<script data-pm-proxy="intercept"></script><?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Girls Up World]]></title><description><![CDATA[Estudar o mundo é um ato de rebeldia feminina!]]></description><link>https://girlsupworld.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Zsol!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe6afe003-aad0-43e0-9ee3-d1eb3569e098_489x489.png</url><title>Girls Up World</title><link>https://girlsupworld.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Tue, 01 Sep 2026 18:42:02 GMT</lastBuildDate><atom:link href="/__u/girlsupworld.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Girls Up World]]></copyright><language><![CDATA[pt]]></language><webMaster><![CDATA[girlsupworld@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[girlsupworld@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Girls Up World]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Girls Up World]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[girlsupworld@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[girlsupworld@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Girls Up World]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[Natureza, Biodiversidade e… Cocaína?]]></title><description><![CDATA[A Floresta Amaz&#244;nica como centro de distribui&#231;&#227;o mundial do narcotr&#225;fico.]]></description><link>https://girlsupworld.substack.com/p/natureza-biodiversidade-e-cocaina</link><guid isPermaLink="false">https://girlsupworld.substack.com/p/natureza-biodiversidade-e-cocaina</guid><dc:creator><![CDATA[Girls Up World]]></dc:creator><pubDate>Fri, 07 Aug 2026 17:52:03 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/5b4aed07-dac2-4dd3-8326-279c8370bb36_1024x575.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>Muitos de n&#243;s somos alheios ao quanto a geografia de um territ&#243;rio pode ser determinante para sua economia. Seus rios, suas montanhas, suas fronteiras e at&#233; mesmo a dist&#226;ncia entre duas cidades importantes significam muito mais do que o que conseguimos perceber em um mapa. Em um mundo globalizado, as mercadorias precisam de caminhos para circular, as pessoas precisam de meios para se deslocar e os mercados, de conex&#245;es para existir. &#201; assim com tudo o que &#233; comercializado, com tudo que &#233; capitalizado e rent&#225;vel. A log&#237;stica que precisa existir para que um pacote chegue &#224;s m&#227;os de quem o consome, muitas das vezes &#233; algo que n&#227;o nos interessamos, mas &#233; observando esse caminho que nos damos conta da dimens&#227;o do sistema que estamos analisando.</span></p><p><span>Existe gente trabalhando o tempo todo para que chegue comida nos super-mercados. Existem centenas de cabos submarinos de fibra-&#243;ptica no oceano para que voc&#234; tenha internet na sua casa. E, por mais que pare&#231;a bobo, os vinte reais de frete que voc&#234; paga em uma lojinha online s&#227;o dias de deslocamento de um produto que passou pelas m&#227;os de muitas pessoas antes de chegar em voc&#234;. Essa necessidade de trajeto, de escoamento e de rotas n&#227;o some quando o mercado &#233; ilegal. Muit&#237;ssimo pelo contrario: ela multiplica. Ela precisa de uma rede complexa de pontos estrat&#233;gicos, pessoas trabalhando em conjunto e, principalmente, de esconderijo para tudo isso. </span></p><p><span>Quando a geografia &#233; aliada &#8212; ou simplesmente &#250;til &#8212; para o tr&#225;fico, muitas l&#243;gicas podem se inverter. O caminho mais trabalhoso pode ser o mais protegido; o caminho mais comum &#233; perigoso pelo risco que oferece. Mas se esses criminosos realmente tivessem medo de perigo, n&#227;o estariam aonde est&#227;o. Hoje voc&#234;s ir&#227;o entender como contrabandos entram e saem todos os dias do nosso pa&#237;s com a ajuda de uma da maior riqueza que o territ&#243;rio brasileiro compartilha com seus vizinhos latinos &#8212; nossa Amazonia &#8212; e todo o trajeto que eles levam para chegar ao resto do mundo.</span></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://girlsupworld.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/girlsupworld.substack.com/subscribe"><span>Subscreva agora</span></a></p><p><strong>A Hist&#243;ria da Coca&#237;na e a Produ&#231;&#227;o nos Pa&#237;ses Andinos </strong></p><p>Para entender como o que costum&#225;vamos chamar de &#8220;pulm&#227;o do mundo&#8221; se tornou uma das vias clandestinas mais essenciais para tr&#225;fico internacional, precisamos come&#231;ar por onde as drogas come&#231;am. Segundo o Escrit&#243;rio das Na&#231;&#245;es Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), tr&#234;s pa&#237;ses concentram quase 100% da produ&#231;&#227;o global de coca&#237;na: Colombia, Bol&#237;via e Per&#250;. O monop&#243;lio andino no cultivo das folhas de coca vem de uma hist&#243;ria que come&#231;ou muito antes do chamado <em>Cocaine Boom</em> da d&#233;cada de 70 &#8212; avalanche na produ&#231;&#227;o, consumo e capitaliza&#231;&#227;o da droga &#8212;, tendo ra&#237;zes que envolvem tradi&#231;&#245;es e saberes de um povo milenar. </p><p>Antes de ser commoditie do tr&#225;fico, a folha de coca era um elemento medicinal e sagrado para as civiliza&#231;&#245;es pr&#233;-colombianas, vista como um presente divino de Pachamama (M&#227;e-Terra) e do deus Sol. No imp&#233;rio Inca (1438-1533), a planta possu&#237;a at&#233; mesmo uma alcunha sagrada, sendo chamada de <em><a href="https://ahistoriadasplantas.com.br/coca/">Mama Coca</a></em> e utilizada pelos nativos de diversas formas diferentes: para inibir a fome e a sede, permitindo jornadas de trabalho mais longas; mitigar a fadiga, ajudando mensageiros a percorrerem distancias mais longas pelas montanhas e servindo tamb&#233;m para aliviar a falta de oxig&#234;nio que a vida em extremas altitudes ocasionava. Lembrando sempre que a forma como estes nativos consumiam a planta &#8212; e alguns povos ind&#237;genas ainda consomem &#8212; era pela mastiga&#231;&#227;o da folha, e n&#227;o pelo produto de um processo qu&#237;mico t&#227;o pesado e nocivo quanto &#233; a coca&#237;na que conhecemos hoje. </p><p>O processo que resulta no p&#243; funciona mais ou menos dessa forma: milhares de folhas secas s&#227;o colocadas em tanques, e os produtores adicionam substancias capazes de quebrar as fibras da planta (costumam utilizar cimento, calc&#225;rio ou am&#244;nia) para que elas liberem seus alcanoides &#8212; essas substancias que determinadas plantas possuem e que s&#227;o capazes de gerar efeitos muito potentes no nosso sistema nervoso. Em seguida, &#233; adicionado algum solvente org&#226;nico forte (gasolina, querosene, &#243;leo diesel&#8230;) e a mistura &#233; pisada por horas para extrair o &#243;leo da planta. O l&#237;quido que sobra &#233; filtrado e tratado com &#225;cido sulf&#250;rico, gerando uma massa &#250;mida, pastosa e acizentada, a pasta-base da coca&#237;na. Essa pasta passa por uma purifica&#231;&#227;o e, posteriormente, &#233; dissolvida em novos solventes e misturada com novos &#225;cidos, e a rea&#231;&#227;o qu&#237;mica faz com que o alcanoide se cristalize e se desprenda de impurezas brutas. Ap&#243;s ser seco e triturado, o cloridrato de coca&#237;na est&#225; feito, pronto para tornar qualquer usu&#225;rio fortemente dependente. </p><p>Os primeiros a fazerem isso com a planta foram europeus do s&#233;culo XIX, quando entraram em contato com ela por meio da coloniza&#231;&#227;o das Am&#233;ricas. O qu&#237;mico alem&#227;o que conseguiu isolar o alcanoide pela primeira vez chamava-se Frederich Gaedcke, e, como voc&#234;s podem imaginar, ele n&#227;o tinha a inten&#231;&#227;o de criar uma droga. A coca&#237;na foi o primeiro analg&#233;sico local da hist&#243;ria da medicina. <span>Antes de seu refino, as cirurgias feitas nos olhos, dentes ou amputa&#231;&#245;es eram realizadas com o paciente acordado ou sob efeito de anestesias gerais que ofereciam risco. Em 1884, o oftalmologista austr&#237;aco Carl Koller (amigo de Sigmund Freud, inclusive) usou a coca&#237;na em cirurgias oculares e provou que era poss&#237;vel operar um olho humano sem que o paciente sentisse absolutamente nada. </span></p><p><span>E, nesta primeira etapa, o mercado da coca&#237;na era totalmente legal, industrializado e visto como uma revolu&#231;&#227;o na medicina. Grandes laborat&#243;rios importavam toneladas de folhas de coca do Peru e da Bol&#237;via de forma legal para refinar o p&#243;, e isso abriu espa&#231;o para uma grande produ&#231;&#227;o nos pa&#237;ses andinos. Aconselhada por m&#233;dicos, aprimorada por estudiosos e vista com quase o mesmo deslumbre que os incas a viam s&#233;culos antes, a subst&#226;ncia era vendida livremente em qualquer farm&#225;cia. Ela fazia parte de medicamentos, pastilhas para dor infantil, cigarros e bebidas famosas (como a Coca-Cola, que tamb&#233;m continha a substancia em sua f&#243;rmula original). Contudo, os pr&#243;ximos cap&#237;tulos dessa novela n&#227;o s&#227;o nenhum spoiler: os governos come&#231;aram a notar as altas taxas de depend&#234;ncia, surtos psic&#243;ticos e mortes por overdose. </span></p><p><span>Ap&#243;s novos estudos e debates que revelavam o qu&#227;o perigosa era essa substancia, seu uso foi gradualmente proibido nos Estados Unidos, no Brasil, no mundo todo. Em 1961 foi realizada a Conven&#231;&#227;o &#218;nica sobre Entorpecentes da ONU, que a baniu globalmente, mas o estrago j&#225; havia sido feito. As planta&#231;&#245;es j&#225; existiam, a demanda era crescente e o dinheiro era muito. Logo os neg&#243;cios clandestinos informais que se formaram &#8212; naturais de existirem p&#243;s qualquer proibi&#231;&#227;o &#8212; se tornaram uma industria criminosa bilion&#225;ria. O processo de produ&#231;&#227;o do cloridrato de coca&#237;na saiu dos laborat&#243;rios da Europa e foi recriado de forma mais humilde no meio das florestas sul-americanas. Cart&#233;is se formaram, a demanda por abstin&#234;ncia em todo o mundo cresceu e o mercado, que j&#225; possu&#237;a toda a log&#237;stica que precisava para existir, apenas teve que adaptar-se &#225; ilegalidade. N&#227;o pensem que isso n&#227;o faz parte do capitalismo. </span></p><p><span>Diante do status-quo das &#250;ltimas d&#233;cadas, o mercado ilegal do narcotr&#225;fico naturalmente teria de se reinventar para manter-se de p&#233;. A repress&#227;o intensa da &#8220;Guerra &#224;s Drogas&#8221; como acontecimento pol&#237;tico fez com que os governos bloqueassem cada vez mais as rotas a&#233;reas e mar&#237;timas tradicionais. O que conseguiu, sim, estrangular a log&#237;stica do crime, mas n&#227;o foi o bastante para sufoca-la. As opera&#231;&#245;es precisavam buscar novas rotas de passagem para o contrabando, e n&#227;o havia lugar melhor para isso do que a bacia amaz&#244;nica &#8212; e, obviamente, sua fronteira com o Brasil.</span></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://girlsupworld.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/girlsupworld.substack.com/subscribe"><span>Subscreva agora</span></a></p><p><strong>A Passagem pela Amazonia, as Fac&#231;&#245;es Criminosas Brasileiras e o Trajeto At&#233; o Norte</strong></p><p><span>Para atravessar a floresta as principais vias s&#227;o fluviais. S&#227;o dezesseis corredores hidrogr&#225;ficos que formam uma rede de rios complexa e &#250;til para o crime organizado. At&#233; porque, em 2004, o </span>Estado brasileiro oficializou o combate definitivo aos voos clandestinos ao regulamentar a chamada &#8220;Lei do Abate&#8221; por meio do <a href="http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2004/decreto/D5144.htm"><span>Decreto Federal n&#186; 5.144/200</span></a><span>4</span>. Essa medida estabeleceu os crit&#233;rios legais e operacionais para que a <span>For&#231;a A&#233;rea Brasileira (FAB)</span> pudesse interceptar ou at&#233; derrubar aeronaves civis suspeitas de tr&#225;fico de drogas que invadissem o espa&#231;o a&#233;reo nacional. Isso praticamente fez daqueles rios rodovias obrigat&#243;rias para o tr&#225;fico transamaz&#244;nico, exigindo mais pessoas e recursos para sua log&#237;stica e atraindo aten&#231;&#227;o para seus arredores: as cidades ribeirinhas.</p><p>As comunidades interioranas da Floresta Amaz&#244;nica, agora vistas como rota do narcotr&#225;fico, sofreram com um aumento &#8220;incomum&#8221; em &#237;ndices de viol&#234;ncia e homic&#237;dios nas &#250;ltimas d&#233;cadas. Enquanto o Brasil estabilizava ou reduzia suas taxas de assassinatos, as pequenas cidades da Amaz&#244;nia Legal atingiram patamares cr&#237;ticos. O <span>F&#243;rum Brasileiro de Seguran&#231;a P&#250;blica</span> registrou uma taxa regional de <a href="https://fontesegura.forumseguranca.org.br/mortes-violentas-intencionais-na-amazonia-legal/">27,3 assassinatos por 100 mil habitantes, um &#237;ndice 31% superior &#224; m&#233;dia nacional</a>, e a esmagadora maioria desses homic&#237;dios &#233; associada a entrada do tr&#225;fico. Isso, al&#233;m de trazer seus integrantes para a regi&#227;o, faz com que muitos ribeirinhos locais participem do esquema. O dinheiro da coca&#237;na e de seus derivados j&#225; &#233; muito e, quando acrescentado aos pre&#231;os de importa&#231;&#227;o e dependendo de onde est&#225; o consumidor final, ele multiplica. </p><p>O quilo da coca&#237;na vale entorno de 1.000 &#225; 2.000 d&#243;lares na tr&#237;plice fronteira amaz&#244;nica. Quando este mesmo quilo chega em Manaus, sobe para os $10.000,00. E ap&#243;s percorrer o trajeto que o leva &#225; Europa &#8212; e passar pelas m&#227;os famintas de diversas outras pessoas e organiza&#231;&#245;es &#8212; o valor ultrapassa facilmente os 50.000 d&#243;lares. Todos os envolvidos ganham uma fatia dessa exporta&#231;&#227;o. Barcos de transporte de passageiros ou lanchas potentes (conhecidas na regi&#227;o como <em>ratt&#245;es</em>) cruzam diariamente rios amazonicos, transportando centenas de quilos de cloridrato de coca&#237;na, estejam eles escondidos em algum fundo falso, submersos em ton&#233;is imperme&#225;veis amarrados sob a embarca&#231;&#227;o ou misturados &#225; cargas leg&#237;timas de madeira, peixes ou a&#231;a&#237;. As vezes sem o pr&#243;prio propriet&#225;rio ter conhecimento do contrabando. </p><p>Para encarar o c&#233;u amaz&#244;nico nos &#250;ltimos tempos tem sido preciso ainda mais cautela. <span>Os pilotos voam a menos de 30 ou 50 metros do ch&#227;o, acompanhando &#225; altura das &#225;rvores para impedir que as ondas dos radares terrestres do Sistema de Vigil&#226;ncia da Amaz&#244;nia (SIVAM) detectem a aeronave, pois dessa forma o sinal se choca contra a vegeta&#231;&#227;o e o relevo. </span>Os criminosos conseguem esconder as cargas nas copas das &#225;rvores, em meio &#225; folhagens ou at&#233; mesmo dentro de seu tronco. Fazem isso de maneiras impressionantes: <a href="https://g1.globo.com/ms/mato-grosso-do-sul/noticia/2026/06/22/entenda-como-esquema-internacional-usava-madeira-para-esconder-cocaina-carga-pode-ser-a-maior-da-historia-do-brasil.ghtml"><span>dissolvendo a coca&#237;na </span></a><span>e injetando-a nas &#225;rvores em sua forma l&#237;quida, ou &#8212; de um modo menos sofisticado &#8212; armazenando a droga em tabletes ou pacotes dentro de troncos ocos. </span>Isso &#233; camuflagem de guerra. Existem at&#233; mesmo pistas de pouso fantasmas, que aparecem para receber um avi&#227;o e somem assim que ele retorna. Isso provavelmente acontece porque o trajeto a&#233;reo, por mais que trabalhoso, compensa pela velocidade em rela&#231;&#227;o ao fluvial. Em uma ou duas horas um pequeno avi&#227;o vindo dos Andes chega aqui e volta na mesma madrugada. </p><p>Toda a rota desagua em estados com localidades estrat&#233;gicas, como Par&#225;, Acre, Rond&#244;nia e, principalmente, o estado do Amazonas e sua capital. Manaus, a cidade que existe por causa do rio, estrategicamente posicionada onde o Rio Solim&#245;es (que vem da fronteira com a Colombia e o Peru) encontra o Rio Negro. Praticamente toda a droga que sa&#237; dos pa&#237;ses andinos faz um trajeto que desagua em Manaus, especificamente em munic&#237;pios chaves como Tabatinga. Por sua import&#226;ncia geogr&#225;fica, o estado do Amazonas e seus munic&#237;pios tem testemunhado algumas das disputas mais sanguin&#225;rias entre as fac&#231;&#245;es criminosas do Brasil. O Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), as duas maiores organiza&#231;&#245;es narcotraficantes do pa&#237;s, travam uma guerra pelo monop&#243;lio da regi&#227;o norte h&#225; anos, e este &#233; o principal motivo da viol&#234;ncia. </p><p>Diferentemente do estado de S&#227;o Paulo, por exemplo, que est&#225; inteiramente sob o dom&#237;nio do PCC, o resto do Brasil &#8212; principalmente as regi&#245;es fronteiri&#231;as &#8212; est&#227;o quase sempre sob disputa. O n&#250;mero de mortes em fun&#231;&#227;o do tr&#225;fico em S&#227;o Paulo hoje &#233; muito pequeno justamente pela presen&#231;a de uma &#250;nica fac&#231;&#227;o dominante. A regi&#245;es norte e nordeste vivem hoje o que foi vivido pelo sudeste na d&#233;cada de 90, que &#233; essa guerra t&#227;o intensa por territ&#243;rios e rotas do crime. Segundo Leandro Piquet Carneiro, coordenador da Escola de Seguran&#231;a Multidimensional da USP (ESEM-USP), a grande maioria dos estados da regi&#227;o norte tem predom&#237;nio do Comando Vermelho, com apenas Roraima e Rond&#244;nia tendo uma presen&#231;a mais significativa do Primeiro Comando da Capital. Contudo, para al&#233;m das duas maiores, existem tamb&#233;m fac&#231;&#245;es locais menores na disputa, o que torna tudo mais complicado.</p><p>Mas, vamos recapitular: temos o quilo da coca&#237;na que sa&#237; da Colombia custando 1.000 d&#243;lares, passa escondido por trajetos fluviais que o levam at&#233; Manaus, no Amazonas, onde seu pre&#231;o multiplica por 10. E agora? Pra onde ele vai? Segundo a Confedera&#231;&#227;o Nacional de Municipios, <a href="https://cnm.org.br/comunicacao/noticias/brasil-e-a-principal-rota-e-um-dos-maiores-consumidores-de-cocaina-diz-a-onu">cerca de 30% da coca&#237;na que j&#225; foi apreendida no Brasil tinha como destino o exterior</a>, mas para muito al&#233;m do que podemos afirmar com a droga que foi &#8220;descoberta&#8221;, &#233; preciso levar em conta que o nosso pa&#237;s &#233; o segundo maior consumidor de coca&#237;na do mundo, ficando atr&#225;s apenas dos Estados Unidos. Ent&#227;o, por mais que a exporta&#231;&#227;o signifique lucro multiplicado, a droga que fica no pa&#237;s abastece o crime local e &#233; consumida por adictos brasileiros. N&#243;s temos um grande desafio em rela&#231;&#227;o ao resto mundo no combate &#225;s drogas porque &#233; muito mais barato consumir coca&#237;na (e seus derivados) em terras latinas do que em qualquer outro lugar no mundo. </p><p>Como a mercadoria chega ao Brasil &#8212; que possui um grande mercado &#8212; &#224; pre&#231;o de banana, &#233; muito mais f&#225;cil para pessoas de baixa renda entrarem em contato com a droga, principalmente se morarem em localidades marginalizadas e com a presen&#231;a do tr&#225;fico. Esse &#233; um problema que pa&#237;ses como a Holanda, por exemplo, n&#227;o v&#227;o ter por n&#227;o estarem geograficamente colados na Am&#233;rica Andina. Para aumentar ainda mais o lucro e poder vender maiores quantidades, os traficantes costumam misturar a droga com outros produtos (como fermento) ou vender majoritariamente derivados (crack e oxi) que s&#227;o mais baratos e muito mais nocivos. Seguindo a l&#243;gica de outro grande mercado nacional, que vende a melhor safra de caf&#233; para o exterior e deixa os gr&#227;os torrados conosco, o crime organizado mant&#233;m os consumidores finais brasileiros em segundo plano.  </p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://girlsupworld.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/girlsupworld.substack.com/subscribe"><span>Subscreva agora</span></a></p><p></p><p><strong>O Trajeto at&#233; a Europa</strong></p><p>Agora, ap&#243;s passar por uma divis&#227;o log&#237;stica que decide qual mercado &#8212; interno ou externo &#8212; a carga contrabandeada vai abastecer, os lotes que s&#227;o levados para fora fazem um caminho bem mais longo. Indo para o Sudeste, temos S&#227;o Paulo, o maior consumidor de drogas em n&#250;mero absoluto. Existe at&#233; mesmo um nome para o caminho que as drogas percorrem at&#233; a capital: Rota Caipira, que nada mais &#233; do que as rodovias interioranas do estado. As malhas rodovi&#225;rias mais bem pavimentadas da Am&#233;rica Latina redistribuem todos os entorpecentes, ainda camuflados em ve&#237;culos terrestres, seja para a Capital, para outros estados ou para o Porto de Santos. Al&#233;m das rodovias, o interior de S&#227;o Paulo possu&#237; um grande volume de canavial, planta&#231;&#245;es altas que servem de plan&#237;cie para pistas fantasmas como as mencionadas antes &#8212; lembrando sempre que o que chega em S&#227;o Paulo pertence ao dom&#237;nio do PCC.</p><p>Antes, o Porto de Santos era a principal forma de exportar clandestinamente. Entorno 60% da coca&#237;na que saia do Brasil chegava &#225; Europa por ele, devido a sua import&#226;ncia para as exporta&#231;&#245;es brasileiras de forma geral. Entretanto, ao perceber isso, as autoridades come&#231;aram estrangular Santos da mesma forma que fizeram com o c&#233;u amaz&#244;nico. Ent&#227;o, por uma quest&#227;o de necessidade &#8212; e tamb&#233;m por estrat&#233;gia geogr&#225;fica &#8212;, o Nordeste come&#231;ou a chamar aten&#231;&#227;o dessas organiza&#231;&#245;es. </p><p>E aqui voltamos &#225; elas, as rodovias. O meio mais f&#225;cil de atravessar o Brasil. Pela BR-222, &#233; poss&#237;vel mover a coca&#237;na que chega no Par&#225; para o complexo portu&#225;rio de Fortaleza que o levar&#225; mundo &#224; fora &#8212; e a pol&#237;cia j&#225; sabe disso. A rodovia &#233; amplamente monitorada pelas for&#231;as de seguran&#231;a p&#250;blica, por ser uma rota direta de escoamento. O problema &#233; que ela &#233; uma rota de escoamento de qualquer produto que atravesse as duas regi&#245;es. Milhares de caminh&#245;es passam ali todos os dias transportando toneladas de gr&#227;os, frigor&#237;ficos, min&#233;rios e outros recursos que abastecem a economia brasileira. N&#227;o tem como fiscalizar tudo. &#201; imposs&#237;vel. Trata-se fluxo muito intenso de pessoas e mercadorias, que tr&#225;s preju&#237;zo para muitas pessoas se obstru&#237;do por muito tempo. </p><p>Ent&#227;o, em plena luz do dia e nesses mesmos caminh&#245;es, viajam quilos e mais quilos de coca&#237;na. Eles vem <span>escondidos em fundos falsos, as vezes escoltados pelos chamados &#8220;batedores&#8221; &#8212; carros que viajam quil&#244;metros &#225; frente dos caminh&#245;es com contrabando para monitorar a presen&#231;a de blitze da PRF, alertando o transportador se houver fiscaliza&#231;&#227;o. Existem tamb&#233;m caminh&#245;es clonados, fingindo que trabalham para empresas s&#233;rias para n&#227;o serem parados, e at&#233; mesmo falsas viaturas da Defesa Civil e da Pol&#237;cia Cient&#237;fica circulando com droga em nossas estradas. Dessa forma</span>, quase imposs&#237;vel de ser apreendida, toneladas de coca&#237;na boliviana &#8212; que j&#225; percorreram quil&#244;metros de rios amaz&#244;nicos &#8212; chegam ao nordeste. </p><p>Existem outras rodovias valiosas como a BR-222, e elas costumam interceptar as mesmas cidades, todas com alt&#237;ssimos &#237;ndices de criminalidade e homic&#237;dios em fun&#231;&#227;o do tr&#225;fico. As cidades mais violentas do Brasil est&#227;o no nordeste, encostadas em rodovias &#250;teis para crime. A cidade de Maranguape, hoje a mais violenta do pa&#237;s, passou a ser muito disputada pelo Comando Vermelho e os Guardi&#245;es do Estado (outra fac&#231;&#227;o) nos &#250;ltimos anos. Maranguape localiza-se na regi&#227;o metropolitana de Fortaleza, e &#233; encostada nas estradas que vem do interior do estado para o Porto de Pec&#233;m. Mais outras das cidades com maiores &#237;ndices de viol&#234;ncia possuem exatamente esse problema: proximidade estrat&#233;gica com portos; caminho para o crime. </p><p>A opera&#231;&#227;o dentro dos portos leva quase a mesma complexidade que as citadas anteriormente, por&#233;m de forma mais perigosa. S&#227;o locais privados, com vigil&#226;ncia e seriedade no que transportam. Por&#233;m, com funcion&#225;rios corruptos, que recebem uma grana muito boa para isso, tudo &#233; poss&#237;vel. O m&#233;todo mais utilizado para inserir coca&#237;na dentro de conteiners portu&#225;rios &#233; conhecido como <em>Rip on\Rip off</em>, e consiste na a&#231;&#227;o conjunta de dois grupos infiltrados em dois portos diferentes: um que exporta, e outro que recebe. O primeiro grupo introduz a a droga em conteiners leg&#237;timos (sem o conhecimento de seus propriet&#225;rios), e o segundo grupo de funcion&#225;rios envolvidos no tr&#225;fico retira ela no porto de destino, em outro pa&#237;s. </p><p>Os conteiners possuem espa&#231;os que permitem essa pr&#225;tica, s&#227;o refrigerados e carregam mercadorias perec&#237;veis, que recebem uma inspe&#231;&#227;o mais r&#225;pida. Quase tudo no mundo chega at&#233; n&#243;s por meio de conteiners. Em torno de 95% de todo o comercio global funciona por vias mar&#237;timas e, se era dif&#237;cil monitorar estradas brasileiras, n&#227;o tem nem o que falar sobre o oceano. <a href="https://www.icontainers.com/us/2016/11/11/friday-fun-fact-3-only-2-to-10-of-containers-are-inspected/">Apenas 2% de tudo que passa por essas enormes caixas de a&#231;o &#233; inspecionado</a> e, quanto mais necess&#225;rios e volumosos s&#227;o os fluxos legais, menores as chances de detectar os ilegais que neles se ocultam. Cortar isso pela raiz congela a economia. <span>No Brasil j&#225; foi realizada at&#233; uma Comiss&#227;o Parlamentar de Inqu&#233;rito (CPI) na </span><a href="https://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/comissoes/comissoes-temporarias/parlamentar-de-inquerito/51-legislatura/cpinarco/relatoriofinal.pdf"><span>C&#226;mara dos Deputados (2000, p. 949)</span></a><span>, que </span>concluiu que pol&#237;ticas em prol da economia e em detrimento da seguran&#231;a acarretaram uma falta aus&#234;ncia enorme na fiscaliza&#231;&#227;o desses portos.