<script data-pm-proxy="intercept"></script><?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Litterae draconis]]></title><description><![CDATA[Throw the spear of mankind beyond the mere life of a domestic ape. ]]></description><link>https://dracomantis.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!zhkz!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Faf67e50d-1f62-4b6d-bb8b-f4610cdb5ce5_400x400.png</url><title>Litterae draconis</title><link>https://dracomantis.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Fri, 04 Sep 2026 18:17:06 GMT</lastBuildDate><atom:link href="/__u/dracomantis.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Dracō]]></copyright><language><![CDATA[pt-br]]></language><webMaster><![CDATA[dracomantis@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[dracomantis@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Dracō]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Dracō]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[dracomantis@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[dracomantis@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Dracō]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[Renan Santos, a única opção]]></title><description><![CDATA[Renan Santos &#233; o &#250;nico candidato da direita nessa elei&#231;&#227;o e o &#250;nico com proposta de na&#231;&#227;o]]></description><link>https://dracomantis.substack.com/p/renan-santos-a-unica-opcao</link><guid isPermaLink="false">https://dracomantis.substack.com/p/renan-santos-a-unica-opcao</guid><dc:creator><![CDATA[Dracō]]></dc:creator><pubDate>Sun, 02 Aug 2026 19:33:04 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/1f452df0-b4d3-4173-af42-0870e87e22f6_895x598.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p></p><blockquote><p><em>&#8220;Quebrai, quebrai, meus irm&#227;os, essas velhas t&#225;buas desses devotos! Aniquilai as m&#225;ximas desses caluniadores do mundo!&#8221;</em></p><p>&#8212; Friedrich Nietzsche</p></blockquote><p>H&#225; um ano eu escrevi o <a href="/__u/dracomantis.substack.com/p/a-direita-nunca-teve-chance">primeiro texto do meu Substack</a>, numa noite de ins&#244;nia, sobre a minha desilus&#227;o com a direita brasileira e sobre como aquele momento sombrio poderia, ainda assim, abrir uma oportunidade. Na introdu&#231;&#227;o, escrevi:</p><blockquote><p>&#8220;Dias sombrios pairam sobre a direita, mas com eles vem a oportunidade. E ela precisa ser aproveitada. A Janela de Overton est&#225; mudando para a direita no mundo, e a tend&#234;ncia &#233; ir cada vez mais &#224; direita nos pr&#243;ximos anos. &#201; a hora da direita brasileira come&#231;ar a fazer o que &#233; necess&#225;rio para vencer.&#8221;</p></blockquote><p>De l&#225; para c&#225;, a Janela de Overton seguiu se movendo &#224; direita no mundo inteiro. Na Am&#233;rica Latina, apenas M&#233;xico e Brasil ainda t&#234;m presidentes de esquerda. Na Europa, o RN, seja com Le Pen, seja com Bardella, &#233; favorito para o ano que vem, e na Alemanha o AfD est&#225; bem cotado nas elei&#231;&#245;es estaduais de Berlim e cresceu forte em Baden-W&#252;rttemberg e Rheinland-Pfalz.</p><p>No entanto, como eu disse no texto anterior, os dias seguem sombrios sobre a direita brasileira. E s&#227;o sombrios n&#227;o por acaso, mas porque fomos tra&#237;dos. O maior movimento da direita desde 1988, em que foi depositada uma esperan&#231;a gigantesca num &#250;nico homem, foi esvaziado e revendido no balc&#227;o do centr&#227;o. </p><h2>O maior perdedor desde 1988</h2><p>Fl&#225;vio foi o escolhido para concorrer &#224; presid&#234;ncia este ano, e at&#233; agora &#233; o maior perdedor de uma elei&#231;&#227;o desde a redemocratiza&#231;&#227;o e, quem sabe, toda a hist&#243;ria do Brasil. Desde que se revelou seu envolvimento com Vorcaro, aquele que surpreendentemente aparecia como candidato competitivo contra Lula perdeu a lideran&#231;a nas pesquisas e viu o petista abrir dist&#226;ncia. Fl&#225;vio n&#227;o ter&#225; cargo nenhum no ano que vem, e tudo indica que as investiga&#231;&#245;es contra ele avan&#231;ar&#227;o e o risco dele ser preso caso n&#227;o seja eleito aumenta cada vez mais.</p><p>Fl&#225;vio n&#227;o tem projeto de poder nem projeto de na&#231;&#227;o. Suas propostas s&#227;o t&#227;o gen&#233;ricas quanto as do pai e, quando n&#227;o s&#227;o gen&#233;ricas, s&#227;o tentativas desesperadas de arrancar o voto feminino, um eleitorado que, em sua maioria, n&#227;o votar&#225; nele, diga ele o que disser. A mais recente foi prometer pacotes de internet e talvez at&#233; o aparelho celular, &#8220;para que nenhuma mulher deixe de estudar, se capacitar ou buscar emprego por falta de conex&#227;o&#8221;. Em mar&#231;o, o mesmo Fl&#225;vio votou a favor do PL que equiparava a misoginia ao crime de racismo, com a inten&#231;&#227;o &#243;bvia de sinalizar a esse p&#250;blico e de n&#227;o ser chamado nos debates de &#8220;machista&#8221;. Tamb&#233;m prop&#244;s vouchers de aluguel emergencial para mulheres v&#237;timas de agress&#227;o.</p><p>Cito isso para mostrar como toda a equipe de Fl&#225;vio &#233; t&#227;o med&#237;ocre quanto ele. Qualquer marqueteiro minimamente competente perceberia que essas propostas desagradam o n&#250;cleo do eleitorado bolsonarista sem converter uma s&#243; eleitora. As mulheres que n&#227;o votariam nele n&#227;o mudam de voto por causa disso, e as que votariam o fariam de qualquer forma. </p><p>Na seguran&#231;a p&#250;blica, Fl&#225;vio &#233; <em>all talk but no walk</em>. Em dezembro, disse ter reconsiderado sua posi&#231;&#227;o contra a pena de morte, aceno claro ao eleitor mais radical, depois de afirmar na mesma <a href="https://www.instagram.com/reel/DSYKMnECbHW/">entrevista</a> que &#8220;todo mundo, de algum jeito, tem que ter oportunidade de se redimir&#8221;. Seu plano &#8220;Brasil sem Medo&#8221; espelha El Salvador em doze propostas que n&#227;o combinam com quem se diz contra a pena de morte. Na economia, &#233; o velho liberalismo que podia ser visto no Facebook entre 2013 e 2018; para ficar mais clich&#234;, s&#243; faltou a foto com &#8220;As Seis Li&#231;&#245;es&#8221; de von Mises, como fez Zema.</p><p>Mas o verdadeiro motivo pelo qual nenhum Bolsonaro deveria ser op&#231;&#227;o para a direita &#233; mais simples. Fl&#225;vio e o PL t&#234;m, cada um, um &#250;nico objetivo, e s&#227;o objetivos diferentes. Fl&#225;vio quer tirar o pai da pris&#227;o domiciliar; Valdemar quer capitalizar em cima do bolsonarismo. O bolsonarismo virou apenas a forma de o dono do PL arrecadar mais. Valdemar est&#225; mais preocupado em eleger deputados do que em eleger Fl&#225;vio, e &#224;s vezes parece jogar contra a campanha presidencial de seu partido. Foi ele quem contradisse o pr&#243;prio candidato ao confirmar que o encontro com Vorcaro existiu e tratava do financiamento do filme biogr&#225;fico de Jair, o oposto do que Fl&#225;vio havia dito. N&#227;o h&#225; projeto de pa&#237;s por parte de Fl&#225;vio; n&#227;o h&#225; projeto de pa&#237;s por parte do PL. H&#225; interesses privados vestidos de candidatura, e um movimento inteiro que acreditou e foi vendido a esses interesses.</p><h2>O &#250;nico que fez a li&#231;&#227;o de casa</h2><p>No Brasil existe um &#250;nico partido de direita com um plano de poder em vez de um plano de mandato, e isso n&#227;o &#233; for&#231;a de express&#227;o. A Miss&#227;o entregou um plano de pa&#237;s distribu&#237;do em 6 fasc&#237;culos, o Livro Amarelo, com diagn&#243;stico e cronograma para cada frente. Nenhum outro concorrente, &#224; direita ou &#224; esquerda, chegou perto disso. O partido de Lula governou cinco vezes e n&#227;o operou transforma&#231;&#227;o estrutural sequer pelos pr&#243;prios crit&#233;rios; o bolsonarismo &#233; um movimento morto, onde os pr&#243;prios integrantes ficam orbitando o cad&#225;ver esperando quando ir&#227;o poder recolher os seus esp&#243;lios. A Miss&#227;o tem rosto nesta elei&#231;&#227;o, Renan Santos. E, mais que isso, tem uma gera&#231;&#227;o por tr&#225;s que n&#227;o quer herdar o pa&#237;s como ele est&#225;, mas refund&#225;-lo.</p><p>Comece pelo plano de terras raras, que &#233; uma PEC que declara o setor como quest&#227;o de seguran&#231;a nacional para blind&#225;-lo das flutua&#231;&#245;es eleitorais; um cronograma faseado que vai dos marcos legais em 2027 &#224; manufatura de &#237;m&#227;s e semicondutores em 2036 e uma arquitetura de financiamento com BNDES e capital privado. O Brasil det&#233;m a segunda maior reserva mundial de terras raras e hoje exporta min&#233;rio bruto para reimportar depend&#234;ncia tecnol&#243;gica. A Miss&#227;o &#233; o &#250;nico partido que trata isso como o que &#233;, uma quest&#227;o de soberania. Isso, somado ao projeto de industrializa&#231;&#227;o do Nordeste por Zonas Econ&#244;micas Especiais, ao programa de ciclo nuclear e &#224; meta de tornar o pa&#237;s exportador de infer&#234;ncia computacional, ou seja, vender capacidade de processamento de IA para o resto do mundo instalando data centers em solo brasileiro, o que se tem &#233; um plano de pa&#237;s de uma escala e ambi&#231;&#227;o que nenhum partido jamais cogitou</p><p>Onde os outros repetem o catecismo do liberalismo facebookiano, a Miss&#227;o prop&#245;e a PEC do Equil&#237;brio Fiscal, com economia projetada de quase R$ 1 trilh&#227;o at&#233; 2031, com desindexa&#231;&#227;o de benef&#237;cios, fim dos supersal&#225;rios. &#201; rem&#233;dio amargo; o pr&#243;prio plano de governo do Renan assume e cita Milei como exemplo; no entanto, s&#227;o sacrif&#237;cios com baixa prefer&#234;ncia temporal que fazem a diferen&#231;a no futuro. </p><p> A Miss&#227;o prop&#245;e uma Guerra ao Crime baseada no Direito Penal do Inimigo, pres&#237;dios no modelo CECOT, retomada territorial das fac&#231;&#245;es. A implementa&#231;&#227;o pr&#225;tica do Direito Penal do Inimigo se daria por sucessivos decretos de Estado de Defesa, amparados por uma legisla&#231;&#227;o que distingue o direito penal do cidad&#227;o do direito penal do inimigo e sustenta sua compatibilidade com a Constitui&#231;&#227;o pela conduta comprovada de afilia&#231;&#227;o &#224; fac&#231;&#227;o. Concorde-se ou n&#227;o com a doutrina, ela &#233; incomparavelmente mais elaborada do que apenas repetir &#8220;bandido bom &#233; bandido morto&#8221; sem nenhuma atitude concreta ou dizer que ir&#225; &#8220;combater o crime com intelig&#234;ncia&#8221;.</p><p>Al&#233;m disso, est&#225; nos planos do partido a redu&#231;&#227;o de 5.570 munic&#237;pios para 1.656, tipifica&#231;&#227;o do &#8220;crime de faveliza&#231;&#227;o&#8221; com demoli&#231;&#227;o administrativa, reforma do ensino superior que troca autonomia universit&#225;ria por alinhamento estrat&#233;gico, nucleariza&#231;&#227;o com reprocessamento. S&#227;o propostas radicais, mas o Brasil n&#227;o tem chance de sucesso sem uma revolu&#231;&#227;o na forma como o pa&#237;s &#233; pensado e executado.</p><h2>A oportunidade</h2><p>Foi por isso que, no meu texto do ano passado, eu disse que dias sombrios traziam oportunidade. Os dias seguem sombrios, de alguma forma, seguem. Mas a oportunidade est&#225; exatamente a&#237;. A Janela de Overton se move &#224; direita no mundo inteiro, e pela primeira vez desde 1988 existe, no Brasil, um partido de direita que entregou um plano de na&#231;&#227;o.</p><p>A eventual chegada da Miss&#227;o e de Renan Santos ao poder, seja nessa elei&#231;&#227;o ou nas pr&#243;ximas, &#233; a nossa vingan&#231;a contra todos aqueles que nos tra&#237;ram. &#201; a supera&#231;&#227;o do velho e fracassado pelo novo que tem chance de ser bem-sucedido. Quebremos as velhas t&#225;buas.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!OhCQ!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc3b4ee97-f2d8-4785-a1a0-1d89b89b0b0a_1124x1438.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!OhCQ!, /__u/dracomantis.substack.com/w_424, /__u/dracomantis.substack.com/c_limit, /__u/dracomantis.substack.com/f_webp, /__u/dracomantis.substack.com/q_auto:good, /__u/dracomantis.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc3b4ee97-f2d8-4785-a1a0-1d89b89b0b0a_1124x1438.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!OhCQ!, /__u/dracomantis.substack.com/w_848, /__u/dracomantis.substack.com/c_limit, /__u/dracomantis.substack.com/f_webp, 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data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/dracomantis.substack.com/subscribe"><span>Assine agora</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Habermas: o rei-filósofo (e o bruxo mau) do pós-guerra]]></title><description><![CDATA[Um homem governou (enfeiti&#231;ou) a mentes por quase meio s&#233;culo]]></description><link>https://dracomantis.substack.com/p/habermas-o-rei-filosofo-e-o-bruxo</link><guid isPermaLink="false">https://dracomantis.substack.com/p/habermas-o-rei-filosofo-e-o-bruxo</guid><dc:creator><![CDATA[Dracō]]></dc:creator><pubDate>Sun, 15 Mar 2026 15:22:33 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/e3b9008f-6a95-46fd-9073-1ea1fb8587b8_264x158.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://dracomantis.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/dracomantis.substack.com/subscribe"><span>Assine agora</span></a></p><p>"Se algu&#233;m &#233; cidad&#227;o alem&#227;o h&#225; quatro dias ou se a fam&#237;lia inteira j&#225; o &#233; h&#225; tr&#234;s gera&#231;&#245;es, &#233; indiferente. N&#243;s somos o povo alem&#227;o." - Angela Merkel</p><p>A ex-chanceler da Bundesrepublik Deutschland disse essa frase em uma entrevista a um podcast da ARD, que faz parte do grande guarda-chuva de m&#237;dia que, de uma forma ou de outra, pertence ao governo alem&#227;o. Para aqueles que n&#227;o t&#234;m Alzheimer, e estavam vivos e conscientes em 2015, sabem que a Frau Merkel decidiu dar ref&#250;gio a mais de 1 milh&#227;o de s&#237;rios no pa&#237;s. Nesses quase 11 anos, diversos deles se tornaram, atrav&#233;s de naturaliza&#231;&#227;o, cidad&#227;os alem&#227;es e, aquilo que era para ser um ref&#250;gio humanit&#225;rio at&#233; a &#8220;sangreta ditadura&#8221; de Bashar al-Assad se tornou a casa permanente de milhares de s&#237;rios e de suas futuras gera&#231;&#245;es. Imigra&#231;&#227;o na Alemanha n&#227;o &#233; algo recente, poloneses j&#225; imigravam para o pa&#237;s muitos anos antes disso<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a> . Na Alemanha Oriental, o governo importava m&#227;o de obra de outros pa&#237;ses, como Angola e Mo&#231;ambique, para suprir a escassez no pa&#237;s.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a> </p><p>Mas, mesmo assim, havia uma diferen&#231;a entre quem era um alem&#227;o cuja fam&#237;lia estava ali h&#225; s&#233;culos e algu&#233;m com um sobrenome polon&#234;s que, ap&#243;s uma ou duas gera&#231;&#245;es, se integrou &#224;quela sociedade, mais ou menos como os judeus se integraram ao pa&#237;s; ou seja, ele era um alem&#227;o de passaporte, mas n&#227;o um alem&#227;o &#233;tnico. Esse senso vem se perdendo cada vez mais e muita gente n&#227;o sabe o porqu&#234; disso.</p><p>Tudo volta a 1945 e quem foram os vencedores da Segunda Guerra. A grande quest&#227;o da Alemanha como na&#231;&#227;o, que, como um todo, rejeitava e achava ineficiente o processo de desnazifica&#231;&#227;o<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a>, era o que aquela na&#231;&#227;o seria dali para frente. Essa pergunta ficou na cabe&#231;a dos alem&#227;es do lado ocidental at&#233; a unifica&#231;&#227;o, no lado oriental j&#225; havia uma &#8220;proposta&#8221; pronta de na&#231;&#227;o que n&#227;o deixava o v&#225;cuo necess&#225;rio para que essa pergunta fosse formulada. Essa pergunta perdura at&#233; hoje na Alemanha, que, especialmente entre os mais velhos, carrega uma esp&#233;cie de culpa pelo que foi feito pelos Nacional-Socialistas.</p><p>Esse debate teve seu &#225;pice nos anos 80 na Alemanha Ocidental. Esse per&#237;odo ficou conhecido como <em>Historikerstreit</em>. O <em>Historikerstreit</em>, literalmente &#8220;disputa dos historiadores&#8221;, foi um debate p&#250;blico que dominou a intelectualidade alem&#227; ocidental entre 1986 e 1987. A quest&#227;o central era: o Holocausto era um evento &#250;nico na hist&#243;ria ou podia ser comparado a outros genoc&#237;dios, como os crimes de Stalin?</p><p>Por tr&#225;s dessa pergunta havia outra: a Alemanha poderia, finalmente, desenvolver uma identidade nacional &#8220;normal&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-4" href="#footnote-4" target="_self">4</a>, com orgulho, tradi&#231;&#227;o e continuidade hist&#243;rica, ou estava condenada a se definir eternamente pela culpa do nazismo?</p><p>De um lado, historiadores como Ernst Nolte<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-5" href="#footnote-5" target="_self">5</a> argumentavam que era hora de &#8220;historicizar&#8221; o nazismo, trat&#225;-lo como um fen&#244;meno hist&#243;rico entre outros, sem lhe conferir um estatuto moral excepcional permanente. Do outro lado, Habermas acusou esse movimento de ser uma tentativa de reabilitar o nacionalismo alem&#227;o pela porta dos fundos, de lavar a culpa hist&#243;rica para que a Alemanha pudesse voltar a ser uma na&#231;&#227;o &#8220;normal.&#8221;</p><p>Habermas venceu o debate, no sentido de que sua posi&#231;&#227;o se tornou a dominante nas universidades, na m&#237;dia e na classe pol&#237;tica alem&#227;. E foi precisamente nesse momento que o <em>Verfassungspatriotismus</em> deixou de ser um conceito filos&#243;fico e se tornou a funda&#231;&#227;o moral da Bundesrepublik.</p><p>O <em>Verfassungspatriotismus</em>, ou patriotismo constitucional, &#233; a ideia de que a lealdade pol&#237;tica leg&#237;tima numa democracia moderna n&#227;o deve se fundar em identidade &#233;tnica, cultural, hist&#243;rica ou religiosa, mas exclusivamente nos princ&#237;pios universais incorporados numa constitui&#231;&#227;o democr&#225;tica. </p><p>Ou seja, nesse novo conceito, o que faz algu&#233;m ser alem&#227;o n&#227;o &#233; ter nascido em Hamburgo, falar alem&#227;o em casa desde crian&#231;a, ter av&#243;s que viveram sob Adenauer ou ter uma mem&#243;ria coletiva compartilhada de s&#233;culos de hist&#243;ria. O que faz algu&#233;m ser alem&#227;o &#233; assinar um papel jurando respeitar a <em>Grundgesetz</em>. A p&#225;tria n&#227;o &#233; um povo, uma l&#237;ngua ou uma hist&#243;ria. A p&#225;tria &#233; um documento.</p><p>O termo foi cunhado pelo fil&#243;sofo Dolf Sternberger nos anos 1970, mas foi Habermas quem o transformou em projeto filos&#243;fico sistem&#225;tico e, mais importante, em arma intelectual durante o <em>Historikerstreit</em>. Para Habermas, depois do nazismo, qualquer apelo alem&#227;o &#224; identidade &#233;tnica ou hist&#243;rica era suspeito por defini&#231;&#227;o. Em seu artigo no Die Zeit em 1986 intitulado <a href="https://archive.is/ff7PK#selection-1205.0-1218.0">&#8220;Eine Art Schadensabwicklung&#8221;</a>, que Habermas escreveu em resposta a Ernst Nolte, ele escreve:</p><p>"O &#250;nico patriotismo que n&#227;o nos aliena do Ocidente &#233; o patriotismo constitucional (<em>Verfassungspatriotismus)</em>. Um v&#237;nculo genu&#237;no com princ&#237;pios constitucionais universalistas, infelizmente, s&#243; p&#244;de se formar na na&#231;&#227;o alem&#227; depois de Auschwitz &#8212; e atrav&#233;s dele."<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-6" href="#footnote-6" target="_self">6</a></p><p>A solu&#231;&#227;o era substituir a na&#231;&#227;o pela constitui&#231;&#227;o. O alem&#227;o n&#227;o poderia mais se orgulhar de ser alem&#227;o no sentido tradicional, mas poderia se orgulhar de viver num Estado de direito democr&#225;tico. A culpa hist&#243;rica seria redimida n&#227;o pelo tempo ou pelo luto, mas pela ades&#227;o permanente a princ&#237;pios universais.</p><p>&#201; uma ideia que soa razo&#225;vel &#224; primeira vista para muita gente, especialmente para quem olha de fora. O problema &#233; que ela ignora algo fundamental que outros j&#225; haviam pensado antes de Habermas: constitui&#231;&#245;es n&#227;o se sustentam sozinhas. Elas s&#227;o o produto de uma hist&#243;ria particular, escritas em determinada l&#237;ngua, refletindo tens&#245;es e compromissos de um povo espec&#237;fico. Uma constitui&#231;&#227;o n&#227;o cria um povo, ela pressup&#245;e um. Edmund Burke j&#225; sabia disso no s&#233;culo XVIII quando dizia que a sociedade &#233; uma parceria entre os mortos, os vivos e os ainda n&#227;o nascidos.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-7" href="#footnote-7" target="_self">7</a> Voc&#234; n&#227;o pode simplesmente substituir essa &#8220;parceria&#8221; por um contrato com princ&#237;pios abstratos e esperar que a coes&#227;o pol&#237;tica se mantenha.</p><p>Mas Habermas n&#227;o estava interessado nisso. Ele estava interessado em resolver o problema alem&#227;o, e o <em>Verfassungspatriotismus</em> era a solu&#231;&#227;o na cabe&#231;a dele e acabou se tornando a solu&#231;&#227;o n&#227;o s&#243; para a esquerda, mas para determinadas alas da direita<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-8" href="#footnote-8" target="_self">8</a>. Uma identidade pol&#237;tica t&#227;o fina e abstrata quanto a ades&#227;o a princ&#237;pios constitucionais n&#227;o gera a lealdade necess&#225;ria para uma democracia funcionar nos momentos de press&#227;o real. E foi exatamente nos momentos de press&#227;o real, a crise do euro, a crise migrat&#243;ria, a guerra na Ucr&#226;nia, que o projeto mostrou suas rachaduras.</p><p>Habermas sabia disso. Em seu livro Faktizit&#228;t und Geltung de 1992, quando escreve sobre imigra&#231;&#227;o, ele diz:</p><p>"O ponto de vista moral nos obriga a julgar este problema [imigra&#231;&#227;o em massa] de forma imparcial, ou seja, n&#227;o unilateralmente a partir da perspectiva do habitante de uma regi&#227;o de prosperidade, mas tamb&#233;m a partir da de um imigrante que ali busca sua salva&#231;&#227;o &#8212; digamos, uma exist&#234;ncia livre e digna, e n&#227;o apenas asilo pol&#237;tico. J. Rawls prop&#244;s o experimento mental de um estado original que mant&#233;m todos na ignor&#226;ncia sobre em qual sociedade nasceram e qual posi&#231;&#227;o ocupam nela. Com rela&#231;&#227;o ao nosso problema, o resultado de um exame moral realizado em refer&#234;ncia &#224; sociedade mundial &#233; evidente: 'Por tr&#225;s do v&#233;u da ignor&#226;ncia, ao considerar poss&#237;veis restri&#231;&#245;es &#224; liberdade, adota-se a perspectiva daquele que seria mais prejudicado pelas restri&#231;&#245;es, neste caso a perspectiva do estrangeiro que quer imigrar. Na posi&#231;&#227;o original, portanto, se insistiria que o direito de migrar fosse inclu&#237;do no sistema das liberdades b&#225;sicas pelas mesmas raz&#245;es pelas quais se insistiria que o direito &#224; liberdade religiosa fosse inclu&#237;do: ele pode ser essencial ao plano de vida de algu&#233;m.' Restri&#231;&#245;es leg&#237;timas ao direito de imigra&#231;&#227;o s&#243; poderiam ser justificadas sob aspectos concorrentes, como a exig&#234;ncia de evitar conflitos sociais e encargos de uma magnitude que pusessem seriamente em risco a ordem p&#250;blica ou a reprodu&#231;&#227;o econ&#244;mica da sociedade. Considera&#231;&#245;es de descend&#234;ncia, l&#237;ngua e educa&#231;&#227;o &#8212; ou mesmo de uma 'ades&#227;o &#224; comunidade cultural' do pa&#237;s de imigra&#231;&#227;o, como no caso dos alem&#227;es &#233;tnicos &#8212; n&#227;o poderiam justificar um tratamento privilegiado na imigra&#231;&#227;o ou na naturaliza&#231;&#227;o."