<script data-pm-proxy="intercept"></script><?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Danda]]></title><description><![CDATA[Gaveta de memórias, delírios da vida banal, uma necessidade imensa de escrever.]]></description><link>https://eusouummonstro.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Hzth!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff6e3daa8-f19e-4a8a-ad8a-5d7d2d529a33_1332x876.jpeg</url><title>Danda</title><link>https://eusouummonstro.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Tue, 01 Sep 2026 10:42:20 GMT</lastBuildDate><atom:link href="/__u/eusouummonstro.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Danda]]></copyright><language><![CDATA[pt-br]]></language><webMaster><![CDATA[eusouummonstro@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[eusouummonstro@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Danda]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Danda]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[eusouummonstro@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[eusouummonstro@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Danda]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[ÚLTIMA VEZ - TIM BERNARDES]]></title><description><![CDATA[Quando voc&#234; chegou, cabelo cortado de um jeito que nunca vi, camisa branca, cal&#231;a jeans, corpo igual ao que eu lembrava nu.]]></description><link>https://eusouummonstro.substack.com/p/ultima-vez-tim-bernardes</link><guid isPermaLink="false">https://eusouummonstro.substack.com/p/ultima-vez-tim-bernardes</guid><dc:creator><![CDATA[Danda]]></dc:creator><pubDate>Sat, 15 Aug 2026 23:02:40 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Hzth!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff6e3daa8-f19e-4a8a-ad8a-5d7d2d529a33_1332x876.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Quando voc&#234; chegou, cabelo cortado de um jeito que nunca vi, camisa branca, cal&#231;a jeans, corpo igual ao que eu lembrava nu. </p><p>Voc&#234;, ali na minha frente, o impacto de n&#227;o ser t&#227;o diferente. Os sinais do rosto no mesmo lugar. O sorriso igual, com o dente da frente um pouco torto, querendo tomar o lugar do outro de um jeito bonito e discreto.</p><p>Na porta da minha casa, voc&#234;. Uma capsula para o passado. Um tabuleiro e ouija, resgatando os mortos. Voc&#234; naquela casa onde todos os c&#244;modos conheceram os contornos dos nossos corpos. Sua bunda em cima do fog&#227;o. Minhas pernas na pia do banheiro.</p><p>Voc&#234;, ali.</p><p>Voc&#234; que n&#227;o sabia dos meus quadros novos, da minha espada de S&#227;o Jorge, do meu novo apre&#231;o pela f&#233; nos orix&#225;s. </p><p>Entra.</p><p>Senta no sof&#225; que j&#225; dormimos tantas vezes. Bebe no copo que te ofere&#231;o. O mesmo que bebi.</p><p>Toma um trago. Descansa o corpo. Me fala de ti. Me conta da vida. Me diz o que te aconteceu. Se o futuro que imaginamos parcialmente se cumpriu. Me fala se seu corpo tem uma nova cicatriz.</p><p>Me conta tudo.</p><p>Te ou&#231;o com fome. Com a aten&#231;&#227;o de um milagre. O reencontro &#233; destino. A separa&#231;&#227;o tamb&#233;m.</p><p>Voc&#234; me conta e mexe sua boca. Sua boca que me beijou, lambeu, que proferiu frases de amor, obscenas, desejosas, terr&#237;veis, malignas.</p><p>&#8220;Como &#233; raro pra mim ficar t&#227;o &#224; vontade assim com algu&#233;m hoje em dia&#8221;</p><p>Voc&#234; diz. Eu sou seu passado, voc&#234; me conhece. Eu v voc&#234; j&#225; temos um passado, te relembro, pego pela m&#227;o, levo ao quarto, de volta ao ontem.</p><p><span>Olhos nos olhos, os dois pelados. Abra&#231;ados, juntos at&#233; o final. </span></p><p><span>Mem&#243;ria muscular. Ali onde &#233; bom. Pego. Chupo. Lambo. Bebo. Nos esfregamos. Pernas tran&#231;adas nesse nunca mais. Tomamos um ao outro com a fome do nunca mais.</span></p><p>Vai ficando do&#237;do mexer desse jeito no emocional. <span>Acho que eu que fui tolo de achar que isso agora era s&#243; vontade do corpo, de pensar que a gente j&#225; tinha se superado.</span></p><p><span>Eu n&#227;o sabia mais como era fria a vida sem o seu carinho.</span></p><p><span>Pelados ali n&#227;o fizemos mais nada al&#233;m de sil&#234;ncio.</span></p><p><span>Quando esfriou o corpo do desejo, a mem&#243;ria das discuss&#245;es, das cicatrizes que deixamos um no outro.</span></p><p><span>E se a melhor op&#231;&#227;o nessa hist&#243;ria &#233; ruim como pode haver algum sentido?</span></p><p><span>Ele levanta. Veste a cueca azul marinho. Cobre a bunca espl&#234;ndida. Veste as cal&#231;as jeans, o corpo ainda enrijecido, a camisa branca. Me d&#225; um beijo. Parte.</span></p><p><span>Sem ele eu cresci, cres&#231;o. </span></p><p><span>Sem ele eu sou maior.</span></p><p><span>Ele vai sem falar nada, pois pra n&#243;s j&#225; passou at&#233; a despedida.</span></p><p><span>S&#243; separados achamos sa&#237;da. &#201; que &#224;s vezes se escolhe entre amor e alegria na vida.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Há que se ter fé no encanto.]]></title><description><![CDATA[H&#225; que se ter f&#233; na beleza, perseguir o mist&#233;rio, encantar-se.]]></description><link>https://eusouummonstro.substack.com/p/ha-que-se-ter-fe-no-encanto</link><guid isPermaLink="false">https://eusouummonstro.substack.com/p/ha-que-se-ter-fe-no-encanto</guid><dc:creator><![CDATA[Danda]]></dc:creator><pubDate>Tue, 04 Aug 2026 15:23:27 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Hzth!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff6e3daa8-f19e-4a8a-ad8a-5d7d2d529a33_1332x876.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>H&#225; que se ter f&#233; na beleza, perseguir o mist&#233;rio, encantar-se. </p><p>A vida &#233; mais que sucess&#227;o de acontecimentos, &#233; a descoberta da primeira vez. Estamos rodando, perseguindo o brilho do mist&#233;rio como mariposas seguem a lua. Estamos distantes do encanto, como as mariposas est&#227;o da lua, e ainda assim seguimos. </p><p>H&#225; que se ter f&#233;. Crer no imposs&#237;vel, na felicidade derradeira, no momento do acerto de contas com a vida, que n&#227;o precisa ser no fim. </p><p>Fa&#231;amos as pazes com a vida brevemente, aceitemos o que h&#225; de vir, recebamos as trag&#233;dias do mundo como aprendizado. Eis o encanto surgindo. Eu o persigo. Vou atr&#225;s dele. Quase toco suas vestes e ele me escapa, de longe vejo seu brilho, a imagem &#233; suficiente para minhas retinas fatigadas recobrarem a vista das coisas boas. </p><p>Tenho agora tr&#234;s d&#233;cadas de vida. Vivi o mundo trinta anos. Encontrei tanta coisa: casas solit&#225;rias, c&#227;es de rua apaixonados por travetis, quedas de anjo gerando crateras nas ruas, pessoas derretendo de calor e virando massa amorfa, se misturando e formando um novo ser, o coletivo. </p><p>H&#225; que se ter f&#233;. </p><p>F&#233; &#233; coragem de acreditar.