</p><p>No entanto, para al&#233;m de fiscalizar os conteiners em si, seria preciso tamb&#233;m um monitoramento rigoroso dos pr&#243;prios funcion&#225;rios, que inclua o transito deles dentro das instala&#231;&#245;es portu&#225;rias, suas fun&#231;&#245;es em cada setor e at&#233; mesmo as informa&#231;&#245;es tribut&#225;rias dos mesmos. Como falado, as pessoas est&#227;o nesse neg&#243;cio pelo dinheiro. E para que o neg&#243;cio funcione, ele precisa obrigatoriamente de gente em todos esses lugares que analisamos: nas bacias amaz&#244;nicas; nas rodovias; nos portos. Repetindo as palavras de Leandro Piquet Carneiro (na <a href="https://youtu.be/SuohBPpGRI0?is=9m32rbr2fB5INL1V">entrevista que deu ao canal Spotniks</a>, no youtube), vale analisar o porqu&#234; de algum caminhoneiro andar comprando uma Ferrari por a&#237;. Mas isso nos abre outro problema: as diversas formas que existem de ocultar bens e lavar dinheiro. Entendendo a dimens&#227;o de tudo isso, &#233; preciso admitir que o crime &#233; realmente organizado.</p><p>Ent&#227;o, vejam, existe um dilema: a utilidade dos portos serve tanto &#225; legalidade quanto &#225; ilegalidade; o capital e as mercadorias fluem independentemente se ocultos ou n&#227;o. O que fazer? Os mesmos governantes que participam dessa &#8220;Guerra &#225;s Drogas&#8221; jamais estariam dispostos a ferir a espinha dorsal que sustenta o tr&#225;fico internacional. Eles sabem exatamente qual seria o pre&#231;o disso, ent&#227;o &#233; mais f&#225;cil jogar toda a culpa em alvos f&#225;ceis, como imigrantes. A industria narc&#243;tica opera debaixo de todos os narizes que a condenam. E, realmente, o mundo precisa de agilidade comercial. Os mercados desvalorizam; os pre&#231;os aumentam; n&#227;o chega comida na sua casa se a engrenagem econ&#244;mica parar de rodar. O contrabando de drogas &#233; um c&#226;ncer que os governantes globais aprenderam a conviver e que, &#224;s vezes, fazem o que podem para que ele n&#227;o dominem todo o resto.  </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Operação Ciclone: Como os Estados Unidos fez nascer o Talibã]]></title><description><![CDATA[A opera&#231;&#227;o secreta da CIA no Afeganist&#227;o.]]></description><link>https://girlsupworld.substack.com/p/operacao-ciclone-como-os-estados</link><guid isPermaLink="false">https://girlsupworld.substack.com/p/operacao-ciclone-como-os-estados</guid><dc:creator><![CDATA[Girls Up World]]></dc:creator><pubDate>Fri, 22 May 2026 11:32:18 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/cebdf91e-09b1-4a68-bcae-4f12ec6c7974_900x506.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>O Afeganist&#227;o nem sempre foi este cemit&#233;rio de direitos humanos que conhecemos. Terroristas armados transitando entre as ruas; mulheres cobertas por burkas azuis; atentados contra civis; refugiados tentando a qualquer custo cruzar uma fronteira&#8230; N&#243;s vemos tudo isso. Compreendemos tudo isso, e logo digerimos essas imagens como se elas fossem naturais daquele territ&#243;rio, ou talvez, antigas demais para questionar. Nos contentamos com explica&#231;&#245;es superficiais e narrativas ocidentais que atrelam aquela regi&#227;o do mundo &#224; uma natureza violenta. H&#225; algo de muito perigoso na forma com que o mundo se acostumou com o sofrimento afeg&#227;o, na forma com que culpabilizaram eles pr&#243;prios por isso.</p><p>Nenhuma crise humanit&#225;ria surge do nada, os pa&#237;ses n&#227;o simplesmente colapsam ou nascem colapsados. Muitos dos elementos que associamos &#225; imagem do Afeganist&#227;o s&#227;o relativamente recentes, s&#227;o coisas de poucas d&#233;cadas atr&#225;s. Tentar entender como essa hist&#243;ria se desenrolou &#233; muito importante ao critica-la. Existe uma cronologia para essa trag&#233;dia e, como esperado, grandes pegadas ocidentais aparecem nela. Hoje voc&#234;s ir&#227;o entender que, sem os Estados Unidos, o Talib&#227; n&#227;o seria nada.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://girlsupworld.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/girlsupworld.substack.com/subscribe"><span>Subscreva agora</span></a></p><p></p><p><strong>Anos 1970: Monarquia, Rep&#250;blica, Regime Comunista, Invas&#227;o Externa e Guerra.</strong></p><p>Durante boa parte do s&#233;culo passado, o chamado Reino do Afeganist&#227;o era uma monarquia relativamente tradicional. E apesar de lidar com uma configura&#231;&#227;o tribal que, de certa forma, enfraquecia o governo dos monarcas, o pa&#237;s apresentava certa estabilidade. Nas d&#233;cadas de 1960 e 1970, durante o reinado de Mohammed Zahir Shah, a capital Cabul tinha uma estrutura muito mais cosmopolita do que se imagina: universidades; mulheres estudando; minissaias circulando pelas ruas e, como qualquer pa&#237;s em meio a Guerra Fria, influ&#234;ncia ocidental e sovi&#233;tica coexistindo ao mesmo tempo. Sendo sempre importante destacar que esses aspectos mais modernizados eram concentrados exclusivamente nas cidades. As regi&#245;es interioranas e perif&#233;ricas do pa&#237;s eram fortemente tradicionais, rurais, conservadoras e fi&#233;is ao islamismo tradicional e &#224; antigas lideran&#231;as tribais. Era uma estrutura primitiva de um pa&#237;s oriental a caminho do desenvolvimento e, sinceramente, chega a ser cruel o que em uma &#250;nica d&#233;cada esse destino foi drasticamente modificado. </p><p>Para entender o porqu&#234; de tantos pa&#237;ses terem se envolvido em quest&#245;es afeg&#227;s nas d&#233;cadas e nos s&#233;culos passados, &#233; preciso explicar outro aspecto primordial para entender o Afeganist&#227;o: sua posi&#231;&#227;o geogr&#225;fica. O pa&#237;s &#233; situado entre o Oriente M&#233;dio; a &#193;sia Central; a &#205;ndia e a China, e por isso, visto por todos esses como um Estado Tamp&#227;o &#8212; termo utilizado para nomear pa&#237;ses que se situam entre pot&#234;ncias antag&#244;nicas ou hostis. Desde s&#233;culo anterior, o Imp&#233;rio Brit&#226;nico j&#225; disputava influ&#234;ncia na regi&#227;o com o antigo Imp&#233;rio Russo, em uma rivalidade que ficou conhecida como Grande Jogo, a disputa anglo-russa pela &#193;sia Central. Ou seja, muito antes da Guerra Fria e de toda a bipolariza&#231;&#227;o pol&#237;tica que j&#225; conhecemos, o Afeganist&#227;o j&#225; era tratado pelas pot&#234;ncias como um territ&#243;rio estrat&#233;gico, ela apenas terminou de consolidar esse papel, o deixando com consequ&#234;ncias mais graves ao pa&#237;s. </p><p>Sua localiza&#231;&#227;o era, agora mais ainda, um corredor estrat&#233;gico entre &#225;reas de interesse econ&#244;mico, militar e ideol&#243;gico, fazendo com que conflitos internos afeg&#227;os passassem a ser enxergados como oportunidade, seja de expans&#227;o, ou de conten&#231;&#227;o &#224;s novas superpot&#234;ncias. Nesse contexto, em 1973, conhecemos uma figura chamada Mohammed Daoud Khan, primo do rei e ex-primeiro ministro do pa&#237;s. Suas ideias defendiam um governo mais centralizado (com menos influ&#234;ncias de lideran&#231;as tribais), mais nacionalista e forte militarmente, para que o pa&#237;s se tornasse menos dependente e consolidasse sua autoridade de Estado sobre as regi&#245;es etnicamente comunit&#225;rias. Al&#233;m de buscar modernizar a infraestrutura, a economia e o governo como um todo, Daoud almejava, principalmente, consagrar uma identidade nacional afeg&#227; que estivesse acima das divis&#245;es tribais que dispersavam o poder nacional. </p><p>Ent&#227;o, enquanto o rei estava fora do pa&#237;s (durante um tratamento m&#233;dico na It&#225;lia), ele liderou um golpe praticamente sem derramar de sangue, aboliu a monarquia e declarou uma rep&#250;blica. A partir da&#237;, Daoud era o novo presidente do Afeganist&#227;o. E seu governo, apesar de n&#227;o ser comunista, se aproximou muito da Uni&#227;o Sovi&#233;tica por precisar de apoio econ&#244;mico e militar. Os sovi&#233;ticos, sempre en busca de novos aliados, ajudaram no treinamento de ex&#233;rcito, em obras de infraestrutura e no fortalecimento do Estado afeg&#227;o. Uma rela&#231;&#227;o cada vez mais estreita &#8212; e por isso perigosa &#8212; foi se formando entre os pa&#237;ses com o tempo. Militares e burocratas afeg&#227;os come&#231;aram a se aproximar cada vez mais de ideias marxistas, especialmente atrav&#233;s do partido comunista afeg&#227;o, o PDPA. E Daoud, percebendo a amea&#231;a que se formava, tentou se afastar da influencia sovi&#233;tica e reequilibrar rela&#231;&#245;es com outros pa&#237;ses, se aproximando do ocidente e de pa&#237;ses &#225;rabes pr&#243;ximos. Isso desagradou bastante os setores comunistas dentro de seu governo.</p><p>Por fim, a grande ironia de sua hist&#243;ria dentro do Afeganist&#227;o foi ter sido derrubado justamente pelas for&#231;as que buscou apoio de forma puramente pragm&#225;tica, sem compartilhar da mesma ideologia. Na Revolu&#231;&#227;o de Saur, em 1978, ele e parte de sua fam&#237;lia foram assasinados e o partido comunista tomou o poder do pa&#237;s, come&#231;ando reformas radicais em toda a estrutura pol&#237;tica da &#233;poca. Novamente, as reformas tinham um objetivo de modernizar o pa&#237;s em pouco tempo &#8212; correndo contra o tempo, para ser mais sincera. Os l&#237;deres do PDPA queriam redistribui&#231;&#227;o de terras entre grandes propriet&#225;rios; campanhas massivas de alfabetiza&#231;&#227;o; incentivo &#224; educa&#231;&#227;o feminina; redu&#231;&#227;o de casamentos forcados e pagamentos de dotes; al&#233;m de, &#233; claro, maior centraliza&#231;&#227;o do poder nas m&#227;os do Estado, diminuindo a influ&#234;ncia de l&#237;deres religiosos. </p><p>O problema desses objetivos foi a forma como foram impostos. Estes que, al&#233;m de oriundos de outro golpe de Estado, eram ideias progressistas e apressadas demais para aquela sociedade. Os comunistas tentavam colocar tudo em pr&#225;tica de forma r&#225;pida, autorit&#225;ria e muitas vezes violenta, perseguindo l&#237;deres religiosos, prendendo opositores e reprimindo revoltas locais com brutalidade. Ainda era uma ditadura, independente de seus prop&#243;sitos para o pa&#237;s. Em regi&#245;es rurais e conservadoras, muitas comunidades passaram a enxergar o regime comunista como uma amea&#231;a direta ao Isl&#227;, &#224;s suas tradi&#231;&#245;es familiares e &#224; autonomia de suas tribos. Isso fez crescer uma resist&#234;ncia armada que logo se espalhou para o pa&#237;s inteiro.</p><p>Foi nesse cen&#225;rio perigoso de instabilidade que o Afeganist&#227;o passou a chamar muita aten&#231;&#227;o da Uni&#227;o Sovi&#233;tica &#8212; que, muito importante ressaltar, n&#227;o estava diretamente envolvida naquela revolu&#231;&#227;o; aquilo era coisa do partido comunista afeg&#227;o. O governo comunista daquele pa&#237;s, al&#233;m de impopular, era completamente dividido internamente, enfrentava revoltas e perdia gradualmente o controle do pa&#237;s. Para os sovi&#233;ticos &#8212; que j&#225; foram o Imp&#233;rio Russo, e j&#225; entendiam aquele territ&#243;rio como estrat&#233;gico &#8212;, a possibilidade de um colapso de regime significava n&#227;o apenas a perda de um aliado em meio &#224; Guerra Fria, mas tamb&#233;m o risco de expans&#227;o da influ&#234;ncia ocidental e de movimentos isl&#226;micos em fronteiras pr&#243;ximas. Dessa forma, ainda em dezembro de 1979, tropas sovi&#233;ticas invadiram o pa&#237;s sobre pretexto de estabilizar o governo aliado, transformando oficialmente a crise interna em um conflito internacional.</p><p>E, lembrando voc&#234;s rapidamente da l&#243;gica da Guerra Fria, qualquer avan&#231;o socialista e qualquer novo territ&#243;rio que se tornava vermelho durante aqueles anos, configurava-se imediatamente como uma amea&#231;a aos norte-americanos. O que nos leva a ter de apresentar, finalmente, uma das estrelas do artigo, aquela sigla que costumamos ver em filmes hollywoodianos, sem muito contexto hist&#243;rico por tr&#225;s. A chamada <em>Central Intelligence Agency</em> (CIA), foi criada ap&#243;s a Segunda Guerra Mundial com o objetivo de coletar informa&#231;&#245;es estrat&#233;gicas, investigar amea&#231;as externas e conduzir opera&#231;&#245;es secretas em defesa dos interesses norte-americanos. E foi sua fun&#231;&#227;o o que a fez t&#227;o presente em guerras, golpes de Estado e conflitos internacionais no s&#233;culo XX. A CIA foi uma da principais ferramentas de conten&#231;&#227;o para os avan&#231;os da URSS e, como as duas superpot&#234;ncias nunca entraram em combate direto, os feitos da organiza&#231;&#227;o aconteciam por debaixo dos panos: influenciando governos, espionando advers&#225;rios, financiando guerras e conduzindo opera&#231;&#245;es secretas em outros pa&#237;ses. E no Afeganist&#227;o n&#227;o foi diferente.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://girlsupworld.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/girlsupworld.substack.com/subscribe"><span>Subscreva agora</span></a></p><p></p><p><strong>A Opera&#231;&#227;o Secreta, a Guerra do Afeganist&#227;o e o Surgimento do Talib&#227;.</strong></p><p>Com a invas&#227;o sovi&#233;tica em 1979, o governo norte-americano teve a experi&#234;ncia e os recursos necess&#225;rios para transformar a expans&#227;o territorial de seu inimigo em um problema gigantesco para ele resolver. A ideia era desgastar econ&#244;mica e militarmente a Uni&#227;o das Rep&#250;blicas Socialistas Sovi&#233;ticas atrav&#233;s de uma longa guerra &#8212; bem como a que os mesmos travaram como Vietn&#227; anos antes. A CIA foi quem ficou respons&#225;vel por articular essa estrat&#233;gia, e assim surgiu a Opera&#231;&#227;o Ciclone, que organizou o envio clandestino de dinheiro, armamento pesado e treinamento para os <em>Mujahideen</em> (grupos guerrilheiros isl&#226;micos que lutavam contra a invas&#227;o sovi&#233;tica no Afeganist&#227;o).  </p><p>Agora a coisa fica um pouquinho mais interessante. Vejam, uma opera&#231;&#227;o clandestina tem meios espec&#237;ficos de operar em causas grandes como essa. E, como os EUA n&#227;o tinham uma estrutura dentro do Afeganist&#227;o para atuar diretamente em uma guerra, eles precisariam encontrar um interm&#233;dio regional. Para isso, eles acionaram o servi&#231;o secreto do Paquist&#227;o, <em>Inter-Services Intelligence</em> (ISI). E dessa forma funcionava: A CIA fornecia todo o dinheiro, armas e trenamento destinados aos <em>Mujahideen</em>; esses recursos chegavam ao Paquist&#227;o e o ISI decidia quais grupos iriam receber mais apoio. Ou seja, era os Estados Unidos quem financiava grande parte daquela opera&#231;&#227;o, mas quem distribuia os recursos era o Paquist&#227;o &#8212; que, j&#225; adiantando o problema, nunca foi neutro em rela&#231;&#227;o ao seu vizinho.</p><p>O governo paquistan&#234;s enxergava nessa proposta uma oportunidade al&#233;m da disputa entre as superpot&#234;ncias. Enquanto os Estados Unidos tinham como objetivo principal uma guerra duradoura, o Paquist&#227;o queria manipular o futuro do Afeganist&#227;o depois do fim dela. Queria fortalecer grupos que, posteriormente, garantiriam um governo aliado aos interesses paquistaneses, hostil &#225; influencia indiana e alinhado a um islamismo conservador. Por isso, o ISI escolheu favorecer as fac&#231;&#245;es mais radicais entre os <em>Mujahideen, </em>direcionando a elas a maior parte de tudo o que a CIA oferecia. E dessa forma, embora n&#227;o tenha criado diretamente o Talib&#227;, os Estados Unidos forneceu toda a base &#225;s redes extremistas que o fundaram, criando consequ&#234;ncias que ultrapassariam muito o objetivo de expulsar os sovi&#233;ticos. </p><p>A guerra no Afeganist&#227;o se arrastou durante praticamente toda a d&#233;cada de 1980. Os <em>Mujahideen </em>conheciam o terreno montanhoso de seu pa&#237;s, utilizavam t&#225;ticas de guerra e passaram a possuir armamentos capazes de derrubar at&#233; mesmo as aeronaves sovi&#233;ticas. Aquilo estava mesmo se tornando uma vers&#227;o afeg&#227; do que tinha sido o Vietn&#227; durante as d&#233;cadas passadas, e uma hora iria acabar pelo mesmo motivo.A Opera&#231;&#227;o Ciclone, para a felicidade da intelig&#234;ncia norte-americana, atingiu seus objetivos: fez com que a Uni&#227;o Sovi&#233;tica mergulhasse em uma guerra cara e fatigante, com a retirada de suas tropas do Afeganist&#227;o em 1989.</p><p>O problema &#233; que o fim da guerra n&#227;o trouxe estabilidade para o pa&#237;s. Muit&#237;ssimo pelo contr&#225;rio: dez anos de guerra o devastaram pesadamente, al&#233;m de terem criado uma crise humanit&#225;ria com milh&#245;es de deslocados e refugiados. A economia estava destru&#237;da e dezenas de grupos armados perambulavam pelo pa&#237;s, agora fortemente militarizados e disputando poder entre si. Triste como a disputa ideol&#243;gica de outras na&#231;&#245;es adoeceu t&#227;o profundamente um pa&#237;s que tinha sim, caminho para o progresso. Enfim, o governo comunista afeg&#227;o caiu de vez em 1992 e a partir da&#237;, os grupos armados come&#231;aram uma guerra civil brutal pelo controle de Cabul e das principais regi&#245;es do Afeganist&#227;o. Fac&#231;&#245;es que lutavam juntas contra os sovi&#233;ticos passaram a bombardear umas &#224;s outras; viol&#234;ncia constante, assassinatos e saques agora faziam parte do dia a dia do povo afeg&#227;o. A situa&#231;&#227;o do pa&#237;s naquela &#233;poca n&#227;o era exatamente o que a popula&#231;&#227;o esperava depois de uma guerra t&#227;o longa, mas &#233; exatamente o que se espera de um v&#225;cuo no poder de um pa&#237;s como esse. </p><p>No meio de tudo isso, em 1994, nasce oficialmente o Talib&#227;. Principalmente composto de jovens refugiados no Paquist&#227;o, muitos de seus integrantes estudavam em madrassas (escolas religiosas islamicas) financiadas por correntes conservadoras da regi&#227;o. A palavra &#8220;talib&#227;&#8221; vem de <em>Talib</em>, &#8220;estudante&#8221;. E esse movimento prometia restaurar a ordem, acabar com a corrup&#231;&#227;o dos senhores da guerra e reunificar o Afeganist&#227;o sob uma interpreta&#231;&#227;o r&#237;gida da lei isl&#226;mica. E, novamente, o governo paquistan&#234;s teve papel decisivo pelas a&#231;&#245;es do ISI: eles viam no Talib&#227; uma for&#231;a capaz de faze-los alcan&#231;ar seus objetivos, por isso o grupo recebeu apoio log&#237;stico, pol&#237;tico e militar dos mesmos. Em poucos anos, o grupo extremista conquistou grande parte do pa&#237;s, tomando Cabul em 1996. E a&#237; sim, o inferno que hoje &#233; o Afeganist&#227;o come&#231;ou de verdade.</p><p>Mulheres foram proibidas de estudar e trabalhar em diversas &#225;reas, puni&#231;&#245;es f&#237;sicas em p&#250;blico tornaram-se comuns e opositores eram violentamente perseguidos. E, al&#233;m do terror que o Talib&#227; j&#225; instaurava por si s&#243;, eles passaram a abrigar grupos jihadistas internacionais, entre eles estava Al-Qaeda, liderada por Osama bin Laden. Contando a hist&#243;ria como conhecemos, em 2001 o mundo foi surpreendido com os atentados de 11 de Setembro e, posteriormente, assistiu a retalia&#231;&#227;o estadunidense. Washington exigiu que o Talib&#227; entregasse Bin Laden, mas como a coisa n&#227;o aconteceu como os norte-americanos esperavam, eles invadiram o Afeganist&#227;o ainda em 2001, derrubando rapidamente o governo terrorista iniciando uma ocupa&#231;&#227;o militar que duraria exatos vinte anos. </p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://girlsupworld.substack.com/p/operacao-ciclone-como-os-estados/comments&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Deixe um coment&#225;rio&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/girlsupworld.substack.com/p/operacao-ciclone-como-os-estados/comments"><span>Deixe um coment&#225;rio</span></a></p><p></p><p><strong>2021: O Talib&#227; retorna ao poder</strong></p><p>Agora, o objetivo n&#227;o tinha como ser o mesmo da antiga opera&#231;&#227;o feita pela CIA; n&#227;o existiam mais sovi&#233;ticos invasores. Ocupar o pa&#237;s foi uma tentativa de combater o terrorismo e impedir que o pa&#237;s voltasse a servir de base para grupos extremistas que causariam problemas no futuro. No entanto, tentar reconstruir o Afeganist&#227;o nas condi&#231;&#245;es que ele foi deixado, mostrou-se ser imposs&#237;vel. O Talib&#227; nunca desapareceu das terras afeg&#227;s. Ele recuou em dire&#231;&#227;o a &#225;reas rurais e pr&#243;ximas &#225; fronteira com o Paquist&#227;o, reorganizando-se lentamente e iniciando uma insurg&#234;ncia contra o governo afeg&#227;o que tinha sido apoiado pelos EUA. Ao longo dessas duas longu&#237;ssimas d&#233;cadas, cerca de 2,3 trilh&#245;es de d&#243;lares americanos foram gastos para tentar manter a ordem dentro daquele pa&#237;s &#8212; &#233; <em>muita</em> coisa, gente. &#201; um dinheiro indecente. Equiparando com a infla&#231;&#227;o, esse valor &#233; aproximadamente de 13 vezes maior que o Plano Marshall, programa de recupera&#231;&#227;o de toda a Europa ap&#243;s a Segunda Guerra Mundial.</p><p>As divis&#245;es &#233;tnicas, as fragilidades institucionais, a forte depend&#234;ncia militar externa e a corrup&#231;&#227;o atrasaram a consolida&#231;&#227;o de um Estado est&#225;vel. Quando a coisa j&#225; tinha ficado cara demais e as tropas americanas foram retiradas do pa&#237;s, o governo do Afeganist&#227;o entrou em colapso em um instante e o Talib&#227; retomou Cabul praticamente sem resist&#234;ncia significativa. Foi um fechamento ir&#244;nico: os EUA literalmente rasgaram trilh&#245;es de d&#243;lares para tentar conter um monstro que ajudaram a criar. E seria c&#244;mico se a coisa n&#227;o fosse t&#227;o tr&#225;gica. </p><p>O doutrina do Talib&#227; se torna cada vez mais absurda com o passar dos anos, chamando muita aten&#231;&#227;o pela forma com que trata as mulheres. O novo c&#243;digo penal do Afeganist&#227;o, em 2026, literalmente legalizou a agress&#227;o contra a mulher ao permitir que maridos castiguem fisicamente suas esposas contanto que n&#227;o quebrem seus ossos, n&#227;o os fraturem e n&#227;o deixem feridas abertas &#8212; as exig&#234;ncias s&#227;o quase cerejas no bolo, n&#227;o &#233;? O c&#243;digo classifica o espancamento dom&#233;stico como uma "ferramenta de disciplina e preven&#231;&#227;o de pecado", onde o marido passa a ter o papel jur&#237;dico de "mestre" e a esposa de "escrava".</p><p>Al&#233;m das recentes, as leis mais antigas para as mulheres&#8212; igualmente absurdas &#8212; continuam em vigor, entre elas a proibi&#231;&#227;o de falar em voz alta em p&#250;blico. Suas vozes s&#227;o consideradas &#8220;&#237;ntimas&#8221; e por isso n&#227;o poderiam ser ouvidas por estranhos. Elas n&#227;o podem sair de casa sem um acompanhante da fam&#237;lia, n&#227;o podem estudar at&#233; depois do sexto ano do fundamental, e est&#227;o sujeitas a serem apedrejadas e chicoteadas em pra&#231;as p&#250;blicas at&#233; a morte em caso de acusa&#231;&#245;es de adult&#233;rio. Al&#233;m da burka, &#233; claro. Uma pris&#227;o azul e pesada, que esconde seu corpo e rosto como se ambos n&#227;o devessem existir.</p><p>Enfim, a situa&#231;&#227;o vivida pelas mulheres daquele pa&#237;s &#233; mesmo muito revoltante. Mas, recentralizando o tema novamente, n&#227;o foi apenas o tiro estadunidense que saiu pela culatra. A estrat&#233;gia do Paquist&#227;o pode ter parecido inteligente, digamos, mas ela n&#227;o era realista. Eles queriam criar no Afeganist&#227;o um governo aliado, dependente politicamente e &#250;til para sua maior preocupa&#231;&#227;o regional. Desde a independ&#234;ncia de ambos, a &#205;ndia e o Paquist&#227;o mant&#234;m uma rivalidade memor&#225;vel, marcada por guerras, disputas territoriais e tamb&#233;m hostilidades casuais. Ent&#227;o era sim, muito ben&#233;fico para o Paquist&#227;o criar um vizinho amig&#225;vel, isso o impediria de estar cercado por inimigos nos dois lados de sua fronteira. Tanto que, quando o Talib&#227; tomou Cabul em 1996, o governo paquistan&#234;s foi um dos poucos no mundo a reconhece-lo oficialmente. </p><p>A coisa &#233; que n&#227;o se pode esperar conseguir controlar um grupo extremista, a premissa b&#225;sica de sua exist&#234;ncia &#233; eles tentarem te controlar. O radicalismo religioso semeado pelo Paquist&#227;o durante a guerra come&#231;ou a ultrapassar sua fronteira ao longo dos anos. Muitos grupos jihadistas ganharam consider&#225;vel autonomia, capacidade militar e influ&#234;ncia ideol&#243;gica pr&#243;pria. Alguns permanecendo aliados do Estado paquistan&#234;s; outros passaram a o enxergar como &#8220;muito aliado do Ocidente&#8221;, insuficientemente isl&#226;mico&#8220; ou apenas corrupto mesmo. Dessa avers&#227;o, come&#231;aram a surgir varia&#231;&#245;es do Talib&#227;, que cometiam atentados terroristas dentro do Paquist&#227;o. O chamado <em>Tehrik-i-Taliban Pakistan </em>(TTP) j&#225; cometeu assassinatos, massacres civis, ataques ao ex&#233;rcito paquistan&#234;s e atentados contra mulheres e crian&#231;as, sendo um dos casos mais chocantes o de uma escola de Peshawar em 2014, onde mais de 130 crian&#231;as foram mortas. </p><p>Al&#233;m disso, os dois pa&#237;ses tem quest&#245;es mais antigas que essa para resolver. Ainda na &#233;poca do Imp&#233;rio Brit&#226;nico, a fronteira entre eles nunca foi 100% aceita pelo Afeganist&#227;o, o que j&#225; instaurava naturalmente uma tens&#227;o. Mesmo tendo recebido apoio durante anos, o Talib&#227; nunca se colocou como subordinado; inclusive, em 2021, come&#231;ou a entrar em choque com o vizinho em v&#225;rias quest&#245;es fronteiri&#231;as relacionadas ao TTP. O governo do Paquist&#227;o acusa o Afeganist&#227;o de permitir que militantes do TTP se escondam no pa&#237;s, o Talib&#227; nega as acusa&#231;&#245;es e diz que isso &#233; uma quest&#227;o interna dos paquistaneses. Nos &#250;ltimos tempos, a tens&#227;o j&#225; escalou pra bombardeios cruzados, ataques a&#233;reos e ataques &#224; postos militares. Em fevereiro deste ano, a situa&#231;&#227;o ficou ainda mais feia quando o Ministro da Defesa do Paquist&#227;o declarou publicamente que aquilo havia se tornado uma guerra aberta. </p><p>De qualquer forma, os mais prejudicados com toda essa hist&#243;ria sanguin&#225;ria ser&#227;o sempre os cidad&#227;os afeg&#227;os, presos nesse campo de guerra h&#225; d&#233;cadas. Al&#233;m do uso subvertido e abusivo das normas de sua religi&#227;o, tendo sua liberdade individual completamente controlada pelos terroristas, eles lidam com uma viol&#234;ncia t&#227;o severa que lideram o ranking de refugiados com maior necessidade de transfer&#234;ncia humanit&#225;ria no mundo. E isso &#233; assunto para hoje, para agora. &#201; assunto para sempre. &#201; problema da ONU Mulheres, do ACNUR, da Cruz Vermelha, do Alto Comissariado para os Direitos Humanos e de toda uma comunidade internacional que se nega a tratar a situa&#231;&#227;o como deveria. &#201; problema da nossa gera&#231;&#227;o, formada por crian&#231;as privilegiadas que nasceram com o direito de existir livremente, de se expressar e de fazer barulho. E &#233; responsabilidade, principalmente, dos que participaram da destrui&#231;&#227;o deste pa&#237;s. </p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://girlsupworld.