<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-9" href="#footnote-9" target="_self">9</a></p><p>Em Postnationale Konstellation, uma cole&#231;&#227;o de ensaios lan&#231;ados em 1998, Habermas diz:</p><p><br>"Uma pol&#237;tica que visa &#224; coexist&#234;ncia igualit&#225;ria das formas de vida de diversas comunidades &#233;tnicas, grupos lingu&#237;sticos, confiss&#245;es religiosas etc. desencadeia, em Estados-na&#231;&#227;o historicamente desenvolvidos, um processo t&#227;o prec&#225;rio quanto doloroso. A cultura majorit&#225;ria, que se expandiu at&#233; tornar-se cultura nacional, deve se desvincular de sua fus&#227;o historicamente fundada com a cultura pol&#237;tica geral, para que todos os cidad&#227;os possam se identificar igualmente com a cultura pol&#237;tica de seu pa&#237;s. Na medida em que este processo de desacoplamento da cultura pol&#237;tica da cultura majorit&#225;ria tem &#234;xito, a solidariedade dos cidad&#227;os se reorienta sobre a base mais abstrata de um 'patriotismo constitucional'. Se fracassa, deixa a comunidade se fragmentar em subculturas que se fecham umas contra as outras. Em todo caso, por&#233;m, ele corr&#243;i as comunalidades substantivas da na&#231;&#227;o como comunidade de origem."<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-10" href="#footnote-10" target="_self">10</a></p><p>Para Habermas, a cultura majorit&#225;ria, no caso alem&#227;o, a cultura alem&#227; propriamente dita, &#8220;se expandiu&#8221; ao longo da hist&#243;ria at&#233; se fundir com a cultura pol&#237;tica geral do pa&#237;s. Alem&#227;o e cidad&#227;o alem&#227;o tornaram-se sin&#244;nimos. A identidade &#233;tnica e a identidade c&#237;vica est&#227;o entrela&#231;adas. Para que grupos &#233;tnicos, religiosos e lingu&#237;sticos diferentes possam se identificar igualmente com a cultura pol&#237;tica do pa&#237;s, esse entrela&#231;amento precisa ser desfeito. A cultura alem&#227; majorit&#225;ria precisa ser separada da cultura pol&#237;tica do Estado alem&#227;o. O Estado deixa de ser o Estado dos alem&#227;es e passa a ser o Estado de todos os seus residentes.</p><p>A frase de Merkel n&#227;o &#233; uma opini&#227;o pessoal exc&#234;ntrica. &#201; a conclus&#227;o l&#243;gica de d&#233;cadas de <em>Verfassungspatriotismus</em> operacionalizado. Se o povo &#233; uma categoria puramente procedimental, se o que define o alem&#227;o &#233; a ades&#227;o &#224; constitui&#231;&#227;o e n&#227;o a perten&#231;a a uma continuidade hist&#243;rica, ent&#227;o de fato n&#227;o h&#225; diferen&#231;a estrutural entre quem est&#225; ali h&#225; mil anos e quem chegou h&#225; quatro dias e assinou o papel. Merkel n&#227;o estava sendo ing&#234;nua. Estava sendo perfeitamente coerente com os pressupostos que a burocracia adotou por toda a Europa.</p><h2>II</h2><p>O projeto do Verfassungspatriotismus n&#227;o ficou confinado &#224; Alemanha. Habermas tinha ambi&#231;&#245;es maiores. Para ele, o que havia sido for&#231;ado pelo trauma de Auschwitz na Alemanha poderia ser generalizado para toda a Europa, e a Uni&#227;o Europeia seria o laborat&#243;rio desse experimento.</p><p>A Uni&#227;o Europeia n&#227;o nasceu do nada. Seu embri&#227;o foi a Comunidade Europeia do Carv&#227;o e do A&#231;o, criada em 1951, e depois a Comunidade Econ&#244;mica Europeia pelo Tratado de Roma em 1957. O projeto sempre buscou uma maior integra&#231;&#227;o econ&#244;mica entre pa&#237;ses que haviam se destru&#237;do duas vezes em trinta anos. Adenauer, De Gasperi e Schuman eram homens pragm&#225;ticos que queriam tornar a guerra economicamente invi&#225;vel.</p><p>A virada acontece nos anos 1980 e 1990. O Ato &#218;nico Europeu de 1986 aprofundou a integra&#231;&#227;o econ&#244;mica. O Tratado de Maastricht de 1992 criou a Uni&#227;o Europeia como entidade pol&#237;tica, com cidadania europeia, moeda &#250;nica e ambi&#231;&#245;es que iam muito al&#233;m do mercado. Foi precisamente nesse momento que Habermas entrou em cena com for&#231;a, transformando o que havia sido um projeto de pragmatismo econ&#244;mico num projeto de engenharia de identidade p&#243;s-nacional. Em Die postnationale Konstellation, ele formula isso explicitamente.</p><p>Em <em>Die postnationale Konstellation</em>, ele formula isso. O problema central, para Habermas, &#233; que a globaliza&#231;&#227;o econ&#244;mica havia minado as condi&#231;&#245;es que tornavam poss&#237;vel a democracia no formato nacional. O Estado-na&#231;&#227;o, a identidade nacional e a economia nacional haviam formado, desde a Revolu&#231;&#227;o Francesa, uma constela&#231;&#227;o hist&#243;rica dentro da qual o processo democr&#225;tico podia funcionar. Essa constela&#231;&#227;o estava se desfazendo. E a &#250;nica resposta politicamente s&#233;ria era criar uma nova forma de autogoverno democr&#225;tico al&#233;m das fronteiras nacionais.</p><p>Para que a Uni&#227;o Europeia funcione como comunidade pol&#237;tica real, e n&#227;o apenas como mercado, seria necess&#225;rio que os cidad&#227;os europeus desenvolvessem solidariedade uns pelos outros que transcendesse as fronteiras nacionais. Habermas diz:</p><p>&#8220;A consci&#234;ncia nacional fornece ao Estado territorial constitu&#237;do nas formas do direito moderno o substrato cultural para uma solidariedade c&#237;vica. Com isso, os v&#237;nculos que se formaram entre membros de uma comunidade concreta, ou seja, com base no conhecimento pessoal, se transformam numa forma nova e mais abstrata de solidariedade. Membros da mesma 'na&#231;&#227;o' sentem-se, embora sejam e permane&#231;am estranhos uns para os outros, suficientemente respons&#225;veis uns pelos outros a ponto de estarem dispostos a fazer 'sacrif&#237;cios' &#8212; como cumprir o servi&#231;o militar ou suportar o peso de impostos com efeito redistributivo. Na Rep&#250;blica Federal da Alemanha, o mecanismo de equaliza&#231;&#227;o financeira entre os estados &#233; um exemplo daquilo que uma ordem jur&#237;dica ao mesmo tempo igualit&#225;ria e universalista exige da disposi&#231;&#227;o de seus cidad&#227;os de assumirem responsabilidade uns pelos outros.&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-11" href="#footnote-11" target="_self">11</a></p><p>Habermas sabe, portanto, que solidariedade pol&#237;tica real pressup&#245;e identidade compartilhada. Mas a conclus&#227;o que ele tira n&#227;o &#233; preservar esse v&#237;nculo. &#201; que, como a identidade nacional foi historicamente constru&#237;da e n&#227;o naturalmente dada, pode ser superada por uma forma ainda mais abstrata de identidade. E formula ent&#227;o a exig&#234;ncia que define o projeto europeu. Como ele mesmo diz: &#8220;A solidariedade c&#237;vica at&#233; agora restrita ao Estado-na&#231;&#227;o deve se estender aos cidad&#227;os da Uni&#227;o de tal forma que, por exemplo, suecos e portugueses estejam dispostos a assumir responsabilidade uns pelos outros.&#8221;</p><p>A crise do euro em 2010 foi o teste emp&#237;rico dessa tese. Os alem&#227;es n&#227;o estavam dispostos a pagar as d&#237;vidas dos gregos. Os suecos n&#227;o se sentiam respons&#225;veis pelos portugueses. A solidariedade que Habermas prescrevia como condi&#231;&#227;o de possibilidade da Uni&#227;o Europeia simplesmente n&#227;o existia, porque nunca existiu o substrato hist&#243;rico, cultural e lingu&#237;stico que a tornaria poss&#237;vel.</p><p> &#201; uma contradi&#231;&#227;o que o texto nunca resolve. Habermas quer que suecos e portugueses se sacrifiquem uns pelos outros sem jamais terem partilhado uma hist&#243;ria, uma l&#237;ngua ou uma mem&#243;ria coletiva comuns. Quer o efeito sem a causa. Quer a solidariedade sem o substrato que a gera.</p><p>Em 2011, durante a crise do euro, isso se tornou dif&#237;cil de ignorar. Habermas publicou na <em>S&#252;ddeutsche Zeitung</em> um ensaio onde admitia algo que deveria ter sido central em sua teoria desde o in&#237;cio.</p><p>&#8220;O processo de unifica&#231;&#227;o europeia, que sempre foi conduzido por cima das cabe&#231;as da popula&#231;&#227;o, est&#225; hoje num beco sem sa&#237;da, porque n&#227;o pode avan&#231;ar sem que o habitual modo administrativo seja substitu&#237;do por uma participa&#231;&#227;o mais ampla dos cidad&#227;os. Em vez disso, as elites pol&#237;ticas enfiam a cabe&#231;a na areia. Elas continuam, impass&#237;veis, com seu projeto de elite e com a tutela dos cidad&#227;os europeus.&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-12" href="#footnote-12" target="_self">12</a></p><p>Um dos arquitetos intelectuais do projeto europeu chamou a Uni&#227;o Europeia de projeto conduzido por cima das cabe&#231;as da popula&#231;&#227;o. O fil&#243;sofo da raz&#227;o comunicativa admitiu que o projeto mais importante de sua vida nunca teve o consentimento informado dos cidad&#227;os que deveria emancipar. E a solu&#231;&#227;o que ele prop&#245;e &#233; sempre a mesma: mais integra&#231;&#227;o, mais procedimento, mais &#8220;constitui&#231;&#227;o europeia&#8221;. A resposta ao fracasso do projeto &#233; sempre mais projeto.</p><p>Mas h&#225; algo mais curioso ainda sobre o ensaio. Ele critica as elites pol&#237;ticas europeias por continuar com seu &#8220;projeto de elite e com a tutela dos cidad&#227;os europeus&#8221;, sem jamais perceber que foi ele quem forneceu a justificativa filos&#243;fica para esse projeto de elite. A gram&#225;tica moral do Verfassungspatriotismus &#233; precisamente o que tornava imposs&#237;vel questionar o projeto sem ser imediatamente enquadrado como nacionalista, populista ou proto-fascista.</p><p>Esse &#233; o mecanismo mais nocivo do projeto habermasiano. Ele n&#227;o apenas prop&#245;e uma pol&#237;tica, ele torna moralmente ileg&#237;tima a linguagem para critic&#225;-la. Em <em>Faktizit&#228;t und Geltung</em>, ao descrever a resist&#234;ncia popular &#224; imigra&#231;&#227;o em massa e ao multiculturalismo, Habermas diz:</p><p>&#8220;Rea&#231;&#245;es defensivas de extrema direita contra a chegada de estrangeiros aumentaram em toda a Europa. As classes trabalhadoras mais vulner&#225;veis &#8212; sejam as que ainda est&#227;o apenas amea&#231;adas pela perda de posi&#231;&#227;o social, sejam as que j&#225; ca&#237;ram na marginalidade &#8212; identificam-se de forma particularmente intensa com a superioridade ideologizada do pr&#243;prio grupo e repelem tudo o que vem de fora. Este &#233; o outro lado de um chauvinismo de prosperidade que cresce em toda parte. Assim, o 'problema dos refugiados' traz novamente &#224; tona a tens&#227;o latente entre cidadania e identidade nacional.&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-13" href="#footnote-13" target="_self">13</a></p><h2>III</h2><p>H&#225; outra quest&#227;o sobre o <em>Verfassungspatriotismus</em> que normalmente deixam de lado. Quando Habermas escreveu, em 1986, que esse era o &#250;nico patriotismo leg&#237;timo para a Alemanha, e aquele que n&#227;o a alienava do Ocidente, ele n&#227;o estava apenas resolvendo um problema filos&#243;fico e social da Alemanha p&#243;s-guerra. Estava chancelando uma subordina&#231;&#227;o e chamando-a de virtude.</p><p>A Alemanha do p&#243;s-guerra nunca recuperou soberania real. As tropas americanas que chegaram em 1945 nunca sa&#237;ram. Oitenta anos depois, h&#225; ainda cerca de <a href="https://www.zeit.de/news/2025-06/05/us-soldaten-in-deutschland-trump-macht-berlin-hoffnung#:~:text=Die%20bisherige%20Truppenst%C3%A4rke,in%20Europa%20bei%2065.000%20gelegen.">37 mil soldados americanos em solo alem&#227;o.</a> Isso &#233; um s&#237;mbolo que mostra que Washington mant&#233;m influ&#234;ncia sobre as decis&#245;es de Berlim. </p><p>O que o <em>Verfassungspatriotismus</em> fez foi transformar essa subordina&#231;&#227;o em identidade. Um pa&#237;s que fundou sua identidade pol&#237;tica na ades&#227;o a princ&#237;pios universais abstratos, e que definiu como suspeito qualquer apelo a interesse nacional particular, &#233; um pa&#237;s que n&#227;o tem a linguagem para defender seus pr&#243;prios interesses quando eles conflitam com os de seu protetor. A subservi&#234;ncia deixou de ser uma condi&#231;&#227;o imposta de fora e passou a ser uma convic&#231;&#227;o cultivada de dentro.</p><p>Os exemplos s&#227;o abundantes e bem documentados. Quando Donald Trump alertou, na Assembleia Geral da ONU em 2018, que a Alemanha estava se tornando perigosamente dependente do g&#225;s russo, os diplomatas alem&#227;es presentes riram. Isso era a rea&#231;&#227;o de quem nem considerava a quest&#227;o leg&#237;tima. Depend&#234;ncia energ&#233;tica da R&#250;ssia, para as elites alem&#227;s formadas no clima intelectual do <em>Verfassungspatriotismus</em>, n&#227;o era um problema de soberania nacional a ser gerido com pragmatismo.  Menos de quatro anos depois, a Alemanha abandonou o Nord Stream 2 sob press&#227;o americana, fechou suas usinas nucleares por press&#227;o interna gerada em grande parte por organiza&#231;&#245;es financiadas por funda&#231;&#245;es americanas e viu o pre&#231;o de sua energia disparar a n&#237;veis que destru&#237;ram competitividade industrial acumulada em d&#233;cadas. </p><p><a href="https://www.zdfheute.de/politik/deutschland/atomkraft-eu-atomenergie-kernkraft-von-der-leyen-100.html">Merz admitiu publicamente que o fechamento das usinas nucleares havia sido um erro. </a> E por que a Alemanha come&#231;ou a fechar as suas usinas nucleares? Tudo come&#231;a em 2000 quando Gerhard Schr&#246;der era o Bundeskanzler e, junto com die Gr&#252;ne, come&#231;ou o processo de fechamento das usinas nucleares. Schr&#246;der talvez tivesse agido ideologicamente, ou talvez n&#227;o. Schr&#246;der, ap&#243;s deixar o cargo, trabalhou para diversas empresas russas de energia, incluindo a gigante Gazprom. Um tanto quanto suspeito.</p><p>No entanto, Merkel deu in&#237;cio ao total fechamento de todas as usinas nucleares. Ap&#243;s o p&#226;nico causado por Fukushima, os alem&#227;es decidiram fechar todas as usinas nucleares. Fato &#233; que essa ideia j&#225; era antiga no pa&#237;s, especialmente por parte dos ambientalistas e ONGs do pa&#237;s. ONGs, como &#233; amplamente documentado, funcionam frequentemente como instrumentos de soft power, especialmente por parte dos EUA. </p><p><br>O erro n&#227;o foi apenas t&#233;cnico nem apenas pol&#237;tico. Foi filos&#243;fico. Foi a incapacidade de um pa&#237;s de perguntar, sem constrangimento moral imediato, o que era bom para ele como comunidade particular com interesses concretos. Um pa&#237;s formatado pelo <em>Verfassungspatriotismus</em> n&#227;o pergunta "o que &#233; melhor para a Alemanha?" Ao inv&#233;s disso, pergunta: "o que &#233; compat&#237;vel com nossos valores universais?" Mas e quando os &#8220;valores universais&#8221; n&#227;o s&#227;o o que &#233; melhor para os pa&#237;ses?</p><p>Esse &#233; o legado mais profundo e menos discutido do projeto habermasiano. N&#227;o &#233; apenas que a Alemanha abriu suas fronteiras para mais de um milh&#227;o de s&#237;rios sem um plano de integra&#231;&#227;o realista. N&#227;o &#233; apenas que a Uni&#227;o Europeia n&#227;o conseguiu gerar a solidariedade transnacional que Habermas prescrevia. &#201; que um pa&#237;s inteiro perdeu a capacidade de pensar em termos de interesse nacional sem se sentir culpado por isso. E um pa&#237;s que n&#227;o consegue pensar em seus pr&#243;prios interesses &#233;, inevitavelmente, um pa&#237;s que serve aos interesses de outros.</p><p>Habermas morreu ontem, 14 de mar&#231;o de 2026, aos 96 anos. Viveu o suficiente para ver o projeto que havia constru&#237;do se desfazer em c&#226;mera lenta: o Brexit<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-14" href="#footnote-14" target="_self">14</a>, a crise do euro, a ascens&#227;o dos partidos que ele passou a vida deplorando, a guerra na Ucr&#226;nia expondo a impot&#234;ncia militar e energ&#233;tica de uma Europa que havia terceirizado sua seguran&#231;a e sua soberania. </p><p>&#201; poss&#237;vel que tenha sido genuinamente incapaz de ver essa conex&#227;o. &#201; poss&#237;vel que n&#227;o tenha querido v&#234;-la. Em qualquer dos casos, o resultado &#233; o mesmo.</p><p>A frase de Merkel &#233; uma m&#225;xima dos tempos que Habermas ajudou a criar. Quatro dias de cidadania equivalem a tr&#234;s gera&#231;&#245;es de fam&#237;lia. O povo alem&#227;o &#233; quem assinou o papel. A na&#231;&#227;o &#233; um documento. &#201; o <em>Verfassungspatriotismus</em> em sua forma mais pura, mais honesta e mais devastadora. Habermas n&#227;o poderia ter pedido uma conclus&#227;o melhor para seu projeto. E a Alemanha n&#227;o poderia ter pagado um pre&#231;o mais alto por ele.</p><p></p><h2>IV - Sloterdijk contra Habermas e a Teoria Cr&#237;tica</h2><p>Em julho de 1999, o fil&#243;sofo Peter Sloterdijk falou em uma confer&#234;ncia no castelo de Elmau, na Baviera, num col&#243;quio dedicado a Heidegger e L&#233;vinas. O texto, intitulado <em>Regeln f&#252;r den Menschenpark</em>, era uma resposta &#224; Carta sobre o Humanismo de Heidegger de 1946, e seu argumento central era uma hist&#243;ria do humanismo como projeto de domestica&#231;&#227;o do ser humano atrav&#233;s da escrita, desde C&#237;cero at&#233; a crise da cultura de massas contempor&#226;nea. Sloterdijk perguntava, no esp&#237;rito de Nietzsche e Plat&#227;o, o que ainda poderia domar o homem quando o humanismo liter&#225;rio havia claramente falhado como escola de civiliza&#231;&#227;o. O texto era erudito, complexo e deliberadamente especulativo. Os fil&#243;sofos e te&#243;logos presentes, vindos de Israel, Fran&#231;a, Estados Unidos e Alemanha, compreenderam-no como tal.</p><p>Os jornalistas presentes compreenderam outra coisa. Thomas Assheuer publicou na <em>Die Zeit</em> um artigo intitulado <a href="https://homepage.univie.ac.at/henning.schluss/seminare/023bildung_und_genetik/texte/03assheuer.htm">&#8220;Das Zarathustra-Projekt&#8221;</a>, com o seguinte lead:  &#8220;O fil&#243;sofo Peter Sloterdijk exige uma revis&#227;o tecnogen&#233;tica da humanidade.&#8221; Assheuer afirmava que Sloterdijk havia proposto uma alian&#231;a entre fil&#243;sofos e geneticistas para conduzir uma revis&#227;o gen&#233;tica da hist&#243;ria da esp&#233;cie. Segundo Assheuer, Sloterdijk sustentava que &#8220;[&#8230;] as li&#231;&#245;es do Iluminismo precisam ser substitu&#237;das pelas se-le&#231;&#245;es da engenharia gen&#233;tica.&#8221; Na semana seguinte, Reinhard Mohr publicou no <em>Der Spiegel</em> um artigo intitulado <a href="https://www.spiegel.de/kultur/zuechter-des-uebermenschen-a-26c239f5-0002-0001-0000-000014718468">&#8220;Z&#252;chter des &#220;bermenschen&#8221;</a>, &#8220;Criador do Super-Homem&#8221;, afirmando que o discurso de Sloterdijk &#8220;carrega tra&#231;os de ret&#243;rica fascista.&#8221;</p><p>Sloterdijk respondeu com duas cartas abertas publicadas na <em>Die Zeit</em> em 9 de setembro, num texto intitulado <a href="https://homepage.univie.ac.at/henning.schluss/seminare/023bildung_und_genetik/texte/04sloterdijk_an_%20assheuer_u_Habermas.htm">&#8220;Die Kritische Theorie ist tot.&#8221;</a> A primeira carta era dirigida a Assheuer. Sloterdijk pedia que lhe enviasse o exemplar do texto que havia lido, porque o seu pr&#243;prio dizia algo completamente diferente: &#8220;Tenho em casa uma vers&#227;o desse texto que o senhor demonizou de forma fabulosa, a qual &#233; muito menos impressionante do que a sua triunfal exposi&#231;&#227;o.&#8221;</p><p>Em seu texto original, escreve Sloterdijk, ele afirma que  diz em seu discurso que as vis&#245;es de Nietzsche sobre reprodu&#231;&#227;o eram explicitamente descritas como hist&#233;ricas, e seu conceito de &#220;bermenschen era considerado como n&#227;o tendo mais um significado para o presente. O que havia sido lido como prescri&#231;&#227;o eug&#234;nica era na verdade uma pergunta formulada de modo subjuntivo sobre os desafios da biotecnologia. <a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-15" href="#footnote-15" target="_self">15</a></p><p>Algu&#233;m havia reescrito o texto contra o seu pr&#243;prio enunciado. Sloterdijk perguntava diretamente: &#8220;Ich w&#252;rde gern wissen, wer den Ihnen vorliegenden Text so sensationell umgeschrieben hat, dass er jetzt ungef&#228;hr das Gegenteil von dem besagt, was in ihm steht? Oder hat vielleicht die vorgehaltene Hand Ihnen Winke gegeben, wie er gegen den Wortlaut zu lesen sei?&#8221; &#8212; &#8220;Gostaria de saber quem reescreveu t&#227;o sensacionalmente o texto que voc&#234; tem em m&#227;os, de modo que ele agora diz aproximadamente o contr&#225;rio do que nele est&#225; escrito. Ou talvez algu&#233;m lhe tenha dado sinais e sugerido uma leitura contr&#225;ria ao seu significado literal?&#8221;</p><p>A segunda carta era para Habermas. E &#233; nela que o epis&#243;dio deixa de ser uma pol&#234;mica filos&#243;fica e passa a ser um documento sobre o mecanismo que este artigo tem descrito desde o in&#237;cio. Sloterdijk acusava Habermas de ter coordenado a campanha nos bastidores sem jamais assinar seu nome:</p><p>&#8220;O senhor, Herr Habermas, falou com in&#250;meras pessoas sobre mim, mas jamais comigo. Em nosso of&#237;cio argumentativo, isso &#233; preocupante; vindo de um te&#243;rico do di&#225;logo democr&#225;tico, &#233; incompreens&#237;vel.&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-16" href="#footnote-16" target="_self">16</a></p><p>Habermas havia telefonado de Hamburgo a Jerusal&#233;m para convencer colegas do seu ponto de vista. Havia feito c&#243;pias piratas do texto, que lhe fora cedido privadamente, e as enviado a jornalistas com instru&#231;&#245;es expl&#237;citas de como l&#234;-lo mal. Havia pressionado participantes da confer&#234;ncia por n&#227;o terem reagido ao texto com indigna&#231;&#227;o suficiente. E havia encomendado os artigos de Assheuer e Mohr com a condi&#231;&#227;o de que seu nome n&#227;o aparecesse. Como Sloterdijk anotou com precis&#227;o:</p><p>"O senhor parou de recorrer ao constrangimento sem for&#231;a do melhor argumento. Agora, chegou finalmente &#224; press&#227;o nada sutil da den&#250;ncia apressada e da leitura malfeita."<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-17" href="#footnote-17" target="_self">17</a></p><p>Sloterdijk demonstra que Habermas havia abandonado seus pr&#243;prios princ&#237;pios de &#8220;di&#225;logo democr&#225;tico&#8221; no momento em que o interlocutor era &#8220;inconveniente&#8221;.</p><p>Habermas respondeu com uma nota breve na se&#231;&#227;o de cartas de leitores da <em>Die Zeit</em> de 16 de setembro, intitulada <a href="https://www.zeit.de/1999/38/Post_vom_boesen_Geist">&#8220;Post vom b&#246;sen Geist&#8221;</a>. Negou ter orquestrado qualquer campanha e declarou: &#8220;Nesta situa&#231;&#227;o n&#227;o tenho mais nada a acrescentar sobre o assunto.&#8221; Descreveu a vers&#227;o de Sloterdijk como &#8220;uma hist&#243;ria de fantasmas divertida&#8221; e encerrou. N&#227;o havia refuta&#231;&#227;o filos&#243;fica. N&#227;o havia resposta ao argumento.