<script data-pm-proxy="intercept"></script><?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Ivan Haro Martins ]]></title><description><![CDATA[Um olhar sobre os relacionamentos, a paternidade e o vasto mundo das subjetividades.]]></description><link>https://imartins.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!QA8Q!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F230cfd97-dd9f-448d-aaeb-9dc620874844_957x957.png</url><title>Ivan Haro Martins </title><link>https://imartins.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Fri, 04 Sep 2026 18:47:41 GMT</lastBuildDate><atom:link href="/__u/imartins.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Ivan Martins]]></copyright><language><![CDATA[pt]]></language><webMaster><![CDATA[imartins@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[imartins@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Ivan Martins]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Ivan Martins]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[imartins@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[imartins@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Ivan Martins]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[Ele nunca moveu um dedo pela democracia]]></title><description><![CDATA[O ministro Andr&#233; Mendon&#231;a, do STF, age em nome de suas ambi&#231;&#245;es e de um projeto pol&#237;tico autorit&#225;rio que mistura viol&#234;ncia, corrup&#231;&#227;o e religi&#227;o - e tem em Fl&#225;vio Bolsonaro sua perfeita encarna&#231;&#227;o]]></description><link>https://imartins.substack.com/p/ele-nunca-moveu-um-dedo-pela-democracia</link><guid isPermaLink="false">https://imartins.substack.com/p/ele-nunca-moveu-um-dedo-pela-democracia</guid><dc:creator><![CDATA[Ivan Martins]]></dc:creator><pubDate>Fri, 04 Sep 2026 12:13:39 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!QA8Q!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F230cfd97-dd9f-448d-aaeb-9dc620874844_957x957.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>Sabemos com certeza, desde o in&#237;cio da semana, que um ministro do STF est&#225; metido at&#233; o couro cabeludo com um banqueiro corrupto, enquanto outro ministro, aquele que expos as provas contra o colega, o fez para favorecer o candidato a cuja fam&#237;lia ele serve de diversas formas &#8211; uma delas, bem evidente neste epis&#243;dio, &#233; mantendo em sigilo as investiga&#231;&#245;es sobre a liga&#231;&#227;o de Fl&#225;vio Bolsonaro com o dono do Master, ao mesmo tempo em que torna p&#250;blicas as rela&#231;&#245;es de Alexandre de Moraes com o mesmo criminoso.</span></p><p><span>Andr&#233; Mendon&#231;a protege um suspeito enquanto tenta destruir o outro, com um detalhe relevante: o suspeito que ele t&#227;o zelosamente preserva &#233; candidato a presidente da Rep&#250;blica, e contra ele h&#225; evid&#234;ncias cada vez mais fortes de corrup&#231;&#227;o.</span></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://imartins.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Ivan Haro Martins ! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p><span>N&#227;o h&#225; probos ou inocentes nessa guerra de togados, a come&#231;ar pelo fato &#8211; agora p&#250;blico - de que o pr&#243;prio Mendon&#231;a recebeu Daniel Vorcaro em reuni&#227;o fora do STF e sem testemunhas, arranjada por parlamentares amigos que se encontravam na folha de benesses do banqueiro marginal. Mendon&#231;a jura por Deus que a conversa secreta com o grande corruptor da Rep&#250;blica girou em torno de temas de elevado interesse p&#250;blico, mas quem apostaria um f&#243;sforo riscado nessa vers&#227;o?</span></p><p><span>Logo, a situa&#231;&#227;o &#233; esquisita, mas a imprensa brasileira, servil aos interesses do mercado, (que n&#227;o gosta de Lula e prefere Fl&#225;vio), escolheu imediatamente o lado de Mendon&#231;a na disputa. Nem bem as evid&#234;ncias contra Moraes se tornaram p&#250;blicas, a Folha j&#225; tinha pronto um texto de opini&#227;o exigindo a ren&#250;ncia do respons&#225;vel por colocar Bolsonaro e outros golpistas de alta patente na cadeia. Nas Organiza&#231;&#245;es Globo o tom era o mesmo. Jornalistas da CBN se esgoelavam para declarar que a situa&#231;&#227;o de Moraes se tornara insustent&#225;vel e que ele deveria renunciar ao cargo &#8211; ou ser afastado.</span></p><p><span>Quanto ao outro ministro do STF, aquele que usa seu cargo para proteger Fl&#225;vio e avan&#231;ar os interesses pol&#237;ticos da fam&#237;lia Bolsonaro, nenhuma palavra, nenhum reparo, nenhuma cr&#237;tica, como se n&#227;o houvesse prop&#243;sito ou consequ&#234;ncias em seus atos de favorecimento. Algu&#233;m poderia dizer, frente ao sil&#234;ncio tonitruante da imprensa, que n&#227;o h&#225; interesse pol&#237;tico ou jornal&#237;stico no comportamento enviesado do ministro, mas quem acreditaria nisso?</span></p><p><span>Mendon&#231;a, lembremos, tem hist&#243;ria, e ela n&#227;o &#233; exatamente bonita. Ele serviu a Jair Bolsonaro como advogado-geral da Uni&#227;o e depois como ministro da Justi&#231;a. Est&#225; associado diretamente:</span></p><p><span>. &#224; persegui&#231;&#227;o de advers&#225;rios pol&#237;ticos de Bolsonaro com a Lei de Seguran&#231;a Nacional,</span></p><p><span>. ao aparelhamento da Pol&#237;cia Federal para barrar investiga&#231;&#245;es contra o governo,</span></p><p><span>. ao combate jur&#237;dico contra as medidas de isolamento durante a pandemia</span></p><p><span>. ao relaxamento de regras que permitiu que a sociedade se armasse at&#233; os dentes, sob a desculpa esfarrapada de estar colecionando equipamento de ca&#231;a.</span></p><p><span>(Agora, al&#233;m de ser morto por assaltantes, voc&#234; pode ser morto pelo vizinho bolsonarista que n&#227;o gosta do adesivo de esquerda que voc&#234; p&#244;s no vidro do seu carro. Ou a sua vizinha pode ser assassinada pelo namorado ciumento e armado. Muitos inocentes j&#225; perderam e outros muitos perder&#227;o a vida em consequ&#234;ncia dessa liberalidade sinistra, mas o ministro terrivelmente evang&#233;lico parece n&#227;o se importar com isso).</span></p><p><span>Enquanto Mendon&#231;a era ministro da Justi&#231;a, seu chefe contava mentiras criminosas sobre as urnas eletr&#244;nicas e as vacinas contra Covid, e ele nunca ergueu a voz para se opor. Como ministro do STF, indicado por Bolsonaro, fez vistas grossas &#224; tentativa do ex-chefe de fraudar as elei&#231;&#245;es, de impedir a posse de Lula por meio de um golpe militar e de tentar derrubar o presidente eleito &#8211; e mat&#225;-lo, assim como ao pr&#243;prio Moraes &#8211; com a ajuda de militares, os tais ninjas pretos. Para Mendon&#231;a, nada havia nesses atos que invocasse puni&#231;&#227;o.</span></p><p><span>Dever&#237;amos falar do abandono da Amaz&#244;nia e das terras ind&#237;genas aos madeireiros e ao garimpo ilegal durante o governo Bolsonaro, coisas que hoje sabemos estarem associadas ao crime organizado?</span></p><p><span>Assim chegamos &#224; situa&#231;&#227;o de hoje.</span></p><p><span>Um ministro do STF foi documentado usando seu cargo para favorecer um empres&#225;rio corrupto com quem sua fam&#237;lia tinha contratos de mais de uma centena de milh&#245;es. O futuro dele &#233; ou deveria ser incerto, apesar dos servi&#231;os inestim&#225;veis que prestou ao Brasil e &#224; democracia num momento de grande risco pessoal. Se ele n&#227;o estivesse onde estava e n&#227;o agisse da forma como agiu, talvez o golpe de Estado tentado por Bolsonaro tivesse tido sucesso, e n&#243;s todos viv&#234;ssemos hoje sob a mais corrupta ditadura familiar da nossa hist&#243;ria, com a mis&#233;ria e a criminalidade em n&#237;veis dist&#243;pico, centros de tortura pol&#237;ticos funcionando na Barra da Tijuca e empres&#225;rios americanos dando ordens aos nossos governantes, como acontece na Venezuela.</span></p><p><span>Mas a soma das virtudes de Moraes n&#227;o lhe d&#225; licen&#231;a para usar o cargo de ministro do STF a favor de si mesmo. Por isso ter&#225; de prestar contas.</span></p><p><span>Quanto ao outro ministro do STF, esse nunca moveu um dedo pela democracia. Pelo contr&#225;rio, age exclusivamente em nome de suas ambi&#231;&#245;es e de um projeto pol&#237;tico autorit&#225;rio que mistura viol&#234;ncia, corrup&#231;&#227;o e religi&#227;o, e exibe em Fl&#225;vio Bolsonaro a sua perfeita encarna&#231;&#227;o: homem sem m&#233;rito ou virtudes c&#237;vicas, playboy envolvido com a mil&#237;cia carioca, pol&#237;tico &#225;vido por dinheiro (que pede milh&#245;es a banqueiro corrupto, participa de rachadinhas e compra mans&#245;es com dinheiro vivo), capacho volunt&#225;rio dos interesses americanos que tomar&#227;o conta do pa&#237;s se ele virar presidente.</span></p><p><span>Tamb&#233;m este outro ministro do STF, o protetor de Fl&#225;vio, deveria prestar contas de seus atos, mas o mercado, a imprensa e a oligarquia bolorenta que controla o poder no Brasil n&#227;o est&#227;o interessados nesse desfecho, s&#243; no outro.</span></p><p><span>...</span></p><p><span>Ivan Martins &#233; psicanalista e autor dos livros &#8220;Algu&#233;m especial&#8221; e &#8220;Um amor depois do outro&#8221;.</span></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://imartins.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Ivan Haro Martins ! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Só o cavalheirismo não adianta]]></title><description><![CDATA[Contra o machismo e a misoginia, n&#227;o basta perguntar o que as mulheres querem que a gente fa&#231;a]]></description><link>https://imartins.substack.com/p/so-o-cavalheirismo-nao-adianta</link><guid isPermaLink="false">https://imartins.substack.com/p/so-o-cavalheirismo-nao-adianta</guid><dc:creator><![CDATA[Ivan Martins]]></dc:creator><pubDate>Wed, 05 Aug 2026 14:22:16 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!QA8Q!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F230cfd97-dd9f-448d-aaeb-9dc620874844_957x957.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Todo analista conhece esse tipo de paciente: ele vem ao consult&#243;rio mandado pela mulher ou pela namorada, preocupada ou magoada com algum aspecto do comportamento ou da personalidade dele. Isso costuma acontecer depois de crises no relacionamento e a terapia &#233; a condi&#231;&#227;o - impl&#237;cita ou expl&#237;cita - para que a rela&#231;&#227;o prossiga.</p><p>Na minha experi&#234;ncia, poucos desses pacientes ficam em an&#225;lise.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://imartins.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Ivan Haro Martins ! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Eles n&#227;o t&#234;m desejo de estar ali e falar de si. N&#227;o veem sentido naquilo. Atendem apenas ao desejo do outro, da parceira, e essa vontade emprestada n&#227;o &#233; suficiente para sustentar as ang&#250;stias e frustra&#231;&#245;es de uma an&#225;lise, para n&#227;o falar do custo em dinheiro. Os pacientes desse tipo que persistem na terapia o fazem porque descobrem no processo as suas pr&#243;prias raz&#245;es para prosseguir. Percebem haver perguntas sobre si que eles gostariam de fazer em voz alta, e de tentar responder a si mesmos com a ajuda do analista. Nesses casos, a crise do relacionamento se revela uma oportunidade para lidar com quest&#245;es &#237;ntimas que eram ignoradas ou negligenciadas h&#225; anos. A&#237; a an&#225;lise avan&#231;a.</p><p>A viv&#234;ncia frustrante com esses pacientes mandados me faz encarar com ceticismo as tentativas que se fazem entre n&#243;s, homens progressistas, de atacar os problemas do machismo e da misoginia apenas perguntando &#224;s mulheres o que eles querem que fa&#231;amos. Acho que essa abordagem cavalheiresca do problema &#233; claramente insuficiente. Ela nos coloca na condi&#231;&#227;o subjetiva do sujeito que &#233; enviado para an&#225;lise pela mulher: ele quer agradar, ele quer consertar, ele quer fazer a coisa certa, mas, se n&#227;o achar suas pr&#243;prias raz&#245;es e o seu pr&#243;prio caminho nessa empreitada, o processo n&#227;o avan&#231;a.</p><p>Ouvir o que as mulheres querem de n&#243;s &#233; o come&#231;o do processo de mudan&#231;a, o in&#237;cio de uma conversa que vai atravessar as pr&#243;ximas gera&#231;&#245;es. Os homens falaram sozinhos por mil&#234;nios; agora chegou a hora de escutar e conversar. H&#225; um di&#225;logo que come&#231;a a ser travado e ele passa, necessariamente, por entender as demandas femininas: o que precisa mudar no comportamento masculino, do ponto de vista delas, para que o mundo se torne um lugar mais seguro, mais receptivo e menos injusto para as mulheres e para o feminino.</p><p>Mas a lista de demandas femininas n&#227;o encerra a conversa ou a quest&#227;o, porque as mulheres n&#227;o det&#234;m sozinhas a f&#243;rmula do mundo ideal. Ningu&#233;m det&#233;m. Erguer uma sociedade feliz para homens e mulheres &#233; uma tarefa monumental, que exige a colabora&#231;&#227;o criativa de todos os temperamentos e sensibilidades, de todos os desejos. </p><p>Existe, entretanto, um acordo m&#237;nimo entre as pessoas verdadeiramente de bem dos dois sexos, e ele diz que a viol&#234;ncia contra as mulheres precisa acabar. Ponto. Os ass&#233;dios, os estupros, as agress&#245;es, os feminic&#237;dios, as persegui&#231;&#245;es pessoais e digitais de todo tipo s&#227;o atitudes socialmente pornogr&#225;ficas, todas elas criminosas, e, n&#227;o obstante, ainda banais entre n&#243;s, brasileiros.</p><p>Os feminic&#237;dios, provavelmente impulsionados pela ideologia machista da extrema direita, est&#227;o entre os poucos crimes letais que continuam crescendo no Brasil, enquanto as outras formas de viol&#234;ncia intencional declinam. &#201; uma situa&#231;&#227;o horrenda, e contra ela temos de nos unir em ideias e a&#231;&#227;o. N&#227;o h&#225; controv&#233;rsia quanto a isso, mas falta uma grande alian&#231;a e um plano de a&#231;&#227;o que seja efetivo. Falta senso de urg&#234;ncia.</p><p>Enquanto for socialmente consentida, enquanto for disseminada como &#233; hoje, a viol&#234;ncia machista vai contribuir para manter as mulheres em posi&#231;&#227;o subalterna, impedindo-as de desabrochar plenamente, social e pessoalmente. A amea&#231;a de viol&#234;ncia &#233; uma for&#231;a terrivelmente eficaz &#8211; uma for&#231;a conservadora, reacion&#225;ria - que n&#227;o deve ser subestimada. O medo f&#237;sico e moral constitui desde sempre a base do poder dos brutos e reacion&#225;rios de toda esp&#233;cie, sobretudo dos marginais e dos fascistas.</p><p>Para al&#233;m dessa agenda civilizat&#243;ria de combate &#224; viol&#234;ncia contra as mulheres, sobre a qual, repito, n&#227;o h&#225; ou n&#227;o deveria haver controv&#233;rsia, os homens precisam achar suas pr&#243;prias raz&#245;es e sua pr&#243;pria agenda na luta contra o machismo e a misoginia. Raz&#245;es sociais, que me parece serem muitas, e raz&#245;es &#237;ntimas, pessoais e intransfer&#237;veis que tamb&#233;m existem. &#201; a combina&#231;&#227;o do coletivo e do particular que fornece o combust&#237;vel de longo prazo para esse tipo de jornada de transforma&#231;&#227;o.