<script data-pm-proxy="intercept"></script><?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Memórias e Confissões]]></title><description><![CDATA["Procuro escrever o que vejo, o que penso e o que sinto. As crônicas me fizeram e, por me fazerem, me salvaram. Trato-as como um confessionário. Elas são o meu relicário posto em palavras."]]></description><link>https://guilhermeangra.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!HRSV!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F56503063-db84-4a1a-ab2b-f5f65e5af2cf_968x968.png</url><title>Memórias e Confissões</title><link>https://guilhermeangra.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Tue, 01 Sep 2026 01:13:41 GMT</lastBuildDate><atom:link href="/__u/guilhermeangra.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Guilherme Angra]]></copyright><language><![CDATA[pt]]></language><webMaster><![CDATA[guilhermeangra@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[guilhermeangra@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Guilherme Angra]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Guilherme Angra]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[guilhermeangra@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[guilhermeangra@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Guilherme Angra]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[O exército de um homem só]]></title><description><![CDATA[Eis a&#237; o artista]]></description><link>https://guilhermeangra.substack.com/p/o-exercito-de-um-homem-so</link><guid isPermaLink="false">https://guilhermeangra.substack.com/p/o-exercito-de-um-homem-so</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Angra]]></dc:creator><pubDate>Mon, 31 Aug 2026 14:28:24 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/bf976fa3-609b-4b26-a3ec-4ddb589a0fe9_720x716.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong><span>1 </span></strong><span>Eis o artista como gosto de artista: </span><em><span>arredio</span></em><span> e </span><em><span>sedutor</span></em><span>, </span><em><span>m&#237;stico</span></em><span> e </span><em><span>selvagem</span></em><span>, </span><em><span>anjo</span></em><span> e </span><em><span>pornogr&#225;fico</span></em><span>. Em sua alma, cabem todos os antagonismos do mundo; em sua express&#227;o, todas as diverg&#234;ncias convergem. Talvez porque &#233; um louco pela vida. Ama-a de tal maneira que seu cora&#231;&#227;o se abre como uma m&#227;e bondosa que escancara os bra&#231;os para receber um filho pr&#243;digo e pecador. O artista, apesar de ser um transgressor, diz </span><em><span>sim</span></em><span> &#224; vida. &#201; um revoltado que encontrou sua comunh&#227;o na arte que exerce. Seu ex&#233;rcito &#233; de um homem s&#243;.</span></p><p><strong><span>2 </span></strong><span>Cr&#237;ticos discordar&#227;o. Fodam-se os cr&#237;ticos. O mundo est&#225; cheio deles. Sempre esteve. Rilke j&#225; alertou: &#8220;Obras de arte s&#227;o de uma solid&#227;o infinita, e nada as alcan&#231;a menos do que a cr&#237;tica. Somente o amor &#233; capaz de apreend&#234;-las, sustent&#225;-las e ser justo com elas.&#8221; De novo o amor. Sempre ele. Desde a minha primeira tentativa de escrever um livro at&#233; o momento em que precisei imaginar-me no caix&#227;o na &#233;poca em que me coloquei a fazer o tal necrol&#243;gio, l&#225; estava o amor. Fui ousado. Dei at&#233; t&#237;tulo para a minha &#250;ltima obra, que dever&#225; ser escrita quando eu estiver brocha: </span><em><span>S&#243; o amor vai nos salvar</span></em><span>.</span></p><p><strong><span>3 </span></strong><span>Enquanto fa&#231;o planos, Deus ri. Sem problemas. Um artista que se preze &#233; uma esp&#233;cie de her&#243;i tr&#225;gico capaz de apostar at&#233; contra Deus. Se ganhar, eis a gra&#231;a imerecida; se perder, era o que se esperava. De qualquer forma, tudo vira arte em suas m&#227;os calejadas com as marcas de uma guerra pessoal que travou contra seus pr&#243;prios dem&#244;nios.</span></p><p><strong><span>4 </span></strong><span>Tenho dem&#244;nios, mas ainda sou feliz. Ali&#225;s, minha mulher vive a acusar-me de ser </span><em><span>muito</span></em><span> feliz. N&#227;o nego. Sou mesmo. N&#227;o estou l&#225; nos cafund&#243;s de uma Sib&#233;ria congelante, n&#227;o perdi filhos, n&#227;o me mandaram para um pared&#227;o de fuzilamento, n&#227;o sofro de epilepsia, n&#227;o passo fome, n&#227;o me pregaram &#224; cruz &#8212; ainda. Aprendi a surfar a onda da modernidade, contra a qual todos reclamam e se revoltam &#8212; esquerda e direita, comunistas e conservadores. Estes se voltando para um passado que nunca existiu e aqueles ansiando por um futuro que nunca existir&#225;. Tolos! Jogam fora o que importa: o presente.</span></p><p><strong><span>5 </span></strong><span>Como sofrem essas pessoas! E sofrem do pior tipo de sofrimento: o sofrimento sem amor, o sofrimento do fechamento &#224; vida, o sofrimento da ingratid&#227;o, o sofrimento que cria muros, &#243;dios e guerras. Malditos anti-homens que n&#227;o percebem o &#243;bvio da exist&#234;ncia: a &#250;nica guerra que vale a pena lutar &#233; a pessoal, contra os pr&#243;prios dem&#244;nios. Lembrei-me de Chesterton quando questionado sobre o que havia de pior no mundo. Eis sua resposta fulminante e fatal: </span><em><span>eu!</span></em></p><p><strong><span>6 </span></strong><span>Mas o mundo est&#225; cheio de arrombados projetando seus pr&#243;prios dem&#244;nios nos outros; e, por lhes faltarem meios de a&#231;&#227;o e </span><em><span>coragem</span></em><span>, ressentem-se, entristecem-se, amarguram-se. Suas buscas por uma justi&#231;a ut&#243;pica ofuscam suas capacidades de amar a vida como ela &#233;. Sobra-lhes somente a revolta sem amor que tender&#225; a terminar em desejo de revolu&#231;&#227;o pol&#237;tica.</span></p><p><strong><span>7 </span></strong><span>Agrade&#231;o a Deus que l&#225; em casa n&#227;o se falava de pol&#237;tica &#8212; nem de religi&#227;o. N&#227;o por tabu, mas por sermos uma esp&#233;cie de artistas meia-boca: meu pai, cujo bom-dia &#233; uma agress&#227;o amorosa, levantava cantando e batucando nos m&#243;veis; minha m&#227;e ia preparar seu caf&#233; </span><em><span>m&#225;gico</span></em><span>; meu irm&#227;o, desde cedo, j&#225; acordava fazendo tro&#231;a comigo e com o resto da fam&#237;lia. E eu? Eu era o espectador mais feliz do mundo. Sem saber, estava fixando na mem&#243;ria </span>&#8212; o que a mem&#243;ria ama fica eterno &#8212; <span>aquilo que um dia viria &#224; luz por meio da palavra .</span></p><p><strong><span>8 </span></strong><span>N&#227;o &#233; &#224; toa que fa&#231;o odes e mais odes aos caf&#233;s em fam&#237;lia da minha inf&#226;ncia e adolesc&#234;ncia. Lembro-me deles e enterne&#231;o-me. Sinto que, quando estiver diante de minha morte iminente, &#233; para l&#225; que voltarei, pois parec&#237;amos todos imortais naquela </span><em><span>santa ceia imperfeita</span></em><span>. De um lado, minha Virgem Maria terrena cheia de ternura para com os seus; do outro, meu S&#227;o Jos&#233; sangu&#237;neo que, em vez de carpinteiro e casto, &#233; um caminhoneiro excelente, mas meio tarado, com olhos de lince, segundo minha m&#227;e.</span></p><p><strong><span>9 </span></strong><span>Quero passar a vida inteira enchendo o meu cora&#231;&#227;o de belezas como essa. Vai que eu esque&#231;a de sofrer e, de lambuja, torne-me um artista n&#227;o t&#227;o meia-boca assim?!</span></p><p><em><strong>Cr&#244;nica escrita por Guilherme Angra em agosto de 2026.</strong></em></p><p><span>Al&#233;m de escritor, sou psicanalista desde 2021. </span><a href="https://wa.link/pjuadu">CLIQUE AQUI</a><span> caso queira saber como funciona o meu trabalho no consult&#243;rio.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Sem a música a vida seria um erro]]></title><description><![CDATA[Deus, no m&#237;nimo, deve saber dan&#231;ar]]></description><link>https://guilhermeangra.substack.com/p/sem-a-musica-a-vida-seria-um-erro</link><guid isPermaLink="false">https://guilhermeangra.substack.com/p/sem-a-musica-a-vida-seria-um-erro</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Angra]]></dc:creator><pubDate>Mon, 24 Aug 2026 14:03:39 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/b68c147a-53e1-46e3-af67-2ca26791dba4_500x333.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong><span>1 </span></strong><span>Escuto o lamentar das multid&#245;es diante do meu desaparecimento. Ecoa na atmosfera um uivo un&#226;nime de vozes que suplicam: &#8220;S&#243; mais uma cr&#244;nica, senhor Angra&#8221;. Poderia dar uma de Rimbaud, o </span><em><span>m&#237;stico selvagem</span></em><span> que, ap&#243;s escrever poemas antol&#243;gicos com m&#237;seros dezoito anos, foi-se para o mundo e nunca mais escreveu um poeminha sequer. Foi </span><em><span>viver</span></em><span> a </span><em><span>vida</span></em><span>! Ah, se eu fosse um g&#234;nio! Seria t&#227;o elegante sumir e deixar para a posteridade cr&#244;nicas geniais que seriam lidas daqui a mil anos.</span></p><p><strong><span>2 </span></strong><span>Como n&#227;o sou &#8212; ainda &#8212;, volto &#224; p&#225;gina em branco e tento s&#234;-lo. Adianto: acho que n&#227;o vai dar. N&#227;o tem problema. Sou excelente em aceitar as condi&#231;&#245;es que a exist&#234;ncia me imp&#245;e. Jogo com o que tenho. Tiro sentido at&#233; das pedras. Apaixono-me diariamente pela vida, e talvez por isso andava meio sumido. Por um lado, estava feliz, degustando as guloseimas da realidade; por outro, estava &#8212; estou &#8212; com tantos sil&#234;ncios barulhentos que n&#227;o sei por onde come&#231;ar a traduzi-los.</span></p><p><strong><span>3 </span></strong><span>N&#227;o importa. Uma hora ou outra acharei o fio da meada e eles ir&#227;o sair, ganhar forma e, quem sabe, o mundo. Ganhar o mundo, no vocabul&#225;rio angreano, trata-se de uma obra simplesmente vir &#224; luz, fazer-se carne. J&#225; disse que n&#227;o quero fama nem dinheiro &#8212; quero a fome &#8212; contanto que a obra venha ao mundo repleta de sangue quente e entranhas; e que eu consiga, de boca cheia e cora&#231;&#227;o nas m&#227;os, bradar: n&#227;o me acho mais um artista, eu </span><em><span>sou</span></em><span>.</span></p><p><strong><span>4 </span></strong><span>Tudo o que &#233; literatura desprender-se-&#225; de mim e o leitor perguntar&#225;: e isto aqui que estou lendo, &#233; o qu&#234;? M&#250;sica! Sou eu cantando, percebe? Estou sendo usado por um Deus como um meio entre o C&#233;u e a Terra para faz&#234;-lo dan&#231;ar. Ent&#227;o dance! &#201; pedir muito?</span></p><p><strong><span>5 </span></strong><span>Tudo o que eu queria com os meus quatorze anos continuo querendo hoje: viver de m&#250;sica. Fechado em meu m&#243;dico quarto, fingia fazer shows para multid&#245;es. Nas madrugadas frias da serra ga&#250;cha, enfurnava-me no banheiro com viol&#227;o, caderno e caneta. Os dedos das m&#227;os, prestes a congelar, dedilhavam notas simples. Uma sequ&#234;ncia de acordes, uma sequ&#234;ncia de frases. O edif&#237;cio ia sendo erigido aos borbot&#245;es, no dia, na hora exata da encruzilhada: engenheiro e pedreiro num fluxo de consci&#234;ncia, trabalhando juntos, sem planejamento.</span></p><p><strong><span>6 </span></strong><span>Naquelas madrugadas invernais, o pr&#233;dio dependeria do humor de ambos. Obra pronta, satisfa&#231;&#227;o garantida. Mais uma can&#231;&#227;o que vinha &#224; luz por meio das minhas entranhas. E n&#227;o importava se algu&#233;m iria ouvi-la ou dan&#231;&#225;-la, contanto que agora ela participasse da exist&#234;ncia e que eu continuasse com fome. E eu continuo com fome, at&#233; hoje. Agora ainda mais. Parece-me que o fio da meada est&#225; logo ali; e quando eu o achar, n&#227;o sobrar&#225; pedra sobre pedra. Sair&#227;o de mim calhama&#231;os suntuosos de can&#231;&#245;es bel&#237;ssimas que </span><em><span>eu</span></em><span> precisarei ouvir &#8212; o mundo tamb&#233;m, mas n&#227;o obrigarei ningu&#233;m a nada.</span></p><p><strong><span>7 </span></strong><span>Sou um ego&#237;sta. Pego minha solid&#227;o e dan&#231;o ao som de minhas composi&#231;&#245;es. Se dan&#231;o hoje, qui&#231;&#225; no dia em que saber-me de fato um artista?! Nunca mais pararei de dan&#231;ar. Chegarei &#224; eternidade em meio aos santos, anjos e pecadores e viveremos numa festa eterna ao som das can&#231;&#245;es mais espl&#234;ndidas que uma alma poderia escutar, pois s&#227;o feitas por Ele, um Deus que, al&#233;m de saber compor, tamb&#233;m sabe dan&#231;ar&#8230; e que se juntar&#225; conosco nessa festa no C&#233;u.</span></p><p><em><strong>Cr&#244;nica escrita por Guilherme Angra em agosto de 2026.</strong></em></p><p><span>Al&#233;m de escritor, sou psicanalista desde 2021. </span><a href="https://wa.link/pjuadu">CLIQUE AQUI</a><span> caso queira saber como funciona o meu trabalho no consult&#243;rio.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Minha esposa viajou e deitei-me com outra]]></title><description><![CDATA[S&#243; se vive uma vez]]></description><link>https://guilhermeangra.substack.com/p/minha-esposa-viajou-e-deitei-me-com</link><guid isPermaLink="false">https://guilhermeangra.substack.com/p/minha-esposa-viajou-e-deitei-me-com</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Angra]]></dc:creator><pubDate>Sat, 08 Aug 2026 20:13:05 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!dt50!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F57a86bb4-969e-497f-8af1-4ab11823f0c8_1402x1122.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong><span>1 </span></strong><span>Vez ou outra, tenho lampejos de deidade. Sinto que posso dominar o mundo. Quase um bipolar em estado de mania. Nessas horas, se um Papa Urbano II me diz que est&#225; afim de acabar com uns mu&#231;ulmanos arrombados que andam invadindo uma tal de Terra Santa, sou o primeiro a desembainhar minha espada imagin&#225;ria em cima de meu cavalo alado &#8212; tamb&#233;m imagin&#225;rio &#8212; e partir para o fronte de costas eretas e ombros para tr&#225;s &#8212; obrigado, Jordan Peterson.</span></p><p><strong><span>2 </span></strong><span>Estou sozinho em casa. A esposa precisou viajar a trabalho &#8212; obrigado, feminismo. Sem ningu&#233;m para me dar ordens, sinto-me um p&#225;ssaro sem gaiola. Eis o drama: voar para onde? A liberdade torna-se uma pris&#227;o. Posso fazer tudo e, por ter no horizonte todas as possibilidades do mundo, n&#227;o fa&#231;o &#233; nada. Travo como o meu falecido Playstation 1 ao ter de rodar jogos de camel&#244;. Mas dessa vez decidi: serei radical, farei coisas arriscadas, desbravarei horizontes. E assim o fiz.</span></p><p><strong><span>3 </span></strong><span>Em plena quarta-feira &#224; noite, em vez de ir para a guerra na Ucr&#226;nia destro&#231;ar russos, ap&#243;s atender o &#250;ltimo paciente do dia, pedi um hamb&#250;rguer duplo com batatas fritas. Antes, tomei um banho bem molhado &#8212; meia hora debaixo da &#225;gua (foda-se o Greenpeace!) &#8212;, daqueles dignos de um rei; e um rei </span><em><span>selvagem</span></em><span>, ao sair do banho, n&#227;o veste pijamas &#8212; j&#225; falei que sou contra pijamas? O nobre joga por cima de seu corpo nu e fresco um roup&#227;o. Foi o que fiz. L&#225; fora era ventania, rel&#226;mpagos e El Ni&#241;o; ali dentro era um homem reinando numa &#225;rea que n&#227;o fazia parte de sua jurisdi&#231;&#227;o. Reinei com gosto. Sa&#237; do banheiro altivo, exalando nobreza pelos c&#244;modos.</span></p><p><strong><span>4 </span></strong><span>Ordenei &#224; minha &#250;nica serva que me respeita neste mini reino: &#8220;Alexa, toca </span><em><span>Live Forever</span></em><span>, do Oasis!&#8221; Em seguida, servi-me uma dose de Campari enquanto aguardava o lanche. J&#225; era noite. Parei em frente &#224; grande porta de vidro que d&#225; para os fundos de casa e fiquei a contemplar aquele horizonte negro, carregado de tempestades, cujos rel&#226;mpagos tornavam a cena ainda mais bela. H&#225; uma nostalgia de fim-de-mundo em mim. O c&#233;u tempestuoso me d&#225; uma sensa&#231;&#227;o de pequenez e vulnerabilidade, e isso parece bom. &#201; um desarmar-se e desapegar-se de tudo. Amanh&#227; n&#227;o haver&#225; aula, trabalho, Estado, impostos, contas, mercado, SexShop, coaches terno-e-t&#234;nis, livros de autoajuda, vizinho filho-da-puta&#8230; nada. O c&#233;u negro engolir&#225; tudo hoje, no presente. Deguste suas &#250;ltimas horas.</span></p><p><strong><span>5 </span></strong><span>E eu as degusto ao som de Oasis e ao gosto de Campari com a certeza na fu&#231;a de que a beleza est&#225; em tudo, mas &#233; preciso aprender a ver. Ah, verbozinho de tr&#234;s letras t&#227;o caro aos nossos dias. Acusam-me de fan&#225;tico, rom&#226;ntico, ing&#234;nuo. Quem est&#225; cego aqui? Eu ou eles? Pouco importa, pois sei quem est&#225; degustando melhor a vida: o rei aqui. Ando sempre em comunh&#227;o com a beleza e quero morrer amando e agradecendo. Quero sair daqui como um dos homens mais gratos da hist&#243;ria simplesmente porque vivi. Amo a vida e quero durar muito, pois leio devagar. Volto &#224;s p&#225;ginas. Fa&#231;o marca&#231;&#245;es. Releio obras. Apaixono-me por palavras, frases e autores. Quero demorar neles, se poss&#237;vel, at&#233; a eternidade.</span></p><p><strong><span>6 </span></strong><span>Ou&#231;o uma buzina. &#201; o lanche! Vou busc&#225;-lo de roup&#227;o. O entregador recebe-me com um sorriso no rosto. &#8220;Sr. Guilherme?&#8221; O pronome de tratamento &#8220;senhor&#8221; foi pelo roup&#227;o. Ningu&#233;m me chama de senhor. No m&#225;ximo, tio. &#8220;Isso, meu caro. Sou eu mesmo.&#8221; Come&#231;a a pingar. &#8220;Bem na hora. O senhor &#233; a &#250;ltima entrega.&#8221; Pego o lanche. &#8220;Que beleza! Vai escapar do El Ni&#241;o ent&#227;o.&#8221; Ele sobe na moto: &#8220;El Ni&#241;o?&#8221; N&#227;o quis explicar: &#8220;Da chuva.&#8221; &#8220;Ah, sim. At&#233; mais, senhor Guilherme. Bom lanche.&#8221; Pensei: &#8220;Pau no cu do El Ni&#241;o!&#8221;</span></p><p><strong><span>7 </span></strong><span>Sento-me no sof&#225; e ligo a televis&#227;o. Danem-se os streamings. Aquela noite queria ser radical. Coloquei na sky-gato e deixei rolar o que tivesse passando: </span><em><span>Matilda</span></em><span>, filme de 96. Entre uma mordida e outra no hamburguer, algumas risadas. Lembrei-me de meu pai assistindo ao </span><em><span>Pica-Pau</span></em><span> comigo na inf&#226;ncia. O homem ria que se mijava. E eu gostava de v&#234;-lo rindo. Eu ria mais dele rindo do que do pr&#243;prio desenho.</span></p><p><strong><span>8 </span></strong><span>Bucho cheio. Era quase 22h. Hora de se recolher, mas quis ser radical </span><em><span>mesmo</span></em><span>, quis ir a um lugar diferente, deitar numa cama diferente, com uma companhia diferente, numa luz diferente. A vida de casado enjoa. Confessemos. &#201; preciso aproveitar ao m&#225;ximo quando a mulher nos deixa sozinhos. E eu n&#227;o sabia se ter&#237;amos um amanh&#227;. O El Ni&#241;o havia come&#231;ado. Pensei: &#8220;S&#243; se vive uma vez.&#8221; Minha esposa, quando descobriu o que fiz, achou que eu tinha ficado louco.</span></p><p><strong><span>9 </span></strong><span>Aqui confesso &#8212; n&#227;o um pecado &#8212; a minha virtude naquela quarta-feira &#224; noite: deitei-me no quarto de visitas com uma mulher chamada Ad&#233;lia. Ficamos &#224; luz de velas. Sim, velas! Tenho uma nostalgia dos tempos das cartas, das velas e dos archotes. Nunca mais quero fazer amor sob aquela luz branca e artificial que se v&#234; em cozinhas industriais e em hospitais. </span></p><p><strong><span>10</span></strong><span> S&#243; de lembrar-me da cena, excito-me: deitado na cama sob as luzes bruxuleantes das velas, foi Ad&#233;lia quem despiu-me primeiro, n&#227;o s&#243; o corpo, mas a alma. Enquanto faz&#237;amos amor, l&#225; fora chovia, ventava e trovoava. &#201; t&#227;o bom ver acabar o mundo quando estamos abrigados. Pensei novamente: &#8220;Pau no cu do El Ni&#241;o!&#8221;</span></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!dt50!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F57a86bb4-969e-497f-8af1-4ab11823f0c8_1402x1122.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!dt50!, /__u/guilhermeangra.substack.com/w_424, /__u/guilhermeangra.substack.com/c_limit, /__u/guilhermeangra.substack.com/f_webp, /__u/guilhermeangra.substack.com/q_auto:good, /__u/guilhermeangra.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F57a86bb4-969e-497f-8af1-4ab11823f0c8_1402x1122.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!dt50!, /__u/guilhermeangra.substack.com/w_848, 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url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!lcgw!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd1234951-25d9-4ac7-a4e4-47802845d1e2_1200x840.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>Ontem, depois de encher o bucho na casa da sogra com carne, maionese e p&#227;o, chego ao lar e j&#225; aviso minha mulher:</span></p><p><span>&#8212; Vou dar uma sestiada e depois vou escrever. &#8212; Quis ser aplaudido: &#8212; Estou escrevendo um conto, sabia?</span></p><p><span>Ela me olha de soslaio:</span></p><p><span>&#8212; Ah &#233;? Hum, sobre o qu&#234;?</span></p><p><span>Encho o peito:</span></p><p><span>&#8212; &#201; a hist&#243;ria de um casal que se muda para uma casa nova sem saber que, em frente, mora um vizinho-bandido-e-drogado que vive a colocar sua m&#250;sica-lixo no &#250;ltimo volume.</span></p><p><span>Ela ri cinicamente.</span></p><p><span>&#8212; Ai, amor, n&#227;o sei n&#227;o.</span></p><p><span>Continuo:</span></p><p><span>&#8212; O marido, que &#233; escritor, fantasia matar o vizinho-bandido-e-drogado com a justificativa de que o mundo melhora sem um certo tipo de gente.</span></p><p><span>Chateia-se:</span></p><p><span>&#8212; Ai, n&#227;o gosto dessas hist&#243;rias muito fantasiosas.</span></p><p><span>Passei a rir.</span></p><p><span>&#8212; Falou a mulher que ama a hist&#243;ria de um vampiro e de um lobisomem que se apaixonam por uma adolescente sem sal.</span></p><p><span>Rimos juntos.</span></p>
      <p>
          <a href="/__u/guilhermeangra.substack.com/p/sou-mais-rico-que-o-thiago-nigro">
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          </a>
      </p>