</p><p>Sloterdijk havia escrito um discurso filos&#243;fico denso sobre a hist&#243;ria do humanismo, passando por Heidegger, Nietzsche e Plat&#227;o. Habermas havia respondido com uma campanha privada de press&#227;o sobre colegas e jornalistas, seguida de uma nota de leitor com tr&#234;s par&#225;grafos. O fil&#243;sofo que construiu uma carreira inteira defendendo o modelo do discurso racional como fundamento da democracia havia praticado exatamente o oposto quando o interlocutor era algu&#233;m com quem ele tinha discord&#226;ncias. Indo ao ponto de fazer uma campanha contra o Sloterdijk, j&#225; que o pr&#243;prio Habermas apenas orquestrou a campanha das sombras.</p><p>Mas o epis&#243;dio importa para al&#233;m do ajuste de contas pessoal entre dois fil&#243;sofos. Importa porque ilustra com precis&#227;o o mecanismo mais nocivo do projeto habermasiano, o mesmo que opera na cita&#231;&#227;o do <em>Wohlstandschauvinismus</em> que j&#225; vimos. Habermas n&#227;o refutou Sloterdijk. Habermas o enquadrou. Transformou um ensaio filos&#243;fico sobre a hist&#243;ria do humanismo numa apolog&#233;tica do fascismo gen&#233;tico, sem jamais responder a uma linha do argumento. E fez isso mobilizando alunos, jornalistas e a gram&#225;tica moral da culpa alem&#227;. Quem ousasse questionar o diagn&#243;stico de Habermas encontrava-se automaticamente do lado errado da hist&#243;ria.</p><p>&#201; o mesmo mecanismo que tornava imposs&#237;vel questionar a pol&#237;tica de imigra&#231;&#227;o, a UE, ser contra o fechamento de usinas nucleares, defender uma diminui&#231;&#227;o da presen&#231;a militar americana no continente sem ser chamado de &#8220;fascista e populista da extrema-direita&#8221;. Habermas constru&#237;a o vocabul&#225;rio dentro do qual toda cr&#237;tica a essa pol&#237;tica se tornava moralmente ileg&#237;tima antes mesmo de ser formulada.</p><p>Sloterdijk viu isso com clareza e nomeou-o sem eufemismos. No mesmo texto de setembro de 1999, descreveu a Teoria Cr&#237;tica em sua vers&#227;o habermasiana como &#8220;um jacobinismo mantido em lat&#234;ncia, uma vers&#227;o social-liberal da ditadura da virtude.&#8221; E concluiu com uma frase que ressoa muito al&#233;m do contexto imediato:</p><p>&#8220;A Teoria Cr&#237;tica morreu neste 2 de setembro. Estava acamada h&#225; muito tempo, a velha senhora mal-humorada, agora foi-se por completo. Nos reuniremos junto ao t&#250;mulo de uma &#233;poca, para fazer um balan&#231;o, mas tamb&#233;m para lamentar o fim de uma hipocrisia.&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-18" href="#footnote-18" target="_self">18</a></p><p>O que Sloterdijk diagnosticou em 1999 era o que eu estou demonstrando nesse artigo. Um projeto intelectual que havia substitu&#237;do o argumento pela den&#250;ncia, o debate pela patologiza&#231;&#227;o e a pol&#237;tica pela gram&#225;tica moral. Um projeto que havia convencido uma gera&#231;&#227;o inteira de europeus de que pensar em termos de interesse nacional era em si mesmo uma forma de barbarismo. E que havia encontrado em Habermas seu formulador mais sistem&#225;tico, seu defensor mais influente e, no final, seu expositor mais involuntariamente honesto do mal que havia por tr&#225;s dela.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://dracomantis.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/dracomantis.substack.com/subscribe"><span>Assine agora</span></a></p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>Hoje em dia, h&#225; um movimento de poloneses e descendentes voltarem para a Pol&#244;nia, que se tornou um pa&#237;s muito mais rico do que no passado. Mais sobre o assunto pode ser lido nessa mat&#233;ria do Tagesschau: https://www.tagesschau.de/wirtschaft/weltwirtschaft/polen-wirtschaft-arbeitnehmerfreizuegigkeit-100.html</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>Vale lembrar que o modelo desse tipo de imigra&#231;&#227;o era bastante semelhante ao dos pa&#237;ses do Golfo. Essas pessoas n&#227;o viviam livremente nas cidades e eram &#8220;importadas&#8221; apenas por motivos de trabalho.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="#footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p>Leiam o livro de Erich V&#246;gelin, tamb&#233;m conhecido como Eric Voegelin, &#8220;Hitler und die Deutschen&#8221;. H&#225; uma tradu&#231;&#227;o para o ingl&#234;s University of Missouri Press cuja cole&#231;&#227;o publicada por ela &#233; o &#8220;padr&#227;o-ouro&#8221; dos trabalhos do V&#246;gelin. </p><p>OBS: Talvez voc&#234; esteja se perguntando por que eu chamo V&#246;gelin pelo seu nome de batismo. Muito simples, por mais que ele fosse um &#8220;trans-anglo&#8221; e acabasse se incorporando &#224; cultura anglo nos EUA e, por mais que ele quisesse esquecer, ele continuava sendo um alem&#227;o.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-4" href="#footnote-anchor-4" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">4</a><div class="footnote-content"><p>Com &#8220;normal&#8221; eles queriam dizer: de acordo com o que os anglos julgassem normal e toler&#225;vel.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-5" href="#footnote-anchor-5" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">5</a><div class="footnote-content"><p>Possuo um grande respeito por Nolte e sua obra, a qual recomendo a leitura.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-6" href="#footnote-anchor-6" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">6</a><div class="footnote-content"><p>&#8221;Der einzige Patriotismus, der uns dem Westen nicht entfremdet, ist ein Verfassungspatriotismus. Eine in &#220;berzeugungen verankerte Bindung an universalistische Verfassungsprinzipien hat sich leider in der Kulturnation der Deutschen erst nach &#8211; und durch &#8211; Auschwitz bilden k&#246;nnen.&#8221;</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-7" href="#footnote-anchor-7" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">7</a><div class="footnote-content"><p>&#8220;Society is indeed a contract. Subordinate contracts for objects of mere occasional interest may be dissolved at pleasure&#8212;but the state ought not to be considered as nothing better than a partnership agreement in a trade of pepper and coffee, calico, or tobacco, or some other such low concern, to be taken up for a little temporary interest, and to be dissolved by the fancy of the parties. It is to be looked on with other reverence, because it is not a partnership in things subservient only to the gross animal existence of a temporary and perishable nature. It is a partnership in all science; a partnership in all art; a partnership in every virtue and in all perfection. As the ends of such a partnership cannot be obtained in many generations, it becomes a partnership not only between those who are living, but between those who are living, those who are dead, and those who are to be born.&#8221;<br><br>Cita&#231;&#227;o do livro Reflex&#245;es sobre a Revolu&#231;&#227;o na Fran&#231;a.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-8" href="#footnote-anchor-8" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">8</a><div class="footnote-content"><p>Especialmente dentro do Union.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-9" href="#footnote-anchor-9" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">9</a><div class="footnote-content"><p>&#8220;Der moralische Gesichtspunkt verpflichtet uns, dieses Problem unparteilich, also nicht einseitig aus der Perspektive des Bewohners einer Wohlstandsregion, zu beurteilen, sondern auch aus der eines Immigranten, der dort sein Heil, sagen wir: ein freies und menschenw&#252;rdiges Dasein und nicht nur politisches Asyl, sucht. J. Rawls hat bekanntlich das Gedankenexperiment eines Urzustandes vorgeschlagen, der alle in Unwissenheit dar&#252;ber l&#228;&#223;t, in welche Gesellschaft sie hineingeboren worden sind und welche Position sie darin einnehmen. Im Hinblick auf unser Problem liegt das Ergebnis einer mit Bezug auf die Weltgesellschaft vorgenommenen moralischen Pr&#252;fung auf der Hand: &#187;Behind the &gt;veil of ignorance, in considering possible restrictions of freedom, one adopts the perspective of the one who would be most disadvantaged by the restrictions, in this case the perspective of the alien who wants to immigrate. In the original position, then, one would insist that the right to migrate be included in the system of basic liberties for the same reasons one would insist that the right to religious freedom would be included: it might prove essential to one&#8217;s plan of life.&#171;22 Legitime Beschr&#228;nkungen des Rechts auf Immigration w&#252;rden sich allenfalls unter konkurrierenden Gesichtspunkten begr&#252;nden lassen, z. B. der Forderung, soziale Konflikte und Belastungen einer Gr&#246;22 J.H . Carens, Aliens and Citizens: The Case for Open Borders, Review of Politics 49, 1987, 258. &#223;enordnung zu vermeiden, welche die &#246;ffentliche Ordnung oder die &#246;konomische Reproduktion der Gesellschaft ernstlich gef&#228;hrden m&#252;&#223;te. Gesichtspunkte der Abstammung, Sprache und Erziehung - oder gar eines &#187;Bekenntnisses zur Kulturgemeinschaft&#171; des Einwanderungslandes, wie im Falle der Statusdeutschen - k&#246;nnten eine Privilegierung bei Einwanderung oder Einb&#252;rgerung nicht begr&#252;nden.&#8221;</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-10" href="#footnote-anchor-10" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">10</a><div class="footnote-content"><p>&#8220;Eine Politik, die auf die gleichberechtigte Ko existenz der Lebensformen verschiedener ethnischer Gemeinschaften, Sprachgruppen, Konfessionen usw abzielt, setzt freilich in historisch gewachsenen Nationalstaaten einen ebenso prek&#228;ren wie schmerzhaften Proze&#223; in Gang Die zur nationalen Kultur aufgespreizte Mehrheitskultur mu&#223; sich aus ihrer geschichtlich begr&#252;ndeten Fusion mit der allgemeinen politischen Kultur losen, wenn sich alle Burger gleicherma&#223;en mit der politischen Kultur ihres Landes sollen identifizieren k&#246;nnen In dem Ma&#223;e, wie dieser Proze&#223; der Entkoppelung der politischen Kultur von der Mehrheitskultur gelingt, stellt sich die Solidantat der Staatsburger auf die abstraktere Grundlage eines &#187;Verfassungspatnotismus&#171; um 3I Mi&#223;lingt er, la&#223;t er das Gemeinwesen in Subkulturen zerfallen, die sich gegeneinander abschotten In jedem Fall h&#246;hlt er aber die substantiellen Gemeinsamkeiten der Nation als einer Herkunftsgemeinschaft aus.&#8221;</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-11" href="#footnote-anchor-11" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">11</a><div class="footnote-content"><p>&#8220;Das nationale Bewu&#223;tsein versorgt den in Formen des modernen Rechts konstituierten Flachenstaat mit dem kulturellen Substrat f&#252;r eine staatsb&#252;rgerliche Solidarit&#228;t Damit verwandeln sich die Bindungen, die sich unter Angeh&#246;rigen einer konkreten Gemeinschaft, also auf der Grundlage pers&#246;nlicher Bekanntschaft, ausgebildet haben, in eine neue, abstraktere Form der Solidarit&#228;t Angeh&#246;rige derselben &#187;Nation&#171; f&#252;hlen sich, obwohl sie Fremde f&#252;reinander sind und bleiben, soweit f&#252;reinander verantwortlich, da&#223; sie zu &#187;Opfern&#171; bereit sind - etwa den Wehrdienst abzuleisten oder die Last umverteilungswirksamer Steuern zu tragen In der Bundesrepublik Deutschland ist der Landerfinanzausgleich ein Beispiel f&#252;r das, was eine zugleich egalit&#228;re und universalistische Rechtsordnung der Bereitschaft ihrer Burger, f&#252;reinander einzustehen, zumutet.&#8221;</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-12" href="#footnote-anchor-12" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">12</a><div class="footnote-content"><p>&#8220;Der europ&#228;ische Einigungsprozess, der immer schon &#252;ber die K&#246;pfe der Bev&#246;lkerung hinweg betrieben worden ist, steckt heute in der Sackgasse, weil er nicht weitergehen kann, ohne vom bisher &#252;blichen administrativen Modus auf eine st&#228;rkere Beteiligung der Bev&#246;lkerung umgestellt zu werden. Stattdessen stecken die politischen Eliten den Kopf in den Sand. Sie setzen unger&#252;hrt ihr Eliteprojekt und die Entm&#252;ndigung der europ&#228;ischen B&#252;rger fort.&#8221;</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-13" href="#footnote-anchor-13" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">13</a><div class="footnote-content"><p>&#8220;Rechtsradikale Abwehrreaktionen gegen die &#220;berfremdung durch Ausl&#228;nder haben in ganz Europa zugenommen. Die relativ deprivierten Schichten - ob sie nun vom sozialen Abstieg erst bedroht oder schon in die segmentierten Randgruppen abgerutscht sind - identifizieren sich besonders deutlich mit der ideologisierten &#220;bermacht des eigenen Kollektivs und wehren alles Fremde ab. Das ist die Kehrseite eines &#252;berall wachsenden Wohlstandschauvinismus. So bringt das &#187;Asylantenproblem&#171; von neuem die latente Spannung zwischen Staatsb&#252;rgerschaft und nationaler Identit&#228;t zum Vorschein.&#8221;</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-14" href="#footnote-anchor-14" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">14</a><div class="footnote-content"><p>Que foi um fracasso no fim da contas, mas foi um grande sintoma.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-15" href="#footnote-anchor-15" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">15</a><div class="footnote-content"><p>No texto publicado na Die Zeit, Sloterdijk afirma ter usado o termo "hist&#233;rico" para descrever as vis&#245;es reprodutivas de Nietzsche. No entanto, o ensaio publicado pela Suhrkamp n&#227;o cont&#233;m essa formula&#231;&#227;o aplicada a Nietzsche. O que Sloterdijk escreve sobre Nietzsche no texto publicado &#233; que ele "hatte den Bogen &#252;berspannt", ou seja, havia exagerado ao pressupor um agente consciente e planejador por tr&#225;s do processo de domestica&#231;&#227;o humana. Para Sloterdijk, esse processo foi antes uma "Zucht ohne Z&#252;chter", uma "cria&#231;&#227;o sem criador". A palavra "hysterisch" aparece no ensaio, mas aplicada a Heidegger, n&#227;o a Nietzsche, na p&#225;gina 25 da edi&#231;&#227;o Suhrkamp, onde Sloterdijk descreve o anti-vitalismo de Heidegger como tendente a "nahezu hysterischen &#196;u&#223;erungen", isto &#233;, "afirma&#231;&#245;es quase hist&#233;ricas."</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-16" href="#footnote-anchor-16" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">16</a><div class="footnote-content"><p>&#8220;Sie haben, Herr Habermas, mit zahlreichen Leuten &#252;ber mich geredet, niemals mit mir. In unserem argumentierenden Gewerbe ist das bedenklich; bei einem Theoretiker des demokratischen Dialogs ist es unverst&#228;ndlich.&#8221;</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-17" href="#footnote-anchor-17" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">17</a><div class="footnote-content"><p>&#8220;Sie haben aufgeh&#246;rt, den zwanglosen Zwang des besseren Arguments zu bem&#252;hen. Jetzt sind Sie endlich bei dem nicht mehr ganz so zwanglosen Zwang der schnelleren Denunziation (und der schlechteren Lekt&#252;re) angekommen.&#8221;</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-18" href="#footnote-anchor-18" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">18</a><div class="footnote-content"><p>&#8220;Die Kritische Theorie ist an diesem 2. September gestorben. Sie war seit l&#228;ngerem bettl&#228;gerig, die m&#252;rrische alte Dame, jetzt ist sie ganz dahingegangen. Wir werden uns versammeln am Grab einer Epoche, um Bilanz zu ziehen, aber auch, um des Endes einer Hypokrisie zu gedenken.&#8221;</p><p></p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A Revolução dos Zoomers NÃO Virá]]></title><description><![CDATA[A ilus&#227;o de uma gera&#231;&#227;o revolucion&#225;ria que, na verdade, &#233; uma gera&#231;&#227;o fragmentada]]></description><link>https://dracomantis.substack.com/p/a-revolucao-zoomers-nao-vira</link><guid isPermaLink="false">https://dracomantis.substack.com/p/a-revolucao-zoomers-nao-vira</guid><dc:creator><![CDATA[Dracō]]></dc:creator><pubDate>Sun, 26 Oct 2025 14:20:15 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/27a3ead1-e786-41a0-9e58-a1703a3b007a_750x521.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<h2>I</h2><p>Qualquer pessoa que frequentou um certo tipo de escola ouviu desde crian&#231;a a seguinte frase: &#8220;A sua gera&#231;&#227;o &#233; o futuro. Voc&#234;s devem deixar o mundo um lugar melhor para as gera&#231;&#245;es futuras. Cuidem do planeta.&#8221;. A minha escola era extremamente preocupada com o meio ambiente, a ponto de, na educa&#231;&#227;o infantil, cuidarmos de uma horta e termos contato com a natureza ao nosso redor.</p><p>Esse discurso de que a minha gera&#231;&#227;o (eu sou um zoomer) &#233; o futuro tem tomado uma nova roupagem nos tempos mais recentes. H&#225; uma expectativa de que haver&#225; uma grande revolu&#231;&#227;o do sistema pol&#237;tico e ela ser&#225; feita pelos jovens. Afinal de contas, os zoomers t&#234;m ficado cada vez mais pr&#243;ximos dos extremos pol&#237;ticos pelo mundo, especialmente nos EUA e na Europa.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a> E o mais curioso, homens t&#234;m ficado cada vez mais &#224; direita enquanto mulheres cada vez mais &#224; esquerda. A direita tem tido o seu discurso antiburocracia, anti-estado, anti-establishment ressoado cada vez mais entre os jovens. Os jovens de esquerda, com a sua grande paranoia de que o Fascismo est&#225; sempre &#224; espreita (eles n&#227;o sabem, mas o Fascismo e qualquer chance de sua implementa&#231;&#227;o morreram no dia 28 de abril de 1945) pedem cada vez mais viol&#234;ncia do lado deles, a destrui&#231;&#227;o da direita &#8220;fascista&#8221;, afinal de contas, n&#227;o h&#225; di&#225;logo com fascista. Uma verdadeira classe revolucion&#225;ria, n&#227;o &#233; mesmo?</p><p>As coisas t&#234;m que ficar claras antes de eu responder o porqu&#234; da nossa gera&#231;&#227;o n&#227;o ser revolucion&#225;ria e n&#227;o ter o &#237;mpeto para ser. Eu n&#227;o acredito que a democracia liberal &#233; um regime que ir&#225; viver ad aeternum. Por outro lado, eu n&#227;o acredito no seu colapso em nenhum per&#237;odo recente. Eu acho que ela ainda ir&#225; durar bastante tempo - mais do que o meu tempo de vida - com alguns ajustes, mas o seu esp&#237;rito ainda estar&#225; presente<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a>. Eu acredito em uma lenta decad&#234;ncia do modelo. </p><p>A prova mais recente de que o mundo ainda &#233; liberal e n&#227;o est&#225; pronto para deixar ir a ordem liberal existente &#233; a rea&#231;&#227;o dos pa&#237;ses perante as tarifas de Trump no mundo.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a> O mundo se uniu novamente para a conserva&#231;&#227;o de um mundo com menos fronteiras econ&#244;micas e, no geral, menos fronteiras. Me parece que as pessoas que anunciam a iminente queda do Regime possuem mais um wishful thinking do que uma prova realmente concreta de que essa ordem est&#225; em estado terminal. E que, passa por esse wishful thinking de que os zoomers ser&#227;o respons&#225;veis por essa queda.</p><h2>II</h2><p>Recentemente, essa percep&#231;&#227;o voltou a tomar for&#231;a ap&#243;s &#8220;revolu&#231;&#245;es&#8221; serem feitas por jovens no Nepal e em Madagascar. Com todo respeito &#224;s pessoas que enxergam nisso um exemplo, algumas eu at&#233; gosto, mas essa vis&#227;o &#233; uma que eu n&#227;o acho que esteja em conformidade com a realidade. Nenhum desses lugares &#233; exemplo para uma poss&#237;vel revolu&#231;&#227;o zoomer. Primeiro, esses s&#227;o pa&#237;ses completamente perif&#233;ricos, irrelevantes no cen&#225;rio internacional, os quais, geralmente, quando h&#225; essas revolu&#231;&#245;es, quem assume o lugar do antigo governo &#233; algu&#233;m pior do que o antecessor ou o local acaba caindo em uma guerra civil. Mas, j&#225; que pegaram esses dois como prel&#250;dio de algo que est&#225; por vir, vamos ver quem assumiu ap&#243;s os protestos dos zoomers.</p><p>Sabe quem assumiu o governo provis&#243;rio no Nepal ap&#243;s a dita revolu&#231;&#227;o zoomer? Uma jurista chamada Sushila Karki, ex-presidente da Suprema Corte do pa&#237;s, tem 73 anos.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-4" href="#footnote-4" target="_self">4</a> Em Madagascar, quem assumiu o governo foi Michael Randrianirina, um coronel de 52 anos. Em ambos os casos vemos paralelos parecidos. O primeiro &#233; que, quem assumiu o poder n&#227;o foram zoomers, nem millennials, foram pessoas que n&#227;o pertencem &#224; dita gera&#231;&#227;o revolucion&#225;ria. Outro ponto em comum &#233; que quem assumiu o pa&#237;s pertencia a uma determinada oligarquia que aproveitou o v&#225;cuo de poder criado. Um terceiro ponto, &#233; a esterilidade disso. Retornemos &#224; primavera &#225;rabe, por exemplo, o que surgiu dali? Apenas desordem e caos em lugares com governos fr&#225;geis que acabaram sendo derrubados jogaram o pa&#237;s em uma situa&#231;&#227;o muito pior do que a anterior.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-5" href="#footnote-5" target="_self">5</a></p><p>Tudo indica que Nepal e Madagascar ir&#227;o seguir os passos da primavera &#225;rabe e ir&#227;o mergulhar em uma profunda crise institucional. As pautas de suas revoltas s&#227;o parecidas, inclusive, com as pautas das manifesta&#231;&#245;es de 2013, sendo o principal fator protestos contra a corrup&#231;&#227;o e a crise de representa&#231;&#227;o pol&#237;tica.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-6" href="#footnote-6" target="_self">6</a> Isso nos leva ao primeiro ponto que explica por que eu n&#227;o acredito que os zoomers sejam a classe revolucion&#225;ria dos nossos tempos (especialmente no Brasil). </p><h2>III</h2><p>Um zoomer, em nosso pa&#237;s, n&#227;o difere em sua percep&#231;&#227;o pol&#237;tica daquela que, por exemplo, um millennial tem. Os problemas enfrentados permanecem correlatos: a percep&#231;&#227;o de falta de representa&#231;&#227;o, o aumento da desigualdade social e a exist&#234;ncia de uma elite parasita. </p><p>Ao analisar o que &#233; proposto por essa gera&#231;&#227;o como solu&#231;&#227;o, a resposta aponta para a aus&#234;ncia de originalidade. As propostas n&#227;o trazem nada que n&#227;o tenha sido articulado em ciclos pol&#237;ticos anteriores (ou voc&#234; acha que o populismo e o discurso antiburocracia surgiram em 2016 com Trump?). A ret&#243;rica da revolu&#231;&#227;o, portanto, ignora uma profunda transforma&#231;&#227;o na composi&#231;&#227;o da sociedade e na mentalidade da juventude, o que anula a possibilidade de qualquer insurg&#234;ncia nos moldes do s&#233;culo XX, seja ela armada ou atrav&#233;s das urnas.</p><p>A premissa de que a energia da frustra&#231;&#227;o se traduzir&#225; em poder pol&#237;tico falha ao negligenciar a morte do idealismo nas novas gera&#231;&#245;es. Ao contr&#225;rio do que se via em d&#233;cadas passadas, quando jovens se mobilizavam por causas distantes com um ethos de auto-sacrif&#237;cio, os zoomers exibem um cinismo muito mais acentuado. A pol&#237;tica dessa gera&#231;&#227;o &#233;, em grande parte, reativa e transacional. O engajamento &#233; intenso quando a quest&#227;o &#233; percebida como uma amea&#231;a ou injusti&#231;a pr&#243;xima e pessoal, e n&#227;o um idealismo ut&#243;pico necess&#225;rio para iniciar um movimento de massas disposto a arriscar tudo pela revolu&#231;&#227;o. </p><p>O argumento mais forte contra a possibilidade de uma revolu&#231;&#227;o reside na transforma&#231;&#227;o radical da estrutura da sociedade. As revolu&#231;&#245;es bem-sucedidas do s&#233;culo XX foram sustentadas por uma classe de camponeses e oper&#225;rios resistentes e dispostos a subsistir em condi&#231;&#245;es extremas e a morrer pela causa. Comandados, geralmente, por pessoas mais educadas e inteligentes do que eles. (Exemplos: Che Guevara, formado em medicina; Fidel, altamente culto e formado em direito; L&#234;nin, Trotsky, etc.)