</p><p>Eu acredito na arte, no momento passageiro onde se encontra o sentido da vida brevemente. Depois se perde. Acha outros. A vida tem tantos anos e queremos tantas coisas distintas. </p><p>Ontem eu queria ser feliz. Hoje quero ser artista, mesmo triste preferia ser artista. Amanh&#227; quero envelhecer at&#233; os oitenta. Pr&#243;xima semana, n&#227;o sei. Talvez daqui a um m&#234;s n&#227;o queira nada. Tudo me baste, a vida seja suficiente, o mundo me pare&#231;a correto, a vida pare&#231;a boa e eu me encontre suficientemente feliz. </p><p>H&#225; que se fazer as pazes com a vida porque tudo &#233; passageiro. </p><p>Amanh&#227; seremos outros, o mundo continuar&#225; o mesmo, mas se capturarmos a beleza momentaneamente sejamos felizes. </p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[TINA]]></title><description><![CDATA[Segurando a filha da minha irm&#227; nos bra&#231;os, eu sinto que o tempo corre sempre em espiral e o passado sempre d&#225; um jeito de nos alcan&#231;ar no futuro.]]></description><link>https://eusouummonstro.substack.com/p/tina</link><guid isPermaLink="false">https://eusouummonstro.substack.com/p/tina</guid><dc:creator><![CDATA[Danda]]></dc:creator><pubDate>Fri, 10 Jul 2026 00:56:05 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Hzth!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff6e3daa8-f19e-4a8a-ad8a-5d7d2d529a33_1332x876.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Segurando a filha da minha irm&#227; nos bra&#231;os, eu sinto que o tempo corre sempre em espiral e o passado sempre d&#225; um jeito de nos alcan&#231;ar no futuro. Segurando a filha da minha irm&#227; nos bra&#231;os eu tenho a certeza de que o tempo &#233; uma inven&#231;&#227;o. Ontem e amanh&#227; s&#227;o hoje sempre. </p><p>Ela dorme ressonando seus barulhinhos de beb&#234;. Eu canto para ela a m&#250;sica de Vanessa da Mata e ela canta para mim seus ru&#237;dos de nen&#233;m. Trocamos melodias e essa &#233; nossa primeira comunica&#231;&#227;o. Ela n&#227;o vai se lembrar de nada disso quando for crian&#231;a e quando ela for adulta, eu espero n&#227;o esquecer. </p><p>Olhando ela em meus bra&#231;os, vejo-a igual a minha irm&#227;. Emociona-me a ideia de segurar minha irm&#227; mais velha nos bra&#231;os. Acho bonito pensar que estou pondo minha irm&#227; para dormir. Penso que estou vencendo o tempo, voltando antes da exist&#234;ncia e colocando nos bra&#231;os a criatura que mais ano no mundo.</p><p>Minha irm&#227;, que tanto me protegeu, que me preparou para o mundo de tantas formas, agora se reproduziu e eu sinto com ela e sua prole o dever do amor. Amor como legado, sem cobran&#231;a ou d&#237;vida, amor com necessidade de se multiplicar. </p><p>Sou tia, finalmente. Tenho um compromisso com o para sempre. </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Desmemória]]></title><description><![CDATA[Comecei a esquecer quem eu sou.]]></description><link>https://eusouummonstro.substack.com/p/desmemoria</link><guid isPermaLink="false">https://eusouummonstro.substack.com/p/desmemoria</guid><dc:creator><![CDATA[Danda]]></dc:creator><pubDate>Thu, 07 May 2026 19:20:36 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Hzth!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff6e3daa8-f19e-4a8a-ad8a-5d7d2d529a33_1332x876.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Comecei a esquecer quem eu sou. Hoje me dei conta que o processo est&#225; acelerado. A mo&#231;a do mercado perguntou &#8220;CPF na nota?&#8221;, &#8220;Claro&#8221; embora n&#227;o saiba ainda at&#233; hoje muito bem para que serve o CPF na nota e porque damos t&#227;o facilmente nossos n&#250;meros de registro. Fui digitar e percebi que n&#227;o sabia a ordem dos n&#250;meros. Vagamente lembrava a sequ&#234;ncia do meio. Tentei tr&#234;s vezes, como Pedro negou Cristo, incorreto. Pedi perd&#227;o pelo inconveniente e pela espera. Ela falou que eu poderia tentar de novo. N&#227;o obrigada. Eu n&#227;o fa&#231;o ideia do meu Cadastro de Pessoas F&#237;sica. Nem tenho certeza se ainda sou uma, mo&#231;a. Quis dizer. N&#227;o disse. Disse que era o cansa&#231;o. Ri sem gra&#231;a. Ela sorriu junto. Cheguei em casa e procurei meus documentos. Li quatro vezes o n&#250;mero do CPF para decorar de novo. Onze n&#250;meros. </p><p>Agora sei de novo os onze d&#237;gitos do meu cadastro que me faz cidad&#227;. Agora posso pedir CPF na nota. N&#227;o vou esquecer.</p><p>Temo esquecer outras coisas. Meu telefone. Meu anivers&#225;rio. O dia que meu av&#244; faleceu. Meu nome.</p><p>Essas coisas mais graves que me tornam eu. </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Eu, ostra.]]></title><description><![CDATA[Tenho me tornado ostra.]]></description><link>https://eusouummonstro.substack.com/p/eu-ostra</link><guid isPermaLink="false">https://eusouummonstro.substack.com/p/eu-ostra</guid><dc:creator><![CDATA[Danda]]></dc:creator><pubDate>Tue, 07 Apr 2026 15:16:17 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Hzth!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff6e3daa8-f19e-4a8a-ad8a-5d7d2d529a33_1332x876.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Tenho me tornado ostra. Algo muito &#237;nfimo me adentrou h&#225; algum tempo e eu, que tenho me tornado casmurra, cada vez mais ensimesmada, introvertida de palavras. Delicadamente, tenho transformado essa coisa em p&#233;rola. </p><p>&#201; um processo laborioso, silencioso, dolorido. </p><p>Tenho engolido calada muito, porque se abro a boca, algo disso que protejo e projeto pode se perder. No medo de essa &#237;nfima preciosidade se perder, tenho sofrido enxovalhos calada. Tenho consentido sem consentir. Tenho tornado-me curva, tenho tornado-me ostra. Enrijecido as costas. Adquirido uma circunfer&#234;ncia semi-circular, prostrada em mim mesma. Tenho em mim feito abrigo.