   ]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A lua de mel acabou]]></title><description><![CDATA[N&#227;o sobrou nada...]]></description><link>https://guilhermeangra.substack.com/p/a-lua-de-mel-acabou</link><guid isPermaLink="false">https://guilhermeangra.substack.com/p/a-lua-de-mel-acabou</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Angra]]></dc:creator><pubDate>Tue, 14 Jul 2026 14:01:40 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/2d7d09d1-d150-4e0e-9455-cecfb36a3e71_1280x1002.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong><span>1 </span></strong><span>Dizia eu antes de me bandear para a serra ga&#250;cha que a aus&#234;ncia &#233; a gasolina do desejo. Chego na rodovi&#225;ria de Medianeira, depois de quase duas semanas longe da minha </span><em><span>loira mais bela</span></em><span> e assim que ela me avista, ali, antes de beijar-me com os l&#225;bios macios e rosados, beijou-me com a pupila dos olhos. A Adeline cintilava inteira diante da minha presen&#231;a. Pensei: &#8220;Lua de mel, a&#237; vou eu.&#8221; Que final de semana! Fui amado de todas as formas e cravei na alma um aforismo: Cristo s&#243; &#233; amado porque fez o que fez e partiu. Dizem que vai voltar. E por isso o amamos. A cortina do palco se abriu, Ele fez </span><em><span>o</span></em><span> espet&#225;culo, foi-se para junto do Pai e prometeu voltar. Se tivesse voltado em carne, ossos e fluidos, j&#225; o ter&#237;amos crucificado uma segunda vez.</span></p><p><strong><span>2 </span></strong><span>O ausente &#233; sempre o mais amado porque agora est&#225; no mist&#233;rio. Pensando nisso, tratei de alimentar uma ideia a p&#227;o de l&#243;: e se eu me tornar um caminhoneiro como meu pai o &#233;? Cr&#244;nicas passadas, como um grande s&#225;bio, proferi o segredo do sucesso do casamento dos meus pais: a aus&#234;ncia. N&#227;o &#233; qualquer aus&#234;ncia. &#201; a aus&#234;ncia sacrificial. O her&#243;i que vai para a jornada ou o soldado que vai &#224; guerra por amor aos seus.</span></p><p><strong><span>3 </span></strong><span>Vi meu pai, mais uma vez, chegando em casa de viagem. Minha m&#227;e, na v&#233;spera, j&#225; estava toda ansiosa pela presen&#231;a de seu homem que havia de chegar dali a pouco. Minutos antes, enchia-o de elogios para mim. Como o ausente &#233; amado! Assim que ouviu o ronco do motor do caminh&#227;o ecoar pela General Os&#243;rio, seu semblante abriu-se como uma manh&#227; ensolarada, e dali vazava luz. &#8220;&#201; o pai! &#201; o pai!&#8221; ela me disse. Acho de uma ternura monumental marido e mulher chamarem-se de &#8220;m&#227;e&#8221; e &#8220;pai&#8221;. Isso acontece quando a intimidade atravessa o instinto.</span></p><p><strong><span>4 </span></strong><span>Meu pai adentra em casa e &#233; recebido com beijos e abra&#231;os de sua loira mais bela. Eu, sentado ao lado do fog&#227;o a lenha, tenho o privil&#233;gio de fotografar tal cena com os olhos para deix&#225;-la registrada na mem&#243;ria. Quando me v&#234;, chama-me pelo apelido carinhoso: &#8220;Meu </span><em><span>seco!</span></em><span>&#8221; Levanto-me para abra&#231;&#225;-lo e, ap&#243;s engoli-lo com um abra&#231;o, meu pai, que n&#227;o &#233; afei&#231;oado aos literatos e aos intelectuais, atira-me uma frase de poeta: &#8220;Bah, o meu seco come&#231;ou a se levantar da cadeira e n&#227;o parava mais de subir.&#8221;</span></p><p><strong><span>5 </span></strong><span>Cada vez que os visito, tem-se essa impress&#227;o f&#237;sica: parece que estou ficando maior e eles, menores. Ontem, numa liga&#231;&#227;o, meu pai enche-me a bola para a Adeline: &#8220;Queria eu poder deitar todo dia no peito desse rapaz. Deitar nesse peit&#227;o a&#237; &#233; o mesmo que estar no c&#233;u.&#8221; A&#237; percebe-se o motivo pelo qual sou um rom&#226;ntico incur&#225;vel e um aspirante a poeta. Vivi quase uma vida inteira escutando meu pai atirar suas impress&#245;es de mundo dessa maneira pessoal&#237;ssima.</span></p><p><strong><span>6 </span></strong><span>Enfim, depois de dois dias em casa, minha m&#227;e j&#225; dava aquele &#8220;chega pra l&#225;&#8221; nele. Sua presen&#231;a j&#225; n&#227;o parecia t&#227;o cintilante quanto na chegada. As tentativas de tocar os l&#225;bios de sua &#8220;alemoa&#8221; j&#225; n&#227;o tinham 100% de aproveitamento. Eis a reclama&#231;&#227;o de minha Virgem Maria terrena: &#8220;Teu pai &#233; um cov&#227;o. Ele &#233; muito sexual. A Nasa tinha que estudar ele.&#8221; Na segunda-feira, de madrugada, o cov&#227;o partiu para a estrada. Quando acordei, pela manh&#227;, num caf&#233; entre m&#227;e e filho, eis o elogio ao ausente: &#8220;Como eu admiro o teu pai.&#8221;</span></p><p><strong><span>7 </span></strong><span>Cheguei em casa na sexta e vivi o paroxismo da paix&#227;o por tr&#234;s dias. Ontem, segunda-feira, &#224; noite, apesar de a loira mais bela n&#227;o me beijar mais com a pupila dos olhos e muito menos com os l&#225;bios de sua boca &#250;mida, tento uma investida. Ela recua. Dou-lhe outra. Recua novamente e ent&#227;o liquida-me com uma frase: &#8220;A lua de mel acabou!&#8221;</span></p><p><em><strong>Cr&#244;nica escrita por Guilherme Angra em julho de 2026.</strong></em></p><p><span>Al&#233;m de escritor, sou psicanalista desde 2021. </span><a href="https://wa.link/pjuadu">CLIQUE AQUI</a><span> caso queira saber como funciona o meu trabalho no consult&#243;rio.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A última dança do nosso herói trágico]]></title><description><![CDATA[Brasil &#233; eliminado pela Noruega e venho aqui, n&#227;o como um especialista em futebol &#8212; que n&#227;o sou mesmo &#8212;, mas como um brasileiro de cora&#231;&#227;o nas m&#227;os, e direi o &#243;bvio: somos vira-latas.]]></description><link>https://guilhermeangra.substack.com/p/a-ultima-danca-do-nosso-heroi-tragico</link><guid isPermaLink="false">https://guilhermeangra.substack.com/p/a-ultima-danca-do-nosso-heroi-tragico</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Angra]]></dc:creator><pubDate>Mon, 06 Jul 2026 22:26:53 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/7c1d2582-18f4-4283-8afe-fe8d1dcbd45b_1172x657.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong><span>1 </span></strong><span>Brasil &#233; eliminado pela Noruega e venho aqui, n&#227;o como um especialista em futebol &#8212; que n&#227;o sou </span><em><span>mesmo</span></em><span> &#8212;, mas como um brasileiro de cora&#231;&#227;o nas m&#227;os, e direi o &#243;bvio: somos vira-latas. Ficamos de quatro, como uma cadelinha no cio, para o estrangeiro. Ansiamos por lamber os europeus como ninfoman&#237;acas de filme franc&#234;s anseiam por uma nesga de pica.</span></p><p><strong><span>2 </span></strong><span>No jogo de ontem, nossos jogadores passeavam em campo &#8212; sem a bola. Ningu&#233;m mordia, batia, ia pra cima &#8212; desconfio que o escrete sequer suou. Apegaram-se a estrat&#233;gias, estat&#237;sticas, linhas de marca&#231;&#227;o, mapas de calor etc. M&#233;todos estrangeiros! Isso n&#227;o &#233; Brasil, ora bolas! Ancelotti, sobre a escolha de Bruno Guimar&#227;es para bater o p&#234;nalti, cita a &#8220;estat&#237;stica&#8221;. A ci&#234;ncia que v&#225; para a p&#234;-qu&#234;-p&#234;. Brasil n&#227;o funciona com futebol baseado em estat&#237;sticas, assim como a psicologia tamb&#233;m n&#227;o funciona com m&#233;todos baseados em evid&#234;ncias. Funcionamos como a literatura: com her&#243;is tr&#225;gicos em contextos escabrosos.</span></p><p><strong><span>3 </span></strong><span>Por isso mesmo, o &#250;nico brasileiro que entrou em campo, ontem, foi Neymar, o qual est&#225; sendo recha&#231;ado por esta imprensa med&#237;ocre por ser, de fato, um her&#243;i tr&#225;gico. Foi o &#250;nico que bateu de frente com os gigantes noruegueses e que, pasmem, fez uma bola balan&#231;ar a rede inimiga &#8212; a &#250;nica. Caiu atirando! E talvez tenha sido o &#250;nico que sentiu a derrota corroer-lhe a espinha. O resto sequer chorou.</span></p><p><strong><span>4 </span></strong><span>Meu pai dizia: &#8220;At&#233; as nossas derrotas de antigamente eram mais dram&#225;ticas e sentidas. Os nossos jogadores atiravam-se ao ch&#227;o, em choro e revolta.&#8221; Ontem, ap&#243;s perder para um pa&#237;s de segunda linha da Europa, nossos jogadores, como funcion&#225;rios de uma empresa que n&#227;o bateram a meta anual, saem de campo com aqueles semblantes de &#8220;foi mal, pessoal, daqui a quatro anos a gente tenta bater a meta da empresa novamente&#8221;.</span></p><p><strong><span>5 </span></strong><span>Vini Jr., ao ser questionado sobre sua omiss&#227;o ao p&#234;nalti &#8212; sem dor, sem ira, sem mesmo a magnanimidade que se espera de um astro &#8212; responde, de maneira morna, que n&#227;o se omitiu. A escolha fazia parte da estrat&#233;gia, dos treinos, da </span><em><span>estat&#237;stica</span></em><span>. Disse que ali n&#227;o havia </span><em><span>estrelismo</span></em><span>. Eis a&#237; o &#226;mago da nossa queda: n&#227;o h&#225; mais </span><em><span>estrelismo</span></em><span>. Alguns vira-latas babaram de tes&#227;o, dizendo que, pelo menos, Vini Jr. &#233; humilde.</span></p><p><strong><span>6 </span></strong><span>&#201; uma patifaria falar de humildade no Brasil. Somos um povo, como diria Nelson Rodrigues, de paus de arara. Milh&#245;es de miser&#225;veis n&#227;o t&#234;m sequer saneamento b&#225;sico. &#201; uma na&#231;&#227;o que anda na rua cheirando as merdas frescas dos c&#243;rregos e afluentes que se tornaram esgotos a c&#233;u aberto. Para redimir nossa mis&#233;ria material, surge, como um milagre estritamente brasileiro, entre as vielas e os botecos tupiniquins, o nosso Cristo negro: Pel&#233;, que a pr&#243;pria bola o procurava, como uma cadelinha amestrada.</span></p><p><strong><span>7 </span></strong><span>Enfim, depois de tr&#234;s copas do mundo, o Brasil ganha uma identidade nacional: o pa&#237;s do futebol. Orgulhemo-nos! Podemos at&#233; cagar na rua, sofrer com a seca do Nordeste, termos um amontoado de analfabetos em cada esquina, mas havia algo que faz&#237;amos melhor do que qualquer estrangeiro: jogar bola. Agora t&#237;nhamos her&#243;is &#8212; e um rei &#8212; que, quando a bola chegava aos seus p&#233;s, a m&#225;gica acontecia.</span></p><p><strong><span>8 </span></strong><span>Enquanto o jogador europeu precisava pensar, os her&#243;is brasileiros eram dotados da clarivid&#234;ncia do instinto e, por isso mesmo, diante do imposs&#237;vel, achavam uma brecha, um drible, um toque, um </span><em><span>estrelismo, </span></em><span>uma esperan&#231;a que nenhuma </span><em><span>estat&#237;stica</span></em><span> poderia prever. E depois do gol, a dancinha &#8212; que foi o que sobrou dos nossos tempos &#225;ureos.</span></p><p><strong><span>9 </span></strong><span>Falando em dancinha,</span><em><span> </span></em><span>o mais triste d&#8217;</span><em><span>A &#250;ltima dan&#231;a</span></em><span> &#8212; que os jornais brasileiros escrevem no estrangeiro (</span><em><span>the last dance</span></em><span>), pois n&#227;o tem amor &#224; pr&#243;pria l&#237;ngua &#8212; de Neymar &#233; perceber que o Brasil n&#227;o o merece. Nem o escrete, nem a plateia de vira-latas, que vive a ganir humildade por a&#237; enquanto lambem com a vista o xadrez europeu. No mais, obrigado, Ney.</span></p><p><em><strong>Cr&#244;nica escrita por Guilherme Angra em julho de 2026.</strong></em></p><p><span>Al&#233;m de escritor, sou terapeuta desde 2021. </span><a href="https://wa.link/pjuadu">CLIQUE AQUI</a><span> caso queira saber como funciona o meu trabalho no consult&#243;rio.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A melhor alcova do mundo]]></title><description><![CDATA[1 Nasci atrasado.]]></description><link>https://guilhermeangra.substack.com/p/a-melhor-alcova-do-mundo</link><guid isPermaLink="false">https://guilhermeangra.substack.com/p/a-melhor-alcova-do-mundo</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Angra]]></dc:creator><pubDate>Wed, 01 Jul 2026 14:10:05 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/42d1c27e-9e78-4aed-8a0e-5f0eab8c246c_1280x960.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong><span>1 </span></strong><span>Nasci atrasado. N&#227;o desci por baixo, na hora derradeira, quando o corpo de minha amada m&#227;e preparava-se para atirar-me &#224; luz. Agarrei-me ao seu &#250;tero e n&#227;o queria mais sair. Mas &#233; &#243;bvio. Quem quer sair da melhor alcova do mundo? Est&#225; ali, naquele ventre, o paroxismo do conforto e do amor: &#250;tero quentinho, escuro e silente; e eu recebendo o amor de minha m&#227;e em fluidos e sentindo o seu cora&#231;&#227;o bater junto ao meu. Eis a&#237; a simbiose que at&#233; Deus se rendeu.</span></p><p><strong><span>2 </span></strong><span>Hoje entendo porque n&#243;s, homens, passamos o resto da vida tentando voltar, por meio da vagina, para a melhor alcova do mundo. Mas nem era isso o que eu queria dizer. Nasci atrasado. Entrei na vida por uma porta n&#227;o natural. Cortaram minha Virgem Maria terrena de fora a fora para arrancarem-me de dentro dela e ent&#227;o jogarem-me &#224; exist&#234;ncia. Mas calma! Ainda n&#227;o &#233; o fim do mundo. Sa&#237; do &#250;tero para adentrar numa extens&#227;o dele: a casa de minha m&#227;e.</span></p><p><strong><span>3 </span></strong><span>Aos dezoito, o segundo cord&#227;o umbilical &#233; cortado: sa&#237; da casa da dona Ivete e me bandeei para a fronteira oeste do Paran&#225;. O choro, tanto no primeiro corte como no segundo, foi de ambos: m&#227;e e filho. No primeiro, chorava sem consci&#234;ncia, chorava sem entender quem foi o arrombado que tinha me tirado da melhor alcova do mundo; no segundo, chorei porque vi minha m&#227;e chorar. Ali, na hora da partida, o amor de minha m&#227;e fez-se tang&#237;vel como um tijolo, destruindo o meu cinismo juvenil para sempre.</span></p><p><strong><span>4 </span></strong><span>Na dist&#226;ncia, abriu-se espa&#231;o para a saudade e as idiossincrasias do amor. &#201; uma tristeza a primeira maquinada de roupas de um homem morando sozinho. Roupas que n&#227;o fedem e nem cheiram. Ora, cad&#234; o cheirinho de amaciante Downy? Como minha m&#227;e fazia tudo cheirar t&#227;o bem? Quem agora, numa tarde vadia, adentrar&#225; em minha alcova e me agraciar&#225; com tr&#234;s barras de chocolate Nestle, assim, do nada, sem eu merecer bulhufas? Gra&#231;as &#224; minha temperan&#231;a de nascen&#231;a, n&#227;o me tornei um diab&#233;tico com quinze anos.</span></p><p><strong><span>5 </span></strong><span>Mas eu comentava sobre o corte do cord&#227;o umbilical. Agora, pensando c&#225; com meus bot&#245;es, sentado em frente ao fog&#227;o a lenha, no inverno da Sib&#233;ria ga&#250;cha, com minha progenitora sorvendo um chimarr&#227;o ao meu lado enquanto escrevo esta cr&#244;nica, concluo: sempre haver&#225; um cord&#227;o &#8212; n&#227;o sei se umbilical &#8212; entre m&#227;e e filho. Por pior que seja uma m&#227;e, o filho, antes de nascer, habitou a melhor alcova do mundo: o ventre dela.</span></p><p><em><strong>Cr&#244;nica escrita por Guilherme Angra em julho de 2026.</strong></em></p><p><span>Al&#233;m de escritor, sou terapeuta desde 2021. </span><a href="https://wa.link/pjuadu">CLIQUE AQUI</a><span> caso queira saber como funciona o meu trabalho no consult&#243;rio.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Nome é destino]]></title><description><![CDATA[Um Cleiton nunca ser&#225; rei e um Marquinhos s&#243; poderia jogar do meio de campo pra frente]]></description><link>https://guilhermeangra.substack.com/p/nome-e-destino</link><guid isPermaLink="false">https://guilhermeangra.substack.com/p/nome-e-destino</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Angra]]></dc:creator><pubDate>Wed, 24 Jun 2026 18:01:40 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/20eca4c6-a88f-4f8e-8ea3-17808a89ef38_587x400.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong><span>1 </span></strong><span>De uns tempos pra c&#225;, cravei na alma que nome &#233; destino. Os pais, quando o definem, se n&#227;o sabem, est&#227;o condenando a crian&#231;a a um fado. Na minha inf&#226;ncia, conheci o Cleiton. &#201; claro que n&#227;o era de fam&#237;lia abastada. Cleiton, normalmente, &#233; nome de pobre. Morava no morro da rua Rio Branco. Era inimigo, era </span><em><span>alem&#227;o</span></em><span>. Entre o morro e a plan&#237;cie que n&#243;s, nobres, mor&#225;vamos, havia uma serraria abandonada. Ao redor, o terreno era cercado de serragem amarela e uma esp&#233;cie de matagal suburbano. Tal cen&#225;rio fora onde se deu a primeira guerra na qual lutei.</span></p><p><strong><span>2 </span></strong><span>Nego Cleiton era um tipo de general dos manducas. &#8220;Manduca&#8221; era como cham&#225;vamos os inimigos. Na favela carioca, </span><em><span>alem&#227;o</span></em><span>; na serra ga&#250;cha, </span><em><span>manduca</span></em><span>. No futuro, descobriria que manduca era o sobrenome de uma fam&#237;lia encrenqueira que fazia morada naquela regi&#227;o. Junto ao nego Cleiton, como uma esp&#233;cie de sub-general dos manducas, havia o Maycon. Mais um nome de pobre. Para piorar, chamavam o Maycon de Mayco e o Cleiton de Cleito. Sua tropa estava sempre com o nariz escorrendo e com as mangas de seus andrajos repletas de ranho seco.</span></p><p><strong><span>3 </span></strong><span>Certo dia, tomaram a serraria abandonada. N&#227;o deixar&#237;amos barato. Eu, Guilherme (nome de nobre), Marcel (nome de poeta), Eduardo (nome de rei), Tiago (nome de ap&#243;stolo) e Gabriel (nome de anjo), decidimos invadi-la e tomar o que n&#227;o era nosso &#8212; nem deles. Horm&#244;nios pululando vitalidade, nos espalhamos sobre o territ&#243;rio &#237;ngreme e a guerra come&#231;ou. Os manducas atiravam-nos pedras e torr&#245;es. N&#243;s devolv&#237;amos na mesma moeda. Fomos cercando a serraria aos poucos, subindo devagar, ganhando terreno. &#8220;Feridos&#8221; de l&#225;, &#8220;feridos&#8221; de c&#225;, no fim, vencemos. Que alegria! Grit&#225;vamos a plenos pulm&#245;es.</span></p><p><strong><span>4 </span></strong><span>Alonguei-me na hist&#243;ria quando o que quero &#233; demonstrar que nome &#233; destino. Uns dois anos depois, fui assaltado na rua da minha casa por dois maloqueiros. Um deles era o nego Cleito. Tomaram-me um anel e um brinco, pois, apesar de ser um nobre, n&#227;o tinha um n&#237;quel no bolso. Ainda tentei negociar: &#8220;P&#244;, o teu brinco &#233; mais legal do que o meu. Isso aqui &#233; lat&#227;o. Infeciona a orelha.&#8221; A manducada n&#227;o estava para conversa: &#8220;Vam&#244;, rap&#225;! Passa o brinco sen&#227;o a gente vai arrancar a tua orelha&#8221; disse o comparsa do nego Cleito, o qual n&#227;o lembro o nome, mas com certeza n&#227;o se chamava Bernardo.</span></p><p><strong><span>5 </span></strong><span>Quando comecei a me aventurar por l&#225;bios femininos, lembro-me de duas mo&#231;as das quais n&#227;o apresentei aos pais por causa do nome: uma era a Katiuscia, a outra era a Catslayne. Fa&#231;o gra&#231;a, mas nem tanto. N&#227;o conseguia imaginar um nome de nobre, Guilherme, que soa bem aos l&#225;bios e aos ouvidos, com um nome de pelega (termo que minha esposa usa para se referir a raparigas de baixa-renda). Se a Katiuscia fosse da Ucr&#226;nia, ainda v&#225; l&#225;; mas era brasileir&#237;ssima, nascera no Campo do Meio, o bairro mais fodido da cidade.</span></p><p><strong><span>6 </span></strong><span>As empregadas da minha vida tinham nomes de empregadas: Cleusa, Jandira e Salute. A dona Jandira chamava a </span><em><span>Adeline</span></em><span> de </span><em><span>Adelina</span></em><span>. Ah, como faz diferen&#231;a uma m&#237;sera vogal. &#8220;Adeline&#8221;: rainha, princesa, primeira dama. &#8220;Adelina&#8221;: minha v&#243;. A Salute, toda quarta-feira, ao chegar em frente ao nosso port&#227;o, tasca o grito: &#8220;</span><em><span>Aline</span></em><span>, cheguei!&#8221; Eu amo o fato de a Adeline nunca as ter corrigido. Para fazer tro&#231;a, na conviv&#234;ncia, a chamo de Adelina, Adelaine e Aline.</span></p><p><strong><span>7 </span></strong><span>A primeira mo&#231;a por quem me apaixonei tinha o nome de Lu&#237;sa. Minha paix&#227;o, antes de ser confirmada pela carne, confirmou-se pelo som. A carne bela atraiu-me, o substantivo a sacralizou para sempre. Lu&#237;sa tornava-se ainda mais bela por se chamar Lu&#237;sa. Se n&#227;o acreditam, provo agora, pois ela tinha uma irm&#227; g&#234;mea, cuja carne assemelhava-se, de maneira quase id&#234;ntica, a de Lu&#237;sa. Por&#233;m, a irm&#227; se chamava J&#233;ssica. E, entre esta e aquela, n&#227;o h&#225; d&#250;vida de qual delas, quando surgiu diante de meus olhos pudicos e de meus ouvidos virginais, apaixonar-me-ia.</span></p><p><strong><span>8 </span></strong><span>As amigas de minha esposa, as quais tiveram filhos recentemente, ouviram-me. Nas poucas vezes em que tive a oportunidade de intrometer-me em suas fofocas, como um profeta, tratei de alert&#225;-las: nome &#233; destino. Resultado: Dante e Davi vieram ao mundo e j&#225; nasceram grandes, com a capacidade de dominar imp&#233;rios e escrever &#233;picos que ser&#227;o lembrados at&#233; o fim da humanidade.</span></p><p><strong><span>9 </span></strong><span>Em conversas com minha amada m&#227;e, por pouco, quando eu estava prestes a sair de seu ventre, em vez de nomear-me como um nobre chamado Guilherme, pensou em chamar-me de Ramiro. Por uma gra&#231;a de Deus, dona Ivete preferiu ficar com o Guilherme. Gosto de meu nome. Gosto como as s&#237;labas soam aos ouvidos e a sensa&#231;&#227;o de que causa no ambiente. A &#250;nica atribula&#231;&#227;o, &#224; &#233;poca, era o fato de ser um nome que ca&#237;ra nas gra&#231;as dos nobres. S&#243; na minha turma de ensino fundamental, havia mais dois Guilhermes. Excetuando esse fato, a primeira gra&#231;a de que recebi em vida, depois da pr&#243;pria vida, &#233; claro, fora o meu nome.</span></p><p><strong><span>10 </span></strong><span>E agora, por motivos de for&#231;a maior, terei de dar um ponto final nesta cr&#244;nica pois logo mais a sele&#231;&#227;o brasileira entra em campo. Antes, uma reclama&#231;&#227;o: indigno-me com o fato de um zagueiro e capit&#227;o ser chamado de &#8220;Marquinhos&#8221;. Diminutivo para um zagueiro deveria ser proibido. A for&#231;a come&#231;a na palavra. N&#227;o me cago de medo em ter de enfrentar o </span><em><span>Marquinhos</span></em><span>. Para ajudar, sua face faz jus ao apelido. &#201; fofinho. Saudades do L&#250;cio, cujo nome carregava a marca da responsabilidade e cuja cara carregava a feiura que todo zagueiro deveria possuir.</span></p><p><em><strong>Cr&#244;nica escrita por Guilherme Angra em junho de 2026.</strong></em></p><p><span>Al&#233;m de escritor, sou terapeuta desde 2021. </span><a href="https://wa.link/pjuadu">CLIQUE AQUI</a><span> caso queira saber como funciona o meu trabalho no consult&#243;rio.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[VAR é o meu OVO]]></title><description><![CDATA[Onde j&#225; se viu arrancar do futebol sua humanidade?]]></description><link>https://guilhermeangra.substack.com/p/var-e-o-meu-ovo</link><guid isPermaLink="false">https://guilhermeangra.substack.com/p/var-e-o-meu-ovo</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Angra]]></dc:creator><pubDate>Wed, 17 Jun 2026 11:21:20 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/d882e7e3-6ccd-41eb-90ba-dcbdf8e1663d_1672x941.