</p><p>Al&#233;m disso, eles precisavam de homens jovens para isso, como eu disse acima, homens resistentes e incans&#225;veis dispostos a dar a vida pelo ideal de um mundo, para eles, melhor. A m&#233;dia de idade da popula&#231;&#227;o <a href="https://educa.ibge.gov.br/jovens/conheca-o-brasil/populacao/18318-piramide-etaria.html#:~:text=No%20Brasil%2C%20de%202010%20a,de%2028%20para%2033%20anos).">brasileira &#233; de 35 ano</a>s, a grande massa das pessoas n&#227;o est&#225; interessada em uma revolu&#231;&#227;o, sendo zoomer ou n&#227;o. Elas querem, de alguma forma, aumentar a sua qualidade de vida cada vez mais e se aposentar.</p><p>Al&#233;m disso, a classe de oper&#225;rios de f&#225;brica e camponeses simplesmente n&#227;o existe mais da mesma forma que antigamente. O agricultor moderno, no Brasil, &#233; um produtor com ativos (terras e m&#225;quinas) e, portanto, com um interesse material na manuten&#231;&#227;o da ordem. E os seus &#8220;pe&#245;es&#8221; n&#227;o me parecem muito interessados em uma revolu&#231;&#227;o.</p><p>Adicionalmente, a classe trabalhadora moderna, especialmente no setor de servi&#231;os de colarinho azul, funcionalmente se assemelha ao lumpemproletariado: desconectada da produ&#231;&#227;o industrial central e socialmente desorganizada.</p><p>Trabalhos nesse setor s&#227;o menos demandantes fisicamente e, frequentemente, s&#227;o mistos em g&#234;nero, o que, historicamente, enfraquece a coes&#227;o e a vontade necess&#225;rias para a resist&#234;ncia f&#237;sica organizada. A capacidade de viol&#234;ncia pol&#237;tica e sacrif&#237;cio extremo que existia em movimentos sindicais armados do s&#233;culo passado &#233; impens&#225;vel no ambiente de trabalho moderno. </p><p>Os zoomers carregam a frustra&#231;&#227;o, mas n&#227;o possuem os elementos materiais nem os elementos morais (idealismo auto-sacrif&#237;cio) para ser uma classe revolucion&#225;ria. O destino de sua energia n&#227;o &#233; a cria&#231;&#227;o de um novo Estado ut&#243;pico, mas sim a progressiva fragmenta&#231;&#227;o em diferentes grupos (cada vez mais diversos) com o regime liberal-democr&#225;tico se esvaindo lentamente e n&#227;o sendo derrubado em uma luta armada de massas.</p><h2>IV</h2><p>Voc&#234; pode argumentar que uma revolu&#231;&#227;o armada n&#227;o &#233; poss&#237;vel, mas uma revolu&#231;&#227;o por meio de votos &#233;. Nesse caso, voltamos ao que eu j&#225; falei anteriormente. Homens est&#227;o cada vez &#224; direita e mulheres cada vez &#224; esquerda. No Brasil, um proxy para isso pode ser visto na aprova&#231;&#227;o do governo Lula, que &#233; popular entre as mulheres, <a href="https://www.atlasintel.org/poll/latam-pulse-brazil-october-2025-2025-10-24">52% das mulheres aprovam o governo, de acordo com a pesquisa da Atlas Intel, enquanto 51% desaprovam e 42% dos homens aprovam o governo.</a>  Curiosamente, as mulheres n&#227;o se descrevem como sendo de esquerda, segundo as pesquisas, <a href="https://www12.senado.leg.br/institucional/datasenado/materias/relatorios-de-pesquisa/pesquisa-traca-perfil-ideologico-dos-eleitores-brasileiros">42% delas se definem como sendo de centro</a>. Mas como voc&#234; se define pouco importa, o seu voto vale mais do que a sua autodeclara&#231;&#227;o e, fato &#233;, a maioria das mulheres vota na esquerda no Brasil e no mundo. <a href="https://www.poder360.com.br/governo/lula-foi-eleito-por-mulheres-pobres-e-nordestinos/">58% delas tinham a inten&#231;&#227;o de votar no Lula na &#250;ltima elei&#231;&#227;o</a>. Vale dizer que a faixa et&#225;ria que mais rejeita o Lula hoje em dia &#233; a mesma que votou, em sua grande maioria, nele. Cerca de 57% dos eleitores entre 16 e 24 anos tinham a inten&#231;&#227;o de votar no petista. Considerando que as pesquisas foram feitas pr&#243;ximo da elei&#231;&#227;o, elas servem como um bom proxy para saber em quem cada grupo votou.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-7" href="#footnote-7" target="_self">7</a></p><p>Tendo em vista esse aumento de diverg&#234;ncia do pensamento entre mulheres e homens zoomers , e as mulheres se engajarem cada vez mais na pol&#237;tica e, portanto, importarem cada vez mais no voto, que tipo de revolu&#231;&#227;o pode esperar de uma gera&#231;&#227;o que se fragmenta ideologicamente e que n&#227;o consegue se unir em torno de um ideal? Um exemplo dessa fragmenta&#231;&#227;o &#233; novamente a &#8220;pauta antiburocracia&#8221;. Enquanto a direita, cada vez mais, no mundo inteiro, volta sua ret&#243;rica contra a burocracia e o judici&#225;rio, a esquerda, tamb&#233;m no mundo inteiro, quer aumentar os poderes da classe jur&#237;dica e dos burocratas. Essa vontade de dar mais poder na m&#227;o de burocratas pode ser vista quando a esquerda, no mundo inteiro, tem como grande pauta a regulamenta&#231;&#227;o das redes sociais e da &#8220;propaga&#231;&#227;o de fake news&#8221;.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-8" href="#footnote-8" target="_self">8</a> </p><p>Portanto, uma revolu&#231;&#227;o por meio das urnas dos zoomers &#233; algo quase que ut&#243;pico, j&#225; que n&#227;o h&#225; uma uni&#227;o entre os zoomers, h&#225;, na verdade, uma grande diferen&#231;a de pensamento entre os g&#234;neros. Sem uni&#227;o, n&#227;o h&#225; revolu&#231;&#227;o de nenhum tipo.</p><h2>Conclus&#227;o<br></h2><p>A expectativa de que os zoomers protagonizar&#227;o uma revolu&#231;&#227;o pol&#237;tica reflete mais um desejo projetado do que uma an&#225;lise da realidade. Faltam a essa gera&#231;&#227;o tanto as condi&#231;&#245;es materiais quanto a coes&#227;o ideol&#243;gica necess&#225;rias para qualquer movimento revolucion&#225;rio minimamente vi&#225;vel. A transforma&#231;&#227;o da estrutura produtiva eliminou a classe oper&#225;ria que sustentou revolu&#231;&#245;es no s&#233;culo XX. A fragmenta&#231;&#227;o ideol&#243;gica entre g&#234;neros impede a forma&#231;&#227;o de um bloco pol&#237;tico unificado. E a aus&#234;ncia de idealismo auto-sacrificial remove o componente moral que sempre foi essencial em movimentos de ruptura. </p><p>O destino mais prov&#225;vel dessa energia frustrada n&#227;o &#233; a cria&#231;&#227;o de uma nova ordem, mas sua dissipa&#231;&#227;o em m&#250;ltiplas dire&#231;&#245;es: cinismo pol&#237;tico, tribalismo identit&#225;rio e a busca por solu&#231;&#245;es individuais para problemas coletivos. A democracia liberal seguir&#225; seu curso de lenta eros&#227;o - n&#227;o por um golpe revolucion&#225;rio zoomer, mas pela incapacidade cr&#244;nica das institui&#231;&#245;es de se renovarem diante de uma popula&#231;&#227;o cada vez mais desencantada e dividida. Os exemplos recentes no Nepal e em Madagascar, longe de prefigurar uma onda revolucion&#225;ria global, apenas confirmam o padr&#227;o: jovens saem &#224;s ruas, velhas oligarquias assumem o poder. </p><p>O que fica claro, no fim das contas, &#233; que essa esperan&#231;a de que os zoomers s&#227;o muito diferentes dos millennials, s&#227;o revolucion&#225;rios, etc., &#233; completamente infundada na realidade. Os zoomers carecem de v&#225;rios pressupostos que se deve ter antes de fazer uma revolu&#231;&#227;o, seja ela armada ou de forma eleitoral (que &#233; a forma que a maioria parece sugerir que essa suposta revolu&#231;&#227;o poderia ocorrer). Os zoomers possuem uma grande divis&#227;o interna que dar&#225; palco para uma longa batalha entre as duas fac&#231;&#245;es que parecem que v&#227;o competir pelo poder no mundo todo nos pr&#243;ximos anos: populistas de direita antiburocracia (que n&#227;o costumam fazer muito) e esquerdistas que perderam o seu ideal revolucion&#225;rio e se enfiaram na burocracia do mundo inteiro.</p><h2>Ap&#234;ndice</h2><p>Na &#250;ltima elei&#231;&#227;o federal na Alemanha, ficou evidente a divis&#227;o geracional: jovens (zoomers e millennials) votam de forma significativamente diferente dos mais velhos (boomers e Gera&#231;&#227;o X).</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!-Axk!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3e281a95-58c6-4ed2-a84f-a52bd903d9e4_1116x367.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!-Axk!, /__u/dracomantis.substack.com/w_424, /__u/dracomantis.substack.com/c_limit, /__u/dracomantis.substack.com/f_webp, /__u/dracomantis.substack.com/q_auto:good, /__u/dracomantis.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3e281a95-58c6-4ed2-a84f-a52bd903d9e4_1116x367.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!-Axk!, /__u/dracomantis.substack.com/w_848, /__u/dracomantis.substack.com/c_limit, /__u/dracomantis.substack.com/f_webp, /__u/dracomantis.substack.com/q_auto:good, /__u/dracomantis.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3e281a95-58c6-4ed2-a84f-a52bd903d9e4_1116x367.png 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!-Axk!, /__u/dracomantis.substack.com/w_1272, /__u/dracomantis.substack.com/c_limit, /__u/dracomantis.substack.com/f_webp, 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tradicionais (SPD e Union). A divis&#227;o n&#227;o &#233; entre cada gera&#231;&#227;o espec&#237;fica, mas entre blocos et&#225;rios mais amplos: jovens versus velhos.</p><p>Nos EUA, a quantidade de pessoas entre 18 e 29 que votaram no Trump aumentou em 7% de <a href="https://ropercenter.cornell.edu/how-groups-voted-2020">2020 </a>para <a href="https://www.nbcnews.com/politics/2024-elections/exit-polls">2024</a>. A diferen&#231;a de votos entre as faixas est&#225;rias de 18 a 29 anos e 30 a 44 foi bem pequena. Cerca de 4% em 2024.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!YLCl!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5bb45d9f-84dc-43d6-a3a1-786c954f782e_553x268.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!YLCl!, /__u/dracomantis.substack.com/w_424, /__u/dracomantis.substack.com/c_limit, /__u/dracomantis.substack.com/f_webp, /__u/dracomantis.substack.com/q_auto:good, /__u/dracomantis.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5bb45d9f-84dc-43d6-a3a1-786c954f782e_553x268.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!YLCl!, /__u/dracomantis.substack.com/w_848, /__u/dracomantis.substack.com/c_limit, /__u/dracomantis.substack.com/f_webp, 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no Lula e, apesar de serem a faixa et&#225;ria que mais rejeita o governo, curiosamente, eles s&#227;o novamente uma faixa et&#225;ria que votaria bastante no Lula em um cen&#225;rio de primeiro turno como esse, assim como os millennials e os boomers tamb&#233;m.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Z7yC!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffdf91ab6-7052-4188-bba7-19be0457b18d_1477x250.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Z7yC!, /__u/dracomantis.substack.com/w_424, /__u/dracomantis.substack.com/c_limit, /__u/dracomantis.substack.com/f_webp, /__u/dracomantis.substack.com/q_auto:good, 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Voc&#234; pode argumentar que eles (zoomers) est&#227;o votando assim, pois n&#227;o h&#225; ningu&#233;m novo e que capte o seu &#8220;esp&#237;rito&#8221;na pesquisa, mas eu acho que, mesmo se houvesse um candidato novo, os n&#250;meros seriam parecidos<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-11" href="#footnote-11" target="_self">11</a>.</p><p>Portanto, enquanto na Alemanha e nos EUA a divis&#227;o geracional no voto &#233; clara e marcada, no Brasil ela &#233; fraca ou praticamente inexistente. Os zoomers podem ser o grupo que mais rejeita o governo Lula hoje, mas continuam votando nele em propor&#231;&#245;es similares aos millennials e boomers. Isso demonstra que, no Brasil, n&#227;o h&#225; um padr&#227;o de voto distintamente &#8220;zoomer&#8221; - classe social, regi&#227;o e ra&#231;a fragmentam qualquer identidade geracional compartilhada, tornando a idade um fator menos determinante para o comportamento pol&#237;tico do que em pa&#237;ses desenvolvidos.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://dracomantis.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/dracomantis.substack.com/subscribe"><span>Assine agora</span></a></p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>Como eu j&#225; disse outras vezes, os pa&#237;ses que eu mais acompanho a pol&#237;tica, sem ser o Brasil, s&#227;o os EUA e a Alemanha. Em ambos se observa o fen&#244;meno de, principalmente, homens jovens votando em partidos e candidatos, descritos pela m&#237;dia como de extrema-direita. </p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>Afinal de contas, o grande showdown do s&#233;culo XX, na pol&#237;tica, foi entre liberalismo, comunismo e fascismo (com as suas varia&#231;&#245;es). O Fascismo foi o primeiro a cair, antes da metade do s&#233;culo. O comunismo durou mais, mas o &#250;ltimo que ficou de p&#233; foi o liberalismo. </p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="#footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p>Eu acredito que Trump v&#234; as tarifas como uma arma pol&#237;tica por um lado, mas, por outro, um mecanismo de for&#231;ar uma reindustrializa&#231;&#227;o americana.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-4" href="#footnote-anchor-4" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">4</a><div class="footnote-content"><p>Em mar&#231;o do ano que vem, haver&#225; uma elei&#231;&#227;o para decidir um novo governo para o pa&#237;s. Eu aposto que o novo primeiro-ministro n&#227;o ser&#225; um zoomer, muito menos algu&#233;m de fora de algum tipo de oligarquia local.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-5" href="#footnote-anchor-5" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">5</a><div class="footnote-content"><p>Ghaddafi n&#227;o era perfeito, mas a L&#237;bia estava melhor com ele ou agora que, mesmo com o fim do conflito armado, o pa&#237;s continua em uma crise institucional que parece n&#227;o ter fim? O I&#234;men, que continua em uma guerra civil at&#233; hoje ap&#243;s a queda de Ali Abdullah Saleh, est&#225; melhor?</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-6" href="#footnote-anchor-6" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">6</a><div class="footnote-content"><p>Havia outros fatores tamb&#233;m. Muitas pessoas foram para a rua para protestar contra o aumento das tarifas no transporte p&#250;blico, contra falta de investimento por parte do governo nos servi&#231;os p&#250;blicos, al&#233;m de loucos que sa&#237;am pelas ruas protestando por qualquer pauta que desse na cabe&#231;a deles. Mas perceba que, todas essas pautas passam pelo problema da falta de representa&#231;&#227;o pol&#237;tica. O povo n&#227;o se sentia representado por quem tinha o poder.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-7" href="#footnote-anchor-7" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">7</a><div class="footnote-content"><p>Revolucion&#225;rios de verdade jamais abririam m&#227;o do seu ideal para votar em algu&#233;m que vai contra eles.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-8" href="#footnote-anchor-8" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">8</a><div class="footnote-content"><p>At&#233; na esquerda o esp&#237;rito revolucion&#225;rio e o idealismo morreram, n&#227;o &#233; mesmo?</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-9" href="#footnote-anchor-9" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">9</a><div class="footnote-content"><p>Algu&#233;m pode argumentar que nos EUA os eleitores s&#243; t&#234;m 2 op&#231;&#245;es, ent&#227;o eles tendem a ser sempre polarizados dessa forma na maioria das elei&#231;&#245;es. Mas o exemplo alem&#227;o demonstra que n&#227;o h&#225; tanta diferen&#231;a nos votos entre zoomers e millennials na escolha de quem votar. Isso s&#243; refor&#231;a ainda mais a tese de que, eles enxergam as coisas de maneiras parecidas, pois sofrem dos mesmos problemas, at&#233; mesmo nos EUA e na Alemanha, por exemplo.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-10" href="#footnote-anchor-10" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">10</a><div class="footnote-content"><p>Algu&#233;m tamb&#233;m pode argumentar que eles (zoomers e millennials) t&#234;m preocupa&#231;&#245;es e vis&#245;es de mundo diferentes e votam no mesmo candidato por motivos diferentes. Isso &#233; um ponto justo, mas considere que, tanto na Alemanha, quanto nos EUA, os candidatos a direita (na Alemanha estou falando especificamente do AfD) cocorreram como sendo a sua principal base a restri&#231;&#227;o de imigra&#231;&#227;o e uma melhora na economia, duas preocupa&#231;&#245;es que, tanto zoomers, quanto millenials, parecem compartilhar.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-11" href="#footnote-anchor-11" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">11</a><div class="footnote-content"><p>Seria interessante se a pesquisa trouxesse os dados demogr&#225;ficos tamb&#233;m para o cen&#225;rio de segundo turno entre Lula e Tarc&#237;sio, que &#233; o cen&#225;rio que eles projetam para o segundo turno na pesquisa.</p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A verdadeira política é a política internacional]]></title><description><![CDATA[Os fortes decidem o estado de exce&#231;&#227;o.]]></description><link>https://dracomantis.substack.com/p/a-verdadeira-politica-e-a-politica</link><guid isPermaLink="false">https://dracomantis.substack.com/p/a-verdadeira-politica-e-a-politica</guid><dc:creator><![CDATA[Dracō]]></dc:creator><pubDate>Wed, 23 Jul 2025 21:50:46 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/611a1f3e-9adb-4a86-ab00-fc1faac4c148_380x218.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><em>Introdu&#231;&#227;o: Algumas coisas precisam ser explicadas antes do texto. A primeira &#233; que n&#227;o tenho nada contra os anglo-sax&#245;es e seu imp&#233;rio. Na verdade, sou um admirador do que eles conseguiram alcan&#231;ar. Quando me refiro &#224; ideia de um "Imp&#233;rio Anglo-Sax&#227;o", ideia que recentemente comentei no <a href="https://x.com/dracomantis">X</a>, estou me referindo &#224; no&#231;&#227;o de que os Estados Unidos s&#227;o a continua&#231;&#227;o do antigo Imp&#233;rio Brit&#226;nico, mantendo a mesma influ&#234;ncia global por meio da l&#237;ngua inglesa, de valores como livre mercado e democracia, e de grande poder econ&#244;mico e militar. Esse imp&#233;rio venceu grandes rivais hist&#243;ricos, desde Napole&#227;o at&#233; a Uni&#227;o Sovi&#233;tica.</em></p><p><em>Outro ponto importante &#233; que uso a palavra &#8220;imp&#233;rio&#8221; por falta de um termo melhor. Os Estados Unidos n&#227;o s&#227;o um imp&#233;rio no sentido cl&#225;ssico da palavra, e eu n&#227;o a utilizo como uma forma de criticar a pol&#237;tica externa dos EUA, como alguns fazem. Meu principal problema com esse imp&#233;rio &#233; que acredito que eles tomaram dezenas de decis&#245;es equivocadas ao longo dos anos. &#201; f&#225;cil falar depois de observar os resultados, mas, em minha defesa, algumas pessoas j&#225; alertavam sobre os erros que estavam sendo cometidos durante esses processos.</em></p><div><hr></div><h2><strong>I</strong></h2><p>Schmitt come&#231;a seu livro <em>Politische Theologie</em> com a frase &#8220;Souver&#228;n ist, wer &#252;ber den Ausnahmezustand entscheidet&#8220;. A tradu&#231;&#227;o ficaria: &#8220;Soberano &#233; quem decide sobre o estado de exce&#231;&#227;o&#8221;. Schmitt, no resto do primeiro cap&#237;tulo do livro, explica o significado do que ele quer dizer com essa frase. Ele vai argumentar que soberano &#233; aquele que decide quando h&#225; o estado de exce&#231;&#227;o e &#233; aquele que decide se poder&#225;, por exemplo, suspender a lei. Schmitt alerta que essa defini&#231;&#227;o ocorre em um estado de exce&#231;&#227;o (Ausnahmezustand), pois a exce&#231;&#227;o, para Schmitt, prova a regra. Schmitt diz: </p><p>&#8220;Das Normale beweist nichts, die Ausnahme beweist alles; sie best&#228;tigt nicht nur die Regel, die Regel lebt &#252;berhaupt nur von der Ausnahme.&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a></p><p>De forma bem simples, soberano &#233; aquele que est&#225; dentro e fora da lei. O soberano est&#225; dentro da lei, porque ele que a cria e d&#225; sustenta&#231;&#227;o a ela, mas tamb&#233;m est&#225; fora de lei, por ser aquele que decide a fronteira de onde a lei vale e onde ela n&#227;o vale. Mas Schmitt aqui n&#227;o est&#225; tratando de pol&#237;tica internacional, ele est&#225; tratando de pol&#237;tica interna, da decis&#227;o de qual poder &#233; soberano internamente. Por&#233;m, externamente, a regra n&#227;o &#233; muito diferente.</p><p>A atual &#8220;Ordem Mundial&#8221; foi criada ap&#243;s o fim da Segunda Guerra, como todos sabem, e, como tamb&#233;m sabem, os vencedores ocidentais s&#243; conseguiram expandir essa sua nova ordem ao m&#225;ximo, expandindo principalmente para o Leste Europeu, com o fim da Guerra Fria. Os &#250;nicos grandes pa&#237;ses que n&#227;o respondem a essa ordem s&#227;o a R&#250;ssia e a China. Voc&#234; poderia argumentar que alguns outros pa&#237;ses n&#227;o obedecem essa ordem tamb&#233;m, como o Ir&#227;; no entanto, o Ir&#227; &#233; soberano at&#233; certo ponto, pois qualquer tentativa do Ir&#227; de, por exemplo, atacar Israel, seja preventivamente ou defensivamente, ser&#225; com certeza retaliada por parte dos EUA, seja fornecendo informa&#231;&#245;es estrat&#233;gicas ou, como foi da &#250;ltima vez, ativamente agindo em campo. O mesmo n&#227;o aconteceu e, provavelmente, n&#227;o acontecer&#225; no conflito entre a Ucr&#226;nia e a R&#250;ssia. Boots on the ground n&#227;o &#233; algo que est&#225; no horizonte. O Ir&#227; n&#227;o decide totalmente as suas exce&#231;&#245;es e o &#250;nico motivo de n&#227;o haver uma mudan&#231;a de regime, apesar de todas as tentativas, &#233; a capacidade militar da <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Iran_(word)">&#8220;terra de arianos&#8221;.</a></p><p>Voltando um pouco no tempo novamente, a R&#250;ssia, mesmo sendo uma das na&#231;&#245;es vencedoras da Segunda Guerra, perdeu o seu Imp&#233;rio ap&#243;s o fim da Guerra Fria, o que deixou os EUA, que &#233; a continua&#231;&#227;o do Imp&#233;rio Anglo&#8209;Sax&#227;o, ocupando o trono de &#8220;imperadores do mundo&#8221;. Trono esse que os Anglo-Sax&#245;es ocupam desde 1814, quando o Bloqueio Continental de Napole&#227;o chegou ao fim e confirmaram a sua coroa&#231;&#227;o em 15 de julho de 1815, quando L&#8217;Homme du Destin capitulou de vez.</p><p>Os ingleses s&#243; foram ter um rival &#224; sua altura em 1871, quando a Pr&#250;ssia derrotou a Fran&#231;a, marchou sobre Paris e provou que, ap&#243;s alguns anos, a Gr&#227;&#8209;Bretanha realmente tinha um rival &#224; altura. O rec&#233;m&#8209;unificado pa&#237;s tinha o melhor ex&#233;rcito da Europa, mas os ingleses, como sempre, dominavam o mar, tinham mais col&#244;nias, eram melhores comerciantes e eram t&#227;o industrializados, ou at&#233; mais, do que os alem&#227;es.