</p><p>Do lado coletivo, passou da hora de n&#243;s homens percebermos que o machismo &#233; uma doen&#231;a social, uma forma de opress&#227;o que incide sobre os homens desde a inf&#226;ncia, e que persiste mesmo nas fazes mais avan&#231;adas da vida. Internalizada, ela submete homens de todas as classes, cores e mesmo orienta&#231;&#245;es sexuais a uma hierarquia baseada na viol&#234;ncia, que molda profundamente as subjetividades.</p><p>O homem ideal para muitos de n&#243;s, o cara a ser imitado ou desejado, &#233; um sujeito agressivo e dominante, um narcisista viril que imp&#245;e seu desejo aos outros, sejam homens e mulheres. Essa caricatura de macho habita o inconsciente de boa parte dos homens (e talvez da cultura como um todo...) e serve de r&#233;gua para que eles me&#231;am a si mesmos e ao seu pr&#243;prio comportamento &#8211; quase sempre com um sentimento de enorme e dolorosa desvantagem, quase sempre com vergonha.</p><p>H&#225; formas de loucura e de melancolia tipicamente masculinas cuja raiz se encontra nesse ideal de eu t&#227;o torto quanto inalcan&#231;&#225;vel, que melhor seria se fosse percebido pelos homens como indesej&#225;vel, mas n&#227;o &#233;. Ainda n&#227;o &#233;.</p><p>No plano particular, cada um de n&#243;s precisa achar aquilo que nos vincula pessoalmente &#224; causa da emancipa&#231;&#227;o das mulheres, ou, na dire&#231;&#227;o contr&#225;ria, aquilo que nos mant&#233;m atados &#224;s fantasias de onipot&#234;ncia do machismo. Isso tem muito a ver com a biografia de cada um. Que tipo de mulheres havia ao seu redor quando voc&#234; cresceu, e que tipo de homens. Que esp&#233;cie de rela&#231;&#245;es eles mantinham entre si, e quais la&#231;os de afeto ou admira&#231;&#227;o voc&#234; estabeleceu com eles e com elas. Essas conex&#245;es origin&#225;rias fazem efeito vida afora, estabelecendo uma esp&#233;cie de moldura &#233;tica e afetiva na qual se d&#227;o as rela&#231;&#245;es com as mulheres. Nada disso &#233; definitivo ou imut&#225;vel, mas tem for&#231;a de in&#233;rcia.</p><p>Tenho visto homens serem radicalmente sensibilizados para a situa&#231;&#227;o das mulheres ao se tornarem pais de meninas. Ent&#227;o emerge neles a preocupa&#231;&#227;o assustadora com a seguran&#231;a delas, e, junto a isso, o desejo de que sejam respeitadas, que tenham assegurado direito a exercer seus talentos e buscar sua felicidade sem ter de lidar com a viol&#234;ncia, a discrimina&#231;&#227;o e o preconceito. Esses pais tornam-se feministas por amor.</p><p>Acho importante, chegando ao final, lembrar que as mulheres t&#234;m papel profundamente educativo na vida dos homens. N&#227;o s&#243; as m&#227;es e tias do prezinho, as muitas professoras e as amigas, mas sobretudo as mulheres com quem os homens se envolvem romanticamente ao longo da vida. Essas t&#234;m um acesso especial &#224; consci&#234;ncia masculina, que passa pelo corpo e pelo cora&#231;&#227;o.</p><p>Se o sujeito n&#227;o estiver totalmente embotado pelo discurso machista, ele vai ouvir o que a mulher que ele ama tem a contar. Provavelmente vai se sensibilizar com o relato das injusti&#231;as, dos abusos e preterimentos que os homens desconhecem e dos quais s&#227;o poupados no dia a dia. Vai perceber com algum inc&#244;modo, &#224;s vezes com dor e perplexidade, que muitas mulheres s&#227;o atravessadas por raiva e ressentimento (nem sempre conscientes...) em rela&#231;&#227;o ao mundo masculino, aos homens em geral. Esses sentimentos emergem na intimidade e s&#227;o dif&#237;ceis de lidar. Eles criam um enorme potencial de conflito no interior dos casais contempor&#226;neos.</p><p>Ao mesmo tempo, o conv&#237;vio &#237;ntimo com a dor das mulheres contribui, na minha experi&#234;ncia, para uma compreens&#227;o mais refinada e mais emp&#225;tica do universo feminino. N&#227;o para atribuir a elas, indiscriminadamente, o status de v&#237;timas. Deus nos livre, n&#227;o &#233; o caso. Mas para solidarizar-se com a coragem cotidiana de pessoas que, desde o ber&#231;o, lidam com um universo projetado para que elas sejam coadjuvantes, auxiliares e subalternas &#8211; e que a despeito dessa enorme desvantagem simb&#243;lica e pr&#225;tica, que convida ao retraimento e &#224; submiss&#227;o, triunfam na tarefa de fazer seus pr&#243;prios caminhos e responder altivamente aos seus pr&#243;prios desejos.</p><p>Minha cren&#231;a fundamental &#233; que homens e mulheres podem ser c&#250;mplices de igual estatura na constru&#231;&#227;o de um mundo mais feliz para todo mundo. Sem machismo, sem misoginia, sem hierarquias.</p><p>...</p><p>Ivan Martins &#233; psicanalista e autor dos livros Algu&#233;m Especial e Um Amor Depois do Outro.</p><p><strong>Ver menos</strong></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://imartins.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Ivan Haro Martins ! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O playboy contra a urna eletrônica]]></title><description><![CDATA[Para Fl&#225;vio Bolsonaro, como para o seu pai, a urna eletr&#244;nica inviol&#225;vel representa o momento da verdade, um espelho que ele n&#227;o quer olhar.]]></description><link>https://imartins.substack.com/p/o-playboy-contra-a-urna-eletronica</link><guid isPermaLink="false">https://imartins.substack.com/p/o-playboy-contra-a-urna-eletronica</guid><dc:creator><![CDATA[Ivan Martins]]></dc:creator><pubDate>Fri, 24 Jul 2026 12:53:10 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!QA8Q!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F230cfd97-dd9f-448d-aaeb-9dc620874844_957x957.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Por que Fl&#225;vio Bolsonaro imita o pai e mente sobre as urnas eletr&#244;nicas como fez na ter&#231;a-feira, correndo o risco de se expor como o troglodita que realmente &#233; e de ser punido pelo TSE, tornando-se tamb&#233;m ele ineleg&#237;vel? H&#225; v&#225;rias explica&#231;&#245;es poss&#237;veis que v&#227;o da burrice gen&#233;tica uma jogada combinada com o governo intervencionista americano, mas eu gostaria de expor a minha tese favorita, que passa pela psican&#225;lise.</p><p>&#201; muito dif&#237;cil para qualquer pessoa esconder aquilo que &#233; profundamente e as coisas em que realmente acredita, sobretudo quando se trata de algu&#233;m t&#227;o prec&#225;rio quanto o primeiro filho de Bolsonaro - basicamente um playboy da Barra da Tijuca lan&#231;ado pelo pai &#224; vida boa da pol&#237;tica sem qualquer preparo intelectual ou sentido c&#237;vico de conduta. Fl&#225;vio s&#243; tem a gui&#225;-lo a vontade de se dar bem e as convic&#231;&#245;es pol&#237;ticas produzidas nos centros de tortura da ditadura militar. Ele herdou isso do pai, assim como os contatos rent&#225;veis do loda&#231;al carioca que vira e mexe emergem para incomod&#225;-lo.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://imartins.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Ivan Haro Martins ! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Por isso a urna eletr&#244;nica lhe parece assustadora. Ela &#233; indevass&#225;vel, imprevis&#237;vel, n&#227;o pode ser controlada. Numa ocasi&#227;o elege seu pai, na outra o repele depois de uma gest&#227;o monstruosa. No mundo ideal de Jair e Fl&#225;vio, as urnas eletr&#244;nicas teriam de dar lugar a votos manipul&#225;veis, control&#225;veis, fraud&#225;veis. Ou, ainda melhor, nem deveria nem haver mais elei&#231;&#245;es depois que a fam&#237;lia chegasse ao poder. S&#243; assim seria poss&#237;vel escapar do julgamento dos eleitores.</p><p>Lembra do Jair mobilizando a Pol&#237;cia Rodovi&#225;ria para tentar impedir as pessoas de votarem no Nordeste? Ele queria permanecer no poder a qualquer custo, como seu filho deseja chegar l&#225; de qualquer forma. Quando n&#227;o conseguiu impedir que Lula fosse eleito, Jair tentou chamar as For&#231;as Armadas para barrar sua posse. Ao ver que isso tamb&#233;m fracassara, ele e seus asseclas armaram o caos em 8 de janeiro de 2023, com o objetivo de que o Ex&#233;rcito interviesse para restaurar a ordem e o reconduzisse ao poder. Foi uma tentativa de golpe de Estado que Fl&#225;vio jamais criticou.</p><p>N&#227;o &#233; &#224; toa que o Jair est&#225; na cadeia e seu filho mais velho esbraveja contra a urna que ir&#225; julg&#225;-lo por tudo que ele fez e &#233; - e por tudo que ainda viremos a saber a seu respeito at&#233; o fim da elei&#231;&#227;o. Ontem o Supremo autorizou a Pol&#237;cia Federal a investigar o filme para o qual o banqueiro-bandido que Fl&#225;vio chamava de &#8220;irm&#227;o&#8221; doou quase 70 milh&#245;es de reais. Vamos ver onde foi parar esse dinheiro.</p><p>Para Fl&#225;vio Bolsonaro, como para o seu pai, a urna eletr&#244;nica inviol&#225;vel representa o momento da verdade, um espelho que ele n&#227;o quer olhar. Ele sabe intimamente que n&#227;o tem biografia, ideias pr&#243;prias, estatura moral ou preparo intelectual para ocupar o cargo de presidente do Brasil. Ele n&#227;o fez nada, absolutamente nada, para merecer tamanha honra. S&#243; carrega um sobrenome em torno do qual funciona uma seita, mas Bolsonaro &#233; tamb&#233;m uma palavra que causa justa repulsa a parte enorme do eleitorado.</p><p>Por isso Fl&#225;vio denuncia as urnas que podem revel&#225;-lo como a nulidade que de fato &#233;, o primog&#234;nito mimado que n&#227;o vai chegar onde o pai tosco chegou. Por isso ele n&#227;o sai de Washington, onde se oferece como zelador confi&#225;vel dos interesses americanos no Brasil, onde implora para receber de presente a presid&#234;ncia do pa&#237;s. Sozinho, com base em seus pr&#243;prios m&#233;ritos, sabe que n&#227;o caminha at&#233; a esquina. Precisa de um protetor, e Trump vai se configurando, para todos os efeitos simb&#243;licos, no segundo pai de Flavinho. N&#227;o bastasse um perverso, dois.</p><p>... </p><p>Ivan Martins &#233; psicanalista e autor dos livros &#8220;Algu&#233;m especial&#8221; e &#8220;Um amor depois do outro&#8221;.</p><p><strong>Ver menos</strong></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://imartins.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Ivan Haro Martins ! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Por que torcer pela Espanha]]></title><description><![CDATA[Os espanh&#243;is jogam de forma cerebral, menos empolgante que os argentinos, mas seu futebol &#233; limpo, mesmo com sangue nos olhos, mesmo na imin&#234;ncia da derrota]]></description><link>https://imartins.substack.com/p/por-que-torcer-pela-espanha</link><guid isPermaLink="false">https://imartins.substack.com/p/por-que-torcer-pela-espanha</guid><dc:creator><![CDATA[Ivan Martins]]></dc:creator><pubDate>Sat, 18 Jul 2026 16:23:08 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!QA8Q!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F230cfd97-dd9f-448d-aaeb-9dc620874844_957x957.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Eu vou torcer pela Espanha amanh&#227; porque n&#227;o gosto da deslealdade, da viol&#234;ncia e do cinismo do time argentino. Eles t&#234;m em Messi um g&#234;nio da bola, mas ele brilha protegido por um esquadr&#227;o de jagun&#231;os que fazem a seguran&#231;a do seu craque enquanto chutam, pisam e tentam intimidar de todas as formas os atacantes advers&#225;rios. Isso &#233; futebol? H&#225; quem se excite com testosterona guerreiro, n&#227;o eu. Os espanh&#243;is, jogam de forma cerebral, menos empolgante, tocando bola at&#233; sedar e envolver o advers&#225;rio. Pode ser chato? Pode, mas seu futebol &#233; limpo, mesmo com sangue nos olhos, mesmo na imin&#234;ncia da derrota. Garra n&#227;o &#233; sin&#244;nimo de trucul&#234;ncia, como ensinava o zagueiro paraguaio Gamarra, que defendeu com vigor as cores do Corinthians e jogou por mais de 700 minutos na Copa de 1998 sem levar um &#250;nico cart&#227;o amarelo. Ah, mas o futebol espanhol &#233; racista quanto o argentino. Claro que &#233;, mas na Espanha se sabe que isso &#233; errado e se tenta coibir insultos contra jogadores negros, enquanto o futebol argentino, pelo que se sabe, naturaliza chamar atletas brasileiros de macacos, assim como naturaliza e celebra a viol&#234;ncia. Resta, por fim, o fato de que os espanh&#243;is s&#227;o colonizadores, e dever&#237;amos torcer contra eles. S&#233;rio? Sugiro que os proponentes dessa teoria leiam sobre a Campanha do Deserto, pela qual a oligarquia argentina matou e expulsou de forma selvagem os povos ind&#237;genas da Patag&#244;nia e dos Pampas, em meados do s&#233;culo XIX. Algo que hoje se discute se foi genoc&#237;dio, massacre ou apenas limpeza &#233;tnica. Lamento, mas n&#227;o d&#225; para tratar um pais que ainda se abra&#231;a a essa hist&#243;ria, e se afirma orgulhosamente europeu &#8211; vieram dos barcos, dizem, enquanto o resto de n&#243;s, latino-americanos... &#8211; como representante dos sentimentos anticoloniais. Se &#233; o caso de apoiar algum nacionalismo futebol&#237;stico, que seja o mais civilizado, que calha, como a Espanha, de n&#227;o ser o nosso grande e hist&#243;rico rival nos gramados.</p><p>...</p><p>PS: oi eu estou torcendo para a argentina mas o meu pai esta torcendo para a espanha. Tchau </p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://imartins.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Ivan Haro Martins ! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Sem mentiras, sem culpa, sem complicações]]></title><description><![CDATA[Um filme de 1965 interroga o desejo contempor&#226;neo de navegar sem dor e sem obst&#225;culos por uma vida amorosa plural]]></description><link>https://imartins.substack.com/p/sem-mentiras-sem-culpa-sem-complicacoes</link><guid isPermaLink="false">https://imartins.substack.com/p/sem-mentiras-sem-culpa-sem-complicacoes</guid><dc:creator><![CDATA[Ivan Martins]]></dc:creator><pubDate>Thu, 11 Jun 2026 13:22:30 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!QA8Q!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F230cfd97-dd9f-448d-aaeb-9dc620874844_957x957.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Vi no fim de semana, por indica&#231;&#227;o de Andr&#233; Timm, escritor ga&#250;cho que acompanho nas redes sociais, uma obra-prima da cineasta francesa Agn&#232;s Varda sobre a qual quero falar com voc&#234;s &#8211; porque o filme, lindo e &#224; frente do seu tempo, traz quest&#245;es inesperadamente atuais sobre n&#243;s e os nossos relacionamentos.</p><p>(O filme pode ser visto no MUBI, mediante assinatura, ou acessando e pagando extra no Prime V&#237;deo).</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://imartins.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Ivan Haro Martins ! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>&#8220;Le Bonheur&#8221; trata de um casamento feliz que se desdobra numa rela&#231;&#227;o paralela. Onde se esperaria tens&#227;o e drama, a diretora nos surpreende com leveza e ironia. Ela conta um caso de infidelidade de forma inesperada, quase primaveril, se pensarmos nas cores vibrantes do filme. Mas, de maneira insidiosa, sem que a gente se d&#234; conta, nos agarra pelo pesco&#231;o e nos sacode com brutalidade &#8211; ao som jubiloso de Mozart.</p><p>O filme foi chamado no Brasil de &#8220;As duas faces da felicidade&#8221;, mas o t&#237;tulo original se traduz apenas como felicidade, talvez at&#233; como plenitude. Foi filmado em 1964, lan&#231;ado em 1965, e, apesar das mudan&#231;as na cultura nesses mais de 60 anos, sua indaga&#231;&#227;o sobre os dilemas que cercam a felicidade amorosa continua importante &#8211; talvez mais importante agora do que na &#233;poca em que o filme foi feito.