<script data-pm-proxy="intercept"></script><?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Comunica, Sapatão]]></title><description><![CDATA[Somos uma coletiva de lésbicas construindo sua própria forma de se comunicar.]]></description><link>https://comunicasapatao.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!_6_M!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8ba3f527-c26c-40d5-8548-85f59f0672b9_1280x1280.png</url><title>Comunica, Sapatão</title><link>https://comunicasapatao.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Thu, 03 Sep 2026 02:16:57 GMT</lastBuildDate><atom:link href="/__u/comunicasapatao.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Comunica, Sapatão!]]></copyright><language><![CDATA[pt-br]]></language><webMaster><![CDATA[comunicasapatao@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[comunicasapatao@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Comunica, Sapatão]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Comunica, Sapatão]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[comunicasapatao@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[comunicasapatao@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Comunica, Sapatão]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[O silêncio consensual sobre as vidas lésbicas]]></title><description><![CDATA[Na imprensa, na m&#237;dia independente e no ativismo &#8212; Por Samantha Hunoff]]></description><link>https://comunicasapatao.substack.com/p/silencio-consensual-sobre-vidas-lesbicas-imprensa-midia-ativismo</link><guid isPermaLink="false">https://comunicasapatao.substack.com/p/silencio-consensual-sobre-vidas-lesbicas-imprensa-midia-ativismo</guid><dc:creator><![CDATA[Comunica, Sapatão]]></dc:creator><pubDate>Tue, 21 Jul 2026 23:11:38 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!bMOg!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3f443086-c869-4a5b-a045-b8b4ccd98fa0_1022x1200.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>Obviamente, o que consumimos todos os dias est&#225; longe de nascer de uma escolha subjetiva de cada editor. O que muita gente n&#227;o sabe &#233; que essa filtragem faz parte de um processo de industrializa&#231;&#227;o da produ&#231;&#227;o de not&#237;cias estudado e teorizado, chamado </span><em><span>newsmaking</span></em><span>. Dentro dessa linha de produ&#231;&#227;o, as reda&#231;&#245;es operam por meio do &#8220;valor-not&#237;cia&#8221;, um conjunto de regras que determina se um acontecimento merece virar manchete ou ser completamente descartado. Essa filtragem divide o interesse jornal&#237;stico a partir de crit&#233;rios substantivos, relativos ao produto informativo, ao meio, ao p&#250;blico e &#224; concorr&#234;ncia (Wolf, 2003)<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a>.</span></p><p><span>Para compreender como esse recorte opera na realidade, tomei como objeto de an&#225;lise a falta de divulga&#231;&#227;o do caso do desaparecimento e de </span><strong>Ieda Aparecida Simpl&#237;cio,</strong><span> 62 anos, e </span><strong>Fabiana de F&#225;tima Nogueira</strong><span>, 47 anos, sobre o qual, infelizmente, voc&#234; deve estar sabendo tarde demais.</span></p><p><span>Se na teoria, quanto mais crit&#233;rios um acontecimento contempla, mais r&#225;pido ele vira not&#237;cia, na pr&#225;tica, e n&#227;o &#233; exagero dizer, vemos absolutamente tudo relacionado a l&#233;sbicas servindo de contraexemplo. Quando submetemos a viol&#234;ncia contra vidas l&#233;sbicas &#224; classifica&#231;&#227;o de Wolf, a estrutura do </span><em><span>newsmaking</span></em><span> nos mostra que os filtros jornal&#237;sticos que ele analisou na virada do mil&#234;nio t&#234;m ainda outros crit&#233;rios, que ou ele ignorou deliberadamente ou tinha privil&#233;gios demais para reconhecer.</span></p><blockquote><p><code>S&#243; que mulheres l&#233;sbicas mais velhas, trabalhadoras aut&#244;nomas, n&#227;o parecem ter o apelo necess&#225;rio para comover o p&#250;blico. Se forem negras, ent&#227;o, a import&#226;ncia &#233; ainda mais dilu&#237;da na naturaliza&#231;&#227;o hist&#243;rica e estrutural do racismo.</code></p></blockquote><p><span>Os crit&#233;rios substantivos deveriam avaliar a import&#226;ncia do fato e o interesse da not&#237;cia. Por&#233;m, no caso de Ieda e Fabiana, n&#227;o vemos o valor dram&#225;tico e o mist&#233;rio intr&#237;nseco a qualquer desaparecimento sendo explorados. No ecossistema midi&#225;tico, a relev&#226;ncia &#233; determinada pelo n&#237;vel hier&#225;rquico e pelo capital social de quem sofre a viol&#234;ncia. S&#243; que mulheres l&#233;sbicas mais velhas, trabalhadoras aut&#244;nomas, n&#227;o parecem ter o apelo necess&#225;rio para comover o p&#250;blico. Se forem negras, ent&#227;o, a import&#226;ncia &#233; ainda mais dilu&#237;da na naturaliza&#231;&#227;o hist&#243;rica e estrutural do racismo.</span></p><p><span>Nos crit&#233;rios relativos ao meio, focados na infraestrutura operacional das empresas de comunica&#231;&#227;o e na disponibilidade de material, a omiss&#227;o tampouco encontra uma justificativa. A din&#226;mica desses casos oferece grande apelo visual &#8212; como a mobiliza&#231;&#227;o de equipes do Corpo de Bombeiros e per&#237;cias em &#225;reas de mata &#8212; e acessibilidade f&#237;sica para as equipes. Por&#233;m, a infraestrutura de grandes corpora&#231;&#245;es de m&#237;dia, acostumadas a mobilizar helic&#243;pteros e equipes m&#243;veis ao menor sinal de interesse, tamb&#233;m n&#227;o pode dizer que encontrou obst&#225;culos reais. N&#227;o foram captadas imagens porque n&#227;o </span><s><span>quiseram</span></s><span> foram enviados rep&#243;rteres ao local para registrar, por exemplo, o desespero que levou os pr&#243;prios familiares a recolherem o ve&#237;culo abandonado das v&#237;timas antes da formaliza&#231;&#227;o de um inqu&#233;rito.</span></p><blockquote><p><code>Ao decidirem que a vida de um casal de l&#233;sbicas negras carece de import&#226;ncia para a sua audi&#234;ncia, os meios atuam mais uma vez a favor do apagamento e impossibilitam o p&#250;blico de ter acesso &#224; realidade.</code></p></blockquote><p><span>Nos crit&#233;rios relativos ao p&#250;blico e &#224; concorr&#234;ncia, que avaliam quem consome a not&#237;cia e as regras de disputa de mercado, vemos um alinhamento silencioso e institucionalizado entre os meios. Ao decidirem que a vida de um casal de l&#233;sbicas negras carece de interesse para a sua audi&#234;ncia, os editores atuam mais uma vez a favor do apagamento e da impossibilidade do p&#250;blico de ter acesso &#224; realidade.</span></p><blockquote><p><code>[&#8230;] quando a sociedade &#233; privada do conhecimento sobre crimes contra l&#233;sbicas, atenta-se contra a dignidade humana coletiva.</code></p></blockquote><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!bMOg!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3f443086-c869-4a5b-a045-b8b4ccd98fa0_1022x1200.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!bMOg!, /__u/comunicasapatao.substack.com/w_424, /__u/comunicasapatao.substack.com/c_limit, 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class="image-caption">Ieda e Fabiana estavam noivas e <strong>planejavam uma reforma</strong><span> na casa onde moravam pouco antes do desaparecimento. </span>Foto: reprodu&#231;&#227;o </figcaption></figure></div><p><span>Contudo, essa seletividade ultrapassa o limite da autonomia editorial e atinge a esfera &#233;tica e jur&#237;dica, ferindo o direito humano fundamental &#224; informa&#231;&#227;o, conforme estabelecido no Artigo 19 da Declara&#231;&#227;o Universal dos Direitos Humanos. No Brasil, esse preceito consta na Carta Magna e &#233; detalhado no C&#243;digo de &#201;tica dos Jornalistas. Portanto, quando a sociedade &#233; privada do conhecimento sobre crimes contra l&#233;sbicas, atenta-se contra a dignidade humana coletiva.</span></p><blockquote><p><code>Mas o &#8220;L&#8221; da sigla j&#225; sabe que a solidariedade do bloco some diante da viol&#234;ncia que atinge as sem capital econ&#244;mico e apelo digital.</code></p></blockquote><p><span>Chama a aten&#231;&#227;o, para n&#227;o dizer outra coisa, que essa apatia ecoa da mesma maneira dentro dos coletivos ativistas e do pr&#243;prio movimento que institucionalmente deveria protagonizar a cobran&#231;a por respostas. Existe uma sele&#231;&#227;o velada e expl&#237;cita sobre quais exist&#234;ncias mobilizam essa tal comunidade. Mas o &#8220;L&#8221; da sigla j&#225; sabe que a solidariedade do bloco some diante da viol&#234;ncia que atinge as sem capital econ&#244;mico e apelo digital.</span></p><blockquote><p><code>Coletivos que historicamente surgiram com a promessa de pautar o que a imprensa tradicional omite aderem ao pacto de sil&#234;ncio e, ao ignorarem epis&#243;dios envolvendo l&#233;sbicas, revelam que criaram seus pr&#243;prios &#8220;filtros de interesse&#8221;. [&#8230;] Se o fato n&#227;o serve &#224; est&#233;tica de suas grades ou ao debate ideol&#243;gico do momento, ele &#233; descartado.</code></p></blockquote><p><span>A contradi&#231;&#227;o &#233; igualmente evidente quando observamos o comportamento da m&#237;dia independente e das redes de jornalismo alternativo. Coletivos que historicamente surgiram com a promessa de pautar o que a imprensa tradicional omite aderem ao pacto de sil&#234;ncio e, ao ignorarem epis&#243;dios envolvendo l&#233;sbicas, revelam que criaram seus pr&#243;prios &#8220;filtros de interesse&#8221;. A urg&#234;ncia de suas coberturas contra-hegem&#244;nicas &#233;, muitas vezes, ref&#233;m do engajamento pol&#237;tico e identit&#225;rio e do apelo visual moderno. Se o fato n&#227;o serve &#224; est&#233;tica de suas grades ou ao debate ideol&#243;gico do momento, ele &#233; descartado.</span></p><p><span>Esse apagamento sist&#234;mico nas tr&#234;s frentes &#8212; grande m&#237;dia, meios alternativos e ativismos humanos &#8212; &#233; alimentado por uma recusa conceitual, institucional e jur&#237;dica em nomear as especificidades dessa viol&#234;ncia, o </span><strong><span>lesbo&#243;dio</span></strong><span>, a </span><strong><span>lesbofobia</span></strong><span> e o </span><strong><span>lesboc&#237;dio</span></strong><span>. Enquanto o feminic&#237;dio tradicional se manifesta majoritariamente no &#226;mbito das rela&#231;&#245;es heterossexuais, o lesboc&#237;dio age como puni&#231;&#227;o e &#8220;corre&#231;&#227;o moral&#8221;. Moral, ali&#225;s, que habita silenciosamente as reda&#231;&#245;es e nos coletivos, operando como um filtro que desfoca o interesse p&#250;blico.</span></p><blockquote><p><code>Quando o sistema de comunica&#231;&#227;o silencia uma ocorr&#234;ncia, o senso de urg&#234;ncia do Estado diminui ainda mais. As buscas e a expedi&#231;&#227;o de mandados de pris&#227;o perdem velocidade, dando aos envolvidos o tempo necess&#225;rio para destruir provas, construir &#225;libis e fugir. A neglig&#234;ncia midi&#225;tica passa a atuar, portanto, como uma capa da invisibilidade para assassinos de l&#233;sbicas.</code></p></blockquote><p><span>&#201; urgente que o sistema jur&#237;dico brasileiro avance e institua o lesboc&#237;dio como crime tipificado de forma aut&#244;noma para que possa receber o devido tratamento. Afinal, a oculta&#231;&#227;o dessas din&#226;micas cobra um pre&#231;o imediato. No jornalismo policial e na praxe criminal&#237;stica, as primeiras horas ap&#243;s o fato s&#227;o determinantes para a coleta de depoimentos, preserva&#231;&#227;o de evid&#234;ncias e localiza&#231;&#227;o de suspeitos.</span></p><p><span>Quando o sistema de comunica&#231;&#227;o em massa silencia uma ocorr&#234;ncia, o senso de urg&#234;ncia do Estado diminui ainda mais. As buscas e a expedi&#231;&#227;o de mandados de pris&#227;o perdem velocidade, dando aos envolvidos o tempo necess&#225;rio para destruir provas, construir &#225;libis e fugir. A neglig&#234;ncia midi&#225;tica passa a atuar, portanto, como uma capa da invisibilidade para assassinos de l&#233;sbicas.