<script data-pm-proxy="intercept"></script><?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Sublime Odisseia]]></title><description><![CDATA[Sublime Odisseia]]></description><link>https://delfinsantos.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!exrG!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F56d7fe13-c8a3-47ca-8fa1-8b2b09355a87_798x798.png</url><title>Sublime Odisseia</title><link>https://delfinsantos.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Thu, 03 Sep 2026 05:07:49 GMT</lastBuildDate><atom:link href="/__u/delfinsantos.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Delfin Santos]]></copyright><language><![CDATA[pt-br]]></language><webMaster><![CDATA[delfinsantos@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[delfinsantos@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Delfin Santos]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Delfin Santos]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[delfinsantos@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[delfinsantos@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Delfin Santos]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[Você não vale quanto pensa!]]></title><description><![CDATA[De Dostoi&#233;vski a &#205;caro]]></description><link>https://delfinsantos.substack.com/p/voce-nao-vale-quanto-pensa</link><guid isPermaLink="false">https://delfinsantos.substack.com/p/voce-nao-vale-quanto-pensa</guid><dc:creator><![CDATA[Delfin Santos]]></dc:creator><pubDate>Tue, 18 Aug 2026 07:51:11 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!exrG!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F56d7fe13-c8a3-47ca-8fa1-8b2b09355a87_798x798.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Quanto valor voc&#234; d&#225; a si mesmo? Essa &#233; a pergunta &#8211; com as &#243;bvias varia&#231;&#245;es &#8211; feita pela maioria dos psic&#243;logos, coaches e autores de livros de autoajuda. Geralmente, o questionamento &#233; feito para gerar desconforto e reflex&#227;o para no fim resultar numa vis&#227;o otimista &#8211; pois otimismo vende.</p><p>&#201; raro &#8211; e compreens&#237;vel &#8211; encontrar algum conselheiro que lhe d&#234; um &#8220;esculacho&#8221; e um choque de realidade, e lhe diga que voc&#234; n&#227;o &#233; especial ou n&#227;o merecedor. Por&#233;m, por que n&#227;o os ser? Pois uma autoan&#225;lise equivocada &#8211; muito comum na maioria das pessoas, visto a nossa vis&#227;o enviesada de n&#243;s mesmos &#8211; pode ter desfechos indesejados. Nesse dom&#237;nio, prevalece a dicotomia positivo-negativo. </p><p>Quando o indiv&#237;duo se enxerga negativamente, dist&#250;rbios psicoemocionais pululam o seu inconsciente. Dessa forma, preju&#237;zos, atrasos, incapacidade de exercer pot&#234;ncia &#8211; cito aqui o conceito dado por Spinoza &#8211; infiltram-se em todas as esferas da vida pessoal e profissional. Eis aqui o vil&#227;o da modernidade! &#8211; um campon&#234;s durante o medievo n&#227;o deveria ligar muito para quest&#245;es internas; h&#225; batatas a serem colhidas...</p><p>Por&#233;m, o que eu desejo abordar nesse humilde ensaio &#8211; ou seja l&#225; que aberra&#231;&#227;o liter&#225;ria seja este amalgama de par&#225;grafos &#8211; &#233; a autossupervaloriza&#231;&#227;o. Esse, diferentemente daquilo supracitado, &#233; para mim &#8211; e espero que seja a ti tamb&#233;m, caro leitor &#8211; de uma grandeza de interesse muito maior. Costumo, recorrentemente, refugiar-me atr&#225;s de grandes obras e autores, pois, dessa forma, posso n&#227;o ser tido como um lun&#225;tico esbravejante, tais quais aqueles falsos profetas aproveitadores que sempre aparecem em momentos de crise e fragilidade &#8211; material ou espiritual.</p><p>O escudo da vez ser&#225; o antol&#243;gico e atemporal &#8220;Crime e castigo&#8221; do mestre Dostoi&#233;vski. Para aqueles que ainda n&#227;o o leram &#8211; um pesar para este escritor &#8211; vou resumir de forma simples: Rask&#243;lnikov, o qual acompanharemos a hist&#243;ria, comete um homic&#237;dio e &#233; consumido pela culpa &#8211; ou, para os mais sagazes, seu castigo. Mas nem o crime nem o castigo nos interessam, o que desejo discutir &#233; a teoria criada pelo nosso &#8220;her&#243;i&#8221;. N&#227;o se preocupe, caro leitor, as pr&#243;ximas linhas carecem de qualquer tipo de spoiler &#8211; apesar de ser discut&#237;vel o fato de um livro escrito h&#225; 160 anos pode sujeitar-se ao inconveniente e moderno spoiler. Sem mais delongas, &#224; teoria.</p><p>Durante toda a obra, Rask&#243;lnikov se demonstra um &#8220;f&#227; de carteirinha&#8221; de Napole&#227;o Bonaparte &#8211; eu o compreendo, tamb&#233;m sou f&#227; de grandes generais e conquistadores &#8211; e seu fanatismo atinge escalas t&#227;o colossais ao ponto de cometer o seu fat&#237;dico crime. Determinadas pessoas &#8211; estou parafraseando Rask&#243;lnikov &#8211; t&#234;m, ou deveriam ter a liberdade ou direito de tomarem atitudes imorais, il&#237;citas, indignas a fim de alcan&#231;arem objetivos maiores e transcendentais. </p><p>Voltando a Napole&#227;o: o conquistador franc&#234;s matou milhares de pessoas, queimou cidades inteiras, desfigurou na&#231;&#245;es, fez suas tropas marcharem incansavelmente contra seus inimigos e sacrific&#225;-las &#8211; por vaidade e prepot&#234;ncia &#8211; para atingir seus objetivos expansionistas. Bem, foram esses fatos que levaram o protagonista da obra a escrever sua famigerada teoria.</p><p>Diante de tais fatos, Rask&#243;lnikov se equipara a Napole&#227;o, justificando suas a&#231;&#245;es com base no bem maior que isso traria &#8211; para si, claro. O leitor j&#225; deve ter identificado a m&#225;xima &#8220;os fins justificam os meios&#8221; nas atitudes do personagem. Pois bem, eis o ponto no qual eu queria chegar &#8211; e que me despertou o interesse de redigir tais palavras &#224;s tr&#234;s da manh&#227; duma ter&#231;a-feira.</p><p>At&#233; que ponto, ent&#227;o, n&#243;s devemos nos valorizar? Ora, balizando-nos pela &#233;tica e moralidade, pelo car&#225;ter, pelo bom senso, pela lei etc., talvez voc&#234;s digam. Parece-me, todavia, que tais pilares s&#227;o fr&#225;geis demais para sustentar o templo sob o qual adoramos nossos &#237;dolos &#8211; aqui, Nietzsche.</p><p>Com vossa licen&#231;a, vou explicar melhor. Os valores acima citados s&#227;o relativos, digo, cada um tem o seu pr&#243;prio conceito, os quais divergem nos mais diversos &#226;mbitos. Eu, por exemplo, acho a dor e o sofrimento (estressores) &#8211; nas devidas propor&#231;&#245;es e intensidades &#8211; essenciais &#224; vida; por outro lado, h&#225; aqueles que buscam a m&#225;xima felicidade &#8211; geralmente hedonistas; outros, o sentido para a exist&#234;ncia; e ainda h&#225; aqueles que se devotam ao transcendental. E estou levando em considera&#231;&#227;o apenas a cultura Ocidental. Se expandirmos tais diferencia&#231;&#245;es, meu ponto se torna cada vez mais evidente.</p><p>Dada a explana&#231;&#227;o, volto a pergunta: at&#233; que ponto devemo-nos valorizar? A minha resposta &#233;: n&#227;o sei. Mas acalme-se leitor (!), n&#227;o vou terminar esse texto de forma t&#227;o decepcionante. Pelo contr&#225;rio, quero propor um conselho &#8211; &#243;bvio, mas, por vezes (muitas, ali&#225;s), o &#243;bvio deve ser dito.</p><p>Aos que se super valorizam, prud&#234;ncia! &#8211; claro, duvido que voc&#234;, leitor, h&#225; de matar algu&#233;m devido ao seu complexo de grandeza ou supervaloriza&#231;&#227;o (creio que homicidas n&#227;o leem substacks) &#8211;, porque aquele que valoriza demais a si pr&#243;prio, tende a querer aquilo que n&#227;o lhe cabe. &#205;caro, apesar das advert&#234;ncias de D&#233;dalo, voou alto demais por querer ser t&#227;o espl&#234;ndido quanto o Sol. Mas a cera de suas asas &#8211; no nosso caso, o ego (Freud) &#8211; derreteu e aquilo que o fez almejar o que n&#227;o lhe cabia, foi a mesma que o derrubou.</p><p>Mantenhas os olhos desanuviados do valor que n&#227;o possuis.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Quando o meio substitui o fim]]></title><description><![CDATA[Kafka, desejo e corrup&#231;&#227;o]]></description><link>https://delfinsantos.substack.com/p/quando-o-meio-substitui-o-fim</link><guid isPermaLink="false">https://delfinsantos.substack.com/p/quando-o-meio-substitui-o-fim</guid><dc:creator><![CDATA[Delfin Santos]]></dc:creator><pubDate>Thu, 15 Jan 2026 23:01:08 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/a0d8de38-d51e-4560-8964-8481ff7a10f9_1200x630.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Todo desejo &#233; por excel&#234;ncia um fim. Para o cumprimento desse fim, existe um meio. O meio, por sua vez, pode ser compreendido como uma zona intermedi&#225;ria indispens&#225;vel para que determinado fim seja alcan&#231;ado. Dessa breve elocubra&#231;&#227;o, nota-se que o real valor dessa equa&#231;&#227;o metaf&#237;sica deve ser o fim, pois &#233; ele o desejo primordial que tudo inicia. Por&#233;m, na maioria das vezes o fim acaba se perdendo atrav&#233;s dos meios empregados para a sua concretiza&#231;&#227;o.</p><p>Se, por exemplo, um autor pretende escrever um romance, ele redigir&#225; centenas de milhares de palavras numa determinada ordem que transmite uma determinada mensagem. Eis a quest&#227;o: caso o autor foque demais no meio, ele acabar&#225; por arriscar-se a subjugar o seu pr&#243;prio desejo inicial.