<script data-pm-proxy="intercept"></script><?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Longe demais das capitais]]></title><description><![CDATA[Longe demais das capitais é o espaço onde publico crônicas sobre minha vida totalmente vivida em cidades do interior do Brasil. Não há nostalgia nem exaltação nem depreciação nisso. Só a vida como ela é (ops, acho que alguém já escreveu algo assim...)]]></description><link>https://guilhermeceolin.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!UiKL!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd4e368ee-db9f-47b1-812d-a62e69f79217_1024x1024.png</url><title>Longe demais das capitais</title><link>https://guilhermeceolin.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Wed, 02 Sep 2026 10:40:22 GMT</lastBuildDate><atom:link href="/__u/guilhermeceolin.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Guilherme Ceolin]]></copyright><language><![CDATA[pt]]></language><webMaster><![CDATA[guilhermeceolin@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[guilhermeceolin@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Guilherme Ceolin]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Guilherme Ceolin]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[guilhermeceolin@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[guilhermeceolin@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Guilherme Ceolin]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[Crônicas do Interior # 16 - Roommates]]></title><description><![CDATA[Aquela em que falo das pessoas com quem j&#225; morei]]></description><link>https://guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-16-roommates</link><guid isPermaLink="false">https://guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-16-roommates</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Ceolin]]></dc:creator><pubDate>Mon, 17 Aug 2026 19:05:09 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!wV12!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7b366e0e-14ae-4758-a951-a8c3dd7e78fe_1500x1000.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Terceira cr&#244;nica falando sobre os tempos em que era um universit&#225;rio, desta vez, contando algumas hist&#243;rias sobre as figuras peculiares, para dizer o m&#237;nimo, com quem j&#225; dividi moradia. As partes 1 e 2 encontram-se <a href="/__u/guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-14-faculdade">aqui</a> e <a href="/__u/guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-15-faculdade">aqui</a>.</p><p>E passemos para as hist&#243;rias, j&#225; logo de vereda para n&#227;o ficar de enrola&#231;&#227;o.</p><p>**********************</p><p>O primeiro personagem &#233; o <strong>Descansadinha</strong>, que morou comigo por um ano e meio.</p><p>Descansadinha era um pi&#225; estudioso, fazia duas faculdades e ainda arrumava espa&#231;o na agenda para ser bolsista de inicia&#231;&#227;o cient&#237;fica. Ou seja, n&#227;o tinha tempo para nada, pois quando n&#227;o estava na universidade, estava em casa estudando trancado no quarto. De modo que nunca saberei dizer se o fato de ele n&#227;o ter me incomodado durante o tempo em que dividimos moradia foi por ele ser gente boa mesmo ou por n&#227;o ter tempo nem para se co&#231;ar.</p><p>O apelido Descansadinha foi dado pelo outro rapaz que morava conosco, o das Artes C&#234;nicas que comentei <a href="/__u/guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-14-faculdade">aqui</a>. Por ter uma rotina insana de trabalho e estudo, a qualquer hora e em qualquer lugar que conseguisse, ele se escorava e cochilava (&#8220;tava s&#243; dando uma descansadinha&#8221;). Nunca me incomodei com isso, ele era uma pessoa realmente cansada, afinal, embora isso causasse certas situa&#231;&#245;es, no m&#237;nimo, curiosas.</p><p>Como daquela vez em que eu, achando que ele n&#227;o estava em casa, entrei no banheiro de manh&#227; para lavar o rosto e presenciei-o dormindo sentado no vaso (<em><a href="https://tenor.com/search/phoebe-my-eyes-gifs">my eyes, my eyes</a></em>). Ou como da outra vez em que Descansadinha dormiu em cima da mesa da cozinha e tive que, gentilmente, colocar as pernas dele para o lado para poder arrumar um espa&#231;o para tomar um caf&#233;.</p><p>Essas situa&#231;&#245;es e outras mais que n&#227;o havemos espa&#231;o para contar n&#227;o representam nada demais, sendo, na maior parte das vezes, hil&#225;rias. Perigoso mesmo foi um dia em que o Descansadinha chegou ali por umas 18h em casa e resolveu esquentar a comida, para jantar rapidinho e voltar para a universidade. Como todo mundo j&#225; deve ter deduzido, ele colocou a panela no fogo e sentou no sof&#225;, para dar uma &#8220;descansadinha&#8221;.</p><p>O camarada das artes c&#234;nicas (que cham&#225;vamos de &#8220;<strong>Homizinho</strong>&#8221; porque tinha n&#227;o muito mais de 1,60 m), por sorte, estava voltando para casa mais ou menos naquele hor&#225;rio (eu ia chegar s&#243; depois das 19h) e viu a fuma&#231;a saindo pela janela.</p><p>Ele me contou que de longe pensou &#8220;olha, o Descansadinha deve estar tomando um banho bem quente&#8221; (a janela do banheiro ficava ao lado da janela da cozinha). Todavia, conforme o Homizinho ia chegando mais perto, foi ficando claro que a fuma&#231;a vinha da cozinha. Ele acelerou o passo e quando abriu a porta, deu de cara com uma neblina fechada dentro de casa. Correu desligar o fogo, abriu todas as janelas e fez um gritedo. O Descansadinha acordou no susto e quase caiu desacordado novamente no sof&#225; quando se deu conta de que poderia ter botado fogo na casa e morrido tostado l&#225; dentro, igual os bifes que agora jaziam na panela, duros, torrados e escurecidos igual uma sola de sapato.</p><p>O Descansadinha, ap&#243;s esse fato, n&#227;o deixou de fazer tudo o que ele fazia, inclusive dormir em qualquer lugar, todavia, nunca mais chegou perto do fog&#227;o nem para esquentar &#225;gua. Assim ele sempre poderia dormir tranq&#252;ilo e n&#243;s tamb&#233;m.</p><p>********************************</p><p>O segundo personagem &#233; o <strong>Cachopa</strong>, que foi morar comigo e com o Descansadinha quando o Homizinho se formou e foi embora. Ele tocava guitarra em uma banda de punk e hard core. O som era ruim que do&#237;a, mas depois de umas tr&#234;s ou quatro cervejas, dava at&#233; para encarar e pogar junto.</p><p>O cabelo daquele homem lembrava o do Slash (s&#243; o cabelo, porque a t&#233;cnica na guitarra...) e era o xod&#243; dele. Ele ficava um temp&#227;o no banho cuidando das madeixas (quero pensar que era s&#243; a cabe&#231;a que pensa que ele ficava alisando durante todo o tempo do banho, mas divago....), tanto que &#224;s vezes t&#237;nhamos que bater na porta e avisar que tinha mais gente naquela casa querendo usar o banheiro.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!wV12!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7b366e0e-14ae-4758-a951-a8c3dd7e78fe_1500x1000.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!wV12!, /__u/guilhermeceolin.substack.com/w_424, /__u/guilhermeceolin.substack.com/c_limit, /__u/guilhermeceolin.substack.com/f_webp, /__u/guilhermeceolin.substack.com/q_auto:good, 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Obviamente, logo nos voltamos para o Cachopa e dissemos que ele tinha a obriga&#231;&#227;o de recolher o cabelo do ch&#227;o ap&#243;s o banho. Ele concordou e o ralo melhorou, embora nunca mais tenha voltado a ser o que era.</p><p>Cansado de falar e tentando evitar um clim&#227;o dentro de casa, aproveitei um s&#225;bado em que estaria sozinho no apartamento para limpar o ralo do banheiro e dar um jeito naquele problema. Fui ao mercado no dia anterior e comprei um pacote de luvas grossas e que chegassem at&#233; o meio do antebra&#231;o, porque n&#227;o iria encarar aquele buraco de tatu com as m&#227;os nuas.</p><p>Acordei bem cedo naquele dia e me atraquei na faxina. Tirei o ralo e com aux&#237;lio de um graveto e um arame torcido, comecei a pescar o que jazia naquela toca infecta. Eu tirava os chuma&#231;os e colocava em uma folha de jornal do lado do ralo.</p><p>T&#227;o concentrado estava que n&#227;o me dei conta de que, quando terminei, a montanha de cabelo e outras <em>cositas m&#225;s</em> j&#225; tinha quase um palmo de altura. Por alguns minutos eu pensei que aquele monte iria criar perna e sair correndo atr&#225;s de mim, confirmando o fen&#244;meno da abiog&#234;nese. Era uma leg&#237;tima <em>action figure</em> do Primo Itt.</p><p>Na segunda-feira, tive uma conversa bem s&#233;ria com o Cachopa, falei que era para ele redobrar o cuidado com os cabelos no ch&#227;o do banheiro, ou eu faria ele limpar o ralo, enfatizando o aspecto do que eu tinha tirado de dentro dele. Ele se esfor&#231;ou e n&#227;o fiquei sabendo de que aquele problema houvesse se repetido no futuro, uma vez que n&#227;o muitos meses depois, eu tamb&#233;m acabei me mudando.</p><p>*****************************</p><p>A pr&#243;xima figura &#233; o <strong>Bombacha</strong>. Para quem n&#227;o sabe, bombacha &#233; aquela cal&#231;a larga que faz parte da pilcha, a vestimenta t&#237;pica gauchesca, considerada, inclusive, vestimenta formal por lei estadual do Rio Grande do Sul, da mesma forma que uma cal&#231;a social, embora seja mais usada em contextos espec&#237;ficos, como em CTGs e nas Festividades de Semana Farroupilha (<em>bombacha</em> &#233;, na Argentina e no Uruguai, tamb&#233;m um termo para designar a roupa &#237;ntima feminina, ou seja, calcinha, mas igualmente, divago). Ocorre que algumas pessoas s&#243; andam com isso no corpo, seja por tradi&#231;&#227;o ou para querer se aparecer mesmo, o que suspeito que era o caso do nosso personagem da vez.</p><p>Ele era estudante de Zootecnia e vinha de uma cidade da fronteira com o Uruguai. Segundo me contaram alguns conterr&#226;neos dele, enquanto estudante de Ensino M&#233;dio ele andava normalmente de jeans e camiseta, igual qualquer adolescente de seu tempo.</p><p>Todavia, chegando na faculdade, incorporou o esp&#237;rito gaud&#233;rio de tal sorte que n&#227;o raro esquecia de levar os cadernos para a aula, mas nunca a mateira com sua erva-mate uruguaia feita com pura folha (chamada de Bate-cinta, uma vez que era tomar uma cuia e correr para o banheiro desfivelando, bem, a cinta o mais r&#225;pido poss&#237;vel). Fazia quest&#227;o de falar somente usando as palavras mais abagualadas poss&#237;veis e um sotaque mais for&#231;ado que parafuso em concreto.</p><p>N&#227;o raro, ele ia para a faculdade de chap&#233;u e com uma faca na guaiaca (cinto de couro), o que o coordenador do curso teve que pedir para ele, gentilmente, que n&#227;o o fizesse, pois portar arma branca ia contra as regras da universidade.</p><p>Fora isso, era um cara excelente, uma das melhores pessoas com as quais j&#225; dividi aluguel. N&#227;o incomodava nada, sempre pagava em dia a parte dele e topava qualquer parada que suger&#237;ssemos.</p><p>Al&#233;m de tudo, era uma pessoa sens&#237;vel e rom&#226;ntica. Ele tinha se enamorado por uma colega dele e a estava cortejando fazia um temp&#227;o. Ela correspondia at&#233;, mas testou a paci&#234;ncia dele por um longo per&#237;odo, resistindo aos flertes dele e n&#227;o abrindo possibilidade de maiores contatos. Ele vinha conversar comigo e me pedir conselhos para finalmente conquistar a &#8220;prenda de seus sonhos&#8221;. Logo para mim, que era o maior zero &#224; esquerda e &#8220;pega ningu&#233;m&#8221; da universidade naquela &#233;poca. Mas, enfim, troc&#225;vamos ideias e expectativas de qualquer forma.</p><p>At&#233; que, em uma madrugada de sexta para s&#225;bado, estava eu no sof&#225; da sala, como de costume, lendo. Pois &#233;, ao inv&#233;s de sair para a balada tentar ver se arrumava minha metade da laranja, meu #sextou preferido era passar a madrugada na companhia de grossos volumes (l&#225; ele!), n&#227;o &#224; toa n&#227;o ficava com ningu&#233;m, mas divago novamente (pela terceira vez....). Estava concentrado na leitura quando comecei a ouvir algu&#233;m tentando abrir a porta da cozinha (o ap&#234; tinha duas portas, uma principal e uma lateral). Nitidamente se ouvia que algu&#233;m pegava uma chave, introduzia na fechadura, for&#231;adamente tentava gir&#225;-la para abrir a porta, fracassava e trocava de chave. Isso entremeado com alguns palavr&#245;es em voz baixa e ru&#237;dos diversos.</p><p>Algo dentro de mim dizia que n&#227;o era ladr&#227;o, que era s&#243; o Bombacha b&#234;bado errando a chave daquela porta reiteradamente. Mas, por via das d&#250;vidas, fechei o livro, levantei meu bumbum do assento, peguei o fac&#227;o debaixo do sof&#225; e fui conferir. Cheguei na porta e perguntei quem era. &#8220;&#201; o Bombacha, n&#227;o estou conseguindo abrir a porta&#8221;. A voz enrolada confirmou o que eu j&#225; suspeitava: b&#234;bado se atrapalhando com as chaves tanto quanto com as palavras e as pr&#243;prias pernas.</p><p>Abri a porta por dentro e deixei-o entrar. A primeira coisa que chamou a aten&#231;&#227;o foi o cheiro. Meu Deus! Se tivesse alguma chama acesa, por menor que fosse, tinha explodido a casa, tamanho era o vapor de &#225;lcool que exalava por todos os poros daquele corpo. Talvez n&#227;o tenha havido combust&#227;o espont&#226;nea do contato daquele combust&#237;vel todo com o oxig&#234;nio porque a quantia de suor anulava a possibilidade de igni&#231;&#227;o.</p><p>Apesar do aspecto lament&#225;vel, ele estava com um sorriso no rosto que entregava tudo: objetivo alcan&#231;ado. A colega dele finalmente tinha se convencido das boas inten&#231;&#245;es do Bombacha e o amor se consolidou naquela noite. Ele tentou me contar, mas n&#227;o foi poss&#237;vel entender muita coisa, tamanha era a incapacidade verbal do sujeito, uma mistura de estado et&#237;lico com empolga&#231;&#227;o que deixava a l&#237;ngua mais torcida que rabo de porco. Falei para ele descansar e me contar tudo no dia seguinte.</p><p>No s&#225;bado, l&#225; pelo meio da tarde, quando Bombacha finalmente melhorou da ressaca, sentamos para tomar um mate e conversar. De fato, a noite tinha rendido e ele n&#227;o era mais um homem solteiro. Agora tinha obriga&#231;&#245;es conjugais, pelo menos at&#233; n&#227;o ter mais.</p><p>Conversa vai, conversa vem, descobri que ele havia estragado a chave da porta lateral por pura idiotice. Explico: a festa da Zootecnia onde deu o <em>match</em> dos pombinhos estava acontecendo em um clube h&#225; umas oito quadras de onde mor&#225;vamos, de modo que era relativamente perto, dando para ir e voltar a p&#233; tranquilamente.</p><p>De t&#227;o empolgado que o homem estava, veio quase correndo para casa (da&#237; o suador) e, para compensar a falta de equil&#237;brio que a <em>marvada</em> tinha causado, de tempos em tempos ele arrastava uma das m&#227;os nas paredes e muros que encontrava pelo caminho. O detalhe &#233; que ele tinha prendido o molho de chaves em um dos dedos por uma das argolas, de medo de cair de b&#234;bado e as chaves escorregarem para fora do bolso. <em>Borracho, pero sin perder la responsabilidad jam&#225;s.</em></p><p>Chegamos &#224; conclus&#227;o que o atrito desgastou um dos dentinhos da chave da porta da cozinha, fazendo-a enroscar no miolo da fechadura e impedindo sua abertura. Sim, continuava sendo um borracho respons&#225;vel, mas ainda assim meio tanso. Poderia ter colocado a chave presa por uma cordinha num dos passadores da bombacha ou em um dos bolsos fechados da guaiaca, j&#225; que nunca tirava aquelas vestimentas, afinal. </p><p>Enfim, no final tudo deu certo, a &#250;nica consequ&#234;ncia foi ele ter de fazer uma c&#243;pia nova daquela chave, porque, realmente, um dos dentinhos da ponta estava todo deformado e gasto.</p><p>E o namoro? At&#233; onde pude apurar persistiu. N&#227;o sei quanto tempo durou ou se ainda est&#227;o juntos, pois logo em seguida foi a vez do Bombacha se mudar. Desde ent&#227;o, n&#227;o tive mais not&#237;cias. De qualquer forma, tanto eu quanto ele aprendemos que n&#227;o se deve usar a chave da casa para nada al&#233;m de abrir a porta.</p><p>At&#233; a pr&#243;xima, pessoal!</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Crônicas do Interior #15 – Faculdade- parte II]]></title><description><![CDATA[Aquela em que conto mais fatos sobre a vida universit&#225;ria]]></description><link>https://guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-15-faculdade</link><guid isPermaLink="false">https://guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-15-faculdade</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Ceolin]]></dc:creator><pubDate>Wed, 22 Jul 2026 18:58:02 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!83LV!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2c16d1db-4c6f-47c6-961b-756e33cc805f_768x398.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>A primeira parte est&#225; <a href="/__u/guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-14-faculdade">aqui</a>.</p><p>Fiz faculdade em uma cidade no interior do Rio Grande do Sul que fica situada em uma regi&#227;o fisiogr&#225;fica deste Estado chamada Depress&#227;o Central. O primeiro significado do nome desta regi&#227;o tem a ver com o fato de ser uma plan&#237;cie de rio, em contraste, por exemplo, &#224;s regi&#245;es plan&#225;lticas do norte do RS. Todavia, h&#225; outra conota&#231;&#227;o na palavra &#8220;depress&#227;o&#8221;, que tem a ver com o fato de a cidade, por si, ser um personagem. Da mesma forma que Gotham City, com seu aspecto sombrio e atmosfera carregada, molda o comportamento do Batman e de seus vil&#245;es, esta cidade universit&#225;ria no cora&#231;&#227;o do Rio Grande molda o comportamento de seus habitantes, especialmente de quem vai para l&#225; estudar. Mas o que tem de t&#227;o sinistro nesse lugar?</p><p>De sinistro, nada. &#201; um lugar bastante agrad&#225;vel at&#233; e muitas das minhas melhores lembran&#231;as v&#234;m deste tempo. Todavia, ningu&#233;m que tenha morado tempo suficiente ali sai do mesmo jeito que entrou. A palavra certa para descrever esta cidade &#233; &#8220;contraste&#8221;. A come&#231;ar pelo clima. Por estar situada ao p&#233; de uma cadeia de morros, no final da Serra Geral, as esta&#231;&#245;es s&#227;o muito bem marcadas. &#192;s vezes dentro do mesmo dia.</p><p>Em mar&#231;o, quando iniciam as aulas, o clima &#233; escaldante. Tranquilamente passa dos 40 &#186;C, se n&#227;o a temperatura marcada no term&#244;metro, a sensa&#231;&#227;o t&#233;rmica. No local onde eu morava, o predinho que comentei na <a href="/__u/guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-14-faculdade">edi&#231;&#227;o passada</a>, n&#227;o t&#237;nhamos ar condicionado, por motivos de &#8220;estudantes universit&#225;rios&#8221;. Da&#237; precis&#225;vamos nos virar com ventilador e o que mais tivesse ao alcance, inclusive dormir com a janela aberta para ver se entrava um ar fresco durante a madrugada.</p><p>Da&#237;, vinha o segundo problema: os mosquitos. Como eram muitos, atacavam em gangue e o aparelho tradicional de colocar na tomada n&#227;o resolvia, tive que apelar: pedi para minha m&#227;e reabilitar o mosquiteiro que usava quando era pequeno. Uma beleza! Podia tranquilamente dormir com a janela aberta e n&#227;o tomar nenhuma picada. Exceto quando algum p&#233; ou m&#227;o chegava muito perto da borda do mosquiteiro. Mas isso era pouco frente ao refresco proporcionado pelo ventilador + o ar fresco da madrugada.</p><p>E, a partir de abril, come&#231;a a se tornar comum um fen&#244;meno muito peculiar da regi&#227;o: o vento norte. Este vento &#233; a maior ilus&#227;o que a cidade proporciona: est&#225; um dia horrivelmente quente, voc&#234; est&#225; na sala assistindo televis&#227;o, com o ventilador quase enfiado no.... rosto e janela fechada para n&#227;o entrar mosquitos. Da&#237;, de repente, escuta um sopro de ar forte apitando nos cantos do pr&#233;dio e pensa: &#8220;que beleza, um ventinho, vou abrir um pouco a casa para refrescar o ambiente&#8221;. Voc&#234; vai todo empolgado, coloca a m&#227;o no trinco e abre a janela na maior anima&#231;&#227;o, colocando o rosto para fora esperando receber um sopro de al&#237;vio. E o que bate nas suas bochechas &#233; um vento de uns 70 graus de temperatura mais ou menos, que n&#227;o s&#243; n&#227;o refresca, como piora tudo.</p><p>O ditado popular que circula na regi&#227;o, e que aprendemos na pr&#225;tica, &#233; que depois de tr&#234;s dias de vento norte, v&#234;m a chuva. Mas at&#233; l&#225;, as pessoas ficam bem transtornadas por causa dele: penteados se desmancham, roupas voam do varal, cachorros passam a uivar descontroladamente, portas batem, constru&#231;&#245;es assoviam e varrer o quintal se torna um esfor&#231;o in&#250;til. Ele &#233; t&#227;o marcante para o imagin&#225;rio da regi&#227;o que at&#233; <a href="https://www.ufsm.br/midias/arco/pesquisadores-da-ufsm-investigam-o-fenomeno-do-vento-norte-em-santa-maria">artigo cient&#237;fico</a> j&#225; rendeu.</p><p>Por ser um vento &#250;mido e quente, junto dele vem as manh&#227;s cheias de neblina e os dias de umidade extrema, daquelas em que a roupa n&#227;o seca, as paredes n&#227;o param de pingar e o ch&#227;o est&#225; sempre nojento. E isso acaba, invariavelmente, se refletindo no humor e na personalidade de certas pessoas, sen&#227;o como explicar outro fen&#244;meno t&#237;pico deste lugar, a emp&#225;fia dos estudantes de medicina?</p><p>Obviamente que n&#227;o podemos generalizar, mas se voc&#234; vir algu&#233;m de nariz empinado e se achando melhor que todo mundo, pode apostar em estudante de medicina que a chance &#233; bem alta de acertar. &#201; aquele velho ad&#225;gio, &#8220;nem todo(a), mas sempre um(a)&#8221;. Das poucas vezes em que tive algum contato mais pr&#243;ximo com o pessoal da medicina, posso dizer que tive sorte, pois foram intera&#231;&#245;es bacanas, inclusive quase namorei uma estudante do curso. Todavia, das vezes em que tive embates, foram no m&#237;nimo engra&#231;ados.</p><p>Uma destas vezes foi com o rapaz que morava com um colega meu de faculdade. Est&#225;vamos na casa deste colega, em uma sexta-feira &#224; noite, fazendo hora para sairmos para o agito. N&#227;o sei por que cargas d&#8217;&#225;gua chamei um terceiro colega que estava conosco de &#8220;mancebo&#8221;. Ele n&#227;o sabia o que significava a palavra e perguntou. Antes que eu pudesse explicar, o estudante de medicina, metido a sabich&#227;o, interpelou a conversa e com o ar mais douto poss&#237;vel, disse: &#8220;mancebos s&#227;o aquelas p&#237;lulas de farinha que se d&#227;o para paciente em testes cl&#237;nico de medicamentos&#8221;.</p><p>Eu olhei para o &#8220;mediciner&#8221; (que diga-se de passagem tinha o apelido de &#8220;Pudim&#8221;, n&#227;o por ser gostoso, mas por ter um car&#225;ter, digamos, da mesma textura da sobremesa que lhe emprestava a alcunha) e falei, com ar mais douto ainda: &#8220;isso que voc&#234; falou se chama placebo. Mancebo &#233; sin&#244;nimo de rapaz. Olha no dicion&#225;rio se estiver em d&#250;vida&#8221;. Era uma &#233;poca pr&#233; smartphone, ainda mand&#225;vamos as pessoas pesquisarem em dicion&#225;rios de papel. Pudim fechou a cara, foi para o quarto e ficou semanas mal me cumprimentando. Nunca mais tocamos no assunto, mas sempre que eu estava perto, ele evitava falar muito.</p><p>Outro fato envolvendo a turma do jaleco branco se deu no meu apartamento, no dia em que chamei um pessoal para confraternizar em um s&#225;bado de tarde. Uma das minhas colegas de faculdade perguntou se podia levar o namorado, um &#8220;mediciner&#8221;. Falei que sim, o cara era at&#233; gente boa, ainda que espa&#231;oso e sem no&#231;&#227;o. A menina carinhosamente chamava ele de &#8220;Pantufa&#8221;, n&#227;o me perguntem o porqu&#234;, nunca tive certeza, s&#243; suspeitas. Nestas alturas, eu j&#225; tinha aprendido a me planejar na cozinha e estava preparando um lanche para a galera. </p><p>Pois bem, a cozinha do apartamento era separada da sala somente por um balc&#227;o, de modo que, enquanto preparava a comida, eu poderia conversar e interagir com a galera tomando uns goles na sala.<span> </span>Sem demora, o casal chegou: minha colega e o Pantufa. </p><p>Pantufa, como era de praxe, chegou zoando com todos e mexendo em tudo, inclusive no r&#225;dio, que era meu. N&#227;o tenho o menor problema de emprestar minhas coisas, n&#227;o sou o tipo de pessoa que tem ci&#250;me do r&#225;dio, dos livros, dos CDs (na &#233;poca n&#227;o tinha MP3, nem Spotify, muito menos Alexa). A &#250;nica &#8220;exig&#234;ncia&#8221;, por assim dizer, era pedir permiss&#227;o, o que &#233; algo sensato, de bom senso. Mas, Pantufa n&#227;o era uma pessoa comum. N&#227;o, n&#227;o, n&#227;o, n&#227;o! Pantufa era da turma do &#8220;jaleco branco&#8221;. </p><p>N&#227;o s&#243; ele n&#227;o se contentou em fu&#231;ar no r&#225;dio e mexer nos CDs. Ele tamb&#233;m resolveu dar opini&#227;o sobre o som que estava rolando. A regra &#233; clara: minha casa, minha comida; meu r&#225;dio, meu gosto musical. Tolerei o m&#225;ximo que pude essa invas&#227;o de privacidade, pois n&#227;o estava afim de arrumar encrenca. Mas o caldo entornou quando ele resolveu fazer um coment&#225;rio &#8220;engra&#231;aralho&#8221; sobre a m&#250;sica do Bon Jovi que estava tocando no r&#225;dio, cujo CD era meu.</p><p>Eu parei o que estava fazendo, sa&#237; da cozinha com cara de louco, faca na m&#227;o e perguntei: &#8220;quem te deu permiss&#227;o para mexer nos meus CDs?&#8221;Ele largou na hora o CD e foi sentar num cantinho, sem dizer nada. Todo mundo riu e eu voltei para a cozinha. Ningu&#233;m mexe com o Bon Jovi!</p><p>Pantufa j&#225; havia aprontado anteriormente, fiquei sabendo depois. Ele estava em uma festa da veterin&#225;ria e come&#231;ou a se vangloriar que era o maior ginete que a universidade j&#225; tinha visto, que fora criado na fronteira ga&#250;cha e que qualquer cavalo se amansava na m&#227;o dele e coisa e tal. Pois bem, algu&#233;m com muito sangue nos olhos e disposi&#231;&#227;o para testar a alega&#231;&#227;o do fanfarr&#227;o arrumou um cavalo, encilhado e tudo. Amarrou o animal em um toco no ch&#227;o e falou para o Pantufa: &#8220;Monta a&#237;, mostra tuas habilidade para n&#243;s&#8221;. O Pantufa foi todo metido a galo de briga, peito estufado, cara de &#8220;sou fodonis&#8221; e tal.</p><p>Desamarrou o cavalo, ajeitou a r&#233;dea e se preparou para montar. Mal ele colocou o p&#233; no estribo o cavalo come&#231;ou a andar em c&#237;rculo, n&#227;o permitindo ao &#8220;bravo cavaleiro&#8221; al&#231;ar a outra perna e terminar o movimento. Eu n&#227;o vi, mas imaginei a cena: o cavalo girando sobre o pr&#243;prio eixo e o Pantufa pulando igual um saci para n&#227;o cair, com um p&#233; no ch&#227;o e outro no estribo, com toda a festa desatando de tanto rir do infort&#250;nio daquele leg&#237;timo &#8220;centauro dos Pampas&#8221;.</p><p>Pantufa, sentindo seu orgulho ferido, mas n&#227;o disposto a dar o bra&#231;o a torcer, parou o cavalo, tirou o p&#233; do estribo e declarou, cheio de si: &#8220;n&#227;o posso montar este animal porque estou de cal&#231;a jeans e camisa social. Eu tenho meu sistema: s&#243; monto pilchado, de bota, bombacha e len&#231;o no pesco&#231;o&#8221;. Obviamente que o povo riu mais ainda. Pelo que consta, ele foi embora poucos minutos depois e nunca mais participou de nenhuma festa da veterin&#225;ria.</p><p>&#192; emp&#225;fia dos &#8220;mediciners&#8221; junta-se a das &#8220;marias jalecos&#8221;, ou seja, as damas que s&#243; querem se relacionar com estes estudantes. A coisa era t&#227;o assustadora que aos &#8220;nobres cavaleiros do jaleco branco&#8221; bastava dizer &#8220;oi, meu nome &#233; medicina&#8221;e mais nada. Algu&#233;m iria querer. As &#8220;marias jalecos&#8221; perpassavam diversos cursos, inclusive o meu. E n&#243;s sab&#237;amos quem era, de modo que nas festas, nem adiantava tentar manter um di&#225;logo ou sustentar um flerte. Como n&#227;o &#233;ramos &#8220;mediciners&#8221;, n&#227;o ter&#237;amos a menor chance de amar. Mas a vida &#233; uma caixinha de surpresa e &#224;s vezes o jogo vira.</p><p>Uma veterana minha do curso era t&#227;o &#8220;maria jaleco&#8221; que para algu&#233;m ser digno de receber um &#8220;bom dia&#8221; dela tinha que ser ou da medicina ou ir para a universidade de carro. Como eu n&#227;o me encaixava em nenhuma das alternativas, a &#250;nica coisa que recebi dela foi o olhar de desprezo e nojo. Sem exagero, ela olhava para a galera com olhar de superioridade e para mim com vis&#237;vel asco, pois a minha pele nesta &#233;poca ainda era muito marcada pela acne. Como nunca fui de dar muito bola para essas coisas, s&#243; ignorava e seguia a vida.</p><p>&#192; boca pequena, chamavam-na de Maria Joaquina, por motivos &#243;bvios. O tempo passou e passou, todo mundo terminou a faculdade, cada um seguiu seu caminho e nunca mais ficamos sabendo que fim levou a Maria Joaquina. Pois bem, n&#227;o muito tempo depois de eu assumir uma vaga como professor efetivo da mesma universidade que freq&#252;entei, fui convidado para palestrar na semana acad&#234;mica de uma universidade particular em outra cidade. Ganharia di&#225;rias para custear passagem, hotel e <em>vouchers</em> para alimenta&#231;&#227;o. Esses <em>vouchers</em> permitiam levar uma pessoa a mais como acompanhante, para abrir possibilidade de que palestrantes pudessem levar c&#244;njuges. Como minha estadia n&#227;o ultrapassaria dois dias, fui sozinho, de modo que sobrariam <em>vouchers</em>, os quais, se n&#227;o usados, perderiam a validade assim que o evento terminasse.</p><p></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!83LV!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2c16d1db-4c6f-47c6-961b-756e33cc805f_768x398.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!83LV!, /__u/guilhermeceolin.substack.com/w_424, /__u/guilhermeceolin.substack.com/c_limit, /__u/guilhermeceolin.substack.com/f_webp, /__u/guilhermeceolin.substack.com/q_auto:good, 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Tratei-a com toda cordialidade e respeito, embora estivesse come&#231;ando a me sentir um pouco desconfort&#225;vel, pois todo mundo j&#225; tinha ido e ela insistia em puxar assuntos aleat&#243;rios enquanto eu arrumava minhas coisas para sair. Vendo que eu n&#227;o a havia reconhecido logo de cara, ela se apresentou. Tive que fazer um esfor&#231;o gigantesco para n&#227;o dizer em voz alta: &#8220;Maria Joaquina, voc&#234; por aqui!&#8221;</p><p>O nome verdadeiro eu n&#227;o irei revelar (v&#225; que ela leia o Substack, vai saber?), ent&#227;o vou continuar chamando-a por Maria Joaquina. Pois bem, ap&#243;s as apresenta&#231;&#245;es feitas e aquele <em>small talk</em> cl&#225;ssico (&#8220;como voc&#234; est&#225;?&#8221; &#8220;o que est&#225; fazendo?&#8221; etc.), consegui ler nas entrelinhas que ela estava querendo que eu a levasse para almo&#231;ar.</p><p>Fiquei sabendo depois que ela descobriu que eu tinha ido sozinho ao evento e que meus <em>vouchers</em> davam direito a acompanhante em um restaurante muito bom da cidade. A Maria Joaquina, toda pomposa e elegante, estava, literalmente, mendigando um prato de comida, pois estava na pior! Como nunca guardei m&#225;goa nenhuma do jeito que ela me tratava no passado, na verdade eu at&#233; achava engra&#231;ado, a convidei para almo&#231;ar, de boa, da maneira mais gentil poss&#237;vel. Nunca vi um olho brilhar tanto. Ela ficou realmente feliz com isso e agradecida, sem perder a pose, obviamente.</p><p>Eu sugeri chamar um Uber ou t&#225;xi, j&#225; que tinha ido de &#244;nibus. Ela falou que tinha um carro e poder&#237;amos ir com ela. O carro al&#233;m de ser visivelmente de segunda m&#227;o, n&#227;o devia estar com a manuten&#231;&#227;o em dia, j&#225; que a bateria estava fraca e demorou para pegar (achei que teria que descer e empurrar). Notei tamb&#233;m que os tons das cores em algumas partes estavam diferentes, evid&#234;ncia de que tinha ido ao chapeador n&#227;o muito tempo antes. Ela se desculpou pelo inconveniente e disse que tinha capotado o carro h&#225; pouco mais de um m&#234;s e que ele ainda n&#227;o estava 100%, tinha algumas &#8220;falhas&#8221; para resolver.</p><p>O caminho at&#233; o restaurante n&#227;o era longo, de modo que o carro n&#227;o rateou mais nem deu tempo de trocarmos muitas ideias. Chegando ao restaurante, meus vouchers davam direito a buf&#234; livre e uma bebida, desde que n&#227;o fosse alco&#243;lica. A mo&#231;a comeu como se n&#227;o houvesse amanh&#227;! Encheu um prato da primeira vez que se serviu e voltou ao buf&#234; para &#8220;repetir aquilo havia gostado mais&#8221;. Maria Joaquina estava faminta!</p><p>Ela me contou durante o almo&#231;o que havia casado com um m&#233;dico, que o cara era escroto com ela (ela o acusou de lidar com &#8220;farinha&#8221;, se &#233; que voc&#234;s me entendem), que tinham se separado, ela com um filho de pouco mais de dois anos, o qual ficava com os pais dela, que o ex-marido pagava a faculdade dela (por isso ela estava na semana acad&#234;mica que eu participei, era aluna da faculdade, estava fazendo um segundo curso), mas que o restante das despesas dela eram uma negocia&#231;&#227;o para conseguir. Enfim, ouvindo aquela sequ&#234;ncia de infort&#250;nios, compreendi de onde vinha a gana dela em conseguir que eu a levasse para almo&#231;ar, j&#225; que, deduzi, nem sempre ela tinha dinheiro para fazer uma refei&#231;&#227;o decente durante o per&#237;odo de aulas na faculdade.</p><p>Longe de ter algum ressentimento pela maneira como ela me tratava na &#233;poca em que &#233;ramos estudantes, eu senti foi pena! Doei para ela os <em>vouchers</em> restantes que eu tinha. Como n&#227;o era nominal, ela poderia jantar naquele dia e ainda almo&#231;ar e jantar no dia seguinte. Ela at&#233; resistiu um pouco, falou que n&#227;o precisava, mas eu disse que como eu iria voltar para minha cidade no final daquela tarde, eles perderiam a validade sem serem usados. Novamente, vi aquele brilho indescrit&#237;vel no olhar dela.</p><p>Ela perguntou o que eu iria fazer de tarde. Falei que iria voltar para a universidade, assistir algumas palestras e depois iria passar no hotel, pegar minha mala e ir de volta para casa. Ela disse que iria voltar para o evento tamb&#233;m e que poder&#237;amos ir no carro dela de novo. No caminho, Maria Joaquina veio com umas conversas estranhas, falou um monte de como o filho dela era querido, era bonzinho, n&#227;o dava trabalho nenhum, que tudo que ela gostaria era de encontrar um homem t&#227;o bom quanto eu era, etc. Fiquei s&#243; ouvindo, respondendo com monoss&#237;labos e pensando: &#8220;ser&#225; que ela est&#225; querendo alguma coisa comigo?