</span></p><blockquote><p><code>Diante do sil&#234;ncio que une a imprensa, as redes independentes e os movimentos, a press&#227;o organizada e o registro insistente da pr&#243;pria comunidade l&#233;sbica passam a ser as &#250;nicas ferramentas contra o apagamento.</code></p></blockquote><p><span>Ao desafiar as pr&#225;ticas e os crit&#233;rios de noticiabilidade, colocamos luz sobre o que j&#225; sabemos para afirmar, com refer&#234;ncia, que se trata de um movimento coletivo, deliberado e consensual. Se o modelo de produ&#231;&#227;o do </span><em><span>newsmaking</span></em><span> tradicional, e alternativo, como vimos, foi desenhado para filtrar e descartar as nossas vidas, a nossa resposta n&#227;o pode ser a espera passiva pela coer&#234;ncia das reda&#231;&#245;es e dos coletivos ativistas.</span></p><p><span>Diante do sil&#234;ncio que une a imprensa, as redes independentes e os movimentos, a press&#227;o organizada e o registro insistente da pr&#243;pria comunidade l&#233;sbica passam a ser as &#250;nicas ferramentas contra o apagamento.</span></p><p><strong><span>O nosso registro precisa ser documental e intransigente. A seguran&#231;a de nenhuma de n&#243;s estar&#225; garantida enquanto o sil&#234;ncio for a resposta padr&#227;o de nossos pares e enquanto o Estado se recusar a nomear as nossas perdas e a garantir o nosso direito constitucional de viver com dignidade.</span></strong></p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>WOLF, Mauro. <em>Teorias da Comunica&#231;&#227;o de Massa</em>. Lisboa: Presen&#231;a, 2003.</p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Introspecção e Timidez Negra: MANIFESTO DA ESTRANHEZA]]></title><description><![CDATA[por mustella &#8212; Pensar em escrever esse texto teve muitos lugares para mim. Primeiro, fui instigada a escrever sobre timidez e introspec&#231;&#227;o quando&#8230;]]></description><link>https://comunicasapatao.substack.com/p/manifesto-da-estranheza</link><guid isPermaLink="false">https://comunicasapatao.substack.com/p/manifesto-da-estranheza</guid><dc:creator><![CDATA[Comunica, Sapatão]]></dc:creator><pubDate>Tue, 30 Jun 2026 23:32:08 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!b48j!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F74a53fc5-360b-4533-b959-56aa665bec92_900x1600.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><em>mustella &#233; um alter-ego que junta as minhas caracter&#237;sticas e obsess&#245;es, sem me levar t&#227;o a s&#233;rio, gosto de escrever para desabafar, botar pra fora toda a criatividade que eu guardo em mim e muitas vezes n&#227;o d&#225; pra segurar dentro do corpo.</em></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!nZZf!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0841c0d1-3f96-41e6-885b-dd9ee18c8a99_900x1600.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!nZZf!, /__u/comunicasapatao.substack.com/w_424, /__u/comunicasapatao.substack.com/c_limit, /__u/comunicasapatao.substack.com/f_webp, /__u/comunicasapatao.substack.com/q_auto:good, /__u/comunicasapatao.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0841c0d1-3f96-41e6-885b-dd9ee18c8a99_900x1600.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!nZZf!, /__u/comunicasapatao.substack.com/w_848, /__u/comunicasapatao.substack.com/c_limit, /__u/comunicasapatao.substack.com/f_webp, /__u/comunicasapatao.substack.com/q_auto:good, 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sizes="100vw"><img src="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!nZZf!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0841c0d1-3f96-41e6-885b-dd9ee18c8a99_900x1600.jpeg" width="900" height="1600" 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class="image-caption"><em>Na pracinha<span> (outubro de 2024) &#8211; </span>mustella.</em></figcaption></figure></div><p><span>Pensar em escrever esse texto teve muitos lugares para mim. Primeiro, fui instigada a escrever sobre timidez e introspec&#231;&#227;o quando uma fala de um artista que eu gosto muito, Djavan, chegou at&#233; mim. Nesse v&#237;deo, ele falava sobre a experi&#234;ncia dele como uma pessoa negra t&#237;mida e como o racismo produziu muito desse sentimento dentro dele. Que ele entende que pessoas negras s&#227;o ensinadas a serem contidas, controladas e polidas.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Que se mostrar, para uma pessoa negra, significa sofrer repress&#245;es do mundo externo. Por isso, pessoas negras v&#227;o se fechando e se tornando menos expressivas conforme s&#227;o repreendidas. E essa educa&#231;&#227;o acaba sendo produzida por brancos, mas reproduzida por negros.</span></p><p><span>Existe uma gama infinita de possibilidades de como uma pessoa negra vai se comportar e qual personalidade vai adquirir. Na inf&#226;ncia, mais pr&#243;ximo da pr&#233;-adolesc&#234;ncia, come&#231;am as primeiras crises de identidade, que se intensificam na adolesc&#234;ncia e v&#227;o assentando na vida adulta. Esse caminho &#233; o natural, mas como &#233; que uma pessoa negra se forma numa sociedade racista? Quais identidades s&#227;o poss&#237;veis?</span></p><blockquote><p><code>A negra nunca pode ser complexa, parece que &#233; exigido uma simplifica&#231;&#227;o (ou esvaziamento) das possibilidades que ela pode adquirir.</code></p></blockquote><p><span>A negra nunca pode ser complexa, parece que &#233; exigido uma simplifica&#231;&#227;o (ou esvaziamento) das possibilidades que ela pode adquirir. A identidade que querem &#233; as que sabemos: raivosa, barraqueira, impositiva, barulhenta e todas as identidades rasas que os brancos querem dizer que somos por natureza.</span></p><p><span>Internamente, pensei comigo mesma, como minha trajet&#243;ria da adolesc&#234;ncia at&#233; a vida adulta foi e quais crises eu passei. Como muitos adolescentes, fui </span><em><span>emo</span></em><span>, uma garota que n&#227;o tinha irm&#227;os, por isso passava bastante tempo sozinha pensando consigo mesma. Ouvir m&#250;sicas emo, e entender essa identidade nos anos 2010 ainda era &#8220;estranho&#8221;. Pessoas negras n&#227;o eram emos, porque era uma est&#233;tica embranquecida. Os cortes eram para cabelos lisos e por isso eu passei os meus 14 anos apenas desejando ter um cabelo que eu achava &#8220;muito estiloso&#8221;. Mas o que eu me identificava n&#227;o era com a est&#233;tica, eram as letras profundas que descreviam sentimentos pesados, alguns agudamente deprimidos, com raiva, revolta e &#243;dio. Uma pitada de sofrimento cantado, com os timbres mel&#243;dicos e caracter&#237;sticos do emo. Aquela voz rasgada que parece que chora.</span></p><p><span>Tamb&#233;m aos 14 anos eu j&#225; sabia que era l&#233;sbica, j&#225; tinha beijado uma garota, mas sabia que minha familia n&#227;o ia receber bem. Eu fui entendendo que me vestir de preto, com bota, camisa preta e jeans, era tamb&#233;m a forma como eu gostava de ser vista, e eu n&#227;o falava muito. Uma vez num evento com minha m&#227;e, as pessoas vinham falar comigo e eu respondia com duas palavras, e minha m&#227;e sempre ficava brava comigo por conta disso. Mas falar com quem n&#227;o se quer, sobre coisas que n&#227;o se gosta, n&#227;o existe.</span></p><p><span>Eu sabia que n&#227;o queria viver como estava vivendo, e eu queria guardar meus pensamentos e meu jeito para pessoas que valorizassem quem eu era. Nessa &#233;poca eu n&#227;o tinha certeza absoluta, mas achava que sim, que eu nunca seria aceita em nenhum espa&#231;o, isso aos 15 anos. Minha m&#227;e preparou uma festa bem ritual de 15 anos, ela queria escolher tudo como ela achava que seria esse ritual de feminilidade, com tudo que tem direito. Na &#233;poca, era como viver uma vida dupla, eu tinha uma namorada escondida, sabia que esse ritual era apenas uma fantasia que logo iria passar. Eu sentia que em algum momento eu conseguiria </span><em><span>ser eu</span></em><span> e falar o que eu realmente pensava. Com o passar dos anos, vi minha fam&#237;lia me descrevendo como uma pessoa avulsa, que vivia em outro mundo. Meu primo apelidou de &#8220;mundo de bob&#8221; e depois um amigo querido com quem tive uma banda, de &#8220;mundo de bia&#8221;. &#201; isso, eu sempre vivi dentro do meu mundo, e a minha &#8220;introspec&#231;&#227;o&#8221; me ajudou a nunca me perder de mim.</span></p><blockquote><p><code>&#201; isso, eu sempre vivi dentro do meu mundo, e a minha &#8220;introspec&#231;&#227;o&#8221; me ajudou a nunca me perder de mim.</code></p></blockquote><p><span>Por ter certeza de quem eu queria ser, guardar pra mim tudo que eu queria, me protegeu de ser modificada. Sem irm&#227;os, o meu repert&#243;rio social tamb&#233;m era baixo e minha m&#227;e era extremamente protetora comigo. Isso foi moldando o que hoje eu entendo quem &#233; essa que vos escreve aqui.</span></p><p><span>Voltando para o Djavan, eu vejo ele como uma pessoa voltada para si, e seu mundo interno, mas n&#227;o t&#227;o interno assim. Djavan se derrama e exp&#245;e nas suas letras. Ele consegue descrever t&#227;o bem, e se colocar de uma forma t&#227;o delicada, que penso, apenas uma pessoa que se conhece muito bem conseguiria chegar nesse n&#237;vel de detalhes sobre seus pr&#243;prios sentimentos. Algu&#233;m que passou muito tempo refletindo sobre as coisas, de formas boas e ruins. Que viveu na solid&#227;o &#8212; e essa solid&#227;o o racismo tamb&#233;m cria para n&#243;s. S&#243; que, no meu caso, e do meu querido Djavan, escrever e se expressar em algum momento chegou at&#233; n&#243;s, por isso escrevemos e sobrevivemos. Nem todos conseguem chegar a pensar nisso. Muitas pessoas negras permanecem na timidez. Pessoas negras hipersens&#237;veis existem e, ao serem vistas no mundo, acabam n&#227;o sendo t&#227;o compreendidas.</span></p><blockquote><p><code>Ser complexa e sens&#237;vel enquanto negra foi dif&#237;cil e ainda &#233;.</code></p></blockquote><p><span>Por conta das expectativas racistas e por conta da identidade negra, sequer s&#227;o atreladas ao que &#233; humano. Ser complexa e sens&#237;vel enquanto negra foi dif&#237;cil e ainda &#233;. Ser &#8220;estranha&#8221; me ensinou que hoje eu intencionalmente encontro a estranheza das outras, e assim fa&#231;o meus la&#231;os.</span></p><p><span>Na faculdade, aos 18 anos, conheci pela primeira vez uma grota negra alternativa, que usava cabelo crespo, pintado e natural. As roupas que ela usava tamb&#233;m eram alternativas, ela se destacava no espa&#231;o pelas suas caracter&#237;sticas &#250;nicas, e aquilo chamava a minha aten&#231;&#227;o. Ela me mostrou que isso era poss&#237;vel e havia uma admira&#231;&#227;o m&#250;tua entre a gente. N&#227;o nos fal&#225;vamos muito, tivemos algumas intera&#231;&#245;es e elas foram muito boas. Nas discuss&#245;es raciais que tive com professores durante as aulas, ela sempre estava ali acenando a cabe&#231;a e trocando olhares comigo. Silenciosamente concordando.</span></p><p><span>Nos meus primeiros espa&#231;os l&#233;sbicos, aos 19 anos, foi quando a timidez come&#231;ou a se tornar introspec&#231;&#227;o. Pra mim, urge a necessidade de falar sobre esses aspectos, e a diferen&#231;a entre eles. Ao ser t&#237;mida na adolesc&#234;ncia, eu n&#227;o escolhia onde e como falar, era uma rea&#231;&#227;o pelos espa&#231;os em que eu estava, al&#233;m da pr&#243;pria adolesc&#234;ncia me tornando mais emocional e pouco racional, sempre acabamos nos importando mais com os grupos e a aceita&#231;&#227;o, e eu j&#225; entendia que a timidez &#233; uma caracter&#237;stica n&#227;o-quista e odiada As adolescentes lutam com todas as for&#231;as para vencer a timidez, e n&#227;o entend&#234;-la.