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/girlsupworld.substack.com/subscribe"><span>Subscreva agora</span></a></p><p>Por hoje &#233; isso, meninas. Espero que tenham gostado do tema e pe&#231;o desculpas por estar um pouco ausente durante esse ano. At&#233; a proxima!</p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Brics Pay: Entenda a Ameaça á Hegemonia do Dólar.]]></title><description><![CDATA[Estar&#237;amos presenciando o in&#237;cio do fim da supremacia norte-americana?]]></description><link>https://girlsupworld.substack.com/p/brics-pay-entenda-a-ameaca-a-hegemonia</link><guid isPermaLink="false">https://girlsupworld.substack.com/p/brics-pay-entenda-a-ameaca-a-hegemonia</guid><pubDate>Tue, 03 Mar 2026 14:15:39 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/e9f1e4a8-6056-4f6e-a4fb-891d22adbf64_1024x683.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Nos &#250;ltimos anos, uma sigla at&#233; ent&#227;o mais restrita ao vocabul&#225;rio diplom&#225;tico passou a ganhar muito espa&#231;o no debate pol&#237;tico popular. Cinco letras dispostas em um acr&#244;nimo passaram a ser t&#243;pico recorrente nas discuss&#245;es sobre o futuro das rela&#231;&#245;es de poder no mundo. Outrora um despretensioso arranjo entre economias emergentes, o BRICS hoje &#233; s&#237;mbolo de uma inflex&#227;o profunda no equil&#237;brio geopol&#237;tico contempor&#226;neo. E, posicionando-se a favor ou contra seu desenvolvimento, o bloco tem se tornado cada vez mais dif&#237;cil de ser ignorado pelo resto do mundo.</p><p>Ao falar de BRICS, estamos nos referindo a aproximadamente 45% da popula&#231;&#227;o do planeta, 25% das exporta&#231;&#245;es comerciais e 30% do PIB global. Trata-se de uma concentra&#231;&#227;o demogr&#225;fica e econ&#244;mica que projeta um potencial de mudan&#231;a &#225; larga escala. Quando economias de tamanha relev&#226;ncia come&#231;am a coordenar a&#231;&#245;es direcionadas &#225; um mesmo objetivo, mecanismos revolucion&#225;rios podem surgir e assim abrir caminhos para novas din&#226;micas da globaliza&#231;&#227;o. Podemos estar presenciando hoje algo muito importante para a l&#243;gica financeira das pr&#243;ximas d&#233;cadas, e para n&#243;s que apenas acompanhamos tudo de longe, &#233; natural que novas d&#250;vidas pipoquem o tempo todo. Meu objetivo hoje &#233; apresentar a voc&#234;s um pouco do que sabemos sobre o nosso amado bloco emergente, seus recentes feitios e sua mais nova cria&#231;&#227;o: BRICS Pay, um novo sistema de transa&#231;&#245;es internacionais.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://girlsupworld.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/girlsupworld.substack.com/subscribe"><span>Subscreva agora</span></a></p><p></p><p><strong>A forma&#231;&#227;o do BRICS, amplia&#231;&#227;o estrat&#233;gica do bloco e o cen&#225;rio pol&#237;tico que ele projeta.</strong></p><p>O bloco nasceu de uma ideia de aumentar a influ&#234;ncia de economias emergentes por meio da coopera&#231;&#227;o entre as mesmas e re&#250;ne seus membros principais em objetivos e metas conjuntas desde 2009. Certamente, uma decis&#227;o tomada por influ&#234;ncia de uma an&#225;lise presente no relat&#243;rio &#8220;<em>Building Better Global Economic BRICs&#8221;, </em>publicado em 2001 pelo economista Jim O&#8217;Neill. Na &#233;poca, o analista trabalhava no banco de investimentos novaiorquino Goldman Sachs e tinha como &#250;nico objetivo orientar investidores dentro do mercado financeiro quando disp&#244;s essas letras pela primeira vez, completamente inocente do que havia criado. Ele argumentava que haviam quatro pa&#237;ses (Brasil, R&#250;ssia, China e &#205;ndia) dentro do mercado mundial que, devido a caracter&#237;sticas favor&#225;veis em comum, &#8212; crescimento econ&#244;mico acelerado, grandes popula&#231;&#245;es, expans&#227;o industrial, aumento do consumo interno e dentre outros aspectos &#8212; tinham o potencial de se tornar as maiores economias do s&#233;culo que estava por vir. Era uma proje&#231;&#227;o matem&#225;tica, demogr&#225;fica e financeira de uma companhia que queria apresentar oportunidades de investimento para seus clientes.</p><p>Apesar da casualidade, O&#8217;Neill criou naquele momento uma identidade coletiva que ainda n&#227;o existia, entre pa&#237;ses que n&#227;o eram aliados naturais e at&#233; ent&#227;o nem compartilhavam interesses em comum. A sigla come&#231;ou a circular para fora da Wall Street em 2002, e o termo BRIC aparecia com certa frequ&#234;ncia na imprensa econ&#244;mica, em relat&#243;rios banc&#225;rios e debates sobre o futuro da economia. Chanceleres dos quatro pa&#237;ses come&#231;aram a reunir-se informalmente durante as assembleias gerais da ONU a partir de 2006, inspirados pelo peso simb&#243;lico da sigla e a forma como agora eram vistos. Outro fator crucial para que esse processo de reconhecimento e forma&#231;&#227;o do bloco econ&#244;mico acontecesse foi a chegada da crise financeira de 2008, quando as principais potencias passavam por uma recess&#227;o severa e o centro da economia dava sinais fortes de deslocamento.</p><p>Em 2009, finalmente, os quatro pa&#237;ses realizaram o que foi chamado de Primeira C&#250;pula Oficial do BRIC, que aconteceu na R&#250;ssia. Foi quando a sigla deixou oficialmente de ser um conceito dentro do mercado de investimentos e se tornou uma articula&#231;&#227;o pol&#237;tica dos pa&#237;ses integrantes. As pautas naquele momento eram centralizadas em uma busca reformas em institui&#231;&#245;es financeiras, maior representa&#231;&#227;o no FMI (Fundo Monet&#225;rio Internacional) e o in&#237;cio de uma coopera&#231;&#227;o econ&#244;mica, formando uma base para o que entendemos como BRICS atualmente. Em dezembro de 2010 a &#193;frica do Sul foi convidada a entrar na c&#250;pula, protagonizando uma ades&#227;o que, al&#233;m de ampliar o bloco para outro continente e refor&#231;ar ainda mais a narrativa de representa&#231;&#227;o no sul global, acrescentou o &#8220;S&#8221; de <em>South Africa</em> ao nome que estamos acostumados a ver hoje.</p><p>Em sua configura&#231;&#227;o final, o BRICS com qual lidamos atualmente n&#227;o se encaixa no que entendemos como alian&#231;a militar, nem como um mercado comum ou uma uni&#227;o pol&#237;tica formal. Ele &#233;, antes de tudo, um f&#243;rum estrat&#233;gico de coordena&#231;&#227;o entre economias emergentes que desejam mais influ&#234;ncia na ordem internacional, funcionando como uma plataforma de articula&#231;&#227;o, barganha coletiva e coopera&#231;&#227;o estrat&#233;gica do que chamamos de Sul Global &#8212; conceito geopol&#237;tico que agrupa pa&#237;ses emergentes, em desenvolvimento e subdesenvolvidos. Sua estrutura atual conta com encontros em c&#250;pulas anuais com Chefes de Estado, reuni&#245;es ministeriais frequentes, grupos t&#233;cnicos de trabalho e tamb&#233;m possui institui&#231;&#245;es pr&#243;prias em vigor, como o Novo Banco de Desenvolvimento, criado em 2014 com o objetivo de financiar projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustent&#225;vel. </p><p>Hoje, sua agenda gira em torno de tr&#234;s eixos principais: redistribui&#231;&#227;o da governan&#231;a global; amplia&#231;&#227;o do com&#233;rcio em moedas locais e coopera&#231;&#227;o estrat&#233;gica em &#225;reas como energia, tecnologia e sistemas de pagamento. Para amplificar o alcance de suas articula&#231;&#245;es, em 2023 foi anunciada a entrada de seis novos pa&#237;ses ao grupo: Egito; Ir&#227;; Emirados &#193;rabes Unidos; Eti&#243;pia; Ar&#225;bia Saudita e Argentina &#8212; e uma posterior ades&#227;o da Indon&#233;sia em 2025. E sim, &#224; revelia das expectativas, havia espa&#231;o para a amb&#237;gua rela&#231;&#227;o de rivalidade e parceria que temos com nossos irm&#227;os latinos; o convite havia sido aceito pela Argentina antes da mudan&#231;a de governo em 2023. Contudo, por sua postura abertamente pr&#243;&#8212;Estados Unidos e pr&#243;-mercado, a ideia de entrar no BRICS n&#227;o condizia com o pensamento ideol&#243;gico de Javier Milei, este que moldou seu discurso pol&#237;tico com forte defesa ao liberalismo econ&#244;mico, ao alinhamento com os Estados Unidos e cr&#237;ticas abertas a regimes como China e R&#250;ssia. </p><p>Como o BRICS inclui pot&#234;ncias que frequentemente se colocam como contraponto &#224; ordem liderada por Washington, a ades&#227;o significaria um afastamento simb&#243;lico do eixo ocidental, um ato desleal ou ao menos contradit&#243;rio. Milei defende a dolariza&#231;&#227;o da economia argentina como forma de conter a infla&#231;&#227;o do pa&#237;s e estabilizar o sistema monet&#225;rio, por mais que isso signifique subordina&#231;&#227;o &#225; economia estadunidense. O debate predominante dentro do BRICS, por outro lado, envolve justamente a redu&#231;&#227;o da depend&#234;ncia do d&#243;lar e a amplia&#231;&#227;o do uso de moedas locais no com&#233;rcio internacional. Entrar no bloco enquanto se prop&#245;e adotar o d&#243;lar como moeda dom&#233;stica criaria uma incoer&#234;ncia estrat&#233;gica dif&#237;cil de sustentar para a Argentina. A recusa deixou mais evidente o peso pol&#237;tico que o BRICS exerce enquanto obst&#225;culo &#225; perpetua&#231;&#227;o da hegemonia estadunidense, e a posi&#231;&#227;o do presidente argentino foi firme: priorizar a aproxima&#231;&#227;o com o eixo liderado pelos Estados Unidos, em vez de participar de um grupo que busca reformar ou relativizar essa estrutura. </p><p>Os pa&#237;ses que de fato integraram o grupo, em contrapartida, tamb&#233;m sabiam exatamente o que estavam fazendo ao aceitar o convite. Para Estados como Ar&#225;bia Saudita, Ir&#227; e Emirados &#193;rabes Unidos, a ades&#227;o significa, principalmente, ampliar capacidade de manobra internacional. Isto &#233;, s&#227;o economias que dependem fortemente da exporta&#231;&#227;o de energia e, historicamente, operam dentro de uma ordem financeira estruturada em torno do d&#243;lar, independente de com qual pa&#237;s estejam negociando. Participar do BRICS abre espa&#231;o para diversificar parceiros, negociar em outras moedas e reduzir vulnerabilidades &#225; press&#245;es pol&#237;ticas externas. S&#227;o pa&#237;ses que tamb&#233;m se interessam pela independ&#234;ncia monet&#225;ria. Por outro lado, no caso do Egito e da Eti&#243;pia h&#225; tamb&#233;m um c&#225;lculo de desenvolvimento muito claro: o acesso ao Novo Banco de Desenvolvimento representa possibilidade concreta de financiamento para infraestrutura. Isso &#233; algo que os interessa, e a possibilidade de conseguir financiamento sem as mesmas condicionalidades pol&#237;ticas tradicionalmente associadas a institui&#231;&#245;es como FMI ou Banco Mundial &#8212; institui&#231;&#245;es implicitamente subordinadas ao governo norte-americano &#8212; &#233; irrecus&#225;vel.</p><p>Al&#233;m disso, integrar um bloco que reivindica maior protagonismo do Sul Global fortalece a posi&#231;&#227;o diplom&#225;tica de ambos e os torna mais fortes diante de poss&#237;veis amea&#231;as, fortalecer rela&#231;&#245;es em um mundo multipolar &#233; algo necess&#225;rio. Muitos deles enfrentam san&#231;&#245;es, instabilidade regional ou necessidade de investimentos massivos; o BRICS oferece uma rede alternativa de coopera&#231;&#227;o com maior capacidade de barganha coletiva e, principalmente, a chance de participar da constru&#231;&#227;o de um sistema internacional menos concentrado. Com a entrada de grandes produtores de petr&#243;leo do Oriente M&#233;dio, o bloco passa tamb&#233;m a concentrar uma parcela ainda maior da produ&#231;&#227;o energ&#233;tica mundial, algo crucial quando o objetivo &#233; ampliar o com&#233;rcio em moedas locais ou testar alternativas ao d&#243;lar no mercado de energia. Quanto mais o BRICS integra exportadores centrais, maior seu peso nas negocia&#231;&#245;es globais e beneficiados saem tamb&#233;m os membros iniciais, que buscavam isso h&#225; muito tempo.</p><p>Outro adendo muit&#237;ssimo importante: h&#225; algo que n&#227;o se pode nunca deixar de considerar quando se fala de Egito, e este algo chama-se Canal de Suez. Este <em>chokepoint</em> &#233; uma das infraestruturas mais estrat&#233;gicas do planeta: conecta o Mar Mediterr&#226;neo ao Mar Vermelho e, na pr&#225;tica, liga a Europa &#224; &#193;sia sem que navios precisem contornar toda a &#193;frica pelo Cabo da Boa Esperan&#231;a. Foi uma obra que revolucionou o com&#233;rcio transoce&#226;nico, conseguindo reduzir tempo, custo e risco log&#237;stico nas exporta&#231;&#245;es. Aproximadamente 10% a 15% do com&#233;rcio mundial passa por ali todos os dias, incluindo petr&#243;leo, g&#225;s natural liquefeito, gr&#227;os, bens industriais e componentes tecnol&#243;gicos. O que acontece &#233; que essa centralidade, direta ou indiretamente, d&#225; ao Egito um poder muito amb&#237;guo, at&#233; porque o canal &#233; administrado pelo pr&#243;prio Estado eg&#237;pcio. O governo arrecada bilh&#245;es de d&#243;lares anuais em taxas de passagem e, para uma economia que enfrenta desafios fiscais e cambiais, essa receita &#233; vital, uma das principais fontes de entrada de moeda estrangeira no pa&#237;s.</p><p>Todavia, o controle de um ponto de estrangulamento t&#227;o importante confere &#225; pol&#237;tica interna eg&#237;pcia um peso pol&#237;tico perigoso. Em momentos de crise, como guerras no Oriente M&#233;dio ou tens&#245;es no Mar Vermelho, o tr&#225;fego pelo canal pode ser afetado alterando pre&#231;os globais de energia e cadeias de suprimento. Mesmo sem obstruir o canal, o simples risco de instabilidade na regi&#227;o j&#225; impacta mercados internacionais. As pot&#234;ncias globais est&#227;o sempre atentas &#225; vulnerabilidade pol&#237;tica no Egito, visto que qualquer coisa pode afetar o fluxo daquelas &#225;guas e isso afeta o fluxo das exporta&#231;&#245;es. Ao integrar este pa&#237;s, o bloco passa a incluir agente que controla um ponto sens&#237;vel para o com&#233;rcio, e por mais que isso n&#227;o signifique que o BRICS passa a comandar o canal, significa que parte da arquitetura log&#237;stica global est&#225;, institucionalmente, conectada a um membro do bloco. O Canal de Suez transforma o Egito em um ator imposs&#237;vel de ignorar.</p><p>S&#227;o mudan&#231;as que marcam o in&#237;cio de uma nova fase da coopera&#231;&#227;o entre economias emergentes. A amplia&#231;&#227;o do BRICS consolida um projeto que passa a articular energia, rotas comerciais estrat&#233;gicas e alternativas financeiras dentro de uma mesma estrutura institucional. E, como voc&#234;s j&#225; devem supor, toda essa busca por autonomia incomoda muito. O BRICS desafia diretamente o eixo liderado pelos Estados Unidos e toda a centralidade financeira do Ocidente. E, embora n&#227;o possua poder suficiente para substitui-la no curto prazo, ele introduz alternativas &#225; ordem atual, causando desequil&#237;brios vis&#237;veis no mundo como conhecemos. O que para n&#243;s significa multipolaridade, para os Estados Unidos &#233; o caso de uma afronta &#8212; e sua forma de retalia&#231;&#227;o j&#225; nos &#233; conhecida h&#225; muito tempo.</p><p>Vejam o que aconteceu em julho de 2025, quando o governo norte-americano anunciou um pacote de tarifas adicionais de 50% sobre uma por&#231;&#227;o de produtos brasileiros. A justificativa envolvia quest&#245;es ileg&#237;timas, consideradas at&#233; abusivas por muitos analistas: pautava-se principalmente em quest&#245;es da pol&#237;tica interna brasileira &#8212; coisas como o pol&#234;mico julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro &#8212; e alegadas comerciais totalmente incoerentes. A desculpa de proteger a balan&#231;a comercial norte-americana se mostrou vazia, visto que os Estados Unidos mantinham um est&#225;vel super&#225;vit comercial com o Brasil desde o ano de 2009 &#8212; isto &#233;, eles exportam para o nosso pa&#237;s muito mais do que importam dele h&#225; mais de dezesseis anos. S&#227;o fatos que demonstram que a real motiva&#231;&#227;o de Donald Trump com aquele o tarifa&#231;o foi pol&#237;tica, n&#227;o econ&#244;mica. Antes disso, o mesmo j&#225; havia feito amea&#231;as diretas de taxar os membros do BRICS em at&#233; 100%, uma tentativa clara de conten&#231;&#227;o &#225; alian&#231;as rivais e reafirma&#231;&#227;o da depend&#234;ncia econ&#244;mica que esses pa&#237;ses mant&#233;m sobre ele. E o Brasil, presidente do BRICS durante aquele ano, tornou-se um alvo f&#225;cil de entrar em foco. </p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://girlsupworld.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/girlsupworld.substack.com/subscribe"><span>Subscreva agora</span></a></p><p></p><p><strong>O projeto do BRICS Pay, o protagonismo brasileiro e o contexto pol&#237;tico que os circunda.</strong></p><p>N&#227;o &#233; de hoje que as pr&#225;ticas econ&#244;micas brasileiras causam inc&#244;modo em Washington. Em 2020, quando o Banco Central do Brasil lan&#231;ou o Pix como um sistema de pagamentos instant&#226;neos dom&#233;sticos, a economia brasileira tem se mostrado mais independente. O advento desse novo m&#233;todo de pagamento reduz drasticamente a intermedia&#231;&#227;o de bandeiras internacionais como Visa e Mastercard; diminui a depend&#234;ncia brasileira de um sistema financeiro dolarizado e cria uma infraestrutura estatal altamente eficiente, que pode ser exportada como modelo. O Pix costuma ser citado por analistas estrangeiros como um dos mais bem sucedidos exemplos de implementa&#231;&#227;o de pagamentos instant&#226;neos no mundo.</p><p>Relat&#243;rios de institui&#231;&#245;es financeiras enfatizam a ades&#227;o massiva que o Pix atingiu em t&#227;o pouco tempo, muito mais r&#225;pido que sistemas equivalentes em economias desenvolvidas. E, para muito al&#233;m do volume das transa&#231;&#245;es, o que tamb&#233;m impressiona &#233; a penetra&#231;&#227;o social que o Pix conseguiu atingir, um m&#233;todo que tornou-se aceito e usado tamb&#233;m por pequenos comerciantes e pela popula&#231;&#227;o de baixa renda de modo org&#226;nico. Para falar sobre isso &#233; preciso contextualizar o fato de que, em muitos outros pa&#237;ses, sistemas de pagamentos digitais evolu&#237;ram de forma completamente fragmentada, liderados por bancos privados e empresas de tecnologia. O Pix, por outro lado, foi formulado, criado e operado pelo Banco Central do Brasil, algo que demonstra autonomia econ&#244;mica, nacional e tecnol&#243;gica.</p><p>Em reportagens da imprensa internacional, como visto no jornal franc&#234;s <em>Le Monde, </em>especialistas destacaram tens&#245;es comerciais significativas que o sucesso do Pix gerou e enfatizaram como competi&#231;&#227;o direta a grandes plataformas americanas de pagamento &#8212; ao ponto de cr&#237;ticos estadunidenses o citarem como &#8220;pr&#225;tica desleal&#8221;. Quando o mesmo Brasil que, desde 2020, vem afirmando sua infraestrutura p&#250;blica para o mundo assume a presid&#234;ncia do BRICS, a leitura assume outra escala. O pa&#237;s que ocupa essa posi&#231;&#227;o dentro do bloco define prioridades, pauta debates e organiza a agenda estrat&#233;gica ao longo do ano, e essa administra&#231;&#227;o nas m&#227;os de uma economia que j&#225; pratica a desdolarizac&#227;o &#233; algo a se observar. Ideias que j&#225; eram defendidas por membros como a R&#250;ssia desde 2014 &#8212; quando as primeiras tens&#245;es com a regi&#227;o da Crimeia surgiram e o pa&#237;s sofreu san&#231;&#245;es econ&#244;micas &#8212; puderam ocupar mais espa&#231;o. </p><p>A China tamb&#233;m j&#225; vinha desenvolvendo seu pr&#243;prio sistema de pagamentos transfronteiri&#231;os, o chamado CIP<em> (Cross-Border Interbank Payment System), </em>que j&#225; funciona como alternativa &#225; transferencias em d&#243;lar e at&#233; apresenta infraestrutura significativa em termos de volume financeiro &#8212; por mais que ainda n&#227;o ameace ultrapassar o padr&#227;o SWIFT de transferencias em d&#243;lar. &#201; uma coaliz&#227;o onde o debate sobre uma forma de pagamentos exclusiva para o BRICS sairia do papel a qualquer momento. E o momento, amadas leitoras, &#233; agora: o que foi chamado por eles de BRICS Pay j&#225; possu&#237; site, aplicativo e um sistema operante em teste reais. A proposta discutida nunca foi criar algo como uma moeda &#250;nica, mas sim permitir liquida&#231;&#227;o direta em moedas locais; introduzir sistemas nacionais de pagamento e criar uma plataforma onde os membros poderiam ser compensados de forma pr&#225;tica. </p><p>Suponha que lidamos com uma exporta&#231;&#227;o de pa&#237;ses membros, como &#205;ndia e Brasil. Uma transa&#231;&#227;o internacional comum funciona hoje em d&#243;lar, ou seja, a empresa brasileira paga em reais; o banco brasileiro converte para d&#243;lar e esse dinheiro passa por um banco correspondente nos Estados Unidos para depois ser convertido de d&#243;lar para r&#250;pia e recebido por um banco indiano. Um processo que demanda institui&#231;&#245;es intermedi&#225;rias que lucram em cima de transa&#231;&#245;es em que nem as envolvem diretamente. Se a mesma opera&#231;&#227;o ocorresse dentro de uma infraestrutura pr&#243;pria do BRICS, o pagamento poderia ser registrado diretamente entre os membros da plataforma; o banco brasileiro debitaria o valor em reais e o banco indiano receberia o equivalente em r&#250;pias, sem depender de convers&#245;es em d&#243;lar e poupando-se de pagar taxas altas por elas.    </p><p>A comunica&#231;&#227;o entre os bancos e a liquida&#231;&#227;o final do pagamento aconteceriam fora da l&#243;gica atual de transa&#231;&#245;es monet&#225;rias e em uma escala que engloba todos os novos pa&#237;ses membros. Lembrem-se, estamos falando de um BRICS que hoje inclui grandes exportadores de petr&#243;leo, commodities agr&#237;colas, minerais estrat&#233;gicos e de tantos outros produtos. A pr&#243;pria China, grande exportadora de tecnologia, quando opera com institui&#231;&#245;es que n&#227;o est&#227;o integradas ao CIP, precisa utilizar os m&#233;todos tradicionais. Trilh&#245;es de d&#243;lares deixariam de sequer serem emitidos se o BRICS Pay se consolidasse como padr&#227;o de pagamento entre os membros do bloco. Ainda sim, &#233; importante ressaltar que o que est&#225; em jogo n&#227;o &#233; uma mudan&#231;a brusca a curto prazo, mas sim a possibilidade de deslocamento gradual do eixo financeiro que o mundo est&#225; acostumado. E, principalmente, de um reposicionamento dos pap&#233;is na din&#226;mica da economia global, onde pa&#237;ses emergentes assumem o protagonismo.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://girlsupworld.substack.com/p/brics-pay-entenda-a-ameaca-a-hegemonia/comments&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Deixe um coment&#225;rio&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/girlsupworld.substack.com/p/brics-pay-entenda-a-ameaca-a-hegemonia/comments"><span>Deixe um coment&#225;rio</span></a></p><p></p><p><strong>O funcionamento em sua fase inicial, proje&#231;&#245;es para o futuro e poss&#237;veis consequ&#234;ncias. </strong></p><p>Nos dias de hoje, esse sistema ainda &#233; um tanto quanto prematuro, e causa d&#250;vidas em rela&#231;&#227;o ao seu funcionamento. Sabemos que &#233; uma tecnologia 100% baseada em blockchain e que age independentemente da rede de comunica&#231;&#227;o financeira SWIFT &#8212; utilizada na maioria das transa&#231;&#245;es de exporta&#231;&#227;o para emitir mensagens financeiras para bancos em pagamentos internacionais. Em termos pr&#225;ticos, o blockchain &#233; uma tecnologia que registra essas transa&#231;&#245;es de forma descentralizada, segura e transparente. O exemplo mais famoso de seu uso &#233; o Bitcoin, projeto de criptomoeda que j&#225; buscava movimento de capital sem depender de institui&#231;&#245;es intermedi&#225;rias. </p><p>O BRICS Pay, por outro lado, este que voc&#234; j&#225; pode encontrar na sua loja de aplicativos, n&#227;o funciona como banco, nem como moeda ou criptomoeda. Fora das din&#226;micas de exporta&#231;&#245;es e aplicada ao cidad&#227;o comum, a experi&#234;ncia de utiliza-lo ainda em seu in&#237;cio tende a ser semelhante a um app de carteira digital. Se hoje voc&#234; viajar para outro pa&#237;s do BRICS, por exemplo, voc&#234; poderia pagar a conta de um restaurante em reais, utilizando um QR code como o do Pix. O restaurante, por sua vez, receberia a quantia em moeda local por meio de uma convers&#227;o autom&#225;tica realizada pelo aplicativo. A princ&#237;pio, qualquer pessoa poderia utiliza-lo, desde que o sistema esteja ativo no seu pa&#237;s e integrado ao sistema financeiro local.