<script data-pm-proxy="intercept"></script><?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Ian Pompeu]]></title><description><![CDATA[Formação a partir da cultura e da pedagogia dos autores clássicos.]]></description><link>https://isvpompeu.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!x1HR!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F400b4ea9-f876-440e-8498-6bc1c50cd5bd_1939x1939.jpeg</url><title>Ian Pompeu</title><link>https://isvpompeu.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Tue, 01 Sep 2026 17:19:37 GMT</lastBuildDate><atom:link href="/__u/isvpompeu.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Ian Pompeu]]></copyright><language><![CDATA[en]]></language><webMaster><![CDATA[isvpompeu@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[isvpompeu@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Ian Pompeu]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Ian Pompeu]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[isvpompeu@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[isvpompeu@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Ian Pompeu]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[A prisão das liberdades]]></title><description><![CDATA[Um exerc&#237;cio de amplifica&#231;&#227;o]]></description><link>https://isvpompeu.substack.com/p/a-prisao-das-liberdades</link><guid isPermaLink="false">https://isvpompeu.substack.com/p/a-prisao-das-liberdades</guid><dc:creator><![CDATA[Ian Pompeu]]></dc:creator><pubDate>Sat, 08 Aug 2026 21:28:06 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/c33d27b7-efa5-4701-b3ed-828a56bbe4b3_960x1763.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>Tirei hoje do fundo da alma uma anedota guardada com cuidado. Tendo visto o sorriso de irm&#227;s presas em uma clausura, um homem sensato afirmou: &#8220;sou eu que estou preso aqui fora&#8221;; pareceu-me que ele entendeu tudo.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ao contr&#225;rio de quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir, crescemos ouvindo o discurso de que as liberdades de ir-e-vir e de pensamento &#8211; e de outras coisas &#8211; s&#227;o provas do auge civilizacional em que vivemos: &#8220;livres como nunca&#8221;. As evid&#234;ncias de tal afirma&#231;&#227;o parecem t&#227;o perfeitas que n&#227;o ousamos neg&#225;-la; mas h&#225; um fundo falso nessa narrativa. A constante locomo&#231;&#227;o f&#237;sica e a intelectual obstam o desenvolvimento das capacidades que nos permitem ser livres; da necessidade de mudar n&#227;o somos mais que escravos.</span></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://isvpompeu.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/isvpompeu.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p style="text-align: justify;"></p><p style="text-align: justify;"><span>Em sua obra </span><em><span>Metamorfoses</span></em><span>, Ov&#237;dio desvelou o car&#225;ter animalesco de diversos personagens que estavam vestidos de homens. Ou seja, pareciam seres humanos, mas eram feras &#8211; ou algo abaixo delas. Diferentemente, em nossos tempos, propaga-se a mudan&#231;a a ponto de n&#227;o haver como revelar quem s&#227;o as pessoas, pois a personalidade &#233; destru&#237;da, ou, como diria Bocage, evaporada pela lida insana.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Dizem-nos que n&#227;o podemos parar de andar, tampouco retroceder, sen&#227;o o tempo nos devorar&#225;, assim como Cronos devorou os seus filhos: eis a liberdade do progresso. N&#227;o podemos pensar sobre a Verdade, mas devemos ter a cabe&#231;a t&#227;o aberta at&#233; que o c&#233;rebro saia &#8211; para fora &#8211;, como alertou Chesterton: eis a liberdade do ceticismo.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Para que a oposi&#231;&#227;o a tais ideias seja apresentada claramente, consideremos o m&#233;todo de Plat&#227;o n&#8217;</span><em><span>A Rep&#250;blica</span></em><span>, em que a alma humana &#233; amplificada por meio da imagem da cidade. Ou seja, pela estrutura&#231;&#227;o urbana, conhecemos o interior de quem a estruturou.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O que nos indicam o caos do tr&#226;nsito cuja mem&#243;ria nos d&#225; calafrios; o emaranhado de fios e de edif&#237;cios cuja vis&#227;o tentamos evitar; a luta por fazer o maior barulho com motores e alto-falantes cuja audi&#231;&#227;o nos assusta e estressa?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Decerto, acabamos com a rela&#231;&#227;o etimol&#243;gica do adjetivo urbano, advindo de </span><em><span>Urbs </span></em><span>[Cidade], que significa os bons modos de quem floresceu entre gente cort&#234;s, civilizada e respeit&#225;vel no meio urbano. &#201; verdade que nem na l&#237;ngua tampouco na cidade de C&#237;cero havia correla&#231;&#227;o total, pois Sal&#250;stio nos narrara que, na vida p&#250;blica, &#8220;imperavam, em lugar do pudor, da integridade, da virtude, a aud&#225;cia, a largueza, a avidez.&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A nossa legi&#227;o urbana &#233; exteriorizada pelo desejo das coisas novas, &#8220;filhos da revolu&#231;&#227;o, burgueses sem religi&#227;o&#8221;: possui meios para se evaporar com o calor das paix&#245;es que os excitam, reconstituindo-se em novas formas e repetindo o processo. Sem saber aonde ir, entram no barco da vida cujo primeiro condutor os leva ao precip&#237;cio e o segundo, Caronte, o barqueiro do inferno da Divina Com&#233;dia, diz-lhes &#8220;almas ruins! Castigo eterno/para v&#243;s. Abandonai do C&#233;u o anelo; vim levar-vos, pra l&#225; desta corrente,/ &#224; treva sempiterna, ao fogo e ao gelo&#8221;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Contudo, como o homem n&#227;o perde a natureza racional, embora a escamoteie, o desejo pelo conhecimento permanece, tendo sido direcionado &#224; infinitude das informa&#231;&#245;es, o que n&#227;o nos forma, mas deforma. Os antigos nos legaram a sabedoria, os modernos a reduziram ao conhecimento cient&#237;fico e os nossos contempor&#226;neos em informa&#231;&#227;o, parafraseando T. S. Eliot.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>As defini&#231;&#245;es, as propriedades, as causas, os efeitos s&#227;o ignorados; restam apenas os acidentes mais evidentes, os quais s&#227;o metamorfoses ambulantes e nos transformam em tais. Nem o serm&#227;o pitag&#243;rico de Ov&#237;dio, &#8220;</span><em><span>omnia mutantur, nihil interit </span></em><span>[todas as coisas se transformam, nada perece]&#8221; foi longe demais; defende-se metempsicose, mas n&#227;o a psicose esclarecida. Para defender a primeira, argumentavam; para impor a segunda, imbecilizam coletivamente, como disse Olavo de Carvalho. Em um di&#225;logo, conseguimos refutar; com quem n&#227;o sabe ouvir, &#233; imposs&#237;vel conversar.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A liberdade do culto ao progresso &#233; um aprisionamento temporal, pois seus propagadores defendem que o futuro trar&#225; melhorias por meio da proibi&#231;&#227;o do conhecimento do passado e da reflex&#227;o sobre o presente.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Quando grandes homens estavam fisicamente presos, n&#227;o deixaram de aproveitar o contato com outras mentes do passado para meditar sobre aquele momento e escrever obras para todos os momentos. S&#243;crates conduziu discuss&#245;es; S. Bo&#233;cio escreveu </span><em><span>A Consola&#231;&#227;o da Filosofia</span></em><span>; S. Thomas More enviou cartas e imitou Bo&#233;cio. Os tr&#234;s morreram ap&#243;s a pris&#227;o, mas nos legaram conhecimentos mais perenes do que o bronze. Se estivessem presos ao tempo em que viveram, teriam sido esquecidos.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Nenhum deles acreditou na liberdade de pensamento entendida como ceticismo; todos buscaram, viveram e defenderam a verdade. Desfazer-se na lida insana do progresso e abandonar a busca da verdade nada tem a ver com liberdade; &#233; o aprisionamento no tempo e na ignor&#226;ncia.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Prefiro a estabilidade da rotina que me possibilita pensar, embora signifique maior limita&#231;&#227;o f&#237;sica e ignor&#226;ncia das modas, &#224; escravid&#227;o da mudan&#231;a. Apresentando os autores cl&#225;ssicos aos meus alunos, refletimos sobre problemas contempor&#226;neos com maior profundidade, tornando a vida refletida &#8211; e que vale a pena ser vivida.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Nestas condi&#231;&#245;es, experimenta-se a ordem de imagens e ideias dos grandes autores; contempla-se as realidades por eles apresentadas; ouve-se a voz de quem soube como passar por esse vale de l&#225;grimas. A conversa com os cl&#225;ssicos faz parte da nossa forma&#231;&#227;o enquanto seres humanos e, por isso, &#233; porta para a conversa&#231;&#227;o no C&#233;u.</span></p><p style="text-align: justify;"><sub><span>Obs: esse ensaio &#233; um exerc&#237;cio de amplifica&#231;&#227;o da frase &#8220;mais tem&#237;vel que o isolamento no espa&#231;o &#233; a pris&#227;o no casulo do tempo&#8221; de Olavo de Carvalho no texto entitulado </span></sub><em><sub><span>A imita&#231;&#227;o da literatura</span></sub></em><sub><span>.</span></sub></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://substack.com/@isvpompeu/note/p-210397186&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Leave a comment&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/substack.com/@isvpompeu/note/p-210397186"><span>Leave a comment</span></a></p><p style="text-align: justify;"></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A beleza que se consome a si mesma]]></title><description><![CDATA[Shakespeare &#224; luz do Narciso de Ov&#237;dio]]></description><link>https://isvpompeu.substack.com/p/a-beleza-que-se-consome-a-si-mesma</link><guid isPermaLink="false">https://isvpompeu.substack.com/p/a-beleza-que-se-consome-a-si-mesma</guid><dc:creator><![CDATA[Ian Pompeu]]></dc:creator><pubDate>Mon, 13 Jul 2026 15:40:52 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/160e6cd9-3ceb-4cc9-99e5-787247eefd4f_2400x3059.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Poetas como Ov&#237;dio e Shakespeare condensam em poucos versos uma rede de imagens, ideias e emo&#231;&#245;es que a primeira leitura nem sempre revela. A fim de tornar mais viva e fecunda a experi&#234;ncia das grandes obras, examinarei uma rela&#231;&#227;o menos evidente entre dois textos liter&#225;rios.</p><p style="text-align: justify;">Tendo lido, discutido e relido o primeiro soneto de Shakespeare, uma poss&#237;vel refer&#234;ncia me veio &#224; mente, o mito de Narciso presente n&#8217;<em>As Metamorfoses </em>de Ov&#237;dio, o poeta romano exilado &#8211; talvez por amar demais as pessoas erradas. A <a href="https://youtu.be/y_xdZsihk6I?si=wOjQno9DJ9o3WBL1">explica&#231;&#227;o do professor A. Walker</a> refor&#231;ou a hip&#243;tese dessa aproxima&#231;&#227;o.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://isvpompeu.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption"></p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p style="text-align: justify;">A mensagem do soneto pode ser compreendida a partir da oposi&#231;&#227;o entre o chamado a servir e a exig&#234;ncia de ser servido. Entretanto, apenas o primeiro caminho nos leva ao florescimento da nossa natureza, pois, ao colocarmos nossa vitalidade a servi&#231;o dos outros, daremos frutos; pelas veredas do segundo caminho, por&#233;m, preservamos as nossas for&#231;as, negando os frutos que poder&#237;amos dar.</p><p style="text-align: justify;">Cristo nos ensinou isso ao dizer: &#8220;o que quiser salvar a sua vida perd&#234;-la-&#225;; e o que perder a sua vida por amor de mim, ach&#225;-la-&#225;&#8221; (Mt. XVI, 25).</p><p style="text-align: justify;">Esse parece ser o pano de fundo dos sonetos da procria&#231;&#227;o (1 - 17) do poeta ingl&#234;s, j&#225; que a mensagem central do primeiro soneto pode ser sistematizada assim: um dos deveres da juventude &#233; procriar; a rejei&#231;&#227;o de tal dever &#233; uma pervers&#227;o da nossa natureza; o resultado disso &#233; a morte.</p><p style="text-align: justify;">Certamente, isso se aplica aos filhos biol&#243;gicos e &#224;s obras materiais e intelectuais que podemos realizar, j&#225; que os primeiros n&#227;o dependem apenas do nosso querer.</p><p style="text-align: justify;">Tendo isso sido dito, vamos ao soneto.</p><p style="text-align: justify;">A primeira quadra (estrofe de quatro versos) apresenta o assunto central, o desejo da procria&#231;&#227;o, utilizando a imagem da beleza da rosa como aquela for&#231;a da juventude, a qual, embora se esvaia, deixa herdeiros:</p><blockquote><p>Dos seres &#237;mpares ansiamos prole</p><p>Para que a flor do Belo n&#227;o se extinga,</p><p>E se a rosa madura o Tempo colhe,</p><p style="text-align: justify;">Fresco bot&#227;o sua mem&#243;ria vinga<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a>.</p></blockquote><p style="text-align: justify;"><span>A segunda quadra &#233; uma aplica&#231;&#227;o do tema principal ao destinat&#225;rio, o qual, embora jovem, canaliza a energia que possui a fim de se autopreservar, contrariando o pr&#243;prio florescimento, tornando-se, paradoxalmente, inimigo de si mesmo:</span></p><blockquote><p style="text-align: justify;"><span>Mas tu, que s&#243; com os olhos teus contrais,</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Nutres o ardor com as pr&#243;prias energias</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Causando fome onde a abund&#226;ncia jaz,</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Cruel rival, que o pr&#243;prio ser crucias</span><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a><span>.</span></p></blockquote><p style="text-align: justify;">A terceira quadra<span> apresenta mais tens&#245;es e contradi&#231;&#245;es entre as atitudes do que opta pela esterilidade conquanto possa dar frutos:</span></p><blockquote><p style="text-align: justify;"><span>Tu, que do mundo &#233;s hoje o galard&#227;o,</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Arauto da festiva Natureza,</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Matas o teu prazer inda em bot&#227;o</span></p><p style="text-align: justify;"><span>E, sovina, esperdi&#231;as na avareza</span><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a><span>.</span></p></blockquote><p style="text-align: justify;"><span>Segue-se, por fim, o d&#237;stico (estrofe de dois versos), que resolve a tens&#227;o entre o assunto principal e as a&#231;&#245;es do destinat&#225;rio, extraindo as consequ&#234;ncias poss&#237;veis:</span></p><blockquote><p style="text-align: justify;"><span>Piedade, sen&#227;o ides, tu e o fundo</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Do ch&#227;o, comer o que &#233; devido ao mundo</span><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-4" href="#footnote-4" target="_self">4</a><span>.</span></p></blockquote><p style="text-align: justify;"><span>Uma outra tradu&#231;&#227;o poss&#237;vel aos &#250;ltimos versos seria: &#8220;compadece-te do mundo, ou s&#234; o glut&#227;o/que devora, com a cova, o quinh&#227;o devido ao mundo&#8221;. De qualquer modo, o d&#237;stico condensa a advert&#234;ncia do poeta: quem morre sem transmitir a beleza recebida torna-se inimigo de si mesmo, </span><em><span>thyself thy foe</span></em><span>. </span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#201; nesse ponto que o mito de Narciso se aproxima do soneto. Conv&#233;m, por&#233;m, retom&#225;-lo desde suas primeiras linhas, frequentemente negligenciadas, as quais est&#227;o no livro III, 415 &#8211; 431 e 463 &#8211; 473.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Narciso &#233; filho de uma ninfa, Lir&#237;ope, a qual &#233; for&#231;ada a ter um filho com um deus-rio, Cefiso. Ap&#243;s o nascimento, a m&#227;e questiona Tir&#233;sias, o adivinho consultado por Odisseu no Hades, sobre se o filho viveria at&#233; idade avan&#231;ada, recebendo a fat&#237;dica e condicional resposta: </span><em><span>si se non noverit</span></em><span> [se n&#227;o se conhecer].</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ov&#237;dio brinca com as palavras aqui, pois conhecer-se, nesse contexto, significa reconhecer a si mesmo na imagem contemplada, e n&#227;o o verdadeiro conhecimento de sua natureza &#8211; essa distin&#231;&#227;o &#233; o ponto de partida das duas vias anunciadas acima.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Belamente, cresce Narciso, atraindo todos que o viam, embora sempre os rejeitando. Entre aqueles que o desejaram, </span><em><span>resonabilis Echo, quae nec reticere loquenti, nec prior ipsa loqui didicit </span></em><span>[Eco ressoante, a qual n&#227;o aprendeu a guardar o que &#233; dito, tampouco &#233; a primeira a falar], aparece-lhe. Ao admirar Narciso, a ninfa Eco o desejou, mas tamb&#233;m padeceu o destino de todos os que o fizeram, tamanha era a soberba do jovem. Consumida pela dor da rejei&#231;&#227;o, Eco definha, restando-lhe apenas a voz, enquanto seus ossos assumem a dureza da pedra: </span><em><span>omnibus auditur: sonus est, qui vivit in illa </span></em><span>[&#233; ouvida por todos, sendo t&#227;o somente som].</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Al&#233;m de Eco, outras ninfas s&#227;o rejeitadas e at&#233; iludidas. Certo dia, em meio &#224; ca&#231;a, cansado se deita Narciso junto a uma fonte l&#237;mpida e cristalina &#8211; ou arg&#234;ntea em latim.</span></p><blockquote><p style="text-align: justify;"><span>Ao desejar saciar a sede, outra lhe cresceu:</span></p><p style="text-align: justify;"><span>E, enquanto bebia, capturado pela imagem da beleza vista,</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ama uma esperan&#231;a sem corpo; e cr&#234; ser corpo o que &#233; sombra</span></p><p style="text-align: justify;"><span>....</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O imprudente deseja-se; aquele que elogia, &#233; elogiado:</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ao buscar, &#233; buscado; ao mesmo tempo, acende e arde.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Naquela fonte falaz, diversos beijos deu</span></p><p style="text-align: justify;"><span>....</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O erro que o engana igualmente incita os olhos</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Desconhece aquilo que v&#234;; mas o que v&#234; o consome</span></p><p style="text-align: justify;"><span>...</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Que farei? Serei cortejado ou cortejarei? E o que pedirei?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O que desejo, comigo est&#225;; a abund&#226;ncia me fez carente:</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Oxal&#225; pudesse me separar do meu pr&#243;prio corpo!