</p><p>Encurtando a hist&#243;ria, o 2&#186; Reich, acompanhado do Imp&#233;rio Austro&#8209;H&#250;ngaro, que iniciou o conflito, perderam a Primeira Guerra Mundial e as mais graves consequ&#234;ncias surgiram a partir disso. Costumo dizer que uma das grandes trag&#233;dias do s&#233;culo XX foi a Alemanha n&#227;o ter tido uma vit&#243;ria r&#225;pida na 1&#170; Guerra Mundial, pois o mundo seria completamente diferente. Uma diferente vis&#227;o de mundo teria vencido e uma &#8220;Ordem Mundial&#8221; diferente teria sido imposta. Ap&#243;s o fim da 1&#170; Guerra, todas as grandes monarquias da Europa chegaram ao seu fim. Wilhelm&#8239;II. foi exilado na Holanda, os Habsburgo perderam o seu imp&#233;rio e a era das monarquias soberanas chegou ao fim, e a nova ordem das democracias liberais, na forma do parlamentarismo europeu, ascendeu.</p><p>Mais uma vez os anglo&#8209;sax&#245;es continuaram no trono do mundo; agora havia dois deles, os americanos e os ingleses. Como Schmitt os chama, &#8220;die gro&#223;en Seem&#228;chte&#8221;.</p><p>Os franceses n&#227;o estavam no trono, mas estavam muito bem posicionados na hierarquia. Eles continuariam bem posicionados ap&#243;s a Segunda Guerra tamb&#233;m, sendo o &#250;nico europeu continental a fazer parte do Conselho de Seguran&#231;a e tendo, dentre os europeus, o melhor ex&#233;rcito.</p><p>&#201; importante notar que quem decidiu o destino da guerra de uma vez por todas foram os americanos, uma rep&#250;blica, e n&#227;o os ingleses, monarquistas parlamentaristas. Essa constata&#231;&#227;o &#233; importante quando vemos que poucas rep&#250;blicas existiam na Europa at&#233; o come&#231;o da Guerra e, ao fim dela, todos os derrotados tiveram os seus regimes mudados. Onde a monarquia prevaleceu ap&#243;s o fim da guerra, como na It&#225;lia, que foi um dos pa&#237;ses vencedores da guerra, o rei tinha poderes limitados, assim como na Inglaterra. O Imp&#233;rio Otomano tamb&#233;m deixou de existir. Apesar de s&#243; ter deixado de existir oficialmente em 1922, tropas da Tr&#237;plice Entente j&#225; ocupavam o territ&#243;rio desde 1918.</p><p>Em resumo, o mundo nunca mais foi o mesmo. Havia uma ideologia que claramente foi a vencedora daquele conflito e moldou a pol&#237;tica interna dos pa&#237;ses tanto perdedores quanto daqueles que s&#227;o considerados vencedores.</p><h2><strong>II</strong></h2><p>Ap&#243;s a Primeira Guerra, a sua continua&#231;&#227;o viria em 1939; considero os dois conflitos um s&#243;, com uma grande tr&#233;gua no meio. Novamente, quem decidiu a guerra foram os EUA. Dessa vez, para ficar com o trono e a coroa apenas para eles. A Inglaterra perdeu grande parte de seu imp&#233;rio ap&#243;s o conflito e perdeu o seu status, apesar de ter conseguido um lugar no Conselho Permanente de Seguran&#231;a da ONU. A coroa viajava para o outro lado do oceano e os grandes vencedores do conflito, os EUA, partiram o mundo com o outro grande vencedor, a Uni&#227;o Sovi&#233;tica. Uma hist&#243;ria interessante sobre isso quem conta &#233; Henry Kissinger. Ele conta em seu livro <em>World Order</em>, que perguntou em 1962 o que Truman tinha mais orgulho em rela&#231;&#227;o sobre o seu per&#237;odo na presid&#234;ncia. Truman respondeu: </p><p>&#8220;That we<strong> totally defeated our enemies</strong> and then <strong>brought them back to the community of nations</strong>. I would like to think that <strong>only America would have done this</strong>.&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a></p><p>Kissinger reflete sobre a frase logo ap&#243;s, dizendo o seguinte: </p><p>"All of Truman&#8217;s successors have followed some version of this narrative and have taken pride in similar attributes of the American experience. And for most of this period, the community of nations that they aimed to uphold reflected an American consensus&#8212;a commonly expanding cooperative order of states observing common rules and norms, embracing liberal economic systems, forswearing territorial conquest, respecting national sovereignty, and adopting participatory and democratic systems of governance."</p><p>Como j&#225; comentado acima, os EUA venceram a Guerra Fria e expandiram para v&#225;rios pa&#237;ses da antiga cortina de ferro a sua Ordem. Os Anglos-Sax&#245;es, novamente, n&#227;o apenas derrotaram os seus inimigos, eles aniquilaram todos eles. A Uni&#227;o Sovi&#233;tica, o primeiro Estado socialista da hist&#243;ria, <a href="https://youtu.be/1XY7qWbdXe0?si=HTAeGud4QVm3kayk">se tornava apenas isso, hist&#243;ria</a>. Como Kissinger nota, nunca existiu uma verdadeira Ordem Mundial. Nem todos seguem a Ordem imposta pelos americanos; eu mencionei os dois exemplos principais acima.</p><p>Schmitt disse em uma confer&#234;ncia na Universidade de M&#250;rcia, na Espanha, o seguinte: </p><p>&#8220;[&#8230;] die gegenw&#228;rtige Dualit&#228;t nur der &#220;bergang zur Einheit sein, die letzte Phase, die letzte &#8222;Runde&#8220; des Kampfes um die endg&#252;ltige Einheit. Das w&#252;rde bedeuten, da&#223; der &#220;berlebende der gegenw&#228;rtigen Dualit&#228;t morgen der alleinige Herr der Welt w&#228;re. Der Sieger w&#252;rde die Einheit der Welt verwirklichen &#8211; naturgem&#228;&#223; von seinem eigenen Standpunkt aus und nach seinen eigenen Vorstellungen. Seine F&#252;hrer w&#252;rden den Typus des neuen Menschen repr&#228;sentieren.&#8221; <a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a></p><p>Nesse trecho, proferido por Schmitt em 1951, ele est&#225; falando sobre o vencedor da Guerra Fria, que Schmitt nunca soube quem foi porque ele morreu antes &#8212; apesar de eu imaginar que ele tinha boa ideia de quem seria. De qualquer forma, como Schmitt diz, o vencedor realizaria a unidade do mundo. Em <em>Der Begriff des Politischen</em>, Schmitt argumenta que o conceito do pol&#237;tico pressup&#245;e uma exist&#234;ncia de pluralismo de Estados. Sem o pluralismo, a diferencia&#231;&#227;o entre amigo e inimigo se torna imposs&#237;vel e a pol&#237;tica morre. Portanto, ele conclui, a exist&#234;ncia de um Estado Mundial &#233; imposs&#237;vel enquanto existir pol&#237;tica. Schmitt diz: </p><p>&#8220;Aus dem Begriffsmerkmal des Politischen folgt der Pluralismus der Staatenwelt. Die politische Einheit setzt die reale M&#246;glichkeit des Feindes und damit eine andere, koexistierende, politische Einheit vor aus. Es gibt deshalb auf der Erde, solange es &#252;berhaupt einen Staat gibt, immer mehrere Staaten und kann keinen die ganze Erde und ganze Menschheit umfassenden Welt&#8222;staat" geben.&#8221; <a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-4" href="#footnote-4" target="_self">4</a></p><p>Esses dois trechos que &#224; primeira vista parecem ser contradit&#243;rios, o segundo trecho escrito antes de 1945 e o primeiro ap&#243;s 1945, n&#227;o s&#227;o contradit&#243;rios. A hegemonia que Schmitt se refere no primeiro trecho, a unidade do mundo, n&#227;o &#233; um Estado Mundial, mas sim o que ocorre hoje no Ocidente e nas zonas de influ&#234;ncia dos EUA, como a Europa, aonde h&#225; uma hegemonia americana no trono do mundo, como eu falei, os EUA est&#225; sentado no trono de &#8220;Imperador do Mundo&#8221;. Schmitt diz no come&#231;o de sua palestra na Universidade: </p><p>&#8220;Die Einheit der Welt, von der ich jetzt spreche, ist nicht die allgemeine Einheit des Menschengeschlechts, nicht eine Art selbstverst&#228;ndlicher Oikumene, die trotz aller menschlichen Gegens&#228;tze immer in irgendeiner Form bestanden hat. Ich meine hier auch nicht die weltweite Einheit der Kommunikation, des Handels, des Weltpostvereins oder &#228;hnliches. Ich spreche von etwas, das schwieriger und m&#252;hseliger ist. Es geht um die einheitliche Organisation der menschlichen Macht, die darauf ausgerichtet ist, die Erde und die gesamte Menschheit zu planen, zu lenken und zu beherrschen. Es handelt sich um das gro&#223;e Problem, ob die Menschheit reif genug ist, um ein einziges Zentrum der politischen Macht auszuhalten.&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-5" href="#footnote-5" target="_self">5</a></p><p>Apesar disso, Schmitt j&#225; achava no tempo dele que essa dualidade entre EUA e Uni&#227;o Sovi&#233;tica estava chegando ao fim e estava no horizonte o surgimento de uma terceira for&#231;a. Schmitt cita 3 op&#231;&#245;es para ocupar esse posto: China, &#205;ndia, Europa, Commonwealth brit&#226;nico, o mundo hisp&#226;nico ou um bloco &#225;rabe<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-6" href="#footnote-6" target="_self">6</a>. De todas essas op&#231;&#245;es, quem surgiu como uma terceira for&#231;a e hoje ocupa o cargo de segunda for&#231;a, criando uma nova dualidade com os EUA, &#233; a China. Schmitt n&#227;o sabia o drag&#227;o que a China iria se tornar. </p><p>Quando Nixon visitou a China, a rela&#231;&#227;o entre a China e a Uni&#227;o Sovi&#233;tica havia se deteriorado, especialmente ap&#243;s o conflito na fronteira sino-sovi&#233;tica em 1969, criando uma oportunidade para os EUA explorarem uma alian&#231;a t&#225;tica com Pequim contra Moscou. Essa manobra, o "tri&#226;ngulo estrat&#233;gico", visava enfraquecer a Uni&#227;o Sovi&#233;tica, isolando-a diplomaticamente e militarmente. A ideia era bem pragm&#225;tica: ao integrar a China ao sistema econ&#244;mico global, os EUA esperavam incentiv&#225;-la a adotar pr&#225;ticas mais abertas, possivelmente levando a reformas pol&#237;ticas graduais. Na pr&#225;tica, a abertura iniciada por Nixon, concretizada com a normaliza&#231;&#227;o das rela&#231;&#245;es em 1979 sob Jimmy Carter, ajudou a transformar a China em uma pot&#234;ncia econ&#244;mica.</p><h2><strong>III</strong></h2><p>Essa ascens&#227;o pode ser compreendida &#224; luz da concep&#231;&#227;o hist&#243;rica chinesa de ordem internacional, como destaca Henry Kissinger, que foi conselheiro de Nixon, em <em>World Order</em>. Tradicionalmente, a China operava sob um sistema "Sinoc&#234;ntrico", onde o Imperador era visto como uma figura de dimens&#245;es c&#243;smicas, o "linchpin" entre o humano e o divino, governando o "Tudo sob o C&#233;u", e n&#227;o apenas um Estado soberano entre outros. Essa vis&#227;o hier&#225;rquica, que n&#227;o reconhecia um equil&#237;brio de Estados iguais, entrou em choque com o sistema westfaliano<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-7" href="#footnote-7" target="_self">7</a> imposto pelo Ocidente, como ficou evidente quando o enviado brit&#226;nico Lord&#8239;Macartney foi rejeitado em 1793 por n&#227;o realizar o kowtow<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-8" href="#footnote-8" target="_self">8</a>, sendo&#8209;lhe dito que a China n&#227;o desejava os bens ocidentais e que seu Imperador j&#225; possu&#237;a tudo. Mesmo ap&#243;s derrotas militares e a imposi&#231;&#227;o de tratados desiguais no s&#233;culo&#8239;XIX, a China nunca abandonou completamente essa percep&#231;&#227;o de si mesma, resistindo &#224; ideia de ser apenas "uma de muitas na&#231;&#245;es independentes".</p><p>Hoje, essa heran&#231;a hist&#243;rica se combina com uma moderniza&#231;&#227;o tecnol&#243;gica e militar, criando um modelo &#250;nico que desafia a ordem liberal dos EUA. A China n&#227;o busca se integrar ao sistema westfaliano, mas redefinir a ordem global a partir de sua pr&#243;pria perspectiva, revivendo elementos de sua vis&#227;o tradicional de hegemonia regional e influ&#234;ncia cultural. Essa reinterpreta&#231;&#227;o explica sua iniciativa da Nova Rota da Seda e sua assertividade no Mar do Sul da China, marcando uma volta &#224; ideia de um "Tudo sob o C&#233;u" adaptado ao s&#233;culo&#8239;XXI. Assim, a China exemplifica a tese de Schmitt de que a pol&#237;tica internacional &#233; o campo onde a soberania se manifesta, pois ela n&#227;o apenas explorou os antagonismos entre pot&#234;ncias (como previsto por Schmitt para uma "terceira for&#231;a"), mas busca impor uma nova unidade do mundo, distinta da hegemonia americana.</p><p>Ap&#243;s a proclama&#231;&#227;o da Rep&#250;blica Popular da China em 1&#186; de outubro de 1949 por Mao&#8239;Zedong, o pa&#237;s entrou em uma fase de profundas transforma&#231;&#245;es internas que ecoariam no cen&#225;rio internacional. A doutrina da "revolu&#231;&#227;o cont&#237;nua" buscava purificar a na&#231;&#227;o, destruindo vest&#237;gios da cultura confucionista e outras tradi&#231;&#245;es que ele associava &#224; fraqueza hist&#243;rica da China. Essa vis&#227;o culminou na Grande Marcha &#224; Frente, lan&#231;ada em 1958, uma tentativa ambiciosa de industrializa&#231;&#227;o acelerada que resultou em fome generalizada e milh&#245;es de mortes. A crise se agravou com a Revolu&#231;&#227;o Cultural, iniciada em 1966, quando Mao mobilizou os Guardas Vermelhos para purgar a elite intelectual e pol&#237;tica, exilando uma gera&#231;&#227;o inteira para o campo e deixando cicatrizes profundas na sociedade.</p><p>O esgotamento desse per&#237;odo revolucion&#225;rio levou a uma reviravolta em 1969, quando tens&#245;es com a Uni&#227;o Sovi&#233;tica, &#224; beira de um ataque, for&#231;aram Mao a dispersar os minist&#233;rios provinciais, com apenas Zhou&#8239;Enlai permanecendo em Pequim. Essa crise marcou o fim das fases mais ca&#243;ticas da Revolu&#231;&#227;o Cultural, com o uso do ex&#233;rcito para dissolver os Guardas Vermelhos e envi&#225;&#8209;los ao trabalho for&#231;ado no interior. Simultaneamente, Mao buscou uma abertura com os Estados Unidos, um movimento culminado na visita secreta de Henry&#8239;Kissinger em julho de 1971. Essa reaproxima&#231;&#227;o, calculada para romper o isolamento chin&#234;s e conter a Uni&#227;o Sovi&#233;tica, abriu caminho para o reconhecimento internacional da China. No mesmo ano eles se tornaram membros permanentes do Conselho de Seguran&#231;a da ONU.</p><p>Ap&#243;s a morte de Mao em 1976, Deng&#8239;Xiaoping assumiu o poder em 1978, iniciando uma era de reformas econ&#244;micas radicais. Com o conceito de "socialismo com caracter&#237;sticas chinesas". Xiaoping abriu ainda mais a economia, atraindo investimentos estrangeiros e integrando a China ao com&#233;rcio global. Essa transforma&#231;&#227;o acelerada elevou o pa&#237;s &#224; segunda maior economia mundial em menos de tr&#234;s d&#233;cadas. Sob Jiang&#8239;Zemin, a partir de 1989, a China superou as tens&#245;es do massacre da Pra&#231;a Tiananmen com diplomacia internacional e ampliou sua participa&#231;&#227;o em organiza&#231;&#245;es globais. Hu&#8239;Jintao, no in&#237;cio dos anos 2000, consolidou essa ascens&#227;o, preparando o terreno para Xi&#8239;Jinping, que assumiu em 2012 e lan&#231;ou um ambicioso programa de reformas, combatendo corrup&#231;&#227;o e modernizando a economia, enquanto expandia a influ&#234;ncia chinesa por meio de iniciativas como a Nova Rota da Seda. Paralelamente, a rela&#231;&#227;o com os Estados Unidos passou por altos e baixos.</p><p>A Guerra da Coreia (1950&#8209;1953) marcou a determina&#231;&#227;o chinesa de resistir &#224; influ&#234;ncia ocidental, enquanto a reaproxima&#231;&#227;o de 1972 com Nixon consolidou um equil&#237;brio estrat&#233;gico. Nos anos 1990 e 2000, a entrada da China na Organiza&#231;&#227;o Mundial do Com&#233;rcio e sua crescente presen&#231;a em f&#243;runs globais, como as Olimp&#237;adas de 2008, simbolizaram sua volta ao centro do palco mundial. A grande dualidade do mundo &#233; entre Pequim e Washington, a Grande M&#227;e R&#250;ssia se tornou a terceira for&#231;a. E n&#227;o s&#243; essa terceira for&#231;a existe, como h&#225; espa&#231;o e possibilidade para o surgimento de outras for&#231;as, com a &#205;ndia que, apesar de v&#225;rios problemas internos relacionados &#224; sua extrema pobreza e falta de higiene inacredit&#225;vel, &#233; uma na&#231;&#227;o que cada vez tem afirmado a sua for&#231;a, tendo armamentos nucleares, enviando sat&#233;lites ao espa&#231;o, pousando no lado oculto da Lua e outros diversos feitos que seriam impens&#225;veis para a maioria das pessoas de serem realizados pela &#205;ndia.<br></p><h2><strong>IV</strong><br></h2><p>Ap&#243;s esse longo texto, vemos o por que a pol&#237;tica internacional &#233; a pol&#237;tica de verdade. Ela decide o andamento da sua pol&#237;tica interna, ela decide quem &#233; soberano de verdade ou n&#227;o, ela decide se o seu pa&#237;s existe ou n&#227;o. Washington, nesse s&#233;culo, lidou muito mal com a sua posi&#231;&#227;o de imp&#233;rio; suas guerras fracassadas no Oriente M&#233;dio, com a cereja do bolo do fracasso sendo a evacua&#231;&#227;o vergonhosa do Afeganist&#227;o, s&#243; teve um presidente esse s&#233;culo que teve algum pragmatismo, percebeu que a Guerra Fria acabou e soube reconhecer aquele que &#233; o novo real inimigo da Am&#233;rica, que foi o Trump.</p><p>Em seu primeiro mandato ele baixou as tens&#245;es com Moscou e foi duro com Pequim. No entanto, nesse segundo mandato, Trump n&#227;o est&#225; percebendo que o grande vencedor dessa sua nova pol&#237;tica econ&#244;mica&#8239;&#8212;&#8239;pol&#237;tica econ&#244;mica essa que &#233; a mais iliberal nos &#250;ltimos tempos no Ocidente<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-9" href="#footnote-9" target="_self">9</a>&#8239;&#8212;&#8239;est&#225; beneficiando os chineses. A estrat&#233;gia do meme &#8220;Do nothing. Win&#8221; tem sido a estrat&#233;gia dominante para os chineses. Todos os pa&#237;ses taxados ir&#227;o procurar novos compradores, e muitos achar&#227;o esse novo comprador na China, que provavelmente conseguir&#225; um bom desconto na compra dessas mercadorias. <a href="https://www.wsj.com/world/china/chinas-economy-slows-in-line-with-expectations-1c34e51f">A economia chinesa tamb&#233;m n&#227;o foi machucada com essas tarifas</a>. Apesar de que, a expectativa &#233; que a economia chinesa n&#227;o se sustente nesse segundo trimestre e <a href="https://www.wsj.com/economy/chinas-solid-economic-first-half-will-be-a-tough-act-to-follow-f6f15299">diminua o ritmo de crescimento</a>.</p><p>A batalha final para ver quem controlar&#225; o mundo e ir&#225; impor a sua &#8220;cosmovis&#227;o&#8221; a grande parte dos demais ser&#225; lutada em Taiwan. A guerra na Ucr&#226;nia pode ser usada como uma esp&#233;cie de leitura na borra de caf&#233;. Se os EUA se retirarem da guerra no Leste Europeu, isso &#233; um indicativo de que eles n&#227;o estar&#227;o dispostos a ir &#224; briga por aquela pequena ilha na costa chinesa, que &#233; uma quest&#227;o de orgulho nacional, com Xi&#8239;Jinping dando at&#233; 2049, ano do centen&#225;rio da Revolu&#231;&#227;o, para a reunifica&#231;&#227;o da China ocorrer. Trump, a cada dia que passa, parece abandonar a sua opini&#227;o de que o Putin quer assinar um acordo de paz. Ele parece perceber que os russos n&#227;o ir&#227;o ceder; eles est&#227;o dispostos a levar a guerra at&#233; as &#250;ltimas consequ&#234;ncias se for necess&#225;rio, e Putin n&#227;o ir&#225; retirar suas tropas enquanto n&#227;o cumprir os seus objetivos. E a cada dia que passa, parece que aqueles que compraram a op&#231;&#227;o de que Trump teria uma pol&#237;tica isolacionista est&#227;o OTM, enquanto aqueles que compraram a op&#231;&#227;o que os EUA n&#227;o iriam se retirar est&#227;o ATM.</p><p>No fim, tudo depender&#225; da escolha dos EUA de continuar querendo ser imp&#233;rio e estar disposto a sacrificar milhares de vidas de jovens para manter a sua coroa, ou ir&#225; se retirar do trono, assinar a sua ren&#250;ncia e abrir m&#227;o da ordem que ele estabeleceu. Qualquer uma das escolhas demonstrar&#225; mais uma vez que a pol&#237;tica de verdade &#233;, e sempre foi, a pol&#237;tica internacional. E o vencedor ser&#225; o grande soberano, aquele que estar&#225; dentro e fora da lei, aquele que decidir&#225; qual &#233; o estado de exce&#231;&#227;o. O Imp&#233;rio ficar&#225; para aquele que tiver a caracter&#237;stica que Alexandre queria que o seu sucessor tivesse; o Imp&#233;rio ficar&#225; para o mais forte. <br></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://dracomantis.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/dracomantis.substack.com/subscribe"><span>Assine agora</span></a></p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>&#8220;O normal n&#227;o prova nada, a exce&#231;&#227;o prova tudo; ela n&#227;o apenas confirma a regra, mas a regra vive, em absoluto, apenas da exce&#231;&#227;o.&#8221; (Minha tradu&#231;&#227;o)</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>Os grifos s&#227;o meus.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="#footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p>&#8220;A atual dualidade seria apenas a transi&#231;&#227;o para a unidade, a fase final, a &#250;ltima &#8216;rodada&#8217; da luta pela unidade definitiva. Isso significaria que o sobrevivente da atual dualidade seria, amanh&#227;, o &#250;nico senhor do mundo. O vencedor realizaria a unidade do mundo &#8212; naturalmente, a partir de seu pr&#243;prio ponto de vista e de acordo com suas pr&#243;prias concep&#231;&#245;es. Seus l&#237;deres representariam o tipo do novo homem.&#8221; (Minha tradu&#231;&#227;o)</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-4" href="#footnote-anchor-4" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">4</a><div class="footnote-content"><p>&#8220;Do conceito caracter&#237;stico do pol&#237;tico decorre o pluralismo do mundo dos Estados. A unidade pol&#237;tica pressup&#245;e a possibilidade real do inimigo e, com isso, uma outra unidade pol&#237;tica coexistente. Portanto, na Terra, enquanto houver um Estado, sempre haver&#225; v&#225;rios Estados, e n&#227;o pode haver um "Estado mundial" que abranja toda a Terra e toda a humanidade.&#8221; (Minha tradu&#231;&#227;o)</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-5" href="#footnote-anchor-5" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">5</a><div class="footnote-content"><p>&#8220;A unidade do mundo de que falo agora n&#227;o &#233; a unidade geral do g&#234;nero humano nem uma esp&#233;cie de oikoumene evidente que, apesar de todos os antagonismos humanos, sempre existiu de algum modo. Tamb&#233;m n&#227;o me refiro &#224; unidade mundial da comunica&#231;&#227;o, do com&#233;rcio, da Uni&#227;o Postal Universal ou coisa parecida. Falo de algo bem mais dif&#237;cil e penoso: a organiza&#231;&#227;o unificada do poder humano, orientada para planejar, dirigir e dominar a Terra inteira e toda a humanidade. O grande problema &#233; saber se a humanidade j&#225; est&#225; madura o suficiente para suportar um &#250;nico centro de poder pol&#237;tico.&#8221; (Minha tradu&#231;&#227;o)</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-6" href="#footnote-anchor-6" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">6</a><div class="footnote-content"><p>Die Einheit der Welt.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-7" href="#footnote-anchor-7" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">7</a><div class="footnote-content"><p>O sistema westfaliano, estabelecido pelo Tratado de Westf&#225;lia de 1648, &#233; um modelo de ordem internacional baseado na soberania territorial, na igualdade jur&#237;dica entre Estados e na n&#227;o-interfer&#234;ncia em assuntos internos, refletindo um equil&#237;brio de na&#231;&#245;es soberanas que emergiu na Europa para encerrar conflitos religiosos e limitar o poder universal da Igreja e do Imp&#233;rio. Esse sistema, adotado e expandido pelo Ocidente, contrasta com a vis&#227;o chinesa tradicional de um mundo hier&#225;rquico centrado no Imperador.