&#8221; Nunca irei saber, pois t&#227;o logo chegamos ao nosso destino, agradeci a carona, dei um abra&#231;o respeitoso nela, desejei sorte e segui meu caminho.</p><p>N&#227;o sei o que fim levou a Maria Joaquina, nunca mais a vi nem me interessei em procur&#225;-la nas internets para saber se est&#225; bem ou n&#227;o. O &#250;nico sentimento que tenho &#233; o da consci&#234;ncia tranq&#252;ila, pois ajudei uma pessoa em dificuldades, mesmo n&#227;o ganhando nada em troca.</p><p>Na parte III desta saga universit&#225;ria, contarei um pouco sobre as idiossincrasias de algumas pessoas com as quais tive a (in)felicidade de conviver, tanto como &#8220;room-mate&#8221; (nome chique para &#8220;o pi&#225; que dividia ap&#234; comigo&#8221;) quanto como colega.</p><p>At&#233; a pr&#243;xima!</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Crônicas do Interior - Edição Especial_Futebol]]></title><description><![CDATA[Copa do Mundo - parte II]]></description><link>https://guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-edicao-especial_futebol-6f5</link><guid isPermaLink="false">https://guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-edicao-especial_futebol-6f5</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Ceolin]]></dc:creator><pubDate>Tue, 02 Jun 2026 16:23:36 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!UiKL!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd4e368ee-db9f-47b1-812d-a62e69f79217_1024x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Parte I est&#225; <a href="/__u/substack.com/home/post/p-199603483">aqui</a>.</p><p>O segundo jogo da Sele&#231;&#227;o Brasileira era contra a equipe de Camar&#245;es, pa&#237;s que j&#225; havia disputado a Copa de 1990, mas como eu n&#227;o tinha prestado aten&#231;&#227;o naquela ocasi&#227;o, n&#227;o sabia nem onde ficava. Tive que consultar um atlas geogr&#225;fico que t&#237;nhamos em casa (pois &#233;, n&#227;o tinha Google, era tudo no papelzinho) para saber n&#227;o s&#243; a localiza&#231;&#227;o como demais dados do pa&#237;s.</p><p>Essa partida ocorreu no dia 24 de junho, dia de S&#227;o Jo&#227;o, n&#227;o s&#243; no mesmo est&#225;dio do jogo contra a R&#250;ssia, na Calif&#243;rnia, como no mesmo hor&#225;rio, 17h (hor&#225;rio de Bras&#237;lia). Da&#237;, repetiu-se o ritual: aulas com per&#237;odos reduzidos para terminar &#224;s 16:30h e dar tempo do povo ir para casa, estourar a pipoca e acompanhar a Sele&#231;&#227;o. Desta vez, o clima j&#225; estava mais tranq&#252;ilo. O Brasil j&#225; havia mostrado que tinha um time competitivo, que se n&#227;o empolgava com um show de dribles e lances bonitos, era muito eficiente tanto na defesa quanto no ataque. E tinha a dupla Bebeto e Rom&#225;rio, que funcionava perfeitamente dentro da &#225;rea.</p><p>Desta vez tamb&#233;m n&#227;o tinha crian&#231;a encrenqueira na minha casa para tumultuar o pr&#233;-jogo e da&#237;, pelo acordo que t&#237;nhamos feito, o canal escolhido seria a Band, por causa da narra&#231;&#227;o do Silvio Luiz (&#8220;pelas barbas do profeta&#8221;). E, no fim das contas, n&#227;o era o S&#237;lvio Luiz que estaria narrando este jogo. Foi o igualmente saudosos Luciano do Valle, que, apesar de competente, n&#227;o era engra&#231;ad&#227;o como o seu companheiro de emissora. Da&#237;, acabou a pol&#234;mica, assistimos na Globo mesmo ouvindo o Galv&#227;o Bueno e era isso.</p><p>N&#227;o sei se o fato dos &#226;nimos estarem mais calmos e a tens&#227;o da estr&#233;ia ter passado, n&#227;o tenho grandes mem&#243;rias deste jogo. O que eu lembro &#233; que foi um jogo muito tranquilo, o Brasil passeou em campo e a equipe de Camar&#245;es praticamente n&#227;o levou perigo para meta de Taffarel.</p><p>Ainda assim, o gol demorou bastante para sair, s&#243; se efetivando aos 39 do primeiro tempo, em um jogada sensacional do Rom&#225;rio se enfiando entre tr&#234;s defensores camaronenses e tocando rasteiro por baixo do goleiro. 1 x 0 Brasil.</p><p>O segundo tempo come&#231;ou do mesmo jeito: Brasil dominando o jogo, Camar&#245;es se defendendo e tentando o contra-ataque sem muito efeito. Para dar uma no&#231;&#227;o da tranq&#252;ilidade, o segundo gol foi feito por M&#225;rcio Santos, um zagueiro, que estava na &#225;rea de Camar&#245;es e acertou uma cabe&#231;ada na bola cruzada por Jorginho aos 21 minutos do segundo tempo. 2 x 0 e o Brasil cada vez mais solto e gostando do jogo.</p><p>Sem demora, veio o terceiro. Sete minutos depois, Rom&#225;rio entrou na &#225;rea de Camar&#245;es conduzindo a bola, houve uma confus&#227;o e a bola espirrou, sobrando para Bebeto, que veio correndo e tocou no canto do goleiro Samuel Ekem&#233;. 3 x 0 e uma vit&#243;ria mais do que consolidada. Tanto &#233; que Parreira resolveu testar alguns jogadores, substituindo Ra&#237; por M&#252;ller e Zinho pelo misterioso Paulo S&#233;rgio, que ningu&#233;m sabe muito bem at&#233; hoje porque foi convocado.</p><p>O resto do jogo transcorreu sem maiores dificuldades, trazendo tranq&#252;ilidade para a torcida brasileira e dando aquele gostinho de que aquele poderia ser o ano do desjejum.</p><p>Fato que merece destaque nesse jogo foi a presen&#231;a de Roger Milla, um dos jogadores mais velhos a jogarem aquela Copa do Mundo, na &#233;poca contando com 42 anos.</p><p>Por sua vez, o terceiro jogo ocorreu em Detroit (Robocop e Axel Foley estavam l&#225;, ser&#225;?), no Est&#225;dio Pontiac Silverdome, que por sinal, foi demolido em 2017 (pela OCP?). O jogo ocorreu &#224;s 17h no hor&#225;rio de Bras&#237;lia na ter&#231;a-feira, 28 de junho e, como sempre, foi dia de sair mais cedo da escola. N&#227;o tenho maiores mem&#243;rias deste dia, uma vez que depois das vit&#243;rias incontest&#225;veis dos dois primeiros jogos, a Sele&#231;&#227;o provou que tinha caf&#233; no bule. A tens&#227;o da estr&#233;ia estava mais contida, para n&#227;o dizer quase inexistente, uma vez que a Su&#233;cia, advers&#225;ria do Brasil naquele jogo, n&#227;o s&#243; n&#227;o tinha grande tradi&#231;&#227;o no futebol, como as estat&#237;sticas eram favor&#225;veis &#224; Sele&#231;&#227;o canarinho por larga margem: das cinco partidas disputadas entre as duas sele&#231;&#245;es at&#233; aquele momento, quatro foram vencidas pelo Brasil (uma delas pelo placar de 7 x 1, na Copa de 1950), com a Su&#233;cia conseguindo no m&#225;ximo arrancar um empate em 1978 (1 x 1).</p><p>Ademais, conv&#233;m lembrar que o primeiro t&#237;tulo do Brasil foi em Estocolmo contra os donos da casa, uma goleada de 5 x 2 para o time de Pel&#233;, Garrincha, Vav&#225;, Nilton Santos et al. Ou seja, tudo indicava que iria ser mais um passeio em campo e que n&#227;o havia nada com o que se preocupar. S&#243; que o futebol &#233; e sempre foi uma caixinha de surpresas!</p><p>Na minha casa, tudo estava na mais absoluta paz. N&#243;s decidimos assistir os jogos do Brasil alternando entre Globo e SBT e os jogos de outros pa&#237;ses na Band, desde que a narra&#231;&#227;o fosse do S&#237;lvio Luiz (&#8220;balan&#231;ou o capim no fundo do gol&#8221;). Nesse jogo meus pais j&#225; n&#227;o estavam mais t&#227;o interessados, tanto que n&#227;o sentaram nos sof&#225;s comigo e com meus irm&#227;os logo no come&#231;o. Preferiram ir fazer outra coisa, tamanho era o clima de descontra&#231;&#227;o depois de duas vit&#243;rias muito bem vencidas.</p><p>E come&#231;ou o jogo, sem muita emo&#231;&#227;o. Sele&#231;&#227;o sueca, como era de se esperar, retranqueira, amarrando o jogo, fazendo com que as poucas chances do Brasil no ataque n&#227;o fossem muito eficientes. Detalhe: nesta partida, o Brasil jogou com seu segundo uniforme, a camiseta azul (&#8220;camiseta azul, azul camiseta, estava escrito na etiqueta&#8221;), da mesa forma como aconteceu na final de 1958, porque o uniforme tradicional da Su&#233;cia tamb&#233;m &#233; amarelo. E a partida seguiu sopor&#237;fera at&#233; os 23 minutos do primeiro tempo, quando o jogador sueco Andersson recebeu uma bola enfiada para ele na lateral esquerda do campo Brasil e tocou a meia altura em dire&#231;&#227;o ao gol de Taffarel, que, estando levemente adiantado, n&#227;o logrou &#234;xito em alcan&#231;ar a pelota daquele &#226;ngulo. Placar aberto, 1 x o para a Su&#233;cia e as bocas que eram s&#243; sorrisos, agora jaziam crispadas de tens&#227;o. Primeiro gol que o Brasil tomava nessa Copa e de bobeira!</p><p>O tempo foi passando, o Brasil atacando sem muita efetividade, a Su&#233;cia gostando do jogo e se aventurando, cada vez mais ousada no contra-ataque e o que antes era descontra&#231;&#227;o virou pura apreens&#227;o. Final do primeiro tempo e o placar estava igual. Os habitantes da terra do gelo e da neve estavam ganhando o jogo. Este jogo repetiria, metaforicamente, o que acontecera com Franz Ferdinand 80 anos antes neste mesmo dia 28 de junho? Todo mundo passou os 15 minutos de intervalo pensando coisas neste n&#237;vel de trag&#233;dia, tamanha fora o banho de &#225;gua fria desse gol da Su&#233;cia ap&#243;s a euforia de duas vit&#243;rias relativamente tranq&#252;ilas.</p><p>E volta o jogo. Sa&#237;da de bola, toque r&#225;pido e Rom&#225;rio arranca no meio de tr&#234;s suecos, cada um com um palmo a mais de altura do que ele, d&#225; duas gingadas de corpo e toca rasteira no cantinho do &#243;timo goleiro Ravelli, empatando o jogo aos 1 minutos do segundo tempo. De repente, o f&#244;lego voltou aos pulm&#245;es dos 150 milh&#245;es de habitantes desta terra de palmeiras e sabi&#225;s e o grito de gol saiu como um desabafo e um al&#237;vio de tens&#227;o.</p><p>O resto do jogo transcorreu da mesma forma que iniciou: muita marca&#231;&#227;o da Su&#233;cia, espa&#231;os fechados para maiores jogadas, alguns arroubos de ataque do time n&#243;rdico, boas defesas de ambos os goleiros e nada mais digno de nota.</p><p>Quando o juiz apitou, o al&#237;vio veio: o Brasil continuava invicto, classificado para as oitavas de final em primeiro do grupo com sete pontos, saldo de gols mais do que positivo e uma Sele&#231;&#227;o bastante azeitada e competente. Por&#233;m, nunca mais houve clima de oba-oba. Aquele gol por cobertura no Taffarel serviu para todo mundo cal&#231;ar as sand&#225;lias da humildade e torcer ainda mais para a Sele&#231;&#227;o canarinho. Tr&#234;s jogos j&#225; haviam ido, restavam mais quatro, se tudo corresse bem, para o t&#227;o sonhado tetracampeonato.</p><p>Sem demora, ficamos sabendo que o pr&#243;ximo advers&#225;rio do Brasil seriam os donos da casa, a sele&#231;&#227;o dos Estados Unidos, um pa&#237;s em que o futebol da bola redonda era mais popular entre as meninas que entre os meninos, algo muito fora do padr&#227;o naquele j&#225; distante ano de 1994. O <em>yankee wasp</em> tradicional n&#227;o via gra&#231;a em um esporte que poderia perfeitamente terminar em zero a zero e isso se refletia na escala&#231;&#227;o daquela sele&#231;&#227;o, na qual despontavam sobrenomes como Meola, Perez, Ramos, Balboa, Caligiuri e Lalas ao inv&#233;s de Smith e Johnson. Mas, apesar da pouca tradi&#231;&#227;o, o jogo estava marcado para o dia 4 de julho e seria disputado novamente em Stanford na Calif&#243;rnia, estado com uma grande concentra&#231;&#227;o de latinos, estes sim, loucos por futebol. Al&#233;m disso, o jogo foi marcado para &#224;s 12:30h, hora local, em pleno ver&#227;o californiano, com um sol de fritar bolinho e os miolos dos jogadores. Ou seja, muita coisa conspirando para dar errado.</p><p>Todas estas adversidades, pioradas com a lembran&#231;a da sapecada que o Brasil tomou da Su&#233;cia menos de uma semana antes, fez o clima voltar a ficar tenso naquele pr&#233;-jogo. Perder nesta altura seria uma volta para casa antes do esperado e um longo calv&#225;rio de explica&#231;&#245;es da comiss&#227;o t&#233;cnica e dos jogadores tanto para a torcida quanto para a imprensa.</p><p>Naquele dia, uma segunda-feira, o jogo seria transmitido no Brasil &#224;s 16:30h, de modo que, na escola, tivemos per&#237;odos de meia hora para estarmos prontos para sair &#224;s 15:45h. Chegando em casa, o ritual tradicional: pipoca, bandeira, todo mundo sentado no sof&#225; esperando come&#231;ar o jogo. E assim que a TV come&#231;ou sua transmiss&#227;o, minutos antes do apito inicial, j&#225; fora poss&#237;vel sentir o cutuco: 80 mil pessoas tinham ido ao Stanford Stadium torcer pela sele&#231;&#227;o da bandeira de listras e estrelas. N&#227;o iria ser f&#225;cil, todo mundo sabia!</p><p>Come&#231;o de jogo e sem demora o bicho come&#231;a a pegar. Em uma jogada que come&#231;ou na lateral direita do Brasil, Dooley (que nasceu na Alemanha!) recebeu a bola na &#225;rea e ficou frente-a-frente com Taffarel. Por sorte a bola errou seu destino e saiu pela linha de fundo. O sufoco estava s&#243; come&#231;ando. N&#227;o tanto pelo fato de os Estados Unidos serem um time que representasse maiores perigos, bem pelo contr&#225;rio. Ap&#243;s esse lance do Dooley, deu praticamente s&#243; Brasil bicando a &#225;rea do Meola como se fosse um pica-pau. Por&#233;m, a bola, essa caprichosa, n&#227;o entrava.</p><p>Se o jogo j&#225; estava extremamente tenso, ganhou contornos dram&#225;ticos aos 43 minutos do primeiro tempo quando, na lateral do campo, em uma disputa de bola, Leonardo ao segurado pela camisa pelo jogador Tab Ramos dos Estados Unidos, desferiu uma violenta cotovelada  na lateral da cabe&#231;a e no maxilar do americano, levando-o a nocaute instantaneamente e causando a expuls&#227;o e o banimento do lateral-esquerdo brasileiro daquela Copa.</p><p>A cotovelada, ao que tudo indica, foi sem dolo, tendo sido, aparentemente, uma tentativa desastrada de se desvencilhar daquele pux&#227;o da camisa. O lateral da Sele&#231;&#227;o era tido como um jogador t&#233;cnico, disciplinado, de jogo limpo, n&#227;o dado a arroubos de viol&#234;ncia como outros defensores por a&#237;. Todavia, esse lance infeliz causou s&#233;rios problemas ao jogador atingido, mandando-o para o hospital com traumatismo craniano e fissura no maxilar (UFC mandou lembran&#231;a!).</p><p>O primeiro tempo terminou, portanto, com a seguinte situa&#231;&#227;o: o Brasil com um importante jogador a menos, a torcida agora mais de m&#225; vontade ainda contra o time &#8220;visitante&#8221; e as jogadas brasileiras, por mais que fossem bem feitas, n&#227;o atingindo seu objetivo. O medo do fiasco estava atingindo patamares alt&#237;ssimos. A esperan&#231;a era o t&#233;cnico Parreira conseguir re-arranjar o time no intervalo para lidar com a lacuna na lateral esquerda e, ao mesmo tempo, motivar os demais jogadores a entrarem no campo de volta com a moral elevada e disposi&#231;&#227;o para ganhar aquele jogo em pleno 4 de julho.</p><p>E por sorte, foi o que aconteceu. O Brasil voltou com basicamente a mesma base de jogo: tocar a bola, n&#227;o descuidar da defesa e avan&#231;ar para a meta advers&#225;ria sempre que as oportunidades surgissem. E como sugiram oportunidades! S&#243; o Rom&#225;rio errou dois gols praticamente feitos: uma o defensor tirou quase em cima da linha e outra o baixinho driblou o goleiro e tocou para fora! A bruxa realmente estava solta nesse jogo. Nada que o Brasil fizesse era garantia da bola estufando a rede.</p><p>Quando as pessoas em casa j&#225; n&#227;o tinham praticamente mais unhas e estavam quase roendo as pontas dos dedos, Rom&#225;rio, novamente, pegou a bola no meio campo, partiu em velocidade no meio de v&#225;rios jogadores americanos e lan&#231;ou para Bebeto que vinha pela lateral direita. Bebeto, ent&#227;o, com um &#250;nico toque preciso, mandou a bola no canto direito, desviando por mil&#237;metros do p&#233; do zagueiro Alexis Lalas (o Visconde de Sabugosa americano) e da m&#227;o do goleiro Tony Meola. 1 x 0 e um grito de gol que foi ouvido em Marte! Isso j&#225; era 27 minutos do segundo tempo, ou seja, o gol veio em uma hora providencial, pois se terminasse empatado, iria ser dif&#237;cil ag&#252;entar mais 30 minutos de prorroga&#231;&#227;o sob o sol inclemente do velho oeste americano.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!HvJ8!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7a46871c-1c51-4595-9a85-519f42b25e4c_300x168.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!HvJ8!, /__u/guilhermeceolin.substack.com/w_424, /__u/guilhermeceolin.substack.com/c_limit, /__u/guilhermeceolin.substack.com/f_webp, /__u/guilhermeceolin.substack.com/q_auto:good, 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O placar quase foi ampliado com um belo chute de Rom&#225;rio quase no final do jogo, habilmente defendido pelo goleiro Meola. Sem demora veio o apito final e o al&#237;vio. Os donos da casa eliminados do torneio em pleno dia de sua independ&#234;ncia e o Brasil avan&#231;ando a passos largos rumo ao quarto t&#237;tulo.</p><p>Curiosidade deste jogo: Tony Meola, descendente de italianos, ficou bastante conhecido n&#227;o s&#243; por ser um bom goleiro, mas tamb&#233;m por ter um chute bastante potente. Tanto &#233; verdade que n&#227;o muito tempo depois dessa Copa do Mundo, ele teve uma curta passagem pela NFL, aquela liga do futebol da bola oval, tendo sido jogador do <strong>New York Jets</strong> na fun&#231;&#227;o de <em>kicker </em>(chutador).</p><p>Curta, comente, compartilhe e inscreva-se para n&#227;o perder a terceira e &#250;ltima parte desta saga brasileira rumo ao tetracampeonato.</p><p>At&#233; a pr&#243;xima pessoal!</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Crônicas do Interior - Edição Especial_Futebol]]></title><description><![CDATA[Copa do Mundo-parte I]]></description><link>https://guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-edicao-especial_futebol</link><guid isPermaLink="false">https://guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-edicao-especial_futebol</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Ceolin]]></dc:creator><pubDate>Thu, 28 May 2026 14:41:38 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!L2TF!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fec9b766e-af30-403e-ab3b-e1149e124b30_615x300.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Aproveitando o clima de Copa (onde?), darei uma pausa nos textos regulares (j&#225; n&#227;o estavam em pausa? E regulares desde quando?) e pelas pr&#243;ximas semanas, escreverei sobre futebol. Melhor dizendo, escreverei sobre as minhas mem&#243;rias da primeira Copa do Mundo que assisti. Aquela, a de 1994 (&#8220;&#233; tetra, &#233; tetra, &#233; tetraaaaaa&#8230;&#8230;&#8221;). Uma Copa que me marcou tanto que lembro perfeitamente de quase todos as sete vezes em que parei o que estava fazendo e me plantei em frente &#224; televis&#227;o para torcer pelo melhor, embora estivesse sempre preparado para o pior.</p><p>N&#227;o que eu tenha sido no passado um fan&#225;tico por futebol (hoje ent&#227;o, nem se fala). No m&#225;ximo, tive certos arroubos entusi&#225;sticos pelo arrebatador e inigual&#225;vel tricolor de Porto Alegre, o imortal Gr&#234;mio FBPA, time ao qual procurei acompanhar de perto em todos os jogos e torneios enquanto ainda era imberbe e sem maiores responsabilidades (conforme relato <a href="/__u/guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-6-o-radio-era">aqui</a>)</p><p>Mas, mesmo naquela &#233;poca, a tristeza pelas derrotas ou a alegria pelas vit&#243;rias durava o tempo de estourar uma panela de pipoca. Tanto que, como eu disse, atualmente minha ignor&#226;ncia a respeito do futebol corre em paralelo com meu desinteresse. S&#243; procuro ler alguma coisa a respeito do inigual&#225;vel tricolor ga&#250;cho quando tenho que ir ao barbeiro, pois o senhorzinho septuagen&#225;rio que corta minhas madeixas adora conversar sobre o time da Azenha (que agora j&#225; nem isso &#233; mais, mas divago...).</p><p>Por&#233;m, apesar de toda pol&#234;mica e pr&#225;ticas extra-campo nem sempre muito desportivas, eu ADORO a Copa do Mundo da FIFA. A&#237; eu me transformo e volto a acompanhar o futebol loucamente, porque sempre achei este torneio muito divertido. E n&#227;o s&#243; pelos jogos da sele&#231;&#227;o p&#225;tria, os quais s&#227;o, sem d&#250;vida, important&#237;ssimos e merecedores do meu mais desbragado entusiasmo. </p><p>Paralelo &#224;s partidas da verde-e-amarela, meu grande interesse sempre foi ter a chance de ver n&#227;o s&#243; como os mais diversos pa&#237;ses jogavam o esporte mais popular do mundo, mas tamb&#233;m de aprender geografia (soube que existia um pa&#237;s chamado Camar&#245;es quando o Brasil precisou jogar contra ele em 1994) e um pouco de ling&#252;&#237;stica (aprendi que a pron&#250;ncia correta era &#8220;Klaivert&#8221; e n&#227;o &#8220;Kluivert&#8221; para aquele grande jogador holand&#234;s que me deixou em p&#226;nico na Copa de 1998).</p><p>Portanto, ao longo das pr&#243;ximas semanas, contarei minhas impress&#245;es e sensa&#231;&#245;es sobre cada um dos jogos que o Brasil disputou na Copa de 1994. Com o torneio deste ano, ser&#227;o exatamente 32 anos acompanhando a <em>scretch</em> amarelinha nas suas perip&#233;cias no esporte bret&#227;o. E, incorporando o esp&#237;rito do grande Mario Jorge Lobo Zagallo, que al&#233;m de ser o &#250;nico tetra campe&#227;o do mundo (&#8220;voc&#234;s v&#227;o ter que me engolir&#8221;), tinha verdadeira obsess&#227;o numerol&#243;gica (o n&#250;mero 13 dava sorte para ele), vos digo que o Brasil nunca passou mais de 24 anos sem ganhar uma Copa do Mundo (entre 1970 e 1994 foi at&#233; agora o tempo mais longo). Ou seja, se a hist&#243;ria se repetir, esse ano o hexa vem (o penta est&#225; fazendo anivers&#225;rio de 24 anos em 2026)! N&#227;o sou polvo, mas tenho meus rompantes de adivinho. </p><p>E como ningu&#233;m gosta de conversa fiada, vamos para os jogos.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!L2TF!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fec9b766e-af30-403e-ab3b-e1149e124b30_615x300.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!L2TF!, /__u/guilhermeceolin.substack.com/w_424, /__u/guilhermeceolin.substack.com/c_limit, /__u/guilhermeceolin.substack.com/f_webp, /__u/guilhermeceolin.substack.com/q_auto:good, /__u/guilhermeceolin.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fec9b766e-af30-403e-ab3b-e1149e124b30_615x300.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!L2TF!, 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Sinais!) e, apesar de ter sido sediada em um pa&#237;s que chama nosso esporte sagrado de <em>soccer</em>, reservando a palavra futebol (<em>football</em>) para aquele esporte de bola oval, agarramento e traves em forma de &#8220;Y&#8221;, esta edi&#231;&#227;o do torneio n&#227;o foi superada at&#233; agora em termos de p&#250;blico (m&#233;dia de ~69 mil pessoas por partida).</p><p>O clima do Brasil na &#233;poca era um misto de sentimentos. Havia o luto pela morte do Ayrton Senna no dia 1&#186; de maio, batendo o seu carro na mureta lateral ao sair da famigerada curva Tamburello, do Circuito de Imola, na It&#225;lia. Havia o ceticismo com mais uma tentativa de controle da infla&#231;&#227;o escorchante que assolava o Brasil havia diversos anos (implementa&#231;&#227;o do plano Real, que, ao contr&#225;rio dos anteriores, acabaria funcionando). E, finalmente, havia, como sempre h&#225;, uma v&#227; esperan&#231;a de que o final daquele ano fosse melhor que o seu come&#231;o.</p><p>Eu contava com 12 anos na &#233;poca e, como j&#225; mencionei, aquela seria a primeira Copa do Mundo que teria oportunidade de acompanhar com plena consci&#234;ncia do que estava fazendo e assistindo, j&#225; que na de 1990, na It&#225;lia, eu estava mais interessado em andar de bicicleta e ler revistas em quadrinhos.</p><p>Sem falar que diversos jogos eram transmitidos no meio da tarde aqui no Brasil, devido &#224;s diferen&#231;as de fuso hor&#225;rio entre os diversos Estados dos EUA e a hora de Bras&#237;lia. Ou seja, eu, que estudava &#224; tarde, podia sempre sair mais cedo da aula, j&#225; que, nos dias de jogo da Sele&#231;&#227;o, o hor&#225;rio era reduzido.</p><p>N&#227;o lembro muito bem do jogo de estr&#233;ia, que foi Alemanha (campe&#227; do momento) contra Bol&#237;via. Lembro de ter visto <em>en passant</em> na TV da sala, que ficava ligada quase o dia inteiro. A Alemanha tomou um sufoco para ganhar de 1 x 0 do nosso vizinho andino, o que j&#225; demonstrava que a Copa teria surpresas, como realmente aconteceu.</p><p>Um fato que me marcou muito antes da estr&#233;ia da Sele&#231;&#227;o foi, no melhor estilo Vlad Tepes, a empalada que a Rom&#234;nia deu na Col&#244;mbia (3 x 1 para os conterr&#226;neos do Conde Dr&#225;cula), com direito a um gol de R&#462;ducioiu  logo nos primeiros 15 minutos do jogo e um sensacional gol de Hagi por cobertura aos 34 minutos do primeiro tempo. Aquilo desconcertou t&#227;o forte a equipe dos nossos irm&#227;os caribenhos que eles n&#227;o fizeram mais muita coisa e foram eliminados j&#225; na primeira fase. Sem contar o fato tr&#225;gico do assassinato do zagueiro Escobar por ter feito um gol contra na partida seguinte contra os Estados Unidos. Para quem n&#227;o lembra, a Col&#244;mbia havia chegado ao torneio como sensa&#231;&#227;o daquele grupo, dado que nas eliminat&#243;rias, o time de Asprilla, Rinc&#243;n e Valderrama tinha socado forte na Argentina (5 x 0 contra os hermanos), for&#231;ando os milongueiros a s&#243; se classificarem na repescagem.</p><p>Todavia, a grande surpesa daquele grupo veio de onde ningu&#233;m esperava, justamente da Rom&#234;nia e seu fabuloso meio-campista, Gheorghe Hagi. O cara jogou a Copa da vida dele, fazendo com que aquela sele&#231;&#227;o dos C&#225;rpatos, com parca tradi&#231;&#227;o nesse tipo de torneio, chegasse at&#233; as quarta de final (melhor classifica&#231;&#227;o da hist&#243;ria do time), sendo eliminada nos p&#234;naltis pela Su&#233;cia (outra sele&#231;&#227;o que surpreendeu bastante).</p><p>Al&#233;m dessa partida da primeira fase, outra partida que lembro bem pelo ineditismo do resultado foi a elimina&#231;&#227;o da Alemanha pela Bulg&#225;ria nas quartas-de-final. O brilho daquela sele&#231;&#227;o b&#250;lgara foi um evento &#250;nico e que nunca mais se repetiu. Tinha uma constela&#231;&#227;o de craques comparado, talvez, &#224; Hungria de 1954 (e que tamb&#233;m foi um evento &#250;nico). Nomes como Stoichikov, Balakov, Mihailov e Kiriakov despontavam nesse verdadeiro <em>dream team</em> do Leste Europeu. Todavia, f&#227; mesmo eu era do brilhante meio-campista Yordan Letchkov, um jogador cujas caracter&#237;sticas f&#237;sicas estavam mais para um contador ou advogado do que para um futebolista: gestos contidos, mas precisos, futebol econ&#244;mico, mas eficiente e tudo isso emoldurado por uma das carecas mais ic&#244;nicas e rock&#8217;n&#8217;roll do futebol: no topo da cabe&#231;a , Nenhum de N&#243;s; nas laterais, Uns e Outros e na testa, Her&#243;is da Resist&#234;ncia. Apesar da zoeira, Letchkov era extremamente eficiente e matador quando a oportunidade se apresentava a ele, que o digam a Argentina e a Alemanha, que ficaram pelo caminho com a participa&#231;&#227;o direta ou indireta deste calvo das plan&#237;cies tr&#225;cias.</p><p>Por sua vez, em se tratando da nossa escrete canarinho, as expectativas n&#227;o podiam ser piores. Aquela Sele&#231;&#227;o pousou na Terra do Tio Sam com a moral debaixo do rabo do cachorro, sendo achincalhada pela imprensa desportiva dia sim e o outro tamb&#233;m.</p><p>Treinada por Carlos Alberto Parreira, nome pouco conhecido pela popula&#231;&#227;o na &#233;poca, era alvo de cr&#237;ticas constantes n&#227;o s&#243; pelo fato de nunca ter sido jogador de futebol, mas por seu estilo cerebral, frio e calculado, que enfatizava o toque e a posse da bola ao inv&#233;s daquele tradicional jogo aberto, bonito e para frente, o qual visava sempre o ataque e negligenciava a defesa. Parreira era o duplo mim&#233;tico do Tarantino em termos de futebol: enquanto o famoso cineasta teria aprendido a dirigir assistindo aos filmes ao inv&#233;s de estudar cinema, Parreira aprendera a treinar um time estudando futebol ao inv&#233;s de jog&#225;-lo.</p><p>Essas caracter&#237;sticas, aliadas com algumas frases infelizes (&#8220;o gol &#233; um mero detalhe&#8221;, disse certa feita), faziam com que ele fosse visto como retranqueiro, burro, que n&#227;o sabia o que estava fazendo e que certamente iria levar o Brasil a mais uma derrota vexaminosa em Copa do Mundo. Ainda mais que ele havia convocado e dado lugar de destaque para o volante Dunga, &#237;cone da derrota brasileira para a Argentina meros quatro anos antes, na Copa do Mundo da It&#225;lia. Em resumo, poucas vezes uma sele&#231;&#227;o brasileira entrou para jogar com uma expectativa t&#227;o baixa quanto esse time de 1994.</p><p>Que bom que mais uma vez, vaticinando a famosa frase de Nelson Rodrigues, outro apaixonado por futebol, a unanimidade foi quem se mostrou totalmente burra, n&#227;o o Parreira. A Sele&#231;&#227;o demonstrou um futebol extremamente eficiente, frio, controlado, sem arroubos de desespero e muito eficiente tanto na defesa (tomou s&#243; tr&#234;s gols em toda Copa!) quanto no ataque (fez 11 gols em seis jogos!).</p><p>E essa saga at&#233; o Tetra come&#231;ou no dia 20 de junho, &#224;s 17 h (hor&#225;rio de Bras&#237;lia), no Stanford Stadium, em Palo Alto, Calif&#243;rnia. Primeiro jogo do Brasil, na fase de grupos. O advers&#225;rio era a R&#250;ssia, em sua primeira Copa n&#227;o mais como Uni&#227;o Sovi&#233;tica.</p><p>A tens&#227;o era total, na escola s&#243; se falava nisso. Como seria a estr&#233;ia da Sele&#231;&#227;o? O Zinho &#8220;enceradeira&#8221; ia comprometer? E o Ra&#237;, hein, que n&#227;o estava na sua melhor forma? Quantos gols o Rom&#225;rio iria fazer? E o Taffarel, ia repetir aquele frango contra a Bol&#237;via de um ano antes? Quest&#245;es, quest&#245;es e quest&#245;es. N&#227;o tenho a menor ideia sobre o que teve na aula aquele dia, por dois motivos: 1) faz 32 anos j&#225; e 2) eu n&#227;o estava realmente dando a m&#237;nima para a escola, que estava com hor&#225;rios reduzidos para todo mundo sair &#224;s 16:30h e acompanhar o jogo (at&#233; a diretora, as professoras, a tia da merenda, o zelador, o cachorro caramelo da porta, o vendedor de algod&#227;o doce da rua, o guardinha da esquina e a cidade toda).</p><p>Quando tocou o sinal de sa&#237;da, foi aquela verdadeira avalanche de crian&#231;as saindo da escola. Em menos de cinco minutos todo mundo tinha deixado o local, em uma efici&#234;ncia tamanha que daria orgulho aos bombeiros dando treinamento de evacua&#231;&#227;o em caso de inc&#234;ndio. Cheguei em casa, meus pais j&#225; estavam estourando a pipoca, todo mundo preparado, s&#243; esperando come&#231;ar o jogo. Um vizinho da idade do meu irm&#227;o mais novo estava na minha casa para assistirmos ao jogo juntos.</p><p>Com tinha muita crian&#231;a na sala, logo come&#231;ou uma disputa sobre em qual canal vir&#237;amos a partida. Eu queria a Band, porque gostava muito das narra&#231;&#245;es do saudoso S&#237;lvio Luiz (&#8220;pelo amor dos meus filhinhos....&#8221;), meu irm&#227;o queria o SBT porque tinha o Amarelinho e o moleque enxerido, que nem deveria estar l&#225;, queria a Globo por causa do tira-teima. Sem demora, o bate-boca se instalou com xingamentos e empurr&#245;es, como &#233; normal entre a molecada de 9 a 12 anos.</p><p>Meu pai apareceu em segundos na porta, munido n&#227;o s&#243; com duas bacias de pipoca, mas tamb&#233;m com bons argumentos (&#8220;se n&#227;o parar essa briga agora vou jogar esta televis&#227;o pela janela e voc&#234;s v&#227;o assistir o resto da Copa da janela do vizinho&#8221;). Na hora a discuss&#227;o parou e decidimos que esse jogo seria assistido na Rede Globo e os pr&#243;ximos teriam revezamento entre Band e SBT (e o pentelho do vizinho, sementinha da disc&#243;rdia, nunca mais foi convidado).</p><p>E rolou a bola. Aquela tens&#227;o no ar em todos os lares brasileiros. Todo mundo apreensivo, roendo as unhas, esperando para ver o que iria acontecer. Bem o contr&#225;rio do time em campo. A Sele&#231;&#227;o do Parreira tocava a bola de um lado para o outro, amarrando a disputa entre a defesa e o meio de campo, imprimindo o ritmo de jogo mon&#243;tono, arrastado, com cada arroubo de ofensividade friamente calculado. Ou seja, aquilo que vir&#237;amos ao longo de toda aquela Copa, motivo do ran&#231;o de 11 entre 10 comentaristas esportivos.</p><p>A Sele&#231;&#227;o da R&#250;ssia, por outro lado, n&#227;o era grande coisa, nem sombra do que havia sido a Uni&#227;o Sovi&#233;tica de Lev Yashin, aquela que assombrou o mundo na Copa de 1958, mas que tomou um couro da sele&#231;&#227;o de Pel&#233; e Garrincha. E como costuma acontecer, a hist&#243;ria se repetiu. Aos 26 minutos do primeiro tempo, Bebeto cobrou escanteio, lan&#231;ando a bola na &#225;rea. O baixinho Rom&#225;rio se adiantou a um zagueiro quase um palmo mais alto do que ele e com um toque sutil com a lateral do p&#233;, abriu o placar. 1 x 0 e uma explos&#227;o de alegria em todos os lares brasileiros.</p><p>A tens&#227;o aliviou, mas n&#227;o diminuiu totalmente, afinal, quem tem um n&#227;o tem nada e um empate iria embolar o jogo novamente. Tudo permaneceu igual at&#233; o final do primeiro tempo: alguns lances de perigo, um p&#234;nalti cristalino no Rom&#225;rio que o juiz fingiu que n&#227;o viu, mas nada digno de nota.</p><p>Na volta para o segundo tempo, o jogo j&#225; come&#231;a mais aberto e logo aos seis minutos Rom&#225;rio arranca em velocidade com sangue nos olhos em dire&#231;&#227;o ao gol, deixando um russo pelo caminho sem entender de onde viera o drible. Tinha tudo para ser mais um gol do Baixinho at&#233; que um defensor d&#225; um carrinho e o derruba dentro da &#225;rea. P&#234;nalti incontest&#225;vel.</p><p>Neste momento os cora&#231;&#245;es come&#231;am a se acelerar novamente. Seria o momento de fazer mais um e, se n&#227;o fechar o placar, pelo menos respirar mais aliviado. Ra&#237;, que embora fosse camisa 10 e capit&#227;o, era um jogador bastante contestado naquele momento, diga-se de passagem, se preparou para bater. Sil&#234;ncio total, todo mundo na expectativa se ele iria converter ou n&#227;o. Partiu Ra&#237;, chutou e gol do Brasil! Alegria total novamente.