</span></p><p style="text-align: justify;"><span>...</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Oxal&#225; aquele que amo permanecesse por mais tempo.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Mas agora, concordes, em uma &#250;nica alma morremos</span><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-5" href="#footnote-5" target="_self">5</a><span>.</span></p></blockquote><p style="text-align: justify;"><span>Conheceu-se, desejou-se, mas nunca foi capaz de satisfazer o que buscava, era-lhe imposs&#237;vel. Narciso reconheceu a pr&#243;pria apar&#234;ncia, mas n&#227;o conheceu a pr&#243;pria natureza. A potencial juventude foi corrompida, soberbamente guardada e, ao final, apodreceu.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Seguindo o princ&#237;pio das </span><em><span>Metamorfoses</span></em><span> &#8211; o poeta canta as coisas que foram transformadas no que deveriam se tornar ou em seu oposto &#8211;, Ov&#237;dio narra a transforma&#231;&#227;o de Narciso em flor </span><em><span>croceus </span></em><span>(amarelo do a&#231;afr&#227;o) e </span><em><span>foliis medium cingentibus albis </span></em><span>(com folhas brancas o cingindo).</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Uma das maravilhas da forma empregada por Ov&#237;dio &#233; o posicionamento das palavras </span><em><span>foliis </span></em><span>e </span><em><span>albis</span></em><span> nos extremos da frase, cingindo com elas a frase, ou seja, representando a pr&#243;pria imagem que quer significar. Aquele que em vida se negou a frutificar foi transformado em bela flor, evidenciando o que deveria ter sido enquanto homem.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ao come&#231;ar o soneto, Shakespeare apresentou a exig&#234;ncia da procria&#231;&#227;o, a qual parece n&#227;o ser correspondida. Nesse sentido, dizendo que o destinat&#225;rio vive faminto em meio &#224; abund&#226;ncia e que o bot&#227;o de flor da vida dele n&#227;o permite o florescimento, conclui com a apresenta&#231;&#227;o de dois caminhos: ou se d&#225; ao mundo o que &#233; devido ou padecer&#225; uma dupla morte, a sua e a dos dons que n&#227;o transmitiu. Os conselhos de Shakespeare visam impedir o apodrecimento dos jovens, os quais, como Narciso, podem ser fecundos.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Os versos que mais se aproximam quanto &#224;s palavras surgem quando Ov&#237;dio diz </span><em><span>inopem me copia fecit </span></em><span>[a abund&#226;ncia me fez carente] e Shakespeare </span><em><span>making a famine where abundance lies </span></em><span>[causando car&#234;ncia onde a abund&#226;ncia jaz]. Em ambos, a riqueza encerrada em si mesma converte-se em priva&#231;&#227;o.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>S&#227;o orienta&#231;&#245;es que permanecem atuais por contrariarem a moda: reconduzem a aten&#231;&#227;o ao que pertence &#224; natureza humana, a qual &#233; dilacerada pelo medo, pela fraqueza e pela mesquinhez disfar&#231;ados de prud&#234;ncia.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Esse &#233; o tipo de leitura que procuro realizar com meus alunos: aproximar textos, deter-nos nas palavras e observar como uma imagem aparece e reaparece, sendo transformada ao longo dos s&#233;culos.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Shakespeare e Ov&#237;dio mostram, cada qual a seu modo, que a beleza guardada apenas para si n&#227;o se conserva, mas consome-se.</span></p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>From fairest creatures we desire increase,</p><p>That thereby beauty&#8217;s rose might never die,</p><p>But as the riper should by time decease</p><p>His tender heir might bear his memory;</p><p></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>But thou, contracted to thine own Bright eyes,</p><p>Feed&#8217;st thy light&#8217;s flame with self-substantial fuel,</p><p>Making a famine where abundance lies,</p><p>Thyself thy foe, to thy Sweet self too cruel.</p><p></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="#footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p>Thou that art now the world&#8217;s fresh ornament</p><p>And only herald to the gaudy spring</p><p>Within thine own bud buriest thy content,</p><p>And tender churl, mak&#8217;st waste in niggarding.</p><p></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-4" href="#footnote-anchor-4" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">4</a><div class="footnote-content"><p>Pity the world, or else this glutton be:</p><p>To eat the world&#8217;s due, by the grave and thee.</p><p></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-5" href="#footnote-anchor-5" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">5</a><div class="footnote-content"><p>Dumque sitim sedare cupit, sitis altera crevit:</p><p style="text-align: justify;">Dumque bibit, visae correptus imagine formae,</p><p style="text-align: justify;">Spem sine corpore amat; corpus putat esse, quod umbra est.</p><p style="text-align: justify;">...</p><p style="text-align: justify;">Se cupit imprudens; et qui probat, ipse probatur;</p><p style="text-align: justify;">Dumque petit, petitur; pariterque accendit et ardet.</p><p style="text-align: justify;">Irrita fallaci quoties dedit oscula fonti</p><p style="text-align: justify;">...</p><p style="text-align: justify;">Quid videat, nescit: sed quod videt, uritur illo:</p><p style="text-align: justify;">Atque oculos idem, qui decipit, incitat error.</p><p style="text-align: justify;">...</p><p style="text-align: justify;">Quid faciam? roger anne rogem? quid deinde rogabo?</p><p style="text-align: justify;">Quod cupio, mecum est: inopem me copia fecit:</p><p style="text-align: justify;">O utinam a nostro secedere corpore possem!</p><p style="text-align: justify;">...</p><p style="text-align: justify;">Hic, qui diligitur, vellem diuturnior esset.</p><p style="text-align: justify;">Nunc duo concordes anima moriemur in una.</p><p></p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A literatura como fuga da realidade]]></title><description><![CDATA[Sofri muitas vezes, em conversas, com sempre ouvir o rebaixamento da literatura a simples meio de escapar da realidade, que t&#227;o &#225;spera, abjeta e v&#227;o parece.]]></description><link>https://isvpompeu.substack.com/p/a-literatura-como-fuga-da-realidade</link><guid isPermaLink="false">https://isvpompeu.substack.com/p/a-literatura-como-fuga-da-realidade</guid><dc:creator><![CDATA[Ian Pompeu]]></dc:creator><pubDate>Tue, 16 Jun 2026 01:09:28 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/7d3a4dc9-d3f2-47a9-a8a4-3cab359d0991_960x1164.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Sofri muitas vezes, em conversas, com sempre ouvir o rebaixamento da literatura a simples meio de escapar da realidade, que t&#227;o &#225;spera, abjeta e v&#227;o parece. Ao abrirem os guarda-roupas talhados pelos autores, esquecem-se da p&#225;tria em que vivem. </p><p>Homero, ao esculpir a ilha dos Lot&#243;fagos, j&#225; apontara para as promessas de nova vida vis, longe dos deveres: consumir um alucin&#243;geno e nunca mais se lembrar da origem &#8211; que trag&#233;dia, embora desejada por tantos.</p><p style="text-align: justify;">A partir desse uso &#8211; ou abuso &#8211; das letras, quanto se conhece os aparentes novos mundos, tanto evade-se do nosso. <em>Quousque tandem abutere? </em>Assemelhando-se &#224;quele viajante a quem basta entrever dezenas de cidades milenares num curto tempo e cujo saldo s&#227;o apenas as d&#237;vidas, do mesmo modo a pervers&#227;o dos grandes autores apenas nos traz os somente boletos das cole&#231;&#245;es adquiridas.</p><p style="text-align: justify;">Como pode uma alma contemplar a realidade ao ser al&#231;ada por gigantes, sendo visitada pelo ar puro dessas alturas, e n&#227;o ser formada pelos Mentes, Mentores, Virg&#237;lios e Hor&#225;cios, e pessoas que ignoram essa experi&#234;ncia, vivendo c&#225; no ch&#227;o, guardem os melhores conselhos dos nossos maiores?</p><p style="text-align: justify;">Ainda n&#227;o o entendi muito bem, pois eu tamb&#233;m posso ser contado entre os que ouvem desatentamente os conselhos de Hor&#225;cio, confundindo o prudente <em>carpe diem </em>com hedonismo, ou ent&#227;o rindo de Hamlet, embora nos apresente o paradoxo <em>what a piece of work is a man! [...] And yet, to me, what is this quintessence of dust?</em></p><p style="text-align: justify;">Quanta sabedoria em uma resposta, mas apresentada a cora&#231;&#245;es n&#227;o amantes; &#233; como tocar Beethoven a um c&#227;o &#8211; e, &#224;s vezes, somos n&#243;s que latimos.</p><p style="text-align: justify;">Um amigo maestro compartilhou comigo a intui&#231;&#227;o de que o ser humano ainda n&#227;o est&#225; preparado para a m&#250;sica, pois tantos s&#227;o expostos diariamente &#224;s pe&#231;as mais belas e n&#227;o mudam como vivem. O efeito da arte das palavras n&#227;o &#233; t&#227;o diferente do das musas; &#233; por defeito desse tipo de leitor.</p><p style="text-align: justify;">A literatura como portal para a gruta de Calipso faz parte de uma (cosmo)vis&#227;o n&#227;o propriamente liter&#225;ria, mas de vida.</p><p style="text-align: justify;">Depende da resposta que damos &#224; quest&#227;o de Hamlet, <em>que &#233; mais nobre para o esp&#237;rito: sofrer os dardos e setas de um ultrajante destino, ou tomar armas contra um mar de calamidades para p&#244;r-lhes fim, resistindo?</em></p><p style="text-align: justify;">Conquanto imperscrut&#225;vel, parece-me que tudo gira em torno da exist&#234;ncia de algo pelo qual podemos lutar. Se tudo for apenas <em>words, words, words</em> e n&#227;o houver nada ap&#243;s essa vida, &#233; melhor desistir. Se h&#225;, por&#233;m, um porto ao qual podemos ir, deve-se resistir e repetir com S&#234;neca, <em>n&#227;o se trata de falar, trata-se de governar o barco</em>. E n&#227;o adianta repetir, como papagaio, o que dizem todos esses autores; perguntemo-nos que falamos, que pensamos, que fazemos.</p><p style="text-align: justify;">O esteio para responder a cada momento em que a vida nos interroga <em>to be or not to be</em> pode vir dos livros. Pouco a pouco, Homero, Virg&#237;lio e Dante, infundem em n&#243;s suas palavras abundantes de significado e na ordem devida, as quais nos fazem ver com mais clareza as nossas pr&#243;prias vidas.</p><p style="text-align: justify;">Homero trata da guerra interior espelhada na exterior, bem como sobre o desejo de retornar para casa; Virg&#237;lio, imitando-o no que p&#244;de, &#233; mais sens&#237;vel ao amor e &#224; fraqueza humanos; Dante, bebendo dessas fontes, desvela a conex&#227;o entre car&#225;ter e destino eterno da alma, segundo a teologia cat&#243;lica.</p><p style="text-align: justify;">Talvez seja soberba, reducionismo ou ambos tentar explicar numa frase o assunto que nos ensina, pois tratam de tudo. E se Dante deixou mais claro a rela&#231;&#227;o entre o que fazemos e o nosso destino, n&#227;o o fez sem olhar aos romanos e gregos.</p><p style="text-align: justify;">A isso, acrescento que o assunto de obras liter&#225;rias &#233; apenas uma parte delas. As demais, as quais devemos prestar aten&#231;&#227;o, como a forma utilizada pelos escritores, ser&#227;o tratar noutro ensaio, em que detalharei o <em>close reading</em>, o qual aprendi com um dos meus professores de literatura inglesa, Adam Walker &#8211; busquem o trabalho dele.</p><p style="text-align: justify;">A grande literatura &#8211; &#233; reducionismo e soberba &#8211; destaca-se por nos apresentar a quem somos ou podemos ser, por meio de experi&#234;ncias, ainda que isso signifique ser um ciclope, uma &#225;guia, um lobo. A realidade &#233; anal&#243;gica: n&#227;o &#233; que podemos ser <em>como um ciclope, como uma &#225;guia, como um lobo</em>; n&#243;s podemos s&#234;-los de fato, se j&#225; n&#227;o os somos &#8211; e &#233; por isso que essas obras importam.</p><p style="text-align: justify;">Do que falamos, C&#237;cero &#233; proponente ao dizer que <em>n&#227;o basta adquirir a sabedoria, &#233; preciso tirar proveito dela</em>; e Montaigne foi-lhe no encal&#231;o: <em>n&#227;o cabe justapor o saber &#224; alma, cumpre incorpor&#225;-lo a ela. N&#227;o se trata de neg&#225;-la mas sim de impregn&#225;-la com ele. Se n&#227;o modifica nem melhora o estado de imperfei&#231;&#227;o, fora certamente prefer&#237;vel n&#227;o adquiri-lo.</em></p><p style="text-align: justify;">A leitura, ao colocar-nos em situa&#231;&#245;es esclarecedoras, deve ser moral e intelectualmente fecunda. N&#227;o &#233; um del&#237;rio &#8211; por mais que nos fale de del&#237;rios, como o Dr. Br&#225;s Cubas &#8211; e sim um meio de ver melhor a vida que vivemos. E n&#227;o apenas isso: tamb&#233;m, deve ser o meio pelo qual o modo como falamos e pensamos &#233; formado.</p><p style="text-align: justify;">O meu papel aqui, e com os meus alunos, &#233; ajuda-los a extrair experi&#234;ncias, ideias, emo&#231;&#245;es das diversas obras, mostrando que a literatura n&#227;o deve ser reduzida nem a estudo hist&#243;rico nem &#224; disseca&#231;&#227;o formal de um cad&#225;ver; as musas inspiram os poetas para que nos conduzam a encontros depois dos quais a nossa vida j&#225; n&#227;o deveria permanecer a mesma.</p><p style="text-align: justify;">Se esta quintess&#234;ncia do p&#243; p&#244;de mostrar-te o que evitar ao apreciar as obras-primas da obra-prima que &#233; o homem, <em>satis est</em>.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://isvpompeu.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/isvpompeu.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p style="text-align: justify;"></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Sobre os começos]]></title><description><![CDATA[In medias res]]></description><link>https://isvpompeu.substack.com/p/sobre-os-comecos</link><guid isPermaLink="false">https://isvpompeu.substack.com/p/sobre-os-comecos</guid><dc:creator><![CDATA[Ian Pompeu]]></dc:creator><pubDate>Wed, 11 Feb 2026 16:47:41 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/731a8eea-3905-488f-b16c-d8c744474164_2600x1712.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>O questionamento sobre fazer ou n&#227;o fazer algo &#233; t&#227;o perene, como disse na &#250;ltima postagem, quanto aquele sobre como come&#231;ar. </p><p>Hor&#225;cio, experiente em leituras e na vida, aconselha-nos a iniciar obras liter&#225;rias com um acontecimento num ponto de tens&#227;o, antes da explos&#227;o que colocar&#225; em movimento o enredo. Assim, plantam-se potencialidades e suas causas tornam-se objeto da curiosidade. </p><p>Os grandes &#233;picos mostram o acerto desse conselho; e a nossa vida, pois quem negaria que ouvir uma perip&#233;cia pela metade estimula o desejo de conhecer suas causas?</p><p>Adaptando esse preceito aos ensaios daqui, escreverei <em>in medias res</em>: a partir de experi&#234;ncias minhas com obras, e n&#227;o pela exposi&#231;&#227;o pr&#233;via dos fundamentos filos&#243;ficos dos objetos com que trabalho. A alguns, faltar&#227;o refer&#234;ncias, a outros, pressupostos; a todos, disponho-me a indicar leituras para aprofundamento quando surgir interesse, especialmente em filosofia da educa&#231;&#227;o, objeto de minha pesquisa de doutorado.</p><p>Voltando aos in&#237;cios, o tema deste ensaio adv&#233;m de passagens magistrais do primeiro grande &#233;pico ocidental, a <em>Il&#237;ada</em>, obra que releio nesses dias. </p><p>Parto do suposto de que sua linha condutora s&#227;o as causas e as consequ&#234;ncias da ira de Aquiles. Ela nasce de uma escolha existencial do her&#243;i: vida curta, mas gl&#243;ria eterna pelos feitos; e tudo o que o afasta dessa via &#233; combatido. Embora a honra devida &#224; grandeza do her&#243;i seja central &#224; obra, tamb&#233;m o &#233; a forma&#231;&#227;o do seu <em>car&#225;ter.</em></p><p>Essa palavra t&#227;o repetida em nossos dias me chamou aten&#231;&#227;o durante o mestrado, quando li um coment&#225;rio &#224; <em>&#201;tica </em>de Arist&#243;teles, pois provavelmente prov&#233;m de um verbo grego cujo significado &#233; gravar, entalhar, estampar. De fato, o car&#225;ter de cada um se forma pelo que &#233; esculpido na alma. O <em>como </em>esculpir e <em>o que </em>esculpir constituem nosso conhecimento, art&#237;stico e cient&#237;fico, e nosso modo de agir em determinadas circunst&#226;ncias, virtudes e v&#237;cios.</p><p>O ideal de forma&#231;&#227;o varia, em maior ou menor grau, entre civiliza&#231;&#245;es, embora conserve pontos de encontro, pois a natureza humana n&#227;o muda. </p><p>Uma das primeiras imagens da educa&#231;&#227;o, se n&#227;o a primeira, &#233; apresentada pelo mestre de Aquiles, Fenice ao mencionar que o pai do her&#243;i, prop&#244;s-lhe que ensinasse ao filho &#8220;como dizer bons discursos e grandes a&#231;&#245;es p&#244;r em pr&#225;tica&#8221; (IX, 443). </p><p>Al&#233;m disso, a tradi&#231;&#227;o liter&#225;ria conta que houve tamb&#233;m outro pedagogo na vida do Pelida, Qu&#237;ron, o centauro, que lhe ensinou a arte da medicina, a da m&#250;sica; na <em>Il&#237;ada</em>, isso &#233; ressaltado em refer&#234;ncias ao conhecimento medicinal e musical de Aquiles.</p><p>De algum modo, os elementos que formam o car&#225;ter de Aquiles s&#227;o apresentados como os bens conquistados (se &#233; que posso usar esse verbo aqui) pelo homem ideal, os quais seriam tais: sa&#250;de f&#237;sica; a adequa&#231;&#227;o do estado de &#226;nimo &#224;s circunst&#226;ncias pela m&#250;sica; luta; convencimento; e a&#231;&#227;o orientada ao justo meio (acrescentaria, ainda, um conhecimento nutricional, especialmente se se considerar o epis&#243;dio da <em>Odisseia</em> em que o &#8220;whey&#8221; &#233; mencionado (<em>v. </em>XVII, 225).</p><p>Antes da educa&#231;&#227;o apresentada na <em>Rep&#250;blica </em>de Plat&#227;o, obra pedag&#243;gica por excel&#234;ncia, h&#225; um come&#231;o no meio de tantos acontecimentos da <em>Il&#237;ada</em>, que nos exp&#245;e um ideal de excel&#234;ncia humana e vias de forma&#231;&#227;o para alcan&#231;&#225;-lo. &#201; uma chave de leitura, parece-me, para entender a justa gl&#243;ria devida a Aquiles, bem como as consequ&#234;ncias, por vezes extravagantes, de seu &#237;mpeto.</p><p>Aqui est&#225; um come&#231;o sobre o tema da educa&#231;&#227;o nas grandes obras, n&#227;o desde o princ&#237;pio, mas pr&#243;ximo &#224; tens&#227;o central do poema. Seguindo Hor&#225;cio, parece ser um ponto de partida interessante.</p><p>E, no entanto, nada disso se compara &#224; obra do pr&#243;prio Homero. Se ainda n&#227;o a conheces, toma-a e l&#234;.</p><p>At&#233; o pr&#243;ximo texto.