</p><p>Nesse processo descobri um espa&#231;o interno grandioso, capaz de se expandir no sil&#234;ncio. Dentro de mim, sou quieta. Dentro de mim ecoa um som grave, uma frequ&#234;ncia abissal. Dentro de mim, peixes jur&#225;ssicos nadam tranquilos. Dentro de mim, com muito esfor&#231;o, se forja uma p&#233;rola. </p><p>E d&#243;i. </p><p>L&#225; fora, o mundo me rebuli&#231;a. Joga-me de um lado para o outro, me vira de ponta cabe&#231;a. E eu permane&#231;o. Dentro de mim a press&#227;o interna &#233; alt&#237;ssima. Capaz de forjar um diamante. Eu tenho medo de quando me abrirem, encontrarem apenas areia. Depois de tanto esfor&#231;o, depois de tanta dor, tanto inc&#244;modo, talvez eu n&#227;o consiga ser nada diferente do que j&#225; existe. Talvez eu n&#227;o consiga transmutar. </p><p>Eu, simulacro de ostra, tenho certeza que todo esse inc&#244;modo interno forja uma p&#233;rola. </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Somos tantos, meu amor]]></title><description><![CDATA[Eu e voc&#234; somos quase cem.]]></description><link>https://eusouummonstro.substack.com/p/somos-tantos-meu-amor</link><guid isPermaLink="false">https://eusouummonstro.substack.com/p/somos-tantos-meu-amor</guid><dc:creator><![CDATA[Danda]]></dc:creator><pubDate>Fri, 03 Apr 2026 18:26:52 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Hzth!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff6e3daa8-f19e-4a8a-ad8a-5d7d2d529a33_1332x876.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Eu e voc&#234; somos quase cem. Voc&#234;, para mim, &#233; o que voc&#234; &#233; para mim e o que voc&#234; realmente &#233;. Assim voc&#234; j&#225; &#233; dois. E tem tamb&#233;m o voc&#234; para sua m&#227;e. E o outro voc&#234; que &#233; o voc&#234; para o seu pai. Voc&#234; &#233; mais outro com seus amigos. E mesmo com os c&#227;es de rua voc&#234; &#233; outro, um Deus generoso.</p><p>Eu sou eu s&#243; para mim. Para voc&#234; sou uma vers&#227;o. E as pessoas na rua, dia sim, dia n&#227;o me reinventam, dependendo do meu humor. No trabalho me acham &#243;tima, mas meu psiquiatra diz que eu tenho que ter aten&#231;&#227;o.</p><p>Eu sou eu e voc&#234; &#233; voc&#234;, mas somos tantos que perco as contas de quantas vezes te conheci. </p><p>De ano em ano eu me apresento de novo a mim mesma. Est&#225; quase na data de eu me reconhecer novamente. Marco um caf&#233; comigo, levo velhos cadernos que guardavam antigos pensamentos, obsoletas obsess&#245;es, retiro os fantasmas do arm&#225;rio e fa&#231;o a limpa no que sai e no que fica nessa nova vers&#227;o minha. &#192;s vezes tamb&#233;m odeio o que me tornei, a&#237; vou mudando um pouquinho cada dia, em doses homeop&#225;ticas para n&#227;o adoecer de mim.</p><p>Voc&#234; muda na sua velocidade. Da boca para fora, mete&#243;rico. Do corpo pra dentro, mais devagar. Voc&#234; nunca para, &#233; como um planeta rotacionando. </p><p>Eu, louca, fugaz, sou ligeira e inconstante. Hoje sou assim, amanh&#227; outra coisa.</p><p>Vem c&#225; pra eu me apresentar hoje.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Pequena cena de uma mulher média]]></title><description><![CDATA[ELA: Acordo as seis da manh&#227;.]]></description><link>https://eusouummonstro.substack.com/p/pequena-cena-de-uma-mulher-media</link><guid isPermaLink="false">https://eusouummonstro.substack.com/p/pequena-cena-de-uma-mulher-media</guid><dc:creator><![CDATA[Danda]]></dc:creator><pubDate>Tue, 24 Mar 2026 21:51:32 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Hzth!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff6e3daa8-f19e-4a8a-ad8a-5d7d2d529a33_1332x876.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>ELA: Acordo as seis da manh&#227;. Passo dez minutos na janela da sala tomando sol. Tenho buscado formas de me tornar menos infeliz. Fa&#231;o fotoss&#237;ntese. Escovo os dentes com creme dental Sorriso e uma escova um tanto escangalhada. Tomo banho gelado porque n&#227;o tenho chuveiro el&#233;trico e aqui faz calor. O shampoo ca&#237; no olho. Aproveito para chorar. Hoje ainda &#233; quarta-feira. </p><p>Uso sand&#225;lias havaianas no banho. Tenho medo de cair e bater o cr&#226;nio. As sand&#225;lias ficam debaixo do chuveiro o dia todo. S&#227;o anf&#237;bios. Tenho medo de morrer nua e s&#243;. Preferia morrer nua acompanhada. </p><p>As sete e quinze abro o Tinder. Procuro um homem para sexta. Entre 30 e 47 anos. Passo veementemente para a direita. N&#227;o fa&#231;o distin&#231;&#227;o. Todos os homens s&#227;o iguais. S&#243; as mulheres s&#227;o diferentes. </p><p>Bebo caf&#233; preto. Desgasto o esmalte dos dentes. Como dois ovos mexidos. Tenho vontade de vomitar.</p><p>Em um m&#234;s ser&#225; dia de S&#227;o Jorge. Salve meu pai Ogum. </p><p>Hoje vou matar um drag&#227;o. </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Casa de fêmeas]]></title><description><![CDATA[Nasci em ber&#231;o de mulher.]]></description><link>https://eusouummonstro.substack.com/p/casa-de-femeas</link><guid isPermaLink="false">https://eusouummonstro.substack.com/p/casa-de-femeas</guid><dc:creator><![CDATA[Danda]]></dc:creator><pubDate>Sun, 08 Mar 2026 23:20:50 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Hzth!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff6e3daa8-f19e-4a8a-ad8a-5d7d2d529a33_1332x876.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Nasci em ber&#231;o de mulher. Em casa somos sete. Em breve seremos oito. Aprendi a ser bicho com as minhas ancestrais. </p><p>Minha av&#243;, forjada no barro e calor do interior, foi muito pouco menina. Logo cedo perdeu a m&#227;e e aprendeu a ser mulher com as av&#243;s. Vivia no meio do mato com o irm&#227;o e uma baladeira. Era criatura franzina, perna grande, barriga lisa, pele branca. Minha av&#243; foi m&#227;e antes de parir porque teve de cuidar dos irm&#227;os. Desde cedo aprendeu sobre cuidado, mas tamb&#233;m a dificuldade forjou casca. Ela &#233; bicho de exoesqueleto. A pele alva &#233; armadura. Minha av&#243; vence um batalh&#227;o de homens. Minha av&#243; &#233; um ex&#233;rcito de uma mulher s&#243;. J&#225; passou por mil traumas e ainda hoje se sustenta e encosta os joelhos no ch&#227;o para rezar.</p><p>Minha tia me ensinou que amor &#233; a&#231;&#227;o. Pr&#225;tica di&#225;ria. Amor, mais que palavras bonitas, amor &#233; um gesto concreto no mundo, muda vidas. Foi a primeira da fam&#237;lia a cursar federal. Inaugurou o mundo do ensino superior na fam&#237;lia Cunha. &#201; bicho de l&#237;ngua &#225;gil, cabe&#231;a acelerada. N&#227;o deixa nada sem resposta e me ensinou a ter humor.</p><p>M&#227;e &#233; coisa cara. A minha tem uma bondade quase infantil. A todo mundo ela d&#225; a m&#227;o, a face e a outra face. Foi com ela que entendi o que pode ser Deus, algu&#233;m bom como ela. S&#243; acredito que Deus existe porque no mundo h&#225; minha m&#227;e. E se uma criatura pode ser t&#227;o boa, t&#227;o cheia de perd&#227;o, t&#227;o absolutamente am&#225;vel, Deus deve existir para ser melhor.