</p><p>O resto do jogo eu n&#227;o lembro o que houve. Acredito que seguiu daquele jeito de sempre, com o time administrando o placar, atacando quando tinha chance e desarmando as jogadas dos russos. Quando o jogo acabou, lembro que, tanto na minha casa naquele dia quanto no dia seguinte na escola, todo mundo estava com uma sensa&#231;&#227;o boa, de que a Sele&#231;&#227;o brasileira, apesar da chatice burocr&#225;tica do esquema t&#225;tico, tinha uma chance de ouro de ganhar aquela Copa do Mundo, j&#225; que o time era muito bem azeitado, todo mundo jogava para a equipe e existia um jogador muito diferenciado que, quando nasceu, Papai do C&#233;u olhou e disse: &#8220;esse &#233; o cara&#8221;.</p><p>Fato not&#225;vel deste jogo: o zagueiro Ricardo Rocha, at&#233; ent&#227;o titular, sofreu um estiramento na coxa e precisou ser substitu&#237;do, dando lugar para Aldair, que jogaria o resto da Copa. Apesar de jogar por pouco tempo, o treinador resolveu deix&#225;-lo com o grupo, uma vez que ele era muito carism&#225;tico e levantava o &#226;nimo da galera.</p><p>O segundo jogo seria dali a poucos dias e o advers&#225;rio seria a Sele&#231;&#227;o de Camar&#245;es, sensa&#231;&#227;o da Copa de 1990. Mas isso fica para outro dia. Se inscreva para n&#227;o perder a continua&#231;&#227;o desta saga futebol&#237;stica.</p><p>At&#233; a pr&#243;xima!</p><p> </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Crônicas do Interior #14 - Faculdade - parte I]]></title><description><![CDATA[Aquela em conto fatos da vida universit&#225;ria]]></description><link>https://guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-14-faculdade</link><guid isPermaLink="false">https://guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-14-faculdade</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Ceolin]]></dc:creator><pubDate>Tue, 07 Apr 2026 17:49:48 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!9GJe!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Faa94b2fb-e7be-4230-8b52-a9994cdf456a_1200x800.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>No &#250;ltimo <a href="/__u/guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-13-escola">texto</a> que escrevi para este espa&#231;o, contei hist&#243;rias sobre o tempo de escola, desde a (curta!) pr&#233;-escola at&#233; o ensino m&#233;dio. Agora irei contar algumas coisas interessantes e inusitadas que aconteceram durante meus anos de estudante universit&#225;rio.</p><p>Este t&#243;pico n&#227;o &#233; de todo novidade, j&#225; que falei sobre isso em textos pregressos, como <a href="/__u/guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-8-os-bons-conselhos">aqui</a>, <a href="/__u/guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-4-mudancas">aqui</a> e <a href="/__u/historiasnaturais.substack.com/p/historia-natural-7-ser-biologo">aqui</a>, mas em outro contexto e com outras finalidades. No texto de hoje, minha inten&#231;&#227;o &#233; relatar alguns fatos relacionados a intera&#231;&#245;es humanas peculiares que presenciei e vivi no meu tempo de universit&#225;rio.</p><p>Como este assunto tem pano para manga, resolvi que iria dividir em duas partes para n&#227;o ficar uma chaprosca imensa de texto para ler. Para organizar o racioc&#237;nio e ser mais agrad&#225;vel de acompanhar, vou dividir em t&#243;picos e dar t&#237;tulos para eles, &#224; semelhan&#231;a de esquetes televisivas, uma vez que minha vida naquela &#233;poca &#224;s vezes lembrava epis&#243;dios do <strong>Seinfeld </strong>misturados com <strong>Os Normais</strong>.</p><p>******************</p><p>E a primeira hist&#243;ria poderia ser chamada de &#8220;<strong>Normalize mentir para responder gente chata</strong>&#8221;</p><p>Conforme eu contei <a href="/__u/guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-8-os-bons-conselhos">aqui</a>, tive acne severa na minha adolesc&#234;ncia, somente curada com um tratamento longo e intenso com isotretino&#237;na (o popular Roacutan). Quando eu tinha vinte anos, consegui indica&#231;&#227;o de uma dermatologista &#243;tima (que infelizmente j&#225; deixou o plano terreno. Uma grande perda!) que abra&#231;ou a miss&#227;o de curar a minha pele e n&#227;o sossegou at&#233; conseguir.</p><p>Para isso, ela me mandou fazer uma s&#233;rie de exames de sangue e entrou com um tratamento pesado a base do famigerado medicamento, que al&#233;m de diversos efeitos colaterais, era bem caro. Por isso, eu tinha que andar na linha em termos de alimenta&#231;&#227;o, cuidados com a exposi&#231;&#227;o solar, sa&#250;de geral, etc. E isso inclu&#237;a deixar de consumir bebidas alco&#243;licas, n&#227;o s&#243; durante o tratamento, mas tamb&#233;m at&#233; 60 dias ap&#243;s o &#250;ltimo comprimido ser ingerido, sob o risco de, al&#233;m de atrasar os resultados, ter comprometimento do f&#237;gado. Como eu consigo ser extremamente disciplinado quando quero muito atingir um objetivo, comecei a cumprir &#224; risca todas as recomenda&#231;&#245;es m&#233;dicas.</p><p>Meu tratamento come&#231;ou em um m&#234;s de abril, portanto, at&#233; a virada daquele ano, eu n&#227;o poderia beber nenhuma gota de &#225;lcool. Ok, seria chato, mas n&#227;o imposs&#237;vel nem custoso, uma vez que n&#227;o sou o tipo de pessoa que s&#243; consegue se divertir estando &#233;brio. Meus amigos pr&#243;ximos sabiam do meu tratamento e n&#227;o ficaram me incomodando para beber com eles nem nada, de modo que continuei frequentando as mesmas festas e os mesmos ambientes, molhando as palavras somente com &#225;gua e demais bebidas adocicadas.</p><p>Algu&#233;m que me escapa o nome comentou no Instagram esses tempos que beber &#233; um dos poucos h&#225;bitos que as pessoas precisam explicar porque n&#227;o o fazem. E &#233; pura verdade! O que tem de gente que fica pentelhando quem n&#227;o bebe n&#227;o est&#225; escrito! Nunca tinha me dado conta at&#233; passar por isso repetidas vezes na vig&#234;ncia do meu tratamento. No come&#231;o eu me incomodava e me irritava, sendo n&#227;o raro r&#237;spido nas minhas respostas para afastar as pessoas incomodativas. Todavia, logo aprendi um truque ensinado pelo meu colega de apartamento: invente uma hist&#243;ria muito absurda quando algu&#233;m te perguntar coisas que voc&#234; n&#227;o quer responder ou est&#225; de saco cheio de responder repetidas vezes.</p><p>Esse cara que dividia ap&#234; comigo fazia faculdade de artes c&#234;nicas, tendo participado de pe&#231;as de teatro, curtas metragens e coisas similares. Com ele n&#227;o s&#243; aprendi sobre <strong>Stanislavski</strong>, <strong>Bertolt Brecht</strong>, <strong>Samuel Becket</strong>, <strong>Pirandello</strong>, <em>comedia dell&#8217;arte</em>, etc., mas tamb&#233;m aprendi a n&#227;o me levar t&#227;o a s&#233;rio e encarnar personagens na vida, se a ocasi&#227;o pedisse. Ser c&#237;nico e fingido para participar do grande teatro que &#233; a exist&#234;ncia, escolhendo as m&#225;scaras que eu iria vestir de acordo com o contexto. &#201; impressionante como uma coisa teoricamente reprov&#225;vel torna sua vida mais leve em certas ocasi&#245;es!</p><p>Pois bem, na festa de recep&#231;&#227;o dos calouros que aconteceu poucas semanas ap&#243;s o in&#237;cio do meu tratamento, estava eu ajudando na churrasqueira, tomando meu drinquezinho de <a href="https://www.instagram.com/reels/DDZW037xTN9/">cuba-libre virgem</a>, quando uma das veteranas do curso chegou puxando conversa. Eu n&#227;o era necessariamente f&#227; daquela pessoa, pois ela tinha certos h&#225;bitos que eu n&#227;o apreciava, tipo, falar pegando no bra&#231;o, falar por cima, perguntar e responder a pergunta ao mesmo tempo, se meter e dar palpite em conversas alheias, entre outros. Tudo isso ela fazia s&#243;bria, ent&#227;o, voc&#234;s imaginem o que n&#227;o estava sendo naquele dia, em que, se na m&#227;o o copo estava quase vazio, no c&#233;rebro ele estava quase cheio.</p><p>Ap&#243;s aqueles poucos segundos de conversa em que voc&#234; cumprimenta a pessoa e faz as perguntas sociais de praxe, ela me ofereceu um gole da sua bebida. Gentilmente, agradeci e disse que n&#227;o iria aceitar porque tinha parado de beber. E ela, obviamente, ficou escandalizada com isso e perguntou, efusivamente e tocando no meu bra&#231;o, o porqu&#234; de eu n&#227;o estar bebendo, qual o motivo para tamanha restri&#231;&#227;o. Olhei para ela com a maior boa vontade e candura no semblante e disse, extremamente s&#233;rio: &#8220;porque minha religi&#227;o n&#227;o permite&#8221;.</p><p>Ela parou por alguns segundos, assimilando o que tinha ouvido e perguntou: &#8220;que religi&#227;o?&#8221; Eu respondi: &#8220;Ap&#243;s meditar por algumas horas sob a sombra de uma figueira, encontrei a minha paz e o sentido da vida no Budismo. Nunca mais irei entorpecer meus pensamentos com subst&#226;ncias. Inclusive, em breve irei raspar todo o meu cabelo para livrar meu corpo da vaidade&#8221;.</p><p>Ficou n&#237;tido no olhar que ela estava ativamente processando a informa&#231;&#227;o e tentando entender o que tinha acabado de acontecer. Longos instantes se passaram dela me encarando com a boca semi-aberta e o olhar fixo, at&#233; que ela finalmente disse: &#8220;Bah, que legal! Te admiro muito por isso. Eu n&#227;o conseguiria! Incr&#237;vel a sua for&#231;a de vontade!&#8221; Me deu um abra&#231;o de leve e saiu.</p><p>O meu companheiro de churrasqueira, que at&#233; o momento s&#243; havia acompanhado tudo sem dizer uma palavra, abriu a boca e comentou: &#8220;&#201; verdade isso? Tu trocou de religi&#227;o?&#8221; Eu falei: &#8220;Nada. Foi s&#243; uma historinha que eu inventei para encerrar o assunto&#8221;. Rimos os dois e continuamos nosso trabalho de fornecer comida para a galera, ele tomando a cervejinha dele e eu tomando minhas bebidinhas n&#227;o-alco&#243;licas.</p><p>*******************</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!9GJe!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Faa94b2fb-e7be-4230-8b52-a9994cdf456a_1200x800.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!9GJe!, /__u/guilhermeceolin.substack.com/w_424, /__u/guilhermeceolin.substack.com/c_limit, /__u/guilhermeceolin.substack.com/f_webp, /__u/guilhermeceolin.substack.com/q_auto:good, 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Todos homens. As meninas moravam em um pr&#233;dio em frente, separado por uma ruela. &#192;s vezes ocorriam intera&#231;&#245;es, inclusive alguns casais surgiram ali, mas isso n&#227;o vem ao caso, pois a maior parte do tempo cada um ficava no seu quadrado.</p><p>Em uma dessas ocasi&#245;es, eu e mais dois vizinhos do andar de baixo est&#225;vamos conversando sobre comidas preferidas e um comentou que gostava muito de feijoada, outro que gostava de panqueca e que ambos sentiam falta disso. Eu, que gosto das duas coisas, comentei: &#8220;por que a gente n&#227;o cozinha isso no final de semana. Pode ser no meu apartamento&#8221;. Todo mundo concordou e no s&#225;bado de manh&#227; nos reunimos na minha saudosa maloca para fazermos a comida de conforto de todo mundo.</p><p>Como ningu&#233;m tinha muita experi&#234;ncia com cozinha, a coisa ocorreu na base da gambiarra forte. Esquecemos de deixar o feij&#227;o de molho antes de cozinhar, calculamos mal a quantia de massa para as panquecas, esquecemos de comprar algumas coisas e tivemos que sair para buscar no meio do processo, atrasando tudo, enfim, tr&#234;s moleques rec&#233;m sa&#237;dos da casa da m&#227;e aprendendo a se virar sozinhos.</p><p>O fato &#233; que era quase duas da tarde e a comida ainda n&#227;o estava totalmente pronta. E todo mundo j&#225; azul de fome. Em resumo: assim que o feij&#227;o terminou de cozinhar e as panquecas ficaram prontas, come&#231;amos a comer do jeito que estava. Ningu&#233;m quis perder tempo colocando recheio e enrolando as panquecas. Jogamos tudo no prato: massa de panqueca, a carne mo&#237;da e o feij&#227;o com o arroz, tudo do jeito que estava, sem ordem nem organiza&#231;&#227;o. S&#243; quer&#237;amos matar a fome e descansar. Ap&#243;s a refei&#231;&#227;o fizemos uma for&#231;a tarefa para lavar as (muitas!) lou&#231;as e deixar a pia limpa. J&#225; passava de tr&#234;s da tarde quando terminamos tudo. Cada um foi dar um cochilo para se recuperar e estar inteiro de noite, pois #sabadou.</p><p>Ao fim e ao cabo, tudo deu certo, exceto por um detalhe: a panela de press&#227;o ficou esquecida com um resto de feij&#227;o dentro. Naquele caos que foi todo o processo, a pobre da panela ficou l&#225;, abandonada. O domingo era dia de dormir e descansar para se recuperar da balada de s&#225;bado e chegar inteiro na segunda-feira, j&#225; que a semana era cheia na faculdade.</p><p>Um dia se passou, dois dias se passaram, tr&#234;s dias se passaram. No quarto dia, comecei a sentir um cheiro estranho na cozinha, um cheiro de coisa meio podre. Tirei o lixo e nada do cheiro ir embora. Continuei procurando e, como diz o ditado, quem procura acha. Achei! Embaixo da pia, escondida aos olhos, mas pungente ao nariz. </p><p>Abri a bendita e me arrependi de t&#234;-lo feito. N&#227;o era s&#243; o fedor que agredia. A vis&#227;o do que tinha crescido naquele restinho ex&#237;guo de feij&#227;o esquecido era algo assustador: uma col&#244;nia de fungos tinha tomado conta da pobre panela, que, diga-se de passagem, era do vizinho de baixo.</p><p>Como que tomado por um instinto de sobreviv&#234;ncia, tampei a panela e coloquei ela para fora de casa, no pequeno corredor que unia o meu apartamento com o do vizinho do lado. Junto com a panela, sa&#237; eu. Tinha aula naquela tarde. Assisti aquela aula somente com o corpo presente, uma vez que a minha cabe&#231;a estava fritando tentando achar uma solu&#231;&#227;o para encarar aquela nojeira. Eu precisava limpar aquilo e devolver a panela intacta para o meu vizinho. Era quest&#227;o de honra.</p><p>Ap&#243;s muito pensar, cheguei &#224; conclus&#227;o de que iria descolar uma m&#225;scara e umas luvas do laborat&#243;rio de qu&#237;mica e iria encarar aquela craca devidamente protegido. Assim que terminou a aula, fui at&#233; o laborat&#243;rio e falei com um conhecido sobre o meu problema e o que eu precisava. Ap&#243;s rir e me zoar, ele me emprestou o que eu pedi. A m&#225;scara eu teria que devolver. J&#225; as luvas ele falou para enterrar, j&#225; que o cheiro iria ficar impregnado &#8220;para sempre&#8221;.</p><p>Era j&#225; passado das 17h quando cheguei em casa com a sacola de equipamentos e com o esp&#237;rito preparado para encarar a bronca. Subi as escadas e comecei a andar at&#233; o meu apartamento. L&#225; estava a panela, no mesmo lugar que eu tinha deixado. Eu olhava fixamente para ela, como aqueles cowboys do velho oeste olhando para o advers&#225;rio, tentando prever o momento em que o outro iria sacar a arma. Fui chegando cada vez mais perto, cada vez mais perto, j&#225; estava tirando a m&#225;scara da sacola, pronto para coloc&#225;-la no nariz e abrir a porta do inferno, quando eu ou&#231;o a porta do vizinho abrir e ele me chamar.</p><p>&#8220;Essa panela &#233; de voc&#234;s?&#8221; &#8220;&#201; do Fulano, do andar de baixo. Por qu&#234;?&#8221; &#8220;A senhora que faz faxina aqui em casa achou ela fedendo no corredor e limpou&#8221;. Eu quase ca&#237; para tr&#225;s com a informa&#231;&#227;o. Corri at&#233; a panela e abri com o cora&#231;&#227;o acelerado. Ela estava brilhando! E sem nenhum resqu&#237;cio do aroma da morte que eu tinha sentido mais cedo.</p><p>Os tr&#234;s vizinhos do apartamento do lado do meu tinham contratado uma diarista para limpar o apartamento a cada duas semanas. Ela estava varrendo o corredor quando viu a panela cheirando mal e limpou.</p><p>Na mesma hora perguntei para o vizinho quanto eles pagavam de di&#225;ria. Entrei em casa, peguei uma sacola limpa, coloquei a panela dentro e desci conversar com o dono da mesma. Devolvi a bendita limpa e cheirosa para ele e contei toda a saga. Sugeri fazermos uma vaquinha eu, ele e o outro pi&#225; que havia participado do almo&#231;o para darmos uma di&#225;ria a mais para a senhora que limpou aquela panela. Todo mundo concordou, juntamos o dinheiro e entregamos para a &#8220;fada da panela&#8221;. Ela falou que n&#227;o precisava, que j&#225; tinha visto coisa pior, mas que agradecia o dinheiro e recomendou que n&#243;s sempre, depois de cozinhar feij&#227;o limp&#225;ssemos primeiro a panela de press&#227;o, porque, realmente, virava uma boca de bueiro se fosse esquecida suja.</p><p>************************</p><p>Esta foi a primeira parte deste passeio por alguns fatos curiosos sobre a minha vida de (pobre) estudante universit&#225;rio. A segunda parte sai ou na pr&#243;xima semana ou na outra ou mais tarde ainda. A data &#233; vari&#225;vel, mas garanto que sai. Pe&#231;o gentilmente que quem chegou at&#233; aqui, curta, compartilhe e comente.</p><p>At&#233; a pr&#243;xima!</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Crônicas do Interior # 13 – Escola]]></title><description><![CDATA[Aquela em que conto sobre bizarrices escolares]]></description><link>https://guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-13-escola</link><guid isPermaLink="false">https://guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-13-escola</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Ceolin]]></dc:creator><pubDate>Thu, 05 Mar 2026 12:44:40 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!UiKL!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd4e368ee-db9f-47b1-812d-a62e69f79217_1024x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Ah, a escola, este lugar em que somos obrigados a freq&#252;entar. Antigamente dos 7 aos 17 (quando eu estudei) e agora dos 4 aos 17, j&#225; que come&#231;a no Ensino Infantil (pr&#233;-escolar) e termina no Ensino M&#233;dio, tendo um ano a mais no Ensino Fundamental (1&#186; ao 9&#186; ano). Esses anos a mais na escola sempre deixam meus filhos indignados quando conto a eles como era quando eu estudava.</p><p>E tem tamb&#233;m as f&#233;rias, que eram mais longas, j&#225; que as aulas agora come&#231;am em fevereiro e v&#227;o at&#233; dezembro, sendo que, na minha &#233;poca, para usar uma t&#237;pica express&#227;o de tioz&#227;o, come&#231;avam l&#225; pelo dia 10 de mar&#231;o e iam at&#233; meados de dezembro, deixando quase todo o ver&#227;o livre para fazer....nada, muitas vezes. Sim, porque al&#233;m do fator &#8220;morar no interior&#8221; ainda existia o fator &#8220;pobreza&#8221;, que se somavam para fazer com que as f&#233;rias fossem o maior t&#233;dio poss&#237;vel, sem praia e sem viagens divertidas.</p><p>Praia eu s&#243; fui conhecer com mais de dez anos, e ainda assim foi pouco mais de uma semana, uma boa parte dela chovendo. Nada comparado a um coleguinha de escola que eu tinha, que ia para a praia em dezembro e s&#243; voltava no come&#231;o de mar&#231;o. Mas, voltando ao assunto desta cr&#244;nica de hoje: a escola e suas peculiaridades (ou bizarrices, escolha a palavra que lhe aprouver).</p><p>Para come&#231;ar, falei no primeiro par&#225;grafo que hoje as crian&#231;as come&#231;am aos 4 anos, na pr&#233;-escola e que antigamente n&#227;o era assim. Quer dizer que n&#227;o havia pr&#233;-escola na minha &#233;poca (express&#227;o de tioz&#227;o ataca novamente)? Olha, existir at&#233; existia, mas era opcional, ia quem queria. Inclusive, eu freq&#252;entei a pr&#233;-escola por uns tr&#234;s meses antes de pedir para sair. Se eu gostava? At&#233; comecei gostando, mas fui pegando ran&#231;o ao longo do tempo por diversos fatores.</p><p></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!gKMo!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F53a6a2ae-7f9f-43f6-9804-37bbed794d16_360x240.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!gKMo!, /__u/guilhermeceolin.substack.com/w_424, /__u/guilhermeceolin.substack.com/c_limit, /__u/guilhermeceolin.substack.com/f_webp, /__u/guilhermeceolin.substack.com/q_auto:good, /__u/guilhermeceolin.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F53a6a2ae-7f9f-43f6-9804-37bbed794d16_360x240.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!gKMo!, /__u/guilhermeceolin.substack.com/w_848, /__u/guilhermeceolin.substack.com/c_limit, /__u/guilhermeceolin.substack.com/f_webp, /__u/guilhermeceolin.substack.com/q_auto:good, /__u/guilhermeceolin.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F53a6a2ae-7f9f-43f6-9804-37bbed794d16_360x240.jpeg 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!gKMo!, /__u/guilhermeceolin.substack.com/w_1272, /__u/guilhermeceolin.substack.com/c_limit, /__u/guilhermeceolin.substack.com/f_webp, /__u/guilhermeceolin.substack.com/q_auto:good, /__u/guilhermeceolin.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F53a6a2ae-7f9f-43f6-9804-37bbed794d16_360x240.jpeg 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!gKMo!, /__u/guilhermeceolin.substack.com/w_1456, /__u/guilhermeceolin.substack.com/c_limit, /__u/guilhermeceolin.substack.com/f_webp, /__u/guilhermeceolin.substack.com/q_auto:good, /__u/guilhermeceolin.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F53a6a2ae-7f9f-43f6-9804-37bbed794d16_360x240.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!gKMo!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F53a6a2ae-7f9f-43f6-9804-37bbed794d16_360x240.jpeg" width="360" height="240" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/53a6a2ae-7f9f-43f6-9804-37bbed794d16_360x240.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:240,&quot;width&quot;:360,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:14608,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://guilhermeceolin.substack.com/i/189989820?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1e2a00fb-84be-4064-b830-5e6b37d22afd_360x360.jpeg&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!gKMo!, /__u/guilhermeceolin.substack.com/w_424, /__u/guilhermeceolin.substack.com/c_limit, /__u/guilhermeceolin.substack.com/f_auto, /__u/guilhermeceolin.substack.com/q_auto:good, /__u/guilhermeceolin.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F53a6a2ae-7f9f-43f6-9804-37bbed794d16_360x240.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!gKMo!, /__u/guilhermeceolin.substack.com/w_848, /__u/guilhermeceolin.substack.com/c_limit, /__u/guilhermeceolin.substack.com/f_auto, /__u/guilhermeceolin.substack.com/q_auto:good, /__u/guilhermeceolin.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F53a6a2ae-7f9f-43f6-9804-37bbed794d16_360x240.jpeg 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!gKMo!, /__u/guilhermeceolin.substack.com/w_1272, /__u/guilhermeceolin.substack.com/c_limit, /__u/guilhermeceolin.substack.com/f_auto, /__u/guilhermeceolin.substack.com/q_auto:good, /__u/guilhermeceolin.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F53a6a2ae-7f9f-43f6-9804-37bbed794d16_360x240.jpeg 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!gKMo!, /__u/guilhermeceolin.substack.com/w_1456, /__u/guilhermeceolin.substack.com/c_limit, /__u/guilhermeceolin.substack.com/f_auto, /__u/guilhermeceolin.substack.com/q_auto:good, /__u/guilhermeceolin.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F53a6a2ae-7f9f-43f6-9804-37bbed794d16_360x240.jpeg 1456w" sizes="100vw" fetchpriority="high"></picture><div></div></div></a></figure></div><p></p><p></p><p>Primeiro, o local: era debaixo da arquibancada do gin&#225;sio municipal. Sim, &#233; isso mesmo que voc&#234;s est&#227;o lendo, nada de sala de aula em uma escola feita para isso. Era na base da gambiarra mesmo. As arquibancadas dos gin&#225;sios, como voc&#234;s sabem, s&#227;o inclinadas e debaixo delas fica um v&#227;o, cujo teto acompanha o declive da estrutura. Portanto tem a parte mais baixa e a parte mais alta. Como est&#225;vamos todos na faixa de 4 a 6 anos, as carteiras escolares ficavam posicionadas na parte mais baixa, o suficiente para caber uma crian&#231;a em p&#233;, enquanto a lousa e demais materiais ficavam na parte alta, j&#225; que a professora era adulta e precisava, no m&#237;nimo, n&#227;o dar com a cabe&#231;a no teto inclinado. Falando em professora, ela era o ponto dois da minha insatisfa&#231;&#227;o.</p><p>Ela era uma boa professsora? Sem d&#250;vida! Todavia, sendo uma pessoa com o esp&#237;rito da &#233;poca, &#224;s vezes se passava um pouco na disciplina. Lembro de um coleguinha que era extremamente desbocado e que um dia falou &#8220;buceta&#8221; em voz alta e a professora, em vez de corrigir e ensinar que era errado dizer aquilo, deu um tap&#227;o na orelha do moleque que deixou vermelho por um bom tempo. S&#243; imagino o chiado que deve ter ficado, j&#225; que todo mundo ouviu o estouro da m&#227;o da professora com o p&#233; do ouvido da crian&#231;a.</p><p>Terceiro ponto: como sempre tive fasc&#237;nio pelas palavras, n&#227;o via a hora de aprender a ler e escrever. Minha m&#227;e n&#227;o me ensinava porque ela me dizia que se eu fosse para a escola j&#225; sabendo ler e escrever eu s&#243; ia incomodar os outros e atrapalhar a professora. Ela, como sempre, tinha raz&#227;o, era exatamente o que eu iria fazer. Ent&#227;o, imaginem a expectativa que eu estava de, finalmente, come&#231;ar a freq&#252;entar uma escola ou algo que o valha. Que decep&#231;&#227;o eu tive quando tudo que nos mandavam fazer era desenhar, pintar, recortar, rabiscar, colar coisas (os dedos, frequentemente), cantar musiquinhas, etc. Tudo o que eu at&#233; hoje sou meio avesso e com pouca habilidade. Nada de ler ou escrever, no m&#225;ximo desenhar as letras do pr&#243;prio nome.</p><p>Mas, a cereja do bolo foi o meu anivers&#225;rio de seis anos. Aquele em que n&#227;o s&#243; me deram um disco de vinil que eu n&#227;o tive como escutar at&#233; fazer 12 anos mas, tamb&#233;m viraram l&#237;quido na minha roupa quase me levando para o hospital com pneumonia, conforme j&#225; contei <a href="/__u/guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-9-e-ritmo-ritmo">aqui</a> e <a href="/__u/guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-6-o-radio-era">aqui</a>. A&#237;, quando finalmente fiquei bom para voltar para o prezinho, dez dias depois, foi o caos. Eu s&#243; chorei e incomodei at&#233; a minha m&#227;e se dar por vencida e me tirar daquele local. J&#225; que n&#227;o iam me ensinar a ler, eu toquei o horror at&#233; a professora preferir ver o tinhoso do que ver a minha fu&#231;a de novo.</p><p>Nunca mais encontrei aquela professora. Fiquei sabendo que ela acabou falecendo h&#225; alguns anos. Que descanse em paz j&#225; que eu n&#227;o tinha nada contra ela em particular. O que eu n&#227;o gostava eram das circunst&#226;ncias em que se dava o meu ensino pr&#233;-escolar.</p><p>***********************************</p><p>No ano seguinte a coisa mudou de figura. Entrei na primeira s&#233;rie do primeiro grau, como chamavam na &#233;poca. Finalmente, era em uma escola, com estrutura, sala de aula com o teto totalmente nivelado, lousa, carteiras, cadeiras, arm&#225;rio, etc. E uma professora de alfabetiza&#231;&#227;o muito querida e carinhosa, que dava dura quando precisava, mas nunca sequer amea&#231;ou bater em ningu&#233;m. A&#237; eu estava no para&#237;so, iria aprender a ler e escrever, finalmente. </p><p>Eu entrei com tanta vontade, tanto sangue nos olhos que aprendi a ler em menos de dois meses. Escrever com firmeza e coer&#234;ncia levou um pouco mais, mas mesmo assim, na metade daquele ano eu j&#225; estava plenamente alfabetizado. O meu &#250;nico problema era a merenda.</p><p>Naquela &#233;poca, era comum os pais dizerem que a gente deveria ser grato pela comida na mesa, n&#227;o fazer boquinha para comer e n&#227;o reclamar do que era servido, pois tinha muita crian&#231;a que passava fome e que muitas vezes s&#243; freq&#252;entava a escola para poder comer.</p><p>Isso era um assunto t&#227;o recorrente que eu entrei para a escola com a firme convic&#231;&#227;o de que aquela merenda n&#227;o era para mim. Que era para eu n&#227;o comer, para deixar para os alunos mais pobrezinhos, que iam para a escola sem terem tomado o caf&#233; da manh&#227; e, provavelmente, n&#227;o iriam ter o que almo&#231;ar. Portanto, quando era comida mesmo, tipo macarr&#227;o com sardinha, feij&#227;o e arroz, carne mo&#237;da, etc. eu n&#227;o comia. S&#243; comia quando era pipoca, bolinho frito, bolo, cachorro-quente, sandu&#237;che, enfim, quando eram dias especiais e comemorativos por algum motivo.</p><p>Acontece que tinha um tipo de bolinho frito que n&#227;o era bem redondinho, era mais espichado, em formato cil&#237;ndrico. Era feito da mesma massa, era frito do mesmo jeito, passado no a&#231;&#250;car e igualmente gostoso, as &#250;nicas coisas que os diferenciavam eram a f&#243;rmula para calcular seu volume, ao inv&#233;s de 4/3.pi.r<sup>3</sup>, era pi.r<sup>2</sup>.h, e o nome que davam: dedinho frito.</p><p>Acontece tamb&#233;m que eu tinha um coleguinha que tinha um dedo extranumer&#225;rio pendurado por um peda&#231;o de pele ao seu dedo m&#237;nimo. Era um dedinho pequeno, mas bem formado, com unhas e duas falanges. Eu, tendo meus sete anos na &#233;poca, nunca tinha visto algo desta natureza. Achei estranho, meio aterrorizante, porque n&#227;o sabia que isso poderia acontecer, mas nunca falei nada, nem perguntei nada, meus pais haviam me ensinado a respeitar as diferen&#231;as e n&#227;o ficar zoando ningu&#233;m.</p><p>Um belo dia, a crian&#231;a apareceu sem o dedinho extra. Somente com um sinalzinho no lugar daquele ap&#234;ndice digital. Obviamente, que ele deve ter feito uma pequena cirurgia para remover aquele dedo extra, mas eu, se j&#225; era ignorante sobre o fato daquele fato existir, era ainda mais limitado para pensar que era algo oper&#225;vel.</p><p>Resultado: parei de comer os dedinhos fritos da escola, pois, tendo sido criado ouvindo hist&#243;rias dos Irm&#227;os Grimm, imaginei que a tia da merenda poderia ter colocado aquele dedinho dentro do caldeir&#227;o que ela mexia (era uma panela industrial, algo que eu igualmente nunca tinha visto), o fritado, passado no a&#231;&#250;car e dado para n&#243;s comermos.</p><p>Hoje eu dou risada da minha ingenuidade infantil, mas na &#233;poca eu realmente fiquei com medo. Nunca mais vi a crian&#231;a do dedinho. Espero que tenha crescido saud&#225;vel e que tenha uma vida boa hoje.</p><p>******************************</p><p>Avan&#231;ando mais alguns anos, agora para a sexta s&#233;rie. Esta etapa da vida escolar, idealmente, acontece quando as crian&#231;as est&#227;o na faixa dos 12 a 13 anos. Todavia, eu tinha um colega mais velho, com seus 17 anos, que j&#225; tinha cabelo no peito e fazia a barba. Ele n&#227;o era violento nem praticava bullying com os colegas, era at&#233; gente boa, s&#243; se prevalecia no futebol, pois era muito maior e mais forte que os outros. Mas, era extremamente agitado e inquieto, sempre se mexendo e causando, soltava pum na sala de aula e botava a culpa nos outros, discutia aos berros com a professora e andava o tempo todo dentro da sala de aula ao inv&#233;s de copiar e fazer as tarefas escolares.</p><p>Em um destes passeios pela sala, ele se invocou com uma mosca chata que estava voando por l&#225;, perdida e el&#233;trica, como toda mosca. Virou quest&#227;o de honra ca&#231;&#225;-la e meu colega passou mais de meia hora perturbando todo mundo atr&#225;s do bicho. At&#233; que, finalmente, conseguiu dar um tapa no inseto volante, o suficiente para derrub&#225;-lo e deix&#225;-lo tonto. Ele pegou o animal com os dedos em pin&#231;a e o esmagou at&#233; sair uma coisa amarela de dentro. Ato cont&#237;nuo, ele comeu a mosca!</p><p>Eu sei, arghh!!!!!!!! Todos ficamos chocados com aquela atitude, a professora ficou t&#227;o p&#225;lida que achei que iria desmaiar ali mesmo. O pior n&#227;o foi isso: foi ele sair falando para todo mundo: &#8220;&#201; docinho! &#201; docinho! Experimentem, &#233; docinho!&#8221;.</p><p>***********************************</p><p>Avan&#231;ando um pouco mais, agora a hist&#243;ria j&#225; se passa no 2&#186; Grau. Nesta altura da vida escolar, o filtro &#233; maior, j&#225; que o funil se estreita e menos gente chega nesta etapa. Todavia, dentre os que chegam, muitos continuam t&#227;o indisciplinados quanto o eram no 1&#186; Grau. Por isso, o causo envolve outro colega meio matusquela, igualmente gente boa e que n&#227;o fazia mal a ningu&#233;m, exceto a ele mesmo.</p><p>Enquanto o comedor de mosca dos par&#225;grafos acima era extremamente agitado e perturbava as aulas de maneira ativa, esse era calmo igual &#225;gua de po&#231;o. N&#227;o incomodava e quase n&#227;o falava. Era at&#233; passivo demais durante as aulas, nunca interagia nem perguntava nada. E tamb&#233;m n&#227;o aprendia, pois estava repetindo o 1&#186; ano pela segunda vez, tendo j&#225; seus quase 18 anos. Mas, se ele n&#227;o falava como afirmar que era meio problem&#225;tico?</p><p>Bom, para fazer justi&#231;a ao sujeito, n&#227;o &#233; que ele n&#227;o falasse, ele s&#243; n&#227;o come&#231;ava os di&#225;logos, se pux&#225;ssemos assunto, ele conversava normal e era at&#233; bem agrad&#225;vel, gostava muito de rock e heavy metal e dizia que tocava guitarra, embora nunca tenhamos visto. O problema dele era a in&#233;rcia, tanto de repouso quanto de movimento e era neste segundo ponto que a vaca torcia o rabo: o sujeito era muito suscet&#237;vel a influ&#234;ncias, o famoso &#8220;pilha errada&#8221; com diz&#237;amos no interior. Bastava algu&#233;m provocar e dizer: &#8220;duvido que voc&#234; fa&#231;a tal coisa&#8221;. </p><p>Pronto, era a senha para o sujeito se transformar no Fan&#225;tico da Marvel. Ele n&#227;o iria parar at&#233; provar que era capaz de fazer aquilo que os outros duvidavam. E a&#237;, obviamente, que sempre tinha algu&#233;m com esp&#237;rito de porco e um diabinho em um ombro para ati&#231;ar o cara.</p><p>Um belo dia, o meu colega apareceu de sobretudo na escola. At&#233; a&#237;, tudo bem, era inverno, embora n&#227;o estivesse frio para tanto e o filme Matrix n&#227;o tinha ainda sido lan&#231;ado para ele estar imitando o Neo. Um pouco estranho, mas ok. Tivemos as aulas normalmente e ele se manteve calado toda a primeira metade do turno escolar como de costume. </p><p>O sinal tocou anunciando o recreio. Toda a turma saiu da sala e eu e meus amigos mais chegados fomos para o nosso canto costumeiro jogar conversa fora. Estranhamos porque o sujeito de sobretudo n&#227;o veio ter conosco, pois ele sempre colava na gente para conversar sobre bandas de rock. Pensamos: vai ver ele estava com dor de barriga, pois o vimos entrando no banheiro e n&#227;o vimos sair.