<script data-pm-proxy="intercept"></script><?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[manual do despropósito]]></title><description><![CDATA[essa newsletter não vai te ensinar a viver. eu prometo.]]></description><link>https://desproposito.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!LrvZ!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F99c9b47c-cd6d-4c53-896c-8de6a4c779cf_1024x1024.png</url><title>manual do despropósito</title><link>https://desproposito.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Thu, 03 Sep 2026 10:56:15 GMT</lastBuildDate><atom:link href="/__u/desproposito.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Kahel Santos]]></copyright><language><![CDATA[pt]]></language><webMaster><![CDATA[desproposito@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[desproposito@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Manual do Despropósito]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Manual do Despropósito]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[desproposito@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[desproposito@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Manual do Despropósito]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[Como decepcionar sua professora do primeiro ano]]></title><description><![CDATA[Precisou de um caf&#233; que sai de dentro de um bicho pra eu entender o que eu devia ter respondido aos sete anos.]]></description><link>https://desproposito.substack.com/p/como-decepcionar-sua-professora-do</link><guid isPermaLink="false">https://desproposito.substack.com/p/como-decepcionar-sua-professora-do</guid><dc:creator><![CDATA[Manual do Despropósito]]></dc:creator><pubDate>Tue, 04 Aug 2026 13:39:08 GMT</pubDate><enclosure url="https://api.substack.com/feed/podcast/209784625/eab6382bf77b565678a7e277f81e22da.mp3" length="0" type="audio/mpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Minha namorada me contou que existe um caf&#233; que sai de dentro de um bicho.</p><p>Assim, no meio de outro assunto. Do jeito que se comenta que vai chover.</p><p>&#8220;Sai por onde?&#8221;</p><p>&#8220;Por onde voc&#234; t&#225; imaginando.&#8221;</p><p>Fui pesquisar porque sou um homem s&#233;rio. Chama kopi luwak. O bicho &#233; a civeta, um mam&#237;fero com cara meio de gato meio de gamb&#225;. Ele come o gr&#227;o, digere, e o que sobra a gente cata, lava, torra e vende por at&#233; dois mil d&#243;lares o quilo. Uma x&#237;cara em Londres passa de cinquenta libras.</p><p>Cinquenta libras.</p><p>Numa bebida que &#233;, me perdoa a precis&#227;o, coc&#244; lavado.</p><div><hr></div><p>Fiquei um tempo bem maior do que eu queria admitir pensando no primeiro cara.</p><p>Porque toda ideia dessas teve um primeiro cara. Algu&#233;m olhou pro coc&#244; de um bicho do mato e falou &#8220;tem caf&#233; a&#237; e eu vou tomar&#8221;. Que semana dif&#237;cil esse homem tava tendo. Que sequ&#234;ncia de coisa dando errado.</p><p>A&#237; eu fui atr&#225;s pra descobrir quem foi.</p><p>E parou de ser engra&#231;ado.</p><p>Foram os indon&#233;sios, s&#233;culo XVIII. Os holandeses montaram planta&#231;&#227;o l&#225; e proibiram o nativo de colher, pra tomar em casa, o caf&#233; que ele mesmo plantava. A&#237; o pessoal come&#231;ou a catar do ch&#227;o o gr&#227;o que a civeta largava. Era o &#250;nico caf&#233; que ningu&#233;m tinha proibido, porque ningu&#233;m tinha imaginado que fossem querer.</p><p>Duzentos anos depois isso t&#225; numa x&#237;cara de porcelana em Londres custando um aluguel de kitnet.</p><p>Hist&#243;ria &#233; assim. Voc&#234; entra pra rir e sai devendo.</p><div><hr></div><p>Voltando.</p><p>Tem um detalhe que me pegou mais que o pre&#231;o. O kopi luwak nem &#233; o melhor caf&#233; do mundo. Os cara que entendem dizem que ele &#233; &#8220;surpreendentemente suave&#8221;.</p><p>&#8220;Surpreendentemente suave&#8221; &#233; o &#8220;ele &#233; gente boa&#8221; dos caf&#233;.</p><p>Ningu&#233;m ajoelha. Ningu&#233;m chora. Tem gente do pr&#243;prio ramo falando que d&#225; pra achar caf&#233; t&#227;o bom quanto sem precisar passar por dentro de bicho nenhum.</p><p>Ent&#227;o n&#227;o &#233; o gosto que segura aquele pre&#231;o todo. &#201; o curr&#237;culo.</p><p>O gr&#227;o passou por poucas e boas. Atravessou um bicho inteiro por dentro. Voltou pra contar. &#201; um gr&#227;o com hist&#243;ria de supera&#231;&#227;o. Um gr&#227;o que daria palestra motivacional.</p><p>E o caf&#233; normal, que s&#243; foi plantado, colhido e torrado, custa uma mixaria. N&#227;o porque &#233; ruim. Porque &#233; sem gra&#231;a. Cad&#234; o drama. Cad&#234; a virada. Ningu&#233;m paga caro por uma vida sem enredo, mesmo quando ela &#233; boa.</p><p>Foi a&#237; que eu lembrei de onde eu conhecia essa tabela de pre&#231;o.</p><div><hr></div><p>A gente usa ela com gente. E come&#231;a cedo, ainda na escola.</p><p>A primeira pegadinha que aplicam numa crian&#231;a brasileira n&#227;o &#233; o bicho-pap&#227;o. &#201; uma pergunta de voz doce: o que voc&#234; quer ser quando crescer?</p><p>Parece boba. N&#227;o &#233;. Ela j&#225; vem armada. Parte do princ&#237;pio de que voc&#234; vai ser alguma coisa. Uma coisa com nome. De prefer&#234;ncia com diploma.</p><p>Nunca uma crian&#231;a levantou a m&#227;o e falou &#8220;quero ser um homem comum, tia, satisfeito, com press&#227;o boa&#8221;. Se falasse, chamavam a m&#227;e. Achavam que tinha alguma coisa errada em casa.</p><p>E a pergunta n&#227;o vai embora nunca. </p><p>Aos sete &#233; &#8220;o que voc&#234; quer ser quando crescer&#8221;.</p><p>Aos dezessete vira &#8220;j&#225; sabe o que vai fazer&#8221;.</p><p>Aos vinte e sete, &#8220;e a&#237;, quais os planos&#8221;.</p><p>Aos trinta e sete, &#8220;e a&#237;, novidades?&#8221;. Que finge ser papo de elevador mas &#233; a mesma bosta de sempre.</p><p>Todo mundo esperando sua resposta sair no coc&#244; da civeta.</p><div><hr></div><p>Vi um filme desses dias e um personagem falou uma coisa que n&#227;o desgrudou mais de mim: ningu&#233;m ensina a gente a sonhar pequeno.</p><p>E n&#227;o ensina mesmo. Sonho, no pacote que me venderam, s&#243; vinha tamanho fam&#237;lia. Mudar de pa&#237;s. Largar tudo. Virar outra pessoa, de prefer&#234;ncia com uma cicatriz bonita pra mostrar depois.</p><p>Ter&#231;a-feira tranquila n&#227;o contava como sonho. Contava como falta de ambi&#231;&#227;o, que no Brasil &#233; quase falta de car&#225;ter.</p><p>Ent&#227;o l&#225; vamos n&#243;s arrumar conflito, porque paz n&#227;o vira roteiro, n&#227;o dos bons. Enfiando um bicho cag&#227;o na pr&#243;pria vida pra ela valer o quilo.</p><p>(Sim, t&#244; escrevendo um texto inteiro reclamando que n&#227;o tenho hist&#243;ria pra contar e transformando isso numa hist&#243;ria. Essa newsletter &#233; basicamente esse golpe. Toda semana. Segue.)</p><div><hr></div><p>Mas o que me pega de verdade &#233; uma coisa boba de t&#227;o simples.</p><p>Nenhuma das pessoas que eu amo &#233; extraordin&#225;ria.</p><p>Nenhuma. Fico procurando e n&#227;o acho.</p><p>Minha m&#227;e nunca deu palestra. Meu pai n&#227;o tem arco de reden&#231;&#227;o, tem presta&#231;&#227;o. Meus amigos n&#227;o largaram tudo. Meus amigos t&#227;o segurando tudo, que &#233; bem mais dif&#237;cil e n&#227;o vira document&#225;rio da Netflix.</p><p>E eu nunca gostei de nenhum deles pelo curr&#237;culo.</p><p>Gosto pela tosse. Pelo jeito de rir. Pelo caf&#233; passado no coador de pano que fica marrom pra sempre e ningu&#233;m joga fora porque &#8220;&#233; ele que faz o caf&#233; ficar bom&#8221;, frase que cientista nenhum confirmou e nenhuma fam&#237;lia precisou que confirmasse. Caf&#233; de garrafa t&#233;rmica de plant&#227;o na mesa. Feito por algu&#233;m de chinelo que acordava antes de todo mundo.</p><p>Caf&#233; sem curr&#237;culo nenhum.</p><p>E era em volta dele que a casa toda acontecia. Visita chegava e antes de sentar j&#225; ouvia &#8220;aceita um cafezinho?&#8221;, que no interior &#233; lei municipal.</p><p>Esse caf&#233; criou todo mundo que eu amo.</p><div><hr></div><p>Amor nunca pediu curr&#237;culo pra ningu&#233;m. Quem pede &#233; o resto.</p><p>E a&#237; n&#227;o fecha a conta. Se nenhuma pessoa que eu amo precisou ser extraordin&#225;ria pra eu amar, onde foi que eu peguei a ideia de que eu preciso?</p><div><hr></div><p>Ent&#227;o &#233; isso, tia.</p><p>Sei que passou o prazo. Sei que a senhora n&#227;o lembra de mim. Sei que aquela cartolina foi pro lixo faz uns trinta anos.</p><p>Mas eu queria mudar minha resposta.</p><p>Risca l&#225; o que eu falei. Quando eu crescer eu quero ser um homem comum. Quero uma tarde livre e uns planos &#243;timos pra ela. Quero um caf&#233; que n&#227;o passou por bicho nenhum, tomado na janela, sem provar nada pra ningu&#233;m.</p><p>Pode parecer pouco. Mas a senhora n&#227;o faz ideia do tamanho da fila que vai se formar atr&#225;s dessa resposta no dia em que algu&#233;m tiver a coragem de dar ela em voz alta, na sala, na frente de todo mundo.</p><p>Eu ainda n&#227;o tive.</p><p>T&#244; treinando aqui por escrito, que, dizem, &#233; onde os covardes come&#231;am.</p><p>E, olha, escrevi isso tudo tomando caf&#233; Utam com canela.</p><p>O que ou prova o meu ponto, ou prova que eu t&#244; sem dinheiro. Provavelmente os dois.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[como ganhar super-poderes sem esforço algum.]]></title><description><![CDATA[(ou: nunca aprendi a voar)]]></description><link>https://desproposito.substack.com/p/como-ganhar-super-poderes-sem-esforco</link><guid isPermaLink="false">https://desproposito.substack.com/p/como-ganhar-super-poderes-sem-esforco</guid><dc:creator><![CDATA[Manual do Despropósito]]></dc:creator><pubDate>Fri, 03 Jul 2026 18:09:50 GMT</pubDate><enclosure url="https://api.substack.com/feed/podcast/204953466/0b8f1bdc955ff067ddc039819e6e7e13.mp3" length="0" type="audio/mpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>vou te confessar uma coisa meio sem gra&#231;a: eu sou pregui&#231;oso. n&#227;o o tempo todo, t&#225;? eu trabalho, tenho meus corres, respondo mensagem (&#224;s vezes tr&#234;s dias depois, mas respondo), apare&#231;o onde preciso aparecer. Mas se voc&#234; me perguntar qual &#233; o meu lugar preferido no mundo inteiro, a resposta &#233; vergonhosamente simples: a minha cama. e n&#227;o &#233; a cama do descanso merecido, do self-care, do domingo bem vivido, n&#227;o. &#233; a cama pela cama. o &#250;nico lugar do mundo onde eu n&#227;o preciso ser nada pra ningu&#233;m.</p><p>ou sou t&#227;o pregui&#231;oso que, quando des&#231;o pra pegar o delivery, n&#227;o cal&#231;o o t&#234;nis direito. enfio o p&#233; com o calcanhar pra fora, piso em cima da parte de tr&#225;s do t&#234;nis, e des&#231;o a escada meio de banda, meio equilibrista, todo torto, me sentindo, juro, como se estivesse andando de salto alto pela primeira vez na vida. os homens sabem exatamente do que eu t&#244; falando. &#233; o nosso salto alto secreto.</p><p>e &#233; engra&#231;ado, porque essa cama, esse meu trono da moleza, &#233; exatamente o mesmo lugar onde, quando eu era crian&#231;a, eu aprendi a voar.</p><p>porque quando eu era pequeno, eu sonhava que voava. eu voava de pulinho. dava um impulso no ch&#227;o, dobrava o joelho no &#226;ngulo certo, e em vez de cair de volta eu continuava subindo. era sempre assim no sonho: o truque n&#227;o era ter asa, era acreditar no pulo. e eu sabia fazer. acordava com aquela certeza boba de crian&#231;a de que, se tentasse direitinho, ia conseguir voar ali no quarto tamb&#233;m.</p><p>um dia eu contei isso pro meu pai. e ele me olhou e disse que tinha o mesmo sonho quando era crian&#231;a. o mesmo pulo, a mesma subida, a mesma f&#237;sica quebrada. e a&#237; aconteceu uma coisa que s&#243; acontece com crian&#231;a: eu tive certeza de que aquilo era um sinal. se ele sonhava igual e eu sonhava igual, ent&#227;o tinha alguma coisa passando de um pro outro, n&#233;? sangue, dom, heran&#231;a divina, sei l&#225; o qu&#234;. eu tinha uns sete anos e acabava de descobrir que fazia parte de uma linhagem secreta de gente que voava. S&#243; faltava aprender o jeito.</p><p>minha m&#227;e n&#227;o tinha esse otimismo gen&#233;tico todo. ela passava os dias com o cora&#231;&#227;o na m&#227;o, morrendo de medo de me encontrar na janela. porque eu vivia fantasiado, a capa amarrada no pesco&#231;o, o pano voando nas costas, e ela sabia de uma coisa que crian&#231;a n&#227;o sabe: que capa, na cabe&#231;a de um moleque, &#233; um perigo.</p><p>ent&#227;o ela fez o que m&#227;e faz. ela inventou um menino. disse que era filho de uma amiga, um menino que um dia se fantasiou, subiu na janela achando que ia voar, e caiu. e morreu. ela me contava essa hist&#243;ria com detalhe, com pena, com aquela voz baixinha que adulto usa quando quer muito que voc&#234; acredite. e eu acreditei.</p><p>inventar uma morte de mentira pra impedir uma de verdade. ningu&#233;m te conta, mas &#233; mais ou menos isso que o amor adulto fica fazendo a vida toda.</p><p>e eu nunca aprendi a voar. os sonhos foram ficando raros, depois sumiram de vez. n&#227;o teve um &#250;ltimo.</p><p>ningu&#233;m te avisa qual vai ser a &#250;ltima vez que voc&#234; sonha que voa.</p><p>do mesmo jeito que ningu&#233;m te avisa qual foi a &#250;ltima vez que seu pai te pegou no colo. some assim, sem uma porra de cerim&#244;nia. um belo dia voc&#234; percebe que faz um temp&#227;o que seus p&#233;s n&#227;o saem do ch&#227;o nem quando voc&#234; dorme.</p><p>esses dias eu tava com uns amigos e a conversa, sei l&#225; como, foi parar em superpoder. aquela discuss&#227;o s&#233;ria, sobre qual seria o melhor poder de todos. mas eu s&#243; fui reparar numa coisa mais tarde, j&#225; em casa, deitado (&#243;bvio): ningu&#233;m ali quis voar.</p><p>a gente tem trinta e poucos anos e nenhum de n&#243;s escolheu o poder da crian&#231;a que a gente foi. Voar nem passou pela cabe&#231;a. o que apareceu foi: o poder de dormir e sempre acordar em casa. onde quer que voc&#234; esteja, fecha o olho e acorda na sua cama.</p><p>e foi a&#237; que me caiu a ficha do tamanho da coisa. quando eu era crian&#231;a, o poder que eu queria era voar. escapar, subir, ir embora, ser exce&#231;&#227;o. agora, adulto, o poder que eu quero &#233; acordar em casa. a crian&#231;a sonhava em ir pra bem longe. o adulto sonha s&#243; em conseguir voltar.</p><p>e eu passei um temp&#227;o achando que isso era sinal de que eu tinha amadurecido. que bonito, n&#233;, virei um homem sensato.</p><p>&#8230;n&#225;o vai ter reviravolta, paro essa etapa por aqui.</p><p>bom, ns dias depois dessa conversa toda, meu gato surtou.</p><p>o Rubinho n&#227;o &#233; castrado. e naquela tarde ele sentiu algum cheiro na rua, um chamado que eu n&#227;o escuto, numa frequ&#234;ncia que n&#227;o &#233; a minha, e simplesmente virou outro bicho. oassou horas gritando, andando de um lado pro outro que nem preso, arranhando a porta, possu&#237;do por uma coisa que ele n&#227;o escolheu e n&#227;o entende. e n&#227;o tinha nada, nada que eu pudesse fazer. era instinto puro. um poder que mora dentro dele e que, na hora que resolve ligar, toma o volante e manda ele obedecer. o Rubinho n&#227;o tem o instinto. o instinto &#233; que tem o Rubinho.</p><p>o eu fiquei ali olhando pra ele, pensando. todo bicho tem o seu. a tartaruguinha que mal sai do ovo e j&#225; sabe que tem que correr pro mar. o passarinho que atravessa um continente inteiro sem nada. a aranha que j&#225; nasce sabendo a planta da teia, a arquitetura toda na cabe&#231;a. o instinto &#233; o superpoder original, aquele que j&#225; vem de f&#225;brica n&#233;, que ningu&#233;m precisou ensinar. mas a&#237;, qual &#233; o nosso?