</p><p>Minha irm&#227; &#233; o mais pr&#243;ximo que tenho de &#237;dolo. N&#227;o admiro ningu&#233;m como a ela. A intelig&#234;ncia, o sentir que &#233; sempre absoluto, a vontade de sempre ser melhor. </p><p>Minhas quatro grandes m&#227;es s&#227;o elas. Cada uma, a seu modo me tornou o que sou. </p><p>Eu, a mais bicho de todas, ajo por instinto, tenho garras, boca de presa, afiada. Eu, errada, aprendo com os acertos das minhas ancestrais que iluminam meu caminho com a luz de suas exist&#234;ncias.</p><p>Bicho mais fera que f&#234;mea, me fa&#231;o no mundo com amor pelas minhas semelhantes e nutrindo uma raiva muito profunda que alimenta o germe de uma revolu&#231;&#227;o.</p><p>Tenha calma.</p><p>tenha calma.</p><p>Calma?</p><p>&#201; tempo de uivar. </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Início ]]></title><description><![CDATA[49 dias se passaram do in&#237;cio do ano.]]></description><link>https://eusouummonstro.substack.com/p/inicio</link><guid isPermaLink="false">https://eusouummonstro.substack.com/p/inicio</guid><dc:creator><![CDATA[Danda]]></dc:creator><pubDate>Fri, 20 Feb 2026 00:58:29 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Hzth!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff6e3daa8-f19e-4a8a-ad8a-5d7d2d529a33_1332x876.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>49 dias se passaram do in&#237;cio do ano. </p><p>As ruas, ainda cobertas de purpurina, agora com menos gente, veem os carros passar. Nenhuma marchinha canta a alegria do feriado semi-eterno. Buzinas, sons de teclado, gente berrando ao telefone. Hoje nem a ladainha dos mortos salva o sil&#234;ncio. &#201; quinta, &#233; cinza sem ser santa.</p><p>Aqui no nordeste a praia se estende como uma promessa do fim de semana, com sorte. A carne bronzeada coberta de roupas corporativas. A boca que beijou, hoje se cala. </p><p>Nessa madrugada sonhei com le&#245;es. Acordei com medo. Depois do carnaval todas as coisas voltam a rotina. </p><p>Minha covardia voltou das f&#233;rias muito bem alimentada.</p><p>O ano come&#231;a agora, eles disseram. A vida vai ser diferente, eles disseram. Esse ano tem copa, mas ningu&#233;m espera ser muito feliz.</p><p>Quando eu tinha 6 anos o Brasil foi penta. Assist&#237;amos a copa numa televis&#227;o de tubo. Ronaldo usava o corte mais ousado do mundo, vestia camisa 9 e era dentu&#231;o como eu. Na &#233;poca eu chupava dedo. Mas tudo isso &#233; ultrapassado: a tv de tubo, a vit&#243;ria do Brasil na copa e minha antiga denti&#231;&#227;o.</p><p>Dessa &#233;poca nem os dentes tenho mais, tudo &#233; lembran&#231;a.</p><p>O mundo se refaz. Feliz ano novo, Brasil.</p><p>Hora de refazermos nossas promessas. </p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[É carnaval no Brasil]]></title><description><![CDATA[Transmutar &#243;dio em festa.]]></description><link>https://eusouummonstro.substack.com/p/e-carnaval-no-brasil</link><guid isPermaLink="false">https://eusouummonstro.substack.com/p/e-carnaval-no-brasil</guid><dc:creator><![CDATA[Danda]]></dc:creator><pubDate>Sun, 08 Feb 2026 18:20:40 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Hzth!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff6e3daa8-f19e-4a8a-ad8a-5d7d2d529a33_1332x876.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Transmutar &#243;dio em festa. Apagar as fronteiras do capital. Fazer da rua espa&#231;o p&#250;blico de verdade. Ter a alegria como princ&#237;pio de direito. Realizar o sonho da democracia descendo a ladeira. Cobrir-se de brilho. Renovar a hist&#243;ria. Iniciar o ano. </p><p>&#201; carnaval no Brasil.</p><p>Esconder as vergonhas em roupas cada vez menores. Cada vez ter menos vergonha de ser quem se &#233;. Compartilhar do calor, da saliva e do suor. Tapa-sexos, biquinis e camisinhas.</p><p>&#201; carnaval no Brasil.</p><p>Idosos nas sacadas dos pr&#233;dios. C&#227;es fazendo amor em Ipanema. Banho de cerveja ao meio dia. Bar&#245;es e pedintes dividindo a avenida. Cerveja 3 por 10 em Olinda. </p><p>&#201; carnaval no Brasil.</p><p>Chuvas fora de &#233;poca para assustar o calor. O astro rei furioso de viver muito longe. Insola&#231;&#227;o assola o pa&#237;s. Sundown a cinquenta e cinco reais. Marquinhas de biquini. On&#231;as tomando sol. </p><p>&#201; carnaval no Brasil.</p><p>Deus na avenida cruza com Exu na Sapuca&#237;. E sambam as pretas. E sambam os gringos. E sambam os velhos. E mesmo no t&#250;mulo Cartola torce pela Mangueira. Esse ano Ney vira enredo. &#201; tempo de ser bicho.</p><p>&#201; carnaval no Brasil.</p><p>Aromas et&#237;licos. Urina nas ruas. Glitter biodegrad&#225;vel. Na quarta-feira o mundo se refaz em reza e velas.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Três ]]></title><description><![CDATA[Quando tinha dez anos, o ano era 2006.]]></description><link>https://eusouummonstro.substack.com/p/tres</link><guid isPermaLink="false">https://eusouummonstro.substack.com/p/tres</guid><dc:creator><![CDATA[Danda]]></dc:creator><pubDate>Mon, 02 Feb 2026 00:34:47 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Hzth!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff6e3daa8-f19e-4a8a-ad8a-5d7d2d529a33_1332x876.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Quando tinha dez anos, o ano era 2006. Acho que foi nessa &#233;poca que meu pai conseguiu nos comprar um computador daqueles grandes de mesa e monitor de tubo. Ele era branco e eu gostava do som que fazia quando ligava, me sentia como que engatando uma nave espacial. S&#243; muito mais tarde descobri em um v&#237;deo o som da propuls&#227;o de um foguete. Eu tinha tempo contado para utilizar a internet, que era discada, e acho que foi por volta dessa idade que pensei que poderia escrever um livro. Passava certos minutos do meu parco tempo no computador com um arquivo de word aberto criando um fr&#225;gil enredo que nunca chegou a mais de cinco p&#225;ginas e que hoje n&#227;o lembro nem vagamente do que se tratava. Gostava de brincar de vestir bonecas no site da Barbie e de colorir as imagens no site da turma da M&#244;nica. Gostava de abstra&#231;&#245;es art&#237;sticas onde pintava a pele da Magali de azul ou os dentes da M&#244;nica de vermelho vivo. Sempre fui afeita ao del&#237;rio da coisa.