</p><p>O sinal tocou novamente para voltarmos para a sala. Entramos, nos acomodamos, entrou a professora de matem&#225;tica, fechou a porta. E o colega nada de aparecer. Come&#231;amos a ficar apreensivos. O que havia acontecido? Ser&#225; que ele estava passando mal? Cinco ou seis minutos se passaram e o sujeito abriu a porta. Lentamente ele foi entrando, mas, ao inv&#233;s de ir para o lugar dele, parou no meio da sala, entre duas filas de carteiras, tentando ficar o mais eq&#252;idistante poss&#237;vel de todos os cantos da sala.</p><p>A professora, assim que terminou de escrever na lousa e se virou para conversar com a turma, deparou-se com aquela cena: um rapaz magro, alto e barbudo, de sobretudo preto parado igual uma est&#225;tua no meio da sala. Ela arregalou os olhos surpresa e perguntou: &#8220;Fulano, o que est&#225; fazendo a&#237;? V&#225; para o seu lugar&#8221;. Ele falou: &#8220;J&#225; vou, professora, mas antes tenho que fazer isso&#8221;. E abriu o sobretudo. </p><p>Ele estava s&#243; de cueca, meia e t&#234;nis por baixo daquela vestimenta. A professora deu um grito de susto e ele come&#231;ou a cantar a rebolar, abrindo e fechando o sobretudo no meio da sala de aula. Passado o choque inicial, come&#231;amos a rir, pois a cena era engra&#231;ada de t&#227;o dantesca.</p><p>A professora largou tudo como estava e saiu da sala. Dali uns minutos voltou com o diretor para recolher o exibicionista e tomar as provid&#234;ncias. Resultado: uma semana de suspens&#227;o para ele e uma reuni&#227;o de pais e alunos para toda a escola sobre ter suas pr&#243;prias opini&#245;es, n&#227;o fazer o que os outros fazem, n&#227;o comprar as ideias erradas, etc. </p><p>Pois, segundo nosso colega, ele s&#243; fez aquele show (de horror!) porque dois pi&#225;s duvidaram que ele teria coragem. Da&#237;, na hora do recreio, ele se trancou no banheiro, tirou a roupa e ficou esperando o in&#237;cio da aula para mostrar que ele era capaz de fazer qualquer coisa que duvidassem.</p><p>Ele n&#227;o foi mais meu colega, pois repetiu de ano novamente e acabou optando por fazer um supletivo para terminar o 2&#186; Grau. A &#250;ltima not&#237;cia que eu soube &#233; que ele havia sido eleito vereador em uma cidadezinha qualquer da regi&#227;o l&#225; de onde vim. Acho que algu&#233;m acabou dizendo para ele: &#8220;duvido voc&#234; ganhar uma elei&#231;&#227;o&#8221;. E a&#237;, ele foi l&#225; e fez, s&#243; para mostrar que era capaz.</p><p>Por hoje &#233; s&#243; pessoal. Comentem abaixo se algu&#233;m tem alguma hist&#243;ria bizarra, esquisita e/ou inusitada sobre o tempo da escola.</p><p>At&#233; a pr&#243;xima!</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Crônicas do Interior #12 – Casa]]></title><description><![CDATA[Aquela em que falo sobre as vicissitudes da moradia]]></description><link>https://guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-12-casa</link><guid isPermaLink="false">https://guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-12-casa</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Ceolin]]></dc:creator><pubDate>Fri, 06 Feb 2026 13:00:14 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!p4lt!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4a6e8e6a-5a64-4540-854f-1903f2fe5667_1024x936.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Uma das coisas que ainda s&#227;o poss&#237;veis de se fazer em certas cidades do interior do Brasil &#233; morar em casa, na rua mesmo, sem ser em condom&#237;nio fechado. N&#227;o quer dizer que n&#227;o existam problemas de seguran&#231;a. Eles existem sim, mas a propor&#231;&#227;o &#233; pequena o suficiente para as pessoas ainda terem o objetivo de constru&#237;rem ou comprarem uma casa de frente para uma rua com jardim, quintal e um port&#227;o com uma caixinha do correio pendurada.</p><p>Por isso hoje, irei contar algumas experi&#234;ncias passadas em algumas das diversas casas em que morei ao longo da vida.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!p4lt!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4a6e8e6a-5a64-4540-854f-1903f2fe5667_1024x936.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!p4lt!, /__u/guilhermeceolin.substack.com/w_424, /__u/guilhermeceolin.substack.com/c_limit, /__u/guilhermeceolin.substack.com/f_webp, 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Pois bem, ap&#243;s ambos conseguirem um emprego que garantisse o de beber e o de comer, resolvemos juntar nossas escovas de dente e procuramos um lugar para morar. Como ela &#233; curitibana (mas, &#233; gente boa, at&#233; cumprimenta no elevador e diz bom dia para o pessoal da feira), e como nos conhecemos em Porto Alegre (minha &#250;nica experi&#234;ncia morando em alguma capital), nunca tinha morado no interior. Por isso, foi um choque descobrir que neste tipo de cidade fora de grandes centros urbanos existiam muitas casas baixas para alugar/comprar e que as pessoas viviam bem tranq&#252;ilas e despreocupadas fora dos port&#245;es de um condom&#237;nio fechado.</p><p>Mesmo assim, decidimos alugar uma casa em um semi-condom&#237;nio, o que significava que as casas, ainda que tivessem livre acesso para ir e vir, eram <s>amontoadas</s> geminadas. Apesar de aumentar a sensa&#231;&#227;o psicol&#243;gica de seguran&#231;a dela, logo alguns problemas apareceram, principalmente a falta de privacidade. Como era um conjunto habitacional meio barato, as paredes n&#227;o eram aquele primor de isolamento ac&#250;stico. N&#227;o chegava ao c&#250;mulo de voc&#234; saber o que o vizinho fazia no banheiro todo dia de manh&#227;, mas algumas conversas e sons peculiares eram de conhecimento do condom&#237;nio inteiro. Pelo menos das casas mais intimamente coladas.</p><p>Pois bem, as casas eram geminadas em trios, ou seja, <a href="https://www.youtube.com/watch?v=ZZ9oHyIEUh0&amp;t=63s">uma casa no meio com duas outras casas fazendo sandu&#237;che</a>. Adivinha onde fomos morar? Acert&#244;, miser&#225;vi! No meio! Pois era a casa que periodicamente ficava vazia e dispon&#237;vel para aluguel, o motivo logo descobrimos.</p><p>No lado direito de quem olha da rua, morava um senhorzinho aposentado com alguns agregados, que acredito que fossem a filha, o genro e dois netos, al&#233;m da esposa (digo acredito, porque nunca perguntamos para ter certeza). Este senhor fumava um cigarro colado no outro, nunca tinha visto ningu&#233;m fumar tanto. Era sair para rua ou olhar pela janela e l&#225; estava o homem pitando um. Pelo menos, n&#227;o fumava dentro de casa e preservava as crian&#231;as e por isso mesmo, estava sempre do lado de fora, no jardim, ou em p&#233; ou sentado em uma mureta. At&#233; descobrir o nome dele, apelidei de <em>Smoking Man</em>, em alus&#227;o ao personagem do Arquivo X.</p><p>Era uma criatura que n&#227;o fazia mal para ningu&#233;m, nunca incomodou, nunca se meteu na vida alheia. N&#227;o h&#225; nada de desabonador a dizer do <em>Smoking Man</em>. E de vez em quando, at&#233; ajudava. Certa vez, minha esposa chegou em casa da rua e disse: &#8220;fecha as janelas que est&#225; vindo um temporal em cinco minutos&#8221;. Olhei para fora com surpresa, e realmente, estava bastante nublado, mas nada que indicasse que a chuva estava nessa imin&#234;ncia de acontecer. Mas, como ela falou aquilo com tanta convic&#231;&#227;o e estava vindo da rua, n&#227;o contestei, s&#243; fechei as janelas e coloquei a cobra de areia na porta, porque &#224;s vezes o vento empurrava a &#225;gua da chuva para dentro por debaixo da mesma.</p><p>Em pouco mais de cinco minutos, o vento passou a soprar mais forte, seguiram-se raios e trov&#245;es e a chuva despencou com uma f&#250;ria imensa. Uma tempestade de ver&#227;o daquelas enormes. Em poucos minutos choveu uma quantia absurda que chegou a alagar algumas ruas de cidade por um tempo. Conosco nada aconteceu, nem a luz chegou a faltar. Todavia, se estiv&#233;ssemos na rua ou com alguma janela aberta, poderia ter dado ruim. A forma contundente que a minha esposa usou para avisar do temporal foi decisiva para eu levantar meu traseiro gordo do sof&#225; e ajudar a fechar tudo rapidamente.</p><p>Por isso, passada a chuva, resolvi perguntar como ela tinha tanta certeza do tamanho da tempestade e do timing em que ela ocorreria. Ela disse que ela n&#227;o sabia de nada, quem avisou foi o vizinho, o <em>Smoking Man.</em> Ela me disse que assim que colocou o carro na garagem, o vizinho apareceu no port&#227;o e disse: &#8220;Cinco minutos&#8221;. E ela ficou ??????. &#8220;Em cinco minutos vai acontecer o qu&#234;?&#8221; &#8220;Vai dar uma baita tempestade, acho que pode at&#233; cair <em>granito </em>(sic)&#8221;. T&#227;o incisivo fora o vizinho que ela entrou em casa e j&#225; repassou a informa&#231;&#227;o para tomarmos provid&#234;ncia. Assim que ela me contou que fora o <em>Smoking Man</em> quem dera o alerta, inclusive com a precis&#227;o do hor&#225;rio, passamos a especular como ser&#225; que ele sabia.</p><p>Ap&#243;s deliberarmos por longos tr&#234;s minutos, chegamos &#224; conclus&#227;o que ele tinha tanta fuma&#231;a no corpo que funcionava como um bar&#244;metro: quando a press&#227;o do ar diminu&#237;a, indicando tempestade, a fuma&#231;a se deslocava para certo lado, e quando a press&#227;o do ar aumentava, indicando tempo bom, os flu&#237;dos se deslocavam para outro lado. Ele sentia essa movimenta&#231;&#227;o dentro do organismo e interpretava os sinais, igual o meu pai que, por muito tempo, jurou que sempre que a cicatriz da cirurgia dele de apendicite do&#237;a era sinal de que iria chover.</p><p>Contei esse fato para ilustrar que o <em>Smoking Man</em>, por estar sempre fumando, vivia para fora de casa, observando e tirando conclus&#245;es sobre a vida, o universo e tudo o mais. E isso serve de pre&#226;mbulo para contar a hist&#243;ria da vizinha da casa do outro lado da nossa, o lado esquerdo. Era uma professora de meia idade, devia ter entre trinta e muitos e quarenta e poucos. Igualmente uma pessoa muito boa, sa&#237;a para trabalhar de manh&#227; cedo e voltava no final da tarde, sempre na dela, n&#227;o dava palpite e n&#227;o incomodava, exceto.... quando o namorado ia passar o final de semana na casa dela. Da&#237;, meus amigos, parecia um namoro de gatos. Eram gritos, gemidos, sussurros, pedidos, informa&#231;&#245;es anat&#244;micas e etc. (e o etc. era igualmente intenso).</p><p>Em uma bela noite de ver&#227;o de um s&#225;bado qualquer, o casal resolveu que iria se empolgar um pouco mais cedo do que de costume e como estava quente, deixou a janela aberta, de modo que o espet&#225;culo espalhou-se pela vizinhan&#231;a. Minha esposa foi at&#233; a janela para fech&#225;-la, no intuito de diminuir o &#8220;ru&#237;do&#8221; externo, porque, n&#233;, ouvir a intimidade de outras pessoas &#233; legal na teoria.... na pr&#225;tica n&#227;o &#233; tudo isso.</p><p>Assim que ela chegou no parapeito para fechar a persiana, viu o <em>Smoking Man</em> sentado na mureta fumando. At&#233; cont&#237;nuo, ela se virou para mim e disse: &#8220;Bota um cal&#231;ado nos p&#233;s. Vamos descer dar uma volta no condom&#237;nio&#8221;. Eu: &#8220;Por qu&#234;?&#8221; Ela: &#8220;Porque o <em>Smoking Man</em> est&#225; l&#225; sentado fumando e n&#227;o sei se ele sabe que quem geme desse jeito &#233; a vizinha. Vamos descer para deixar claro que n&#227;o sou eu&#8221;. Mais uma vez, como a <s>ordem</s> argumenta&#231;&#227;o foi bastante direta, n&#227;o contestei. Coloquei um chinelo e descemos. Andamos para um lado, andamos para o outro, sentamos em uma das muretas e fingimos que est&#225;vamos apreciando a paisagem. E o casal mandando ver. A coisa estava boa, pelo jeito.</p><p>O <em>Smoking Man</em> terminou o cigarro e veio em nossa dire&#231;&#227;o. Nos cumprimentou e sentou perto de n&#243;s. <em>Small talk</em> padr&#227;o: &#8220;noite bonita, n&#233;?&#8221;, &#8220;calor hoje&#8221;, &#8220;olha a lua, que linda!&#8221;. E a trilha sonora de fundo parecendo uma mistura do gemid&#227;o do Zap com o disco da Jane Birkin com o Serge Gainsbourg. At&#233; que, de repente, fez-se o sil&#234;ncio. O casal havia cumprido a pauta da noite e provavelmente iria dormir. Nisso o <em>Smoking Man</em> comentou: &#8220;ainda bem que terminaram o servi&#231;o. Agora posso voltar para casa.&#8221; N&#227;o me contive. Tive que perguntar: &#8220;O que uma coisa tem a ver com a outra?&#8221; Ele respondeu, did&#225;tico: &#8220;Eu tenho que sair de casa porque se minha mulher resolver se empolgar e quiser sexo, eu n&#227;o irei conseguir fazer o que o Fulano faz com a Fulana para ela gritar desse jeito. Ele deve ter um pau desse tamanho, o meu mal e mal serve para mijar. Nem com uma caixa de Viagra eu consigo isso tudo. Prefiro sair de casa para n&#227;o dar ideia&#8221;.</p><p>***********************************************************************************************</p><p>Avan&#231;ando no tempo, fomo trocando de trabalho e de cidade, conforme as oportunidades fossem se apresentando, sempre no interior e sempre procurando morar em casa. Ainda mais que resolvemos ter filhos. E um cachorro. Certo dia, na porta da escola, minha filha, ent&#227;o com 5 anos, apareceu com um caixinha de sapato com um filhot&#227;o de pardal machucado dentro. Ela me explicou que estava brincando no gin&#225;sio da escola, quando o passarinho bateu no vidro e despencou l&#225; de cima, todo machucado. Ela pegou o bichinho, pediu uma caixinha para a professora e disse que iria cuidar do pobre animal ferido.</p><p>Fiz uma r&#225;pida inspe&#231;&#227;o na avezinha e constatei que n&#227;o iria durar muito tempo. Fora a asa quebrada, havia um filete de sangue escorrendo pelo bico, indicando, provavelmente, uma hemorragia interna. De qualquer forma, levei a crian&#231;a e o novo pet para casa. Expliquei que ir&#237;amos cuidar do bicho, mas que ele estava muito machucado e que provavelmente iria morrer, n&#227;o interessando o quanto n&#243;s fiz&#233;ssemos por ele. Ela se conformou e disse que n&#227;o tinha problema, o importante era que d&#233;ssemos aten&#231;&#227;o ao moribundo.</p><p>Em casa, peguei uma seringuinha para tentar hidratar o bichinho, fizemos uma mistura de fub&#225; com &#225;gua para dar um pouco de comida para ele. Colocamos algod&#227;o e uns trapos na caixa para deixar o bicho aquecido. Ele ficou t&#227;o confort&#225;vel que cantou um monte. At&#233; havia uma certa esperan&#231;a que pud&#233;ssemos salvar aquela pobre alma desafortunada. Minha filha estava radiante com a possibilidade de que desse certo. Aos nossos p&#233;s, o c&#227;o da fam&#237;lia, uma Border Collie, s&#243; observava atentamente a movimenta&#231;&#227;o.</p><p>Na manh&#227; seguinte, quando fui alimentar o c&#227;o, resolvi dar uma olhada na caixinha para ver como estava o passarinho. Encontrei-o morto, como era de se esperar. Bastante sangue coagulado escorrendo do bico. &#201;, pelo jeito, era uma hemorragia interna e n&#227;o tinha muito que pudesse ser feito.</p><p>Esperei a crian&#231;ada acordar e expliquei para eles que o passarinho n&#227;o havia resistido, que ele havia se machucado muito, que fizemos o melhor que pod&#237;amos e que, naquele momento, s&#243; restava dar um enterro digno. </p><p>Minha esposa conduziu as cerim&#244;nias f&#250;nebres. Fizemos uma ora&#231;&#227;o ao Deus Ave Supremo para que o passarinho subisse aos c&#233;us sem percal&#231;o e pudesse voar por toda a eternidade. Cada um disse algumas palavras em homenagem ao pequenino. Minha filha s&#243; falou um &#8220;descanse em paz&#8221; e meu filho mais velho, na &#233;poca com 7 anos, comentou: &#8220;N&#227;o posso falar muita coisa porque n&#227;o tive tempo de conhecer o bichinho muito bem, mas acredito que tenha sido um bom passarinho&#8221;. Cavamos um buraco bem profundo e enterramos a desafortunada ave no quintal. E o c&#227;o sentado ao nosso lado, s&#243; olhando, sem dizer uma palavra (ainda bem!)</p><p>Na manh&#227; seguinte, quando fui alimentar o c&#227;o, como de costume, o bicho j&#225; estava me esperando, sentado bem rente &#224; porta do quintal. Olhei para ela, ela olhou de volta e soltou o passarinho nos meu p&#233;s, todo sujo de terra, mastigado e sem cabe&#231;a. A miser&#225;vel da cachorra havia desenterrado a pobre ave, um caso claro de viola&#231;&#227;o de sepulcro com vilip&#234;ndio a cad&#225;ver. Fiz cara feia para o c&#227;o, falando alto e deixando muito expl&#237;cito que n&#227;o gostei do que ela fez. Ela colocou o rabo entre as pernas e foi deitar em um cantinho. Peguei um peda&#231;o de papel-toalha, embalei o pequeno pardal decapitado e me dirigi at&#233; um terreno baldio no final da rua. Joguei o <s>presunto</s> morto o mais longe que pude em meio ao capinzal do terreno, para garantir que, pelo menos, o meu bicho de estima&#231;&#227;o n&#227;o fosse l&#225; perturbar o descanso eterno daquela avezinha azarada.</p><p>**********************************************************************************</p><p>Ainda minha filha: um certo dia, ela entrou em casa reclamando que tinha sem querer pisado em um inseto verde e que esse inseto fedia muito, uma coisa horr&#237;vel! Assim que vi o bicho, expliquei que o nome era Fede-Fede e que, realmente, ele tinha aquele cheiro muito desagrad&#225;vel como forma de defesa.</p><p>Alguns dias depois, ela estava fazendo a tarefa da escola na mesa da sala, quando um inseto entrou voando e pousou perto dela. Ela, rapidamente, gritou: &#8220;Olha, pai, aquele bicho que voc&#234; falou. O Fezes-Fezes!&#8221; </p><p>****************************************************************************************</p><p>Essas foram algumas das hist&#243;rias peculiares vividas ao longo destes anos morando em diversas casas nas mais diferentes localidades pelos interiores do Brasil.</p><p>E voc&#234;s, quais experi&#234;ncias inusitadas tiveram com vossas moradias? Comentem abaixo.</p><p>At&#233; a pr&#243;xima!</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Crônicas do Interior # 11 – As boas influências]]></title><description><![CDATA[Aquela em que eu falo sobre minhas inspira&#231;&#245;es na escrita]]></description><link>https://guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-11-as-boas-influencias</link><guid isPermaLink="false">https://guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-11-as-boas-influencias</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Ceolin]]></dc:creator><pubDate>Wed, 31 Dec 2025 19:53:58 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!MCos!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F97b32640-aae4-4510-bbc0-7ef60cbccd4e_359x613.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>E chega ao fim 2025. Lembro que a coisa que eu mais gostava de fazer sempre que terminava um ano era acompanhar a retrospectiva em algum programa de televis&#227;o, principalmente o obitu&#225;rio, para relembrar quem havia deixado o plano terreno naquele ano quase velho.</p><p>Agora, com este quarto de s&#233;culo quase chegando aos seus &#250;ltimos minutos, gostaria de deixar registrado em forma de texto, minha homenagem a algumas pessoas que, apesar de j&#225; n&#227;o estar mais entre n&#243;s, influenciaram e ainda influenciam tanto no meu gosto como leitor quanto na forma que (tento) escrever.</p><p>Pra come&#231;ar, n&#227;o podia deixar de fora do primeiro lugar um grande g&#234;nio das letras que foi fundamental tanto para a minha forma&#231;&#227;o como leitor quanto nos primeiros passos que dei como (arremedo) de escritor: Lu&#237;s Fernando Ver&#237;ssimo, o LFV.</p><p>N&#227;o lembro exatamente como fiquei sabendo da exist&#234;ncia dele, provavelmente pelas tirinhas da edi&#231;&#227;o dominical do jornal Zero Hora, que meu pai, como todo bom ga&#250;cho, assinava. Embora eu n&#227;o entendesse muito dos assuntos tratados, adorava ler as <strong>Aventuras da Fam&#237;lia Brasil</strong>, j&#225; que era em quadrinhos e eu, rec&#233;m alfabetizado, ainda trope&#231;ava em leituras mais longas.</p><p>Um tempo depois, fu&#231;ando nas estantes do escrit&#243;rio do meu pai, me deparei com o livro do <strong>Analista de Bag&#233;</strong> (1981). No come&#231;o achei esquisito, pois tinha uma capa meio feia, com um ga&#250;cho bigodudo e descal&#231;o, sentado em um tapete de pele de boi, tomando mate e olhando feio para uma criatura deitada em um div&#227; com a maior cara de terror. Quando li quem era o autor, reconheci o nome familiar, das tirinhas da Zero Hora.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!MCos!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F97b32640-aae4-4510-bbc0-7ef60cbccd4e_359x613.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!MCos!, /__u/guilhermeceolin.substack.com/w_424, /__u/guilhermeceolin.substack.com/c_limit, /__u/guilhermeceolin.substack.com/f_webp, /__u/guilhermeceolin.substack.com/q_auto:good, /__u/guilhermeceolin.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F97b32640-aae4-4510-bbc0-7ef60cbccd4e_359x613.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!MCos!, /__u/guilhermeceolin.substack.com/w_848, 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Sentei no sof&#225;, comecei a ler e... n&#227;o parei mais. Achei aquilo tudo muito engra&#231;ado, embora, novamente, n&#227;o tivesse a maturidade suficiente para entender todas as piadas e a grande ironia que era o contraste do personagem: um gauch&#227;o da fronteira do RS, mais grosso que parafuso de patrola, trabalhando em uma profiss&#227;o tida como sofisticada e erudita, a de psicanalista freudiano.</p><p>A partir dali, comecei a sempre procurar nas bibliotecas, tanto na municipal quanto na da escola, os livros do LFV, tendo me deparado primeiro com o <strong>Ed Mort</strong>, outra grande ironia em forma de personagem: um detetive <em>noir</em>, no melhor estilo Raymond Chandler, mas brasileiro, pobre e morando no Rio de Janeiro, uma das cidades mais tropicais e ensolaradas do Brasil. </p><p>Depois vieram as Com&#233;dias da Vida Privada, as adapta&#231;&#245;es de suas hist&#243;rias para quadrinhos (desenhadas por Miguel Paiva, criador da <strong>Radical Chic</strong>, que teve um programa de televis&#227;o, interpretada pela Andr&#233;ia Beltr&#227;o) e etc.</p><p>Descobri tamb&#233;m que ele era filho do &#201;rico Ver&#237;ssimo, que por coincid&#234;ncia, era o nome da escola que meus pais davam aula e aonde eu viria a cursar meu 2&#186; grau. E mais um leque de oportunidades se abriu, pois quis ler os romances do &#8220;seu&#8221; &#201;rico tamb&#233;m, embora eu sempre tenha preferido a obra do LFV mesmo, principalmente as cr&#244;nicas, que &#233; um dos g&#234;neros que eu mais gosto e admiro, tanto para ler quanto para escrever.</p><p>Sendo assim, a segunda grande influ&#234;ncia que tive na minha jornada de forma&#231;&#227;o como aspirante a escritor foi um outro cronista, nascido no bairro do IAPI em Porto Alegre. Lembro, igualmente, de estar folheando a Zero Hora e me deparar com um dos textos dele em um coluna esportiva. Porque, n&#227;o sei voc&#234;s, mas eu sempre tive o costume de ler o jornal pela &#250;ltima p&#225;gina, come&#231;ando na se&#231;&#227;o esportiva, em seguida passando pela parte cultural, onde tinham as tirinhas, a programa&#231;&#227;o da TV e as cruzadinhas. E justamente em uma dessas colunas do caderno de esportes estava uma cr&#244;nica assinada por um jornalista at&#233; ent&#227;o desconhecido por mim, um tal de David Coimbra.</p><p>Li a cr&#244;nica e gostei muito do estilo de escrita: leve, com um <em>story telling</em> perfeitamente encadeado e de humor fino e muito bem colocado, lembrando um pouco LFV, mas com personalidade pr&#243;pria. Eu que tinha ali meus 12, 13 anos, comecei a perceber que era esse tipo de escrita que eu gostava, tanto enquanto leitor quanto como &#8220;escritor&#8221;, j&#225; que passei a tentar emular o estilo destes cronistas nos textos da escola (nem sempre com a compreens&#227;o das professoras, j&#225; que as piadocas &#224;s vezes eram meio ruins).</p><p>Mais tarde um pouquinho, eu, que adorava assistir humor&#237;sticos na televis&#227;o, como Chico An&#237;sio Show, Os Trapalh&#245;es, Escolinha do Professor Raimundo, etc., tomei conhecimento de que as falas e piadas destes programas n&#227;o eram inventadas na hora pelos atores, mas sim escritas por uma equipe de roteiristas. A partir da&#237; passei a prestar aten&#231;&#227;o nos nomes de quem fazia a reda&#231;&#227;o dos programas, mas como era uma &#233;poca pr&#233;-internet, era muito dif&#237;cil saber mais a respeito das pessoas por tr&#225;s das piadas engra&#231;adas do Sai de Baixo ou do Casseta &amp; Planeta.</p><p>Na virada do s&#233;culo, j&#225; universit&#225;rio e conectado na <em>highway</em> da hiper-informa&#231;&#227;o pela sensacional internet discada (da meia noite &#224;s 6:00h e ap&#243;s &#224;s 14h dos s&#225;bados), consegui, finalmente, pesquisar e descobrir coisas at&#233; ent&#227;o inacess&#237;veis. Nesta mesma &#233;poca, estreou <strong>Os Normais</strong> na TV Globo, toda sexta-feira ap&#243;s a novela das oito, que come&#231;ava &#224;s nove.</p><p>Simplesmente adorei aquilo! O ritmo, as piadas, a escrotid&#227;o e a maluquice total dos personagens Rui e Vani me faziam s&#243; sair de casa para curtir o <em>#sextou</em> ap&#243;s o programa terminar. Desta vez, com acesso &#224; informa&#231;&#227;o, prestei aten&#231;&#227;o em quem escrevia o programa e me deparei com um nome feminino, <strong>Fernanda Young</strong>, que fazia parceria nos roteiros com o marido dela, Alexandre Machado.</p><p>Fiquei impressionado e surpreso com o fato de uma mulher escrever aquele tipo de piada, j&#225; que, no meu mundo de macho branco cis-h&#233;tero ignorante do come&#231;o do s&#233;culo, eu n&#227;o conhecia nenhuma mulher que escrevesse humor, s&#243; atrizes que interpretavam personagens humor&#237;sticos, n&#227;o raro totalmente caricatas, de programas de TV (a feia engra&#231;ada, a gostosa burra, etc.).</p><p>Fiquei fascinado pelo texto da Fernanda Young, ainda mais depois de ficar sabendo que ela era uma das roteiristas da s&#233;rie <strong>Com&#233;dias da Vida Privada</strong>, adapta&#231;&#227;o televisiva da obra do LFV, que eu, igualmente, adorava assistir em meados da d&#233;cada de 1990. </p><p>Re-assisti a <strong>Os Normais</strong> recentemente no <em>streaming</em> e, apesar de um monte de piadas muito problem&#225;ticas hoje em dia, o texto ainda funciona e faz rir, confirmando que ela era uma grande escritora de com&#233;dia. </p><p><em>&#8220;Ah, mas ela n&#227;o era cronista. Voc&#234; n&#227;o falou que a cr&#244;nica era um dos seus g&#234;neros favoritos?&#8221;</em>. Sim, de fato, adoro ler cr&#244;nicas bem escritas. Acho uma del&#237;cia, inclusive, livros deste g&#234;nero liter&#225;rio. Todavia, programas como <strong>Os Normais</strong> (com dura&#231;&#227;o de 20-30 minutos) s&#227;o os equivalentes na m&#237;dia televisiva ao que &#233; a cr&#244;nica nas m&#237;dias escritas. Portanto, Fernanda Young foi sim uma grande cronista da vida cotidiana, embora tenha se consolidado na telinha.</p><p>Infelizmente, Lu&#237;s Fernando Ver&#237;ssimo fez a passagem derradeira em agosto de 2025, aos 88 anos de idade, ap&#243;s uma longa convalescen&#231;a devido a um AVC que sofreu em 2021. Por sua vez, David Coimbra nos deixou em maio de 2022, aos 60 anos, ap&#243;s lutar contra um c&#226;ncer por dez anos. E Fernanda Young faleceu aos 49 anos em decorr&#234;ncia de uma forte crise de asma em agosto de 2019. Ou seja, meu her&#243;is morreram, n&#227;o de overdose, como cantou Cazuza, mas de diferentes causas naturais as quais todos estamos sujeitos. </p><p>No primeiro par&#225;grafo deste texto comentei que a parte que eu mais gostava nas retrospectivas de final de ano era o obitu&#225;rio, para saber quem havia morrido nos &#250;ltimos 365 dias anteriores. Apesar do que possa parecer, eu n&#227;o prestava maior aten&#231;&#227;o ao obitu&#225;rio por alguma curiosidade m&#243;rbida ou por ter algum fetiche estranho (sou normal, minha m&#227;e que disse. E bonito, ela tamb&#233;m confirma), mas sim para nunca perder a no&#231;&#227;o de que todo mundo morre e para tentar n&#227;o esquecer quem valia a pena n&#227;o ser esquecido.</p><p>Diz-se que na cultura mexicana, se acredita que morremos n&#227;o uma, mas tr&#234;s vezes: a primeira, quando tomamos consci&#234;ncia de que vamos morrer um dia; a segunda, quando morremos de fato e a terceira, quando nos esquecem. Por isso, a festa do <em>D&#237;a de los Muertos</em> &#233; uma celebra&#231;&#227;o, alegre e animada, ao contr&#225;rio do que se poderia esperar de um momento destinado a lembrarmos de quem se foi.</p><p>Ao se fazer uma festa e se celebrar aqueles que nos deixaram, celebramos a vida dos que aqui est&#227;o e impedimos que a mem&#243;ria daquelas pessoas queridas evanes&#231;am, como l&#225;grimas na chuva.</p><p>Ao escrever sobre estas pessoas que me formaram como leitor e como (simulacro de) escritor, eu tento contribuir para evitar a terceira morte dos mesmos, da mesma forma que todo mundo que compra e l&#234; suas obras.</p><p>Como fechamento deste texto, desejo que 2026 seja um ano melhor do que 2025 e que esta plataforma cres&#231;a e se consolide como um espa&#231;o cada vez mais importante para leitura e escrita, uma vez que, como disse Stephen King, escrever &#233; a &#250;nica forma que a humanidade descobriu at&#233; agora de viajar no tempo .</p><p>At&#233; a pr&#243;xima!</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Crônicas do Interior # 10 – Os bons companheiros]]></title><description><![CDATA[Aquela em que falo sobre os amigos que fizeram diferen&#231;a]]></description><link>https://guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-10-os-bons-companheiros</link><guid isPermaLink="false">https://guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-10-os-bons-companheiros</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Ceolin]]></dc:creator><pubDate>Thu, 25 Dec 2025 17:57:42 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!pBGk!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F64576bea-4933-4479-b00f-e85de9a725c4_736x981.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>O j&#225; long&#237;nquo 1995 foi, sem d&#250;vida, um ano marcante para mim. Posso dizer que deixei de ser a pessoa que era e avancei firme para me tornar a pessoa que sou hoje. E muito disso eu devo a alguns amigos de verdade, aos quais presto uma merecida homenagem neste texto.</p><p>J&#225; fiz men&#231;&#227;o a este ano na <a href="/__u/guilhermeceolin.substack.com/p/cronica-do-interior-1-mike-tyson">cr&#244;nica de estr&#233;ia</a> desta newsletter, na qual narrei minha desastrada tentativa de assistir a uma luta de boxe na madrugada. Hoje, relato mais alguns fatos que impactaram minha vida, os quais contaram com a preciosa ajuda de bons companheiros.</p><p>Para contextualizar, antes de contar os &#8220;causos&#8221;: sempre fui um nerd, em uma &#233;poca em que isso era um estigma que pintava um alvo nas costas. Para come&#231;o de conversa, a palavra &#8220;nerd&#8221; sequer existia. &#201;ramos chamados de CDFs, uma sigla cuja express&#227;o adjacente, para quem sabe o que significa, n&#227;o &#233; nada abonadora. Ser CDF dava carta branca para todo tipo de zoeira e falta de respeito por parte dos coleguinhas n&#227;o CDFs, o hoje popular bullying.</p><p>Essa situa&#231;&#227;o gerava um conflito de interesse muito complicado: por um lado, havia todo um incentivo da fam&#237;lia para eu continuar sendo um CDF e tirar sempre notas boas. Por outro lado, havia uma press&#227;o social gigantesca para eu ser da galera do fund&#227;o e causar problemas na escola, j&#225; que isso era <em>cool</em>. Obviamente, que com 13 para 14 anos, em pleno desabrochar <s>das espinhas</s> da adolesc&#234;ncia, eu escolhi ceder &#224; press&#227;o social, optando por ouvir o diabinho que estava em um dos meus ombros, em detrimento dos conselhos do anjinho que estava sentado no outro. Virei, do dia para a noite, um cara da galera, sentado no fundo da sala, conversando e rindo a aula inteira e tirando nota vermelha no boletim. De garoto exemplar, me tornei <em>cool</em>, um verdadeiro <em>coolz&#227;o</em>.</p><p>Foi dif&#237;cil para os meus pais? Foi. Me arrependo? N&#227;o muito, uma vez que eu s&#243; estava respondendo aos incentivos colocados pela pr&#243;pria escola na &#233;poca, que n&#227;o dava o menor valor aos melhores alunos e alunas. Ser da galera ou ser CDF, para a escola, era a mesma coisa. N&#227;o havia pr&#234;mio nenhum em andar na linha. O pr&#234;mio estava, pelo contr&#225;rio, em ser da p&#225; virada. Para me firmar como pessoa, para eu ser &#8220;homem&#8221;, de acordo com o contexto da sociedade em que eu vivia, eu precisava dominar as tr&#234;s artes da masculinidade t&#243;xica da &#233;poca: ser bom no futebol, ser bom de briga e azarar as meninas.</p><p>Se um pi&#225; falhasse em qualquer uma dessas tr&#234;s, era tachado de &#8220;viadinho&#8221; na hora. Como eu falhava nas tr&#234;s, eu era um viad&#227;o. E isso me incomodava muito, a ponto de eu chorar escondido de tristeza (tinha que ser escondido, porque se algu&#233;m soubesse, era viado na quarta pot&#234;ncia. Homem n&#227;o chorava....).</p><p>Meu pai e minha m&#227;e eram pessoas muito ocupadas, que tinham que trabalhar para sustentar eu e mais dois em condi&#231;&#245;es bem adversas, de sal&#225;rios baixos e muita infla&#231;&#227;o, ent&#227;o, eu nem me apoquentava em contar para eles o que eu passava. Eu era homem, tinha que resolver sozinho os meus problemas. A escola? At&#233; tinha consci&#234;ncia disso, mas n&#227;o dava a m&#237;nima. N&#227;o existia nada do que existe hoje em termos de conscientiza&#231;&#227;o contra bullying, contra homofobia, contra racismo, sexismo, etc. A &#250;nica preocupa&#231;&#227;o &#233; que sa&#237;ssemos vivos de l&#225; (por isso a dire&#231;&#227;o da escola apreendia os canivetes e estiletes que alguns colegas levavam para a aula, mas divago....).</p><p>Ent&#227;o, no famigerado ano de 1995 decidi que iria me tornar o mestre do meu destino e iria finalmente dominar as artes da masculinidade t&#243;xica requeridas. Usando minhas habilidades de nerd, tracei uma estrat&#233;gia de estudos direcionada para aprender a jogar bola razoavelmente, encarar uma troca de soco se precisasse e tentar conquistar alguma colega de aula. E, para isso, contei com alguns amigos de f&#233; que, apesar de dominarem as artes masculinas, eram gente boa e me ajudaram muito nisso.