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong>1 </strong>Sou contra o VAR. Eu sei, essa discuss&#227;o j&#225; caducou. &#192; &#233;poca, em seu paroxismo, n&#227;o escrevi uma linha sobre tal patifaria, ent&#227;o o fa&#231;o agora, pois onde j&#225; se viu arrancar do futebol sua humanidade? Ora, dizia o ditado que errar &#233; humano. E eu sou humano e gostaria, por obs&#233;quio, de assistir a um esporte feito por humanos em que outros humanos digladiam-se na &#226;nsia de colocar uma bola no gol advers&#225;rio. Todos eles sempre &#224; merc&#234; do mist&#233;rio, das mandingas, das macumbas, das noites mal dormidas de um &#225;rbitro.</p><p><strong>2 </strong>Quero ver jogadores fingindo faltas; quero ver ju&#237;zes marcando p&#234;naltis teatrais; quero ver bandeirinhas deixando passar impedimentos &#243;bvios. Se for contra o meu time, urrarei de raiva &#8212; o que seria mais um &#8220;filho-da-puta&#8221; para um &#225;rbitro? &#8212;; se for a favor, ganirei de alegria colocando o erro na conta de Deus: &#8220;Ele quis!&#8221; N&#227;o importa. No fim, tudo vira hist&#243;ria, mito, literatura, romance, cr&#244;nica, poesia e sentimento. As lendas nascem da&#237;.</p><p><strong>3 </strong>N&#227;o sei se vale a compara&#231;&#227;o, mas l&#225; vai: dadas as suas devidas propor&#231;&#245;es, o VAR no futebol &#233; como a IA na literatura. Prefiro ler um livro repleto de erros ortogr&#225;ficos, mas demasiado humano do que uma obra impec&#225;vel gramaticalmente, por&#233;m, gerada por uma IA. Analisando desse modo, parece que a IA na literatura &#233; ainda pior que o VAR no futebol.</p><p><strong>4 </strong>Mas foda-se! Hoje o assunto &#233; futebol. Come&#231;ou a Copa do Mundo de 2026 e mora em meu peito uma afei&#231;&#227;o pelo maior evento esportivo da humanidade. Em 98, com seis anos, lembro-me, por flashes fugidios da mem&#243;ria, das caras pintadas com t&#234;mpera guache de cor verde e amarela e da choradeira por sermos eliminados pela Fran&#231;a de Zidane. Em 2002, j&#225; com dez anos e agora com uma consci&#234;ncia mais clara da realidade, atirei-me de cabe&#231;a no universo Copa do Mundo. &#193;lbuns de figurinhas, jornais, televis&#227;o, jogos, revistas, camisetas etc., etc. E, para coroar a minha paix&#227;o futebol&#237;stica, Ronaldo, nosso matador de aluguel, fecha a conta com dois tiros que atravessam Oliver Kahn. O penta &#233; nosso!</p><p><strong>5 </strong>De l&#225; para c&#225;, mais precisamente depois de 2006, deixei a sele&#231;&#227;o brasileira na m&#227;o e fui me atirar aos encantos de Fernand&#227;o &#8212; n&#227;o o Pessoa. Para mim, o Inter era o Fernand&#227;o. Em minhas quimeras romanescas, achava-me, at&#233; onde a ilus&#227;o alcan&#231;ava, parecido com meu &#237;dolo. Pelo menos no tamanho e nas fei&#231;&#245;es faciais &#8212; meu irm&#227;o apelidou-me de <em>horse face</em>.</p><p><strong>6 </strong>Nas peladas com amigos, vestia a camisa nove colorada e envaidecia-me. Escanteio? &#8220;Bota na &#225;rea que o Guigo &#233; alto.&#8221; E l&#225; estava eu, altivo, cenho franzido, sentindo-me um guerreiro de alta classe pelo fato de os defensores advers&#225;rios tremerem na base por conta do meu tamanho. &#8220;N&#227;o deixa esse grand&#227;o chegar!&#8221; Mas jogar que &#233; bom, confesso que n&#227;o era o meu forte. Era mediano. Nem craque nem perna-de-pau.</p><p><strong>7 </strong>Eram tempos &#225;ureos para o meu Inter. Coloc&#225;vamos na estante os dois maiores t&#237;tulos do futebol de clubes: Libertadores e Mundial. Em 2014, dois traumas: meu &#237;dolo morre num acidente de helic&#243;ptero no in&#237;cio da Copa do Mundo e o nosso pa&#237;s sofre sua maior humilha&#231;&#227;o da hist&#243;ria: o escrete &#233; massacrado pelos alem&#227;es dentro da pr&#243;pria casa.</p><p><strong>8 </strong>Soma-se a essas frustra&#231;&#245;es, a vida adulta chegando para ficar. Quando dei por mim, estava envolto em trabalho, &#244;nibus e bucetas. O futebol ficara para tr&#225;s. N&#227;o jogava e n&#227;o assistia. Ali por volta de 2018, por conta das cr&#244;nicas esportivas de Nelson Rodrigues e do Sala de Reda&#231;&#227;o, programa de r&#225;dio no qual velhos brochas sentam-se em torno de uma mesa e discutem sobre futebol enquanto contam piadas-de-tioz&#227;o, a fagulha da paix&#227;o futebol&#237;stica reacendeu em minha alma. Infelizmente, n&#227;o durou muito.</p><p><strong>9 </strong>Acho que foi nessa mesma &#233;poca em que come&#231;aram com essa patifaria de VAR. Lembro-me de jornalistas engomadinhos felic&#237;ssimos com a nova tecnologia, pois agora o futebol seria &#8220;mais justo&#8221;. Pobres diabos. Assim como os psic&#243;logos-de-prancheta n&#227;o entendem bulhufas de alma humana, os jornalistas-de-prancheta n&#227;o entendem nada de futebol. Essa gente, em vez de andar no mundo com o cora&#231;&#227;o nas m&#227;os, preferem a prancheta, os dados, as evid&#234;ncias, os mapas de calor etc.</p><p><strong>10 </strong>Eis uma das cenas mais enfadonhas que temos o desprazer de assistir em nosso tempo: o narrador de futebol tira das entranhas toda sua pot&#234;ncia dionis&#237;aca para berrar o &#8220;Goooooooooollllllllllll&#8221; e, minutos depois, o mesmo gol &#233; anulado pelo VAR. Ir da ova&#231;&#227;o &#224; frustra&#231;&#227;o em minutos &#233; uma ignom&#237;nia contra a alma humana. E pior: com o tempo, ningu&#233;m mais comemora um gol de maneira pornogr&#225;fica, escancarada, escrachada, libertina. Nem narrador, nem jogador, nem torcida. &#201; preciso aguardar a confirma&#231;&#227;o do VAR. O camisa nove marca o gol e sai espiado, olhando para o &#225;rbitro com olhar mendicante, esperando para ter a confirma&#231;&#227;o da m&#225;quina. Ningu&#233;m mais quer passar pela dor lancinante de rasgar o peito de euforia e ent&#227;o perceber que o rasgo foi em v&#227;o.</p><p><strong>11 </strong>&#201; como sair com uma mo&#231;a airosa, jeitos&#237;ssima de corpo, de rosto e de car&#225;ter. L&#225; pelas tantas, voc&#234; j&#225; sonhando em casar com a fulana, taca-lhe um beijo molhado. A proje&#231;&#227;o o pega pelo cangote: &#8220;Essa eu vou apresentar para a fam&#237;lia.&#8221; Em meio &#224; jun&#231;&#227;o de l&#237;nguas, bei&#231;os e babas, a frustra&#231;&#227;o: sobe, l&#225; de onde o desejo feminino deveria pingar, a tromba da fulana, ou, melhor ainda, do fulano. Trag&#233;dia.</p><p><strong>12 </strong>Assistia, na sexta-feira, ao melhor jogo da copa at&#233; este momento: Estados Unidos contra o Paraguai. O juiz vai a campo com cada vez mais parafern&#225;lias eletr&#244;nicas grudadas em seu corpo. &#201; microfone, &#233; teleprompter, &#233; c&#226;mera, fones de ouvido, fios, bateria etc., etc. Vaticino, numa copa n&#227;o muito distante, uma parceria entre a Fifa e a Tesla: a partir de agora, toda a arbitragem ser&#225; feita por rob&#244;s, pois assim se diminui a incid&#234;ncia de erros. Pobres diabos. Eu quero os erros ou, pelo menos, a possibilidade deles.</p><p><strong>13 </strong>Na partida de sexta, o atacante paraguaio, numa atua&#231;&#227;o shakespeareana, percebendo que o zagueir&#227;o americano desferia um carrinho em sua dire&#231;&#227;o, atira-se no gramado perto da grande &#225;rea. O juiz, ainda humano e, por isso mesmo, um potente do erro, marca a falta e mostra um cart&#227;o amarelo ao zagueiro. A falta &#233; cobrada e o jogo continua quente. Minutos depois, o juiz&#227;o, ap&#243;s receber um alerta da sala de m&#225;quinas, manda parar a partida, vai at&#233; o VAR e percebe que o jogador paraguaio simulou a falta. Ningu&#233;m entende bulhufas. Pela primeira vez eu vejo um &#225;rbitro tirar o cart&#227;o amarelo de um para dar ao outro. O juiz n&#227;o sabia sequer os gestos a serem feitos para demonstrar tamanha patifaria.</p><p><strong>14 </strong>Eu sei, eu sei. Posso estar exagerando. Poderiam acusar-me ainda de ser a favor da injusti&#231;a. Sou a favor do futebol, e futebol de verdade &#233; feito e jogado por humanos; humanos erram, atuam, mentem, xingam, brigam, pecam, amam, se arrependem e, vez ou outra, acertam. &#201; isso o que eu quero ver! &#201; da&#237; que surge o m&#233;rito dos her&#243;is e dos anti-her&#243;is; dos mitos e das lendas. Enfim, VAR &#233; o meu OVO!</p><p><em><strong>Cr&#244;nica escrita por Guilherme Angra em junho de 2026.</strong></em></p><p>Al&#233;m de escritor, sou terapeuta desde 2021. <a href="https://wa.link/pjuadu">CLIQUE AQUI</a> caso queira saber como funciona o meu trabalho no consult&#243;rio.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Fui salvo por um livro de autoajuda]]></title><description><![CDATA[1 Enfim, resolvi fazer uma faxina no meu escrit&#243;rio.]]></description><link>https://guilhermeangra.substack.com/p/fui-salvo-por-um-livro-de-autoajuda</link><guid isPermaLink="false">https://guilhermeangra.substack.com/p/fui-salvo-por-um-livro-de-autoajuda</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Angra]]></dc:creator><pubDate>Thu, 11 Jun 2026 11:02:35 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/0cb9041b-82d4-428a-ad5e-c73852e3294b_1280x720.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong>1 </strong>Enfim, resolvi fazer uma faxina no meu escrit&#243;rio. No dia, fechou-se o tempo. Minha esposa n&#227;o perdoou. Ao falar com minha sogra, a ironia: &#8220;Fechem as janelas e tranquem as portas. Vai vir um temporal feio a&#237;. O Guilherme resolveu fazer uma faxina no escrit&#243;rio.&#8221; A engra&#231;adinha estava sempre a reclamar de minha demora para com a limpeza do meu canto sagrado, pois para ela, cujo olhar est&#225; distante dos meus amores, limpar o escrit&#243;rio &#233; uma fun&#231;&#227;o simples e pr&#225;tica: remover os livros das estantes, asse&#225;-los um por um, limpar as prateleiras, colocar as obras de volta em seus devidos lugares e pronto. &#192;s vezes, a Adeline esquece que est&#225; casada com um rom&#226;ntico incur&#225;vel.</p><p><strong>2 </strong>&#201; importante que o leitor entenda o contexto: no casamento, n&#227;o foi apenas a batalha contra usar pijamas que venci. Na constru&#231;&#227;o de nossa casa, lutei como um H&#233;rcules para que fosse feito o meu escrit&#243;rio exatamente do jeitinho que ele &#233; hoje. A danada queria se meter em tudo. N&#227;o bastava todo o restante da casa, o qual pouco opinei. Ela tamb&#233;m tinha de meter o bedelho no meu antro sagrado. Ent&#227;o lutei e venci sob a condi&#231;&#227;o de, at&#233; o fim de minha exist&#234;ncia terrena, ter de escutar, vez ou outra &#8212; principalmente nos dias de oscila&#231;&#227;o hormonal &#8212;, a frase espectral: &#8220;Seu escrit&#243;rio ocupa quase a metade da nossa casa!&#8221;</p><p><strong>3 </strong>Tudo bem. Eu aguento. Ela fala e eu finjo que escuto. Est&#225; a&#237; a receita de um bom casamento. Fa&#231;o gra&#231;a para dizer ao leitor que no meu recinto, ela n&#227;o tem jurisdi&#231;&#227;o. Quem manda aqui sou eu! &#8212; frase entalada na garganta de muitos homens p&#243;s-revolu&#231;&#227;o sexual. L&#225; fora, no corredor, na cozinha, na sala, na lavanderia, no banheiro, no nosso ninho de amor, posso at&#233; ser uma cadelinha no cio, mas aqui no meu galp&#227;o sagrado, sou um macho alfa potente de virilidade.</p><p><strong>4 </strong>Venho fantasiando com essa faxina h&#225; meses. Para mim, n&#227;o se tratava apenas de &#8220;tirar o p&#243;&#8221;. O Dia do Asseamento n&#227;o poderia ser simplesmente sobre asseamento. Como o leitor bem sabe, gosto de fazer um amor gostoso com a realidade que me cerca. Para isso, n&#227;o me apressem, n&#227;o me pressionem, n&#227;o me cansem. Talvez por esse motivo minha m&#227;e, l&#225; de vez em quando, na minha inf&#226;ncia, chamava-me de &#8220;tanso&#8221;. Eu era lento. Demorava-me nas tarefas. Vivia no famoso &#8220;mundo da lua&#8221;. Hoje, eu me aceitei e sa&#237; do arm&#225;rio: prazer, sou <em>o tanso!</em></p><p><strong>5 </strong>T&#227;o tanso que, um dia antes de mudar-me para Foz do Igua&#231;u, l&#225; com os meus dezessete anos, minha amada m&#227;e, conhecendo a ess&#234;ncia de sua cria, aconselha-me: &#8220;Meu filho, cuidado l&#225; em Foz. Tem muitos carros. Olhe para os dois lados quando for atravessar a rua.&#8221; Mas ser tanso deu-me uma vantagem: demorar nos objetos de meus amores. E aqui, volto-me ao Dia do Asseamento. Fugia dessa data por um motivo simples: tempo. N&#227;o quero fazer a tarefa de maneira apressada, de qualquer jeito, e n&#227;o o fiz.</p><p><strong>6 </strong>Aquela coisa de tirar os livros da estante, ler alguns trechos aleat&#243;rios, sentar-se no ch&#227;o, encantado com alguma frase que te pegou depois de anos, redescobrir obras esquecidas, ler as mensagens escritas &#224; m&#227;o nas folhas de rosto etc., etc. &#8220;Tirar o p&#243;&#8221; era o &#250;ltimo dos meus interesses. Foi numa dessas de ler mensagens nas folhas de rosto dos livros, que me deparei com uma obra de autoajuda, intitulada <em>Seja Mais Feliz</em>. De imediato, abri um sorriso largo. Sabia que tal obra esquecida &#8212; agora relembrada &#8212; guardava um tesouro. Na folha de rosto amarelada e maculada pelas marcas do tempo, em letras de f&#244;rma, o amor de minha m&#227;e posto em ato e palavra: &#8220;MEU FILHO! FA&#199;A BOM PROVEITO DESTE LIVRO! TE AMO, TE AMO E TE AMO. BEIJO. SAUDADES SEMPRE. 21.04.2013&#8221;</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!rExe!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff703ef9a-47e9-4464-b1b6-68cc22279bd8_960x1280.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!rExe!, /__u/guilhermeangra.substack.com/w_424, /__u/guilhermeangra.substack.com/c_limit, /__u/guilhermeangra.substack.com/f_webp, /__u/guilhermeangra.substack.com/q_auto:good, /__u/guilhermeangra.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff703ef9a-47e9-4464-b1b6-68cc22279bd8_960x1280.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!rExe!, /__u/guilhermeangra.substack.com/w_848, /__u/guilhermeangra.substack.com/c_limit, 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Como se j&#225; n&#227;o bastasse a coleira marital, que envolve o meu pesco&#231;o e arranca uma certa nesga de selvageria de minha pessoa, ainda querem obrigar-me a usar pijaminhas&#8230; nem a pau. Por isso, sair daquele jazigo c&#225;lido &#233; ainda mais dif&#237;cil; mas confesso que, na maior parte das vezes, levanto-me sem fazer draminhas. O que &#233; o friozinho paranaense para quem nasceu na Sib&#233;ria ga&#250;cha?</p><p><strong>2 </strong>O problema maior sequer &#233; o frio; &#233; minha mulher. Explico: a danada, carregando em seu gene feminino a arte da sedu&#231;&#227;o, me d&#225; uma investida fatal quando estou prestes a levantar. Como uma gata manhosa, implora miando: &#8220;Amoooor, me abra&#231;aaaaa.&#8221; A bendita tamb&#233;m deveria levantar para irmos juntos &#224; academia. Dia desses, ap&#243;s queimar a largada das 5h30, depois de ter cedido aos seus cantos de sereia, ao levantarmos &#224;s 7h, a encaro na cama e jogo-lhe seu plano de sedu&#231;&#227;o: &#8220;Voc&#234; &#233; esperta, n&#233;?! Agora pode dividir a culpa comigo.&#8221; O pecado a dois n&#227;o parece ser t&#227;o pesado.</p><p><strong>3 </strong>Admito: sou quase uma cadela no cio. &#201; raro dizer n&#227;o para minha mulher. Eis o motivo de orgulhar-me tanto por n&#227;o ter cedido ao pijama. Foi uma das &#250;nicas batalhas que venci no casamento, pois a danada queria porque queria que eu, um latag&#227;o ind&#244;mito, dormisse com aqueles pijamas que enfeitam homens da terceira idade. Tirando o pijama, de resto, tornei-me um burgu&#234;s safado tentando ganhar em tudo.</p><p><strong>4 </strong>Para dar calor a ela e conseguir ir &#224; academia, a abra&#231;o por uns cinco minutos e, quando vejo que a donzela adormeceu, como um ninja, despe&#231;o-me da cama, mas por partes. Destapo-me aos poucos: coloco o p&#233; esquerdo no ch&#227;o, afasto a perna direita das pernas dela, depois o bra&#231;o esquerdo e, s&#243; ent&#227;o, o bra&#231;o direito, o qual, naquele momento, est&#225; por debaixo do travesseiro de minha bela adormecida. &#8220;Por favor, n&#227;o acorde, n&#227;o acorde, n&#227;o acorde.&#8221;</p><p><strong>5 </strong>Enfim, sou um homem livre. Quem &#233; o Tom Cruise perto de mim? Um coitado. Mas eis o que eu queria dizer. A vida me chama para fazer amor. Falei sobre isso na &#250;ltima cr&#244;nica<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a>, por&#233;m, pelo excesso de excita&#231;&#227;o, parei nas exclama&#231;&#245;es e esqueci de aprofundar-me. &#192;s vezes, canso de pensar e deixo-me levar por um fluxo de consci&#234;ncia que, l&#225; no meu &#237;ntimo, rezo para ser po&#233;tico. A palavra surge na cabe&#231;a e logo desce para os dedos das m&#227;os. &#201; como uma sess&#227;o com um psicanalista ortodoxo, na qual voc&#234; chega, deita-se no div&#227; e sai jogando palavras ao vento. O analista, com sua aten&#231;&#227;o flutuante, vai recolhendo os cacos e enfatiza ao paciente: &#8220;S&#243; fale. N&#227;o se importe com a l&#243;gica do discurso.&#8221;</p><p><strong>6 </strong>Entendo: o leitor n&#227;o &#233; um analista; o leitor &#233; s&#243; um leitor, mas como &#233; bom escrever corrido, sem pausa e sem pressa. Tenho uma nostalgia dos tempos das cartas, dos archotes e das velas. Em minha vida de millenial, j&#225; cresci com fliperama e <em>Windows 98</em>. Essa nostalgia de um per&#237;odo que pouco vivi deve ser o que Jung chamava de inconsciente coletivo. Sonho com fogueiras crepitantes numa casa de fazenda. De um lado do fogo, o anci&#227;o, o s&#225;bio, o contador de hist&#243;rias; do outro, eu e mais uns tr&#234;s irm&#227;os que nunca tive, com ouvidos atentos e olhos cintilantes para o mestre.</p><p><strong>7 </strong>Que alegria degustar tal experi&#234;ncia com todo o meu ser. Apesar de esse epis&#243;dio ser um sonho, tenho na mem&#243;ria uma lembran&#231;a real e patente de minha juventude: eu e meus amigos acampando numa fazenda de uma de nossas colegas da escola, a Gabriela. Armamos as barracas, tomamos banho no rio, assistimos ao capataz do rancho carnear uma ovelha e, &#224; noite, o tesouro: entre as luzes bruxuleantes das velas, o av&#244; da Gabriela enche-nos de lendas da regi&#227;o. Fui dormir com um pouco de medo, confesso; por&#233;m, o medo n&#227;o era nada se comparado ao tamanho do fasc&#237;nio que aquelas lendas provocaram dentro de mim.</p><p><strong>8 </strong>Penso naquela ambienta&#231;&#227;o: n&#227;o havia luz el&#233;trica. As comunica&#231;&#245;es com o mundo se davam por um radinho de pilha. Levantava-se com a aurora, recolhia-se com o crep&#250;sculo. Uma coisa de cada vez. Tem a hora de carnear a ovelha, tem a hora de fazer o churrasco, tem a hora de contar hist&#243;rias, tem a hora de tirar leite das vacas, tem a hora de consertar uma cerca, tem a hora de cavalgar pelos prados.</p><p><strong>9 </strong>Dizia-me um conhecido: &#8220;As novas gera&#231;&#245;es est&#227;o vindo cada vez piores.&#8221; &#201; ineg&#225;vel que h&#225;, dentro de cada alma, um saudosismo de eras passadas. &#8220;Antigamente que era bom.&#8221; Todos os escritores que li com afinco, saudavam ou outros tempos, ou outros lugares. Nelson Rodrigues vivia a tecer elogios &#224; <em>Belle &#201;poque</em>; Henry Miller tem p&#225;ginas e p&#225;ginas com cr&#237;ticas duras ao <em>american way of life</em> enquanto, em paralelo, derramava elogios &#224; Europa. Eu, os lendo, penso: &#8220;Inocentes. Mal sabiam que as coisas iriam piorar muito.&#8221;</p><p><strong>10 </strong>Todos reclamamos: Miller, Nelson e eu. Todavia, quando meu conhecido diz que as gera&#231;&#245;es est&#227;o piorando, aprofundo a cr&#237;tica com um tom po&#233;tico: n&#227;o aprendemos a fazer amor com a vida. Eis a nossa defici&#234;ncia monumental que se intensifica a cada gera&#231;&#227;o. Somos uns impotentes do amor. Sentimos o t&#233;dio antes do desejo. Nascemos, vivemos e morremos dentro de um milagre e sequer nos espantamos com tamanha beleza.</p><p><strong>11 </strong>Andamos desatentos &#224; janela que d&#225; para a realidade. N&#227;o h&#225; tempo a perder com janelas e portas. &#201; preciso ser <em>proativo</em>; ativo n&#227;o basta mais. Nessas, nos agarramos a qualquer ferramenta que facilite dividir a nossa aten&#231;&#227;o a tudo que se mexe. &#201; preciso ganhar tempo quando o alvo &#233; o mundo &#8212; miss&#227;o imposs&#237;vel. </p><p><strong>12 </strong>Iludimo-nos: ao tentar &#8220;ganhar tempo&#8221;, sem perceber, mais do que o perder, n&#243;s o assassinamos. Ao deitar a cabe&#231;a no travesseiro, &#224; noite, eis a sensa&#231;&#227;o de um dia assassinado. E &#233; estranho, j&#225; que o dia foi cheio. Vira tantas coisas, desejara muitas delas, realizara algumas &#8212; pela metade. Chega-se ao final com um dia cheio de coisa nenhuma.</p><p><strong>13 </strong>At&#233; S&#237;sifo est&#225; melhor do que n&#243;s, pois, pelo menos, rolava a sua pedra at&#233; o alto da montanha; cumpria sua tarefa &#250;nica de maneira compenetrada. N&#227;o &#233; poss&#237;vel imaginar S&#237;sifo feliz &#8212; perdoe-me, Camus &#8212; ao rolar a pedra, desatento, fastidioso, at&#233; o meio da montanha.</p><p><em><strong>Cr&#244;nica escrita por Guilherme Angra em junho de 2026.</strong></em></p><p>Al&#233;m de escritor, sou terapeuta desde 2021. <a href="https://wa.link/pjuadu">CLIQUE AQUI</a> caso queira saber como funciona o meu trabalho no consult&#243;rio.</p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><div class="digest-post-embed" data-attrs="{&quot;nodeId&quot;:&quot;35c9fb82-1b8c-4946-b861-a7b9a834caca&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;1 Enquanto se existe, sofre. Novidade? Zero. Eu sei, desde que a morte atravessara a minha consci&#234;ncia, que h&#225; um peso em existir. De um lado, a minha &#226;nsia por sentido e por eternidade; do outro, um mundo indiferente e perec&#237;vel. O existencialista que habita em mim est&#225; imposs&#237;vel hoje. Mas &#233; ineg&#225;vel que, quando beijei a testa enregelada de minha tia &#8230;&quot;,&quot;cta&quot;:null,&quot;showBylines&quot;:true,&quot;showDescription&quot;:true,&quot;showImage&quot;:true,&quot;size&quot;:&quot;lg&quot;,&quot;isEditorNode&quot;:true,&quot;title&quot;:&quot;&#201; assim que se faz amor, seu animal&quot;,&quot;publishedBylines&quot;:[{&quot;id&quot;:252877238,&quot;name&quot;:&quot;Guilherme Angra&quot;,&quot;bio&quot;:&quot;Psicanalista e escritor. 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Novidade? Zero. Eu sei, desde que a morte atravessara a minha consci&#234;ncia, que h&#225; um peso em existir. De um lado, a minha &#226;nsia por sentido e por eternidade; do outro, um mundo indiferente e perec&#237;vel. O existencialista que habita em mim est&#225; imposs&#237;vel hoje. Mas &#233; ineg&#225;vel que, quando beijei a testa enregelada de minha tia Marlei, no caix&#227;o, fui tomado por um assombro: <em>as pessoas morrem! e por que eu existo?</em> Beijar-lhe a testa fora como tirar um peda&#231;o de carne da geladeira &#8212; n&#227;o do freezer &#8212; e pous&#225;-lo nos l&#225;bios sangu&#237;neos.