</p><p></p><ul><li><p>Sobre a <em>Il&#237;ada</em>, tamb&#233;m gravei o seguinte v&#237;deo: </p><div id="youtube2-LOxskgjKGaE" class="youtube-wrap" data-attrs="{&quot;videoId&quot;:&quot;LOxskgjKGaE&quot;,&quot;startTime&quot;:null,&quot;endTime&quot;:null}" data-component-name="Youtube2ToDOM"><div class="youtube-inner"><iframe src="https://www.youtube-nocookie.com/embed/LOxskgjKGaE?rel=0&amp;autoplay=0&amp;showinfo=0&amp;enablejsapi=0" frameborder="0" loading="lazy" gesture="media" allow="autoplay; fullscreen" allowautoplay="true" allowfullscreen="true" width="728" height="409"></iframe></div></div></li><li><p>E sobre como ler melhor os cl&#225;ssicos liter&#225;rios:</p><div id="youtube2-o9tDLbHyXKE" class="youtube-wrap" data-attrs="{&quot;videoId&quot;:&quot;o9tDLbHyXKE&quot;,&quot;startTime&quot;:null,&quot;endTime&quot;:null}" data-component-name="Youtube2ToDOM"><div class="youtube-inner"><iframe src="https://www.youtube-nocookie.com/embed/o9tDLbHyXKE?rel=0&amp;autoplay=0&amp;showinfo=0&amp;enablejsapi=0" frameborder="0" loading="lazy" gesture="media" allow="autoplay; fullscreen" allowautoplay="true" allowfullscreen="true" width="728" height="409"></iframe></div></div></li></ul><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://isvpompeu.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption"></p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Eloquar an sileam?]]></title><description><![CDATA[(Falarei ou me calarei?)]]></description><link>https://isvpompeu.substack.com/p/eloquar-an-sileam</link><guid isPermaLink="false">https://isvpompeu.substack.com/p/eloquar-an-sileam</guid><dc:creator><![CDATA[Ian Pompeu]]></dc:creator><pubDate>Tue, 10 Feb 2026 16:00:50 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!7mLB!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc2373990-5cb7-46a9-bd48-bbed7ec1b5b0_680x378.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" 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interroga&#231;&#227;o ret&#243;rica extra&#237;da da <em>Eneida</em>, as palavras do t&#237;tulo, mas a transforma em d&#250;vida verdadeira, pois, da mais alta criatura de Deus, as demais n&#227;o podem aproximar-se com p&#233;s sujos nem com l&#237;nguas e penas indignas. Retornando aos seus, nosso escritor termina um extenso poema &#224; Virgem Maria, e n&#227;o sem outras refer&#234;ncias &#224;s grandes obras que traz no cora&#231;&#227;o.</p><p>O prisioneiro dos tamoios foi canonizado e marcou o povo brasileiro com seu exemplo: tornou-se S&#227;o Jos&#233; de Anchieta, cujo &#237;mpeto mission&#225;rio, piedade e erudi&#231;&#227;o refletem a m&#225;xima de vida inaciana <em>ad maiorem Dei gloriam</em>.</p><p>A hesita&#231;&#227;o do <em>eloquar an sileam</em> &#233; mais perene que o bronze; ao retirar da alma as impress&#245;es que trazemos, inumer&#225;veis podem ser as consequ&#234;ncias: palavras capazes de grande j&#250;bilo ou m&#225;goa, uni&#227;o de cora&#231;&#245;es ou disc&#243;rdia, ensino ou perda de tempo. Por isso, em geral, tendo a calar-me. </p><p>Contudo, pela constante transfer&#234;ncia aos textos do que viu e viveu, um homem como Hor&#225;cio &#8211; e C&#233;sar &#8211; venceu a devoradora sucess&#227;o do tempo e legou-nos um monumento liter&#225;rio mais alto do que as pir&#226;mides e do que qualquer arranha-c&#233;u.</p><p>&#201; bem verdade, tamb&#233;m, que viajamos, ao longo dos &#250;ltimos s&#233;culos, para t&#227;o longe dos escritores cl&#225;ssicos. A grandeza de um objetivo, por&#233;m, n&#227;o deve paralisar-nos na busca, mas desafiar-nos a alcan&#231;&#225;-lo. </p><p>De minha parte, estarei satisfeito se meu trabalho servir para conduzir os amantes da sabedoria &#224;quelas fontes, mais espl&#234;ndidas que o vidro, donde jorra a sabedoria desejada por nossa natureza. </p><p>Participar do banquete em que os grandes autores conversam entre si &#233; o meio pelo qual o esp&#237;rito humano se prepara para al&#231;ar voo em dire&#231;&#227;o &#224; Verdade, aonde devemos ir para repousar com g&#225;udio. S&#227;o Jos&#233; n&#227;o abandonou o dom recebido dos autores: incorporou-o &#224; vida. </p><p>Por isso volto a escrever e a falar-lhes aqui sobre os passos que dei, dou e darei na subida ao Monte Parnaso, qui&#231;&#225; haja neles algo digno tamb&#233;m da Jerusal&#233;m eterna. </p><p>Os ensaios tratar&#227;o do que estudo e fa&#231;o: educa&#231;&#227;o cl&#225;ssica, filosofia, artes liberais, latim. </p><p>Espero tornar esta fala um di&#225;logo com quem l&#234;. </p><p><em>Eloquar et audiam.</em></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://isvpompeu.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/isvpompeu.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Carta #18 – Entre o escritório e o mundo]]></title><description><![CDATA[O dilema de quem quer se dedicar aos estudos]]></description><link>https://isvpompeu.substack.com/p/carta-18-entre-o-escritorio-e-o-mundo</link><guid isPermaLink="false">https://isvpompeu.substack.com/p/carta-18-entre-o-escritorio-e-o-mundo</guid><dc:creator><![CDATA[Ian Pompeu]]></dc:creator><pubDate>Sun, 31 Aug 2025 19:05:56 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/20fe1189-50df-433b-93e3-d0bf79d00135_854x1019.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p></p><p>Caro leitor,</p><p>Recebi uma mensagem nessa semana com um pedido de ajuda, o qual me fez retornar &#224;s minhas &#250;ltimas anota&#231;&#245;es da <em>Rep&#250;blica</em> de Plat&#227;o.</p><p>A partir delas, refleti sobre o des&#226;nimo de quem come&#231;a a vida intelectual com as exig&#234;ncias da vida pr&#225;tica e resolvi escrever essa carta.</p><p>Confesso que pensar a partir dessa separa&#231;&#227;o de &#8220;vidas&#8221; j&#225; &#233; um problema, mas todos n&#243;s que nos sentamos para ler e escrever fora do hor&#225;rio de expediente passamos por ele.</p><p>Eu ainda o vivo, por isso, a seguir, h&#225; mais do que argumentos de um leitor de Plat&#227;o, h&#225; tamb&#233;m relatos de quem tem dificuldade de descer ao Pireu, aquele porto pr&#243;ximo &#224; cidade de Atenas (em minha cidade, dir&#237;amos ao Ver-o-Peso, como na antiga foto abaixo).</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!K8ME!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F74ddb8d0-10d1-4de1-a4e6-bcda1abb8ec8_640x619.webp" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!K8ME!, /__u/isvpompeu.substack.com/w_424, /__u/isvpompeu.substack.com/c_limit, /__u/isvpompeu.substack.com/f_webp, 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que os trabalhos n&#227;o intelectuais daquele senhor. </p><p>Ele, que fora um bom funcion&#225;rio, teve a alma cada vez mais dividida, podendo quase se colocar no lugar daquele M&#233;tio, o qual teve o corpo separado por cavalos (<em>v. Ab Urbe Condita,</em> T. L&#237;vio). Tendo perdido muitos fios de cabelo, decide-se por assinar a carta de demiss&#227;o e se volta aliviado aos livros; a fam&#237;lia, contudo, sofre.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://isvpompeu.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/isvpompeu.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p>O cerne do pedido de ajuda que recebi pode ser visto nessa anedota, embora os detalhes tenham sido alterados.</p><p>Esse foi o segundo &#8220;pai&#8221; a me pedir conselhos sobre como lidar com a disparidade entre aquelas duas realidades, desde que comecei a dar aulas. Em ambos os casos, &#233; como se aquelas pessoas sa&#237;ssem do teatro ap&#243;s a performance do &#250;ltimo movimento da <em>Nona Sinfonia</em> de Dvo&#345;&#225;k e fossem ao churrasco do clube ouvir <em>Pais e Filhos </em>&#8211; se &#233; que a compara&#231;&#227;o ajuda.</p><p>Ao come&#231;armos a entender algo dos grandes escritores, a sensa&#231;&#227;o de que j&#225; perdemos muito tempo e o dever de bem utiliz&#225;-lo da&#237; em diante &#233; quase un&#226;nime. Promete-se cumprir todas aquelas listas de leitura nos pr&#243;ximos anos e fazer os diversos cursos de filosofia on-line, pois, &#8220;quando o sangue esquenta, [...] a alma &#233; pr&#243;diga em juramentos&#8221; (<em>Hamlet</em>, I-18), os quais deveriam ser escritos n&#8217;&#225;gua corrente.</p><p>Por&#233;m, a conta chega. E a maior cobran&#231;a n&#227;o &#233; financeira, mas dos deveres sociais, dos quais a neglig&#234;ncia custa caro na velhice, e na pr&#243;xima vida.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!vPBe!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F18cb8c4e-5e3f-4058-98cd-3be678af003e_854x1019.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!vPBe!, /__u/isvpompeu.substack.com/w_424, /__u/isvpompeu.substack.com/c_limit, /__u/isvpompeu.substack.com/f_webp, /__u/isvpompeu.substack.com/q_auto:good, /__u/isvpompeu.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F18cb8c4e-5e3f-4058-98cd-3be678af003e_854x1019.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!vPBe!, 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data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/18cb8c4e-5e3f-4058-98cd-3be678af003e_854x1019.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:1019,&quot;width&quot;:854,&quot;resizeWidth&quot;:471,&quot;bytes&quot;:145112,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://isvpompeu.substack.com/i/172423662?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F18cb8c4e-5e3f-4058-98cd-3be678af003e_854x1019.jpeg&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!vPBe!, /__u/isvpompeu.substack.com/w_424, /__u/isvpompeu.substack.com/c_limit, /__u/isvpompeu.substack.com/f_auto, 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Para uma boa resposta, o exemplo de S&#243;crates a partir das primeiras linhas da <em>Rep&#250;blica</em> &#233; preciso. &#8220;Desci ontem ao Pireu juntamente com Glauco, filho de Arist&#227;o, para fazer minhas ora&#231;&#245;es &#224; deusa e tamb&#233;m porque desejava ver como haviam organizado o festival, que pela primeira vez era celebrado.&#8221;</p><p>S&#243;crates, o qual &#233; descrito por Plat&#227;o quase aos moldes dum homem a ser imitado, n&#227;o &#233; nem revolucion&#225;rio nem rom&#226;ntico com o passado, mas est&#225; disposto a continuar a tradi&#231;&#227;o, a n&#227;o negligenciar as exig&#234;ncias de seu tempo e de sua vida, a ouvir os clamores dos seus e at&#233; a morrer para ensin&#225;-los.</p><p>Ap&#243;s tantas descobertas por meio da filosofia, em vez de se fechar em uma seita, continua a andar entre o povo ateniense; embora questione os costumes deles, o faz com rigor argumentativo e suavidade no modo; quando &#233; solicitado, n&#227;o abandona quem dele necessita, embora se recolha constantemente para ter o que falar.</p><p>O problema &#233; que quando exp&#245;e o verdadeiro estado da alma de quem o ouve, a audi&#234;ncia n&#227;o aceita a realidade e o calunia. Por isso, S&#243;crates &#233; quase como a antecipa&#231;&#227;o de Nosso Senhor, como argumenta Peter Kreeft em <em>S&#243;crates e Jesus</em>, sobre o que falarei em outra carta.</p><p>Voltando ao assunto, parece-me que o primeiro passo para superar a tristeza espiritual pela qual somos facilmente tomados ao abrirmos a porta do lugar de estudos &#233; a <em>aten&#231;&#227;o</em> &#224;s pessoas, aos deveres e ao ambiente em que vivemos. As queixas e conversas aparentemente banais, em que participamos quotidianamente, s&#227;o excelentes meios para conhecer as d&#250;vidas profundas dos nossos interlocutores.</p><p>&#201; verdade, nem sempre manteremos a linguagem filos&#243;fica ou t&#233;cnica que nos agrada, ouviremos opini&#245;es das quais discordamos e parecer&#225; desperd&#237;cio do nosso escasso tempo. A t&#237;tulo de exemplo, sempre luto contra esses pensamentos ao come&#231;ar um trabalho para ser exposto em redes sociais ou em nos nossos meios acad&#234;micos.</p><p>Passar por essas contrariedades, entretanto, &#233; um grande presente &#8211; e n&#227;o &#233; de grego, &#243; Laocoontes.</p><p>S&#243;crates, sabendo disso, apresenta uma defesa do papel do fil&#243;sofo e, depois, afirma que t&#227;o grande natureza pode se corromper se se descuidar do aux&#237;lio a polis. Para a primeira parte, apresenta a imagem do comandante afastado do seu posto ap&#243;s os marinheiros, ignorantes da navega&#231;&#227;o, for&#231;arem-lhe a abandonar o posto.</p><blockquote><p>&#8220;[E] apossando-se do barco [...] distinguem com nome de pilotos, marinheiros e conhecedores da arte de navegar todos os comparsas [...] enquanto tacham de in&#250;teis os que nada sabem fazer nesse sentido. N&#227;o t&#234;m a m&#237;nima no&#231;&#227;o de que para ser piloto de verdade &#233; preciso estudar o tempo, as esta&#231;&#245;es e o c&#233;u, bem como os astros e os ventos e tudo quanto cai no &#226;mbito de sua arte, se quiser, de fato, comandar o navio. [...] nunca lhes passou pela cabe&#231;a que [a maneira de governar] possa ser adquirida pelo estudo aliado &#224; pr&#225;tica, juntamente com a arte de navegar. [...] n&#227;o te parece que o piloto de verdade receber&#225; de marinheiros desse porte os ep&#237;tetos de imprest&#225;vel, parlapat&#227;o e contemplador de astros?&#8221; (488C-E)</p></blockquote><p>O preconceito com os fil&#243;sofos n&#227;o &#233; de todo errado, devendo ser criticado no que &#233; justo. Como em alguns exemplos com a l&#243;gica, em que adolescentes &#8220;usam-na &#224; guisa de brinquedo, para rebater a tudo e a todos, e imitando os que os confundem com seus argumentos, p&#245;em empenho, por sua vez, em confundir os outros&#8221; (539B).</p><p>Contudo, essa brincadeira n&#227;o dura muito, pois apenas parece ser capaz de saciar o nosso desejo pela verdade. E &#8220;[&#8230;] facilmente s&#227;o levados a n&#227;o acreditar no que antes aceitavam, sendo esse, precisamente, o motivo de eles e tudo o que se relaciona com a filosofia haverem ca&#237;do tanto no ju&#237;zo da maioria&#8221; (539C).</p><p>Para evitar que essa m&#225; fama se difunda, S&#243;crates prop&#245;e um treinamento ap&#243;s o estudo da filosofia: &#8220;[&#8230;] tu os levar&#225;s de novo para nossa caverna e os obrigar&#225;s a aceitar todos os encargos militares e exercer as fun&#231;&#245;es pr&#243;prias dos mo&#231;os, para que n&#227;o fiquem para tr&#225;s dos outros no que respeita &#224; experi&#234;ncia da vida, o que te ensejar&#225; a oportunidade de verificar se eles resistem &#224;s tenta&#231;&#245;es&#8221; (540A).</p><p>Os tr&#234;s &#250;ltimos trechos est&#227;o localizados ap&#243;s a alegoria da caverna em que termina a proposta da educa&#231;&#227;o necess&#225;ria ao fil&#243;sofo. Ao longo de todo o percurso, h&#225; uma mescla entre vida ativa e vida contemplativa, digamos. O per&#237;odo de retorno &#224; caverna dura quinze anos e, aos cinquenta, poder&#227;o se dedicar &#224; filosofia com maior afinco &#8211; desde que n&#227;o seja necess&#225;rio educar os cidad&#227;os, pois dever&#227;o retornar ao governo, nesse caso.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!djbd!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F30a54a49-18fb-4022-b8a4-cabd6ea09389_3397x3567.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!djbd!, /__u/isvpompeu.substack.com/w_424, /__u/isvpompeu.substack.com/c_limit, /__u/isvpompeu.substack.com/f_webp, /__u/isvpompeu.substack.com/q_auto:good, 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latim, de um idioma moderno, da geometria e do canto desde o come&#231;o da vida intelectual. E, do ponto de vista da vida pr&#225;tica, exigir alguma atividade bra&#231;al.</p><p>A indica&#231;&#227;o daquelas artes se d&#225; por dois motivos: no come&#231;o, humilham-nos, pois nada sabemos, e os resultados s&#243; s&#227;o vistos ap&#243;s muita repeti&#231;&#227;o. A filosofia, por vezes, pode ser mascarada ap&#243;s a memoriza&#231;&#227;o de trechos e dum par de coment&#225;rios. Ap&#243;s ter come&#231;ado a estudar filosofia, passei pelo caminho das disciplinas mencionadas, o que me auxiliou bastante.</p><p>O meu primeiro emprego foi como secret&#225;rio de padres. Devia cuidar da casa, do contato com os fi&#233;is, de algumas finan&#231;as e de burocracias para que os sacramentos fossem garantidos. Ap&#243;s esse emprego, passei um tempo recebendo uma bolsa de inicia&#231;&#227;o cient&#237;fica e, assim que me formei, comecei a trabalhar como advogado no servi&#231;o p&#250;blico.</p><p>Durante esse per&#237;odo, desejava ter mais tempo para estudar; hoje, agrade&#231;o a Deus por n&#227;o t&#234;-lo tido, pois aprendi a aproveitar o pouco que tenho e tantas outras coisas necess&#225;rias para a minha vida em fam&#237;lia.</p><p>As constantes prova&#231;&#245;es s&#227;o semelhantes ao fogo que testa o ouro, como &#233; dito nas Escrituras. O pai que n&#227;o abandona os deveres para com a fam&#237;lia e, mesmo assim, organiza o seu tempo de estudos ou o jovem, o qual passa por um vestibular e pela faculdade, embora encantado pela vida intelectual, merecem honras. Alguns conseguem dispor de mais tempo do que outros para os estudos, mas o que conta &#233; como enfrentamos as circunst&#226;ncias em que estamos.</p><p>Ao responder quem me procurou, apresentei caminhos poss&#237;veis para esses estudos sem o abandono de outros deveres. Caso n&#227;o nos adaptemos, a vida nos cobrar&#225; por sabermos apenas o superficial ou por ignorarmos como nos virar diante dos reveses. Se assim procedermos, o julgamento de fil&#243;sofos como in&#250;til n&#227;o passar&#225; de ignor&#226;ncia.</p><blockquote><p>&#8220;N&#227;o faz parte da natureza das coisas implorar o piloto aos marinheiros que aceitem sua dire&#231;&#227;o, nem postarem-se os s&#225;bios &#224; porta dos ricos. [...] N&#227;o andar&#225;s muito longe da verdade, se comparares os pol&#237;ticos do nosso tempo aos marinheiros a que h&#225; pouco nos referimos, e com o verdadeiro piloto os que eram chamados pelos marinheiros de in&#250;teis e contempladores dos astros&#8221; (489B-C).</p></blockquote><div><hr></div><p>O brilho do trabalho intelectual pode nos cegar a ponto de menosprezarmos o que n&#227;o lhe diz respeito.</p><p>Contudo, n&#227;o nos tornarmos mais humanos dessa forma, e sim nos desumanizamos desprezando os deveres sociais. Uni-los &#224; vida de estudos &#233; o desafio do ser humano de todos os tempos e, desse modo de dedica&#231;&#227;o, sair&#225; maior alegria, pois os nossos tamb&#233;m ser&#227;o beneficiados do tempo solit&#225;rio com os grandes escritores.</p><p>Para melhor enfrentar essas tenta&#231;&#245;es, portanto, sugiro o estudo de l&#237;nguas &#8211; n&#227;o podendo faltar o latim &#8211; da geometria e do canto, assim como de um trabalho manual. Desse modo, iremos nos afastar das cr&#237;ticas justas e bem desenvolver o conhecimento filos&#243;fico.