</p><p>Imagine a forma como isso facilitaria pagamentos transnacionais, caso o BRICS se expanda para mais pa&#237;ses. Tudo isso de uma forma a conectar sistemas nacionais de transa&#231;&#245;es, impulsionando ainda mais a independ&#234;ncia monet&#225;ria do bloco. O app facilita o turismo e o com&#233;rcio entre pa&#237;ses membros, permite transfer&#234;ncias entre pessoas em diferentes pa&#237;ses e reduz custos com convers&#227;o cambial e intermedi&#225;rios. Contudo, um poss&#237;vel impacto real na vida cotidiana do cidad&#227;o comum depende principalmente de duas coisas: ado&#231;&#227;o em massa e integra&#231;&#227;o com sistemas internacionais. Torna-se algo nichado se for aceito por poucos estabelecimentos e institui&#231;&#245;es. Uma integra&#231;&#227;o ampla o tornaria t&#227;o comum quanto fazer um Pix em terras brasileiras.</p><p>H&#225; articula&#231;&#245;es pol&#237;ticas poss&#237;veis de incorporar nesse processo, estrat&#233;gias semelhantes ao que tem sido feito aqui desde 2020. Vejam: a ades&#227;o ao Pix foi obrigat&#243;ria para bancos e grandes institui&#231;&#245;es financeiras que operam em territ&#243;rio brasileiro e se beneficiam do nosso mercado consumidor. Em um arranjo semelhante, o BRICS poderia fazer algo para atrair essas companhias, como condicionar algo como um acesso privilegiado aos mercados internos dos pa&#237;ses membros, em troca de integra&#231;&#227;o com a infraestrutura do BRICS Pay, ou medidas parecidas. N&#227;o se trata de impor uma substitui&#231;&#227;o imediata aos sistemas tradicionais &#8212; isso apenas afastaria pa&#237;ses e institui&#231;&#245;es que encontram-se mais subordinados ao d&#243;lar &#8212;, mas sim criar incentivos regulat&#243;rios e comerciais que tornassem a ades&#227;o progressivamente vantajosa. Pol&#237;ticas coordenadas de redu&#231;&#227;o de taxas, garantias cambiais e campanhas institucionais conjuntas poderiam replicar, em escala internacional, a l&#243;gica que tornou o Pix dominante: obrigatoriedade estrat&#233;gica combinada com uma vantagem econ&#244;mica clara. </p><p>O BRICS tem tecnologia, experi&#234;ncia e recursos para fazer isso. O que O&#8217;Naill viu nos membros iniciais continua em desenvolvimento e crescimento constante a todo momento. E como todos os ciclos hegem&#244;nicos na hist&#243;ria da humanidade, a posi&#231;&#227;o dos Estados Unidos tende a entrar em processo de decl&#237;nio com o tempo, acontece conforme a hist&#243;ria ensina. Isso n&#227;o significa necessariamente que o BRICS vai estar, de fato, ocupando essa posi&#231;&#227;o durante as pr&#243;ximas gera&#231;&#245;es, mas demonstra que esses pa&#237;ses s&#227;o agentes relevantes para a conclus&#227;o desse ciclo. Eles s&#227;o sintomas dessa mudan&#231;a e a aceleram intencionalmente. Estamos presenciando a hist&#243;ria acontecer e seria muito interessante que acompanh&#225;ssemos de perto os pr&#243;ximos passos do BRICS e, principalmente, do nosso Brasil. Espero ter conseguido ser &#250;til para voc&#234;s com esse artigo, meninas! Lembram-se que estou sempre dispon&#237;vel para tirar toda e qualquer d&#250;vida sobre o assunto. At&#233; a pr&#243;xima!</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Sistema Tributário Brasileiro: Para onde vão os nossos impostos?]]></title><description><![CDATA[Um breve guia sobre Taxas, Impostos e Contribui&#231;&#245;es no Brasil.]]></description><link>https://girlsupworld.substack.com/p/sistema-tributario-brasileiro-para</link><guid isPermaLink="false">https://girlsupworld.substack.com/p/sistema-tributario-brasileiro-para</guid><dc:creator><![CDATA[Girls Up World]]></dc:creator><pubDate>Thu, 11 Dec 2025 21:05:29 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/53215da3-258b-4961-8ebf-54653e9f6387_736x512.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Quando falamos sobre pol&#237;tica ou economia interna, poucas quest&#245;es geram tantas d&#250;vidas e opini&#245;es quanto os impostos. Considerando o nosso conhecimento sobre o tema amplo ou distante, &#233; muito comum que tenhamos bastante a dizer sobre a realidade tribut&#225;ria em que estamos inseridos, sobre o modelo econ&#244;mico que o nosso pa&#237;s escolheu e os servi&#231;os p&#250;blicos que oferecemos. Vivemos hoje em um contexto geopol&#237;tico onde as pol&#237;ticas sociais e as neoliberais permanecem como antagonistas inconcili&#225;veis em nossas ideias, opostas como esquerda e direita. E, dentro desse campo de guerra, a tributa&#231;&#227;o nunca deixar&#225; de ser assunto recorrente. </p><p>Os tributos existem h&#225; mil&#234;nios e sempre tiveram a fun&#231;&#227;o de financiar as despesas e atividades do governo central. As trocas entre Estado e cidad&#227;o foram necess&#225;rias desde as nossas civiliza&#231;&#245;es mais antigas e, at&#233; mesmo antes do dinheiro ser o que &#233; hoje, os tributos eram cobrados em forma de alimentos, gr&#227;os ou gados. De forma geral, a l&#243;gica sempre foi de que det&#233;m os recursos deve contribuir para que o Estado funcione; o que evoluiu com o tempo foi o modelo, a forma de cobran&#231;a e, principalmente, a justificativa. Com o surgimento dos Estados modernos, os tributos passaram a financiar servi&#231;os essenciais como sa&#250;de, educa&#231;&#227;o, desenvolvimento urbano e infraestrutura. Atualmente eles tamb&#233;m possuem uma fun&#231;&#227;o extra tribut&#225;ria, sendo usados como ferramentas para promover a justi&#231;a social dentro do sistema capitalista.</p><p>No entanto, n&#243;s brasileiros, sabemos mais do que ningu&#233;m que essa historia n&#227;o &#233; executada sob a mesma justi&#231;a elegante que aparece no papel. Embora a nossa carga tribut&#225;ria, representando cerca de 33% do nosso PIB, esteja abaixo da m&#233;dia de muitos pa&#237;ses da OCDE (Organiza&#231;&#227;o para a Coopera&#231;&#227;o e Desenvolvimento Econ&#244;mico), o que faz o Brasil se destacar na organiza&#231;&#227;o &#233; um motivo nada admir&#225;vel: o baix&#237;ssimo retorno da tributa&#231;&#227;o em termos de bem-estar para a popula&#231;&#227;o. Ficamos sempre em &#250;ltimo lugar em rankings que cruzam a carga tribut&#225;ria e o IDH (&#205;ndice de Desenvolvimento Humano) dos pa&#237;ses. E como cidad&#227;os, devemos questionar isso sempre que poss&#237;vel, sempre que nos for v&#225;lido. </p><p>Entretanto, muito antes de debatermos sobre a inefici&#234;ncia estatal em que vivemos, cabe tamb&#233;m a n&#243;s conhecermos o sistema que nos rege. Minha inten&#231;&#227;o hoje &#233; dar um pouco disso a voc&#234;s explicando quais s&#227;o as formas de tributa&#231;&#227;o em vigor no Brasil, para depois poder refletir um pouco sobre elas e seus adendos pol&#237;ticos ao final do artigo. A maioria do nosso p&#250;blico &#233; adolescente e ainda est&#225;, assim como n&#243;s, moldando sua percep&#231;&#227;o sobre o mundo e construindo uma opini&#227;o pol&#237;tica. Esse &#233; um tema extremamente importante para se dominar e nos acompanhar&#225; durante toda a vida.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://girlsupworld.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/girlsupworld.substack.com/subscribe"><span>Subscreva agora</span></a></p><p>Na Rep&#250;blica Federativa do Brasil, nossa p&#225;tria amada, quem cuida da fiscaliza&#231;&#227;o, cobran&#231;a e administra&#231;&#227;o da maior parte dos tributos federais &#233; a <strong>Receita Federal do Brasil (RFB)</strong>. Ela &#233; a porta de entrada dos recursos que financiam o Estado, desde os impostos que pagamos at&#233; as contribui&#231;&#245;es que sustentam a previd&#234;ncia e a seguridade social. Depois de apurados, o gerenciamento desses valores &#233; feito pelo <strong>Tesouro Nacional</strong>, que os direciona para o que chamamos de <strong>Receita Geral da Uni&#227;o, </strong>um grande caixa central do governo federal onde tudo &#233; reunido e organizado antes de ser distribu&#237;do para as &#225;reas p&#250;blicas que precisam ser financiadas. &#201; desse caixa que saem os recursos para pol&#237;ticas p&#250;blicas, manuten&#231;&#227;o da m&#225;quina p&#250;blica, investimentos e os repasses obrigat&#243;rios para estados e munic&#237;pios.</p><p>O Tesouro Nacional &#233;, portanto, o &#243;rg&#227;o que gerencia o fluxo de caixa da Uni&#227;o, funcionando como o gestor financeiro e cont&#225;bil do governo. Algo importante a ser ressaltado &#233; que esse &#243;rg&#227;o n&#227;o possui poder decisivo: o poder de decis&#227;o est&#225; com os parlamentares, os ministros, deputados e, &#233; claro, com o presidente. Este &#243;rg&#227;o &#233; apenas o respons&#225;vel t&#233;cnico por controlar, pagar e registrar exatamente como esse dinheiro p&#250;blico ser&#225; gasto, garantindo a organiza&#231;&#227;o das contas do pa&#237;s: or&#231;amentos, sal&#225;rios de servidores, emendas parlamentares de deputados&#8230; coisas do tipo. E &#233; l&#225; onde est&#227;o nossos t&#227;o falados, t&#227;o pol&#234;micos e t&#227;o question&#225;veis impostos. H&#225; muito o que ser dito sobre eles, ent&#227;o que comecemos pelo &#243;bvio: a cl&#225;ssica configura&#231;&#227;o de divis&#227;o em federal, estadual e municipal.</p><p><strong>Principais Impostos Federais  </strong></p><p>O termo &#8220;imposto&#8221; diz respeito a qualquer tributo que voc&#234; paga sem uma contrapresta&#231;&#227;o direta. Ou seja, voc&#234; n&#227;o sabe exatamente para que esse dinheiro ser&#225; usado mas, teoricamente, ele retorna para voc&#234; em forma de servi&#231;os p&#250;blicos. Ao pagar um imposto voc&#234; est&#225; abastecendo a m&#225;quina p&#250;blica, e assim os servi&#231;os p&#250;blicos que voc&#234; acessa podem funcionar. Na esfera federal, os impostos arrecadados servem para financiar servi&#231;os p&#250;blicos nacionais. No nosso caso, eles mant&#233;m, principalmente, os seguintes sistemas:</p><ul><li><p><strong>SUS</strong> (nosso Sistema &#218;nico de Sa&#250;de, em uma escala nacional); </p></li><li><p><strong>Previd&#234;ncia Social</strong> (aposentadorias, pens&#245;es e aux&#237;lios do INSS);  </p></li><li><p><strong>Educa&#231;&#227;o Federal</strong> (diz respeito &#225; universidades, institutos federais); </p></li><li><p><strong>Infraestrutura nacional</strong> (rodovias, portos, energia) </p></li><li><p> <strong>Programas sociais</strong> (Bolsa Fam&#237;lia, seguro-desemprego, etc).</p></li></ul><p>Temos uma lista relativamente longa dos impostos que sustentam essas coisas. Todos eles possuem um c&#225;lculo que eu, honestamente, n&#227;o consigo trazer a voc&#234;s sem que o artigo tome um rumo muito mais econ&#244;mico do que pol&#237;tico. Se for do interesse de voc&#234;s, posso trazer algo parecido depois, mas hoje vamos focar em sua funcionalidade. S&#227;o alguns deles:</p><ul><li><p><strong>IRPF</strong> (Imposto de Renda Pessoa F&#237;sica) &#8211; Acredito que o mais famoso, n&#227;o? Incide diretamente sobre o que cada pessoa recebe, seja sal&#225;rio, aluguel, lucros ou outros rendimentos. Atualmente, com a nova reforma em curso, a proposta &#233; que quem recebe at&#233; R$ 5.000 por m&#234;s fique isento dele a partir de 2026, mas isso ainda n&#227;o entrou vigor. Por ser um dos nossos poucos impostos com al&#237;quotas crescentes por faixa, o IRPF &#233; considerado progressivo: teoricamente, quem ganha mais deveria contribuir proporcionalmente mais para a Uni&#227;o. Contudo, devido &#224;s dedu&#231;&#245;es e algumas isen&#231;&#245;es existentes, o IRPF acaba perdendo um pouco desse poder redistributivo que o Imposto de Renda tem em pa&#237;ses mais desenvolvidos.</p></li><li><p><strong>IRPJ</strong> (Imposto de Renda Pessoa Jur&#237;dica) &#8211; Este &#233; sobre o lucro das empresas domiciliadas no Brasil, sejam elas com sede principal aqui ou com uma sede administrativa registrada no pa&#237;s. A regra geral do Imposto de Renda da Pessoa Jur&#237;dica &#233; uma al&#237;quota b&#225;sica de 15% sobre seu lucro, e quando esse valor ultrapassa um determinado limite, o excedente &#233; taxado com mais 10%. Geralmente, o imposto &#233; calculado ou por Lucro Presumido ou por Lucro Real. Na primeira forma, o governo presume o lucro do neg&#243;cio com base no tipo de atividade, assim n&#227;o &#233; necess&#225;rio comprovar exatamente o valor; basta seguir o percentual definido por lei. No segundo exemplo, a empresa deve calcular o lucro efetivamente obtido e pagar diretamente a al&#237;quota; essa forma de declara&#231;&#227;o &#233; obrigat&#243;ria para empresas com receita anual maior que um certo limite. </p></li><li><p><strong>IPI</strong> (Imposto sobre Produtos Industrializados) - Esse imposto incide sobre produtos nacionais e importados, e quem deve pagar diretamente ao governo s&#227;o ind&#250;strias e importadores. Ele &#233; cobrado sobre o valor fiscal da mercadoria, que al&#233;m do pre&#231;o inclui fretes, embalagens e tudo o que envolve uma taxa adicional. &#201; considerado um imposto indireto, visto que n&#227;o &#233; cobrado ao cidad&#227;o comum mas est&#225; incluso no pre&#231;o de tudo o que consumimos de empresas com CNPJ &#8212; e elas o arrecadam por meio do nosso consumo. Tudo o que compramos t&#234;m um pouquinho desse aqui, direta ou indiretamente. A vendinha na esquina da sua casa pode n&#227;o cobrar explicitamente esse imposto &#225; voc&#234;, mas o fornecedor que vendeu o produto a ela cobrou. E para ter lucro, ela te cobra um valor em cima desse produto que j&#225; chegou &#225;s m&#227;os dela tributado. Muito dif&#237;cil escapar desse aqui.</p></li><li><p><strong>IOF</strong> (Imposto sobre Opera&#231;&#245;es Financeiras) - Este imposto nos &#233; cobrado toda vez que fazemos opera&#231;&#245;es financeiras como investimentos, c&#226;mbio de moeda estrangeira, uso de cart&#245;es de cr&#233;dito internacionais ou contrata&#231;&#227;o de seguros. A al&#237;quota varia conforme o tipo de opera&#231;&#227;o e a decis&#227;o do governo, servindo tanto para arrecada&#231;&#227;o quanto como ferramenta de pol&#237;tica econ&#244;mica. Assim ele tem tamb&#233;m a fun&#231;&#227;o de controle pragm&#225;tico para a economia, pois a al&#237;quota pode ser rapidamente alterada por Decreto do Presidente &#8212; sem depender de aprova&#231;&#227;o do Congresso &#8212; para estimular ou frear a movimenta&#231;&#227;o de dinheiro quando for necess&#225;rio.</p></li></ul><p><strong>Principais Impostos Estaduais </strong></p><p>Esses impostos suprem as despesas do estado e financiam tudo o que &#233; de responsabilidade estadual. Em outras palavras, trata-se tamb&#233;m da sa&#250;de, da educa&#231;&#227;o, infraestrutura, mas de uma forma localizada e aplicada nas unidades federativas. Parte desses financiamentos v&#227;o para:</p><ul><li><p><strong>Educa&#231;&#227;o e sa&#250;de estadual</strong> &#8211; escolas, hospitais, universidades estaduais, laborat&#243;rios, programas de sa&#250;de p&#250;blica,</p></li><li><p><strong>Seguran&#231;a p&#250;blica</strong> &#8211; pol&#237;cia militar, bombeiros, sistemas de defesa civil.</p></li><li><p><strong>Infraestrutura e transporte</strong> &#8211; manuten&#231;&#227;o de estradas estaduais, rodovias e transporte p&#250;blico estadual.</p></li><li><p><strong>Administra&#231;&#227;o p&#250;blica</strong> &#8211; sal&#225;rios de servidores estaduais, pr&#233;dios e servi&#231;os administrativos.</p></li><li><p><strong>Programas sociais estaduais</strong> &#8211; bolsas, incentivos e programas locais de assist&#234;ncia social.</p></li></ul><p>Dentre os principais impostos estaduais, podemos citar:</p><ul><li><p><strong>ICMS </strong>(Imposto sobre Circula&#231;&#227;o de Mercadorias e Servi&#231;os) - Aposto que voc&#234; j&#225; viu esse em alguma compra online! Esse imposto atua sobre a circula&#231;&#227;o de mercadorias e sobre servi&#231;os de transporte interestadual e intermunicipal. &#201; outro imposto indireto, e ele n&#243;s &#233; cobrado explicitamente na maioria das vezes. &#201; o tributo estadual de maior peso na cadeia de consumo, com al&#237;quotas que variam por estado e por mercadoria. Esse dinheiro vai para a receita dos estados e 25% de todo o valor arrecadado &#233; obrigatoriamente repassado para a administra&#231;&#227;o dos munic&#237;pios, conforme determina a Constitui&#231;&#227;o Federal.</p></li><li><p><strong>IPVA </strong>(Imposto sobre a Propriedade de Ve&#237;culos Automotores) - Tributo estadual sobre a propriedade de ve&#237;culos, sem muito mist&#233;rio. A base de c&#225;lculo &#233; o valor venal do ve&#237;culo, estimado pelo pr&#243;prio governo com base em tabelas oficiais e caracter&#237;sticas como ano, marca e modelo. Ele &#233; pago anualmente pelos propriet&#225;rios e sua arrecada&#231;&#227;o &#233; dividida entre o estado e o munic&#237;pio onde o ve&#237;culo est&#225; registrado.</p></li><li><p><strong>ITCMD </strong>(Imposto sobre Transmiss&#227;o Causa Mortis e Doa&#231;&#227;o) - Este &#233; o imposto que se paga quando algu&#233;m recebe algo de valor de outra pessoa sem pagar por isso. Geralmente trata-se de uma heran&#231;a ou doa&#231;&#227;o. Quem paga &#233; quem ganhou ou herdou os bens, e cada estado decide sua al&#237;quota. A al&#237;quota m&#225;xima &#233; de 8% &#8212; um valor muito baixo se comparado a outros pa&#237;ses da OCDE, que possuem al&#237;quotas que chegam a  40% e 50%. Mas ainda sim, &#233; um instrumento de tributa&#231;&#227;o sobre patrim&#244;nio com um potencial progressivo, digamos. </p></li></ul><p><strong>Principais Impostos Municipais</strong></p><p>Tributos de uma escala bem menor, esses representam as despesas da prefeitura, e elas s&#227;o ainda mais localizadas. Suprem demandas de bairros, pra&#231;as, ruas&#8230; do funcionamento pleno de um munic&#237;pio, tais como:</p><ul><li><p><strong>Educa&#231;&#227;o e sa&#250;de municipais</strong> &#8211; postos de sa&#250;de, escolas p&#250;blicas municipais, transporte escolar, campanhas de vacina&#231;&#227;o, material did&#225;tico...</p></li><li><p><strong>Transporte e mobilidade urbana</strong> &#8211; nossos transportes p&#250;blicos, sinaliza&#231;&#227;o das ruas, manuten&#231;&#227;o e reforma de ruas e pra&#231;as.</p></li><li><p><strong>Limpeza urbana e coleta de lixo</strong> &#8211; saneamento b&#225;sico, limpeza de ruas.</p></li><li><p><strong>Seguran&#231;a municipal</strong> &#8211; guardas municipais, fiscaliza&#231;&#227;o de tr&#226;nsito, defesa civil.</p></li><li><p><strong>Administra&#231;&#227;o local</strong> &#8211; sal&#225;rios dos servidores municipais e funcionamento da prefeitura.</p></li><li><p><strong>Servi&#231;os culturais e esportivos</strong> &#8211; bibliotecas, centros culturais, esportes comunit&#225;rios.</p><p></p><p>Temos os seguintes impostos municipais relevantes a serem explicados:</p></li><li><p><strong>IPTU </strong>(Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana) - Sobre a propriedade imobili&#225;ria urbana. Uma casa, um terreno, um pr&#233;dio... im&#243;veis, de uma maneira geral. O que &#233; pago &#233; o valor venal do im&#243;vel &#8212;aquele mesmo esquema do IPVA &#8212;, e quem paga tamb&#233;m s&#227;o os propriet&#225;rios. Esse imposto vai para a receita municipal e retorna em servi&#231;os locais, como os citados acima.</p></li><li><p><strong>ISS </strong>(Imposto Sobre Servi&#231;os) - Tributo municipal que n&#227;o incide nem sobre a venda, nem sobre o consumo de produtos; mas sim sobre presta&#231;&#227;o de servi&#231;os listados na lei complementar (profiss&#245;es e empresas que trabalham com presta&#231;&#227;o de servi&#231;o). Dentre os pagantes do ISS, podemos citar advogados, m&#233;dicos, cabelereiros, donos de academias ou de empresas que n&#227;o sejam exclusivamente de vendas. Quem paga &#233; quem presta o servi&#231;o, e o valor, que vai para a receita municipal, varia de acordo com cada munic&#237;pio.</p></li><li><p><strong>ITBI </strong>(Imposto sobre Transmiss&#227;o de Bens Im&#243;veis) - Este &#233; o tributo municipal cobrado na compra e venda de im&#243;veis. A base de c&#225;lculo geralmente considera o maior valor entre o valor venal do im&#243;vel e o valor declarado na negocia&#231;&#227;o. Quem paga &#233; o comprador, e a arrecada&#231;&#227;o vai para a receita do munic&#237;pio, assim como nos outros tributos municipais.</p><p></p></li></ul><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://girlsupworld.substack.com/p/sistema-tributario-brasileiro-para/comments&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Deixe um coment&#225;rio&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:&quot;button-wrapper&quot;}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary button-wrapper" href="/__u/girlsupworld.substack.com/p/sistema-tributario-brasileiro-para/comments"><span>Deixe um coment&#225;rio</span></a></p><p><strong>Principais Contribui&#231;&#245;es</strong></p><p>As contribui&#231;&#245;es, apesar de tamb&#233;m serem obrigat&#243;rias, funcionam de um jeito diferente. Elas t&#234;m um destino espec&#237;fico e geralmente geram um benef&#237;cio individual ou setorial, um dinheiro que est&#225; indo diretamente para um determinado fundo e n&#227;o para o caixa geral. Diferente dos impostos, que entram no or&#231;amento geral do governo e podem ser usados em qualquer &#225;rea p&#250;blica, as contribui&#231;&#245;es s&#243; podem ser usadas para um objetivo determinado em lei. Ou seja, o dinheiro tem destino certo e n&#227;o pode ser desviado para outra fun&#231;&#227;o.</p><ul><li><p><strong>COFINS </strong>(Contribui&#231;&#227;o para o Financiamento da Seguridade Social) -<strong> </strong>&#201; uma contribui&#231;&#227;o cobrada sobre o faturamento das empresas, &#8212; ou seja, sobre tudo o que ela recebe pela venda de bens e servi&#231;os, antes de descontar custos, despesas e preju&#237;zos &#8212; e sua arrecada&#231;&#227;o vai quase toda para a seguridade social. A al&#237;quota da COFINS costuma ser de 7,6%, embora possa ser de 3% em alguns casos. Essa diferen&#231;a existe porque a forma de c&#225;lculo muda conforme o tipo de empresa, algo que envolve regras mais t&#233;cnicas sobre abatimentos e cr&#233;ditos. No geral, &#233; uma contribui&#231;&#227;o que incide sobre a receita das empresas e ajuda a financiar a seguridade social, mas assim como v&#225;rios tributos indiretos, parte desse custo acaba repassado ao consumidor final.</p></li><li><p><strong>INSS</strong> (Instituto Nacional do Seguro Social) - &#201; uma contribui&#231;&#227;o social obrigat&#243;ria para a maioria dos trabalhadores brasileiros. O objetivo dessa contribui&#231;&#227;o &#233; garantir ao contribuinte, e aos seus dependentes, acesso aos benef&#237;cios previdenci&#225;rios, como aposentadoria, aux&#237;lio-doen&#231;a, pens&#227;o por morte e outros. Quem paga o INSS depende do tipo de v&#237;nculo de trabalho: as empresas recolhem a contribui&#231;&#227;o dos seus empregados descontando-a de seu sal&#225;rio, enquanto trabalhadores aut&#244;nomos e facultativos s&#227;o respons&#225;veis por gerar e pagar a pr&#243;pria guia. Nesses casos, o trabalhador escolhe a al&#237;quota de acordo com o tipo de contribui&#231;&#227;o e com o valor que declara. Os valores arrecadados financiam o sistema de seguridade social do pa&#237;s, isso significa que o dinheiro que voc&#234; paga hoje enquanto trabalha garante os benef&#237;cios de quem est&#225; aposentado. E logo, sua contribui&#231;&#227;o assegura sua aposentadoria no futuro.</p></li><li><p><strong>PIS/PASEP </strong>(Programas de Integra&#231;&#227;o Social e Forma&#231;&#227;o do Patrim&#244;nio do Servidor) - S&#227;o contribui&#231;&#245;es tamb&#233;m cobradas sobre o faturamento de empresas. O PIS sendo para trabalhadores da iniciativa privada e o PASEP para servidores p&#250;blicos. A al&#237;quota de ambos costuma ser de 1,65%, embora possa ser de 0,65% em alguns casos, dependendo do tipo de empresa e de todas aquelas regras t&#233;cnicas de c&#225;lculo. Esses recursos financiam benef&#237;cios trabalhistas como seguro desemprego e o abono salarial.</p></li><li><p><strong>CSLL </strong>(Contribui&#231;&#227;o Social sobre o Lucro L&#237;quido) -<strong> </strong>Diferente das citadas anteriormente, a CSLL &#233; uma contribui&#231;&#227;o federal cobrada sobre o lucro l&#237;quido das empresas, n&#227;o sobre seu faturamento. Ela funciona como uma complementa&#231;&#227;o ao Imposto de Renda Pessoa Jur&#237;dica, por&#233;m com a mesma finalidade que as outras: nossa seguridade social. As al&#237;quotas costumam ser de 9% para empresas em geral e 15% para bancos e institui&#231;&#245;es financeiras.</p></li><li><p><strong>Sal&#225;rio Educa&#231;&#227;o - </strong>&#201; uma contribui&#231;&#227;o cobrada tamb&#233;m de empresas, que serve para financiar a educa&#231;&#227;o b&#225;sica p&#250;blica. O dinheiro vai para o FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educa&#231;&#227;o), que distribui recursos para os estados e munic&#237;pios investirem em merenda, transporte escolar, livros, programas educacionais e infraestrutura escolar. Especificamente para a educa&#231;&#227;o.