</p><p><strong>2 </strong>Minha amada m&#227;e, como toda amada m&#227;e, dizia-me que existia um c&#233;u, e Cristo, e anjos; e que iam todos para esse lugar celestial e imaculado. Queria eu poder beijar, com meus l&#225;bios tang&#237;veis, um anjo de carne quente, e n&#227;o a morte fria. Mas a beijei e tomei consci&#234;ncia da vida. Aqui, desminto uma &#8220;verdade&#8221; que &#233; dita nos conventos, nas farm&#225;cias, nas escolas e nas esquinas: <em>a &#250;nica certeza &#233; a morte.</em> Uma ova! Ora, para morrer, antes, &#233; preciso existir. Ent&#227;o, <em>a &#250;nica certeza &#233; a morte</em> &#233; o escambau. H&#225; uma certeza mais certa &#8212; perdoe-me o pleonasmo &#8212; que &#233; a vida.</p><p><strong>3 </strong>Lembrei-me de Abujamra, de suspens&#243;rio, &#243;culos arredondados e olhos r&#250;tilos, em seu programa, <em>Provoca&#231;&#245;es</em>, na TV cultura, perguntando aos convidados sobre a indaga&#231;&#227;o existencial por excel&#234;ncia: <em>o que &#233; a vida?</em> Imaginei-me em seu programa, altivo, sereno e apaixonado, tudo ao mesmo tempo, no papel de um escritor pornogr&#225;fico e de um psicanalista de renome; e eis que l&#225; vem a pedrada: a vida &#233; um milagre e, por s&#234;-lo, j&#225; &#233; um presente. Existe vida ao inv&#233;s da n&#227;o-vida. Algo h&#225; em vez do nada. Acusem-me de rom&#226;ntico, ing&#234;nuo, o escambau, mas creio que o sujeito tem de ser um cego monumental para n&#227;o enxergar o &#243;bvio ululante: a vida &#233; um milagre e um presente.</p><p><strong>4 </strong>Abujamra, freudiano astuto, repetiria a indaga&#231;&#227;o como uma forma de fazer-me repensar as pr&#243;prias cren&#231;as: &#8220;O que &#233; a vida, Guilherme?&#8221; Apaixonado, com as m&#227;os ao alto, a balan&#231;ar &#8212; venho de fam&#237;lia italiana &#8212;, digo-lhe: &#8220;A vida &#233; um ato de amor.&#8221; E assim o creio. Longe dos holofotes de uma fama quim&#233;rica, em minha vidinha ordin&#225;ria, cotidiana e real, continuo achando isso e espero morrer assim: amando e agradecendo.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a></p><p><strong>5 </strong>Deus me ajude a n&#227;o terminar a vida ressentido e ingrato, como muitos o fizeram na hist&#243;ria, como muitos o fazem hoje. Homens e mulheres incapazes de enxergar o sol que os ilumina e as catedrais que os rodeiam. Dia desses, atendi, no consult&#243;rio, um rapaz de vinte e dois anos. Guri bom! Cheio de vida. Um bom filho para os pais; um bom funcion&#225;rio para o patr&#227;o; um bom crist&#227;o para Cristo. Virado em sorriso e gratid&#227;o. Tive a impress&#227;o de que marcara a sess&#227;o mais para me agradecer por t&#234;-lo tirado do freireanismo radical do que qualquer outra coisa. Sa&#237; do consult&#243;rio, aquele dia, cheio de esperan&#231;a.</p><p><strong>6 </strong>Esse rapaz percebeu que a vida <em>dele</em> &#233; boa. No outro dia, mandou-me uma foto de uma lagoa cercada por uma mata verde, que era o local onde ele se refugiava depois do almo&#231;o. Dizia-me: &#8220;Bah &#8212; era ga&#250;cho &#8212;, olhe este lugar! Bah, &#233; um presente!&#8221; Ao receber o valor da sess&#227;o, percebi que havia enviado um valor a mais. Estranhei. Em seguida, explicou que n&#227;o foi erro. Ficara t&#227;o grato pela primeira sess&#227;o que resolveu aumentar o meu ordenado.</p><p><strong>7 </strong>E, apesar de ele nunca ter feito amor com uma mulher, estava a fazer surubas hom&#233;ricas com a vida. Surubas regadas a amor. Pois, se n&#227;o o sabem, eis o segredo da vida: aprender a fazer amor com a danada. Acho que fiquei bom nessa arte. Da mesma forma que o Naldo, o meu canalha favorito, chega se vangloriando de tra&#231;ar mo&#231;as incautas em academias, igrejas e em quadras de beach tennis<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a>, posso bradar ao mundo que sou um amante viril da vida, pois a desejo dia e noite, como uma ninfoman&#237;aca de filme franc&#234;s anseia por qualquer nesga de pica dando sopa por a&#237;.</p><p><strong>8 </strong>Digo aos homens que vivem com o pau na m&#227;o: quando o pau do seu esp&#237;rito est&#225; dura&#231;o, batendo no seu umbigo de t&#227;o duro, esquece-se do pau de carne. O gozo n&#227;o dura apenas oito segundos, como numa ejacula&#231;&#227;o corporal; dura horas, dias, semanas ou, quem sabe, uma vida inteira. Perdoe-me se estou exagerando, mas prefiro pecar pelo excesso do que pela falta. O mesmo que digo aos pais e maridos: &#233; melhor pecar pelo excesso de amor do que pela falta dele.</p><p><strong>9 </strong>Sou um apaixonado! Tudo me interessa e me excita o esp&#237;rito. Parte disso &#233; por se dar conta do &#243;bvio: a exist&#234;ncia &#233; um milagre. Acho gra&#231;a dos cat&#243;licos, em debates na internet, querendo provar milagres espec&#237;ficos para ate&#237;stas, progressistas e toda essa multid&#227;o de anti-homens cega para o &#243;bvio: que a vida &#233; <em>o milagre</em>. Se o sujeito n&#227;o consegue enxerg&#225;-lo, &#233; porque seu esp&#237;rito est&#225; tentando enxergar com a mente, e n&#227;o com os olhos.</p><p><strong>10 </strong>Ter de atirar ao banal o fato desse infeliz habitar um universo de treze bilh&#245;es de anos; de ter sa&#237;do do saco de seu pai, numa corrida insana entre milh&#245;es de outros concorrentes at&#233; o &#243;vulo de sua sagrada e vener&#225;vel m&#227;e, onde apenas ele saiu vitorioso; de ter se deparado com um mundo ordenado, no qual um sol o ilumina e faz a porra do seu olho conseguir enxergar a beleza que o cerca&#8230; &#233; uma ingratid&#227;o. At&#233; o ateu mais ateu do mundo deveria se prostrar diante do milagre e da beleza da exist&#234;ncia e chorar l&#225;grimas de amor.</p><p><strong>11 </strong>Mas calma. N&#227;o temam. Sou um homem do amor. Quero dar amor! Vou abrir, ao inv&#233;s da Barraca do Beijo, a Barraca do Amor. Me chamem de bicha, fresco, veado etc., mas, assim como a Bruna Surfistinha disse em seu filme: &#8220;Hoje eu n&#227;o vou dar&#8230; vou distribuir!&#8221;, o fa&#231;o tamb&#233;m com o amor. Perdoe-me a excita&#231;&#227;o, leitor. Passei muitos anos com medo do rid&#237;culo. Agora o enfrento para poder chegar &#224; velhice &#8212; al&#233;m de brocha &#8212; com um cora&#231;&#227;o nas m&#227;os.</p><p><strong>12 </strong>Henry Miller j&#225; havia se atentado ao fato de que quando o homem perde o medo do rid&#237;culo, do ostracismo, das caras-feias, da persegui&#231;&#227;o, no momento seguinte, manifestar&#225; o seu amor. Um amor livre, pois adv&#233;m de um esp&#237;rito livre, que abra&#231;ou a exist&#234;ncia com tudo o que ela pode dar, inclusive o sofrimento inevit&#225;vel. E depois fez amor com ela, com fome, sem nojinho, trocando fluidos, dando tudo de si.</p><p><em><strong>Cr&#244;nica escrita por Guilherme Angra em maio de 2026.</strong></em></p><p>Al&#233;m de escritor, sou terapeuta desde 2021. <a href="https://wa.link/pjuadu">CLIQUE AQUI</a> caso queira saber como funciona o meu trabalho no consult&#243;rio.</p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><div class="digest-post-embed" data-attrs="{&quot;nodeId&quot;:&quot;3e126820-08aa-4be2-9246-514b751eb00c&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;1 Dia 26 de fevereiro, eu e a esposa completaremos tr&#234;s anos de casamento. Estamos h&#225; seis anos juntos e, se depender de mim, chegaremos aos cinquenta anos dormindo de conchinha. Sou um obsessivo pelo amor que atravessa os instintos e chega &#224;s rugas. Escrevo isso e sinto-me um homem rid&#237;culo, pois se insinua em minhas palavras um sentido que parece beirar a ingenuidade. Quase como se o mundo jogasse-me &#224; fu&#231;a: &#8220;Ora, como assim voc&#234; ainda cr&#234; nessas baboseiras de bodas de ouro, dormir de conchinha e amor que atravessa os instintos?&#8221;&quot;,&quot;cta&quot;:null,&quot;showBylines&quot;:true,&quot;showDescription&quot;:true,&quot;showImage&quot;:true,&quot;size&quot;:&quot;lg&quot;,&quot;isEditorNode&quot;:true,&quot;title&quot;:&quot;Cr&#244;nica 40: QUERO MORRER AMANDO E AGRADECENDO&quot;,&quot;publishedBylines&quot;:[{&quot;id&quot;:252877238,&quot;name&quot;:&quot;Guilherme Angra&quot;,&quot;bio&quot;:&quot;Psicanalista e escritor. Atendo gente no consult&#243;rio e escrevo sobre a vida comum.&quot;,&quot;photo_url&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/778f75c7-664e-4d82-9975-b46530ab66b8_1179x1179.jpeg&quot;,&quot;is_guest&quot;:false,&quot;bestseller_tier&quot;:null}],&quot;post_date&quot;:&quot;2025-02-23T11:03:06.748Z&quot;,&quot;cover_image&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!GyPb!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F87613b1e-632a-4f5a-8d72-287dc5292cea_1280x720.png&quot;,&quot;cover_image_alt&quot;:null,&quot;canonical_url&quot;:&quot;https://guilhermeangra.substack.com/p/cronica-40-quero-morrer-amando-e&quot;,&quot;section_name&quot;:null,&quot;video_upload_id&quot;:null,&quot;id&quot;:157675887,&quot;type&quot;:&quot;newsletter&quot;,&quot;reaction_count&quot;:9,&quot;comment_count&quot;:2,&quot;publication_id&quot;:2790353,&quot;publication_name&quot;:&quot;Mem&#243;rias e Confiss&#245;es&quot;,&quot;publication_logo_url&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!HRSV!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F56503063-db84-4a1a-ab2b-f5f65e5af2cf_968x968.png&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;youtube_url&quot;:null,&quot;show_links&quot;:null,&quot;feed_url&quot;:null}"></div><p></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><div class="digest-post-embed" data-attrs="{&quot;nodeId&quot;:&quot;eae7b655-65c9-4a50-9b50-f2b97da12096&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;1 Tenho para mim que todo homem deveria ter um conhecido como o Naldo, o canalha honesto. N&#227;o sei se posso cham&#225;-lo de amigo. Dane-se o r&#243;tulo. Amigo ou n&#227;o, posso dizer que tenho pelo Naldo uma admira&#231;&#227;o quixotesca. Vejo nele o Guilherme que poderia ter sido se a Adeline n&#227;o tivesse cruzado o meu caminho naquele pagode do dia 28 de dezembro de 2018.&quot;,&quot;cta&quot;:null,&quot;showBylines&quot;:true,&quot;showDescription&quot;:true,&quot;showImage&quot;:true,&quot;size&quot;:&quot;lg&quot;,&quot;isEditorNode&quot;:true,&quot;title&quot;:&quot;Trazer luz ao desejo &#233; mat&#225;-lo&quot;,&quot;publishedBylines&quot;:[{&quot;id&quot;:252877238,&quot;name&quot;:&quot;Guilherme Angra&quot;,&quot;bio&quot;:&quot;Psicanalista e escritor. Atendo gente no consult&#243;rio e escrevo sobre a vida comum.&quot;,&quot;photo_url&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/778f75c7-664e-4d82-9975-b46530ab66b8_1179x1179.jpeg&quot;,&quot;is_guest&quot;:false,&quot;bestseller_tier&quot;:null}],&quot;post_date&quot;:&quot;2026-05-18T11:02:19.185Z&quot;,&quot;cover_image&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/0b12066a-1224-4128-9b22-6b98955a6b39_735x490.jpeg&quot;,&quot;cover_image_alt&quot;:null,&quot;canonical_url&quot;:&quot;https://guilhermeangra.substack.com/p/trazer-luz-ao-desejo-e-mata-lo&quot;,&quot;section_name&quot;:null,&quot;video_upload_id&quot;:null,&quot;id&quot;:198050119,&quot;type&quot;:&quot;newsletter&quot;,&quot;reaction_count&quot;:25,&quot;comment_count&quot;:7,&quot;publication_id&quot;:2790353,&quot;publication_name&quot;:&quot;Mem&#243;rias e Confiss&#245;es&quot;,&quot;publication_logo_url&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!HRSV!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F56503063-db84-4a1a-ab2b-f5f65e5af2cf_968x968.png&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;youtube_url&quot;:null,&quot;show_links&quot;:null,&quot;feed_url&quot;:null}"></div><p></p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Trazer luz ao desejo é matá-lo]]></title><description><![CDATA[O desejo foi feito para as sombras, as penumbras, os mist&#233;rios e as saudades.]]></description><link>https://guilhermeangra.substack.com/p/trazer-luz-ao-desejo-e-mata-lo</link><guid isPermaLink="false">https://guilhermeangra.substack.com/p/trazer-luz-ao-desejo-e-mata-lo</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Angra]]></dc:creator><pubDate>Mon, 18 May 2026 11:02:19 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/0b12066a-1224-4128-9b22-6b98955a6b39_735x490.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong>1 </strong>Tenho para mim que todo homem deveria ter um conhecido como o Naldo, o canalha honesto. N&#227;o sei se posso cham&#225;-lo de amigo. Dane-se o r&#243;tulo. Amigo ou n&#227;o, posso dizer que tenho pelo Naldo uma admira&#231;&#227;o quixotesca. Vejo nele o Guilherme que poderia ter sido se a Adeline n&#227;o tivesse cruzado o meu caminho naquele pagode do dia 28 de dezembro de 2018.</p><p><strong>2 </strong>O canalha, por n&#227;o ter aderido &#224; modernidade &#233; de uma assertividade fulminante quando resolve julg&#225;-la, pois olha a ilha de fora. Para encontr&#225;-lo, s&#243; por acaso nas vicissitudes da vida ou ligando. O bendito fruto tem um celular fajuto e orgulha-se de dizer: &#8220;Isto aqui foi feito para ligar pra outro ser humano. De resto, n&#227;o me serve pra nada.&#8221;</p><p><strong>3 </strong>O chamariam facilmente de reacion&#225;rio, anacr&#244;nico, ultrapassado. At&#233; conhec&#234;-lo pessoalmente. Naldo, no um a um, &#233; de um encantamento total. A mais ferrenha das feministas cairia f&#225;cil nas l&#225;bias do canalha honesto. Ele s&#243; precisa do um a um, olho no olho, bafo com bafo. Em minhas andan&#231;as, j&#225; o vi em zoninhas e em igrejas. Resultado: fora amado nas duas institui&#231;&#245;es mais importantes de uma sociedade s&#227;.</p><p><strong>4 </strong>Chuto aqui que seu talento se deve ao mist&#233;rio. At&#233; hoje n&#227;o sei com o que trabalha e como ganha seu ordenado. Ningu&#233;m o acha na internet a n&#227;o ser lendo minhas cr&#244;nicas. Quando d&#225; o seu ar da gra&#231;a, quando resolve vir &#224; luz, o homem d&#225; tudo de si. Joga solto no mundo. E depois vai embora. Sua aus&#234;ncia &#233; sentida nos bares, nas farm&#225;cias, nas zoninhas, nas igrejas, nas fam&#237;lias. E, de tempos em tempos, quando reaparece, a alegria adv&#233;m da aus&#234;ncia que se fez presen&#231;a novamente.</p><p><strong>5 </strong>Ele reapareceu esses dias quando fui ver minha esposa jogar beach-tennis. Sentei-me numa dessas cadeiras de pl&#225;stico. Pedi ao gar&#231;om uma Original e uma por&#231;&#227;o de batata-frita. Fiquei ali, degustando cada nesga daquela experi&#234;ncia praiana: enquanto sorvia a cerveja gelada e comia as batatas, contemplava todo aquele mar de mulheres competindo na areia. Para ficar perfeito, s&#243; faltava, no horizonte, uma praia.</p><p><strong>6 </strong>Eis que eu ou&#231;o: &#8220;Olha a&#237; o meu psicanalista favorito!&#8221; E l&#225; estava ele vindo em minha dire&#231;&#227;o. Levantei-me para cumpriment&#225;-lo. Fizemos as honrarias e etiquetas necess&#225;rias e j&#225; taquei-lhe minha d&#250;vida crudel&#237;ssima: &#8220;Naldo, aqui seria o &#250;ltimo lugar que eu te procuraria. Qual &#233; a morta?&#8221; Deu sua risadinha canalha e se p&#244;s a sentar. O gar&#231;om, de imediato, j&#225; lhe trouxe um copo. O canalha, calmamente o encheu &#8212; canalhas n&#227;o se apressam &#8212;, colocou um cigarro na boca, o acendeu, tragou e, antes que pudesse expelir toda a fuma&#231;a, disse: &#8220;T&#244; pescando.&#8221; E logo baforou o restante da fuma&#231;a. &#8220;Aqui? Mas essas mo&#231;as n&#227;o est&#227;o para o crime.&#8221; Naldo negou minha afirma&#231;&#227;o com a cabe&#231;a. &#8220;Ah, meu escritor favorito&#8230; elas s&#243; n&#227;o est&#227;o para o crime pois lhe faltam um est&#237;mulo&#8230;&#8221; Matei a xarada: &#8220;Entendi: o est&#237;mulo seria voc&#234;.&#8221; Ele abriu os bra&#231;os, sorrindo, como se dissesse: mas &#233; &#243;bvio.</p><p><strong>7 </strong>&#8220;A verdade &#233; que elas usam o beach-tennis como um s&#237;mbolo, uma sublima&#231;&#227;o.&#8221; Franzi o cenho. &#8220;Vai, Freud, continua!&#8221; Ent&#227;o ele larga a morta: &#8220;Na realidade, elas querem um taco e bolas de verdade.&#8221; Passei a rir. &#8220;Voc&#234;, como meu psicanalista favorito, j&#225; tinha que ter se atentado a isso. Mas fa&#231;o gra&#231;a. Quem gosta de tacos e bolas s&#227;o veados, mulheres gostam de mist&#233;rio.&#8221; Ofereceu-me a m&#227;o. &#8220;Prazer, sou <em>o</em> mist&#233;rio.&#8221; Rimos. &#8220;E como o mundo est&#225; muito exposto, eu ganho vantagem com as mo&#231;as.&#8221;</p><p><strong>8 </strong>O provoquei: &#8220;Ah &#233;? Quais vantagens?&#8221; Deu mais um gole na cerveja e virou-se pra mim: &#8220;Sou da velha-guarda. Os homens, hoje, est&#227;o cheios de dedos e teorias. Pensam demais! S&#227;o previs&#237;veis demais! J&#225; eu sou uma m&#225;quina de agir. Nenhuma delas espera receber uma cantada, olho no olho, depois do jogo. Elas at&#233; podem receber cantadinhas nessas redes sociais afrescalhadas que voc&#234;s usam, mas nada supera isto aqui, meu nobre escritor frugal: cara a cara!&#8221; E aproximou seu rosto de mim, fazendo gestos com a m&#227;o &#8212; vem de fam&#237;lia italiana.</p><p><strong>9 </strong>Em seguida, assim que terminou sua cerveja e seu cigarro, levantou-se j&#225; despedindo-se e foi para sua miss&#227;o de canalha. Fiquei ali, a ruminar sobre o mist&#233;rio, enquanto meus olhos voltaram para minha esposa. Ao lado dela, mulheres desconhecidas e, por isso mesmo, misteriosas. A monogamia &#233; um desacato ao desejo. &#201; um xingamento ao mist&#233;rio. Matei a xarada de novo: falta de aus&#234;ncias. &#201; na falta que o desejo incendeia, pois &#233; na falta que abre-se espa&#231;o para o mist&#233;rio.</p><p><strong>10 </strong>Pobre da minha mulher que vai ter de aguentar, pro resto da vida, nesta monogamia sacramentada, esse mesmo corpo, esse mesmo pau, essa mesma l&#237;ngua, essa mesma cara, esse mesmo jeito, trejeitos, cacoetes e v&#237;cios. Sempre presente, dia ap&#243;s dia, at&#233; o caix&#227;o. N&#227;o ter&#225; mais a novidade de tirar a minha cal&#231;a e se encantar com o mastro dura&#231;o e arquejante em sua frente, como da primeira vez em que perdemos a virgindade no meu antigo apartamento da rua Cear&#225;, na noite do dia 29 de dezembro de 2018, &#224;s 02h42.</p><p><strong>11 </strong>Lembro-me de seus olhos r&#250;tilos ao estarmos nus. Lembro-me de seu Iphone 5 jogado &#224;s tra&#231;as enquanto convers&#225;vamos, radiantes. Lembro-me de sua recusa ao mundo e de sua aten&#231;&#227;o total para mim. Cravei na alma: vou casar com esta loira! Meses depois, condenei nossos desejos &#224; morte: a pedi em namoro e depois em casamento. Veio morar comigo. A vi peidar depois de um ano. A vi brigar comigo um pouco antes.</p><p><strong>12 </strong>Na conviv&#234;ncia, percebi o sucesso do casamento dos meus pais: aus&#234;ncia. Em minhas quimeras, pensei em tornar-me caminhoneiro. Como era fascinante quando meu pai chegava de viagem: filhos e esposa corriam &#224; porta, esper&#225;-lo. O homem da casa voltava da guerra, vivo, pulsando, contando piadas, distribuindo amor com cheiro de fumo e &#243;leo diesel. Abra&#231;os nas crian&#231;as e beijos apaixonados na esposa. Estava ali, em carne, ossos e fluidos, enfim, o objeto que antes n&#227;o estava; e, por n&#227;o estar, fazia falta. Mais uns dois dias em casa e depois era voltar para a guerra novamente. Da&#237;, mais saudade, mais dist&#226;ncia, mais mist&#233;rio, mais desejo.</p><p><strong>13 </strong>Tanto meu pai como o Naldo est&#227;o em vantagem. Este por se tratar de um n&#244;made vaginal<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a> e aquele por ainda estar num emprego da velha guarda que o ausenta de seus amores. Porque a modernidade &#233; uma mir&#237;ade de frigidez. De um lado, a turma do tudo-pode, do sem-tabu, do s&#243;-se-vive-uma-vez. Ora, at&#233; um cego enxerga que o pudor &#233; afrodis&#237;aco e que os tabus alimentam o desejo. Aqui vem a minha decep&#231;&#227;o com os carolas de igreja. Dia desses, deparei-me com um desses gurus crist&#227;os afirmando para sua audi&#234;ncia monog&#226;mica: &#8220;Falem sobre sexo. Marquem um dia da semana. Falem o que gostam, o que n&#227;o gostam, limites, fantasias&#8230;&#8221; Imaginei o marido abrindo o Notion e dizendo para a esposa: &#8220;Amor, onde voc&#234; gosta que eu te toque?&#8221;</p><p><strong>14 </strong>Todos pornogr&#225;ficos! A pornografia exp&#245;e o desejo &#224; luz; e a luz mata o desejo. O desejo foi feito para as sombras, as penumbras, os mist&#233;rios e as saudades. Ele deve ser descoberto aos poucos, e nunca pela palavra. Palavra &#233; teoria e burocracia. Entre na alcova. Apague a luz. Acenda uma vela. Tire os &#243;culos. Use as m&#227;os. Intui&#231;&#227;o!</p><p><strong>15 </strong>E l&#225; estava o Naldo, papeando com uma coroa do beach-tennis. Os dois riam. Pensei: &#8220;O filho-da-puta vai trepar.&#8221; Eis que l&#225; vem a minha esposa, sorrindo, radiante por ter amassado as outras mo&#231;as. A elogio e vamos embora de m&#227;os dadas, felic&#237;ssimos. O Naldo deve ter pensado: &#8220;O filho-da-puta vai amar!&#8221; Se n&#227;o pensou, pensei eu.</p><p style="text-align: justify;"><em><strong>Cr&#244;nica escrita por Guilherme Angra em maio de 2026.</strong></em></p><p>Al&#233;m de escritor, sou terapeuta desde 2021. <a href="https://wa.link/pjuadu">CLIQUE AQUI</a> caso queira saber como funciona o meu trabalho no consult&#243;rio.</p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><div class="digest-post-embed" data-attrs="{&quot;nodeId&quot;:&quot;7c0d131d-511c-41cd-babc-ead698663e78&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;1 Nos &#250;ltimos meses, bateu-me uma nostalgia de um dos maiores putanheiros da literatura mundial: Charles Bukowski. O velho Buk foi respons&#225;vel por um dos grandes feitos da minha juventude: o primeiro livro que comprei com o meu dinheiro. Ali&#225;s, foram dois.&quot;,&quot;cta&quot;:&quot;Read full story&quot;,&quot;showBylines&quot;:true,&quot;showDescription&quot;:true,&quot;showImage&quot;:true,&quot;size&quot;:&quot;lg&quot;,&quot;isEditorNode&quot;:true,&quot;title&quot;:&quot;Cr&#244;nica 33: SE N&#195;O FOSSE MINHA AMADA M&#195;E, VIVERIA COMO UM N&#212;MADE VAGINAL&quot;,&quot;publishedBylines&quot;:[{&quot;id&quot;:252877238,&quot;name&quot;:&quot;Guilherme Angra&quot;,&quot;bio&quot;:&quot;Psicanalista e escritor. Atendo gente no consult&#243;rio e escrevo sobre a vida comum.&quot;,&quot;photo_url&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/778f75c7-664e-4d82-9975-b46530ab66b8_1179x1179.jpeg&quot;,&quot;is_guest&quot;:false,&quot;bestseller_tier&quot;:null}],&quot;post_date&quot;:&quot;2024-12-22T22:36:00.000Z&quot;,&quot;cover_image&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!OgMv!