</p><p>Espero que a carta tenha te ajudado; aguardo poss&#237;veis coment&#225;rios, pois sei que entre o escrit&#243;rio e o mundo h&#225; mais do que sup&#245;e a nossa filosofia. </p><p>At&#233; a pr&#243;xima postagem,</p><p>Ian Pompeu</p><p></p><p>Obs: A tradu&#231;&#227;o de <em>Hamlet</em> utilizada foi a de F. Carlos Medeiros e Oscar Mendes e a da <em>Rep&#250;blica</em> de Carlos Alberto Nunes. </p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://substack.com/@isvpompeu/note/p-172423662&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Leave a comment&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/substack.com/@isvpompeu/note/p-172423662"><span>Leave a comment</span></a></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Carta #17 - Ler e não entender é negligenciar]]></title><description><![CDATA[Entre Santo In&#225;cio de Loyola e Shakespeare]]></description><link>https://isvpompeu.substack.com/p/carta-17-ler-e-nao-entender-e-negligenciar</link><guid isPermaLink="false">https://isvpompeu.substack.com/p/carta-17-ler-e-nao-entender-e-negligenciar</guid><dc:creator><![CDATA[Ian Pompeu]]></dc:creator><pubDate>Sun, 01 Jun 2025 20:22:46 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/1b26ce30-3433-438a-8e06-c4d0cdec5749_599x430.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Caro leitor,</p><p>diz-se acertadamente que os cl&#225;ssicos s&#227;o inesgot&#225;veis; parece-me, por&#233;m, que dever&#237;amos l&#234;-los como se n&#227;o o fossem.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://isvpompeu.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Esse conselho lembra aquela exorta&#231;&#227;o atribu&#237;da por um bi&#243;grafo a Santo In&#225;cio de Loyola: age como se tudo dependesse de ti, sabendo bem que, na realidade, tudo depende de Deus.</p><h2><strong>1. Superando os primeiros desafios</strong></h2><p>Depois de descobrirmos que nossos sentidos captam o come&#231;o do conhecimento poss&#237;vel sobre a realidade, e de que h&#225; uma ordena&#231;&#227;o interna nas disciplinas, deparamo-nos com o obst&#225;culo dos livros exigentes.</p><p>A <em>Il&#237;ada</em> de Homero n&#227;o deleita facilmente quem se acostumou &#224; linguagem dos <em>bestsellers</em> contempor&#226;neos e postagens em redes sociais. O <em>&#211;rganon</em>, menos ainda.</p><p>Mas talvez j&#225; tenhas percebido que h&#225; alegria profunda em perseverar naquilo que a princ&#237;pio parece tedioso.</p><p>Ou&#231;o alunos dizerem: &#8220;Acho que entendi em parte, mas, com releituras, entenderei melhor&#8221;. &#201; verdade. Provavelmente entender&#227;o. Comigo foi assim com Arist&#243;teles.</p><p>Por&#233;m, n&#227;o nos enganemos: o refinamento de tais obras n&#227;o pode servir de desculpa &#224; falta de generosidade. Tampouco ao contentamento com lampejos de entendimento. Mesmo estando no come&#231;o da vida de estudos, &#233; necess&#225;rio aprender a dar conta &#8211; com clareza e ordem &#8211; do que j&#225; se aprendeu.</p><p>Nesse sentido, exijo de mim e de meus alunos ao menos a reconstru&#231;&#227;o dos argumentos lidos, bem como saber por que estudamos o que estudamos. Precisamos afirmar: &#8220;aprendi o que podia com o tempo dispon&#237;vel e as minhas habilidades&#8221;.</p><h2><strong>2. Shakespeare e a entrega total</strong></h2><p>Para ilustrar, proponho-te um passeio ao V&#234;neto.</p><p>Em <em>O Mercador de Veneza</em>, Shakespeare repete esculpindo, no Ato II, Cena 7, o prov&#233;rbio: &#8220;Nem tudo o que reluz &#233; ouro.&#8221;</p><p>O contexto em que isso acontece &#233; de um enigma cujo resolvedor poder&#225; se casar com a formosa e virtuos&#237;ssima P&#243;rcia. Dentre os seus pretendentes, Bass&#226;nio, um dos personagens principais, reflete sobre como conseguir&#225; tal feito.</p><p>Homens ilustres de v&#225;rios cantos do mundo a procuram por causa de seus dotes espirituais, f&#237;sicos e financeiros.</p><p>Contudo, como os pais prudentes sabem que filhas belas podem ser causas de cat&#225;strofes, o finado genitor daquela mo&#231;a prop&#245;e um desafio: diante de tr&#234;s ba&#250;s, um com ouro, outro com prata e o &#250;ltimo com bronze, o homem que escolher corretamente receber&#225; o pr&#234;mio predito.</p><p>A mencionada cena e as seguintes apresentam tr&#234;s pretendentes: um pr&#237;ncipe do Marrocos, um de Arag&#227;o e Bass&#226;nio. Cada um adentra &#224; sala em que poder&#227;o fazer a escolha sozinho. Ao visualizarem os ba&#250;s, notam que cada um &#233; feito de um material e que ostenta uma frase.</p><p>O de ouro: &#8220;quem me escolher ganhar&#225; o que muitos homens desejam&#8221;; o de prata: &#8220;&#180;quem me escolher receber&#225; tanto quanto merece&#8221;; e o de chumbo: &#8220;quem me escolher tem que dar e arriscar tudo o que tem.&#8221;</p><p>Os dois primeiros pretendentes, confiantes no valor aparente ou na justi&#231;a da pr&#243;pria causa, fracassam. O conte&#250;do dos ba&#250;s os ridiculariza com versos que exp&#245;em sua vaidade, dizendo respectivamente:</p><div class="pullquote"><p>&#8220;Nem tudo o que brilha &#233; ouro,/Muitas vezes ouviste dizer./A vida muitos foram vender,/S&#243; para me terem no exterior./Vivem os vermes em campa dourada./Se fosses t&#227;o s&#225;bio quanto ousado,/Jovem nos membros, velho no ju&#237;zo/A resposta n&#227;o teria este teor:/Boa viagem: frio &#233; o teu amor.&#8221;</p></div><div class="pullquote"><p>&#8220;O fogo sete vezes isto tentou/Sete vezes o julgamento tentou,/E nunca errado julgou./Alguns h&#225; que beijam as sombras/E ficam s&#243; com a sombra de uma b&#234;n&#231;&#227;o./H&#225; bobos vivos, sei-o bem/Prateados por fora, como este assim./Qualquer a esposa que para a cama levares,/Na cabe&#231;a levas-me sempre a mim./Por isso vai-te: &#233; melhor desaparec&#234;res./Ainda mais bobo eu parecerei/Quanto mais tempo por aqui me ficar/Com cabe&#231;a de bobo vim cortejar,/Mas com duas delas agora partirei./Minha querida, <em>adieu</em>, manterei o meu juramento,/Pacientemente suportarei a minha ira.&#8221;</p></div><p>Quem d&#8217;ouro sente fome, quanto mais come menos saciado fica; acaba-se, portanto, desnutrido. O desejo de ostentar o conhecimento turba a alma impedindo-a de prosseguir nos estudos. Desse modo, o ju&#237;zo se torna frio e fraco. Os homens todos desejam a sabedoria, mas mais pelas honras aos s&#225;bios do que por amor &#224; verdade. Receber&#227;o, por isso, um pr&#234;mio &#224; altura.</p><p>Al&#233;m disso, aquele que se achava merecedor de muito, acabou com uma apar&#234;ncia do que queria, a sombra de uma b&#234;n&#231;&#227;o. Por isso, ficar&#225; com duas cabe&#231;as de bobo: a sua e a do ba&#250;.</p><p>J&#225; Bass&#226;nio, movido por amor verdadeiro e desprendimento, escolhe o chumbo. L&#234; com humildade os versos que lhe premiam com a esposa: </p><div class="pullquote"><p>&#8220;tu que pelas apar&#234;ncias n&#227;o escolhes,/escolheste t&#227;o bem e t&#227;o bem soubeste ousar!/Dado que esta fortuna te cabe e a colhes,/Fica satisfeito e outra nova n&#227;o v&#225;s procurar,/Se com esta agradado ficares/E como a tua b&#234;n&#231;&#227;o a considerares/Vira-te para onde est&#225; a tua dama/E com um beijo de amor reclama-a.&#8221;</p></div><h2><strong>3. A miss&#227;o intelectual e seu pre&#231;o</strong></h2><p>Da mesma forma, os que buscam o conhecimento apenas por honra receber&#227;o a caveira e o bobo da corte. A sabedoria, como P&#243;rcia, exige que se arrisque tudo &#8211; tempo, aten&#231;&#227;o, humildade.</p><p>Midas morreu de fome, cercado de ouro. O estudante vaidoso morre intelectualmente, inchado da ci&#234;ncia sem caridade.</p><p>Somente quem despreza o ouro sabe us&#225;-lo. Da mesma forma, apenas quem ama a verdade &#233; digno da ci&#234;ncia.</p><p>A vida intelectual exige tudo o que temos para nos apresentar &#224; Sabedoria. Com as nossas for&#231;as, devemos ler e entender, a partir do que uma nova miss&#227;o se impor&#225;: divulgar e defender a Verdade.</p><p>Percebendo a import&#226;ncia de aproveitar o que temos agora, falavam os latinos &#8220;legere et non intellegere neglegere est&#8221; [ler e n&#227;o entender &#233; n&#227;o ler, de onde adv&#233;m negligenciar].</p><p>Eis a&#237; a liga&#231;&#227;o com o conselho de Santo In&#225;cio: estudar como se tudo dependesse de n&#243;s, sabendo que a vit&#243;ria depende de Deus.</p><p>Esta reflex&#227;o me ajudou a sair de um estado de sonol&#234;ncia intelectual e entrar em outro, de progresso vis&#237;vel. Que ela te ajude tamb&#233;m.</p><p>At&#233; a pr&#243;xima.</p><p>Ian Pompeu</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://isvpompeu.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! 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Para desvelar a realidade ou para te apresentar como s&#225;bio? Por amor &#224; sabedoria ou por amor &#224;s honras? Para responder &#224;s quest&#245;es que te incomodam ou para comprovar as ideias que j&#225; tens?</p><p>Ao longo do crescimento de nosso organismo intelectual, &#233; comum nos esquecermos das nossas primeiras inten&#231;&#245;es. Os v&#225;rios dias em que fizemos as nossas leituras, anotamos pontos importantes e escrevemos resumos podem evaporar o que parecia outrora firme em nossa vontade. A decis&#227;o de buscar a sabedoria durou o quanto durou a nossa mem&#243;ria.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://isvpompeu.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/isvpompeu.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p>Embora uma vida s&#233;ria de estudos seja valiosa, a repeti&#231;&#227;o dos atos que a formam tamb&#233;m podem empoeirar a bela joia que manejamos. Deixamos, assim, de enxergar a real import&#226;ncia do que fazemos e os motivos que continuam a nos influenciar se tornam contaminados pelo que &#233; secund&#225;rio na vida de estudos: os estere&#243;tipos externos &#8211; e no Brasil eles s&#227;o abundantes; os louros e louvores; e a pregui&#231;a mental disfar&#231;ada por uma obra pr&#233;-fabricada &#8211; quantos artigos acad&#234;micos j&#225; escrevi assim?</p><p>N&#227;o nego que houve um momento em que come&#231;amos a estudar por causa do espanto e do maravilhamento simult&#226;neos diante da nossa ignor&#226;ncia. Ou seja, vimos que pouco sab&#237;amos sobre uma &#237;nfima parte do mundo; que n&#227;o ser aquilo ao qual fomos chamados enquanto seres humanos seria triste e vergonhoso; que h&#225; uma hierarquia &#8211; um princ&#237;pio sagrado enquanto crit&#233;rio &#8211; para ordenar o que pode ser conhecido.</p><p>Aquelas s&#227;o as notas do espanto donde o amor &#224; sabedoria prov&#233;m: paix&#227;o, consci&#234;ncia da ignor&#226;ncia, rever&#234;ncia e temor pelo objeto a ser conhecido. Entretanto, n&#243;s as escrevemos n&#8217;&#225;gua corrente e, aos poucos, o espanto filos&#243;fico se transforma em falta de generosidade com as leituras necess&#225;rias, dispers&#245;es excessivas, repeti&#231;&#245;es n&#227;o refletidas.</p><p>Quando as consequ&#234;ncias se tornam mais importantes do que o bem buscado &#8211; o conhecimento &#8211; desumanizamos a a&#231;&#227;o que deveria ser essencial aos homens. A p&#233;rola foi jogada aos porcos. Facilmente uma &#233;tica das virtudes se torna consequencialismo pr&#225;tico.</p><p>A fim de nos munirmos contra isso, sugiro teres livros que te convidem a uma medita&#231;&#227;o sobre o que &#233; a vida de estudos, como <em>Apologia de S&#243;crates, </em>livro VII da <em>Rep&#250;blica</em>, livros I e X da <em>&#201;tica a Nic&#244;maco </em>e os<em> Coment&#225;rios </em>de S&#227;o Tom&#225;s, <em>Consola&#231;&#227;o da filosofia</em>, livros I &#8211; IX das <em>Confiss&#245;es</em>, <em>Didasc&#225;licon</em>, <em>Metalogicon, </em>canto IV do Inferno da <em>Divina Com&#233;dia</em>, enc&#237;clica <em>Aeterni Patris, </em>Conselhos<em> para a dire&#231;&#227;o do esp&#237;rito</em>, <em>Vida Intelectual</em>.</p><p>Eis a&#237; mais um exame de consci&#234;ncia compartilhado, o qual acompanha a vida de quem busca ser um bom escravo da verdade, pois o v&#237;cio tamb&#233;m quer nos adquirir, prometendo-nos a via larga.</p><p>Quais as tuas motiva&#231;&#245;es para os estudos? Quais as tuas obras para medita&#231;&#227;o? O que achaste dessa reflex&#227;o? Penso que podemos trocar boas ideias a respeito disso.</p><p>At&#233; a pr&#243;xima.</p><p>Ian Pompeu</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://isvpompeu.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/isvpompeu.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Carta #15 - A impossibilidade da transmissão direta da ciência e a mediação do magistério]]></title><description><![CDATA[Com base nas obras hom&#244;nimas de dois dos maiores doutores da Igreja, esta carta prop&#245;e uma an&#225;lise dos limites intr&#237;nsecos ao ato de ensinar.]]></description><link>https://isvpompeu.substack.com/p/a-impossibilidade-da-transmissao</link><guid isPermaLink="false">https://isvpompeu.substack.com/p/a-impossibilidade-da-transmissao</guid><dc:creator><![CDATA[Ian Pompeu]]></dc:creator><pubDate>Sun, 13 Apr 2025 21:12:07 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!aIy_!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe7c85de2-5f77-4f1d-a772-c53510c23b69_1250x600.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!aIy_!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe7c85de2-5f77-4f1d-a772-c53510c23b69_1250x600.webp" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!aIy_!, /__u/isvpompeu.substack.com/w_424, 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Mais do que uma fun&#231;&#227;o t&#233;cnica, o magist&#233;rio &#233; uma a&#231;&#227;o mediada por signos e amor.</p><p> </p><p>Caro leitor,</p><p></p><p>Nas &#250;ltimas semanas, passei algumas horas lendo e discutindo as obras hom&#244;nimas de Santo Agostinho e S&#227;o Tom&#225;s de Aquino, <em>De Magistro</em>, o que me rendeu uma prol&#237;fica reflex&#227;o sobre o meu trabalho.</p><p></p><p>Ao propormo-nos a ministrar uma disciplina, &#233; necess&#225;rio possuir certo dom&#237;nio sobre ela. Supomos, ent&#227;o, que transmitiremos o conhecimento real das coisas que aprendemos &#8212; pressupondo que o professor n&#227;o se limita a repetir palavras memorizadas, mas realmente refletiu sobre as causas dos objetos estudados, ou possui a t&#233;cnica a ser transmitida.</p><p></p><p>Infelizmente, por&#233;m, n&#227;o somos capazes de penetrar a mente dos alunos para transmitir-lhes diretamente o que desejamos que aprendam. Os livros que lemos, os textos que escrevemos, as discuss&#245;es das quais participamos, enfim, nenhum desses meios nos permite abrir a cabe&#231;a de um aluno e nela depositar a riqueza contemplada. Nem mesmo com os instrumentos mais prol&#237;ficos e sofisticados conseguiremos faz&#234;-lo.</p><p></p><p>Plat&#227;o j&#225; nos havia advertido sobre isso na <em>Rep&#250;blica</em> VII &#8212; novamente, a Alegoria da Caverna. O professor &#233; incapaz de dar vis&#227;o a olhos cegos; cabe-lhe, antes, reconduzir o olhar do aluno &#224; dire&#231;&#227;o correta. Essa recondu&#231;&#227;o, por&#233;m, depende de que o aluno possua tr&#234;s elementos, conforme entendo a partir de minha leitura do Didascalicon: (1) capacidade ativa para aprender; (2) meios adequados; e (3) vontade.</p><p></p><p>O primeiro parece sempre garantido. No entanto, j&#225; conheci crian&#231;as que, embora parecessem intelectualmente aptas, apresentavam condi&#231;&#245;es que lhes impediam de compreender integralmente os s&#237;mbolos propostos pelo professor &#8212; casos que exigem tratamento espec&#237;fico. N&#227;o s&#243; crian&#231;as, entretanto, pois, no cen&#225;rio pedag&#243;gico atual, marcado pela aus&#234;ncia de forma&#231;&#227;o adequada e pelo tamanho excessivo das turmas, n&#227;o &#233; surpreendente que adultos cheguem &#224; universidade sem jamais terem sido examinados quanto a impedimentos s&#233;rios &#224; aprendizagem.</p><p></p><p>Suspeito, ainda, que certos v&#237;cios sejam capazes de impedir o funcionamento necess&#225;rio do nosso aparato cognitivo, gerando distra&#231;&#245;es e neuroses variadas &#8212; ponto muito bem explorado pelo Prof. Sidney Silveira na <em>Cosmogonia da Desordem</em>.</p><p></p><p>S&#227;o Tom&#225;s, na j&#225; mencionada obra, oferece-nos uma li&#231;&#227;o <em>ut magister</em> ao aplicar ao intelecto a distin&#231;&#227;o entre pot&#234;ncia ativa completa e pot&#234;ncia passiva. O intelecto humano, assim como o corpo enfermo, disp&#245;e de recursos internos para restaurar-se. Ao constatar sua pr&#243;pria ignor&#226;ncia, o homem &#233; capaz de iniciar, por si mesmo, uma investiga&#231;&#227;o &#8212; e, quando essa investiga&#231;&#227;o alcan&#231;a &#234;xito, chamamo-la de descoberta.</p><p></p><p>Ambos, por&#233;m, o doente e o ignorante, podem ser auxiliados por algu&#233;m de fora: o m&#233;dico, no primeiro caso; o mestre, no segundo. Cada um fornece meios pelos quais a capacidade interna possa operar mais eficientemente rumo &#224; sa&#250;de ou &#224; ci&#234;ncia.</p><p></p><p>Em suma, diferentemente de uma pot&#234;ncia passiva &#8212; que depende de est&#237;mulo externo para ser atualizada &#8212; o nosso intelecto &#233; capaz de iniciar, por si, um processo de investiga&#231;&#227;o. Contudo, o risco de erro ou frustra&#231;&#227;o &#233; elevado. Por isso, subimos nos ombros de gigantes e estudamos l&#243;gica, que arma a raz&#227;o com os instrumentos necess&#225;rios para alcan&#231;ar a verdade de modo ordenado, f&#225;cil e seguro, como ensina Aquino no <em>Coment&#225;rio aos Anal&#237;ticos Posteriores</em>.</p><p></p><p>Quanto ao segundo ponto, admitindo que aprendemos por meio de signos &#8212; como as palavras &#8212; a fun&#231;&#227;o do professor &#233; apresentar aqueles signos cujo significado &#233; a pr&#243;pria coisa a ser ensinada. A palavra &#8220;ensinar&#8221;, ali&#225;s, est&#225; ligada ao ato de &#8220;dar signos&#8221; (<em>signare</em>), o que corresponde ao sentido literal do trabalho de um mestre.</p><p></p><p>J&#225; a palavra &#8220;educar&#8221;, ao significar &#8220;conduzir para fora&#8221; (<em>educere</em>), comporta um sentido ao mesmo tempo aleg&#243;rico e concreto. Serve bem &#224; ideia do que o mestre pode fazer por seus disc&#237;pulos: apresentar-lhes signos simples ou complexos, como os racioc&#237;nios, com os quais cada um dever&#225; trilhar por si o caminho do conhecimento.</p><p></p><p>&#201; verdade que a an&#225;lise l&#243;gica se assemelha &#224; imagem de um raio-x &#8212; &#250;til, mas limitada. H&#225; muito mais que o professor pode fazer. Talvez, aqui resida um ponto indispens&#225;vel &#224; nossa medita&#231;&#227;o.</p><p></p><p>Em latim, usamos <em>recitare</em> para se referir ao ato de dar aula. Assim como a poesia pode mover os &#226;nimos por meio da sonoridade e da escolha das palavras, o professor tamb&#233;m pode tocar os cora&#231;&#245;es de seus alunos com a paix&#227;o que demonstra pela disciplina ensinada.</p><p></p><p>E talvez esse seja o mais eficaz de todos os seus recursos. Pois quem aprende a amar, busca o conhecimento sem se cansar.