</p><p>tem alguns, descobri. a gente reconhece o choro de um beb&#234; antes mesmo de pensar, o corpo reage sozinho, sobe uma coisa no peito, e isso acontece at&#233; com quem nunca teve filho. isso &#233; bem estudado, &#233; real. mas o mais impressionante n&#227;o &#233; esse.</p><p>o instinto humano mais doido, o mais assustador de todos, talvez seja o de imaginar junto. a gente &#233; o &#250;nico bicho do planeta que consegue acreditar, em coletivo, em coisas que n&#227;o existem. nenhum outro animal faz isso. nenhum macaco convenceu outro macaco a trabalhar a semana inteira em troca de um papelzinho colorido com a cara de um senhor morto impresso nele. a gente convenceu. a gente inventou deus, pa&#237;s, dinheiro, empresa, fronteira, time de futebol e um monte de coisa que n&#227;o tem corpo, que voc&#234; n&#227;o consegue pegar na m&#227;o, e que mesmo assim manda na nossa vida do ber&#231;o ao caix&#227;o. a humanidade inteira alucina em bando. e o mais louco: a alucina&#231;&#227;o funciona.</p><p>esse &#233; o verdadeiro superpoder da nossa esp&#233;cie. n&#227;o &#233; voar. &#233; conseguir imaginar uma coisa com for&#231;a suficiente pra que milh&#245;es de estranhos concordem, todos juntos, que ela &#233; real. e foi assim que nasceu toda religi&#227;o, toda na&#231;&#227;o, todo deus, algu&#233;m contou uma hist&#243;ria boa o bastante e o resto do mundo entrou no sonho e n&#227;o quis mais sair..</p><p>e &#233; exatamente aqui que a piada se fecha. e &#233; uma piada boa.</p><p>porque eu fa&#231;o parte da &#250;nica esp&#233;cie do universo capaz de sonhar um pa&#237;s inteiro do nada. capaz de levantar catedral pra uma coisa que ningu&#233;m nunca viu. capaz de convencer uma multid&#227;o a viver e morrer por uma ideia que n&#227;o tem corpo. eu tenho, de f&#225;brica, correndo no sangue, o poder de imaginar mundos.</p><p>e o que &#233; que eu fa&#231;o com a minha parte desse poder todo? eu imagino n&#227;o precisar cal&#231;ar o t&#234;nis. eu sonho em acordar na minha pr&#243;pria cama. o meu quinh&#227;o da mesma imagina&#231;&#227;o que inventou os deuses eu gasto, todo santo dia, fantasiando sobre continuar deitado mais um pouquinho.</p><p>a esp&#233;cie inventa na&#231;&#245;es. o o indiv&#237;duo aqui, cansado.</p><p>quando eu era crian&#231;a, o sonho de voar era a minha vers&#227;ozinha desse poder gigante.</p><p>era a &#250;ltima vez que imaginei uma coisa imposs&#237;vel com f&#233; total, eu acreditava que era exce&#231;&#227;o e acreditar j&#225; bastava. era o meu deus particular. o meu pa&#237;s de um habitante s&#243;.</p><p></p><blockquote><p><span>nada mais que a &#8220;vontade&#8221;.</span><br><br><span>seja de voar ou de qualquer outra coisa.</span><br><br><span>a &#250;nica coisa que realmente herdamos de algu&#233;m.</span><br><br><span>n&#227;o a asa. a vontade imposs&#237;vel da asa.</span></p></blockquote><p></p><p></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://desproposito.substack.com/p/como-ganhar-super-poderes-sem-esforco/comments&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Deixe um coment&#225;rio&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/desproposito.substack.com/p/como-ganhar-super-poderes-sem-esforco/comments"><span>Deixe um coment&#225;rio</span></a></p><p></p><p>Gostou do cap&#237;tulo? 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GMT</pubDate><enclosure url="https://api.substack.com/feed/podcast/203279339/487b9c6b6f26e4ce4d7242592dd15a2a.mp3" length="0" type="audio/mpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>existe um pensamento filos&#243;fico antigo que diz o seguinte: se voc&#234; colocar um n&#250;mero infinito de macacos numa sala com um n&#250;mero infinito de m&#225;quinas de escrever, por tempo suficiente, um deles vai produzir hamlet.</span></p><p><span>durante muito tempo, esse experimento mental foi usado como argumento contra o acaso. como prova de que a cria&#231;&#227;o genial n&#227;o pode ser produto do aleat&#243;rio. de que shakespeare n&#227;o era macaco.</span></p><p><span>mas a&#237; veio um cara chamado @llamainatux, com foto de llama de smoking no twitter, e escreveu:</span></p><p><em><span>&#8220;don&#8217;t you understand? the human race IS an endless number of monkeys. and every day we produce an endless number of words. and one of us already wrote hamlet.&#8221;</span></em></p><p><span>e eu fiquei olhando pra isso por uns tr&#234;s minutos.</span></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!p_KX!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3ca0e256-655c-4fbf-b5cc-4febd3b7b671_1080x587.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!p_KX!, /__u/desproposito.substack.com/w_424, /__u/desproposito.substack.com/c_limit, /__u/desproposito.substack.com/f_webp, /__u/desproposito.substack.com/q_auto:good, /__u/desproposito.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3ca0e256-655c-4fbf-b5cc-4febd3b7b671_1080x587.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!p_KX!, /__u/desproposito.substack.com/w_848, 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data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/3ca0e256-655c-4fbf-b5cc-4febd3b7b671_1080x587.png&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:587,&quot;width&quot;:1080,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:null,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:null,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" title="" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!p_KX!, /__u/desproposito.substack.com/w_424, /__u/desproposito.substack.com/c_limit, /__u/desproposito.substack.com/f_auto, /__u/desproposito.substack.com/q_auto:good, 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genialidade n&#227;o nega o acaso ela &#233; produto dele. que hamlet n&#227;o existiu apesar da aleatoriedade da exist&#234;ncia humana, mas por causa dela. que bilh&#245;es de pessoas produzindo bilh&#245;es de palavras por mil&#234;nios &#233;, matematicamente, uma condi&#231;&#227;o f&#233;rtil o suficiente pra que, de vez em quando, uma combina&#231;&#227;o espec&#237;fica de palavras mude tudo.</span></p><p><span>e se shakespeare &#233; o macaco que acertou hamlet, o que isso diz sobre todos os outros macacos?</span></p><p><span>.</span></p><p><span>diz que eles tamb&#233;m precisam escrever.</span></p><p><span>mesmo as coisas ruins. especialmente as coisas ruins.</span></p><p><span>porque voc&#234; n&#227;o chega em hamlet sem passar por uma quantidade absurda de rascunho, de frases tortas, de met&#225;foras que n&#227;o funcionam, de textos que voc&#234; olha depois e pensa </span><em><span>o que era isso?</span></em></p><p><span>o processo n&#227;o &#233; linear. o processo &#233; estat&#237;stico.</span></p><p><span>e estat&#237;stica exige volume.</span></p><p><span>.</span></p><p><strong><span>a essa altura da madrugada, uma teoria</span></strong></p><p><span>eu tenho uma teoria.</span></p><p><span>ela come&#231;a mais ou menos onde o meme termina.</span></p><p><span>porque se a humanidade &#233; um n&#250;mero infinito de macacos digitando, ent&#227;o talvez o universo inteiro seja a mesma coisa, s&#243; que numa escala que a gente nem consegue caber dentro da cabe&#231;a. talvez o universo seja s&#243; uma sala gigantesca de macacos cegos batendo em teclas (s&#243; que as teclas s&#227;o &#225;tomos, e as palavras s&#227;o estrelas, e o hamlet que ele est&#225; tentando escrever, sem saber, somos n&#243;s.).</span></p><p><span>a gente gosta de imaginar que a vida &#233; exce&#231;&#227;o. acidente. milagre. desvio.</span></p><p><span>mas e se for o contr&#225;rio?</span></p><p><span>e se a vida for exatamente o que acontece quando voc&#234; joga bolinhas suficientes contra pinos suficientes por tempo suficiente? n&#227;o um milagre. uma consequ&#234;ncia. o improv&#225;vel repetido tantas vezes que uma hora deixa de ser improv&#225;vel e vira inevit&#225;vel.</span></p><p><span>o universo n&#227;o cria sentido. o universo cria probabilidade.</span></p><p><span>ele cria mat&#233;ria, colis&#227;o, temperatura, erro, muta&#231;&#227;o, desejo, esquecimento, acaso, morte, repeti&#231;&#227;o. e de tanto repetir o improv&#225;vel, uma hora o improv&#225;vel acontece. depois acontece de novo. depois ganha nome. depois vira esp&#233;cie. depois vira consci&#234;ncia. depois vira um sujeito deitado de madrugada pensando </span><em><span>e se tudo isso for s&#243; uma bolinha caindo num tabuleiro c&#243;smico?</span></em></p><p><span>.</span></p><p><span>eu chamo isso de teoria do ovo infinito.</span></p><p><span>porque a imagem que me veio n&#227;o foi de m&#225;quina. m&#225;quina &#233; frio, &#233; engrenagem, &#233; prop&#243;sito. e isso aqui &#233; metodo.</span></p><p><span>a imagem que me veio foi de um ovo.</span></p><p><span>algo que est&#225; sempre chocando a pr&#243;xima vers&#227;o de si mesmo. a casca n&#227;o sabe da asa. a gema n&#227;o conspira com a pena. e ainda assim, dado tempo e calor suficientes, algo nasce que &#233; absurdamente mais complexo do que qualquer parte isolada conseguiria imaginar.</span></p><p><span>primeiro foram part&#237;culas. depois &#225;tomos. depois mol&#233;culas. depois c&#233;lulas. depois bichos. depois consci&#234;ncia. depois linguagem. depois mem&#243;ria. depois essa coisa estranha de eu estar aqui, feito de poeira de estrela morta, escrevendo sobre um meme de llama de smoking pra um punhado de pessoas que talvez nem leiam at&#233; o fim.</span></p><p><span>cada camada nasceu sem saber que estava construindo a pr&#243;xima.</span></p><p><span>o hidrog&#234;nio n&#227;o sabia que ia virar oceano.<br><br>o oceano n&#227;o sabia que ia virar inspira&#231;&#227;o pra milh&#245;es de m&#250;sicas.</span></p><p><span>.</span></p><p><strong><span>e se a gente quiser brisar legal&#8230;</span></strong></p><p><span>houve um tempo na hist&#243;ria do universo em que o &#225;tomo era a coisa mais complexa que existia. era a fronteira do poss&#237;vel. a menor unidade de tudo que veio em seguida. nenhum &#225;tomo percebeu a transi&#231;&#227;o. nenhum &#225;tomo sabe, agora, que faz parte de uma folha, de um rim, de uma lembran&#231;a de inf&#226;ncia.</span></p><p><span>e se a gente estiver nesse mesmo ponto?</span></p><p><span>se a humanidade n&#227;o for o &#225;pice, mas o meio? n&#227;o o beb&#234;, mas a c&#233;lula? n&#227;o o organismo, mas a mol&#233;cula social de alguma coisa imensa que ainda nem tem nome porque, pra ela nascer, a gente ainda precisa cair muitas vezes no tabuleiro?</span></p><p><span>a gente se acha o fim da linha. talvez a gente seja s&#243; o come&#231;o de uma frase muito mais longa.</span></p><p><span>.</span></p><p><span>e o que isso tem a ver com escrever, ou com sumir por um ano?</span></p><p><span>tudo.</span></p><p><span>porque o ovo infinito n&#227;o chega na pr&#243;xima forma sendo cuidadoso. ele chega desperdi&#231;ando. estrelas que explodem antes de formar planeta. esp&#233;cies que somem sem deixar f&#243;ssil. civiliza&#231;&#245;es que colapsam antes de transmitir o que descobriram. m&#250;sicas que nunca s&#227;o terminadas. mensagens que nunca s&#227;o respondidas. textos que nunca s&#227;o publicados.</span></p><p><span>o desperd&#237;cio n&#227;o &#233; a falha do m&#233;todo. o desperd&#237;cio </span><em><span>&#233;</span></em><span> o m&#233;todo.</span></p><p><span>o universo precisa errar pra descobrir forma. precisa de uma quantidade obscena de tentativa pra chegar numa &#250;nica coisa que dura. ele n&#227;o tem vergonha dos rascunhos. ele n&#227;o segura uma gal&#225;xia ruim na gaveta esperando ela ficar boa.</span></p><p><span>ele s&#243; continua. caindo. de novo. de novo. de novo.</span></p><p><span>.</span></p><p><strong><span>sobre sumir por um ano</span></strong></p><p><span>eu fiquei quase doze meses sem postar aqui.</span></p><p><span>n&#227;o vou romantizar o hiato. n&#227;o foi um retiro criativo. n&#227;o foi um per&#237;odo de matura&#231;&#227;o necess&#225;ria. n&#227;o foi planejado.</span></p><p><span>foi, na maior parte do tempo, uma combina&#231;&#227;o de pregui&#231;a, inseguran&#231;a e aquela sensa&#231;&#227;o espec&#237;fica de que o que eu tinha a dizer n&#227;o era suficientemente bom pra justificar o espa&#231;o que ocupa na internet.</span></p><p><span>eu estava esperando ter algo &#224; altura.</span></p><p><span>e a&#237; eu vi esse meme de llama de smoking, e depois fiquei a noite inteira pensando em &#225;tomo virando oceano, e percebi a piada cruel que eu vinha pregando em mim mesmo:</span></p><p><span>eu estava esperando escrever hamlet antes de sentar na m&#225;quina de escrever.</span></p><p><span>.</span></p><p><span>tem uma armadilha bonita que a gente cai quando leva a escrita a s&#233;rio: a de que o sil&#234;ncio &#233; curadoria.</span></p><p><span>de que n&#227;o postar &#233; uma forma de manter padr&#227;o. de que ficar quieto &#233; melhor do que publicar algo imperfeito.</span></p><p><span>e em alguma medida, isso &#233; verdade.</span></p><p><span>mas em alguma outra medida ( e essa &#233; a que eu ignorei por um ano) o sil&#234;ncio tamb&#233;m &#233; s&#243; medo&#8230;.</span></p><p><span>.</span></p><p><span>o macaco n&#227;o escreve hamlet esperando escrever hamlet.</span></p><p><span>o macaco escreve porque &#233; o que o macaco faz. (n&#227;o na vida real, nessa teoria)</span></p><p><span>sem pauta, sem estrat&#233;gia de conte&#250;do, sem an&#225;lise de m&#233;tricas de engajamento, sem se perguntar se aquilo vai ressoar com a audi&#234;ncia certa.</span></p><p><span>ele s&#243; senta e digita.</span></p><p><span>e, numa probabilidade pequena mas n&#227;o zero, o que sai &#233; algo que dura s&#233;culos.</span></p><p><span>o &#225;tomo n&#227;o virou consci&#234;ncia esperando virar consci&#234;ncia. ele s&#243; se ligou ao &#225;tomo do lado. e do lado. e do lado. at&#233; que, milh&#245;es de anos depois, sem nenhum deles ter assinado embaixo, algu&#233;m deitou de madrugada e teve um pensamento e decidiu escrever um texto e gravar um v&#237;deo pra internet.</span></p><p><strong><span>o desprop&#243;sito do m&#233;todo</span></strong></p><p><span>essa newsletter se chama manual do desprop&#243;sito por um motivo.</span></p><p><span>n&#227;o porque o que eu escrevo aqui n&#227;o tem prop&#243;sito, tem. mas porque o prop&#243;sito n&#227;o &#233; o ponto de partida. o prop&#243;sito, quando aparece, aparece no meio, ou depois, ou &#224;s vezes nunca.</span></p><p><span>e tudo bem.</span></p><p><span>a teoria dos macacos, e a do ovo infinito que ela me fez parir &#224;s tr&#234;s da manh&#227;, me lembraram da mesma coisa por dois caminhos diferentes: criar sem certeza n&#227;o &#233; fraqueza metodol&#243;gica. &#233; o m&#233;todo.</span></p><p><span>o universo funcionou assim. a evolu&#231;&#227;o funcionou assim. shakespeare funcionou assim, provavelmente. voc&#234; acha mesmo que ele sabia, na primeira cena do primeiro ato, que estava escrevendo uma das maiores obras da literatura ocidental? ou ele estava s&#243; tentando fazer algo que funcionasse at&#233; o fim, uma tecla depois da outra, igualzinho a um macaco, igualzinho a um &#225;tomo, igualzinho a mim agora tentando terminar esse par&#225;grafo sem saber se ele presta.</span></p><p><span>.</span></p><p><span>eu criei esse espa&#231;o pra ser um lugar seguro.