</p></li><li><p><strong>CIDE </strong>(Contribui&#231;&#227;o de Interven&#231;&#227;o no Dom&#237;nio Econ&#244;mico) - &#201; uma contribui&#231;&#227;o federal usada pelo governo para regular setores espec&#237;ficos da economia, principalmente quando quer controlar pre&#231;os ou financiar pol&#237;ticas ligadas &#224;quele setor. Quem paga &#233; quem produz ou comercializa esses produtos e exemplo mais conhecido &#233; a CIDE-Combust&#237;veis, que incide sobre gasolina, diesel e derivados, e cuja arrecada&#231;&#227;o vai para coisas como infraestrutura de transportes, subs&#237;dios e estabiliza&#231;&#227;o de pre&#231;os. Em resumo, a CIDE &#233; um tributo usado como ferramenta econ&#244;mica: o governo cobra quando quer influenciar um mercado e direciona o dinheiro para a&#231;&#245;es relacionadas a ele.</p></li></ul><p>Conseguiram perceber certo um padr&#227;o sobre a maioria das contribui&#231;&#245;es? Elas costumam tirar dinheiro de empresas para depositar em demandas sociais. O Estado escolheu buscar os recursos necess&#225;rios para financiar seus instrumentos de bem-estar na atividade econ&#244;mica das empresas atuantes no pa&#237;s, cobrando contribui&#231;&#245;es sobre faturamento, receita e lucro. O que acontece &#233; que, no fim das contas, esse dinheiro n&#227;o sai s&#243; do bolso das empresas: parte significativa desses valores acaba repassada aos pre&#231;os e chega at&#233; a n&#243;s, mortais consumidores. &#201; um sistema que tenta financiar direitos sociais atrav&#233;s do setor produtivo, mas que tamb&#233;m cria distor&#231;&#245;es e desigualdades no caminho.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://girlsupworld.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/girlsupworld.substack.com/subscribe"><span>Subscreva agora</span></a></p><p><strong>Principais Taxas</strong></p><p>As taxas, comumente, s&#227;o tributos cobrados durante a presta&#231;&#227;o de servi&#231;os espec&#237;ficos, como a emiss&#227;o de documentos ou coleta de lixo, por exemplo. Enquanto impostos entram no or&#231;amento geral e contribui&#231;&#245;es financiam &#225;reas espec&#237;ficas com finalidades previamente definidas, as taxas s&#243; podem ser cobradas quando existe uma contrapresta&#231;&#227;o acontecendo. Ou seja, elas n&#227;o existem por si mesmas, dependem de algo que o poder p&#250;blico fez especificamente para voc&#234;. N&#227;o s&#227;o uma forma de arrecada&#231;&#227;o ampla nem um mecanismo de financiamento geral e servem mais para custear o servico oferecido.</p><p>Alguns exemplos importantes s&#227;o:</p><ul><li><p><strong>Taxa de Coleta de Lixo - </strong>Cobrada pelo munic&#237;pio para custear a coleta, o transporte e o tratamento de res&#237;duos s&#243;lidos. &#201; uma taxa local, j&#225; que a limpeza urbana &#233; uma fun&#231;&#227;o municipal. &#201; paga pelos moradores e propriet&#225;rios de im&#243;veis e varia de acordo com cada prefeitura.</p></li><li><p><strong>Taxa de Ilumina&#231;&#227;o P&#250;blica - </strong>Essa taxa tamb&#233;m &#233; municipal. Ela sustenta a instala&#231;&#227;o, manuten&#231;&#227;o e expans&#227;o da ilumina&#231;&#227;o das ruas, pra&#231;as e &#225;reas p&#250;blicas. Ainda que muitas vezes venha inclu&#237;da na conta de energia, ela n&#227;o &#233; um imposto. &#201; a taxa que permite manter a ilumina&#231;&#227;o funcionando nos bairros.</p></li><li><p><strong>Taxa de Licenciamento de Ve&#237;culos -</strong> Cobrada anualmente pelos estados, ela serve para custear o servi&#231;o de licenciamento e regulariza&#231;&#227;o de ve&#237;culos, garantindo que eles estejam autorizados a circular. &#201; um exemplo cl&#225;ssico de taxa: voc&#234; paga por um servi&#231;o espec&#237;fico realizado pelo Detran.</p></li><li><p><strong>Taxa de Fiscaliza&#231;&#227;o - </strong>Pode ser federal, estadual ou municipal, dependendo de quem presta o servi&#231;o. Ela existe quando o Estado fiscaliza algo que envolve seguran&#231;a, sa&#250;de p&#250;blica ou regulamenta&#231;&#227;o de atividades. Por exemplo, alvar&#225;s de funcionamento emitidos por prefeituras, fiscaliza&#231;&#227;o ambiental feita por estados ou fiscaliza&#231;&#227;o de vigil&#226;ncia sanit&#225;ria.</p></li><li><p><strong>Taxas Judici&#225;rias -</strong> S&#227;o cobradas quando algu&#233;m entra com um processo na Justi&#231;a, em todas as esferas. Elas ajudam a sustentar o funcionamento do sistema judici&#225;rio, que &#233; um servi&#231;o p&#250;blico. S&#243; s&#227;o cobradas porque h&#225; a presta&#231;&#227;o do servi&#231;o de an&#225;lise, tramita&#231;&#227;o e julgamento.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://girlsupworld.substack.com/p/sistema-tributario-brasileiro-para?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Partilhar&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/girlsupworld.substack.com/p/sistema-tributario-brasileiro-para?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Partilhar</span></a></p><p></p></li></ul><p><strong>Contexto politico, &#8220;super ricos&#8221; e tributa&#231;&#227;o regressiva.</strong></p><p>Contextualizadas da grande gama de tributos que n&#243;s temos que pagar, acredito que agora podemos come&#231;ar falar sobre eles de uma forma mais geral. De uma forma a olhar para nossos impostos, olhar para a nossa qualidade de vida e nos questionar o que deu errado nessa hist&#243;ria. O que acontece conosco &#8212; al&#233;m do problema visceral da corrup&#231;&#227;o &#8212; &#233; que o nosso sistema tribut&#225;rio tem um car&#225;ter <strong>regressivo</strong>. Percebem como a maioria dos nossos impostos recai sobre consumo e n&#227;o sobre renda? Como at&#233; os tributos que destinam dinheiro &#225; benef&#237;cios sociais s&#227;o tirados, indiretamente ou diretamente, do nosso bolso? A tributa&#231;&#227;o regressiva acontece quando todos pagam o mesmo percentual de al&#237;quota, independentemente da sua renda. </p><p>Esse sistema faz com que os mais pobres acabem pagando proporcionalmente mais impostos do que os mais ricos. Ao tributar o consumo, o real peso desses impostos recai sobre produtos b&#225;sicos e bens de necessidade. Gastos com alimentos, &#225;gua, energia el&#233;trica, medicamentos, transporte... coisas que precisamos consumir para viver. Estes s&#227;o a maior parte dos gastos da popula&#231;&#227;o de baixa renda. Enquanto os mais ricos conseguem livrar a maior parte do que ganham, os que n&#227;o possuem boas condi&#231;&#245;es financeiras comprometem quase todo o seu sal&#225;rio com despesas cotidianas &#8212; que ali&#225;s, j&#225; v&#234;m pesadamente carregadas de impostos, sejam eles diretos ou indiretos. &#201; por isso que a coisa toda parece um roubo. </p><p>Enquanto quem mais precisa de assist&#234;ncia, mais sa&#237; prejudicado por esse sistema de tributa&#231;&#227;o, os que det&#233;m as grandes riquezas e patrim&#244;nios do pa&#237;s s&#227;o pouqu&#237;ssimo afetados. Pois vejam, o Brasil cobra muito pouco sobre lucros, dividendos e heran&#231;as, um erro que os demais pa&#237;ses que adotam pol&#237;ticas p&#250;blicas como as nossas n&#227;o cometem. Como um dos poucos exemplos de tributa&#231;&#227;o progressiva no Brasil, temos o IRPF e o IRPJ, nossos impostos de renda, que s&#227;o praticamente os &#250;nicos impostos em que as al&#237;quotas aumentam conforme a renda do contribuinte. Mas ainda sim, tenham em mente que ele representa uma parcela muito pequena mesmo da arrecada&#231;&#227;o nacional. Isso faz com que a carga pesada continue recaindo sobre o consumo, e logo, sobre os mais pobres. </p><p>Pa&#237;ses com fortes sistemas de bem-estar social baseiam sua arrecada&#231;&#227;o predominantemente em impostos diretos, como o Imposto de Renda e o imposto sobre heran&#231;as/patrim&#244;nio. A progressividade &#233; o princ&#237;pio central. Al&#237;quotas de imposto de renda s&#227;o significativamente maiores para quem ganha mais (podendo ultrapassar 45% em alguns pa&#237;ses), garantindo que a contribui&#231;&#227;o fiscal seja proporcional &#224; capacidade financeira do indiv&#237;duo. A fun&#231;&#227;o principal da tributa&#231;&#227;o nesses modelos n&#227;o &#233; apenas arrecadar &#8212; porque arrecadar, o Brasil tamb&#233;m arrecada &#8212;, mas tamb&#233;m promover a justi&#231;a fiscal e a redistribui&#231;&#227;o de riqueza, financiando servi&#231;os p&#250;blicos universais de alta qualidade que beneficiam a todos, especialmente os menos favorecidos. </p><p>Algo extremamente importante para exemplificar essas contradi&#231;&#245;es que tributa&#231;&#227;o brasileira carrega &#233; entender o caso dos<strong> lucros e dividendos</strong>. Uma tributa&#231;&#227;o que n&#227;o existia no Brasil, e provavelmente passar&#225; a existir depois dessa reforma tribut&#225;ria de 2026. Imagine: uma grande empresa lucra anualmente sempre na casa dos bilh&#245;es e, como todas as empresas de grande capital, possui investidores. Possu&#237; milhares de acionistas, que investem em in&#250;meras a&#231;&#245;es, e por isso passam a ter direito a uma &#8220;fatia&#8221; do lucro dessa empresa. Esse lucro que os acionistas recebem chamam-se dividendos, e dessa forma eles faturam milh&#245;es sem precisar trabalhar, apenas lucrando com os rendimentos do capital desse neg&#243;cio. O acionista n&#227;o paga absolutamente nada de imposto com o que lucra nos seus dividendos. Milh&#245;es em lucro, movimenta&#231;&#227;o pesada de capital sem contribuir em nada para a nossa economia. Tudo isso acontece enquanto um assalariado segue tendo um peda&#231;o enorme de sua renda cortado pelo IRPF. O nome disso &#233; injusti&#231;a fiscal, quase uma forma de burlar a declara&#231;&#227;o de renda.</p><p>A nova reforma tribut&#225;ria pretende mudar isso cobrando um valor de 10% para os t&#227;o falados &#8220;super ricos&#8221;, estes que lucram, seja exclusivamente ou majoritariamente, sobre rendimentos do capital. Esta mudan&#231;a, embora muit&#237;ssimo polemizada, criticada e principalmente caluniada pela polariza&#231;&#227;o pol&#237;tica, representa pouqu&#237;ssimo em compara&#231;&#227;o a outros pa&#237;ses. Os Estados Unidos, por exemplo, taxa seus super ricos penosamente desde a &#233;poca da Grande Recess&#227;o (1929), &#233; uma grande fonte de lucro estatal. Os mais ricos l&#225; podem pagar at&#233; 37% sobre lucros e dividendos. Ent&#227;o por favor, minhas lindas, tomem muito cuidado com a forma que determinados assuntos s&#227;o apresentados a voc&#234;s, especialmente se seus respectivos comunicadores s&#227;o agentes polarizadores na pol&#237;tica interna do pa&#237;s, sejam eles de esquerda ou de direita. </p><p>Outra coisa extremamente importante a se desmistificar sobre o assunto: sistema progressivo n&#227;o &#233; necessariamente atribu&#237;do a governos de esquerda, por mais que este seja um constante foco dessa ramifica&#231;&#227;o pol&#237;tica. Os Estados Unidos tamb&#233;m seu modelo de tributa&#231;&#227;o predominantemente progressivo. Inclusive, embora tenha uma tributa&#231;&#227;o por consumo muito menor do que a nossa, a tributa&#231;&#227;o de grandes fortunas l&#225; &#233; muito maior. Ent&#227;o n&#227;o, os super ricos n&#227;o ir&#227;o simplesmente sair do Brasil por estarem sendo tributados; n&#227;o o far&#227;o porque n&#227;o tem para onde irem. O mundo funciona dessa forma, as economias funcionam dessa forma. A carga tribut&#225;ria do Brasil sobre os mais ricos &#233; extremamente pequena se comparada com outros exemplos. Nosso pa&#237;s &#233; um grande para&#237;so fiscal para eles.</p><p>H&#225; outro adendo, inclusive, que me foram muito bem colocados em um v&#237;deo do Pedro Daher &#8212; este influenciador que j&#225; recomendei &#225; voc&#234;s para quando quiserem uma opini&#227;o fundamentada vista de um ponto de vista da esquerda. A maior parte dos nossos super ricos tem suas riquezas em ativos tang&#237;veis: im&#243;veis, empresas f&#237;sicas, industrias, maquin&#225;rios, latifundios&#8230; coisas que s&#227;o, de fato, tang&#237;veis. Elementos que n&#227;o tornam poss&#237;vel simplesmente ir embora do pa&#237;s e levar sua fonte de renda. N&#227;o se coloca 2.000 hectares de terra na mala e leva para outro pa&#237;s. E sobre os milion&#225;rios e bilion&#225;rios que possuem sua renda em ativos intang&#237;veis (que s&#227;o estes que citamos como dividendos), eles n&#227;o alteram nossa economia em absolutamente nada se forem embora. N&#227;o declaram suas riquezas em tributa&#231;&#227;o, n&#227;o produzem nenhum valor real para o Brasil. N&#227;o nos prejudicam em nada se deixarem o pa&#237;s. E mesmo se forem embora, precisariam se desfazer de todas as suas a&#231;&#245;es para n&#227;o pagarem mais o imposto brasileiro. <em>So</em> <em>calm down, girls</em>. N&#227;o se permitam ser manipuladas por discursos como este. </p><p>Existem muitas outras reformas que poderiam ser feitas para tornar nossa tributa&#231;&#227;o mais eficiente e menos injusta &#8212; considerando que sim, temos um Estado abrangente em servi&#231;os p&#250;blicos para a popula&#231;&#227;o. Por que n&#227;o reivindicar para que isso seja feito sob princ&#237;pios justos? Embora tenhamos aquele enorme monstro comedor de dinheiro p&#250;blico chamado corrup&#231;&#227;o, existem tamb&#233;m in&#250;meras &#8220;falhas&#8221; em nossa tributa&#231;&#227;o que nos prejudicam como povo. Essas falhas nunca foram alteradas e muito dificilmente ser&#227;o, porque quem comanda a pol&#237;tica &#233; justamente quem det&#233;m as riquezas. Temos muitos lobistas, muitos corruptos, muitos pol&#237;ticos comprados e muita desinforma&#231;&#227;o para que a popula&#231;&#227;o entenda que n&#227;o tem nada a ganhar atendendo os interesses desse grupo de pessoas. Isso &#233; um fato que transcende esquerda e direita, e reconhec&#234;-lo n&#227;o te faz levantar nenhuma bandeira, apenas te poupa da ignor&#226;ncia de muitos. At&#233; mais, minhas queridas! Espero ter ajudado a aumentar o embasamento pol&#237;tico de voc&#234;s com as informa&#231;&#245;es e reflex&#245;es de hoje.</p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Da social-democracia ao neoliberalismo: a metamorfose econômica do século]]></title><description><![CDATA[Duas abordagens t&#227;o distintas de um Estado em sua economia.]]></description><link>https://girlsupworld.substack.com/p/da-social-democracia-ao-neoliberalismo</link><guid isPermaLink="false">https://girlsupworld.substack.com/p/da-social-democracia-ao-neoliberalismo</guid><dc:creator><![CDATA[Girls Up World]]></dc:creator><pubDate>Mon, 27 Oct 2025 17:15:58 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/24c55e9b-242f-47f6-a9df-657388094fcf_736x414.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Existem diferentes posturas que um governo pode assumir em um sistema capitalista. A maneira como os Estados modernos foram se desenhando fez com que os modelos de administra&#231;&#227;o se tornassem cada vez mais complexos e, naturalmente, as na&#231;&#245;es que surgiram encontraram suas caracter&#237;sticas econ&#244;micas, tribut&#225;rias e antropol&#243;gicas. Todas alinhadas a uma base te&#243;rica orientada politicamente. Sendo a forma como essas caracter&#237;sticas se manifestam na economia de um pa&#237;s, diretamente determinante para a qualidade de vida de sua popula&#231;&#227;o.</p><p>Em algumas regi&#245;es do mundo, o reflexo de uma administra&#231;&#227;o pol&#237;tica altru&#237;sta &#233; vis&#237;vel em praticamente todos os indicadores sociais. Vejamos o caso do norte europeu, os t&#227;o famosos pa&#237;ses escandinavos, que dominam a lista dos maiores &#237;ndices de qualidade de vida do mundo. A regi&#227;o, que conta com Noruega, Finl&#226;ndia, Isl&#226;ndia, Dinamarca e Su&#233;cia, acumula classifica&#231;&#245;es individuais realmente surpreendentes. </p><p>Ocupando os primeiros lugares em rankings globais de educa&#231;&#227;o; sa&#250;de; felicidade; expectativa de vida e muitos outros crit&#233;rios que determinam o qu&#227;o bem um cidad&#227;o comum vive dentro de cada pa&#237;s, eles tamb&#233;m possuem taxas de desigualdade e desemprego baix&#237;ssimas. Al&#233;m de uma alta satisfa&#231;&#227;o da popula&#231;&#227;o com a pr&#243;pria vida e com o governo do pa&#237;s, exibindo uma polariza&#231;&#227;o pol&#237;tica muito baixa - coisa que &#233; dif&#237;cil de se observar at&#233; mesmo em pa&#237;ses desenvolvidos. Em todo levantamento anual de estudos que exp&#245;em o bem-estar dos habitantes, eles costumam deixar todo o mundo, incluindo seus vizinhos europeus, em posi&#231;&#245;es muito inferiores.</p><p>Mas o que os diferencia de outros pa&#237;ses desenvolvidos pelo mundo, como os Estados Unidos, por exemplo, que permanece atr&#225;s de todos eles em todos os aspectos citados? Por que n&#227;o a Fran&#231;a, ou o Reino Unido? O que de t&#227;o diferente t&#234;m as terras n&#243;rdicas? </p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://girlsupworld.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/girlsupworld.substack.com/subscribe"><span>Subscreva agora</span></a></p><p><strong>As camadas de uma social-democracia, o Estado Keynesiano e o neoliberalismo.</strong></p><p>Esses pa&#237;ses, chamados de <strong>sociais democratas</strong>, t&#234;m um modelo de governo que tenta conciliar o capitalismo com a justi&#231;a social, e sua base de pensamento, por mais de ter sido historicamente adaptada, tem sua origem no socialismo marxista. &#201; uma corrente pol&#237;tica que defende a interven&#231;&#227;o do Estado na economia, entretanto, com uma grande diferen&#231;a para um regime socialista: o modelo o qual falamos n&#227;o busca substituir o capitalismo. O que classificamos como uma social democracia hoje, aceita o capitalismo e v&#234; no Estado um potencial de reformar o sistema econ&#244;mico vigente, e n&#227;o elimina-lo. Se trata de reconhecer este mesmo sistema capitalista como o principal respons&#225;vel pela desigualdade social e todos os problemas que a cercam, sendo uma responsabilidade da interven&#231;&#227;o estatal mitiga-los.</p><p>Em uma social democracia, o Estado deve oferecer servi&#231;os de seguridade social bem amplos e estruturados, que incluem aposentadoria e programas de transfer&#234;ncia de renda, como aux&#237;lios de desemprego, licen&#231;as parentais e apoio para pessoas com defici&#234;ncia. Al&#233;m de, &#233; claro, garantir a qualidade e acessibilidade de servi&#231;os p&#250;blicos b&#225;sicos como educa&#231;&#227;o, sa&#250;de e aposentadoria, com um adendo muit&#237;ssimo importante: os sociais democratas n&#227;o s&#243; acreditam que esses direitos devam existir, mas tamb&#233;m, que o Estado &#233; quem melhor deve oferece-los. Isto, na pr&#225;tica, significa que, dentro de seus pa&#237;ses, a excel&#234;ncia desses servi&#231;os est&#225; no governo, e n&#227;o no mercado privado. Isso faz com que a popula&#231;&#227;o n&#227;o precise recorrer a planos de sa&#250;de, nem a aposentadorias privadas e muito menos a escolas particulares. </p><p>Algo que tamb&#233;m precisa ser levado em conta ao falar deste modelo econ&#244;mico &#233; que sim, tendo suas ra&#237;zes no comunismo, uma social democracia, pelo menos no sentido de sua origem, buscaria atingir o socialismo por vias democr&#225;ticas, como se esse fosse um per&#237;odo transit&#243;rio. A teoria, que n&#227;o possu&#237; um fundador espec&#237;fico, nasceu em movimentos oper&#225;rios alem&#227;es, quando a Revolu&#231;&#227;o Industrial estava a todo vapor e qualquer reivindica&#231;&#227;o para se implantar uma sociedade comunista era diretamente reprimida pelo Estado. Uma solu&#231;&#227;o mais paciente seria ent&#227;o, chegar ao socialismo por meio de reformas democr&#225;ticas e n&#227;o por meio de uma revolu&#231;&#227;o. E essas reformas seria feitas por organiza&#231;&#245;es desses mesmos movimentos oper&#225;rios dentro de partidos pol&#237;ticos, que iriam disputar cargos nas institui&#231;&#245;es formais atrav&#233;s de elei&#231;&#245;es. A ideia era poder fazer uma esp&#233;cie de propaganda da luta de classes, porque, neste per&#237;odo, o grande objetivo ainda era eliminar o capitalismo. </p><p>Mas o que aconteceu com os trabalhadores que conseguiram chegar a esses cargos, foi se depararem com uma realidade onde as regras democr&#225;ticas impediam que o modelo o qual eles defendiam fosse implementado. E um novo caminho seria ent&#227;o, a concentra&#231;&#227;o coletiva de esfor&#231;os na implementa&#231;&#227;o de pol&#237;ticas que, a curto prazo, melhorariam a qualidade de vida da classe trabalhadora, e n&#227;o mais na implementa&#231;&#227;o do socialismo de fato. Essa &#233; um pouco da base hist&#243;rica por tr&#225;s da social democracia que tratamos hoje, um modelo que, diferentemente do proposto em sua origem, foca em atingir uma igualdade social por vias capitalistas.</p><p>Os exemplos mais conhecidos e bem-sucedidos de aplica&#231;&#227;o da social-democracia est&#227;o na Su&#233;cia, Isl&#226;ndia, Noruega, Dinamarca, Finl&#226;ndia&#8230; muitos dos pa&#237;ses com os maiores &#237;ndices de desenvolvimento humano do mundo. E por mais que seja importante n&#227;o generalizar a economia desses pa&#237;ses como se fossem todos o mesmo lugar - porque cada um deles t&#234;m suas pr&#243;prias caracter&#237;sticas, seus pr&#243;prios recursos e seus motivos para serem pr&#243;speros - eles carregam semelhan&#231;as muito espec&#237;ficas e diferentes do resto do mundo. S&#227;o lugares onde a combina&#231;&#227;o de um mercado ativo e uma atua&#231;&#227;o estatal forte garante que os servi&#231;os p&#250;blicos essenciais sejam universais, gratuitos ou, ao menos, altamente subsidiados, e com uma excel&#234;ncia de reconhecimento mundial. </p><p>E, por mais que haja um alto custo fiscal, a satisfa&#231;&#227;o &#233; massiva. As pol&#237;ticas p&#250;blicas de excel&#234;ncia geram uma popula&#231;&#227;o que confia no sistema de tributa&#231;&#227;o, pois v&#234; resultados concretos: hospitais bem equipados, escolas e universidades gratuitas de alt&#237;ssima qualidade, transportes p&#250;blicos eficientes e sistemas de aposentadoria que protegem todos os cidad&#227;os, independentemente da renda. E &#233; claro que, para sustentar esses servi&#231;os de alto padr&#227;o, esses pa&#237;ses aplicam uma tributa&#231;&#227;o significativamente elevada, baseada em impostos progressivos sobre renda, dividendos, patrim&#244;nios, heran&#231;as e lucros das empresas residentes no pa&#237;s - uma tributa&#231;&#227;o muito melhor executada do que a que ocorre no Brasil. Al&#233;m disso, o imposto sobre consumo &#233; muito alto, fazendo com que bens e servi&#231;os tenham pre&#231;os elevados - por mais que haja uma equipara&#231;&#227;o boa em rela&#231;&#227;o ao sal&#225;rio m&#237;nimo. </p><p>Isso tamb&#233;m &#233; algo a se considerar: em uma social democracia, o cidad&#227;o, pelo simples motivo de ser um cidad&#227;o, &#233; obrigado a contribuir com uma parte grande da sua renda para o Estado, podendo chegar a quase metade da renda anual dos mais ricos - e sim, eles pagam muito mais impostos do que n&#243;s, brasileiros. A popula&#231;&#227;o financia esses servi&#231;os p&#250;blicos com os tributos e dedica a maior parte da sua renda para uma vida capitalista comum, por&#233;m, com necessidades b&#225;sicas supridas. E embora isso divida muitas opini&#245;es, o que dificilmente ser&#225; questionado no assunto &#233; a sensa&#231;&#227;o de satisfa&#231;&#227;o dos cidad&#227;os desses pa&#237;ses.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://girlsupworld.substack.com/p/da-social-democracia-ao-neoliberalismo/comments&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Deixe um coment&#225;rio&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/girlsupworld.substack.com/p/da-social-democracia-ao-neoliberalismo/comments"><span>Deixe um coment&#225;rio</span></a></p><p>Dentro do campo econ&#244;mico, este modelo &#233; atrelado ao <strong>keynesianismo</strong>, teoria de John Maynard Keynes, que diz que &#233; o Estado quem deve assegurar assist&#234;ncia para as &#225;reas negligenciadas pelo setor privado e garantir com que a popula&#231;&#227;o n&#227;o sofra com algo chamado de flutua&#231;&#227;o da economia. E com &#8220;flutua&#231;&#227;o&#8221;, este se refere a momentos de oscila&#231;&#227;o, onde a economia de um pa&#237;s tem, naturalmente, momentos de crescimento, de estagna&#231;&#227;o e tamb&#233;m de decl&#237;nio. O Estado, para Keynes, seria o respons&#225;vel por reabastecer a economia em momentos de crise, e essa teoria aplicada p&#244;de ser observada durante a recupera&#231;&#227;o da crise de 1929, dada pela famosa queda da bolsa de Nova York, onde o governo estadunidense entrou em estado keynesiano. Esse per&#237;odo foi caracterizado por investimentos em infraestrutura interna em prol da gera&#231;&#227;o de empregos em obras estatais, programas de assist&#234;ncia e seguridade social &#225; desempregados e a cria&#231;&#227;o de institui&#231;&#245;es para controlar o mercado financeiro. Ou seja, as sociais democracias est&#227;o diretamente ligadas ao keynesianismo, mas n&#227;o necessariamente o keynesianismo &#233; algo somente atrelado a elas. Os Estados Unidos &#233; o maior exemplo de Estado liberal, e utilizou de pol&#237;ticas keynesianas.