</span></p><blockquote><p><code>A extrovers&#227;o &#233; o que esperam nos espa&#231;os, e a introvers&#227;o &#233; o que estranham.</code></p></blockquote><p><span>As pessoas que falam mais se tornam mais queridas, mais ouvidas e admiradas. A extrovers&#227;o &#233; o que esperam nos espa&#231;os, e a introvers&#227;o &#233; o que </span><em><span>estranham</span></em><span>. Sim, as humanas s&#227;o sociais, mas a sociabilidade n&#227;o &#233; sobre a fala, a intera&#231;&#227;o &#233; tamb&#233;m o olhar, o corpo, toque, os cheiros. Dificilmente uma pessoa que fala tudo que pensa no momento em que pensa, se questiona sobre suas pr&#243;prias falas, ou, de fato, sabe lidar com o sil&#234;ncio. Eu observo que as rela&#231;&#245;es necessitam de acordos e compreens&#227;o b&#225;sica, o que eu </span><em><span>digo</span></em><span> e o que eu </span><em><span>escuto</span></em><span>, </span><em><span>quando</span></em><span> eu digo e </span><em><span>quando</span></em><span> eu escuto. Lidar com o sil&#234;ncio &#233; sempre um problema para aquelas que falam demais, na hora das intera&#231;&#245;es verbais, os detalhes passam despercebidos, porque a pessoa est&#225; ocupada demais falando o que pensa. Comparando diretamente a quem n&#227;o verbaliza tudo, o que interessa nas rela&#231;&#245;es &#233; a observa&#231;&#227;o, e observando se aprende muito. Inclusive, se aprende sobre os outros. N&#227;o &#233; sobre aceita&#231;&#227;o, a observa&#231;&#227;o &#233; interessante por si s&#243; e isso basta. Esse &#233; o poder de observar as engrenagens funcionando de fora.</span></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!b48j!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F74a53fc5-360b-4533-b959-56aa665bec92_900x1600.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!b48j!, /__u/comunicasapatao.substack.com/w_424, /__u/comunicasapatao.substack.com/c_limit, /__u/comunicasapatao.substack.com/f_webp, /__u/comunicasapatao.substack.com/q_auto:good, /__u/comunicasapatao.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F74a53fc5-360b-4533-b959-56aa665bec92_900x1600.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!b48j!, /__u/comunicasapatao.substack.com/w_848, 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class="image-caption"><em>Na pracinha<span> (outubro de 2024) &#8211; </span>mustella.</em></figcaption></figure></div><p><span>Demora bastante para n&#243;s que somos meninas negras entendermos como os espa&#231;os em que socializamos afetam a gente. Principalmente quando somos jovens. Por isso, precisei passar os 20 anos aprendendo a entender o que &#233; ser estranha, mesmo que eu j&#225; fosse e nada mudaria isso, aprendi, ent&#227;o, a parar de lutar com a minha diferen&#231;a e integrei ela a tudo que eu iria fazer a partir de ent&#227;o. Quando entendi que ser l&#233;sbica e trazer tudo que eu fazia a minha lesbianidade, a estranheza se tornou uma parte crucial das minhas reflex&#245;es politicas. Como quando em qualquer discuss&#227;o acad&#234;mica, eu falava sobre l&#233;sbicas, e recebia olhares atravessados. O mesmo que sentia quando na escola e na rua, as pessoas me viam como uma l&#233;sbica visivel, essa estranheza parte do mesmo lugar.</span></p><p><span>Quando completei 22 anos, a escrita de fato chegou at&#233; mim, como uma necessidade de registrar tudo que eu via. N&#227;o era como falar sobre mim mas eternizar tudo aquilo que eu n&#227;o falava, esse aprofundamento de fora pra dentro e dentro pra fora. Percebendo que a sensibilidade dentro de mim s&#243; crescia conforme eu prestava aten&#231;&#227;o aos detalhes que a maioria das pessoas entende como triviais, os &#8220;comuns&#8221;.</span></p><p><span>O Manifesto da Estranheza &#233; o registro da minha tomada de consci&#234;ncia. A lesbianidade n&#227;o &#233; apenas sobre sexualidade, mas a autonomia necess&#225;ria para pensar o mundo fora das molduras que n&#227;o me cabem.</span></p><blockquote><p><code>Onde a norma v&#234; &#8216;estranheza&#8217; ou &#8216;dissid&#234;ncia&#8217; em meninas negras, eu vejo a preserva&#231;&#227;o da nossa integridade.</code></p></blockquote><p><span>Onde a norma v&#234; &#8216;estranheza&#8217; ou &#8216;dissid&#234;ncia&#8217; em meninas negras, eu vejo a preserva&#231;&#227;o da nossa integridade. Se a estrutura imp&#245;e a heteronormatividade e o embranquecimento como caminhos &#250;nicos, nossa exist&#234;ncia introspectiva &#233; a for&#231;a que escancara a fragilidade desses mitos patriarcais brancos e inaugura novas possibilidades de ser.</span></p><blockquote><p><code>E as que n&#227;o falam quase nunca, tamb&#233;m tem uma opini&#227;o e talvez n&#227;o seja a mesma que a das outras, o fato de n&#227;o ser dito faz o grupo todo perder a oportunidade do crescimento que esse pensamento n&#227;o dito teria.</code></p></blockquote><p><span>Al&#233;m de falar sobre todas as estruturas por tr&#225;s do meu pensamento e explic&#225;-las. A necessidade que eu sinto com o manifesto da estranheza &#233; falar sobre como a introspec&#231;&#227;o &#233; vista como algo ruim e n&#227;o uma ferramenta que pode nos ensinar. Em grupos, as opini&#245;es de quem fala aparentam ser as opini&#245;es da maior parte do grupo. As que falam concordam ou discordam entre si, mas se s&#227;o as que est&#227;o verbalizando os pensamentos, e o grupo n&#227;o interv&#233;m, s&#227;o as opini&#245;es, em tese, mais aceitas pelo grupo. E as que n&#227;o falam quase nunca, tamb&#233;m tem uma opini&#227;o e talvez n&#227;o seja a mesma que a das outras, o fato de n&#227;o ser dito faz o grupo todo perder a oportunidade do crescimento que esse pensamento n&#227;o dito teria. E para manter a estrutura como est&#225;, essa din&#226;mica de silenciar a dissid&#234;ncia &#233; necess&#225;ria. A mesma coisa com os preconceitos, a lesbofobia do dia-a-dia em que ouvimos por a&#237;. A opini&#227;o do grupo &#233; essa, quem consegue falar sobre o diferente? Quem fala tem volume e alcance vocal mas n&#227;o significa que tem a melhor an&#225;lise.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[De sapa pra sapa: Luana Barbosa por Fernanda Gomes]]></title><description><![CDATA[Entrevista por Mar&#234; Guedes {edi&#231;&#227;o Natalia Kleinsorgen} -- Quem era Luana Barbosa? A Luana, menina, ela era uma artista pl&#225;stica. Ela &#233; pl&#225;stica e visual...]]></description><link>https://comunicasapatao.substack.com/p/luana-barbosa-por-fernanda-gomes</link><guid isPermaLink="false">https://comunicasapatao.substack.com/p/luana-barbosa-por-fernanda-gomes</guid><dc:creator><![CDATA[Comunica, Sapatão]]></dc:creator><pubDate>Fri, 05 Jun 2026 17:20:14 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/a3cbf483-2a8f-4e7d-bd0f-f5082e926b7f_3375x2250.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!dDjC!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4a0a5d70-2307-4f6f-84bc-cd76c0d97db1_1254x1254.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!dDjC!, 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class="image-caption">Luana Barbosa e Fernanda Gomes. Fotos acervo pessoal. Tratamento gr&#225;fico e IA: Mar&#234; Guedes</figcaption></figure></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">A entrevista foi conduzida por mim, Mar&#234;, comunicadora e produtora de audiovisual, sapat&#227;o, bofinha, cria do Iraj&#225;, Zona Norte do Rio de Janeiro, em uma conversa com muita escuta e sensibilidade.</pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">Nossa entrevistada, Fernanda Gomes fala a partir da Zona Sul de S&#227;o Paulo, territ&#243;rio que n&#227;o &#233; apenas uma localiza&#231;&#227;o, &#233; parte fundamental de quem ela &#233;. Mulher preta, de quebrada, artista e pesquisadora, sua trajet&#243;ria se cruza com a de Luana Barbosa.</pre></div><div><hr></div><h4><strong>Essa &#233; uma entrevista sobre vida, mem&#243;ria e o que permanece.</strong></h4><p>Durante os &#250;ltimos 10 anos, a imprensa falou sobre a morte de Luana Barbosa, mulher l&#233;sbica, negra e perif&#233;rica morta ap&#243;s ser espancada por policiais militares em Ribeir&#227;o Preto, interior de S&#227;o Paulo. <strong>Pouco se falou sobre sua vida.</strong></p><p><strong>Fernanda Gomes: </strong>Quando a gente vai procurar a hist&#243;ria de Luana Barbosa nas redes, as redes falam que a Luana j&#225; foi presa, que Luana foi presa mais de uma vez. E eu acho que os rep&#243;rteres geralmente fazem isso para poder deslegitimar a viol&#234;ncia que ela sofreu, o lesboc&#237;dio, o racismo, sobretudo.</p><h2><strong>Quem era Luana Barbosa?</strong></h2><div class="pullquote"><p style="text-align: center;">Luana era artista visual.</p></div><p><strong>Fernanda Gomes: </strong>A Luana, menina, ela era uma<strong> <a href="https://drive.google.com/drive/u/1/folders/1yCDFyNjqGtC-NctB_c5pFzTEJoz2_VJP">artista pl&#225;stica</a></strong>. Ela &#233; pl&#225;stica e visual. Ela, inclusive, ganhou alguns concursos de desenho, e ela fazia desenhos incr&#237;veis. Ent&#227;o acho que eu queria come&#231;ar a falar da Luana dizendo que ela era uma artista visual e artista pl&#225;stica.</p><div class="pullquote"><p style="text-align: center;">Luana era m&#227;e.</p></div><p><strong>Fernanda Gomes: </strong>Semana retrasada a gente teve uma conversa com o filho dela. E a&#237; o Luan falou assim pra gente:<strong> </strong><em><strong>&#8220;Assim, meu, voc&#234;s conhecem a Luana a partir do que voc&#234;s ouviram falar da gente, n&#233;? A gente fala pra voc&#234;s. Quem &#233; Luana? Mas eu conheci minha m&#227;e, eu convivi com ela durante 14 anos, e a minha m&#227;e era o tipo de m&#227;e que fazia eu ficar parado durante tr&#234;s horas num lugar para ela ficar fazendo meu retrato</strong></em><strong>.&#8221;</strong> E a&#237; a Luana era essa pessoa que fazia altos retratos, que fazia retratos da fam&#237;lia, que pintava, que desenhava.</p><div class="pullquote"><p>Luana era trabalhadora.</p></div><p><strong>Fernanda Gomes: </strong>E a Luana era essa pessoa muito trabalhadora, trabalhava de gar&#231;onete, fazia faxina. O que tivesse de trabalho ela fazia.</p><div class="pullquote"><p>Luana era militante.</p></div><p><strong>Fernanda Gomes: </strong>A Luana era uma ativista contra o encarceramento. Ent&#227;o, ela era tamb&#233;m uma ativista de direitos humanos, n&#233;?! Pautava o c&#225;rcere, pautava o movimento negro<em>.</em></p><div class="pullquote"><p>Luana era como n&#243;s.</p></div><p><strong>Fernanda Gomes: </strong>A Luana era f&#227; da Luana Hansen, que &#233; uma rapper aqui de S&#227;o Paulo. Ela adorava rap, ouvia muitos Racionais, mas tem um detalhe no meio disso que &#233; que a fam&#237;lia fala: &#8220;A Luana gostava tanto de Racionais quanto de Celine Dion, assim, na mesma propor&#231;&#227;o&#8221;. Sim. Ent&#227;o ela era essa pessoa, assim, muito atarefada, muito artista, muito fam&#237;lia, n&#233;?! A fam&#237;lia sempre falava que ela era a irm&#227; que unia os irm&#227;os. <strong>Ela era a irm&#227; que unia os irm&#227;os</strong>.</p><div class="pullquote"><h4 style="text-align: center;"><strong>&#8220;Parece muito comigo, n&#233;? Sapat&#227;o, preta, de quebrada.&#8217;&#8217;</strong></h4></div><p><strong>Fernanda Gomes:</strong> E tem uma coisa, eu n&#227;o conhecia a Luana pessoalmente. Eu lembro que quando a gente ficou sabendo da morte da Luana, a gente estava numa reuni&#227;o. E essa &#233; a minha mem&#243;ria, porque se voc&#234; ler minha <strong><a href="https://teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8161/tde-08102025-104054/pt-br.html">disserta&#231;&#227;o de mestrado</a></strong>, cada pessoa da Coletiva Luana Barbosa tem uma lembran&#231;a sobre este dia. Mas eu lembro que no dia 13, a gente estava numa reuni&#227;o da caminhada de l&#233;sbicas l&#225; no MASP, no v&#227;o do MASP. E a&#237; eu acho que foi a Jennifer, uma amiga que estava mexendo no celular e tal, ela ouviu a not&#237;cia pelo Alma Preta. &#8220;Ap&#243;s o espancamento, mulher l&#233;sbica negra morre, devido &#224; agress&#227;o de policiais.