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-8" href="#footnote-anchor-8" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">8</a><div class="footnote-content"><p>&#201; o ato de ajoelhar-se e curvar-se t&#227;o baixo que a cabe&#231;a toque o ch&#227;o. Um sinal de respeito, na cultura chinesa, ao imperador.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-9" href="#footnote-anchor-9" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">9</a><div class="footnote-content"><p>Eu n&#227;o digo isso como uma cr&#237;tica necessariamente, mas a constata&#231;&#227;o de um fato.</p><p></p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA["Nacionalismo" e Nacionalismo- Ernst Jünger]]></title><description><![CDATA[Das Tagebuch, 21 de setembro de 1929]]></description><link>https://dracomantis.substack.com/p/nacionalismo-e-nacionalismo-ernst</link><guid isPermaLink="false">https://dracomantis.substack.com/p/nacionalismo-e-nacionalismo-ernst</guid><dc:creator><![CDATA[Dracō]]></dc:creator><pubDate>Thu, 05 Jun 2025 01:51:15 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/2f167f8b-4c4e-4afa-bcde-bb3b55918d46_920x518.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong> </strong><em><strong>Das Tagebuch</strong></em><strong>, 21 de setembro de 1929</strong></p><p></p><h4><strong>I.</strong></h4><p>Voc&#234;s me solicitaram que esbo&#231;asse brevemente a minha posi&#231;&#227;o e a de meus amigos em rela&#231;&#227;o aos acontecimentos das &#250;ltimas semanas e meses. Talvez seja apenas a grandeza do contraste que existe entre n&#243;s o que me permite atender a esse pedido. Por isso, poupo-me de fazer todas as ressalvas &#243;bvias, prevendo que ataques de um lado e acusa&#231;&#245;es do outro s&#227;o, de qualquer forma, inevit&#225;veis.</p><p>N&#227;o &#233; minha inten&#231;&#227;o, no que segue, tornar simp&#225;tico o conceito de nacionalismo ou, como tamb&#233;m costumam cham&#225;-lo nesse contexto, o do novo nacionalismo. No entanto, uma breve exposi&#231;&#227;o da ess&#234;ncia desse conceito e das condi&#231;&#245;es que o fundamentam talvez contribua para uma certa ordena&#231;&#227;o dos ataques que at&#233; agora t&#234;m sido dirigidos contra ele de forma bastante vaga e geral. N&#227;o se trata de o nacionalismo querer escapar desses ataques, muito pelo contr&#225;rio, mas deseja ser atingido onde de fato carrega responsabilidade. Ele se encontra, nesta &#233;poca ca&#243;tica e carente de verdadeiras forma&#231;&#245;es, em situa&#231;&#227;o semelhante &#224; do socialismo, que muitos gostam de usar como letreiro barato para os mais diversos tipos de iniciativas. Apesar disso, parece-me que hoje &#233; ainda mais raro encontrar um verdadeiro socialismo, aquela irresist&#237;vel mansid&#227;o do cora&#231;&#227;o, do que na &#233;poca &#225;urea das ordens mon&#225;sticas, quando o rigoroso voto de pobreza constitu&#237;a a primeira legitima&#231;&#227;o do combatente pela realiza&#231;&#227;o de um reino superior na Terra.</p><p>De maneira semelhante, como j&#225; foi dito, d&#225;-se com o nacionalismo: a vontade pura e incondicional de se engajar pela na&#231;&#227;o, sentida e reconhecida como um valor central, com todas as for&#231;as e por todos os meios dispon&#237;veis. Presumo que o estado atual da discuss&#227;o l&#243;gica e &#233;tica sobre esse valor j&#225; seja conhecido, para que eu possa me voltar diretamente &#224; situa&#231;&#227;o pol&#237;tica. Desejo, contudo, enfatizar que o nacionalismo n&#227;o teme tais confrontos. Linhas importantes da hist&#243;ria e da hist&#243;ria do esp&#237;rito desembocam nele, e assim como ele est&#225; disposto a empregar na guerra os instrumentos de uma t&#233;cnica extremamente moderna, as mais avan&#231;adas formas materiais da consci&#234;ncia, da mesma forma ele n&#227;o d&#225; import&#226;ncia a ser representado pelas f&#243;rmulas gastas de uma fraseologia patri&#243;tica. &#201; comum, em ataques baseados em argumentos de conveni&#234;ncia e conforto, por assim dizer, na ideologia de um escrit&#243;rio de turismo da Europa Central, tentar esquivar-se apontando para as fontes mais profundas de onde ele viria &#8212; aquilo que hoje se costuma chamar, com uma palavra da moda, de o irracional. Embora eu sinta essas fontes com sua for&#231;a avassaladora tamb&#233;m em minha vida pessoal, considero esse m&#233;todo ineficaz. Apelar ao irracional &#233; um direito de qualquer manifesta&#231;&#227;o &#8212; tamb&#233;m o liberalismo, a burguesia, a civiliza&#231;&#227;o ocidental, o materialismo hist&#243;rico n&#227;o s&#227;o mais explic&#225;veis do que qualquer pedra ou qualquer &#225;tomo.</p><p>O dem&#244;nio que habita uma manifesta&#231;&#227;o sabe se expressar em todos os n&#237;veis e esferas da vida. O combate entre deuses e homens irrompeu no palco, onde apenas poucos cen&#225;rios escondem o caos, e aquilo que o esp&#237;rito deseja acabar&#225; por mover tamb&#233;m as armas f&#237;sicas. Em outras palavras: quem est&#225; realmente possu&#237;do por sua ideia n&#227;o vai se esconder num buraco de rato quando os estrondos come&#231;arem nas ruas.</p><p>O nacionalismo se sente muito menos do que o liberalismo, em todas as suas variantes, restrito ao combate com armas intelectuais. Como se refere a uma comunidade natural, e n&#227;o propriamente a uma comunidade espiritual, o intelecto desempenha apenas o papel de uma fun&#231;&#227;o, mas n&#227;o constitui sua subst&#226;ncia. Aqui reside sua limita&#231;&#227;o, pois o intelecto deve servir, e n&#227;o se desenvolver livremente. Mas &#233; justamente aqui que reside tamb&#233;m aquilo que o torna mais perigoso.</p><p></p><h4><strong>II.</strong></h4><p>Dessas indica&#231;&#245;es decorre que o nacionalismo n&#227;o necessita de uma ideologia no mesmo sentido que o marxismo ou uma comunidade espiritual de outro tipo, submetida ao princ&#237;pio fundamental de Descartes. A vida se motiva conforme as circunst&#226;ncias, e para ele a plena realiza&#231;&#227;o do ser &#233; mais importante do que a natureza da motiva&#231;&#227;o sob a qual essa realiza&#231;&#227;o ocorre. Mas afinal, o que quer o nacionalismo? N&#227;o posso aqui desenvolver que ele n&#227;o tem absolutamente nada a ver nem com o monarquismo, nem com o conservadorismo, nem com a rea&#231;&#227;o burguesa, nem com o patriotismo da era wilhelminiana. Esse &#233; o &#8220;nacionalismo&#8221; tal como &#233; descrito nos jornais di&#225;rios de direita e de esquerda. Tampouco &#233; uma caracter&#237;stica principal do nacionalista que ele devore tr&#234;s judeus j&#225; no caf&#233; da manh&#227; &#8212; o antissemitismo n&#227;o &#233; para ele uma quest&#227;o essencial. Para quem n&#227;o pode prescindir de formula&#231;&#245;es, diga-se o seguinte: o nacionalismo, na medida em que &#233; uma manifesta&#231;&#227;o pol&#237;tica, busca um Estado nacional, social, combativo e articulado de forma autoritativa para todos os alem&#227;es.</p><p> Estas s&#227;o, naturalmente, palavras &#224;s quais a pr&#243;pria vida ter&#225; de dar sentido. Estou convencido de que o nacionalismo disp&#245;e de energias suficientes para prescindir de qualquer dogma e, ao mesmo tempo, para enfrentar qualquer dogma. Apenas por analogia, vale lembrar aqui a difus&#227;o dos direitos humanos universais sob as bandeiras dos ex&#233;rcitos da rep&#250;blica e do primeiro imp&#233;rio franc&#234;s, assim como a alian&#231;a entre a vontade nacional e a moderna civiliza&#231;&#227;o ocidental na It&#225;lia, e at&#233; mesmo a liga&#231;&#227;o cada vez mais evidente com o marxismo internacional, tal como se realiza na R&#250;ssia. Essa &#233; a vis&#227;o do lado nacionalista. Do outro lado, parece que ideias muito diferentes est&#227;o aprendendo a acessar as imensas reservas de for&#231;a que, de modo indiscut&#237;vel, jazem ocultas nas na&#231;&#245;es, e que apenas a palidez do pensamento tenta em v&#227;o negar. Confesso que vejo nessa penetra&#231;&#227;o m&#250;tua, que &#233; ao mesmo tempo uma imensa concentra&#231;&#227;o de for&#231;as, a pedra filosofal que o mestre da pol&#237;tica moderna precisa encontrar.</p><p>N&#227;o se pode prever como nem quando essa solu&#231;&#227;o se realizar&#225; na Alemanha, cuja pot&#234;ncia &#233; quase que neutralizada pelos v&#237;nculos da pol&#237;tica interna. Talvez seja necess&#225;rio que o &#250;ltimo resqu&#237;cio do ressentimento herdado do wilhelminismo, que ainda hoje alimenta a maior parte de todas as ideologias, se consuma por completo. Talvez tenham de surgir for&#231;as para as quais os antagonismos tradicionais, como por exemplo entre o preto-branco-vermelho e o preto-vermelho-dourado<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a>, tenham se tornado completamente indiferentes. Mas oportunidades j&#225; se deixaram vislumbrar no passado. E se Noske<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a> tivesse sido mais do que um pequeno burgu&#234;s social-democrata? Ou se entre seus generais houvesse um pol&#237;tico de envergadura, com uma energia n&#227;o tolhida por nenhuma tradi&#231;&#227;o? E se o comunismo, ao declarar guerra ao capitalismo ocidental e ao mesmo tempo apelar &#224; juventude combativa, tivesse assumido a lideran&#231;a pol&#237;tica? Certamente se observaram diversos ind&#237;cios. Mas todos esses l&#237;deres ainda pertencem a uma &#233;poca marcada por generais que eram maus pol&#237;ticos e por pol&#237;ticos que eram maus ditadores. Assim, at&#233; agora n&#227;o apenas a pedra filosofal n&#227;o foi encontrada, mas tamb&#233;m &#8220;faltava o s&#225;bio &#224; pedra&#8221;.</p><p></p><h4><strong>III.</strong></h4><p>O caos &#233; mais favor&#225;vel ao que est&#225; em forma&#231;&#227;o do que a forma. Basta considerar que houve um momento em que, na Alemanha e na &#193;ustria ao mesmo tempo, todos os governos e parlamentos estavam no ch&#227;o. N&#227;o h&#225; prova melhor de que vivenciamos apenas um colapso e n&#227;o uma revolu&#231;&#227;o do que o fato de que, no fim das contas, o desfecho foi a democracia parlamentar. Nossos av&#244;s puderam realizar seus ideais azedos, mas aquele traje era barato demais, um modelo padronizado demais de 1848 para ter durado. Entre os jovens, prevalece a convic&#231;&#227;o de que a verdadeira revolu&#231;&#227;o ainda precisa ser feita.</p><p><br>Nas democracias parlamentares, as maiorias se sucedem. O car&#225;ter emp&#237;rico muda, o intelig&#237;vel permanece. A partir do momento em que o poder supremo se transfere para um &#250;nico indiv&#237;duo, s&#227;o homens que se sucedem. Disso decorre, mesmo sem desenvolver todas as implica&#231;&#245;es, que todas as for&#231;as revolucion&#225;rias dentro de um Estado, apesar das maiores diverg&#234;ncias, s&#227;o aliadas invis&#237;veis. Qualquer que seja a que ven&#231;a, sua vit&#243;ria cria um meio em que a a&#231;&#227;o, ainda que em um ar perigos&#237;ssimo, pode respirar. A ordem &#233; o inimigo comum, e o essencial &#233; romper o v&#225;cuo legal para que uma a&#231;&#227;o possa se desenvolver sobre a outra e se alimentar das reservas ca&#243;ticas. Por isso, uma hostilidade como a que hoje se cultiva entre nacional-socialistas e comunistas me parece incompreens&#237;vel at&#233; mesmo do ponto de vista t&#225;tico. Ela demonstra que em ambos os movimentos ainda se escondem muito mais elementos burgueses interessados na preserva&#231;&#227;o do sistema do que eles pr&#243;prios gostariam de admitir. E &#233; assim, pois um busca, em sua forma atual, um Estado nacional burgu&#234;s nos moldes da civiliza&#231;&#227;o ocidental, enquanto o outro almeja uma forma extrema e entediante de ordem racionalista pequeno-burguesa no estilo de jardim comunit&#225;rio, uma esp&#233;cie de cart&#227;o de racionamento permanente. A &#250;nica quest&#227;o que realmente importa hoje em rela&#231;&#227;o ao comunismo &#233; saber se tamb&#233;m na Alemanha ser&#225; poss&#237;vel transformar o conceito de prolet&#225;rio de uma no&#231;&#227;o puramente econ&#244;mica em uma figura her&#243;ica.</p><p>A verdadeira vontade de combate, o &#243;dio aut&#234;ntico, sente prazer em tudo o que pode destruir o inimigo. A destrui&#231;&#227;o &#233; o meio que ao nacionalismo parece o &#250;nico adequado diante da situa&#231;&#227;o atual. A primeira parte de sua tarefa &#233; de natureza an&#225;rquica, e quem compreendeu isso saudar&#225;, nesse primeiro trecho do caminho, tudo o que puder destruir. N&#227;o &#233; nossa tarefa elaborar medidas que tornem a press&#227;o da pol&#237;tica externa mais suport&#225;vel, que possam suavizar as tens&#245;es internas, participar de elei&#231;&#245;es, influenciar confer&#234;ncias e vota&#231;&#245;es, ou nos ocupar com os chamados plebiscitos. N&#227;o &#233; nossa tarefa combater o decl&#237;nio geral da moral pol&#237;tica e social, nem o aborto, as greves, os bloqueios, as redu&#231;&#245;es da pol&#237;cia e das for&#231;as armadas com longas tiradas ret&#243;ricas. Deixamos a ideia de que possa haver uma revolu&#231;&#227;o que ao mesmo tempo sustente a ordem para todos os cidad&#227;os bem-comportados. O que tem o elementar a ver com o moral? &#201; ao elementar, contudo, que nos dirigimos, &#224;quilo que, no abismo infernal da guerra, se tornou vis&#237;vel para n&#243;s pela primeira vez em muito tempo. N&#227;o estaremos em lugar algum onde a labareda n&#227;o nos tenha aberto caminho, onde o lan&#231;a-chamas n&#227;o tenha realizado a grande purifica&#231;&#227;o pelo nada. Quem nega o todo n&#227;o pode colher frutos das partes. Porque somos os verdadeiros, aut&#234;nticos e implac&#225;veis inimigos do burgu&#234;s, sua decomposi&#231;&#227;o nos diverte. Mas n&#243;s n&#227;o somos burgueses, somos filhos de guerras e guerras civis, e s&#243; quando tudo isso, esse espet&#225;culo dos c&#237;rculos girando no vazio, tiver sido varrido, poder&#225; se desdobrar aquilo que ainda resta em n&#243;s de natureza, de elementar, de selvageria genu&#237;na, de l&#237;ngua original, de capacidade para uma verdadeira gera&#231;&#227;o com sangue e s&#234;men. S&#243; ent&#227;o haver&#225; a possibilidade de novas formas.</p><p></p><h4><strong>IV</strong></h4><p>Pode j&#225; ter se tornado claro que uma postura como a que acabamos de esbo&#231;ar n&#227;o pode ser representada por organiza&#231;&#245;es. De fato, as chamadas organiza&#231;&#245;es revolucion&#225;rias e nacional-revolucion&#225;rias de nosso tempo n&#227;o s&#227;o nada mais do que um dos processos de autodesintegra&#231;&#227;o do mundo burgu&#234;s. Isso j&#225; se manifesta atrav&#233;s de sua infertilidade pol&#237;tica e das eternas divis&#245;es &#224;s quais est&#227;o submetidas. Elas s&#227;o, sem perceber e sem querer, pura e simplesmente por sua natureza, ainda partes construtivas do sistema.</p><p>De fato, o nome "nacionalismo" foi inicialmente adotado como express&#227;o comum apenas por um c&#237;rculo muito restrito de homens, cujas a&#231;&#245;es individuais eram bastante diversas. Esta palavra pareceu, na &#233;poca, muito adequada, porque uma metade dos burgueses a usava como grave insulto, enquanto a outra tentava, com todos os esfor&#231;os, se distanciar dela. Isso infelizmente mudou, sobretudo porque um certo e incomum interesse da juventude se tornou evidente. Em todas as organiza&#231;&#245;es nacionais at&#233; as nacionalistas alem&#227;s, hoje se reivindica ser "nacionalista". De maneira expl&#237;cita, o nacionalismo em sentido mais restrito foi assumido, em sua ideologia, at&#233; agora apenas por alguns grupos do movimento juvenil e, sobretudo, pela Freischar Schill e pelo povo rural de Holstein, que nas &#250;ltimas semanas atraiu consider&#225;vel aten&#231;&#227;o &#8212; para nossa grande surpresa, j&#225; que inicialmente esper&#225;vamos uma ades&#227;o bem maior vinda das cidades. Seja como for, em qualquer lugar onde se fale de verdadeiros nacionalistas, s&#243; podem ser considerados homens para os quais toda organiza&#231;&#227;o poss&#237;vel exerce mais o papel de instrumento do que de finalidade. E assim deve ser, pois o nacionalismo, na fase atual, s&#243; pode funcionar como um sistema nervoso invis&#237;vel que estimula os mais diversos corpos, aqui e ali, e isso sem comando. Sirva como imagem o voo das aves, cujas mudan&#231;as de dire&#231;&#227;o surgem do instinto, embora o resultado pare&#231;a ser fruto de um exerc&#237;cio rigoroso.</p><p>Uma boa oportunidade para examinar o estado atual foi proporcionada pela conhecida s&#233;rie de atentados das &#250;ltimas semanas. Pode-se acreditar em mim quando digo que, sendo um dos melhores conhecedores da guerra material moderna, considero no m&#237;nimo de extremo mau gosto esse tipo de espet&#225;culo pirot&#233;cnico noturno diante de pr&#233;dios fiscais. Tanto mais intenso, por&#233;m, &#233; o interesse sintom&#225;tico &#8212; o interesse em saber de que maneira esses sinais codificados de figuras invis&#237;veis s&#227;o recebidos.</p><p>&#201; compreens&#237;vel a postura da pol&#237;cia e do minist&#233;rio do interior, compreens&#237;vel tamb&#233;m o jornal <em>Vossische Zeitung</em>, que, em agrad&#225;vel contraste com a frase humanit&#225;ria que costuma cultivar, quer mandar diretamente para a pris&#227;o qualquer um que possa ter tido alguma rela&#231;&#227;o, ainda que distante, com os fatos. Tamb&#233;m &#233; compreens&#237;vel o j&#250;bilo do <em>Lokal-Anzeiger</em> pelo fato de que "os culpados finalmente foram capturados", pois afinal a tranquilidade continua sendo o primeiro dever do cidad&#227;o. Mais estranho, por&#233;m, &#233; ver os comunistas clamando por repress&#227;o em seus jornais. Isso significa, dito de forma paradoxal, que ali h&#225; ainda menos nacionalistas do que eu supunha. O senhor Hitler, por sua vez, chega at&#233; a oferecer uma recompensa.</p><p>E assim mais uma vez ficou provado como, no fundo, todos eles est&#227;o t&#227;o unidos, unidos, unidos. N&#227;o &#233; de se admirar, afinal todos voc&#234;s s&#227;o burgueses, e por mais que tentem se contorcer, por mais que se esforcem em polir e ornamentar suas medalhas gastas e desgastadas, no fundo sempre aparece a mesma cabe&#231;a, sobre a qual n&#227;o pretendo desperdi&#231;ar mais nenhum elogio.</p><p>Mas eu sei que, em algum lugar, espalhada por toda parte entre voc&#234;s, sob a crosta suja e endurecida que precisa ser rompida para que haja ar, existe uma juventude mais orgulhosa, mais ousada e mais nobre, uma aristocracia do amanh&#227; e do depois de amanh&#227;, unida apenas por sangue e esp&#237;rito. S&#227;o os soldados desconhecidos de hoje, que caem sozinhos, abatidos pelos gases venenosos da vulgaridade, da rotina e da corrup&#231;&#227;o. </p><p>O que eles precisam aprender &#233; o seguinte: que, em tempos como este, tamb&#233;m se pode marchar sem bandeira.</p><p></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://dracomantis.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/dracomantis.substack.com/subscribe"><span>Assine agora</span></a></p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>&#8220;Schwarzwei&#223;rot&#8221; e &#8220;Schwarzrotgold&#8221; s&#227;o as cores das antigas bandeiras imperiais e republicanas da Alemanha.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>Gustav Noske foi um pol&#237;tico social-democrata (SPD) e o primeiro Ministro da Defesa (Reichswehrminister) da rec&#233;m-proclamada Rep&#250;blica de Weimar, nomeado em dezembro de 1918 durante a Revolu&#231;&#227;o Alem&#227;. Foi o principal respons&#225;vel pela repress&#227;o ao Levante Espartaquista em Berlim, em janeiro de 1919. Para isso, autorizou e confiou principalmente nos <em>Freikorps</em>. A <em>Freikorps Garde-Kavallerie-Sch&#252;tzen-Division</em>, liderada pelo Capit&#227;o Waldemar Pabst, eliminou os fundadores e l&#237;deres do KPD (Partido Comunista da Alemanha), Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, na noite de 15 de janeiro de 1919.</p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O Nascimento da Tragédia — Friedrich Georg Jünger]]></title><description><![CDATA[Tradu&#231;&#227;o do primeiro cap&#237;tulo do livro "Nietzsche", de Friedrich Georg J&#252;nger]]></description><link>https://dracomantis.substack.com/p/o-nascimento-da-tragedia-friedrich</link><guid isPermaLink="false">https://dracomantis.substack.com/p/o-nascimento-da-tragedia-friedrich</guid><dc:creator><![CDATA[Dracō]]></dc:creator><pubDate>Sun, 25 May 2025 13:58:28 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/3c5af8d6-ef71-4cb8-94a6-405021cf3a6e_1024x841.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Nietzsche tinha raz&#227;o ao chamar &#8220;O Nascimento da Trag&#233;dia&#8221; de &#8220;Centauro&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a>, raz&#227;o esta que se justifica pela uni&#227;o de formas d&#237;spares neste livro. O encanto peculiar da obra &#233; assim obscurecido, mas o leitor atento pode facilmente separar o que n&#227;o lhe pertence. Os sistemas de Kant e Schopenhauer s&#227;o inadequados para abordar o tema; a m&#250;sica de Wagner tamb&#233;m n&#227;o serve a esse prop&#243;sito, e mesmo assim Nietzsche alcan&#231;a seu objetivo. Ele consegue tornar claro o dionis&#237;aco, delimitando-o em contraste com sua contraparte apol&#237;nea. Ele sempre se orgulhou dessa descoberta, e com raz&#227;o, pois com ela algo foi realizado &#8212; mais do que seus contempor&#226;neos, ao lerem o livro, conseguiram perceber. Com ela, o acesso a um mundo h&#225; muito submerso foi revelado, um mundo que ningu&#233;m mais ousava sonhar. Aqui se expressa, inconfundivelmente, um novo pensamento, um novo conhecimento dos gregos. A abordagem &#233; t&#227;o vigorosa e convincente que deveria influenciar todos os estudos sobre a Gr&#233;cia. Este &#233; um livro que ensina a ver com novos olhos, uma obra que inspira um novo olhar. O impulso de entusiasmo &#233; evidente nela. Desse entusiasmo n&#227;o cient&#237;fico, que inicialmente projetou, a ci&#234;ncia pode se nutrir por muito tempo &#8212; e n&#227;o apenas ela. A obra &#233; cent&#225;urica<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a> tamb&#233;m porque dissolve fronteiras, pois seu pensamento transgressor<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a> n&#227;o se submete a nenhuma disciplina, j&#225; que nela se trava uma batalha entre arte e ci&#234;ncia que n&#227;o termina nem mesmo em Nietzsche.</p><p>A tens&#227;o de inclina&#231;&#245;es contradit&#243;rias e rebeldes torna-se palp&#225;vel nela. Se quisermos comparar seus efeitos com outras obras, s&#243; podemos pensar no primeiro livro de Winckelmann, &#8220;Reflex&#245;es sobre a Imita&#231;&#227;o das Obras Gregas na Pintura e na Escultura&#8221;. Publicado em 1754, seguiram-se imediatamente os dois escritos nos quais Winckelmann reuniu e refutou as obje&#231;&#245;es contra ele. A diferen&#231;a de abordagem &#233; clara. Winckelmann e Lessing acessaram os gregos pela pl&#225;stica, adentrando o dom&#237;nio da cria&#231;&#227;o art&#237;stica apol&#237;nea, caminho seguido por Goethe e seus disc&#237;pulos. As &#8220;Monumenti Inediti&#8221; e a &#8220;Hist&#243;ria da Arte da Antiguidade&#8221; de Winckelmann, bem como o &#8220;Laocoonte&#8221; de Lessing, situam-se nessa linha. Outro caminho, por&#233;m, conduz atrav&#233;s de Klopstock e H&#246;lderlin &#8212; e &#233; nele que Nietzsche se move. H&#246;lderlin foi o &#250;nico que conhecia o dionis&#237;aco; em seus hinos tardios, esse conhecimento penetra t&#227;o profundamente que nenhum de seus contempor&#226;neos partilhou dele. Permaneceu esquecido. O jovem Nietzsche, que amava H&#246;lderlin, n&#227;o conhecia esses hinos tardios; encontrou o caminho por si mesmo. Nesse reencontro, n&#227;o h&#225; acaso. N&#227;o &#233; casual que dois homens de tal grandeza se voltem &#224;s mesmas quest&#245;es. Veremos qu&#227;o decisiva &#233; essa problem&#225;tica, que inclui ao mesmo tempo um questionamento radical. Dela depende, entre outras coisas, se o homem retornar&#225; &#224; festividade ou perecer&#225; na mec&#226;nica por ele inventada.