</p><p>Essa &#233; uma confus&#227;o corriqueira que se estende a diversas atividades humanas, desde com qual roupa vestir at&#233; como punir um criminoso. Esse &#250;ltimo caso &#233; especialmente interessante, pois ele pode &#8211; gra&#231;as &#224; sua capacidade de despertar fortes emo&#231;&#245;es a depender do crime praticado &#8211; ter o seu fim dilu&#237;do pela valoriza&#231;&#227;o desnecess&#225;ria do meio. Tal situa&#231;&#227;o &#233; magistralmente explorada na obra Na Col&#244;nia Penal, de Franz Kafka.</p><p>Nessa novela curta, acompanhamos a visita de um estrangeiro convidado para observar os m&#233;todos de execu&#231;&#227;o numa col&#244;nia penal. J&#225; nas primeiras p&#225;ginas &#233; poss&#237;vel notar um suspense no ar, um conflito entre o arcaico e o moderno. Essa dicotomia se personifica na imagem do oficial respons&#225;vel pelas execu&#231;&#245;es e o atual comandante da col&#244;nia. Aquele &#233; adepto dos antigos m&#233;todos, este n&#227;o enxerga mais espa&#231;o para a antiga barb&#225;rie.</p><p>O detalhe curioso dessa pris&#227;o &#233; o m&#233;todo empregado para as execu&#231;&#245;es &#8211; justamente o motivo do estrangeiro ter sido convidado. Diferentemente das outras col&#244;nias, nessa h&#225; toda uma teatraliza&#231;&#227;o em volta da puni&#231;&#227;o. Para a cria&#231;&#227;o de espet&#225;culo macabro, foi pensado uma sofisticada m&#225;quina para essa tarefa. Mas ao contr&#225;rio de uma guilhotina ou cadeira el&#233;trica, esse aparato foi projetado para fazer da morte um processo lento e doloroso. Essa mudan&#231;a de finalidade marca o momento no qual o meio passa a se prevalecer sobre o fim.</p><p>Por se tratar de uma col&#244;nia penal, sup&#245;e-se que a m&#225;quina foi arquitetada para executar a pena capital nos que ali est&#227;o presos. Em outras palavras, o fim almejado &#233; punir. Por&#233;m, o meio utilizado (a m&#225;quina) acaba ganhando uma import&#226;ncia maior do que deveria. Isso fica claro com o fervor religioso do oficial ao falar sobre o seu engenho perverso. Dessa forma, punir o condenado se tornou um mero colateral &#8211; o sofrimento &#233; traduzido em show e a morte em &#234;xtase.</p><p>A relev&#226;ncia dada ao meio se concretiza na complexidade da m&#225;quina. Antes da execu&#231;&#227;o, o oficial exp&#245;e ao estrangeiro o funcionamento de cada parte do equipamento e como ele retarda a morte do infeliz que ali esteja atado. Toda essa engenhosidade perversa mant&#233;m o fim condicionado ao meio, viciando o desejo &#224; forma de concretiza&#231;&#227;o.</p><p>Quanto mais complexo e importante o meio se torna, mais dif&#237;cil se torna resgatar o desejo inicial. O est&#225;gio de fascina&#231;&#227;o do oficial &#233; tamanho que ele n&#227;o enxerga mais a utiliza&#231;&#227;o da m&#225;quina para o seu fim inicial. Por esse motivo, ele se queixa ao estrangeiro sobre os boicotes do atual chefe da col&#244;nia. A vis&#227;o desanuviada do comandante sobre o que se tornou a m&#225;quina entra em conflito com a nostalgia do oficial, demonstrando como o meio substituiu integralmente o fim.</p><p>Pondo de lado o c&#226;none da novela, imaginemos uma linha do tempo com os principais acontecimentos que antecederam a hist&#243;ria contada. No prim&#243;rdio da col&#244;nia, antes da cria&#231;&#227;o da m&#225;quina, o comandante desejava um m&#233;todo para executar os prisioneiros. Para cumprir tal objetivo, um engenho foi desenvolvido exatamente com essa finalidade. Com o transcurso do tempo, o equipamento passou a ser incrementado exageradamente at&#233; atingir um alto grau de complexidade.</p><p>Quando a necessidade de usar a m&#225;quina surgia, essa complexidade era tanta que roubava toda a aten&#231;&#227;o. Esse furto de protagonismo passou a despertar mais o interesse dos espectadores, transformando gradativamente o meio no fim para o qual a m&#225;quina foi projetada. As in&#250;meras execu&#231;&#245;es que se seguiram passaram a refor&#231;ar cada vez mais essa concep&#231;&#227;o distorcida do fim. Essa subvers&#227;o, contudo, n&#227;o se limita &#224; novela kafkiana.</p><p>Pode se observar essa transcend&#234;ncia na import&#226;ncia dada a quest&#245;es contempor&#226;neas de produtividade e valor. Mindsets, rotinas e frameworks s&#227;o exaustivamente divulgados como meios para alcan&#231;ar determinados fins. S&#227;o o mapa do tesouro que precisam ser inevitavelmente adquiridos para obter aquilo que &#233; desejado. Aqui, o meio e o desejo se confundem em uma &#250;nica coisa: eu desejo o meio para alcan&#231;ar um fim.</p><p>&#201; uma peculiaridade quando se traz a quest&#227;o para o contexto contempor&#226;neo. Diferentemente da apresenta&#231;&#227;o de Kafka &#8211; onde o desejo se oculta ou se dissolve &#8211;, aqui o fim &#233; usado justamente para fortalecer o meio. &#201; uma l&#243;gica que se encaixa perfeitamente no sistema capitalista no qual se cria um desejo e se vende a maneira para alcan&#231;&#225;-lo.</p><p>Se se deseja ser feliz, &#233; preciso passar as f&#233;rias nos Alpes Su&#237;&#231;os. Se for paz, um retiro espiritual na Tail&#226;ndia. Tudo isso em 12 vezes sem juros no cart&#227;o. Desse modo, o desejo vai se arrefecendo e se perde a no&#231;&#227;o do que se queria inicialmente. E quando isso acontece, o fim torna-se inating&#237;vel, barrado por um meio inchado e instranspon&#237;vel. Dessa problem&#225;tica derivam diversas outras &#8211; o consumismo, por exemplo &#8211;, que obrigam as pessoas a gastarem indefinidamente com o meio sem nunca alcan&#231;ar o fim.</p><p>No fim, a m&#225;quina kafkiana n&#227;o &#233; aterrorizante por espetacularizar o sofrimento humano para o deleite alheio. O m&#243;rbido engenho horroriza por causa da sua capacidade de entorpecer o desejo e condicion&#225;-lo ao meio. A repeti&#231;&#227;o de uma etapa intermedi&#225;ria aprisionou o fim na eterna impossibilidade de concretiza&#231;&#227;o. Uma pris&#227;o invis&#237;vel que d&#225; uma sensa&#231;&#227;o irreal de satisfa&#231;&#227;o e completude e que alimenta um sistema faminto por desejos difusos. Eis a&#237; o maior mal: a equivocada nega&#231;&#227;o do fim e a supervaloriza&#231;&#227;o do meio; o falso sentimento de estar a cada dia mais pr&#243;ximo da realiza&#231;&#227;o do desejo, mas estar a cada dia mais atolado numa etapa intermedi&#225;ria sem valor real.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://delfinsantos.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/delfinsantos.substack.com/subscribe"><span>Assine agora</span></a></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O valor do homem termina quando acaba o seu trabalho]]></title><description><![CDATA[Gregor Samsa, o pecado original e a l&#243;gica que transforma filhos em fardos.]]></description><link>https://delfinsantos.substack.com/p/o-valor-do-homem-termina-quando-acaba</link><guid isPermaLink="false">https://delfinsantos.substack.com/p/o-valor-do-homem-termina-quando-acaba</guid><dc:creator><![CDATA[Delfin Santos]]></dc:creator><pubDate>Thu, 08 Jan 2026 23:00:45 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/3e25fa5b-4bed-4615-be42-387308dac962_1200x630.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Desde que Ad&#227;o e Eva comeram o fruto da &#225;rvore proibida, o trabalho &#233; a realidade do homem. A labuta se tornou t&#227;o enraizada na exist&#234;ncia humana que passou a definir o pr&#243;prio indiv&#237;duo. Ferreira, Taylor, Weber, Berger e outros tantos nomes, apesar dos seus sentidos originais terem se perdido com o transcurso do tempo, serviam para designar o of&#237;cio da pessoa.</p><p>&#8220;Com o suor do teu rosto comer&#225;s o teu p&#227;o.&#8221; Como diz em G&#234;nesis, o trabalho n&#227;o servir&#225; somente para lembrar o homem do seu pecado original, mas tamb&#233;m o dignificar&#225; e dar&#225; forma ao seu sofrimento. Dessa forma, se o trabalho dignifica, o n&#227;o-trabalho desonra. Pois aquele que n&#227;o trabalha se nega a reconhecer o pecado original e arcar com suas consequ&#234;ncias.</p><p>Pois ent&#227;o, n&#227;o haver&#225; valor no n&#227;o-trabalho. E se o que define o indiv&#237;duo &#233; o trabalho, ent&#227;o o indiv&#237;duo sem trabalho n&#227;o possui valor algum. &#201; um fardo social. Mas seria justo reduzir o homem apenas ao seu trabalho? Seria justo desconsiderar por completo o valor humano por causa do seu n&#227;o-trabalho? Seria justo considerar o homem um inseto pela falta de of&#237;cio?</p><p>Justo ou n&#227;o, esse foi o drama de Gregor Samsa naquela manh&#227; quando acordou e se viu metamorfoseado num inseto repugnante.</p><p>Sem explica&#231;&#227;o. Sem raz&#227;o. Sem motivo aparente. A Metamorfose, de Franz Kafka, nos conduz a um absurdismo presente em todas as obras do autor. Imaginar uma reviravolta indesejada e imprevis&#237;vel em nossas vidas &#233; concomitantemente instigadora e aterrorizante. E dessa completa mudan&#231;a de perspectiva sobre a exist&#234;ncia, como o nosso valor est&#225; condicionado ao peso das nossas a&#231;&#245;es.</p><p>Inexplicavelmente, de caixeiro viajante a inseto repugnante. A priori, a situa&#231;&#227;o se confunde com um pesadelo estranho e absurdo. Mas diferentemente de um pesadelo, a situa&#231;&#227;o de Gregor se mostrou perene e decadente. O agravante: ser dia de semana. E como todo trabalhador bem sabe, um atraso despertaria a f&#250;ria do chefe.</p><p>Apesar do corpo metamorfoseado em inseto, a mente de Gregor continuava intacta (consciente das obriga&#231;&#245;es, pelo menos). &#201; f&#225;cil perceber isso na sua preocupa&#231;&#227;o com o of&#237;cio, o qual odeia, mas precisa arcar com o compromisso em prol de sua fam&#237;lia. O que seria de Gregor sem seu emprego? Para que serviria Gregor se n&#227;o traz sustento a pr&#243;pria fam&#237;lia? A esmagadora responsabilidade que lhe dava um valor vazio h&#225; de ser logo despida.