&#8221; Eu lembro que aquele dia, assim, a gente foi ler as not&#237;cias e a&#237; foi observando as caracter&#237;sticas da Luana, vendo foto e tal. E a&#237; eu falei, &#8220;p&#244;, mano, essa menina parece muito comigo. Parece muito comigo, n&#233;? Sapat&#227;o, preta, de quebrada.&#8221;</p><div class="pullquote"><h4><strong>&#8220;Eu senti dentro de mim que eu sou a pr&#243;xima&#8221;</strong></h4></div><p><strong>Fernanda Gomes:</strong> Os assassinatos de l&#233;sbicas s&#227;o subnotificados. Quando a gente faz o recorte racial, mais ainda. Muitas vezes a imprensa n&#227;o quer divulgar, e as pr&#243;prias fam&#237;lias, atravessadas por medo e conservadorismo, tamb&#233;m n&#227;o falam sobre a lesbianidade dessas mulheres.</p><p>Mas eu fui me aproximando muito da hist&#243;ria da Luana. E tem uma coisa que me marcou quando comecei a conhecer a trajet&#243;ria dela: a Luana nasceu no mesmo dia em que a m&#227;e dela recebeu a not&#237;cia de que o pai tinha sido assassinado. O pai da Luana veio trabalhar em S&#227;o Paulo (SP) e foi morto aqui. Ficou desaparecido durante meses. Quando a m&#227;e dela recebeu a not&#237;cia da morte dele, entrou em trabalho de parto.</p><p>Ent&#227;o a Luana tamb&#233;m nasce atravessada por uma viol&#234;ncia transgeracional. Ela cresceu em um territ&#243;rio muito precarizado, marcado pela viol&#234;ncia, pela aus&#234;ncia de saneamento, pelas escolas destru&#237;das, pela presen&#231;a constante da pol&#237;cia e do tr&#225;fico. E, ainda assim, virou uma grande artista. Acho que essa &#233; a parte mais bonita da hist&#243;ria dela.</p><h2><strong>Dez anos depois: o caso Luana Barbosa e a demora da justi&#231;a</strong></h2><p><strong>Mar&#234; Guedes: </strong>Eu queria saber como anda atualmente o caso dela. Como est&#227;o as coisas, como est&#225; a fam&#237;lia dela?</p><p><strong>Fernanda Gomes:</strong> O assassinato da Luana mexeu muito com a vida e com as emo&#231;&#245;es da fam&#237;lia inteira. Mexe at&#233; hoje. As pessoas sempre perguntam sobre o processo, mas tem uma dimens&#227;o que vai muito al&#233;m da Justi&#231;a.</p><p>A fam&#237;lia ainda mora no mesmo bairro, na mesma casa. O espancamento aconteceu praticamente na esquina de casa, quando a Luana estava levando o filho para o curso. Ent&#227;o as mem&#243;rias continuam ali o tempo inteiro. Ainda assim, a fam&#237;lia nunca arregou. Eles denunciaram publicamente, chamaram movimentos sociais, foram at&#233; o fim.</p><p>Mas tamb&#233;m nunca tiveram suporte do Estado. Nem financeiro, nem psicol&#243;gico, nem estrutural. A indeniza&#231;&#227;o que o Estado foi condenado a pagar ainda n&#227;o foi recebida, e o Luan j&#225; est&#225; com 24 anos.</p><p>O processo tem sido extremamente lento. Primeiro teve toda a discuss&#227;o para tirar o caso da Justi&#231;a Militar e levar para a Justi&#231;a comum. Em 2019, aconteceram as audi&#234;ncias de instru&#231;&#227;o. Nesse per&#237;odo, os policiais nunca foram presos e tamb&#233;m n&#227;o perderam seus cargos. Eles s&#243; sa&#237;ram do policiamento de rua e passaram para fun&#231;&#245;es administrativas.</p><p>Eu acompanhei todas as audi&#234;ncias. Entrei como pesquisadora por conta do document&#225;rio &#8220;Eu Sou a Pr&#243;xima&#8221; (Coletiva Luana Barbosa, 2017), que a gente produziu sobre o caso, e lembro de situa&#231;&#245;es muito absurdas.</p><p>Teve um momento em que a ju&#237;za perguntou para um dos policiais por que n&#227;o chamaram uma policial mulher para revistar a Luana, j&#225; que esse &#233; o procedimento padr&#227;o, e ele respondeu: &#8220;Porque as femininas n&#227;o trabalham &#224; noite aqui em Ribeir&#227;o&#8221;. A&#237; a ju&#237;za olhou para ele e disse: &#8220;Mas a ocorr&#234;ncia aconteceu &#224;s quatro da tarde&#8221;. Ficou um sil&#234;ncio enorme no tribunal.</p><div class="pullquote"><p>Tamb&#233;m teve uma testemunha relatando que a Luana ficou o tempo inteiro tentando<strong> provar que era mulher.</strong> <strong>Ela levantava a blusa, mostrava os seios, </strong>porque<strong> insistiam em trat&#225;-la no masculino</strong>. <br>Isso &#233; importante de se dizer porque <strong>muita gente tenta apagar a lesbianidade da Luana depois da morte dela</strong>, dizendo que ela era um homem trans. E a gente sabe como funciona o sistema prisional com sapat&#245;es &#8220;masculinizadas&#8221;.</p></div><p>Em 2021 aconteceram as audi&#234;ncias do caso c&#237;vel, quando o Estado foi condenado a pagar indeniza&#231;&#227;o para a fam&#237;lia. J&#225; em 2025, o STF decidiu que o caso iria para j&#250;ri popular. Olha o tempo que levou. 10 anos depois do assassinato, o julgamento ainda n&#227;o aconteceu. Existe uma demora muito grande da Justi&#231;a, e eu acho que isso tamb&#233;m &#233; uma estrat&#233;gia de desgaste. &#201; uma forma de tentar cansar a fam&#237;lia, desmobilizar movimentos sociais e fazer o caso cair no esquecimento. Mas a gente n&#227;o vai deixar isso acontecer.</p><div class="pullquote"><h4 style="text-align: center;">&#8220;Pensar em trazer visibilidade para o caso da Luana &#233; pensar em todas as l&#233;sbicas que est&#227;o no dossi&#234; do lesboc&#237;dio no Brasil.&#8221;</h4></div><p><strong>Mar&#234; Guedes:</strong> Existe uma import&#226;ncia muito grande em n&#227;o deixar o caso da Luana cair no esquecimento, e eu acho que essa demora toda tamb&#233;m faz parte de uma l&#243;gica de desmobiliza&#231;&#227;o, de tentar esfriar o caso. O que voc&#234; acredita que a gente pode fazer, enquanto sociedade civil, enquanto l&#233;sbicas, enquanto movimento social, para n&#227;o deixar isso passar em branco? Porque n&#227;o &#233; s&#243; sobre a Luana, n&#233;?</p><p><strong>Fernanda Gomes:</strong> N&#227;o &#233; s&#243; sobre a Luana. &#201; sobre toda uma comunidade. Hoje mesmo uma amiga minha, Suane, que constr&#243;i o <strong><a href="https://drive.google.com/file/d/1-ld2i-_nkWLkIea7Nr5incw-dWH8DMut/view">Dossi&#234; do Lesboc&#237;dio</a></strong>, me mandou um v&#237;deo de duas sapatonas assassinadas pela pol&#237;cia. Pensar em trazer visibilidade para o caso da Luana &#233; pensar em todas as l&#233;sbicas que est&#227;o no dossi&#234; do lesboc&#237;dio no Brasil.</p><p>Assim como o feminic&#237;dio foi reconhecido como crime de &#243;dio, assim como o transfeminic&#237;dio vem sendo debatido, o lesboc&#237;dio tamb&#233;m precisa ser reconhecido como uma viol&#234;ncia espec&#237;fica. N&#227;o d&#225; para colocar tudo na mesma caixinha. <strong>As pautas das mulheres l&#233;sbicas s&#227;o espec&#237;ficas.</strong> Ent&#227;o, quando eu falo da Luana, quando a gente insiste em dar visibilidade ao caso dela, &#233; para tentar impedir que outras l&#233;sbicas tamb&#233;m sejam mortas. E geralmente s&#227;o meninas jovens, perif&#233;ricas, pretas, &#8220;masculinizadas&#8221;. Ningu&#233;m paga essa conta. A fam&#237;lia fica convivendo com a aus&#234;ncia para sempre.</p><p>No caso da Luana, ainda existe uma gravidade enorme: ela foi assassinada pelo pr&#243;prio Estado. Por policiais que estavam trabalhando. A fun&#231;&#227;o deles era proteger a popula&#231;&#227;o. &#8220;Ah, mas ela reagiu &#224; abordagem&#8221;. Ent&#227;o algema. Leva para a delegacia. O procedimento nunca deveria ser o espancamento. Nunca deveria ser a morte. A gente tamb&#233;m n&#227;o pode esquecer que a pol&#237;cia que matou a Luana era a pol&#237;cia do Geraldo Alckmin, que hoje &#233; vice-presidente. A gente precisa falar sobre responsabilidade pol&#237;tica tamb&#233;m.</p><p><strong>Mar&#234; Guedes:</strong> Apesar das diferen&#231;as entre as nossas trajet&#243;rias, eu me identifico muito com v&#225;rias coisas que voc&#234; traz. Eu tamb&#233;m fui atravessada pela heterossexualidade compuls&#243;ria. Minha m&#227;e me proibia de sair de casa com certas roupas porque dizia: &#8220;Voc&#234; pode at&#233; gostar de mulher, mas se vestir igual homem voc&#234; n&#227;o vai&#8221;. J&#225; precisei fugir de homem na rua tamb&#233;m. Um cara ficou com raiva porque eu disse que era l&#233;sbica e come&#231;ou a correr atr&#225;s de mim dizendo que ia &#8220;me bater igual homem&#8221;. Anos depois, ele apareceu dentro da minha casa, porque era amigo da mulher do meu irm&#227;o. Eu tive uma crise de p&#226;nico. Ent&#227;o, mesmo com diferen&#231;as de ra&#231;a, de territ&#243;rio, de viv&#234;ncia, existe uma coisa que atravessa a gente por sermos l&#233;sbicas. Tamb&#233;m ouvi de amiga: &#8220;Melhor voc&#234; n&#227;o andar comigo porque v&#227;o achar que eu tamb&#233;m sou&#8221;. E isso produz muita solid&#227;o.</p><p><strong>Fernanda Gomes:</strong> Muita. Quando eu sa&#237; do arm&#225;rio, minhas amigas de inf&#226;ncia se afastaram de mim tamb&#233;m. Minha melhor amiga, que era sapat&#227;o, come&#231;ou a gritar dizendo que eu n&#227;o podia ser l&#233;sbica. <strong>Eu precisei sair do meu territ&#243;rio para viver minha lesbianidade.</strong> Conhecer mulheres fora da quebrada, no centro da cidade. At&#233; hoje eu n&#227;o ando de m&#227;os dadas com uma mulher no bairro onde cresci.</p><div class="pullquote"><h4>&#8220;Parece que as nossas demandas n&#227;o importam.&#8221;</h4></div><p><strong>Mar&#234; Guedes:</strong> Recentemente voc&#234; esteve na Comiss&#227;o Anual sobre a Situa&#231;&#227;o das Mulheres (CSW70), da ONU, em Nova York, representando a Articula&#231;&#227;o Brasileira de L&#233;sbicas. Como foi levar o debate sobre lesboc&#237;dio e viol&#234;ncia contra l&#233;sbicas para esse espa&#231;o?</p><p><strong>Fernanda Gomes:</strong> Foi muito duro perceber o quanto as l&#233;sbicas seguem invisibilizadas, inclusive dentro de espa&#231;os progressistas. A delega&#231;&#227;o brasileira era enorme, tinha mais de 300 mulheres. E eu fiquei pensando: n&#227;o &#233; poss&#237;vel que s&#243; eu esteja falando sobre lesbianidade aqui.</p><p>A pauta principal da comiss&#227;o era a quest&#227;o de g&#234;nero, especialmente a inclus&#227;o da pauta trans no documento final. E eu acho importante que existam pol&#237;ticas de prote&#231;&#227;o para pessoas trans, importante mesmo. <strong>Mas o que me atravessava ali era perceber que parecia n&#227;o existir espa&#231;o para discutir lesbianidade ao mesmo tempo. </strong>No documento final da comiss&#227;o, por exemplo, a palavra &#8220;l&#233;sbica&#8221; sequer apareceu; e isso diz muito. Porque n&#243;s somos mulheres tamb&#233;m, mas parece que as nossas demandas nunca chegam ao centro. Quando eu conseguia algum espa&#231;o de fala, insistia na necessidade de reconhecer o lesboc&#237;dio como crime de &#243;dio contra l&#233;sbicas. Mas uma voz sozinha n&#227;o faz coro.</p><p>Tamb&#233;m me chamou aten&#231;&#227;o perceber como outros movimentos conseguem construir incid&#234;ncia pol&#237;tica de forma muito organizada. As mulheres trans brasileiras, por exemplo, estavam muito articuladas. Conseguiram pautar debates importantes, construir mobiliza&#231;&#227;o internacional, pressionar o documento.</p><div class="pullquote"><p style="text-align: center;">E eu ficava pensando: <strong>onde est&#225; o movimento l&#233;sbico institucional nesses espa&#231;os?</strong> Porque a sensa&#231;&#227;o que eu tive foi a de que a lesbianidade entra sempre dissolvida em outras siglas, em outros debates, como se a gente nunca pudesse aparecer de forma espec&#237;fica. Isso acontece tamb&#233;m no Brasil.