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F16b06f6b-1e0a-4f23-acbc-d2b75922969f_346x450.jpeg&quot;,&quot;cover_image_alt&quot;:null,&quot;canonical_url&quot;:&quot;https://guilhermeangra.substack.com/p/cronica-33-se-nao-fosse-minha-amada&quot;,&quot;section_name&quot;:null,&quot;video_upload_id&quot;:null,&quot;id&quot;:156268976,&quot;type&quot;:&quot;newsletter&quot;,&quot;reaction_count&quot;:2,&quot;comment_count&quot;:0,&quot;publication_id&quot;:2790353,&quot;publication_name&quot;:&quot;Mem&#243;rias e Confiss&#245;es&quot;,&quot;publication_logo_url&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!HRSV!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F56503063-db84-4a1a-ab2b-f5f65e5af2cf_968x968.png&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;youtube_url&quot;:null,&quot;show_links&quot;:null,&quot;feed_url&quot;:null}"></div><p></p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O farol e a forja]]></title><description><![CDATA[Isto &#233; uma cr&#244;nica ou um manual desses cursos estereotipados que se vendem na internet?]]></description><link>https://guilhermeangra.substack.com/p/o-farol-e-a-forja</link><guid isPermaLink="false">https://guilhermeangra.substack.com/p/o-farol-e-a-forja</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Angra]]></dc:creator><pubDate>Wed, 06 May 2026 13:00:06 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/2c480adf-9dc7-4303-90d9-bf9cfb4327d1_1280x720.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong>1 </strong>O meu problema com a modernidade &#233; a pornografia. Estava numa ang&#250;stia excruciante, tentando trazer a palavra ao sentimento que me corro&#237;a as entranhas. Agora achei: o que me fere a alma &#233; a <em>pornografia </em>do nosso tempo. N&#227;o se engane, leitor. Aqui n&#227;o se trata apenas das mo&#231;as em p&#234;los sentando em jebas mastod&#244;nticas diante de c&#226;meras 8k. Se fosse s&#243; a nudez do corpo, haveria mais esperan&#231;a. Mas essa nudez pornogr&#225;fica invadiu a nossa alma e maculou o nosso esp&#237;rito.</p><p><strong>2 </strong>Ainda lembro, na puberdade, de quando folheava as musas da <em>Playboy</em>. Confesso meu pecado sujo: sempre preferi a se&#231;&#227;o <em>Click</em> ao inv&#233;s do ensaio principal. Hoje sei o porqu&#234;: sugest&#227;o. Ora, as mo&#231;as que apareciam ali sugeriam a nudez ao inv&#233;s de a escancarar. Por isso mesmo me atra&#237;am, me agu&#231;avam a curiosidade, excitavam a minha imagina&#231;&#227;o, moviam o meu corpo e o meu esp&#237;rito. Ah, que vontade de desbravar aquelas mulheres cuja nudez era uma previs&#227;o, e n&#227;o uma certeza absoluta.</p><p><strong>3 </strong>Quando tive acesso &#224;s revistas mais vulgares, apesar de excitarem-me o corpo, n&#227;o excitavam-me o esp&#237;rito. J&#225; estava tudo ali, entregue, de bandeja: um pau numa vagina em qualidade m&#225;xima. Obrigava-me ao ato onanista carregando um semblante triste. O gozo apenas coroava a tristeza. Com os filmes pornogr&#225;ficos foi ainda pior. O pau na vagina agora se mexia. <em>Toma!</em>, telespectador. &#201; isso o que voc&#234; quer? Ent&#227;o se deleite, se empapuce de pau e vagina &#8212; por isso que preferia as l&#233;sbicas.</p><p><strong>4 </strong>Sim, &#233; isso o que eu quero, mas n&#227;o dessa <em>forma</em>. Achei mais uma palavra para aliviar minha ang&#250;stia: <em>forma</em>. Tentei ler <em>A Insustent&#225;vel Leveza do Ser</em>, de Milan Kundera, mas n&#227;o consegui ir at&#233; o fim. Kundera tentou juntar, numa mesma obra, um romance com um ensaio filos&#243;fico e acabou que n&#227;o fez nada bem feito. Perdoem-me os kunderianos, mas achei medonho o Kundera ter de explicar algumas cenas para o leitor, o porqu&#234; de os personagens fazerem tal e tal ato etc. Tenha classe, Kundera. Isso &#233; literatura ou autoajuda?</p><p><strong>5 </strong>A forma me pega. N&#227;o &#233; &#224; toa que quando releio as piores coisas que j&#225; escrevi, est&#225; l&#225;, enterrada como um sapo de macumba, a forma pornogr&#225;fica. E aqui n&#227;o me atenho a pinto e buceta, mas &#224; mania de ter de explicar para o leitor tim-tim por tim-tim. Ora, isto &#233; uma cr&#244;nica ou um manual desses cursos estereotipados que se vendem na internet? A beleza muitas vezes est&#225; naquilo que n&#227;o se escreve e que n&#227;o se explica. <em>Deixo assim ficar subentendido&#8230;</em></p><p><strong>6 </strong>Ao mesmo tempo, como vivemos na era pornogr&#225;fica, onde qualquer miser&#225;vel s&#243; quer o paroxismo de cada experi&#234;ncia, &#233; preciso suprimir o ego e mand&#225;-lo &#224; p&#234;-qu&#234;-p&#234; se quiser manter-se fiel &#224; forma mais nobre que existe, a qual ainda n&#227;o sei como nome&#225;-la, mas consigo caracteriz&#225;-la. Tal forma &#233; envolta em mist&#233;rio e profundidade. Poderia acrescentar, de lambuja, a sinceridade e a paix&#227;o fulminante do criador.</p><p><strong>7 </strong>Entendo que essa &#233; a <em>minha</em> dor, e demorei tempos para localiz&#225;-la. Eu sabia que havia algo de errado quando inventei de vender um curso intitulado <em>O</em> <em>Pilar do Relacionamento</em>; ou ainda, quando passei a enviar e-mails ensinando miser&#225;veis a viverem suas vidas da maneira correta. Perdoe-me, musa da arte. &#201; poss&#237;vel ganhar o-p&#227;o-nosso-de-cada-dia sem fingir ter certezas absolutas sobre tudo?</p><p><strong>8 </strong>H&#225;, em cada meandro do nosso limbo moderno, certezas absolutas sendo escancaradas das formas mais grotescas que se possa imaginar, para uma multid&#227;o de <em>leads</em> que anseia pela isca do &#8220;jeito absolutamente certo de ser e de se fazer qualquer coisa&#8221;. E o mundo est&#225; cheio de gente que carrega as certezas na fu&#231;a, por isso mesmo &#233; t&#227;o nauseante.</p><p><strong>9 </strong>Poderiam acusar-me de relativista, esquerdopata, progressista. Admito: creio e fa&#231;o coisas que fariam alguns conservadores arrepiarem at&#233; os cabelos do cu. Mas a moda de hoje &#233; rotular a alma com espectros pol&#237;ticos. Esses dias fui obrigado a ver um intelectual dito conservador &#8212; e defensor da arte &#8212; afirmando que Nelson Rodrigues era de direita. <em>Isso &#233; pornogr&#225;fico!</em> Antes de citar uma m&#237;sera obra ou uma das frases espectrais da nossa Flor-de-Obsess&#227;o, atira-lhe um r&#243;tulo pol&#237;tico, como quem diz: &#8220;Est&#227;o vendo, pessoal? Ele &#233; do nosso clubinho.&#8221;</p><p><strong>10 </strong>N&#227;o, meu caro. Nelson era o seu pr&#243;prio clube. Eis a&#237; o grande homem: tem horror a passeatas, coletivos, r&#243;tulos, multid&#245;es, manadas e certezas absolutas. Ele sabe que ali h&#225; tudo, menos um indiv&#237;duo de carne, ossos e fluidos.</p><p><strong>11 </strong>E por acostumarmos mal a multid&#227;o, agora ela se torna incapaz de contemplar o mist&#233;rio. Ela quer a pornografia! Quer o m&#233;todo ideal, a f&#243;rmula da felicidade, o checklist da produtividade, o t&#237;tulo vulgar, a promessa de salva&#231;&#227;o num curso ou numa ideologia, o corte r&#225;pido Tramontina, a vidinha id&#237;lica a pronta-entrega.</p><p><strong>12 </strong>Eis o que &#233; a pornografia para este homem que lhe escreve semanalmente: um reducionismo do mist&#233;rio, um desacato &#224; vida, uma vulgariza&#231;&#227;o do humano. Mas entendo com di&#225;fana nitidez a minha posi&#231;&#227;o no mundo. N&#227;o sou juiz. N&#227;o sou pol&#237;tico. N&#227;o sou sacerdote. N&#227;o sou diplomata. N&#227;o sou CEO de uma grande empresa. N&#227;o sou sequer um &#8220;catolicuz&#227;o&#8221;. Dou gra&#231;as a isso. Sou uma esp&#233;cie de burgu&#234;s trans. Explico: nasci com alma de artista e obrigaram-me a neg&#225;-la para tornar-me uma ratazana vencedora na corrida dos ratos.</p><p><strong>13 </strong>Assumo tamb&#233;m a minha culpa e mis&#233;ria, a minha ina&#231;&#227;o por pusilanimidade. Mas estou saindo, aos poucos, do arm&#225;rio. Pela fresta, ao mesmo tempo que vejo o estrago que fiz com minha pr&#243;pria alma ao me enveredar por esses rinc&#245;es pornogr&#225;ficos, enxergo tamb&#233;m uma esperan&#231;a de tornar-me aquilo que sempre nasci para ser: eu mesmo.</p><p><em><strong>Cr&#244;nica escrita por Guilherme Angra em maio de 2026.</strong></em></p><p>Al&#233;m de escritor, sou terapeuta desde 2021. <a href="https://wa.link/pjuadu">CLIQUE AQUI</a> caso queira saber como funciona o meu trabalho no consult&#243;rio.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Acho que a tecnologia deveria ter parado no e-mail]]></title><description><![CDATA[Melhor ainda se par&#225;ssemos nas cartas. Agora ir&#227;o chamar-me de Idade M&#233;dia.]]></description><link>https://guilhermeangra.substack.com/p/acho-que-a-tecnologia-deveria-ter</link><guid isPermaLink="false">https://guilhermeangra.substack.com/p/acho-que-a-tecnologia-deveria-ter</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Angra]]></dc:creator><pubDate>Fri, 01 May 2026 09:33:54 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!QD5d!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F40f73a92-548d-463e-8ebb-adf663e092e5_680x448.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!QD5d!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F40f73a92-548d-463e-8ebb-adf663e092e5_680x448.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!QD5d!, /__u/guilhermeangra.substack.com/w_424, /__u/guilhermeangra.substack.com/c_limit, /__u/guilhermeangra.substack.com/f_webp, /__u/guilhermeangra.substack.com/q_auto:good, /__u/guilhermeangra.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F40f73a92-548d-463e-8ebb-adf663e092e5_680x448.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!QD5d!, /__u/guilhermeangra.substack.com/w_848, /__u/guilhermeangra.substack.com/c_limit, /__u/guilhermeangra.substack.com/f_webp, /__u/guilhermeangra.substack.com/q_auto:good, /__u/guilhermeangra.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F40f73a92-548d-463e-8ebb-adf663e092e5_680x448.jpeg 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!QD5d!, /__u/guilhermeangra.substack.com/w_1272, /__u/guilhermeangra.substack.com/c_limit, 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Escrevo isso e sinto que se insinua numa mera frase um estere&#243;tipo daquele tio reacion&#225;rio que vive a ladrar no almo&#231;o de domingo que bom mesmo era na ditadura militar. Meu sogro de setenta e seis anos vive a tecer elogios a essa &#233;poca. &#8220;Voc&#234; podia andar na rua, em qualquer hor&#225;rio, em qualquer lugar, que nada acontecia.&#8221; Para o meu sogro, a sociedade deveria ter parado na ditadura; para mim, no e-mail j&#225; estava bom. Melhor ainda se par&#225;ssemos nas cartas. Agora ir&#227;o chamar-me de Idade M&#233;dia.</p><p><strong>2 </strong>Em minhas quimeras romanescas, imagino o sujeito a sofrer de ang&#250;stia e de amor; e, para n&#227;o apodrecer, senta-se em sua escrivaninha, pega uma folha de papel, uma caneta e se coloca inteiramente ali naquela experi&#234;ncia de escrever com seu pr&#243;prio punho, com sua pr&#243;pria caligrafia. <em>Times New Roman &#233; o caralho!</em> Ele tem sua pr&#243;pria fonte. Sentado, sem muitas possibilidades de distra&#231;&#227;o, escreve com todo o seu ser.</p><p><strong>3 </strong>Costumava dizer que se algu&#233;m me desse para ler uma cr&#244;nica de Nelson sem dizer que era de Nelson, mataria a charada na terceira frase. &#8220;&#201; Nelson Rodrigues, nosso Anjo Pornogr&#225;fico!&#8221; Se a cr&#244;nica fosse escrita &#224; m&#227;o, poderia matar a charada na terceira palavra. A tecnologia, que tem l&#225; os seus m&#233;ritos, aos poucos, mata tudo o que &#233; demasiado humano. E reconhe&#231;o que se n&#227;o fosse ela, talvez voc&#234;, agora, n&#227;o estaria lendo esta cr&#244;nica. &#201; como casar com um cr&#225;pula numa &#233;poca em que n&#227;o se tinha para onde fugir. O infeliz lhe humilha, de vez em quando lhe bate, mas sem ele eu estaria na rua da amargura. O mendigo<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a> questionar-me-ia: &#8220;Qual o problema de morar na rua, seu burgu&#234;s safado? Eis a&#237; o problema de voc&#234;s: por uma migalha de seguran&#231;a, vendem a alma e depois ficam escrevendo text&#245;es na internet de como a internet &#233; prejudicial. <em>Hip&#243;critas!</em>&#8221;</p><p><strong>4 </strong>Mas divago quando o que quero dizer &#233; que depois de anos voltei ao e-mail. Meu primo, Marcel, chamou-me no WhatsApp para mostrar-me uma foto de seu filho pequeno com o livro <em>O Senhor dos An&#233;is: O Retorno do Rei</em> em m&#227;os. Trocamos meia d&#250;zia de palavras e logo me veio a ideia: &#8220;Me passa o seu e-mail?&#8221; Ele passou e em seguida lhe escrevi um e-mail com todo o meu ser, sentindo-me um homem l&#225; de 2006. N&#227;o vou mentir! N&#227;o sou um hegeliano que acha, ingenuamente, que o que vem depois &#233; sempre melhor. Melhor para quem? Quanto mais o mundo avan&#231;a, mais nostalgia eu sinto. E, at&#233; certo ponto, n&#227;o h&#225; revolta, apenas saudade. Inclusive, saudade do que n&#227;o vivi, como diria nosso menino Ney.</p><p><strong>5 </strong>Enviando aquele e-mail, percebi os movimentos narc&#237;sicos da nossa era. &#8220;Vou perder todo esse tempo escrevendo algo que ningu&#233;m vai ver?&#8221; Eu poderia estar postando no Instagram. Poderia estar maquinando mais formas de ganhar dinheiro. Poderia estar utilizando esses trinta minutos para coisas mais <em>produtivas</em>. Poderia, inclusive, com todo o meu vasto conhecimento, em vez de escrever um e-mail pessoal descrevendo alguns sentimentos e desejos sinceros, dar li&#231;&#245;es de moral do jeito certo de viver a vida pra ver se o Marcel percebe como sou s&#225;bio.</p><p><strong>6 </strong><em>O admir&#225;vel mundo novo</em> nos cercou de todos os lados: o filho-da-puta precisa ser produtivo e bem visto at&#233; no &#243;cio. Como assim vou perder trinta minutos com uma pessoa que n&#227;o me trar&#225; benef&#237;cios materiais claros? Deus me ajude a expurgar minha mesquinharia e a olhar para onde realmente importa. Deus me ajude a olhar para uma alma humana e a demorar nela. Deus me ajude a entender que a vida comum, longe da fama, das c&#226;meras, dos likes, das visualiza&#231;&#245;es, dos holofotes, dos cursos digitais, das vidas ilibadas fora a vida de 99% da humanidade at&#233; esses dias.</p><p><strong>7 </strong>O &#8220;sereis como Deus&#8221; corrompe, e o &#8220;sereis como Deus&#8221; com a tecnologia corrompe absolutamente. H&#225; um inc&#244;modo tang&#237;vel que acomete o z&#233;-rede-social: fome de aten&#231;&#227;o. Aten&#231;&#227;o vicia mais que craque. Quanto mais, melhor. Idiotas que somos! Incapazes de perceber de que n&#227;o vale a pena ganhar os olhares do mundo e ficarmos cegos para onde importa.</p><p><strong>8 </strong>Domingo de manh&#227; fui dar uma palestra sobre sentido da vida para o ECC (Encontro de Casais com Cristo). &#192; tarde, depois do almo&#231;o, a chuva ca&#237;a em baldes no oeste do Paran&#225;. Eu e a Adeline nos aninhamos no sof&#225; da sala, numa conchinha &#233;pica, e dormimos ali, ao som daquela orquestra outonal da natureza. Num estado hipnag&#243;gico, lembro-me de concluir, antes de apagar: &#8220;N&#227;o existe nada melhor do que isto aqui. Escreverei sobre esta experi&#234;ncia com a certeza na fu&#231;a de que a escrita &#233; uma migalha perto do que est&#225; acontecendo agora. Isto aqui &#233; tudo! Nenhum livro que eu possa escrever algum dia ser&#225; t&#227;o completo e t&#227;o prazeroso quanto esta experi&#234;ncia. <em>Eu sei!</em>&#8221;</p><p><strong>9 </strong>De manh&#227;, recebo os olhares do mundo. De um mundo que n&#227;o se espanta com Ad&#233;lia Prado e nem com Viktor Frankl. &#192; tarde, recebo o amor de minha mulher; e ela se espanta e se encanta comigo! Estava cheia de amor para dar. Talvez esteja ovulando. N&#227;o quero dar o cr&#233;dito de seu fogoso amor apenas aos horm&#244;nios. N&#227;o me chamo Eslen. Me chamo Guilherme, mais conhecido como <em>&#8220;o lun&#225;tico&#8221;</em> porque ainda acredito no amor.</p><p><strong>10 </strong>Naquele domingo, descobri mais uma de minhas voca&#231;&#245;es: a conchinha. Sou bom nesse neg&#243;cio. Tenho pena de minhas ex-namoradas que hoje n&#227;o podem mais desfrutar de t&#227;o extremoso prazer: a minha conchinha. Divago novamente quando o que quero dizer &#233;: se eu morrer sem ter uma fama intergal&#225;ctica, sem ter os olhares do mundo, sem ter deixado minha assinatura na hist&#243;ria dos grandes homens, foda-se! Contanto que eu possa chegar ao final e perceber que vivi com o cora&#231;&#227;o nas m&#227;os, com um esp&#237;rito livre e escrevendo cartas &#224; m&#227;o e e-mails com sangue, eis o que importa!</p><p><em><strong>Cr&#244;nica escrita por Guilherme Angra em abril de 2026.</strong></em></p><p>Al&#233;m de escritor, sou terapeuta desde 2021. <a href="https://wa.link/pjuadu">CLIQUE AQUI</a> caso queira saber como funciona o meu trabalho no consult&#243;rio.</p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><div class="digest-post-embed" data-attrs="{&quot;nodeId&quot;:&quot;0d1b00b4-3d31-4a60-9b50-1054625d448d&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;1 &#192;s vezes tenho a impress&#227;o que j&#225; escrevi tudo que tinha para escrever. Acabou! Vai tirar mais o qu&#234; da cachola? Olhe pra sua vida: med&#237;ocre. Trabalha em casa, mora em casa. Final de semana &#233; sogra e igreja. Um escritor que se preze precisa de aventura, como o Bilbo Bolseiro que foi para as montanhas da Terra M&#233;dia respirar novos ares e escrever um no&#8230;&quot;,&quot;cta&quot;:&quot;Read full story&quot;,&quot;showBylines&quot;:true,&quot;showDescription&quot;:true,&quot;showImage&quot;:true,&quot;size&quot;:&quot;lg&quot;,&quot;isEditorNode&quot;:true,&quot;title&quot;:&quot;78. Alma de mendigo&quot;,&quot;publishedBylines&quot;:[{&quot;id&quot;:252877238,&quot;name&quot;:&quot;Guilherme Angra&quot;,&quot;bio&quot;:&quot;Psicanalista e escritor. Atendo gente no consult&#243;rio e escrevo sobre a vida comum.&quot;,&quot;photo_url&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/778f75c7-664e-4d82-9975-b46530ab66b8_1179x1179.jpeg&quot;,&quot;is_guest&quot;:false,&quot;bestseller_tier&quot;:null}],&quot;post_date&quot;:&quot;2025-11-16T13:57:26.802Z&quot;,&quot;cover_image&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!y_71!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F31a15a38-286f-41e0-8b8f-ef481257233a_720x835.jpeg&quot;,&quot;cover_image_alt&quot;:null,&quot;canonical_url&quot;:&quot;https://guilhermeangra.substack.com/p/78-alma-de-mendigo&quot;,&quot;section_name&quot;:null,&quot;video_upload_id&quot;:null,&quot;id&quot;:179048589,&quot;type&quot;:&quot;newsletter&quot;,&quot;reaction_count&quot;:38,&quot;comment_count&quot;:5,&quot;publication_id&quot;:2790353,&quot;publication_name&quot;:&quot;Mem&#243;rias e Confiss&#245;es&quot;,&quot;publication_logo_url&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!HRSV!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F56503063-db84-4a1a-ab2b-f5f65e5af2cf_968x968.png&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;youtube_url&quot;:null,&quot;show_links&quot;:null,&quot;feed_url&quot;:null}"></div><p></p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O importante é passar num concurso do Banco do Brasil]]></title><description><![CDATA[O artista est&#225; morto e n&#243;s o matamos!]]></description><link>https://guilhermeangra.substack.com/p/o-importante-e-passar-num-concurso</link><guid isPermaLink="false">https://guilhermeangra.substack.com/p/o-importante-e-passar-num-concurso</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Angra]]></dc:creator><pubDate>Wed, 22 Apr 2026 14:05:54 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Tshr!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fee8fd2e5-c5a5-44b7-a983-4be7f59cf2c9_1672x941.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong>1 </strong>S&#225;bado de manh&#227;, minha esposa levanta. Tinha unha &#224;s 7h. &#8220;Como diabos algu&#233;m marca unha &#224;s 7h?&#8221; Foi o que perguntei. Ela fala, gesticula e explica e eu finjo que entendo. Para minha surpresa, antes de adentrar no banho, em p&#234;los, ela se joga em cima de mim. Pele com pele, pois durmo nu. Sou contra pijamas! Como se j&#225; n&#227;o bastasse estar na coleira do casamento, ainda querem me obrigar a usar pijaminha? Nem a pau!</p><p><strong>2 </strong>E ali, sentindo seu corpo nu sobre o meu, digo em seu ouvido: &#8220;Se for pra morrer, que seja agora.&#8221; Sou um homem simples. N&#227;o preciso de muito para encontrar a felicidade dando sopa por a&#237;. E, naquele s&#225;bado de manh&#227;, a encontrei ali: pele com pele, calor com calor, p&#234;los com p&#234;los, bafo com bafo. S&#243; aceito o al&#233;m-vida se puder levar minha esposa, em p&#234;los.</p><p><strong>3 </strong>De imediato, levanto-me cheio de amor para dar. A esposa foge para o banho. Visto uma roupa de fim-de-semana. N&#227;o teria pacientes naquele s&#225;bado. Minha esposa vai fazer a unha. Saio a p&#233; de casa para tomar caf&#233; num posto de gasolina aqui na esquina. A aurora d&#225; lugar a uma bela manh&#227; de sol. Estava fresco. Prop&#237;cio a uma caminhada despretensiosa. Cumprimento um vizinho. Velho. Daqueles que &#224;s 6h senta-se com sua senhora para tomar chimarr&#227;o na frente de casa. Sorrio, levanto o bra&#231;o e bramo aquele grunhido cl&#225;ssico entre homens: &#8220;&#212;&#244;&#244;&#244;&#244;paaa!&#8221;</p><p><strong>4 </strong>Perto do posto, vejo que arrancaram o gerv&#227;o-roxo que enfeitava a paisagem &#225;rida de um terreno baldio. &#8220;Quem foi o arrombado?&#8221; No posto, chego com fome. Pe&#231;o um salgado de carne, caf&#233; com leite, suco de laranja e p&#227;o de queijo. Vejo que a mo&#231;a pesca o salgado de frango em vez do de carne. Mantenho-me inc&#243;lume e aceito o erro da mo&#231;a sem fazer nenhuma reprimenda. Ah, tanto faz, carne, frango, queijo, palmito. &#8220;Gente feliz n&#227;o enche o saco.&#8221; Lembrei-me da Ad&#233;lia dizendo que ama at&#233; a barata quando est&#225; envolta pelo amor de seu marido. Seletividade parece ser coisa de gente que ama pouco.</p><p><strong>5 </strong>Ela me pede para esperar na mesa pois j&#225; levaria meu pedido. Acato. Sentado num canto, fico a observar os dois frentistas. Um deles me chamou a aten&#231;&#227;o. J&#225; era um senhor. Devia ser aposentado. Era virado em sorriso e cordialidade. A cena me contagiou. Por um momento, imaginei-me um homem mais velho, trabalhando feliz naquele posto, numa manh&#227; de sol de outono, lidando com gente de todo o tipo e lugar, enchendo seus tanques e perguntando pro motorista: &#8220;Mais alguma coisa, patr&#227;o?&#8221; Quem sabe num futuro eu n&#227;o descole um bico desses pra mim. Todos os funcion&#225;rios estavam com uma boa aura. Faziam piadas entre eles e atendiam os clientes com entusiasmo.