</p><p></p><p>Chegamos, assim, ao ponto derradeiro: quem n&#227;o quer aprender, n&#227;o pode ser ensinado &#8212; ainda que se o obrigue a frequentar infinitas aulas. A maravilha do livre-arb&#237;trio pesa sobre pais e mestres, que &#224;s vezes sonham com um mundo no qual o conhecimento possa ser transmitido diretamente do mestre ao disc&#237;pulo. Mas a realidade n&#227;o &#233; assim, e n&#227;o vale a pena alimentarmos tais ilus&#245;es.</p><p></p><p>Que saibamos, portanto, enfrent&#225;-la. E o que isso exige? Amar tanto o que se ensina a ponto de torn&#225;-lo digno, aos olhos dos alunos, de sua aten&#231;&#227;o e esfor&#231;o.</p><p></p><p>Isso, por&#233;m, n&#227;o &#233; simples. Primeiro, o professor &#233; admirado em seu esfor&#231;o para aprender. Depois, percebe-se que esse trabalho deve ser imitado &#8212; e, quem sabe, superado.</p><p></p><p>Meus amigos professores, sede generosos com vossos alunos, ainda que tal generosidade n&#227;o seja plenamente recompensada nesta vida. Como diz um professor meu, somos como um tapete sobre o qual os alunos pisam, confortavelmente, a caminho do conhecimento.</p><p></p><p>Se o ensino for fruto do amor &#224; realidade estudada, reconhecida como dom divino, o des&#226;nimo n&#227;o vos abater&#225; &#8212; mesmo que, vez por outra, bata &#224;s vossas portas.</p><p></p><p>Caros alunos, sabei que sois uma das maiores preocupa&#231;&#245;es dos bons mestres. Estes, por vezes, buscam com esfor&#231;o incalcul&#225;vel os meios para vos ajudar. E o que verdadeiramente desejam &#233; que vos torneis mais s&#225;bios do que eles, a ponto de suas li&#231;&#245;es vos serem um dia desnecess&#225;rias.</p><p></p><p>Que essas reflex&#245;es vos ajudem.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Carta #14 - Uma experiência com o estudo da lógica]]></title><description><![CDATA[Para que n&#227;o tenhas de viv&#234;-la]]></description><link>https://isvpompeu.substack.com/p/carta-14-uma-experiencia-com-o-estudo</link><guid isPermaLink="false">https://isvpompeu.substack.com/p/carta-14-uma-experiencia-com-o-estudo</guid><dc:creator><![CDATA[Ian Pompeu]]></dc:creator><pubDate>Sun, 09 Mar 2025 21:22:03 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/0f30e4aa-104a-4ac1-9463-cdadb1929676_772x1132.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><em>Ioannes Pompeu lectorem suum salvere iubet.</em></p><p>Caro leitor,</p><p>No &#250;ltimo s&#225;bado, senti-me desafiado a escrever esta carta a partir de uma provoca&#231;&#227;o de um professor.</p><p>Ele perguntou &#224; turma quais eram as consequ&#234;ncias pedag&#243;gicas de um texto que discut&#237;amos sobre a mem&#243;ria. Essa quest&#227;o n&#227;o surgiu por acaso: partia de uma preocupa&#231;&#227;o com o m&#233;todo de ensino baseado em uma vis&#227;o antropol&#243;gica da natureza humana.</p><p>Ao refletir sobre isso, voltei-me para o curso de L&#243;gica que ministro com o Prof. Jean Guerreiro, fundamentado em Arist&#243;teles e nos grandes comentadores medievais.</p><p>Este texto serve de complemento ao seguinte <a href="https://youtu.be/Nol9VCZqlUM?si=JCNNiq7Sg4OD3TmF">v&#237;deo</a>.</p><h2>1. Modos de estudar a l&#243;gica a partir da defini&#231;&#227;o</h2><p>A quest&#227;o que pretendo esclarecer surge da intrigante afirma&#231;&#227;o de que a l&#243;gica &#233;, ao mesmo tempo, uma arte e uma ci&#234;ncia. Para que sua compreens&#227;o e memoriza&#231;&#227;o se tornem mais f&#225;ceis, utilizarei uma compara&#231;&#227;o pedag&#243;gica.</p><p>A alguns, pode parecer uma disputa meramente terminol&#243;gica, uma querela sobre r&#243;tulos. Mas o modo de estudar a l&#243;gica depende radicalmente da categoria em que a inserimos.</p><p>Costumo dizer aos meus alunos que estudar sobre a l&#243;gica n&#227;o significa adquiri-la.</p><p>Ter um mapa do tesouro n&#227;o significa possuir o tesouro.</p><p>Um homem que se vangloriasse de conhecer os melhores itiner&#225;rios sem jamais ter sa&#237;do de casa seria objeto de risos. No entanto, muitos que decoram defini&#231;&#245;es l&#243;gicas sem nunca aplic&#225;-las cometem erro semelhante.</p><p>O mapa da l&#243;gica n&#227;o basta: &#233; preciso percorrer a jornada.</p><p>H&#225; quem passe anos estudando l&#243;gica, mas n&#227;o saiba reconhecer boas defini&#231;&#245;es, detectar fal&#225;cias ou converter proposi&#231;&#245;es corretamente. Ainda assim, se lhes perguntamos o que &#233; l&#243;gica, nos entregam uma defini&#231;&#227;o precisa e formalmente correta.</p><p>N&#227;o falo como mero observador. J&#225; fui um desses estudantes.</p><p>Passei anos tratando a l&#243;gica apenas como uma ci&#234;ncia, embora soubesse, desde o in&#237;cio, que ela era tamb&#233;m uma arte. Mas s&#243; mais tarde percebi o que isso realmente significava.</p><p>A necessidade desse treinamento pr&#225;tico ficar&#225; mais evidente adiante. Hoje, reconhe&#231;o que me faltou medita&#231;&#227;o sobre o que j&#225; sabia.</p><p>Para que n&#227;o repitas esse erro e tenhas o material necess&#225;rio &#224; reflex&#227;o, explicarei as bases da l&#243;gica com cita&#231;&#245;es de S&#227;o Tom&#225;s de Aquino e coment&#225;rios do Pe. &#193;lvaro Calder&#243;n em <em>Ars Logica</em>. </p><h2>2. Dissecando a l&#243;gica</h2><p>Se afirmamos que existe algo chamado l&#243;gica, a pr&#243;xima pergunta natural &#233;: o que &#233; a l&#243;gica?</p><p>A resposta exige defini&#231;&#227;o, e &#233; exatamente isso que investigaremos agora.</p><p>S&#227;o Tom&#225;s, em seu Coment&#225;rio aos Anal&#237;ticos Posteriores, ecoando Arist&#243;teles, afirma:</p><p>&#8220;Assim como diz Aristoteles no inicio da Metaf&#237;sica, &#8216;o g&#234;nero humano vive a partir da arte e dos racicionios&#8217;, em que o &#233; visto que o filosofo toca certa propriedade do homem pela qual se distingue de outros animais; pois, os outros animais s&#227;o afetados por um instinto natural para que hajam; o homem, por&#233;m, &#233; dirigido por um ju&#237;zo da raz&#227;o em seus pr&#243;prios atos. Nesse contexto, para que os atos humanos sejam perfeitos f&#225;cil e ordenadamente, as diversas artes servem. Com efeito, uma arte n&#227;o parece ser outra coisa que certa ordena&#231;&#227;o da raz&#227;o de modo que os atos humanos alcancem o fim devido por meios determinados.&#8221; (todas as tradu&#231;&#245;es s&#227;o nossas)</p><p>Aqui, Aquino amplia Arist&#243;teles, definindo arte de modo geral e explicando que at&#233; mesmo as opera&#231;&#245;es intelectuais podem ser facilitadas, ordenadas e retificadas por meio de uma arte. A essa arte, damos o nome de l&#243;gica ou ci&#234;ncia racional.</p><p>A estranheza de alguns diante dessa afirma&#231;&#227;o se deve &#224; cl&#225;ssica distin&#231;&#227;o tomista entre arte e ci&#234;ncia:</p><ul><li><p>Ci&#234;ncia &#8594; Considera a ordem que existe na natureza.</p></li><li><p>Arte &#8594; Imp&#245;e uma ordem em uma mat&#233;ria natural, segundo uma utilidade e preceitos sistematizados.</p></li></ul><p>Se a l&#243;gica fosse apenas uma ci&#234;ncia, ela descreveria a ordem do intelecto sem interferir nele. Mas como tamb&#233;m &#233; uma arte, ela fornece preceitos para aperfei&#231;oar nossas opera&#231;&#245;es intelectuais.</p><p>Isso significa que o estudante de l&#243;gica precisa ter em mente duas tarefas fundamentais:</p><ol><li><p>Refletir sobre a ordena&#231;&#227;o das opera&#231;&#245;es intelectuais.</p></li><li><p>Treinar para orden&#225;-las de maneira eficaz.</p></li></ol><p>O &#226;mbito da l&#243;gica, segundo Aquino, refor&#231;a essa dupla fun&#231;&#227;o:</p><p>"A ordem, a qual a raz&#227;o faz ao considerar em seu pr&#243;prio ato, como quando ordena os seus conceitos entre si os s&#237;mbolos dos conceitos, os quais s&#227;o vozes significativas." (Coment&#225;rio &#224; &#201;tica a Nic&#244;maco)</p><p>Dessa distin&#231;&#227;o surge outra, que pode ser compreendida por uma analogia com a medicina:</p><ul><li><p>O m&#233;dico, ao buscar a sa&#250;de, precisa entender o funcionamento natural do corpo humano.</p></li><li><p>Esse conhecimento permite que ele elabore t&#233;cnicas para corrigir o que est&#225; desordenado.</p></li><li><p>O m&#233;dico n&#227;o cria um novo corpo, mas trabalha sobre o que j&#225; existe, guiado por preceitos da biologia e da qu&#237;mica.</p></li></ul><p>O mesmo acontece com a l&#243;gica:</p><ul><li><p>O l&#243;gico n&#227;o cria novas opera&#231;&#245;es mentais, mas aperfei&#231;oa e ordena as j&#225; existentes.</p></li><li><p>Ele desenvolve instrumentos artificiais, como as regras da defini&#231;&#227;o l&#243;gica, que n&#227;o pertencem &#224; realidade objetiva, mas servem para corrigir e refinar a express&#227;o do que se conhece.</p></li></ul><p>Isso nos leva ao ponto essencial:</p><p>A l&#243;gica n&#227;o &#233; apenas contempla&#231;&#227;o. &#201; exerc&#237;cio.</p><p>Assim como o m&#233;dico sem pr&#225;tica p&#245;e em risco seus pacientes, o estudioso da l&#243;gica que n&#227;o se exercita impede seu pr&#243;prio progresso rumo &#224; sabedoria.</p><h2>3. Observa&#231;&#227;o final</h2><p>Parte dos fil&#243;sofos modernos e contempor&#226;neos s&#227;o criticados, e com raz&#227;o, por se preocuparem apenas com o &#8220;como fazer&#8221;, ignorando o &#8220;porqu&#234;&#8221;.</p><p>Entretanto, alguns defensores da l&#243;gica cl&#225;ssica padecem do erro oposto: sabem os princ&#237;pios, mas negligenciam a pr&#225;tica.</p><p>Falo por experi&#234;ncia.</p><p>Em 2022, j&#225; tendo estudado l&#243;gica teoricamente, deparei-me com Logic as a Liberal Art, de R. Houser, em uma livraria da Catholic University of America.</p><p>O livro tornou-se meu guia nos estudos da ci&#234;ncia racional. Traduzi-o para uso de alguns alunos e, a partir dele, explorei outras obras que combinavam teoria e exerc&#237;cios pr&#225;ticos, como:</p><ul><li><p>Socratic Logic, de Peter Kreeft</p></li><li><p>Introductory Logic, dispon&#237;vel no site Arts of Liberty</p></li></ul><p>Mais recentemente, comecei a estudar a l&#243;gica contempor&#226;nea (a partir do s&#233;culo XIX) e a l&#243;gica informal dos debates persuasivos. Nelas, notei um apelo pr&#225;tico muito maior, ainda que suas bases filos&#243;ficas nem sempre me pare&#231;am corretas.</p><p>Mas esse &#233; um tema para outra carta.</p><p>Por ora, espero que este texto te seja &#250;til.</p><p>Que a l&#243;gica n&#227;o seja para ti um mero mapa, mas um caminho trilhado.</p><p>Se quiser compreender melhor os fundamentos desse estudo, lembre-se: n&#227;o basta saber a teoria, &#233; preciso praticar.</p><p><em>In proximum,</em></p><p><em>Vale.</em></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Carta #13 - Escreve!]]></title><description><![CDATA[Se n&#227;o quiseres perder tempo.]]></description><link>https://isvpompeu.substack.com/p/carta-13-escreve</link><guid isPermaLink="false">https://isvpompeu.substack.com/p/carta-13-escreve</guid><dc:creator><![CDATA[Ian Pompeu]]></dc:creator><pubDate>Mon, 03 Mar 2025 13:50:03 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/62b2e07d-9df1-4f59-ac8c-f51c7f6ab576_720x1280.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><em>Ioannes Pompeu lectorem suum salvere iubet</em></p><p>Caro leitor,</p><p>Se estudas, mas n&#227;o escreves, logo esquecer-te-&#225;s do que aprendeste.</p><blockquote><p>&#8220;O esp&#237;rito &#233; corredi&#231;o e fugidio, e por isso o excurso e a divaga&#231;&#227;o dos pensamentos devem ser contidos pelos grilh&#245;es da escrita.&#8221;</p><p>(Gilberto de Tournai, <em>Sobre o Modo de Aprender</em>)</p></blockquote><p>O texto que ora te escrevo &#233; um passo nos meus estudos sobre o <strong>papel da escrita na vida intelectual</strong> e, ao mesmo tempo, um meio de te ajudar a enxergar a necessidade desta indispens&#225;vel ferramenta.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://isvpompeu.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/isvpompeu.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><div><hr></div><h3><strong>1. A escrita n&#227;o &#233; um ap&#234;ndice, mas uma necessidade</strong></h3><p>Quem n&#227;o escreve, ou o faz raramente, acabar&#225; por lamentar <strong>o tempo perdido em estudos infrut&#237;feros</strong>. O esp&#237;rito, sem um registro, vagueia por muitas dire&#231;&#245;es, e aquele conte&#250;do arduamente compreendido se dissipa como neblina ao sol.</p><p>Somos <strong>falhos ju&#237;zes de n&#243;s mesmos</strong>. Um texto escrito, por&#233;m, pode ser avaliado com maior objetividade. &#201; um espelho no qual vemos nossas falhas &#8212; e poucos t&#234;m coragem de encar&#225;-las.</p><p>&#201; como aquele homem que, ao olhar seu corpo diante do espelho, reconhece a necessidade de exerc&#237;cios e dieta, pois sem isso sofrer&#225; as consequ&#234;ncias da obesidade e/ou sedentarismo. <strong>Mas quantos olham para o reflexo de seus pensamentos?</strong></p><p>Do mesmo modo, &#233; lament&#225;vel <strong>passar anos sem colher os frutos dos estudos</strong>, pois n&#227;o os consolidamos pela escrita.</p><p>J&#225; passaste pela parte mais &#225;rdua &#8212; leste e compreendeste. <strong>Agora, fixa e unifica o conhecimento!</strong></p><p>Eu sei que tens pressa e queres logo terminar este livro para passar ao pr&#243;ximo. Por isso, medita a partir das palavras de S&#234;neca em suas <em>Ep&#237;stolas a Luc&#237;lio</em>:</p><blockquote><p>"Toma cuidado para que a leitura de muitos autores e de livros de toda esp&#233;cie n&#227;o tenha algo de vago e inst&#225;vel. Conv&#233;m deter-se e alimentar-se em engenhos certos: quem est&#225; por toda a parte, est&#225; em lugar nenhum. Quem leva a vida em viagens, acaba tendo muitas pousadas, mas nenhuma amizade. [&#8230;] N&#227;o aproveita nem acrescenta ao corpo a comida que, t&#227;o logo foi consumida, &#233; posta para fora. [&#8230;] A multid&#227;o dos livros dispersa."</p></blockquote><div><hr></div><h2><strong>2. Os benef&#237;cios da escrita</strong></h2><p>Ap&#243;s teres visto a necessidade da escrita, d&#250;vidas podem ter surgido. Responderei a algumas poss&#237;veis obje&#231;&#245;es - manda-me uma mensagem com as demais.</p><p><strong>"Tenho pouco tempo."</strong></p><p>Divide os minutos entre leitura e escrita. Assim como Nosso Senhor multiplicou poucos peixes e p&#227;es, a pr&#225;tica da escrita <strong>multiplica os frutos do estudo</strong>, embora breve, tornando-os perenes.</p><p><strong>"E se eu for criticado ao divulgar?"</strong></p><p>Escreve primeiro para ti mesmo. Se compartilhares com alguns poucos confidentes, que seja. Mas lembra-te: o <strong>primeiro beneficiado pela escrita &#233; sempre o pr&#243;prio escritor</strong>.</p><p>E quais s&#227;o tais benef&#237;cios?</p><ol><li><p><strong>Teste do conhecimento</strong> &#8211; Avalia-se, com clareza, <strong>se o assunto foi realmente compreendido</strong>.</p></li><li><p><strong>Ordena&#231;&#227;o do pensamento</strong> &#8211; As ideias soltas tomam <strong>forma e coes&#227;o</strong>.</p></li><li><p><strong>Foco e concentra&#231;&#227;o</strong> &#8211; A escrita mant&#233;m e refor&#231;a a aten&#231;&#227;o que, sem a&#231;&#227;o, <strong>logo se dispersa</strong>.</p></li><li><p><strong>Est&#237;mulo &#224; pesquisa</strong> &#8211; Enquanto escrevemos, <strong>descobrimos lacunas</strong> e buscamos preench&#234;-las.</p></li><li><p><strong>Aumento da motiva&#231;&#227;o</strong> &#8211; A percep&#231;&#227;o <strong>do progresso tang&#237;vel</strong> impulsiona novos estudos.</p></li></ol><p>Todos estes pertencem &#224; <strong>escrita como ferramenta de estudo pessoal</strong>.</p><p>Mas h&#225; um degrau superior: <strong>a forma&#231;&#227;o do estilo</strong>.</p><p>Quem persevera na escrita com aux&#237;lio de bons mestres, cedo ou tarde, familiariza-se com <strong>a arte do escritor</strong>.</p><p>Contudo, ningu&#233;m deve apressar-se a publicar. <strong>O umbral da divulga&#231;&#227;o s&#243; deve ser atravessado ap&#243;s longa e silenciosa medita&#231;&#227;o.</strong> Primeiro, enfrenta-se com a caneta o papel em branco; depois, quando houver solidez no pensamento, as palavras poder&#227;o ir ao encontro de outros leitores.</p><div><hr></div><h2><strong>3. A escrita e os estudos pessoais</strong></h2><p>Todos aqueles primeiros benef&#237;cios surgem ao longo <strong>dos tr&#234;s passos que deves seguir nos teus estudos</strong>:</p><ol><li><p><strong>Esclarecer a ti mesmo o que leste.</strong></p></li><li><p><strong>Unificar os argumentos da obra.</strong></p></li><li><p><strong>Fixar o conhecimento e integr&#225;-lo &#224;s tuas pr&#243;prias ideias.</strong></p></li></ol><blockquote><ol><li><p>Esclarecer o texto</p></li></ol></blockquote><p>O primeiro passo &#233; compreender, sem o aux&#237;lio do livro, <strong>a ordem dos argumentos e o enredo</strong>.</p><p>Para isso, <strong>medita a partir das tuas notas</strong>, tentando reconstruir mentalmente o que estudaste. Depois, redige um resumo.</p><p>Conhe&#231;o pessoas que j&#225; n&#227;o precisam passar por essa etapa: <strong>enxergam com clareza a estrutura da obra enquanto leem</strong>. Um aluno me disse que <strong>o estudo do latim lhe deu essa capacidade</strong>. Faze como melhor te servir. </p><blockquote><ol start="2"><li><p>Unificar os argumentos</p></li></ol></blockquote><p>A cada resumo, <strong>colhemos fragmentos</strong>. Mas n&#227;o basta v&#234;-los isoladamente. <strong>&#201; preciso enxergar o todo.</strong></p><p>Jules Payot, em <em>O Aprendizado da Arte de Escrever</em>, usa uma bela met&#225;fora para esse processo:</p><blockquote><p>"Nos Alpes, o caos de vales e cadeias de montanhas secund&#225;rias parece inextrinc&#225;vel. Mas basta elevar-se a um cume altaneiro, e da&#237; se compreende o caos. A unidade da cadeia principal salta aos olhos, percebe-se que as in&#250;meras montanhas se ordenam em rela&#231;&#227;o &#224; dire&#231;&#227;o do conjunto, e esta dire&#231;&#227;o torna-se evidente."</p></blockquote><p>Enquanto lutamos para compreender um trecho dif&#237;cil, <strong>vemos apenas a batalha individual</strong>. Mas ao final, quando a obra est&#225; dominada, devemos <strong>subir a um lugar mais elevado e contemplar a ordena&#231;&#227;o dos ex&#233;rcitos, </strong>a estrutura completa da obra. </p><blockquote><ol start="3"><li><p>Fixar e integrar o conhecimento</p></li></ol></blockquote><p>O &#250;ltimo passo &#233; <strong>integrar o novo conhecimento ao nosso pr&#243;prio pensamento</strong>. <strong>N&#227;o basta entender; &#233; preciso incorporar.</strong></p><p>Eis um princ&#237;pio infal&#237;vel da mem&#243;ria: </p><blockquote><p>S&#243; memorizamos bem o que compreendemos. E guardamos quase para sempre o que associamos a um conhecimento pr&#233;vio.</p></blockquote><p>S&#227;o Tom&#225;s de Aquino, em seu <em>Coment&#225;rio ao De Memoria et Reminiscentia</em>, ensina como memorizar eficazmente:</p><ol><li><p><strong>Ordenar</strong> o que se quer reter.</p></li><li><p><strong>Investir o esp&#237;rito profundamente</strong> nisso.</p></li><li><p><strong>Meditar frequentemente</strong> sobre o assunto.