</p><p>A descoberta ocorreu porque Dioniso foi levado a s&#233;rio. Todo estudo do homem antigo &#233; agora direcionado a um novo caminho. Neste primeiro livro do jovem Nietzsche, j&#225; est&#227;o contidos, em germe, todos os seus trabalhos posteriores; todas as quest&#245;es que o ocupariam mais tarde ali surgem. Quem, ap&#243;s ler suas &#250;ltimas obras, retorna a &#8220;O Nascimento da Trag&#233;dia&#8221;, maravilha-se com a coer&#234;ncia desse pensamento, que coincide plenamente com a determina&#231;&#227;o do pensador. Por&#233;m, para perceber isso, n&#227;o se pode estagnar na pol&#234;mica, que assume formas diferentes a cada etapa e confunde aqueles que n&#227;o sabem aonde esse pensamento quer chegar. A pol&#234;mica, se remontarmos &#224; sua origem, n&#227;o &#233; apenas o confronto com as resist&#234;ncias que v&#234;m de fora, mas tamb&#233;m a resist&#234;ncia que o pr&#243;prio pensamento oferece. Nesse caminho, que leva &#224; plenitude da contradi&#231;&#227;o, o aspecto polemizante &#233; deixado para tr&#225;s. Ele nada mais &#233; do que a pele que a serpente abandona ao rejuvenescer e se renovar.</p><p>Apenas tr&#234;s obras de Nietzsche podem ser consideradas principais: <em>&#8220;O Nascimento da Trag&#233;dia&#8221;</em>, <em>&#8220;Assim Falou Zaratustra&#8221;</em> e <em>&#8220;A Vontade de Poder&#8221;</em>. Todas as outras, por mais importantes e reveladoras que sejam, t&#234;m apenas car&#225;ter preparat&#243;rio ou transit&#243;rio, ou s&#227;o, como <em>&#8220;Ecce Homo&#8221;</em>, um ponto final. E duas doutrinas centrais s&#227;o elaboradas por ele: a doutrina do eterno retorno e a do &#220;bermensch<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-4" href="#footnote-4" target="_self">4</a>. Diante delas, todo o restante perde centralidade. Uma obra como <em>&#8220;O Anticristo&#8221;</em>, intrinsecamente pol&#234;mica, cumpre duas tarefas: nela, Nietzsche n&#227;o apenas resume seus ataques ao cristianismo, mas tamb&#233;m abre espa&#231;o para seu pr&#243;prio pensamento.</p><p>Em <em>&#8220;O Nascimento da Trag&#233;dia&#8221;</em>, Nietzsche ingressa pela primeira vez em uma situa&#231;&#227;o m&#237;tica. Ainda assume a postura do cientista e simula estudos eruditos, mas ocupa-se de um tema que nada tem a ver com ci&#234;ncia e n&#227;o pode ser tratado por um cientista. Mais tarde, lamentou ter estragado o conceito n&#227;o apenas pela interfer&#234;ncia da filosofia schopenhaueriana e da m&#250;sica wagneriana, mas tamb&#233;m pelas perspectivas cient&#237;ficas e categorias est&#233;ticas nas quais for&#231;ou seu pensamento. Quem perguntar como ele deveria ter abordado o tema diferente toca imediatamente na grande controv&#233;rsia que perpassa seu pensamento &#8212; na contradi&#231;&#227;o que o mago em Zaratustra descobre, no &#8220;Apenas louco! Apenas poeta!&#8221;. Somente o poeta dionis&#237;aco pode tratar desse tema de maneira genu&#237;na. A partir de <em>&#8220;O Nascimento da Trag&#233;dia&#8221;</em>, Nietzsche nunca mais saiu do dom&#237;nio do dionis&#237;aco. Esse dom&#237;nio &#233;, para ele, o labirinto de Minos e o jardim de rosas de Midas. Cada vez mais fundo ele penetra nele. J&#225; em sua primeira obra-prima, sob a forma do tratado erudito, dormita o hino puro e nu, que irrompe e busca libertar-se do constrangimento das constru&#231;&#245;es conceituais. Nessa luta, que se assemelha a uma dan&#231;a, reside o encanto da obra. H&#225; algo sedutor nela:</p><p><em>&#8220;... como muda subitamente aquele ermo sombrio de nossa cultura fatigada quando o feiti&#231;o dionis&#237;aco a toca! Um vendaval agarra tudo o que &#233; caduco, podre, quebrado, atrofiado, envolve-o num turbilh&#227;o de poeira vermelha e o carrega como uma &#225;guia para os c&#233;us. Confusos, nossos olhos buscam o que desapareceu: pois o que veem surgiu como de um abismo &#224; luz dourada &#8212; t&#227;o pleno e verde, t&#227;o exuberantemente vivo, t&#227;o infinitamente ansiado. A trag&#233;dia est&#225; sentada no meio dessa abund&#226;ncia de vida, dor e prazer, em &#234;xtase sublime; ela escuta um canto melanc&#243;lico distante &#8212; que narra as m&#227;es do ser, cujos nomes s&#227;o: Ilus&#227;o, Vontade, Dor. Sim, meus amigos, creiam comigo na vida dionis&#237;aca e no renascimento da trag&#233;dia. O tempo do homem socr&#225;tico passou: coroai-vos de hera, empunhai o tirso</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-5" href="#footnote-5" target="_self">5</a><em> e n&#227;o vos admireis se tigres e panteras se curvam docilmente a vossos joelhos. Agora ousai ser homens tr&#225;gicos, pois sereis redimidos. Deveis conduzir o cortejo dionis&#237;aco da &#205;ndia &#224; Gr&#233;cia! Preparai-vos para a luta dura, mas crede nos milagres de vosso deus!&#8221; </em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-6" href="#footnote-6" target="_self">6</a></p><p>Este &#233; um apelo singular ao leitor. Algo &#233; transposto e antecipado. O jovem Nietzsche acredita no renascimento da trag&#233;dia, no retorno do homem tr&#225;gico e em sua reden&#231;&#227;o. De que ele deve ser redimido? Do &#8220;ermo de nossa cultura fatigada&#8221;, onde percebe aquela tend&#234;ncia do &#8220;eudaimonismo-social&#8221; que se op&#245;e ao tr&#225;gico e quer acabar com toda trag&#233;dia. O crit&#233;rio &#233; evidente em toda parte: todos os fen&#244;menos s&#227;o julgados pela proximidade ou dist&#226;ncia que t&#234;m de Dioniso. Oposi&#231;&#245;es como a trag&#233;dia euripidiana e o pensamento socr&#225;tico ao dionis&#237;aco s&#227;o elaboradas. A fun&#231;&#227;o da ironia socr&#225;tica &#233; definida. Essas s&#227;o investiga&#231;&#245;es pontuais. Pois aqui j&#225; come&#231;a a luta &#225;rdua e prolongada contra todo idealismo epistemol&#243;gico, contra o conceito de verdade, o moralismo, o mundo &#8220;verdadeiro&#8221;, o ser e o ente. A situa&#231;&#227;o m&#237;tica &#233; marcada por Nietzsche estar face a face com uma realidade imagin&#225;ria, come&#231;ando a atravessar o mundo das fic&#231;&#245;es. O mundo das fic&#231;&#245;es n&#227;o &#233; o dom&#237;nio dionis&#237;aco &#8212; este est&#225; em a&#231;&#227;o. O mundo das fic&#231;&#245;es revela-se como o mundo verdadeiro quando atravessado rumo a Dioniso, pois ent&#227;o, passo a passo, seu pretenso direito &#224; verdade desmorona, junto com toda l&#243;gica e moralismo embutidos na conceitualidade do ente. Essa &#233; a abordagem decisiva do livro, presente em todas as outras obras.</p><p>A forma como esses conhecimentos emergem &#233; peculiar. A interfer&#234;ncia da m&#250;sica na g&#234;nese da trag&#233;dia causa grande confus&#227;o. Nietzsche ainda est&#225; sob o fasc&#237;nio de Wagner. V&#234;-se como disc&#237;pulo e precursor do mestre, moldando seu livro como uma homenagem. Wagner jamais recebeu um segundo tributo igual. Sua m&#250;sica atua sobre Nietzsche com for&#231;a convulsiva. O terceiro ato de <em>&#8220;Trist&#227;o e Isolda&#8221;</em> provoca nele um &#8220;espasmo de todas as asas da alma&#8221;, um &#8220;esticar convulsivo de todos os sentimentos&#8221;. Ele a interpreta conforme a teoria musical de Schopenhauer e a relaciona com o apol&#237;neo e o dionis&#237;aco. S&#227;o equ&#237;vocos, pois a vis&#227;o schopenhaueriana da arte est&#225; integrada &#224; doutrina da nega&#231;&#227;o da vontade. Aqui ecoam as conversas amistosas mantidas na Villa Triebschen. A &#243;pera de Wagner &#8212; n&#227;o &#243;pera, mas drama musical &#8212; &#233; para Nietzsche o &#225;pice, diante do qual o drama verbal n&#227;o se sustenta. A inclus&#227;o da palavra no drama musical &#233;, para ele, um paliativo, pois <em>&#8220;a m&#250;sica &#233; a verdadeira ideia do mundo, o drama apenas um reflexo dessa ideia, uma sombra isolada dela&#8221;</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-7" href="#footnote-7" target="_self">7</a>. Isso soa estranho, pois Wagner limitou a supremacia que a m&#250;sica tinha sobre a poesia na &#243;pera. Para o jovem Nietzsche, tamb&#233;m era dif&#237;cil elogiar Wagner como poeta: sua linguagem arcaizante, seu alitera&#231;&#227;o mal compreendida, sua ignor&#226;ncia das leis m&#233;tricas, sua constru&#231;&#227;o frasal e vocabular n&#227;o convidavam a isso. Contra Nietzsche, deve-se afirmar que a g&#234;nese da trag&#233;dia grega n&#227;o pode ser reconstru&#237;da a partir da m&#250;sica, por mais poderosa que seja a m&#250;sica dionis&#237;aca. Afinal, Apolo e P&#227; tamb&#233;m fazem m&#250;sica. O mundo dos mitos n&#227;o pode ser interpretado como fen&#244;meno musical sem viol&#234;ncia. Para quem o tentasse, a dan&#231;a seria um ponto de partida melhor, pois nela todas as musas est&#227;o envolvidas, e Terps&#237;core as precede com lira e plectro<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-8" href="#footnote-8" target="_self">8</a>. A trag&#233;dia grega n&#227;o pode ser esclarecida pela rela&#231;&#227;o com a &#243;pera wagneriana, pois n&#227;o &#233; &#243;pera, drama musical ou singspiel. Que a trag&#233;dia <em>&#8220;leva a m&#250;sica, entre os gregos como entre n&#243;s, &#224; perfei&#231;&#227;o&#8221;</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-9" href="#footnote-9" target="_self">9</a> &#233; uma afirma&#231;&#227;o que hoje soa estranha. Entre os gregos? Entre n&#243;s? Qual trag&#233;dia seria essa? Nem Shakespeare e a m&#250;sica inglesa podem ser considerados aqui. E &#233; inevit&#225;vel pensar que &#224; linguagem, &#224; palavra, pertence um dom&#237;nio pr&#243;prio &#8212; ritmicamente e metricamente elaborado &#8212; que, como poesia, mant&#233;m-se aut&#244;nomo e n&#227;o requer tradu&#231;&#227;o em m&#250;sica. Esse dom&#237;nio n&#227;o &#233; hostil &#224; m&#250;sica, mas resiste a ser arrastado para ela, perturbado ou absorvido por ela.</p><p>Ao afastar-se da m&#250;sica wagneriana e romper com Wagner, Nietzsche deve ter sentido que <em>&#8220;O Nascimento da Trag&#233;dia&#8221;</em> ficara suspenso no ar, privado de seus suportes. Havia algo doloroso nisso, uma dor sutil e intermin&#225;vel. Mas tais empreendimentos, como muitas vezes se comprova, s&#243; prosperam atrav&#233;s de equ&#237;vocos e desvios. Ele pagou sua d&#237;vida de gratid&#227;o; foi o doador nessa amizade que lan&#231;ou um brilho elevado sobre sua juventude.</p><p>Resta perguntar se a concep&#231;&#227;o que Nietzsche tem da trag&#233;dia grega &#8212; a saber, que ela &#233; o &#225;pice de todo o desenvolvimento grego &#8212; &#233; sustent&#225;vel. N&#227;o seria ela o ato final na grande apocat&#225;stase<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-10" href="#footnote-10" target="_self">10</a> de Dioniso? O Deus a produz, mas ela tamb&#233;m &#233; sua obra derradeira. A trag&#233;dia n&#227;o pertence mais &#224; era m&#237;tica; &#233; a obra de arte que se completa no tempo hist&#243;rico e, portanto, deve enfrentar o conflito entre pensamento m&#237;tico e hist&#243;rico. Na trag&#233;dia, o ser m&#237;tico consome-se como numa chama poderosa e gloriosa. A trag&#233;dia n&#227;o vem da m&#250;sica, vem do &#233;pico; este, por sua vez, brota da mitologia primordial. Trag&#233;dia e m&#250;sica desabrocham juntas e morrem juntas quando o apelo dionis&#237;aco ao homem grego se enfraquece. &#201; a &#233;poca em que surgem a filosofia, a hist&#243;ria, a &#233;tica, a sof&#237;stica, Eur&#237;pides, S&#243;crates e o novo ditirambo &#225;tico.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-11" href="#footnote-11" target="_self">11</a> &#201; o passo do mundo imagin&#225;rio e imaginado para o mundo verdadeiro &#8212; passo que Nietzsche volta atr&#225;s. Pois aqui come&#231;a seu pensamento, aqui ele se insere. Aqui est&#225; a abordagem que o ocupar&#225; sempre de novo, at&#233; seu fim. Como ele a desenvolve em <em>&#8220;Zaratustra&#8221;</em> e <em>&#8220;A Vontade de Poder&#8221;</em>, e a quais resultados chega, veremos agora.</p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p><em>Centauren </em>&#233; o termo usado por Nietzsche em cartas para descrever a natureza h&#237;brida da obra, que mistura filosofia, arte e ci&#234;ncia. <em><a href="http://www.thenietzschechannel.com/correspondence/ger/nlett1870g.htm">&#8220;Wissenschaft Kunst und Philosophie wachsen jetzt so sehr in mir zusammen, dass ich jedenfalls einmal Centauren geb&#228;ren werde.&#8221;</a> </em>(Ci&#234;ncia, arte e filosofia crescem agora t&#227;o unidas dentro de mim, que certamente um dia darei &#224; luz centauros.)</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>O termo que F. G. J&#252;nger usa no texto original &#233; &#8220;<em>Kentaurisch</em>&#8221;. O adjetivo &#233; um neologismo em alem&#227;o; eu n&#227;o o encontrei no Duden. Sendo assim, aportuguesei-o.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="#footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p>A express&#227;o <em>disparates Denken</em> &#233; dif&#237;cil de traduzir. O termo &#8220;disparates&#8221; pode significar algo como &#8220;absurdo&#8221; ou &#8220;<em>nonsense&#8221;</em> em ingl&#234;s. Aqui, o termo sugere um pensamento que rompe com conven&#231;&#245;es. Optei por traduzir como &#8220;pensamento transgressor&#8221; para tentar me aproximar ao m&#225;ximo da inten&#231;&#227;o de F. G. J&#252;nger com o adjetivo.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-4" href="#footnote-anchor-4" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">4</a><div class="footnote-content"><p>N&#227;o gosto da tradu&#231;&#227;o popularizada como &#8220;super-homem&#8221;. Prefiro &#8220;al&#233;m-do-homem&#8221;, pois <em>&#220;ber</em> carrega o sentido de algo que est&#225; acima &#8212; mas <strong>acima sem tocar</strong> o que est&#225; abaixo (diferente de <em>auf</em>, como em <em>auf dem Tisch</em>). A express&#227;o &#8220;super-homem&#8221; falha, a meu ver, por n&#227;o captar que o <em>&#220;bermensch</em> &#233; algo que <strong>j&#225; transcendeu o humano</strong> &#8212; n&#227;o &#233; apenas um homem mais forte ou superior, mas algo que est&#225; para al&#233;m da pr&#243;pria medida do homem.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-5" href="#footnote-anchor-5" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">5</a><div class="footnote-content"><p>Tirso: Bast&#227;o adornado com hera e folhas de videira, s&#237;mbolo de Dioniso.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-6" href="#footnote-anchor-6" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">6</a><div class="footnote-content"><p><em>Die Geburt der Trag&#246;die, cap&#237;tulo 20.</em></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-7" href="#footnote-anchor-7" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">7</a><div class="footnote-content"><p><em>Die Geburt der Trag&#246;die, cap&#237;tulo 21.</em></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-8" href="#footnote-anchor-8" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">8</a><div class="footnote-content"><p>Plectro: Palheta usada para tocar instrumentos de corda na Antiguidade.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-9" href="#footnote-anchor-9" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">9</a><div class="footnote-content"><p><em>Die Geburt der Trag&#246;die, cap&#237;tulo 21.</em></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-10" href="#footnote-anchor-10" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">10</a><div class="footnote-content"><p>Apokat&#225;stasis(&#7936;&#960;&#959;&#954;&#945;&#964;&#940;&#963;&#964;&#945;&#963;&#953;&#962;): Termo grego para &#8220;restaura&#231;&#227;o&#8221; ou &#8220;renova&#231;&#227;o final&#8221;, associado ao retorno de todas as coisas &#224; sua origem divina.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-11" href="#footnote-anchor-11" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">11</a><div class="footnote-content"><p>Os ditirambos, na Gr&#233;cia Antiga, eram can&#231;&#245;es corais em honra a Dion&#237;sio.</p><p></p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A direita nunca teve chance]]></title><description><![CDATA[Entre a ilus&#227;o eleitoral e o vazio doutrin&#225;rio, a direita brasileira trope&#231;a nas pr&#243;prias caricaturas. As vit&#243;rias ainda parecem distantes.]]></description><link>https://dracomantis.substack.com/p/a-direita-nunca-teve-chance</link><guid isPermaLink="false">https://dracomantis.substack.com/p/a-direita-nunca-teve-chance</guid><dc:creator><![CDATA[Dracō]]></dc:creator><pubDate>Sun, 18 May 2025 19:10:19 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/6d71d31a-96e8-4ef6-ae6a-0ce88a24d8b7_543x376.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://dracomantis.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/dracomantis.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><h1>Introdu&#231;&#227;o<br></h1><p>Esse texto n&#227;o pretende detalhar a hist&#243;ria da direita brasileira, isso &#233; material para um livro. O texto &#233; a minha vis&#227;o sobre por que as coisas deram errado de tal forma na direita que se formou no Brasil, que n&#227;o &#233; poss&#237;vel vislumbrar um horizonte de vit&#243;ria duradoura, apenas uma derrota nas elei&#231;&#245;es no ano que vem, independentemente do resultado.</p><p>Se o Bolsonaro colocar sua esposa para concorrer, eu lhes asseguro que, mesmo com o Lula ou o candidato dele perdendo, a direita ir&#225; sofrer uma derrota ainda pior. O mesmo vale se o filho dele, e eu apostaria que ser&#225; o Eduardo que ir&#225; concorrer, ganhar. A direita, da forma que foi formada, nunca teve chance. Todas as escolhas levaram a estar entre uma mulher que tem como sua <em>proxy</em> no Senado a Damares, e n&#243;s sabemos como tem andado a atua&#231;&#227;o dela por l&#225;. A outra op&#231;&#227;o talvez seja um idiota que deu sorte do pai ser carism&#225;tico e estar no momento certo, na hora certa.</p><p>Dias sombrios pairam sobre a direita, mas com eles vem a oportunidade. E ela precisa ser aproveitada. A Janela de Overton est&#225; mudando para a direita no mundo, e a tend&#234;ncia &#233; ir cada vez mais &#224; direita nos pr&#243;ximos anos. &#201; a hora de a direita brasileira come&#231;ar a fazer o que &#233; necess&#225;rio para vencer.</p><div><hr></div><p><strong>1&#167;</strong></p><p>A elei&#231;&#227;o de Bolsonaro em 2018 foi um marco na dita direita brasileira. Nunca um candidato havia conseguido pegar tanta energia e concentrar em si em nome de um projeto pol&#237;tico que se autodeclarava representante da direita nacional. <a href="https://archive.ph/K5rri">Vale lembrar que o pr&#243;prio Lula admitiu em 2009 n&#227;o haver nenhum candidato de direita nas elei&#231;&#245;es. </a>Lembro com clareza de rir da cara de uma certa pessoa que eu sabia que era petista e sabia que ela estava morrendo de raiva pela vit&#243;ria do Bolsonaro. Lembro tamb&#233;m de outro, mais hist&#233;rico do que esse, achar que o fascismo seria implementado no Brasil. Voc&#234; tamb&#233;m deve conhecer algu&#233;m assim, algum esquerdista que achou que ter&#237;amos um novo governo militar. Eu, no alto da minha inoc&#234;ncia de um adolescente no ensino m&#233;dio, achei que a esquerda estava acabada pelos pr&#243;ximos 20 anos. Eu nem era bolsonarista, e nem acreditava que o Bolsonaro era a solu&#231;&#227;o de todos os problemas, eu s&#243; queria uma vit&#243;ria contra a esquerda e achei que a vit&#243;ria do Bolsonaro poderia ser o in&#237;cio de uma s&#233;rie de vit&#243;rias contra eles.<br><br>Nessa mesma &#233;poca eu j&#225; era familiarizado com o Olavo de Carvalho e o seu pensamento sobre o que deveria ser feito para mudar o cen&#225;rio pol&#237;tico no Brasil, para os n&#227;o familiarizados irei resumir em linhas gerais: o projeto do Olavo era criar uma elite intelectual, que, fora da academia, produziria um ambiente onde se poderia derrotar a esquerda culturalmente e deveriam ocupar cargos em v&#225;rias esferas do poder. Quando esses cargos estivessem ocupados e, o ambiente intelectual estivesse favor&#225;vel, esse seria o ponto de inflex&#227;o aonde acabaria o dom&#237;nio da esquerda e a direita surgiria dominante. Isso &#233; em linhas gerais, como eu disse. As coisas se desenrolariam ao longo de v&#225;rios anos e seria necess&#225;rio um texto inteiro para explicar em detalhes. Por ora, esse resumo basta. Vale ressaltar que, quem me segue na minha pequena e obscura conta do X, sabe que eu concordo com esse plano at&#233; certa parte. Por exemplo, eu acho que se deve criar uma elite intelectual de direita dentro da Academia e n&#227;o fora dela e essa &#233; s&#243; uma das minhas discord&#226;ncias com o plano do Velho da Virg&#237;nia.</p><p>Olavo montou essa tese ao longo de v&#225;rios anos sem contar com o surgimento de um Bolsonaro. Eu sempre tive a suspeita que o Olavo sabia que o Bolsonaro n&#227;o era a solu&#231;&#227;o para muita coisa de verdade, mas, como ele seria um grande passo para a direita, passou a apoi&#225;-lo. Tamb&#233;m acho que o Olavo se deixou levar pela aten&#231;&#227;o que ele recebia, j&#225; que, a vida inteira, a aten&#231;&#227;o que recebeu sempre foi limitada. O Bolsonaro acelerou a tese do Olavo em anos, que n&#227;o contava com um presidente da dita direita t&#227;o cedo.</p><p>Tudo isso deu completamente errado, a &#8220;direita&#8221; nunca teve chance no Brasil de realmente vencer &#8212; ganhar elei&#231;&#227;o n&#227;o &#233; vencer. A direita n&#227;o tem um projeto de poder at&#233; hoje, o &#250;nico grupo que tem &#233; o MBL, e isso n&#227;o &#233; uma cr&#237;tica a eles. N&#227;o ter um norte definido faz com que a &#8220;direita&#8221; seja um terreno f&#233;rtil para pilantras, oportunistas e toda a sorte de vigaristas que apare&#231;am defendendo o slogan do Bolsonaro e citando 2 ou 3 vers&#237;culos do Livro da Capa Preta. N&#227;o ter um projeto de poder parece ser um fetiche da direita nacional. Uma das frequentes acusa&#231;&#245;es que grupos da &#8220;direita mainstream&#8221; daqui gostam de fazer &#233; de que algum grupo pol&#237;tico tem um projeto de poder. Eu suspeito que essa associa&#231;&#227;o negativa sobre ter um plano para conseguir o poder com algo criminoso vem de que era repetida diversas vezes, durante 2012 e 2018, que o PT tinha um plano de poder. E tinha mesmo, torpe, mas tinha e ainda tem. Apesar de eu suspeitar de que eles n&#227;o t&#234;m um plano claro para quando o Lula morrer e eu prevejo uma certa &#8220;guerra civil&#8221; no campo da esquerda para ver quem ser&#225; o seu sucessor, comigo apostando que o Boulos larga na frente, mas n&#227;o muito, j&#225; que o mesmo n&#227;o conseguiu ganhar nenhuma elei&#231;&#227;o para um cargo majorit&#225;rio.