</p><p>Na minha segunda d&#233;cada, 2016, eu me formava em Teatro pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte e aprendia, mesmo sem saber, que certos erros n&#227;o se voltam atr&#225;s nunca. Ouvir o chamado da arte &#233; um erro eterno. Nesse ano escrevi 7 vers&#245;es de um tcc, aprendi que poderia estudar dramaturgia como &#225;rea de pesquisa e mais uma vez a escrita cruzava minha exist&#234;ncia, agora no campo da curiosidade epistemol&#243;gica. Ainda vestia bonecas nos jogos virtuais, enquanto lia Hamlet e Otelo e pensava que aquelas que eu criava em jogos de pixels poderiam ser felizes. Buscava uma salva&#231;&#227;o na ingenuidade.</p><p>Em 2026 completei tr&#234;s d&#233;cadas de exist&#234;ncia. Definitivamente como adulta. Acordei, tomei caf&#233; preto, sem p&#227;o, sem ovo, s&#243; caf&#233;. Dirigi-me ao trabalho. Dei duas aulas. A tarde tive compromissos na escola e a noite estava t&#227;o cansada que nem conseguia manter uma conversa com o homem que decidi compartilhar a vida. N&#227;o estou triste, mas dos 20 anos para os 30 muita coisa mudou e eu, que me sinto t&#227;o igual desde menina, quase n&#227;o me reconheci quando me olhei no espelho hoje. N&#227;o pelas marcas da idade, as linhas finas que come&#231;am a aparecer, os cabelos brancos aqui e acol&#225; no meio da cabe&#231;a imensa. &#201; algo debaixo da pele. Algo de alma.</p><p>Acho que me cansei tanto nos &#250;ltimos anos que agora quando olho no espelho vejo eu mesma tentando simular quem fui. N&#227;o por n&#227;o gostar de quem sou agora, mas por ainda n&#227;o ter descoberto quem posso ser. </p><p>Aos 30 a escrita tamb&#233;m passa minha d&#233;cada. Em forma de concretude: eis o nascimento de um livro muito breve. Um comprometimento com o eterno, mesmo que lido por uma pessoa, ele se p&#245;e no mundo com a possibilidade de viver na mem&#243;ria de algu&#233;m. Eu, que sempre me achei esquec&#237;vel, escrevo para vencer o apagamento do tempo, para afirmar, para mim mesma, que posso durar mais do que acredito (e acredito pouco, porque tenho quest&#245;es com a f&#233;).</p><p>Marque um tempo para olhar minhas vit&#243;rias e fracassos em tr&#234;s d&#233;cadas, eis uma pequena lista:</p><p>- ser reconhecida como dramaturga</p><p>- n&#227;o ser ainda o que imaginei que seria</p><p>- ainda desconhecer uma palavra que resuma o que sou</p><p>- ter a forma de um rinoceronte muitas vezes</p><p>- ter aprendido a ter menos medo de assumir a pr&#243;pria ignor&#226;ncia </p><p></p><p>No final, nem triste, nem feliz, nem poeta. Eu, cheia de falhas, com algumas parcas vit&#243;rias, sei me alegrar do que ainda posso ser. </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A sagração do sol]]></title><description><![CDATA[Ou sobre a passagem de Titina Medeiros pelo mundo.]]></description><link>https://eusouummonstro.substack.com/p/a-sagracao-do-sol</link><guid isPermaLink="false">https://eusouummonstro.substack.com/p/a-sagracao-do-sol</guid><dc:creator><![CDATA[Danda]]></dc:creator><pubDate>Mon, 12 Jan 2026 10:50:12 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Hzth!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff6e3daa8-f19e-4a8a-ad8a-5d7d2d529a33_1332x876.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Ontem, domingo (11 de janeiro de 2026), nos despedimos da imensa Titina Medeiros no palco do Teatro Alberto Maranh&#227;o. Nada mais justo que seu ato final fosse ali, no palco, onde ela tanto inventou mundos. Aplaudimos sua despedida, sua cena irretornavel, e naquele teatro, o maior da cidade, tudo parecia pequeno ante a imensid&#227;o dela.</p><p>No mesmo dia circulava nas redes sociais um v&#237;deo que eu falava sobre a frase de um historiador potiguar que dizia que &#8220;Natal n&#227;o consagra, nem desconsagra ningu&#233;m&#8221;. Diante de um teatro lotado num domingo a noite fez-se imensa a pequenez de C&#226;mara Cascudo ante ao legado de Titina.</p><p>Titina Medeiros, Izabel Cristina de Medeiros, parte para o eterno deixando um legado imenso. N&#227;o. N&#227;o estou falando de suas in&#250;meras pe&#231;as teatrais, seus trabalhos majestosos na televis&#227;o ou em filmes, estou falando de uma coisa que &#233; un&#226;nime entre os que conheceram-na mesmo que em um encontro: Titina deixa um legado de amor.</p><p>&#201; comum que quando algu&#233;m se parte s&#243; falemos das boas coisas daquele que partiu, mas com ela era diferente, em vida, o mosaico de mem&#243;rias formado por cada um que a conheceu s&#243; forma uma colcha de afeto.</p><p>H&#225;, em cada um que cruzou o caminho da Titina, o imenso legado de seu afeto. Sempre nas plateias para conhecer novos artistas, sempre consagrando os artistas da terra, sempre com uma palavra de motiva&#231;&#227;o, coragem, amor, sempre acreditando. Titina desafiada a m&#225;xima de Cascudo com a pr&#225;tica do afeto.</p><p>Titina, me despe&#231;o de voc&#234; na vida terrena, no para sempre voc&#234; vive em mim, porque nada mais transcende nessa vida que o amor. </p><p>Te amei primeiro na admira&#231;&#227;o, depois no afeto de uma amizade discreta. Te amo na admira&#231;&#227;o, te amo na coragem de acreditar nos artistas que n&#227;o s&#227;o nada ainda, mas que s&#243; voc&#234; via o brilho do que poderia ser.</p><p>O sol &#233; uma estrela imensa que oferece calor. Dizem que o sol vai durar 10 bilh&#245;es de anos, voc&#234; vai durar muito mais.</p><p>Seu legado, Titina, &#233; a gentileza. Eu n&#227;o estou nem perto de ser o que voc&#234; &#233;, mas me comprometo, em nome de tanto amor que te tenho e que voc&#234; espalhou, a continuar seu legado, para mim vai ser esfor&#231;o, para voc&#234; era banal: ser gentil com todo novo artista, porque cada um deles &#233; o futuro da arte. Essa imensa coisa que amamos e acreditamos. </p><p>Estou com saudades do que imaginei que viver&#237;amos, Titina, mas agora voc&#234; est&#225; no para sempre e no para sempre voc&#234; vai ser lembrada, at&#233; o fim dos tempos, se n&#227;o por nome, pelo seu legado de amor.</p><p>Amor, amor, amor, Tita, voc&#234; &#233; sol. </p><p>Aqueceu tanta gente. </p><p>Agora mesmo sinto seu calor s&#243; de lembrar.</p><p>Te admiro e te amo no eterno. </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Um amalgamado de existência]]></title><description><![CDATA[Daqui h&#225; um m&#234;s fa&#231;o trinta anos.]]></description><link>https://eusouummonstro.substack.com/p/um-amalgamado-de-existencia</link><guid isPermaLink="false">https://eusouummonstro.substack.com/p/um-amalgamado-de-existencia</guid><dc:creator><![CDATA[Danda]]></dc:creator><pubDate>Thu, 25 Dec 2025 23:03:03 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Hzth!