</p><p>A tentativa de entender a situa&#231;&#227;o na qual se encontrava fez o desafortunado se atrasar. O atraso &#8211; incomum para o ex-homem &#8211; levantou estranheza no seio familiar. Onde est&#225; Gregor? As batidas na porta e a falta de resposta aumentaram a preocupa&#231;&#227;o. Ao entrarem, se depararam com aquela figura medonha que tomava o lugar onde o filho costumava repousar. Susto. Medo. Confus&#227;o. Como deveriam agir a fam&#237;lia diante dessa situa&#231;&#227;o?</p><p>H&#225;, apesar de se tornar secund&#225;rio a partir de determinado ponto, um qu&#234; de tristeza no ar. O filho amado &#8211; enquanto amado &#8211; havia se tornado um ser repulsivo. Um invasor numa vida familiar estruturada e promissora. Uma situa&#231;&#227;o t&#227;o absurda poderia voltar a ser o que j&#225; foi um dia? A fam&#237;lia n&#227;o sabia, mas essa n&#227;o foi uma preocupa&#231;&#227;o que pululou os seus inconscientes por muito tempo.</p><p>A rotina dos Samsas mudou completamente com a metamorfose. Agora, Gregor era o centro das preocupa&#231;&#245;es. Grete &#8211; a irm&#227; ca&#231;ula &#8211; que outrora se dedicava &#224;s diversas atividades art&#237;sticas inerentes a uma mo&#231;a na sua posi&#231;&#227;o, passou a se dispor integralmente para o seu irm&#227;o-inseto. A sua dedica&#231;&#227;o se deveu, num primeiro momento, a um sentimento de d&#243;. Passou a ser de obriga&#231;&#227;o. Por fim, de estorvo. Gregor havia se tornado um fardo pesado e desagrad&#225;vel. E fardos pesados e desagrad&#225;veis costumam minar rapidamente at&#233; a mais convicta dilig&#234;ncia.</p><p>O patriarca foi o primeiro a aceitar a condi&#231;&#227;o do filho. O primeiro a reconhecer aquilo que ningu&#233;m ainda tinha visto. Gregor n&#227;o era mais Gregor: era uma coisa. A m&#227;e se demonstrou anestesiada por estar em dois mundos ao mesmo tempo. Horrorizada pela metamorfose do filho. Compadecida pelo sofrimento da prole. A &#250;nica que age com naturalidade, uma naturalidade crua e fria, &#233; a empregada.</p><p>Pela necessidade di&#225;ria de servir e executar roboticamente as ordens emanadas, a faxineira n&#227;o se abala diante da situa&#231;&#227;o. Ela &#233; uma figura contrastante com Gregor: enquanto ela demonstra o seu valor atrav&#233;s do seu trabalho resignado, o inseto s&#243; se afunda no seu desvalor, na sua depend&#234;ncia e na sua demanda.</p><p>A situa&#231;&#227;o est&#225; insustent&#225;vel. A fam&#237;lia precisa dar um fim nisso, um fim no inseto. Mas, apesar de n&#227;o parecer, o inseto continuava sendo Gregor. O mesmo Gregor que se sacrificou em prol da fam&#237;lia. O mesmo Gregor que possibilitou aposentar o pai. O mesmo Gregor que deu orgulho &#224; m&#227;e. O mesmo Gregor que possibilitou a ca&#231;ula uma vida despreocupada. Matar Gregor aos pis&#245;es ou vassouradas n&#227;o seria poss&#237;vel.</p><p>Mas as pessoas (e insetos) tamb&#233;m morrem quando n&#227;o h&#225; mais ningu&#233;m para se lembrar delas. O assassinato poderia n&#227;o ser concreto, por&#233;m seria real. O abandono, f&#237;sico e moral. A aus&#234;ncia daqueles que disseram &#8220;te amo&#8221;. A completa desvaloriza&#231;&#227;o daqueles que nunca pensar&#237;amos que seriam capazes disso. Eis um assassinato muito mais cruel do que poderia ser.</p><p>Ap&#243;s meses de ang&#250;stia, n&#227;o pelo filho, mas pelo fim daquela estrutura familiar que todos presavam tanto, Gregor morre. Sozinho. Por&#233;m, diferentemente de antes, adquiriu com sua morte valor, o valor de n&#227;o ser um fardo, um problema. Gregor era um homem conveniente: era conveniente que trabalhasse; era conveniente que se sacrificasse pela fam&#237;lia; era conveniente am&#225;-lo por isso. Mas ao perder a &#250;nica coisa que lhe dava valor, viu somente as costas de todos ao seu redor.</p><p>No final, a tristeza pela morte de Gregor foi tomada pela calmaria, pela esperan&#231;a e pela felicidade do fim de uma obriga&#231;&#227;o onerosa. O fardo de toneladas cedeu. Esse era um novo come&#231;o para os Samsas. Um novo come&#231;o at&#233; algu&#233;m ter o desprazer de acordar de manh&#227; em sua cama metamorfoseado em um inseto repugnante...</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://delfinsantos.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/delfinsantos.substack.com/subscribe"><span>Assine agora</span></a></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O passado não passa]]></title><description><![CDATA[Uma reflex&#227;o sobre ano novo e valor]]></description><link>https://delfinsantos.substack.com/p/o-passado-nao-passa</link><guid isPermaLink="false">https://delfinsantos.substack.com/p/o-passado-nao-passa</guid><dc:creator><![CDATA[Delfin Santos]]></dc:creator><pubDate>Wed, 31 Dec 2025 15:03:02 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/986b435c-8f57-45c9-add0-8053cab0788f_1200x630.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>A ideia mais comumente associada ao ano novo &#233; a renova&#231;&#227;o. H&#225;, inerentemente a essa ideia, um qu&#234; de desprezo com o que j&#225; passou, em contraste com o otimismo (racional ou n&#227;o) do porvir. Gostaria, todavia, de diluir essa concep&#231;&#227;o. N&#227;o fa&#231;o isso por mero capricho, mas sim para dar uma nova perspectiva sobre o ano novo e o ano velho.</p><p>Primeiramente, n&#227;o quero dissipar a concep&#231;&#227;o renovadora que a passagem de ano possui. Isso vai muito al&#233;m de uma mera tradi&#231;&#227;o. Ao meu ver, &#233; uma quest&#227;o psicol&#243;gica, uma maneira que n&#243;s temos de manter as esperan&#231;as mesmo em situa&#231;&#245;es adversas as quais estamos expostos diariamente. F&#233; seria uma &#243;tima maneira de definir o que eu quero dizer: acreditar mesmo que n&#227;o exista prova.</p><p>Podemos come&#231;ar ent&#227;o atacando a quest&#227;o pela dicotomia &#8220;velho e novo&#8221;. Esse embate de conceitos &#233; antigo e explorado por diversas civiliza&#231;&#245;es anteriores &#224; nossa. Na mitologia grega, Cronos devorava seus filhos para que n&#227;o fosse substitu&#237;do por eles, mas acaba por ser enganado. Zeus e seus irm&#227;os encerram o reinado dos tit&#227;s e condenam Cronos a vagar eternamente no T&#225;rtaro. O velho quer manter seu poder. O novo quer o poder para si.</p><p>Esse conflito poderia ser estendido para outros campos da viv&#234;ncia humana, mas quando aplicado &#224; passagem do ano, observa-se que, metaforicamente, o ano novo quer aquilo que o ano velho possui: a materialidade. O futuro &#233; uma ideia abstrata, uma proje&#231;&#227;o das nossas expectativas. N&#227;o &#233; real, &#233; um corpo disforme que pode ser moldado conforme as nossas inten&#231;&#245;es. O passado, por outro lado, &#233; concreto e imut&#225;vel. <em>Factum infectum fieri non potest<strong><a href="#_ftn1">[1]</a></strong></em>. &#201; isso que desejamos que o porvir seja, concreto e imut&#225;vel.</p><p>Eis ent&#227;o o conflito hom&#233;rico: o passado tem o que o futuro deseja. O novo cobi&#231;a o velho. E o novo, dada sua pung&#234;ncia e inevitabilidade, h&#225; de conquist&#225;-lo. Por&#233;m, apesar do fluxo natural de substitui&#231;&#227;o do velho pelo novo, o passado conserva um valor, de certo modo, maior do que o futuro.</p><p>N&#227;o seria o futuro o produto do passado? N&#227;o seria o ano novo poss&#237;vel somente pela substitui&#231;&#227;o do ano velho? N&#227;o seria a avareza de Cronos que levou os deuses ao Olimpo? Pois ent&#227;o, essa &#233; uma quest&#227;o de causa e consequ&#234;ncia. N&#227;o pode haver o novo sem que tenha existido o velho.</p><p>Na f&#233; crist&#227;, a morte de Cristo no calv&#225;rio significou um momento de ruptura entre os dogmas antigos e os novos. Com o seu sacrif&#237;cio, mais nenhuma criatura de Deus dever&#225; ser sacrificada em seu nome. Essa mudan&#231;a de paradigma s&#243; foi poss&#237;vel por uma sucess&#227;o de eventos &#8211; muito tr&#225;gicos &#8211; que culminaram no &#250;ltimo e maior sacrif&#237;cio.</p><p>Imagina-se, habitualmente, o transcurso do tempo como uma linha reta, um eixo x infinito. Eu imagino como uma torre e convido o leitor a imagin&#225;-la da mesma forma. A torre, obviamente, &#233; constru&#237;da de sua base at&#233; o seu topo. Quanto mais s&#243;lida for a base mais alto pode ser a torre. Mas ningu&#233;m constr&#243;i uma torre desejando permanecer em sua base. Todos querem constru&#237;-la o mais alto poss&#237;vel para poder vislumbrar a paisagem do ponto de vista de um deus. Estar acima de todos e de tudo.</p><p>N&#227;o escrevo de nenhuma forma para absolver o seu 2025. N&#227;o o conhe&#231;o nem me atrevo a adivinh&#225;-lo, por&#233;m talvez possa haver algo de positivo nele. Talvez esse ano tenha sido horr&#237;vel, mas ele representa mais um bloco na sua torre. Talvez ano que vem tamb&#233;m seja horr&#237;vel, mas ser&#225; mais um bloco rumo ao topo. Voc&#234; n&#227;o sabe quando ser&#225; o &#225;pice da sua torre, voc&#234; s&#243; tem a expectativa que ele seja alto.</p><p>E quando voc&#234; chegar ao topo e observar o espetacular horizonte, lembre-se: essa vis&#227;o s&#243; foi poss&#237;vel gra&#231;as a todos os blocos que sustentam o topo da sua torre.</p><p>Obrigado e um pr&#243;spero ano novo.</p><div><hr></div><p><a href="#_ftnref1">[1]</a> Do latim, &#8220;O que foi feito n&#227;o pode ser desfeito&#8221;.