</span></p><p><span>um canto da internet onde eu pudesse soltar as minhas brisas, os meus pensamentos tortos, as teorias de madrugada. um lugar sem r&#233;gua, sem cliente, sem briefing, sem aquela voz chata perguntando </span><em><span>se isso aqui vai performar.</span></em></p><p><span>um desprop&#243;sito. literalmente. um espa&#231;o pra existir sem ter que justificar a exist&#234;ncia. mesmo sendo o que eu mais tenho feito &#250;ltimamente.</span></p><p><span>e a ironia &#233; que eu transformei justamente esse lugar, o &#250;nico que era pra ser livre, na coisa mais travada da minha vida.</span></p><p><span>a inseguran&#231;a fez o contr&#225;rio do que esse espa&#231;o prometia. em vez de me deixar falar, ela me calou. em vez de acolher o pensamento meio formado, ela exigia o pensamento perfeito. em vez de ser o canto onde eu podia ser feio, errado, exagerado, ela virou mais um palco onde eu tinha medo de n&#227;o ser bom o suficiente.</span></p><p><span>eu constru&#237; uma casa pra poder andar descal&#231;o e passei um ano parado na porta, com medo de sujar o ch&#227;o.</span></p><p><span>.</span></p><p><span>ent&#227;o deixa eu dizer em voz alta, mais pra mim do que pra voc&#234;:</span></p><p><span>esse segundo semestre vai ser um exerc&#237;cio de me abrir.</span></p><p><span>de escrever a brisa antes de saber se ela vira texto. de publicar o devaneio sem ter certeza se ele se sustenta. de me expor mais, de recuar menos, de parar de trocar a verdade pela eleg&#226;ncia sempre que o assunto come&#231;a a doer.</span></p><p><span>n&#227;o porque eu venci a inseguran&#231;a. ela t&#225; aqui, do meu lado, lendo por cima do meu ombro enquanto digito isso e j&#225; querendo apagar. mas porque eu decidi escrever junto com ela em vez de esperar ela ir embora, porque ela n&#227;o vai. ela nunca vai. e o macaco escreve mesmo assim.</span></p><p><span>.</span></p><p><span>ent&#227;o.</span></p><p><span>estou de volta.</span></p><p><span>n&#227;o porque finalmente tenho algo &#224; altura.</span></p><p><span>mas porque percebi que &#224; altura &#233; uma r&#233;gua que eu inventei e que continua subindo toda vez que me aproximo dela.</span></p><p><span>vou escrever as coisas tortas. vou errar a met&#225;fora. vou publicar o texto que amanh&#227; vou querer editar.</span></p><p><span>porque &#233; isso que os macacos fazem. &#233; isso que os &#225;tomos fizeram. &#233; isso que o ovo infinito n&#227;o para de fazer, em sil&#234;ncio, h&#225; quatorze bilh&#245;es de anos: continuar, sem garantia, chocando a pr&#243;xima coisa.</span></p><p><span>e, quem sabe, uma hora, um deles escreve hamlet.</span></p><p><span>talvez eu n&#227;o seja esse macaco. quase com certeza n&#227;o sou.</span></p><p><span>mas eu n&#227;o vou descobrir parado.</span></p><p><span>.</span></p><p><span>se voc&#234; chegou at&#233; aqui, fica o convite: d&#225; uma fu&#231;ada nas edi&#231;&#245;es antigas. tem brisa de todo tipo l&#225; atr&#225;s, algumas que eu ainda at&#233; gosto, outras, tenho minhas d&#250;vidas. que &#233; mais ou menos o que esse texto inteiro tentou defender. &#233; tudo rascunho de um macaco tentando, de vez em quando, acertar uma frase que dure.</span></p><p><span>obrigado por ler enquanto eu reaprendo a escrever.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[5 dicas para cuidar de plantas em casa]]></title><description><![CDATA[dica n&#186; 1: escolha um local bem iluminado, plantinhas adoram receber a luz do sol.]]></description><link>https://desproposito.substack.com/p/5-dicas-para-cuidar-de-plantas-em</link><guid isPermaLink="false">https://desproposito.substack.com/p/5-dicas-para-cuidar-de-plantas-em</guid><dc:creator><![CDATA[Manual do Despropósito]]></dc:creator><pubDate>Thu, 17 Jul 2025 21:06:14 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ByiR!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fdb40e879-5ef4-445b-bc6e-fa1102e31a3a_1536x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ByiR!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fdb40e879-5ef4-445b-bc6e-fa1102e31a3a_1536x1024.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ByiR!, /__u/desproposito.substack.com/w_424, /__u/desproposito.substack.com/c_limit, /__u/desproposito.substack.com/f_webp, /__u/desproposito.substack.com/q_auto:good, 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diversas formas sustent&#225;veis de fazer seu pr&#243;prio adubo em casa.<br><br><strong>dica n&#186; 3:</strong> corte fora as folhas secas. a poda &#233; essencial para uma planta crescer saud&#225;vel e feliz.<br><br><strong>dica n&#186; 4: </strong>sente-se na beira da janela &#224; noite, depois de jantar, e se pergunte: onde foram parar todos os seus amigos?</p><p>voc&#234; j&#225; tem quase trinta anos. estar em casa num s&#225;bado &#224; noite deixou de ser um sintoma e virou uma est&#233;tica. um modo silencioso de existir sem ofensa. n&#227;o h&#225; mais urg&#234;ncia, s&#243; notifica&#231;&#245;es ignoradas. a cidade late do lado de fora, mas voc&#234; decidiu ficar. &#233; uma ren&#250;ncia mansa. como aquelas balas toffee da inf&#226;ncia que voc&#234; n&#227;o gostava, mas aceitava por educa&#231;&#227;o. parab&#233;ns pelo seu esfor&#231;o.</p><p>de quantas s&#233;ries da netflix voc&#234; precisou desistir at&#233; lembrar de ligar para os seus pais? quantos r&#233;veillons mal planejados at&#233; admitir que voc&#234; n&#227;o sabe guardar dinheiro, mas sabe guardar ressentimentos?</p><p>abra o whatsapp. arraste para baixo. repare: h&#225; nomes ali que hoje soam como outra l&#237;ngua. tente, por esporte, encontrar algu&#233;m que faria bem hoje. talvez algu&#233;m pra rir das mesmas coisas, dividir uma comida gordurosa, perguntar &#8220;e a sua av&#243;, como t&#225;?&#8221;. n&#227;o encontra. ou, se encontra, hesita. o problema pode ser voc&#234;. ou pode ser o tempo, esse dissolvente lento de la&#231;os.</p><p>aceite o resultado com certa eleg&#226;ncia. deite-se &#224;s 23h com a serenidade de quem n&#227;o perdeu nada, embora tenha perdido quase tudo. pense como &#233; bom estar na sua pr&#243;pria cama, no seu pr&#243;prio quarto, no seu pr&#243;prio sil&#234;ncio. aceite. mas registre. poste memes autodepreciativos, pratique ironia online, compartilhe a solid&#227;o com gra&#231;a. isso tamb&#233;m &#233; uma forma de presen&#231;a.</p><p>lembre-se da &#233;poca quando o convite nascia do t&#233;dio e a noite se resolvia em gargalhadas de rua, vinho quente, toques no ombro e declara&#231;&#245;es intempestivas. </p><p>quando amar n&#227;o era quest&#227;o de tempo, mas sim de lugar certo na hora certa. </p><p>o que voc&#234; n&#227;o daria hoje por um cora&#231;&#227;o partido?</p><p>perceba, ent&#227;o, que voc&#234; &#233; v&#237;tima de uma expectativa que voc&#234; mesmo cultivou, regada por anos a fio com idealiza&#231;&#245;es e sil&#234;ncios mal digeridos. v&#225; dormir com essa constata&#231;&#227;o como quem aduba o solo antes da poda.</p><p>chore, se quiser. n&#227;o por saudade dos mortos. chore rios pelos vivos. os vivos vivem. mais do que voc&#234;, aparentemente. os stories confirmam. quem mente &#233; voc&#234;, todo s&#225;bado &#224; noite.</p><p>ande sozinho pela cidade no domingo. entre em livrarias frias, cinemas vazios, cafeterias com nomes em franc&#234;s. observe os jovens em bando, o casal que divide um fone de ouvido, a senhora que fala alto no celular e a m&#227;e que l&#234; Virginia Woolf no meio do caos. sinta-se parte de algo que ainda n&#227;o &#233;.</p><p>e talvez, numa manh&#227; qualquer, voc&#234; acorde sem as perguntas. ou com ela mais silenciosa. sentindo-se n&#227;o completo, mas suficientemente inteiro para n&#227;o doer. reconhecendo que as partes que faltam tamb&#233;m fazem parte. </p><p>&#8220;a poda &#233; essencial para crescer saud&#225;vel e feliz.&#8221;</p><p>sinta um frio leve no est&#244;mago. olhe para a sua sala, com suas plantinhas e sua bagun&#231;a elegante. sorria sem testemunhas. n&#227;o &#233; sobre estar sozinho em casa. n&#227;o &#233; sobre medo de perder. &#233; sobre aprender que, antes de perder qualquer coisa, &#233; preciso aprender a ficar.</p><p><strong>dica n&#186;5:</strong> regue periodicamente.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Como desapegar do controle?]]></title><description><![CDATA[(ou: apenas exista, cara)]]></description><link>https://desproposito.substack.com/p/como-desapegar-do-controle</link><guid isPermaLink="false">https://desproposito.substack.com/p/como-desapegar-do-controle</guid><dc:creator><![CDATA[Manual do Despropósito]]></dc:creator><pubDate>Tue, 15 Jul 2025 23:32:41 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ghf-!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6ba09573-6696-4d5d-b7b8-f2fd53cf0ad9_1024x652.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ghf-!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6ba09573-6696-4d5d-b7b8-f2fd53cf0ad9_1024x652.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ghf-!, /__u/desproposito.substack.com/w_424, /__u/desproposito.substack.com/c_limit, /__u/desproposito.substack.com/f_webp, /__u/desproposito.substack.com/q_auto:good, /__u/desproposito.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6ba09573-6696-4d5d-b7b8-f2fd53cf0ad9_1024x652.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ghf-!, /__u/desproposito.substack.com/w_848, /__u/desproposito.substack.com/c_limit, /__u/desproposito.substack.com/f_webp, /__u/desproposito.substack.com/q_auto:good, /__u/desproposito.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6ba09573-6696-4d5d-b7b8-f2fd53cf0ad9_1024x652.png 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ghf-!, /__u/desproposito.substack.com/w_1272, /__u/desproposito.substack.com/c_limit, /__u/desproposito.substack.com/f_webp, 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ansiosa, fingindo alguma estabilidade, alimentando sonhos que talvez se realizem, talvez n&#227;o, e de repente, pluft. caiu. uma pedra no caminho da cabe&#231;a, uma d&#250;vida besta e insistente. comigo foi assim: como desapegar do controle?</p><p>perceba: n&#227;o &#233; por que, quando ou se. &#233; como. o verbo j&#225; parte da premissa de que o desejo existe, que h&#225; uma vontade de abrir m&#227;o, de soltar, de deixar que a vida aconte&#231;a, de permitir o erro, a vulnerabilidade, o sil&#234;ncio sem resposta. e &#233; justamente por isso que ela incomoda tanto.</p><p>porque eu n&#227;o sei responder.</p><p>n&#227;o tenho resposta. nem um texto motivacional, nem uma par&#225;bola redentora. s&#243; a pergunta, que anda comigo como um papel de bala que a gente esquece no bolso, mas de vez em quando ro&#231;a o dedo e lembra que existe.</p><p>.</p><p><strong>2. minha namorada tem uma moto e eu, uma epifania</strong></p><p>minha namorada anda de moto. ali&#225;s, ela pilota uma moto, o que &#233; muito diferente de &#8220;anda de moto&#8221;. e num dos nossos primeiros encontros, ela me convidou pra subir na garupa.</p><p>na primeira vez, me senti meio&#8230; ornamental. uma mistura de mochila com namoradinha de filme dos anos 60. estava com os bra&#231;os envoltos na cintura dela, e me dei conta de que o meu papel naquele momento era apenas o de confiar.</p><p>e isso, pra algu&#233;m como eu, um homem meio afeminado tentando h&#225; anos conquistar alguma autonomia emocional dentro de um mundo masculino que espera sempre a&#231;&#227;o, controle, condu&#231;&#227;o, foi, no m&#237;nimo, desconcertante.</p><p>andar na garupa me devolveu um tipo de liberdade que eu n&#227;o sabia que queria. a de n&#227;o decidir o caminho, o tempo, o ritmo. s&#243; ir. observar o mundo passando, saber que n&#227;o sou respons&#225;vel por cada sem&#225;foro  e, ainda assim, estar em movimento.</p><p>um movimento que depende de algu&#233;m, e mais ainda, um movimento que eu aceitei depender de algu&#233;m.</p><p>naquela noite, mais do que vento no rosto, eu senti uma esp&#233;cie de al&#237;vio. uma suspens&#227;o tempor&#225;ria da necessidade de parecer no comando. o engra&#231;ado &#233; que, mesmo morando em s&#227;o paulo, essa cidade que se acha vanguardista mas ainda arregala os olhos quando v&#234; uma mulher pilotando com um homem abra&#231;ado atr&#225;s, as pessoas paravam e olhavam. alguns riam. mas eu sempre adorei.</p><p>.</p><p><strong>3. um plano que ningu&#233;m autorizou</strong></p><p>esses dias eu tropecei num v&#237;deo do youtube chamado &#8220;just exist, bro&#8221; em que o autor (um garoto bem mais jovem que eu) fala que n&#227;o precisamos <em>fazer sentido</em>. que s&#243; existir j&#225; &#233; o bastante.</p><p>n&#227;o concordo com exatamente tudo que ele diz no v&#237;deo, n&#227;o &#233; nada revolucion&#225;rio, eu sei. e, ainda assim, quando ele diz isso sem corte, sem trilha, sem pitch motivacional, algo em mim se rende.</p><p>n&#227;o precisar fazer sentido&#8230; o que isso quer dizer, exatamente?</p><p>quem cresce tentando agradar, aprende cedo a justificar sua presen&#231;a. cada gesto precisa ter prop&#243;sito, cada escolha precisa ter uma raz&#227;o. estamos t&#227;o acostumados a performar coer&#234;ncia que desaprender a l&#243;gica do desempenho soa quase como um delito.<br><br>vou deixar o v&#237;deo aqui pra quem quiser dar uma fu&#231;ada, mas n&#227;o se apegue tanto: </p><div id="youtube2-AZkjFXQnPdg" class="youtube-wrap" data-attrs="{&quot;videoId&quot;:&quot;AZkjFXQnPdg&quot;,&quot;startTime&quot;:&quot;31s&quot;,&quot;endTime&quot;:null}" data-component-name="Youtube2ToDOM"><div class="youtube-inner"><iframe src="https://www.youtube-nocookie.com/embed/AZkjFXQnPdg?start=31s&amp;rel=0&amp;autoplay=0&amp;showinfo=0&amp;enablejsapi=0" frameborder="0" loading="lazy" gesture="media" allow="autoplay; fullscreen" allowautoplay="true" allowfullscreen="true" width="728" height="409"></iframe></div></div><p>mas o que esse v&#237;deo me lembrou &#233; que viver n&#227;o precisa ser um projeto. a exist&#234;ncia n&#227;o &#233; um pitch. n&#227;o &#233; uma constru&#231;&#227;o de marca pessoal. &#233; s&#243;&#8230; viver.<br>igual um gato que olha pela janela por horas, sem culpa.<br>existe. e basta&#8230;</p><p>.</p><p><strong>4. fantasia vestida de compet&#234;ncia</strong></p><p>foucault dizia que o poder n&#227;o se possui se exerce.  e o controle &#233; s&#243; uma das formas mais discretas de exercer poder sobre o mundo, e principalmente, sobre n&#243;s mesmos. o corpo que controla &#233; o corpo que performa. que ensaia respostas, que regula intensidade, que tenta prever o tom das conversas, as respostas dos outros, a rea&#231;&#227;o da plateia invis&#237;vel que vive assistindo nossos gestos. (quem nunca olhou para  a c&#226;mera imagin&#225;ria da vida se sentindo o pr&#243;prio Jim do The Office?)</p><p>tem algo de c&#234;nico na tentativa de controle. talvez pra parecer est&#225;vel, pra transmitir confian&#231;a, pra n&#227;o parecer pat&#233;tico demais, perdido demais, sens&#237;vel demais. e, principalmente, pra parecer funcional.</p><p>pelo menos at&#233; voc&#234; perceber que est&#225; vivendo mais no modo simula&#231;&#227;o do que na vida real.</p><p><em>mas afinal, como a gente desapega de algo que <strong>n&#227;o temos?</strong></em></p><p>.</p><p><strong>5. o pre&#231;o de soltar</strong></p><p>a verdade &#233; que ningu&#233;m controla nada.<br>voc&#234; pode cuidar, planejar, prevenir. mas ainda assim o amor pode ir embora. o emprego pode acabar. o corpo pode adoecer. o ch&#227;o pode sumir no meio da segunda-feira.