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff6e3daa8-f19e-4a8a-ad8a-5d7d2d529a33_1332x876.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Daqui h&#225; um m&#234;s fa&#231;o trinta anos. N&#227;o me tornei s&#225;bia, nem financeiramente est&#225;vel. Nem emocionalmente equilibrada. Ainda tenho um pouco de medo do escuro e muito medo do abandono. Ficar sozinha &#233; um pesadelo que tenho desde os sete anos. Antes chorava todo domingo quando o <em>Fant&#225;stico</em> dizia que o mundo ia acabar. Hoje n&#227;o assisto ao <em>Fant&#225;stico</em>.  Durmo cedo. Todavia, continuo a chorar. E n&#227;o s&#243; aos domingos. Tenho me tornado cada vez menos parecida com meu pai. Antes &#233;ramos quase iguais. Hoje me sinto mais eu. Hoje me sinto quase pessoa completa. Penso muito na morte. Esse ano gostei de estar viva. Faz muitos anos que n&#227;o me sentia assim. N&#227;o me lembro da inf&#226;ncia com clareza. Muitas mem&#243;rias eu invento. Invento tantas coisas que por isso me tornei artista. Era isso ou era ser reconhecida como mentirosa. Ainda n&#227;o sou reconhecida por nada, mas espero que em breve isso mude. Tenho ainda muitos sonhos. Quase tantos que me assusto. Nunca me sonhei idosa. Penso que durarei pouco no mundo. Mas quase sempre me engano. Nunca me preparo para o que vai vir, mas sempre sofro de antecipa&#231;&#227;o. J&#225; tomei tantos rem&#233;dios nessa vida que acho que se empilhasse p&#237;lula em cima de p&#237;lula alcan&#231;aria o tamanho de um pequeno apartamento. Sempre que olho o c&#233;u, os fios atrapalham o rumo das nuvens e isso me deixa triste. Quando pensei em morrer, foi em frente a uma igreja. Foi escrever um livro que me salvou. Hoje me machuco menos que antes. Trope&#231;o menos na rua e tamb&#233;m fiz as pazes com parte de quem sou. Espero que aos trinta eu me orgulhe de ser eu. Aprendi recentemente que gosto de <em>Cosmopolitan</em>. Comecei a beber muito tarde. Penso que isso me livrou do v&#237;cio. Tenho obsess&#227;o na ideia de ser melhor. Ser artista e ser quem sou &#233; um amalgamado de exist&#234;ncia. Sou mais gentil com os outros que comigo. Perdoo com facilidade. &#201; um pouco de falta de amor pr&#243;prio, mas como um todo me faz bem. Nunca quis ser m&#227;e, mas tenho voca&#231;&#227;o para o papel de tia. Gosto do cheiro de beb&#234;s. J&#225; li tantos livros que me falta a conta. Ainda assim, pouco sei. Acredito no paradoxo da ignor&#226;ncia. Acredito em cartas de tarot. Acredito em signos. E em palavras de amor. Desconfio de elogios. E pouco me ofendo com ofensas. Gosto de escrever envolvendo animais, porque os julgo mais honestos. Se eu fosse um bicho, eu seria um c&#227;o.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Um adeus a Teuda Bara.]]></title><description><![CDATA[Hoje morreu Teuda Bara, uma das fundadoras do Grupo Galp&#227;o de Teatro (MG).]]></description><link>https://eusouummonstro.substack.com/p/um-adeus-a-teuda-bara</link><guid isPermaLink="false">https://eusouummonstro.substack.com/p/um-adeus-a-teuda-bara</guid><dc:creator><![CDATA[Danda]]></dc:creator><pubDate>Thu, 25 Dec 2025 22:30:59 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Hzth!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff6e3daa8-f19e-4a8a-ad8a-5d7d2d529a33_1332x876.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Hoje morreu Teuda Bara, uma das fundadoras do Grupo Galp&#227;o de Teatro (MG). Vi Teuda em cena apenas uma vez, no espet&#225;culo N&#211;S. Chorei em cena quando ela fazia o mon&#243;logo envolta em lama. Teuda tinha algo de tit&#226;nico, de imortal. Uma mulher grande, antiga, mas ainda assim forte como o coliseu. </p><p>Vi que ela faria anivers&#225;rio dia primeiro de Janeiro. Faria 85 anos. Oitenta e cinco. Coisa que para uma imortal, como ela, ainda era cedo na vida. 1 de Janeiro &#233; tamb&#233;m o dia do anivers&#225;rio de minha m&#227;e. &#201; data de quem inaugura o mundo. Hoje Teuda inaugura a eternidade. Que bonito, que em algum lugar do incerto do p&#243;s vida, h&#225; um palco para receber-la. Espero que agora no infinito fa&#231;a-se festa.</p><p>Teuda &#233; nome imortal no teatro e se findar da vida no fim do ano &#233; coisa de estrela, morrer no dia de Natal &#233; para quem n&#227;o tem medo de ser ofuscada. Jantaremos com a sua falta, Teuda. Em todo teatro do Brasil, agora, sua presen&#231;a faz eco. </p><p>Tenho 29 anos e quase deixei de acreditar no teatro muitas vezes. V&#234;-la em cena no N&#211;S reacendeu em mim a cren&#231;a na possibilidade da vida na arte. </p><p>Hoje, com sua partida, prometo escrever uma cena. </p><p>O teatro h&#225; de se refazer para sempre te reinventar.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Estamos muito cansados para sermos felizes]]></title><description><![CDATA[Rotina matinal: Acorda 6h, toma banho, prepara o caf&#233;, desjejua um caf&#233; da manh&#227; parco, levanta-se, vai para o trabalho.]]></description><link>https://eusouummonstro.substack.com/p/estamos-muito-cansados-para-sermos</link><guid isPermaLink="false">https://eusouummonstro.substack.com/p/estamos-muito-cansados-para-sermos</guid><dc:creator><![CDATA[Danda]]></dc:creator><pubDate>Sun, 27 Jul 2025 12:59:59 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Hzth!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff6e3daa8-f19e-4a8a-ad8a-5d7d2d529a33_1332x876.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Rotina matinal: Acorda 6h, toma banho, prepara o caf&#233;, desjejua um caf&#233; da manh&#227; parco, levanta-se, vai para o trabalho. Sete horas j&#225; &#233; hora de labuta. Ao menos cinco problemas para resolver antes do meio-dia. Quando menos, problemas mais complexos. Estuda, v&#234; as redes sociais, sente-se deixado para tr&#225;s na vida. Todos os seus conhecidos pr&#237;ncipes na vida, e voc&#234;: rel&#233;s, tosco, vil. Voc&#234;, invejoso, cansado. Voc&#234;, mal pago.</p><p>Hora do almo&#231;o, almo&#231;as tarde, porque perdeu a hora nos afazeres. Marmita fria requentada num microondas de uma d&#233;cada. Ou ent&#227;o um almo&#231;o comprado no Ifood por um pre&#231;o exorbitante pela m&#237;nima parcela de prote&#237;na. Muito arroz para pouca carne. Verduras mal dormidas do dia anterior. E comes. </p><p>Pensas em descansar, os problemas te assolam a cabe&#231;a. Tens uma hora para comer e lembrar-se que &#233; gente. Gente. Bicho humano com fome de ser feliz. N&#227;o lembras. Pensas nas contas a pagar, no valor do plano de sa&#250;de, no futuro sempre pr&#243;ximo. Sentes uma breve ang&#250;stia sobre a vida.