</p><p>A primeira coisa que comecei a tentar resolver foi o futebol. Eu era o t&#237;pico perna-de-pau preterido por todo mundo na escolha dos times. As crian&#231;as disputavam para ver quem N&#195;O ficaria comigo no time, j&#225; que era a mesma coisa que jogar com um a menos. Decidi que iria estudar e treinar futebol. Primeira coisa que eu fiz foi pegar uns livros na biblioteca da escola e do munic&#237;pio sobre futebol. Li a biografia do Garrincha (n&#227;o a do Ruy Castro, uma anterior, a qual n&#227;o lembro do autor), li tudo o que encontrei sobre o Pel&#233;, li livros de educa&#231;&#227;o f&#237;sica que ensinavam sobre futebol, li a hist&#243;ria das Copas do Mundo, etc.</p><p>E comecei a treinar fundamentos: jogava a bola para cima e treinava domin&#225;-la com o peito, com o p&#233;, com o joelho, etc. Lan&#231;ava a bola em cima do telhado de um galp&#227;o que tinha no fundo de casa para a bola descer rolando e eu treinar chutar de primeira, colocava peda&#231;os de madeira cravados no ch&#227;o simulando cones e treinava drible e condu&#231;&#227;o de bola, etc., etc. Fora que eu assistia todos os jogos de futebol da TV, lia toda a coluna esportiva e ouvia todos os coment&#225;rios dos programas da televis&#227;o e do r&#225;dio. Tornei-me um fan&#225;tico por futebol do dia para a noite. Fiz isso por cerca de seis meses de maneira solit&#225;ria e secreta, at&#233; que um colega da escola notou que eu tinha melhorado bastante nas peladas do recreio e me convidou para ir treinar no time que ele jogava. Era depois da escola, tr&#234;s vezes por semana. Aceitei a sugest&#227;o e fui.</p><p>Era um ambiente muito pesado de bullying e cobran&#231;a. Eu era achincalhado e xingado em todos os treinos por ser muito pior do que os outros. S&#243; meu amigo me apoiava. Persisti, continuei treinando em casa secretamente e indo para os treinos oficiais nos outros dias. Com o tempo, sa&#237; de um completo toupeira para um jogador mediano, que sabia se posicionar em campo, acertava passes e at&#233; fazia algum gol de vez em quando. Continuei n&#227;o sendo incensado como outros pi&#225;s que eram os craques de bola e todo mundo queria no time, mas ningu&#233;m mais disputava a minha n&#227;o perman&#234;ncia na sua equipe. Passei a ser respeitado e tratado como um igual.</p><p>Paralelo a isso, entre um treino de futebol e outro comecei a bolar um plano para me defender dos caras maiores que me intimidavam. A primeira coisa que aconteceu foi um feliz acaso da natureza: tive um estir&#227;o de crescimento s&#250;bito e aumentei cerca de 12 cm de um ano para o outro (de 1,49 m para 1,61 m entre os 12 e os 13 anos). Foi bem ruim no come&#231;o: todas as articula&#231;&#245;es do&#237;am, eu derrubava tudo e batia a cabe&#231;a em tudo at&#233; me acostumar com as novas dimens&#245;es dos meus bra&#231;os, pernas e pesco&#231;o. S&#243; por ter crescido j&#225; passei a ser mais bem tratado. O n&#250;mero de prevalecidos diminuiu consideravelmente por conta da igualdade de tamanho.</p><p>Todavia, tinha um camarada que at&#233; era gente boa quando sozinho, todavia, quando em grupo, era muito influenciado por pilha errada dos outros e a&#237; se tornava um insuport&#225;vel, fazendo de mim alvo preferencial. Minha meta era reagir e fazer ele me deixar em paz. Coloquei na cabe&#231;a que aquela pessoa serviria de exemplo para ningu&#233;m nunca mais mexer comigo, ou pelo menos, pararem de me tirar para fregu&#234;s do bullying di&#225;rio. Assim, parti para a mesma estrat&#233;gia que havia feito com o futebol.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!pBGk!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F64576bea-4933-4479-b00f-e85de9a725c4_736x981.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!pBGk!, /__u/guilhermeceolin.substack.com/w_424, /__u/guilhermeceolin.substack.com/c_limit, /__u/guilhermeceolin.substack.com/f_webp, /__u/guilhermeceolin.substack.com/q_auto:good, /__u/guilhermeceolin.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F64576bea-4933-4479-b00f-e85de9a725c4_736x981.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!pBGk!, /__u/guilhermeceolin.substack.com/w_848, 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Como eu n&#227;o sabia se iria dar certo e se isso era suficiente para eu ganhar uma briga (<em>spoiler</em>: n&#227;o era!), continuei ag&#252;entando zoeira por alguns meses at&#233; me sentir preparado para reagir. Fui adiando o grande dia da desforra por medo.</p><p>At&#233; que um dia, ap&#243;s eu tomar uma canelada maldosa daquele pi&#225; lazarento que eu citei acima, um dos meus amigos fieis chegou e me disse: &#8220;cara, por que tu n&#227;o revida?&#8221; &#8220;Porque ele &#233; maior que eu e mais pesado, vou apanhar&#8221;. &#8220;Capaz! &#201; s&#243; ir para cima distribuindo um monte de soco e chute que ele n&#227;o vai saber o que fazer. Elemento surpresa&#8221;.</p><p>Fiquei com aquilo na cabe&#231;a por v&#225;rios dias, ponderando pr&#243;s e contras e esperando uma nova oportunidade para botar em pr&#225;tica a dica do meu bom amigo. N&#227;o tardou muito tempo, na sa&#237;da da escola, encontrei uma nota de 1 real no ch&#227;o (era uma nota verde com um beija-flor desenhado e na &#233;poca n&#227;o s&#243; circulava com valia alguma coisa). Assim que eu comentei que tinha achado o dinheiro, o pi&#225; desgra&#231;ado veio e tomou da minha m&#227;o, rindo da minha cara e me chamando de pamonha.</p><p>Olhei fixo para ele e falei firme: &#8220;devolve, fui eu que achei&#8221;. Ele disse: &#8220;vem buscar, viadinho&#8221;. Sem aviso pr&#233;vio, parti para cima, chutando ele nas costelas e dando um soco em cada bochecha, deixando ele sem rea&#231;&#227;o nenhuma em um primeiro momento. Ele at&#233; tentou bater de volta, mas eu me esquivei rapidamente, fazendo com que s&#243; pegasse a ponta da m&#227;o dele no aro dos meus &#243;culos, que entortaram um pouco. Ato cont&#237;nuo, consegui me virar e acertar mais um soco na lateral do queixo dele. Seria um belo nocaute se n&#227;o tivesse pegado de rasp&#227;o com a lateral dos meus dedos anular a m&#237;nimo, os quais ficaram inchados e roxos por uma semana por causa disso.</p><p>Nunca saberemos o final desta briga, pois o zelador da escola chegou com uma vassoura e, literalmente, &#8220;varreu&#8221; a crian&#231;ada para bem longe dali. S&#243; deu tempo de eu pegar minha mochila e sair correndo para casa (o dinheiro, quem sabe? Talvez o zelador tenha pegado como compensa&#231;&#227;o). Contei para meus pais da briga e mostrei minha m&#227;o machucada. Tomei bronca, obviamente, pois brigar na escola sempre foi um ato reprov&#225;vel segundo as regras da minha fam&#237;lia, n&#227;o importando o quanto eu tivesse raz&#227;o. Me mandaram colocar gelo na m&#227;o, passar Gelol e enfaixar.</p><p>No dia seguinte, eu cheguei &#224; escola com a m&#227;o enfaixada e os &#243;culos meio tortos para um lado, o meu colega bully chegou com as bochechas vermelhas e botando a m&#227;o nas costelas sempre que precisava se mexer para o lado. Nenhum coment&#225;rio sobre o ocorrido, ningu&#233;m perguntou nada, ningu&#233;m quis saber de nada. Umas duas ou tr&#234;s semanas depois, tudo estava normal, o outrora desgra&#231;ado virou meu amigo e passou a me convidar para ir jogar bola na casa dele. Nunca mais precisei brigar na vida e nunca mais me importei com zoeira. Passei a zoar de volta sem medo de repres&#225;lia, j&#225; que agora, segundo os meus pares, eu sabia brigar.</p><p>A terceira e derradeira habilidade da masculinidade t&#243;xica da &#233;poca que me restava dominar era a arte de flertar com as meninas. Na verdade, at&#233; aquele momento, eu nunca tinha me interessado por isso. At&#233; achava as meninas bonitas, at&#233; j&#225; tinha algumas que eu &#8220;gostava&#8221; (vide a <a href="/__u/guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-9-e-ritmo-ritmo">cr&#244;nica anterior</a>), mas era tudo um misto de brincadeira com imita&#231;&#227;o dos pares rom&#226;nticos que v&#237;amos nas novelas e filmes. Nada a s&#233;rio. At&#233; um dia em que fui a uma festinha de garagem e vi um amigo meu (aquele do futebol, que comentei acima), tirar uma menina para dan&#231;ar e eles acabaram se beijando. Na boca! De l&#237;ngua! Com 13 anos!</p><p>Fiquei muito chocado com aquilo. Me pareceu algo.....grotesco, esteticamente desagrad&#225;vel. Senti at&#233; um pouco de nojo. &#211;bvio que eu j&#225; havia assistido a in&#250;meros beijos na televis&#227;o (inclusive, eu j&#225; tinha visto Lagoa Azul na Sess&#227;o da Tarde incont&#225;veis vezes) e l&#225; esses encontros de bocas pareciam polidos e agrad&#225;veis. Ver ao vivo me pareceu repugnante, n&#227;o conseguindo entender como esse paradoxo era poss&#237;vel.</p><p>Passei semanas pensando sobre o fato e me indagando o porqu&#234; de todo mundo desejar aquilo avidamente, j&#225; que era uma coisa feia de se ver. Ponderei que para quem estava l&#225;, no ato, deveria ser algo muito bom, j&#225; que todo mundo fazia e gostava. Que a falta de beleza c&#234;nica era s&#243; para quem via de fora e que na televis&#227;o o beijo n&#227;o era real, era fic&#231;&#227;o, portanto, fingido e coreografado para n&#227;o ser algo grotesco (aconteceu algo similar com a pornografia tempos depois, o mesmo choque de realidade em rela&#231;&#227;o a atos reais de intimidade entre pessoas, mas divago novamente....). Pesando pr&#243;s e contras, cheguei &#224; conclus&#227;o de que deveria tentar beijar tamb&#233;m para tirar minhas pr&#243;prias conclus&#245;es.</p><p>Ent&#227;o, na festinha de garagem seguinte (era mais ou menos uma por m&#234;s), na primeira m&#250;sica lenta que tocou, tirei para dan&#231;ar uma coleguinha que eu achava interessante e falei que queria dar um beijo nela. Assim, bem boc&#243;, com zero habilidades sociais e totalmente alheio aos rituais de flerte. Obviamente que a menina me disse um N&#195;O bem redondo e me deu uma baita de uma bronca. Voltei para casa pensativo naquela noite, me perguntando o que eu havia feito de errado e o que deveria fazer para finalmente conseguir beijar algu&#233;m.</p><p>Acrescentando o insulto &#224; inj&#250;ria, n&#227;o muitos dias depois, as meninas da minha turma fizeram uma enquete entre elas para escolher os meninos mais bonitos da turma. Fiquei em nono lugar. Algu&#233;m pode dizer: &#8220;olha, pelo menos ficou entre os dez primeiros. Que baita vit&#243;ria!&#8221; Sem d&#250;vida seria um &#243;timo resultado se na turma n&#227;o tivessem s&#243; nove pi&#225;s. Ou seja, fiquei em &#250;ltimo lugar no ranking de beleza, o que equivale matematicamente a dizer que eu era o representante do sexo masculino mais feio da 7&#170; s&#233;rie B daquela escola. </p><p>Tudo em mim tornou-se tristeza. O gosto da derrota sentiu-se amargo por muitos dias, pois estava se desenhando que eu n&#227;o conseguiria concluir meu planejamento para 1995, pois faltaria um item, que n&#227;o saberia como resolver, j&#225; que para eu sanar minha fei&#250;ra, n&#227;o haveria nenhum livro, pr&#225;tica ou exerc&#237;cio que funcionasse, s&#243; nascendo de novo.</p><p>A&#237; entrou na jogada, mais uma vez, um grande amigo. Reclamei para ele, que sentava na mesa atr&#225;s da minha na escola, que eu era muito feio e que ningu&#233;m nunca ia me querer. E ele me disse: &#8220;Mas tamb&#233;m, tu vem para a aula parecendo um jacu. Olha esse teu cabelo esquisito. Por que tu n&#227;o come&#231;a a te arrumar melhor?&#8221; Eu falei para ele que n&#227;o sabia por onde come&#231;ar. No que veio a proposta: &#8220;Tem uma mulher l&#225; perto de casa que vai conseguir te fazer um corte de cabelo maneiro. Passa l&#225; em casa s&#225;bado de manh&#227; que eu te levo l&#225;&#8221;.</p><p>Falei para minha m&#227;e que precisava cortar o cabelo na casa dessa mulher e que precisava de dinheiro. Minha m&#227;e perguntou por que tinha que ser l&#225;. Expliquei sobre o ranking das meninas e a proposta que meu amigo tinha feito. Ela n&#227;o tentou me consolar, dizendo que para ela eu era bonito. Ela s&#243; me deu o dinheiro e concordou. N&#227;o sei ao certo o que ela quis dizer com aquele gesto, mas tenho uma leve suspeita at&#233; hoje&#8230;.</p><p>No s&#225;bado, l&#225; pelo meio da manh&#227;, peguei minha bicicleta e pedalei at&#233; a casa do meu amigo. Ele pegou a bicicleta dele e fomos na casa da tal mulher. N&#227;o era um sal&#227;o, era uma casa mesmo. A senhora que cortava o cabelo fazia isso na sala, onde s&#243; tinha uma cadeira de palha e um espelho. Ela tinha uma mesa pequena com rodinhas, sobre a qual ficavam as tesouras e pentes. Sentei-me na cadeira, ela colocou uma toalha na frente para evitar que o cabelo cortado ca&#237;sse na minha roupa e o meu amigo explicou o problema. Basicamente, eu penteava o cabelo para o lado e como ele era muito volumoso, n&#227;o s&#243; tapava muito a minha testa como atr&#225;s da orelha dava uma voltinha, que combinado com a perna do meu &#243;culos, ficava parecendo um chifrinho.</p><p>Ela falou que o que iria real&#231;ar meu rosto era um corte curto nas laterais, quase raspado e na frente um topete, meio arrepiado, parecido com o Van Damme interpretando o <strong>Guille</strong> no filme do <em>Street Fighter</em> que havia estreado um ano antes. Assim que dei sinal verde, ela come&#231;ou a fazer o corte, todavia, eu estava morrendo de medo de ficar uma porcaria maior ainda. O que me alentava era que eu n&#227;o tinha como descer mais no ranking de fei&#250;ra, j&#225; que ocupava o &#250;ltimo lugar, ent&#227;o, qualquer coisa era lucro. Ao final, gostei do resultado. Ela me ensinou como manter aquele penteado no dia a dia e, me aconselhou a todo m&#234;s dar um retoque no corte, para ficar sempre homog&#234;neo.</p><p>Na segunda-feira, houve genu&#237;na surpresa de v&#225;rias meninas da turma, que (olha s&#243;!) chegaram a elogiar o meu novo cabelo. Fiquei muito feliz, pois, finalmente, apesar de estar mais para Van Damme do que para John Wick, eu estava de volta ao jogo.</p><p>Para encurtar a hist&#243;ria, um m&#234;s depois, houve a &#250;ltima festinha de garagem daquele ano e eu, ap&#243;s ter feito um intensivo de dicas sobre como flertar de maneira gentil e polida com uma menina, consegui beijar algu&#233;m pela primeira vez. Foi estranho, foi esquisito, confesso que n&#227;o era nada do que eu esperava, mas, se era daquele jeito mesmo e todo mundo fazia, eu tinha que me acostumar e aprender a gostar.</p><p>No ano seguinte, j&#225; na 8&#170; s&#233;rie, em sendo a turma praticamente a mesma, as meninas refizeram o ranking de beleza dos pi&#225;s e eu tirei um honroso 4&#186; lugar. N&#227;o subi no p&#243;dio, mas tamb&#233;m fiquei bem longe do &#250;ltimo (eram 12 guris na turma de 8&#170; s&#233;rie). N&#227;o resolvi todos os meus problemas de auto-estima e auto-aceita&#231;&#227;o, esses esperaram at&#233; a vida adulta e algumas visitas &#224; psic&#243;loga para resolver, mas pelo menos para o ano de 1995, as metas tra&#231;adas foram cumpridas. Comecei a encontrar meu lugar no mundo e saber quem eu era de verdade. E a quase totalidade disso se deveu a alguns amigos queridos que, dentro da simplicidade e tosquice da &#233;poca, da cidade e da tenra idade, fizeram mais por mim do que muito livro de auto-ajuda por a&#237;.</p><p>Ent&#227;o, &#224; guisa de fechamento, fica minha homenagem a estas pessoas, que n&#227;o tenho a mais vaga ideia de onde est&#227;o hoje. Muito obrigado!</p><p>At&#233; a pr&#243;xima!</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Crônicas do Interior # 9 – É ritmo, ritmo de festa....]]></title><description><![CDATA[Aquela em falo sobre anivers&#225;rios]]></description><link>https://guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-9-e-ritmo-ritmo</link><guid isPermaLink="false">https://guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-9-e-ritmo-ritmo</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Ceolin]]></dc:creator><pubDate>Tue, 09 Dec 2025 17:43:38 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!UiKL!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd4e368ee-db9f-47b1-812d-a62e69f79217_1024x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><em>Essa cr&#244;nica &#233; mais bem apreciada ouvindo essa <a href="https://www.youtube.com/watch?v=gxT6JV56ubU">m&#250;sica</a> em repeat</em></p><p>Bom, mais uma vez &#233; dezembro, m&#234;s de anivers&#225;rio desta sensacional publica&#231;&#227;o e m&#234;s tamb&#233;m do Natal, que todos sabem que &#233; a data na qual se celebra o nascimento e, portanto, o anivers&#225;rio de <s>Papai Noel</s> Nosso Senhor Jesus Cristo, o qual foi descrito por Jo&#227;o (1:1) como o Verbo, a Palavra de Deus (<em>logos</em>). E &#233; igualmente por meio da palavra que a postagem de hoje presta uma homenagem n&#227;o s&#243; ao Cordeiro de Deus como ao primeiro ano desta humilde cartinha de periodicidade aleat&#243;ria que tem chegado a cada vez mais gente (gl&#243;ria!): vou falar sobre anivers&#225;rios!</p><p>Hoje acredito que j&#225; n&#227;o fa&#231;a a menor diferen&#231;a morar nas capitais ou nos interiores por a&#237;, mas, antigamente, n&#227;o existiam sal&#245;es de festa para as crian&#231;as fazerem seus anivers&#225;rios. Pelo menos, n&#227;o de maneira t&#227;o generalizada como &#233; hoje. E, pelas minhas lembran&#231;as, as festinhas eram sempre na casa de quem estava de anivers&#225;rio (somente a &#8220;elite&#8221; da cidade fazia festinhas em clubes). E a&#237;, era aquilo: os pais da pequena criatura que se virassem depois com a bagun&#231;a, os salgadinhos pisados no ch&#227;o, os brigadeiros arremessados pelos cantos e o refrigerante virado na toalha. Fora quando o final da festa n&#227;o se tornava um leg&#237;timo sabonete de vesti&#225;rio: sempre sobrando um pentelho que ningu&#233;m sabia de quem era.</p><p>Na minha casa houve dois momentos: o pobre e o remediado. E isto se refletia sobremaneira na qualidade dos anivers&#225;rios. Um dos momentos de pobreza eu j&#225; contei na <a href="/__u/guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-6-o-radio-era">cr&#244;nica #6</a>, que foi meu anivers&#225;rio de seis anos. Foi um desastre n&#227;o s&#243; porque n&#227;o havia dinheiro para o bolo ou porque eu ganhei um disco de vinil sem ter o toca-disco para ouvir. Foi ruim principalmente porque um <s>arrombadinho </s>coleguinha desastrado derrubou um copo de ch&#225; de ma&#231;&#227; (sim, n&#227;o tinha refrigerante, a pinda&#237;ba estava neste n&#237;vel!) na minha camiseta e eu, para n&#227;o parar de brincar, fiquei com a roupa molhada. Fa&#231;o anivers&#225;rio em maio, ou seja, outono. No sul do Brasil, maio &#233; um m&#234;s muito lazarento, porque tem trocas de temperatura muito dr&#225;sticas n&#227;o s&#243; de um dia para o outro como dentro do mesmo dia. Resultado: por conta da roupa molhada e da oscila&#231;&#227;o t&#233;rmica do dia, terminei passando aquela noite com 38 <sup>o</sup>C de febre, garganta inflamada e princ&#237;pio de pneumonia. O que meus pais pouparam por terem dado uma festinha minimalista, gastaram com antibi&#243;ticos.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!hVIL!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F82aba200-726f-4e16-9d3c-fea139f96264_225x99.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!hVIL!, /__u/guilhermeceolin.substack.com/w_424, /__u/guilhermeceolin.substack.com/c_limit, /__u/guilhermeceolin.substack.com/f_webp, /__u/guilhermeceolin.substack.com/q_auto:good, /__u/guilhermeceolin.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F82aba200-726f-4e16-9d3c-fea139f96264_225x99.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!hVIL!, /__u/guilhermeceolin.substack.com/w_848, 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E assim foi, pelo menos at&#233; os meus 10 anos, quando a moda na cidade mudou: a onda passou a ser a fam&#237;lia da crian&#231;a aniversariante promover um &#8220;jantarzinho&#8221; para os amiguinhos. De noite. Com comida. Com pratos. Talheres. Guardanapos. <s>Wihisky</s> Sucos e refrigerantes. Nada que remetesse aos anivers&#225;rios de antigamente. N&#227;o poderia mais a comida ser composta por um bolo decorado, um prato de brigadeiro (que no RS se chama &#8220;negrinho&#8221;, o que hoje em dia &#233; bem problem&#225;tico), um prato de beijinho (que no RS, novamente, chamamos de &#8220;branquinho&#8221;), um prato de pasteis fritos, outro de risoles e outro de canudinhos recheados com maionese de batata. As crian&#231;as tamb&#233;m n&#227;o poderiam mais usar chapeuzinhos de papel com el&#225;stico no queixo (quando arrebentava dava cada la&#231;a&#231;o que deixava as orelhas doendo uma semana!) nem haveria bal&#245;es e faixinhas com o nome da crian&#231;a. Bal&#227;o surpresa, ent&#227;o, que coisa mais <em>d&#233;mod&#233;</em>!</p><p>Antes de prosseguir um par&#234;ntese: normalmente, o bal&#227;o surpresa era estourado e as crian&#231;as se matavam para pegar os presentinhos que tinha dentro. Lembro de uma ocasi&#227;o em que estava no anivers&#225;rio de um amiguinho e o pai dele chamou todo mundo para o estouro do bal&#227;o surpresa. Como ele estourou? Com uma faca, com uma tesoura, com um palito? N&#227;o, com o cigarro que ele estava fumando. Imaginem a cena: um bando de pirralhos ranhentos se acotovelando para pegar seu mimo, respirando fuma&#231;a de um Marlboro vermelho em uma garagem fechada. Ta&#237; uma coisa que nunca aconteceria na minha casa por dois motivos: primeiro, porque meu pai n&#227;o fumava. E segundo, porque o bal&#227;o surpresa nunca era estourado. Ele era cheio de ar e presentes e na hora derradeira, meu pai subia em um banco, abria o bal&#227;o, tirava as porcarias de dentro e lan&#231;ava ao ar. O bal&#227;o era ent&#227;o dobrado, guardado e iria ser usado infinitas outras vezes, tanto para as festinhas dos meus irm&#227;os quanto para as minhas futuras. Mais uma prova de que minha fam&#237;lia foi pioneira do minimalismo antes de se tornar <em>mainstream</em>.</p><p>Fechando o par&#234;ntese e voltando para a moda que grassou em meados dos anos 1990, os &#8220;jantares de anivers&#225;rio&#8221;. Este jantar sempre acontecia nos anivers&#225;rios de 10 anos porque era o &#250;ltimo ano da primeira fase do ensino fundamental. As crian&#231;as estavam na ent&#227;o quarta s&#233;rie, tinham uma s&#243; professora (a &#8220;tia&#8221;)  e escreviam tudo &#224; l&#225;pis. No ano seguinte, se voc&#234; n&#227;o fosse repetente, estaria na quinta s&#233;rie, agora com uma professora para cada mat&#233;ria e teria que escrever a caneta. Ou seja, era uma esp&#233;cie de transi&#231;&#227;o para a pr&#233;-adolesc&#234;ncia. Da&#237;, como todo mundo estava fazendo, eu queria tamb&#233;m e, obviamente, n&#227;o pude. Pelo menos n&#227;o naquele ano, pois pedi a festa muito em cima da hora. Meus pais n&#227;o tinham grana para tal despesa (a fase remediada ainda n&#227;o havia come&#231;ado). Foi s&#243; no ano seguinte, no meu anivers&#225;rio de 11 anos que tive o meu <s>baile de debuntante</s> jantar de transi&#231;&#227;o.</p><p>Todavia, n&#227;o fiquei l&#225; muito triste, porque fui a muitos jantares de coleguinhas, alguns memor&#225;veis, pois tr&#225;gicos, de certa forma. Em um deles, resolvi que iria escrever uma cartinha rom&#226;ntica para uma menina que eu achava bonita. Vamos cham&#225;-la de Gislaine. Meu melhor amigo na &#233;poca me ajudou e passamos uma tarde rascunhando &#8220;versinhos&#8221; (porque para poesia faltava muito) e frases bonitinhas para encantar a Gislaine. No dia do jantar, entreguei a cartinha. Ela leu, rasgou em mil pedacinhos, jogou tudo na minha cara e falou todos os xingamentos que ela conhecia na &#233;poca. Ali havia come&#231;ado a longa lista de rejei&#231;&#245;es amorosas que eu teria ao longo da minha exist&#234;ncia. Mas, se o que n&#227;o mata, fortalece, segui a vida e continuei indo aos jantares que me convidavam, e foram muitos naquele ano (s&#243; a Gislaine nunca mais me convidou para nenhum anivers&#225;rio dela, nem depois de adulta....para voc&#234;s verem como estava ruim o que eu escrevi....).</p><p>Em um destes jantares p&#243;s-decep&#231;&#227;o amorosa, mais para o final do ano, fui convidado para a festa de uma coleguinha que era filha de uma professora amiga da minha m&#227;e. Minha m&#227;e ficou muito tranq&#252;ila, era gente conhecida, ent&#227;o me falou que eu poderia ficar at&#233; mais tarde, que ela s&#243; iria me buscar &#224;s 22h (o normal era at&#233; &#224;s 21h, no m&#225;ximo). Beleza, pensei, vou poder brincar at&#233; dizer chega. Ainda mais que j&#225; era novembro, as noites eram mais longas e quentes. Tudo perfeito. S&#243; que n&#227;o! </p><p>Naquele dia, no meio da tarde, comecei a sentir que minha barriga n&#227;o estava legal. Precisei ir com certa urg&#234;ncia ao banheiro da escola. E olha que isso era contra os meus princ&#237;pios! Eu s&#243; ia ao banheiro na escola para o fino, nunca para o grosso. Naquele dia, n&#227;o teve jeito. Tive que quebrar a regra. Alguma coisa n&#227;o havia ca&#237;do bem. Por&#233;m, ap&#243;s ter feito o que tive de fazer, a dor passou e tudo parecia bem. Cheguei em casa de tardezinha ap&#243;s a escola, tomei meu banho, fiz um lanchinho e esperei a hora do anivers&#225;rio bem feliz. Nem sinal de que minha barriga iria incomodar.</p><p>Pois bem, cheguei &#224; festa, todo mundo brincando, o dia quente de primavera, luz do sol at&#233; ap&#243;s as 19h. Corri, joguei bola, brinquei de pique-esconde, pulei corda e tudo o mais. Da&#237;, paramos para dar uma descansada e tomar uma &#225;gua. O irm&#227;o da aniversariante convidou para entrar e vermos o aqu&#225;rio que ele tinha no quarto. Entramos todos, rindo e falando bobagem. Estava eu l&#225;, bem feliz vendo os peixinhos quando de repente, senti minha barriga se mexer e fazer barulho. Ato cont&#237;nuo, uma pontada surgiu no lado esquerdo e eu sabiamente deduzi: era um g&#225;s rebelde querendo sair para a liberdade. Pensei: se eu soltar devagarinho n&#227;o vai fazer barulho e se feder eu boto a culpa em algum outro. Plano perfeito.</p><p>Comecei a relaxar o esf&#237;ncter controladamente para o flu&#237;do ir escapulindo. E ele foi saindo conforme o script, at&#233;.....dar errado! De fato, era um flu&#237;do, mas n&#227;o totalmente et&#233;reo. Havia mais ali e esse mais se fez sentir nos meus fundilhos. Eu havia me cagado! N&#227;o muito a ponto de escorrer pelas pernas, mas o suficiente para acabar com a minha noite. Como toda crian&#231;a criada sob zoeira impiedosa, consegui manter minha postura imp&#225;vida, cara de James Bond jogando p&#244;quer, sem mexer um &#250;nico m&#250;sculo. Ningu&#233;m percebeu que eu havia borrado as cuecas, todavia, minha divers&#227;o acabara ali.</p><p>Outrora uma crian&#231;a alegre e sorridente, fiquei ap&#225;tico e sorumb&#225;tico. Todo mundo correndo e brincando ap&#243;s o jantar e eu, que mal conseguira comer, sentei em um murinho e fiquei l&#225;, quietinho, tentando acomodar o &#8220;pacote&#8221; nas minhas cal&#231;as da melhor maneira poss&#237;vel, torcendo para n&#227;o come&#231;ar a feder muito. As crian&#231;as vinham conversar comigo e eu dizia que estava pensando na vida, refletindo sobre o ano que estava terminando e sobre como seria a quinta s&#233;rie, se seria bom ou ruim. Um verdadeiro Buda meditabundo refletindo sobre a vida, o universo e tudo o mais.</p><p>Foram longos e longos minutos at&#233; minha m&#227;e encostar o Fusca bege em frente &#224; casa da minha coleguinha e me recolher. Assim que entrei no carro, desatei a chorar n&#227;o porque minha m&#227;e fosse me dar uma bronca, ela sempre foi compreensiva com essas coisas, &#8220;&#233; fazendo merda que se aduba a vida, n&#233;?&#8221;, foi o que ela me disse. Minha preocupa&#231;&#227;o era ser alvo da chacota eterna dos meus irm&#227;os, esses sim, sem nenhum amor no cora&#231;&#227;o. N&#227;o deu outra, assim que cheguei em casa e tive que tomar banho, meus irm&#227;o, tal qual urubus na carni&#231;a, perceberam (e sentiram!) que eu, n&#227;o metaforicamente, havia feito merda. Da&#237; foi ag&#252;entar o bullying por longos meses, at&#233; o foco ser outro e eles me deixarem em paz.</p><p>Finda a fase dos jantares de 10 anos (que eu fiz com 11), o outro ponto de transi&#231;&#227;o eram os 15, porque da&#237; j&#225; era o segundo grau, adolesc&#234;ncia no seu auge e tudo o mais. Aqui o per&#237;odo remediado da minha fam&#237;lia j&#225; estava em pleno funcionamento, ou seja, as festinhas j&#225; estavam melhores. Normalmente, os 15 anos s&#227;o um marco para as meninas, contudo, como eu sempre fui meio rebelde, quis fazer os meus 15 anos tamb&#233;m. </p><p>Obviamente, que n&#227;o usei um vestido chiqu&#233;rrimo nem dancei uma valsa com meu pai. O que fiz foi uma &#8220;festinha de garagem&#8221;, que era, igualmente, moda entre a juventude na &#233;poca (j&#225; falado <a href="/__u/guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-6-o-radio-era">aqui</a>) e que vale uma publica&#231;&#227;o s&#243; para contar os detalhes deste tipo de evento. Mas, ao contr&#225;rio de tudo o que contei acima, este anivers&#225;rio foi s&#243; alegria, inclusive porque, sem querer querendo, acabei usando uma esp&#233;cie de arremedo do que hoje se chama &#8220;engenharia social&#8221;.</p><p>Atualmente, este conceito est&#225; muito difundido, principalmente por conta dos golpes e fraudes que acontecem online, por isso o termo carrega uma forte conota&#231;&#227;o negativa. Todavia, o termo surgiu no final do s&#233;culo XIX no contexto de resolver problemas relativos &#224; m&#227;o de obra das ind&#250;strias utilizando m&#233;todos da engenharia em problemas de recursos humanos. Ou seja, um m&#233;todo sistem&#225;tico de diagnosticar, compreender, direcionar e utilizar as emo&#231;&#245;es humanas para otimizar a for&#231;a de trabalho. Enfim, a velha l&#243;gica capitalista das rela&#231;&#245;es de trabalho de sempre, que ganhou outro significado na era de conte&#250;dos digitais. N&#227;o obstante a diferen&#231;a de significado atual em rela&#231;&#227;o &#224; original, na sua ess&#234;ncia, a engenharia social busca trabalhar as emo&#231;&#245;es humanas como empatia, medo, urg&#234;ncia, confian&#231;a, gratid&#227;o, etc. para se extrair algum benef&#237;cio das mesmas. Isso &#233; frequentemente usado para o mal, mas pode ser usado para o bem tamb&#233;m. No caso dos anivers&#225;rios, foi utilizada para o bem (meu, mas isso n&#227;o vem ao caso...ehehehe).</p><p>Ocorreu que uma das minhas colegas de aula, vamos cham&#225;-la de F&#250;lvia, iria fazer 15 anos em abril e ela n&#227;o havia me convidado para o anivers&#225;rio dela. A F&#250;lvia antipatizou comigo por motivo nenhum, nunca havia feito nada para ela. Pelo contr&#225;rio, sempre conversei de maneira cordial e gentil.</p><p>Era um direito dela n&#227;o me convidar? Era, sem d&#250;vida, hoje em dia eu n&#227;o daria a menor bola. Mas, na &#233;poca, eu sendo um adolescente em busca de aceita&#231;&#227;o e pertencimento, se tornou algo muito dif&#237;cil de digerir. At&#233; porque 90% da turma havia sido convidada, s&#243; se falava nisso, ia ser uma festa de arromba, os meus melhores amigos iriam comparecer e todo mundo ficava me perguntando: &#8220;tu n&#227;o foi convidado? Credo!&#8221; Isso me deixava muito triste, s&#243; que, fazer o qu&#234;, n&#233;? eu j&#225; estava me conformando que perderia esta festa e teria que me contentar em ouvir todo mundo contando tudo de bom sobre o evento na segunda-feira seguinte e eu sem ter nada para acrescentar.</p><p>Pois bem, como a vida &#233; uma caixinha de chocolate e nunca se sabe o que voc&#234; vai pegar, a F&#250;lvia, uns dias antes do anivers&#225;rio, teve uma apendicite e precisou ser operada &#224;s pressas. Obviamente, a festa precisou ser transferida para dali dois meses, por conta da convalescen&#231;a dela. Todos ficamos chocados com a not&#237;cia. Fomos visitar no hospital, mandamos cart&#245;es para ela, eu liguei para a casa dela para conversar, perguntei como ela estava e tudo o mais.</p><p>Como o anivers&#225;rio dela acabou sendo adiado para junho, o meu, que era em maio, como j&#225; disse, acabou vindo antes. E da&#237;, eu pensei: &#8220;bom, se eu convidar a F&#250;lvia para o meu anivers&#225;rio, ser&#225; que eu consigo colocar um sentimento de <s>culpa </s>gratid&#227;o nela a ponto de ser convidado para a festa de 15 anos dela?&#8221; Um diabinho em um ombro disse: &#8220;vai l&#225;, convida, vai, n&#227;o h&#225; mal nenhum nisso&#8221;. No outro ombro um anjinho disse: &#8220;voc&#234; s&#243; pode convid&#225;-la se estiver honestamente interessado na presen&#231;a dela, sem nenhuma inten&#231;&#227;o oculta&#8221;. &#201; &#243;bvio que segui o anjinho e a convidei sem nenhuma segunda inten&#231;&#227;o, eu queria realmente que a F&#250;lvia fosse na minha festa.</p><p>Fiz quest&#227;o de ir at&#233; a casa dela levar o convite em m&#227;os, j&#225; que ela ainda n&#227;o estava indo para a escola. Uns dias depois, uma amiga dela (por acaso a Gislaine....) me entregou um envelopinho: &#8220;a F&#250;lvia est&#225; te mandando o convite do anivers&#225;rio dela. Ela quer muito que voc&#234; v&#225;, da outra vez ela esqueceu de te convidar e pede desculpa por isso&#8221;.</p><p>Resultado final: a F&#250;lvia n&#227;o foi ao meu anivers&#225;rio, mas eu fui ao dela e foi uma baita de uma festa! Voltei para casa j&#225; amanhecendo o dia de t&#227;o legal que foi. Nunca havia estado em uma festa de 15 anos tradicional antes e s&#243; tenho boas lembran&#231;as do evento. Mas, a pergunta que fica at&#233; hoje: teria ela me convidado por gratid&#227;o e/ou constrangimento, demonstrando que minha pseudo-engenharia social havia funcionado como o previsto, ou ela realmente esqueceu-se de mim na primeira rodada de convites? Eis um mist&#233;rio que nunca saberei!</p><p>At&#233; a pr&#243;xima!</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Crônicas do Interior #8 - Os bons conselhos]]></title><description><![CDATA[Aquele em que boto a m&#227;e no meio]]></description><link>https://guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-8-os-bons-conselhos</link><guid isPermaLink="false">https://guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-8-os-bons-conselhos</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Ceolin]]></dc:creator><pubDate>Thu, 27 Nov 2025 12:06:26 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!S_gP!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe3ae32b2-96ac-4bd2-9dad-dd3ed374b0ea_592x400.