</p><p><strong>6 </strong>A atendente traz meu pedido. Eu estava com uma sede de ressaca. Numa golada, vai-se quase todo o suco de laranja. Est&#225; a&#237; algo que combina com uma manh&#227; de sol: sede de viver e suco de laranja. Em seguida, uma mordida no salgado de frango. Que del&#237;cia! Frango com catupiri. O <em>erro</em> foi um <em>acerto</em>. Como &#233; bom deixar-se surpreender. Enquanto como, presto aten&#231;&#227;o aos clientes que chegam &#224; conveni&#234;ncia. Todos muito feios. Medianeira &#233; o lugar com mais homens feios por metro quadrado e, ao mesmo tempo, &#233; onde se encontram as mais belas mulheres da regi&#227;o. Gra&#231;as ao bom Deus o homem n&#227;o precisa ser bonito.</p><p><strong>7 </strong>Mas nem aquela feiura masculina estragava a beleza daquele s&#225;bado de manh&#227;. E veja a minha &#8220;sorte&#8221;: minutos depois, entram na conveni&#234;ncia duas mo&#231;as que pareciam ter vindo direto de uma balada. &#8220;Semideusas?&#8221; Que nada! Assim como aqueles homens, tamb&#233;m eram fe&#237;ssimas. Fizeram seus pedidos e vieram sentar-se perto de mim. Uma delas encarou-me com aquele olhar de ninfoman&#237;aca de filme franc&#234;s. Serviu para satisfazer meu ego fr&#225;gil de homem viril. Logo levantei, paguei e voltei para casa cheio de vida.</p><p><strong>8 </strong>Como a esposa iria para Cascavel com minha sogra fazer coisas de mulher, planejei o meu dia: cortar cabelo, comprar l&#226;mpadas, trocar l&#226;mpadas, leitura mais Campari, document&#225;rio da Ad&#233;lia Prado, almo&#231;o, banho de sol, mais outra dose de Campari, banho de &#225;gua, escrita, leitura, escrita. E assim o fiz.</p><p><strong>9 </strong>Estou a ler a biografia de Henry Miller e preciso confessar o meu anseio: o meu amor pela escrita &#233; p&#237;fio perto do dele. Miller, desde tenra idade, j&#225; dizia que queria ser escritor. Em qualquer emprego em que adentrava, estava l&#225;, enterrado como sapo de macumba, a sua aposta consciente: serei escritor, nem que para isso tenha de tornar-me um mendigo. Comparo-me. Nunca acreditei em mim dessa maneira. Sempre pareceu-me imposs&#237;vel ser um artista. Incapacitado de imaginar, adequei-me ao meio. &#8220;O importante &#233; passar num concurso do Banco do Brasil.&#8221;</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Tshr!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fee8fd2e5-c5a5-44b7-a983-4be7f59cf2c9_1672x941.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Tshr!, /__u/guilhermeangra.substack.com/w_424, /__u/guilhermeangra.substack.com/c_limit, /__u/guilhermeangra.substack.com/f_webp, /__u/guilhermeangra.substack.com/q_auto:good, /__u/guilhermeangra.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fee8fd2e5-c5a5-44b7-a983-4be7f59cf2c9_1672x941.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Tshr!, 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Ningu&#233;m do meu entorno escrevia e levava a escrita como algo sagrado. As bandas da minha cidade que tinham m&#250;sicas autorais, o faziam como um extra, como um segundo turno. Teatro n&#227;o existia. Pintores tamb&#233;m n&#227;o. Penso c&#225; com meus bot&#245;es como a vida moderna &#233; um moedor de carne, pois o transforma, ou num homem acomodado, repleto de confortos e est&#237;mulos; ou num homem que veste terno e t&#234;nis e que anseia em vencer na vida com o cl&#225;ssico <em>american way of life</em>. Ambos sem amor &#224; arte.</p><p><strong>11 </strong>O artista &#233; morto antes mesmo de come&#231;ar. O que sobra para ele s&#227;o migalhas. &#201; o segundo turno, &#233; o extra, &#233; a &#250;nica hora em que ele tem para escrever, a qual precisa alternar com uma leitura. De resto, vida equilibradinha. Alimenta&#231;&#227;o balanceada, exerc&#237;cios f&#237;sicos, p&#243;s-gradua&#231;&#245;es, trabalho <em>de verdade</em>, investimentos, f&#233;rias fora do pa&#237;s, ar-condicionado, carro do ano, Opus Dei, fam&#237;lia de Instagram.</p><p><strong>12 </strong>Sua mulher n&#227;o acredita na sua arte, seus pais tampouco, seus amigos sequer te leem. Se o fazem, &#233; com a certeza na fu&#231;a de que n&#227;o &#233; s&#233;rio. A verdade &#233; que nem voc&#234; acredita <em>de verdade</em>. Escreve quase pedindo desculpas. &#8220;Eu podia t&#225; matando, roubando, mas estou aqui, tirando um tempinho escasso para escrever um textinho ou compor uma musiquinha.&#8221; Vira-latas de uma figa! Vira-latas que eu entendo! Entendo mesmo. Tudo vai contra a coragem em se ter um cora&#231;&#227;o nas m&#227;os. Tudo!</p><p><strong>13 </strong>Para viver, precisa-se de dinheiro. Quem vai pagar para me ler? Quem vai pagar para ouvir suas m&#250;sicas? Quem vai pagar para contemplar os seus quadros? Melhor mesmo &#233; fazer um concurso. Mais seguro. Depois que eu estiver estabelecido na vida burguesa, eu escrevo, componho, leio e pinto &#8212; lembrei-me da piada do &#8220;corto cabelo e pinto&#8221;. J&#225; est&#225; a&#237; a bancarrota do nosso esp&#237;rito. J&#225; est&#225; a&#237; o vel&#243;rio da nossa arte. Uma arte que sequer nasceu. A abortamos na primeira fase da gesta&#231;&#227;o. <em>A arte est&#225; morta e n&#243;s a matamos!</em></p><p><strong>14 </strong>Van Gogh se revira no caix&#227;o por sermos um bando de paus moles. Vertem l&#225;grimas do cad&#225;ver esquel&#233;tico de Henry Miller ao perceber que cuspimos na cara da arte e do artista. Nelson Rodrigues crispa-se em sua pr&#243;pria tumba &#8212; cuja est&#225;tua fora roubada &#8212; ao ver que nos tornamos todos uns babadores de gravata, putinhas do sistema que se acovardam por medo do rid&#237;culo.</p><p><strong>15 </strong>Vivi a vida inteira levando a arte em segundo plano por medo de arriscar tudo por ela. Eu e 99% dos &#8220;escritores&#8221; brasileiros. Os poucos contempor&#226;neos que li, senti tristeza e uma certa raiva. A come&#231;ar por suas caras de engomadinhos e personalidades desinteressant&#237;ssimas. N&#227;o escrevem com sangue! Est&#227;o mais preocupados com a gram&#225;tica, com cursos de escrita criativa, com o grupinho ideol&#243;gico do que com a pr&#243;pria musa da arte. Precisamos de cracudos da escrita, da m&#250;sica, da pintura, do teatro. Homens que tratam a arte como sua religi&#227;o, como algo sagrado, como o &#250;nico alimento capaz de faz&#234;-los chegar a uma transcend&#234;ncia ainda em vida.</p><p><strong>16 </strong>O homem moderno quer equil&#237;brio. Quer calcular as calorias e o amor. Tem horror &#224; obsess&#227;o. Justamente por isso est&#225; a apodrecer. N&#227;o percebeu o elefante rosa: ou o ser humano se angustia e ama ou apodrece. Acusaram-me de parecer um lun&#225;tico falando de amor.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a> Pobres diabos. N&#227;o sabem bulhufas do que &#233; um homem verdadeiramente apaixonado. Luto para s&#234;-lo. Mas falta muito. Ainda sou um cag&#227;o. Eis o &#243;bvio ululante: a nossa sociedade &#233; t&#227;o fodida que eu, um borra-botas, sou considerado um subversivo, um &#8220;contracultura&#8221;, quase um revolucion&#225;rio.</p><p><strong>17 </strong><em>O artista est&#225; morto, e n&#243;s o matamos!</em> Desconfio que se o Dostoi&#233;vski escrevesse hoje um <em>Crime e Castigo</em>, n&#227;o seria lido. Se o fosse, n&#227;o entenderiam. A maioria das pessoas que o leem, n&#227;o o entendem. O leem porque o russo est&#225; na moda. O leem para poder arrogar-se intelectualidade. O que sobra para a nossa &#233;poca s&#227;o livros de colorir e livros &#8220;manuais&#8221;, os quais ensinam os babadores de gravata a babarem melhor.</p><p><strong>18 </strong>Nos enjaularam! Somos le&#245;es feitos para a savana e nos colocaram num zool&#243;gico que tem cara de savana, mas n&#227;o &#233; uma savana. Quer&#237;amos ca&#231;ar, correr sobre os capins altos e agarrar uma presa de verdade, sentir seu sangue quente esguichar e seu cora&#231;&#227;o vivo pulsar. Mas n&#227;o precisamos disso. Todos os dias, na mesma hora, no mesmo lugar, vem um tratador com uma carne morta, cortada em fatias. De longe, atira a &#8220;presa&#8221; na jaula, n&#243;s a devoramos e depois vamos babar na juba at&#233; vir a pr&#243;xima refei&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;"><em><strong>Cr&#244;nica escrita por Guilherme Angra em abril de 2026.</strong></em></p><p>Al&#233;m de escritor, sou terapeuta desde 2021. <a href="https://wa.link/pjuadu">CLIQUE AQUI</a> caso queira saber como funciona o meu trabalho no consult&#243;rio.</p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><div class="digest-post-embed" data-attrs="{&quot;nodeId&quot;:&quot;8289f4d3-a351-4acf-8284-e6667cfdec3a&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;1 Acusaram-me de parecer um lun&#225;tico falando de amor. E como n&#227;o seria? Nasci num reduto repleto de amor. Desde a mais tenra idade sou atravessado por esperan&#231;a e bom humor. Meu amado pai &#8212; sempre volto a ele &#8212;, a minha Usina de Itaipu em carne, ossos e fluidos, que, ao irromper no ambiente, adeus mesquinharia, tristeza e pessimismo. Estava ali, por cer&#8230;&quot;,&quot;cta&quot;:&quot;Read full story&quot;,&quot;showBylines&quot;:true,&quot;showDescription&quot;:true,&quot;showImage&quot;:true,&quot;size&quot;:&quot;lg&quot;,&quot;isEditorNode&quot;:true,&quot;title&quot;:&quot;97. Disseram-me que pare&#231;o um lun&#225;tico falando de amor&quot;,&quot;publishedBylines&quot;:[{&quot;id&quot;:252877238,&quot;name&quot;:&quot;Guilherme Angra&quot;,&quot;bio&quot;:&quot;Psicanalista e escritor. Atendo gente no consult&#243;rio e escrevo sobre a vida comum.&quot;,&quot;photo_url&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/778f75c7-664e-4d82-9975-b46530ab66b8_1179x1179.jpeg&quot;,&quot;is_guest&quot;:false,&quot;bestseller_tier&quot;:null}],&quot;post_date&quot;:&quot;2026-04-15T20:00:48.897Z&quot;,&quot;cover_image&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!fGhJ!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2d6a7312-99bd-49e2-9ab0-1fe4ce1c2f8c_1200x800.png&quot;,&quot;cover_image_alt&quot;:null,&quot;canonical_url&quot;:&quot;https://guilhermeangra.substack.com/p/97-disseram-me-que-pareco-um-lunatico&quot;,&quot;section_name&quot;:null,&quot;video_upload_id&quot;:null,&quot;id&quot;:194304865,&quot;type&quot;:&quot;newsletter&quot;,&quot;reaction_count&quot;:22,&quot;comment_count&quot;:8,&quot;publication_id&quot;:2790353,&quot;publication_name&quot;:&quot;Mem&#243;rias e Confiss&#245;es&quot;,&quot;publication_logo_url&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!HRSV!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F56503063-db84-4a1a-ab2b-f5f65e5af2cf_968x968.png&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;youtube_url&quot;:null,&quot;show_links&quot;:null,&quot;feed_url&quot;:null}"></div><p></p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[97. Disseram-me que pareço um lunático falando de amor]]></title><description><![CDATA[Isso porque eles ainda n&#227;o conheceram o meu pai]]></description><link>https://guilhermeangra.substack.com/p/97-disseram-me-que-pareco-um-lunatico</link><guid isPermaLink="false">https://guilhermeangra.substack.com/p/97-disseram-me-que-pareco-um-lunatico</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Angra]]></dc:creator><pubDate>Wed, 15 Apr 2026 20:00:48 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!fGhJ!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2d6a7312-99bd-49e2-9ab0-1fe4ce1c2f8c_1200x800.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong>1</strong> Acusaram-me de parecer um <em>lun&#225;tico falando de amor<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a></em>. E como n&#227;o seria? Nasci num reduto repleto de amor. Desde a mais tenra idade sou atravessado por esperan&#231;a e bom humor. Meu amado pai &#8212; sempre volto a ele &#8212;, a minha Usina de Itaipu em carne, ossos e fluidos, que, ao irromper no ambiente, adeus mesquinharia, tristeza e pessimismo. Estava ali, por certo, um dos homens mais iluminados que passaria pela minha curta exist&#234;ncia terrena.</p><p><strong>2</strong> Sa&#237; de seu saco. Tenho seu gene. Tenho seus tra&#231;os. Faltava-me seu temperamento sangu&#237;neo, expansivo, abrasivo, solar. Descobri, fazendo meu mapa astral, meu calcanhar de Aquiles: sou uma usina nuclear. A energia n&#227;o sai para lugar algum. Se internaliza entre fiss&#227;o dentro de um reator, pois se escapar &#224; atmosfera, <em>voil&#224;</em>: mais um desastre de Chernobyl. N&#227;o h&#225; comportas para liberar a energia excedente como numa usina hidrel&#233;trica, na qual a &#225;gua sai de dentro para fora. Numa usina nuclear, a &#250;nica maneira de arrefecer o sistema, &#233; trazendo &#225;gua de fora para dentro. Tudo &#233; demasiadamente interno e destruidor.</p><p><strong>3 </strong>E percebo tal viol&#234;ncia desde quando comecei a me expressar por meio da palavra. H&#225; uma crueza na minha express&#227;o que pode chocar o outro. Agarro-me a tudo que &#233; tang&#237;vel e palp&#225;vel. Meu sonho era de que as minhas palavras alcan&#231;assem a realidade. Escrevo no passado pois entendi que as palavras, perto da realidade, s&#227;o um consolo de pobre, mas &#233; o melhor que tenho. Elas s&#227;o as comportas de minha usina nuclear.</p><p><strong>4 </strong>Passarei o resto da vida com o desejo irris&#243;rio de arranc&#225;-las do imaterial e do abstrato e dar-lhes entranhas. Est&#225; a&#237; o cru da minha escrita e tamb&#233;m o motivo pelo qual sou um apaixonado pelos autores que conseguem subir e descer. V&#227;o aos c&#233;us m&#237;sticos, mas descem at&#233; aqui e andam descal&#231;os com os p&#233;s nus sobre a terra lamacenta em meio &#224; ral&#233;.</p><p><strong>5 </strong>Mais uma descoberta deste materialista que lhe escreve semanalmente: n&#227;o consigo me apaixonar pelos livros dos santos e dos te&#243;logos. Os poucos que tentei ler, achei-os de um t&#233;dio total. N&#227;o consegui sequer chegar &#224; terceira morada do castelo de santa Tereza d&#8217;&#193;vila. Cheguei a ler <em>Confiss&#245;es</em> duas vezes. Na primeira, o li inteiro por educa&#231;&#227;o. Na segunda, j&#225; mais velho, quase a mesma coisa, se n&#227;o fosse a cena de sua m&#227;e, santa M&#244;nica, antes de falecer, felic&#237;ssima pela convers&#227;o do filho, n&#227;o lembraria de nada do que li.</p><p><strong>6 </strong>Talvez eu seja um homem vulgar que, de t&#227;o vulgar, n&#227;o alcan&#231;a as abstra&#231;&#245;es dos santos e dos te&#243;logos. Por isso me apaixonei pelos <em>anjos pornogr&#225;ficos</em>. Acho-os puramente humanos, o que faz com que eu me veja neles. E creio que meu pai &#233; um desses. No final da vida, minha falecida av&#243; o chamava de &#8220;anjo bom&#8221;. Dos filhos, foi o mais presente, o mais amoroso. Mas n&#227;o era s&#243; anjo; e isso deixava tudo mais interessante.</p><p><strong>7 </strong>Viajando com meu pai desde tenra idade, num quil&#244;metro, ao passar em frente a uma igreja, sinal da cruz; no outro quil&#244;metro, ao passar por uma prostituta de beira da estrada, uma buzinada. Em cima do painel, uma B&#237;blia surrada; embaixo do banco, revistas pornogr&#225;ficas. Anjo pornogr&#225;fico &#233; o apelido perfeito para o Sr. Ivan. O veste como uma luva.</p><p><strong>8 </strong>E o anjo pornogr&#225;fico tem amor para dar e vender. &#201; um absurdo! Ainda quando iniciava na escrita, l&#225; nos idos de 2010, lembro-me de escrever um texto em homenagem ao seu anivers&#225;rio de cinquenta anos. Ali, naquelas singelas palavras, como todo filho, chamei meu pai de her&#243;i, mesmo sabendo de suas sujeiras. Ou melhor, gra&#231;as &#224;s suas sujeiras. Pois est&#225; a&#237; o que me fascina no homem comum: sua vulnerabilidade &#233; a regra, sua m&#225;cula o forja. Talvez por isso nunca gostei do Super-Homem e companhia. Qual a gra&#231;a de um homem imbat&#237;vel, onde a vulnerabilidade torna-se uma exce&#231;&#227;o? Her&#243;i mesmo &#233; o homem vulner&#225;vel a ver esperan&#231;a aqui neste desterro. Eis o poder do meu her&#243;i: esperan&#231;a e bom humor. Com isso, tornava qualquer ambiente de vel&#243;rio em uma festa open bar.</p><p><strong>9 </strong>&#8220;Quero ver todo mundo feliz.&#8221; Diz meu pai. Se o bendito fosse porteiro do c&#233;u, Deus o demitiria no dia seguinte ao v&#234;-lo deixar passar pelo port&#227;o celestial todo miser&#225;vel que anseia por migalhas de amor. &#8220;Sr. Ivan, e o purgat&#243;rio?&#8221; Ao que ele, gaguejando, responderia: &#8220;E-ent&#227;o, m-meu chefe, n&#227;o d&#225;-d&#225;-d&#225; para limp&#225;-los aqui no c&#233;u mesmo? &#201; muito s-sofrimento ficar mil&#234;nios no purgat&#243;rio.&#8221;</p><p><strong>10 </strong>&#201; um homem de perd&#227;o f&#225;cil. Lembro-me do Ramiro, um amigo que pegara emprestado um DVD pornogr&#225;fico comigo numa &#233;poca em que o jovem onanista tinha de se esfor&#231;ar para ver mulheres nuas. O guri, ao ver aquela esp&#233;cie de &#237;ndia loira na capa, com seus cabelos longos drapejando sobre os seios, crispou-se de desejo. Ap&#243;s limpar a baba el&#225;stica e bovina, pediu a meu pai (o dono do DVD), por obs&#233;quio, que emprestasse a loira. Nesse momento, notava-se a diferen&#231;a ululante entre mim e meu pai. De um lado eu, calculando a caridade e j&#225; cobrando o Ramiro que semana que vem teria de devolv&#234;-lo; do outro lado meu pai, perguntando se o jovem onanista n&#227;o queria levar mais um DVD.</p><p><strong>11 </strong>Essa atitude m&#227;o-aberta de meu pai deixava-me com fogo nas ventas. O fato &#233; que a m&#227;e do Ramiro achou o DVD porn&#244; e fez o que toda boa m&#227;e faria: o jogou fora! Certo dia, l&#225; em casa, confessa o erro a meu pai. &#8220;Sem problemas, Ramiro. N&#227;o precisa me pagar nada. &#201; s&#243; um DVD.&#8221; Tal atitude deixou-me irritado. Como assim o Ramiro perde a minha loira e vai ficar tudo-bem? Ora, as pessoas devem ser punidas por seus erros. Olho por olho, dente por dente.</p><p><strong>12 </strong>Enfim, o velho perdoa f&#225;cil, ama f&#225;cil, sorri f&#225;cil. Eu, por ser um adolescente de temperamento melanc&#243;lico, queria a justi&#231;a. Se continuasse fechado daquela maneira, hoje, provavelmente, seria um desses homens que vivem a me atirar seus ressentimentos: &#8220;Experimenta amar sem limites para ver o que acontece&#8230;&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a> Eu vi meu pai amando assim e transformando tudo ao seu redor em bem-aventuran&#231;a. Fui salvo por v&#234;-lo amando sem limites tudo o que se mexia.</p><p><strong>13 </strong>Minha m&#227;e n&#227;o o queria. Ele humilhou-se. Ligava, deixava recado, mandava presentes. E nada. N&#227;o desistiu por ser <em>gado demais</em>. A paix&#227;o pela minha m&#227;e o atravessou como uma lan&#231;a de prata aravessa um lobisomem em <em>Van Helsing</em>. Minha m&#227;e, exausta, cedeu. No dia D, ap&#243;s am&#225;-la, sai do quarto, pega um viol&#227;o velho, e, mesmo sem saber tocar uma nota, vai dedilhando e cantando pela casa da fazenda de minha v&#243;, acordando toda a parentada. A felicidade, nele, transbordava; e quando transborda queremos dividi-la com o mundo. &#8220;Tome um pouco pra voc&#234;s!&#8221;</p><p><strong>14 </strong>Alguns poderiam objetar: &#8220;Sua m&#227;e ficou por pena.&#8221; O que importa? Hoje, quarenta e tantos anos depois, toda vez que ela vai falar sobre o seu amor pelo meu pai, perde as palavras. Se parece comigo quando tento colocar entranhas numa m&#237;sera frase. E n&#227;o as acha porque seu amor por ele &#233; incondicional, inintelig&#237;vel, imensur&#225;vel. Ent&#227;o chora, crispa-se de felicidade. Eu vi e vivi isso. Como diabos n&#227;o falarei de amor parecendo um lun&#225;tico?</p><p><strong>15 </strong>E apesar do sol em &#225;ries na casa oito e da lua em le&#227;o na casa doze, nos &#250;ltimos anos minha usina nuclear vem sendo substitu&#237;da por uma usina hidrel&#233;trica. Minha esposa ratifica: &#8220;Tu t&#225; cada vez mais igual ao teu pai.&#8221; O homem que parece um lun&#225;tico falando de qualquer coisa. E o faz porque ama a vida em si mesma. Ent&#227;o concluo: pobres homens desesperan&#231;osos e mal-humorados que n&#227;o percebem que quando me chamam de lun&#225;tico, ing&#234;nuo, rom&#226;ntico, miqueinha, mangina, no fundo, est&#227;o a me elogiar. Ora, sou filho do meu pai. O que voc&#234;s queriam?</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!fGhJ!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2d6a7312-99bd-49e2-9ab0-1fe4ce1c2f8c_1200x800.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!fGhJ!, /__u/guilhermeangra.substack.com/w_424, /__u/guilhermeangra.substack.com/c_limit, /__u/guilhermeangra.substack.com/f_webp, /__u/guilhermeangra.substack.com/q_auto:good, /__u/guilhermeangra.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2d6a7312-99bd-49e2-9ab0-1fe4ce1c2f8c_1200x800.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!fGhJ!, /__u/guilhermeangra.substack.com/w_848, /__u/guilhermeangra.substack.com/c_limit, 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O desejo é míope]]></title><description><![CDATA[fa&#231;o amor sem &#243;culos]]></description><link>https://guilhermeangra.substack.com/p/96-o-desejo-e-miope</link><guid isPermaLink="false">https://guilhermeangra.substack.com/p/96-o-desejo-e-miope</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Angra]]></dc:creator><pubDate>Fri, 10 Apr 2026 13:32:06 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!EZxx!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fdfab19c1-c541-404e-baec-4dc3932e8245_1600x1280.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong>1</strong> Penso seriamente em come&#231;ar a escrever poesia. Inclusive, antes de iniciar esta cr&#244;nica, estava a digitar versos numa folha virtual do Word. N&#227;o &#233; chique escrever poesias no Word. Queria ser como a Ad&#233;lia, que usa tinta e papel; e ali, numa folha em branco que participa da realidade &#8212; que ocupa lugar no espa&#231;o &#8212; ela se debru&#231;a e faz m&#225;gica: faz brotar no papel n&#227;o apenas o que sente por meio de uma linguagem universal, mas d&#225; &#224;s letras uma cara pessoal, pois se trata de frases escritas &#224; m&#227;o: <em>particular linguagem universal</em>. &#201; t&#227;o obvio. Eu sei. O que isso importa? Me veio tal pensamento e decidi exp&#244;-lo com o intuito de mostrar a diferen&#231;a monumental do anal&#243;gico para o digital.</p><p><strong>2</strong> Meu pai escreve, at&#233; hoje, bilhetes para minha m&#227;e antes de sair em viagem. Ainda pequeno, os lia antes de ir para a escola. Eram palavras simpl&#237;ssimas: &#8220;Alemoa minha paix&#227;o. Ti amo.&#8221; E da&#237; se ele n&#227;o separava o vocativo por v&#237;rgula e trocava o &#8220;e&#8221; pelo &#8220;i&#8221; no &#8220;te amo&#8221;?! Escrevia da maneira que falava, da maneira que o som se propagava no ar. E ele falava &#8220;ti&#8221; e n&#227;o &#8220;te&#8221;. O fato &#233; que n&#227;o h&#225; nada sofisticado naquelas palavras, por&#233;m, sua caligrafia as tornavam &#250;nicas.</p><p><strong>3</strong> Dizia: &#8220;Puxei a letra do meu pai.