</p></div><p>Quando se fala em pol&#237;ticas p&#250;blicas para l&#233;sbicas, quase nunca existe or&#231;amento, prioridade ou continuidade. O pr&#243;prio edital que recebeu o nome de Luana Barbosa virou motivo de indigna&#231;&#227;o para muita gente do movimento, porque n&#227;o dialogava diretamente com as demandas materiais das l&#233;sbicas perif&#233;ricas. </p><p>A gente continua sem pol&#237;tica de moradia, sem pol&#237;tica de trabalho, sem acesso digno &#224; sa&#250;de mental, sem programas espec&#237;ficos de prote&#231;&#227;o. </p><div class="pullquote"><p style="text-align: center;">Existe uma sensa&#231;&#227;o constante de abandono institucional, e isso vai produzindo cansa&#231;o. Solid&#227;o tamb&#233;m. <strong>Porque parece que a nossa pauta s&#243; ganha aten&#231;&#227;o quando alguma sapat&#227;o morre.</strong></p></div><h2>&#8220;Ningu&#233;m vai correr pela gente como n&#243;s mesmas corremos&#8221;</h2><p><strong>Mar&#234; Guedes:</strong> Para finalizar, queria te perguntar uma coisa que tenho pensado muito. O que voc&#234; gostaria de <strong>comunicar </strong>para as l&#233;sbicas do futuro?</p><p><strong>Fernanda Gomes:</strong> Que elas precisam se organizar entre elas. A gente &#233; um grupo muito diverso, com diferen&#231;as de ra&#231;a, territ&#243;rio, classe, gera&#231;&#227;o. Mas ningu&#233;m vai correr pela gente como n&#243;s mesmas corremos. Eu tenho certeza de que, se alguma coisa acontecer comigo, v&#227;o ser outras l&#233;sbicas que v&#227;o atr&#225;s de justi&#231;a por mim. Assim como foram outras l&#233;sbicas que correram pela mem&#243;ria da Luana.</p><p>O movimento de l&#233;sbicas me salvou, e n&#227;o estou falando de hero&#237;smo. Estou falando de acolhimento, de sobreviv&#234;ncia, de educa&#231;&#227;o pol&#237;tica, de afeto. Minha trajet&#243;ria era improv&#225;vel. Era para eu estar morta, presa ou completamente apagada. O que desviou meu caminho foi encontrar outras sapatonas.</p><p>Ent&#227;o eu diria para as l&#233;sbicas do futuro: se amem entre voc&#234;s. Construam redes entre voc&#234;s. Fa&#231;am vila, fa&#231;am comunidade, cuidem das mais velhas, cuidem das mais novas. Porque a gente &#233; muito ensinada &#224; solid&#227;o. Quando conheci l&#233;sbicas mais velhas no movimento, tive uma sensa&#231;&#227;o muito forte de futuro. Pensei: &#8220;Ent&#227;o eu posso envelhecer tamb&#233;m&#8221;. Isso parece pequeno, mas n&#227;o &#233;.</p><p>A gente cresce sem imaginar a possibilidade de envelhecer sendo l&#233;sbica. E, apesar de toda viol&#234;ncia, de todo medo e de toda invisibiliza&#231;&#227;o, eu ainda acredito que as l&#233;sbicas v&#227;o salvar umas &#224;s outras.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!_5zV!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F00da4098-7475-40d4-81b2-1531ce718b92_1085x1149.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!_5zV!, /__u/comunicasapatao.substack.com/w_424, /__u/comunicasapatao.substack.com/c_limit, /__u/comunicasapatao.substack.com/f_webp, /__u/comunicasapatao.substack.com/q_auto:good, /__u/comunicasapatao.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F00da4098-7475-40d4-81b2-1531ce718b92_1085x1149.png 424w, 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class="image-caption">Foto: Arquivo pessoal | Restaura&#231;&#227;o assistida por IA</figcaption></figure></div><h1><strong>Luana Barbosa, voc&#234; nunca ser&#225; esquecida.</strong></h1>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Lesbocriar: como mulheres lésbicas estão redesenhando o mundo]]></title><description><![CDATA[por Patr&#237;cia Batista -- Existem diversas mulheres l&#233;sbicas que, por meio da arte, reescrevem o futuro e o presente da nossa hist&#243;ria. O termo lesbocriar surge como...]]></description><link>https://comunicasapatao.substack.com/p/lesbocriar-como-mulheres-lesbicas</link><guid isPermaLink="false">https://comunicasapatao.substack.com/p/lesbocriar-como-mulheres-lesbicas</guid><dc:creator><![CDATA[Comunica, Sapatão]]></dc:creator><pubDate>Fri, 29 May 2026 23:26:55 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/6edec735-da4f-4a6c-a7e3-561800adc59d_5861x3498.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong>T&#237;tulo: Lesbocriar: como mulheres l&#233;sbicas est&#227;o redesenhando o mundo</strong></p><p style="text-align: justify;">Existem diversas mulheres l&#233;sbicas que, por meio da arte, reescrevem o futuro e o presente da nossa hist&#243;ria. O termo lesbocriar surge como uma resposta &#224;s suas inven&#231;&#245;es. O resgate do termo se deu em 2025 pela coletiva de arte urbana SafoSapa e ganhou amplitude em outros espa&#231;os, como no III Sapi&#234;ncia - Festival de Cultura L&#233;sbica, realizado pela Oitava Feminista.</p><p style="text-align: justify;">Lesbocriar &#233; um termo vivo, que ganha um novo significado toda vez que uma mulher transborda seu amor por si mesma e pela outra para o mundo.</p><p style="text-align: justify;">Por tr&#225;s dele, h&#225;  cultura, saberes compartilhados por d&#233;cadas de hist&#243;ria e cria&#231;&#245;es art&#237;sticas feitas pelas m&#227;os e pelas vozes de mulheres bravas e corajosas.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ycTG!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe8023d19-3b0f-40f6-aa8d-32c0714a4f23_3207x3200.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ycTG!, /__u/comunicasapatao.substack.com/w_424, /__u/comunicasapatao.substack.com/c_limit, /__u/comunicasapatao.substack.com/f_webp, /__u/comunicasapatao.substack.com/q_auto:good, /__u/comunicasapatao.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe8023d19-3b0f-40f6-aa8d-32c0714a4f23_3207x3200.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ycTG!, /__u/comunicasapatao.substack.com/w_848, /__u/comunicasapatao.substack.com/c_limit, /__u/comunicasapatao.substack.com/f_webp, /__u/comunicasapatao.substack.com/q_auto:good, /__u/comunicasapatao.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe8023d19-3b0f-40f6-aa8d-32c0714a4f23_3207x3200.png 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ycTG!, /__u/comunicasapatao.substack.com/w_1272, /__u/comunicasapatao.substack.com/c_limit, 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class="image-caption">SAFOSAPA, Lesbocriar, 2024, acr&#237;lica sobre tela, 35x35 cm. Registro fotogr&#225;fico: Juraraca - extra&#237;do do instagram.</figcaption></figure></div><p><strong>Reescrevendo a cultura</strong></p><p style="text-align: justify;">Nem todos sabem, mas n&#243;s, mulheres l&#233;sbicas, temos uma cultura pr&#243;pria. Nela, criamos nossa linguagem: sapa, l&#233;sbica, sapatona. C&#243;digos pr&#243;prios, como nossas bandeiras e contornos.</p><p style="text-align: justify;">Subvertemos nossa forma de relacionar, escolhendo o afeto em vez da rivalidade e da disputa, apostando e investindo nosso amor por outras mulheres, com rela&#231;&#245;es que valorizam a centralidade entre mulheres.</p><p style="text-align: justify;">Tamb&#233;m inventamos outra forma de ser, em que o n&#227;o e a ruptura com o homem se tornam poss&#237;veis. Tudo isso, de certa forma, &#233; uma cria&#231;&#227;o de algo novo e, por isso, &#233; lesbocriar.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Compartilhando saberes</strong></p><p style="text-align: justify;">Tamb&#233;m constru&#237;mos conhecimentos. Juntas, desenvolvemos novas ferramentas de cuidado, comunica&#231;&#227;o com outras mulheres e estrat&#233;gias de sobreviv&#234;ncia compartilhadas. Zelamos pela nossa dignidade e lutamos, juntas, pelo direito a uma exist&#234;ncia plena.</p><p style="text-align: justify;">Nos ancoramos nos saberes transmitidos pelas nossas ancestrais. Encontramos no apoio e nas viv&#234;ncias de outras mulheres formas de diminuir dores e nos fortalecer emocionalmente. Compartilhamos redes de apoio, conhecimentos e cria&#231;&#245;es coletivas.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Criamos para existir</strong></p><p style="text-align: justify;">Para n&#243;s, l&#233;sbicas, a arte tamb&#233;m &#233; uma forma de redesenhar o mundo.</p><p style="text-align: justify;">Fazemos de nossos quadros, m&#250;sicas, desenhos e poesias formas de expressar aquilo em que acreditamos, o que vivemos em nossa pele e aquilo que sonhamos. Novas possibilidades transbordam de nossas experi&#234;ncias individuais e alcan&#231;am muitas outras mulheres.</p><p style="text-align: justify;">Recitamos, cantamos, pintamos sobre nossos amores, sobre nossa vida e vis&#227;o de mundo. Algumas dessas cria&#231;&#245;es furam bolhas! Elas atravessam ruas, universidades e espa&#231;os p&#250;blicos, mostrando ao mundo, mas principalmente a n&#243;s mesmas, tudo aquilo que somos.<br><br></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[10/12/2023]]></title><description><![CDATA[por Didi Pagani -- Ana Caroline de Sousa*. A primeira vez que li esse nome foi pela not&#237;cia de sua morte. Estava viajando em Florian&#243;polis (SC) sozinha...]]></description><link>https://comunicasapatao.substack.com/p/10122023</link><guid isPermaLink="false">https://comunicasapatao.substack.com/p/10122023</guid><dc:creator><![CDATA[Comunica, Sapatão]]></dc:creator><pubDate>Tue, 19 May 2026 00:29:51 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/75b7b4e0-38c4-4495-af1c-34f774e74ea6_808x443.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong>Ana Caroline de Sousa*</strong>. A primeira vez que li esse nome foi pela not&#237;cia de sua morte. Estava viajando em Florian&#243;polis (SC) sozinha, pela primeira vez, e na hora fui falar com minha namorada na &#233;poca: &#8220;Voc&#234; viu a not&#237;cia?&#8221;. A resposta n&#227;o poderia ser outra e seria a mesma para qualquer l&#233;sbica a quem eu fizesse essa pergunta: &#8220;Eu vi...&#8221;. Essa resposta vinha carregada de tristeza, medo, ang&#250;stia, raiva e uma sensa&#231;&#227;o de injusti&#231;a. Todas n&#243;s que soubemos, sentimos.</p><blockquote><p><strong>Ana Caroline de Sousa</strong> me fez lembrar de todas as vezes que sa&#237; na rua e fui alvo de olhares de estranheza de pessoas desconhecidas, todas as vezes que entrei em banheiros femininos e vinham aqueles olhares de que eu n&#227;o deveria estar ali, todas as vezes que me chamaram no masculino como se minha exist&#234;ncia n&#227;o fosse poss&#237;vel. Poderia ter sido eu, poderia ter sido qualquer amiga minha, poderia ter sido qualquer uma de n&#243;s, l&#233;sbicas vis&#237;veis, que tivemos a ousadia de existir e ser quem n&#243;s somos, neste mundo onde s&#243; podemos ser o que os homens querem. Para mim isso se chama coragem.</p></blockquote><p style="text-align: justify;"><strong>Ana Caroline de Sousa</strong> tinha muita coragem. Com 21 anos e assumida desde os 18, Carol era l&#233;sbica vis&#237;vel, negra, sonhava em ser bombeira e estudava para realizar o sonho. Trabalhava em uma loja de conveni&#234;ncia, no turno da noite. Tinha acabado de se mudar para o munic&#237;pio de Maranh&#227;ozinho (MA), para morar com sua namorada. Tinha acabado de come&#231;ar sua caminhada pela vida adulta e tinha muita vontade de viver.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://comunicasapatao.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Inscreva-se para receber nosso conte&#250;do na sua caixa de entrada.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p><strong>Ana Caroline de Sousa</strong> era &#8220;alegre e sorridente&#8221;, palavras de sua m&#227;e, dona Carmem, que agora carrega em sua mem&#243;ria a lembran&#231;a da coragem da sua filha, a lembran&#231;a da ousadia que sua filha teve de enfrentar toda uma sociedade para viver da forma que ela queria, que ela achava certo. N&#243;s sabemos que para Carol n&#227;o existia outra forma de viver, porque para n&#243;s, a &#250;nica forma de viver &#233; essa, sendo assumida, sapat&#227;o, l&#233;sbica, vis&#237;vel e feliz.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!OGwa!