<br><br>o budismo fala sobre o sofrimento como um subproduto do apego. a gente sofre porque quer que as coisas permane&#231;am. o amor, a estabilidade, o dente que ainda era de leite. a crian&#231;a que fomos. a vers&#227;o de n&#243;s que os outros entendiam melhor.</p><p><em>mas quem quer desapegar do controle precisa estar disposto a perder. e essa &#233; a parte mais dif&#237;cil: <strong>perder</strong>.</em></p><p>perder o papel de protagonista da pr&#243;pria hist&#243;ria e, mais perigoso ainda: perder a esperan&#231;a de que algum dia a vida vai parar de nos surpreender.</p><p>quando achamos que temos o controle, na verdade s&#243; temos medo.</p><p><em>a vida n&#227;o nos pertence. ela apenas &#233;.</em></p><p>a vida muda num estalo. o que era certo hoje vira ru&#237;na amanh&#227;. a pessoa que te prometeu o mundo desaparece sem deixar bilhete. o job dos sonhos vira burnout em tr&#234;s meses.</p><p>e tudo bem. tudo absolutamente inst&#225;vel e bem, como deve ser.</p><p>.</p><p><strong>6. as perguntas sem resposta (e sem urg&#234;ncia)</strong></p><p>como abrir m&#227;o do roteiro sem sentir que estou sendo irrespons&#225;vel?</p><p>como descansar sem achar que t&#244; sendo pregui&#231;oso?</p><p>como amar sem antecipar o fim?</p><p>como aceitar o fracasso sem virar f&#227; de autoajuda?</p><p>como parar de tentar entender tudo?</p><p>como s&#243; existir, bro?<br><br>.</p><p><strong>7. notas de rodap&#233; para uma exist&#234;ncia menos tensa</strong></p><p>passei a prestar aten&#231;&#227;o nas pequenas rendi&#231;&#245;es do cotidiano.</p><p>aquelas em que a vida me d&#225; um empurr&#227;o e eu, ao inv&#233;s de resistir, caio bonito.</p><p>tipo perder um compromisso por ter anotado o hor&#225;rio errado. ficar irritado, claro. mas ao sair na rua, atrasado e in&#250;til, perceber que o c&#233;u est&#225; absurdamente bonito.</p><p>e perceber que foi um dos &#250;nicos dias do m&#234;s em que parei pra olhar pra cima.</p><p>n&#227;o estou dizendo que errar &#233; bonito.</p><p>estou dizendo que controlar tudo &#233; feio.</p><p>n&#227;o no est&#233;tico, mas no existencial.</p><p>.</p><p><strong>8. o paradoxo da leveza</strong></p><p>n&#227;o d&#225; pra ser leve <em><strong>tentando </strong></em>ser leve.<br>n&#227;o d&#225; pra relaxar como <em><strong>miss&#227;o</strong></em>.<br>n&#227;o d&#225; pra confiar se voc&#234; est&#225; o tempo todo <em><strong>testando </strong></em>se pode confiar.</p><p>essa &#233; uma das armadilhas mais bem disfar&#231;adas do autocuidado moderno: a ideia de que a gente vai dominar a leveza.</p><p>vai agendar a paz de esp&#237;rito. vai planejar a espontaneidade.</p><p>bobagem.</p><p>leveza n&#227;o se conquista.</p><p>leveza se permite.</p><p>se tolera.</p><p>se respira.</p><p>.</p><p><strong>8. o mundo visto da garupa</strong></p><p>n&#227;o sei se um dia vou aprender a soltar tudo. acho improv&#225;vel. ainda tenho listas, pastas, esquemas. ainda tenho planos que me mant&#234;m de p&#233; e fantasias de que o futuro ser&#225; exatamente do jeito que anotei. ainda fico inseguro quando algo foge do previsto, ainda me sinto culpado por n&#227;o estar fazendo o suficiente.</p><p>mas tem algo que me ajuda, &#224;s vezes.</p><p>volto &#224; moto.<br>volto ao momento em que larguei as r&#233;deas, ou pelo menos finjo que larguei.</p><p>ali, naquela curva, abra&#231;ado &#224; mulher que amo, tive um lapso de verdade. olhando o mundo como quem finalmente n&#227;o precisa saber a porra do caminho.</p><p>a vida passa r&#225;pido da garupa. mas ela passa de qualquer jeito.</p><p>e assim, a gente segue, sem saber como tudo vai aca&#8230;<br></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!t696!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe82d1952-80fc-40ea-89b7-f6f4f8edf311_1536x1024.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" 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<strong>kahelsantos@hotmail.com</strong><br>escrever d&#225; trabalho, mas tamb&#233;m d&#225; sentido. e com sua ajuda, pode continuar dando os dois.</em></p></div><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://desproposito.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption"></p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Herança, dor e corpo]]></title><description><![CDATA[o que eu n&#227;o quis receber, mas j&#225; mora em mim]]></description><link>https://desproposito.substack.com/p/7-heranca-dor-e-corpo</link><guid isPermaLink="false">https://desproposito.substack.com/p/7-heranca-dor-e-corpo</guid><dc:creator><![CDATA[Manual do Despropósito]]></dc:creator><pubDate>Mon, 30 Jun 2025 21:53:19 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!6lME!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6b645197-2e2c-4d5f-86e4-5598e0b52d49_1536x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!6lME!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6b645197-2e2c-4d5f-86e4-5598e0b52d49_1536x1024.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" 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rela&#231;&#227;o. era um homem s&#233;rio, de um sil&#234;ncio seco, sem ranhuras. lembro da sua cal&#231;a de linho, da pele marcada de sol, da presen&#231;a constante de um rel&#243;gio de pulso que ele n&#227;o consultava nunca. o tipo de homem que s&#243; fala quando &#233; absolutamente necess&#225;rio. e quando fala, &#233; pra encerrar o assunto.</p><p>ele teve alzheimer. morreu h&#225; alguns anos. e eu n&#227;o fui ao vel&#243;rio.</p><p>n&#227;o por rancor, nem por revolta. mas porque o &#250;nico momento em que eu tive a impress&#227;o de conhec&#234;-lo, e talvez ele a mim, j&#225; tinha acontecido. e tudo depois daquilo me pareceu ep&#237;logo.</p><p>foi no fim, quando ele j&#225; n&#227;o sabia onde estava, nem quem era. a fala rarefeita, os olhos que buscavam nomes no ar como se fossem moscas invis&#237;veis. um corpo cheio de esquecimentos. e ent&#227;o, do nada, na TV da sala, come&#231;ou um epis&#243;dio de <em>Chaves</em>. n&#227;o lembro qual. o tipo de com&#233;dia que a gente aprende a rir antes mesmo de entender. e ele riu.</p><p>n&#227;o um riso contido, de canto de boca. uma gargalhada inteira, dessas que fazem o corpo balan&#231;ar. e eu ri junto. e foi isso. o &#250;nico momento de conex&#227;o entre mim e meu av&#244; foi um ataque simult&#226;neo de riso provocado por um humor pastel&#227;o mexicano.</p><p>ele morreu alguns meses depois.</p><p>&#224;s vezes penso que aquele riso n&#227;o era dele. era o corpo tentando dizer algo antes de sumir de vez. como se, ao perder tudo, ele tivesse finalmente ganhado a chance de ser algu&#233;m fora daquela armadura de homem-sereno-e-forte-e-mudo-e-nobre. e talvez essa seja a trag&#233;dia dos homens da minha fam&#237;lia: s&#243; desarmam quando j&#225; n&#227;o lembram quem s&#227;o.</p><p>&#224;s vezes, pra sermos humanos, precisamos esquecer primeiro o homem que nos ensinaram a ser.</p><p></p><ol start="2"><li><p><strong>heran&#231;a em sil&#234;ncio</strong></p></li></ol><p>cresci cercado de homens que n&#227;o sabiam pedir ajuda.<br>meu av&#244; era um deles. meu pai, de certo modo, tamb&#233;m.</p><p>mas ao contr&#225;rio do av&#244; - seco, sisudo, impass&#237;vel -, meu pai sempre foi um homem bem-humorado. do tipo que faz piada no caf&#233; da manh&#227;, no almo&#231;o, no enterro. nunca se cansa de contar a mesma anedota. uma alegria perform&#225;tica que, com o tempo, aprendi a decifrar como mecanismo de defesa. o riso, nele, &#233; uma esp&#233;cie de manto protetor. cobre tudo, inclusive o que d&#243;i.</p><p>ainda assim, nunca o vi chorar. nunca o vi pedir conselho. nunca o vi admitir que n&#227;o sabia o que fazer.</p><p>com ele, o sil&#234;ncio se disfar&#231;a de leveza. a vulnerabilidade vira piada antes que possa virar l&#225;grima. aprendi cedo que, entre os homens da minha fam&#237;lia, sentir &#233; permitido, desde que em voz baixa. </p><p>talvez seja por isso que a dor, entre n&#243;s, sempre escolheu o corpo como caminho. porque o corpo n&#227;o precisa justificar, nem explicar. ele s&#243; d&#243;i. e ponto.</p><p>meu irm&#227;o sofre de h&#233;rnia e refluxo. meu pai desenvolveu hipertens&#227;o aos 42. meu av&#244; esqueceu a pr&#243;pria vida antes de conseguir nomear a tristeza. eram todos muito diferentes .</p><p>eu meio que fico aqui, tentando escrever sobre isso como quem tenta quebrar um pacto de gera&#231;&#245;es, mas sem saber se quero mesmo quebrar.<br>talvez porque tamb&#233;m ache mais f&#225;cil fazer piada.</p><p></p><ol start="3"><li><p><strong>a dor como casa (ou lugar onde voltei sem querer)</strong></p></li></ol><p>h&#225; dias em que acordo me sentindo meio torto.<br>n&#227;o de um jeito f&#237;sico, necessariamente (embora &#224;s vezes tamb&#233;m).<br>&#233; uma sensa&#231;&#227;o dif&#237;cil de nomear, como se meu corpo estivesse puxando minha alma pela gola da camisa, querendo chamar aten&#231;&#227;o pra alguma coisa que eu recusei ver por tempo demais.</p><p>tem gente que sente isso e chama de ansiedade. tem quem diga cansa&#231;o. eu, por muito tempo, chamei de &#8220;meu jeito&#8221;.<br>s&#243; depois fui entender que era dor.</p><p>n&#227;o a dor que grita. a outra. a dor que sussurra, se esconde, se acomoda, se senta no sof&#225; da sala como quem mora ali. a dor que aprende seu nome e seus hor&#225;rios. a dor que vira rotina.</p><p>e, quando voc&#234; percebe, j&#225; se passaram anos. e ela ainda est&#225; l&#225;.</p><p>comecei a desconfiar que talvez eu tenha feito da dor uma esp&#233;cie de identidade. n&#227;o porque goste dela, mas porque ela me deu forma num mundo onde nada parecia ter contorno. quando nada fazia sentido, era ela que me dizia: voc&#234; ainda est&#225; aqui. ainda sente. ainda existe.</p><p>acho que a dor foi meu primeiro documento de identidade emocional.<br></p><p><em><strong>antes de saber quem eu era, eu sabia o que do&#237;a.</strong></em></p><p>a fil&#243;sofa Anne Carson tem uma frase muito foda: <em>&#8220;to live past the end of your myth is a perilous thing.&#8221;</em> viver depois do fim do seu mito &#233; perigoso. e acho que meu mito, por muito tempo, foi esse: o de que minha dor me definia. que ela me protegia de ser dissolvido em algo maior e sem nome. a ideia de larg&#225;-la me d&#225; medo. medo de me perder.</p><p>n&#227;o &#233; &#224; toa que tanta gente prefere ficar mal.<br>h&#225; um conforto estranho em saber exatamente onde d&#243;i.</p><p>e mais: h&#225; poder.</p><p>porque a dor, quando internalizada e administrada com habilidade, vira escudo. desculpa. argumento. muleta.<br>quantas vezes me escondi atr&#225;s da minha dor pra n&#227;o amar, pra n&#227;o tentar, pra n&#227;o falhar?<br>quantas vezes transformei meu sofrimento em lugar de autoridade?</p><p>a verdade &#233; que, em algum ponto, a dor deixou de ser s&#243; dor.<br>virou um jeito de estar no mundo.</p><p>e a&#237; vem a pergunta que mais me assusta:<br>e se melhorar me fizer perder quem eu sou?</p><p></p><ol start="4"><li><p><strong>lutos vivos e fantasmas na sala de estar</strong></p></li></ol><p>meu av&#244; come&#231;ou a morrer bem antes de morrer.</p><p>n&#227;o lembro exatamente quando foi a primeira vez que ele esqueceu meu nome, mas lembro do sil&#234;ncio que isso deixou no ar. um sil&#234;ncio diferente do que ele sempre cultivou. n&#227;o o sil&#234;ncio da autoridade, mas o do vazio.</p><p>&#233; estranho ver algu&#233;m ir embora aos poucos.<br>aos poucos, mas com pressa.<br>como se a mem&#243;ria estivesse sendo apagada por dentro, com uma esponja molhada, sem cuidado nenhum.<br>o nome dos filhos, os lugares, o rosto da esposa, as datas, a pr&#243;pria idade, tudo virando um caldo inconsistente onde ele se agarrava a qualquer detalhe que ainda flutuasse: um copo, um ditado, um refr&#227;o antigo.</p><p>e, entre os cacos que sobraram, um dia, meu apelido.<br>do nada, ele me viu e disse: &#8220;cad&#234; aquele menino, o...?&#8221;, e completou com meu apelido de inf&#226;ncia.<br>depois pediu caf&#233;.</p><p>por um instante, era como se tudo estivesse de volta ao lugar. mas n&#227;o estava. nunca mais estaria.<br>e ali, naquele abra&#231;o confuso, percebi: esse homem est&#225; indo embora. e, por algum motivo que eu ainda n&#227;o entendia, a dor de v&#234;-lo assim era menor do que o medo de que ele, ao ir embora, levasse junto uma parte de mim.</p><p>**</p><p>a gente costuma associar o luto &#224; morte f&#237;sica.<br>mas h&#225; lutos muito mais discretos, e igualmente devastadores.</p><p>o luto pela pessoa que o outro j&#225; foi.<br>o luto por uma rela&#231;&#227;o que n&#227;o se cumpriu.<br>o luto por uma expectativa que nunca se realizou.<br>o luto por vers&#245;es de n&#243;s mesmos que ficaram pelo caminho.</p><p>eu, por exemplo, vivo de luto por um eu antigo.<br>o eu que n&#227;o tinha medo de amar.<br>o eu que achava que doer era passageiro.<br>o eu que n&#227;o sabia ainda transformar a dor em desculpa.</p><p>**</p><p>uma vez eu li a frase: <em>&#8220;o luto &#233; um trabalho de desfigura&#231;&#227;o&#8221;</em>.<br>e &#233; mesmo.<br>aos poucos, a dor vai tirando os tra&#231;os do outro de dentro da gente, at&#233; que reste s&#243; uma sombra, ou um som que parece familiar, mas que a gente n&#227;o consegue mais localizar.</p><p>meu av&#244; virou esse som.<br>um ru&#237;do leve no fundo da mem&#243;ria.<br>&#224;s vezes um cheiro de talco, &#224;s vezes o estalo de um rel&#243;gio de pulso, &#224;s vezes s&#243; o eco de uma risada que n&#227;o sei mais se foi real ou inventada.<br>mas sei que foi o bastante pra doer.</p><p>n&#227;o fui ao vel&#243;rio porque eu era adolescente, achei que n&#227;o precisava.<br>mas &#224;s vezes desconfio que talvez ainda esteja esperando por ele.</p><p></p><ol start="5"><li><p><strong>ep&#237;logo sem cerim&#244;nia</strong></p></li></ol><p>meu av&#244; morreu h&#225; anos, mas de certo modo ainda est&#225; aqui.<br>n&#227;o na forma bonita e reconfortante com que as pessoas dizem isso, tipo &#8220;vive em mim&#8221; ou &#8220;sinto sua presen&#231;a&#8221;. n&#227;o.<br>ele est&#225; aqui como uma esp&#233;cie de esp&#243;lio indesejado que me cabe: um tra&#231;o de rigidez no jeito que cruzo os bra&#231;os. um sil&#234;ncio que escorrega no meio das frases. um cuidado exagerado pra n&#227;o parecer fraco demais.</p><p>heran&#231;a, pra mim, &#233; isso: o que a gente n&#227;o escolheu, mas n&#227;o teve como devolver.</p><p>&#224;s vezes eu penso que a gargalhada dele naquele dia foi a &#250;ltima coisa que ele me deixou.<br>e talvez a &#250;nica que eu aceitei.</p><p>porque foi a primeira vez que ele n&#227;o me exigiu nada. n&#227;o me cobrou postura, resposta, maturidade. foi s&#243; um homem, desorientado, rindo de um programa bobo com o neto que ele n&#227;o sabia mais quem era.</p><p>n&#227;o teve ensinamento. s&#243; uma presen&#231;a meio avariada, mas inteira no que podia ser. e, francamente, acho que foi o suficiente.</p><p>**</p><p>hoje, cada vez que penso em masculinidade, heran&#231;a, dor e corpo, volto pra aquele momento, como quem tenta entender o que ainda resta.</p><p>e o que resta &#233; pouco. mas talvez esse pouco baste.</p><p>n&#227;o acho que vou me curar da dor que carrego.<br>n&#227;o tenho esse tipo de ambi&#231;&#227;o.<br>s&#243; espero aprender a n&#227;o pass&#225;-la adiante com o mesmo zelo que recebi.</p><p>se for pra deixar alguma coisa, que seja uma risada desajeitada.<br>um momento breve de leveza.<br>um intervalo, por menor que seja, entre a rigidez e o afeto.