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[10 livros que TODOS deveriam ler para entender o mundo ao seu redor]]></title><description><![CDATA[Leituras indispens&#225;veis]]></description><link>https://delfinsantos.substack.com/p/10-livros-que-todos-deveriam-ler</link><guid isPermaLink="false">https://delfinsantos.substack.com/p/10-livros-que-todos-deveriam-ler</guid><dc:creator><![CDATA[Delfin Santos]]></dc:creator><pubDate>Fri, 26 Dec 2025 01:05:16 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/08722ffb-8583-475a-8133-93c36773181b_1200x630.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<h1>Sauda&#231;&#245;es, leitor.</h1><p>Agrade&#231;o por ter se inscrito na minha newsletter. Como gesto de boas-vindas, preparei uma lista com dez livros essenciais para compreender o mundo de hoje. Antes de chegar a ela, por&#233;m, vale uma pergunta: por que essas obras, escritas em outros tempos, ainda dizem tanto sobre o nosso?</p><p>Porque os dilemas fundamentais do homem n&#227;o mudaram.<br>Mudaram as ferramentas, os cen&#225;rios e a velocidade, mas continuam intactos o medo, a ambi&#231;&#227;o, a culpa, a sede de poder, o desejo de pertencimento e a dificuldade de agir com lucidez. Essas obras sobrevivem porque n&#227;o falam de modas ou conjunturas passageiras, mas da estrutura profunda da experi&#234;ncia humana &#8212; e &#233; justamente por isso que ainda nos ajudam a ler o presente com mais clareza do que muitos textos escritos ontem.</p><div><hr></div><h3><strong>1984 &#8211; George Orwell</strong></h3><p>Provavelmente o romance dist&#243;pico mais ic&#244;nico j&#225; escrito. Adaptado diversas vezes para a televis&#227;o e fonte declarada de inspira&#231;&#227;o para in&#250;meras obras posteriores, <em>1984</em> consolidou-se como um livro atemporal. Sua capacidade de expor, com precis&#227;o cir&#250;rgica, os mecanismos dos regimes autorit&#225;rios permanece perturbadoramente atual.</p><p>Ambientado em uma Londres dist&#243;pica, o romance acompanha Winston Smith, um funcion&#225;rio p&#250;blico encarregado de reescrever o passado a servi&#231;o do Partido. Cansado da opress&#227;o onipresente e da vigil&#226;ncia constante, Winston conhece J&#250;lia, com quem inicia uma rela&#231;&#227;o clandestina. Juntos, ensaiam uma pequena insurrei&#231;&#227;o privada &#8212; breve, fr&#225;gil e inevitavelmente esmagada.</p><p>Orwell articula tristeza, amor, medo, coragem e revolta em uma narrativa implac&#225;vel. A disseca&#231;&#227;o do autoritarismo, aliada &#224; sensibilidade moral do autor, &#233; o que garante &#224; obra sua perman&#234;ncia: <em>1984</em> n&#227;o apenas descreve um mundo poss&#237;vel &#8212; revela uma tenta&#231;&#227;o sempre presente.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!UtxB!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F92fbfa4f-e6b6-46dc-a975-551003971b0c_667x1000.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!UtxB!, /__u/delfinsantos.substack.com/w_424, /__u/delfinsantos.substack.com/c_limit, /__u/delfinsantos.substack.com/f_webp, /__u/delfinsantos.substack.com/q_auto:good, 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bastaria entregar-lhe este livro. <em>Cem Anos de Solid&#227;o</em> n&#227;o est&#225; apenas cheio de palavras ao longo de suas p&#225;ginas: est&#225; impregnado de magia, excesso e encanto. Cada par&#225;grafo parece carregar uma mem&#243;ria coletiva que se recusa a ser esquecida.</p><p>O romance narra a hist&#243;ria da estirpe dos Buend&#237;a e da cidade fict&#237;cia de Macondo, dois destinos entrela&#231;ados desde a funda&#231;&#227;o at&#233; a ru&#237;na. Fam&#237;lia e lugar se moldam mutuamente, presos a ciclos de repeti&#231;&#227;o, solid&#227;o e fatalidade. Mais do que uma leitura, <em>Cem Anos de Solid&#227;o</em> &#233; um convite a habitar um mundo m&#225;gico, profundamente ancorado na hist&#243;ria real e nas feridas abertas do continente latino-americano.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!rBWe!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4d7dd279-5a1a-4628-8fca-2790655c07c6_1605x2481.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!rBWe!, /__u/delfinsantos.substack.com/w_424, /__u/delfinsantos.substack.com/c_limit, /__u/delfinsantos.substack.com/f_webp, /__u/delfinsantos.substack.com/q_auto:good, 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Em vez de projetar um futuro distante, <em>Ensaio sobre a Cegueira</em> lan&#231;a o leitor diretamente no colapso desde a primeira p&#225;gina: em um instante, a vida segue seu curso; no seguinte, uma epidemia inexplic&#225;vel priva quase todos da vis&#227;o &#8212; e o mais perturbador &#233; que ningu&#233;m sabe por qu&#234;.</p><p>A narrativa se concentra em um hospital abandonado, para onde os cegos s&#227;o enviados em quarentena. Ali, for&#231;ados a se adaptar &#224; nova condi&#231;&#227;o, os internos acabam por recriar uma forma de sociedade pr&#243;pria: organizada em torno da cegueira, mas marcada pela mesma brutalidade, ego&#237;smo e viol&#234;ncia que atravessam todas as experi&#234;ncias humanas. Saramago exp&#245;e, sem concess&#245;es, o que resta quando as conven&#231;&#245;es caem &#8212; e o homem passa a enxergar, paradoxalmente, aquilo que sempre esteve &#224; vista.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!CVKo!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0d5e83ae-83b6-4402-a206-39cfd9b3a32f_1654x2480.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!CVKo!, /__u/delfinsantos.substack.com/w_424, /__u/delfinsantos.substack.com/c_limit, /__u/delfinsantos.substack.com/f_webp, /__u/delfinsantos.substack.com/q_auto:good, /__u/delfinsantos.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0d5e83ae-83b6-4402-a206-39cfd9b3a32f_1654x2480.jpeg 424w, 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Wilde constr&#243;i uma de suas obras mais c&#233;lebres. Inspirando-se no mito de Narciso &#8212; o jovem que, ao se encantar pelo pr&#243;prio reflexo, acaba tragado por ele &#8212;, o autor ergue um dos grandes cl&#225;ssicos do g&#243;tico moderno, onde est&#233;tica e moral entram em conflito direto.</p><p>Ao perceber que o retrato envelhece e se deforma no lugar de seu corpo, absorvendo as marcas de cada v&#237;cio e degrada&#231;&#227;o, Dorian Gray decide levar sua exist&#234;ncia at&#233; o limite. Livre da deteriora&#231;&#227;o vis&#237;vel, abandona qualquer freio moral e passa a explorar o prazer e a crueldade sem temor. Wilde, com eleg&#226;ncia venenosa, revela que a aus&#234;ncia de consequ&#234;ncias vis&#237;veis n&#227;o elimina a culpa &#8212; apenas a aprofunda.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!9-Sr!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fdecc7a52-beca-46ed-b25f-8e5ad8467441_642x1000.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!9-Sr!, /__u/delfinsantos.substack.com/w_424, /__u/delfinsantos.substack.com/c_limit, /__u/delfinsantos.substack.com/f_webp, /__u/delfinsantos.substack.com/q_auto:good, /__u/delfinsantos.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fdecc7a52-beca-46ed-b25f-8e5ad8467441_642x1000.jpeg 424w, 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O sentido original da obra foi sendo dilu&#237;do ao longo do tempo por adapta&#231;&#245;es apressadas e leituras superficiais, mas isso n&#227;o a tornou datada &#8212; ao contr&#225;rio. O tema central e a forma como &#233; desenvolvido constroem uma alegoria duradoura, na qual muitos ainda se reconhecem.</p><p>A narrativa acompanha Victor Frankenstein, um cientista obcecado pela ideia de vencer a morte. Anos de estudo e experimenta&#231;&#227;o culminam na cria&#231;&#227;o de uma criatura feita a partir de restos humanos. Horrorizado com o resultado de sua ambi&#231;&#227;o, Victor abandona aquilo que criou e passa a conviver com as consequ&#234;ncias de um erro que j&#225; n&#227;o pode ser desfeito. Shelley reflete, com lucidez precoce, sobre soberba, responsabilidade e os limites morais do progresso humano.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!vEfX!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa66c581d-a39e-4b7c-870e-0c89e175e93d_465x650.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!vEfX!, /__u/delfinsantos.substack.com/w_424, /__u/delfinsantos.substack.com/c_limit, /__u/delfinsantos.substack.com/f_webp, /__u/delfinsantos.substack.com/q_auto:good, /__u/delfinsantos.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa66c581d-a39e-4b7c-870e-0c89e175e93d_465x650.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!vEfX!, 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Fonte inesgot&#225;vel de inspira&#231;&#227;o para filmes, s&#233;ries e livros, a pe&#231;a atravessou s&#233;culos justamente por tocar em conflitos que n&#227;o envelhecem. Aqui, o drama n&#227;o nasce da a&#231;&#227;o, mas da consci&#234;ncia.</p><p>A trama acompanha o pr&#237;ncipe Hamlet, que descobre a verdade perturbadora por tr&#225;s da morte do pai. Diante da revela&#231;&#227;o, surge o dilema: expor a abomina&#231;&#227;o e agir &#8212; ou hesitar, pensar, desconfiar de tudo, inclusive de si mesmo. Shakespeare constr&#243;i um retrato agudo da mente humana em conflito, onde vingan&#231;a, d&#250;vida e lucidez caminham lado a lado, tornando <em>Hamlet</em> menos uma hist&#243;ria sobre poder e mais um estudo profundo sobre a dificuldade de agir em um mundo moralmente corrompido.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!-Opr!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F620035e1-b04d-4e52-91a5-ee501af70001_352x482.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!-Opr!, /__u/delfinsantos.substack.com/w_424, /__u/delfinsantos.substack.com/c_limit, /__u/delfinsantos.substack.com/f_webp, /__u/delfinsantos.substack.com/q_auto:good, 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Ele serve para nomear situa&#231;&#245;es labir&#237;nticas, opressivas e absurdas, nas quais a l&#243;gica parece existir apenas para humilhar. Esse termo nasce, em grande medida, da atmosfera sufocante constru&#237;da em <em>O Processo</em>.