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F02f3f849-8ba3-43fa-82a9-de1ea9a1f806_1200x1185.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!OGwa!, /__u/comunicasapatao.substack.com/w_424, /__u/comunicasapatao.substack.com/c_limit, /__u/comunicasapatao.substack.com/f_webp, /__u/comunicasapatao.substack.com/q_auto:good, 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xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">Fonte: Instagram</figcaption></figure></div><blockquote><p><strong>Ana Caroline de Sousa</strong>, por mais que eu ache que o mundo inteiro deveria saber o que fizeram com voc&#234;, que deveriam saber o que um homem &#233; capaz de fazer por causa de &#243;dio, esse texto n&#227;o &#233; sobre isso. <strong>Esse texto &#233; sobre como voc&#234; foi a fa&#237;sca de um inc&#234;ndio, a semente de uma primavera, o estopim de uma guerra, a &#250;ltima gota d&#8217;&#225;gua</strong>. Uma semana depois do seu assassinato, milhares de l&#233;sbicas foram &#224;s ruas para mostrar o quanto estamos cansadas, o quanto queremos justi&#231;a. As manifesta&#231;&#245;es ocorreram em S&#227;o Paulo, Rio de Janeiro, Florian&#243;polis e S&#227;o Lu&#237;s. N&#227;o s&#243; por voc&#234;, mas por todas que vieram antes e por todas que foram depois. Fomos &#224;s ruas para mostrar que queremos viver e continuaremos fazendo isso o quanto for necess&#225;rio.</p></blockquote><p><strong>Ana Caroline de Sousa</strong>, o seu nome n&#227;o saiu da m&#237;dia por um tempo. Pelas primeiras vezes ouvimos a palavra &#8220;lesboc&#237;dio&#8221; nos jornais e nas televis&#245;es, termo que temos lutado para que seja utilizado em casos de assassinatos motivados por &#243;dio contra mulheres l&#233;sbicas. A palavra &#8220;l&#233;sbica&#8221; apareceu escrita e marcada em v&#225;rias not&#237;cias, o que raramente acontece. Com certeza prefer&#237;amos que essa palavra estivesse sendo relacionada a acontecimentos felizes, como o lan&#231;amento de uma m&#250;sica, um casamento, um evento hist&#243;rico, cultural, qualquer coisa alegre, assim como n&#243;s somos, assim como voc&#234; era.</p><p><strong>Ana Caroline de Sousa</strong>, saiba que seu caso foi investigado, julgado e resultou na condena&#231;&#227;o do respons&#225;vel. Penso que a justi&#231;a foi feita, mas, ao mesmo tempo, me questiono sempre: existe justi&#231;a para o que fizeram com voc&#234;? Existe justi&#231;a para o que fazem com a gente todos os dias? At&#233; porque sabemos que n&#227;o devemos confiar na justi&#231;a dos homens, nesse pa&#237;s ou em qualquer outro. Depois de voc&#234; infelizmente tiveram outras l&#233;sbicas assassinadas no Brasil, sempre pelo mesmo motivo: &#243;dio. Como podem odiar tanto pessoas que s&#243; querem amar? Por que odeiam tanto mulheres que amam outras mulheres? N&#243;s sabemos as respostas para essas perguntas, mas continuamos nos perguntando por que muitas vezes essas respostas n&#227;o s&#227;o o suficiente, e vamos continuar questionando enquanto tudo isso continuar acontecendo.</p><blockquote><p><strong>Ana Caroline de Sousa</strong>, voc&#234; jamais ser&#225; esquecida! Assim como Luana Barbosa, seu nome marca a nossa hist&#243;ria, e vai continuar com a gente sempre. Vamos seguir contando quem era voc&#234;, uma mulher negra que era uma filha amada, uma namorada amorosa e companheira, uma trabalhadora que corria atr&#225;s dos seus sonhos sempre com muita alegria e um sorriso no rosto. Seguiremos contando sua hist&#243;ria, para que um pouco da sua vontade de viver continue sempre viva em cada uma de n&#243;s.</p></blockquote><p><strong>Ana Caroline de Sousa</strong>!<br>Presente, hoje e sempre!<br>Para que n&#227;o se esque&#231;a, para que nunca mais aconte&#231;a.</p><div class="callout-block" data-callout="true"><p>*<em>Mesmo que na m&#237;dia o nome divulgado tenha sido outro, a pedido de sua m&#227;e, dona Carmem, utilizamos o sobrenome por parte da fam&#237;lia materna ao inv&#233;s do sobrenome divulgado, que era da fam&#237;lia paterna.</em></p></div><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://comunicasapatao.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption"><strong>Obrigada por ler! 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a chuva muito forte abafou, desorganizou, separou as agrupadas. tentaram gritar, tentaram fazer soar os instrumentos, tentaram reivindicar nos carros de som. tentaram. analogia para a sensa&#231;&#227;o generalizada da realidade atual. as mulheres (n&#243;s) estamos tentando n&#227;o morrer, mas n&#227;o est&#225; realmente funcionando.]]></description><link>https://comunicasapatao.substack.com/p/como-e-existir-sem-medo</link><guid isPermaLink="false">https://comunicasapatao.substack.com/p/como-e-existir-sem-medo</guid><dc:creator><![CDATA[Comunica, Sapatão]]></dc:creator><pubDate>Mon, 04 May 2026 23:06:18 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!qPpM!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1015b717-bbbb-43ab-be56-4cf9e3eb6a0c_1200x630.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>do come&#231;o: a marcha de 8 de mar&#231;o em s&#227;o paulo foi molhada, ponto final.</p><p>a chuva muito forte abafou, desorganizou, separou as agrupadas. tentaram gritar, tentaram fazer soar os instrumentos, tentaram reivindicar nos carros de som. tentaram. analogia para a sensa&#231;&#227;o generalizada da realidade atual. as mulheres (n&#243;s) estamos tentando n&#227;o morrer, mas n&#227;o est&#225; realmente funcionando.</p><p>diante disso, busquei em mim: &#8220;como &#233; existir sem medo?&#8221; e n&#227;o veio nada. me senti vazia e sozinha. passo a passo, entrei de novo no escuro labirinto que existe em mim.</p><blockquote><p><em>&#8220;quais s&#227;o as palavras que voc&#234; ainda n&#227;o tem?</em><br><em>o que voc&#234; precisa dizer? quais s&#227;o as tiranias que </em><br><em>voc&#234; engole dia ap&#243;s dia e tenta tomar para si at&#233; </em><br><em>adoecer e morrer por causa delas ainda em sil&#234;ncio?<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a></em></p><p><em>Audre Lorde</em></p></blockquote><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!qPpM!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1015b717-bbbb-43ab-be56-4cf9e3eb6a0c_1200x630.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!qPpM!, /__u/comunicasapatao.substack.com/w_424, /__u/comunicasapatao.substack.com/c_limit, /__u/comunicasapatao.substack.com/f_webp, /__u/comunicasapatao.substack.com/q_auto:good, /__u/comunicasapatao.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1015b717-bbbb-43ab-be56-4cf9e3eb6a0c_1200x630.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!qPpM!, /__u/comunicasapatao.substack.com/w_848, 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class="image-caption">Cr&#233;ditos: oversnap / Getty Images</figcaption></figure></div><h3>apresentando: o labirinto</h3><p>o labirinto &#233; um arqu&#233;tipo da consci&#234;ncia que est&#225; conosco h&#225; mil&#234;nios. muito antes da hist&#243;ria grega do &#8216;Teseu e o Minotauro&#8217;, ele j&#225; era compreendido como uma constru&#231;&#227;o f&#237;sica que &#8220;guarda significados comunicativos, espirituais e art&#237;sticos&#8221;.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a></p><p>em momentos de profunda confus&#227;o, e percebendo a aus&#234;ncia de sentido do mundo, alcan&#231;o essa met&#225;fora como uma porta aberta para constru&#231;&#227;o de entendimento fora da norma, pois s&#243; assim finalmente me serve. o labirinto celebra o processo de estar nas sombras, me  d&#225; espa&#231;o e respeito para as d&#250;vidas e meu gestar, meu ir e voltar.</p><p>n&#227;o &#233; poss&#237;vel explic&#225;-lo apenas racionalmente. divido com voc&#234;s esse mist&#233;rio porque ele &#233; coletivo, ancestral e gratuito. e veja, uma verdade que n&#227;o &#233; confort&#225;vel: n&#227;o somos obrigadas a viver o tempo todo na racionalidade. estamos presas em modelos pol&#237;ticos, econ&#244;micos e sociais ultrapassados, mas seguimos com eles. existe o medo de que, se sairmos dessa coer&#234;ncia do senso comum, ficaremos ainda mais vulner&#225;veis, mas como divide Audre, &#8220;tivemos que aprender essa primeira li&#231;&#227;o, a mais vital: que nossa sobreviv&#234;ncia nunca fez parte dos planos, n&#227;o como seres humanos (...) negras ou n&#227;o&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a>.</p><p>o labirinto faz parte da nossa estrutura, que ainda &#233; capaz de atravessar nossas partes m&#225;gicas e m&#237;ticas. ele &#233; um personagem do nosso inconsciente e &#233; estruturado em um espa&#231;o onde o ego n&#227;o tem muita serventia.<br><br>&#233; uma fronteira para um tempo infinito, e por isso n&#227;o vem sem risco. nas nossas en(s)tranhas, muitas coisas se mexem e n&#227;o sabemos o que s&#227;o, nem de onde vieram ou para que servem. fazer amizade e nos conectar com essas partes de n&#243;s &#233; dif&#237;cil. mas, se nos querem mortas, parece que t&#234;m como certo que somos caladas. e eu sei que em algum momento vou morrer mesmo. por que n&#227;o tentar?</p><h3 style="text-align: justify;"><strong>quando escrever &#233; arriscar</strong></h3><p>o texto que voc&#234; est&#225; lendo hoje come&#231;ou dias atr&#225;s, e era completamente diferente. ao conseguir entender e escrever o labirinto como protagonista, eu celebro, materializo e integro uma certa coragem e um poder pessoal na minha consci&#234;ncia, e posso agora responder a pergunta que me deixou sentindo sozinha na marcha. existir sem medo &#233; escrever e arriscar ser essa eu mesma.</p><blockquote><p><em>&#8220;ao tomar uma obrigat&#243;ria e fundamental consci&#234;ncia da minha mortalidade e do que desejava e queria para a minha vida (...) o que mais me trouxe arrependimentos foram os meus sil&#234;ncios. do que &#233; que eu tinha medo? eu temia que questionar ou me manifestar de acordo com as minhas cren&#231;as resultasse em dor ou morte. mas todas somos feridas de tantas maneiras, o tempo todo, e a dor se modifica ou passa. a morte, por outro lado, &#233; o sil&#234;ncio definitivo&#8221;</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-4" href="#footnote-4" target="_self">4</a>.</p><p><em>Audre Lorde</em></p></blockquote><p>arrisco escrever pois n&#227;o temo a minha mortalidade, desde que estive na arena mais sangrenta da minha vida. passados sete anos, eu nem consigo mais andar nos caminhos de umas partes do labirinto porque o ch&#227;o est&#225; forrado de papel, tinta e sangue seco. foi l&#225; que me enfiei para me curar e esperar partes inteiras que perdi crescerem.</p><p>dias desses ouvi, l&#225; de dentro, que precisava criar uma casa diferente para mim, com menos muros e paredes. e essa casa apareceu em sonho antes de ontem, enquanto finalizava o texto. o que parece uma confirma&#231;&#227;o da Culsu, deusa etrusca que ilumina o labirinto com sua tocha &#8212; estou no caminho certo. a minha coragem est&#225; aqui agora na &#8220;superf&#237;cie desse papel&#8221; que voc&#234; est&#225; lendo.</p><p>n&#227;o sei se sente alguma curiosidade, mas se sentir, deixo aqui alguns pontos que podem te ajudar a se concentrar e estar no labirinto.</p><ul><li><p style="text-align: justify;"><strong>construa</strong> seu labirinto. imagine muito o labirinto. algumas pessoas visualizam as coisas na imagina&#231;&#227;o em primeira pessoa, se colocam na situa&#231;&#227;o, outras preferem imaginar como em um jogo de videogame, visto de cima, em que a personagem que &#233; voc&#234; est&#225; l&#225; embaixo. como preferir. caminhe nele, sinta o ch&#227;o, as paredes e a sua presen&#231;a.</p></li><li><p style="text-align: justify;"><strong>declare </strong>um motivo de d&#250;vida, ang&#250;stia, dentro do contexto do labirinto e guarde um tempo para voc&#234;, para que possa ter liberdade nesse espa&#231;o de reflex&#227;o.