</p><p>Ali&#225;s, utilizou n&#227;o s&#243; para si pr&#243;prio, mas tamb&#233;m em outros pa&#237;ses, como forma de conten&#231;&#227;o ao comunismo, por mais confuso que possa parecer. Ap&#243;s a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a Europa inteira estava devastada, n&#227;o s&#243; em sua infraestrutura - como s&#243; uma guerra pode destruir - mas tamb&#233;m economicamente. Milh&#245;es de deslocados, desempregados e pessoas fortemente abatidas e traumatizadas pelo que houve naqueles anos. Esse cen&#225;rio criou um terreno prop&#237;cio para uma maior press&#227;o social por mudan&#231;as profundas na economia. Houve a implementa&#231;&#227;o de sistemas abrangentes de bem-estar social para reduzir as feridas causadas e prevenir instabilidades pol&#237;ticas, e o papel dos Estados Unidos na geopol&#237;tica europeia durante esse per&#237;odo foi crucial, eles entraram como financiadores. Voc&#234;s se lembram no Plano Marshall? Foi quando cerca de 13 bilh&#245;es de d&#243;lares americanos - que hoje, teriam um valor estratosfericamente maior - foram injetados na reconstru&#231;&#227;o econ&#244;mica da Europa Ocidental durante a guerra fria. O objetivo, al&#233;m de ajudar na reconstru&#231;&#227;o, era tamb&#233;m conter a expans&#227;o do comunismo sovi&#233;tico. </p><p>Um continente est&#225;vel, com uma economia saud&#225;vel e satisfeita, seria muito menos suscet&#237;vel &#225; influ&#234;ncia comunista. E &#233; at&#233; algo engra&#231;ado a se considerar, porque, n&#227;o s&#243; o continente europeu, mas o mundo, de uma forma geral, poderia ter tomado outro rumo se o que foi feito entre Estados Unidos e Europa naquele momento tivesse sido diferente. Entretanto, com o passar dos anos, o mundo se bipolarizando conforme conhecemos e a culmina&#231;&#227;o final na queda da Uni&#227;o Sovi&#233;tica (1991), a press&#227;o ideol&#243;gica do bloco socialista simplesmente desapareceu. </p><p>Havia, por parte da geopol&#237;tica estadunidense, uma necessidade bem menor de apresentar &#8220;alternativas&#8221; ao comunismo ou mostrar que o sistema capitalista tamb&#233;m poderia ser flex&#237;vel &#225; reformas sociais. O Estado keynesiano era, tamb&#233;m, uma tentativa europeia de mostrar para a popula&#231;&#227;o que poderia haver justi&#231;a social no capitalismo, e evitar futuras revolu&#231;&#245;es populares. Quando essa amea&#231;a caiu por terra, essa onda de reformas keynesianas tamb&#233;m acabou por parte dos governos europeus.</p><p>E com a economia cada vez mais globalizada, um espa&#231;o seria aberto para algo chamado de <strong>neoliberalismo</strong>, que surgiria como solu&#231;&#227;o para algo que o saturamento do keynesianismo gerou: uma grande e cumulativa crise fiscal. E para explicar isso precisamos voltar brevemente a um assunto que foi abordado mais detalhadamente em <a href="/__u/open.substack.com/pub/girlsupworld/p/petroleo-para-o-mundo-o-paradoxo?r=5yeqvs&amp;utm_campaign=post&amp;utm_medium=web">nosso &#250;ltimo artigo</a>, que falava do choque das crises do petr&#243;leo na d&#233;cada de 1970 e todo o problema com os pa&#237;ses &#225;rabes. Naturalmente, a crise mundial daquele per&#237;odo aumentou o custo de vida, a infla&#231;&#227;o e o desemprego. </p><p>O que aconteceu foi que, uma crise desse n&#237;vel, o Estado Keynesiano n&#227;o conseguia resolver. Keynes havia proposto que os pa&#237;ses gastassem mais para poder gerar emprego, como feito em 1929, mas isso s&#243; piorava a situa&#231;&#227;o atual, porque agora as demandas estatais eram muito maiores do que na &#233;poca da Grande Depress&#227;o. Logo, a arrecada&#231;&#227;o de impostos caiu devido a crise e, para manter os servi&#231;os p&#250;blicos, o que surgiu em muitos pa&#237;ses foi denominado de crise fiscal do Estado, onde havia muito gasto, pouca arrecada&#231;&#227;o e uma divida crescente inevit&#225;vel. Cortar gastos p&#250;blicos precisava ser a solu&#231;&#227;o, e como a falecida Uni&#227;o das Rep&#250;blicas Socialistas Sovi&#233;ticas j&#225; n&#227;o era uma alternativa para a popula&#231;&#227;o recorrer, as privatiza&#231;&#245;es come&#231;aram.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://girlsupworld.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/girlsupworld.substack.com/subscribe"><span>Subscreva agora</span></a></p><p><strong>O neoliberalismo, o liberalismo cl&#225;ssico e uma nova &#243;tica de mundo</strong></p><p>A proposta neoliberal parte da cr&#237;tica de que o excesso de interven&#231;&#227;o estatal, caracter&#237;stico das d&#233;cadas anteriores, teria sufocado a liberdade econ&#244;mica e criado Estados endividados. Nesse contexto, novas figuras pol&#237;ticas surgiam com uma clama muito forte pela volta de um mercado protagonista na economia. E ali pudemos conhecer ent&#227;o, lideran&#231;as neoliberais muito marcantes, como a de Margaret Thatcher, ex primeira ministra do Reino Unido, que ficou mundialmente conhecida como <em>Iron Lady</em>, ou &#8220;Dama de Ferro&#8221;, por seu estilo pol&#237;tico radical. </p><p>A ex ministra, durante a d&#233;cada de 1980, transformou a teoria neoliberal em pol&#237;tica de governo ao promover amplas privatiza&#231;&#245;es, cortes de gastos p&#250;blicos e redu&#231;&#227;o de impostos no Reino Unido - que era um pa&#237;s fortemente estatizado e repleto de pol&#237;ticas sociais desde o p&#243;s-guerra - , e logo o mesmo foi feito por outras lideran&#231;as pelo mundo. O Estado agora deveria gastar menos e permitir, finalmente, que o capital privado assumisse as quest&#245;es que tanto os endividavam. A nova ideologia rapidamente se espalhou pela Europa continental e, em seguida, pelo restante do mundo, sendo impulsionada por organismos internacionais como o Fundo Monet&#225;rio Internacional (FMI) e o Banco Mundial, que passaram a condicionar empr&#233;stimos e ajuda financeira &#224; ado&#231;&#227;o de pol&#237;ticas neoliberais.</p><p>A coisa era que, a grande diferen&#231;a do neoliberalismo presente no fim do s&#233;culo passado para o que havia sido o liberalismo cl&#225;ssico do s&#233;culo retrasado, estava justamente no ponto de partida de ambos, e n&#227;o essencialmente em seu funcionamento. Houve liberdade econ&#244;mica, interfer&#234;ncia estatal m&#237;nima e redu&#231;&#227;o da tributa&#231;&#227;o em ambos os modelos, mas o neoliberalismo foi, por sua natureza, uma resposta liberal &#225; crise do Estado keynesiano. O debate de &#8220;privatiza&#231;&#245;es&#8221; sequer existia em pleno auge do liberalismo, entendem? E, em um mundo globalizado, a necessidade de atrair investimentos externos era tamb&#233;m uma pauta recente. S&#227;o &#233;pocas diferentes que demandavam coisas diferentes, e altera&#231;&#245;es precisavam ser feitas, afinal, o mundo era completamente outro. </p><p>A principal diferen&#231;a entre os dois modelos pode ser dita como, na pr&#225;tica, o papel do Estado como gerente. O liberalismo cl&#225;ssico buscava apenas limitar o poder estatal, este que surgiu em um contexto de monarcas absolutistas e burgueses que queriam poder, t&#227;o bem lembrado s&#233;culo XVIII. O neoliberalismo, em um momento completamente diferente, incorporava a mesma vis&#227;o liberal, mas que agora buscava reestruturar o Estado para que ele seguisse a l&#243;gica do mercado. </p><p>Isso significava transformar servi&#231;os p&#250;blicos, como sa&#250;de e educa&#231;&#227;o, em &#225;reas onde empresas privadas possam atuar e competir. Isso significava abrir o leque de op&#231;&#245;es do consumidor com empresas estrangeiras, e fomentar ainda mais a competitividade enquanto se enriquece com investimentos externos. No liberalismo cl&#225;ssico o Estado devia apenas garantir que as leis funcionassem, diferentemente dele em sua nova forma neoliberal, onde atua tamb&#233;m como o dono de uma empresa, buscando efici&#234;ncia, cortando gastos e medindo resultados.</p><p>Outra diferen&#231;a entre os dois est&#225; tamb&#233;m na vis&#227;o sobre a sociedade. Para os liberais cl&#225;ssicos, a liberdade econ&#244;mica era um meio de alcan&#231;ar um progresso moral e pol&#237;tico, acreditava-se que um mercado livre ajudaria todos a viverem melhor. Havia, mesmo que fundamentado em conceitos capitalistas, um certo pensamento em prol da coletividade. Al&#233;m de uma proje&#231;&#227;o econ&#244;mica das classes dominantes, o liberalismo cl&#225;ssico foi tamb&#233;m uma esp&#233;cie de express&#227;o burguesa de uma sociedade que estava cansada da domina&#231;&#227;o. J&#225; o neoliberalismo coloca muito mais o individualismo e a competitividade social como combust&#237;vel para o sucesso. </p><p>Esta &#233; uma ideologia onde cada pessoa &#233; respons&#225;vel pelo seu sucesso ou fracasso, e o Estado n&#227;o deve garantir a igualdade nos resultados, apenas nas oportunidades - e, convenhamos, isso acaba sendo completamente falho. Conseguimos ent&#227;o ver um pouco de onde vem essa valoriza&#231;&#227;o excessiva da meritocracia no s&#233;culo em que vivemos, e isso explica muito do enfraquecimento das pol&#237;ticas de prote&#231;&#227;o social aos mais negligenciados, a empatia tamb&#233;m diminuiu. Ent&#227;o n&#227;o, o neoliberalismo n&#227;o &#233; um liberalismo mais flex&#237;vel, que permite interven&#231;&#227;o m&#237;nima do Estado, a coisa n&#227;o est&#225; a&#237;; o neoliberalismo &#233;, por defini&#231;&#227;o, uma reinterpreta&#231;&#227;o do papel do Estado em uma economia liberal.</p><p>H&#225; mudan&#231;as sociol&#243;gicas, por mais de sutis, muito interessantes de serem observadas nesse per&#237;odo e, pelo menos para mim, &#233; sempre desastrosamente admir&#225;vel observar como a pol&#237;tica est&#225; em tudo o que somos como sociedade.</p><p>E o que podemos dizer que isso causou? Bem&#8230; muitas coisas. Privatiza&#231;&#245;es, abertura comercial e corte de gastos p&#250;blicos foram apresentados como caminhos inevit&#225;veis para modernizar as na&#231;&#245;es diante do grande vencedor da guerra fria, o capitalismo estava mais arrogante do que nunca. E, em muitos aspectos, as coisas melhoraram: o com&#233;rcio internacional se intensificou, muitos pa&#237;ses prosperaram economicamente, os investimentos estrangeiros aumentaram e a globaliza&#231;&#227;o estava a todo vapor. Empresas se expandiram e as economias se tornaram mais din&#226;micas e competitivas - e n&#227;o &#233; que a liberdade econ&#244;mica realmente abria espa&#231;o para a inova&#231;&#227;o? </p><p>O nascimento e a dissemina&#231;&#227;o da internet comercial, que desfrutamos hoje e agora, foram diretamente impulsionados por pol&#237;ticas neoliberais de privatiza&#231;&#227;o, desregulamenta&#231;&#227;o e est&#237;mulo &#224; inova&#231;&#227;o privada; foi em um contexto neoliberal que empresas como Nokia, Motorola, Apple e Samsung puderam investir em seus beb&#234;s, que hoje j&#225; est&#227;o crescidos, nossos smartphones; e ascens&#245;es globais, como o &#8220;milagre econ&#244;mico&#8221; chin&#234;s, tamb&#233;m tem rela&#231;&#227;o com a onda neoliberal, ele foi determinante para todas as reformas do pa&#237;s e a transi&#231;&#227;o da China para essa grande f&#225;brica de todas as coisas do mundo. Tantas coisas que dividiram as &#225;guas da hist&#243;ria da humanidade. </p><p>Mas &#233; claro que, junto das inova&#231;&#245;es, nasceram tamb&#233;m desigualdades e problemas viscerais para o nosso s&#233;culo. O neoliberalismo transformou completamente nosso reconhecimento do &#8220;eu&#8221; em sociedade, como se cada pessoa fosse uma pequena empresa, respons&#225;vel por gerir a pr&#243;pria vida - com vida, me refiro a sobreviv&#234;ncia - e tamb&#233;m o pr&#243;prio sucesso. De fato, &#233; essa a l&#243;gica da nossa vida em sociedade, &#233; estranho pensar que nem sempre ela foi pensada dessa forma, n&#227;o? </p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://girlsupworld.substack.com/p/da-social-democracia-ao-neoliberalismo?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Partilhar&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/girlsupworld.substack.com/p/da-social-democracia-ao-neoliberalismo?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Partilhar</span></a></p><p>Mas bem, aonde ser&#225; que estavam os pa&#237;ses que mantiveram seus Estados de bem-estar, a essa altura do campeonato? Como os pa&#237;ses n&#243;rdicos reagiram &#225; &#233;poca da onda neoliberal? Como se mantiveram economicamente? A resposta para essas perguntas &#233; mais simples do que parece: a solu&#231;&#227;o foi flexibilizar. Houveram privatiza&#231;&#245;es, redu&#231;&#245;es de impostos e pol&#237;ticas neoliberais nesses lugares tamb&#233;m, mas as lideran&#231;as da &#233;poca preferiram reformar o modelo de tributa&#231;&#227;o em vez de desmontar a pol&#237;tica de bem-estar. Era o momento em que reformas precisavam ser feitas, e elas foram sim, extremamente necess&#225;rias para a prosperidade econ&#244;mica desses pa&#237;ses atualmente.</p><p>O foco passou a ser a efici&#234;ncia do gasto p&#250;blico, uma educa&#231;&#227;o de alt&#237;ssima qualidade e flexibiliza&#231;&#227;o econ&#244;mica, criando modelos que ficaram conhecidos, como o <strong>flexicurity</strong> - termo atribu&#237;do internacionalmente &#225; Dinamarca e que em portugu&#234;s soaria como &#8220;flexiseguran&#231;a&#8217;&#8217;. Se consistia, basicamente, em flexibilidade para o mercado poder demitir e contratar caso fosse necess&#225;rio, e seguran&#231;a para o trabalhador, garantida por uma rede forte de seguro-desemprego, capacita&#231;&#227;o e prote&#231;&#227;o social. </p><p>Esse modelo conseguiu ser mantido por alguns fatores: impostos altos e progressivos; grande confian&#231;a da popula&#231;&#227;o nos governos; baixa corrup&#231;&#227;o presente nos pa&#237;ses - e isso, infelizmente, &#233; mesmo uma quest&#227;o cultural -; e, mais como consequ&#234;ncia de suas pol&#237;ticas anteriores do que uma nova a&#231;&#227;o, economias muito produtivas e inovadoras, que produziam tecnologia, educa&#231;&#227;o e oportunidades para o crescimento e o protagonismo internacional. Os pa&#237;ses enriqueciam com seus pr&#243;prios recursos e neg&#243;cios em um mundo capitalista, enquanto sua popula&#231;&#227;o sofria cada vez menos com as consequ&#234;ncias naturais dele. Verdadeiros exemplos de um equil&#237;brio saud&#225;vel entre o capitalismo e o cuidado com os cidad&#227;os. </p><p>Enquanto isso, do outro lado do mundo, o acesso a servi&#231;os b&#225;sicos passou a depender da capacidade financeira: coisas como sa&#250;de, educa&#231;&#227;o de qualidade e uma aposentadoria tornaram-se produtos, e n&#227;o garantias universais, vinculadas a um cidad&#227;o desde seu nascimento. &#201; por isso temos hoje no mundo esse conflito t&#227;o grande de ideias sobre o que deve ser, de fato, considerado dever de um governo fornecer. Temos contextos keynesianos e neoliberais muito recentes, e exemplos de governos muito diferentes pelo mundo. E n&#243;s, latinos, brasileiros, que apenas tentamos acompanhar o rumo das coisas desde o in&#237;cio da nossa hist&#243;ria, temos vest&#237;gios do &#225;pice de ambos os modelos.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://girlsupworld.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/girlsupworld.substack.com/subscribe"><span>Subscreva agora</span></a></p><p><strong>As reformas neoliberais brasileiras e os vest&#237;gios de uma social democracia deficiente.</strong></p><p>&#201; importante que tenhamos no&#231;&#227;o de como essas transforma&#231;&#245;es globais chegaram ao Brasil, como o neoliberalismo se estabeleceu por aqui e em que contexto pol&#237;tico est&#225;vamos. Diferentemente das social-democracias europeias, que nasceram de uma cultura pol&#237;tica consolidada, com institui&#231;&#245;es s&#243;lidas e uma popula&#231;&#227;o amplamente assistida pelo Estado, o Brasil ainda estava tentando estruturar seu pr&#243;prio modelo de bem-estar na &#233;poca que o neoliberalismo come&#231;ou a se expandir. Est&#225;vamos ainda feridos politicamente por uma ditadura militar muito recente e, durante o nosso processo de redemocratiza&#231;&#227;o, o pa&#237;s enfrentava uma grave crise fiscal, infla&#231;&#227;o alt&#237;ssima e tinha um Estado considerado ineficiente. Porque, por mais contradit&#243;rio que possa parecer, haviam pr&#225;ticas estatais que lembravam sociais-democracias durante a nossa ditadura, que tamb&#233;m foi financiada pelos Estados Unidos. Na verdade, desde a Era Vargas, quando houve uma grande amplia&#231;&#227;o de empresas estatais, a pol&#237;tica brasileira tem como caracter&#237;stica ter uma grande oferta de servi&#231;os p&#250;blicos. </p><p>Temos uma longa trajet&#243;ria de interven&#231;&#227;o estatal intensa que, ao longo das d&#233;cadas, gerou os mesmos desafios fiscais que ocorreram pelo mundo. A d&#233;cada de 1990 era o momento perfeito para que as ideias neoliberais encontrassem espa&#231;o no Brasil. Ap&#243;s o sucesso desses ideais no exterior, a promessa de modernizar a economia, atrair investimentos externos e reduzir a m&#225;quina p&#250;blica soava como uma solu&#231;&#227;o pragm&#225;tica e eficaz. E assim foi feito, come&#231;ou durante os mandatos de Itamar Franco (1992-1994) e de Fernando Henrique Cardoso (1995-2003). Esse per&#237;odo foi muito importante para a pol&#237;tica brasileira e, com certeza, crucial para o fortalecimento do Brasil como protagonista na Am&#233;rica Latina. As reformas neoliberais aplicadas juntas do sucesso do Plano Real estabilizaram a economia brasileira (que estava p&#233;ssima) e erradicaram a crise inflacionaria de forma surpreendente.</p><p>Mas algo &#233; sempre preciso se ter em mente ao falar disso: tudo foi feito no momento certo, no contexto certo e de forma planejada. Privatiza&#231;&#245;es nem sempre ser&#227;o a solu&#231;&#227;o, e dependendo de onde se aplicam podem ser muit&#237;ssimo arriscadas, elas sempre oferecer&#227;o risco para o futuro dessas empresas. E n&#243;s, que j&#225; acumul&#225;vamos problemas estruturais das d&#233;cadas passadas, tivemos que lidar com as consequ&#234;ncias negativas do neoliberalismo, e acreditem, houveram muitas delas, vivemos hoje muitas delas. Podemos citar a redu&#231;&#227;o significativa do acesso p&#250;blico &#225; servi&#231;os de qualidade; a desigualdade social, que ficou mais profunda; ou uma depend&#234;ncia bem maior do capital estrangeiro, que causa tamb&#233;m vulnerabilidade cambial para a nossa moeda. V&#234; esse desespero coletivo quando o valor do D&#243;lar aumenta? Isso impacta muito mais do que a fam&#237;lia que quer ir para a Disney nas f&#233;rias. Interfere nas exporta&#231;&#245;es; nas importa&#231;&#245;es; nos investimentos transnacionais; nos pre&#231;os das coisas dentro do pa&#237;s&#8230; e da&#237; para mais.</p><p>No geral, a onda neoliberal nos deixou aspectos econ&#244;micos e sociais muito sens&#237;veis, por mais que tenha sido sim, importante para o que o Brasil &#233; hoje. Houveram pol&#237;ticas liberais e abertura econ&#244;mica, o Brasil conseguiu aderir a essa nova l&#243;gica global, mas sem nunca ter consolidado as bases de uma verdadeira social democracia nas d&#233;cadas anteriores. Afinal, a Rep&#250;blica Federativa do Brasil sempre se classificou como um <strong>Estado de bem-estar parcial,</strong> que nada mais &#233; do que um Estado de bem-estar social estruturalmente deficiente. </p><p>Como legado de vis&#245;es de mundo t&#227;o distintas atuando juntas, temos um modelo h&#237;brido e desigual, onde o Estado continua presente o bastante para ser cobrado, mas ausente demais para garantir direitos de forma universal e bem executada. Caracterizar o Brasil em um sistema econ&#244;mico, ou tribut&#225;rio, envolve abordar outras camadas e outras quest&#245;es que, para serem respondidas, precisam de informa&#231;&#245;es internas sobre a nossa pol&#237;tica, e n&#227;o um panorama geral como esse. A minha inten&#231;&#227;o inicial com esse artigo era explicar o nosso sistema tribut&#225;rio, e o caminho que nossos impostos e contribui&#231;&#245;es com o Estado percorrem at&#233; voltar para n&#243;s em servi&#231;os p&#250;blicos - e, &#233; claro, mostrar aonde &#233; que erramos nesse c&#225;lculo. Mas tive que dividir essa ideia em dois textos, pois percebi que tamb&#233;m havia muito que se tirar sobre os temas centrais desse artigo. Espero poder ter esclarecido um pouco alguns aspectos sobre esses modelos t&#227;o destintos de economia e, de alguma forma, ter preparado o terreno para o pr&#243;ximo texto. Agrade&#231;o sempre todas voc&#234;s pela leitura e fico sempre &#225; disposi&#231;&#227;o para qualquer pergunta. At&#233; mais, minhas lindas leitoras!</p><p> </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Petróleo para o mundo: o paradoxo do poder árabe.]]></title><description><![CDATA[Como o petr&#243;leo concede, e limita, poder geopol&#237;tico no Oriente M&#233;dio.]]></description><link>https://girlsupworld.substack.com/p/petroleo-para-o-mundo-o-paradoxo</link><guid isPermaLink="false">https://girlsupworld.substack.com/p/petroleo-para-o-mundo-o-paradoxo</guid><dc:creator><![CDATA[Girls Up World]]></dc:creator><pubDate>Mon, 15 Sep 2025 14:03:50 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/62089eb6-f85c-4fd7-8f6c-6c77d348e404_620x496.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Dentre todos os elementos que constituem uma ordem econ&#244;mica, em toda a hist&#243;ria da civiliza&#231;&#227;o, poucos conseguiram ser t&#227;o influentes quanto os recursos naturais. Guerras sanguin&#225;rias j&#225; foram travadas pelo controle de rios, homens matam e morrem todos os dias extraindo metais preciosos da terra e pa&#237;ses que dividem fronteira em meio a uma floresta estar&#227;o sempre querendo um peda&#231;o maior dela. O que puder ser extra&#237;do pelo homem, ser&#225; disputado, &#233; assim que sempre funcionou. Pelo fato dos pa&#237;ses possu&#237;rem, de um modo geral, condi&#231;&#245;es geol&#243;gicas completamente diferentes uns dos outros, a capacidade de dominar o com&#233;rcio dos recursos certos pode lhes conferir, ou n&#227;o, uma vantagem indiscut&#237;vel no mercado.</p><p>Dentro desse contexto, em meados do s&#233;culo XIX, o mundo presenciaria a valoriza&#231;&#227;o de um recurso subterr&#226;neo que, antes tratado como uma peculiaridade natural, mudaria para sempre todo o rumo da produ&#231;&#227;o energ&#233;tica do planeta. A ascens&#227;o do petr&#243;leo foi mete&#243;rica. De um simples &#243;leo utilizado para produzir luz em lamparinas &#224; ess&#234;ncia vital da ind&#250;stria, dos transportes e da geopol&#237;tica global. O novo ouro negro seria respons&#225;vel, para al&#233;m do cl&#225;ssico &#243;leo diesel e gasolina, pela produ&#231;&#227;o de cosm&#233;ticos; pl&#225;sticos; antibi&#243;ticos; fertilizantes; e diversas outras inimagin&#225;veis formas de produ&#231;&#227;o, indo da composi&#231;&#227;o de tecidos para roupas at&#233; pe&#231;as de equipamentos para ind&#250;stria aeroespacial. De repente, obter as reservas milagrosas em seu territ&#243;rio seria garantia de uma emancipa&#231;&#227;o econ&#244;mica inimagin&#225;vel aos pa&#237;ses produtores, e principalmente, aos refinadores.</p><p>&#201; preciso ter em mente que, em uma configura&#231;&#227;o de mundo onde a prioridade &#233; que velocidade do consumo continue aumentando, cada pa&#237;s cumpre um papel j&#225; estipulado. Exportar; importar; produzir; atribuir valor; consumir. E se essa ordem, de alguma forma, sofre algum contratempo ou altera&#231;&#227;o brusca, todos saem prejudicados. Dentro desse sistema, principalmente depois do s&#233;culo passado, houveram regi&#245;es que passaram a ser vistas como pontos muito estrat&#233;gicos para o comercio e a economia do globo como um todo. E &#233; dentro deste grupo que se posiciona a regi&#227;o do Oriente M&#233;dio, bombeando petr&#243;leo para o mundo tal como um indispens&#225;vel cora&#231;&#227;o. Estamos falando de um territ&#243;rio que ocupa menos de 5% das terras do planeta, e ainda sim, abriga metade de todo o petr&#243;leo do mundo. Cerca de 48% das reservas se dividem entre Ar&#225;bia Saudita, Ir&#227;, Emirados &#193;rabes Unidos, Iraque, Kuwait e outros pa&#237;ses da regi&#227;o. </p><p>Entretanto, o poder que esses pa&#237;ses t&#234;m em rela&#231;&#227;o ao mundo &#233;, no m&#237;nimo, contradit&#243;rio, considerando que estes s&#227;o completamente dependentes do ocidente em diversos aspectos, incluindo na economia petrol&#237;fera. As quest&#245;es para esse tipo de questionamento precisam de muitos fatores para serem explicadas, e meu objetivo hoje &#233; abordar esses assuntos de uma maneira conjunta, para que seja mais simples visualizar uma linha do tempo na hist&#243;ria do Oriente M&#233;dio no mundo globalizado. Algo que cabe mencionar sempre, &#233; que essa regi&#227;o &#233; composta por diversos povos de diferentes classifica&#231;&#245;es, e generalizar essa variedade cultural n&#227;o ajuda a compreende-la, muit&#237;ssimo pelo contr&#225;rio, a torna bem mais complexa e coberta de desinforma&#231;&#227;o. Planejo trazer algum material explicando melhor essa configura&#231;&#227;o &#233;tnica, religiosa e cultural, mas por enquanto, tenham em mente a quest&#227;o &#225;rabe: um grupo &#233;tnico-cultural, uma na&#231;&#227;o n&#227;o unificada, que carrega uma hist&#243;ria, um idioma e um passado em comum que os une como um povo.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://girlsupworld.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/girlsupworld.substack.com/subscribe"><span>Subscreva agora</span></a></p><p><strong>Pan-arabismo, o passado colonial e a cria&#231;&#227;o de Israel.</strong></p><p>Tendo ganhado for&#231;a principalmente no s&#233;culo XX, o pan-arabismo<strong> </strong>&#233; uma ideologia pol&#237;tica e cultural que defende a reunifica&#231;&#227;o dos povos &#225;rabes. Povos de mesma origem, valores, de uma mesma cultura e idioma, separados durante a hist&#243;ria por v&#225;rios processos diferentes. Os &#225;rabes, que teriam surgido na regi&#227;o da pen&#237;nsula ar&#225;bica, h&#225; aproximadamente 4000 anos atr&#225;s, tiveram sua primeira grande divis&#227;o por quest&#245;es muito antigas. Lembra dos sunitas e dos xiitas? A grande quest&#227;o que surgiu ap&#243;s a morte do Profeta Maom&#233;, na qual os sunitas acreditavam que o pr&#243;ximo l&#237;der deveria vir de uma escolha da comunidade, e os xiitas acreditavam em manter a hierarquia, passando a lideran&#231;a de Maom&#233; para seu genro.