</p><p>No romance, acompanhamos Josef K., que certa manh&#227; &#233; informado de que responde a um processo. Qual processo? Por qual crime? Julgado por quem? Nada disso lhe &#233; esclarecido &#8212; nem a ele, nem ao leitor. Do in&#237;cio ao fim, a narrativa submete ambos a uma engrenagem burocr&#225;tica irracional e desumanizante, onde regras existem sem origem vis&#237;vel e a culpa antecede qualquer acusa&#231;&#227;o. Kafka transforma a confus&#227;o em m&#233;todo e revela um mundo em que a opress&#227;o n&#227;o precisa de viol&#234;ncia expl&#237;cita para ser absoluta.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!jVmv!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffda72363-bdef-4594-b514-a76de8f14b72_1476x2126.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!jVmv!, /__u/delfinsantos.substack.com/w_424, /__u/delfinsantos.substack.com/c_limit, /__u/delfinsantos.substack.com/f_webp, /__u/delfinsantos.substack.com/q_auto:good, /__u/delfinsantos.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffda72363-bdef-4594-b514-a76de8f14b72_1476x2126.jpeg 424w, 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A hist&#243;ria come&#231;a com a manh&#227; comum de Gregor Samsa que, sem causa ou explica&#231;&#227;o, desperta transformado em um inseto gigante. O fato extraordin&#225;rio &#233; apresentado com naturalidade perturbadora, como se o absurdo fosse apenas mais um detalhe da rotina.</p><p>O centro do drama, por&#233;m, n&#227;o est&#225; na transforma&#231;&#227;o em si, mas na rea&#231;&#227;o da fam&#237;lia diante da nova condi&#231;&#227;o de Gregor. Incapaz de trabalhar e cumprir sua fun&#231;&#227;o social, ele passa a ser visto como peso e inc&#244;modo. Kafka traduz, com crueza, a fragilidade do valor humano em uma sociedade que mede dignidade pela utilidade.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!7o08!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fff1ffb02-4e5c-4915-8bbc-d0674ff34546_713x1000.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!7o08!, /__u/delfinsantos.substack.com/w_424, /__u/delfinsantos.substack.com/c_limit, /__u/delfinsantos.substack.com/f_webp, /__u/delfinsantos.substack.com/q_auto:good, /__u/delfinsantos.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fff1ffb02-4e5c-4915-8bbc-d0674ff34546_713x1000.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!7o08!, /__u/delfinsantos.substack.com/w_848, 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Dostoi&#233;vski &#233; insuper&#225;vel quando se trata de sondar o abismo psicol&#243;gico de seus personagens, expondo contradi&#231;&#245;es morais com uma profundidade quase sufocante.</p><p>A narrativa acompanha Rodion Rask&#243;lnikov, um estudante miser&#225;vel que vive em S&#227;o Petersburgo durante o Imp&#233;rio Czarista. Oprimido pela pobreza extrema e atormentado ao ver a irm&#227; ser empurrada para um casamento que nunca desejou, Rask&#243;lnikov decide tomar uma medida extrema. A partir desse ato, o romance se transforma em um mergulho doloroso na culpa, na racionaliza&#231;&#227;o do crime e na lenta corros&#227;o da consci&#234;ncia. Dostoi&#233;vski n&#227;o julga &#8212; observa, com rigor implac&#225;vel, o pre&#231;o interno de ultrapassar limites morais.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!WspI!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fffdb695b-97b2-4f7a-a1e9-d3009b2617e7_257x350.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!WspI!, /__u/delfinsantos.substack.com/w_424, /__u/delfinsantos.substack.com/c_limit, /__u/delfinsantos.substack.com/f_webp, /__u/delfinsantos.substack.com/q_auto:good, /__u/delfinsantos.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fffdb695b-97b2-4f7a-a1e9-d3009b2617e7_257x350.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!WspI!, 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R. R. Tolkien</strong></h3><p>Ap&#243;s chegar at&#233; aqui, pode causar estranhamento a presen&#231;a de um livro infantojuvenil na lista. O engano est&#225; em confundir simplicidade com superficialidade. Embora conte uma hist&#243;ria de aventura e a&#231;&#227;o, <em>O Hobbit</em> carrega li&#231;&#245;es elementares &#8212; coragem, lealdade e amizade &#8212; que permanecem v&#225;lidas em qualquer idade.</p><p>A narrativa acompanha Bilbo Bolseiro, um hobbit pacato e avesso a riscos que, inesperadamente, &#233; arrastado para uma jornada ao lado de an&#245;es em busca de um tesouro guardado por um drag&#227;o. Ao longo do caminho, Bilbo atravessa perigos, enfrenta criaturas hostis e descobre, quase a contragosto, uma coragem que desconhecia possuir. Tolkien constr&#243;i uma f&#225;bula sobre amadurecimento e responsabilidade, lembrando que toda grande odisseia come&#231;a quando algu&#233;m decide sair da seguran&#231;a do pr&#243;prio lar.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!LLvR!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3efb6dec-5d46-4326-957f-647619d5f947_1646x2560.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!LLvR!, /__u/delfinsantos.substack.com/w_424, /__u/delfinsantos.substack.com/c_limit, /__u/delfinsantos.substack.com/f_webp, /__u/delfinsantos.substack.com/q_auto:good, 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N&#227;o h&#225; ordem obrigat&#243;ria, nem ritmo imposto. Leia com aten&#231;&#227;o, volte quando for necess&#225;rio, permita-se discordar e permanecer em sil&#234;ncio diante de algumas p&#225;ginas.</p><p>Esses livros n&#227;o prometem conforto imediato, tampouco respostas f&#225;ceis. Eles exigem tempo, mas retribuem com algo raro: clareza. Se, ao final de uma leitura &#8212; ou no meio dela &#8212;, voc&#234; passar a olhar o mundo com mais desconfian&#231;a das certezas prontas e mais aten&#231;&#227;o ao que permanece oculto, ent&#227;o este recanto j&#225; ter&#225; cumprido sua fun&#231;&#227;o.</p><p><strong>Obrigado.</strong></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Adestra-te a ti mesmo!]]></title><description><![CDATA[A distopia que n&#227;o precisa de tiranos]]></description><link>https://delfinsantos.substack.com/p/adestra-te-a-ti-mesmo</link><guid isPermaLink="false">https://delfinsantos.substack.com/p/adestra-te-a-ti-mesmo</guid><dc:creator><![CDATA[Delfin Santos]]></dc:creator><pubDate>Thu, 25 Dec 2025 21:44:23 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/944a0e64-302a-4a04-8e0b-c889a618b7db_1200x630.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Admir&#225;vel Mundo Novo e 1984 s&#227;o cl&#225;ssicos dist&#243;picos marcados na mente de todos os leitores. As obras de Aldous Huxley e George Orwell, respectivamente, utilizam uma estrutura tradicional de prosa. Em 1984, a opress&#227;o se d&#225; a partir da onipresente vigil&#226;ncia do Estado sobre todas as nuances da sociedade; em Admir&#225;vel Mundo Novo, &#233; a ind&#250;stria de biotecnologia que oprime o indiv&#237;duo desde o seu desenvolvimento embrion&#225;rio. H&#225; tamb&#233;m outras obras menos populares que trazem uma abordagem alternativa de hist&#243;ria. Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, &#233; uma dessas obras que decidiu enxergar opress&#227;o e resist&#234;ncia de outra forma.</p><p>A antagoniza&#231;&#227;o desses dois elementos &#8211; resist&#234;ncia e opress&#227;o &#8211; formam a premissa b&#225;sica para o g&#234;nero. Essa divis&#227;o dicot&#244;mica tem o intuito de simplificar o conflito para um melhor entendimento do p&#250;blico. A constru&#231;&#227;o de narrativas complexos, ao contr&#225;rio, levam os consumidores a conclus&#245;es heterog&#234;neas sobre as obras. Esse fen&#244;meno pode vir a desagradar autores tradicionalistas que encaram suas obras como escritos sacros e imut&#225;veis.</p><p>Para ilustrar, observe o pante&#227;o de personagens de 1984: Winston Smith e J&#250;lia s&#227;o os oprimidos revoltosos e o Grande Irm&#227;o e o Partido s&#227;o os opressores atrozes. Fica claro para o leitor com quem ele deve se identificar e simpatizar; ao mesmo tempo, quem deve ser repugnado e recha&#231;ado. Mas em Fahrenheit 451, o autor deixou o ju&#237;zo de valor sobre os personagens a cargo do leitor.</p><p>A obra de Bradbury narra a hist&#243;ria de Guy Montag, um bombeiro que precisa lidar com um conflito interno ap&#243;s tomar consci&#234;ncia da doentia sociedade em que vive. Nesse mundo fantasioso, o corpo de bombeiros n&#227;o combate mais o fogo; pelo contr&#225;rio, s&#227;o eles quem iniciam os inc&#234;ndios. Inc&#234;ndios de livros.</p><p>Livros s&#227;o amplamente tidos como objetos de emancipa&#231;&#227;o, tanto intelectual quanto material. Se Bradbury quisesse seguir a mesma f&#243;rmula que Orwell usou, a incinera&#231;&#227;o de livros seria uma campanha promovida diretamente pelo Estado, mas esse n&#227;o &#233; o caso. Nessa comunidade na qual Montag est&#225; inserido, os livros tiveram sua relev&#226;ncia deliberadamente desconsiderada. Foi um processo org&#226;nico conduzido pelos pr&#243;prios &#8220;oprimidos&#8221;, cabendo ao Estado somente a continua&#231;&#227;o do anseio popular.</p><p>Apesar de ter sido escrito em 1953, Fahrenheit 451 tem uma acur&#225;cia not&#225;vel em acertar quest&#245;es sociais atuais. Al&#233;m da destrui&#231;&#227;o liter&#225;ria, um dos temas usado para enfatizar a ideia de disrup&#231;&#227;o &#233; a velocidade. O comum (e incentivado) &#233; trafegar em altas velocidades nas extensas rodovias lineares que cortam o pa&#237;s.