&#8221; Pai e filho tinham garranchos semelhantes. Bonito isso. Bonito perceber que a caligrafia carrega um DNA. Agora posso ler aquelas palavras manuscritas e sentir uma presen&#231;a: meu pai passou <em>fisicamente</em> por aqui. N&#227;o &#233; &#224; toa que guardo todos os bilhetes manuscritos que recebo desde a &#233;poca da escola; e os guardo num ba&#250; de madeira que se tornara literalmente um ba&#250; de relic&#225;rios.</p><p><strong>4</strong> Acabei de abri-lo. Aqui jaz cartas e bilhetes de tr&#234;s d&#233;cadas. M&#227;e, irm&#227;o, pai, colegas de escola, colegas de faculdade, colegas de trabalho, ficantes, ex-namoradas, esposa etc. A maioria escritos &#224; m&#227;o. Digo-lhes os que me pegam mais: os &#8220;fora de &#233;poca&#8221;, os &#8220;de gra&#231;a&#8221;, os &#8220;espont&#226;neos&#8221;. Talvez por isso nunca gostei de fazer anivers&#225;rio, pois obriga o mundo a lhe dar parab&#233;ns. Ah, que coisa horr&#237;vel! E mais uma vez l&#225; vem o pol&#237;tico de minha cidade natal me desejar feliz-anivers&#225;rio todo 27 de mar&#231;o, desde 2018, l&#225; pelo Facebook. O &#8220;infiliz&#8221; n&#227;o &#233; capaz sequer de mudar o texto. Copia-e-cola, na caruda. De que vale um feliz-anivers&#225;rio maquinal, sem o desejo genu&#237;no de querer o bem do aniversariante acima de tudo? E expressado com um copia-e-cola gen&#233;rico? N&#227;o vale quase nada! &#201; para manter o <em>status quo</em>. &#201; para manter a pose de bom cidad&#227;o do Bostil.</p><p><strong>5</strong> Alguns diriam que exagero. Pode ser, pode ser. &#201; que prezo tanto pelas coisas genu&#237;nas que parece-me quase um desacato ter de obrigar pessoas a desejar-me coisas boas. Dia 8 de mar&#231;o, l&#225; vem minha esposa: &#8220;N&#227;o vai me desejar feliz-dia-das-mulheres? Fulano e sicrano j&#225; at&#233; postaram fotos com suas esposas, e voc&#234; nada.&#8221; Sou um pulha. Sinto-me um traidor de mim mesmo ao ter de fazer algo porque est&#225; na moda, porque &#233; o que todo mundo faz. D&#243;i-me a alma. Ser&#225; que minha esposa n&#227;o percebeu ontem, dia 7 de mar&#231;o, eu, estarrecido como um bobo, diante de sua beleza loura, amarela, solar? &#8220;Que foi, amor?&#8221; &#8220;Cacete! Deus foi muito bom comigo. V&#225; ser linda assim na p&#234;-qu&#234;-p&#234;!&#8221;</p><p><strong>6</strong> Anivers&#225;rio de minha amada m&#227;e: liguei, derramei minhas felicita&#231;&#245;es genu&#237;nas sobre ela por videochamada. N&#227;o bastou. Ficou de cara comigo porque n&#227;o postei bulhufas nas redes sociais. Porque hoje em dia n&#227;o basta apenas amar na alcova, &#233; necess&#225;rio que o mundo saiba que voc&#234; ama. Esse n&#227;o &#233; um sofrimento exclusivo de minha Virgem Maria terrena, &#233; um sofrimento geral. Com a internet e a exposi&#231;&#227;o, as coisas s&#243; t&#234;m valor se postadas no WWW.</p><p><strong>7</strong> Freud talvez diria que tenho um problema com etiquetas sociais, e que isso se deve &#224; minha inf&#226;ncia &#8212; claro, sempre a inf&#226;ncia. Entre uma tragada e outra em seu charuto, diria mais: &#8220;Olha, Sr. Angra, para se viver em sociedade &#233; preciso se adequar aos ritos e &#224;s etiquetas, por mais que lhe causem mal-estar. S&#227;o eles que mant&#234;m a civiliza&#231;&#227;o de p&#233;.&#8221; Prefiro Nelson Rodrigues: &#8220;Mintam, por miseric&#243;rdia!&#8221; E eu compreendo, tanto Freud quanto Nelson, mas o que acontece hoje &#233; uma patifaria, &#233; um assassinato em massa da honestidade, da espontaneidade, da paix&#227;o e, por que n&#227;o, do amor?</p><p><strong>8</strong> Falando em amor, lembrei que nunca gostei de mot&#233;is<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a>. De imediato, surge minha esposa &#224; consci&#234;ncia: &#8220;J&#225; percebeu que seus textos sempre terminam em sexo?&#8221; Sexo, amor e morte. Volto ao motel: tudo ali lhe obriga ao coito. O motel &#233; a etiqueta do sexo: entrou ali, tem de fazer, pois &#233; o que todo mundo faz. Mas e se eu quiser s&#243; assistir a um filme na TV? E se eu quiser apenas tomar um belo banho de banheira com a esposa enquanto tomamos champanhe e conversamos sobre <em>Outlander</em>? Seria uma experi&#234;ncia divina passar a noite no motel e, pela manh&#227;, fazer amor no carro. Driblar o &#243;bvio. Liquidar a etiqueta.</p><p><strong>9</strong> Quer matar o desejo? Deixe-o &#243;bvio, transparente, n&#237;tido, di&#225;fano. At&#233; tentei escrever um poeminha sobre esse sentimento, intitulado <em>Mot&#233;is</em>:</p><p><em>Nunca gostei de mot&#233;is,<br>mas Ana quis me levar em um.<br>&#8216;Por que n&#227;o no carro?&#8217;<br>Queria uma novidade &#243;bvia. Mulheres&#8230;<br>Vermelho, espelhos, camisinhas, cama redonda,<br>banheira, bot&#245;es, televis&#227;o, pornografia.<br>Quem diria que ali obrigam-lhe &#224; foda?!<br>Estoquei. Despejei mirrado.<br>Ningu&#233;m se excita com o &#243;bvio.</em></p><p><strong>10</strong> Arist&#243;teles, com sua teoria das quatro causas, diria que cada coisa tem sua finalidade. E a excel&#234;ncia de cada uma delas est&#225; em exercer essa finalidade. A do motel, o ato libidinoso; a do carro, levar voc&#234; do ponto A ao B. Mas por que diabos &#233; t&#227;o excelente dormir no motel e trepar no carro? Quebrar as regras, a rotina, o planejamento, o &#243;bvio, a burocracia, o checklist, o c&#225;lculo, a etiqueta&#8230; que maravilha perceber que a vida n&#227;o cabe no Notion.</p><p><strong>11</strong> Mas &#233; bom que eu diga: n&#227;o sou um incendi&#225;rio maluco e nem um subversivo irasc&#237;vel. Apenas n&#227;o creio na racionaliza&#231;&#227;o total do homem. H&#225;, no &#226;mago da alma, o desejo. E parece-me que raz&#227;o e desejo nem sempre se somam, mas se subtraem. Uma vida muito racional na v&#233;spera, torna-se, no dia seguinte, uma paisagem marciana.</p><p><strong>12</strong> Atendia, tempos atr&#225;s, um paciente que estava num casamento mais parado que &#225;gua de po&#231;o. E n&#227;o me refiro apenas &#224; quest&#227;o sexual, mas &#224; intera&#231;&#227;o de ambos no cotidiano insuport&#225;vel. O sal passou longe. Comida sem gosto de comida. Casamento limpinho demais, roteirizado demais. Ambos ali estavam muito previs&#237;veis e racionais em seus pap&#233;is. Ele provia tudo com seu trabalho de gerente em uma grande empresa; ela passava o dia todo cuidando da casa.</p><p><strong>13</strong> Ainda n&#227;o tinham filhos. &#192; noite, no lar, era sempre mais do mesmo: ele teria de ouvi-la, depois muscula&#231;&#227;o, janta e soneca. N&#227;o tinham amigos. N&#227;o tinham vidas pessoais interessantes que os faziam ausentar-se um do outro. Final de semana era a mesma coisa. V&#234;-lo narrar seu dia a dia era como assistir &#224;queles filmes parados, sem drama, sem mist&#233;rio e, por consequ&#234;ncia, sem desejo.</p><p><strong>14</strong> A fogueira do amor se apagara h&#225; tempos e estavam ambos apenas olhando as cinzas. Felizmente descobri um dos tesouros da vida a dois. Alguns poderiam arriscar: &#8220;&#201; uma vida a tr&#234;s.&#8221; Com isso, n&#227;o me refiro &#224; presen&#231;a de um filho como o terceiro elemento. Ora, n&#227;o sou t&#227;o subversivo assim, pois tive uma boa m&#227;e. O fato &#233; que percebi que <em>O desejo &#233; m&#237;ope</em>:</p><p><em>Compreendi o desejo,<br>ele se esconde no mist&#233;rio.<br>Casei, na grama misteriosa deitei:<br>&#8216;a do vizinho &#233; sempre mais verde&#8217;, disseram.<br>Agora, descubro o ouro do casamento:<br>fa&#231;o amor sem &#243;culos &#224; luz de velas.</em></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!EZxx!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fdfab19c1-c541-404e-baec-4dc3932e8245_1600x1280.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!EZxx!, /__u/guilhermeangra.substack.com/w_424, /__u/guilhermeangra.substack.com/c_limit, /__u/guilhermeangra.substack.com/f_webp, /__u/guilhermeangra.substack.com/q_auto:good, 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style="text-align: justify;"><em><strong>Cr&#244;nica escrita por Guilherme Angra em abril de 2026.</strong></em></p><p>Al&#233;m de escritor, sou terapeuta desde 2021. <a href="https://wa.link/pjuadu">CLIQUE AQUI</a> caso queira saber como funciona o meu trabalho no consult&#243;rio.</p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><div class="digest-post-embed" data-attrs="{&quot;nodeId&quot;:&quot;17f4679f-7dcf-4061-beca-7aa9a3b237c8&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;1 H&#225; tempos, l&#225; em meados de janeiro de 2019, escrevi uma cr&#244;nica intitulada Nunca gostei de mot&#233;is. Nela, exponho minha ojeriza a um lugar no qual o desejo n&#227;o &#233; o contraste. Explico: num motel, tudo &#233; sexualizado. N&#227;o vou me ater a descrever em detalhes um quarto de motel, pois todos, pelo menos uma vez na vida, j&#225; fomos a um, ou a dois, ou a tr&#234;s. O &#8230;&quot;,&quot;cta&quot;:&quot;Read full story&quot;,&quot;showBylines&quot;:true,&quot;showDescription&quot;:true,&quot;showImage&quot;:true,&quot;size&quot;:&quot;lg&quot;,&quot;isEditorNode&quot;:true,&quot;title&quot;:&quot;Cr&#244;nica #29: NUNCA GOSTEI DE MOT&#201;IS &#8211; PARTE II&quot;,&quot;publishedBylines&quot;:[{&quot;id&quot;:252877238,&quot;name&quot;:&quot;Guilherme Angra&quot;,&quot;bio&quot;:&quot;Psicoterapeuta e escritor. Atendo gente no consult&#243;rio e escrevo sobre a vida comum.&quot;,&quot;photo_url&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/778f75c7-664e-4d82-9975-b46530ab66b8_1179x1179.jpeg&quot;,&quot;is_guest&quot;:false,&quot;bestseller_tier&quot;:null}],&quot;post_date&quot;:&quot;2024-11-24T22:16:00.000Z&quot;,&quot;cover_image&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Z1FV!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F10667f66-c542-4f32-95e5-a1eab262501e_736x491.jpeg&quot;,&quot;cover_image_alt&quot;:null,&quot;canonical_url&quot;:&quot;https://guilhermeangra.substack.com/p/cronica-29-nunca-gostei-de-moteis&quot;,&quot;section_name&quot;:null,&quot;video_upload_id&quot;:null,&quot;id&quot;:156267876,&quot;type&quot;:&quot;newsletter&quot;,&quot;reaction_count&quot;:1,&quot;comment_count&quot;:1,&quot;publication_id&quot;:2790353,&quot;publication_name&quot;:&quot;Mem&#243;rias e Confiss&#245;es&quot;,&quot;publication_logo_url&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!HRSV!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F56503063-db84-4a1a-ab2b-f5f65e5af2cf_968x968.png&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;youtube_url&quot;:null,&quot;show_links&quot;:null,&quot;feed_url&quot;:null}"></div><p></p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[95. A vida é um sopro e estou prestes a fazer trinta e quatro]]></title><description><![CDATA[Aceito presentes.]]></description><link>https://guilhermeangra.substack.com/p/95-a-vida-e-um-sopro-e-estou-prestes</link><guid isPermaLink="false">https://guilhermeangra.substack.com/p/95-a-vida-e-um-sopro-e-estou-prestes</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Angra]]></dc:creator><pubDate>Wed, 25 Mar 2026 14:00:26 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!VsRS!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fed0a910b-1e78-470d-8060-c3f9c03d0aea_1600x1280.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong>1 </strong>A vida &#233; um sopro e estou prestes a fazer trinta e quatro anos. Tenho usado o ChatGPT para aliviar &#8212; ou intensificar &#8212; minha ang&#250;stia. Sempre que me apaixono por um escritor, pe&#231;o ao GPT que monte uma tabela com todas as suas obras, o ano de publica&#231;&#227;o de cada obra e, para coroar minha ang&#250;stia, a coluna principal: a idade que possu&#237;a o autor em cada uma de suas publica&#231;&#245;es. Ser&#225; que estou atrasado? E, se estou, de que me adiantaria a ansiedade em deixar obras no mundo? Nada! Ao ler meus primeiros tr&#234;s livros, confesso minha mis&#233;ria art&#237;stica: talvez fosse melhor n&#227;o terem sido publicados. Talvez deveriam ter sido colocados numa gaveta &#8212; ou numa pasta, na nuvem &#8212; com o seguinte t&#237;tulo: &#8220;N&#227;o repare. S&#227;o textos escritos por um jovem ansiando em ser escritor e deixar algo que preste no mundo, mas sem nenhuma cultura art&#237;stica ao redor. Resultado: tateava no escuro.&#8221;</p><p><strong>2 </strong>Apesar de que, pensando bem, h&#225; uma beleza nessa hist&#243;ria: o fato de que mesmo tateando no escuro, ainda assim <em>tateava</em>. Ainda assim, tatear &#233; melhor do que n&#227;o tatear. Algo motivava os meus movimentos cegos. Era como um homem virgem tocando uma mulher na penumbra de um quarto estranho. N&#227;o sei que quarto &#233; este, nada sei sobre o nu desta mulher, mas sinto seu cheiro de cio, a ou&#231;o chamar-me para perto; e vou porque tenho de ir. Vou porque tudo ali me agu&#231;a o esp&#237;rito e entusiasma o meu corpo, cuja temperatura se eleva rapidamente, expandindo poros e tecidos. Ao toc&#225;-la em meio &#224; penumbra, come&#231;o a matar o desejo olfativo e auditivo. Pois agora a tenho em m&#227;os; e agora posso lamb&#234;-la e sentir seu gosto, afag&#225;-la de todas as formas, pudicas e impudicas. E ali, em segundos, eu me acabo. Por ser virgem, sem muita instru&#231;&#227;o, n&#227;o sabia nada sobre degustar o bem amado. Acabei apressando as coisas, tanto no sexo quanto na literatura. Paci&#234;ncia.</p><p><strong>3 </strong>Poderia culpar a Deus, pois fora um sacana comigo. Tirou-me quase por completo a capacidade de deixar descendentes no mundo<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a> e injetou-me uma vontade hom&#233;rica e, ao mesmo tempo, quixotesca de permanecer, de viver, se poss&#237;vel, depois de morrer. Sem filhos biol&#243;gicos, como passar o meu gene adiante e assim manter-me vivo ap&#243;s a minha morte? Se tivesse nascido numa fam&#237;lia nobre num per&#237;odo mon&#225;rquico, n&#227;o poderia reinar. Acabaria com o legado da fam&#237;lia logo ali na frente. </p><p><strong>4 </strong>Dia desses, assistia a algum canal que passava a vida dos le&#245;es na savana africana. Na natureza, a virilidade est&#225; intimamente ligada &#224; pot&#234;ncia f&#237;sica. A leoa escolhe o macho mais forte, o mais corajoso, o maior em estatura, o que tem a maior juba, pois isto &#233; &#243;bvio: seus futuros filhotes herdar&#227;o bons genes com os quais manter&#227;o o bando de p&#233;.</p><p><strong>5 </strong>Eu, se fosse um le&#227;o, teria uma bela de uma jeba, quer dizer, juba, uma estatura consider&#225;vel, uma vontade de copular absurda. As leoas cairiam que nem patas nos meus xavecos leoninos. Por&#233;m, ao come&#231;ar a reinar, nada de descendentes. Elas se questionariam: &#8220;Ora, ser&#225; que o problema somos n&#243;s? Roarrr!&#8221; Perceberiam de imediato: o macho alfa do bando &#233; um le&#227;o do Paraguay! Trocar-me-iam pelo primeiro le&#227;ozinho furreca que aparecesse dando sopa na savana com uma Saveiro rebaixada e com som na carroceria; e eu seria expulso da Pedra do Reino como o pr&#243;prio Simba, que fora colocado pra correr da forma mais humilhante poss&#237;vel: por hienas.</p><p><strong>6 </strong>Aceitei minha condi&#231;&#227;o. N&#227;o h&#225; mais revolta porque achei outra maneira de passar o meu gene adiante: a arte. Por isso de minha ang&#250;stia ao ver Nelson Rodrigues escrever <em>Vestido de Noiva</em> aos trinta e um anos; e Dostoi&#233;vski escrever <em>Noites Brancas</em> aos vinte e seis; e Mia Couto escrever <em>Raiz do Orvalho</em> aos vinte e sete; e Camus escrever <em>O Estrangeiro</em> aos vinte e oito. Aos vinte e oito eu lan&#231;ava o <em>Depois de N&#243;s</em>. Comparado com <em>O Estrangeiro</em>, as p&#225;ginas do <em>Depois de N&#243;s</em> servem muito bem como papel higi&#234;nico. Perdoe-me, musa da arte, por n&#227;o fazer jus &#224; sua magnanimidade.</p><p><strong>7 </strong>Para diminuir um pouco a ang&#250;stia, h&#225; os escritores mais tardios. Henry Miller lan&#231;ou seu primeiro romance oficial aos quarenta e dois, o pol&#234;mico <em>Tr&#243;pico de C&#226;ncer</em>; Ad&#233;lia Prado publicou seu primeiro livro, <em>Bagagem</em>, aos quarenta; Hermann Hesse tinha cinquenta anos quando publicou <em>O Lobo da Estepe</em>. Escrevia eu em cr&#244;nicas passadas que o auge do escritor tende a ser nas rugas<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a>, por isso, pe&#231;o a Deus, que deixe-me pelo menos fazer bodas de ouro com a pr&#243;pria vida. Se deixar-me fazer bodas de ouro com minha esposa, melhor ainda, pois da&#237; viverei at&#233; os oitenta anos. At&#233; l&#225;, creio que escreverei algo que preste.</p><p><strong>8 </strong>O fato &#233; que a vida continua sendo um sopro. E apesar de tudo, eu a amo! E a amo cada vez mais. Dizia Nietzsche, com sua teoria do Eterno Retorno, que tudo vai se repetir infinitamente. N&#227;o sei de onde ele tirou isso, mas, se o alem&#227;o estiver certo, brado: &#8220;Pois que se repita at&#233; o infinito!&#8221; Porque estou aprendendo a fazer amor com ela. N&#227;o sou mais aquele jovem virginal num quarto completamente escuro tateando a esmo a musa da arte. Agora, as coisas est&#227;o ficando mais claras. Sinto que o grau de miopia do meu intelecto est&#225; estabilizando<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a>. Nessas, me transformo em quem eu sempre deveria ter sido: eu mesmo.</p><p><strong>9 </strong>Se por um acaso Deus for sacana comigo mais uma vez e tirar-me da exist&#234;ncia terrena antes da hora, deixo aqui meu epit&#225;fio, o qual me inspirei em Rubem Alves, e ele inspirou-se em Rilke: <em>&#8220;Jaz aqui neste buraco os ossos de um homem obsessivo que teve um caso s&#233;rio de amor com a vida&#8221;</em>. Meu eleitorado cat&#243;lico poderia objetar: &#8220;O que importa &#233; a vida eterna, no para&#237;so, com Deus.&#8221; Pois &#233;. Eis a minha cegueira: n&#227;o sei como &#233; l&#225;. N&#227;o consigo imaginar como &#233; l&#225;. N&#227;o sei se vou para l&#225;. Mas sei como &#233; aqui; e aqui, onde estou agora, no <em>presente</em>, vejo como um <em>presente</em>. Que maravilha! Que felicidade! Completar trinta e quatro anos e receber o <em>presente</em> como um <em>presente</em>.</p><p><strong>10 </strong>Aconselhar-me-iam a n&#227;o expressar a felicidade assim, de maneira escancarada. Dizem que d&#225; azar. &#8220;O que ningu&#233;m sabe, ningu&#233;m estraga.&#8221; Pois eu quero que se foda! Solto o meu brado b&#225;rbaro sobre os telhados do mundo: a vida &#233; boa porque a vida &#233; melhor do que a n&#227;o-vida, a anti-vida, o nada, a morte. Algo h&#225;. Algo &#233;. Mesmo um Vale de L&#225;grimas ainda &#233; um vale; e um vale sempre &#233; bonito para quem aprendeu a olhar o <em>Ser</em> como um <em>presente</em>. At&#233; nas l&#225;grimas h&#225; beleza. Lembrei-me da Virgem Maria aos p&#233;s da cruz chorando a morte de seu filho unig&#234;nito.</p><p><strong>11 </strong>Talvez eu ainda n&#227;o tenha passado pelos sofrimentos &#8220;certos&#8221;, os quais me obrigariam a ver a exist&#234;ncia como um peso terr&#237;vel, onde a &#250;nica sa&#237;da seria o nada, o c&#233;u ou o inferno. &#8220;O mundo jaz no maligno&#8221;, escreve o ap&#243;stolo Jo&#227;o. Parece-me exagero; e, provavelmente, eu estou errado e o Jo&#227;o est&#225; cert&#237;ssimo. Mesmo assim, preciso argumentar a favor do meu erro: Jo&#227;o, j&#225; dormiu de conchinha com a mulher que voc&#234; ama? J&#225; fora visitar seus pais numa casinha buc&#243;lica com cheiro de inf&#226;ncia, l&#225; na serra ga&#250;cha? J&#225; reparou na beleza dos seres de alma vegetal? J&#225; escutou Lynyrd Skynyrd enquanto fumava cachimbo? J&#225; deparou-se com um poema de Ad&#233;lia Prado que, no momento seguinte, o fez agradecer a Deus por ela existir? J&#225; comeu o churrasco do meu sogro e a maionese de minha esposa num domingo de sol? Ah, Jo&#227;o, a vida aqui tamb&#233;m pode ser boa. N&#227;o me parece que o mundo jaz inteiro no maligno.</p><p><strong>12 </strong>O que me d&#243;i, Jo&#227;o, &#233; a saudade. Minha m&#227;e acabara de me ligar. Motivo? Saudade de sua obra em formato de gente. Queria ouvir a minha voz e saber se seu filho amado estava bem e vivo na semana de seu anivers&#225;rio de trinta e quatro anos. Quando se ama, &#233; isto o que acontece: deseja-se a eternidade do ser amado; mas mais do que isso, une-se ao ser amado e o degusta<em> agora</em>, no <em>presente</em>, e depois de degust&#225;-lo, enche-se de gratid&#227;o por ter tido a oportunidade de <em>tate&#225;-lo</em> de <em>olhos bem abertos </em>dentro de um sopro chamado vida. Depois, na aus&#234;ncia, o que sobra &#233; a mem&#243;ria carregada de sentimento e uma f&#233; inef&#225;vel que aquela experi&#234;ncia possa acontecer novamente, nem que seja a revivendo pelas palavras. Eis a&#237; o que farei com o meu resto de sopro de vida.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!VsRS!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fed0a910b-1e78-470d-8060-c3f9c03d0aea_1600x1280.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!VsRS!, /__u/guilhermeangra.substack.com/w_424, /__u/guilhermeangra.substack.com/c_limit, /__u/guilhermeangra.substack.com/f_webp, /__u/guilhermeangra.substack.com/q_auto:good, /__u/guilhermeangra.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fed0a910b-1e78-470d-8060-c3f9c03d0aea_1600x1280.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!VsRS!, /__u/guilhermeangra.substack.com/w_848, 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Os exames est&#227;o clar&#237;ssimos. Descobri que meus ovos est&#227;o entrando em fal&#234;ncia antes do tempo. Coisas que eram para acontecer l&#225; depois dos quarenta, a tal da andropausa masculina, come&#231;ou a acontecer agora. Cada dia que passa, ambos se aproximam da morte. O direito &#233; o pior. &#201; o mais afetado, &#233; o mais pequenino. Na inf&#226;ncia, foi o que demorou mais a descer para o saco escrotal. N&#227;o &#233; &#224; toa que meu amado irm&#227;o me apelidara, &#224; &#233;poca, de&quot;,&quot;cta&quot;:&quot;Read full story&quot;,&quot;showBylines&quot;:true,&quot;showDescription&quot;:true,&quot;showImage&quot;:true,&quot;size&quot;:&quot;lg&quot;,&quot;isEditorNode&quot;:true,&quot;title&quot;:&quot;64. O funeral dos meus bagos est&#225; logo ali&quot;,&quot;publishedBylines&quot;:[{&quot;id&quot;:252877238,&quot;name&quot;:&quot;Guilherme Angra&quot;,&quot;bio&quot;:&quot;Psicoterapeuta e escritor. Atendo gente no consult&#243;rio e escrevo sobre a vida comum.&quot;,&quot;photo_url&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/a00247fd-1ebf-4a59-b4d7-1167ca581c8c_1080x1080.jpeg&quot;,&quot;is_guest&quot;:false,&quot;bestseller_tier&quot;:null}],&quot;post_date&quot;:&quot;2025-08-10T11:02:22.685Z&quot;,&quot;cover_image&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!xyjR!