</p><p>De volta &#224; direita, isso nos leva ao problema da forma&#231;&#227;o da direita no Brasil, a qual &#233; extremamente deficiente no campo intelectual. N&#227;o h&#225; muitos grandes autores de direita no Brasil. Sim, eu conhe&#231;o os grandes autores. A quest&#227;o &#233;: eles n&#227;o s&#227;o nem um pouco influentes, nem a pr&#243;pria &#8220;direita&#8221; conhece, n&#227;o h&#225; grandes acad&#234;micos, n&#227;o h&#225; a elite intelectual que o Olavo queria formar. O Olavo fracassou em seu projeto. Basta ver o n&#237;vel dos &#8220;alunos&#8221; que sa&#237;ram do COF, n&#227;o h&#225; um que se salve. Entre em algum v&#237;deo do Olavo no YouTube e v&#225; nos coment&#225;rios ver o n&#237;vel das pessoas. V&#225; em v&#237;deos do Olavo falando sobre Kant ou Plat&#227;o e repare que os coment&#225;rios raramente s&#227;o sobre o assunto do v&#237;deo. S&#227;o sempre algo como &#8220;Como o Olavo faz falta&#8221; ou &#8220;Como queria ter o Olavo aqui&#8221;. Isso demonstra que ele falhou e, apesar de ser um homem culto, n&#227;o plantou e nem colheu nada de relevante. Ter uma defici&#234;ncia intelectual causou dois enormes problemas a direita: o primeiro &#233; n&#227;o se conhecer, o segundo &#233; n&#227;o conhecer o seu advers&#225;rio. <br><br><strong>2&#167;</strong></p><p>A &#8220;direita&#8221; n&#227;o se conhece no Brasil, n&#227;o tem uma identidade. Ela, em sua maioria, &#233; formada por conservacornos, como gosto de chamar. Para voc&#234; que n&#227;o sabe o que &#233; um conservacorno, um conservacorno &#233; aquele que tem uma vis&#227;o geopol&#237;tica que mistura a mente de algu&#233;m preso na Guerra Fria e tamb&#233;m importa a agenda dos Republicanos p&#243;s o ataque as Torres G&#234;meas. Ele tamb&#233;m, geralmente, se define como um liberal na economia e conservador nos costumes. Se ele leu um pouco, ele vai te recomendar Mises, mesmo nunca tendo lido o grosso da obra do economista austr&#237;aco e se contenta em ler &#8220;As 6 li&#231;&#245;es&#8221;. &#192;s vezes ele tamb&#233;m leu Hayek, Kirk, Scruton, Burke e todo esse c&#226;non. Eles v&#234;m, geralmente, com as bandeirinhas de Israel, dos EUA e de algum outro pa&#237;s no nome do X. Mas isso &#233; uma parte, o grosso desse grupo nunca leu esses autores. Eles ouviram falar sobre, mas nunca efetivamente tentaram ler, entender e tirar conclus&#245;es pr&#243;prias sobre esses autores.</p><p>A direita tamb&#233;m n&#227;o conhece o seu inimigo. A esquerda tamb&#233;m passa por um momento de crise de identidade, mas eles produzem material intelectual ainda, mesmo que seja de baixa qualidade, ocupam cargos burocr&#225;ticos dos mais altos, possuem n&#227;o apenas um partido, mas v&#225;rios, al&#233;m da organiza&#231;&#227;o de milit&#226;ncia que eles t&#234;m e a direita n&#227;o. Mas, eu pergunto, quem na direita brasileira leu algum livro de Marx? Tudo que esse grupo conhece &#233;, novamente, o que eles ouviram falar. Se perguntar para eles o que &#233; &#8220;infraestrutura&#8221; e &#8220;superestrutura&#8221; para Marx, a maioria n&#227;o tem a m&#237;nima no&#231;&#227;o. Eles se contentam, h&#225; mais de 11 anos, em bater em espantalhos e fazer cr&#237;ticas rid&#237;culas, como &#8220;socialistas de iPhone&#8221;, &#8220;v&#225; pra Cuba&#8221;, ou ficar apontando as hipocrisias da esquerda. Quando a cr&#237;tica tenta ser um pouco mais intelectualizada, se fala sobre uma suposta &#8220;moral relativista&#8221; que a esquerda possui. Nada poderia estar mais distante da verdade quando tratamos da esquerda atual, que possui uma moral absoluta. Essa tentativa de se criar uma moral absoluta &#233; um tra&#231;o que a direita tenta imitar em algumas quest&#245;es, o que &#233; um erro quando tratamos de pol&#237;tica.<br><br>Portanto, o diagn&#243;stico que fazemos dos conservacornos at&#233; agora &#233; que: a direita n&#227;o tem um plano de poder de verdade, o &#250;nico plano do Bolsonaro, suposto l&#237;der da &#8220;direita&#8221;, &#233; ficar o m&#225;ximo de tempo poss&#237;vel fora da cadeia e emplacar para a presid&#234;ncia algum dos seus filhos ou a sua mulher, o que seria um desastre completo. A &#8220;direita&#8221; n&#227;o tem uma intelectualidade ativa pr&#243;pria, n&#227;o ocupa quase nenhum cargo da burocracia do pa&#237;s, n&#227;o tem um partido de verdade (o PL &#233; uma piada), n&#227;o tem milit&#226;ncia e o suposto l&#237;der deles fica chorando na frente das c&#226;meras toda vez que pode e postando foto da barriga dele aberta para atrair a pena das velinhas do zap. Al&#233;m disso, o conservacorno m&#233;dio do Brasil acha que ganhar elei&#231;&#227;o &#233; o suprassumo da vit&#243;ria pol&#237;tica. Ent&#227;o, ele elege um daqueles pilantras (como citado acima, a direita &#233; um campo t&#227;o f&#233;rtil para pilantra como a esquerda, mas por motivos diferentes), que fica xingando o Lula do Instagram, ou indo em Comiss&#227;o parlamentar para falar 30 segundos, fazer um corte e postar para os idiotas que votaram nele, etc. Nenhuma dessas atitudes resolve nenhum problema real nem no curto e nem no longo prazo. Os representantes da dita direita n&#227;o querem resolver e, mesmo se quisessem, n&#227;o saberiam como, porque n&#227;o tem intelecto suficiente para isso.<br><br><strong>3&#167;</strong></p><p>O conservacorno desconhece o fato que de 1964 at&#233; 2025, os republicanos ganharam 9 elei&#231;&#245;es e os democratas, 7. Na Inglaterra, o Partido Conservador ganhou 9 e o Trabalhista 8 no mesmo per&#237;odo. Na Alemanha, o CDU ganhou 11 e o SPD ganhou 5. O que os conservacornos efetivamente fizeram contra a esquerda nesses pa&#237;ses? Nada. O que o Bolsonaro fez contra o PT? Nada. Nos &#250;ltimos 200 anos, qual vit&#243;ria os conservadores tiveram no campo cultural ou pol&#237;tico que tenha sido duradoura? Nenhuma. At&#233; mesmo os reais conservadores do tempo do Edmund Burke, os Tories, perderam. E o que os conservadores fizeram ao longo de todos esses anos? Eles concederam derrota. &#8220;O mundo mudou, nos adaptemos a ele&#8221; os grandes intelectuais conservadores pensaram. Como esse espectro pol&#237;tico pode ser bem-sucedido se, ao longo de todos esses anos, eles foram derrotados toda vez, mesmo ganhando elei&#231;&#245;es? Qualquer pessoa com 2 neur&#244;nios pensaria, o que faltou? Para os pa&#237;ses citados, cada um faltou uma coisa diferente. Para n&#243;s, faltou tudo que mencionei acima.</p><p>A verdade &#233; que o conservadorismo perdeu. Ele &#233; uma vis&#227;o de mundo fadada a ser derrotada sempre e em todo lugar, s&#243; ele n&#227;o &#233; suficiente, &#233; necess&#225;rio algo a mais.</p><p><strong>4&#167;</strong></p><p>No Brasil, a direita pulou etapas, como j&#225; ficou evidente anteriormente. Ela n&#227;o passou por um per&#237;odo de matura&#231;&#227;o &#8212; foi impulsiva, ansiosa e queimou largadas. N&#227;o houve debate interno s&#233;rio, nem prepara&#231;&#227;o intelectual, nem forma&#231;&#227;o de quadros, nem ocupa&#231;&#227;o progressiva de espa&#231;os institucionais. Ela tomou o topo da pir&#226;mide sem construir a base. E toda constru&#231;&#227;o erguida sem alicerce est&#225; fadada a ruir ao primeiro tremor.</p><p>O que acabou se tornando a &#8220;direita mainstream&#8221; acabou sendo apenas o agrupamento de oportunista conservacornos. Um grupo esteticamente direitista, mas conceitualmente vazio, incapaz de resistir &#224; narrativa for&#231;ada de um grupo que Moldbug chama de &#8220;A Catedral&#8221;. Um sintoma dessa fal&#234;ncia est&#225; justamente na invers&#227;o dos pr&#243;prios princ&#237;pios &#8212; pense nisso: quando se imaginaria, em qualquer contexto coerente com o conservadorismo, ou qualquer forma de direita (eu n&#227;o considero liberais direita, a n&#227;o ser os liberais cl&#225;ssicos, por&#233;m, eu rejeito o liberalismo em qualquer uma de suas formas) a exist&#234;ncia de &#8220;trans de direita&#8221;? Pois &#233;, existem hoje em dia. Existe demonstra&#231;&#227;o maior do que essa de que o conservadorismo &#233; feito de geleia e &#233; sempre engolido pelo <em>zeitgeist </em>que a esquerda for&#231;a sobre eles? Yarvin argumenta isso com precis&#227;o &#8212; o conservadorismo &#233; sempre apenas o atraso na aceita&#231;&#227;o do pr&#243;ximo passo da esquerda.</p><p>Mais ao norte, esse processo &#233; mais lento. Mas ainda assim vis&#237;vel. Se n&#227;o fosse o Trump, n&#227;o haveria hoje praticamente nenhuma diferen&#231;a substancial entre os Republicanos e os Democratas. Basta rever os debates entre Romney e Obama: ambos discutindo sobre qual vers&#227;o do consenso progressista aplicar. A &#8220;direita&#8221;, nesse molde, &#233; somente uma sombra retardat&#225;ria da esquerda.</p><p>Voltando ao nosso pa&#237;s, a direita brasileira n&#227;o &#233; um movimento &#8212; &#233; um fen&#244;meno. E h&#225; uma diferen&#231;a entre um e outro. Um movimento exige dire&#231;&#227;o, organiza&#231;&#227;o, ideia-for&#231;a. O fen&#244;meno &#233; espont&#226;neo, ca&#243;tico, personalista. O bolsonarismo, por isso, nunca foi um movimento. Um movimento pode ser liderado por um indiv&#237;duo, mas jamais pode ser apenas sobre ele.</p><p>O bolsonarismo foi o atalho que encantou um prot&#243;tipo de direita que ansiava por uma vit&#243;ria eleitoral, mas que n&#227;o sabia o que fazer depois dela. O governo Bolsonaro, quando teve a rara chance de influenciar o Judici&#225;rio e escolher bons ju&#237;zes que poderiam ter uma vis&#227;o mais &#224; direita, fez escolhas erradas. Deixou passar oportunidade atr&#225;s de oportunidade de fazer algo. No fim, eu acho que Bolsonaro realmente terminar&#225; como Olavo previu, vivendo da caridade de seus inimigos. Bolsonaro mais ou menos dias ser&#225; preso. O movimento bolsonarista cada vez mais perde for&#231;a e, em futuro n&#227;o t&#227;o distante, ser&#225; somente visto como mais um daqueles momentos em que o Brasil poderia ter ido por um bom caminho, mas tomou outra dire&#231;&#227;o.<br><br><strong>5&#167;</strong></p><p>Para n&#227;o deixar o texto sendo apenas uma cr&#237;tica e nenhuma sugest&#227;o, irei dizer aqui o que tenho dito e, se voc&#234; l&#234; algo do que eu, um obscuro leitor de Nietzsche e Goethe, escreve no X, e se voc&#234; leu esse texto, sabe que acho que precisa haver uma destrui&#231;&#227;o da direita para refund&#225;-la. N&#227;o h&#225; nada para conservar nela. Na verdade, n&#227;o h&#225; muito o que se conservar no Brasil no atual momento em mat&#233;ria nenhuma. Esse &#233; um dos motivos pelos quais eu n&#227;o sou um conservador. Como Franco Volpi escreveu no pref&#225;cio da introdu&#231;&#227;o de <em>Escolios a un Texto Impl&#237;cito</em>: &#8220;Reacion&#225;rio &#233; aquele que est&#225; contra tudo porque n&#227;o existe nada que merece ser conservado.&#8221; Precisamos refundar a direita com um novo ethos (&#7974;&#952;&#959;&#962;), devemos abandonar o que foi constru&#237;do at&#233; agora e come&#231;ar do zero. A direita deve parar com o antiacademicismo que surgiu com a figura do Olavo, sendo essa uma das piores coisas que ele deixou para a direita. Como se pretende fazer alta cultura, escrever sobre filosofia ou qualquer coisa assim? Voc&#234; pode ter lido Plat&#227;o no original, sua opini&#227;o ainda ter&#225; um poder de influ&#234;ncia menor do que aqueles que t&#234;m as credenciais. Antigamente, era poss&#237;vel ser um erudito com uma opini&#227;o de peso mesmo sem nunca ter frequentado a faculdade; hoje em dia, n&#227;o &#233; mais. Os jovens de direita, da verdadeira direita e n&#227;o a conservacorna, devem ir para a faculdade. Os que tiverem voca&#231;&#227;o devem seguir a carreira acad&#234;mica e ocupar cadeiras. N&#227;o se exponham antes do tempo, o processo &#233; lento e deve ser feito sempre com cautela. Aqueles que tiverem outras voca&#231;&#245;es devem segui-las e ainda assim contribuir, em suas &#225;reas, para o avan&#231;o da direita. Pol&#237;tica h&#225; de ser encarada n&#227;o como uma corrida para um cargo, mas como uma disputa por espa&#231;o. Quem ocupa mais espa&#231;os, mesmo perdendo uma cidade importante do tabuleiro, tende a vencer no longo prazo. Veja o que Z&#233; Dirceu disse: <a href="https://archive.ph/sBUs8">&#8220;Acho improv&#225;vel que o Brasil caminhar&#225; para um desastre total. Na comunidade internacional isso n&#227;o vai ser aceito. E dentro do pa&#237;s &#233; uma quest&#227;o de tempo pra gente tomar o poder. A&#237; n&#243;s vamos tomar o poder, que &#233; diferente de ganhar uma elei&#231;&#227;o.&#8221;</a> Isso foi dito ap&#243;s a elei&#231;&#227;o de 2018. H&#225; um erro nessa frase dele: a esquerda nunca saiu do poder, pois continuou ocupando mais territ&#243;rio. No entanto, Dirceu entende pol&#237;tica melhor do que quase todos nesse pa&#237;s &#8212; n&#227;o sejamos arrogantes a ponto de n&#227;o reconhecer as virtudes dos nossos advers&#225;rios. Como um bom entendedor de pol&#237;tica, ele sabe que o poder tem que ser tomado. No caso, n&#227;o somente por meio de elei&#231;&#245;es, mas por ocupa&#231;&#227;o de cargos desde a base da pir&#226;mide, para, um dia, quando o topo dela puder ser ocupado, a base ser forte e n&#227;o cair, mesmo se tremer. Como j&#225; ouvi de um amigo engenheiro: &#8220;Se treme, n&#227;o cai.&#8221;</p><p>Isso &#233; apenas um come&#231;o. Seria necess&#225;rio tamb&#233;m rever o fetiche moralista que a dita direita tem. Pol&#237;tica e moral andam juntas apenas nas quest&#245;es em que n&#227;o se deve, por exemplo, roubar dinheiro p&#250;blico. Tirando esses casos, pol&#237;tica, no sentido de disputa de poder entre duas for&#231;as diferentes, n&#227;o tem nada a ver com moral. Como dito acima, pol&#237;tica deve ser vista como uma disputa por espa&#231;o e, uma vez conquistado esse espa&#231;o, deve-se exercer o seu poder sobre ele. Mas, para isso, &#233; necess&#225;rio ter a vontade de vencer, coisa que a dita direita n&#227;o tem. A direita possui uma moralidade onde buscar o poder &#233; errado, &#233; visto como algo de gente sem car&#225;ter. Apenas mencionar essa a&#231;&#227;o faz com que eles fiquem loucos. Mas a verdade &#233; que nenhum grupo vencedor na hist&#243;ria foi vencedor por acaso. Lee Kuan Yew n&#227;o se tornou o l&#237;der de Singapura e a transformou de um p&#226;ntano para uma metr&#243;pole apenas com discursos bonitos sobre &#8220;estado m&#237;nimo&#8221; ou qualquer outra coisa irreal desse g&#234;nero<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a>. Lee Kuan Yew transformou Singapura pois, como ele mesmo disse: &#8220;Whoever governs Singapore must have that iron in him. Or give it up. This is not a game of cards! This is your life and mine! I've spent a whole lifetime building this and as long as I'm in charge, nobody is going to knock it down.&#8221; A direita n&#227;o tem esse &#8220;ferro&#8221;, essa for&#231;a, esse &#237;mpeto de vencer no Brasil.</p><p>Antes disso, o imagin&#225;rio da direita deve ser totalmente reformulado em todos os &#226;mbitos. Precisa-se abandonar a esperan&#231;a em um liberalismo boboca, daquele que acha que apenas o Estado parar de intervir na economia ir&#225; resolver todos os problemas econ&#244;micos do Brasil. Nenhum grande pa&#237;s desenvolveu uma ind&#250;stria nacional, por exemplo, sem aux&#237;lio do Estado. Nem os EUA se desenvolveram assim; houve um substancial incentivo ao desenvolvimento da ind&#250;stria deles. Hamilton, por exemplo, colocou tarifas e ofereceu subs&#237;dios para proteger a ind&#250;stria nacional e seu desenvolvimento. A direita precisa passar a ser pragm&#225;tica na economia. O Estado n&#227;o precisa intervir em tudo, mas n&#227;o &#233; poss&#237;vel que ele seja completamente ausente dela. Da mesma forma, deveria se abandonar a ideia idiota de que qualquer cr&#237;tica ao capitalismo, ou ao liberalismo econ&#244;mico, te faz um esquerdista. Isso vem da ignor&#226;ncia e da deforma&#231;&#227;o intelectual que est&#225; dentro da cabe&#231;a dos conservacornos. H&#225; diversas cr&#237;ticas ao capitalismo feitas a partir da direita, e nenhuma delas converteu os seus autores em comunistas. E isso estamos apenas falando em mat&#233;ria de economia. </p><p>A direita precisa entender que a democracia, da forma como conhecemos, a dita democracia liberal, falhou. Como o general Golbery disse: &#8220;Sem d&#250;vida, ou a Democracia se renova e avigora ou ir&#225; sucumbir, exangue de for&#231;as e de vontade, nos bra&#231;os do cesarismo.&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a> Mas a verdade &#233; que a democracia liberal n&#227;o tem como se renovar. Ela n&#227;o funcionou, principalmente aqui no Brasil, onde ela apenas existe a cada dois anos, quando vamos votar. Al&#233;m de ela ser a forma mais antinatural de governo &#8212; mas isso &#233; assunto para o futuro. A democracia liberal falhou na medida em que as palavras de Nietzsche se cumpriram: &#8220;O valor de uma coisa reside por vezes n&#227;o naquilo que se alcan&#231;a com ela, mas naquilo que se paga por ela, no que ela nos custa. Dou um exemplo. As institui&#231;&#245;es liberais deixam logo de ser liberais, t&#227;o logo sejam alcan&#231;adas: n&#227;o h&#225;, depois, inimigos mais irritantes e radicais da liberdade do que as institui&#231;&#245;es liberais. Sabe-se bem o que elas produzem: elas minam a vontade de poder, s&#227;o a nivela&#231;&#227;o de montes e vales elevada &#224; moral, tornam pequeno, covarde e satisfeito &#8211; com elas triunfa sempre o animal do rebanho.[&#8230;]&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a></p><p>Partindo para a cultura: a direita no Brasil n&#227;o cria arte. O que forma o imagin&#225;rio popular &#233; a arte &#8212; s&#227;o os filmes, os romances escritos, os poemas que captam os simbolismos que a maioria n&#227;o consegue p&#244;r em palavras, mas o poeta consegue. N&#227;o s&#243; a direita n&#227;o cria arte, como ela odeia a arte e a subestima, achando que ela n&#227;o &#233; importante. Isso empurra jovens com uma veia art&#237;stica imediatamente para a esquerda, onde eles acabam sendo, de certa forma, &#8220;acolhidos&#8221;. Como Ernst J&#252;nger diz: "N&#227;o nos &#233; dado, portanto, permanecer na imagina&#231;&#227;o, embora ela forne&#231;a a for&#231;a fundamental para as a&#231;&#245;es. Ao combate pelo poder precedem a confronta&#231;&#227;o das imagens e a iconoclastia. Esse &#233; o motivo pelo qual dependemos dos poetas. Eles iniciam a derrubada, inclusive a queda dos tit&#227;s. A imagina&#231;&#227;o, e com ela o canto, pertencem ao percurso pela floresta."<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-4" href="#footnote-4" target="_self">4</a><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-5" href="#footnote-5" target="_self">5</a> Essas medidas seriam um come&#231;o para a direita come&#231;ar a ter chances de vencer &#8212; uma real vit&#243;ria. <br><br><strong>6&#167;</strong></p><p>A direita brasileira fracassou porque nunca soube o que significava vencer; nunca houve um plano para vencer. Confundiu moralismo com estrat&#233;gia, carisma de um tiozinho com lideran&#231;a, memes do Facebook com doutrina. Evitou ter o poder de verdade, temeu o confronto. Enquanto isso, seus advers&#225;rios, mesmo nos momentos mais fracos, continuaram ocupando territ&#243;rio.<br> </p><p>A direita ainda acredita que basta estar do lado "certo" da hist&#243;ria. Mas hist&#243;ria nenhuma &#233; escrita por quem apenas se contenta com isso. Ela &#233; escrita por quem ocupa espa&#231;o, forma quadros, produz s&#237;mbolos e constr&#243;i institui&#231;&#245;es. Por quem compreende que pol&#237;tica n&#227;o &#233; pureza, mas disputa por territ&#243;rio &#8212; e quem consegue manter ele por mais tempo. Como o pr&#243;prio Olavo repetiu diversas vezes: &#8220;Quem dura mais, vence.&#8221; Ele estava dando um conselho para a vida, mas esse conselho tamb&#233;m se aplica &#224; pol&#237;tica.</p><p>Talvez quem leia o que eu escrevi aqui sobre a esquerda ache que eu tenho a opini&#227;o de que a esquerda &#233; muito organizada. N&#227;o &#233; verdade: eles n&#227;o s&#227;o. Como eu falei acima, eles tamb&#233;m passam por uma crise de identidade, mas eles est&#227;o muito mais avan&#231;ados em todas as &#225;reas em que a direita n&#227;o est&#225;. E isso n&#227;o surgiu quando Lula foi eleito em 2002. Surgiu muitos anos antes, quando eles n&#227;o tinham mais como ocupar os cargos do alto escal&#227;o do governo. A &#8220;revolu&#231;&#227;o&#8221; deles se deu de maneira que havia uma convic&#231;&#227;o: se a ocupa&#231;&#227;o de espa&#231;os, desde a base at&#233; o meio da pir&#226;mide, fosse bem-sucedida, cedo ou tarde, eles ocupariam os altos cargos &#8212; e foi o que aconteceu. A esquerda tem dias complicados em seu futuro quando o Lula se retirar da pol&#237;tica, como eu tamb&#233;m mencionei acima. Mas a direita talvez n&#227;o esteja preparada para realmente aproveitar essa oportunidade.</p><p>H&#225; de haver um expurgo na direita. A direita conservacorno precisa ser derrotada tanto quanto a esquerda. Eu j&#225; disse uma vez que deveria ser a esquerda primeiro &#8212; mas eu estava errado. Uma real chance de vit&#243;ria com a direita atual &#233; imposs&#237;vel. A direita precisa ser destru&#237;da e reconstru&#237;da. Quando isso acontecer, e n&#227;o ocorrer&#225; no curto prazo, a chance de vit&#243;ria passar&#225; a ser real. A direita precisa incorporar como parte de seu novo ethos essa frase do nacionalista da regi&#227;o dos Flandres, Ernest Van der Hallen:</p><p>"Seja radical, tenha princ&#237;pios, seja absoluto, seja aquilo que a burguesia chama de extremista: entregue-se sem contar ou calcular, n&#227;o aceite o que eles chamam de &#8216;realidade da vida&#8217; e aja de tal forma que voc&#234; n&#227;o seja aceito por esse tipo de &#8216;vida&#8217;, nunca abandone o princ&#237;pio da luta."</p><p></p><div><hr></div><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://dracomantis.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Litterae draconis! 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Eu lhes desafio a achar um s&#243; lugar onde o poder do Estado efetivamente diminuiu, n&#227;o no campo legal, mas onde o poder diminuiu de forma que a capacidade do Estado de saber da vida privada dos seus cidad&#227;os tenha realmente diminu&#237;do na pr&#225;tica.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>Golbery do Couto e Silva<strong>, </strong> (1967). <em>Geopol&#237;tica do Brasil</em>.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="#footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p><em>G&#246;tzen-D&#228;mmerung, Streifz&#252;ge eines Unzeitgem&#228;&#223;en</em>, Aforismo 38. (Minha tradu&#231;&#227;o).</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-4" href="#footnote-anchor-4" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">4</a><div class="footnote-content"><p><em>Der Waldgang</em>.  (Cap&#237;tulo 15). (Minha tradu&#231;&#227;o).</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-5" href="#footnote-anchor-5" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">5</a><div class="footnote-content"><p>&#201; interessante notar que, em alem&#227;o, a palavra usada para derrubada por J&#252;nger &#233; "<em><strong>Umsturz</strong></em>", que tem o sentido da derruba de uma ordem vigente.</p><p></p></div></div>]]></content:encoded></item></channel></rss>