</p><p>A obsess&#227;o pela velocidade nesse mundo dist&#243;pico serve como anestesia sensorial e desumaniza&#231;&#227;o. Adaptando para o cen&#225;rio atual, o conte&#250;do curto, acelerado e abundante acaba por causar o mesmo efeito que os autom&#243;veis. A velocidade impede que o indiv&#237;duo pense. O comportamento passa a ser autom&#225;tico e conduzido.</p><p>Outro v&#237;cio &#233; a fixa&#231;&#227;o por grandes televisores. Na casa do protagonista, a sua esposa &#8211; Mildred Montag &#8211; est&#225; planejando comprar o terceiro televisor para preencher a &#250;nica parede que ainda est&#225; &#8220;vazia&#8221;. Rodeada por telas, a mulher deixa de consumir para ser consumida pelo conte&#250;do propagado pela tev&#234;. Aqui, o paralelo &#233; n&#237;tido.</p><p>&#201; interessante observar essas e outras semelhan&#231;as com o movimento futurista. O Futurismo teve seu in&#237;cio no come&#231;o do s&#233;culo XX, exaltando a velocidade, a m&#225;quina, a juventude e a viol&#234;ncia como for&#231;a regeneradora. N&#227;o &#233; poss&#237;vel constatar com exatid&#227;o se Bradbury se inspirou ou foi influenciado por esse movimento, mas ap&#243;s essa apertada s&#237;ntese, &#233; poss&#237;vel tra&#231;ar alguns paralelos com a obra.</p><p>A velocidade e a m&#225;quina &#8211; autom&#243;veis e telas &#8211; j&#225; foram tratados a cima. Mas a parte mais profunda vem a seguir. A valoriza&#231;&#227;o da juventude &#8211; ou seja, daquilo que &#233; moderno; ou daquilo que se op&#245;e ao obsoleto &#8211; tem car&#225;ter bivalente. Ao mesmo tempo que almeja o novo, despreza o velho. O velho na obra &#233; representado justamente pela imortaliza&#231;&#227;o das palavras atrav&#233;s dos livros. Dostoievski, Goethe, Charles Dickens ou Machado de Assis s&#227;o vistos como &#226;ncoras do progresso. Representam o passado que deve ser superado (destru&#237;do, na verdade) para dar lugar ao futuro.</p><p>Para que o novo flores&#231;a, a utiliza&#231;&#227;o da viol&#234;ncia se faz necess&#225;ria. O Futurismo enxerga a for&#231;a como agente de transforma&#231;&#227;o cultural. Na obra, essa for&#231;a &#233; o fogo. Assim como a f&#234;nix que arde em chamas para renascer das pr&#243;prias cinzas, as piras de livros incendiados servem como um ritual de regenera&#231;&#227;o &#8211; n&#227;o para renascer melhor e mais forte, mas sim para alienar e despreocupar.</p><p>Como dito anteriormente, a irrelev&#226;ncia dada aos livros foi um &#237;mpeto deliberado do indiv&#237;duo. Ent&#227;o, ao queim&#225;-los os bombeiros n&#227;o est&#227;o oprimindo ningu&#233;m, est&#227;o apenas impedindo que as pessoas voltem atr&#225;s nas suas pr&#243;prias escolhas. A opress&#227;o emana do povo para o pr&#243;prio povo, numa esp&#233;cie de auto censura intencional. Obviamente, esse n&#227;o &#233; um processo consciente. O resultado factual se deve a escolha do caminho pior, por&#233;m mais f&#225;cil e confort&#225;vel.</p><p>A velocidade, o consumo, o comodismo, a viol&#234;ncia, tudo serve para entorpecer e minar o senso cr&#237;tico. Ao confundir paz mental com aus&#234;ncia de reflex&#227;o, o indiv&#237;duo permite ser amansado, tornando-se d&#243;cil e pouco afeto &#224; indaga&#231;&#227;o. E esse adestramento n&#227;o &#233; incisivo ou doloroso &#8211; sequer percept&#237;vel aos olhos menos atentos &#8211;, ele &#233; satisfat&#243;rio, gostoso, delicioso. &#8220;Adestra-te a ti mesmo com prazer&#8221;. Eis o perigo da auto censura: ela &#233; boa.</p><p>A situa&#231;&#227;o do mundo no qual Montag faz parte parece absurda. A total abdica&#231;&#227;o da leitura e a destrui&#231;&#227;o ritual&#237;stica de livros choca, mas tamb&#233;m causa um estranho fasc&#237;nio. Imaginar as consequ&#234;ncias cabais que as escolhas do presente tiveram no futuro &#233; o mais atraente nas distopias. Por&#233;m, esse apre&#231;o se deve ao fato de a admira&#231;&#227;o ser feita de um ponto de vista externo, apartado da hist&#243;ria.</p><p>Apesar do nosso interesse por elas, n&#227;o desejamos viver nessas sociedades. Esse g&#234;nero liter&#225;rio foi feito para ser apreciado a dist&#226;ncia, um exerc&#237;cio imaginativo elaborada. Todavia, a vida tem a curiosa mania de imitar a arte. Quantas ditaduras n&#227;o utilizaram mecanismos id&#234;nticos &#224;queles apresentados por George Orwell? Quantas muta&#231;&#245;es no genoma humano a ci&#234;ncia &#233; capaz de fazer como aqueles descritos por Aldous Huxley? Quantos livros j&#225; n&#227;o foram preteridos e descartados como mostrou Ray Bradbury? O que separa o nosso mundo do de Montag n&#227;o &#233; a imagina&#231;&#227;o: &#233; a intensidade.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://delfinsantos.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/delfinsantos.substack.com/subscribe"><span>Assine agora</span></a></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Olhe para o reflexo e reconheça o monstro]]></title><description><![CDATA[&#211;dio, o &#250;ltimo v&#237;nculo poss&#237;vel]]></description><link>https://delfinsantos.substack.com/p/olhe-para-o-reflexo-e-reconheca-o</link><guid isPermaLink="false">https://delfinsantos.substack.com/p/olhe-para-o-reflexo-e-reconheca-o</guid><dc:creator><![CDATA[Delfin Santos]]></dc:creator><pubDate>Mon, 22 Dec 2025 22:33:32 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/70343842-990e-4008-957f-9898e2552213_1200x630.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Nascemos sozinhos e morremos sozinhos. Nesse interregno, buscamos a companhia dos nossos semelhantes. Se obtivermos &#234;xito, conquistaremos amigos, formaremos fam&#237;lias e integraremos uma comunidade. Do contr&#225;rio, nos restar&#225; somente a eterna solid&#227;o. Dessa solid&#227;o, surgir&#225; o &#243;dio. &#211;dio n&#227;o somente daqueles que n&#227;o est&#227;o conosco, mas tamb&#233;m daqueles que nos furtaram a possibilidade de companhia. Esse &#243;dio nos consome como um inc&#234;ndio, incinerando todos os demais sentimentos. E quando n&#227;o h&#225; mais nada al&#233;m de &#243;dio para preencher o vazio da alma, o homem cede espa&#231;o ao monstro.</p><p>Frankenstein &#8211; cl&#225;ssico g&#243;tico de Mary Shelley &#8211; conta a hist&#243;ria de Victor Frankenstein que, diante do &#237;mpeto de superar a morte, cria um monstro usando peda&#231;os de corpos mortos. O cientista &#233; bem sucedido em sua empreitada, por&#233;m se arrepende do seu sucesso imediatamente. Fica enojado com sua cria&#231;&#227;o e promete destruir tal abomina&#231;&#227;o. Por&#233;m, o monstro consegue fugir antes que o seu criador o mate.</p><p>Frankenstein &#233; aterrorizante, mas n&#227;o pelos motivos comumente associados a obras de terror. Numa primeira an&#225;lise, a premissa do livro parece simples: h&#225; um her&#243;i que deve derrotar o vil&#227;o e um vil&#227;o que deve ser derrotado pelo her&#243;i. Victor &#233; o extraordin&#225;rio cientista que tomou consci&#234;ncia do perigo que sua cria&#231;&#227;o representa ao mundo. O monstro &#233; a aberra&#231;&#227;o ign&#243;bil que se satisfaz com o sofrimento alheio. Mas Shelley nunca definiu os personagens dessa forma; n&#243;s os fizemos.</p><p>Escolhemos o homem ao inv&#233;s do monstro. Nada mais natural: n&#243;s gostamos de Victor, porque ele &#233; igual a n&#243;s; repudiamos o monstro, porque ele &#233; diferente de n&#243;s. Por&#233;m, foi Victor que desde o come&#231;o enoja-se da criatura. Que desde o come&#231;o a despreza. Que desde o come&#231;o quer destru&#237;-la. Um deus s&#225;dico que arrependido de sua obra deseja lan&#231;ar sobre ela toda sua ira.</p><p>Nos &#233; reconfortante saber quem &#233; o her&#243;i e quem &#233; o vil&#227;o. Mas n&#227;o o fazemos baseados em suas a&#231;&#245;es. O fazemos baseados em nossas concep&#231;&#245;es subjetivas. O fazemos observando sua monstruosidade exterior. Nos &#233; mais f&#225;cil observar a corrup&#231;&#227;o da carne do que da alma. O monstro nasceu bom, mas o homem o corrompeu.</p><p>Mesmo que o monstro tenha nascido imaculado, livre da deprava&#231;&#227;o humana, isso n&#227;o foi o suficiente para evitar a sua discrimina&#231;&#227;o. Para olhos alheios, a carne &#233; mais importante que a alma. Depois de fugir de Victor, o monstro se aloja num celeiro e come&#231;a a observar uma fam&#237;lia de fazendeiros que ali vivia. Das observa&#231;&#245;es, letrou-se. Dos restos, alimentou-se. Das pessoas, afei&#231;oou-se.</p><p>Ap&#243;s dias vivendo inc&#243;gnito no celeiro, o monstro decide encarar diretamente a fam&#237;lia. Primeiro, se aproxima do av&#244;. O fato dele ser cego permite que, pela primeira vez, o monstro n&#227;o seja julgado pela sua apar&#234;ncia. Em seguida, sente-se confiante para se aproximar do restante da parentada. Mas o resultado dessa intera&#231;&#227;o serviu apenas para refor&#231;ar o car&#225;ter preconceituoso inerente a natureza humana. A apar&#234;ncia repugnante do monstro o torna automaticamente um maldito indigno aos olhos daquela fam&#237;lia.</p><p>Expulso da choupana, o monstro volta a vagar sozinho, isolado, exclu&#237;do. Por&#233;m, o &#243;dio ainda n&#227;o o havia tomado de assalto por completo, havia um fio de esperan&#231;a para que o monstro n&#227;o se transformasse naquilo que todos pensavam. Para evitar a quase inevit&#225;vel contamina&#231;&#227;o da alma, o monstro precisa encarar o seu maligno criador pela segunda vez. N&#227;o tem a pretens&#227;o de mat&#225;-lo, mas fazer-lhe um pedido derradeiro.