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Em julho de 1990 eu estava na casa da minha av&#243; (aquela das cr&#244;nicas <a href="/__u/substack.com/@guilhermeceolin/p-152565287">#1</a> e <a href="/__u/substack.com/home/post/p-171994380">#5</a>), vendo televis&#227;o quando, do nada, a programa&#231;&#227;o foi interrompida e come&#231;ou aquela musiquinha caracter&#237;stica: era um Plant&#227;o da Globo.</p><p>Antes de continuar, cabe uma digress&#227;o: naquela &#233;poca em que as not&#237;cias n&#227;o estavam na ponta dos dedos como &#233; hoje, nada era mais assustador do que o Plant&#227;o da Globo. A taquicardia era imediata s&#243; de ouvir as primeiras notas daquela infame musiquinha , pois era certo que alguma coisa terr&#237;vel estava acontecendo.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!S_gP!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe3ae32b2-96ac-4bd2-9dad-dd3ed374b0ea_592x400.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!S_gP!, /__u/guilhermeceolin.substack.com/w_424, /__u/guilhermeceolin.substack.com/c_limit, /__u/guilhermeceolin.substack.com/f_webp, /__u/guilhermeceolin.substack.com/q_auto:good, /__u/guilhermeceolin.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe3ae32b2-96ac-4bd2-9dad-dd3ed374b0ea_592x400.jpeg 424w, 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xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" 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Hoje o impacto &#233; menor, pois tudo se sabe antes pela internet</p><p>Pois bem, como eu ia dizendo, mal come&#231;ou a tocar a trilha do Plant&#227;o e imediatamente parei tudo o que estava fazendo (provavelmente, brincando de carrinho no ch&#227;o da sala) e colei os olhos na TV. A not&#237;cia, de fato, era terr&#237;vel, embora para mim fizesse pouca diferen&#231;a com a idade que eu tinha: havia morrido Cazuza, ap&#243;s uma longa batalha contra o v&#237;rus HIV.</p><p>Naquele come&#231;o de d&#233;cada, o v&#237;rus HIV e a doen&#231;a causada por ele, a AIDS, estavam em todos os notici&#225;rios, pois se tratava de uma enfermidade semi-desconhecida, com nenhum tratamento e taxa de mortalidade pr&#243;xima a 100% ap&#243;s a manifesta&#231;&#227;o inicial dos sintomas. In&#250;meras celebridades foram levadas pela AIDS, embora geralmente n&#227;o se dissesse abertamente a <em>causa mortis</em>. Era sempre uma infec&#231;&#227;o, uma insufici&#234;ncia respirat&#243;ria, fal&#234;ncia m&#250;ltipla de &#243;rg&#227;os, etc., ou seja, causas bem protocolares, copiando o atestado de &#243;bito.</p><p>Figuras como os atores Lauro Corona (morto em 1989) e Mauro Gon&#231;alves (o popular Zacarias dos Trapalh&#245;es; morto em 1990) foram algumas das primeiras v&#237;timas do v&#237;rus, embora, como eu comentei acima, nada tenha sido dito abertamente sobre a verdadeira causa do &#243;bito. Cazuza, por outro lado, foi um dos primeiros, sen&#227;o o primeiro, pelo menos no Brasil, a falar abertamente sobre ser soropositivo, intensificando a discuss&#227;o sobre formas de cont&#225;gio, preven&#231;&#227;o e conseq&#252;&#234;ncias do v&#237;rus.</p><p>Tem-se que entender que no final da d&#233;cada de 1980, come&#231;o dos anos 1990, rec&#233;m o Brasil havia se livrado da ditadura militar <em>de facto</em>, com a promulga&#231;&#227;o da Constitui&#231;&#227;o de 1988 (na qual a censura foi definitivamente sepultada). O ano de 1989 havia testemunhado a primeira elei&#231;&#227;o direta para Presidente da Rep&#250;blica, ap&#243;s quase 30 longos anos (a &#250;ltima elei&#231;&#227;o direta fora em 1960, tendo J&#226;nio Quadros como presidente eleito).</p><p>Ou seja, todas as institui&#231;&#245;es nacionais ainda estavam tateando o terreno, colocando o p&#233; na &#225;gua para saber at&#233; onde poderiam ir com certos assuntos, a AIDS sendo um desses, j&#225; que uma das principais vias de transmiss&#227;o &#233; sexual. Somando-se a isso o fato de que a maior parte das pessoas que estava morrendo eram homossexuais masculinos, voc&#234; tinha a receita para o tabu se instalar, principalmente na imprensa. Ent&#227;o, at&#233; a abertura dada por Cazuza sobre este assunto, nada ou quase nada se sabia sobre como o HIV era transmitido, como se prevenir, se existia tratamento, etc. E nisso, ap&#243;s esta longa contextualiza&#231;&#227;o, eu volto ao come&#231;o do &#8220;causo&#8221;, naquela fat&#237;dica tarde na casa da minha av&#243;.</p><p>Ap&#243;s ficar sabendo que o Cazuza havia morrido em consequ&#234;ncia da AIDS, comentei com a minha av&#243; e perguntei o que era aquela doen&#231;a e como &#233; que pegava. Ela disse que era uma doen&#231;a muito perigosa, que n&#227;o tinha cura e que poderia ser pega de diversas formas, inclusive por sentar em um banco quente. Levei um choque! Como assim? Sentar em um banco quente? &#201;, disse a minha av&#243;, o calor do banco pode passar a doen&#231;a.</p><p>Cheguei em casa chorando desesperado e disse para minha m&#227;e que eu estava com AIDS. Minha m&#227;e quase cuspiu o caf&#233; que estava tomando. &#8220;Como assim? Que merda &#233; essa que tu est&#225; dizendo, guri? Que AIDS, tu t&#225; doido?&#8221; (transcri&#231;&#227;o <em>ipsis verbis</em> das falas da minha genitora).</p><p>Sentei-me, parei de chorar e expliquei calmamente que estava na casa da v&#243; e que na televis&#227;o o plant&#227;o da Globo havia dito que o Cazuza havia morrido de AIDS, no que eu perguntara para minha av&#243; como pegava a doen&#231;a e ela disse que de v&#225;rias forma, inclusive sentando em um banco quente usado por outra pessoa. Como eu j&#225; havia sentado em bancos quentes muitas vezes na minha vida at&#233; aquele momento, eu estava com AIDS.</p><p>Minha m&#227;e riu igual um Boitat&#225;, soltando aquelas gargalhadas que a pessoa at&#233; ronca. Acredito que tenha sido um al&#237;vio ouvir aquilo, sabe-se l&#225; o que estava se passando na cabe&#231;a dela, afinal eu s&#243; tinha oito anos na &#233;poca...</p><p>Ap&#243;s se acalmar e enxugar as l&#225;grimas (minhas de choro e as delas de tanto rir), ela me explicou que sentar em um banco quente n&#227;o transmitia doen&#231;a nenhuma, que eu poderia ficar tranquilo. Que uma das formas de transmiss&#227;o era por transfus&#227;o de sangue (foi o que infectou o cartunista <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Henfil">Henfil</a> e seu irm&#227;o, o soci&#243;logo <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Betinho">Betinho</a>, ambos hemof&#237;licos) e a outra era por via sexual, se o sexo fosse feito sem prote&#231;&#227;o (camisinha).</p><p>Nessa altura, eu j&#225; sabia como os beb&#234;s iam parar na barriga das m&#227;es, j&#225; que, na casa da minha fam&#237;lia, o di&#225;logo sobre corpo e sexualidade sempre fora muito tranq&#252;ilo e sem mistifica&#231;&#245;es e carolismos desnecess&#225;rios. Portanto, eu entendi a explica&#231;&#227;o e me acalmei. Para mim a explica&#231;&#227;o j&#225; estava de bom tamanho, mas para minha m&#227;e ainda n&#227;o era suficiente. Deveria ter uma frase final, &#224; guisa de conselho para nunca mais ser esquecido. Eu j&#225; estava saindo brincar no quintal quando a frase veio: &#8220;At&#233; que o que tua av&#243; disse n&#227;o est&#225; de todo errado. Se pega AIDS pela bunda, sim, s&#243; que tem que sentar em outra coisa quente, n&#227;o num banco&#8221;. Pronto, miss&#227;o cumprida. Conselho dado para o resto da vida.</p><p>***********************************</p><p>Anos depois desse fato, tornei-me um adolescente cheio de espinhas. Ocorreu que as espinhas n&#227;o se restringiram a me causar s&#243; constrangimento por ter transformado meu rosto em um ralador de queijo. Antes fosse s&#243; isso. No alto dos meus 15 anos, tive uma infec&#231;&#227;o de pele muito grave no peito, ombros e costas causada pelos <em>Streptococcus </em>que habitavam a minha pele acnosa.</p><p>Tem certos sinais que indicam quando alguma coisa pode dar porcaria grande. Por exemplo, voc&#234; sabe que a turbul&#234;ncia no avi&#227;o &#233; s&#233;ria quando a comiss&#225;ria de bordo fica nervosa e sabe que a sua condi&#231;&#227;o de sa&#250;de &#233; grave quando o m&#233;dico se assusta e diz que &#8220;em 25 anos de medicina eu nunca tinha visto algo assim&#8221;. Para resumir, eu estava no limite de ter ou uma endocardite ou uma febre reum&#225;tica ou uma nefrite, bastava aquelas bact&#233;rias irem parar na corrente sangu&#237;nea. Minha situa&#231;&#227;o estava t&#227;o desgra&#231;ada, que a primeira coisa que o m&#233;dico fez foi me dar uma receita de Benzetacil (aquela inje&#231;&#227;o bem dolorida, que me deixou mancando uma semana com dor no bumbum). A segunda coisa foi dizer para minha m&#227;e que me levasse consultar toda semana para acompanhar o andamento da infec&#231;&#227;o, j&#225; que eu estava correndo risco real de algo bem grave.</p><p>E assim foi. A cada sete ou dez dias eu voltava ao m&#233;dico para ele avaliar e trocar a medica&#231;&#227;o caso a anterior n&#227;o tivesse dando sinais de estar fazendo efeito. Foram longos dois meses de visitas ao m&#233;dico e uma carga enorme de antibi&#243;ticos, pomadas e reza brava, que curaram minha pele e impediram que eu tivesse algo al&#233;m da acne, mas estragaram uma por&#231;&#227;o de outras fun&#231;&#245;es no meu corpo. Desde coisas normais na antibioticoterapia como diarr&#233;ias ou constipa&#231;&#227;o, at&#233; aus&#234;ncia de odores corporais (foi bizarro, meu sovaco n&#227;o tinha cheiro ruim nunca....). Todavia, o efeito colateral mais bisonho foi quando precisei tomar cafalexina.</p><p>Cefalexina &#233; um antibi&#243;tico que entre tantos efeitos colaterais poss&#237;veis, pode causar, em rar&#237;ssimos casos, prurido na regi&#227;o genital. Adivinha se eu n&#227;o fui um dos sorteados com esse efeito incomum? L&#225; pelo terceiro dia do antibi&#243;tico, comecei a sentir uma coceira l&#225;, bem na ponta do l&#225;, diga-se de passagem. E n&#227;o, n&#227;o era uma coceirinha. Era uma gigantesca, que dava vontade de co&#231;ar at&#233; arrancar um peda&#231;o do couro. A dor de uma ferida aberta era prefer&#237;vel &#224;quela coceira, para voc&#234;s entenderem em que ponto estava a coisa.</p><p>Como n&#227;o estava com vontade de tentar uma auto-circuncis&#227;o, resolvi que iria falar para minha m&#227;e sobre o efeito colateral desse tal antibi&#243;tico, j&#225; que tinha lido a bula e l&#225; constava que isso era poss&#237;vel. Primeira coisa que ela perguntou: &#8220;no buraco de quem tu andou enfiando esse neg&#243;cio?&#8221; Seca, objetiva, sem nem dizer um oi antes. Com a bula na m&#227;o, argumentei que n&#227;o tinha enfiado o neg&#243;cio em buraco nenhum e que, portanto n&#227;o podia ser uma IST, que era efeito colateral do antibi&#243;tico. Mostrei a linha na bula que dizia isso para ela se convencer e adiantar a consulta no m&#233;dico para trocar de rem&#233;dio.</p><p>Enfim, ela se convenceu. Fomos at&#233; o m&#233;dico e pedimos para trocar de antibi&#243;tico, alegando &#8220;efeitos colaterais desagrad&#225;veis&#8221;. O m&#233;dico perguntou quais e eu disse um monte de coisa que tinha na bula, sem citar a maldita coceira, torcendo para ele se convencer tamb&#233;m. Com aquela idade, eu n&#227;o estava a fim de mostrar nada al&#233;m do que j&#225; mostrava para o m&#233;dico. Por sorte, ele tamb&#233;m se convenceu, receitou uma segunda Benzetacil (melhor mostrar a bunda para a enfermeira que o &#8220;cidad&#227;o&#8221; para o m&#233;dico, pensei&#8230;) e todo o resto do tratamento transcorreu normalmente.</p><p>***************************************</p><p>O tempo passou mais um pouco e eu j&#225; estava na universidade. Antes de escolher abra&#231;ar &#225;rvores e seguir carreira com a bot&#226;nica, trabalhei em um laborat&#243;rio de bioqu&#237;mica toxicol&#243;gica (tem uma hist&#243;ria sobre isso na minha outra newsletter <a href="/__u/substack.com/home/post/p-179297054">aqui</a>). Passava os dias e as noites pipetando coisas fedorentas e t&#243;xicas, lavando tubos de ensaio e testando subst&#226;ncias qu&#237;micas suspeitas para ver se alguma poderia virar rem&#233;dio (antioxidantes eram os principais compostos testados).</p><p>Eu trabalhava duro no laborat&#243;rio e at&#233; que gostava do que fazia. Acabei conseguindo uma bolsa de inicia&#231;&#227;o cient&#237;fica, fui a Congressos, tive um trabalho bastante elogiado por um pessoal de uma grande universidade do sudeste brasileiro. Todo meu caminho estava trilhado para eu fazer mestrado, doutorado e ficar por ali. Todavia, como todo jovem, eu era rebelde e queria mudar o mundo.</p><p>Um belo dia, resolvi largar tudo sem saber muito bem o que fazer depois. E, em largar tudo, eu me refiro tamb&#233;m &#224; bolsa que eu tinha. N&#227;o era muito, mas me permitia ir ao cinema, teatro, convidar a paquera (termo antigo para <em>crush</em>) para jantar em algum lugar legal, etc., sem precisar pedir dinheiro para meus pais. De uma hora para outra, fiquei sem nada. Virei minimalista antes do termo se tornar chique.</p><p>Em um dos finais de semana em que fui de volta para casa visitar meus pais, desabafei com a minha m&#227;e sobre o fato de que eu, de repente, n&#227;o tinha mais a liberdade de ir aos lugares que ia, pois estava sem dinheiro e sem perspectiva de outra bolsa. Comentei que iria procurar alguma outra forma de arrumar uma grana, s&#243; n&#227;o sabia ainda muito bem como.</p><p>Ela me disse, calma e serenamente: &#8220;S&#243; cuida para n&#227;o te corromper&#8221;. Retruquei: &#8220;Como assim? Tu acha que eu vou vender droga, por acaso?&#8221;. A tr&#233;plica: &#8220;N&#227;o, isso eu tenho certeza que n&#227;o. S&#243; que tem muita senhora mais velha que o marido n&#227;o d&#225; mais conta e que fica pagando os rapazinhos novos para dar um jeito nas car&#234;ncias delas&#8221;. Vendo minha cara de espanto, ela continuou: &#8220;Fiquei sabendo na cabeleireira semana passada, que a Fulana l&#225; paga 50 reais para um rapaz do futebol chupar a xereca dela. N&#227;o faz isso que n&#227;o vale a pena&#8221;. Com essas palavras. Sem tirar uma v&#237;rgula.</p><p>********************************</p><p>Essas hist&#243;rias s&#227;o apenas um excerto de todos os conselhos que ouvi e ainda ou&#231;o da minha m&#227;e ao longo da vida. &#201; um jeito de educar muito eficiente, sem meias palavras, extremamente objetivo e marcante. Tanto que me lembro de todos eles at&#233; hoje, n&#227;o importando se j&#225; se passaram vinte ou trinta anos.</p><p>E voc&#234;s, quais conselhos ouviram e nunca esqueceram? Comentem abaixo!</p><p>At&#233; a pr&#243;xima!</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Crônica do Interior # 7 – Era proibido, mas se quisesse podia]]></title><description><![CDATA[Aquela em que conto as transgress&#245;es permitidas que faz&#237;amos]]></description><link>https://guilhermeceolin.substack.com/p/cronica-do-interior-7-era-proibido</link><guid isPermaLink="false">https://guilhermeceolin.substack.com/p/cronica-do-interior-7-era-proibido</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Ceolin]]></dc:creator><pubDate>Thu, 13 Nov 2025 14:08:11 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!E5o0!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fdd4060aa-6d58-4180-a803-b2700e56d117_1024x1024.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Em outra cr&#244;nica que escrevi (a #3 se n&#227;o me engano), na qual falei sobre apelidos, fiz cita&#231;&#245;es breves a Thomas Hobbes e Jacques Rousseau <s>para mostrar o quanto eu sou erudito</s> para tentar contextualizar que apelidos tanto podem ser express&#227;o da maldade hobbesiana inerente ao ser humano, quanto tamb&#233;m podem representar o ideal rousseauniano de bondade intr&#237;nseca que as pessoas possuem. Hoje, flertarei novamente com as ideias destes ilustres pensadores para introduzir o tema da cr&#244;nica do dia: o quanto certas viola&#231;&#245;es legais s&#227;o toleradas em certas cidades do interior pelo pacto social pr&#243;prio que elas possuem.</p><p>&#8220;Pacto social&#8221; ou &#8220;contrato social&#8221;, em filosofia pol&#237;tica, &#233; uma doutrina que tenta explicar a origem da sociedade e do Estado como um acordo impl&#237;cito entre os indiv&#237;duos, que abandonam o &#8220;estado de natureza&#8221; (vida sem leis) para formar uma sociedade civil organizada. Ou seja, os seres humanos concordam em abrir m&#227;o de certas &#8220;liberdades&#8221; (como, por exemplo, matar por vingan&#231;a ou tomar &#224; for&#231;a o que pertence a outrem) para buscar seguran&#231;a, justi&#231;a e harmonia social, evitando estar sempre em condi&#231;&#227;o de conflito e inseguran&#231;a quanto ao futuro. Esses acordos sociais s&#227;o a base para a forma&#231;&#227;o de uma sociedade civil organizada regida por leis gerais, as quais s&#227;o institu&#237;das e fiscalizadas por algum tipo de governo.</p><p>Pois bem, pela l&#243;gica, as leis devem servir para todo mundo, caso contr&#225;rio o pacto social perde sua raz&#227;o de existir. Leis de tr&#226;nsito, por exemplo, devem ser seguidas por todos os motoristas que trafegam em territ&#243;rio nacional, para n&#227;o tornar o tr&#226;nsito ca&#243;tico caso se mude de Estado. Leis ambientais idem, Estatutos diversos, como o da crian&#231;a e adolescente tamb&#233;m se enquadram nesse caso, leis penais e etc. N&#227;o obstante, algumas destas leis s&#227;o &#8220;flexibilizadas&#8221; a depender do local em que se est&#225;, como veremos nas pr&#243;ximas linhas.</p><p></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!E5o0!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fdd4060aa-6d58-4180-a803-b2700e56d117_1024x1024.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!E5o0!, /__u/guilhermeceolin.substack.com/w_424, /__u/guilhermeceolin.substack.com/c_limit, /__u/guilhermeceolin.substack.com/f_webp, /__u/guilhermeceolin.substack.com/q_auto:good, 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Era pr&#225;tica comum depois da missa no s&#225;bado a noite, os pi&#225;s darem umas &#8220;bandas&#8221; de carro pela cidade com os amigos, todo mundo entre 12 e 14 anos.</p><p>Meu pai foi conservador: s&#243; me deixou engatar a primeira marcha e soltar o p&#233; da embreagem com o carro ligado aos 14 anos, porque, n&#233;, antes era muito novo.</p><p>E a pol&#237;cia: de boas, desde que n&#227;o houvesse acidentes nem loucuras como cavalinhos-de-pau e equivalentes, nada demais. Era proibido, mas se quisesse podia.</p><p>******************************************************************************</p><p>Ainda com esta idade, 14 anos, fui, com uma excurs&#227;o da escola, para a Oktoberfest. E o chopp? Liberado, desde que ningu&#233;m se embriagasse e fizesse fiasco. Engra&#231;ado &#233; que no local onde vendiam-se as fichas do chopp tinha um cartaz: &#8220;proibida a venda de bebidas alco&#243;licas para menores de 18 anos&#8221;. Nunca ningu&#233;m me pediu a identidade.</p><p>******************************************************************************</p><p>Quando eu entrei no ensino m&#233;dio (que na &#233;poca se chamava &#8220;segundo grau&#8221;) nossa principal divers&#227;o era ficar em uma esquina s&#225;bado &#224; noite bebendo vinho de garraf&#227;o, escutando rock e fumando Gudang (manja, aqueles cigarros de cravo?). Tudo ilegal e proibido, inclusive o rock (n&#227;o pela m&#250;sica em si, mas pelo volume em que escut&#225;vamos &#224;quela hora da noite).</p><p>***************************************************************************</p><p>Um dos meus colegas saiu mais cedo da aula de educa&#231;&#227;o f&#237;sica, certa ocasi&#227;o, falando que ia at&#233; a banca comprar umas revistas educativas. Ficamos nos perguntando que tipo de revista era essa e o que ela ensinava. No dia seguinte, ele nos mostrou. Ele tinha comprado umas sete ou oito revistinhas, algumas coloridas, outras em preto-e-branco com t&#237;tulos como &#8220;Meu querido guardi&#227;o&#8221;, &#8220;Escola de sacanagem&#8221;, &#8220;Flor ardente&#8221;, e etc. Sem d&#250;vida, eram educativas porque complementavam as aulas de corpo humano que est&#225;vamos tendo. E o que mais chamava aten&#231;&#227;o era que estava escrito na capa em letras nada mi&#250;das: &#8220;proibido para menores de 18 anos&#8221;. O moleque em quest&#227;o tinha 15 e ningu&#233;m perguntou nada para ele.</p><p>************************************************************************</p><p>Um dia liguei para este mesmo colega para convid&#225;-lo para dar uma volta na rua na sexta-feira a noite. Ele disse que estava de castigo por um bom tempo sem poder sair de casa. &#8220;Tua m&#227;e achou as revistas?&#8221; &#8220;N&#227;o, isso ela sabe e n&#227;o d&#225; bola&#8221;. &#8220;Ent&#227;o, o que houve?&#8221; &#8220;Disse para minha m&#227;e que ia jogar baralho na casa do Fulano e que antes das 22h estaria em casa. Cheguei era 4:30h da madrugada, b&#234;bado e cheirando a palheiro. Minha m&#227;e estava esperando sentada no sof&#225;, me deu o maior esporro e me deixou de castigo&#8221;. &#8220;Onde voc&#234;s foram?&#8221; &#8220;Eu sa&#237; de casa com a inten&#231;&#227;o de jogar truco na casa do Fulano, mas o tio dele nos convidou para dar uma volta de caminhonete e acabou nos levando para a zona&#8221;. &#8220;E voc&#234; fez o qu&#234; l&#225;?&#8221; &#8220;Nada, n&#227;o tinha dinheiro. S&#243; fiquei bebendo e fumando palheiro com fumo de corda. Minha m&#227;e reclamou que eu estava b&#234;bado e eu falei para ela que n&#227;o estava e que para provar eu ia fazer um quatro com as pernas&#8221;. &#8220;E a&#237;, conseguiu?&#8221; &#8220;Consegui, n&#227;o mexi um mil&#237;metro para nem um lado&#8221;. &#8220;Ent&#227;o, nem tinha bebido tanto....conseguiu parar sobre um p&#233; s&#243;.&#8221; &#8220;Capaz, estava totalmente borracho. Acho que foi o capeta que me segurou para eu n&#227;o cair&#8221;.</p><p>*************************************************************************</p><p>Certa vez, no meio de uma tarde nas f&#233;rias de julho, atendi o telefone na minha casa. Do outro lado da linha, meu colega de aula: &#8220;Cara, vamos ca&#231;ar pre&#225; l&#225; nos trilhos? Meu pai liberou a espingarda&#8221;. Eu com 16 anos, meu colega com 17. L&#225; fomos n&#243;s dar tiros na beira de um c&#243;rrego perto dos trilhos de trem pouco mais de 500 metros afastado do centro da cidade. N&#227;o acertamos nada nem ningu&#233;m, por sorte!</p><p>***************************************************************************</p><p>Faz um tempinho j&#225;, li uma <a href="/__u/substack.com/home/post/p-153123223">postagem</a> do <a href="/__u/substack.com/@marceloferlin">Marcelo Ferlin</a> (sigam! Os textos s&#227;o &#243;timos!) em que ele comentava que antigamente as pessoas desenhavam su&#225;sticas inocentemente, sem peso na consci&#234;ncia, pois n&#227;o havia nenhuma conota&#231;&#227;o ideol&#243;gica com o partido daquele pintor austr&#237;aco do bigodinho. Lembrei que isso era bastante comum na minha cidade, o pessoal, muitos ainda no ensino fundamental, em uma semana desenhava a cruz gamada na lateral dos cadernos, nos muros, na lousa, no verso de provas, nas portas dos banheiros, etc. e na semana seguinte, estava desenhando cristo crucificado, estrelas de David, pentagramas e o que mais viesse na cabe&#231;a.</p><p>************************************************************************************</p><p>Todos estes comportamentos e atitudes descritas acima eram comuns e imitados por todo mundo, ali&#225;s, ach&#225;vamos at&#233; &#8220;anormal&#8221; quem n&#227;o fizesse. Mas, fica a pergunta, por que se fazia isso? Eram os jovens no interior do Rio Grande do Sul nos anos 1980 e 1990 nazistas, satanistas, taxistas, cambistas, etc.? </p><p>A resposta curta e simples &#233;: n&#227;o, ningu&#233;m era nada. Na verdade, nem serquer t&#237;nhamos a inten&#231;&#227;o de vivermos uma vida louca e transviada, como minha av&#243; acusava. Todos estes comportamentos e atos perigosos, ilegais, imorais e alguns que at&#233; engordavam, eram praticados por uma mistura de t&#233;dio e zoeira, com pitadas de rebeldia juvenil pr&#243;prias da &#233;poca. Em suma: era para encher o saco mesmo, j&#225; que, al&#233;m de transgress&#245;es do ponto de vista jur&#237;dico, eram mal vistos e ajudavam a ocupar o tempo em lugares onde nada acontecia.</p><p>Ah, ent&#227;o quer dizer que esta &#233; uma postagem saudosista, do tipo &#8220;no meu tempo era melhor&#8221;? N&#227;o, nada disso, &#233; uma postagem neutra, sem nenhuma nostalgia, sem nenhuma li&#231;&#227;o de moral nem ju&#237;zo de valor ou orgulho, s&#243; um relato do que faz&#237;amos, a guisa de retrato de &#233;poca mesmo. Um rol de exemplos de que o pacto social pode ter v&#225;rias nuances a depender da &#233;poca e do contexto local.</p><p>Na verdade, eu ouso dizer que &#233; o contr&#225;rio do que parece: hoje est&#225; muito melhor do que antigamente, j&#225; que muitas das atitudes descritas possuem alto potencial destrutivo e eu certamente n&#227;o gostaria de ver meus filhos repetindo os mesmos erros que eu cometi e correndo os mesmos riscos que eu. Que eles busquem riscos novos e cometam erros diferentes, de prefer&#234;ncia com maior chance de sobreviv&#234;ncia do que algumas das coisas que fiz.</p><p>At&#233; a pr&#243;xima, pessoal!</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Crônicas do Interior # 6 – O rádio era meu pastor e (quase) nada me faltava]]></title><description><![CDATA[Aquela em que levei quase trinta anos para descobrir o nome de uma m&#250;sica]]></description><link>https://guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-6-o-radio-era</link><guid isPermaLink="false">https://guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-6-o-radio-era</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Ceolin]]></dc:creator><pubDate>Thu, 09 Oct 2025 19:31:55 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!EBSX!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd4518aee-d1e9-4e45-8e4b-9bcebc64cd65_1261x1280.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>Morar no interior hoje n&#227;o &#233; mais sin&#244;nimo de ficar isolado das novidades da &#8220;capital&#8221;, afinal, tudo est&#225; na internet, essa grande <em>highway </em>da informa&#231;&#227;o. Por&#233;m, eu diria que at&#233; meados da primeira d&#233;cada deste nosso s&#233;culo atual, antes da populariza&#231;&#227;o do <em>smartphone</em>, algumas coisas eram dif&#237;ceis de ficar sabendo a depender do <s>buraco</s> lugar que voc&#234; morava.</p><p>A maior parte das informa&#231;&#245;es vinha ou dos jornais (aqueles peda&#231;os de papel barato dobrados cheios de letras e fotos impressas que manchavam as m&#227;os de tinta ap&#243;s o manuseio e que no dia seguinte servia para embrulhar o peixe ou para forrar a gaiola da caturrita), ou da televis&#227;o (TV aberta, com intervalos comerciais e cuja programa&#231;&#227;o n&#227;o s&#243; tinha hor&#225;rio para passar como n&#227;o podia ser pausada se no cl&#237;max do filme desse um piriri em quem estivesse assistindo) ou r&#225;dio (aquele neg&#243;cio cheio de est&#225;tica que alternava m&#250;sicas de todos os tipos com propagandas e narra&#231;&#245;es de not&#237;cias e fatos por uma pessoa com voz empostada e que pronunciava todas as vogais e consoantes, at&#233; os dois &#8220;a&#8221; da crase &#8211; &#8220;<em>vamos a a padaria?</em>&#8221;)</p><p>No caso da casa onde morava com minha fam&#237;lia, os tr&#234;s ve&#237;culos (jornal, r&#225;dio e TV) eram onipresentes, todavia, o r&#225;dio se destacava, pois sempre ligado, 24h e isso n&#227;o &#233; exagero. Lembro do meu pai indo deitar-se para dormir a noite com seu pequeno r&#225;dio de pilha sintonizado na R&#225;dio Ga&#250;cha AM. Achava aquilo uma coisa esquisita, h&#225;bito de gente idosa, at&#233; o dia em que comecei a fazer o mesmo, primeiro com o <em>walk man</em> e depois com o celular (pelo menos eu sempre usei fones).</p><p>Estes tempos, enquanto fazia uma de minhas caminhadas semanais (que, diferente dessa newsletter, realmente ocorrem toda semana), passei em frente a uma esta&#231;&#227;o de r&#225;dio aqui da minha cidade, a qual est&#225; instalada no t&#233;rreo de um pr&#233;dio ao lado da igreja e, ao contr&#225;rio do que s&#243;i ocorrer, n&#227;o encontra-se confinada em um c&#244;modo fechado, mas na fachada da sala comercial que ocupa, separada da rua somente por uma grande vidra&#231;a, como se vitrine fosse, permitindo aos transeuntes virem os locutores e a t&#233;cnica fazendo todo seu trabalho de radiodifus&#227;o. Essa vis&#227;o despertou v&#225;rias mem&#243;rias a respeito da minha rela&#231;&#227;o com o r&#225;dio, em especial duas, que, segundo meus par&#226;metros, s&#227;o as mais interessantes e que valem a pena serem compartilhadas.</p><p>A primeira tem a ver com a paix&#227;o n&#250;mero um do brasileiro: <s>malandragem</s> futebol. Como todo bom ga&#250;cho, sou torcedor do fabuloso, centen&#225;rio e imortal tricolor, o &#250;nico e inigual&#225;vel Gr&#234;mio de Foot-ball Porto alegrense (Gr&#234;mio FBPA). No saudoso <em>annus mirabilis</em> de 1995, a esquadra tricolor era uma m&#225;quina, treinada pelo Felip&#227;o, em cujo elenco despontavam Jardel, Paulo Nunes, Arce, Rivarola, Danrlei, Dinho, Goiano, Carlos Miguel e etc. (e at&#233; os etc. eram grandes jogadores). Seu arqui-rival na &#233;poca era o Palmeiras, igualmente uma m&#225;quina treinada por Wanderlei Luxemburgo.</p><p>Em um dos jogos da Copa do Brasil daquele ano, na fase do mata-mata, a disputa entre Gr&#234;mio e Palmeiras n&#227;o iria passar em nenhum canal de televis&#227;o, s&#243; restando para este pobre torcedor escutar o jogo pelo r&#225;dio. E a transmiss&#227;o estava ruim como nunca e o jogo estava pegado como sempre. O Gr&#234;mio precisava de um empate para passar de fase. E que empate sofrido! O Gr&#234;mio come&#231;ou o jogo arrasando, de modo que com menos de 25 minutos de jogo, j&#225; estava 2 x 0 para o time ga&#250;cho.</p><p>Todavia, assim com a vida, o futebol &#233; uma caixinha de surpresas. Houve confus&#227;o, chute daqui, agress&#227;o sem bola de acol&#225; e um monte de gente foi expulsa, sendo um do Palmeiras e tr&#234;s (!) do Gr&#234;mio. Da&#237;, tudo virou drama! O Palmeiras, com clara vantagem num&#233;rica, n&#227;o demorou para empatar, botando press&#227;o e bicando o rabo do Gr&#234;mio at&#233; o &#250;ltimo minuto (e o segundo tempo teve 51 minutos com os acr&#233;scimos), levando perigo a cada bola lan&#231;ada na &#225;rea, a cada avan&#231;o do ataque no campo de defesa do tricolor porto-alegrense.</p><p>E eu e meu irm&#227;o com os ouvidos colados no r&#225;dio, tentando decifrar se o lance tinha dado bom ou ruim em meio aos chiados, interrup&#231;&#245;es e quedas na transmiss&#227;o do jogo. Cheguei a pensar em desistir e ir dormir, para s&#243; saber do resultado do jogo no dia seguinte pelo jornal Correio do Povo. Sim, era assim a vida no s&#233;culo XX, n&#227;o tinha como saber nada instantaneamente. &#201;ramos menos ansiosos, de modo geral.</p><p>Contudo, naquele dia, naquela partida, nem eu nem meu irm&#227;o ir&#237;amos conseguir dormir se n&#227;o termin&#225;ssemos de escutar aquele jogo at&#233; o final. E como eu disse acima, o &#225;rbitro compensou todo o tempo da confus&#227;o nos acr&#233;scimos e o jogo se arrastou at&#233; 51 minutos, ou seja, seis intermin&#225;veis minutos a mais de agonia e sofrimento em meio &#224; narra&#231;&#227;o inintelig&#237;vel da R&#225;dio Ga&#250;cha devido &#224; quantia incr&#237;vel de interfer&#234;ncia est&#225;tica daquela noite.</p><p>Quando finalmente pudemos ouvir o narrador anunciando o apito final, foi uma alegria e um al&#237;vio. O Gr&#234;mio estava na pr&#243;xima fase da Copa do Brasil e eu iria poder zoar sem d&#243; nem piedade todos os meus colegas colorados no dia seguinte na escola.</p><p>Bons tempos em que me importava com o futebol. Hoje, trinta anos depois daquele fat&#237;dico dia, eu s&#243; me informo sobre o Gr&#234;mio quando preciso cortar o cabelo e quero ter assunto com o barbeiro.</p><p>O segundo fato interessante foi que demorei quase trinta anos para descobrir o nome de uma m&#250;sica e s&#243; o consegui fazer porque um dia, lavando a lou&#231;a (conselho: lavem a lou&#231;a regularmente se quiserem ter insights, n&#227;o sei se &#233; o sab&#227;o, a esponja, a panela engordurada, algo neste ato desperta in&#250;meras ideias e reflex&#245;es filos&#243;ficas), lembrei que a tinha gravada em uma fitinha K7 (l&#234;-se cassete, com o primeiro &#8220;e&#8221; aberto: &#8220;cass&#233;te&#8221;) e que nunca soubera at&#233; o momento quem cantava nem o nome da mesma. Assim que terminei o meu servi&#231;o e deixei a pia impec&#225;vel, cantarolei para o Google e descobri (finalmente!) quase trinta anos depois o nome da can&#231;&#227;o. Mas, antes de revelar a qual m&#250;sica me refiro, permitam-me dar um pouco de contexto.</p><p>At&#233; o ano de 1994, pr&#233; Plano Real, n&#227;o existia nada na minha casa adequado para se ouvir m&#250;sica, exceto o radinho de pilha do meu pai mencionado nos primeiros par&#225;grafos e um outro radi&#227;o velho com toca fitas, cuja qualidade sonora era sofr&#237;vel. Por que n&#227;o t&#237;nhamos outros equipamentos? A resposta: pobreza e infla&#231;&#227;o galopante. Meus pais eram professores estaduais com tr&#234;s filhos para criar. Priorizaram construir uma casa pr&#243;pria para sair do aluguel, portanto, sempre que o sal&#225;rio caia na conta era um barata voa na minha casa. Minha m&#227;e corria para o mercado fazer o &#8220;rancho&#8221; (compra do m&#234;s, em gauch&#234;s) para garantir a subsist&#234;ncia da fam&#237;lia e meu pai corria para comprar material de constru&#231;&#227;o e pagar os pedreiros para a casa continuar sendo feita. Eis que n&#227;o sobrava para absolutamente mais nada. Muito usei roupa doada dos meus primos mais velhos e muito remendo de couro nos joelhos minha m&#227;e costurou nas minhas cal&#231;as velhas.</p><p>Finalmente, a casa foi constru&#237;da e a vida melhorou um pouco, por&#233;m ainda n&#227;o estava sobrando dinheiro para coisas como um 3 em 1, como cham&#225;vamos os equipamentos sonoros que tinham r&#225;dio, toca-disco e toca fita em um &#250;nico combo. Tanto &#233; verdade, que, no meu anivers&#225;rio de seis anos, lembro que n&#227;o s&#243; n&#227;o havia dinheiro para o bolo (minha m&#227;e colocou uma vela em um prato de brigadeiro que ela mesma tinha feito), como uma das minhas coleguinhas da escola me deu um disco de vinil de presente. Era um LP dos Abelhudos (foto abaixo). Era um sucesso na &#233;poca entre as crian&#231;as e... eu n&#227;o tinha onde ouvir. Foi um anivers&#225;rio traum&#225;tico, de certa forma!