</p><p>O protagonista da hist&#243;ria, um jovem marceneiro bonit&#227;o, vive contente com a mulher e os dois filhos, perfeitamente inserido em sua comunidade de oper&#225;rios. Ela &#233; uma costureira linda e doce, dona de casa sorridente. Ele, um trabalhador alegre e rom&#226;ntico, dedicado &#224; fam&#237;lia. Um homem feliz, em suas pr&#243;prias palavras. Ent&#227;o ele conhece uma telefonista encantadora, mulher livre dos anos 60, se apaixonam, e ele... se torna ainda mais feliz, a tal ponto que decide contar &#224; mulher o que se passa, em nome da integridade e do desejo de inclu&#237;-la na alegria do novo la&#231;o amoroso.</p><p>Soa atual para voc&#234;s? Para mim, muito, por diferentes raz&#245;es.</p><p>A hipocrisia corrente do s&#233;culo XX, que permitia a homens e mulheres enganarem os parceiros, deu lugar no s&#233;culo XXI ao imperativo crescente (ao menos em nosso meio liberal) de contar a verdade e partilhar as experi&#234;ncias extraconjugais. Como o marceneiro de Varda, muita gente imagina que &#233; poss&#237;vel ter tudo, ou quase tudo, no terreno amoroso &#8211; a seguran&#231;a terna das rela&#231;&#245;es tradicionais e a avalanche er&#243;tica dos envolvimentos externos &#8211; sem esconder nada de ningu&#233;m. Nem mentira, nem culpa, nem complica&#231;&#245;es. S&#227;o as rela&#231;&#245;es abertas, cuja finalidade &#233; contornar os aspectos restritivos da monogamia e permitir uma viv&#234;ncia amorosa mais ampla e mais verdadeira.</p><p>Na pr&#225;tica, as coisas se complicam um bocadinho, tanto em 1965 quanto agora, tanto no interior de cada um de n&#243;s quanto na rela&#231;&#227;o com o outro.</p><p>Aquilo que faz o marceneiro feliz n&#227;o &#233; necessariamente bom para a mulher dele. A busca do prazer e mesmo da felicidade de um nem sempre &#233; compat&#237;vel com aquilo que &#233; desej&#225;vel ou poss&#237;vel para o outro. N&#227;o se trata apenas de que a parceira ou o parceiro n&#227;o sejam livres o suficiente para desfrutar de uma rela&#231;&#227;o sem posse, mas que esse tipo de rela&#231;&#227;o pode atender apenas &#224;s necessidades e anseios de quem as busca, n&#227;o do outro. Assim como o moralismo do passado era injusto ao condenar toda procura de prazer fora do casamento &#8211; ignorando os sentimentos, a personalidade e as circunst&#226;ncias dos envolvidos &#8211; h&#225; quem menospreze sem raz&#227;o aqueles que hoje em dia resistem &#224; oferta das rela&#231;&#245;es plurais. Mas os monogamistas n&#227;o s&#227;o necessariamente controladores, reprimidos ou medrosos, como se diz. Eles podem estar em paz com sua escolha &#8211; por dif&#237;cil que seja imaginar essa situa&#231;&#227;o num mundo de insatisfa&#231;&#245;es fabricadas em s&#233;rie, como &#233; o nosso.</p><p>Talvez seja bom lembrar, neste ponto da conversa, que as nossas rela&#231;&#245;es afetivas, embora aconte&#231;am no interior de uma sociedade capitalista, n&#227;o est&#227;o subordinadas &#224; l&#243;gica do mercado. Nossa felicidade ou nosso m&#233;rito n&#227;o se medem pela acumula&#231;&#227;o de parceiros, como se fossem autom&#243;veis ou dinheiro. O equil&#237;brio amoroso da sociedade n&#227;o ser&#225; atingido pela livre concorr&#234;ncia sexual, cada um perseguindo seu pr&#243;prio prazer de forma cega e ego&#237;sta. N&#227;o existe a m&#227;o invis&#237;vel do amor, como n&#227;o existe a m&#227;o invis&#237;vel do mercado. Sem cuidado com aqueles a quem nos vinculamos, sem preocupa&#231;&#227;o pelos sentimentos dela ou dele, sem a interfer&#234;ncia de alguma esp&#233;cie de lei ou de norma, ser&#237;amos sete bilh&#245;es de narcisistas competindo sem regras, com resultados desastrosos.</p><p>A conversa mole conservadora, por outro lado, aquela que prega a virtude em p&#250;blico e pratica o v&#237;cio em privado, n&#227;o &#233; resposta a nenhuma das inquieta&#231;&#245;es que nos afligem. Algemar as pessoas umas &#224;s outras, subordinando as mulheres &#224; vontade dos homens, &#233; obsoleto, perverso e invi&#225;vel, e a orgia de feminic&#237;dios mostra que pode ser mortal. Que as pessoas busquem formas de relacionamento mais aut&#234;nticas e igualit&#225;rias &#233; t&#227;o urgente quanto louv&#225;vel, mas n&#227;o nos deixemos iludir pelo pressuposto naturalista de que a felicidade pode ser atingida se apenas dermos vaz&#227;o a todos os nossos desejos e impulsos. Seres humanos n&#227;o funcionam assim.</p><p>Outro aspecto do filme de Varda que resistiu ao tempo &#233; a cr&#237;tica sem panfleto e sem palanque do machismo. A diretora mostra com seu marceneiro um homem totalmente autocentrado, que faz de si mesmo e da sua vontade a medida do mundo. Ele gosta da mulher, ele a ama &#224; sua pr&#243;pria maneira, mas n&#227;o se preocupa verdadeiramente com ela. Ou melhor: ele n&#227;o a enxerga, ele n&#227;o a conhece, ele n&#227;o faz ideia do que ela pensa ou sente. Apesar do tempo enorme percorrido desde as filmagens de &#8220;Le Bonheur&#8221;, esse ainda &#233; um jeito tristemente masculino de olhar para as mulheres: superficialmente, como lindos objetos de afei&#231;&#227;o, perfeitamente substitu&#237;veis em caso de perda ou de dano.</p><p>N&#227;o se trata &#8211; vejam bem - de uma cr&#237;tica ao comportamento infiel do personagem. O filme n&#227;o prop&#245;e uma quest&#227;o moral. O ponto da diretora parece ser a incapacidade desse homem simp&#225;tico e sentimental de entender a pessoa com quem ele escolheu viver - o universo simb&#243;lico de m&#227;e, dona de casa, esposa que a sua companheira habita naquele momento da hist&#243;ria e naquela classe social. O marceneiro poderia imaginar as consequ&#234;ncias dos seus atos sobre a mulher dele, pensar antes de agir e de revelar. Seria uma quest&#227;o de lealdade, mais que fidelidade. Mas n&#227;o. A exist&#234;ncia da parceira real, com seus sentimentos e expectativas, n&#227;o se coloca para ele, voltado apenas aos seus pr&#243;prios desejos e emo&#231;&#245;es.</p><p>De uma outra maneira, n&#227;o &#233; exatamente como agem os caras que matam as companheiras que querem deix&#225;-los? Apenas os sentimentos deles importam. A enormidade das consequ&#234;ncias dos seus crimes nem aparece na cena.</p><p>Acho que h&#225; muito disso nas rela&#231;&#245;es contempor&#226;neas: certa dificuldade em incluir os sentimentos e necessidades do outro na nossa pr&#243;pria equa&#231;&#227;o sentimental - e isso (sei que me repito) talvez seja parte da ideologia geral que nos cerca, nos penetra e de alguma forma nos molda. Ela diz que somos uma esp&#233;cie de empresa e que devemos maximizar os nossos ganhos em todos os campos e em todos os sentidos, inclusive amorosos. Ela nos submete &#224; l&#243;gica neoliberal da concorr&#234;ncia e da disputa, exige o nosso triunfo como indiv&#237;duos, a despeito dos outros, sobre os outros. Prestamos satisfa&#231;&#245;es apenas a n&#243;s mesmos, certo? Resta pouqu&#237;ssima aten&#231;&#227;o para a alteridade nessa forma darwinista de olhar as rela&#231;&#245;es humanas.</p><p>Por fim, me ocorre dizer que em 1965 incidia, como agora ainda incide sobre n&#243;s, rapazes de todas as idades, o privil&#233;gio de mover-se no mundo com mais desenvoltura.</p><p>As mulheres carregam consigo a idade, a apar&#234;ncia, os filhos, os pais idosos, a casa por cuidar, as cobran&#231;as morais da sociedade... enquanto n&#243;s, ou boa parte de n&#243;s, tem no bolso apenas a chave do carro ou do apartamento. Nossa ficha corrida, nosso corpo, nossas pend&#234;ncias s&#227;o parecidas com as delas, sobretudo depois de uma certa idade, mas, estranhamente, isso n&#227;o atrapalha nossos movimentos - ou nossos planos. Como o marceneiro de Varda, sempre podemos come&#231;ar de novo, se for preciso. Em algum lugar, em algum momento, surgir&#225; uma mulher disposta a nos resgatar e tomar para si o papel de amante, m&#227;e e cuidadora zelosa dos nossos interesses materiais e afetivos.</p><p>Duvido que a feminista Agn&#232;s Varda cogitasse em 1964 que o mundo e as pessoas ainda seriam assim em 2026. Mas &#233;. Mas s&#227;o.</p><p>...</p><p>Ivan Martins &#233; psicanalistas e autor dos livros &#8220;Algu&#233;m Especial&#8221; e &#8220;Um Amor Depois do Outro&#8221;.</p><p><strong>Ver menos</strong></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://imartins.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Ivan Haro Martins ! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Cuba e o massacre silencioso]]></title><description><![CDATA[Sem acesso a petr&#243;leo, proibida pelos americanos de obter petr&#243;leo, Cuba vai parando aos poucos, como algu&#233;m que definha. Como em Gaza, mas sem bombas, silenciosamente, se mata a gente comum.]]></description><link>https://imartins.substack.com/p/cuba-e-o-massacre-silencioso</link><guid isPermaLink="false">https://imartins.substack.com/p/cuba-e-o-massacre-silencioso</guid><dc:creator><![CDATA[Ivan Martins]]></dc:creator><pubDate>Thu, 21 May 2026 18:53:34 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/youtube/w_728,c_limit/4j9HIa11PSc" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Chico Buarque, sempre digno,  juntou-se ao cantor e compositor cubano Silvio Rodriguez para gravar um v&#237;deo musical em solidariedade &#224; Cuba. O link para as imagens tocantes est&#225; abaixo. Foi uma tentativa de obter recursos para um hospital da ilha que trata c&#226;ncer e, como o resto do sistema de sa&#250;de do pa&#237;s, encontra-se &#224; beira do colapso. Sem acesso a petr&#243;leo, proibida pelos americanos de obter petr&#243;leo, Cuba - quer dizer, a economia e a sociedade cubanas,  j&#225; debilitadas pela falta de recursos cr&#244;nica imposta por anos de embargo econ&#244;mico - vai parando aos poucos, como algu&#233;m que definha. Idosos e crian&#231;as morrem nos hospitais por falta de energia, f&#225;bricas de medicamentos e de alimentos v&#227;o parando, a vida se sustenta por uns poucos fios chamados coragem, resili&#234;ncia, altivez. N&#227;o h&#225; luz el&#233;trica boa parte do tempo e nem gasolina para os carros, mas as pessoas resistem. J&#225; n&#227;o se trata de criticar a gest&#227;o econ&#244;mica estatal ou a ditadura cubana, mas de entender que o embargo radical, esse massacre silencioso, n&#227;o atinge os poderosos do partido comunista e suas fam&#237;lias, mas o povo comum, que enfrenta priva&#231;&#245;es cada vez maiores, uma situa&#231;&#227;o cada vez mais cruel e desumana.  Os governos anteriores dos Estados Unidos sempre foram abertamente hostis ao regime cubano e impuseram ao pa&#237;s um bloqueio econ&#244;mico que dura mais de 60 anos - e que teria arruinado qualquer economia, capitalista ou n&#227;o, como os iranianos bem sabem. Com o atual presidente, com o fascismo americano no poder, as coisas mudaram de figura. Essa gente odiosa e racista n&#227;o se importa em matar milh&#245;es de cubanos de fome ou de doen&#231;a, desde que isso produza as concess&#245;es econ&#244;micas que os investidores de Miami desejam. Como na Venezuela. L&#225;, nunca foi a respeito de democracia ou liberdade. A ditadura de Maduro prossegue sem Maduro, depois do sequestro absolutamente ilegal do ditador. Enfim, havia algum comedimento na hostilidade americana contra Cuba, alguma esp&#233;cie de limite humanit&#225;rio, mas isso acabou. Depois de Gaza, entendamos, tudo &#233; permitido. Se o mundo n&#227;o foi capaz de impedir aquilo, calculam os criminosos em postos de Estado, n&#227;o vai impedir mais nada. Entre as for&#231;as da aniquila&#231;&#227;o e a vida dos cubanos comuns, interp&#245;e-se, neste momento, apenas a solidariedade de gente como Chico Buarque. De gente, quem sabe, como n&#243;s mesmos.</p><p>...</p><p>Ivan Martins &#233; psicanalista e mestre em Rela&#231;&#245;es Internacionais pela Universidade de Southampton</p><p>...</p><div id="youtube2-4j9HIa11PSc" class="youtube-wrap" data-attrs="{&quot;videoId&quot;:&quot;4j9HIa11PSc&quot;,&quot;startTime&quot;:null,&quot;endTime&quot;:null}" data-component-name="Youtube2ToDOM"><div class="youtube-inner"><iframe src="https://www.youtube-nocookie.com/embed/4j9HIa11PSc?rel=0&amp;autoplay=0&amp;showinfo=0&amp;enablejsapi=0" frameborder="0" loading="lazy" gesture="media" allow="autoplay; fullscreen" allowautoplay="true" allowfullscreen="true" width="728" height="409"></iframe></div></div><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://imartins.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Ivan Haro Martins ! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O modelo de Gaza]]></title><description><![CDATA[O insuspeito The New York Times informa que est&#225; sendo usada no sul do L&#237;bano a mesma engenharia de destrui&#231;&#227;o aplicada em Gaza. Seu prop&#243;sito &#233; tornar invi&#225;vel a vida da popula&#231;&#227;o]]></description><link>https://imartins.substack.com/p/o-modelo-de-gaza</link><guid isPermaLink="false">https://imartins.substack.com/p/o-modelo-de-gaza</guid><dc:creator><![CDATA[Ivan Martins]]></dc:creator><pubDate>Tue, 19 May 2026 20:19:51 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!QA8Q!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F230cfd97-dd9f-448d-aaeb-9dc620874844_957x957.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>N&#250;meros de ontem informam que desde o in&#237;cio de mar&#231;o Israel matou mais de 3 mil pessoas no L&#237;bano. Assim como em Gaza, a justificativa do massacre &#233; eliminar o grupo armado que faz ataques terroristas contra a popula&#231;&#227;o civil israelense. Tal como em Gaza, quem morre injustamente no L&#237;bano, quem &#233; mutilado e soterrado, s&#227;o crian&#231;as, mulheres, idosos e homens adultos que nunca pegaram em armas. Vilas inteiras, escolas e hospitais s&#227;o destru&#237;dos pelo ex&#233;rcito de Israel, deixando &#224;s fam&#237;lias aterrorizadas a op&#231;&#227;o de fugir ou serem dizimadas. J&#225; s&#227;o mais de um milh&#227;o de refugiados num pa&#237;s min&#250;sculo. O insuspeito The New York Times informa que est&#225; sendo usada no sul do L&#237;bano a mesma engenharia de destrui&#231;&#227;o aplicada em Gaza. Seu prop&#243;sito &#233; tornar invi&#225;vel a vida da popula&#231;&#227;o, que &#233; for&#231;ada a se deslocar e abre espa&#231;o para as for&#231;as de ocupa&#231;&#227;o e talvez para a coloniza&#231;&#227;o dos territ&#243;rios.</p><p>Isso tudo s&#243; &#233; poss&#237;vel porque algu&#233;m acredita que as v&#237;timas dessa racionalidade macabra s&#227;o menos do que humanos, como em Gaza. Isso s&#243; acontece porque os Estados Unidos fornecem armas e apoio diplom&#225;tico para que a matan&#231;a de civis continue, como em Gaza.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://imartins.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Ivan Haro Martins ! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Em seu livro mais recente &#8211; <em>A amea&#231;a interna, psican&#225;lise dos novos fascismos globais</em> - Vladimir Safatle nos lembra que massacres e genoc&#237;dios nos territ&#243;rios coloniais forneceram a tecnologia que seria usada nos massacres e no genoc&#237;dio da Europa no s&#233;culo XX. O fascismo europeu lan&#231;ou m&#227;o do racismo, da indiferen&#231;a e da desumaniza&#231;&#227;o aperfei&#231;oados nas col&#244;nias e os aplicou na metr&#243;pole, com resultados conhecidos. Talvez algo assim esteja em curso novamente. Gaza foi o laborat&#243;rio onde se testaram novas formas de matar popula&#231;&#245;es indefesas em larga escala, diante da indiferen&#231;a pr&#225;tica ou mesmo do apoio material da comunidade internacional. Agora, o experimento vai sendo replicado no L&#237;bano de forma mais discreta, e pode se expandir alhures.