</p><p>Voltas ao trabalho, te delegam mais tr&#234;s fun&#231;&#245;es. Tens de lidar com gente, bicho humano bruto, cansado como tu, ferido, como tu. Morres um pouco sem sentir. Faz parte da burocracia.</p><p>A cada dia &#233;s menos a crian&#231;a que um dia foi e j&#225; n&#227;o se lembras de quando sonhava com baleias pequenas.</p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Sobre o novo ofício da arte]]></title><description><![CDATA[&#201; certo que o of&#237;cio da arte &#233; demasiado cansativo, uma viv&#234;ncia sisifica, carregar pedra acima todo dia e dar-se sempre por disposto a fazer isso novamente amanh&#227;.]]></description><link>https://eusouummonstro.substack.com/p/sobre-o-novo-oficio-da-arte</link><guid isPermaLink="false">https://eusouummonstro.substack.com/p/sobre-o-novo-oficio-da-arte</guid><dc:creator><![CDATA[Danda]]></dc:creator><pubDate>Sat, 12 Jul 2025 12:21:25 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Hzth!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff6e3daa8-f19e-4a8a-ad8a-5d7d2d529a33_1332x876.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>&#201; certo que o of&#237;cio da arte &#233; demasiado cansativo, uma viv&#234;ncia sisifica, carregar pedra acima todo dia e dar-se sempre por disposto a fazer isso novamente amanh&#227;. O artista &#233; o sisifio contempor&#226;neo.</p><p>Todavia, al&#233;m do of&#237;cio de fazer a arte e traz&#234;-la montanha acima para que ela seja apreciada pelo p&#250;blico, o artista tem uma dupla fun&#231;&#227;o: midiar a pr&#243;pria arte. Envolv&#234;-la numa embalagem que a torne atraente e palat&#225;vel ao p&#250;blico numa era de hiper produ&#231;&#227;o.</p><p>Mais do que fazer uma arte interessante o artista parece ter de criar uma arte que PARE&#199;A interessante. N&#227;o importa muito o qu&#227;o boa seja sua arte, mas importa mais sua capacidade de faz&#234;-la parecer atrativa.</p><p>Ser publicit&#225;rio de si mesmo parece ser um requisito para ser artista e quem n&#227;o sabe se vender como produto, por mais interessante que seja a arte que produz, parece ficar para tr&#225;s nessa l&#243;gica da hiper midiatiza&#231;&#227;o.</p><p>O artista produz obras para o mundo, para o contato com o mundo. E o mundo est&#225; acostumado a uma l&#243;gica de entrega de conte&#250;do e n&#227;o de arte, o que leva muitos artistas a desistiderem, desanimarem ou buscarem outros empregos que n&#227;o o of&#237;cio da arte. Estamos perdendo artistas para outros ramos de trabalhos porque estamos acostumados a consumir conte&#250;dos e n&#227;o obras.</p><p>N&#227;o ponho aqui a responsabilidade toda no p&#250;blico, posto que este &#233; um sintoma do esp&#237;rito do nosso tempo. Mas convido os amantes da arte a consumirem artistas independentes antes deles serem cooptados a profiss&#245;es formais, convido produtores e organizadores de eventos a incluirem artistas menores em suas programa&#231;&#245;es.</p><p>E aos artistas, deixo o questionamento: quanto podemos ceder nessa queda de bra&#231;o com a necessidade de nos midiatizarmos sem quebrarmos as m&#227;os?</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Tratado sobre vida]]></title><description><![CDATA[Escrevo para me manter viva.]]></description><link>https://eusouummonstro.substack.com/p/tratado-sobre-vida</link><guid isPermaLink="false">https://eusouummonstro.substack.com/p/tratado-sobre-vida</guid><dc:creator><![CDATA[Danda]]></dc:creator><pubDate>Thu, 03 Jul 2025 11:30:27 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Hzth!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff6e3daa8-f19e-4a8a-ad8a-5d7d2d529a33_1332x876.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Escrevo para me manter viva. N&#227;o &#233; exagero po&#233;tico, &#233; constata&#231;&#227;o pura. Escrevo para me manter viva, porque quando n&#227;o escrevo, n&#227;o elaboro sentido para a vida e quando come&#231;am a me escapar as palavras &#233; mais ou menos o tempo que come&#231;a a me escapar o tes&#227;o da vida. Tes&#227;o, como for&#231;a de vida, criadora, potente de vontade e querer. Escrevo para n&#227;o deixar meus instintos de morte, que s&#227;o muitos, posto que sou humana e n&#227;o tenho natureza, vencerem a cria&#231;&#227;o. </p><p>Foucault disse em um entrevista:</p><blockquote><p>De fato, eu tenho dificuldade em ter a experie&#770;ncia do prazer. O prazer me parece ser de um controle muito difi&#769;cil. Isso na&#771;o e&#769; ta&#771;o simples como usufruir das coisas. Eu devo confessar que e&#769; meu sonho. Eu gostaria e espero morrer de overdose de prazer, qualquer que seja. Porque eu penso que e&#769; muito difi&#769;cil, e tenho sempre a impressa&#771;o de na&#771;o experimentar o verdadeiro prazer, o prazer completo e total; o prazer para mim esta&#769; ligado a&#768; morte.</p></blockquote><p>Experimento criar para provar do prazer, o absoluto prazer que deveria sentir Deus no momento da cria&#231;&#227;o, onde tudo era poss&#237;vel, onde todas as coisas eram prenhes de possibilidades e pass&#237;veis de morte. Tudo, na cria&#231;&#227;o, acontece no tempo-espa&#231;o do imposs&#237;vel, onde vida e morte se misturam, se unem e se colidem. Escrevo para morrer do prazer imenso de vida que a cria&#231;&#227;o carrega. </p><p>Excessivamente escrevo sobre o of&#237;cio de escrever, estes s&#227;o meus tratados de vida. Desvendo neles como continuo existindo apesar de tudo, apesar da falta de sentido que parece a vida, apesar da falta de esperan&#231;as que parece acometer meu pa&#237;s, apesar da mis&#233;ria cultural que assola meu estado, apesar de tudo, continuo escrevendo, porque continuo querendo estar viva.</p><p>Quando cessar de escrever, quando cessar minha gana pelas palavras, &#233; porque nada mais vai restar a ser dito. O sil&#234;ncio, o perempt&#243;rio sil&#234;ncio, &#233; o mesmo que a morte.</p><p>Escrevamos para criar um novo mundo, novas possibilidades, novos imagin&#225;rios do que &#233; ser humano, do que &#233; estar e viver no mundo, de como se portar, de como engendrar pensamentos na delicada tessitura social, onde um texto &#233; um ponto.