</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!EBSX!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd4518aee-d1e9-4e45-8e4b-9bcebc64cd65_1261x1280.webp" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!EBSX!, /__u/guilhermeceolin.substack.com/w_424, /__u/guilhermeceolin.substack.com/c_limit, /__u/guilhermeceolin.substack.com/f_webp, /__u/guilhermeceolin.substack.com/q_auto:good, /__u/guilhermeceolin.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd4518aee-d1e9-4e45-8e4b-9bcebc64cd65_1261x1280.webp 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!EBSX!, /__u/guilhermeceolin.substack.com/w_848, 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tudo mudou em 1994 com o controle inflacion&#225;rio. Meu velho, finalmente, pode comprar o sonhado 3 em 1, com um acr&#233;scimo: o set de som veio com um tocador de CD acoplado, dado que esta m&#237;dia j&#225; era popular na &#233;poca, ou seja, era um 4 em 1. Da&#237;, eu que j&#225; contava com 12 anos nas costas e estava come&#231;ando a fase adolescente rebelde, descobri o rock&#8217;n&#8217;roll. Primeiramente, com um CD do Raul Seixas que meu pai comprou, dado que ele tamb&#233;m gostava muito do Maluco Beleza. Depois, paulatinamente, fui conhecendo o resto.</p><p>Eu lembro que perguntei para uns colegas da escola o que eles escutavam no r&#225;dio e eles me falaram para ouvir a Transam&#233;rica, que tinha uma repetidora no Rio Grande do Sul. Da&#237; foi ladeira abaixo. Descobri um monte de bandas que nunca tinha sequer ouvido falar: AC/DC, Led Zeppelin, Nirvana, Ramones, Guns &#8216;n&#8217;Roses, Engenheiros, Legi&#227;o, etc.</p><p>No ano seguinte, come&#231;aram as festinhas de garagem, assunto que rende um post a parte s&#243; para explicar como era a din&#226;mica das mesmas em meados dos anos 90 no interior do RS. Todavia, para abreviar a hist&#243;ria, basta contar que eu era encarregado de gravar as m&#250;sicas que seriam tocadas na festa, j&#225; que meu equipamento de som era top de linha para a &#233;poca. As m&#250;sicas se dividiam em agitadas, para todo mundo dan&#231;ar junto e se divertir, e as lentas, cuja fun&#231;&#227;o era dar chance para os pi&#225;s tirar as meninas para dan&#231;ar de rosto colado e mandar o xaveco (99% das vezes dava errado, mas isso &#233; assunto para outro dia).</p><p>Ent&#227;o, uma semana antes das festinhas, eu tinha o compromisso de passar o tempo inteiro que n&#227;o estivesse na escola grudado no r&#225;dio com uma fita virgem no deck e os dedos atentos para apertar REC assim que alguma m&#250;sica interessante tocasse, tanto lenta quanto agitada. E a&#237; que acabei gravando a tal m&#250;sica misteriosa que me custou trinta anos para descobrir.</p><p>A m&#250;sica era &#8220;<strong>Not Enough</strong>&#8221;, uma balada algo mela-cueca da fase Sammy Hagar do Van Halen. Por sorte eu lembrava da melodia e consegui cantarolar para o Google que me deu a letra, literalmente. Escutem pelo link abaixo e me digam se j&#225; conheciam e se gostam da m&#250;sica.</p><div id="youtube2-8977n9nHcTQ" class="youtube-wrap" data-attrs="{&quot;videoId&quot;:&quot;8977n9nHcTQ&quot;,&quot;startTime&quot;:null,&quot;endTime&quot;:null}" data-component-name="Youtube2ToDOM"><div class="youtube-inner"><iframe src="https://www.youtube-nocookie.com/embed/8977n9nHcTQ?rel=0&amp;autoplay=0&amp;showinfo=0&amp;enablejsapi=0" frameborder="0" loading="lazy" gesture="media" allow="autoplay; fullscreen" allowautoplay="true" allowfullscreen="true" width="728" height="409"></iframe></div></div></blockquote><p>Passem bem e at&#233; a pr&#243;xima!</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Crônicas do interior # 5 – Medicina campeira]]></title><description><![CDATA[Aquela em que descobri um bichinho muito diferente]]></description><link>https://guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-5-medicina-campeira</link><guid isPermaLink="false">https://guilhermeceolin.substack.com/p/cronicas-do-interior-5-medicina-campeira</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Ceolin]]></dc:creator><pubDate>Tue, 26 Aug 2025 16:15:24 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!m_SC!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fae7d4534-9cba-4e07-895b-ac1483ef689f_1024x1024.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Semana passada terminei de ler o livro <strong>Medicina dos Horrores</strong> (Lindsey Fitzharris; Editora Intrinseca), no qual a autora reconta de uma maneira, ah, digamos, interessante (eu iria escrever &#8220;deliciosa&#8221;, mas como n&#227;o tenho tend&#234;ncias hannibal-lecterianas, se &#233; que voc&#234;s me entendem, evitarei usar este termo) a hist&#243;ria de como os esfor&#231;os de diversos pesquisadores, principalmente do m&#233;dico ingl&#234;s Joseph Lister, transformaram o mundo das cirurgias em meados do s&#233;culo XIX.</p><p>Duas coisas foram fundamentais para que as cirurgias deixassem de ser uma pr&#225;tica m&#233;dica horrorosa e se transformassem em rotina nos hospitais e ambulat&#243;rios: a anestesia (popularizada pelo Dr. Thomas G. Morton, em uma demonstra&#231;&#227;o p&#250;blica em Boston) e a assepsia (aqui entrando a grande contribui&#231;&#227;o de Joseph Lister, personagem central do livro). Pois &#233;, vejam voc&#234;s, o que hoje &#233; tido como a coisa mais l&#243;gica do mundo, que &#233; a limpeza e desinfec&#231;&#227;o de camas, instala&#231;&#245;es, equipamentos e aparelhos cir&#250;rgicos, era algo impens&#225;vel a meros 150 anos atr&#225;s.</p><p>Fiquei realmente impressionado com a resist&#234;ncia dos m&#233;dicos da &#233;poca em aceitarem que a falta de higiene e a contamina&#231;&#227;o eram as principais causas de infec&#231;&#227;o e morte de pacientes no p&#243;s-operat&#243;rio. Que absurdo ter que lavar as m&#227;os para fazer um parto ap&#243;s realizar uma aut&#243;psia em um cad&#225;ver, n&#233;? Enfim, que bom que hoje estamos melhor, n&#227;o &#233; mesmo?</p><p>Bem, mais ou menos. Em rinc&#245;es deste Brasil, tipo aquele em que passei minha inf&#226;ncia e adolesc&#234;ncia, e ainda hoje circulo, algumas coisas da &#8220;medicina campeira&#8221; ainda existem. Na edi&#231;&#227;o de hoje desta t&#227;o aguardada newsletter, vou relatar tr&#234;s casos curiosos, que ou aconteceram comigo ou eu vi acontecerem com pessoas pr&#243;ximas.</p><p>O primeiro caso foi de um vizinho da minha m&#227;e que perdeu uma boa parte da musculatura de um antebra&#231;o (quase teve que amputar, na verdade) por que levou uma picada de aranha. Aranhas s&#227;o capazes de fazer este tipo de estrago? Sim, e at&#233; piores, principalmente a esp&#233;cie que picou este senhor, uma aranha-marrom (<em>Loxosceles gaucho</em> &#8211; ga&#250;cha at&#233; no nome cient&#237;fico...veja s&#243;!).</p><p>Este tipo de aranha habita normalmente ambientes dom&#233;sticos, sendo bastante comum no sul do Brasil, principalmente no Paran&#225;, onde o n&#250;mero de acidentes &#233; bem alto at&#233;, devido a um h&#225;bito bem pouco interessante: se esconder em roupas, cal&#231;ados, cortinas, dobras de cobertas, etc.</p><p>Ela n&#227;o &#233; agressiva como a aranha-armadeira (<em>Phoneutria nigriventer</em>), que, literalmente, salta para atacar, &#233; at&#233; bem pac&#237;fica, mas como se esconde neste tipo de lugar, basta a pessoa cal&#231;ar um t&#234;nis, sentar em um sof&#225;, puxar uma coberta ou toalha ou colocar qualquer pe&#231;a de roupa, que corre o risco de sem querer apertar um indiv&#237;duo desta esp&#233;cie e tomar uma picada. E a&#237;, uma vez picada, a pessoa deve fazer o qu&#234;? Se voc&#234; respondeu: correr para um pronto-socorro buscar ajuda m&#233;dica, acertou. Adivinha o que o vizinho da minha m&#227;e resolveu fazer? Sim, mandou benzer! Por que, n&#233;, picada de aranha a tradi&#231;&#227;o diz que tem que ir a uma benzedeira, fazer uma reza espec&#237;fica, colocar um ung&#252;ento qualquer e nada de ruim vai acontecer. Bom, pelo jeito a benzedeira errou a reza, porque o resultado foi feio!</p><p>As aranhas-marrons pertencem a uma fam&#237;lia de aracn&#237;deos chamada Sicariidae, com dois g&#234;neros: <em>Loxosceles</em>, j&#225; explicado acima, e <em>Sicarius</em>, que s&#227;o aranhas muito comuns no sul do continente africano. Se algu&#233;m tirou um minutinho para prestar aten&#231;&#227;o ao nome tanto do segundo g&#234;nero quanto no nome da fam&#237;lia destas aranhas percebeu que coisa boa n&#227;o poderia ser.</p><p>Sic&#225;rio significa &#8220;assassino (derivado de <em>sica</em>, nome latino de um tipo de adaga curva) e n&#227;o &#224; toa os aracn&#243;logos batizaram estes bichos desta forma. Todo o grupo produz um tipo de veneno necrosante muito potente, que destr&#243;i pele, m&#250;sculos e demais tecidos no entorno da picada. As aranhas fazem isso porque t&#234;m m&#225; &#237;ndole? Claro que n&#227;o! Esse &#233; o jeito que elas t&#234;m para se alimentar: injetam o veneno na presa, ela se liquefaz com o tempo pela a&#231;&#227;o desta subst&#226;ncia e fica f&#225;cil para o animal &#8220;sugar&#8221; o caldinho.</p><p>Acontece que o bra&#231;o do sujeito estava indo para o mesmo caminho. Quando ele percebeu que a coisa estava piorando, correu para o hospital. Mas a&#237; era tarde. Uma boa parte dos tecidos j&#225; havia sido comprometida. Os m&#233;dicos tiveram que desbridar a ferida e eliminar todas as partes mortas. Resultado: o vizinho da minha m&#227;e teve comprometimento de mobilidade em um dos bra&#231;os devido &#224; perda muscular. E olha que poderia ter sido pior, j&#225; que se o veneno ca&#237;sse na corrente sangu&#237;nea, poderia haver fal&#234;ncia renal e morte. Ou seja, picada de qualquer bicho pe&#231;onhento, v&#225; ao m&#233;dico. Benzedeira, pelo menos para isso, n&#227;o funciona.</p><p>Os outros dois &#8220;causos&#8221; aconteceram comigo e s&#227;o bem leves quando comparados ao epis&#243;dio acima. Um ilustra o que era a odontologia em meados dos anos 90 no interior do Brasil e o outro vou contar s&#243; porque &#233; engra&#231;ado e curioso.</p><p>Quando eu tinha entre 13 e 14 anos, come&#231;aram a nascer meus pr&#233;-molares, como era de se esperar para a idade. Ocorreu que um desses dentes n&#227;o tinha espa&#231;o e resolveu que iria nascer de qualquer jeito. E quando eu digo de qualquer jeito, n&#227;o &#233; s&#243; for&#231;a de express&#227;o. Desviou do caminho certo, apontou para o lado e, igual um afloramento rochoso, se incrustou em dire&#231;&#227;o &#224; minha l&#237;ngua (era um dente da arcada inferior).</p><p>Minha m&#227;e se apavorou, marcou consulta com a dentista da fam&#237;lia, que se apavorou mais ainda, pois o dente estava firmemente cravado no osso. A dentista (pobrezinha!) mal pesava 50 kg molhada. Nunca que ela teria for&#231;a para extrair aquele obelisco atravessado. Eu poderia ter usado aparelho ortod&#244;ntico e aos pouco direcionado o dente para o lugar certo? Poderia. Essa &#233; a pr&#225;tica correta de lidar com essa situa&#231;&#227;o atualmente. Todavia, n&#227;o era a solu&#231;&#227;o daquela &#233;poca. O mais f&#225;cil, r&#225;pido e parcimonioso a ser feito era arrancar, j&#225; que era s&#243; um dente. Teria, na melhor das hip&#243;teses, outros 31 para mastigar.</p><p>Ela recomendou, ent&#227;o, que minha m&#227;e telefonasse para o Dr. Fulano, dentista aposentado do Ex&#233;rcito, que atendia ainda por hobby e, certamente, conseguiria extrair aquele rebelde. Minha m&#227;e ligou e soube que ele n&#227;o marcava hora, era para ir ao consult&#243;rio a partir das 13:30h e esperar, j&#225; que era por ordem de chegada.</p><p>Tinha muita gente! Todo mundo ia l&#225; porque ele cobrava bem mais barato que os outros dentistas. E o rol de servi&#231;os era restrito: obtura&#231;&#227;o, canal e extra&#231;&#227;o. O resto n&#227;o fazia parte do repert&#243;rio daquele oficial reformado do glorioso ex&#233;rcito brasileiro (bra&#231;o forte, m&#227;o amiga).</p><p>Duas horas de espera e chegou a minha vez. Fui sozinho, porque com a minha idade j&#225; n&#227;o precisava mais de acompanhamento da minha m&#227;e. Era a regra! Ap&#243;s os 13 anos j&#225; tinha condi&#231;&#245;es de fazer um monte de coisas por minha conta. Quando entrei, me deparei com aquele senhor. Um descendente de alem&#227;o, na casas dos 60 e poucos anos, monstruoso de grande, com as m&#227;os que pareciam duas p&#225;s. Simp&#225;tico at&#233;, embora s&#233;rio e de pouqu&#237;ssimas palavras.</p><p>Sentei na cadeira, relatei o problema, ele deu uma olhada e j&#225; preparou os instrumentos. Umas duas agulhadas doloridas para anestesiar e assim que passei a n&#227;o sentir mais nada, partiu para a ignor&#226;ncia. Posicionou o botic&#227;o no desviante e come&#231;ou a puxar. Dois, tr&#234;s, quatro pux&#245;es bem fortes e nada.</p><p>Estava dif&#237;cil, o dente estava muito profundo no osso. Teve momentso que achei que ele iria arrancar minha mand&#237;bula fora (o bra&#231;o realmente era forte, mas a m&#227;o n&#227;o era assim t&#227;o amiga). Mais dois pux&#245;es e uma tor&#231;&#227;o para o lado. Quase me levantou da cadeira com a tra&#231;&#227;o deste esfor&#231;o. S&#243; faltou ele colocar o p&#233; no meu peito para &#8220;estabilizar&#8221; e conseguir terminar o trabalho.</p><p>E a luta continuou. For&#231;ou mais uma meia d&#250;zia de vezes com o botic&#227;o, para cima e para baixo, para um lado e para o outro e de repente: pop! Foi-se o meu dente. O gosto de sangue tomou conta da minha boca. Todavia, antes que minha baba sanguinolenta manchasse a cadeira, o dentista, em quest&#227;o de segundos, come&#231;ou a suturar minha gengiva. Com uma m&#227;o limpava o sangue e com a outra cravava a agulha de um lado e tirava do outro, dando pequenos n&#243;s na linha entre uma coisa e outra. Tr&#234;s pontos e estava feito o servi&#231;o. Todo esse processo pareceu durar uma eternidade, mas n&#227;o levou nem 15 minutos.</p><p>Paguei pelo servi&#231;o e, antes de sair, ele me passou algumas recomenda&#231;&#245;es: aperte esse algod&#227;o para evitar que o sangramento volte, v&#225; para casa pela sombra e tome sorvete, para o gelado ajudar a estancar o sangue. Obedecendo ao dentista, antes de ir embora em definitivo, passei na casa da minha av&#243; e pedi um dinheiro para comprar um sorvete.</p><p>Minha av&#243;, sovina que n&#227;o abria a m&#227;o nem para colher laranja (colhia com um gancho), n&#227;o gostou do pedido, mas quando eu disse que era para parar de sangrar minha gengiva, concordou. Enquanto mexia em uma gaveta procurando uns trocados, contou-me uma hist&#243;ria apavorante: que era bom mesmo eu cuidar, porque se o sangue n&#227;o parasse, eu poderia dormir, ter uma hemorragia e acordar morto (no caso, n&#227;o acordar, mas reproduzo <em>ipsis verbis</em> a fala da velha), igual um fulano l&#225; que ela conhecera. Tomei o sorvete tenso e preocupado com o fato de o sangramento n&#227;o ter parado ainda em definitivo. Decidi que iria passar a noite acordado monitorando a minha gengiva.</p><p>Cheguei em casa e contei o fato para minha m&#227;e, que riu e disse que aquilo n&#227;o era verdade, que eu poderia, sim, dormir tranq&#252;ilo. Fiquei mais calmo e quando chegou a hora, acomodei-me na cama e adormeci r&#225;pido, relaxado e sossegado. No outro dia de manh&#227;, acordei, olhei para o meu entorno, vi que estava vivo e no meu quarto. Ufa! A hist&#243;ria da minha av&#243; era s&#243; mais uma das muitas hist&#243;rias estranhas que ela contava (tipo a pr&#243;xima e outras que contarei em outra edi&#231;&#227;o dessa newsletter). Por&#233;m, quando olhei para o meu travesseiro, ele estava todo ensanguentado.</p><p>Ou seja, minha av&#243; exagerou, mas n&#227;o errou. Depois desse epis&#243;dio, sempre que precisei extrair algum siso (e foram os quatro!), tomo um sorvete bem caprichado e sigo as recomenda&#231;&#245;es do dentista. V&#225; que um dia eu adorme&#231;a e acorde morto, exangue, por causa de uma hemorragia gengival?</p><p>Voltando a minha av&#243;, ela um belo dia aparece l&#225; em casa com os olhos arregalados, falando r&#225;pido igual narrador de rodeio e gesticulando mais do que juiz de futebol, com as orelhas tapadas com um len&#231;o enrolado na cabe&#231;a. Minha m&#227;e pediu para ela sentar, se acalmar e contar o que estava acontecendo. Ela disse que acordou tonta e surda de um ouvido e que estava preocupada porque achava que tinha matado o bichinho.</p><p>Qu&#234;?! Como assim?! Qual bichinho?! Essa foi a rea&#231;&#227;o imediata minha e da minha m&#227;e. Minha av&#243; n&#227;o tinha nenhum animal de estima&#231;&#227;o, na verdade ela detestava qualquer animal que n&#227;o fosse comest&#237;vel. S&#243; havia criado galinha, vaca, porco e ovelha ao longo da vida. Nunca um gato, cachorro, periquito, papagaio. Sequer um peixe beta solit&#225;rio (porque peixe, sendo comest&#237;vel, corria o risco de virar fil&#233;....). Enfim, qual bicho ela estava falando? O bichinho do ouvido, ora bolas!</p><p>Qu&#234;?! Como assim?!, etc., etc. Todas as perguntas novamente, estupefatos que ficamos. Minha av&#243; s&#243; faltou dar bronca em n&#243;s e nos chamar de ignorantes. Como que t&#237;nhamos estudado tanto e n&#227;o conhec&#237;amos o bichinho que habita os ouvidos e cuja fun&#231;&#227;o era empurrar a cera para fora?  Ele passava dia e noite amontoando a cera at&#233; formarem-se pelotinhas e ent&#227;o as empurrava para fora. Um trabalo &#225;rduo e sem fim, igual um S&#237;sifo do reino animal. Fiquei desconcertado, como que realmente eu n&#227;o conhecia esse animal estupendo e abnegado?</p><p>Fascinado, absorto em meus pensamentos, passei a imaginar sua anatomia, como se parecia, do que se alimentava, ser&#225; que as pelotas de cera n&#227;o serviriam para ele colocar os ovinhos e alimentar suas larvas, igual um besouro-rola-bosta faz? Enfim, um animal fant&#225;stico desses, qu&#227;o ignorante eu fora at&#233; aquele momento?</p><p>Meu transe imaginativo cessou assim que minha m&#227;e rompeu o sil&#234;ncio com uma sonora gargalhada, o que deixou minha av&#243; furiosa. As duas come&#231;aram a brigar e eu no meio olhando para uma e outra alternadamente, igual se faz em uma partida de t&#234;nis.</p><p>Minha m&#227;e falou que a rolha de cera no ouvido da minha av&#243; tinha se formado porque ela n&#227;o era muito adepta do banho di&#225;rio (verdade....principalmente no inverno, que era o caso). Minha av&#243; retrucou: justamente por ela ter lavado o cabelo alguns dias antes, o bichinho poderia ter se afogado, uma vez que entrou &#225;gua no seu ouvido. A troca de farpas e argumentos acalorados continuou at&#233; que ambas chegaram &#224; conclus&#227;o que o entupimento do ouvido poderia ser devido ao fato de que a minha av&#243;, ao secar o ouvido, enfiou a rolha de cera mais para dentro do que devia.</p><p>Minha m&#227;e, ent&#227;o, parou de brigar, passou a m&#227;o no telefone e ligou para o consult&#243;rio m&#233;dico para conseguir um encaixe de consulta ao final da tarde para ele dar uma olhada e, se precisasse, limpar o ouvido da minha dign&#237;ssima av&#243;. S&#243; assim ela iria se acalmar e parar de loucura. Final da hist&#243;ria: o m&#233;dico limpou o pavilh&#227;o auditivo da velha e ela voltou a ouvir novamente (s&#243; se fazia de surda quando a conversa n&#227;o agradava, mas, divago....).</p><p>Nunca mais tocou-se no assunto do bichinho do ouvido, mas suspeito que ela morreu achando que o pobre anim&#225;lculo ainda habitava suas redondezas auriculares e que tinha que cuidar quando lavasse o cabelo para n&#227;o terminar por afog&#225;-lo. Por via das d&#250;vidas, ela passou a faz&#234;-lo com menor freq&#252;&#234;ncia. N&#227;o sei se contribuiu para manter o bicho vivo, mas nitidamente se via que a caspa e a seborr&#233;ia prosperaram que foi uma maravilha.</p><p></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!m_SC!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fae7d4534-9cba-4e07-895b-ac1483ef689f_1024x1024.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!m_SC!, /__u/guilhermeceolin.substack.com/w_424, /__u/guilhermeceolin.substack.com/c_limit, /__u/guilhermeceolin.substack.com/f_webp, /__u/guilhermeceolin.substack.com/q_auto:good, /__u/guilhermeceolin.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fae7d4534-9cba-4e07-895b-ac1483ef689f_1024x1024.jpeg 424w, 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mas como tecnicamente sempre estive aqui, j&#225; que n&#227;o fechei minha conta no Substack, ent&#227;o a frase deveria ser outra: voltei a escrever, ap&#243;s meio ano parado. N&#227;o que neste meio tempo algu&#233;m tenha sentido falta ou eu n&#227;o tivesse nada para escrever. Essas n&#227;o s&#227;o causas prov&#225;veis, embora poss&#237;veis, j&#225; que i) n&#227;o escrevo para fazer sucesso e ii) sempre existem hist&#243;rias para contar. Com a idade que j&#225; contabilizo, o que n&#227;o faltam s&#227;o &#8220;causos&#8221; para serem contados, ainda mais sobre o foco que escolhi dar para esta newsletter: minha vida longe dos grandes centros urbanos brasileiros. Hist&#243;rias interessantes prov&#234;m de intera&#231;&#245;es humanas, nem sempre agrad&#225;veis, mas normalmente valiosas para serem contadas. E como nos interiores provincianos por a&#237; as pessoas ficam muito pr&#243;ximas umas das outras, as hist&#243;rias abundam. E como diz o ditado, o que abunda n&#227;o atrapalha, &#8216;bora contar mais um &#8220;causo&#8221;.</p><p>O tema da cr&#244;nica de hoje &#233; a mudan&#231;a no interior, que n&#227;o &#233; aquela que mexe com a gente no nosso &#237;ntimo e sa&#237;mos dispostos a mudar de vida, aquela em que vendemos tudo e resolvemos viajar o mundo para comer, rezar e amar. Estou falando daquela mudan&#231;a em que juntamos caixas em supermercados (antes de sermos expulsos pela ger&#234;ncia), compramos d&#250;zias de fitas transparentes, etiquetas, sa&#237;mos catando folhas de jornal por a&#237;, contratamos um caminh&#227;o e rezamos para tudo chegar inteiro no destino. Ou seja, um dos c&#237;rculos do Inferno que nem Dante teve coragem de descrever, de t&#227;o horr&#237;vel que &#233;: mudan&#231;a de moradia.</p><p>At&#233; meus 18 anos, n&#227;o tinha nunca participado de uma mudan&#231;a, j&#225; que morava com meus pais e eles, como era comum acontecer entre os <em>boomers</em>, tinham casa pr&#243;pria. Financiada at&#233; ca&#237;rem os dedos de tanto contar presta&#231;&#245;es, mas que eventualmente foi quitada e eles moram l&#225; at&#233; hoje. Quando atingi a maioridade e terminei o segundo grau, precisei encarar a vida &#8220;adulta&#8221; e parti para me tornar um &#8220;cidad&#227;o de bem&#8221;. Primeiro, como estudante de cursinho pr&#233;-vestibular, depois como universit&#225;rio. E a&#237; come&#231;ou a saga infind&#225;vel de mudan&#231;as, n&#227;o s&#243; de casas dentro da mesma cidade, mas tamb&#233;m de cidade.</p><p>A grande quest&#227;o de se fazer mudan&#231;as no interior &#233; a falta de m&#227;o de obra especializada. Voc&#234; n&#227;o tem como simplesmente contratar uma empresa de mudan&#231;as, receber o pessoal dentro de casa e esperar que eles levem as caixas, a fita adesiva, o pl&#225;stico bolha, etc., embalem tudo e coloquem no caminh&#227;o. Voc&#234; tem que fazer tudo isso e ainda ajudar a carregar. D&#225; para deixar na m&#227;o do pessoal do frete? At&#233; d&#225;, mas vai ter prato quebrado e m&#243;vel arranhado. Ent&#227;o, para evitar a fadiga de ter que reclamar e bater boca com pessoas semi desconhecidas, &#233; melhor encarar a fadiga de ter que embalar tudo voc&#234; mesmo, ajudar e supervisionar o embarque e o desembarque. At&#233; porque, meu dinheiro sempre foi muito contado, n&#227;o poderia me dar ao luxo de perder ou estragar alguma coisa. Tipo meu guarda-roupa.</p><p>Certa ocasi&#227;o, consegui uma oferta de moradia de um apartamento longe para outro mais perto da universidade, no qual poderia ir a p&#233; para o campus, sem precisar pegar &#244;nibus. Um grande al&#237;vio no or&#231;amento. Da&#237;, obviamente, tive que contratar um frete para transportar as poucas coisas que eu tinha: cama, cadeiras, escrivaninha, livros, objetos pessoais, malas e um guarda-roupa. O resto dos itens (fog&#227;o, geladeira, etc.) eram da casa, pois aluguei semi-mobiliado. O guarda-roupa em quest&#227;o era um modelo muito simples, com duas portas e tr&#234;s gavetas, que n&#227;o precisava desmontar e montar todas as vezes. Comprei usado em um brique (do franc&#234;s, &#8220;briq-&#224;-braq&#8221;), era velho mas me servia muito bem, pois solteiro e minimalista (termo chique para &#8220;pobre&#8221;).</p><p>No dia da mudan&#231;a, para deixar tudo mais f&#225;cil, amanheceu nublado com garoas ocasionais e aleat&#243;rias. N&#227;o bastasse isso, logo de cara o mudanceiro cismou que n&#227;o conseguiria descer o guarda-roupa pela escada (&#8220;mas, ele subiu, como n&#227;o pode descer?&#8221;), teria que ser i&#231;ado pela janela at&#233; o ch&#227;o. &#8220;&#201; seguro?&#8221; &#8220;Sim, j&#225; fiz muito isso. Relaxa que n&#227;o d&#225; nada&#8221;. Tirou as gavetas para ficar mais leve e amarrou algumas cordas ao redor, de cima a baixo e de um lado ao outro, prendendo as portas para n&#227;o abrirem na descida. Meu guarda-roupa parecia uma pe&#231;a de copa defumada, com cordas atravessadas por todos os lados, pronta para uma aventura de rapel.</p><p></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!UIYn!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3a18b9c6-7fc5-4a78-bc83-8aafe9acfa48_761x316.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!UIYn!, /__u/guilhermeceolin.substack.com/w_424, /__u/guilhermeceolin.substack.com/c_limit, /__u/guilhermeceolin.substack.com/f_webp, /__u/guilhermeceolin.substack.com/q_auto:good, /__u/guilhermeceolin.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3a18b9c6-7fc5-4a78-bc83-8aafe9acfa48_761x316.png 424w, 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Faltando uns 50, 60 cm para chegar ao solo, a corda acabou. O senhor freteiro tinha calculado mal o tamanho da corda. &#8220;E agora?&#8221; &#8220;Vamos soltar <em>degavarzinho</em>, que ele para em p&#233;&#8221;. No tr&#234;s, soltamos a corda lentamente. O guarda-roupa, como era de se esperar, bateu no ch&#227;o com certa for&#231;a, inclinou-se para frente e para tr&#225;s umas duas ou tr&#234;s vezes igual a um Jo&#227;o-bobo. Todavia, diferente do Jo&#227;o-bobo, ele caiu para frente com tudo. Quase arrancando os cabelos, olhei para o mudanceiro com cara de desgra&#231;a e ele s&#243; me disse: &#8220;bah, a corda era curta. Umas duas marteladas e a gente alinha o guarda-roupa de novo&#8221;. J&#225; tinha feito muito isso, mas calculou mal a corda? Pois &#233;....Por sorte, n&#227;o precisou de nenhuma martelada, o m&#243;vel caiu reto no ch&#227;o e n&#227;o quebrou nada, s&#243; arranhou as portas e descascou o MDF em um dos lados. Coloquei uns adesivos e continuei usando por mais alguns anos. Voc&#234;s acham que acabou? Nada. Aquele tiozinho era expert em gambiarras.</p><p>Ap&#243;s toda (toda...ahahahaha!!!! at&#233; parece que era muito) a minha mudan&#231;a estar dentro do caminh&#227;o, embarquei junto para levarmos at&#233; o destino. N&#227;o era longe, mas tinha um trecho de rodovia federal que tinha que ser cruzado. Notei que o caminh&#227;o era antigo, e que algumas coisas n&#227;o funcionavam, como o marcador de combust&#237;vel. Perguntei como ele sabia quando tinha que abastecer e ele disse que olhava o od&#244;metro, depois de tantos quil&#244;metros percorridos, ele abastecia. Achei estranho, mas ok. Notei tamb&#233;m que o painel era aberto embaixo e tinha uma infinidade de fios saindo para todos os lados. Quando entramos na rodovia, ele mexeu em um fiozinho e acenderam-se os far&#243;is. Mais umas duas fu&#231;adas em um monte de fios e os limpadores de para-brisa come&#231;aram a funcionar. Pensei &#8220;dependendo de onde ele mexer, vira o Optimus Prime&#8221;. Ri de nervoso comigo mesmo.</p><p>Est&#225;vamos indo bem, faltavam s&#243; uns dois quil&#244;metros de rodovia at&#233; chegar ao destino, quando vejo um pessoa fardada indo at&#233; o meio da estrada e fazendo sinal com a m&#227;o. Era um PRF, mandando o caminh&#227;o encostar. Pronto, agora sim, a cereja do bolo, a pol&#237;cia rodovi&#225;ria ia fazer a festa com a quantia de irregularidades. O motorista diminui, abriu a janela e o policial, por incr&#237;vel que pare&#231;a, sorriu e falou &#8220;ah, &#233; voc&#234;, pode ir, pode ir&#8221;. Nem pediu para olhar documenta&#231;&#227;o, nem nada. Diante da minha cara de incr&#233;dulo, o tiozinho da mudan&#231;a falou &#8220;s&#227;o meus conhecidos&#8221;. N&#227;o quis saber nada al&#233;m disso, estava de bom tamanho para mim. Minha mudan&#231;a chegaria ao destino, nem t&#227;o s&#227;, mas pelo menos salva. Logo em seguida, paramos em frente ao meu novo pr&#233;dio. Esse era um pouco melhor, tinha at&#233; elevador. Da&#237; foi molezinha levar as coisas para cima e acomodar. Meu &#8220;<em>room mate</em>&#8221; (nome chique para &#8220;o cara que ia morar comigo&#8221;) ajudou e o resto do dia transcorreu normal.</p><p>Nunca mais vi nem contatei nem fiquei sabendo que fim levou aquele tiozinho mudanceiro. S&#243; passei algum tempo lembrando dele sempre que abria a porta do meu guarda-roupa e via os adesivos cobrindo os arranh&#245;es nas portas e o MDF descascado, cicatrizes de uma mal sucedida gambiarra feita por uma &#8220;pessoa experiente que j&#225; tinha feito aquilo muitas vezes&#8221;. Mas, como dizia o freteiro, n&#227;o d&#225; nada!</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Crônica do Interior #3 – O Rojão]]></title><description><![CDATA[Aquela em que falo sobre apelidos]]></description><link>https://guilhermeceolin.substack.com/p/cronica-do-interior-3-o-rojao</link><guid isPermaLink="false">https://guilhermeceolin.substack.com/p/cronica-do-interior-3-o-rojao</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Ceolin]]></dc:creator><pubDate>Mon, 23 Dec 2024 17:37:18 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!UiKL!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd4e368ee-db9f-47b1-812d-a62e69f79217_1024x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>A natureza humana se equilibra finamente entre a competi&#231;&#227;o e a coopera&#231;&#227;o. Entre o ego&#237;smo e a solidariedade. Entre o &#8220;homem lobo do homem&#8221; hobbesiano e o &#8220;bom por natureza&#8221; de Rousseau. Porque parece ser vantajoso em um primeiro momento algu&#233;m tomar algo &#224; for&#231;a de outro algu&#233;m, descontar toda a raiva e frustra&#231;&#227;o em uma terceira pessoa, dar vaz&#227;o desmedida &#224; sua ira e egocentrismo. Ganha-se muito em um curto prazo de tempo, &#233; ineg&#225;vel. Todos os desejos s&#227;o satisfeitos de maneira expedita e sem esfor&#231;o. &#8220;Sozinho se vai mais r&#225;pido&#8221;, diz uma parte do ditado. Todavia, sua complementa&#231;&#227;o &#233; &#8220;junto se vai mais longe&#8221;, justamente porque a pessoa extremamente competitiva, anti&#233;tica, auto-centrada e sem empatia uma hora ir&#225; precisar de algum apoio, de alguma ajuda e n&#227;o ter&#225;. Ningu&#233;m ajuda fiadaputa. <em>Schadenfreude</em> &#233; como os germ&#226;nicos chamam o sentimento de j&#250;bilo que algu&#233;m sente ao ver um PNC contumaz se ferrar (aquele sonoro &#8220;Bem Feito&#8221;!). Por isso, todas as sociedades humanas criam leis, regras e c&#243;digos de conduta baseadas, primeiramente em mandamentos religiosos e depois em leis seculares. Estes &#8220;contratos sociais&#8221; tentam equilibrar o m&#233;dico e o monstro que existe na natureza humana para que as sociedades sejam funcionais e persistam ao longo das eras. &#8220;Mas, qual a necessidade de todo este pre&#226;mbulo filos&#243;fico mambembe para introduzir o assunto da cr&#244;nica (apelidos)?&#8221; &#8220;Nunca tiraria 10 na reda&#231;&#227;o do ENEM , usou v&#225;rias linhas in&#250;teis para fugir do tema&#8221;. &#8220;Est&#225; querendo pagar de erudito, &#233;?&#8221; Todas as alternativas acima est&#227;o corretas, todavia, nenhuma outra pr&#225;tica sintetiza t&#227;o fielmente a natureza dual humana de &#8220;morde e beija&#8221; do que o costume de colocar apelidos.</p><p>Apelidos s&#227;o ou carinhosos ou pejorativos. Ou voc&#234; chama algu&#233;m de maneira carinhosa ou de maneira zoada. Vejamos: meu nome &#233; Guilherme, sou chamado de Gui, Guizinho, Guiguinho, etc. por pessoas que gostam de mim (umas tr&#234;s, por a&#237;). Nenhuma Daniela &#233; chamada pelo nome inteiro, normalmente vira Dani para as pessoas de seu c&#237;rculo pr&#243;ximo. Eduardas e Eduardos viram Duda, Edu ou Du e varia&#231;&#245;es. Leonardos viram Leo. Fernandos e Fernandas viram F&#234;, Fer ou Nando (a) etc. Tem tamb&#233;m os apelidos de casal: &#8220;gatinha&#8221;, &#8220;amorzinho&#8221;, &#8220;querido&#8221;, &#8220;vida&#8221;, s&#243; para ficar nos mais comuns, sem mencionar aqueles pr&#243;prios de cada casal, cujas refer&#234;ncias s&#243; fazem sentido para aquela dupla de seres humanos que resolveram compartilhar a vida. Esse tipo de apelido tem o intuito de gerar intimidade, de unir o grupo, de marcar o territ&#243;rio (&#8220;meu c&#237;rculo social &#233; diferente do seu&#8221;, &#8220;meus amigos&#8221;, &#8220;minha/meu parceiro&#8221;). Apelidos bonitinhos, engra&#231;adinhos e carinhosos s&#227;o a parte rousseauniana da humanidade, representam aquele mundo id&#237;lico, onde n&#227;o h&#225; maldade ou mal&#237;cia, onde todo mundo corre livre pelo campo, pelado, com o sol no rosto, o cabelo ao vento e o pinto e os peitos balan&#231;ando. Por outro lado, os apelidos pejorativos representam o lado obscuro da alma de cada um, justamente porque ofendem a infeliz criatura apelidada e provocam risos nas s&#225;dicas outras criaturas do entorno. E nenhuma outra institui&#231;&#227;o &#233; mais representativa e mais democr&#225;tica deste universo hobbesiano do que a escola. Porque sim, se voc&#234; frequentou uma escola, principalmente p&#250;blica, voc&#234; tem um apelido (salvo rar&#237;ssimas exce&#231;&#245;es). Geralmente, os apelidos de escola refletem alguma caracter&#237;stica f&#237;sica diferente ou algum fato peculiar que aconteceu. Parte interessante da quest&#227;o: diversos apelidos s&#227;o representa&#231;&#245;es da capacidade infinita de observa&#231;&#227;o e da sagacidade extraordin&#225;ria da mente infanto-juvenil. Porque, c&#225; para n&#243;s, alguns apelidos s&#227;o realmente hil&#225;rios, ainda que ofensivos. E, a&#237;, a situa&#231;&#227;o &#233; a seguinte: a melhor forma de lidar com isso &#233; deixar de se importar, incorporar o apelido e zoar de volta. Nem sempre &#233; algo agrad&#225;vel, mas &#233; o que tem de ser feito, porque a velha sabedoria ensina: quem se importa, o apelido pega. Afie seu tino de observa&#231;&#227;o e apelide de volta. Fazer o qu&#234;? Eu que sempre fui extremamente magro sempre tive apelidos relacionados a isso (&#8220;Pau de virar tripa&#8221;, &#8220;lombriga&#8221;, &#8220;bacalhau seco&#8221;, etc.). Nenhum pegou, porque nunca me importei. Eu era realmente uma crian&#231;a esqu&#225;lida e aceitava a minha condi&#231;&#227;o. Curiosamente, o apelido que incorporei a minha pessoa e passei a ser chamado at&#233; pela minha m&#227;e nada tem a ver com a minha falta de carnes nos ossos. Foi uma daquelas palavras aleat&#243;rias proferidas por um colega da sexta s&#233;rie que j&#225; era influencer antes desta palavra existir. N&#227;o me importei com a alcunha, n&#227;o esquentei a cabe&#231;a por ela, mas mesmo assim a mesma pegou. &#201; o poder da palavra bem colocada pela pessoa certa.