</p><p>Se esta tese est&#225; correta, se a liberdade do mais forte para matar os mais fracos foi sacramentada, se voltamos &#224; indiferen&#231;a fascista pela vida do outro, considerado inferior a n&#243;s mesmos, e por isso indigno de viver, s&#243; nos cabe perguntar, ent&#227;o, qual pa&#237;s ou grupo humano ser&#225; o pr&#243;ximo alvo da barb&#225;rie - imigrantes na Europa e nos Estados Unidos? Cuba, reduzida &#224; fome e amea&#231;ada de invas&#227;o pelos EUA? Ou seria o Ir&#227;, j&#225; sob ataque conjunto de Israel e dos Estados Unidos?</p><p>A m&#225;quina da morte se p&#244;s em movimento e n&#227;o vai parar sem interven&#231;&#227;o da comunidade internacional. Como na B&#243;snia nos anos 1990. Como na &#193;frica do Sul.</p><p>....</p><p>Ivan Martins &#233; psicanalista e mestre em Rela&#231;&#245;es Internacionais pela Universidade de Southampton.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://imartins.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Ivan Haro Martins ! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O fim da Eldorado e o mundo que vem abaixo]]></title><description><![CDATA[Ao mesmo tempo que estimula a cria&#231;&#227;o e a inova&#231;&#227;o, o caopitalismo n&#227;o consegue sustent&#225;-las, porque s&#243; permite sobreviver aquilo que d&#225; lucro]]></description><link>https://imartins.substack.com/p/o-fim-da-eldorado-e-o-mundo-que-vem</link><guid isPermaLink="false">https://imartins.substack.com/p/o-fim-da-eldorado-e-o-mundo-que-vem</guid><dc:creator><![CDATA[Ivan Martins]]></dc:creator><pubDate>Thu, 14 May 2026 18:48:17 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!QA8Q!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F230cfd97-dd9f-448d-aaeb-9dc620874844_957x957.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>O fim da R&#225;dio Eldorado, traum&#225;tico para uma multid&#227;o de pessoas afei&#231;oadas a ela, inacredit&#225;vel para os profissionais que ali trabalhavam, demonstra como o capitalismo &#233; tacanho. Ao mesmo tempo que estimula a cria&#231;&#227;o e a inova&#231;&#227;o, ele n&#227;o consegue sustent&#225;-las, porque s&#243; permite sobreviver aquilo que d&#225; lucro. Se a R&#225;dio Eldorado n&#227;o d&#225; lucro suficiente, tem de fechar. N&#227;o interessa o valor cultural, afetivo ou jornal&#237;stico da r&#225;dio. N&#227;o interessa nem a audi&#234;ncia fiel e qualificada do ponto de vista do consumo. A &#250;nica m&#233;trica poss&#237;vel &#233; o lucro. Na busca por dinheiro, teremos (j&#225; temos) r&#225;dios cada vez mais med&#237;ocres, mais parecidas entre si, mais homog&#234;neas, menos criativas, mais vulgares na vertiginosa inclina&#231;&#227;o comercial. A inova&#231;&#227;o e a criatividade desaparecem. O mesmo fen&#244;meno se percebe nas televis&#245;es, no cinema, em todos os dom&#237;nios da cultura e mesmo da educa&#231;&#227;o. S&#243; o que produz lucro tem valor, o resto n&#227;o tem import&#226;ncia. Isso &#233; um jeito paup&#233;rrimo de existir como civiliza&#231;&#227;o e vai nos tornando invi&#225;veis como esp&#233;cie. Em busca do lucro, o capital destr&#243;i o planeta. Em busca do lucro, se lan&#231;a uma intelig&#234;ncia artificial que pode desempregar bilh&#245;es e instalar a distopia global - em vez de abrir espa&#231;o para jornadas de trabalho mais curtas e trabalhos menos tediosos para todos. &#201; um cen&#225;rio de horror e apocalipse. Precisamos nos opor a isso, invocar o Estado para p&#244;r limites ao del&#237;rio vampiresco do capital sobre as nossas vidas e sobre aquilo que amamos, chamar o Estado para tornar poss&#237;vel as atividades socialmente importantes que n&#227;o d&#227;o lucro - como o jornalismo, a cultura, a educa&#231;&#227;o, a sa&#250;de, a prote&#231;&#227;o ao meio ambiente. Hoje &#233; o &#250;ltimo dia da R&#225;dio Eldorado, amanh&#227; pode ser o &#250;ltimo dia das universidades p&#250;blicas, dos museus, das editoras de qualidade, do cinema de arte, do teatro pol&#237;tico, da m&#250;sica refinada que nos tornou famosos mundialmente. Hoje a gente se entristece e lamenta o fim de uma r&#225;dio septuagen&#225;ria. Amanh&#227;, por favor, a gente se levanta e come&#231;a a pensar como podemos impedir que o resto do nosso mundo venha abaixo.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://imartins.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Ivan Haro Martins ! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O que ainda não foi reduzido a escombros]]></title><description><![CDATA[H&#225; quem aplauda e se regozige com os massacres, os genoc&#237;dios, os bloqueios econ&#244;micos homicidas e as guerras ilegais e criminosas. Gente de merda]]></description><link>https://imartins.substack.com/p/gente-de-merda</link><guid isPermaLink="false">https://imartins.substack.com/p/gente-de-merda</guid><dc:creator><![CDATA[Ivan Martins]]></dc:creator><pubDate>Wed, 08 Apr 2026 00:32:51 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!QA8Q!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F230cfd97-dd9f-448d-aaeb-9dc620874844_957x957.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>A gente est&#225; curtindo em S&#227;o Paulo um ver&#227;o tardio, bem agrad&#225;vel e tranquilo, mas no Ir&#227;, no L&#237;bano, em Gaza e em Cuba as pessoas  morrem  - por bombas ou por priva&#231;&#227;o das m&#237;nimas condi&#231;&#245;es de exist&#234;ncia. N&#243;s somos, como diz o escritor eg&#237;pcio-americano Omar El Akkad, &#8220;os que vivemos nesta parte do mundo que ainda n&#227;o foi reduzida a escombros&#8221;. Ainda, ainda, porque h&#225; entre n&#243;s quem aplauda e se regozige com os massacres, os genoc&#237;dios, os bloqueios econ&#244;micos homicidas e as guerras ilegais e criminosas. Mundo de merda, n&#227;o. Gente de merda.</p><p>...</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A Folha reproduz a machosfera religiosa]]></title><description><![CDATA[Com seu colunismo reacion&#225;rio, o jornal confere um verniz de respeitabilidade aos argumentos que tentam desqualificar Erika Hinton para o debate e a vida p&#250;blica por "n&#227;o ser biologicamente mulher"]]></description><link>https://imartins.substack.com/p/a-folha-reproduz-a-machosfera-religiosa</link><guid isPermaLink="false">https://imartins.substack.com/p/a-folha-reproduz-a-machosfera-religiosa</guid><dc:creator><![CDATA[Ivan Martins]]></dc:creator><pubDate>Tue, 17 Mar 2026 18:42:04 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!QA8Q!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F230cfd97-dd9f-448d-aaeb-9dc620874844_957x957.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Nos &#250;ltimos dias, ao menos tr&#234;s colunistas da Folha de S.Paulo se deram ao trabalho de escrever com ares de den&#250;ncia sobre a deputada &#201;rika Hilton, do PSOL, que assumiu a lideran&#231;a da Comiss&#227;o da Mulher na C&#226;mara Federal. Al&#233;m da evidente cara de campanha que essa sincronia sugere &#8211; mais um momento em que o jornal se oferece de plataforma para as guerras culturais da extrema direita - o tom dos artigos &#233; mais ou menos o mesmo: que direito tem algu&#233;m que n&#227;o nasceu biologicamente mulher de representar as mulheres?</p><p>&#201; espantoso que uma conversa t&#227;o ret&#243;grada venha revestida de ares modernos e intelectuais. No mundo das ideias s&#233;rias, a psican&#225;lise j&#225; revelou h&#225; mais de 100 anos que sexualidade e identidade n&#227;o s&#227;o escravas da biologia, que a nossa vida ps&#237;quica opera em chaves que n&#227;o correspondem ao binarismo dos corpos de homem e mulher. N&#243;s n&#227;o sentimos e n&#227;o pensamos de acordo com a norma biol&#243;gica. N&#227;o somos bichos que funcionam por instintos pr&#233;-programados. Nossos desejos, aspira&#231;&#245;es e auto-imagem s&#227;o perfeitamente singulares, nascem no interior da cultura e da fam&#237;lia, que &#233; moldada pela cultura e nos molda. &#201; rid&#237;culo, em pleno s&#233;culo XXI, apelar para a biologia para ditar de forma terminal o que as pessos podem ou n&#227;o podem fazer, ser ou deixar de ser.</p><p>Quando algu&#233;m diz que &#201;riKa n&#227;o &#233; &#8220;biologicamente mulher&#8221;, a &#250;nica pergunta que deveria se seguir &#233;: e da&#237;? Isso a torna menos mulher, socialmente falando? E a resposta a isso &#233; n&#227;o.</p><p>Por tr&#225;s dos argumentos do jornal que se vende laico e contempor&#226;neo reluz a ideia antiqu&#237;ssima de que &#8220;a natureza&#8221; &#233; soberana e a cultura n&#227;o deveria contrari&#225;-la. Homens s&#227;o homens e mulheres s&#227;o mulheres, certo? Deus os fez assim... Na Idade M&#233;dia, quando tinham poder de vetar obras de engenharia, os padres diziam que se Deus quisesse que as pessoas atravessassem um rio, teria feito Ele mesmo uma ponte natural. &#201; nessa concep&#231;&#227;o medieval que se apoia o argumento contra a feminilidade de &#201;rika Hilton. Se a Natureza n&#227;o lhe deu os dons naturais do corpo feminino, ela n&#227;o teria o direito de se declarar mulher.</p><p>Se tivessem coragem de levar sua pr&#243;pria argumenta&#231;&#227;o sobre pessoas trans ao limite l&#243;gico, os colunistas da Folha deveriam sustentar tamb&#233;m que homossexuais n&#227;o poderiam assumir fun&#231;&#245;es p&#250;blicas em nome de seu sexo. Afinal, s&#227;o machos e f&#234;meas biol&#243;gicos que recusam casar e ter filhos com pessoas do sexo oposto. N&#227;o se comportam de acordo com &#8220;as leis&#8221; da biologia, de acordo com seu corpo &#8220;natural&#8221;. Que direito t&#234;m de &#8220;nos&#8221; representar sendo t&#227;o diferente do resto de &#8220;n&#243;s&#8221;?</p><p>Para al&#233;m do biologismo rasteiro, h&#225; nos artigos da Folha uma confus&#227;o proposital em torno da ideia de representa&#231;&#227;o pol&#237;tica. &#201;rika Hilton, com a sua feminilidade singular, tem direito a representar &#8220;todas as mulheres&#8221;? Talvez n&#227;o, mas, vamos l&#225;, quem teria esse direito? S&#226;mia Bonfim, a combativa companheira de bancada de &#201;rica, feminista e socialista? Michele Bolsonaro, com seu misticismo de extrema direita? Ou Mara Gabrilli, a senadora por S&#227;o Paulo que se locomove em cadeira de rodas? Qual delas, com suas viv&#234;ncias e vis&#245;es de mundo pr&#243;prias, representaria &#8220;todas as mulheres&#8221; do Brasil? Nenhuma, claro.</p><p>A representa&#231;&#227;o universal n&#227;o existe, nunca existiu. Isso &#233; verdade tamb&#233;m para o campo do feminino, atravessado desde sempre por disputas religiosas, culturais e ideol&#243;gicas. Quem fala verdadeiramente pelas mulheres (ou pelos homens...) foi sempre uma pergunta pertinente, e agora n&#227;o &#233; diferente. A Folha, com seu colunismo reacion&#225;rio, se coloca no campo da extrema direita da disputa simb&#243;lica, conferindo um verniz de respeitabilidade a argumentos da machosfera religiosa que tentam desqualificar a deputada do PSOL para o debate e para a vida p&#250;blica, &#8220;por n&#227;o ser biologicamente mulher&#8221;. &#201; uma pena que seja assim. &#201;rika Hilton merece advers&#225;rios melhores e os leitores da Folha t&#234;m direito a argumentos pelo menos contempor&#226;neos.</p><p>...</p><p>Ivan Martins &#233; psicanalista, autor dos livros &#8220;Algu&#233;m especial&#8221; e &#8220;Um amor depois do outro&#8221;.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Dançando no convés do Titanic]]></title><description><![CDATA[O Carnaval &#233; desde sempre resist&#234;ncia simb&#243;lica, cultural e afetiva, mas as circunst&#226;ncias hist&#243;ricas nos permitem disputar diretamente o poder pol&#237;tico, e talvez seja urgente faz&#234;-lo]]></description><link>https://imartins.substack.com/p/dancando-no-conves-do-titanic</link><guid isPermaLink="false">https://imartins.substack.com/p/dancando-no-conves-do-titanic</guid><dc:creator><![CDATA[Ivan Martins]]></dc:creator><pubDate>Wed, 25 Feb 2026 13:03:44 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!QA8Q!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F230cfd97-dd9f-448d-aaeb-9dc620874844_957x957.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Para quem ama o Carnaval, &#233; f&#225;cil confundir a alegria de estar na rua com alguma esp&#233;cie de ato revolucion&#225;rio. A tomada coletiva do asfalto, a euforia da m&#250;sica, a conex&#227;o &#224; massa erotizada t&#234;m algo de transcendente, que contrasta de forma radical com o cotidiano regrado e solit&#225;rio da cidade.</p><p>Mas o Carnaval, embora liberte alguns de n&#243;s por algum tempo, n&#227;o &#233; revolucion&#225;rio. Hierarquias sociais e trabalho precarizado persistem at&#233; no interior da festa, tornando-a materialmente poss&#237;vel.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://imartins.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Ivan Haro Martins ! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Tal como eu vejo, o Carnaval dos blocos &#233; um gesto de resist&#234;ncia, um espasmo de rebeldia consentido frente &#224; ordem econ&#244;mica e social desumana. Por alguns dias, n&#227;o trabalharemos: celebraremos eroticamente a vida na contram&#227;o do mercado e da ideologia dominante. O capitalismo nos quer m&#225;quinas tristes, produzindo de forma incessante para levar mais renda ao topo da pir&#226;mide, mas n&#227;o faremos isso. N&#227;o hoje, ao menos, nem amanh&#227;. &#201; Carnaval.</p><p>Mas isso tudo, insisto, n&#227;o &#233; um ato revolucion&#225;rio, a despeito da ruptura aparente.</p><p>No s&#233;culo XIX, homens e mulheres escravizados saiam &#224;s ruas de rosto pintado, tr&#234;s dias antes da Quaresma, brincando e atirando &#8220;&#225;gua de cheiro&#8221;. Era o entrudo, que foi perseguido pelas elites escravocratas por &#8220;selvagem&#8221; e &#8220;incivilizado&#8221;. Ele deu lugar ao Carnaval, mais europeu e disciplinado. Tanto um quanto outro eram festas espont&#226;neas de deboche e vingan&#231;a simb&#243;lica, manifesta&#231;&#227;o poss&#237;vel de quem n&#227;o tinha poder algum, gente que n&#227;o era dona nem de seus corpos. Para aqueles a quem estava interditada toda a&#231;&#227;o pol&#237;tica, o Carnaval era fresta, brecha, escape, momento de opor-se (pelo erotismo do corpo) &#224; orgia de morte da escravid&#227;o.</p><p>Desde ent&#227;o, passaram-se quase 200 anos. Agora, bem ou mal, somos cidad&#227;os. Temos poder de voto, temos voz, temos liberdade de a&#231;&#227;o, movimento, organiza&#231;&#227;o e express&#227;o. Somos agentes pol&#237;ticos, se escolhermos ser. O Carnaval, a m&#250;sica, a religi&#227;o, tudo que os despossu&#237;dos de outrora tiveram de mobilizar para sobreviver ao massacre continua &#224; nossa disposi&#231;&#227;o, mas com outro sentido. &#201; resist&#234;ncia simb&#243;lica, cultural e afetiva, numa circunst&#226;ncia em que &#233; poss&#237;vel disputar diretamente o poder pol&#237;tico.