</p><p>n&#227;o por reden&#231;&#227;o.<br>mas por economia de sofrimento.</p><p>meu av&#244; esqueceu de tudo.<br>eu tento lembrar, mas s&#243; o que escapa &#233; o que importa.</p><p>o resto a gente enterra em vida.<br>sem cerim&#244;nia.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!6h2S!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F76d9501e-89c8-4c12-bb05-f2eef3dcd73d_1280x960.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!6h2S!, /__u/desproposito.substack.com/w_424, /__u/desproposito.substack.com/c_limit, /__u/desproposito.substack.com/f_webp, /__u/desproposito.substack.com/q_auto:good, /__u/desproposito.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F76d9501e-89c8-4c12-bb05-f2eef3dcd73d_1280x960.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!6h2S!, /__u/desproposito.substack.com/w_848, /__u/desproposito.substack.com/c_limit, /__u/desproposito.substack.com/f_webp, /__u/desproposito.substack.com/q_auto:good, 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y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[brincar é a forma mais honesta de suportar]]></title><description><![CDATA[(ou: sobre viver num planeta sem rodinha no t&#234;nis)]]></description><link>https://desproposito.substack.com/p/6-brincar-e-a-forma-mais-honesta</link><guid isPermaLink="false">https://desproposito.substack.com/p/6-brincar-e-a-forma-mais-honesta</guid><dc:creator><![CDATA[Manual do Despropósito]]></dc:creator><pubDate>Fri, 27 Jun 2025 18:50:55 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!jFEd!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6e8ae1b5-a37d-4504-a7ab-04ece82472cc_1536x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" 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xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p><strong>1. a vida, &#224;s vezes, &#233; uma fila de banco mal iluminada</strong></p><p>voc&#234; entra, pega uma senha, senta, levanta, e quando v&#234;, passou a tarde tentando entender onde &#233; que se perdeu da pr&#243;pria biografia.<br>&#233; nesse tipo de dia, geralmente uma ter&#231;a-feira morna, com cheiro de e-mail corporativo e caf&#233; requentado, que eu tenho vontade de comprar um <em><strong>t&#234;nis de rodinha.</strong></em></p><p>e n&#227;o &#233; met&#225;fora. quero mesmo. um t&#234;nis com rodinhas embutidas, que eu possa usar no shopping, no mercado, talvez at&#233; em casa, deslizando de um c&#244;modo ao outro como quem decidiu que, se a vida vai ser um porre, que pelo menos seja escorregando com estilo.</p><p>esses dias, vi um menino usando um desses. devia ter uns oito anos, camiseta do pain do naruto e uma felicidade esquisita no rosto, como quem acabou de descobrir que gravidade &#233; s&#243; uma sugest&#227;o. fiquei hipnotizado olhando esse moleque. lembrei de como eu queria um desses quando era crian&#231;a e n&#227;o pude ter, porque era caro, porque era moda, porque podia machucar. e agora, adulto, me matando de trabalhar e tudo mais, teoricamente eu poderia ter um.<br>mas descobri que existem poucas vers&#245;es adultas e nenhuma delas me cativou o suficiente.  </p><p>ou talvez tenha sonhado e achado que era rid&#237;culo demais.</p><p>porque &#233; isso: parece que existe um limite de encantamento que a gente &#233; autorizado a carregar. depois dos vinte e poucos, sorrir demais &#233; suspeito. querer um t&#234;nis de rodinha &#233; regress&#227;o. brincar &#233; desvio de fun&#231;&#227;o.</p><p></p><p><strong>2. sobre esferas alien&#237;genas, continentes proibidos e outros pequenos del&#237;rios necess&#225;rios</strong></p><p>essa semana tamb&#233;m perdi umas boas horas investigando a tal da esfera de buga met&#225;lica que caiu na col&#244;mbia h&#225; uns meses. um objeto n&#227;o identificado, redondo, cheio de emblemas e uma linguagem desconhecida, quase po&#233;tica, que fez brotar em mim aquela crian&#231;a que acreditava em tudo.</p><p>segundo o <em>terra</em>, moradores relataram que &#8220;o objeto desceu do c&#233;u de forma r&#225;pida, mas com trajet&#243;ria controlada, como se soubesse onde queria pousar.&#8221;</p><p>a pol&#237;cia isolou a &#225;rea. os bombeiros tamb&#233;m apareceram. o diretor da defesa civil da regi&#227;o declarou: &#8220;n&#227;o sabemos a origem do objeto. &#233; algo muito estranho.&#8221;<br>e &#233; a&#237; que mora a m&#225;gica.<br>n&#227;o no objeto em si, mas na suspens&#227;o moment&#226;nea de certezas.<br>na frase &#8220;algo muito estranho&#8221;.<br>no espa&#231;o entre o espanto e a explica&#231;&#227;o.</p><p>fiquei hiperfixado nessa porra, li not&#237;cias, assisti v&#237;deos com zooms malfeitos, acompanhei discuss&#227;o nos coment&#225;rios da galera jurando que era coisa de outro mundo. fiquei excitado com a possibilidade de algo finalmente escapar da explica&#231;&#227;o.</p><p>tamb&#233;m fiquei, de certa forma, frustrado com esse meu interesse. porque, por alguns minutos, eu quis acreditar.<br>quis que fosse um sinal. quis que quebrasse a l&#243;gica. quis que fosse um bilhete sideral dizendo &#8220;ei, voc&#234;s a&#237;, parem com esse neg&#243;cio de boletos, vem brincar com a gente&#8221;.</p><p>me fez pensar que talvez n&#227;o seja sobre a esfera em si, e sim sobre o desejo de que algo fora do script aconte&#231;a.<br>algo que nos devolva o espanto.</p><p>em outra aba do navegador, descobri uma comunidade terraplanista que criou uma &#8220;geografia alternativa&#8221; do mundo, com continentes escondidos al&#233;m da muralha de gelo. tinha mapa, nomes, climas, folclore. era tudo uma mentira evidente, mas, ao mesmo tempo, extremamente bem contada.</p><p>eu fiquei encantado. n&#227;o pela tese, mas pela energia criativa de inventar um mundo inteiro s&#243; pra fugir do t&#233;dio do nosso.</p><p>e a&#237; percebi que a gente n&#227;o quer s&#243; verdade. a gente quer beleza.</p><p>e a beleza, &#224;s vezes, precisa de uma boa dose de del&#237;rio pra fazer sentido.</p><p></p><p><strong>3. o direito adulto de brincar (e n&#227;o se explicar)</strong></p><p>entre os melhores momentos da minha semana est&#227;o os minutos em que minha namorada vira pra mim e diz, com uma cara entre o t&#233;dio e a epifania: &#8220;e a&#237;, vamos brincar de qu&#234;?&#8221;</p><p>isso &#233; o que acende tudo.<br>de repente, estamos improvisando uma gincana mental, jogando stop sem papel, inventando hist&#243;rias rid&#237;culas ou fazendo vozes de personagens que n&#227;o existem, quase um epis&#243;dio do castelo r&#225;-tim-bum dirigido por lars von trier.</p><p>essas brincadeiras n&#227;o t&#234;m fun&#231;&#227;o. . mas elas fazem a gente rir at&#233; perder a for&#231;a das pernas.<br>e, mais do que isso, elas nos tiram da obriga&#231;&#227;o de ser sempre gente grande.</p><p>&#233; engra&#231;ado perceber que ningu&#233;m diz: &#8220;para salvar sua sanidade, brinque com sua namorada como se fossem dois coelhos m&#225;gicos ciborgues em uma disputa de adivinha&#231;&#227;o metaf&#237;sica.&#8221;</p><p>mas talvez devessem.</p><p>porque brincar, depois de adulto, n&#227;o &#233; s&#243; resist&#234;ncia. &#233; afeto. &#233; cumplicidade. &#233; uma forma de dizer: &#8220;eu confio tanto em voc&#234; que posso ser idiota na sua frente sem medo.&#8221;</p><p></p><p><strong>4. o </strong><em><strong>sideral</strong></em><strong> e a inf&#226;ncia reencenada com roupa de adulto</strong></p><p>a cada seis meses, participo de um ritual com amigos que eu s&#243; consigo descrever como uma tentativa consciente de reencenar a inf&#226;ncia.</p><p>a gente chama de rol&#234; <em>sideral</em>.<br>&#233; um encontro onde nos reunimos numa casa qualquer, colocamos roupas confort&#225;veis, montamos um cen&#225;rio quase de girl tumblr (cobertas, luzinhas coloridas, petiscos) e&#8230; tomamos LSD.</p><p>mas n&#227;o &#233; sobre a droga. &#233; sobre o que ela nos permite acessar.</p><p>naquelas horas suspensas, jogamos videogame, desenhamos, fazemos massinha, discutimos sobre quais n&#250;meros t&#234;m qual cor, assistimos v&#237;deos de snowboarding ou ficamos s&#243; olhando um abajur tentando decifrar a cor exata que ele emite.</p><p>&#233; rid&#237;culo.<br>&#233; lindo.<br>&#233; absolutamente necess&#225;rio.</p><p>porque o que acontece ali n&#227;o &#233; uma fuga da realidade , &#233; um ajuste de foco.<br>a gente olha pro mundo como se ele ainda tivesse novidades. como se a ma&#231;aneta da porta merecesse ser observada com aten&#231;&#227;o. como se a textura do tapete fosse um segredo a ser desvendado.</p><p>e no meio disso tudo, a gente se escuta. se cuida. se pergunta &#8220;voc&#234; t&#225; bem?&#8221; com uma sinceridade que raramente cabe na vida de segunda a sexta.</p><p>&#233; como se, por algumas horas, a gente deixasse de ser adulto demais pra ser gente de verdade.</p><p></p><p><strong>5. brincar &#233; coisa s&#233;ria, e quem diz o contr&#225;rio j&#225; morreu por dentro</strong></p><p>em 1938, o historiador holand&#234;s johan huizinga publicou o cl&#225;ssico &#8220;homo ludens&#8221;, no qual defende que o jogo (ou a brincadeira) &#233; um elemento fundamental da cultura.</p><p>pra ele, o ser humano &#233; antes de tudo um ser que joga, que simula, que cria regras imagin&#225;rias pra escapar da monotonia do mundo objetivo.</p><p>huizinga mostra que at&#233; as institui&#231;&#245;es mais s&#233;rias - o direito, a guerra, a pol&#237;tica - nascem de formas l&#250;dicas. s&#227;o brincadeiras que se levaram a s&#233;rio demais.</p><p>e eu fico pensando: o que acontece quando a gente para de brincar?</p><p>talvez seja a&#237; que comece o colapso. quando tudo vira meta, tudo vira fun&#231;&#227;o, tudo vira produtividade.</p><p>as crian&#231;as brincam pra aprender. os adultos deveriam brincar pra desaprender um pouco.</p><p>desaprender o ceticismo.<br>desaprender o medo do julgamento.<br>desaprender que s&#243; vale o que &#233; &#250;til.</p><p>porque brincar &#233; confiar no vazio.<br>&#233; confiar que algo vai emergir do gesto gratuito.</p><p>e isso, nesse mundo que exige tanto sentido o tempo inteiro, &#233; quase revolucion&#225;rio.</p><p></p><p><strong>6. refer&#234;ncias in&#250;teis que me mant&#234;m vivo</strong></p><p>volta e meia, algu&#233;m me pergunta qual &#233; a utilidade de saber todos os nomes dos participantes da 4&#170; edi&#231;&#227;o de &#8220;de f&#233;rias com o ex brasil&#8221;.<br>ou por que eu consigo recitar, de mem&#243;ria, frases de epis&#243;dios obscuros de &#8220;chaves&#8221; que nem passam mais no sbt.<br>ou por que eu ainda me emociono quando revejo o final de &#8220;digimon adventure&#8221; e percebo que o agumon nunca foi s&#243; um dinossauro digital, mas uma met&#225;fora do crescimento.</p><p>e eu queria dizer:<br>talvez nada disso tenha utilidade pr&#225;tica.</p><p>mas tem algo de profundamente restaurador em manter essas bobagens vivas.<br>essas narrativas que me salvaram do t&#233;dio, que me deram repert&#243;rio pra imaginar outros mundos.</p><p>n&#227;o &#224; toa, em momentos dif&#237;ceis, meu impulso n&#227;o &#233; ir &#224; academia ou meditar.<br>meu impulso &#233; assistir um v&#237;deo de algu&#233;m misturando cores de tinta.</p><p>h&#225; quem diga que isso &#233; escapismo. vai saber.</p><p></p><p><strong>7. a inf&#226;ncia n&#227;o &#233; uma fase: &#233; uma licen&#231;a po&#233;tica que pode ser renovada</strong></p><p>n&#227;o quero romantizar a inf&#226;ncia como um lugar perfeito. n&#227;o foi.<br>minha inf&#226;ncia teve ang&#250;stias, faltas, frustra&#231;&#245;es que me moldam at&#233; hoje.<br>mas teve algo ali que eu vivo tentando resgatar: a capacidade de me importar com coisas in&#250;teis.</p><p>de me dedicar a criar um campeonato imagin&#225;rio pulando carros pela janela do uber.<br>de fazer um doodle s&#243; com nomes de bandas que eu teria.<br>de acreditar que a qualquer momento um portal podia se abrir na pia da cozinha.</p><p></p><p><strong>8. conclus&#227;o: uma convoca&#231;&#227;o p&#250;blica &#224; tolice volunt&#225;ria</strong></p><p>se voc&#234; chegou at&#233; aqui esperando uma resposta, n&#227;o tenho.<br>o que tenho &#233; uma convoca&#231;&#227;o.</p><p>brinque.</p><p>brinque com algu&#233;m.<br>brinque com voc&#234; mesmo.<br>brinque com as ideias.</p><p>n&#227;o precisa justificar.<br>n&#227;o precisa performar.<br>n&#227;o precisa postar.</p><p>s&#243; brinque.</p><p>porque se o mundo t&#225; mesmo acabando, ent&#227;o que pelo menos a gente acabe dan&#231;ando, ou deslizando com um t&#234;nis de rodinha invis&#237;vel pela cal&#231;ada da exist&#234;ncia.</p><p>fim.<br>ou quase.</p><p>(depois a gente brinca mais.)</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[não sou melhor que o ex de ninguém]]></title><description><![CDATA[(e t&#244; pouco me f#d&nd#)]]></description><link>https://desproposito.substack.com/p/manual-do-desproposito-5-nao-sou</link><guid isPermaLink="false">https://desproposito.substack.com/p/manual-do-desproposito-5-nao-sou</guid><dc:creator><![CDATA[Manual do Despropósito]]></dc:creator><pubDate>Thu, 12 Jun 2025 21:48:08 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Hn9m!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fcc6a90aa-1515-4a43-9eea-db7f74fb0937_1536x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Hn9m!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fcc6a90aa-1515-4a43-9eea-db7f74fb0937_1536x1024.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Hn9m!, /__u/desproposito.substack.com/w_424, /__u/desproposito.substack.com/c_limit, /__u/desproposito.substack.com/f_webp, /__u/desproposito.substack.com/q_auto:good, /__u/desproposito.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fcc6a90aa-1515-4a43-9eea-db7f74fb0937_1536x1024.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Hn9m!, /__u/desproposito.substack.com/w_848, /__u/desproposito.substack.com/c_limit, /__u/desproposito.substack.com/f_webp, /__u/desproposito.substack.com/q_auto:good, 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xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><h3>pr&#233;-confession&#225;rio</h3><p>n&#227;o sei voc&#234;, mas &#224;s vezes tudo o que eu quero &#233; desligar o c&#233;rebro. deixar que ele se desfa&#231;a como uma gelatina no microondas. e, para isso, nada supera a experi&#234;ncia transcendental de acender um baseado e assistir <em>de f&#233;rias com o ex</em>.<br>n&#227;o ironicamente. n&#227;o com aspas. n&#227;o como guilty pleasure. s&#243; <em>pleasure</em>.</p><p>sim, estou falando do reality show da MTV que re&#250;ne subcelebridades, ex-BBBs, influencers fitness e pessoas com implantes capilares de 18 mil reais numa casa de praia com o objetivo principal de METER O LOUCO. </p><p>um lugar onde as pessoas gritam, choram, se apaixonam em quinze minutos e se odeiam logo em seguida. onde homens fazem DR sem camisa e mulheres jogam ta&#231;as de espumante na cara dos outros com a naturalidade de quem lan&#231;a ofertas ao orix&#225;. onde a intensidade &#233; sempre maior que o senso de rid&#237;culo.</p><p>e voc&#234; pode at&#233; tentar manter a postura, fingir que est&#225; acima desse tipo de conte&#250;do. mas, no fundo, todos n&#243;s j&#225; fomos alguma vers&#227;o de um ex que aparece do nada e estraga tudo.</p><p>ent&#227;o, antes de levantar esse olhar julgador, respira fundo e vem comigo.<br>porque talvez voc&#234; n&#227;o esteja t&#227;o distante assim da Gabi Prado.</p><p>e a real &#233; que, quando o mundo parece muito s&#233;rio, muito quebrado ou muito fora do meu alcance, <em>de f&#233;rias com o ex</em> me acalma. me alivia. me d&#225; uma raz&#227;o simples para continuar existindo por mais 50 minutos.