</p></li><li><p><strong>Reconstruir a cadeia de pensamento</strong> partindo do in&#237;cio ou do fim do conte&#250;do. </p></li></ol><p>Tom&#225;s, um leitor ideal, <strong>nunca esquecia o que decidira guardar</strong>.</p><div><hr></div><h2><strong>Conclus&#227;o: Escreve e persevera</strong></h2><p>Come&#231;a o quanto antes. <strong>N&#227;o importa se te sentes despreparado.</strong> </p><p>E n&#227;o para no meio do caminho. Mant&#233;m-te perseverante <strong>at&#233; que a escrita se torne um h&#225;bito e uma aliada insepar&#225;vel dos teus estudos</strong>.</p><p>Se o intelecto deve nutrir-se do conhecimento, a escrita &#233; o exerc&#237;cio que fortalece seus m&#250;sculos.</p><p><strong>L&#234;. Escreve. Persiste.</strong></p><p>O tempo te mostrar&#225; os abundantes frutos. </p><p><em>In proximum.</em></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://isvpompeu.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/isvpompeu.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Carta #12 - Por que sempre voltamos aos gregos?]]></title><description><![CDATA[Ioannes Pompeu lectorem suum salvere iubet.]]></description><link>https://isvpompeu.substack.com/p/carta-12-por-que-sempre-voltamos</link><guid isPermaLink="false">https://isvpompeu.substack.com/p/carta-12-por-que-sempre-voltamos</guid><dc:creator><![CDATA[Ian Pompeu]]></dc:creator><pubDate>Sun, 16 Feb 2025 21:30:41 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/39641be1-a54d-47f4-85f9-c8a71711c7b6_1280x1520.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><em>Ioannes Pompeu lectorem suum salvere iubet.</em></p><p>Caro leitor,</p><p>sempre voltamos aos gregos porque foram eles que nos ensinaram a sermos<strong> </strong>humanos.</p><p>N&#227;o descobriram tudo, &#233; verdade, mas foram os primeiros a tra&#231;ar a ordem exterior e interior &#8212; intelectual e moral &#8212; que deve ser examinada pela faculdade racional que nos &#233; pr&#243;pria.</p><p>Mesmo quando propuseram que a realidade estava em constante mudan&#231;a, postularam um princ&#237;pio, um ponto de partida a partir do qual se poderiam compreender as leis que regem o mundo.</p><p>Foi ao longo dessa investiga&#231;&#227;o que Homero surgiu como o primeiro educador do Ocidente. Por meio de suas epopeias, aprendemos a for&#231;a incans&#225;vel dos gregos na busca por seus objetivos. O discurso de Glauco para Diomedes, na Il&#237;ada, expressa essa mentalidade com exatid&#227;o:</p><div class="pullquote"><p>Enquanto a mim, tenho orgulho de filho chamar-me de Hip&#243;loco,</p><p>que me mandou para Troia sagrada, insistindo comigo</p><p>para ser sempre o primeiro e de todos os mais distinguir-me,</p><p>sem desonrar a linhagem dos nossos, que sempre entre os fortes</p><p>de &#201;fira foram contados, bem como na L&#237;cia vast&#237;ssima.</p><p>(Il&#237;ada, VI, 206-210)</p></div><p>No campo filos&#243;fico, S&#243;crates percebeu que n&#227;o bastava investigar os conte&#250;dos do pensamento &#8212; era necess&#225;rio tamb&#233;m examinar o pr&#243;prio ato de pensar e de ensinar. Arist&#243;teles, seu sucessor indireto, sistematizou esse princ&#237;pio ao organizar as regras do pensamento e a listagem dos tipos de argumenta&#231;&#227;o em seus T&#243;picos. Mais tarde, em seu Organon, ele estabeleceu os fundamentos da l&#243;gica, permitindo que qualquer um pudesse formular racioc&#237;nios v&#225;lidos.</p><p>Mas a l&#243;gica n&#227;o caminha sozinha. Junto a ela, Arist&#243;teles lan&#231;ou as bases da gram&#225;tica (segundo o sentido j&#225; abordado em outras cartas) em sua Po&#233;tica e da ret&#243;rica na obra hom&#244;nima, pavimentando, ainda que de maneira incompleta, as vias do trivium.</p><p>Al&#233;m disso, aprofundou a investiga&#231;&#227;o sobre a a&#231;&#227;o humana, condensando o estudo dos homens virtuosos em suas &#201;ticas &#8212; as quais, por sua vez, dependiam das bases psicol&#243;gicas estabelecidas em seu De Anima.</p><p>Assim, quando nos encontramos em tempos de crise e desumaniza&#231;&#227;o &#8212; quando a hierarquia dos objetivos humanos se inverte e perdemos de vista aquilo que realmente importa &#8212; voltamo-nos novamente a Homero e repetimos suas palavras: &#8220;Canta-me sobre o homem, &#243; Musa&#8221; (Odisseia, I, 1).</p><p>Invocamos a Musa n&#227;o como mero artif&#237;cio po&#233;tico, mas como s&#237;mbolo da uni&#227;o entre a Sabedoria e a Mem&#243;ria. Queremos lembrar para compreender. Queremos compreender para agir. Somente assim seremos capazes de responder ao imperativo de Delfos: &#8220;Conhece-te a ti mesmo.&#8221;</p><p>Contudo, para os helenos, esse autoconhecimento n&#227;o se confundia com a ideia moderna de que conhecer-se &#233; simplesmente corresponder aos impulsos das paix&#245;es.</p><p>Saber quem se &#233; n&#227;o significa sucumbir &#224;s pr&#243;prias feras interiores, mas enfrent&#225;-las com a raz&#227;o.</p><p>Quando Dante se viu cercado por bestas que bloqueavam seu caminho, n&#227;o se entregou ao desespero, mas buscou um guia. Pediu aux&#237;lio a Virg&#237;lio, s&#237;mbolo da raz&#227;o (Divina Com&#233;dia, Inferno, Canto I).</p><p>Mas a raz&#227;o nos conduz apenas at&#233; certo ponto. Pois, como diz Hamlet:</p><div class="pullquote"><p>H&#225; mais coisas entre o c&#233;u e a terra do que sonha a nossa v&#227; filosofia.</p><p>(Hamlet, Shakespeare)</p></div><p>E Pascal completa:</p><div class="pullquote"><p>O &#250;ltimo passo da raz&#227;o &#233; reconhecer que h&#225; milhares de coisas que a ultrapassam.</p><p>(Pensamentos, Pascal)</p></div><p>Ainda assim, antes de buscarmos as alturas, devemos fortalecer os alicerces. H&#225; coisas que podem e devem ser bem conhecidas, e entre elas est&#225; a arte de pensar corretamente.</p><p>Antes de aprendermos o que pensar, devemos aprender como pensar. Foram os gregos os primeiros a ordenar essa busca. E foi assim, passo a passo, que alcan&#231;aram o &#225;pice da cultura intelectual: a poesia, a l&#243;gica e a gram&#225;tica, os tr&#234;s pilares que formaram mentes, aprofundaram o pensamento e fizeram do g&#234;nio grego o mestre do Ocidente.</p><p>Mas essa conquista n&#227;o foi obra do acaso. Foi o resultado de um esfor&#231;o consciente.</p><p>Leia por ti mesmo as palavras de P&#233;ricles em sua Ora&#231;&#227;o F&#250;nebre, reproduzida por Tuc&#237;dides na Hist&#243;ria da Guerra do Peloponeso (L. II, 35-43):</p><div class="pullquote"><p>Vivemos sob uma forma de governo que n&#227;o se baseia nas institui&#231;&#245;es de nossos vizinhos; ao contr&#225;rio, servimos de modelo a alguns ao inv&#233;s de imitar outros. [&#8230;] Nossa cidade, portanto, &#233; digna de admira&#231;&#227;o sob esses aspectos e muitos outros. Somos amantes da beleza sem extravag&#226;ncias e amantes da filosofia sem indol&#234;ncia. Usamos a riqueza mais como uma oportunidade para agir do que como um motivo de vangl&#243;ria. [&#8230;] Em suma, digo que nossa cidade, em seu conjunto, &#233; a escola de toda a H&#233;lade e que, segundo me parece, cada homem entre n&#243;s poderia, por sua personalidade pr&#243;pria, mostrar-se auto-suficiente nas mais variadas formas de atividade, com a maior eleg&#226;ncia e naturalidade.</p></div><p>No in&#237;cio, acreditava-se que a vit&#243;ria se daria no campo militar. Depois, imaginou-se que seria pol&#237;tica. Mas quando as institui&#231;&#245;es que forjaram o homem grego come&#231;aram a ruir, compreendeu-se que a verdadeira vit&#243;ria seria intelectual.</p><p>A coruja de Minerva al&#231;ou voo no crep&#250;sculo, como diria Hegel, e, por todo o esfor&#231;o dos antepassados, voou do mar J&#244;nico ao Adri&#225;tico e pousou no L&#225;cio.</p><p>Assim, avant la lettre, ensinou aos disc&#237;pulos de Saturno &#8212; os romanos &#8212; aquilo que Dante viria a formular s&#233;culos depois:</p><div class="pullquote"><p>Come l&#8217;uom s&#8217;etterna.</p><p>(Inferno, Canto XV, 85)</p></div><p>Ou seja, como o homem se torna eterno.</p><p>E foi exatamente isso que aconteceu: a Gr&#233;cia foi conquistada, mas capturou seu pr&#243;prio vencedor. Como escreveu Hor&#225;cio:</p><div class="pullquote"><p>Graecia capta ferum victorem cepit et artes intulit agresti Latio.</p><p>(A Gr&#233;cia capturada, capturou o feroz vencedor e introduziu as suas artes no agreste L&#225;cio.)</p><p>(Ep&#237;stulas, L. II, 156-157)</p></div><p>Voltamos aos gregos em todos os grandes renascimentos da hist&#243;ria. E voltamos novamente agora, neste em que vivemos.</p><p>Mas o retorno aos hom&#233;ridas &#233; necess&#225;rio, n&#227;o suficiente.</p><p>Precisamos, al&#233;m de compreender a grandeza dos antigos, reconhecer a necessidade de nossa submiss&#227;o amorosa ao amor de Deus. Pois &#233; Dele que depende o nosso eternar.</p><p>Se viv&#234;ssemos em outros tempos, talvez o caminho fosse outro. Mas o intelectual &#233; um homem de seu tempo.</p><p>Sigamos, ent&#227;o, o exemplo de S&#243;crates e nos dediquemos &#224;s necessidades de nossa &#233;poca. Ao final de nossos trabalhos, poderemos repetir com ele aos que ficaram aqui:</p><div class="pullquote"><p>Mas est&#225; na hora de nos irmos: eu, para morrer; v&#243;s, para viver. A quem tocou a melhor parte, &#233; o que nenhum de n&#243;s pode saber, exceto a divindade.</p><p>(Apologia de S&#243;crates, 42A2-5)</p></div><p><em>In proximum,</em></p><p><em>Vale</em></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A vida intelectual é uma necessidade]]></title><description><![CDATA[E esse convite pode mudar a tua forma de enxerg&#225;-la.]]></description><link>https://isvpompeu.substack.com/p/a-vida-intelectual-e-uma-necessidade</link><guid isPermaLink="false">https://isvpompeu.substack.com/p/a-vida-intelectual-e-uma-necessidade</guid><dc:creator><![CDATA[Ian Pompeu]]></dc:creator><pubDate>Wed, 12 Feb 2025 00:41:19 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/e2ee353e-3022-4ef6-a79b-ecd2d18a85a8_800x1071.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>O trabalho intelectual come&#231;a quando sabemos <strong>aonde olhar na realidade e o que extrair desse ato</strong>.</p><p>Isso, por sua vez, depende da <strong>ordem</strong> de nossos estudos &#8212; tanto na estrutura das artes e ci&#234;ncias quanto na formula&#231;&#227;o das perguntas corretas ao longo do caminho.</p><p>O cultivo do intelecto, portanto, <strong>n&#227;o se restringe ao escrit&#243;rio nem &#224;s aulas</strong>. N&#227;o s&#227;o roupas formais, diplomas ou rotinas que o caracterizam, mas sim a <strong>seriedade com que se busca a sabedoria</strong>, essa mesma que &#233; partilhada, ainda que inconscientemente, por todos os homens.</p><h3>1. A observa&#231;&#227;o de Arist&#243;teles</h3><p>Foi para esclarecer esse fundamento que Arist&#243;teles iniciou sua grande obra, posteriormente compilada sob o t&#237;tulo de <em>Metaf&#237;sica</em>, com as c&#233;lebres palavras:</p><p><em>"Todos os homens desejam por natureza conhecer."</em></p><p>Se par&#225;ssemos para refletir sobre essa afirma&#231;&#227;o, perceber&#237;amos que <strong>n&#227;o precisamos de uma demonstra&#231;&#227;o silog&#237;stica para aceit&#225;-la</strong>.</p><p>Basta observar as a&#231;&#245;es humanas: ao longo do dia, todos buscam conhecer algo &#8212; ainda que seja apenas a vida alheia.</p><p>O homem &#233; naturalmente curioso. Por isso mesmo, <strong>gastamos um conto em contos bem contados</strong>.</p><p>A partir dessa observa&#231;&#227;o, Arist&#243;teles inicia uma exposi&#231;&#227;o que culmina nos cumes da filosofia, apresentando novas metodologias e descobertas sobre a realidade at&#233; ent&#227;o n&#227;o alcan&#231;adas.</p><p>Mas para compreender plenamente o valor das conclus&#245;es aristot&#233;licas, &#233; preciso <strong>construir um fundamento s&#243;lido nas disciplinas proped&#234;uticas do conhecimento</strong>.</p><p>Se h&#225; algo que confirmou essa convic&#231;&#227;o em mim, foi uma experi&#234;ncia vivida h&#225; tr&#234;s anos.</p><h3><strong>2. Minhas viagens</strong></h3><p>Em 2022, participei de um programa de ver&#227;o na <em>Catholic University of America</em>, em Washington D.C., onde tive a oportunidade de conversar com pessoas que buscavam desenvolver a vida intelectual &#8212; <strong>n&#227;o para se tornarem acad&#234;micos ou pesquisadores, mas simplesmente para viver com mais consci&#234;ncia</strong>.</p><p>Ali, discut&#237;amos temas fundamentais:</p><ul><li><p>Como construir um argumento s&#243;lido para defender a f&#233;?</p></li><li><p>Como explicar filosoficamente o problema do mal?</p></li><li><p>Como expor racionalmente a exist&#234;ncia de Deus?</p></li><li><p>Qual a rela&#231;&#227;o entre a ci&#234;ncia moderna e a filosofia aristot&#233;lico-tomista?</p></li><li><p>O que torna uma autoridade leg&#237;tima?</p></li></ul><p>Essas quest&#245;es eram debatidas intensamente em aulas, conversas e disputas dial&#233;ticas. <strong>Mas o ponto mais intrigante era a preocupa&#231;&#227;o constante dos professores com a ordem do conhecimento:</strong></p><p><em>"Este problema pertence &#224; filosofia pol&#237;tica, mas depende da &#233;tica, da psicologia e da l&#243;gica."</em></p><p><em>"Aquele outro pertence &#224; metaf&#237;sica."</em></p><p>Entre os professores do <em>Thomistic Institute</em> &#8212; claramente tomistas &#8212; e outros mais inclinados a Plat&#227;o e Agostinho, percebi um princ&#237;pio comum: <strong>o amor &#224; sabedoria deve ser bem ordenado</strong>.</p><p>Esse princ&#237;pio se confirmou ainda mais quando passei uma semana no <em>Thomas Aquinas College</em> (TAC), em Massachusetts.</p><p>Ali, conheci brasileiros, americanos e austr&#237;acos vivendo isolados do mundo por alguns anos para desenvolver uma vida:</p><ul><li><p><strong>Espiritual</strong> &#8212; missa di&#225;ria, sacerdotes dispon&#237;veis para dire&#231;&#227;o e confiss&#227;o;</p></li><li><p><strong>Intelectual</strong> &#8212; estudo das grandes obras pelo m&#233;todo socr&#225;tico, contato semanal com professores convidados;</p></li><li><p><strong>Fraternal</strong> &#8212; comunidades de estudantes que discutem temas fundamentais em meio &#224;s experi&#234;ncias cotidianas;</p></li><li><p><strong>F&#237;sica</strong> &#8212; pr&#225;tica constante de atividades f&#237;sicas e alimenta&#231;&#227;o saud&#225;vel, elementos fundamentais para sustentar o intelecto;</p></li><li><p><strong>Laboral</strong> &#8212; todos possuem um trabalho dentro do <em>campus</em>: marcenaria, carpintaria, atendimento ao p&#250;blico, cozinha, administra&#231;&#227;o etc.;</p></li><li><p><strong>Art&#237;stica</strong> &#8212; coral da igreja, apresenta&#231;&#245;es teatrais, aulas de m&#250;sica e at&#233; composi&#231;&#227;o.</p></li></ul><p>E ao conversar com os alunos, perguntei:</p><p><em>"Voc&#234;s querem se tornar grandes intelectuais ao modo acad&#234;mico?"</em></p><p>A resposta, em geral, foi <strong>n&#227;o</strong>.</p><p>Muitos queriam apenas <strong>se casar, encontrar um emprego comum e educar os filhos</strong>. Outros desejavam o semin&#225;rio ou o convento. Alguns, um doutorado em filosofia, uma carreira em direito ou medicina.</p><p>Mas havia algo em comum entre todos: <strong>o desejo de utilizar o que aprenderam para viver melhor e fazer bem aquilo a que fossem chamados</strong>.</p><p>Quem conhece os cl&#225;ssicos liter&#225;rios e as vidas dos santos <strong>nunca deixa de ter motiva&#231;&#227;o para agir</strong>.</p><p>Quem estudou Arist&#243;teles <strong>aprendeu a definir termos com precis&#227;o e n&#227;o se deixa enganar por fal&#225;cias</strong>.</p><p>Quem compreendeu l&#243;gica <strong>sabe organizar pensamentos, sintetizar e expandir ideias, habilidades essenciais para argumentar e persuadir</strong>.</p><p><em>E eu poderia continuar essa lista por muito tempo.</em></p><p>O ponto &#233; que <strong>o desenvolvimento da vida intelectual n&#227;o &#233; um luxo para poucos, mas uma necessidade para todos</strong>.</p><p>Os conhecimentos adquiridos na leitura das grandes obras liter&#225;rias, filos&#243;ficas, cient&#237;ficas e teol&#243;gicas <strong>n&#227;o se restringem &#224;queles que desejam se especializar nesses campos</strong>.</p><p>Pelo contr&#225;rio, esses autores falam ao homem de todos os tempos, pois tratam daquilo que diz respeito &#224; <strong>pr&#243;pria natureza humana</strong>.</p><p>E quem pode fugir da pr&#243;pria natureza?</p><p>Arist&#243;teles elevou-se aos cumes da filosofia partindo de <strong>uma observa&#231;&#227;o simples</strong>, acess&#237;vel a qualquer um.</p><p>Mas, ao contr&#225;rio da maioria, ele <strong>prosseguiu com ordem</strong> &#8212; tanto na estrutura das disciplinas quanto na formula&#231;&#227;o das perguntas.</p><p><strong>E tu, caro leitor, podes trilhar esse mesmo caminho, orientado por mim e por um professor que estudou durante anos no TAC, o <a href="https://www.instagram.com/jeanguerreirobr?igsh=cTIzZTBjcnN2dmZ5">Jean Guerreiro</a>.</strong></p><p><strong><a href="https://forms.gle/bJnHcLd4LfeX6SUp7">Clica aqui para saber mais.</a></strong></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O discípulo e seu papel na docência]]></title><description><![CDATA[No &#250;ltimo s&#225;bado, dei carona a um amigo e conversamos sobre como os professores s&#227;o moldados pelos seus alunos.]]></description><link>https://isvpompeu.substack.com/p/o-discipulo-e-seu-papel-na-docencia</link><guid isPermaLink="false">https://isvpompeu.substack.com/p/o-discipulo-e-seu-papel-na-docencia</guid><dc:creator><![CDATA[Ian Pompeu]]></dc:creator><pubDate>Mon, 10 Feb 2025 15:50:58 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/25b09422-5196-46c3-ac9f-3b31835f5c30_579x487.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>No &#250;ltimo s&#225;bado, dei carona a um amigo e conversamos sobre como os professores s&#227;o moldados pelos seus alunos.</p><p>Sendo professor, ele me relatou que o caminho de seus estudos era cada vez mais guiado pelas d&#250;vidas e pondera&#231;&#245;es de seus alunos.</p><p>Igualmente, vivo a doc&#234;ncia. Embora queira apresentar tudo sobre o que estudo, &#233; preciso se concentrar no que resolver&#225; os problemas de quem foi colocado no meu caminho.</p><p>S&#243;crates conclui n&#8217;<em>O Banquete</em> que <em>o amor n&#227;o pode ser apenas por uma parte da coisa amada, mas deve ser pelo todo.</em> O verdadeiro mestre compreende isso profundamente: ama a arte ou a ci&#234;ncia que ensina e deseja aprofundar-se em todas as suas partes.</p><p>Entretanto, esse amor precisa ser ordenado. Ou seja, deve-se estudar com virtude, pois, como ensina Santo Agostinho na <em>Cidade de Deus</em>, <em>"a virtude &#233; a ordem do amor."</em></p><p>Quando ordena seu amor segundo as exig&#234;ncias do magist&#233;rio, o professor conduz melhor seus alunos, para que possam alcan&#231;ar seguramente a fonte da sabedoria e dela haurir a &#225;gua que tanto desejaram.