</p><p>Em junho de 2013, houve uma quase revolu&#231;&#227;o no Brasil &#8211; &#233; poss&#237;vel argumentar que uma revolu&#231;&#227;o de fato ocorreu nos anos seguintes, embora numa dire&#231;&#227;o inesperada e sombria &#8211; e tudo come&#231;ou com um pequeno grupo de jovens mobilizados contra o aumento das tarifas de transporte p&#250;blico em S&#227;o Paulo. Ningu&#233;m apostaria na dimens&#227;o nacional e disruptiva que o movimento tomou, mas aconteceu, ilustrando de forma magn&#237;fica o alcance da a&#231;&#227;o pol&#237;tica e seu imenso poder transformador. Agora sabemos que &#233; poss&#237;vel chacoalhar o mundo, apesar da sua apar&#234;ncia inabal&#225;vel.</p><p>Pois bem, na ter&#231;a-feira de Carnaval, faz oito dias, a Guarda Municipal de S&#227;o Paulo resolveu dispersar com viol&#234;ncia um bloco familiar que h&#225; mais de 40 anos sai sem incidentes no Butant&#227;, bairro da Zona Oeste de S&#227;o Paulo. O Vai Quem Qu&#233; estava inscrito na Prefeitura, cumpria o trajeto acordado e se dispersava por conta pr&#243;pria, no in&#237;cio da noite, dentro do hor&#225;rio previsto. Mesmo assim, a brutalidade desabou sobre adultos e crian&#231;as.</p><p>A prefeitura de direita, o poder pol&#237;tico que comanda a pol&#237;cia, resolveu que a festa tinha de acabar nos seus termos, e seu bra&#231;o armado passou a agredir com pontap&#233;s, cassetetes e g&#225;s de pimenta, indiscriminadamente. Entre as v&#237;timas, &#233; importante repetir, havia casais com crian&#231;as que se despediam alegremente de um bloco tradicional e familiar.</p><p>Contra esse tipo de viol&#234;ncia, contra os abusos do poder pol&#237;tico-policial, nossa alegria carnavalesca &#233; impotente. A direita que se apoderou da C&#226;mara de Vereadores e da Prefeitura de S&#227;o Paulo se lixa para a resist&#234;ncia simb&#243;lica. Ela est&#225; interessada em controle pr&#225;tico, or&#231;ament&#225;rio, institucional. O fascismo laico e religioso ganhou postos executivos em todo o pa&#237;s e vai pondo em pr&#225;tica, nas prefeituras e governos estaduais, o seu projeto dist&#243;pico: prostituir espa&#231;os p&#250;blicos (hoje se paga 60 reais para subir ao mirante da Pedra Grande, no Horto Florestal de S&#227;o Paulo), privatizar recursos naturais (como a &#225;gua da Sabesp, entregue ao mercado sem nenhuma justificativa t&#233;cnica, em meio a uma crise h&#237;drica planet&#225;ria), e destruir pela ideologia e pelo descaso os servi&#231;os p&#250;blicos essenciais &#224; popula&#231;&#227;o. A ideia &#233; dar tudo ao mercado para que fa&#231;a dinheiro.</p><p>O pr&#243;prio Carnaval foi engolido, n&#233;? Virou neg&#243;cio, fonte de lucro, oportunidade para empres&#225;rios amigos. A prefeitura de S&#227;o Paulo restringiu este ano os banheiros qu&#237;micos dos blocos de bairro porque n&#227;o quer que eles persistam. No Carnaval dos arrivistas da direita s&#243; cabem megablocos com patroc&#237;nio milion&#225;rio, monstros urbanamente disfuncionais que juntam milh&#245;es de foli&#245;es na Consola&#231;&#227;o e no Ibirapuera, pondo vidas em risco &#8211; obviamente - porque a gest&#227;o de multid&#245;es n&#227;o &#233; o forte desses picaretas.</p><p>Com isso tudo acontecendo &#224; nossa volta, eu, que amo e celebro o Carnaval de rua, tenho a sensa&#231;&#227;o de estar dan&#231;ando no conv&#233;s do Titanic. Sinto que praticamos alguma forma de escapismo esclarecido, ou niilismo politizado ou hedonismo desesperado que &#233; a cara do nosso tempo &#8211; um tempo marcado pela fragmenta&#231;&#227;o das rela&#231;&#245;es sociais e pela sensa&#231;&#227;o de impot&#234;ncia frente ao mercado e seus agentes pol&#237;ticos. Existe uma porta que leva ao futuro, mas nos recusamos a enxerg&#225;-la, muito menos abri-la.</p><p>Enquanto o fascismo faz met&#225;stase na pol&#237;tica brasileira, n&#243;s &#8211; progressistas de todas as idades, mas sobretudo os jovens - n&#227;o temos paci&#234;ncia para fazer pol&#237;tica no sentido pr&#225;tico do termo, nos opondo de forma eficaz ao projeto de destrui&#231;&#227;o, pilhagem e morte que nos assedia aqui e no resto do mundo.</p><p>Se dedic&#225;ssemos &#224; vida p&#250;blica parte da energia e do tempo que dedicamos &#224; organiza&#231;&#227;o do Carnaval, se estend&#234;ssemos para a pol&#237;tica a rede de solidariedade amorosa que nos conecta nos blocos, se fiz&#233;ssemos isso com o vigor e o erotismo com que tocamos nas ruas, acho que a cidade e o pa&#237;s seriam outros - para n&#243;s e para os nossos filhos. Eles n&#227;o merecem ter suas vidas e seus carnavais regulados por gente que detesta a alegria, gente que tem prazer em reprimir os que sabem dan&#231;ar.</p><p>...</p><p>Ivan Martins &#233; psicanalista e autor dos livros &#8220;Algu&#233;m especial&#8221; e &#8220;Um amor depois do outro&#8221;.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://imartins.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Ivan Haro Martins ! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Os homens que não existem]]></title><description><![CDATA[O que se ganha como sociedade virando as costas &#224; transforma&#231;&#227;o masculina em curso? Toda mudan&#231;a social precisa de ideais abstratos e exemplos pr&#225;ticos, e os novos homens fornecem algo dos dois]]></description><link>https://imartins.substack.com/p/os-homens-que-nao-existem</link><guid isPermaLink="false">https://imartins.substack.com/p/os-homens-que-nao-existem</guid><dc:creator><![CDATA[Ivan Martins]]></dc:creator><pubDate>Fri, 30 Jan 2026 18:27:18 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!QA8Q!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F230cfd97-dd9f-448d-aaeb-9dc620874844_957x957.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>&#201; inevit&#225;vel sentir-se contrariado com a pr&#243;pria inexist&#234;ncia.</p><p>Em meio aos debates sobre viol&#234;ncia masculina contra as mulheres, ou quando se fala de abandono dos filhos por parte de homens irrespons&#225;veis, &#233; quase mal visto erguer a m&#227;e e ponderar, timidamente, que parte importante dos homens e dos pais n&#227;o age assim.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://imartins.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Ivan Haro Martins ! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Muita gente n&#227;o quer ouvir falar de homens que n&#227;o s&#227;o escrotos.</p><p>A desculpa mais comum para essa recusa &#233; estat&#237;stica: o n&#250;mero de homens que trata as mulheres com igualdade e respeito, que assume as tarefas da casa e dos filhos, que cumpre com suas obriga&#231;&#245;es sociais e econ&#244;micas, seria insignificante. &#8220;N&#227;o enchem um est&#225;dio de futebol em cada cidade&#8221;, escreveu outro dia a psicanalista Vera Iaconelli.</p><p>O que eu mais escuto &#233; que os maridos e pais legais n&#227;o valem como exemplo porque s&#227;o meia d&#250;zia; existem apenas na bolha de classe m&#233;dia instru&#237;da. Fofos, simp&#225;ticos, mas irrelevantes.</p><p>Eu n&#227;o sei de onde vem essa estat&#237;stica, mas ela n&#227;o combina com as minhas observa&#231;&#245;es. Entre os meus amigos e meus pacientes h&#225; maridos e pais dedicados, homens respons&#225;veis e absolutamente n&#227;o violentos. Eles t&#234;m com a casa e com a fam&#237;lia rela&#231;&#245;es diferentes das que os pais deles tiveram. N&#227;o s&#227;o apenas provedores ausentes. S&#227;o companheiros das suas mulheres e cuidadores dos seus filhos, e trabalham duro &#8211; ganhando menos e em condi&#231;&#245;es bem mais prec&#225;rias do que aquelas de que seus pais desfrutaram.</p><p>A exist&#234;ncia deles n&#227;o elimina e nem atenua os crimes dos homens violentos e dos pais irrespons&#225;veis, mas estabelece uma outra refer&#234;ncia &#8211; uma alternativa real ao descalabro da masculinidade t&#243;xica.</p><p>Qual a dificuldade em enxergar esses caras? Mesmo que eles fossem t&#227;o poucos como se diz que s&#227;o, por que deveriam ser ignorados?</p><p>Em algum momento da hist&#243;ria, todos os grupos progressistas que hoje entendemos como essenciais foram &#237;nfimas minorias &#8211; socialistas, feministas, gays, grupos antirracistas &#8211; e, ainda assim, eles mudaram o mundo e o transformaram, por sua mera exist&#234;ncia, por suas lutas, num lugar melhor para si mesmos e para o resto da sociedade.</p><p>&#201; claro: quando se compara esses caras que mudam vidas em sil&#234;ncio com os assassinos de mulheres ou com os milh&#245;es de homens que abandonam ou negligenciam seus filhos, eles talvez pare&#231;am desimportantes, mas n&#227;o. Eles s&#227;o o futuro que precisamos.</p><p>Cada menino criado por um cara como esse &#8211; de forma n&#227;o violenta, n&#227;o machista, n&#227;o discriminat&#243;ria, feminista &#8211; significa, pela for&#231;a do afeto e das identifica&#231;&#245;es, um homem a menos a cometer viol&#234;ncias f&#237;sicas e simb&#243;licas contra as mulheres no futuro. Cada menina submetida ao conv&#237;vio com a masculinidade gentil ter&#225; refer&#234;ncias melhores na hora de fazer suas escolhas amorosas e no momento de educar seus pr&#243;prios meninos.</p><p>Por que diabos isso n&#227;o seria importante?</p><p>Por que a micro revolu&#231;&#227;o da masculinidade que toca tantas fam&#237;lias, de forma t&#227;o profunda, seria irrelevante?</p><p>Vamos dizer &#224;s meninas e meninos que tiveram pais dedicados &#8211; homens que, mesmo imperfeitos, influenciaram de forma positiva e profunda o seu destino - que eles n&#227;o contam estatisticamente?</p><p>Fico me perguntando o que se ganha, como sociedade, virando as costas &#224; transforma&#231;&#227;o masculina em curso, e concluo que n&#227;o se ganha nada. Pelo contr&#225;rio. Toda mudan&#231;a social precisa de ideais abstratos e exemplos pr&#225;ticos, e os homens participativos fornecem algo dos dois. Fingir que eles n&#227;o existem ou n&#227;o contam para nada ajuda em qu&#234;?</p><p>Vamos continuar denunciando (com raz&#227;o) os assassinos de mulheres e os pais irrespons&#225;veis sem discutir alternativas? A mim parece que a alternativa j&#225; est&#225; sendo engendrada ao nosso redor - de forma minorit&#225;ria, &#233; certo, provavelmente insatisfat&#243;ria de v&#225;rios pontos de vista, mas certamente importante, certamente real. Olhemos para ela, falemos sobre ela.</p><p>...</p><p>Ivan Martins &#233; psicanalista e autor dos livros &#8220;Algu&#233;m especial&#8221; e &#8220;Um amor depois do outro&#8221;.</p><p>...</p><p>Contato: ivanhmartins@gmail.com</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://imartins.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Ivan Haro Martins ! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[ "I am Trump's b...."]]></title><description><![CDATA[Sugiro aos pol&#237;ticos brasileiros que apoiaram a invas&#227;o da Venezuela que troquem seus bon&#233;s do movimento Make America Great Again (MAGA) por outro mais preciso, dizendo I am Trump&#180;s bitch (IATB)]]></description><link>https://imartins.substack.com/p/i-am-trumps-b</link><guid isPermaLink="false">https://imartins.substack.com/p/i-am-trumps-b</guid><dc:creator><![CDATA[Ivan Martins]]></dc:creator><pubDate>Fri, 09 Jan 2026 20:36:36 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!QA8Q!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F230cfd97-dd9f-448d-aaeb-9dc620874844_957x957.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>. Agora que o governo americano admitiu, num tribunal de Nova York, n&#227;o ter nenhuma evid&#234;ncia de tr&#225;fico de drogas contra Nicol&#225;s Maduro (revelando que toda a pataquada sobre &#8220;o narco estado venezuelano&#8221; era mentira, embora tenha justificado a morte de quase uma centenas pessoas no mar do Caribe)...</p><p>. Agora que Trump e seus asseclas se acertaram com a vice de Maduro, assegurando que a repress&#227;o, a corrup&#231;&#227;o e a pobreza que vieram com a ditadura de Maduro continuar&#227;o da mesma forma, sem Maduro...</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://imartins.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Ivan Haro Martins ! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>. Agora que o governo americano, oficialmente e por diferentes fontes, assegurou ao mundo que pretende se apropriar de parte ou do todo da produ&#231;&#227;o de petr&#243;leo da Venezuela &#8220;indefinidamente&#8221;, explicitando ainda mais o car&#225;ter de saque imperialista e pilhagem neocolonial de recursos da opera&#231;&#227;o contra Maduro...</p><p>. Agora, portanto, sugiro aos pol&#237;ticos brasileiros que apoiaram  o ataque contra a Venezuela, (ataque que vandalizou o direito internacional e lan&#231;ou uma sombra de amea&#231;a sobre todos os pa&#237;ses da Am&#233;rica Latina), sugiro que eles troquem seus bon&#233;s vermelhos do movimento Make America Great Again (MAGA), por um outro, mais atual e mais preciso, com a sigla IATB: I am Trump&#8217;s Bitch.</p><p>. Sugiro, adicionalmente, que parem de fingir que s&#227;o candidatos ao posto de presidente da Rep&#250;blica e se ofere&#231;am, publicamente, para a fun&#231;&#227;o de vice-rei, aquele que, em nome do imp&#233;rio, se encarrega de explorar os recursos da terra e os seus habitantes para enriquecimento da fam&#237;lia real. Acho que essa fun&#231;&#227;o de eunuco, embora desprez&#237;vel do ponto de vista da Na&#231;&#227;o, seria mais adequada ao car&#225;ter e &#224; ideologia desses senhores.</p><p>...</p><p>Ivan Martins &#233; psicanalista e mestre em Rela&#231;&#245;es Internacionais pela Universidade de Southampton, no Reino Unido.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://imartins.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Ivan Haro Martins ! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Por que aplaude o agressor, governador?]]></title><description><![CDATA[Como algu&#233;m nessa posi&#231;&#227;o de responsabilidade se comporta como tiete do homem que lan&#231;a bombas no pa&#237;s vizinho e avisa, sem papas na l&#237;ngua, que pretende &#8220;tocar&#8221; a Venezuela e pegar seu petr&#243;leo?]]></description><link>https://imartins.substack.com/p/por-que-aplaude-o-agressor-governador</link><guid isPermaLink="false">https://imartins.substack.com/p/por-que-aplaude-o-agressor-governador</guid><dc:creator><![CDATA[Ivan Martins]]></dc:creator><pubDate>Tue, 06 Jan 2026 13:29:21 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!QA8Q!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F230cfd97-dd9f-448d-aaeb-9dc620874844_957x957.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>&#201; quase inacredit&#225;vel que sete governadores da direita brasileira tenham apoiado o ataque americano a Venezuela - que matou 80 pessoas - e o sequestro do presidente e ditador Nicol&#225;s Maduro.</p><p>Esses governadores foram eleitos pelo voto popular e s&#227;o correspons&#225;veis &#8211; com o governo federal - pela integridade do territ&#243;rio brasileiro e de sua popula&#231;&#227;o. S&#227;o, de forma pr&#225;tica e simb&#243;lica, ou deveriam ser, figuras da ordem, n&#227;o da bagun&#231;a, da anarquia, da guerra.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://imartins.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Ivan Haro Martins ! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Como algu&#233;m nessa posi&#231;&#227;o de responsabilidade se comporta como tiete do agressor estrangeiro que lan&#231;a bombas sobre o pa&#237;s vizinho e depois avisa, sem papas na l&#237;ngua, que pretende &#8220;tocar&#8221; a Venezuela de forma a que as companhias americanas possam extrair petr&#243;leo &#224; vontade?</p><p>Esses governadores n&#227;o entendem o risco que esse ato de pirataria representa para o Brasil?</p><p>Aberto o precedente na Venezuela, o que impede Trump de atacar o Brasil (ou a Col&#244;mbia, ou o M&#233;xico, ou a Argentina) para obter controle sobre terras raras, petr&#243;leo, biodiversidade amaz&#244;nica ou praias do Rio de Janeiro onde funcionariam hot&#233;is da fam&#237;lia dele?</p><p>Os governadores de direita simplesmente n&#227;o enxergam o abismo que se abriu na geopol&#237;tica internacional com esse ato destrutivo ou agem de forma irrespons&#225;vel por puro cinismo, mais preocupados em agradar os extremistas de direita das redes sociais do que em preservar o pa&#237;s e o povo a quem juraram servir?</p><p>Lembrem que Tarc&#237;sio, a grande esperan&#231;a da direita nas pr&#243;ximas elei&#231;&#245;es presidenciais, j&#225; se deixou fotografar sorridente com um bon&#233; de f&#227; de Trump (o que me leva a perguntar onde foram parar o nacionalismo e a dignidade que o cargo exigia...). Tarc&#237;sio tampouco reagiu em defesa do pa&#237;s quando o presidente americano imp&#244;s tarifas ilegais &#224;s exporta&#231;&#245;es brasileiras. Na verdade, sugeriu entregar os an&#233;is para agradar o americano, enquanto Lula enfrentou e venceu a chantagem. Tarc&#237;sio sequer teve coragem de criticar a fam&#237;lia de traidores desastrados que fazia lobby contra o Brasil em Washington. Vive submetido a eles.</p><p>Agora, o governador de S&#227;o Paulo gravou um v&#237;deo comemorando a agress&#227;o americana &#224; Venezuela &#8211; e torcendo para que a esquerda seja removida do poder aqui no Brasil. Pela for&#231;a das armas americanas, governador?</p><p>Gente que age assim parece n&#227;o ter as qualifica&#231;&#245;es c&#237;vicas ou intelectuais &#8211; e muito menos a for&#231;a de car&#225;ter - que a lideran&#231;a de um pa&#237;s complexo e importante como o Brasil demanda. Paus mandados e lacaios sorridentes n&#227;o v&#227;o nos servir num momento de grave crise internacional como este que se anuncia.</p><p>Marine Le Pen, a l&#237;der da extrema direita francesa, mais reacion&#225;ria que todos esses governadores, n&#227;o hesitou em criticar da forma dura o ataque &#224; Venezuela:</p><p>&#8220;A soberania dos Estados nunca &#233; negoci&#225;vel, independentemente do seu tamanho, do seu poder ou do continente em que se encontram&#8221;, ela escreveu no X, antigo Twitter. &#8220;Renunciar a tal princ&#237;pio hoje, na Venezuela, significa aceitar amanh&#227; a nossa pr&#243;pria servid&#227;o&#8221;.</p><p>Le Pen &#233; fascista, mas n&#227;o &#233; burra nem ignorante &#8211; e, por ser nacionalista, &#224; maneira xen&#243;foba dela, n&#227;o veste o bon&#233; da pot&#234;ncia americana. Se d&#225; ao respeito.</p><p>O ato de guerra de Trump, afinal, amea&#231;a a soberania de todos os pa&#237;ses que n&#227;o podem enfrent&#225;-lo militarmente, e pode criar na fronteira norte do Brasil uma situa&#231;&#227;o de caos pol&#237;tico e social muitas vezes pior do que aquela que Maduro comandava.</p><p>Lembrem da L&#237;bia, lembrem do Iraque, lembrem do Afeganist&#227;o.</p><p>Os pa&#237;ses que os Estados Unidos atacaram com a desculpa de criar democracias est&#227;o em ru&#237;nas, submetidos a gangues de paramilitares e malfeitores. O Estado que assegurava a ordem nesses territ&#243;rios desapareceu. Milh&#245;es de pessoas inocentes &#8211; gente como voc&#234; e eu &#8211; morreram no processo de desmanche nacional, ou tiveram de se exilar. A democracia prometida nunca chegou.</p><p>O que esperar da Venezuela?</p><p>O mais prov&#225;vel, no momento, &#233; que a ditadura militar corrupta que Maduro construiu prossiga sem ele &#8211; desde que a nova presidente obede&#231;a &#224;s ordens de Trump e abra o pa&#237;s &#224;s petroleiras americanas. N&#227;o haveria democracia e nem prosperidade para o povo venezuelano nesse cen&#225;rio. Trump j&#225; deixou claro que n&#227;o se importa a m&#237;nima com quem vai ficar no poder, desde que sirva aos interesses dele.</p><p>Se o governo da Venezuela entrar em colapso, em consequ&#234;ncia da agress&#227;o e das chantagens americanas, o pa&#237;s pode se transformar num ninho de ratos, um foco de instabilidade e viol&#234;ncia como ainda n&#227;o se viu nesta parte do mundo &#8211; mas que iraquianos, libaneses e afeg&#227;os conhecem bem. Caso os americanos invadam para submeter diretamente o pa&#237;s e extrair petr&#243;leo sem intermedi&#225;rios, a viol&#234;ncia n&#227;o seria menor, e nem o futuro menos sombrio.</p><p>Posto isso, o que os governadores de direita est&#227;o aplaudindo e apoiando &#8211; a humilha&#231;&#227;o e a poss&#237;vel destrui&#231;&#227;o de um pa&#237;s que amanh&#227; pode ser o nosso?</p><p>Qual mecanismo psicossocial, qual ideologia de subordina&#231;&#227;o faz com que uma parte relevante da lideran&#231;a pol&#237;tica do Brasil se sujeite voluntariamente e da forma mais acr&#237;tica &#224; viol&#234;ncia de um outro pa&#237;s &#8211; os Estados Unidos &#8211; o qual defende, no epis&#243;dio da Venezuela, seus pr&#243;prios interesses econ&#244;micos, da forma mais mesquinha, agressiva e perigosa?</p><p>Talvez a resposta esteja no velho Complexo de Vira-Lata dos brasileiros, denunciado por Nelson Rodrigues.</p><p>Ainda assim, restaria explicar, para al&#233;m do Complexo, que caminhos ps&#237;quicos levam estes indiv&#237;duos influentes a se regozijar pondo seu cargo eletivo e a si mesmos a servi&#231;o de um l&#237;der estrangeiro percebido como maior e mais poderoso - e renunciando, assim, &#224; possibilidade de grandeza pr&#243;pria.</p><p>Talvez se trate de uma forma de pervers&#227;o social, equivalente na vida pol&#237;tica ao masoquismo nas rela&#231;&#245;es pessoais, com uma diferen&#231;a gritante &#8211; os masoquistas oferecem seu pr&#243;prio corpo ao prazer bruto ou sutil do outro, num ato leg&#237;timo de autonomia er&#243;tica. J&#225; os pol&#237;ticos perversos, os masoquistas sociais, estes gozam oferecendo ao seu &#237;dolo e senhor o territ&#243;rio, a seguran&#231;a e o futuro de seus compatriotas.</p><p>Como eu disse no in&#237;cio, &#233; quase inacredit&#225;vel, mas &#233; tudo verdade.</p><p>...</p><p>Ivan Martins &#233; psicanalista e mestre em Rela&#231;&#245;es Internacionais pela Universidade de Southampton.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://imartins.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Ivan Haro Martins ! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Sim, o problema são os homens, mas...]]></title><description><![CDATA[Se espanh&#243;is e gregos (que n&#227;o s&#227;o assim t&#227;o diferentes de n&#243;s, brasileiros) conseguiram n&#237;veis de viol&#234;ncia menos escandalosos contra as mulheres, por que n&#227;o podemos chegar a isso?]]></description><link>https://imartins.substack.com/p/sim-o-problema-sao-os-homens-mas</link><guid isPermaLink="false">https://imartins.substack.com/p/sim-o-problema-sao-os-homens-mas</guid><dc:creator><![CDATA[Ivan Martins]]></dc:creator><pubDate>Wed, 24 Dec 2025 18:52:33 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!QA8Q!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F230cfd97-dd9f-448d-aaeb-9dc620874844_957x957.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Qualquer pessoa sens&#237;vel que se debruce sobre o tema dos feminic&#237;dios no Brasil ter&#225; um arrepio de p&#226;nico: a crueldade dos comportamentos e a frequ&#234;ncia com que eles se manifestam &#233; aterradora, e fazem do nosso pa&#237;s um recordista mundial nesse tipo de atrocidade.</p><p>Nos &#250;ltimos dias, um elemento &#243;bvio dessa situa&#231;&#227;o ganhou relevo no debate digital: o fato de que todas ou quase todas as mortes s&#227;o obras de homens, em geral parceiros ou ex-parceiros das v&#237;timas, mas tamb&#233;m padrastos, pais, irm&#227;os e outros familiares ou vizinhos. Homens, enfim.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://imartins.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Ivan Haro Martins ! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Essa realidade terr&#237;vel sugere para muitos que h&#225; algo intrinsicamente errado com os homens, que eles seriam naturalmente inclinados &#224; viol&#234;ncia e &#224; opress&#227;o, verdadeiros predadores de g&#234;nero a quem seria necess&#225;rio denunciar e enquadrar permanentemente, da forma mais inflex&#237;vel, e desde cedo, para conter sua voca&#231;&#227;o violenta. Algo a ser mitigado, imposs&#237;vel de eliminar.</p><p>Essas coisas n&#227;o se dizem dessa forma, e talvez nem sejam pensadas assim, mas o pessimismo transparece na forma como homens &#8220;brancos, heterossexuais e cisg&#234;nero&#8221; s&#227;o apontados discursivamente como fonte de todos os problemas e objeto de todas as desconfian&#231;as &#8211; como se privil&#233;gios hist&#243;ricos e coletivos se traduzissem, automaticamente, em viol&#234;ncia e pervers&#227;o individuais.</p><p>Se algu&#233;m diz &#8220;n&#227;o s&#227;o os homens, &#233; o machismo&#8221;, logo surge a resposta &#8220;sim, &#233; o machismo, mas por meio de um homem&#8221;. Chega-se, assim, pela soma de duas verdades, a um beco sem sa&#237;da argumentativo, um impasse que afeta as conversas, o pensamento e a possibilidade de a&#231;&#227;o.</p><p>A situa&#231;&#227;o &#233; complicada, mas n&#227;o desprovida de esperan&#231;a.</p><p>Se a gente olhar as estat&#237;sticas internacionais de feminic&#237;dios, vai perceber que h&#225; pa&#237;ses onde eles acontecem aos montes &#8211; como Honduras, El Salvador e Brasil, assim como partes da &#193;frica &#8211; e outros onde a viol&#234;ncia de g&#234;nero &#233; menos comum, como Espanha, Gr&#233;cia e Isl&#226;ndia. Num relat&#243;rio de 2023, a ONU constatou que o &#237;ndice de feminic&#237;dios nas Am&#233;ricas &#233; mais que o dobro da Europa e metade da &#193;frica, aproximadamente.</p><p>Como homens s&#227;o homens em toda parte, &#233; imperativo constatar que estamos diante de um problema cultural. H&#225; pa&#237;ses cuja cultura favorece a viol&#234;ncia contra as mulheres e pa&#237;ses em que a cultura inibe as agress&#245;es. Os homens s&#227;o um problema em toda parte &#8211; eles det&#234;m o monop&#243;lio pr&#225;tico da viol&#234;ncia contra as mulheres no mundo todo - mas h&#225; lugares como o Brasil em que o problema &#233; maior, muito maior, por raz&#245;es culturais. </p><p>Por terr&#237;vel que seja essa situa&#231;&#227;o, por macabra que seja a cultura do feminic&#237;dio, acho mais promissor lidar com ela do que com atavismos irremedi&#225;veis. Se espanh&#243;is e gregos (que n&#227;o s&#227;o assim t&#227;o diferentes de n&#243;s, brasileiros) conseguiram n&#237;veis de viol&#234;ncia menos escandalosos contra as mulheres, por que n&#227;o podemos chegar a isso? Ao contr&#225;rio da natureza, a cultura humana &#233; pl&#225;stica e flex&#237;vel, rapidamente mut&#225;vel, para o bem e para o mal. Somos criaturas feitas de palavras, diria Lacan, e as palavras podem ser trocadas.</p><p>Eu n&#227;o tenho d&#250;vida &#8211; por exemplo - que a explos&#227;o de viol&#234;ncia pr&#225;tica e simb&#243;lica contra as mulheres nos &#250;ltimos anos tem rela&#231;&#227;o direta com a difus&#227;o da cultura digital de extrema direita, favorecida e monetarizada pelas big techs. Essa cultura enfatiza a viol&#234;ncia f&#237;sica, o uso de armas, a linguagem agressiva e a subordina&#231;&#227;o das mulheres, que costumam ser vilanizadas na internet como falsas e interesseiras. Basta lembrar a amea&#231;a de agress&#227;o f&#237;sica de Bolsonaro &#224; deputada Maria do Ros&#225;rio &#8211; assim como os insultos covardes que Trump dirige &#224;s mulheres jornalistas que trabalham na Casa Branca &#8211; para entender de onde emana a escrotid&#227;o atual contra as mulheres e seus efeitos sanguin&#225;rios.</p><p>A viol&#234;ncia de g&#234;nero, que sempre foi end&#234;mica na cultura brasileira, recebeu da extrema direita uma esp&#233;cie de carta branca, uma legitima&#231;&#227;o ideol&#243;gica que se traduz em comportamentos cada vez mais vis, cada vez mais s&#225;dicos e ostensivos. &#201; um desdobramento grav&#237;ssimo da guerra cultural promovida contra o feminismo. Ele libera a agressividade verbal e n&#227;o verbal contra &#8220;feminazis&#8221;, &#8220;abortistas&#8221;, &#8220;macumbeiras&#8221; e quaisquer aspectos do feminino moderno que os conservadores percebem como opostos &#224; sua ideologia. O resultado pr&#225;tico &#233; a explos&#227;o da viol&#234;ncia contra as mulheres.</p><p>A populariza&#231;&#227;o de ideais regressivas &#8211; mulheres em casa, obedientes ao chefe da casa, sob a gra&#231;a de Deus - nos coloca num cen&#225;rio novo e urgente. Mais do que nunca, as mulheres precisam de aliados para defender e ampliar suas conquistas hist&#243;ricas. O que as elas conseguiram com suas lutas desde o in&#237;cio do s&#233;culo XX est&#225; amea&#231;ado. O capitalismo neoliberal do s&#233;culo XXI vai tomando um formato de exclus&#227;o social e acumula&#231;&#227;o de renda que empurra a sociedade de volta ao modelo hier&#225;rquico do s&#233;culo XIX. Nele n&#227;o h&#225; espa&#231;o no poder para pobres, mulheres, minorias sexuais ou pessoas n&#227;o brancas. Basta ver o que acontece nos Estados Unidos de Donald Trump: o 1% quer todo o poder e a renda para si; os demais que se fodam.</p><p>Para reverter esse movimento nefasto, &#233; preciso confrontar a cultura da extrema direita, oferecendo em seu lugar uma vis&#227;o de mundo igualit&#225;ria e respeitosa na rela&#231;&#227;o entre homens e mulheres. Como se faz isso? Eu n&#227;o sei, talvez ningu&#233;m saiba ao certo, estamos todos tateando. Mas uma mudan&#231;a dessa magnitude - que se op&#245;e a comportamentos milenares e &#224; onda gigantesca de rea&#231;&#227;o patriarcal - passa pela reinven&#231;&#227;o da cultura. Exige a educa&#231;&#227;o feminista dos meninos, a mobiliza&#231;&#227;o geral da sociedade e a uni&#227;o ativa de homens e mulheres de boa vontade. Todos s&#227;o necess&#225;rios e ningu&#233;m tem todas as respostas. </p><p>Se apontarmos o dedo acusador para os que est&#227;o ao nosso lado na trincheira - negando lugar de fala a quem &#233; parte do problema e tenta contribuir - enfraqueceremos o vetor das mudan&#231;as. Se n&#227;o conseguirmos enxergar que h&#225; exemplos de um novo comportamento masculino surgindo ao nosso redor &#8211; informado pelo feminismo e ligado &#224; paternidade ativa e respons&#225;vel - o pessimismo pode nos engolir. Se consentirmos em nos isolar umas dos outros, e uns das outras, a viol&#234;ncia masculina continuar&#225; aterrorizando as mulheres e a sociedade, sem esperan&#231;a de que a mudan&#231;a de cultura ponha fim ao flagelo.</p><p>...</p><p>Ivan Martins &#233; psicanalista e autor dos livros &#8220;Algu&#233;m especial&#8221; e &#8220;Um amor depois do outro&#8221;.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://imartins.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Ivan Haro Martins ! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Por uma masculinidade menos sinistra]]></title><description><![CDATA[Que tipo de mentalidade ou ideologia autoriza tantos homens a descarregar sua frustra&#231;&#227;o amorosa da forma mais covarde, mais vil, mais obscena contra o corpo das mulheres que n&#227;o os querem mais?]]></description><link>https://imartins.substack.com/p/por-uma-masculinidade-menos-sinistra</link><guid isPermaLink="false">https://imartins.substack.com/p/por-uma-masculinidade-menos-sinistra</guid><dc:creator><![CDATA[Ivan Martins]]></dc:creator><pubDate>Wed, 03 Dec 2025 19:45:52 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!QA8Q!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F230cfd97-dd9f-448d-aaeb-9dc620874844_957x957.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Quem s&#227;o os monstros que dia ap&#243;s dia matam ou tentam matar as mulheres brasileiras com requintes de crueldade e viol&#234;ncia nunca vistos?</p><p>Que tipo de mentalidade ou ideologia os autoriza a descarregar sua frustra&#231;&#227;o amorosa da forma mais covarde, mais vil, mais obscena contra o corpo das mulheres que n&#227;o os querem mais?</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://imartins.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Ivan Haro Martins ! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Que tipo de sociedade, de escola ou de redes sociais ensina a esses caras que mulheres devem ser controladas e submetidas &#8211; ou ent&#227;o mortas a tiro, faca, atropelamento ou fogo, caso se rebelem?</p><p>Eu tenho um monte de respostas a essas perguntas, mas nenhuma delas tem a menor import&#226;ncia frente &#224; dor e ao horror das mortes e das tentativas de asssassinato recentes de mulheres no Brasil, cada uma delas mais desumana, mais brutal, mais repugnante do que as anteriores.</p><p>Meu primeiro sentimento diante desses crimes &#233; puro &#243;dio.</p><p>A ideia de que o sociopata que atropelou e arrastou sob o seu carro a ex-ficante pegar&#225; n&#227;o mais que alguns anos de cadeia - e sair&#225; a tempo de desfrutar a vida em liberdade - me embrulha o est&#244;mago. A v&#237;tima dele teve as duas pernas amputadas aos 31 anos.</p><p>Meu segundo sentimento &#233; de enorme, gigantesca preocupa&#231;&#227;o. As estat&#237;sticas na cidade de S&#227;o Paulo mostram que os feminic&#237;dios cresceram 71% desde 2023. Em 2025 o n&#250;mero de casos bateu o recorde hist&#243;rico, a dois meses do final do ano. Parte desse crescimento se deve &#224; reclassifica&#231;&#227;o: o que antes era integrado &#224;s estat&#237;sticas gerais de assassinatos passou a ser gradualmente particularizado como feminic&#237;dio. Mas a outra parte &#233; crescimento real da viol&#234;ncia social contra as mulheres, no interior daquilo que os especialistas chamam de &#8220;din&#226;mica de controle e posse&#8221;: homens que reagem com agressividade extrema quando as mulheres tentam romper as rela&#231;&#245;es.</p><p>Precisamos fazer alguma coisa a respeito disso.</p><p>Ontem, o presidente Lula, estimulado por sua mulher, Janja, deu declara&#231;&#245;es que me parecem avan&#231;ar na dire&#231;&#227;o correta. &#8220;Cada um de n&#243;s, homens, precisamos ser o professor do outro. Cada um de n&#243;s temos de educar os nossos filhos, cada um de n&#243;s temos de educar os nossos companheiros&#8221;, disse Lula. &#8220;&#201; preciso que haja um movimento nacional dos homens contra os animais que batem, que judiam, que maltratam as mulheres&#8221;.</p><p>Acho que precisamos ir ainda mais longe, de forma institucional e organizada.</p><p>As escolas t&#234;m de educar os meninos para um mundo de rela&#231;&#245;es igualit&#225;rias com as mulheres. Isso precisa ser objeto de estruturas curriculares e de preocupa&#231;&#227;o permanente. Assim como o racismo e a homofobia, o machismo, com seu corol&#225;rio de viol&#234;ncias e opress&#245;es descabidas, precisa ser combatido com intenso trabalho pedag&#243;gico, em todos os n&#237;veis educacionais &#8211; ainda que isso provoque a ira de quem confunde, maliciosamente, a prote&#231;&#227;o da vida das mulheres com comunismo e destrui&#231;&#227;o da fam&#237;lia.</p><p>Precisamos tamb&#233;m de campanhas educativas intensas e permanentes para denunciar (e isolar) os comportamentos violentos. As pessoas, sobretudo os homens, precisam ser encorajadas a denunciar e intervir, a barrar as situa&#231;&#245;es de ass&#233;dio antes que elas evoluam para agress&#245;es ou feminic&#237;dios.</p><p>Contra esse projeto de defesa da vida e da liberdade feminina se erguem for&#231;as enormes.</p><p>H&#225; um movimento internacional de masculinistas que ocupa as redes sociais com falas de &#243;dio cada vez mais expl&#237;citas. Com a desculpa de combater o feminismo e as feministas, eles canalizam a frustra&#231;&#227;o masculina contra as mulheres que ascendem socialmente e que t&#234;m uma atitude de independ&#234;ncia frente aos homens. Esses influenciadores fornecem a base emocional e ideol&#243;gica da viol&#234;ncia, que se manifesta em assassinatos nas escolas (cujos alvos preferenciais s&#227;o as meninas), nas agress&#245;es virtuais e, finalmente, nas viol&#234;ncias f&#237;sicas e feminic&#237;dios. </p><p>Os influenciadores da morte, traficantes digitais da misoginia, precisam ser denunciados e combatidos, possivelmente criminalizados.</p><p>O outro aspecto dessa quest&#227;o &#233; a crescente vulnerabilidade social e econ&#244;mica dos homens. O capitalismo de sal&#225;rios minguantes vai roubando de boa parte deles a possibilidade de prover e cuidar de uma fam&#237;lia, fazendo com que habitem um lugar ps&#237;quico de escassez, desprest&#237;gio e ressentimento. Os oportunistas da religi&#227;o e da pol&#237;tica se aproveitam desse desamparo para oferecer vis&#245;es de mundo que atribuem &#224; emancipa&#231;&#227;o profissional e afetiva das mulheres todos os males do mundo - e prometem a volta ao lar e a submiss&#227;o delas ao chefe da fam&#237;lia. &#201; claro que isso n&#227;o vai acontecer, mas a prega&#231;&#227;o &#8220;conservadora&#8221; faz crescer a tens&#227;o social que desemboca na viol&#234;ncia contra as mulheres insubmissas.</p><p>S&#227;o muitos os problemas e enormes os desafios, mas a gente, como sociedade, n&#227;o pode assistir passivamente ao carnaval de atrocidades que homens empoderados pelas ideologias de &#243;dio cometem contra as mulheres. Os assassinos, os agressores, os assediadores t&#234;m de ser punidos exemplarmente &#8211; e a parte sadia da sociedade precisa se mobilizar para defender as mulheres e educar afetivamente os meninos. Eles carregar&#227;o no futuro a tocha de uma masculinidade menos sinistra.</p><p>...</p><p>Ivan Martins &#233; psicanalista e autor dos livros &#8220;Algu&#233;m especial&#8221; e &#8220;Um amor depois do outro&#8221;.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://imartins.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Ivan Haro Martins ! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A perfeição atrapalha]]></title><description><![CDATA[N&#227;o existe amor perfeito ou relacionamento perfeito. N&#227;o existe uma pessoa perfeita, como n&#227;o existe uma fam&#237;lia perfeita, uma obra perfeita, um pa&#237;s perfeito ou o tempo perfeito para se viver.]]></description><link>https://imartins.substack.com/p/a-perfeicao-atrapalha</link><guid isPermaLink="false">https://imartins.substack.com/p/a-perfeicao-atrapalha</guid><dc:creator><![CDATA[Ivan Martins]]></dc:creator><pubDate>Wed, 26 Nov 2025 19:27:33 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!QA8Q!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F230cfd97-dd9f-448d-aaeb-9dc620874844_957x957.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Li, contrariado, um par de cr&#237;ticas muito severas ao filme &#8220;O agente secreto&#8221;, dirigido por Kleber Mendon&#231;a Filho e protagonizado por Wagner Moura. Eu mesmo achei o filme magn&#237;fico, profundamente tocante, mas alguns cr&#237;ticos parecem ter em mente algo esteticamente perfeito, e sentem-se frustrados quando o diretor abandona esse roteiro idealizado e faz um filme com a sua pr&#243;pria cara, idiossincr&#225;tico e expressivo.</p><p>A frustra&#231;&#227;o &#233; ainda maior se o diretor tem talento e recursos materiais para fazer um filme pr&#243;ximo ao ideal de perfei&#231;&#227;o dos cr&#237;ticos, como &#233; o caso de Kleber Mendon&#231;a. Nestes casos eles sentem-se tra&#237;dos e tornam-se agressivos.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://imartins.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Ivan Haro Martins ! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>A situa&#231;&#227;o me faz lembrar uma passagem conhecida da hist&#243;ria da psican&#225;lise, em que os disc&#237;pulos ingleses de Melanie Klein se ofereceram para reescrever seus livros e artigos. Klein era alem&#227;, imigrou para a Inglaterra, e mesmo seus admiradores achavam o estilo dela &#225;rido em sua l&#237;ngua de ado&#231;&#227;o, embora o conte&#250;do dos textos fosse radicalmente inovador. Eles argumentavam que uma edi&#231;&#227;o apropriada tornaria a sua escrita melhor, ao que a velha psicanalista teria respondido, famosamente: &#8220;Os textos ficariam melhores, mas n&#227;o seriam meus, n&#227;o&#8221;?</p><p>Entre a originalidade das escolhas autorais e o ideal est&#233;tico da perfei&#231;&#227;o, muita gente brilhante opta pela originalidade, de uma forma que me parece cada vez mais compreens&#237;vel, sen&#227;o inevit&#225;vel. A maior contribui&#231;&#227;o que pessoas de talento podem oferecer ao mundo &#233; serem fi&#233;is &#224;s suas ideias e intui&#231;&#245;es. O resto &#233; produ&#231;&#227;o de mercadorias.</p><p>Indo al&#233;m, e ampliando o assunto, acho que a perfei&#231;&#227;o &#233; uma ideia superestimada em v&#225;rias &#225;reas da experi&#234;ncia humana.</p><p>N&#227;o existe amor perfeito ou relacionamento perfeito. N&#227;o existe uma pessoa perfeita, como n&#227;o existe uma fam&#237;lia perfeita, uma obra perfeita, um pa&#237;s perfeito ou o tempo perfeito para se viver. Frente &#224; exist&#234;ncia real, prec&#225;ria, o ideal da perfei&#231;&#227;o pode ser inibidor e opressivo, paralisante mesmo, sobretudo num mundo de vertiginosa superficialidade como o nosso, que cultua corpos perfeitos, atitudes perfeitas, experi&#234;ncias perfeitas e, claro, parceiras ou parceiros perfeitos. Quem n&#227;o se encaixa no padr&#227;o de perfei&#231;&#227;o ou n&#227;o consegue se apropriar de objetos de ostenta&#231;&#227;o que carreguem este predicado est&#225; por fora, n&#227;o tem valor nenhum.</p><p>Acho isso t&#227;o absurdo.</p><p>Na minha experi&#234;ncia amorosa, por exemplo, a beleza foi muito presente, mas a perfei&#231;&#227;o, jamais. Sempre houve tra&#231;os de temperamento ou de car&#225;ter, aspectos do corpo ou da biografia que destoavam &#8211; e essa disson&#226;ncia produzia arrebatamento. A imperfei&#231;&#227;o pode se converter em foco de afeto ou de desejo, porque humaniza quem a ostenta.</p><p>Pense num nariz desarm&#244;nico em rela&#231;&#227;o ao rosto, ou num corpo fora do padr&#227;o. Pense na tristeza ou timidez que algumas pessoas carregam, ou na dificuldade &#224;s vezes pat&#233;tica de lidar com coisas pr&#225;ticas. Essas caracter&#237;sticas podem ser apaixonantes porque destoam do modelo dos corpos e atitudes triunfantes, da est&#233;tica contempor&#226;nea vazia que vai tornando todos iguais em apar&#234;ncia, ideias e atitudes.</p><p>Outro dia, revendo uma s&#233;rie na Netflix &#8211; &#8220;O problema dos tr&#234;s corpos&#8221; - me deparei com um di&#225;logo luminoso. A mo&#231;a linda pede ao cara esquisito que aponte um defeito nela, e ele diz, com uma ponta de ironia: &#8220;Voc&#234; &#233; maravilhosa, mas de um jeito tedioso&#8221;. Acho que &#233; isso. Estamos cercados de pessoas e de objetos t&#227;o bonitos quanto chatos. Lhes falta a disson&#226;ncia que apaixona, a imperfei&#231;&#227;o que humaniza, a originalidade que cativa.</p><p>Assim como no filme de Kleber Mendon&#231;a, a nossa est&#233;tica deveria andar de m&#227;os dadas com a nossa &#233;tica, e ambas deveriam se afastar da fantasia de perfei&#231;&#227;o do mercado que oprime e diminui.</p><p>...</p><p>Ivan Martins &#233; psicanalista e autor dos livros &#8220;Algu&#233;m especial&#8221; e &#8220;Um amor depois do outro&#8221;.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://imartins.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Ivan Haro Martins ! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Ser mulher é mais difícil]]></title><description><![CDATA[Num mundo voltado &#224;s exterioridades digitais, com sua exig&#234;ncia est&#250;pida de instantaneidade, a voca&#231;&#227;o reflexiva das mulheres &#233;, ao mesmo tempo, uma reserva de sanidade e uma desvantagem comparativa]]></description><link>https://imartins.substack.com/p/ser-mulher-e-mais-dificil</link><guid isPermaLink="false">https://imartins.substack.com/p/ser-mulher-e-mais-dificil</guid><dc:creator><![CDATA[Ivan Martins]]></dc:creator><pubDate>Wed, 19 Nov 2025 11:47:45 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!QA8Q!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F230cfd97-dd9f-448d-aaeb-9dc620874844_957x957.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>N&#227;o estou pensando na TPM, que todos os meses aflige boa parte das mulheres jovens. Nem penso na menopausa, antecedida pelo climat&#233;rio, com seu cortejo de sintomas inquietantes. N&#227;o falo da gravidez, da gesta&#231;&#227;o, do parto &#8211; privil&#233;gios que cobram seu pre&#231;o em uma infinidade de maneiras que os homens desconhecem. N&#227;o me refiro ao biol&#243;gico e suas consequ&#234;ncias inescap&#225;veis. Penso nos sentimentos que as mulheres carregam, e como eles contribuem para uma exist&#234;ncia mais dif&#237;cil.</p><p>Ouvir uma mulher em an&#225;lise (ou mesmo na intimidade), significa, quase sempre, defrontar-se com uma sensa&#231;&#227;o de complexidade que os homens n&#227;o suscitam. &#201; como se a subjetividade das mulheres fosse de alguma forma mais ampla, mais densa e mais nuan&#231;ada que a dos homens &#8211; como se ela se abrisse para dentro em m&#250;ltiplas camadas de sensa&#231;&#245;es e compreens&#245;es, em diferentes n&#237;veis de intensidade e incerteza, enquanto a subjetividade masculina parece mais simples, ainda que conflituosa e dilacerada, como costuma ser toda subjetividade humana.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://imartins.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Ivan Haro Martins ! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Com o risco de uma simplifica&#231;&#227;o intoler&#225;vel, eu diria que as quest&#245;es que trazem a maioria das pessoas ao div&#227; s&#227;o poucas e claramente delimitadas: sexo e relacionamento, status econ&#244;mico e social e os inevit&#225;veis afetos familiares. O que boa parte das mulheres faz com esses temas limitados &#233; o que os jazzistas conseguem a partir de uma melodia simples: improvisar, expandir, explorar e levar a m&#250;sica a lugares inesperados.</p><p>Na minha percep&#231;&#227;o &#8211; determinada pela minha viv&#234;ncia e pelos meus afetos - essa complexidade torna a vida das mulheres mais dif&#237;cil. Muita energia &#233; gasta processando ideias e emo&#231;&#245;es que nem se apresentam para os homens. H&#225; muita d&#250;vida, muitos lados da mesma quest&#227;o a serem contemplados, e existe uma intensidade que torna tudo pungente e urgente, frequentemente doloroso.