</p><p>e isso, convenhamos, j&#225; &#233; mais do que muita filosofia conseguiu me oferecer.</p><p></p><h3>um experimento tropical sobre a condi&#231;&#227;o humana</h3><p>por fora, &#233; s&#243; mais um reality com gente bronzeada, bebida quente e clima de fornica&#231;&#227;o.<br>por dentro, &#233; praticamente uma releitura de sartre com c&#226;mera lenta e trilha de trap brasileiro instrumental sem copyright.</p><p>a premissa &#233; simples e todo mundo j&#225; sabe, mas eu vou explicar de forma r&#225;pida caso voc&#234; esteve morando dentro do copo stanley da virg&#237;nia nos &#250;ltimos anos: <br>coloque dez adultos emocionalmente inst&#225;veis num para&#237;so tropical e espere que a testosterona e o ressentimento fa&#231;am o resto.<br><br>e o tempero que deixa tudo mais delicioso: com a participa&#231;&#227;o especial de seus respectivos ex-namorados, ex-peguetes, ex-tretas e ex-etc.</p><p>em tese, &#233; sobre curtir. na pr&#225;tica, &#233; sobre ser confrontado com o passado no exato momento em que voc&#234; estava prestes a virar outra pessoa.<br>ou seja: &#233; a vida.</p><p>e como toda boa met&#225;fora da exist&#234;ncia, <em>de f&#233;rias com o ex</em> escancara o que a maioria dos livros de autoajuda se recusa a admitir: a gente n&#227;o tem ideia do que est&#225; fazendo com a pr&#243;pria hist&#243;ria. e mesmo assim insiste em viver como se fosse protagonista.</p><p>voc&#234; j&#225; viveu isso numa ter&#231;a-feira comum, quando o algoritmo decidiu te lembrar de uma foto de 2017 com aquele ex que agora vende suplementa&#231;&#227;o natural no stories.</p><p></p><h3>personagens que parecem teus amigos do ensino m&#233;dio</h3><p>a din&#226;mica de <em>de f&#233;rias com o ex</em> &#233;, curiosamente, uma narrativa grega.<br>temos o her&#243;i (geralmente o que &#233; tra&#237;do ao vivo), o vil&#227;o (quase sempre o gostoso), o coro (o elenco inteiro dando opini&#227;o n&#227;o solicitada), a trag&#233;dia (a ex-namorada saindo do mar como se fosse med&#233;ia) e a catarse (a briga final com copo quebrado e gritaria).<br><br>ningu&#233;m sai ileso de uma temporada do programa sem escolher um favorito.</p><p>tem a gabi prado, que voc&#234; n&#227;o sabe se queria correr dela, ser ela ou casar com ela. tem o lipe ribeiro, que passou do status de &#8220;boy lixo&#8221; a influencer pai reformado. tem stefani bays, que tinha sua est&#233;tica emo tardia e reformulou a frase &#8220;f&#233; nas maluca&#8221;.</p><p>em 2023, a Lumena (ex-BBB, ex-militante, ex-meme) foi uma das participantes do <em>de f&#233;rias com o ex</em>.<br>ela entrou para &#8220;viver a experi&#234;ncia&#8221;, deu selinho, brigou, fez cena.<br>um ano antes, ela era s&#237;mbolo de um tipo de consci&#234;ncia cr&#237;tica.<br>de repente, estava na praia fazendo body shot com os peitos.</p><p>h&#225; um tipo de sinceridade que s&#243; surge quando a c&#226;mera est&#225; ligada.<br>e talvez esse seja o nosso espelho mais cruel.</p><p></p><h3>a &#233;tica do caos</h3><p>o que nos fascina no programa n&#227;o s&#227;o s&#243; os corpos sarados e os beijos no p&#244;r do sol, &#233; a exposi&#231;&#227;o radical das nossas vergonhas &#237;ntimas.<br>ver algu&#233;m perder a linha porque o ex ficou com outra pessoa dois dias depois de um &#8220;ainda te amo&#8221; &#233; profundamente terap&#234;utico.<br>porque a gente se reconhece.<br><br>nietzsche escreveu que &#8220;&#233; preciso ter caos dentro de si para dar &#224; luz uma estrela dan&#231;ante&#8221;.<br>no <em>de f&#233;rias com o ex</em>, as estrelas n&#227;o apenas dan&#231;am, elas dan&#231;am no topo do ego ferido.</p><p>o que fascina n&#227;o &#233; o barraco, mas o subtexto. ningu&#233;m ali &#233; s&#243; &#8220;barraqueiro&#8221;. s&#227;o pessoas expostas a um experimento de tempo, espa&#231;o e vulnerabilidade onde cada gesto &#233; amplificado, cada palavra &#233; reeditada e cada sentimento &#233; potencializado at&#233; virar enredo.</p><p>como em <em>reality bites</em>, a gente n&#227;o quer s&#243; assistir, a gente quer entender por que aquilo nos diz algo.</p><p>e o mais assustador &#233; que diz.</p><p></p><h3>trauma, tes&#227;o e terapia de grupo filmada</h3><p>tem uma fala da gabi prado (a maior participante de todas as temporadas, e me responsabilizo por essa afirma&#231;&#227;o) que diz assim:</p><blockquote><p>&#8220;eu sou o surto e a calmaria.&#8221;</p></blockquote><p>ningu&#233;m nasce pronto pra ouvir isso, mas todo mundo j&#225; sentiu.<br>quem nunca oscilou entre o &#8220;vamos conversar como adultos&#8221; e o &#8220;por que voc&#234; n&#227;o engole um plut&#244;nio?&#8221;<br><br>o programa escancara essa dualidade: queremos parecer evolu&#237;dos, mas nossa crian&#231;a interior ainda chora porque n&#227;o foi escolhida no recreio.<br>nosso ego &#233; um adolescente inseguro usando cropped na festa da firma.</p><p>e se isso n&#227;o &#233; uma representa&#231;&#227;o aut&#234;ntica da experi&#234;ncia humana, ent&#227;o n&#227;o sei o que &#233;.</p><p></p><h3>o glitch da autoestima e a performance do afeto</h3><p>existe algo de muito honesto em se deixar ser editado.<br>em saber que ser&#225; cortado, legendado, julgado e mesmo assim topar entrar naquela casa.</p><p>&#233; um tipo de coragem que beira o suic&#237;dio de imagem.<br>mas tamb&#233;m &#233; uma tentativa (inconsciente ou n&#227;o) de ser visto de forma completa. de viver o afeto com tanta intensidade que at&#233; a humilha&#231;&#227;o vira cena extra.</p><p>como na vida, ali tamb&#233;m se performa o amor. e a car&#234;ncia. e a superioridade. e a vingan&#231;a.<br>a diferen&#231;a &#233; que eles t&#234;m c&#226;mera lenta, e a gente s&#243; tem o instagram.</p><p></p><h3>entre mar, trauma e metalinguagem</h3><p>assistir ao programa &#233;, no fundo, assistir a si mesmo se julgando por estar assistindo.<br>&#233; um loop de camadas que mistura culpa cultural com t&#233;dio, julgamento com empatia, riso com reconhecimento.</p><p>a cada epis&#243;dio, a gente ri deles. depois ri da gente por estar rindo deles. e, por fim, s&#243; ri.</p><p>n&#227;o &#233; s&#243; entretenimento. &#233; um espelho c&#244;mico onde a vergonha alheia se torna verniz existencial.</p><p>n&#227;o sou melhor que <em>de f&#233;rias com o ex</em>.<br>e talvez isso seja, no fim das contas, o melhor elogio que posso me dar.</p><p>porque ali, entre shots de tequila e promessas de amor eterno com prazo de validade, tem gente tentando alguma coisa. errando feio. amando mal. gritando o que sente. pedindo colo em forma de treta.<br>e tentando (mesmo sem saber) se reconstruir a cada surto.</p><p>se isso n&#227;o &#233; profundamente humano, n&#227;o sei o que mais seria.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://desproposito.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler manual do desprop&#243;sito! 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url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/82f6d52a-f349-4788-8f3d-0645d0f8b12b_1536x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!XBMs!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd42f38c9-e35e-4c88-8acf-ad3a517faa69_1536x1024.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!XBMs!, /__u/desproposito.substack.com/w_424, /__u/desproposito.substack.com/c_limit, /__u/desproposito.substack.com/f_webp, /__u/desproposito.substack.com/q_auto:good, /__u/desproposito.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd42f38c9-e35e-4c88-8acf-ad3a517faa69_1536x1024.png 424w, 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humilha&#231;&#227;o p&#250;blica. e toda humilha&#231;&#227;o p&#250;blica que se preze come&#231;a com um adolescente tentando provar que &#233; adulto. foi assim comigo tamb&#233;m.</p><p>eu tinha quinze anos e um objetivo: viver perigosamente. o plano era simples &#8212; uma viagem com dois amigos pro guaruj&#225;, um apartamento insalubre alugado sem supervis&#227;o de adultos, uma garrafa de vodka barata comprada no boteco mais suspeito da orla e um marlboro blue ice pra acender antes do caf&#233; da manh&#227;. quer&#237;amos tudo: azara&#231;&#227;o, praia, liberdade e talvez at&#233; uma experi&#234;ncia transcendental. conseguimos, no m&#225;ximo, um traficante hesitante e uma paranguinha mofada.</p><p>na primeira noite, decidimos beber na orla, como se aquilo fosse o auge da rebeldia juvenil. pra mim era mais: era meu primeiro porre de verdade. um rito de passagem. o momento em que eu atravessaria a t&#234;nue linha entre a juventude promissora e a delinqu&#234;ncia leve.</p><p>em quest&#227;o de minutos, fui de adolescente empolgado a corpo inerte numa rampa de acesso entre a cal&#231;ada e a areia. im&#243;vel. babando. vomitando o que ainda nem tinha digerido. e ent&#227;o, ela apareceu.</p><p></p><p><strong>parte 2: a santa interven&#231;&#227;o da orla</strong></p><p>uma mo&#231;a que vestia um colete da igreja universal, daqueles que parecem ter sido impressos em outra d&#233;cada. surgiu como quem j&#225; sabia o que fazer: imp&#244;s a m&#227;o sobre minha testa suada e come&#231;ou a orar com fervor pentecostal e vocabul&#225;rio pr&#243;prio. falava em l&#237;nguas, intercalava vers&#237;culos e mandava ver no cl&#225;ssico: "sai desse corpo".</p><p>a orla, que at&#233; ent&#227;o era s&#243; barulho de latinha e funk abafado, virou plateia. meus amigos, educadamente desesperados, tentavam negociar: "mo&#231;a, t&#225; tudo bem, ele s&#243; t&#225; muito b&#234;bado". mas ela n&#227;o arredava. ela acreditava. e eu, tomado por uma culpa cat&#243;lica vintage, pedi: "ora por mim, sim. por favor".</p><p>ela gritou de novo. e de novo. e na terceira vez, eu levantei.</p><p></p><p><strong>parte 3: a ressurei&#231;&#227;o do endemoniado</strong></p><p>eu me levantei mesmo. como num espet&#225;culo de cura improvisada. como se o corpo tivesse lembrado que podia funcionar. e a orla &#8212; lotada de adolescentes, casais e vendedores de pulseirinha &#8212; aplaudiu. sim, aplaudiu. houve palmas. houve assobios. um "aleluia" perdido ecoou. e meus amigos, envergonhados, me carregaram de volta pro apartamento como quem leva uma oferenda cansada pro altar da ressaca.</p><p>n&#227;o foi um milagre. foi uma coincid&#234;ncia. mas me curou.</p><p></p><p><strong>parte 4: como perder o controle e continuar bebendo &#225;gua de coco</strong></p><p>esses dias me peguei lembrando disso com mais carinho do que vergonha. porque algo saiu de mim naquela noite. talvez fosse s&#243; o &#225;lcool. talvez fosse a expectativa de ser algu&#233;m diferente. talvez fosse s&#243; a vontade de provar alguma coisa pra ningu&#233;m espec&#237;fico.</p><p>mas o fato &#233; que sa&#237; leve. meio zonzo, &#233; verdade. mas leve.</p><p>e desde ent&#227;o eu penso sobre isso: o quanto de esfor&#231;o a gente coloca em parecer no controle? o quanto de n&#243;s &#233; performance e o quanto &#233; presen&#231;a real? e mais: que tipo de aplauso a gente t&#225; buscando do mundo?<br><br>o da orla da praia foi um vexame, mas pelo menos eu tenho essa hist&#243;ria pra contar e quebrar o gelo em todo novo grupo de amigos que eu fa&#231;o.</p><p></p><p><strong>parte 5: entre freud e faust&#227;o</strong></p><p>t&#234;m aquela frase n&#233;: a neurose &#233; o pre&#231;o que pagamos por viver em sociedade. eu diria que a vergonha &#233; o ped&#225;gio que pagamos por tentar performar normalidade. e a adolesc&#234;ncia &#233; quando a gente ainda n&#227;o aprendeu a falsificar direito, ent&#227;o tudo sai torto, exagerado, dram&#225;tico. por isso &#233; t&#227;o engra&#231;ado depois. e t&#227;o formativo.</p><p>se eu fosse dar um nome a essa fase, talvez chamasse de: "a era do exorcismo simb&#243;lico". aquela fase em que a gente tenta expulsar tudo que nos foi colocado goela abaixo: a moral, a expectativa, o modelo de sucesso, o medo de decepcionar. tudo isso tentando ser aceito por pessoas que tamb&#233;m est&#227;o tentando ser aceitas. &#233; um caos.</p><p></p><p><strong>parte 6: notas de rodap&#233; e outras desordens</strong></p><ol><li><p>o amor n&#227;o salva. mas um cafun&#233; feito por uma desconhecida com voca&#231;&#227;o messi&#226;nica pode fazer milagres tempor&#225;rios.</p></li><li><p>o controle &#233; uma ilus&#227;o. e ainda assim, &#233; vendido como necessidade b&#225;sica. tem gente que paga academia, terapeuta, guru e coach s&#243; pra parecer que t&#225; tudo sob controle. e t&#225; tudo bem, desde que voc&#234; saiba que ningu&#233;m est&#225;.</p></li><li><p>perder o controle, &#224;s vezes, &#233; um sinal de sa&#250;de. o descontrole pode ser s&#243; a alma dizendo: &#8220;ei, voc&#234; n&#227;o &#233; essa planilha.&#8221;</p></li><li><p>a culpa &#233; um v&#237;rus lit&#250;rgico. a gente pega na inf&#226;ncia e passa a vida tentando curar com sucesso, produtividade ou memes.</p></li><li><p>&#224;s vezes, o que te cura &#233; o que voc&#234; mais tem vergonha de contar.</p></li></ol><p></p><p><strong>parte 7: ep&#237;logo com gosto de sal e marlboro mentolado</strong></p><p>n&#227;o sei se aquela mulher era mesmo evang&#233;lica, ou s&#243; usava o colete como abrigo de doa&#231;&#227;o. n&#227;o sei se ela acreditava de verdade no que dizia, ou s&#243; estava me oferecendo o que sabia dar: presen&#231;a. e n&#227;o sei se eu fui exorcizado, ou s&#243; aceitei por cinco minutos que era humano demais pra seguir sozinho.</p><p>mas sei que ela me levantou. que a vergonha me batizou. que a plateia aplaudiu. e que algo em mim mudou ali.</p><p>sei que hoje, aos trinta e poucos, continuo me perguntando se fiz merda quando chego em casa depois de sair. sei que ainda tenho medo de ser um fardo, uma piada, um exagero. mas tamb&#233;m sei que, de vez em quando, a mem&#243;ria daquela noite me salva. n&#227;o porque foi bonita, mas porque foi real.</p><p>e talvez o que a gente mais precise, no fim das contas, n&#227;o seja controle. seja s&#243; isso: algu&#233;m que, mesmo sem te entender, coloque a m&#227;o na sua testa e diga: "vai passar".</p><p>existe uma foto desse dia que, infelizmente, se perdeu no orkut e n&#227;o viu mais a luz da internet contempor&#226;nea. mas tenho certeza de que, se ainda existisse, seria meu protetor de tela do celular!</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://desproposito.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler manual do desprop&#243;sito! 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url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!tlcL!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F995f2263-7245-4c5d-8c63-2cfee3de6526_619x391.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!tlcL!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F995f2263-7245-4c5d-8c63-2cfee3de6526_619x391.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!tlcL!, /__u/desproposito.substack.com/w_424, /__u/desproposito.substack.com/c_limit, /__u/desproposito.substack.com/f_webp, /__u/desproposito.substack.com/q_auto:good, 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cercado, mesmo ouvindo que &#233; importante, n&#227;o consegue acreditar nisso com o corpo inteiro.</p><p>uma solid&#227;o que n&#227;o grita.<br>mas que cochicha, com voz conhecida: &#8220;talvez seja s&#243; gentileza&#8221;.<br>&#8220;talvez seja s&#243; toler&#226;ncia&#8221;.<br>&#8220;talvez voc&#234; esteja interpretando mal a cena&#8221;.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://desproposito.