</p><p>Essa divis&#227;o, que &#233; importante ser reconhecida como pol&#237;tica, e n&#227;o teol&#243;gica, - por se tratar de um povo se separando para escolher quem vai os liderar - at&#233; hoje desencadeia problemas que definem a situa&#231;&#227;o atual do Oriente M&#233;dio. Entretanto, algo que viria depois, um destino que o mundo inteiro n&#227;o foi capaz de escapar, tamb&#233;m foi respons&#225;vel por deixar essa quest&#227;o ainda mais complexa, e esse algo a qual me refiro se chama <strong>colonialismo europeu</strong>. O passado incomum que a Am&#233;rica, a &#193;sia, a Oceania e a &#193;frica carregam. </p><p>As grandes pot&#234;ncias - principalmente Reino Unido e Fran&#231;a - utilizaram muito da estrat&#233;gia de &#8216;&#8216;dividir para conquistar&#8217;&#8217; na regi&#227;o. Isso foi feito de uma maneira muito inteligente: identificando minorias em um determinado lugar e as privilegiando, dando a ela posi&#231;&#245;es de maior prest&#237;gio, em cargos de administra&#231;&#227;o, altas patentes no ex&#233;rcito e elevando seu status social. Assim, puderam gerar uma classe completamente dependente e defensora do poder colonial, e cultivaram nessa classe rec&#233;m criada, um p&#226;nico estrat&#233;gico: se as coloniza&#231;&#245;es europeias partissem, a maioria oprimida se voltaria contra eles, e isso os garantia lealdade. Foi o que ocorreu no Iraque com a coloniza&#231;&#227;o brit&#226;nica, onde os sunitas, a minoria do pa&#237;s, foi posta para governar uma maioria xiita e curda, gerando um ressentimento que perdura at&#233; hoje no pa&#237;s.</p><p>O ponto mais crucial para essa quest&#227;o, sem d&#250;vidas, foi a cria&#231;&#227;o de fronteiras durante a coloniza&#231;&#227;o, desenhando o mapa moderno da regi&#227;o de forma completamente arbitr&#225;ria, sem levar em conta, propositalmente, qualquer composi&#231;&#227;o &#233;tnica ou religiosa. O L&#237;bano, por exemplo, que foi ocupado pelos franceses, teve seu territ&#243;rio estrategicamente ampliado para poder abrigar mais mu&#231;ulmanos rivais (sunitas e xiitas), mas a estrutura de poder na regi&#227;o foi feita para os crist&#227;os. Essa distribui&#231;&#227;o de poder e capacidade de oprimir levou o pa&#237;s a uma guerra civil, d&#233;cadas depois. E o processo foi o mesmo com muitos outros pa&#237;ses da regi&#227;o.</p><p>Dentro desse contexto de caos instaurado pelo ocidente, j&#225; no s&#233;culo passado surgiam movimentos nacionalistas seculares e pan-&#225;rabes que ganhavam cada vez mais for&#231;a. A ideia era recuperar a dignidade perdida ap&#243;s o colonialismo europeu, resistir &#224; influ&#234;ncia estrangeira neocolonialista de novas pot&#234;ncias e se fortalecer diante de inimigos comuns. O grande l&#237;der desse movimento foi Gamal Abdel Nasser, presidente do Egito nos anos 1950 e 1960, que pregava independ&#234;ncia econ&#244;mica, nacionalismo &#225;rabe e a expuls&#227;o do Ocidente da regi&#227;o.</p><p>Outro ocorrido muito importante nesse contexto foi a cria&#231;&#227;o do Estado de Israel, que, bem na regi&#227;o onde foi criado, bem na &#233;poca a qual foi criada, expressa claramente a inten&#231;&#227;o de uma proje&#231;&#227;o ocidental no Oriente M&#233;dio. Principalmente pelo fato de que o movimento pan-arabista apetecia muito, muito mesmo, uma certa pot&#234;ncia sovi&#233;tica que estava ganhando muitos territ&#243;rios. Os l&#237;deres desses movimentos &#225;rabes eram completamente anti-imperialistas, e viam na URSS uma for&#231;a que representava esses valores. A grande revolta que derrubou os monarcas russos e estabeleceu a uni&#227;o dos povos eslavos. O pan-eslavismo era um modelo a se espelhar e a Uni&#227;o Sovi&#233;tica, em busca de mais domina&#231;&#227;o, n&#227;o ia deixar essa influ&#234;ncia ser desperdi&#231;ada. Agora, vista de outro lado do mundo, sobre outra ideologia e proje&#231;&#227;o de influ&#234;ncia, a alian&#231;a entre o nacionalismo &#225;rabe e o socialismo em ascens&#227;o era um pesadelo, algo inaceit&#225;vel para a Europa e para os Estados Unidos. Isso, muito al&#233;m de uma disputa ideol&#243;gica, significaria a perda do acesso &#225;s reservas de petr&#243;leo da regi&#227;o.</p><p>A escolha do territ&#243;rio palestino para cria&#231;&#227;o tampouco foi aleat&#243;ria. H&#225; uma conex&#227;o hist&#243;rica, religiosa e cultural do povo judeu com aquela regi&#227;o. &#201; a terra ancestral, a terra prometida, que pertencia ao povo judeu durante a Idade Antiga. O reino de Israel e o reino de Jud&#225;, que existiram ali antes de serem destru&#237;dos por imp&#233;rios babil&#244;nicos e romanos, o motivo da di&#225;spora judaica. &#201; a narrativa de retorno, de respeito, e de desculpas ao juda&#237;smo que o ocidente precisava oferecer, e que acabou apenas sendo mais uma justificativa para a imposi&#231;&#227;o de interesses.</p><p>E algo important&#237;ssimo de se citar: a bandeira que hoje voc&#234; v&#234; sendo usada pela Palestina &#233; um dos s&#237;mbolos mais poderosos do pan-arabismo. A disposi&#231;&#227;o de tr&#234;s listras horizontais (branca, preta e verde) com um tri&#226;ngulo vermelho na lateral &#233; a configura&#231;&#227;o exata da bandeira da Revolta &#193;rabe contra o Imp&#233;rio Otomano, luta onde o povo &#225;rabe se uniu contra um imp&#233;rio opressor que os dominava ainda antes da chegada europeia. Isso aconteceu quando o movimento palestino contra a cria&#231;&#227;o do Estado de Israel em seu territ&#243;rio ganhou for&#231;a, e principalmente, <em>pediu </em>for&#231;a. A luta palestina buscava apoio de toda a na&#231;&#227;o &#225;rabe, e a ades&#227;o da bandeira foi um apelo direto a essa irmandade, al&#233;m de ser um s&#237;mbolo de resist&#234;ncia muito forte. Entendem como tudo o que a Palestina representa incomoda o ocidente? &#201; algo que vai al&#233;m da exist&#234;ncia de Israel, e a luta pela Palestina &#233; a &#250;ltima frente de uma batalha anti-colonial que o Oriente M&#233;dio trava h&#225; s&#233;culos. </p><p>Para evitar a ascens&#227;o desse bloco &#225;rabe unificado, o ocidente aplicou novamente a t&#225;tica de divis&#227;o e conquista. Preferiram apoiar monarquias e ditaduras leais - Ar&#225;bia Saudita, Emirados &#193;rabes e outras no passado - do que arriscar a elei&#231;&#227;o de governos nacionalistas e pan-arabistas populares. Ainda utilizaram da mesma divis&#227;o sunita-xiita, apoiando um lado contra o outro para manter a regi&#227;o fraca e ocupada com conflitos internos. A guerra Ir&#227;-Iraque (1980-1988) &#233; um exemplo cl&#225;ssico, onde as pot&#234;ncias ocidentais armaram os dois lados. Tudo sempre foi uma quest&#227;o de dar poder e influ&#234;ncia a um grupo privilegiado sobre um regi&#227;o dominada, para este grupo assim, seguir mantendo essa domina&#231;&#227;o a fins de manter seus privil&#233;gios. </p><p>Todos esses conflitos, junto de cren&#231;as religiosas, pol&#237;ticas e econ&#244;micas tamb&#233;m muito diferentes do que o ocidente instaurou como certo, foram respons&#225;veis por um &#8220;atraso&#8221; em rela&#231;&#227;o a determinados par&#226;metros julgados. Guerras civis em regi&#245;es com muitos ressentimentos hist&#243;ricos s&#227;o extremamente prop&#237;cias a formar grupos terroristas. E, pela quantidade de armamento que &#233; fornecido pelo ocidente para abastecer o conflito, esses grupos extremistas ganham uma for&#231;a incontrol&#225;vel.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://girlsupworld.substack.com/p/petroleo-para-o-mundo-o-paradoxo?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Partilhar&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/girlsupworld.substack.com/p/petroleo-para-o-mundo-o-paradoxo?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Partilhar</span></a></p><p><strong>O petr&#243;leo como arma pol&#237;tica e a Guerra de Yom Kippur.</strong></p><p>Agora precisamos falar de um evento que contextualiza perfeitamente o poder que o com&#233;rcio petrol&#237;fero oriental exerce na economia mundial. Um ponto de virada, onde muitos pa&#237;ses perceberam que, embora precisassem do Ocidente em muitos aspectos, como tecnologia e principalmente defesa para conflitos, o Ocidente dependia da boa vontade deles para produzir energia.</p><p>Antes de falar da Guerra de Yom Kippur (1973), precisamos relembrar a Guerra dos Seis Dias (1967), que mudou completamente o mapa do Oriente M&#233;dio. Na &#233;poca, as tens&#245;es entre Israel e seus vizinhos &#225;rabes j&#225; vinham crescendo desde 1948, quando Israel foi criado. O estopim para o conflito foi quando o Egito bloqueou o acesso de Israel ao Mar Vermelho pelo Estreito de Tiran, o que foi considerado por Israel como um <em>causus belli </em>(ato de guerra). E, ap&#243;s isso, mesmo com o Egito tendo se aliado militarmente a Jord&#226;nia e a S&#237;ria, a vit&#243;ria Israelense contra os &#225;rabes foi esmagadora. Em seis dias, Israel conquistou a Faixa de Gaza, a Pen&#237;nsula do Sinai, Cisjord&#226;nia e Jerusal&#233;m, al&#233;m de outros territ&#243;rios s&#237;rios. A humilha&#231;&#227;o enfraqueceu profundamente o nacionalismo &#225;rabe, e deixou os l&#237;deres derrotados com um senso de revanchismo muito forte contra Israel e as pot&#234;ncias que o armaram.</p><p>Seis anos depois da derrota, com uma forte &#226;nsia para restaurar o orgulho ferido e for&#231;ar uma devolu&#231;&#227;o dos territ&#243;rios ocupados, Egito e S&#237;ria - um a fronteira leste, e outro a oeste -  fizeram um ataque surpresa simult&#226;neo a Israel, durante o feriado juda&#237;co de Yom Kippur. No in&#237;cio, os &#225;rabes obtiveram vit&#243;rias iniciais significativas, quebrando um pouco dessa aura de invencibilidade que Israel tinha estabelecido anos antes. Mas mesmo precisando de uma recupera&#231;&#227;o dif&#237;cil, Israel estava l&#225; de novo, contra-atacando com toda a for&#231;a que s&#243; s&#233;culos de hegemonia ocidental que poderiam oferecer. O que acontece &#233; que, dessa vez, a Uni&#227;o Sovi&#233;tica tamb&#233;m entrou no jogo, reabastecendo os pa&#237;ses &#225;rabes com armas e transformando o conflito em mais uma das <em>Prox&#180;s Wars</em> (guerras indiretas) da Guerra Fria.</p><p>Ap&#243;s identificar que estavam lidando com um inimigo maior, os Estados Unidos, com uma das opera&#231;&#245;es b&#233;licas a&#233;reas mais massivas da hist&#243;ria, - a chamada <em>Nickel Grass Operation, </em>que deveria levar milhares de toneladas de equipamentos para o outro lado do mundo - foi completamente decisivo para a virada militar de Israel, e foi exatamente isso que fez com que os pa&#237;ses &#225;rabes tivessem que recorrer a outro tipo de ataque, com o uso de outro tipo de arma. O petr&#243;leo passaria a ser ent&#227;o, o maior instrumento de barganha contra as pot&#234;ncias que ajudavam Israel . E voc&#234;s sabem, os Estados Unidos &#233; o pa&#237;s que mais consome e que mais importa petr&#243;leo no mundo. Um embargo total de petr&#243;leo seria feito contra os norte-americanos e contra a Holanda, - por um forte apoio vocal que o pa&#237;s europeu dava a Israel - al&#233;m de cortes mensais sucessivos de 5% na produ&#231;&#227;o de petr&#243;leo, at&#233; que Israel se retirasse dos territ&#243;rios ocupados em 1967.</p><p>O impacto foi imediato e devastador. Em poucos meses o pre&#231;o dos barris de petr&#243;leo quadruplicou, o mundo desenvolvido entrou em uma severa crise de infla&#231;&#227;o, desemprego e racionamento de gasolina. Pela primeira vez, o mundo percebeu que a seguran&#231;a e a prosperidade ocidental estavam diretamente ligadas ao fluxo de petr&#243;leo do Golfo p&#233;rsico. O poder geopol&#237;tico mudou de m&#227;os, mesmo que temporariamente. Aquele foi o momento de maior influ&#234;ncia e coer&#231;&#227;o coletiva &#225;rabe da hist&#243;ria moderna, e ali eles demonstraram que poderiam paralisar economias e ditar termos pol&#237;ticos utilizando seu recurso natural mais abundante, fechando a mamada para o ocidente. </p><p>O que tamb&#233;m n&#227;o se pode esquecer &#233; que isso tamb&#233;m revelou outras depend&#234;ncias estruturais que eles tinham no mundo ocidental, afinal, esse embargo foi uma rea&#231;&#227;o &#224; depend&#234;ncia militar e uma derrota encaminhada que a guerra tinha tra&#231;ado. Apesar de todo o petr&#243;leo, os ex&#233;rcitos &#225;rabes ainda precisavam do abastecimento b&#233;lico sovi&#233;tico, e algo mais profundo ainda foi posto em evid&#234;ncia: toda a riqueza que o Oriente M&#233;dio tinha com essa abund&#226;ncia de petr&#243;leo era completamente superficial. Eles n&#227;o tinham ind&#250;stria, tecnologia ou base manufatureira pr&#243;pria. Essa riqueza, na verdade, era gerada por um &#250;nico recurso natural, tornando as economias desses pa&#237;ses <em>hiperdependentes </em>da venda dessa recurso. Todo o poder que a Guerra de Yom Kippur demonstrou era reativo, e n&#227;o proativo. E logo ficou evidente que causar uma crise mundial n&#227;o os fazia conseguir usar essa sobra petrol&#237;fera para construir uma autonomia.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://girlsupworld.substack.com/p/petroleo-para-o-mundo-o-paradoxo/comments&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Deixe um coment&#225;rio&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/girlsupworld.substack.com/p/petroleo-para-o-mundo-o-paradoxo/comments"><span>Deixe um coment&#225;rio</span></a></p><p><strong>A redu&#231;&#227;o da depend&#234;ncia &#225;rabe.</strong></p><p>Todos esses conflitos da d&#233;cada de 70 formaram um per&#237;odo de aprendizado muito grande na geopol&#237;tica da &#233;poca, fazendo com que o mundo refletisse muito sobre a configura&#231;&#227;o do com&#233;rcio petrol&#237;fero. Como alterar essa vulnerabilidade exposta pela crise do petr&#243;leo? Os Estados Unidos, a Europa e o mundo iriam mesmo permanecer &#224; merc&#234; de um cartel de pa&#237;ses exportadores? Era necess&#225;rio, para ontem, reduzir o poder da OPEP (Organiza&#231;&#227;o dos Pa&#237;ses Exportadores de Petr&#243;leo), mas como fazer isso sem deixar de consumir seu produto?</p><p>Houve uma grande diversifica&#231;&#227;o das fontes de energia para fora do Oriente M&#233;dio. A explora&#231;&#227;o do Alasca e do Mar do Norte, - situado entre as costas da Noruega e da Dinamarca - que antes eram consideradas muito caras, tonaram-se mais vi&#225;veis, devido o alto custo do petr&#243;leo. Assim, o Reino Unido, a Dinamarca e a Noruega se consolidaram como grandes produtores, reduzindo drasticamente a depend&#234;ncia europeia no setor. A Russia segue sendo tamb&#233;m uma grande produtora e pa&#237;ses como a Nig&#233;ria, a Venezuela - portadora das maiores reservas individuais do mundo - , o M&#233;xico e a Indon&#233;sia, que tamb&#233;m s&#227;o membros da OPEP, por&#233;m possuem posi&#231;&#245;es ideol&#243;gicas e proje&#231;&#245;es financeiras diferentes dos pa&#237;ses &#225;rabes, foram incentivados a exportar mais para o mundo. Governos implementaram medidas para diminuir o consumo e investiram em outras formas de produzir energia, era um momento onde a tecnologia nuclear estava em alta e muitos pa&#237;ses lan&#231;aram programas de transi&#231;&#227;o energ&#233;tica muito ambiciosos. Porque era tamb&#233;m, um &#243;timo momento para relembrar: petr&#243;leo &#233; n&#227;o &#233; uma fonte renov&#225;vel, e um dia vai se esgotar.</p><p>Foi criada tamb&#233;m a Ag&#234;ncia Internacional de Energia (AIE), que exigia que os pa&#237;ses membros mantivessem reservas estrat&#233;gicas de petr&#243;leo equivalentes a 90 dias de exporta&#231;&#245;es, para usar no caso de um novo embargo e reduzir os impactos imediatos de um conflito parecido. E com toda e evolu&#231;&#227;o e complexidade adquirida com o tempo, com novas estrat&#233;gias, novas organiza&#231;&#245;es e novos planos econ&#244;micos, a geopol&#237;tica deste tipo de com&#233;rcio se tornou menos perigosa e menos explosiva feito um barril de p&#243;lvora - ou de petr&#243;leo. Os pa&#237;ses &#225;rabes envolvidos nos conflitos tamb&#233;m conclu&#237;ram coisas muito significativas para sua pol&#237;tica externa: seu com&#233;rcio &#233; uma arma mais poderosa que seu ex&#233;rcito. O petr&#243;leo ainda &#233; um pilar central quando se fala de mundo e quando se fala de Oriente M&#233;dio, e agora, precisa ser usado mais estrategicamente ainda, porque n&#227;o havia mais nenhuma Uni&#227;o das Rep&#250;blicas Socialistas Sovi&#233;ticas para lhes ajudar em casos de apuros.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://girlsupworld.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/girlsupworld.substack.com/subscribe"><span>Subscreva agora</span></a></p><p>Apesar das transforma&#231;&#245;es globais no mercado de energia, o Oriente M&#233;dio mant&#233;m uma relev&#226;ncia estrat&#233;gica absoluta na quest&#227;o petrol&#237;fera, entendam que isso continua indiscut&#237;vel. O poder de barganha e controle econ&#244;mico que as exporta&#231;&#245;es de petr&#243;leo carregam ainda &#233; uma vantagem conferida exclusivamente aos pa&#237;ses da regi&#227;o. Um exemplo claro e recente disso foi a absoluta confian&#231;a demonstrada pelo Ir&#227; em sua amea&#231;a de fechar o Estreito de Ormuz por um conflito com Israel em 2025, que envolveu os Estados Unidos por tabela. Esse estreito em espec&#237;fico, &#233; um ponto de estrangulamento do com&#233;rcio global, cuja obstru&#231;&#227;o seria extremamente cr&#237;tica. Localiza-se entre o Ir&#227;, Om&#227; e os Emirados &#193;rabes, e &#233; a &#250;nica passagem mar&#237;tima que conecta os maiores produtores de petr&#243;leo do mundo ao oceano aberto. </p><p>Quando falamos de geopol&#237;tica e com&#233;rcio, preciso que voc&#234;s tenham alguns conceitos b&#225;sicos sempre em mente, um deles &#233; a quest&#227;o dos <em>chokepoints</em>. Quase 100% das exporta&#231;&#245;es globais s&#227;o feitas por via mar&#237;tima, - por quest&#245;es de custos - e bloquear a sa&#237;da desses pontos estreitos e muito especificamente localizados pelo mundo, estes que s&#227;o a &#250;nica forma de passarem mercadorias fundamentais para a economia global, &#233; uma amea&#231;a muito grande. Saem e entram milh&#245;es e milh&#245;es de barris de petr&#243;leo desses corredores todos os dias, para diversos destinos diferentes. Uma obstru&#231;&#227;o ou um acidente pode significar bilh&#245;es de d&#243;lares de preju&#237;zo.</p><p>A quest&#227;o do petr&#243;leo ainda ser&#225; fatal para a economia mundial por muito tempo, e o quanto mais escasso ficar o recurso, mais disputadas e mais valorizadas as ultimas reservas abundantes ser&#227;o. O Oriente M&#233;dio &#233;, e infelizmente, ainda ser&#225; por muito tempo uma fonte inesgot&#225;vel de conflitos e problemas estruturais. O ocidente seguir&#225; se envolvendo indiretamente nesses conflitos, sempre com alguma desculpa moral, e eles seguir&#227;o acontecendo. E o mundo, por mais que se atualize, dificilmente troca os personagens de posi&#231;&#227;o, &#233; com a hist&#243;ria que se aprende a melhora-lo, para todos os lados. Espero poder ter expandido um pouco a percep&#231;&#227;o e a ideia que voc&#234;s t&#234;m desse assunto t&#227;o delicado. H&#225; ainda muito o que ser dito, e se sintam no direito de fazer qualquer questionamento ou pergunta, todo conhecimento, toda teoria e todo fato irrefut&#225;vel nasce de um desses dois!</p><p></p><p></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Como começar a estudar geopolítica?]]></title><description><![CDATA[Descomplicando o estudo da pol&#237;tica em sua propor&#231;&#227;o global.]]></description><link>https://girlsupworld.substack.com/p/como-comecar-a-estudar-geopolitica</link><guid isPermaLink="false">https://girlsupworld.substack.com/p/como-comecar-a-estudar-geopolitica</guid><dc:creator><![CDATA[Girls Up World]]></dc:creator><pubDate>Tue, 26 Aug 2025 12:10:09 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/ecd02fb8-13a4-4814-9dad-3ac112b1c427_735x588.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>O fat&#237;dico termo milenarmente atrelado ao poder. Estudar a pol&#237;tica, em todas as suas vertentes, de um certo modo, &#233; uma forma de tentar entender a necessidade que a ra&#231;a humana sempre teve pelo conv&#237;vio. Sua defini&#231;&#227;o n&#227;o &#233; algo muito diferente disso: Um jeito de englobar todos os mecanismos que encontramos para mant&#234;-lo.</p><p>O surgimento da pol&#237;tica n&#227;o foi um ocorrido contempor&#226;neo, nem moderno ou medieval, nem mesmo antigo. Na verdade, eu diria que a pol&#237;tica n&#227;o pode nem ser posta como <em>surgimento, </em>mas sim como a palavra escolhida para nomear algo que sempre existiu, que sempre precisou existir para que pud&#233;ssemos viver no coletivo. Ela esteve nos modelos tribais, nos c&#243;digos mesopot&#226;micos e babil&#244;nicos, nos parlamentos romanos e nas assembleias gregas. A palavra, inclusive, deriva de <em>politik&#243;s</em>, que significa &#8220;dos cidad&#227;os&#8221; ou &#8220;relativo &#224; cidade&#8221;. Para os gregos oriundos de Atenas, a pol&#237;tica era a arte de organizar a vida coletiva, tomar decis&#245;es sobre a p&#243;lis e definir os rumos da comunidade. </p><p>E &#233; exatamente ali, bem em sua defini&#231;&#227;o, que mora uma de suas contradi&#231;&#245;es: se a pol&#237;tica, mesmo com todas as suas complica&#231;&#245;es, deveria ser a organiza&#231;&#227;o do viver em coletivo, por que ela sempre excluiu metade da coletividade? A hist&#243;ria da pol&#237;tica tamb&#233;m &#233;, em grande parte, a hist&#243;ria da aus&#234;ncia da feminina nos lugares onde se decidiam o rumo do mundo. Se desde os prim&#243;rdios da civiliza&#231;&#227;o, foi ela quem decidiu como a nossa vida iria ser, quem foi que decidiu que as mulheres deveriam saber t&#227;o pouco sobre ela? </p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://girlsupworld.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/girlsupworld.substack.com/subscribe"><span>Subscreva agora</span></a></p><p>Gostaria de come&#231;ar, antes de tudo, nos apresentando, - somos duas por aqui - e apresentando o projeto <em>Girls Up World</em>. </p><p>Eu, <a href="/__u/substack.com/@juliageo">J&#250;lia Geovana</a>, sou quem escreve os nossos artigos aqui no Substack, e elaboro tamb&#233;m o conte&#250;do dos posts informativos postados aqui e nas outras redes. A Aninha, <a href="/__u/substack.com/@aninhacts">Aninha Cats</a>, extra&#237; o mais importante dos textos imensos que eu a mando e os transforma em uma linguagem did&#225;tica e adequada para os carross&#233;is de imagens - al&#233;m de fazer esses designs t&#227;o graciosos que voc&#234;s tanto elogiam. Eu e ela trabalhamos juntas com um objetivo claro: contribuir para o aumento da presen&#231;a feminina no estudo da geopol&#237;tica. E esperamos poder guia-las responsavelmente nesta &#225;rea de estudo t&#227;o apaixonante e necess&#225;ria para nossa vida.</p><p>Algo que acho importante citar, &#233; que eu, J&#250;lia, estou utilizando em muitos de nossos conte&#250;dos, a experi&#234;ncia e os conhecimentos que adquiri no meu processo de estudo para a OBGP (Olimp&#237;ada Brasileira de Geopol&#237;tica), competi&#231;&#227;o nacional onde conquistei, com muita dedica&#231;&#227;o, uma medalha de ouro esse ano. Durante essa &#233;poca de preparo para a olimp&#237;ada tive que revolucionar muito dos m&#233;todos de estudo que eu conhecia, pois voc&#234;s sabem, a geopol&#237;tica, em sua forma completa e abrangente, n&#227;o &#233; algo acess&#237;vel, n&#227;o &#233; algo que se encontra.</p><p>Acredito que uma das melhores formas que eu posso aconselha-las a come&#231;ar, dar realmente o primeiro passo, possa ser inserindo a geopol&#237;tica em suas formas de consumir <strong>entretenimento</strong>. Mostro a voc&#234;s como! Existem muitos produtores de conte&#250;do do <em>Youtube, </em>por exemplo,<em> </em>que voc&#234;s podem utilizar como fonte de estudo - mas da forma certa. Eu hoje separei dois espec&#237;ficos, por conhecer um pouco de suas metodologias e recomendar bastante seus conte&#250;dos. Pe&#231;o para que levem em conta essas <em>insights </em>que tento ressaltar na descri&#231;&#227;o de cada coisa que cito aqui, pois &#233; de muit&#237;ssima import&#226;ncia que voc&#234;s consigam encarar esses conte&#250;dos da forma correta, para que eles expandam sua percep&#231;&#227;o da coisa, e n&#227;o a limitem.