</p></li><li><p><strong>ou&#231;a</strong> sua intui&#231;&#227;o: respostas n&#227;o aparecem prontas, mas palavras surgem, mem&#243;rias, sensa&#231;&#245;es, sentimentos, &#233; tudo sutil, ent&#227;o o foco e reflex&#227;o &#233; para isso. esteja ligada com voc&#234; e estar&#225; mais atenta ao receber as mudan&#231;as que podem gerar impactos desproporcionais, abrindo novas sa&#237;das e possibilidades.</p></li></ul><p>peguei esse trecho emprestado da poeta Cherrie Moraga, &#8220;n&#227;o posso me dar ao luxo de ter medo de voc&#234;, nem voc&#234; de mim. se for preciso um confronto direto, que seja: essa timidez educada est&#225; nos matando&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-5" href="#footnote-5" target="_self">5</a>.<em> </em>estamos em um tempo onde &#233; preciso construir novas linguagens para explicar e garantir a vida, para que possamos ter for&#231;a para buscar mais paz. o labirinto &#233; uma humilde indica&#231;&#227;o de um espa&#231;o seguro, mas se, como eu, voc&#234; est&#225; habituada a viver no sil&#234;ncio, espero te ver mais nas ruas, falando o que pensa nos espa&#231;os onde podemos alcan&#231;ar as mudan&#231;as coletivas que tanto precisamos.</p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p><em>LORDE, Audre, irm&#227; outsider, 2019</em></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>G R Floriani, M D Figueiredo, A O Silva, 2021</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="#footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p><em>LORDE, Audre, irm&#227; outsider, 2019</em></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-4" href="#footnote-anchor-4" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">4</a><div class="footnote-content"><p><em>LORDE, Audre,a transforma&#231;&#227;o do sil&#234;ncio em linguagem e a&#231;&#227;o &#8212; Irm&#227; Outsider, 2019</em></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-5" href="#footnote-anchor-5" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">5</a><div class="footnote-content"><p>MORAGA, Cherie &#8220;La G&#252;era,1979 &#8212; This Bridge Called My Back &#8212; Cherr&#237;e Moraga and Gloria E. Anzald&#250;a&#8221;</p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Roberta Miranda e o que realmente incomoda no amor entre mulheres]]></title><description><![CDATA[Por Natalia Kleinsorgen -- Um coment&#225;rio feito pela cantora Roberta Miranda, 69 anos, em suas redes sociais no &#250;ltimo dia 18 de mar&#231;o causou rebuli&#231;o...]]></description><link>https://comunicasapatao.substack.com/p/roberta-miranda-e-o-que-realmente</link><guid isPermaLink="false">https://comunicasapatao.substack.com/p/roberta-miranda-e-o-que-realmente</guid><dc:creator><![CDATA[Comunica, Sapatão]]></dc:creator><pubDate>Thu, 23 Apr 2026 22:20:36 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!U7su!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0574ae7b-89f7-40ca-a9ff-765682332f5c_1920x1080.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Um coment&#225;rio feito pela cantora <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Roberta_Miranda">Roberta Miranda</a>, 69 anos, em suas redes sociais no &#250;ltimo dia 18 de mar&#231;o causou rebuli&#231;o. Ao compartilhar uma not&#237;cia com a manchete &#8220;Pesquisa aponta que mulheres l&#233;sbicas t&#234;m mais orgasmos que heterossexuais; agora, a ci&#234;ncia busca entender por qu&#234;&#8221;, a artista indagou: &#8220;A &#8216;ci&#234;ncia&#8217; busca entender? &#201; simples: ela (a mulher) n&#227;o &#233; um buraco onde a penetra&#231;&#227;o &#233; feita por fazer e ponto. Duas mulheres se tornam uma, pois elas reconhecem cada c&#233;lula que pulsa, cada movimento e momento, onde depositam, sim, desejo e n&#227;o <s>esperma</s>&#8221;.</p><p style="text-align: justify;">Em poucas horas, pelo menos cinco portais de not&#237;cias publicaram colunas e outros coment&#225;rios sobre o tema, sinalizando que a fala n&#227;o passou batida. A curiosidade sobre como l&#233;sbicas se relacionam, como vivem, o que/quem comem &#233; um senso comum. Todos querem entender, explicar, opinar sobre o prazer das mulheres, entre mulheres. Muitas vezes, l&#233;sbicas parecem ser extraterrestres, afinal, que tipo de criatura poderia negar o acesso de homens ao pr&#243;prio corpo? A resposta, muito bem dada por Roberta Miranda, &#8220;&#233; simples&#8221;. N&#243;s. N&#243;s poder&#237;amos, e podemos.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://comunicasapatao.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler! 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Vale dizer que a autonomia, aqui, &#233; sobre pensar e sentir fora dos ditames que organizam a vida em torno da masculinidade. &#201; o que veremos a seguir.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!U7su!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0574ae7b-89f7-40ca-a9ff-765682332f5c_1920x1080.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!U7su!, /__u/comunicasapatao.substack.com/w_424, /__u/comunicasapatao.substack.com/c_limit, /__u/comunicasapatao.substack.com/f_webp, /__u/comunicasapatao.substack.com/q_auto:good, /__u/comunicasapatao.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0574ae7b-89f7-40ca-a9ff-765682332f5c_1920x1080.jpeg 424w, 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class="image-caption">Desde os anos 1980, Roberta Miranda constr&#243;i no sertanejo uma trajet&#243;ria autoral e de protagonismo feminino, falando publicamente sobre sua sexualidade. Foto: Reprodu&#231;&#227;o/Instagram</figcaption></figure></div><h2 style="text-align: justify;"><em><strong>A cultura nos exclui. Isso nem sempre &#233; ruim.</strong></em></h2><p style="text-align: justify;">A aus&#234;ncia de hist&#243;rias sobre as vidas das l&#233;sbicas foi sintetizada de forma contundente pela comediante australiana Hannah Gadsby em seu espet&#225;culo Nanette (2018), quando afirmou que, durante muito tempo, &#8220;soube mais fatos sobre unic&#243;rnios do que sobre l&#233;sbicas&#8221;, ainda que unic&#243;rnios sequer existam. A ironia ilustra algo que as l&#233;sbicas feministas v&#234;m denunciando h&#225; bastante tempo. No processo de cria&#231;&#227;o dessa cultura voltada para os homens, fomos empurradas para um universo fantasioso, algumas vezes tratadas como figuras imagin&#225;rias, outras  como amea&#231;as ou exce&#231;&#245;es curiosas, mas muito pouco como mulheres concretas e inteiras, que produzem vida, v&#237;nculos e pensamento. Ainda que sempre estiv&#233;ssemos por ali, construindo cultura pr&#243;pria.</p><p style="text-align: justify;">O que estamos experimentando ao longo da hist&#243;ria, a partir das margens &#8212; e justamente porque as margens existem &#8212;, &#233; a produ&#231;&#227;o de saberes centrada na experi&#234;ncia l&#233;sbica, nos nossos corpos, na nossa linguagem, e nas nossas formas de viver e interpretar a vida. Nesses espa&#231;os, o prazer entre mulheres se manifesta de forma aut&#234;ntica, retirando a penetra&#231;&#227;o do lugar de refer&#234;ncia, questionando a ideia de que o sexo tem um roteiro fixo.</p><p style="text-align: justify;">Ao longo das &#250;ltimas d&#233;cadas, pensadoras feministas v&#234;m dizendo que o controle do corpo das mulheres est&#225; acompanhado do controle do significado do prazer feminino. Descrevem esse movimento como a coloniza&#231;&#227;o dos nossos corpos, e t&#234;m mostrado como a sexualidade feminina foi orientada a estar em torno do coito, mesmo que &#224;s custas de seu  pr&#243;prio prazer. A quest&#227;o, para elas, &#233; compreender o que a diferen&#231;a em como os corpos se relacionam produz em termos de experi&#234;ncia, linguagem e conhecimento. Por isso, a transforma&#231;&#227;o pol&#237;tica da sociedade exige necessariamente uma transforma&#231;&#227;o dos nossos olhares sobre o desejo, a sensibilidade e as rela&#231;&#245;es. Carla Lonzi, Maria Milagros Rivera Garretas e Andrea Franulic Depix s&#227;o algumas das pensadoras que afirmam ser preciso mudar o modo como o nosso corpo <em>aprende a existir</em>.</p><p style="text-align: justify;">Considerando essas contribui&#231;&#245;es, avan&#231;amos em algumas reflex&#245;es sobre os orgasmos entre mulheres mobilizar tanto interesse. N&#227;o estamos falando exclusivamente de curiosidades &#8220;cient&#237;ficas&#8221; &#8212; inclusive, &#233; maravilhoso ver Roberta Miranda usando <em>&#8216;ci&#234;ncia&#8217;</em> entre aspas, j&#225; que ela foi constru&#237;da a partir de uma experi&#234;ncia masculina tomada como padr&#227;o &#8212;, embora, como falamos anteriormente, a curiosidade exista. Estamos falando do acesso a um conhecimento que nasce no corpo e circula somente entre mulheres, &#224;s margens, do lado de fora dos espa&#231;os oficiais de saber.</p><h2 style="text-align: justify;"><em><strong>Descolonizar os corpos e mentes femininas</strong></em></h2><p style="text-align: justify;">Quando a cantora diz que duas mulheres <em>reconhecem cada c&#233;lula que pulsa</em>, ela est&#225; descrevendo algo que muitas de n&#243;s percebemos em nosso primeiro contato com um segundo corpo feminino, um corpo que tamb&#233;m &#233; nosso, de alguma forma. Esse &#233; um encontro em que o tempo importa, a aten&#231;&#227;o e o cuidado s&#227;o tratados como fundamentais, e o prazer &#233; uma descoberta de si e da outra. &#201; dizer que o que aparece como &#8220;curiosidade cient&#237;fica&#8221; nas p&#225;ginas de not&#237;cias e em coment&#225;rios de internet pode ser compreendido por n&#243;s como o sinal de uma mudan&#231;a cultural em curso.</p><p style="text-align: justify;">Tal transforma&#231;&#227;o est&#225; em uma hist&#243;ria longa e complexa das rela&#231;&#245;es entre mulheres. A soci&#243;loga Jules Falquet lembra que, em diferentes culturas e &#233;pocas, sempre existiram mulheres que se relacionam sexual, amorosa ou afetivamente com outras mulheres. Essas experi&#234;ncias assumiram formas variadas e foram interpretadas de maneiras distintas, dependendo das concep&#231;&#245;es sociais sobre sexo, g&#234;nero e fam&#237;lia. Em grande parte dos casos, essas rela&#231;&#245;es t&#234;m sido desencorajadas, invisibilizadas ou reinterpretadas de acordo com interesses econ&#244;micos e reprodutivos.</p><p style="text-align: justify;">Embora n&#227;o seja uma pr&#225;tica recente, o lesbianismo, conforme reconhecemos hoje, &#233; historicamente datado. Falquet mostra que a pr&#243;pria categoria de &#8220;l&#233;sbica&#8221; &#233; relativamente nova e foi constru&#237;da em meio a processos de medicaliza&#231;&#227;o, patologiza&#231;&#227;o e controle social. Durante muito tempo, as rela&#231;&#245;es entre mulheres foram classificadas como desvio, doen&#231;a ou &#8220;infantilidade&#8221;.</p><p style="text-align: justify;">A ci&#234;ncia, a psiquiatria e as religi&#245;es contribu&#237;ram para transformar nossos afetos em problemas a serem corrigidos e, em meio a tanta propaganda anti-sapat&#227;o, nossos corpos foram sendo colonizados pelo pensamento e pelas amarras da pol&#237;tica da heterossexualidade. Falquet chama aten&#231;&#227;o para esse ponto, ao lembrar que, em muitas culturas, as rela&#231;&#245;es entre mulheres foram invisibilizadas porque n&#227;o serviam diretamente &#224; reprodu&#231;&#227;o.</p><div class="callout-block" data-callout="true"><p style="text-align: center;"><em>Se, em sociedades patriarcais, a sexualidade feminina tem sido organizada em torno da maternidade e da fam&#237;lia, tudo o que n&#227;o contribu&#237; para esse objetivo &#233; considerado irrelevante, perigoso ou indevido. Por isso, as rela&#231;&#245;es entre mulheres foram frequentemente tratadas como tabu, condenadas ou simplesmente apagadas da hist&#243;ria. Esse silenciamento hist&#243;rico ajuda a explicar por que a visibilidade contempor&#226;nea, ainda que baixa e estereotipada, provoca rea&#231;&#245;es t&#227;o intensas.