</p><p>Cada palavras dita &#233; um desejo, que sejamos ent&#227;o desejosos. E n&#227;o nos falte coragem para por no mundo nossas palavras. </p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Simpatias para o amor]]></title><description><![CDATA[Abrir bem o cora&#231;&#227;o na inten&#231;&#227;o de caber uma pessoa sem aperto]]></description><link>https://eusouummonstro.substack.com/p/simpatias-para-o-amor</link><guid isPermaLink="false">https://eusouummonstro.substack.com/p/simpatias-para-o-amor</guid><dc:creator><![CDATA[Danda]]></dc:creator><pubDate>Thu, 12 Jun 2025 11:37:58 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Hzth!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff6e3daa8-f19e-4a8a-ad8a-5d7d2d529a33_1332x876.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<ol><li><p>Abrir bem o cora&#231;&#227;o na inten&#231;&#227;o de caber uma pessoa sem aperto</p></li><li><p>Escrever o nome do amor em todo gesto cotidiano</p></li><li><p>Amar grande toda oportunidade de amor breve</p></li><li><p>Alargar o instante como quem dilata a pupila</p></li><li><p>Toda vez que trope&#231;ar no caminho de ser amado, voltar tr&#234;s passos e refazer o caminho diferente</p></li><li><p>Ler Neruda e Hilda Hilst antes do caf&#233; da manh&#227;</p></li><li><p>Jejuar de m&#225;goas por tr&#234;s dias, at&#233; passar a fome de rancor</p></li><li><p>Guardar o passado numa caixa bonita (envelop&#225;-la com papel florido)</p></li><li><p>Todo dia preparar-se para o milagre</p></li><li><p>Andar distra&#237;do da tarefa de encontrar o amor, mas se esbarrar-se delicadamente com algo fino, estar atento para a sutileza, pode ser que seja delicado o amor.</p></li></ol>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Porque hoje é sexta]]></title><description><![CDATA[Porque hoje &#233; sexta e h&#225; o cansa&#231;o da semana acumulado, o peso das coisas deixadas por fazer, os compromissos remarcados que deveriam ter acontecido sem atraso, as tarefas inacabadas, as reuni&#245;es marcadas em hor&#225;rios inoportunos.]]></description><link>https://eusouummonstro.substack.com/p/porque-hoje-e-sexta</link><guid isPermaLink="false">https://eusouummonstro.substack.com/p/porque-hoje-e-sexta</guid><dc:creator><![CDATA[Danda]]></dc:creator><pubDate>Fri, 06 Jun 2025 11:50:34 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Hzth!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff6e3daa8-f19e-4a8a-ad8a-5d7d2d529a33_1332x876.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Porque hoje &#233; sexta e h&#225; o cansa&#231;o da semana acumulado, o peso das coisas deixadas por fazer, os compromissos remarcados que deveriam ter acontecido sem atraso, as tarefas inacabadas, as reuni&#245;es marcadas em hor&#225;rios inoportunos. Porque hoje &#233; sexta e h&#225; o acumulo do estresse da semana e uma vontade imensa de deitar na cama e dormir.</p><p>Porque hoje &#233; sexta e amanh&#227; &#233; s&#225;bado e h&#225; essa ideia do dia sem fim, a perspectiva de ser feliz e festejar a vida, porque embora sexta e embora estressados, o fim de semana se levanta sob n&#243;s dando a perspectiva de dois dias infinitos de descanso ou de vida. </p><p>Porque hoje &#233; sexta e h&#225; a obriga&#231;&#227;o de ser feliz, posto que a semana acabou e com ela fizemos o que deu, o que podemos e se pudemos pouco, tudo bem, pr&#243;xima semana podemos recompensar, como s&#237;sifos levando pedra acima, mas com o descanso de um final de semana. </p><p>Porque hoje &#233; sexta e os bares estar&#227;o cheios e voc&#234; s&#243; queria pedir uma cerveja gelada e um petisco quente, mas tem de enfrentar o tempo e a aten&#231;&#227;o dos gar&#231;ons. Porque hoje &#233; sexta e voc&#234; provavelmente s&#243; vai dormir amanh&#227;, porque na sexta temos a obriga&#231;&#227;o de sermos felizes.</p><p>Porque hoje &#233; sexta e voc&#234; resolve fazer diferente. Sa&#237; mais cedo do servi&#231;o, pega uma condu&#231;&#227;o ainda n&#227;o lotada, chega em casa, estica as pernas, toma um banho frio para despertar o corpo, faz uma massa quente e aproveita a pr&#243;pria companhia. Abre um vinho barato, pensa que se Deus existe, ele est&#225; ali aproveitando, coloca Gal para tocar no Spotify (n&#227;o temos mais a delicadeza dos vinis). Dan&#231;a. Sua dan&#231;a &#233; interrompida por um an&#250;ncio de que voc&#234; est&#225; aproveitando a experi&#234;ncia gratuita do aplicativo. Voc&#234; n&#227;o se zanga. Hoje &#233; sexta. Temos a obriga&#231;&#227;o de ser feliz. </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[1500]]></title><description><![CDATA[Quando viram a terra pela primeira vez,]]></description><link>https://eusouummonstro.substack.com/p/1500</link><guid isPermaLink="false">https://eusouummonstro.substack.com/p/1500</guid><dc:creator><![CDATA[Danda]]></dc:creator><pubDate>Thu, 29 May 2025 12:30:00 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Hzth!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff6e3daa8-f19e-4a8a-ad8a-5d7d2d529a33_1332x876.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Quando viram a terra pela primeira vez, </p><p>depois de 44 dias ao mar, </p><p>os homens pensaram ver o para&#237;so.</p><p>Avistaram uma costa coberta de verdes &#225;rvores,</p><p>o imenso mar azul se encontrando em areia branca,</p><p>o cheiro de terra e maresia misturados no ar.</p><p></p><p>Os portugueses, doentes e sedentos de terra firme</p><p>babaram sob a nau sonhando com os p&#233;s firmes no ch&#227;o.</p><p></p><p>Na areia, os povos nativos sem conseguir ver o navio,</p><p>porque n&#227;o sabiam enxergar aquela massa de madeira e velas,</p><p>porque n&#227;o tinham refer&#234;ncia para aludir a imagina&#231;&#227;o.</p><p></p><p>Portugueses e ind&#237;genas experienciando uma esp&#233;cie de milagre.</p><p>Estes presenciando o in&#237;cio de uma dizima&#231;&#227;o sem saber,</p><p>aqueles experienciando o poder dos homens doentes. </p><p></p><p>Eles, os brancos, trocando espelhos por vida,</p><p>os ind&#237;genas se vendo pela primeira vez</p><p>sem conseguir prever seu exterm&#237;nio.</p><p></p><p>Quando se olha muito para si mesmo</p><p>pouco se prev&#234; do futuro.</p><p>O ensimesmamento leva a cegueira.</p><p></p><p>A mata, silenciosa, j&#225; sabia,</p><p>pela comunica&#231;&#227;o das ra&#237;zes,</p><p>que o fim estava se aproximando.</p><p>Foi a primeira &#225;rvore cortada que contou.</p><p></p><p>O jambeiro de minha rua sabe da dizima&#231;&#227;o do meu pa&#237;s</p><p>pela comunica&#231;&#227;o secreta das &#225;rvores,</p><p>que contam lendas de gera&#231;&#227;o</p><p>para gera&#231;&#227;o</p><p>e n&#227;o deixam esquecer. </p><p></p><p>O Brasil foi tomado de assalto.</p><p></p><p></p>]]></content:encoded></item></channel></rss>