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler manual do desprop&#243;sito! 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n&#227;o consegue apontar o que &#233;.<br><br>tem dias em que o amor parece um presente que entregaram na minha m&#227;o por engano.<br>tipo: &#8220;ih, desculpa, era pro apartamento de cima.&#8221;</p><p>&#233; isso.<br>uma sensa&#231;&#227;o constante de que me colocaram no grupo errado, de que o carinho que recebo vai ser cobrado depois, ou que algu&#233;m l&#225; na central de atendimento vai descobrir que eu estou usufruindo de um tipo de afeto que claramente n&#227;o era pra mim.</p><p>e &#233; estranho dizer isso porque, ao menos na superf&#237;cie, eu sou uma pessoa bem resolvida. eu trabalho, tenho amigos, fa&#231;o terapia (olha a&#237; o clich&#234;), tento dar conselhos bons. mas quando a noite chega &#8212; e &#233; sempre &#224; noite, n&#233;? &#8212; a pergunta volta.<br><strong>ser&#225; que algu&#233;m realmente gosta de mim ou s&#243; est&#227;o me aguentando?</strong></p><p>parece drama, eu sei.<br>mas &#233; s&#243; o jeito como meu c&#233;rebro aprendeu a preencher os sil&#234;ncios.</p><p>e mesmo assim, esse pensamento insiste.<br>n&#227;o todo dia, mas o suficiente pra ser familiar.<br>como se minha cabe&#231;a tivesse sido programada pra duvidar do afeto.</p><p></p><h3>(uma tentativa de explica&#231;&#227;o psicol&#243;gica que voc&#234; pode pular)</h3><p>segundo alguns psic&#243;logos &#8212; e aqui n&#227;o cito nomes s&#243; pra fingir que sei do que t&#244; falando &#8212;, isso tem a ver com &#8220;esquemas disfuncionais precoces&#8221;, que &#233; um jeito t&#233;cnico de dizer que voc&#234;, crian&#231;a, entendeu tudo errado sobre o amor.<br>mas entendeu errado por sobreviv&#234;ncia, n&#227;o por burrice.</p><p>voc&#234; cresceu num ambiente em que carinho vinha com condi&#231;&#227;o, com aus&#234;ncia, com susto, com sil&#234;ncio, com compara&#231;&#227;o, com sumi&#231;o.<br>ent&#227;o voc&#234; aprendeu que afeto n&#227;o &#233; direito, &#233; pr&#234;mio.<br>e se &#233; pr&#234;mio, tem que merecer.<br>e se tem que merecer, voc&#234; passa a vida inteira se perguntando se foi bom o bastante hoje.</p><p>a&#237; algu&#233;m te ama &#8212; ou diz que ama &#8212; e voc&#234; entra em p&#226;nico.<br>porque n&#227;o tem como isso estar certo.<br>tem alguma pegadinha.<br>uma cl&#225;usula escondida.<br>um &#8220;te amo, mas...&#8221;.</p><p>ent&#227;o voc&#234; sabota.<br>ou foge.<br>ou vira uma vers&#227;o insuport&#225;vel de si mesmo s&#243; pra testar at&#233; onde o outro aguenta.<br>quando ele vai embora, voc&#234; diz: <strong>sabia</strong>.<br>quando ele fica, voc&#234; pensa: <strong>&#233; quest&#227;o de tempo</strong>.</p><p>tem um nome pra isso, n&#227;o?<br>tem.<br>mas prefiro n&#227;o dizer.<br>&#224;s vezes os r&#243;tulos ajudam. outras, s&#243; organizam a dor numa caixa bonita.</p><p></p><h3>(pausa para a metalinguagem despretensiosa)</h3><p>sei que esse texto parece meio bagun&#231;ado.<br>&#233; que hoje eu s&#243; queria escrever como quem desabotoa a cal&#231;a depois de um dia inteiro fingindo que t&#225; tudo bem.<br>sem argumento central.<br>sem estrutura de ensaio aprovada por banca acad&#234;mica.<br>s&#243; umas frases que, quem sabe, encaixem com o que algu&#233;m tamb&#233;m sente e ainda n&#227;o conseguiu colocar em palavras.</p><p>t&#244; escrevendo tudo em min&#250;scula porque n&#227;o quero parecer mais importante do que sou.<br>tem dia que a gente n&#227;o cabe nas regras.<br>tem dia que a gente s&#243; quer existir sem estar certo.</p><p></p><h3>(o que acontece quando a gente come&#231;a a olhar pra si com menos julgamento?)</h3><p>eu tenho tentado isso.<br>n&#227;o o autoamor for&#231;ado, do tipo &#8220;me amo acima de tudo&#8221;, porque, honestamente, tem dias em que n&#227;o me suporto.<br>mas uma esp&#233;cie de conviv&#234;ncia mais justa comigo mesmo.</p><p>perceber quando estou me culpando sem motivo.<br>quando estou tentando prever o que o outro sente por medo de ser pego de surpresa.<br>quando estou interpretando uma aus&#234;ncia como sinal de desinteresse, e n&#227;o como o que ela pode ser de verdade: uma aus&#234;ncia. s&#243; isso.</p><p>ser&#225; que &#233; poss&#237;vel desenvolver uma escuta interna que n&#227;o seja cruel?<br>e se a voz que me diz &#8220;eles n&#227;o gostam tanto assim de voc&#234;&#8221; n&#227;o for minha, mas uma heran&#231;a emocional que nunca revisitei?</p><p></p><h3>(a parte em que tudo fica mais s&#233;ria, mas n&#227;o necessariamente mais triste)</h3><p>quando eu era crian&#231;a, aprendi com alguns epis&#243;dios da minha vida a desconfiar do amor.<br>n&#227;o porque fui maltratado o tempo todo &#8212; muito, muito longe disso.<br>mas porque muita coisa boa vinha misturada com susto, cobran&#231;a, sil&#234;ncio, e regras que eu nunca entendi direito.<br>muito do que me deram era amor, sim &#8212; mas um amor ansioso, atravessado, cheio de medo, de expectativa, de exig&#234;ncia.<br>e eu entendi, do jeito que dava, que amar era algo que podia machucar.</p><p>hoje, com mais de trinta, tento desaprender.<br>&#224;s vezes consigo.<br>&#224;s vezes quase.<br>&#224;s vezes nem um pouco.</p><p>mas tenho notado que a maior mudan&#231;a acontece nos dias em que eu consigo ficar.<br>ficar mesmo com medo.<br>ficar mesmo com a voz interna dizendo que t&#244; estragando tudo.<br>ficar mesmo querendo correr.<br>ficar e dizer pra mim mesmo: calma, talvez isso aqui n&#227;o seja um teste.</p><p>e mais do que isso: tenho aprendido que o amor, quando vem, nunca vem sozinho.<br>ele traz junto as bagagens, os ru&#237;dos, os fantasmas, as defesas, as cicatrizes de quem oferece e de quem recebe.<br>ningu&#233;m ama do zero.<br>ningu&#233;m ama limpo.<br>ningu&#233;m ama sem trope&#231;ar nas dores que vem carregando.</p><p>mas isso n&#227;o torna o amor menor.<br>torna ele mais humano.<br>e &#224;s vezes, a falta que eu sinto n&#227;o &#233; aus&#234;ncia do outro.<br>&#233; s&#243; saudade de uma vers&#227;o de mim que ainda n&#227;o aprendeu a ser olhada sem se esconder.</p><p></p><h3>(o come&#231;o de um outro lugar)</h3><p>eu n&#227;o acredito mais em cura total.<br>desconfio de narrativas em que o trauma vira tese de supera&#231;&#227;o.<br>mas acredito em espa&#231;os mais habit&#225;veis dentro de n&#243;s.</p><p>espa&#231;os onde n&#227;o precisamos provar que valemos.<br>onde podemos existir sem performance.<br>onde amar n&#227;o &#233; c&#225;lculo, e ser amado n&#227;o &#233; um susto.</p><p>esses espa&#231;os, &#224;s vezes, aparecem em rela&#231;&#245;es.<br>mas, quase sempre, precisam ser constru&#237;dos dentro da gente.<br>e isso d&#225; trabalho.<br>exige que a gente questione os padr&#245;es que internalizou.<br>exige que a gente aceite que talvez o amor nunca v&#225; soar totalmente seguro &#8212; mas que, ainda assim, pode ser vivido.</p><p>a liberdade afetiva, pra mim, tem sido isso:<br>reconhecer o medo e n&#227;o deixar que ele dirija a hist&#243;ria.<br>ficar, mesmo com vontade de fugir.<br>ou ir embora, sem se sentir culpado por n&#227;o caber mais.</p><p>e, talvez o mais dif&#237;cil: receber um gesto de carinho sem achar que ele &#233; um erro.</p><p></p><h3>(finalzinho &#8211; ou o que restou do peito depois de escrever isso)</h3><p>uma vez li &#8212; n&#227;o lembro onde &#8212; que tudo o que &#233; profundamente humano se comunica, mesmo que n&#227;o se entenda.<br>e talvez seja isso que eu esteja tentando fazer aqui:<br>me comunicar com quem sente parecido, mesmo que a gente n&#227;o saiba explicar exatamente o qu&#234;.</p><p>a ideia de que todo mundo merece amor &#233; bonita.<br>mas talvez o que a gente precise lembrar &#233; que <strong>aceitar</strong> esse amor tamb&#233;m exige coragem.<br>exige uma reeduca&#231;&#227;o do olhar.<br>um processo de se colocar no mundo sem medo de estar ocupando espa&#231;o demais.</p><p>&#224;s vezes, escrevo esses textos pra lembrar que o que sinto n&#227;o &#233; isolado.<br>que tem mais gente a&#237;, tentando entender por que a presen&#231;a dos outros n&#227;o apaga o sentimento de estar sozinho.<br>e que essa sensa&#231;&#227;o, embora desconfort&#225;vel, n&#227;o precisa ser vivida como falha pessoal.<br><br>eu n&#227;o sei se um dia vou me sentir plenamente digno de amor.<br>mas talvez o ponto nem seja esse.<br>talvez o amor mais bonito que a gente vive n&#227;o &#233; aquele em que a gente tem certeza de tudo, mas aquele em que a gente <strong>permanece mesmo sem saber</strong>.</p><p>ent&#227;o, se voc&#234; tamb&#233;m sente que t&#225; atrapalhando, que falou demais no &#250;ltimo encontro, que ningu&#233;m te ama como deveria, que voc&#234; estragou tudo, que n&#227;o vale tanto assim, que vai ser deixado, que exagerou&#8230;<br>fica.</p><p>respira.<br>encosta a cabe&#231;a no travesseiro sem responder a essas perguntas todas de uma vez.<br>elas v&#227;o voltar amanh&#227;.<br>mas amanh&#227; voc&#234; talvez j&#225; esteja um pouco mais disposto a duvidar delas tamb&#233;m.</p><p>e s&#243; isso j&#225; &#233; muito.<br><br>&#233; s&#243; lembrar: o amor n&#227;o vem sozinho. e isso &#233; muito mais bonito do que se parece, mesmo em letra min&#250;scula.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://desproposito.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler manual do desprop&#243;sito! 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url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!pcOU!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7b7b889f-d711-4811-bde7-cb32501dfcaf_640x390.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!pcOU!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7b7b889f-d711-4811-bde7-cb32501dfcaf_640x390.webp" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!pcOU!, /__u/desproposito.substack.com/w_424, /__u/desproposito.substack.com/c_limit, /__u/desproposito.substack.com/f_webp, /__u/desproposito.substack.com/q_auto:good, 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E, n&#227;o, n&#227;o &#233; aquela vinheta do "senta que l&#225; vem a hist&#243;ria" &#8212; que nem era do <em>Castelo</em>, mas do outro <em>R&#225;-Tim-Bum</em>, aquele que parecia ter sido dirigido por um pedagogo sob efeito de maracujina. O meu trauma tem nome, sobrenome e um terno xadrez: <strong>Dr. Pompeu Pompilho Pomposo Abobrinha</strong>.</p><p>Sim. O vil&#227;o. O anticristo da inf&#226;ncia brasileira. O homem que fez uma gera&#231;&#227;o inteira temer empreendimentos imobili&#225;rios. E eu, aos seis anos, tive o desprazer (ou privil&#233;gio amb&#237;guo) de encontr&#225;-lo ao vivo, em carne, osso e perfume forte.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://desproposito.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler manual do desprop&#243;sito! 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Minha rea&#231;&#227;o foi t&#237;pica de uma crian&#231;a que acredita no bem e no mal como quem acredita em gravidade: se eu chegasse perto, algo ruim ia acontecer. Eu ia ser sugado para o lado negro da for&#231;a, condenado a morar num pr&#233;dio de cem andares sem alma, sem passarinho na janela, sem ratinhos dan&#231;arinos cantando sobre escovar os dentes.</p><p>Eu chorei. Fui embora. E nunca mais vi o homem de terno xadrez.</p><p>At&#233; hoje, carrego essa culpa comigo. Uma culpa que s&#243; os cat&#243;licos, os ex-cat&#243;licos ou os que foram criados por m&#227;es que usavam &#8220;Jesus est&#225; vendo&#8221; como argumento educativo entender&#227;o.</p><p></p><h4>Castelo R&#225;-Tim-Bum: O socialismo encantado</h4><p>Vamos recapitular: o Castelo R&#225;-Tim-Bum era uma das experi&#234;ncias audiovisuais mais sofisticadas j&#225; produzidas pela televis&#227;o brasileira. Lan&#231;ado em 1994, quando o Brasil sa&#237;a da hiperinfla&#231;&#227;o e mergulhava de cabe&#231;a no realismo neoliberal do Plano Real, o programa ousava defender o contr&#225;rio: a fantasia, a curiosidade, a gratuidade da imagina&#231;&#227;o. Enquanto o mundo capitalizava cada segundo, o Castelo ensinava como fazer papel reciclado.</p><p>Ali, portas falavam, cobras falavam, botas falavam,  cientistas falavam (e usavam gravata borboleta). Era um lugar em que voc&#234; podia perguntar "por qu&#234;?" sem ser chamado de chato.</p><p>E quem era o vil&#227;o daquele universo? Um corretor. Um homem engravatado. Um tecnocrata disposto a demolir um castelo m&#225;gico para erguer um edif&#237;cio gen&#233;rico. Dr. Abobrinha era o anti-sonho, o avan&#231;o sem poesia, a verticaliza&#231;&#227;o do mundo emocional.</p><p>Claro que eu tinha medo. Instintivamente, eu j&#225; sabia: esse homem n&#227;o acredita em fadas. Ele acredita em planilhas.</p><p></p><h4>A inf&#226;ncia como startup emocional sem investidor</h4><p>Ser crian&#231;a &#233; viver em um Estado de exce&#231;&#227;o afetiva. Tudo &#233; bin&#225;rio: bom ou mau, certo ou errado, "pode sim" ou "a gente conversa em casa". A moral &#233; um aplicativo mal programado onde a &#250;nica funcionalidade &#233; a culpa.</p><p>A crian&#231;a n&#227;o entende inten&#231;&#227;o, s&#243; entende resultado. Dizem (n&#227;o eu) que at&#233; os sete anos, o julgamento moral das crian&#231;as &#233; baseado em consequ&#234;ncia, n&#227;o em inten&#231;&#227;o. Se voc&#234; derrubou sem querer o vaso da sala, azar o seu: voc&#234; &#233; o vil&#227;o da vez.</p><p>Por isso, quando o Dr. Abobrinha me pegou no colo e me beijou, eu n&#227;o vi um gesto de carinho. Eu vi uma transgress&#227;o do sistema. Minha l&#243;gica interna n&#227;o gritou "que simp&#225;tico". Gritou: "A AG&#202;NCIA DO MAL EST&#193; FAZENDO CAMPANHA DE IMAGEM". Era como se Darth Vader tivesse me levado para um piquenique. E, de algum modo, eu tivesse gostado.<br><br>A inf&#226;ncia &#233; uma esp&#233;cie de startup moral: a gente testa c&#243;digos, herda os bugs dos nossos pais e espera que alguma atualiza&#231;&#227;o divina venha corrigir tudo na adolesc&#234;ncia. S&#243; que n&#227;o vem. O que vem &#233; boleto, terapia e uma insistente necessidade de agradar.</p><p></p><h4>O vil&#227;o como lixeira ps&#237;quica</h4><p>Jung chamaria o Dr. Abobrinha de minha Sombra. Winnicott diria que foi o momento em que minha agressividade reprimida reconheceu uma fresta. Lacan escreveria tr&#234;s par&#225;grafos que eu n&#227;o entenderia e terminaria com "voil&#224;".</p><p>O vil&#227;o, para a mente infantil, &#233; um lugar de al&#237;vio. Ele organiza a bagun&#231;a. Ele carrega aquilo que n&#227;o podemos assumir. Ele &#233; a lixeira ps&#237;quica da cultura. O que voc&#234; faz com o seu desejo de bater no coleguinha? Joga no vil&#227;o. O que voc&#234; faz com a vontade de mentir? Entrega pro inimigo do super-her&#243;i.</p><p>Mas quando o vil&#227;o beija e abra&#231;a, o sistema entra em colapso. &#201; o equivalente emocional de descobrir que sua terapeuta tem conta no TikTok.</p><p>O vil&#227;o, nesse contexto, &#233; o que escapa &#224; transpar&#234;ncia: ele tem segundas inten&#231;&#245;es, ele quer alguma coisa, e isso j&#225; o torna suspeito. A crian&#231;a boazinha n&#227;o quer nada. Ela s&#243; quer obedecer, comer de tr&#234;s em tr&#234;s horas, dormir em len&#231;&#243;is passados.</p><p>A vilania, nesse sentido, &#233; uma amea&#231;a &#224; ordem do afeto. O vil&#227;o n&#227;o ama do jeito certo. Ele quer mais. Ele quer tudo. Ele quer transformar um castelo em pr&#233;dio e, no fundo, n&#227;o &#233; isso que fazem os adultos o tempo todo?