</p><p>Desde o in&#237;cio, seria ideal que entendessem uma coisa: Nenhum discurso pol&#237;tico v&#234;m completamente neutro, e isso n&#227;o se configura necessariamente como um problema, mas talvez possa vir a ser uma dificuldade. Na verdade, &#233; at&#233; dif&#237;cil n&#243;s sabermos o que seria o neutro dentro de certos assuntos. At&#233; na busca pelos fatos, seja na fala de algum especialista ou at&#233; mesmo dentro do jornalismo, existe opini&#227;o. Existe ideologia e existe desinforma&#231;&#227;o. Tendo isso em mente, precisamos reconhecer que cabe a n&#243;s, espectadores conscientes, filtrar toda a informa&#231;&#227;o que nos &#233; dada para que consigamos construir a nossa opini&#227;o sobre o tema o mais livre poss&#237;vel da ignor&#226;ncia alheia, e para isso &#233; necess&#225;rio ter seu pr&#243;prio embasamento pol&#237;tico. Dito isso, vamos a eles:</p><p><strong>Pedro Daher</strong></p><p>Esse aqui tem todo o meu cora&#231;&#227;o. Utilizando de uma linguagem humor&#237;stica e muito acess&#237;vel, Pedro oscila entre di&#225;logos imagin&#225;rios (muito bem planejados, com base em fatos e caracter&#237;sticas comportamentais dos pa&#237;ses e de seus l&#237;deres) e explica&#231;&#245;es interessant&#237;ssimas sobre o que est&#225; acontecendo no cen&#225;rio pol&#237;tico mundial. Sua leveza em tratar os pa&#237;ses como personagens tira do nosso estudo muito daquele peso chamado complexidade, o peso que nos faz repelir muitas das vezes os assuntos pol&#237;ticos. Essa perspic&#225;cia em sua forma de ensinar j&#225; foi muit&#237;ssimo bem reconhecida: Pedro j&#225; fez parcerias de v&#237;deos curtos com o governo brasileiro durante a &#233;poca da c&#250;pula do BRICS, explicando e conscientizando o p&#250;blico que segue o governo nas redes sociais sobre o que era aquele evento. Al&#233;m de ser tamb&#233;m, bem prov&#225;vel, se for do teu interesse esse tipo de assunto, que voc&#234; j&#225; tenha esbarrado com um v&#237;deo ou outro dele em sua <em>For You</em> do <em>Tiktok. </em></p><p>Mas para al&#233;m da credibilidade deste comunicador, o que eu mais gostaria de ressaltar &#233; o humor t&#227;o inteligente, e &#225;cido, de Daher. Seu carisma nos lembra o tempo todo de que, antes de ser um comunicador pol&#237;tico com um potencial enorme de influ&#234;ncia, Pedro &#233; um youtuber sensacional. Eu, que o conheci durante meu processo de estudo para a OBGP, hoje espero ansiosamente para cada v&#237;deo que este querido anuncia postar. Me divirto muito e aprendo demais com todo o conhecimento que seu conte&#250;do tem a oferecer.</p><p>Outra coisa que cabe ressaltar dentro do contexto do que anunciei um pouco acima, &#233; que Pedro tem ideais de esquerda &#8212; e &#233; claro, um discurso n&#237;tido de esquerda. E de novo, n&#227;o h&#225; problema nenhum nisso, muit&#237;ssimo pelo contr&#225;rio. Que tenhamos cada vez mais contato com os discursos de opini&#227;o bem apresentados e baseados em fatos, a &#250;nica coisa que pe&#231;o a voc&#234;s &#233; que consumam conte&#250;dos com ambos os discursos, para que n&#227;o sejam alienadas! A mesma China que, por comunicadores como Daher, &#233; constantemente, e talvez at&#233; equivocadamente, bem retratada, &#233; tamb&#233;m fortemente demonizada por muitas outras fontes de informa&#231;&#227;o, nos mesmo assuntos abordados. Os questionamentos naturalmente v&#234;m: O que levar em conta? A quem escutar?</p><p>Quando se trata de pol&#237;tica, meninas, muito antes de falar, temos que saber o que estamos falando, mas nunca confundam isso com repetir tudo o que ouvimos de algu&#233;m em posi&#231;&#227;o de ensinar. Quero que voc&#234;s consigam apreciar todo o conhecimento que estes criadores t&#234;m para oferecer, mas sempre com um olhar anal&#237;tico. N&#227;o caiam na ideia de que voc&#234;s precisam escolher uma ideologia para opinar sobre pol&#237;tica. Sejam cr&#237;ticas, percebam as estrat&#233;gias de persuas&#227;o e classifiquem o que daquilo que &#233; visto se configura como fato, e o que se configura como ju&#237;zo de valor. Nessa sujeira que muitas das vezes a pol&#237;tica se mostra ser, existe muita gente lucrando com a sua ignor&#226;ncia. Mas enfim&#8230; voltando ao caso de Pedro, digo com convic&#231;&#227;o: Apenas o assistam. N&#227;o v&#227;o se arrepender de conhec&#234;-lo.</p><p><strong>Professor Hoc</strong></p><p>Existe muito a se falar sobre este aqui. Englobando muita experi&#234;ncia profissional e conhecimento, ele se consolidou como o maior canal de geopol&#237;tica do Brasil, abordando temas muit&#237;ssimo importantes para a compreens&#227;o do cen&#225;rio pol&#237;tico internacional. Hoc utiliza de termos t&#233;cnicos e formas de abordagem mais profissionais, mas ainda sim, &#233; um &#243;timo produtor de conte&#250;do para os iniciantes nesta &#225;rea de estudo. Ele j&#225; trabalhou em posi&#231;&#245;es de muito prest&#237;gio, como o Conselho de Seguran&#231;a da ONU e possu&#237; ideais mais ligados &#225; Direita e ao liberalismo, o mesmo j&#225; foi deputado estadual de S&#227;o Paulo (2019-2023).</p><p>O que cabe mencionar aqui, com certeza: Al&#233;m das in&#250;meras positivas, h&#225; muitas opini&#245;es negativas na internet sobre ele e seus conte&#250;dos - e muitas, ao meu ver, est&#227;o cobertas de raz&#227;o. O caso &#233; que, assim como na biologia, na medicina, na economia, e em todas as &#225;reas de estudo te&#243;rico, quando &#233; preciso debater o que funciona e o que n&#227;o funciona, profissionais de uma mesma &#225;rea discordam. Contestam uns aos outros, as vezes acham formas de provar sua tese, ou acabam, talvez, validando a do outro, ou at&#233; acrescentando algo novo a ela. Mas na pol&#237;tica &#233; sempre mais complicado estabelecer um consenso. Esta, que n&#227;o tem a praticidade de um experimento cient&#237;fico, com um resultado irrefut&#225;vel e aceita&#231;&#227;o unanime. A pol&#237;tica envolve camadas ideol&#243;gicas, sociais, econ&#244;micas e - principalmente - humanas. Humanas, minhas amigas, &#233; aqui onde muitas de n&#243;s brilhamos. </p><p>Nunca minimizem uma intelig&#234;ncia capaz de suportar uma malha t&#227;o brutal de assuntos como os abrangidos nas ci&#234;ncias humanas. &#201; preciso ser sistem&#225;tico, &#233; preciso ser racional para compreender todas as camadas que formam a humanidade. O qu&#227;o complicada pode ser nossa realidade? Quanto conhecimento seria necess&#225;rio para compreende-la? &#201; preciso, antes de muita coisa, tamb&#233;m ser male&#225;vel e ter a mente aberta. &#201; claro que a tentativa de chegar a um grau maior de compreens&#227;o certamente cabe apenas para as pessoas que pretendem dominar esses assuntos, exercendo uma profiss&#227;o, se especializando em alguma &#225;rea ou pesquisando sobre determinada coisa. O entendimento b&#225;sico sobre estes assuntos &#233; uma coisa perfeitamente poss&#237;vel.</p><p>Mas voltando para Hoc, o que eu aconselho em rela&#231;&#227;o a isso, aqui entre n&#243;s, &#233; dar prioridade para os v&#237;deos em que o assunto abordado &#233; menos pol&#234;mico e mais informativo, onde tende a ser menos influenciado por opini&#227;o. Ele possu&#237; v&#237;deos onde fala sobre a geopol&#237;tica de pa&#237;ses como Jap&#227;o, Pol&#244;nia, Turquia, Estados Unidos, R&#250;ssia, ambas as Coreias&#8230; al&#233;m de muitos outros temas. Encontrar&#225; a geopol&#237;tica por tr&#225;s dos piratas, - porque eles ainda existem, e muito! - sobre pontos de estrangulamento do com&#233;rcio global, Estados falidos, e diversas outras coisas que, se voc&#234; n&#227;o estuda esta &#225;rea, voc&#234; realmente n&#227;o faz ideia, e s&#227;o esses os que mais recomendo, s&#227;o os mais famosos tamb&#233;m. Em v&#237;deos onde ele toca em assuntos que envolvem quest&#245;es como a guerra de Israel, quando &#233; dito algo sobre o atual governo do Brasil, quando o assunto &#233; a China, o Ir&#227; e tudo o que pode ser influenciado por sua opini&#227;o pol&#237;tica, saiba que voc&#234;s est&#227;o recebendo uma vers&#227;o dos fatos parcial, mas que, com certeza, vale a pena escutar tamb&#233;m. </p><p>Acho que a melhor defini&#231;&#227;o para diferen&#231;a dos conte&#250;dos de Hoc e Daher, em quesitos de como absorvemos os aprendizados de ambos, &#233; que, na minha opini&#227;o, o Professor Hoc realmente nos insere em uma aula completa. V&#237;deos bem cumpridos, evid&#234;ncias hist&#243;ricas, considera&#231;&#245;es geogr&#225;ficas, teorias, e conceitos complexos. Assistindo e prestando aten&#231;&#227;o em seus v&#237;deos, saiba que voc&#234; realmente est&#225; estudando, e com um profissional da educa&#231;&#227;o muito influente, apesar de muitos apesares. </p><p></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://girlsupworld.substack.com/p/como-comecar-a-estudar-geopolitica/comments&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Deixe um coment&#225;rio&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/girlsupworld.substack.com/p/como-comecar-a-estudar-geopolitica/comments"><span>Deixe um coment&#225;rio</span></a></p><p></p><p>Algo que gostaria que voc&#234;s dessem import&#226;ncia neste in&#237;cio tamb&#233;m &#233; a <strong>cartografia</strong>. Entender as fronteiras, saber o contexto geogr&#225;fico que cada pais est&#225; inserido, saber quais s&#227;o seus vizinhos e seus limites f&#237;sicos &#233; important&#237;ssimo para compreender sua geopol&#237;tica. Em algum momento voc&#234; j&#225; se perguntou, por exemplo, como se mant&#233;m os pa&#237;ses sem acesso ao mar? Visto que 95% das exporta&#231;&#245;es s&#227;o feitas por via mar&#237;tima pelo baixo custo em rela&#231;&#227;o ao transporte a&#233;reo. Para este caso em espec&#237;fico, existem direitos internacionais, definidos pela Conven&#231;&#227;o das Na&#231;&#245;es Unidas sobre o Direito do Mar (UNCLOS, 1982), que os protegem de forma clara: Estados sem costa mar&#237;tima dever&#227;o ter acesso ao mar atrav&#233;s do territ&#243;rio de pa&#237;ses vizinhos, e estes vizinhos n&#227;o podem criar barreiras comerciais injustas para impedir esse acesso. E sobre os pa&#237;ses que, pior que esses anteriores, est&#227;o completamente &#8220;dentro&#8221; de outros, possuem suas fronteiras rodeadas pelo territ&#243;rio um outro pa&#237;s, os chamados pa&#237;ses enclaves. Temos como exemplo para esse o caso do Lesoto, pa&#237;s localizado no interior da &#193;frica do Sul. Esse assunto j&#225; &#233; um pouco mais complicado, n&#227;o existe nenhum tratado universal espec&#237;fico para eles, mas seus direitos de transito e sua soberania s&#227;o, e devem ser, levados a s&#233;rio. </p><p>Existem muitas outras peculiaridades que, ao se familiarizar com um mapa, voc&#234; ter&#225; menos dificuldade de entender. Para exercitar a cartografia, recomendo dois aplicativos muito interessantes: <em> </em></p><p><strong>Geoexpert: Geografia Mundial </strong></p><p>Este &#233; um jogo muito interessante, onde existem v&#225;rias formas de memorizar informa&#231;&#245;es b&#225;sicas, mas cruciais, e expandir sua no&#231;&#227;o geogr&#225;fica dos continentes e dos pa&#237;ses no mundo. Seja acertando quais s&#227;o os pa&#237;ses destacados pelo contorno em um mapa continental ou determinados estados dentro de um pa&#237;s espec&#237;fico, tamb&#233;m apontando em um mapa onde fica determinada cordilheira, corpo h&#237;drico (rio) ou monumento. E n&#227;o importa se hoje voc&#234; n&#227;o tenha no&#231;&#227;o nada disso, como qualquer joguinho de celular, voc&#234; aprende jogando. E o quanto melhor voc&#234; fica nele, mais familiarizada com esses elementos f&#237;sicos t&#227;o importantes para um Estado voc&#234; fica. </p><p><strong>Atlas mundial MxGeo</strong></p><p>Sobre o atlas mundial n&#227;o h&#225; muito o que se falar al&#233;m de que ele &#233; um aplicativo &#250;til para se ter. Eu o usava rotineiramente enquanto assistia algo ou lia alguma coisa estudando para a olimp&#237;ada, mas pela necessidade mesmo, por n&#227;o saber onde fica algum pa&#237;s ou por querer entender melhor o contexto de uma regi&#227;o. Outra coisa que cabe citar, &#233; que o <em>Geoexpert </em>(primeiro aplicativo citado) possu&#237; certos n&#237;veis do jogo bloqueados se voc&#234;, assim como eu, n&#227;o utiliza da vers&#227;o premium. O atlas mundial se encaixa bem como uma outra camada, revelando o que era aquele territ&#243;rio em cor escura que o joguinho n&#227;o te deixava selecionar. </p><p></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://girlsupworld.substack.com/p/como-comecar-a-estudar-geopolitica/comments&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Deixe um coment&#225;rio&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/girlsupworld.substack.com/p/como-comecar-a-estudar-geopolitica/comments"><span>Deixe um coment&#225;rio</span></a></p><p></p><p>Outra coisa que gostaria de reiterar ainda neste assunto, &#233; que n&#227;o podemos esquecer nunca do &#8216;&#8216;geo&#8217;&#8217; de geopol&#237;tica. Sei que o protagonismo que a pol&#237;tica exerce nesse termo pode ofuscar esta parte, mas o estudo da <strong>geografia</strong>, assim como o da <strong>hist&#243;ria</strong>, &#233; important&#237;ssimo nesta &#225;rea. N&#227;o larguem a m&#227;o do b&#225;sico! Conceitos cl&#225;ssicos como territorialidade, cidadania, globaliza&#231;&#227;o e muitos outros, s&#227;o cruciais para se ter em mente. </p><p>Um pa&#237;s, um Estado e uma na&#231;&#227;o s&#227;o tr&#234;s coisas completamente diferentes. Vejamos o caso do Reino Unido, por exemplo, um pa&#237;s com quatro na&#231;&#245;es constituintes: Inglaterra, Esc&#243;cia, Irlanda do Norte e Pa&#237;s de Gales. Temos os palestinos, por exemplo, um povo com identidade nacional, mas que, atualmente, n&#227;o pertencem a um Estado plenamente reconhecido, pela situa&#231;&#227;o delicada da Palestina. H&#225; tamb&#233;m o caso de Taiwan, complicad&#237;ssimo. A famosa prov&#237;ncia rebelde da China que &#233; sempre uma fonte fulminante de tens&#227;o. O territ&#243;rio de Taiwan n&#227;o possu&#237; reconhecimento internacional suficiente para ser considerado um pa&#237;s - n&#227;o que haja um n&#250;mero espec&#237;fico de pa&#237;ses que precisem lhe fornecer reconhecimento, mas confiem em mim, o buraco &#233; mais embaixo. - mas ele funciona de uma forma praticamente independente, possu&#237; governo pr&#243;prio, moeda pr&#243;pria, exercito e rela&#231;&#245;es econ&#244;micas com outros pa&#237;ses, se configurando como um Estado, para muitos analistas. </p><p>Entretanto, apesar da aus&#234;ncia de reconhecimento da Uni&#227;o Europeia em rela&#231;&#227;o a Taiwan, por exemplo, &#233; importante nos questionarmos do porqu&#234; dela manter rela&#231;&#245;es econ&#244;micas fortes com a <em>ex </em>prov&#237;ncia chinesa. A posi&#231;&#227;o dos norte-americanos, mais curiosa ainda: apoiam a pol&#237;tica de &#8220;Uma S&#243; China&#8221; e n&#227;o reconhecem Taiwan como soberano, mas fornecem armas defensivas e treinamento militar ao Estado desde sempre, para impedir que a China o domine, e j&#225; anunciaram que n&#227;o permitiriam uma invas&#227;o sem ajudar na resist&#234;ncia. Os porqu&#234;s para todas essas quest&#245;es s&#227;o muitos, e muito complexos, mas tudo na geopol&#237;tica &#233; assim. Os governos agem de forma pragm&#225;tica, e o reconhecimento de novos pa&#237;ses, principalmente se amea&#231;am rela&#231;&#245;es com outras pot&#234;ncias, n&#227;o est&#225; fora disso.</p><p>J&#225; as na&#231;&#245;es, naturalmente, s&#227;o respons&#225;veis pelas nacionalidades. Ent&#227;o n&#227;o, um ingl&#234;s n&#227;o possu&#237; a mesma que um gal&#234;s, mas ambos nasceram no mesmo pa&#237;s: o Reino Unido. Existem na&#231;&#245;es sem Estado, Estados sem na&#231;&#227;o e na&#231;&#245;es sem pa&#237;ses. Sei que tudo pode parecer confuso, e pretendo simplificar tudo da melhor forma, mas n&#227;o h&#225; como abordar com profundidade todos esses assuntos de uma vez em um s&#243; artigo. </p><p>Recomendo que utilizem tamb&#233;m dessas fontes de pesquisa r&#225;pidas e diretas que nossa gera&#231;&#227;o tem o privil&#233;gio de poder utilizar durante o estudo, a <strong>intelig&#234;ncia artificial </strong>pode ser muito bem utilizada como uma aliada neste processo. Sempre que n&#227;o entendia alguma explica&#231;&#227;o ou gostaria de complementar a informa&#231;&#227;o, sempre que eu me questionava o porqu&#234; de algo que n&#227;o tinha ficado claro para mim, eu n&#227;o hesitava em pedir para o Chat GPT me explicar. N&#227;o o confundam, nem ele e nem nenhum outro programa de intelig&#234;ncia artificial, com um livro da verdade, mas saibam que muitas das vezes existem coisas simples, como teorias e contextos hist&#243;ricos, que ele pode fornecer muito bem. N&#227;o recomendo &#233; que o usem para pesquisar atualidades ou assuntos passados que t&#234;m rela&#231;&#245;es com os dias de hoje, muitas das coisas l&#225; v&#234;m desatualizadas e at&#233; incorretas, por isso precisamos ser cuidadosas ao perguntar.</p><p>Estarei aqui mais vezes para apresentar e explicar outras contradi&#231;&#245;es, curiosidades e camadas que a geopol&#237;tica carrega. Estudar todas elas &#233; a paix&#227;o da minha vida, e infelizmente, at&#233; os que n&#227;o gostam dela, n&#227;o t&#234;m oportunidade de entender ou n&#227;o se interessam, n&#227;o estar&#227;o livres de seus efeitos. A pol&#237;tica est&#225; em tudo, e eu pretendo estar constantemente nas leituras de voc&#234;s, auxiliando e simplificando o que eu puder. Lembrem-se sempre: estamos aqui para tornar esse estudo mais interessante, suave e atrativo, a &#250;ltima dica que darei a voc&#234;s &#233; que nos acompanharem nessa jornada, temos tudo para crescer muito juntas!</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Como a imposição da cultura pop substituiu seu conhecimento cultural nativo]]></title><description><![CDATA[Embora continuemos a associar e entender o conceito de poder na geopol&#237;tica como algo hostil, muitas das vezes n&#227;o temos em mente que algumas das armas mais poderosas que um pa&#237;s pode ter n&#227;o fazem barulho.]]></description><link>https://girlsupworld.substack.com/p/geopolitica-entenda-como-a-imposicao</link><guid isPermaLink="false">https://girlsupworld.substack.com/p/geopolitica-entenda-como-a-imposicao</guid><dc:creator><![CDATA[Girls Up World]]></dc:creator><pubDate>Sun, 17 Aug 2025 15:59:50 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/d78d61a2-cc53-4a76-b8f6-7d48415a78cc_420x300.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Embora continuemos a associar e entender o conceito de poder na geopol&#237;tica como algo hostil, muitas das vezes n&#227;o temos em mente que algumas das armas mais poderosas que um pa&#237;s pode ter n&#227;o fazem barulho. Elas entram em nossas casas pelas telas, pelos fones de ouvido e pelas embalagens dos produtos que consumimos. Quando falamos sobre este tipo de imposi&#231;&#227;o, estamos dentro do dom&#237;nio do <em>soft power</em>, conceito criado pelo cientista pol&#237;tico Joseph Nye para explicar o poder que um pa&#237;s tem de influenciar, atrair e persuadir os outros sem recorrer ao <em>hard power</em> - conceito do mesmo autor, que diz respeito &#224; press&#227;o militar e econ&#244;mica que uma pot&#234;ncia pode exercer. O <em>soft power</em> age no consumo de entretenimento, cultura, tecnologia e na forma como, diplomaticamente, um pa&#237;s constr&#243;i sua imagem no cen&#225;rio internacional.</p><p>O investimento em <em>soft power</em>, de uma maneira estrat&#233;gica, volta para seu Estado em forma de turismo, influ&#234;ncia pol&#237;tica, rela&#231;&#245;es econ&#244;micas e mercado consumidor. Estamos falando de bilh&#245;es, de trilh&#245;es sendo movidos da economia de outros povos no mundo diretamente para nosso PIB, nosso mercado e, consequentemente, para o nosso bolso. O Brasil tem exercido seu potencial de <em>soft power</em> de forma gradual e crescente, principalmente depois do s&#233;culo passado, temos sido, mesmo que pelo uso de estere&#243;tipos, lembrados pelo mundo. </p><p>A populariza&#231;&#227;o da Bossa Nova na d&#233;cada de 50; as vit&#243;rias de Pel&#233; durante as copas do mundo; a dramaturgia da Globo sendo exportada para diversos outros pa&#237;ses e a confer&#234;ncia Rio-92 como marco na pol&#237;tica ambiental, s&#227;o exemplos das mais variadas formas que este tipo de poder pode ter, para muito al&#233;m do cl&#225;ssico carnaval e samba. Entretanto, foi um processo que oscilou muito durante a hist&#243;ria. Tivemos parte de nossa produ&#231;&#227;o de <em>soft power</em> interrompida no per&#237;odo da ditadura militar (1964-1985), com uma ruptura dr&#225;stica de uma imagem democr&#225;tica, ainda que nesta mesma &#233;poca o governo militar tenha utilizado intensamente a representa&#231;&#227;o do futebol como propaganda nacional.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://girlsupworld.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/girlsupworld.substack.com/subscribe"><span>Subscreva agora</span></a></p><p>Entre todas as nuances que envolvem como a figura do Brasil foi entendida pelo mundo, &#233; ineg&#225;vel e imposs&#237;vel de ignorar que a influ&#234;ncia cultural externa - e principalmente estadunidense - &#224; qual estamos submetidos est&#225; viva e respirando dentro de nossos gostos e opini&#245;es, impregnada em tudo o que conhecemos como &#8220;americano&#8221;. Neste cen&#225;rio, gostaria de ressaltar, entre tantos outros, um fato bastante espec&#237;fico: Com o passar das gera&#231;&#245;es, se tornou cada vez mais comum as crian&#231;as brasileiras n&#227;o saberem explicar, n&#227;o lembrarem ou n&#227;o conhecerem nossos contos folcl&#243;ricos. As mesmas que, todo natal, esperam ansiosamente a visita de um velhinho barbudo que vive nas neves e entrega presentes para as crian&#231;as norte-americanas que foram boazinhas durante o ano. Porque voc&#234;s sabem, o Papai Noel mora no Polo Norte.</p><p>Utilizando como exemplo o universo de um velho amigo chamado Jack Frost (<em>Rise of the Guardians</em>), somos apresentados a uma realidade onde os personagens m&#237;ticos, como o bom velhinho, s&#227;o amea&#231;ados por um vil&#227;o que sabe exatamente como faz&#234;-los parar de existir: Fazendo o mundo deixar de acreditar neles. Nos adequando &#224; trama de um jeito mais realista, onde o que h&#225; para ser perdido n&#227;o envolve magia alguma, mas algo muito real e valioso para o nacionalismo brasileiro: o amor pela nossa cultura, devemos questionar quando exatamente os nossos seres m&#225;gicos, originados de tradi&#231;&#245;es, cren&#231;as e da mais pura hist&#243;ria do povo brasileiro - como o Saci Perer&#234;, Curupira, o Boto-cor-de-Rosa, Vit&#243;ria-R&#233;gia... e muitos, muitos outros que perderam para o tempo - desapareceram completamente do imagin&#225;rio das mesmas crian&#231;as que esperam, a cada dente ca&#237;do, a visita de uma fada que conheceram em filmes dublados? As mesmas crian&#231;as que sabem, do in&#237;cio ao fim, a hist&#243;ria de todas as princesas da Disney.</p><p>Estamos falando de lendas que nasceram na ro&#231;a, nas tribos, nas senzalas e nas lajes batidas. Hist&#243;rias profundamente brasileiras que fazem parte das ra&#237;zes para a nossa produ&#231;&#227;o liter&#225;ria, cinematogr&#225;fica, musical e art&#237;stica, de modo geral. E o fato de eu ter como repert&#243;rio cultural para esse assunto uma met&#225;fora vinda diretamente de <em>A Origem dos Guardi&#245;es</em>, uma anima&#231;&#227;o infantil estadunidense, evidencia ainda mais o quanto a nossa gera&#231;&#227;o vive isso. Na pol&#237;tica de <em>soft power</em> estadunidense, aprimorada principalmente durante a Guerra Fria, a mira est&#225; em nos dar uma mensagem que captamos sem que a ideia sequer se forme em nossa cabe&#231;a: Querem nos lembrar que, desde quando nos entendemos como gente, s&#227;o eles os desenvolvidos. E n&#243;s, o Sul Global, concordamos, aplaudimos e ainda colocamos 5 estrelas no <em>Letterboxd.</em></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://girlsupworld.substack.com/p/geopolitica-entenda-como-a-imposicao/comments&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Deixe um coment&#225;rio&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/girlsupworld.substack.com/p/geopolitica-entenda-como-a-imposicao/comments"><span>Deixe um coment&#225;rio</span></a></p><p>Para captar a ideia, &#233; preciso tamb&#233;m ter em mente que a famosa s&#237;ndrome de vira-lata da qual somos v&#237;timas &#233; exclusivamente subdesenvolvida. Os europeus, principais representantes da cultura ocidental antes da ascens&#227;o dos Estados Unidos, ainda que n&#227;o sejam imunes ao fen&#244;meno norte-americano, s&#227;o por natureza, sangue e cria&#231;&#227;o, um povo fortemente protecionista, que valoriza seu produto nacional. Em grande contraste, a perdura&#231;&#227;o desenfreada do padr&#227;o de consumo que n&#243;s mantemos tende a aumentar em uma propor&#231;&#227;o diretamente ligada &#224; evolu&#231;&#227;o do processo de globaliza&#231;&#227;o e &#224; democratiza&#231;&#227;o da tecnologia para as classes mais baixas. Atingindo cada vez mais um p&#250;blico que, em sua grande maioria, n&#227;o recebeu o conhecimento necess&#225;rio para um dia, questionar os fundamentos pol&#237;ticos por tr&#225;s das refer&#234;ncias que os acompanharam durante a vida.</p><p>Este &#233; apenas mais um dos motivos pelos quais lutamos para que o estudo da geopol&#237;tica seja acess&#237;vel &#224;s novas gera&#231;&#245;es, principalmente em meio a tanta tecnologia, na era da intelig&#234;ncia artificial, onde todas as formas de arte est&#227;o amea&#231;adas. E mesmo que as hist&#243;rias folcl&#243;ricas n&#227;o soem como uma lacuna marcante em nosso potencial de exercer poder internacional, lembrem-se: n&#227;o estamos apenas esquecendo nossas lendas, mas sim a mem&#243;ria de que, um dia, soubemos invent&#225;-las. Estamos arrancando as ra&#237;zes de nossa produ&#231;&#227;o cinematogr&#225;fica, liter&#225;ria, art&#237;stica, musical e entre muitas outras ramifica&#231;&#245;es do que entendemos como cultura. Ironicamente, existe uma express&#227;o tipicamente brasileira para isto: Quem n&#227;o &#233; visto, n&#227;o &#233; lembrado. As lendas, que costum&#225;vamos aprender em tradi&#231;&#245;es orais, que enfraqueceram ao ponto de passarmos a conhec&#234;-las, talvez, pela escola - e quase n&#227;o encontramos mais durante a vida - que o digam.</p><p>Para n&#243;s, desejo que possamos cada vez mais incorporar a fala de nossa grandiosa Carmem Miranda, maior figura da influ&#234;ncia brasileira em <em>Hollywood</em>: Nas rodas de malandro, minhas preferidas, eu digo &#233; mesmo eu te amo, e nunca <em>I love you.</em></p><p></p>]]></content:encoded></item></channel></rss>