</p><p>Outros apelidos que lembro daquela &#233;poca: &#8220;Fusca de porta aberta&#8221;, que acabou virando s&#243; &#8220;Fusca&#8221; (uma crian&#231;a que tinham grandes orelhas de abano). &#8220;Balaca&#8221; (uma palavra do gauch&#234;s que significa &#8220;marrento, cheio de onda&#8221;), &#8220;Cepacol&#8221; (porque a crian&#231;a tinha o queixo grande igual o personagem da propaganda), &#8220;Amendoim&#8221; (cabe&#231;a pequena e comprida), &#8220;Cad&#234; o tijolo&#8221; (uma menina que tinha uma perna mais curta que a outra), &#8220;Sete hora&#8221; (o treino de futebol come&#231;ava &#224;s 8:30h e o moleque sempre chegava &#224;s 7h porque ou era ansioso ou n&#227;o sabia ler as horas), &#8220;Goela&#8221; (gritava demais!), &#8220;Galp&#227;o&#8221; (outra crian&#231;a que gritava na aula e a professora perguntou: &#8220;Voc&#234; acha que est&#225; em uma sala de aula ou em um galp&#227;o?&#8221;), &#8220;Galgo&#8221; (parecia realmente aqueles cachorros corredores), &#8220;Simpson&#8221; (era a cara do Bart!), &#8220;Kir&#8221; (n&#227;o sei porque, mas era divertido zoar a pessoa falando &#8220;kirlometro&#8221; ou outras palavras prop&#237;cias ao trocadilho. Normalmente, tom&#225;vamos um soco no bra&#231;o, o pi&#225; era mais velho e maior, mas ningu&#233;m se intimidava. A zoeira era mais divertida que a dor do soco!), &#8220;Chico Pan&#231;a&#8221; (motivos &#243;bvios!), &#8220;Fimose&#8221; (auto-explicativo), &#8220;Vareja&#8221; (sempre em volta incomodando, igual uma mosca-varejeira), &#8220;Estampa&#8221; (sempre com camisetas muito coloridas), &#8220;Caixa d&#8217;&#225;gua&#8221; (cabe&#231;a muito grande), &#8220;Gansel&#227;o&#8221; (o moleque tinha o pesco&#231;o fino e comprido), &#8220;Natural&#8221; (a pessoa soltou um pum na sala de aula, a professor reclamou e o gasoso falou: &#8220;Peidar &#233; natural, professora&#8221;), entre outros. A lista &#233; enorme e inesgot&#225;vel. Certamente, lembrarei de mais alguns ap&#243;s postar este texto, da mesma forma que s&#243; conseguimos pensar na resposta adequada para algum desaforo ap&#243;s o fato ocorrido.</p><p>Todavia, tem dois que eu gostaria de detalhar um pouquinho mais, pois refletem de maneira cristalina tanto a criatividade quanto a crueldade humana. S&#227;o hist&#243;rias breves, s&#243; para fechar o assunto do dia.</p><p>A primeira hist&#243;ria &#233; de uma menina que o povo chamava de &#8220;Moto-Serra&#8221;. Eu tinha catorze anos e fiquei surpreso quando ouvi o apelido da mo&#231;a. Por que &#8220;moto-serra&#8221;? Algu&#233;m respondeu: &#8220;n&#227;o pode ver um pau em p&#233;!&#8221; A mo&#231;a era nova, tinha algo entre 15 e 16 anos e aparentemente era bastante, digamos, dada. Ri horrores desta explica&#231;&#227;o, achei muito criativo e tal. Sem a falsa pretens&#227;o de ser politicamente correto, mas hoje eu vejo que era s&#243; mais uma maldade derivada da mente carola e moralista da &#233;poca. Qual o problema de uma mulher gostar de sexo e ter uma atitude mais incisiva em rela&#231;&#227;o a isso? Pela minha mentalidade atual, nenhum. Todavia, em meados dos anos 90, na cidade provinciana onde eu vivia, isso era reprov&#225;vel. Inclusive, quando &#233;ramos adolescentes e come&#231;amos a descobrir as del&#237;cias e vicissitudes dos relacionamentos er&#243;tico-amorosos, era super natural e aceito dividirmos as meninas entre &#8220;direitinhas&#8221; e &#8220;f&#225;ceis&#8221;: as primeiras eram para namorar e apresentar em casa. As segundas, para se divertir nas festinhas. Sendo que, na pr&#225;tica, ambos os grupos tinham os mesmos horm&#244;nios e os mesmos desejos e necessidades em termos amorosos e sexuais, s&#243; que algumas meninas deixavam isso transparente e outras escondiam. Esse falso moralismo era t&#227;o arraigado e comum que conheci um professor de biologia mais velho que certa vez me contou que fora chamado para dar explica&#231;&#227;o pela dire&#231;&#227;o de um cursinho pr&#233;-vestibular por conta de reclama&#231;&#245;es de alunas sobre ele estar dizendo &#8220;palavras inadequadas&#8221; ao ensinar certos assuntos. Quem sai do Ensino M&#233;dio e vai fazer pr&#233;-vestibular tem entre 17 e 19 anos na m&#233;dia, j&#225; s&#227;o pessoas grandinhas e esclarecidas, que est&#227;o escolhendo um curso de gradua&#231;&#227;o com vistas a seguirem uma carreira. S&#227;o escolhas adultas, portanto. Pois bem, as palavras que incomodaram a ponto de o professor ter que dar explica&#231;&#227;o eram &#8220;p&#234;nis&#8221;, &#8220;vagina&#8221; e estruturas relacionadas (&#8220;clit&#243;ris&#8221;, &#8220;glande&#8221;, &#8220;grandes l&#225;bios&#8221;, &#8220;prep&#250;cio&#8221;, &#8220;&#226;nus&#8221;, etc.). Como voc&#234; vai ensinar sistema reprodutivo, sistema urin&#225;rio e/ou sistema digest&#243;rio do corpo humano sem falar essas palavras? Como esse professor era muito experiente e totalmente zoeira das ideias, chegou na sala de aula no dia seguinte e falou: &#8220;Bem, j&#225; que aparentemente falar p&#234;nis e vagina nas aulas incomoda alguns ouvidos sens&#237;veis, passarei a falar &#8216;piroca, &#8216;cu&#8217; e &#8216;buceta&#8217; agora. T&#225; bom?&#8221;</p><p>O segundo apelido n&#227;o tem maiores li&#231;&#245;es de moral, nem reflex&#245;es sobre a sociedade. Como eu disse anteriormente, &#233; s&#243; um exemplo mais do que ilustrativo da criatividade escolar pueril. Roger era o nome de uma crian&#231;a na escola em que eu estudava no ensino fundamental (conhecido na &#233;poca como 1&#186; grau), mas exceto a professora na hora da chamada, todo mundo o chamava de &#8220;Chispum&#8221; (ou &#8220;Xispum&#8221;, n&#227;o sei qual a grafia correta). Por qu&#234;? Pois &#233;, minha pergunta era essa tamb&#233;m por muito tempo. At&#233; que descobri, um pouco por dedu&#231;&#227;o e um pouco por ouvir falar, que devido ao nome ser Roger, a fam&#237;lia dele o chamava de Roginho, na escola come&#231;aram a cham&#225;-lo de Roj&#227;o e devido a um daqueles saltos l&#243;gicos malandr&#237;sticos que s&#243; o frescor de uma mente juvenil consegue dar, virou &#8220;Chispum&#8221;, em alus&#227;o ao barulho que um roj&#227;o faz ao explodir. Ou seja, Roger &gt; Roginho &gt; Roj&#227;o &gt; Chispum (barulho de explos&#227;o). Uma metamorfose invej&#225;vel, sem d&#250;vida!</p><p>Apelidos n&#227;o s&#227;o exclusividade de cidades do interior, uma vez que &#233; uma pr&#225;tica humana, todavia, por serem cidades pequenas, quando bem colocados, espalham-se como fogo em rastilho de p&#243;lvora, de modo que at&#233; hoje, um quarto de s&#233;culo ap&#243;s ter sa&#237;do da escola, ainda tem gente que eu n&#227;o sei o nome de batismo, dado pelos pais, s&#243; o apelido, dado pelos pares.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Crônicas do Interior #2 - A carteira da carteira na carteira]]></title><description><![CDATA[Aquele sobre os regionalismos lingu&#237;sticos]]></description><link>https://guilhermeceolin.substack.com/p/a-carteira-da-carteira-na-carteira</link><guid isPermaLink="false">https://guilhermeceolin.substack.com/p/a-carteira-da-carteira-na-carteira</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Ceolin]]></dc:creator><pubDate>Fri, 13 Dec 2024 11:39:33 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!7sZw!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F97334c76-0c22-4b96-8b4b-ef11a52b4b63_806x529.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Publiquei uma nota em uma sexta feira aleat&#243;ria qualquer dizendo que se baleias usassem armas e uma atirasse na outra, a manchete do principal jornal oce&#226;nico (<strong>O Tal&#225;ssico</strong> - &#8220;mergulhando nas not&#237;cias e indo fundo na apura&#231;&#227;o dos fatos&#8221;) seria &#8220;Baleia baleia baleia&#8221;. Eu n&#227;o inventei essa frase, embora n&#227;o saiba de onde tenha tirado. Provavelmente, foi de uma s&#233;rie de v&#237;deos curtos (os populares &#8216;shorts&#8217; do YouTube. Para mim, shorts servem para tomar banho de mar, mas divago....) em que um fantoche cantava um funk falando v&#225;rias palavras hom&#244;nimas, hom&#243;fonas e hom&#243;grafas, com o intuito aparente de &#8220;traumatizar&#8221; os gringos que estavam tentando aprender portugu&#234;s. Uma dessas frases era a que d&#225; t&#237;tulo &#224; cr&#244;nica desta semana: as v&#225;rias acep&#231;&#245;es da palavra &#8220;carteira&#8221;: o local onde se guarda dinheiro, uma pessoa do sexo feminino que trabalha no Correio entregando correspond&#234;ncias e o local onde estudantes colocam seus materiais escolares. Pois &#233;, todavia, no local provinciano ga&#250;cho de onde venho, a palavra &#8220;carteira&#8221; n&#227;o &#233; usada jamais em sua &#250;ltima conota&#231;&#227;o. Carteira s&#243; serve para as duas primeiras, sendo que 90% das vezes refere-se &#250;nica e exclusivamente ao primeiro sentido. Ent&#227;o, onde este escriba apoiava seus livros, cadernos, canetas, l&#225;pis e em qual local caiam as migalhas de salgadinho Cheetos fedorento na hora da merenda da escola? Ora, na &#8220;classe&#8221;. </p><p>O qu&#234;?!</p><p>Isso mesmo: a mesa da escola onde a pequena crian&#231;a cabe&#231;uda, franzina, nerd e quatro-olhos que ora escreve esta cr&#244;nica colocava seu material escolar se chamava classe. Mas, classe n&#227;o era o local onde a crian&#231;a em quest&#227;o estudava junto com as outras crian&#231;as em quest&#227;o mais a pobre e mal paga professora? N&#227;o, isso era chamado sala de aula. Dentro da sala ficava a turma e os integrantes da turma sentavam em suas cadeiras defronte &#224;s classes. Pois &#233;, &#8220;carteira&#8221;, neste sentido, foi uma palavra que eu s&#243; conheci ao come&#231;ar a ler revistinhas do Chico Bento (porque o resto da Turma da M&#244;nica n&#227;o ia &#224; escola....). At&#233; ent&#227;o, carteira s&#243; aquela da qual eu via meu pai e minha m&#227;e tirando o tal&#227;o de cheques ou as notas amassadas de cruzeiro, cruzado, cruzeiro real, cruzado novo, cruz credo...enfim, a moeda inflacionada da &#233;poca. E isso &#233; uma coisa bem regional aqui do Rio Grande do Sul. Passando a ponte do Rio Uruguai e penetrando (quinta s&#233;rie again em 3, 2, 1...) no territ&#243;rio catarinense, o uso de carteira significando um m&#243;vel escolar aumenta gradualmente at&#233; n&#227;o sobrar mais outra palavra para designar o objeto. E isso se aplica a um n&#250;mero enorme de outras palavras que tive que aprender que n&#227;o eram faladas em lugar mais nenhum do Brasil, exceto aqui no interior.</p><p>Por exemplo, no primeiro par&#225;grafo falei em &#8220;gringo&#8221; significando qualquer estrangeiro. Essa &#233; a conota&#231;&#227;o em praticamente todo o Brasil, exceto onde? Acertou, miser&#225;vi! No Rio Grande do Sul, &#8220;gringo&#8221; se refere aos descendentes de italianos e s&#243; a eles. Os descendentes de alem&#227;es, de poloneses, de portugueses, espanh&#243;is e outras etnias s&#227;o bem, alem&#227;es, espanh&#243;is, poloneses, etc. Os italianos, n&#227;o, estes s&#227;o os gringos. Aplica-se muito esta denomina&#231;&#227;o aos origin&#225;rios das regi&#245;es da Serra (perto de Caxias do Sul) e do Centro do Estado do RS, um local chamado de Quarta Col&#244;nia de Imigra&#231;&#227;o Italiana (perto de Santa Maria), local de onde vim. E, obviamente, quando mudei-me para Porto Alegre ap&#243;s a gradua&#231;&#227;o, rapidamente fui apelidado de &#8220;gringo&#8221; por conta do sotaque, do vocabul&#225;rio peculiar, da quantia de gestos que eu fazia ao falar e do jeito pouco polido de dizer certas coisas (tipo &#8220;bater uma b&#243;ia forte at&#233; esticar o bucho&#8221;). Hoje posso dizer que estou bem domesticado, j&#225; uso garfo e faca, guardanapo, falo &#8220;comida&#8221; e &#8220;barriga&#8221; e consigo at&#233; controlar os gestos quando falo, o que ajuda um monte a conseguir digitar essas linhas.</p><p>Outra palavra que tem um sentido &#250;nico aqui nos interiores &#233; &#8220;patente&#8221;, referindo-se ao local onde se fazem as necessidades fisiol&#243;gicas, l&#237;quidas e s&#243;lidas, grossas e finas. Durante minha inf&#226;ncia, quando ainda estava aprendendo o significado das palavras, achava muito engra&#231;ado chamar de vaso tanto o local que servia para o al&#237;vio da press&#227;o quanto aquele onde se plantavam flores. Tanto &#233; que sempre perguntava quando ouvia a palavra &#8220;vaso&#8221; a qual dos dois a pessoa estava se referindo (eu era uma crian&#231;a chata que sempre perguntava tudo, mesmo quando o contexto permitia a diferencia&#231;&#227;o). Minha m&#227;e dizia: &#8220;o vaso da patente&#8221;. Ela poderia falar &#8220;vaso sanit&#225;rio&#8221;, mas o complemento era &#8220;patente&#8221;, de t&#227;o impregnado este sentido da palavra est&#225; na linguagem cotidiana. Tanto isso &#233; real que ouvi certa vez uma entrevista do Lu&#237;s Fernando Ver&#237;ssimo (uma das minhas grandes inspira&#231;&#245;es nas letras) dizendo que, quando ele e sua irm&#227; eram novos e ainda moravam com o &#8220;seo&#8221; &#201;rico e a dona Mafalda, eles editavam um &#8220;informativo&#8221; na casa deles chamado &#8220;O Patentino&#8221; porque, justamente, era pendurado no banheiro. A pessoa que estava l&#225; sentada no vaso da patente poderia ler alguma coisa enquanto aproveitava seu momento meditabundo. Patente tamb&#233;m designava a latrina externa, a casinha, o banheiro qu&#237;mico da ro&#231;a. Da&#237; era s&#243; patente mesmo, o que, ali&#225;s, era a &#250;nica forma de chamar aquilo no interior do Rio Grande do Sul. S&#243; fui saber que no resto do Brasil se chamava por outra coisa lendo o Chico Bento (novamente!).</p><p>Para fechar este passeio aleat&#243;rio pelas peculiaridades lingu&#237;sticas deste Brasil enorme que temos, gostaria de comentar sobre outras duas palavras que n&#227;o ouvi em nenhum outro lugar do Brasil com o sentido que damos aqui no interior: &#8220;asa&#8221; e &#8220;tico&#8221;.</p><p>A primeira refere-se ao cheiro ruim das axilas (o popular sovaco), o que no resto do Brasil se chama &#8220;c&#234;-c&#234;&#8221;. Dizem que &#8220;cc&#8221; &#233; abrevia&#231;&#227;o de &#8220;cheiro de corpo&#8221;. Acredito que seja isso mesmo, porque no <em>Dicion&#225;rio de Porto-Alegr&#234;s</em>, do professor Luis Augusto Fischer, no verbete da palavra &#8220;asa&#8221;, &#8220;c&#234;-c&#234;&#8221; est&#225; l&#225; sendo explicado da mesma forma que eu estou aqui fazendo. <em>In Luis Augusto Fischer we trust! </em>Por esta l&#243;gica, poder&#237;amos abreviar, portanto, o mau odor nas axilas como &#8220;c&#234;-a&#8221;, de &#8220;cheiro de asa&#8221;. Mas, na pr&#225;tica, ningu&#233;m diz isso. O povo fala mesmo &#233; &#8220;Que asa, tch&#234;!&#8221;, &#8220;Vai voar, n&#233;? Com essa asa a&#237;, s&#243; pode!&#8221;, &#8220;Bah, mas me passa um lim&#227;o nesse sovaco! Que asa!&#8221;, &#8220;Preciso tomar banho, estou asudo&#8221; e por a&#237; vai, conforme dita a imagina&#231;&#227;o das pessoas.</p><p>Por sua vez, &#8220;tico&#8221;, aqui no meio do nada, se usa para designar, o peru, pinto, trabuco, enfim, o p&#234;nis. E, apesar do que parece, n&#227;o importa o tamanho do &#243;rg&#227;o. Banana-ouro, banana-nanica ou banana-da-terra, tudo &#233; &#8220;tico&#8221;. N&#227;o encontrei uma explica&#231;&#227;o etimol&#243;gica para isso e a minha vers&#227;o do <em>Dicion&#225;rio de Porto-alegr&#234;s</em> (2&#170; edi&#231;&#227;o; 2007) n&#227;o tr&#225;s este verbete, ent&#227;o, a minha suspeita, depois de pensar por longos cinco minutos, &#233; que &#8220;tico&#8221; &#233; a forma brasileira de se imitar foneticamente a palavra &#8220;chico&#8221; (garoto, menino, em espanhol). O &#8220;ch&#8221; em espanhol e o &#8220;t&#8221; seguido de &#8220;i&#8221; em alguns sotaques brasileiros fazem esse som de &#8220;tch&#8221; (como em &#8220;tchau&#8221;). O termo t&#233;cnico para este tipo de pron&#250;ncia &#233; &#8220;consoante africada&#8221; (porque aqui tamb&#233;m tem cultura!) e n&#227;o &#233; utilizada em algumas partes do Brasil, como em Pernambuco ou Florian&#243;polis (o &#8220;t&#8221; n&#227;o chia). Disso se sup&#245;e que &#8220;tico&#8221;, ent&#227;o, seja uma forma de referir-se ao &#243;rg&#227;o como na frase &#8220;o guri aqui de baixo est&#225; inquieto hoje&#8221; ou &#8220;tenho que dar uma ajeitada no menino dentro das cuecas&#8221; ou qualquer outra express&#227;o em que o membro seja referido desta forma. Refor&#231;a essa hip&#243;tese o fato de que em uma das hist&#243;rias do <em>Analista de Bag&#233;</em> (Luis Fernando Ver&#237;ssimo ataca novamente), o personagem do t&#237;tulo pergunta a um senhor se o trauma dele tinha a ver com ter &#8220;o moleque pequeno&#8221; fazendo alus&#227;o ao p&#234;nis do paciente. Corrobora ainda esta hip&#243;tese outra palavra que utilizamos aqui onde o vento faz a curva que &#233; &#8220;enticar&#8221;, que poderia muito bem significar &#8220;cutucar com o tico&#8221;, mas n&#227;o. Ela refere-se ao ato de provocar, incomodar, zoar, aloprar, etc. <em>Enticar</em> pode muito bem vir de uma adapta&#231;&#227;o fon&#233;tica do espanhol &#8220;enchicar&#8221;, ou seja, agir como &#8220;chico&#8221;, algo que, em ingl&#234;s, igualmente tem uma palavra correspondente direta: &#8220;kidding&#8221;, como na frase &#8220;I am just kidding&#8221; (&#8220;Eu estou brincando&#8221;). Ent&#227;o, para todos os efeitos e at&#233; que algu&#233;m ache uma explica&#231;&#227;o melhor, &#8220;tico&#8221; referindo-se ao membro viril &#233; uma adapta&#231;&#227;o da pron&#250;ncia castelhana para &#8220;chico&#8221; no sentido de moleque, guri, pi&#225;.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!7sZw!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F97334c76-0c22-4b96-8b4b-ef11a52b4b63_806x529.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!7sZw!, /__u/guilhermeceolin.substack.com/w_424, /__u/guilhermeceolin.substack.com/c_limit, /__u/guilhermeceolin.substack.com/f_webp, /__u/guilhermeceolin.substack.com/q_auto:good, 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Tyson) falava, com palavras que s&#243; ela entendia, mas vou deixar para a pr&#243;xima. Mas, para quem ficou curioso para saber mais sobre estes falares &#250;nicos, recomendo a compra do <em>Dicion&#225;rio de Porto-alegr&#234;s</em>. &#201; jab&#225; gratuito mesmo, recomendo porque gosto muito desta obra e de seu autor. E para quem gostou desta cr&#244;nica pe&#231;o, por favor, que se inscreva na newsletter para que as pr&#243;ximas possam pousar suavemente em vossas caixas de entrada. E quem n&#227;o gostou, continue lendo. Talvez eu melhore.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Crônica do interior #1 - Mike Tyson na Netflix ]]></title><description><![CDATA[Esta &#233; minha postagem de estreia no Substack e o tema do que escreverei nesta plataforma &#233; o interior.]]></description><link>https://guilhermeceolin.substack.com/p/cronica-do-interior-1-mike-tyson</link><guid isPermaLink="false">https://guilhermeceolin.substack.com/p/cronica-do-interior-1-mike-tyson</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Ceolin]]></dc:creator><pubDate>Wed, 04 Dec 2024 17:19:49 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!1KD-!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9b57826b-7b64-4f7c-b433-5a184befc6bd_1800x1400.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Esta &#233; minha postagem de estreia no Substack e o tema do que escreverei nesta plataforma &#233; o interior. N&#227;o o interior da minha mente, nem da minha alma, nada disso. O interior onde eu nasci, de onde vim e onde ainda moro. Somente uma vez morei em uma capital. E mesmo assim era Porto Alegre. Uma capital afastada do centro nervoso do pa&#237;s (como bem cantou <a href="https://www.youtube.com/watch?v=QO19N4fFL8c">Humberto Gessinger</a>), mais longe de S&#227;o Paulo que de Montevid&#233;u, essa sim, capital de um pa&#237;s, ainda que, igualmente, o Uruguai seja um pa&#237;s do interior (<a href="https://g1.globo.com/Noticias/Musica/0,,MUL1286146-7085,00-FANTASTICO+LOCALIZA+O+CANTOR+BELCHIOR+NO+URUGUAI.html">latino americano e sem amigos importantes</a>). De certa forma, o meu estado de esp&#237;rito interior, o meu car&#225;ter interior, a minha voz interior e todo o resto do meu interior (piadas de quinta s&#233;rie come&#231;ando em 3, 2, 1...) tem a ver com o fato de eu estar h&#225; mais de 40 anos circulando pelo interior do Brasil, sem nunca de fato ter morado em uma capital com &#8220;C&#8221; mai&#250;sculo (tipo S&#227;o Paulo, Rio ou Bras&#237;lia). Minhas viv&#234;ncias s&#227;o como uma Matrioska, o interior influenciando o interior.</p><p>Resolvi come&#231;ar a escrever neste espa&#231;o e deitar ao papel (digital) as minhas viv&#234;ncias em cidades pequenas e afastadas por causa da recente luta do Mike Tyson contra Jake Paul, transmitida pela Netflix em 15 de novembro de 2024 (feriado aqui no interior, tamb&#233;m). Esta luta despertou em mim diversas lembran&#231;as, as quais se auto impeliram a serem escritas. Para come&#231;ar, devo dizer que obviamente, eu n&#227;o assisti a &#8220;este grande evento&#8221;. Como assim, obviamente? Explico: 19 de agosto de 1995 foi o fat&#237;dico dia em que Mike Tyson voltou aos ringues ap&#243;s sair da pris&#227;o. Eu tinha treze anos e lembrava vagamente das lutas anteriores do Tyson, ainda mais porque normalmente o boxe era transmitido na madrugada e eu n&#227;o podia ficar acordado para assistir. E antes que algu&#233;m pergunte, n&#227;o era poss&#237;vel assistir outro dia, porque n&#227;o existia internet na &#233;poca. Quer dizer, at&#233; existia. A Internet comercial aberta para o grande p&#250;blico come&#231;ou oficialmente em maio de 1995, mas, n&#233;, n&#227;o na cidade em que eu vivia e certamente n&#227;o a um pre&#231;o que fosse poss&#237;vel minha fam&#237;lia pagar. Ou seja, na pr&#225;tica n&#227;o existia internet. Todos os eventos esportivos ao vivo ou voc&#234; assistia na hora em que era transmitido pela TV aberta ou se contentava com os melhores momentos nos programa jornal&#237;sticos de esportes no dia seguinte (torcendo para eles passarem os melhores momentos, &#224;s vezes n&#227;o passavam nada!).</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://guilhermeceolin.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Longe demais das capitais! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Toda a minha turma da escola s&#243; falava disso desde a volta &#224;s aulas na primeira semana de agosto. A piazada (como se costuma dizer no interior ga&#250;cho) estava extremamente empolgada para ver o Tyson lutar. A propaganda da rede do Plim Plim ficou mais de um m&#234;s falando sobre o embate, sobre o quanto iria ser espetacular, sensacional, a volta da fera finalmente fora da jaula, que seria isso e aquilo. Para nosso leque limitado de coisas poss&#237;veis de serem feitas em um s&#225;bado &#224; noite, tanto pela idade quanto pelo fato de vivermos em uma cidadezinha pequena e longe de tudo, aquilo era O EVENTO! Ent&#227;o, o acordo era que todos n&#243;s ir&#237;amos assistir &#224; luta na madrugada do s&#225;bado para domingo e na segunda-feira era dia de comentarmos os melhores momentos. Na sexta-feira, &#224;s 17:25h, quando o sinal de t&#233;rmino da aula tocou, todo mundo refor&#231;ou o acordo: assistir ao Tyson e comentar na segunda.</p><p>Voltando para casa com a minha pesada mochila carregada de conhecimento nas costas, comecei a dar-me conta de que n&#227;o poderia ficar acordado na madrugada vendo o combate. Meus pais ainda n&#227;o me deixavam ficar vendo televis&#227;o at&#233; Altas Horas (<em>no</em> <em>pun intended</em>) sem hor&#225;rio para ir dormir. Por mais que eu estudasse a tarde e n&#227;o tivesse que acordar cedo em nenhum dia da semana, havia regras de sono (&#8220;se n&#227;o dormir direito, n&#227;o vai crescer. Quer ficar nanico?&#8221;). &#8220;Ah, mas era s&#243; n&#227;o assistir &#224; luta. Por acaso iria cair um peda&#231;o?&#8221; Iria! Um peda&#231;o da minha exist&#234;ncia iria ser seriamente avariado se eu n&#227;o tivesse nada para comentar na segunda feira. Eu estaria quebrando uma promessa e violando uma regra de como um homem deveria agir naquela &#233;poca no interior do interior ga&#250;cho.</p><p>Para ser considerado um homem de verdade naquele contexto o aspirante a <em>macho bem macho</em> deveria 1) estar sempre disposto a dar em cima das meninas nas festinhas de garagem, 2) n&#227;o deixar barato nenhum desaforo e partir para briga e 3) acompanhar e saber conversar sobre esportes e filmes de homem, como futebol, lutas em geral e Stallone, Van Damme e Schwarznegger, respectivamente. Boxe se enquadrava em um destas categorias, portanto, eu TINHA que assistir ao Tyson e saber comentar alguma coisa diferente dos outros, complementar as frases, manter um di&#225;logo articulado e bem eloquente sobre o embate pugil&#237;stico, ou os meus colegas sacariam que eu n&#227;o tinha assistido ao confronto e eu seria zoado at&#233; ter vontade de chorar. E depois que eu chorasse, seria mais zoado ainda porque chorei. Porque, se eu n&#227;o assistisse &#224; luta, das duas uma (ou as duas ao mesmo tempo): ou eu n&#227;o tinha coragem de ver aquela viol&#234;ncia ou meus pais n&#227;o tinham deixado. E nenhuma das duas situa&#231;&#245;es era aceit&#225;vel. Imagina, com treze anos ainda obedecer aos pais. Imagina, com treze anos n&#227;o ter coragem suficiente para ver dois marmanjos se esmurrarem at&#233; perderem as for&#231;as. Diante deste incentivo forte, eu bolei um plano para conseguir assistir &#224; t&#227;o aguardada volta da fera aos ringues (<em>unleash the Kraken!</em>)</p><p>Meus av&#243;s maternos moravam a um quarteir&#227;o e meio da minha casa. Minha av&#243; ficara vi&#250;va fazia pouco mais de um ano e meio e sentia-se solit&#225;ria frequentemente, de modo que eu e meus irm&#227;os n&#227;o raro dorm&#237;amos (pous&#225;vamos, como se diz no interior) na casa dela para fazer companhia. N&#227;o era algo incomum, portanto, se eu pedisse para dormir na casa dela naquele s&#225;bado. A luta, como costumava acontecer, seria transmitida l&#225; pelas 2 ou 3 horas da manh&#227;, ap&#243;s o Super Cine e outras bobagens que a rede do Plim Plim passava no fiof&#243; da madrugada de s&#225;bado para domingo. Minha av&#243; dormia cedo, antes das 22h ela j&#225; estava ferrada no sono. Quando nos hosped&#225;vamos na casa dela, nosso canto de dormir era a sala, pois l&#225; havia um sof&#225;-cama muito confort&#225;vel. Juntando todos estes pontos, tive a brilhante ideia de dizer para meus pais que naquele s&#225;bado eu queria dormir na casa da v&#243;, para fazer companhia para ela. N&#227;o houve nenhuma obje&#231;&#227;o. Portanto, a partir das 18h comecei a me preparar para o grande evento. Tomei banho, organizei minhas roupas e escova de dente, jantei e fui.</p><p>Fiz companhia para a minha av&#243; e assisti com ela &#224; novela das 19h, ao Jornal Nacional e &#224; novela das 20h (que come&#231;ava &#224;s 21h). Ap&#243;s esta &#250;ltima novela, minha av&#243; me deu boa noite, foi ao banheiro escovar sua dentadura (sim, ela usava chapa!) e acomodou-se no seu quarto. N&#227;o me fez pergunta nenhuma, se eu ia dormir, se eu ia ficar a madrugada inteira acordado. Minha av&#243; n&#227;o era minha m&#227;e e n&#227;o se importava nem um pouco com o que eu fazia ou deixava de fazer, contanto que eu continuasse vivo e bem de sa&#250;de para ela n&#227;o precisar dar nenhuma explica&#231;&#227;o, estava de boa. Minha av&#243; tinha uma sabedoria pr&#225;tica, afinal. E como ela tomava rem&#233;dio para dormir desde que meu av&#244; falecera, em minutos ela estava roncando e s&#243; iria acordar novamente no dia seguinte. Ou seja, madrugada livre para assistir ao Mike Tyson. Meu plano havia dado certo!</p><p>Tive que assistir ao &#8220;programa chato qualquer&#8221; que passava ap&#243;s a novela (n&#227;o me lembro e o Google n&#227;o me ajudou), depois tive assistir ao &#8220;filme chato qualquer&#8221; que passou no Super Cine naquele dia (o Google me disse que foi o filme &#8220;F&#250;ria Repentina&#8221;) e sei l&#225; mais o que o Robert&#227;o da Massa programou para aquela noite at&#233; o hor&#225;rio do fat&#237;dico embate. S&#243; lembro que foi tedioso para caramba esperar. A ansiedade estava enorme. Finalmente, l&#225; pelas 2h ou 3 h come&#231;ou a programa&#231;&#227;o do boxe. A&#237; eu me animei! E come&#231;a a enrola&#231;&#227;o daqui, a enrola&#231;&#227;o dali e entrevistas com aleat&#243;rios e reportagens aleat&#243;rias e mais entrevistas com aleat&#243;rios e mais coment&#225;rios sem p&#233; nem cabe&#231;a, tudo para segurar a audi&#234;ncia. Voltei a derreter no sof&#225; de t&#233;dio. &#8220;Meu Deus, j&#225; estou com os olhos cheios de areia de sono e esses desgra&#231;ados n&#227;o colocam a luta&#8221;. Confesso que o capetinha e o anjinho que habitam meus ombros estavam quase concordando que eu deveria largar tudo e ir dormir. Todavia, mantive-me firme! Minha reputa&#231;&#227;o tinha que permanecer intacta na segunda-feira. Eu n&#227;o correria o risco de sofrer um bullying (que n&#227;o tinha esse nome na &#233;poca, ali&#225;s!) por n&#227;o conseguir me manter acordado mais um pouco. E, ent&#227;o, de repente, come&#231;aram os gritos da plateia e o narrador anunciou: estavam chegando os lutadores. Alinhei-me todo no sof&#225; e grudei os olhos na televis&#227;o. No canto direito, Mike Tyson. No canto esquerdo, Peter McNeeley. Mais um tanto de enrola&#231;&#227;o, mais um tanto de coment&#225;rio e discurso, mais um tanto de caras feias, de provoca&#231;&#245;es, de chistes, especialmente do McNeeley. E o juiz chamou os dois para o centro do ringue. Deu as instru&#231;&#245;es. Cada um para o seu canto novamente. Soou o gongo! O pau iria comer, finalmente....S&#243; que n&#227;o!</p><p>Peter McNeeley, um desconhecido boxeador que nunca ningu&#233;m ouvira falar at&#233; ent&#227;o (ou seria s&#243; ignor&#226;ncia minha? Vai saber!) partiu para cima, para o combate franco, parecia at&#233; briga de sa&#237;da de escola, o popular &#8220;mata-cobra&#8221;, sem a parte dos pontap&#233;s, afinal, <a href="https://www.youtube.com/watch?v=bo973qWv6As">era boxe, n&#227;o uma briga de mulas</a>. Obviamente que ele iria tomar uma logo de cara (e foi bem na cara!). Vinte segundos de combate e o indiv&#237;duo j&#225; estava no ch&#227;o, no que parecia ter sido um escorreg&#227;o, mas, como o juiz abriu contagem, foi contabilizado como um <em>knockdown</em>. McNeeley voltou &#224; luta logo em seguida, continuando com a mesma estrat&#233;gia mata cobra e pouco mais de um minuto depois estava no ch&#227;o outra vez. Desta vez visivelmente grogue. O juiz&#227;o abriu contagem novamente e o treinador entrou no ringue, falou meia d&#250;zia de palavras e a luta acabou por desist&#234;ncia! E o nosso amigo do Tetra que estava narrando falou &#8220;acabou, acabou, a fera voltou&#8221;. 89 segundos, foi este o tempo que durou o grande evento que eu tinha tido o trabalho de elaborar uma estrat&#233;gia para conseguir assistir, ficar acordado e estava preocupado se n&#227;o tivesse o que contar e comentar com meus nobres colegas imberbes com voz em falsete da s&#233;tima s&#233;rie. Como terceiro obviamente do par&#225;grafo, devo dizer que na tarde da segunda-feira seguinte na escola, est&#225;vamos todos com caras de trouxa. Ningu&#233;m falou nada, mas todo mundo sabia o que se passava na mente de cada um dos pi&#225;s daquela turma (&#8220;que bosta, n&#233;?&#8221;; &#8220;todo aquele au&#234; para 89 segundos?). Se houvesse redes sociais naquela &#233;poca, o meme seria este:</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!1KD-!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9b57826b-7b64-4f7c-b433-5a184befc6bd_1800x1400.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!1KD-!, /__u/guilhermeceolin.substack.com/w_424, /__u/guilhermeceolin.substack.com/c_limit, /__u/guilhermeceolin.substack.com/f_webp, /__u/guilhermeceolin.substack.com/q_auto:good, /__u/guilhermeceolin.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9b57826b-7b64-4f7c-b433-5a184befc6bd_1800x1400.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!1KD-!, /__u/guilhermeceolin.substack.com/w_848, 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Nada mais me faria ficar acordado para assistir quem quer que fosse lutando. Iria esperar os melhores momentos nos programas esportivos do dia seguinte. Filosofia que sigo at&#233; hoje. Por que se &#233; para deixar de dormir e assistir a algo n&#227;o t&#227;o bom, prefiro ainda ir <a href="https://www.youtube.com/watch?v=AHbAB9UfKh4">ver o filme do Pel&#233;</a>.</p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://guilhermeceolin.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Longe demais das capitais! 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