</p><p></p><h4>Cultura pop e reden&#231;&#227;o imposs&#237;vel</h4><p>Nos ensinaram que alguns vil&#245;es se redimem. Regina George, Mal&#233;vola, Loki. Mas tudo depende da edi&#231;&#227;o, da m&#250;sica de fundo e da estrat&#233;gia de marketing.</p><p>No mundo real, redimir um vil&#227;o exige que voc&#234; abra m&#227;o da sua pr&#243;pria narrativa de v&#237;tima. E quem quer fazer isso? As v&#237;timas tamb&#233;m amam seus pap&#233;is. N&#227;o &#224; toa, as redes sociais se tornaram um grande tribunal do narcisismo ferido. Todo mundo querendo ser o mocinho. Todo mundo escrevendo sua pr&#243;pria f&#225;bula did&#225;tica.</p><p>E eu l&#225;, aos seis anos, sendo beijado por um homem que, segundo a l&#243;gica do meu universo, deveria estar destruindo um castelo com uma bola de ferro. Foi meu primeiro bug moral.<br><br>Ent&#227;o a gente prefere manter os vil&#245;es no por&#227;o. Como se fossem ex-namorados que deram certo demais na terapia. Muito mais c&#244;modo seguir dizendo que o castelo foi demolido por maldade pura.</p><h4>Desejo disfar&#231;ado de trauma</h4><p>Hoje, acho que o medo que senti naquela hora n&#227;o era exatamente medo. Era desejo. Desejo de sair do roteiro. De deixar de ser sempre a crian&#231;a boazinha, educada, que diz "por favor" e "obrigado" como se a vida fosse um restaurante de buffet.</p><p>Talvez eu quisesse ser ele. O homem que entra em um castelo e diz: "isso aqui est&#225; ultrapassado". O adulto que veste um terno xadrez e n&#227;o est&#225; nem a&#237;. O sujeito que n&#227;o pede desculpa por incomodar. Sei l&#225;, t&#244; viajando pra caralho aqui.</p><p>Talvez seja isso que vil&#245;es representam: a liberdade de n&#227;o precisar ser amado.</p><h4>O homem por tr&#225;s do terno</h4><p>Pascoal da Concei&#231;&#227;o continua vivo, brilhante, e absolutamente livre da caricatura que eu projetei nele. </p><p>Ele n&#227;o &#233; um vil&#227;o. Nunca foi. Mas, por um tempo, eu precisei que ele fosse. E talvez seja isso que mais me comova agora.</p><p><strong>Eu precisava de um vil&#227;o.</strong> Pra poder me manter puro. Pra me proteger da minha pr&#243;pria bagun&#231;a.</p><p>Hoje, eu entendo: o beijo do Dr. Abobrinha foi o in&#237;cio da minha queda moral. E tamb&#233;m o in&#237;cio da minha liberdade.</p><p>Talvez todo beijo de vil&#227;o seja, no fundo, uma convoca&#231;&#227;o pra crescer.<br>Vil&#245;es sempre foram usados como dep&#243;sitos simb&#243;licos para tudo o que n&#227;o conseguimos admitir em n&#243;s mesmos. &#201; por isso que os grandes vil&#245;es da cultura pop nos fascinam. A gente ama odiar porque, secretamente, sabe que ali tem algo de nosso.</p><p>A psican&#225;lise chama isso de proje&#231;&#227;o. A teologia chama de tenta&#231;&#227;o. A ind&#250;stria do entretenimento chama de sucesso de bilheteria.</p><p>Anos depois, descobri que o ator que interpretava o Dr. Abobrinha &#233; uma pessoa doce, generosa, comprometida com a educa&#231;&#227;o e a cultura.</p><p>Eu poderia terminar esse texto com uma li&#231;&#227;o. Mas j&#225; somos adultos demais pra isso. Ent&#227;o termino com um desejo: que a gente aprenda a abra&#231;ar nossos pr&#243;prios Drs. Abobrinhas. N&#227;o para anular a dor, mas para olhar no espelho e dizer: t&#225; tudo bem, de novo.</p><p>Se eu pudesse voltar no tempo, abra&#231;aria o Dr. Abobrinha. E pediria desculpas. Por ele. Por mim. Por todos os castelos que a gente deixou virar pr&#233;dio.</p><p>E, claro, pediria um aut&#243;grafo.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://desproposito.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler manual do desprop&#243;sito! 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url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!KhaG!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1883b539-0ac7-4cfa-9781-5c3e7e217906_486x329.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!KhaG!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1883b539-0ac7-4cfa-9781-5c3e7e217906_486x329.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!KhaG!, /__u/desproposito.substack.com/w_424, /__u/desproposito.substack.com/c_limit, /__u/desproposito.substack.com/f_webp, /__u/desproposito.substack.com/q_auto:good, 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Mas n&#227;o desses que aparecem no "Fant&#225;stico" depois do quadro dos cavalinhos do Brasileir&#227;o. Eu era um milagre com cl&#225;usula contratual e taxa Selic embutida. Uma esp&#233;cie de leasing espiritual com risco alt&#237;ssimo. Antes de mim vieram duas perdas. Dois lutos. E depois, uma promessa: &#8220;Deus, se for pra esse menino n&#227;o te servir, pode levar tamb&#233;m.&#8221;</p><p>Ou seja, eu nasci devendo. A fatura veio junto com a certid&#227;o de nascimento.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://desproposito.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler manual do desprop&#243;sito! 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Porque de repente tudo precisa servir a algo maior. N&#227;o basta viver. Tem que justificar a exist&#234;ncia.</p><p>E quando voc&#234; falha, ou apenas desacelera, n&#227;o parece um trope&#231;o comum. Parece trai&#231;&#227;o. Culpa. </p><p>Culpa por n&#227;o se encaixar no papel. Culpa por ter vontade de ser uma crian&#231;a normal. Culpa por sentir raiva dos limites que te cercam e dos adultos que dizem que aquilo &#233; amor.</p><h3>A inf&#226;ncia como trincheira moral</h3><p>Cresci numa fam&#237;lia evang&#233;lica. Das mais r&#237;gidas. Minha inf&#226;ncia foi atravessada por uma lista extensa de &#8220;n&#227;os&#8221; que definiam meu mundo antes mesmo que eu soubesse o que era desejo. N&#227;o podia assistir Pok&#233;mon (era coisa do diabo), n&#227;o podia ouvir m&#250;sica emo (sofrimento demais atrai esp&#237;ritos), n&#227;o podia jogar Yu-Gi-Oh (cartas demon&#237;acas). Os amigos de escola eram mantidos &#224; dist&#226;ncia &#8212; se n&#227;o eram da igreja, n&#227;o eram confi&#225;veis. Festa? S&#243; a do culto de jovens. Filmes? S&#243; &#225;gua com a&#231;&#250;car. As roupas, os jogos, os hobbies, tudo passava pelo filtro moral da f&#233; dos meus pais. Me vi, desde cedo, adaptando minha personalidade ao que era aceit&#225;vel. Um tipo de poda&#231;&#227;o em tempo real.</p><p>Meu repert&#243;rio de cultura pop foi cuidadosamente higienizado pela religi&#227;o, me fazendo acreditar que esses pequenos sacrif&#237;cios &#8212; que para mim, crian&#231;a, pareciam mutila&#231;&#245;es &#8212; me tornariam um adulto mais &#237;ntegro, mais limpo, mais pr&#243;ximo de Deus. Toquei na banda da igreja. Fiz ora&#231;&#227;o no acampamento de jovens. Memorizei vers&#237;culos. Usei roupas que me deixavam desconfort&#225;vel s&#243; porque eram consideradas &#8220;adequadas&#8221;. Fiz tudo isso acreditando que estava acumulando cr&#233;dito em algum banco espiritual.</p><p>O problema &#233; que, nesse processo, fui treinado para agradar. Para performar pureza. Para ser um projeto bem-sucedido de f&#233;. Isso me moldou at&#233; onde n&#227;o devia. Passei a desenvolver uma esp&#233;cie de s&#237;ndrome do escolhido: um desejo insuport&#225;vel de ser visto como algu&#233;m bom, correto, especial. Isso afetou a forma como me relaciono com as pessoas at&#233; hoje &#8212; sempre querendo merecer o afeto, provar valor, justificar minha presen&#231;a.</p><h3>A promessa que nunca se cumpre</h3><p>A gente cresce acreditando que existe um prop&#243;sito com &#8220;P&#8221; mai&#250;sculo, como se a vida fosse um quebra-cabe&#231;a com desenho pronto na tampa da caixa. Mas ningu&#233;m mostra essa tampa. Ent&#227;o voc&#234; vai juntando pe&#231;as soltas, torcendo pra fazer sentido, enquanto se pergunta se escolheu a caixa errada. E a verdade &#233; que essa ideia n&#227;o foi feita pra dar certo &#8212; ela foi feita pra manter a engrenagem funcionando. No fundo, a ideia me parece, &#224;s vezes, uma chantagem emocional bem arquitetada.</p><p>Segundo uma pesquisa do Pew Research Center, 62% dos brasileiros dizem acreditar que suas vidas t&#234;m um prop&#243;sito concedido por Deus. J&#225; um estudo da consultoria Cia de Talentos mostra que 7 em cada 10 jovens entre 18 e 30 anos afirmam estar vivendo a vida que os outros esperavam deles, n&#227;o a que eles pr&#243;prios escolheriam. Ou seja: a maioria acredita que tem um destino, mas quase ningu&#233;m sente que est&#225; vivendo o seu.</p><p>Isso me faz pensar se o bendito &#233; mesmo um farol interno &#8212; ou s&#243; um GPS desatualizado que herdamos de pais, religi&#245;es e sociedades que j&#225; nem sabem pra onde est&#227;o indo. A gente se agarra a essa ideia porque ela d&#225; um verniz nobre &#224;s nossas priva&#231;&#245;es: sofrer por um prop&#243;sito &#233; mais bonito do que sofrer &#224; toa. Mas e se estivermos s&#243; sofrendo mesmo?</p><p>O fil&#243;sofo sul-coreano Byung-Chul Han fala da &#8220;sociedade do desempenho&#8221; como um cen&#225;rio em que o sujeito n&#227;o precisa mais ser explorado por ningu&#233;m &#8212; ele mesmo faz isso com maestria. Nesse contexto, vira um chicote autoinfligido. Voc&#234; n&#227;o para porque sente que <em>n&#227;o pode parar</em>. E mesmo cansado, continua.</p><h3>E ent&#227;o&#8230; meus pais mudaram</h3><p>O mais desconcertante nessa hist&#243;ria toda &#233; que, com o tempo, meus pais largaram m&#227;o dessa ideia de ir pra igreja toda semana. A f&#233; que antes era regra virou refer&#234;ncia. Meu pai hoje toma sua cerveja. Ri de piadas que antes seriam reprovadas. Meu irm&#227;o mais novo cresceu com muito mais liberdade. Assistiu tudo o que eu n&#227;o pude, ouviu tudo o que eu n&#227;o podia, saiu com quem quis. Hoje, aos 25, ainda mora com meus pais. Fuma maconha. E isso, na casa onde cresci, n&#227;o causa mais nenhum esc&#226;ndalo. N&#227;o gera reuni&#227;o de ora&#231;&#227;o. Ningu&#233;m mais invoca os dem&#244;nios da juventude moderna.</p><p>Eu, por outro lado, sa&#237; de casa aos 18. Me mudei pra S&#227;o Paulo, arrumei um trabalho fixo, e carrego at&#233; hoje a sensa&#231;&#227;o de que preciso dar certo pra compensar alguma coisa. De que a liberdade que conquistei precisa provar algo &#8212; pra mim e para os outros. Carrego uma culpa que j&#225; nem sei de onde vem, mas que ainda ocupa espa&#231;o. Como se eu tivesse sido educado por pessoas que, agora, j&#225; n&#227;o acreditam mais naquilo tudo&#8230;e muito menos eu.</p><p>E isso me deixa perdido. Porque se o prop&#243;sito que guiou minha cria&#231;&#227;o j&#225; n&#227;o vale mais, o que sobra de mim?</p><p>Essa diferen&#231;a entre eu e meu irm&#227;o n&#227;o &#233; s&#243; sobre permiss&#245;es. &#201; sobre o peso simb&#243;lico que cada um carrega. Ele teve o direito de ser s&#243; um menino. Eu fui escalado pra ser um sinal. E mesmo depois que o roteiro foi abandonado, a sensa&#231;&#227;o de que eu preciso ser algu&#233;m continuou aqui, intacta, apertando meus ombros nos dias em que s&#243; queria ser qualquer coisa.</p><h3>O amor no meio do erro</h3><p>E antes que algu&#233;m ache que isso aqui &#233; s&#243; uma carta de rancor com assinatura em CAPS LOCK, preciso deixar claro: meus pais n&#227;o s&#227;o vil&#245;es da minha hist&#243;ria. Longe disso. Fui profundamente amado. Incondicionalmente cuidado. Mesmo que, &#224;s vezes, isso viesse empacotado em regras que me feriam. Eles tamb&#233;m estavam tentando. Com medo. Com f&#233;. Com a esperan&#231;a sincera de estarem me protegendo do mundo &#8212; e de mim mesmo.</p><p>Meus pais n&#227;o erraram por maldade, erraram por zelo. Por cren&#231;as herdadas. Por n&#227;o saberem outro caminho. E, nesse sentido, eles tamb&#233;m foram v&#237;timas: de uma estrutura religiosa que vende salva&#231;&#227;o em troca de obedi&#234;ncia, e que imp&#245;e culpa como ferramenta de controle. Quando percebo isso, algo em mim se suaviza. Porque entendo que, no fundo, todos est&#225;vamos tentando ser bons.</p><h3>Afinal, se at&#233; Deus descansou no s&#233;timo dia, por que diabos eu n&#227;o poderia tirar um cochilo sem me sentir um fracasso?</h3><p>A resposta, &#233; claro, est&#225; impressa nas entrelinhas da minha forma&#231;&#227;o: porque descanso, prazer, d&#250;vida &#8212; tudo isso era tratado como brecha para o inimigo. O descanso era perigoso (e quando eu falo de descanso, me refiro ao emocional mesmo). O prazer, suspeito. A d&#250;vida, inaceit&#225;vel. E eu cresci com esse antiv&#237;rus instalado: qualquer sinal de humanidade era lido como amea&#231;a ao meu sistema espiritual.</p><p>Resultado? Me tornei um jovem adulto viciado em aceita&#231;&#227;o. Um prestador de servi&#231;os emocionais. Um funcion&#225;rio exemplar do afeto alheio, sempre tentando entregar al&#233;m do esperado. Eu achava que, se agradasse o suficiente, talvez ningu&#233;m percebesse que por dentro eu estava esgotado, c&#237;nico, e secretamente desejando falhar &#8212; s&#243; pra ver se o mundo acabava mesmo ou se era s&#243; mais uma amea&#231;a ret&#243;rica de p&#250;lpito.</p><p>E ele n&#227;o acaba. Nem quando voc&#234; desobedece. Nem quando voc&#234; duvida. O mundo segue. E isso, por incr&#237;vel que pare&#231;a, &#233; libertador.</p><p>Talvez esse seja o verdadeiro milagre.</p><p>Perceber que pode falhar, pode contradizer, pode errar feio e ainda assim merecer afeto. Talvez o amor verdadeiro n&#227;o seja aquele que nos exige pureza, mas o que nos alcan&#231;a mesmo sujos, perdidos, de saco cheio e com a lou&#231;a da semana acumulada.</p><p>E se um dia Deus me chamar pra conversar sobre tudo isso, espero que ele venha disposto a ouvir. Porque dessa vez, eu tenho perguntas.</p><h3>E se a busca for o que mais nos afasta?</h3><p>Hoje, escrevendo essa newsletter, percebo o tamanho da contradi&#231;&#227;o. Porque talvez o ato de escrever isso, de organizar essas dores e d&#250;vidas em forma de texto, seja uma nova tentativa de encontrar um prop&#243;sito. Ou, no m&#237;nimo, de inventar um. De dar sentido ao que, at&#233; agora, pareceu um grande ru&#237;do.</p><p>Mas talvez a resposta esteja justamente a&#237;: em parar de procurar a resposta. Em aceitar que o destino n&#227;o &#233; um lugar onde se chega &#8212; &#233; um nome que damos &#224;s coisas que escolhemos fazer com afeto e presen&#231;a. E que, mesmo assim, pode mudar amanh&#227;. E tudo bem.</p><p>Nietzsche dizia que &#8220;quem tem um porqu&#234;, enfrenta qualquer como&#8221;. Eu diria que quem duvida do porqu&#234; tamb&#233;m enfrenta. Com mais incertezas, &#233; verdade, mas talvez com mais liberdade.</p><p>Barry Schwartz, psic&#243;logo e autor de <em>A Paradoxo da Escolha</em>, argumenta que o excesso de op&#231;&#245;es nos torna mais infelizes. A liberdade de ser qualquer coisa vira o p&#226;nico de ser nada. A ideia de um &#8220;chamado&#8221; se transforma em uma ansiedade constante por n&#227;o estar atendendo o telefone.</p><p>Eu olho pra minha trajet&#243;ria, das restri&#231;&#245;es infantis &#224; liberdade desconcertante da vida adulta, e percebo: n&#227;o sei o que estou fazendo. Escrevo porque me alivia. Compartilho porque d&#243;i menos quando algu&#233;m se identifica. Ou talvez seja s&#243; um gesto de sobreviv&#234;ncia disfar&#231;ado de projeto editorial.</p><p>E tudo bem. Ali&#225;s, talvez &#8220;e tudo bem&#8221; seja o prop&#243;sito mais honesto que eu j&#225; encontrei.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://desproposito.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler manual do desprop&#243;sito! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item></channel></rss>