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Facdc5fe1-dcc2-4f6c-8f4f-381bfc49a546_736x551.jpeg&quot;,&quot;cover_image_alt&quot;:null,&quot;canonical_url&quot;:&quot;https://guilhermeangra.substack.com/p/64-o-funeral-dos-meus-bagos-esta&quot;,&quot;section_name&quot;:null,&quot;video_upload_id&quot;:null,&quot;id&quot;:170480268,&quot;type&quot;:&quot;newsletter&quot;,&quot;reaction_count&quot;:6,&quot;comment_count&quot;:6,&quot;publication_id&quot;:2790353,&quot;publication_name&quot;:&quot;Mem&#243;rias e Confiss&#245;es&quot;,&quot;publication_logo_url&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!WhSr!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F819aab92-2d5f-45dd-851b-04f83e5d946d_1280x1280.png&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;youtube_url&quot;:null,&quot;show_links&quot;:null,&quot;feed_url&quot;:null}"></div><p></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><div class="digest-post-embed" data-attrs="{&quot;nodeId&quot;:&quot;e43ebe7f-cc6f-4b9d-9581-e18ccde3c7dd&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;1 Penso na morte. N&#227;o sei se deveria. &#201; inevit&#225;vel. Qual ser&#225; minha &#250;ltima cr&#244;nica ou a &#250;ltima frase a soar de meus l&#225;bios l&#237;vidos? De que assuntos h&#227;o de tratar? Quero escrever livros antes de morrer. Quero deixar algo para a posteridade, mas sem grandes pretens&#245;es. Vai que algu&#233;m os leia e encontre sangue! &#201; isto o que quero:&quot;,&quot;cta&quot;:&quot;Read full story&quot;,&quot;showBylines&quot;:true,&quot;showDescription&quot;:true,&quot;showImage&quot;:true,&quot;size&quot;:&quot;lg&quot;,&quot;isEditorNode&quot;:true,&quot;title&quot;:&quot;92. Eu sempre terei a escrita&quot;,&quot;publishedBylines&quot;:[{&quot;id&quot;:252877238,&quot;name&quot;:&quot;Guilherme Angra&quot;,&quot;bio&quot;:&quot;Psicoterapeuta e escritor. Atendo gente no consult&#243;rio e escrevo sobre a vida comum.&quot;,&quot;photo_url&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/a00247fd-1ebf-4a59-b4d7-1167ca581c8c_1080x1080.jpeg&quot;,&quot;is_guest&quot;:false,&quot;bestseller_tier&quot;:null}],&quot;post_date&quot;:&quot;2026-03-04T14:42:48.854Z&quot;,&quot;cover_image&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!1cFX!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4068c70e-f9e9-4d11-99ba-26f1da56f565_1600x1202.jpeg&quot;,&quot;cover_image_alt&quot;:null,&quot;canonical_url&quot;:&quot;https://guilhermeangra.substack.com/p/eu-sempre-terei-a-escrita&quot;,&quot;section_name&quot;:null,&quot;video_upload_id&quot;:null,&quot;id&quot;:189880486,&quot;type&quot;:&quot;newsletter&quot;,&quot;reaction_count&quot;:20,&quot;comment_count&quot;:3,&quot;publication_id&quot;:2790353,&quot;publication_name&quot;:&quot;Mem&#243;rias e Confiss&#245;es&quot;,&quot;publication_logo_url&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!WhSr!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F819aab92-2d5f-45dd-851b-04f83e5d946d_1280x1280.png&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;youtube_url&quot;:null,&quot;show_links&quot;:null,&quot;feed_url&quot;:null}"></div><p></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="#footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><div class="digest-post-embed" data-attrs="{&quot;nodeId&quot;:&quot;63d6d1f4-331e-408f-8139-4d8f39ded12f&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;1 Parece que renasci. Por tanto tempo me embrenhei no mundo das certezas absolutas, dos sabich&#245;es, dos racionais, dos que t&#234;m respostas para tudo, daqueles homens cheios de conclus&#245;es, m&#233;todos e solu&#231;&#245;es. Quis ser um deles. Perdi-me. N&#227;o era para mim e demorei a perceber. Levanto hoje pedindo perd&#227;o a Deus por ter me distanciado de mim mesmo. Distanciei&#8230;&quot;,&quot;cta&quot;:&quot;Read full story&quot;,&quot;showBylines&quot;:true,&quot;showDescription&quot;:true,&quot;showImage&quot;:true,&quot;size&quot;:&quot;lg&quot;,&quot;isEditorNode&quot;:true,&quot;title&quot;:&quot;90. Agora eu vejo&quot;,&quot;publishedBylines&quot;:[{&quot;id&quot;:252877238,&quot;name&quot;:&quot;Guilherme Angra&quot;,&quot;bio&quot;:&quot;Psicoterapeuta e escritor. Atendo gente no consult&#243;rio e escrevo sobre a vida comum.&quot;,&quot;photo_url&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/a00247fd-1ebf-4a59-b4d7-1167ca581c8c_1080x1080.jpeg&quot;,&quot;is_guest&quot;:false,&quot;bestseller_tier&quot;:null}],&quot;post_date&quot;:&quot;2026-02-15T10:02:03.668Z&quot;,&quot;cover_image&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!2LfB!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7ecdca89-e140-43da-aa99-baaf9d66e4b3_1600x1200.jpeg&quot;,&quot;cover_image_alt&quot;:null,&quot;canonical_url&quot;:&quot;https://guilhermeangra.substack.com/p/90-agora-eu-vejo&quot;,&quot;section_name&quot;:null,&quot;video_upload_id&quot;:null,&quot;id&quot;:187944255,&quot;type&quot;:&quot;newsletter&quot;,&quot;reaction_count&quot;:20,&quot;comment_count&quot;:2,&quot;publication_id&quot;:2790353,&quot;publication_name&quot;:&quot;Mem&#243;rias e Confiss&#245;es&quot;,&quot;publication_logo_url&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!WhSr!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F819aab92-2d5f-45dd-851b-04f83e5d946d_1280x1280.png&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;youtube_url&quot;:null,&quot;show_links&quot;:null,&quot;feed_url&quot;:null}"></div><p></p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[As mulheres do futuro não pingarão]]></title><description><![CDATA[Segundo Naldo, meu canalha favorito, pois &#233; honesto.]]></description><link>https://guilhermeangra.substack.com/p/94-as-mulheres-do-futuro-nao-pingarao</link><guid isPermaLink="false">https://guilhermeangra.substack.com/p/94-as-mulheres-do-futuro-nao-pingarao</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Angra]]></dc:creator><pubDate>Wed, 18 Mar 2026 11:01:16 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!9hRt!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F36bf443f-4989-4630-ab28-8249d1d50a9a_736x535.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong>1 </strong>Toca o meu telefone e &#233; gente de carne, ossos e fluidos. Milagre! Sim, algo raro nesses dias em que um celular serve para tudo, menos para uma liga&#231;&#227;o entre duas almas humanas. Quando toca, ou &#233; mensagem no WhatsApp ou, quando se trata de uma liga&#231;&#227;o, &#233; a Tim enchendo a paci&#234;ncia com promo&#231;&#245;es, ofertas, o escambau. Ah, como eu odeio essas grandes empresas de telefonia desalmadas. Toda grande empresa perde a cara de gente e, ali na frente, se distancia da humanidade e torna-se impessoal&#237;ssima. H&#225; uma dor que me acometera nas poucas vezes que tive de falar com os atendentes: impessoalidade. S&#227;o rob&#244;s. E precisam s&#234;-los para que a companhia se torne mais produtiva e lucre mais ao final do dia.</p><p><strong>2 </strong>Antigamente, descontava a minha ira no atendente; hoje, sei que o atendente &#233; t&#227;o v&#237;tima quanto eu. Mora em minhas quimeras burlescas o desejo de estar frente a frente com o dono da Tim, numa sala fechada. No mesmo cub&#237;culo, se encontra Hitler e Stalin. Porto um rev&#243;lver com apenas duas balas e fa&#231;o o mais justo: presenteio o dono da Tim com dois proj&#233;teis. Que satisfa&#231;&#227;o! Que beleza poder expressar tal desejo pelas palavras. Agora, mais leve, vou ao que interessa.</p><p><strong>3 </strong>Era o Naldo no telefone, o meu canalha favorito, pois &#233; honesto. Confrontar-me-iam: &#8220;Ora, se &#233; canalha, n&#227;o &#233; honesto; se &#233; honesto, n&#227;o &#233; canalha.&#8221; Engana-se, leitor. O Naldo &#233; de uma honestidade lancinante, do&#237;da, da qual poucas mo&#231;as saem ilesas. O bendito fruto n&#227;o faz cerim&#244;nias com uma dama. &#8220;Ser&#225; s&#243; por hoje, s&#243; por esta noite. Amanh&#227; estarei com outra, mas enquanto estiver aqui, voc&#234; ser&#225; amada.&#8221; Os olhos das mo&#231;as rutilavam de mist&#233;rio e desejo. Para piorar, o canalha honesto tem a capacidade de intimidades maritais com apenas algumas horas junto &#224;s damas. Era capaz de dormir de conchinha, fazer-lhes um carinho terno e, no outro dia, levantar-se, vestir-se e partir como se nada tivesse acontecido.</p><p><strong>4 </strong>Atira-me: &#8220;Tenho uma nova teoria pra voc&#234;.&#8221; Questiono: &#8220;&#201; forte?&#8221; Responde: &#8220;Fort&#237;ssima! Passo a&#237; depois das 18h, topa?&#8221; &#8220;Ficarei no seu aguardo.&#8221; 18h01, tocava a campainha. L&#225; estava ele: esguio, altivo, &#243;culos de sol, cabelo no gel, camiseta de gola polo, sorrisinho de malandro, perfume intenso e amadeirado, mascando chiclete, mais magro do que na &#250;ltima vez (todo canalha &#233; magro). Antes que pudesse cumpriment&#225;-lo, j&#225; come&#231;a com o prel&#250;dio do show: &#8220;Seus leitores v&#227;o adorar.&#8221; Eu, cheio de expectativa, quero a certeza: &#8220;Batata?&#8221; Tira os &#243;culos escuro e me encara: &#8220;Batata!&#8221;</p><p><strong>5 </strong>Senta-se na poltrona, cruza as pernas e, antes de falar com a boca, fala com as m&#227;os &#8212; vem de fam&#237;lia italiana. Dizia ele que as mo&#231;as de hoje em dia andavam mais frias que umas tr&#234;s Sib&#233;rias. N&#227;o s&#243; as mo&#231;as, enfatizava, os homens tamb&#233;m. &#8220;Veja, sou macho, meu neg&#243;cio &#233; mulher, mas observo os homens tamb&#233;m.&#8221; Ent&#227;o tacou-lhes o adjetivo fatal: &#8220;Assexuados! &#201; isso! &#201; um bando de assexuados. Homens e mulheres.&#8221; O instiguei: &#8220;E o motivo?&#8221; Espantou-se: &#8220;Ora, n&#227;o percebe, meu psicanalista favorito?! Tudo ganhou a seriedade de um vel&#243;rio.&#8221;</p><p><strong>6 </strong>Disse-me que com exemplo ficaria mais f&#225;cil de entender. Confessou-me que at&#233; uns anos atr&#225;s, a academia era o seu lugar preferido de ca&#231;a. O bebedouro era o <em>point!</em> Passava uns dois dias de olhares com uma mo&#231;a enquanto fingia que se importava com seus exerc&#237;cios. N&#227;o se importava bulhufas. O exerc&#237;cio era apenas um s&#237;mbolo, uma desculpa, uma entrada para o prato principal. No bebedouro, partia para o ataque e, se a mo&#231;a ria, era fisgada em seguida. &#8220;Hoje, na academia, as pessoas se importam muito com os exerc&#237;cios e esquecem o mundo. O lugar era para estar borbulhando tens&#227;o sexual e xavecos no bebedouro, mas, em vez disso, <em>parece mais um vel&#243;rio de gente saud&#225;vel.</em> N&#227;o me espantaria se entrasse numa academia e estivesse tocando a <em>Marcha F&#250;nebre</em>.&#8221;</p><p><strong>7 </strong>Nesse momento, Naldo levanta-se da poltrona, com um semblante quase iluminado, de santo, como se se desse conta do &#243;bvio ululante: &#8220;Me chamam de canalha por deixar mulheres na solid&#227;o de uma cama vazia, mas pelo menos, enquanto estou ali, as amo com tudo que tenho. Canalha mesmo &#233; o infeliz que j&#225; morreu para o amor. Hoje, nem os canalhas prestam mais. Tornaram-se <em>frescos!</em> Eis a palavra que queria achar: <em>frescos!</em>&#8221;</p><p><strong>8 </strong>Fiquei ali, est&#225;tico, de boca aberta, assistindo a um homem descarregar pela palavra suas infec&#231;&#245;es da alma. &#8220;Est&#227;o cheios de dedos para mulheres. Onde j&#225; se viu?! Parece meu sobrinho pequeno quando vai l&#225; em casa comer carreteiro. O moleque faz cara de nojo porque tem cebola, milho e ervilha no arroz. Demora dez minutos separando o joio do trigo para s&#243; a&#237; comer. E quando come, falta vontade, <em>falta amor!</em> &#201; isto, meu escritor e psicanalista favorito, <em>falta amor!</em> J&#225; falei pra minha irm&#227; que se ela n&#227;o o colocar na linha, ali adiante, estar&#225; beijando rapazes e achando que fumar &#233; feio e dar a bunda &#233; bonito.&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a></p><p><strong>9 </strong>Lembrou-se que fumava. &#8220;Posso?&#8221; Assenti. Acendeu o cigarro e sentou-se novamente mexendo a cabe&#231;a de um lado para o outro, em nega&#231;&#227;o. O tom silente durou uma tragada. &#8220;As mulheres tamb&#233;m n&#227;o ficam pra tr&#225;s. Assim como Pit&#225;goras descobriu seu teorema, descobri o meu: quanto mais uma mulher &#233; preocupada com sa&#250;de e corpo perfeito, mais fr&#237;gida ela &#233; no sexo e no amor. Ora, ser&#225; que &#233; t&#227;o dif&#237;cil perceber que a &#226;nsia por vida saud&#225;vel mata o desejo?!&#8221; Tentei contribuir: &#8220;Vai ver que &#233; porque elas ficam se olhando demais&#8230;&#8221; Empolgou-se: &#8220;Claro! De novo: falta amor! E l&#225; est&#227;o elas todas recauchutadas, siliconadas, com lipoaspira&#231;&#227;o at&#233; na batata da perna, com harmoniza&#231;&#227;o facial at&#233; por dentro dos olhos, mais musculosas que n&#243;s dois juntos&#8230; Na academia, a maioria treina sem suti&#227;. Acredita? Mas n&#227;o d&#227;o a concess&#227;o de um m&#237;sero olhar ou um m&#237;sero sorriso. Nada! Zero! &#201; fone no ouvido e foco no treino. Se cumprimentam, &#233; um &#8216;ol&#225;&#8217; de coveiro na chuva, ser&#237;ssimo.&#8221;</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!9hRt!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F36bf443f-4989-4630-ab28-8249d1d50a9a_736x535.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!9hRt!, /__u/guilhermeangra.substack.com/w_424, /__u/guilhermeangra.substack.com/c_limit, /__u/guilhermeangra.substack.com/f_webp, /__u/guilhermeangra.substack.com/q_auto:good, /__u/guilhermeangra.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F36bf443f-4989-4630-ab28-8249d1d50a9a_736x535.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!9hRt!, /__u/guilhermeangra.substack.com/w_848, 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hist&#243;ria&quot;,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="Imagem do Pin de hist&#243;ria" title="Imagem do Pin de hist&#243;ria" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!9hRt!, /__u/guilhermeangra.substack.com/w_424, /__u/guilhermeangra.substack.com/c_limit, /__u/guilhermeangra.substack.com/f_auto, /__u/guilhermeangra.substack.com/q_auto:good, /__u/guilhermeangra.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F36bf443f-4989-4630-ab28-8249d1d50a9a_736x535.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!9hRt!, /__u/guilhermeangra.substack.com/w_848, /__u/guilhermeangra.substack.com/c_limit, /__u/guilhermeangra.substack.com/f_auto, /__u/guilhermeangra.substack.com/q_auto:good, 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loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 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Estou sedento de amor&#8230;&#8221; O interrompi: &#8220;Por essa eu n&#227;o esperava.&#8221; &#8220;Nem eu, meu escritor favorito, nem eu. Mas eis a&#237; a minha mis&#233;ria de canalha: estou a morrer de fome. Tipos como eu est&#227;o entrando em extin&#231;&#227;o num mundo assexuado e mais seco do que a &#250;ltima mo&#231;a com quem me deitei.&#8221;</p><p><strong>11 </strong>Por alguns momentos, lembrei-me da vez em que sa&#237; com uma garota que dizia ter horror ao beijo porque havia o risco de pegar sapinho.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a> Naquele dia, passei fome. Queria tanto tocar naqueles l&#225;bios carnudos naturais de mulata, os quais pingavam desejo, mas eis que recebo um balde de &#225;gua fria logo no in&#237;cio do encontro. Aquela morena ter horror ao beijo era como uma Ad&#233;lia Prado ter horror &#224; palavra. Isso n&#227;o se faz. &#201; um desacato ao pr&#243;prio Deus do Universo.</p><p><strong>12 </strong>Por medo de pegar sapinho, n&#227;o se beija. Por medo da vida, n&#227;o se vive. Por medo do amor, n&#227;o se ama. &#8220;As empresas de lubrificante &#237;ntimo nunca lucraram tanto como agora. Ora, em terra de fr&#237;gidos quem tem um KY &#233; rei.&#8221; Passei a rir que n&#227;o me aguentava. De onde ele tirava tamanha genialidade? E continuou: &#8220;Meu caro, sou de uma &#233;poca em que as mo&#231;as ainda pingavam s&#243; com uma frase bem colocada. Agora n&#227;o adianta frases, olhares, toques, cheiros, l&#237;nguas&#8230; nada! E os homens n&#227;o passam muito longe. Creio que, se pudessem, passariam &#243;leo em si mesmos e se comeriam. Est&#227;o se olhando demais. Preocupados demais. Amor-pr&#243;prio demais. Tadalafila demais.&#8221; Apertei os l&#225;bios. &#8220;Sim! Voc&#234; n&#227;o sabia? Nunca tivemos tantos homens brochas e mulheres &#225;ridas como agora. Voc&#234; deve atender muitos aqui, n&#233;? Pois digo: se merecem! &#201; o casal tadala e KY.&#8221;</p><p><strong>13 </strong>Num misto tragic&#244;mico, tentei trazer uma esperan&#231;a: &#8220;Naldo, j&#225; tentou mudar de ambiente? Sei l&#225;. Igreja?&#8221; Riu cinicamente: &#8220;O mundo invadiu a igreja. As beatas est&#227;o cheias de Botox e secas como p&#227;o sem manteiga. Foi-se o tempo onde as fieis tremulavam de desejo proibido. Assim como levam a academia com uma seriedade de vel&#243;rio, tamb&#233;m levam a religi&#227;o, a pol&#237;tica, a alimenta&#231;&#227;o, as finan&#231;as etc. Est&#225; a&#237; o clima de enterro.&#8221; O provoquei: &#8220;Mas isso n&#227;o &#233; bom?&#8221; Apertou os olhos: &#8220;Bom pra quem? Anote o que vou lhe dizer: <em>as mulheres do futuro n&#227;o pingar&#227;o.</em>&#8221; O indaguei: &#8220;E os homens?&#8221;</p><p><strong>14 </strong>Foi-se encaminhando para a porta. Levantei da poltrona e fiz-lhe as honrarias necess&#225;rias. J&#225; na cal&#231;ada, sob a luz bruxuleante do poste, vira-se para mim e conclui: &#8220;Homens? N&#227;o teremos homens. Os poucos que sobrarem, como eu, ser&#227;o como vampiros num mundo que falta sangue quente.&#8221; Tentei: &#8220;E h&#225; esperan&#231;a?&#8221; J&#225; se indo embora pela rua, diz: &#8220;&#201; o que vou fazer agora: ver se a encontro numa mulher com nome de Irina. &#201; imposs&#237;vel algu&#233;m que se chama Irina ter Botox e ter nascido depois dos anos noventa. Fique bem, meu rom&#226;ntico favorito.&#8221; Enquanto ele sumia na penumbra da noite, eu sorria.</p><p><em><strong>Cr&#244;nica escrita por Guilherme Angra em mar&#231;o de 2026.</strong></em></p><p>Al&#233;m de escritor, sou terapeuta desde 2021. <a href="https://wa.link/pjuadu">CLIQUE AQUI</a> caso queira saber como funciona o meu trabalho no consult&#243;rio.</p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><div class="digest-post-embed" data-attrs="{&quot;nodeId&quot;:&quot;89fc3708-0db8-48b6-aefd-779b4034c6b1&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;1 Paro aqui de frente para a tela em branco do Word e, numa cara de pau absurda, encaro meu novo quadro de Nelson Rodrigues, que est&#225; a embelezar o meu escrit&#243;rio, e invejo aquele homem que est&#225; de frente para sua m&#225;quina de escrever. O invejo por saber que tirava sentido at&#233; das pedras e transformava qualquer ninharia em uma hist&#243;ria &#233;pica. Era um home&#8230;&quot;,&quot;cta&quot;:&quot;Read full story&quot;,&quot;showBylines&quot;:true,&quot;showDescription&quot;:true,&quot;showImage&quot;:true,&quot;size&quot;:&quot;lg&quot;,&quot;isEditorNode&quot;:true,&quot;title&quot;:&quot;65. Fumar &#233; feio e dar a bunda &#233; bonito!&quot;,&quot;publishedBylines&quot;:[{&quot;id&quot;:252877238,&quot;name&quot;:&quot;Guilherme Angra&quot;,&quot;bio&quot;:&quot;Psicoterapeuta e escritor. Atendo gente no consult&#243;rio e escrevo sobre a vida comum.&quot;,&quot;photo_url&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/a00247fd-1ebf-4a59-b4d7-1167ca581c8c_1080x1080.jpeg&quot;,&quot;is_guest&quot;:false,&quot;bestseller_tier&quot;:null}],&quot;post_date&quot;:&quot;2025-08-17T11:00:41.552Z&quot;,&quot;cover_image&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!8tfk!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5763d94b-d069-4f1a-b9b0-a7936ee9f648_735x981.jpeg&quot;,&quot;cover_image_alt&quot;:null,&quot;canonical_url&quot;:&quot;https://guilhermeangra.substack.com/p/65-fumar-e-feio-e-dar-a-bunda-e-bonito&quot;,&quot;section_name&quot;:null,&quot;video_upload_id&quot;:null,&quot;id&quot;:171049604,&quot;type&quot;:&quot;newsletter&quot;,&quot;reaction_count&quot;:26,&quot;comment_count&quot;:10,&quot;publication_id&quot;:2790353,&quot;publication_name&quot;:&quot;Mem&#243;rias e Confiss&#245;es&quot;,&quot;publication_logo_url&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!WhSr!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F819aab92-2d5f-45dd-851b-04f83e5d946d_1280x1280.png&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;youtube_url&quot;:null,&quot;show_links&quot;:null,&quot;feed_url&quot;:null}"></div><p></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><div class="digest-post-embed" data-attrs="{&quot;nodeId&quot;:&quot;d7b8fd8b-2827-44f7-98f3-dc58666b7573&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;1 Esta cena marcou-me para sempre: ainda pequeno, deparei-me com uma prostituta batendo &#224; porta do caminh&#227;o de meu pai. Assim que a encarei, a garota saiu correndo. Correu de vergonha, como uma Eva apressada buscando tapar seu sexo com uma folha de figueira. Eis ali o contraste fulminante: a pureza de uma crian&#231;a com a sujeira da prostituta. A mo&#231;a nunca imaginaria que quem abriria a porta do caminh&#227;o seria um menininho de uns 9 ou 10 anos. Lembro-me de seus olhos. Ah, sim, aqueles olhos negros, fundos, l&#250;gubres; e uma express&#227;o de desespero. Era nova. N&#227;o devia ter 20 anos e j&#225; adentrava em caminh&#245;es alheios por a&#237;, com estranhos, pulhas totais que, ao final, dariam uma gorjeta para que ela continuasse a sustentar algum v&#237;cio qu&#237;mico.&quot;,&quot;cta&quot;:&quot;Read full story&quot;,&quot;showBylines&quot;:true,&quot;showDescription&quot;:true,&quot;showImage&quot;:true,&quot;size&quot;:&quot;lg&quot;,&quot;isEditorNode&quot;:true,&quot;title&quot;:&quot;60. \&quot;Para ser feliz com uma mulher, basta n&#227;o am&#225;-la.\&quot;&quot;,&quot;publishedBylines&quot;:[{&quot;id&quot;:252877238,&quot;name&quot;:&quot;Guilherme Angra&quot;,&quot;bio&quot;:&quot;Psicoterapeuta e escritor. 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Chegou de kombi. Na verdade, foi deixada de kombi por uma amiga, segundo ela. Era uma morena com propor&#231;&#245;es avantajadas. N&#227;o chegava a ser gorda. Estava naquele &#237;nterim ideal entre a mulher normal e a quase obesa, que, sejamos sinceros, todo homem gosta. Talvez mais um m&#234;s pegado no carboidrato, ultrapassaria &#8230;&quot;,&quot;cta&quot;:&quot;Read full story&quot;,&quot;showBylines&quot;:true,&quot;showDescription&quot;:true,&quot;showImage&quot;:true,&quot;size&quot;:&quot;lg&quot;,&quot;isEditorNode&quot;:true,&quot;title&quot;:&quot;79. &#8220;Vai ficar tudo bem.&#8221;&quot;,&quot;publishedBylines&quot;:[{&quot;id&quot;:252877238,&quot;name&quot;:&quot;Guilherme Angra&quot;,&quot;bio&quot;:&quot;Psicoterapeuta e escritor. 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