</p><p>O homem tem a mulher. O c&#227;o, a cadela. O cavalo, a &#233;gua. O monstro, entretanto, n&#227;o tem ningu&#233;m. Talvez com uma companhia, o seu &#243;dio borbulhante se arrefe&#231;a e o fardo da pr&#243;pria natureza se torne mais leve. Que da costela do monstro Victor forme uma companheira; e traga-a ao monstro.</p><p>Por&#233;m, o remorso de Victor por ter blasfemado contra a divina cria&#231;&#227;o apagou a chama de esperan&#231;a do monstro. Em verdade, o incontest&#225;vel pecado do cientista n&#227;o foi subverter a morte, mas sim condenar o monstro a vagar sobre a terra em absoluta solid&#227;o. Agora, s&#243; h&#225; &#243;dio para preencher sua alma. O monstro se torna aquilo que nunca fora: um monstro.</p><p>Ambos se separam novamente, mas antes de partir o monstro lhe faz uma promessa. Destruir&#225; tudo que Victor ama e tornar&#225; a vida do criador t&#227;o miser&#225;vel como fez com a sua. Desse momento em diante, o cientista e a criatura iniciam uma persegui&#231;&#227;o at&#233; a morte. O monstro cumpre com a sua promessa. Victor perde fam&#237;lia, noiva, amigo e qualquer possibilidade de vida comum. Ironicamente, o criador acaba por ter o mesmo destino da criatura: a absoluta solid&#227;o.</p><p>Mas nesse ponto da hist&#243;ria, o &#243;dio n&#227;o se resume somente &#224; mera destrui&#231;&#227;o: &#233; o &#250;nico v&#237;nculo que une criador e criatura, deus e obra, homem e monstro. A &#250;ltima esp&#233;cie de companhia que restou para os dois desgra&#231;ados. Quando todos os outros sentimentos sucumbem e quando a esperan&#231;a se esvai, o &#243;dio se transforma no &#250;ltimo basti&#227;o da alma.</p><p>O desfecho da hist&#243;ria ocorre em algum local in&#243;spito no polo norte, num navio que l&#225; estava encalhado. Victor, exausto pela persegui&#231;&#227;o, &#233; encontrado no gelo e levado at&#233; a embarca&#231;&#227;o pelos marujos. L&#225;, o cientista conta a sua hist&#243;ria de vida ao capit&#227;o que, ap&#243;s ouvi-la, deixa o moribundo para descansar a s&#243;s. Nesse instante, o monstro invade a embarca&#231;&#227;o e se verga sobre seu vulner&#225;vel criador. Nas palavras ditas pela criatura, n&#227;o h&#225; perd&#227;o, esperan&#231;a, reden&#231;&#227;o ou acusa&#231;&#227;o. O &#243;dio se extinguiu, n&#227;o porque foi substitu&#237;do, mas porque j&#225; consumiu tudo que havia.</p><p>O monstro se despede de Victor e, pela &#250;ltima vez, parte lan&#231;a-se pela janela da cabine e some na imensid&#227;o do &#193;rtico. Diferentemente do que poderia se esperar de obras do g&#234;nero, a catarse do livro se d&#225; de forma sutil. N&#227;o h&#225; um confronto final, nem triunfo, apenas a absoluta solid&#227;o.</p><p>Um homem inteligente que condenou sua cria&#231;&#227;o ao isolamento for&#231;ado. Um monstro bondoso que carregou o rancor amargo por seu criador. Um homem monstro. Um monstro homem. Ambos perdidos na solid&#227;o e afogados no &#243;dio. Frankenstein n&#227;o &#233; uma mera hist&#243;ria de monstros. &#201; sobre a facilidade de chamarmos de monstruoso tudo aquilo que &#233; diferente.</p><p>Quanto de Victor ou quanto de monstro h&#225; em n&#243;s, somente a nossa pr&#243;pria consci&#234;ncia pode dizer.</p><div><hr></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://delfinsantos.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/delfinsantos.substack.com/subscribe"><span>Assine agora</span></a></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Ninguém sai ileso de um amor verdadeiro]]></title><description><![CDATA[O pre&#231;o por amar absolutamente]]></description><link>https://delfinsantos.substack.com/p/voce-nunca-vai-sair-ileso-de-um-amor</link><guid isPermaLink="false">https://delfinsantos.substack.com/p/voce-nunca-vai-sair-ileso-de-um-amor</guid><dc:creator><![CDATA[Delfin Santos]]></dc:creator><pubDate>Sun, 21 Dec 2025 18:08:26 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/11c08de3-e413-4e1c-82b4-9d7d480b3b71_400x400.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="pullquote"><p>&#8220;O amor &#233; um p&#225;ssaro rebelde que ningu&#233;m pode domar.&#8221; </p></div><p>&#201; dessa forma que come&#231;a umas das &#243;peras mais ic&#244;nicas da hist&#243;ria &#8212;Carmen, de Georges Bizet. O trecho destacado &#233; da can&#231;&#227;o <em>Habanera,</em> que aparece no come&#231;o da apresenta&#231;&#227;o assim que Carmen entra em cena. A &#225;ria visa transmitir &#224; audi&#234;ncia o esp&#237;rito da personagem. Carmen &#233; a manifesta&#231;&#227;o do amor. O amor que n&#227;o se submete. O amor que permanece ou vai embora quando quiser. O amor livre.</p><p>Com essa apresenta&#231;&#227;o da personagem, a hist&#243;ria passa a decorrer ao redor desse amor carmeniano. Na &#243;pera, cada personagem representa uma forma diferente de amar. Don Jos&#233;, soldado que abandona a farda para ter Carmen em seus bra&#231;os, personifica o amor possessivo e desesperado. Micaela, jovem camponesa, representa o amor tradicional e contido; o oposto ao da protagonista. Por fim, Escamillo: o amor fascinante e sedutor. &#201; paralelo ao de Carmen e oposto ao de Jos&#233;.</p><p>No &#250;ltimo ato, Carmen morre pelas m&#227;os de Don Jos&#233;. Assim como em vida, a protagonista recusa a negar seus princ&#237;pios mesmo que haja contra o seu pesco&#231;o uma faca &#8212; a qual representa a vontade de domar o p&#225;ssaro rebelde. Ela n&#227;o foge, n&#227;o negocia, tampouco cede. Morre por escolha: a morte ao inv&#233;s da submiss&#227;o.</p><p>N&#227;o h&#225; her&#243;is nem vil&#245;es na obra de Bizet. Tudo que h&#225; &#233; amor nas suas diversas facetas. At&#233; mesmo o sofrimento causado por Carmen a Jos&#233; n&#227;o &#233; por pura vilania. Na realidade, mostra o outro lado do amor: o sofrimento. Esse axioma tamb&#233;m pode ser observado na obra do escritor alem&#227;o Johann Goethe, no seu mais c&#233;lebre romance.</p><div><hr></div><p>Em &#8220;Os sofrimentos do jovem Werther, acompanhamos a troca de cartas entre Werther e seu amigo, Guilherme. O mo&#231;o viajou at&#233; o interior para cuidar de assuntos familiares. L&#225;, o personagem afei&#231;oa-se &#224; cidade e ao seu ar buc&#243;lico. Em determinada ocasi&#227;o, o protagonista conhece Carlota, uma mulher madura j&#225; comprometida.</p><p>Da mesma forma que Dante enxergava Beatriz<a href="#_ftn1">[1]</a> como divina, Werther colocava Carlota na mais alta considera&#231;&#227;o. Durante a obra, o jovem narra a Guilherme sua rotina ao lado da mo&#231;a. De personalidade emocional, o protagonista enfrenta dificuldades em transmitir ao amigo a magn&#237;fica personalidade de Carlota e as emo&#231;&#245;es que ela desperta.</p><p>Por&#233;m, esse era um amor fadado. Quando o noivo de Carlota &#8211; Alberto &#8211; retorna de sua viagem, o jovem Werther v&#234; seu mundo se desfazer diante dos seus olhos. Aquilo que ele e Carlota sentiam um pelo outro era real, n&#227;o uma ilus&#227;o criada na cabe&#231;a de um jovem emocionalmente sens&#237;vel. Mas Carlota n&#227;o poderia preterir Alberto em favor de Werther. Pois a sua moral e bom cora&#231;&#227;o eram aquilo que a definia. Trair o esposo seria como negar a pr&#243;pria ess&#234;ncia.</p><p>Na perspectiva de Werther, o amor que Alberto dava &#224; esposa era insuficiente. O jovem achava Carlota indigna desse amor. Mas o mo&#231;o nunca externalizou esse sentimento, visto que Alberto, apesar de possuir para si a mulher que Werther est&#225; doente por ter, era um amigo que sempre o respeitou e o estimou. Contudo, o sentimento que somente ele &#8212; Werther &#8212;seria o &#250;nico capaz de amar Carlota adequadamente nunca se dissipou.</p><p>Nesse cen&#225;rio, os personagens passam a viver um tri&#226;ngulo amoroso. Mas Werther, influenciado por Guilherme, decide partir e abandonar a mulher amada para cessar seu sofrimento. Maquinou seu plano sem conhecimento de Carlota e partiu sem se despedir, mas com a promessa de retornar a v&#234;-la.</p><p>Werther passa ent&#227;o a lutar contra os seus sentimentos. Embora tenha conseguido um trabalho para se distrair, o jovem n&#227;o conseguia afastar Carlota de sua mente. O estopim que o fez voltar &#224; Carlota foi o epis&#243;dio no qual sofreu uma exposi&#231;&#227;o vexat&#243;ria em um baile. Convidado por um pr&#237;ncipe pelo qual se afei&#231;oou, Werther se viu zombado e menosprezado pela alta aristocracia da regi&#227;o.</p><p>Ao contr&#225;rio do que ele pensava, voltar &#224; cidade na qual havia partido a meses n&#227;o acalmou o seu cora&#231;&#227;o revolto. Defrontado diariamente pelo con&#250;bio amoroso de Carlota e Alberto, o mo&#231;o passa a desenvolver um quadro depressivo.</p><p>Nesse ponto da hist&#243;ria, Werther j&#225; est&#225; hermeticamente isolado no seu pr&#243;prio sofrimento. Ele s&#243; consegue pensar em uma &#250;nica sa&#237;da: suicidar-se. O ato capital &#233; visto como a &#250;nica forma eficaz para acabar com seu sofrimento. Em condi&#231;&#245;es normais, o sofrimento presente poderia se dissipar com o passar do tempo. Mas Werther n&#227;o deseja parar de amar Carlota. Seu amor por ela &#233; infind&#225;vel, atemporal e, de certo modo, transcendental.</p><p>Ao suicidar-se, Werther morreria em amor e dessa forma seu amor por Carlota seria eterno. Isso, todavia, &#233; uma resolu&#231;&#227;o pr&#243;pria da sua cabe&#231;a &#8212; cora&#231;&#227;o, para ser mais preciso &#8212;, pois os demais personagens do romance repudiam-na, como fica claro em seu leito de morte. Todavia, o oposto ocorre com uma das pe&#231;as mais ic&#244;nicas sobre o amor: Romeu e Julieta, de William Shakespeare.