-af27-905977caa33a_1200x1200.jpeg 1456w" sizes="100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">Quem vai negar que essa capa &#233; um tanto auspiciosa?</figcaption></figure></div><p>Ali, acho que tive o que Rudolf Otto chamou de <em><strong>experi&#234;ncia numinosa</strong></em>. Para ele, o numinoso &#233; uma qualidade do sagrado que efetiva sua manifesta&#231;&#227;o. N&#227;o me refiro ao sagrado como uma qualidade religiosa convencional. O sagrado &#233;, antes de tudo, um dado de suspens&#227;o, um evento fundante, que pode se traduzir em um fen&#244;meno m&#237;stico [no sentido mais convencional do termo] ou numa experi&#234;ncia de arrebatamento, que pode ser est&#233;tica, por exemplo. Apesar de Otto ser o autor cl&#225;ssico quando o assunto &#233; a rela&#231;&#227;o entre o sagrado e suas qualidades irracionais, &#233; no romeno Mircea Eliade que o assunto ganhou refinamento. O pr&#243;prio Eliade afirmou em suas mem&#243;rias que sua primeira experi&#234;ncia com o sagrado foi na inf&#226;ncia, quando seu olhar cruzou com o de uma menina na rua. Ali, ele experimentou uma suspens&#227;o do tempo profano, da realidade comum. Havia eternidade naquele cruzamento de olhares.</p><blockquote><p><em>&#8220;Nunca ser&#225; demais insistir no paradoxo que constitui toda hierofania, at&#233; a mais elementar. Manifestando o sagrado, um objeto qualquer torna-se outra coisa e, contudo, continua a ser ele mesmo, porque continua a participar do meio c&#243;smico envolvente&#8221;</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a>.<em> </em></p></blockquote><p>Voltando ao tarot, a sensa&#231;&#227;o de estar diante das cartas foi desconcertante. A presen&#231;a dos arcanos naquela conversa foi o fator que suspendeu aquela tarde de sua banalidade. Isso &#233; algo muito pessoal, pois entendo quem leia esse relato e n&#227;o veja nada de especial. N&#227;o havia nada que <em>performasse</em> algum tipo de mediunidade ali. E para falar a verdade, n&#227;o me lembro de uma s&#243; palavra dita naquele dia, mas lembro da sensa&#231;&#227;o de sair da casa desse amigo absolutamente desnorteado. No fundo, a experi&#234;ncia de ter um jogo lido diante de mim pela primeira vez teve menos a ver com as respostas que foram propostas na leitura, e mais com o modo como a rela&#231;&#227;o entre minhas ang&#250;stias, o ambiente do almo&#231;o e todo o rito da tiragem se articularem para criar um efeito que me atingiu em cheio. Havia uma densidade nos gestos, naquelas imagens que, fora do meu repert&#243;rio de refer&#234;ncias, me escapavam &#224; compreens&#227;o. </p><h2>O sagrado n&#227;o se deixa suspender </h2><p>O &#8220;mist&#233;rio tremendo e fascinante&#8221;, para usar os termos de Otto, se expressou de duas formas naquele momento. O primeiro foi o encantamento com todo o processo da leitura. Como aquele monte de papel colorido conseguia traduzir quest&#245;es pessoais de modo que nem eu mesmo conseguia? Para al&#233;m daquela discuss&#227;o [um tanto est&#233;ril] sobre os usos divinat&#243;rios ou terap&#234;uticos do tarot, ele me apareceu primeiramente como um grande <em><strong>exerc&#237;cio hermen&#234;utico</strong></em>. De algum modo que n&#227;o compreendia na ocasi&#227;o, o tarot me traduziu circunst&#226;ncias vividas, permitiu um distanciamento at&#233; ent&#227;o desconhecido sobre quest&#245;es que n&#227;o conseguia elaborar direito. Em raz&#227;o disso, hoje entendo que uma das abordagens mais interessantes para o tarot &#233; tom&#225;-lo como um instrumento de nossa <em>escrita de si</em>, uma ferramenta de constru&#231;&#227;o da nossa pr&#243;pria subjetividade [mas isso eu deixo para discutir num pr&#243;ximo texto]. Retomando o racioc&#237;nio do Eliade, naquele momento as cartas sobre a mesa conjugavam gestos, sons, sabores e certo estado de esp&#237;rito receptivo que engendraram um <em>mysterium</em>. O tarot e tudo o que ele produziu enquanto discurso e espanto transformaram o espa&#231;o daquele almo&#231;o. No fim das contas, ele tamb&#233;m me transformou.