</p><p>Assim, o caminho percorrido por cada professor se define ao longo da doc&#234;ncia. Do ponto de vista divino, todos os nossos deveres j&#225; est&#227;o tra&#231;ados; do nosso, descobrimo-los &#224; medida que caminhamos. N&#227;o fazemos propriamente o nosso caminho, mas o encontramos.</p><p>Professor, deves estar sempre atento a tr&#234;s murmura&#231;&#245;es: a do ser humano, a do homem do teu tempo e a dos teus alunos. Os antigos j&#225; exploraram muitas vias; n&#227;o precisas percorr&#234;-las todas, mas apenas aquelas &#224;s quais te chamaram.</p><p>&#201;s como Virg&#237;lio para Dante: foste enviado por quem muito ama o disc&#237;pulo para salv&#225;-lo das feras que o atacam, tendo j&#225; conversado com os homens do passado e compreendido as necessidades do presente.</p><p>Inicialmente, o aluno te dir&#225; que &#233;s sua inspira&#231;&#227;o para seguir nos estudos, como fez o florentino com seu guia. Mas chegar&#225; o momento em que te tornar&#225;s in&#250;til &#8212; e nisso repousar&#225; tua maior alegria. Pois, como ensina Santo Tom&#225;s na <em>Suma de Teologia</em>, <em>"a alegria &#233; o repouso na posse de um bem."</em> E o bem da verdade &#233; o mais elevado &#224; natureza humana.</p><p>Deves libertar os alunos, n&#227;o torn&#225;-los teus servos. Ao final, ficar&#225;s sozinho, mas ter&#225;s cumprido tua miss&#227;o: ser um instrumento que aproxima a alma do disc&#237;pulo da verdade.</p><p>Mas s&#243; o far&#225;s bem se ouvires atentamente o que os homens j&#225; disseram sobre o tema, as inquieta&#231;&#245;es do teu tempo e as d&#250;vidas dos teus alunos</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://isvpompeu.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/isvpompeu.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Carta #11 - Educação clássica, liberal e católica]]></title><description><![CDATA[Esclarecendo princ&#237;pios e termos.]]></description><link>https://isvpompeu.substack.com/p/carta-11-educacao-classica-liberal</link><guid isPermaLink="false">https://isvpompeu.substack.com/p/carta-11-educacao-classica-liberal</guid><dc:creator><![CDATA[Ian Pompeu]]></dc:creator><pubDate>Sun, 09 Feb 2025 20:45:29 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2b58a8d2-65df-4045-80d2-b10a7439826c_4032x3024.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><em>Ioannes Pompeu lectorem suum salvere iubet.</em></p><p>Caro leitor,</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://isvpompeu.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption"></p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>enviei a &#250;ltima carta sem concluir a compara&#231;&#227;o entre educa&#231;&#227;o moderna e educa&#231;&#227;o liberal.</p><p>Foi proposital, pois ainda precisava gravar um v&#237;deo sobre o tema (imagino que no pr&#243;ximo domingo estar&#225; dispon&#237;vel).</p><p>Ali&#225;s, a partir de agora, todas as quartas e domingos, novos v&#237;deos ser&#227;o publicados em meu canal do YouTube. J&#225; gravei alguns antecipadamente para garantir essa regularidade.</p><p>Agora, resta-me concluir a rela&#231;&#227;o proposta.</p><p>A compreens&#227;o s&#243;lida de qualquer proposta pedag&#243;gica depende do que seus proponentes entendem por <em>ser humano</em> e por <em>educa&#231;&#227;o</em>.</p><p>Por um tempo, pensou-se que a qualidade da educa&#231;&#227;o dependia da quantidade de informa&#231;&#245;es armazenadas na mem&#243;ria do aluno. Alguns pedagogos sabiam que essa ideia n&#227;o se sustentaria. No entanto, tal modelo mostrou-se eficaz para emburrecer os alunos sem que isso fosse evidente.</p><p>Sem o ensino das t&#233;cnicas do aprendizado e dos princ&#237;pios das ci&#234;ncias, os alunos se tornam incapazes de refletir por si pr&#243;prios, dependendo sempre das opini&#245;es de pseudo-intelectuais e das decis&#245;es de burocratas.</p><p>Montantes vultosos s&#227;o investidos na manuten&#231;&#227;o dessa educa&#231;&#227;o; &#233;, por&#233;m, como gastar para embalsamar um cad&#225;ver e ostent&#225;-lo como se fosse uma pessoa viva.</p><p>Modificar a qualidade da educa&#231;&#227;o n&#227;o &#233; tarefa de burocratas, mas de fil&#243;sofos e pedagogos s&#233;rios, cuja antropologia esteja esclarecida e cujos m&#233;todos tenham sido testados pelo tempo e comprovado seus resultados.</p><p>Este passo &#233; essencial para que possamos avan&#231;ar na quest&#227;o seguinte: <em>quais modelos devemos imitar dentro de uma educa&#231;&#227;o cl&#225;ssica, liberal e cat&#243;lica (ECLC)?</em></p><p>Resgatar essa mentalidade pedag&#243;gica &#233; apenas o in&#237;cio da solu&#231;&#227;o. O verdadeiro desenvolvimento da ECLC exige determina&#231;&#227;o sobre como conduzir os alunos &#224; liberdade e &#224; sabedoria &#8212; os maiores frutos da educa&#231;&#227;o.</p><p>Mas, como toda constru&#231;&#227;o s&#243;lida necessita de bases firmes, passemos &#224; sua edifica&#231;&#227;o.</p><h2><strong>Os Princ&#237;pios da ECLC</strong></h2><p>Parafraseando a defini&#231;&#227;o de J. Lehman em <em>Liberal Education: a working definition</em>, podemos afirmar:</p><p>"&#233; a busca da <em>sabedoria</em> por meio do cultivo das virtudes intelectuais e do incentivo &#224;s virtudes morais, realizada atrav&#233;s de um curso de estudos rico e ordenado. Esse percurso se fundamenta nas artes liberais e progride da seguinte maneira:</p><ol><li><p>Letras humanas,</p></li><li><p>Matem&#225;tica,</p></li><li><p>Ci&#234;ncias naturais,</p></li><li><p>Filosofia,</p></li></ol><p>Culminando no estudo da teologia.</p><p>O fruto desse percurso &#233; o autodom&#237;nio esclarecido e uma compreens&#227;o ordenada da natureza humana, do cosmos e de Deus."</p><p>Ou seja, adota-se um curr&#237;culo estruturado a partir das diversas potencialidades humanas, abrangendo tanto o corpo quanto a alma. Em especial, no que diz respeito ao intelecto e &#224; vontade, emprega recursos utilizados ao longo dos s&#233;culos, como o estudo das artes liberais, das ci&#234;ncias naturais, da filosofia e da teologia. Eis por que &#233; chamada <em>cl&#225;ssica</em>.</p><p>O car&#225;ter <em>liberal</em> adv&#233;m da liberdade da vontade &#8212; capaz de buscar o bem sem ser escravizada pelas paix&#245;es &#8212; e do intelecto, que se arma contra a selva da ignor&#226;ncia.</p><p>Por fim, &#233; <em>cat&#243;lica</em> em dois sentidos: pela universalidade de seus princ&#237;pios e pela necessidade dos sacramentos, que elevam o aluno &#224; participa&#231;&#227;o na vida divina. A educa&#231;&#227;o, assim, n&#227;o apenas aperfei&#231;oa a natureza, mas a eleva &#224; ordem sobrenatural.</p><p>Sobre esse &#250;ltimo ponto, farei algumas observa&#231;&#245;es.</p><h2>Natureza e gra&#231;a</h2><p>O homem foi criado para contemplar Deus eternamente. Mas, por suas pr&#243;prias for&#231;as, &#233; incapaz de garantir esse destino. Precisa, portanto, do aux&#237;lio da gra&#231;a para n&#227;o perecer.</p><p>Essa rela&#231;&#227;o entre natureza e gra&#231;a &#233; resumida na conhecida par&#225;frase de S&#227;o Tom&#225;s: <em>"A gra&#231;a n&#227;o suprime a natureza, mas a aperfei&#231;oa"</em> (<em>S.T.</em>, I, q. 1, a. 8, ad. 2).</p><p>Tendo isso em vista, a ECLC se estrutura segundo uma ordem precisa. O conhecimento seguro se d&#225; segundo as causas, que, por sua vez, s&#227;o conhecidas pelos efeitos. Assim, faz-se necess&#225;rio um m&#233;todo que forne&#231;a ao aluno as ferramentas para <em>aprender a aprender</em>.</p><p>Essa ordem inicia-se com o <em>trivium</em> e o <em>quadrivium</em>, culminando na teologia. Mas n&#227;o exclui a prepara&#231;&#227;o para as profiss&#245;es; antes, capacita o aluno a compreender a natureza de seu of&#237;cio e seu papel dentro de um projeto de vida ordenado ao bem.</p><p>O trabalho n&#227;o deve ser visto apenas como meio de ganhar dinheiro, mas como um servi&#231;o prestado aos outros. A recompensa, neste caso, &#233; o sustento material necess&#225;rio para concretizar os projetos escolhidos &#8212; projetos que, por sua vez, n&#227;o devem estar voltados meramente &#224; satisfa&#231;&#227;o de caprichos terrenos, mas sim ao fim sobrenatural do homem.</p><p>A educa&#231;&#227;o, portanto, &#233; capaz de nos fazer enxergar a vida eterna j&#225; neste vale de l&#225;grimas.</p><p>E para que fique claro: um educador <strong>nunca</strong> pode prometer tornar algu&#233;m santo ou g&#234;nio. Mas a capacidade de motivar os alunos a buscarem isso &#233; muito maior quando se empregam os meios da ECLC.</p><p>Por fim, acerca da rela&#231;&#227;o entre natureza e gra&#231;a, disse o professor Carlos Nougu&#233;:</p><p><em>"Se o vaso da raz&#227;o n&#227;o est&#225; devidamente selado por uma Filosofia s&#227;, as &#225;guas do Esp&#237;rito, cedo ou tarde, escapam por suas frestas."</em> (<em>A raiz antitomista da modernidade filos&#243;fica</em>, D. Scherer).</p><h2><strong>Consequ&#234;ncias gerais da ECLC</strong></h2><p>A partir dos princ&#237;pios apresentados, algumas consequ&#234;ncias gerais podem ser listadas:</p><ul><li><p>Integra&#231;&#227;o entre as disciplinas (artes e ci&#234;ncias) e a f&#233;;</p></li><li><p>Restaura&#231;&#227;o do sentido e prop&#243;sito da educa&#231;&#227;o;</p></li><li><p>Forma&#231;&#227;o dos alunos como <em>imagem e semelhan&#231;a de Deus</em>, e n&#227;o como meros acumuladores de informa&#231;&#245;es desordenadas;</p></li><li><p>Reflex&#227;o profunda em cada t&#243;pico ensinado;</p></li><li><p>Aprendizagem ativa;</p></li><li><p>Desenvolvimento da liberdade intelectual e volitiva.</p></li></ul><h2><strong>Pondera&#231;&#245;es finais</strong></h2><p>O princ&#237;pio da educa&#231;&#227;o cl&#225;ssica est&#225; em nos ensinar <em>como pensar</em> e <em>o que fazer</em>; o cume da educa&#231;&#227;o moderna, <em>o que pensar</em> e <em>como fazer.</em></p><p>A primeira, liberta-nos; a segunda, aprisona-nos.</p><p>Espero que, com estas cartas, tenhas come&#231;ado a compreender mais a distin&#231;&#227;o entre ambas. Pretendo ainda tratar bastante desse assunto.</p><p>Contudo, a partir da pr&#243;xima carta, escreverei sobre temas mais espec&#237;ficos de educa&#231;&#227;o, pois, compreender o que &#233; educa&#231;&#227;o e o que &#233; o ser humano s&#227;o passos necess&#225;rios, mas n&#227;o suficientes, para transformar o ensino.</p><p>Os professores precisam meditar profundamente sobre cada princ&#237;pio e consequ&#234;ncia da ECLC, al&#233;m de testar diferentes m&#233;todos para deliberar prudentemente sobre os melhores meios de aplic&#225;-los.</p><p>Desse modo, poder&#227;o concretizar a voca&#231;&#227;o da educa&#231;&#227;o, a qual, como disse S&#243;crates:</p><p><em>"[&#8230;] n&#227;o ser&#225; mais do que a arte de promover essa convers&#227;o [das coisas perec&#237;veis &#224;s eternas], de encontrar a maneira mais f&#225;cil e eficiente de consegui-la. N&#227;o &#233; a arte de conferir vista &#224; alma, pois vista ela j&#225; possui; mas, por estar mal dirigida e olhar para o que n&#227;o deve, a educa&#231;&#227;o promove aquela mudan&#231;a de dire&#231;&#227;o."</em> (<em>A Rep&#250;blica</em>, Plat&#227;o).</p><p>Por &#250;ltimo, quero te fazer uma recomenda&#231;&#227;o a fim de que tamb&#233;m possas meditar sobre isso.</p><p>Existe um lugar onde todos os princ&#237;pios aqui apresentados est&#227;o plasmados em afrescos: a <em>Stanza della Segnatura,</em> uma das salas de Rafael nos Museus do Vaticano.</p><p>As pinturas ali presentes expressam o que busco, como professor e aluno: inspirado e auxiliado pela gra&#231;a, buscar o que h&#225; de mais excelente na natureza humana e retribuir esse dom com tudo o que tenho, num esp&#237;rito de adora&#231;&#227;o ao Sant&#237;ssimo Sacramento &#8212; fonte da vida eterna j&#225; iniciada nesta vida.</p><p>Deixar-te-ei algumas fotografias que fiz l&#225;:</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!tqYa!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd4c2cd0f-d49f-437e-a785-3686c85bfba3_4032x3024.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!tqYa!, /__u/isvpompeu.substack.com/w_424, /__u/isvpompeu.substack.com/c_limit, /__u/isvpompeu.substack.com/f_webp, /__u/isvpompeu.substack.com/q_auto:good, /__u/isvpompeu.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd4c2cd0f-d49f-437e-a785-3686c85bfba3_4032x3024.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!tqYa!, /__u/isvpompeu.substack.com/w_848, /__u/isvpompeu.substack.com/c_limit, /__u/isvpompeu.substack.com/f_webp, /__u/isvpompeu.substack.com/q_auto:good, 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class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!GZFs!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2b58a8d2-65df-4045-80d2-b10a7439826c_4032x3024.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!GZFs!, /__u/isvpompeu.substack.com/w_424, /__u/isvpompeu.substack.com/c_limit, /__u/isvpompeu.substack.com/f_webp, /__u/isvpompeu.substack.com/q_auto:good, /__u/isvpompeu.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2b58a8d2-65df-4045-80d2-b10a7439826c_4032x3024.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!GZFs!, /__u/isvpompeu.substack.com/w_848, /__u/isvpompeu.substack.com/c_limit, /__u/isvpompeu.substack.com/f_webp, /__u/isvpompeu.substack.com/q_auto:good, 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src="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!GZFs!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2b58a8d2-65df-4045-80d2-b10a7439826c_4032x3024.jpeg" width="1456" height="1941" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/2b58a8d2-65df-4045-80d2-b10a7439826c_4032x3024.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:1941,&quot;width&quot;:1456,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:3457673,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!GZFs!, /__u/isvpompeu.substack.com/w_424, 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analisando cada uma das obras. Na ordem, por&#233;m, temos a literatura (<em>Parnaso</em>), a filosofia (<em>Escola de Atenas</em>) e a teologia revelada (<em>Disputa do Sant&#237;ssimo Sacramento</em>).</p><p>Espero as tuas impress&#245;es.</p><p><em>In proximum,</em></p><p><em>vale.</em></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://isvpompeu.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption"></p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Conhecimento enciclopédico não é educação clássica]]></title><description><![CDATA[Apenas se significar a forma&#231;&#227;o (paideia) pelo c&#237;rculo (enkyklios) das disciplinas.]]></description><link>https://isvpompeu.substack.com/p/conhecimento-enciclopedico-nao-e</link><guid isPermaLink="false">https://isvpompeu.substack.com/p/conhecimento-enciclopedico-nao-e</guid><dc:creator><![CDATA[Ian Pompeu]]></dc:creator><pubDate>Thu, 06 Feb 2025 16:16:04 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/c6257076-b0e6-490a-8cc1-07349843162f_838x1023.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Em tempos de profunda crise, h&#225; os que perdem a esperan&#231;a e os que voltam os olhos ao passado em busca de uma sa&#237;da.</p><p>Os primeiros vivem amargurados, culpando tudo e todos.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://isvpompeu.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Os segundos dividem-se em dois grupos: h&#225; os que idealizam &#233;pocas de ouro, e h&#225; os que ouvem os mestres antigos sem perder de vista as circunst&#226;ncias em que se encontram.</p><p>O passado, outrora desprezado, ressurge como solu&#231;&#227;o para os dilemas do presente. </p><p>&#201;, meu caro C&#237;cero, a verdade das tuas palavras &#233; incontest&#225;vel.</p><p>Ou&#231;amos o que disse o mestre dos oradores em <em>De Oratore</em>, II, 36:</p><div class="pullquote"><p><em>"Historia vero testis temporum, lux veritatis, vita memoriae, magistra vitae, nuntia vetustatis&#8230;"</em> &#8212; <em>A hist&#243;ria, de fato, &#233; a testemunha dos tempos, a luz da verdade, a vida da mem&#243;ria, a mestra da vida, a proclamadora da antiguidade&#8230;</em></p></div><p>Diante do colapso educacional em que vivemos, o mero ato de falar sobre educa&#231;&#227;o cl&#225;ssica j&#225; causa imenso al&#237;vio.</p><p>Entretanto, muitos foram ofuscados pela beleza da promessa e se esqueceram de estudar a s&#233;rio aquilo que lhes era prometido.</p><p>Querem romper com a educa&#231;&#227;o moderna, receosos de suas consequ&#234;ncias j&#225; evidentes, mas ignoram suas ra&#237;zes. Assim, n&#227;o conseguem erradicar o problema da in&#233;pcia intelectual.</p><p>A raiz desse problema parece estar na antropologia subjacente ao modelo educacional vigente. J&#225; tratei desse ponto na <a href="/__u/isvpompeu.substack.com/p/carta-1-a-educacao-classica?r=3g2xrj">carta 1</a> e na <a href="/__u/isvpompeu.substack.com/p/carta-10-educacao-moderna?r=3g2xrj">carta 10</a>. </p><p>Al&#233;m disso, nas pr&#243;ximas semanas publicarei um v&#237;deo explicando esse aspecto com mais detalhes. Recomendo, tamb&#233;m, <a href="https://www.thomasaquinas.edu/a-liberating-education/about/seminal-documents/roots-modern-education">este artigo</a>.</p><p>Todo discurso sobre ensino parte de uma defini&#231;&#227;o de homem e de uma defini&#231;&#227;o de educa&#231;&#227;o &#8212; e ambas se influenciam mutuamente.</p><p>Se a educa&#231;&#227;o &#233; vista apenas como um meio de preparar os alunos para resolver provas, ent&#227;o um conhecimento enciclop&#233;dico &#8212; volumoso em informa&#231;&#245;es, mas carente de ordem e profundidade &#8212; ser&#225; considerado valioso.</p><p>At&#233; a prepara&#231;&#227;o final para o vestibular, a maior parte das disciplinas exigidas pelos burocratas da educa&#231;&#227;o serve apenas para cumprir a carga hor&#225;ria m&#237;nima anual. &#201; tempo desperdi&#231;ado.</p><p>N&#227;o h&#225; como negar que essa mentalidade nos moldou. </p><p>Ap&#243;s passar pela escola, faculdade e p&#243;s-gradua&#231;&#227;o nesse sistema, os professores tendem a reproduzir o modelo pelo qual foram formados.</p><p>Ao se darem conta do caos educacional, alguns buscam ref&#250;gio na educa&#231;&#227;o cl&#225;ssica. Com sincero desejo de mudan&#231;a, come&#231;am a estudar. E, ap&#243;s adquirirem algum conhecimento, prop&#245;em-se a transmiti-lo.</p><p>Neste momento, as artes liberais do <em>trivium</em> s&#227;o as que mais sofrem. Pouco se fala do <em>quadrivium</em>. E o latim? Pobre l&#237;ngua, chamada de tudo, menos de l&#237;ngua.</p><p>Os esperan&#231;osos professores come&#231;am a ensinar gram&#225;tica, l&#243;gica e ret&#243;rica com aulas expositivas, sem exigir qualquer exerc&#237;cio por parte dos alunos; ou, quando tentam apresentar algum, n&#227;o compreendem o motivo pelo qual o fazem.</p><p>Aos poucos, recaem na mesma frustra&#231;&#227;o que os levou a fugir para as colinas.</p><p>Mas o pr&#243;prio g&#234;nero das artes liberais serve como um lembrete sobre como devemos guiar nosso aprendizado e o m&#233;todo de transmiti-las.