</p><p>Em apertada s&#237;ntese, Romeu e Julieta nutrem um amor proibido que os impedem de viver sua paix&#227;o integralmente. Em determinado momento da pe&#231;a, Romeu alcan&#231;a Julieta e a v&#234; desacordada. Achando que sua amada havia morrido, apunha-la a si pr&#243;prio num gesto r&#225;pido. Em seguida, Julieta acorda do seu suposto sono da morte. Ao ver o rapaz morto no ch&#227;o, decide que n&#227;o pode continuar a viver uma vida sem ele. Esses atos de sacrif&#237;cio diante do sofrimento perp&#233;tuo s&#227;o tidos como belos e valentes.</p><p>Nas tr&#234;s obras, todos os protagonistas morrem por amor &#8211; melhor dizendo, morrem pelo sofrimento causado pelo amor. Carmen morre porque Don Jos&#233; n&#227;o aguenta o sofrimento de n&#227;o poder dom&#225;-la. Werther morre porque n&#227;o aguenta o sofrimento de ver sua amada Carlota nos bra&#231;os de Alberto. Romeu e Julieta morrem porque n&#227;o aguentam o sofrimento de viverem em um mundo onde o outro n&#227;o vive.</p><p>Como demonstraram os personagens por meio de suas a&#231;&#245;es, o amor n&#227;o &#233; simplesmente amar. O amor &#233; um conceito complexo que pode se manifestar de in&#250;meras formas. O mesmo amor traz euforia para um, pode trazer sofrimento ao outro. O amor de Jos&#233; por Carmen f&#234;-lo mat&#225;-la. O amor de Alberto por Carlota matou o jovem Werther. E o amor de Romeu e Julieta mataram-nos.</p><p>Por isso, o sofrimento &#233; inerente ao amor &#8211; e o amor &#233; inerente ao sofrimento. Porquanto, amar, amar incondicionalmente algu&#233;m, significa expor-se ao perigo de sofrer por tempos a fio por causa desse amor. Do mesmo modo, aquele amor albertoniano tamb&#233;m n&#227;o ser&#225; uno, ser&#225; somente menos v&#237;vido e intenso.</p><p>Amar, como mostram as trag&#233;dias citadas, n&#227;o engloba somente a felicidade a qual a pessoa amada &#233; fonte. Amar &#233; se entregar absolutamente ao extraordin&#225;rio, mesmo que isso implique expor-se &#224;s mais diversas desgra&#231;as comin&#225;veis. Don Jos&#233; amava Carmen totalmente. Werther morreu sem nunca arrefecer seu amor por Carlota. Julieta sequer hesitou em tirar a pr&#243;pria vida para que seu amor por Romeu transcendesse a vida.</p><p>No fim, todos foram at&#233; as &#250;ltimas consequ&#234;ncias pelo amor. Amaram t&#227;o absolutamente que foi justamente essa a causa de sua pr&#243;pria morte. Amaram t&#227;o absolutamente que amor e sofrimento se amalgamaram em um s&#243; sentimento. Amaram t&#227;o absolutamente que o mundo n&#227;o mais comportava o que sentiam. Sofreram por amar. Amaram sem medo. E eternizaram seu amor e sofrimento.</p><div><hr></div><p><a href="#_ftnref1">[1]</a> Beatriz &#233; a personagem que guia Dante pelo Para&#237;so em A Divina Com&#233;dia.</p><div><hr></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://delfinsantos.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/delfinsantos.substack.com/subscribe"><span>Assine agora</span></a></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Quarta-feira]]></title><description><![CDATA[Uma manh&#227; normal. Uma not&#237;cia ins&#243;lita.]]></description><link>https://delfinsantos.substack.com/p/quarta-feira-oito-e-vinte-e-cinco</link><guid isPermaLink="false">https://delfinsantos.substack.com/p/quarta-feira-oito-e-vinte-e-cinco</guid><dc:creator><![CDATA[Delfin Santos]]></dc:creator><pubDate>Wed, 17 Dec 2025 22:00:40 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/59319743-9ce2-4a12-bcce-70792f463773_1200x630.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Quarta-feira, oito e vinte e cinco da manh&#227;. C&#233;u claro, sem nuvens. Lucas faz trinta e seis anos hoje. Sequer lembrou. Est&#225; preocupado e nervoso. Precisa fazer uma apresenta&#231;&#227;o no trabalho. Essa vai mudar o rumo da empresa. &#8220;O cliente est&#225; garantido, basta n&#227;o fuder com tudo&#8221;. Olha o celular. Mensagem da esposa. &#8220;Os pap&#233;is est&#227;o...&#8221;. Sem tempo. Misto-quente na boca e caf&#233; na m&#227;o. P&#245;e a mochila, pega as chaves e sai de casa. O porteiro d&#225; bom dia. Lucas acena. Sem tr&#226;nsito, mas o p&#233; est&#225; fundo no acelerador. &#8220;Os pap&#233;is... que pap&#233;is?&#8221;. Estaciona o carro. Sobe o elevador. &#8220;Sr. Souza, est&#227;o esperando pelo senhor na sala sete&#8221;. Passo r&#225;pido. Na sala, uma conversa casual. &#8220;Oito minutos atrasado. Tudo bem, eu consigo&#8221;. Notebook conectado, projetor ligado. A apresenta&#231;&#227;o come&#231;a. A express&#227;o do cliente &#233; indecifr&#225;vel. O chefe parece satisfeito. Lucas gagueja. A plateia de nove se entreolha. Lucas se recupera. A apresenta&#231;&#227;o acaba. O cliente d&#225; um sorriso discreto. Todos apertam as m&#227;os. &#8220;Darei a resposta definitiva segunda, mas fiquei muito satisfeito com o que vi. Parab&#233;ns, Sr. Souza&#8221;. Todos saem da sala de reuni&#227;o, exceto Lucas. Uma tonelada acaba de sair dos seus ombros. P&#245;e o note de volta na mochila e apaga a luz ao sair. Antes de ir a sua esta&#231;&#227;o de trabalho, passa na copa para servir-se de um caf&#233;. Sentado ante sua mesa, abre seu correio eletr&#244;nico. Chegaram dez novos e-mails. Propostas de emprego. Promo&#231;&#245;es de fim de ano. Newsletter de investimentos. Notifica&#231;&#227;o judicial. &#8220;Notifica&#231;&#227;o judicial?&#8221;. &#8220;Prezado Sr. Lucas Souza, Venho por meio desta informa-lo sobre o processo de div&#243;rcio iniciado pela minha cliente, Sra. Camila Ferraz, sua ex-esposa. Serei eu o advogado respons&#225;vel por representa-la. Os documentos referentes ao div&#243;rcio foram deixados em sua caixa de correio. Pe&#231;o que os leia e os assine. Cordialmente, Dr. Aureliano Falc&#227;o&#8221;. O cora&#231;&#227;o palpita r&#225;pido. A tonelada voltou. Onze mensagens n&#227;o lidas. &#8220;N&#227;o consigo continuar com isso, Lucas. Eu quero o div&#243;rcio. N&#227;o entre em contato comigo. O que voc&#234; precisar, fale com o meu advogado. J&#225; tomei minha decis&#227;o. N&#227;o h&#225; mais nada a discutir. Vou continuar na casa dos meus pais at&#233; o fim do div&#243;rcio. N&#227;o d&#234; as caras aqui! A Bruna vai a&#237; amanh&#227; pegar o resto das minhas coisas. Respeite o meu sil&#234;ncio pelo menos dessa vez. Os pap&#233;is est&#227;o na caixa de correio&#8221;. O casal havia brigado. Ele quer uma fam&#237;lia grande. Ela quer uma bolsa em Saint Aldric. Foram doze anos juntos. Mais do que a maioria. Mas o relacionamento est&#225; gasto. Camila pediu tempo para pensar. Lucas aceitou relutante. &#8220;Mas por que agora?&#8221;. Choque. Raiva. Culpa. Tristeza. Lucas pede para sair mais cedo. O chefe autoriza. Desce o elevador. O tr&#226;nsito est&#225; horr&#237;vel. Treze quil&#244;metros de congestionamento. &#8220;Preciso de um advogado. Um dos bons. Quanto ela est&#225; pedindo? Porra! N&#227;o devia ter casado com comunh&#227;o total&#8221;. O porteiro acena. Lucas ignora. Vai direto &#224; caixa de correio. Um envelope pardo. Gordo. Seu nome e seu endere&#231;o. Sem equ&#237;vocos. Entra em casa. Abre o envelope e joga os documentos na mesa. &#8220;Caro Sr. Souza, segue a proposta d...&#8221;. &#8220;O presente contrato tem co...&#8221;. &#8220;... segundo o &#167;1&#186; do art. 2&#186;, o senhor fica respons...&#8221;. A cabe&#231;a lateja. Lucas &#233; bom com n&#250;meros e proje&#231;&#245;es, n&#227;o com cl&#225;usulas e artigos. Levanta. &#8220;Eu preciso de um advogado. Mas quem?&#8221; Um amigo dos tempos de faculdade. Foi seu padrinho de casamento. Rafael. Se divorciou faz uns anos. Vive uma vida de solteir&#227;o. &#8220;E a&#237;, Rafa, tranquilo? A Camila e eu brigamos. Ela quer o div&#243;rcio agora. N&#227;o sei o que fazer. Preciso de um advogado.&#8221; Dois tiques cinzas. Lucas sai para o jardim. A manh&#227; de c&#233;u claro e sem nuvens pareceu escurecer. O al&#237;vio do come&#231;o da manh&#227; sumiu. A dor de cabe&#231;a n&#227;o. O celular vibra. N&#227;o era o Rafael. &#8220;Mensagem de Dr. Falc&#227;o: Bom dia, Sr. Souza. Gostaria de saber se o senhor j&#225; assinou os pap&#233;is. A minha cliente quer acabar com o processo o mais r&#225;pido poss&#237;vel&#8221;. Os pap&#233;is continuam na mesa. N&#227;o h&#225; nenhuma caneta a vista. &#8220;Para o inferno com sua pressa!&#8221;. O celular vibra. &#8220;Mensagem de Rafael: Fala Luc&#227;o! Mulher &#233; assim mesmo, s&#227;o todas confusas e indecisas. Num dia quer uma coisa, no outro j&#225; mudou de ideia. Vou passar o contato do advogado que fez o meu div&#243;rcio. Depois que tudo acabar, vamos tomar um gelada e rir de tudo isso&#8221;. A tens&#227;o se dissipa um pouco. Lucas adiciona o contato. Dr. Augusto Val&#234;ncia. Liga ao inv&#233;s de mandar mensagem. Uma voz doce ressoa no outro lado da linha. &#8220;Escrit&#243;rio Pinto &amp; Pinto Associados, bom dia&#8221;. &#8220;Bom dia, gostaria de falar com o Dr. Val&#234;ncia, Augusto Val&#234;ncia&#8221;. &#8220;Um segundo&#8221;. Toca uma melodia tosca de violino. &#8220;Dr. Augusto Val&#234;ncia, bom dia&#8221;. &#8220;Bom dia. Meu nome &#233; Lucas Souza. Um amigo meu, Rafael Mendes, indicou o senhor para cuidar do meu div&#243;rcio&#8221;. Sil&#234;ncio. &#8220;Ah, sim, me lembro do Rafael. Caso complexo o dele. Heran&#231;a, bens no exterior, a&#231;&#245;es na bolsa. De todo modo, Sr. Souza, me conte em detalhes o seu caso&#8221;. Uma hora e quatorze minutos. Levou mais tempo do que pensava, mas o Dr. Val&#234;ncia aceitou o servi&#231;o. Pediu a papelada e o contato do Dr. Falc&#227;o. Disse para Lucas n&#227;o se preocupar. &#8220;Fa&#231;o isso a quinze anos&#8221;. Rafael conseguiu sair bem do div&#243;rcio. &#8220;Espero que eu tamb&#233;m&#8221;.</p>]]></content:encoded></item></channel></rss>