</em></p></div><p><strong>O prazer entre mulheres questiona uma estrutura social que organiza a vida em torno de um suposto mutualismo entre homens e mulheres, que, em muitos dos casos, se torna um parasitismo.</strong></p><p style="text-align: justify;">Falquet, assim como a escritora Adrienne Rich, descreve o sistema heterossexual como um modelo de organiza&#231;&#227;o social baseado na divis&#227;o r&#237;gida entre os sexos e na explora&#231;&#227;o do trabalho e do corpo das mulheres. Nesse contexto, o lesbianismo vai al&#233;m de uma pr&#225;tica individual, e pode ser entendido como uma ruptura com as amarras sociais, um posicionamento pol&#237;tico contr&#225;rio &#224; ideia de que a vida feminina deve girar em torno dos homens.</p><p style="text-align: justify;">H&#225; ainda um ponto importante nessa reflex&#227;o, que costuma gerar desconforto, mas que n&#227;o pode ser descartado. As rela&#231;&#245;es entre mulheres n&#227;o est&#227;o automaticamente livres das marcas da heterossexualidade. Ainda quando os homens n&#227;o est&#227;o presentes, os modelos aprendidos ao longo da vida continuam permeando nossas a&#231;&#245;es, expectativas e formas de viver a intimidade. A centralidade da penetra&#231;&#227;o, a l&#243;gica do desempenho, a ideia de que algu&#233;m deve conduzir enquanto a outra responde, ou mesmo a reprodu&#231;&#227;o de masculinidades nas rela&#231;&#245;es, s&#227;o exemplos de como a cultura heterossexual pode sim, se impor, nas nossas experi&#234;ncias. Isso n&#227;o diminui a pot&#234;ncia das rela&#231;&#245;es entre mulheres, mas nos convida a olhar com honestidade para os v&#237;cios que herdamos e as formas de poder que podem se instalar entre n&#243;s. Descolonizar o corpo e a mente tamb&#233;m significa revisar os modos como nos relacionamos, para que a autonomia n&#227;o seja apenas aus&#234;ncia de homens, mas presen&#231;a consciente de outras possibilidades de v&#237;nculo.</p><h2 style="text-align: justify;"><em><strong>N&#227;o &#233; s&#243; quantidade, &#233; qualidade</strong></em></h2><p style="text-align: justify;">Quando a sexualidade &#233; tratada apenas como escolha pessoal, perde-se de vista o seu car&#225;ter social e pol&#237;tico. A experi&#234;ncia entre mulheres deixa de ser compreendida como forma de resist&#234;ncia e passa a ser vista apenas como estilo de vida. Essa redu&#231;&#227;o esvazia o debate, j&#225; que transforma uma quest&#227;o coletiva em uma quest&#227;o privada. Essa perspectiva ajuda a compreender por que a visibilidade l&#233;sbica sempre esteve ligada a tanto burburinho e inc&#244;modo. Uma outra hist&#243;ria narrada por Roberta Miranda em setembro de 2025 ilustra isso. Ao relatar que sua m&#227;e preferia v&#234;-la morta a v&#234;-la gostar de mulher, ela exp&#245;e uma viol&#234;ncia que n&#227;o &#233; individual, mas estrutural.</p><p style="text-align: justify;">A heterossexualidade &#233; uma linguagem social que organiza rela&#231;&#245;es, define pap&#233;is e distribui poder. Por isso, a discuss&#227;o sobre prazer entre mulheres n&#227;o pode ser limitada &#224; esfera &#237;ntima. Ela precisa ser pensada em rela&#231;&#227;o &#224;s condi&#231;&#245;es materiais de vida, &#224;s estruturas de poder e &#224;s formas de organiza&#231;&#227;o social. O modo como n&#243;s nos relacionamos est&#225; diretamente ligado &#224;s formas de trabalho, &#224;s pol&#237;ticas p&#250;blicas e &#224;s expectativas culturais.</p><p style="text-align: justify;">A repercuss&#227;o do coment&#225;rio de Roberta Miranda nos mostra que, para al&#233;m de uma &#8216;simples&#8217; curiosidade sobre o orgasmo, h&#225; uma disputa pol&#237;tica em torno do significado do prazer, do amor e da autonomia feminina. Mostra que falar sobre sexualidade entre mulheres continua sendo uma escolha pol&#237;tica, j&#225; que nossos corpos seguem &#224;s margens, produzindo territ&#243;rios de experi&#234;ncias e conhecimentos de l&#233;sbicas para l&#233;sbicas. Ser&#225; que n&#227;o &#233; isso que explica a repercuss&#227;o sobre nossa &#8220;quantidade de orgasmos&#8221;? As possibilidades de autonomia que nossas escolhas permitem?</p><p style="text-align: justify;"></p><div><hr></div><h3 style="text-align: justify;"><strong>Refer&#234;ncias</strong></h3><p>FALQUET, Jules. <em>De la cama a la calle: perspectivas te&#243;ricas l&#233;sbico feministas</em>. Brecha L&#233;sbica-Ediciones Antropos, 2006.</p><p>FRANULIC DEPIX, Andrea Soledad. <strong>La revoluci&#243;n ser&#225; clit&#243;rica o no ser&#225;</strong>. Sem data. Dispon&#237;vel em:<a href="https://andreafranulic.cl/revuelta-social-en-chile/la-revolucion-sera-clitorica-o-no-sera/"> https://andreafranulic.cl/revuelta-social-en-chile/la-revolucion-sera-clitorica-o-no-sera/</a>. Acesso em: 6 abr. 2026.</p><p>GARDESANI, Juliana. <strong>Roberta Miranda faz revela&#231;&#227;o sobre prazer entre mulheres: &#8220;N&#227;o &#233; s&#243;...&#8221;</strong>. <em>Portal Terra</em>, 2026. Dispon&#237;vel em:<a href="https://www.terra.com.br/diversao/gente/roberta-miranda-faz-revelacao-sobre-prazer-entre-mulheres-nao-e-so,50291d13b7cdc572aefcb1f63d35f303nzk6ny3w.html"> https://www.terra.com.br/diversao/gente/roberta-miranda-faz-revelacao-sobre-prazer-entre-mulheres-nao-e-so,50291d13b7cdc572aefcb1f63d35f303nzk6ny3w.html</a>. Acesso em: 6 abr. 2026.</p><p>LONZI, Carla. <strong>Mujer clit&#243;rica y mujer vaginal</strong>. In: LONZI, Carla. <em>Escupamos sobre Hegel</em> (pp. 69&#8211;120). Buenos Aires, Argentina: Editorial La Pl&#233;yade, 1978.</p><p>MORATELLI, Valmir. <strong>O motivo de Roberta Miranda esconder sexualidade por 50 anos</strong>. <em>Veja Gente</em>, 2025. Dispon&#237;vel em:<a href="https://veja.abril.com.br/coluna/veja-gente/o-motivo-de-roberta-miranda-esconder-sexualidade-por-50-anos/"> https://veja.abril.com.br/coluna/veja-gente/o-motivo-de-roberta-miranda-esconder-sexualidade-por-50-anos/</a>. Acesso em: 9 abr. 2026.</p><p>MORATELLI, Valmir. <strong>Roberta Miranda defende que l&#233;sbicas t&#234;m &#8220;mais orgasmos que h&#233;teros&#8221;</strong>. <em>Veja Gente</em>, 2026. Dispon&#237;vel em:<a href="https://veja.abril.com.br/coluna/veja-gente/roberta-miranda-defende-que-lesbicas-tem-mais-orgasmos-que-heteros/"> https://veja.abril.com.br/coluna/veja-gente/roberta-miranda-defende-que-lesbicas-tem-mais-orgasmos-que-heteros/</a>. Acesso em: 6 abr. 2026.</p><p>OLIVEIRA, F&#225;bia. <strong>Roberta Miranda fala do prazer entre duas mulheres: &#8220;N&#227;o &#233; s&#243; buraco&#8221;</strong>. <em>Metr&#243;poles</em>, 18 mar. 2026. Dispon&#237;vel em:</p><p><a href="https://www.metropoles.com">https://www.metropoles.com</a>. Acesso em: 6 abr. 2026.</p><p>OLIVEIRA, Ingrid. <strong>Roberta Miranda comenta sobre intimidade de mulheres l&#233;sbicas; veja</strong>. <em>CNN Brasil</em>, 18 mar. 2026. Dispon&#237;vel em:<a href="https://www.cnnbrasil.com.br/entretenimento/roberta-miranda-comenta-sobre-intimidade-de-mulheres-lesbicas-veja/"> https://www.cnnbrasil.com.br/entretenimento/roberta-miranda-comenta-sobre-intimidade-de-mulheres-lesbicas-veja/</a>. Acesso em: 6 abr. 2026.</p><p>REDA&#199;&#195;O NT. <strong>Roberta Miranda afirma que l&#233;sbicas t&#234;m mais orgasmos: &#8220;&#201; simples&#8221;</strong>. <em>Na Telinha</em>, 18 mar. 2026. Dispon&#237;vel em:<a href="https://natelinha.uol.com.br/famosos/2026/03/18/roberta-miranda-afirma-que-lesbicas-tem-mais-orgasmos-e-simples-239442.php"> https://natelinha.uol.com.br/famosos/2026/03/18/roberta-miranda-afirma-que-lesbicas-tem-mais-orgasmos-e-simples-239442.php</a>. Acesso em: 6 abr. 2026.</p><p>RICH, Adrienne. <em>Heterossexualidade compuls&#243;ria e outros ensaios.</em> Tradu&#231;&#227;o de Ang&#233;lica Freitas e Daniel L&#252;hmann. Porto Alegre: A Bolha Editora, 2019.</p><p>RIVERA GARRETAS, Milagros. <strong>Carla Lonzi y otras. Los manifiestos de Rivolta Femminile. La revoluci&#243;n clit&#243;rica</strong>. 2018. Dispon&#237;vel em:<a href="http://www.ub.edu/duoda/bvid/text.php"> http://www.ub.edu/duoda/bvid/text.php</a>. Acesso em: 6 abr. 2026.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://comunicasapatao.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler! 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Sapatão]]></dc:creator><pubDate>Mon, 13 Apr 2026 23:35:16 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!-_W7!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F36145e81-2836-435a-a05c-c1b8b8c6ea42_1280x720.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!-_W7!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F36145e81-2836-435a-a05c-c1b8b8c6ea42_1280x720.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!-_W7!, /__u/comunicasapatao.substack.com/w_424, /__u/comunicasapatao.substack.com/c_limit, /__u/comunicasapatao.substack.com/f_webp, /__u/comunicasapatao.substack.com/q_auto:good, 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class="image-caption">Cr&#233;dito: Mar&#234; Guedes</figcaption></figure></div><p></p><p>Em uma sociedade em que vidas l&#233;sbicas s&#227;o constantemente reproduzidas, interpretadas e distorcidas, a <strong>Comunica, Sapat&#227;o</strong> surge como um respiro, um espa&#231;o de cria&#231;&#227;o, registro e circula&#231;&#227;o de experi&#234;ncias e perspectivas. Onde <strong>l&#233;sbicas ultrapassamos a margem e ocupamos um lugar de enuncia&#231;&#227;o.</strong></p><p>A Comunica, Sapat&#227;o &#233; uma coletiva formada a partir de desejos e inc&#244;modos compartilhados por um grupo de l&#233;sbicas feministas, que decidimos construir, juntas, esse espa&#231;o de produ&#231;&#227;o de conte&#250;dos feitos por e para l&#233;sbicas.</p><p>A coletiva se organiza a partir de diferentes trajet&#243;rias nas &#225;reas da comunica&#231;&#227;o, cultura, pesquisa e articula&#231;&#227;o pol&#237;tica, comprometida com a constru&#231;&#227;o de mem&#243;ria, com o reconhecimento dessas exist&#234;ncias e com a amplia&#231;&#227;o de espa&#231;os de express&#227;o, participa&#231;&#227;o e circula&#231;&#227;o de narrativas l&#233;sbicas.</p><div class="callout-block" data-callout="true"><p style="text-align: center;"><em>H&#225; dez anos, nesse mesmo dia, 13 de abril, a vida de Luana Barbosa foi arrancada de n&#243;s, e desde ent&#227;o seu nome ecoa entre as sapatonas do Brasil como s&#237;mbolo de luta, dignidade e mem&#243;ria. Inauguramos hoje este espa&#231;o para honrar Luana, porque escrever, registrar e comunicar nossas exist&#234;ncias &#233; uma forma de manter vivas as hist&#243;rias das que vieram antes de n&#243;s e garantir que as que vir&#227;o tenham onde encontrar refer&#234;ncia, informa&#231;&#227;o e continuidade.</em></p></div><p>A produ&#231;&#227;o de sentido entre l&#233;sbicas aqui &#233; constru&#237;da a partir da experi&#234;ncia do corpo e das rela&#231;&#245;es e orienta os conte&#250;dos publicados aqui. Afirmando &#8220;sapat&#227;o&#8221; em seu pr&#243;prio nome, a coletiva assume a palavra como linguagem, pertencimento e reconhecimento de seu peso hist&#243;rico e pol&#237;tico.</p><p>Ent&#227;o, sapat&#227;o, esse espa&#231;o &#233; teu. Um lugar de manifesta&#231;&#227;o, de produ&#231;&#227;o de linguagem e de reconhecimento, onde a exist&#234;ncia entre mulheres &#233; celebrada e entendida por quem deve ser entendida.</p><p style="text-align: justify;"></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://comunicasapatao.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption"><strong>Inscreva-se para receber nossos conte&#250;dos.</strong></p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p style="text-align: justify;"></p>]]></content:encoded></item></channel></rss>