</p><p>A vida interior das mulheres pode constituir um fardo. Ouvi, faz muito tempo, uma met&#225;fora ilustrativa sobre isso. Uma mulher dizia habitar, internamente, uma esp&#233;cie de casar&#227;o emocional, ao mesmo tempo ensolarado e sombrio, que exigia tanta aten&#231;&#227;o e tanto cuidado que ela &#224;s vezes se sentia indispon&#237;vel para tratar das exig&#234;ncias pr&#225;ticas da vida &#8211; que no caso dela, como de tantas m&#227;es, eram enormes.</p><p>Num mundo como o nosso, voltado de forma obscena &#224;s exterioridades digitais, com sua exig&#234;ncia est&#250;pida de instantaneidade, a voca&#231;&#227;o reflexiva das mulheres, sua tend&#234;ncia ao ensimesmamento, &#233;, ao mesmo tempo, uma reserva de sanidade e uma enorme desvantagem comparativa. Imaginem a personagem de &#8220;A paix&#227;o segundo G.H.&#8221;, de Clarice Lispector, respondendo a 30 mensagens de Whatspp por dia, enquanto alucina frente a uma barata. Inconceb&#237;vel.</p><p>Muito dessa forma interiorizada de ser mulher, eu suponho, &#233; cultural, algo que meninas e adolescentes absorvem pela transmiss&#227;o geracional. Aprende-se a ser mulher, evidentemente. Ao mesmo tempo, &#233; dif&#237;cil ignorar a sensa&#231;&#227;o de que alguma coisa importante j&#225; est&#225; instalada naquelas criaturinhas que, mesmo antes de falar, agem de forma t&#227;o distinta dos meninos.</p><p>Tal como eu vejo, paira sobre essa diferen&#231;a algo de inevit&#225;vel. As coisas v&#227;o mudar, j&#225; est&#227;o mudando na rela&#231;&#227;o entre homens e mulheres, e isso dar&#225; &#224;s meninas, (e meninos!), mais liberdade para explorar suas voca&#231;&#245;es e temperamentos, rompendo o molde restrito e anacr&#244;nico que o patriarcado imp&#244;s h&#225; milhares de anos. Essa mudan&#231;a tem capacidade de alterar radicalmente o nosso modo de ser de viver. Mas ela significa que um dia seremos iguais, homens e mulheres? Suponho que n&#227;o. Ainda que fosse poss&#237;vel, duvido que elas quisessem abdicar do seu universo interior em troca da simplicidade masculina. Como me lembraram outro dia, h&#225; pot&#234;ncia na complexidade e na sutileza femininas - e &#233; dif&#237;cil abrir m&#227;o dela. Mesmo que a vida seja subjetivamente mais dif&#237;cil, quem escolheria voluntariamente ser menos do que &#233;, sentir menos do que sente e perceber menos do que percebe?</p><p>...</p><p>Ivan Martins &#233; psicanalista e autor dos livros &#8220;Algu&#233;m especial&#8221; e &#8220;Um amor depois do outro&#8221;.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://imartins.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Ivan Haro Martins ! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A degradação da condição masculina]]></title><description><![CDATA[Homens inseguros quanto ao seu papel na fam&#237;lia e na sociedade se aliam emocionalmente a figuras p&#250;blicas que prometem &#8211; de forma expl&#237;cita ou disfar&#231;ada - recolocar as mulheres no seu devido lugar]]></description><link>https://imartins.substack.com/p/a-degradacao-da-condicao-masculina</link><guid isPermaLink="false">https://imartins.substack.com/p/a-degradacao-da-condicao-masculina</guid><dc:creator><![CDATA[Ivan Martins]]></dc:creator><pubDate>Thu, 06 Nov 2025 11:36:22 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!QA8Q!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F230cfd97-dd9f-448d-aaeb-9dc620874844_957x957.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Nenhum de n&#243;s &#233; uma ilha, dizia o poeta John Donne, por volta de 1600. Mesmo as nossas ang&#250;stias mais &#237;ntimas se misturam de alguma forma &#224;s quest&#245;es do nosso tempo, digo eu, 400 anos depois. Aquilo que nos toca ou nos aflige ecoa, invariavelmente, os sentimentos dos nossos contempor&#226;neos.</p><p>A discuss&#227;o sobre paternidade e masculinidade d&#225; bom exemplo disso. S&#227;o temas que tocam a intimidade das fam&#237;lias e dos casais, ao mesmo tempo em que atravessam a sociedade no s&#233;culo XXI. O que acontece com os meninos e com os jovens &#8211; aquilo que se passa com os pais em sofrimento e transforma&#231;&#227;o - ajuda a compreender os dilemas da sociedade como um todo.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://imartins.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Ivan Haro Martins ! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Mas o que acontece, afinal?</p><p>Um aspecto importante da confus&#227;o contempor&#226;nea &#233; que as mulheres v&#227;o finalmente ocupando mais espa&#231;o na vida econ&#244;mica e social do planeta, na mesma medida em que homens perdem protagonismo. Elas come&#231;am na escola, disparando na frente dos meninos, e terminam nos postos de trabalho, que v&#227;o sendo tomados por mulheres em virtude do seu melhor desempenho escolar. Isso acontece no mundo todo. O machismo hist&#243;rico ainda freia a participa&#231;&#227;o das mulheres no topo das hierarquias sociais, mas essa barreira n&#227;o vai resistir por muito tempo, imagino.</p><p>A ocupa&#231;&#227;o dos lugares sociais de prest&#237;gio pelas mulheres poderia ser percebida apenas como um ajuste natural e busca de equil&#237;brio, uma quest&#227;o de m&#233;rito e de justi&#231;a depois de s&#233;culos de opress&#227;o, mas n&#227;o. Os homens descartados em massa pelo capitalismo se ressentem com o que percebem como perdas injustas, e malandros de toda esp&#233;cie articulam esse ressentimento em termos pol&#237;ticos e religiosos.</p><p>A perda de poder e a rea&#231;&#227;o masculina &#8211; uma din&#226;mica de alta voltagem emocional - explica a popularidade da extrema direita religiosa em nosso tempo. Ela &#233; a express&#227;o pol&#237;tica da frustra&#231;&#227;o e da raiva de homens (sobretudo homens jovens), que se sentem abandonados pela sociedade e deixados para tr&#225;s pelas mulheres.</p><p>A escritora inglesa Virginia Wolf dizia, no in&#237;cio do s&#233;culo XX, que a principal miss&#227;o das mulheres na nossa sociedade era sustentar com a sua submiss&#227;o a fr&#225;gil autoimagem dos homens. Elas parecem estar falhando nessa miss&#227;o.</p><p>Assim, quest&#245;es dom&#233;sticas e pessoais se misturam a temas pol&#237;ticos e sociais. Frustra&#231;&#245;es &#237;ntimas e familiares se convertem em ideologias e guerras culturais. Homens inseguros quanto ao seu papel na fam&#237;lia e na sociedade se aliam emocionalmente a figuras p&#250;blicas que prometem &#8211; de forma expl&#237;cita ou disfar&#231;ada - recolocar as mulheres no seu devido lugar.</p><p>(O que tentava o canalha que agarrou a presidente mexicana na rua, na quarta-feira, sen&#227;o provar que ela n&#227;o tem poder algum, que, mesmo sendo presidente de uma grande na&#231;&#227;o, n&#227;o passa de um peda&#231;o de carne &#224; disposi&#231;&#227;o do desejo dele)?</p><p>O resultado da alian&#231;a afetiva entre homens ressentidos e l&#237;deres reacion&#225;rios afeta a todos n&#243;s, porque produz um discurso de exalta&#231;&#227;o da viol&#234;ncia, da intoler&#226;ncia e do autoritarismo, que &#233; extremamente destrutivo para a sociedade, como j&#225; tivemos oportunidade de experimentar no per&#237;odo de poder do sociopata, agora em merecida pris&#227;o domiciliar.</p><p>O resultado da alian&#231;a entre raiva e demagogia &#233; o fascismo na vida pol&#237;tica e a barb&#225;rie na vida social &#8211; como vimos na semana passada, de forma t&#227;o expl&#237;cita, na chacina do Rio de Janeiro.</p><p>Como homem, como pai, como cidad&#227;o, s&#243; posso lamentar a degrada&#231;&#227;o da condi&#231;&#227;o masculina e o uso pol&#237;tico nefasto que se faz dela. &#201; preciso interromper esse processo. &#201; urgente oferecer aos meninos uma vis&#227;o de si mais positiva - que os encaminhe aos estudos - e aos jovens adultos as condi&#231;&#245;es materiais de trabalhar e participar dignamente de uma fam&#237;lia. Os homens precisam sentir que t&#234;m um lugar importante na sociedade, e entender, ao mesmo tempo, que o mundo exige uma parceria de iguais com as mulheres, n&#227;o a nostalgia b&#237;blica de mandar nelas, que se tornou imposs&#237;vel. Homens e mulheres vivendo em p&#233; de igualdade &#233; a &#250;nica sa&#237;da para um mundo mais justo e mais humano, um mundo poss&#237;vel. O resto &#233; atraso, mentira e a promessa de um mergulho sem volta na distopia dos homens violentos.</p><p>...</p><p>Ivan Martins &#233; psicanalista e autor dos livros &#8220;Algu&#233;m especial&#8221; e &#8220;Um amor depois do outro&#8221;.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://imartins.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Ivan Haro Martins ! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Chacina não é segurança pública]]></title><description><![CDATA[N&#227;o h&#225; nada mais subdesenvolvido, nada mais atrasado, nada mais primitivo do que as chacinas peri&#243;dicas promovidas pelo Estado. Elas colocam o Brasil no patamar mais baixo da escala civilizat&#243;ria.]]></description><link>https://imartins.substack.com/p/massacre-nao-e-seguranca-publica</link><guid isPermaLink="false">https://imartins.substack.com/p/massacre-nao-e-seguranca-publica</guid><dc:creator><![CDATA[Ivan Martins]]></dc:creator><pubDate>Thu, 30 Oct 2025 18:59:33 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!QA8Q!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F230cfd97-dd9f-448d-aaeb-9dc620874844_957x957.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Eu deveria ter publicado ontem um texto a respeito dos homens que parecem estar com medo do contato f&#237;sico com as mulheres, caras que seduzem histericamente nas redes sociais, mas, diante de um sim, de um &#8220;vambora, j&#225;&#8221;, se fingem de mortos e desaparecem.</p><p>Eu planejava escrever sobre isso, mas, de repente, abriu-se uma porta do inferno e come&#231;aram a se empilhar cad&#225;veres nas ruas da Penha, no Rio de Janeiro. Ent&#227;o percebi que n&#227;o poderia mais escrever sobre a masculinidade em transe no s&#233;culo XXI.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://imartins.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Ivan Haro Martins ! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Diante das pessoas expostas como bichos mortos, diante do inc&#244;modo visceral que emanava daqueles defuntos jovens, entendi que era necess&#225;rio calar sobre qualquer outro assunto, sob o risco de parecer um idiota moral.</p><p>N&#227;o h&#225; nada mais subdesenvolvido, nada mais atrasado, nada mais primitivo do que as chacinas brasileiras promovidas pelo Estado brasileiro. Elas colocam o pa&#237;s no patamar mais baixo da escala civilizat&#243;ria. Elas nos exp&#245;em como cloaca c&#237;vica onde a vida humana n&#227;o vale absolutamente nada.</p><p>Voc&#234;, leitora ou leitor, consegue imaginar um massacre desses acontecendo na Inglaterra ou na Fran&#231;a? Voc&#234; consegue imaginar mais de 130 cad&#225;veres baleados expostos ao ar livre no Canad&#225; ou no Jap&#227;o, corpos exibidos como trof&#233;u de um &#8220;trabalho bem feito&#8221;, como festejou o homem amoral que governa o Rio de Janeiro?</p><p>Ah, mas l&#225; n&#227;o tem bandidos como aqui, diria o atento leitor dos grupos de WhatsApp de extrema direita...</p><p>Sim, n&#227;o tem bandidos como aqui porque l&#225; a pol&#237;cia previne, investiga e pune os crimes, em vez de sacar o rev&#243;lver e matar a torto e a direito, impunemente. N&#227;o tem bandidos porque o Estado protege seus cidad&#227;os, impedindo que crian&#231;as cres&#231;am no absoluto desamparo e terminem no crime como o mais natural dos caminhos. N&#227;o tem bandido porque, em outros pa&#237;ses, as pessoas pobres s&#227;o cidad&#227;s, t&#234;m direitos, s&#227;o respeitadas, enquanto aqui n&#227;o passam de coisa a estorvar nosso caminho de m&#227;o estendida &#8211; ou m&#227;o de obra barata a limpar nossas privadas e trazer de moto a nossa pizza do domingo.</p><p>Aqui, os pobres s&#227;o bucha de canh&#227;o na guerra entre o crime organizado e o Estado corrupto e incompetente.</p><p>Uma pergunta inevit&#225;vel: algu&#233;m se sente mais seguro em S&#227;o Paulo desde a Opera&#231;&#227;o Escudo, que resultou em 28 mortos na Baixada Santista em 2023? Desde a chacina de Vig&#225;rios Geral, em 1993, o Rio se tornou um lugar mais seguro para andar nas ruas? Agora, depois dessa inomin&#225;vel barbaridade na Penha e no Alem&#227;o, os cariocas v&#227;o caminhar de noite relaxados e felizes?</p><p>Claro que n&#227;o! &#201; evidente que n&#227;o!</p><p>Essas chacinas s&#243; fazem aumentar a criminalidade violenta, porque selecionam, de forma darwiniana, os criminosos mais duros, mais destemidos &#8211; mais desumanos e cru&#233;is tamb&#233;m, como s&#227;o seus algozes. A uma pol&#237;cia que abra&#231;a o of&#237;cio de empilhar cad&#225;veres, correspondem organiza&#231;&#245;es criminosas cada vez mais ferozes e determinadas.</p><p>O que mais me assombra nessas situa&#231;&#245;es &#8211; al&#233;m da viol&#234;ncia em si, que atinge indiscriminadamente gente comum e criminosos - &#233; perceber que tudo &#233; feito com a finalidade de ganhar votos. Os governadores de direita mandam a pol&#237;cia atacar os bairros pobres e matar &#8211; e ser morta tamb&#233;m, claro &#8211; para ganhar uns votinhos com a classe m&#233;dia assustada e com os pobres perif&#233;ricos que se sentem desprotegidos.</p><p>Conclu&#237;do o massacre, tanto os pobres quanto a classe m&#233;dia continuar&#227;o expostos &#224; amea&#231;a do crime, embora possam, quem sabe, dormir uma noite tranquilos, depois da catarse obscena de ver na TV centenas de corpos expostos como carne de um a&#231;ougue macabro.</p><p>Tem de haver um jeito de cuidar da seguran&#231;a p&#250;blica sem banhos de sangue in&#250;teis e peri&#243;dicos. Tem de haver uma forma de proteger as pessoas sem torn&#225;-las ref&#233;ns de uma pol&#237;cia cada vez mais violenta. N&#227;o adianta matar a rodo na periferia enquanto o crime organizado se infiltra nas prefeituras, no Congresso, na Faria Lima, no Judici&#225;rio. &#201; preciso proteger do crime as pessoas vulner&#225;veis na base da pir&#226;mide social &#8211; com pol&#237;cia comunit&#225;ria, com postos de Sa&#250;de, com transporte eficiente e barato - ao mesmo tempo em que se combate o crime organizado no topo da pir&#226;mide, que &#233; de onde emanam as ordens e para onde vai o dinheiro grosso.</p><p>N&#227;o h&#225; mais o que falar, &#233; tudo terrivelmente &#243;bvio.</p><p>Na sexta-feira, amanh&#227;, haver&#225; na Avenida Paulista, em S&#227;o Paulo, &#224;s 18 horas, uma manifesta&#231;&#227;o contra o massacre da Penha e do Alem&#227;o, em favor de uma pol&#237;tica eficiente e humana de seguran&#231;a p&#250;blica. Eu estarei l&#225; e convido todos a estarem.</p><p>...</p><p>Ivan Martins &#233; psicanalista, autor dos livros &#8220;Algu&#233;m especial&#8221; e &#8220;Um amor depois do outro&#8221;.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://imartins.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Ivan Haro Martins ! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item></channel></rss>