</p><blockquote><p><em>&#8220;Existem, por exemplo, locais privilegiados, qualitativamente diferentes dos outros: a paisagem natal ou os s&#237;tios dos primeiros amores, ou certos lugares na primeira cidade estrangeira visitada na juventude. Todos esses lugares guardam, mesmo para o homem mais francamente n&#227;o religioso, uma qualidade excepcional, &#8216;&#250;nica&#8217;: s&#227;o os &#8216;lugares sagrados&#8217; do seu universo privado, como se neles um ser n&#227;o religioso tivesse tido a revela&#231;&#227;o de uma outra realidade, diferente daquela de que participa em sua exist&#234;ncia cotidiana&#8221;</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a>.</p></blockquote><p>Na pr&#225;tica, o que significa dizer que o tarot &#233; <em>sagrado</em>? No sentido que Eliade atribui ao termo, quer dizer que em certas circunst&#226;ncias espec&#237;ficas, o tarot &#233; capaz de suspender a ordem comum das coisas, removendo delas o seu car&#225;ter profano (comum, ordin&#225;rio...mundano). Ao menos para mim, a partir daquela tarde, foi exatamente esse o efeito que ele me causou. O que gosto nessa defini&#231;&#227;o (assim como muitas outras coisas que gosto na vida) &#233; sua ambiguidade. Tudo o que existe no mundo pode se sacralizar em nossa consci&#234;ncia, e ainda assim, n&#227;o perde suas qualidades comuns. Um caf&#233; pode ser tomado todos os dias, mas <em>aquele caf&#233;</em>, <em>naquele dia</em>, n&#227;o. Mesmo assim, todos os caf&#233;s triviais ser&#227;o portas que nos permitem voltar, em lampejos espec&#237;ficos, &#224;s paisagens profundas da nossa lembran&#231;a. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ZKPY!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbd69ddbf-9ccd-4a41-b157-73d2e8868c6e_1571x1091.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ZKPY!, /__u/cartasnaermida.substack.com/w_424, /__u/cartasnaermida.substack.com/c_limit, /__u/cartasnaermida.substack.com/f_webp, /__u/cartasnaermida.substack.com/q_auto:good, /__u/cartasnaermida.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbd69ddbf-9ccd-4a41-b157-73d2e8868c6e_1571x1091.jpeg 424w, 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interesse. Primeiro, por ser um artefato cultural. Ele tem passado e materialidade. Estudar a origem das cartas e dos s&#237;mbolos, da perspectiva mais humana poss&#237;vel, nunca me permitiu reduzir o tarot a um mero produto de condi&#231;&#245;es hist&#243;ricas, econ&#244;micas e sociais. Apesar de certa aridez da historiografia, que em muitos assuntos acaba por quebrar certos mitos de origem e o aspecto mais fant&#225;stico do passado que n&#243;s constru&#237;mos coletivamente [e parte de seu objetivo deve ser esse mesmo], o encantamento diante das cartas e de sua pr&#243;pria hist&#243;ria oracular sempre me coloca numa condi&#231;&#227;o de rever&#234;ncia. Uma rever&#234;ncia que cultivo diante das poucas coisas que n&#227;o me atrevo a tentar esvaziar.</p><p>Encerro esse texto mais o menos do jeito que o comecei, sem saber ao certo o que queria dizer com ele. Hoje, me limito ao exerc&#237;cio de lembrar e compartilhar com voc&#234;s essa experi&#234;ncia fundante e t&#227;o corriqueira de uma tarde de almo&#231;o que, n&#227;o fosse pelas cartas, seria esquecida assim como as tantas outras que vivi naquele per&#237;odo. O que aconteceu daquele dia em diante vale muita hist&#243;ria. E n&#227;o, o tarot n&#227;o me deu respostas para resolver os problemas que tinha naquela &#233;poca. O que ele fez por mim foi mais importante: me permitiu vislumbrar um mist&#233;rio que eu sei que nunca terminar&#225;, e que bom que seja assim. &nbsp;</p><div><hr></div><h2>Agenda aberta</h2><p><em>Pessoal, a agenda de atendimentos segue aberta com hor&#225;rios de segunda a sexta-feira. Entre em contato pela DM do Cartas na Ermida no Instagram ou pelo e-mail cartasnaermida@gmail.com e consulte os hor&#225;rios dispon&#237;veis. </em></p><p><em>At&#233; breve, abra&#231;o!</em></p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>Mircea Eliade. <em>O Sagrado e o Profano</em>. S&#227;o Paulo: Martins Fontes, 1992. p. 18. </p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>Ibid., p. 28.</p></div></div>]]></content:encoded></item></channel></rss>