</p><p>Uma arte ou t&#233;cnica (<em>techne</em>, como diziam os gregos) desenvolve-se a partir de regras e preceitos que nos orientam no <em>fazer; </em>&#233; a reta raz&#227;o no fazer. </p><p>Meus alunos de latim j&#225; se cansaram de ouvir conselhos como: <em>"Leiam em voz alta; respondam os exerc&#237;cios mentalmente; memorizem a senten&#231;a inteira; copiem-na no papel apenas com aux&#237;lio da mem&#243;ria e, depois, comparem a resposta."</em> Ou ainda: <em>"Ao encontrar uma palavra nova, construam frases com ela, busquem ant&#244;nimos, sin&#244;nimos e defini&#231;&#245;es."</em> E tamb&#233;m: <em>"Respeitem a ordem dos exerc&#237;cios: primeiro, para testar o aprendizado do vocabul&#225;rio; depois, para aplicar as novas estruturas gramaticais; e, por fim, para verificar a compreens&#227;o da hist&#243;ria."</em></p><p>Cada um desses recursos pr&#225;ticos &#233; um tijolo na constru&#231;&#227;o do edif&#237;cio da flu&#234;ncia na l&#237;ngua.</p><p>E o resultado n&#227;o ser&#225; uma nova Torre de Babel, mas uma catedral, cujas partes se conectam para um fim &#250;nico: elevar a alma na glorifica&#231;&#227;o de Deus.</p><p>Os novos alunos de l&#243;gica logo ouvir&#227;o conselhos no mesmo sentido.</p><p>N&#227;o desejo formar estudantes que apenas memorizam a defini&#231;&#227;o de <em>defini&#231;&#227;o l&#243;gica</em>, mas que s&#227;o incapazes de julgar se uma defini&#231;&#227;o &#233; boa ou n&#227;o. Quero que experimentem na pr&#225;tica a dificuldade de definir algo com clareza, aprendam a valorizar o esfor&#231;o dos fil&#243;sofos e adquiram os recursos para formular defini&#231;&#245;es rigorosas quando necess&#225;rio &#8212; ou ao menos para reconhecer quando uma defini&#231;&#227;o com elevado grau de certeza se mostra imposs&#237;vel.</p><p>Como nos disse C&#237;cero, a hist&#243;ria &#233; a mestra da vida. E, consultando-a, aprendemos a conduzir tanto o aprendizado quanto o ensino das artes liberais.</p><p>Que nossa vis&#227;o n&#227;o seja ofuscada pelo esplendor da tradi&#231;&#227;o, mas agu&#231;ada pelo exerc&#237;cio constante que ela nos prop&#245;e.</p><p>Busquemos as ra&#237;zes do problema educacional e evitemos a fus&#227;o do que &#233; incompat&#237;vel. N&#227;o queremos produzir uma quimera, mas cultivar uma &#225;rvore frondosa e fecunda.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://isvpompeu.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Imago animi scriptum est]]></title><description><![CDATA[Sobre a necessidade da escrita]]></description><link>https://isvpompeu.substack.com/p/imago-animi-scriptum-est</link><guid isPermaLink="false">https://isvpompeu.substack.com/p/imago-animi-scriptum-est</guid><dc:creator><![CDATA[Ian Pompeu]]></dc:creator><pubDate>Wed, 05 Feb 2025 15:45:47 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/0f33e521-8284-46a5-8858-d4316efb1465_3397x3567.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Durante nossa forma&#231;&#227;o, a escrita se imp&#245;e como uma consequ&#234;ncia necess&#225;ria.</p><p>&#201; o passo natural de quem se encontra repleto de algum conhecimento e sente-se compelido a transmiti-lo.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://isvpompeu.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption"></p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Inicialmente, essa transmiss&#227;o deve ser voltada a n&#243;s mesmos; s&#243; depois, ao p&#250;blico.</p><p>Parafraseando S&#234;neca, consideremos que <em>imago animi scriptum est: qualis vita, talis oratio</em> &#8212; <em>a obra escrita &#233; a imagem da alma; como &#233; a vida, assim &#233; o discurso.</em> A frase original emprega <em>sermo</em> no lugar de <em>scriptum.</em></p><p>Ao analisarmos nossos pr&#243;prios textos sobre determinado assunto, tornamo-nos capazes de:</p><ol><li><p>Julgar quais partes do que foi estudado exigem aten&#231;&#227;o ainda maior.</p></li><li><p>Ordenar melhor os pensamentos.</p></li><li><p>Produzir algo a partir dos estudos e, assim, contemplar seus frutos.</p></li><li><p>Familiarizar-nos com a arte da escrita.</p></li></ol><p>Divulgar nossas palavras significa expor-se tanto aos julgamentos quanto &#224; possibilidade de ajudar os leitores. &#201; sumamente proveitoso contar com poucos e sinceros revisores. Dessa pr&#225;tica, colhemos valorosos frutos:</p><ol><li><p>O desejo constante de progresso - fazemos melhor pelos outros do que por n&#243;s.</p></li><li><p>A motiva&#231;&#227;o renovada pelo vislumbre do pr&#243;prio aperfei&#231;oamento.</p></li><li><p>O deleite ao auxiliar os leitores</p></li><li><p>A prepara&#231;&#227;o para os momentos de exposi&#231;&#227;o do que aprendemos.</p></li></ol><p>Com essa dupla leitura &#8212; primeiro, para n&#243;s mesmos; depois, para os outros &#8212;, come&#231;amos a aprender como escrever para verdadeiramente ajudar os leitores. </p><p>J&#225; n&#227;o se trata de um mero exerc&#237;cio de revis&#227;o do aprendizado, tampouco de um teste de nossas capacidades.</p><p>Entretanto, posso ouvir&#8230;</p><p><em>"Poucos ser&#227;o grandes escritores; n&#227;o vale a pena nem tentar."</em></p><p>Eis o pensamento daquele que, diante de uma bela paisagem, simplesmente fecha os olhos.</p><p>Se os maiores escritores da humanidade tivessem se deixado deter por esse receio, nossa vida hoje seria infinitamente mais pobre.</p><p>Qu&#227;o tristes ser&#237;amos sem Homero, Virg&#237;lio, Dante e Cam&#245;es.</p><p>Todos tiveram a oportunidade de desistir; justos motivos n&#227;o lhes faltaram. O mestre latino, no pr&#243;prio leito de morte, quis que a <em>Eneida</em> fosse queimada, por consider&#225;-la inacabada.</p><p>Mas n&#227;o usufruir dos benef&#237;cios de uma atividade apenas porque n&#227;o somos os melhores seria uma insensatez.</p><p>Como nos ensina Sertillanges, em <em>A Vida Intelectual</em>:</p><div class="pullquote"><p>"S&#243; se encontra seu caminho ao tom&#225;-lo. Toda vida anda em c&#237;rculo. Um &#243;rg&#227;o que se ativa cresce e se fortalece; um &#243;rg&#227;o fortalecido se ativa de modo mais potente. &#201; preciso escrever ao longo de toda a vida intelectual.</p><p>[...]</p><p>A mudez &#233; um apequenamento da pessoa. Se quiserem ser plenamente, do ponto de vista intelectual, &#233; preciso saber pensar em voz alta, pensar explicitamente, isto &#233;, formular seu verbo para o interior e para o exterior." (Cap. VIII, I)</p></div><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://isvpompeu.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption"></p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Hugo, Erasmo e Aquino se encontram…]]></title><description><![CDATA[E conversam sobre a mem&#243;ria.]]></description><link>https://isvpompeu.substack.com/p/hugo-erasmo-e-aquino-se-encontram</link><guid isPermaLink="false">https://isvpompeu.substack.com/p/hugo-erasmo-e-aquino-se-encontram</guid><dc:creator><![CDATA[Ian Pompeu]]></dc:creator><pubDate>Tue, 04 Feb 2025 15:50:53 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/32014ffc-2eb7-488d-8151-a63ed0ccc549_2340x4160.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Admiramo-nos diante de algu&#233;m que recita longos textos apenas com o aux&#237;lio da mem&#243;ria.</p><p></p><p><em>"V&#234; aquele homem s&#225;bio"</em>, exclamamos a quem est&#225; ao nosso lado, <em>"jamais conseguiria memorizar todas aquelas palavras!"</em></p><p></p><p>Algu&#233;m &#8212; ou algumas experi&#234;ncias &#8212; nos ensinou que certas habilidades nos s&#227;o vedadas, como se jamais pud&#233;ssemos adquiri-las.</p><p></p><p>&#201; verdade que algumas exigem um treinamento intenso desde cedo e, dadas as nossas obriga&#231;&#245;es atuais, tornaram-se inacess&#237;veis. Mas essa cren&#231;a &#233; uma fal&#225;cia quando aplicada aos instrumentos b&#225;sicos da nossa forma&#231;&#227;o &#8212; entre eles, a mem&#243;ria.</p><p></p><p>Na maioria das vezes, a dificuldade em recordar n&#227;o est&#225; em nossa capacidade de armazenar tesouros na mente, mas sim no fato de n&#227;o os termos compreendido.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://isvpompeu.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/isvpompeu.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p>Calemo-nos, pois, por um momento e ou&#231;amos os conselhos de tr&#234;s grandes mestres sobre o papel da mem&#243;ria: o primeiro ensina a sua import&#226;ncia; o segundo, os princ&#237;pios gerais para guardarmos e lembrarmos algo; o terceiro, a ordem em que devemos faz&#234;-lo.</p><p></p><p>Hugo de S&#227;o V&#237;tor, no <em>Didasc&#225;licon</em>, prop&#245;e que</p><p></p><div class="pullquote"><p><em>"o engenho encontra a Sabedoria, a mem&#243;ria a guarda. [...] Assim como o engenho investiga e compreende dividindo, assim a mem&#243;ria preserva o conhecimento recolhendo-o. [...] Este recolher significa elaborar uma compila&#231;&#227;o breve e resumida do que foi escrito ou discutido prolixamente. [...] De fato, qualquer que seja o tema explorado, ele possui algum princ&#237;pio no qual se apoia toda a veracidade do assunto e a for&#231;a de sua argumenta&#231;&#227;o, e &#233; dele que dependem todas as outras coisas abordadas ali&#8221;</em> (L. III, 1 e 10).</p></div><p></p><p>Erasmo de Roterd&#227;, em seu op&#250;sculo <em>O M&#233;todo de Estudo</em>, legou-nos uma regra de ouro da memoriza&#231;&#227;o:</p><div class="pullquote"><p><em>"Uma excelente mem&#243;ria consta principalmente de tr&#234;s coisas: compreens&#227;o, ordem e dilig&#234;ncia."</em></p></div><p></p><p>Por fim, S&#227;o Tom&#225;s, em seu <em>Coment&#225;rio ao De Memoria et Reminiscentia</em> de Arist&#243;teles, prop&#245;e a seguinte ordem para a memoriza&#231;&#227;o eficaz:</p><div class="pullquote"><p><em>"Portanto, para bem memorizar ou lembrar-se de documentos &#250;teis, podemos prosseguir a partir de quatro premissas, das quais a primeira &#233; que se tente dispor as coisas a serem retidas segundo uma ordem determinada; segundo, que ordene a mente profunda e voluntariamente &#224;quelas coisas; terceiro, que medite frequentemente de acordo com a ordem [estabelecida]; quarto, que comece a ser relembrado desde o princ&#237;pio&#8221;</em> (Tr. 2, c. 5, <em>tradu&#231;&#227;o livre</em>).</p></div><p></p><p>Esses mestres evidenciam que a mem&#243;ria depende do entendimento.</p><p></p><p>Ora, entender n&#227;o &#233; meramente reter conclus&#245;es, mas sim percorrer todo o caminho pelo qual os autores chegam a elas.</p><p></p><p>&#201; preciso seguir atentamente a argumenta&#231;&#227;o ou a narrativa para que possamos bem guard&#225;-las.</p><p></p><p>Eis a&#237; uma vis&#227;o diametralmente oposta &#224;quela aplicada aos estudos para vestibulares e concursos. Podemos obter bons resultados nesses exames sem compreender verdadeiramente as disciplinas, apenas acumulando informa&#231;&#245;es soltas.</p><p></p><p>Mas o mesmo n&#227;o se pode dizer dos estudos que conduzem &#224; sabedoria. Esta &#233; o conhecimento pelas causas.</p><p></p><p>Se desconhecemos os princ&#237;pios e a forma de desenvolv&#234;-los, nossa intelig&#234;ncia n&#227;o se distinguir&#225; da de uma m&#225;quina: possuir&#225;, como as intelig&#234;ncias artificiais, um conhecimento meramente enciclop&#233;dico, desprovido de ju&#237;zo e vida.</p><p></p><p>Nesse contexto, uma memoriza&#231;&#227;o volumosa e dispersa pode impressionar &#8212; tanto que, diante dela, nem nos ocorre pedir alguma explica&#231;&#227;o sobre o que foi dito.</p><p></p><p>No entanto, como ensinam os antigos, n&#227;o h&#225; verdadeira memoriza&#231;&#227;o sem que o engenho tenha conduzido, ordenadamente, ao entendimento.</p><p></p><p>Compreendendo, alcan&#231;amos o princ&#237;pio da mat&#233;ria estudada. E, com isso, tornamo-nos capazes de refazer o percurso do princ&#237;pio &#224;s suas consequ&#234;ncias, estabelecendo a devida ordem para cada passo do caminho.</p><p></p><p>Ao final, teremos na mente um conhecimento compactado, que deve ser revisitado frequentemente para que, quando necess&#225;rio, possa ser ampliado e aprofundado.</p><p></p><p>Um excelente meio de testar a compreens&#227;o e a memoriza&#231;&#227;o dos textos &#233; a exposi&#231;&#227;o diante de questionamentos. </p><p></p><p>Utilizo esse recurso em aulas segundo o m&#233;todo socr&#225;tico. Se tens interesse em aprofundar teus estudos sob essa perspectiva, envia-me uma mensagem.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://isvpompeu.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/isvpompeu.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Por que educação liberal?]]></title><description><![CDATA[Educa&#231;&#227;o dos liberais?]]></description><link>https://isvpompeu.substack.com/p/por-que-educacao-liberal</link><guid isPermaLink="false">https://isvpompeu.substack.com/p/por-que-educacao-liberal</guid><dc:creator><![CDATA[Ian Pompeu]]></dc:creator><pubDate>Mon, 03 Feb 2025 15:45:56 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/854dd5fd-cbe6-4594-b821-083660b337a1_800x994.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Em nossos tempos, o termo <em>liberal</em> tornou-se um adjetivo aplicado a a&#231;&#245;es e pensamentos fundamentados nos princ&#237;pios do liberalismo &#8212; corrente da filosofia moral e pol&#237;tica que se apresenta como defensora da liberdade e da qual toma o nome.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://isvpompeu.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/isvpompeu.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p>N&#227;o pretendo, aqui, discutir o paradoxo de um liberalismo que, muitas vezes, mais aprisiona do que liberta. O foco &#233; outro: esclarecer o que significa a qualidade <em>liberal</em> da educa&#231;&#227;o.</p><p>Se h&#225; alguma rela&#231;&#227;o entre os dois conceitos, ela se d&#225; apenas na medida em que ambos buscam libertar o homem. Mas a educa&#231;&#227;o liberal compreende a liberdade de modo mais rigoroso e substancial: n&#227;o como um fim em si mesma, mas sempre como <em>liberdade de</em> algo e <em>liberdade para</em> algo.</p><p>Pela educa&#231;&#227;o, o homem &#233; libertado da ignor&#226;ncia para o conhecimento; das ideologias para a realidade; da confus&#227;o mental para a clareza; das paix&#245;es desordenadas para o autodom&#237;nio.</p><p>Mas essa liberta&#231;&#227;o n&#227;o se d&#225; pela mera transmiss&#227;o de informa&#231;&#245;es verdadeiras. &#201; preciso fornecer ao aluno as ferramentas que lhe permitir&#227;o conduzir seus pr&#243;prios estudos com autonomia.</p><p>No ensino da literatura, por exemplo, n&#227;o basta que o estudante compreenda um &#250;nico livro sob a orienta&#231;&#227;o do professor; ele deve ser preparado para ler e interpretar obras futuras por conta pr&#243;pria. Precisa aprender o que pode exigir de um texto liter&#225;rio, como construir um argumento, como dividi-lo, como interpret&#225;-lo, como exp&#244;-lo e, por fim, como assimilar o estilo dos autores que l&#234;.</p><p>Na geometria, o professor n&#227;o entrega conclus&#245;es e f&#243;rmulas prontas, mas apresenta defini&#231;&#245;es, axiomas e postulados, deixando ao aluno a tarefa de articul&#225;-los na solu&#231;&#227;o dos problemas.</p><p>A liberdade oriunda da educa&#231;&#227;o cl&#225;ssica n&#227;o &#233; uma abstra&#231;&#227;o, mas um poder real: a capacidade de operar todas as faculdades humanas &#8212; biol&#243;gicas, afetivas, morais, intelectuais e espirituais &#8212; com excel&#234;ncia.</p><p>Essa educa&#231;&#227;o n&#227;o se resume &#224; absor&#231;&#227;o de informa&#231;&#245;es padronizadas nem se esgota na aquisi&#231;&#227;o de habilidades t&#233;cnicas. Seu prop&#243;sito n&#227;o &#233; formar especialistas submissos a manuais, mas homens que saibam pensar. E, porque pensam, podem decidir com sabedoria sobre suas vidas &#8212; colocando o trabalho em seu devido lugar: como um meio para a subsist&#234;ncia, e n&#227;o como o bem supremo.</p><p>Na verdadeira educa&#231;&#227;o, os professores trabalham para se tornarem, um dia, in&#250;teis.</p><p>Querem, em outras palavras, que seus alunos aprendam a caminhar sem aux&#237;lio &#8212; e at&#233; mesmo a ensinar a outros futuros alunos.</p><p>Quando, enfim, os estudantes conseguem resolver os problemas propostos e expor com clareza suas respostas, somos tomados por uma alegria imensa. Tendo-os conduzido at&#233; o patamar da disciplina, podemos repetir, com j&#250;bilo, as palavras do velho Sime&#227;o: <em>Nunc dimittis servum tuum, Domine</em> &#8212; agora, Senhor, deixas ir o teu servo.</p><p>A nossa miss&#227;o, enquanto mestres, &#233; cooperar com a liberta&#231;&#227;o que adv&#233;m da verdade, enquanto objeto do intelecto; do bem, enquanto objeto da vontade; e do belo, enquanto objeto dos sentidos.</p><p>E o &#225;pice dessa liberta&#231;&#227;o est&#225; no direcionamento da exist&#234;ncia para Deus, que &#233;, ao mesmo tempo, a Verdade, o Bem e o Belo.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://isvpompeu.substack.com/p/por-que-educacao-liberal?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Share&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/isvpompeu.substack.com/p/por-que-educacao-liberal?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Share</span></a></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Carta #10 - Educação Moderna]]></title><description><![CDATA[Uma tentativa de esclarecimento]]></description><link>https://isvpompeu.substack.com/p/carta-10-educacao-moderna</link><guid isPermaLink="false">https://isvpompeu.substack.com/p/carta-10-educacao-moderna</guid><dc:creator><![CDATA[Ian Pompeu]]></dc:creator><pubDate>Sun, 02 Feb 2025 22:58:27 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/cdf3ffee-e30c-4b31-947b-bd66285cd6d4_1280x937.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><em>Ioannes Pompeu lectori suo salutem plurimam dicit.</em></p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://isvpompeu.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption"></p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Caro leitor,</p><p></p><p>o descontentamento com a educa&#231;&#227;o proposta pela maioria das escolas e faculdades &#233; n&#237;tido, assim como a empolga&#231;&#227;o com o movimento da educa&#231;&#227;o cl&#225;ssica.</p><p></p><p>Contudo, o que caracteriza uma e outra? Quais as consequ&#234;ncias gerais a partir dessa caracteriza&#231;&#227;o? Sobre essas quest&#245;es e outras, resolvi te escrever esta carta e a pr&#243;xima.</p><p></p><p>Nessa, focarei na educa&#231;&#227;o moderna e, na pr&#243;xima, abordarei a educa&#231;&#227;o cl&#225;ssica segundo os mesmos crit&#233;rios.</p><h2>Requisitos para pensar sobre a educa&#231;&#227;o</h2><p>Duas s&#227;o as condi&#231;&#245;es para investigarmos a educa&#231;&#227;o: uma defini&#231;&#227;o sua e do seu destinat&#225;rio - o ser humano (<em>v. Liberal Education: A Working Definition</em> de Jeffrey Lehman).</p><p></p><p>O grande problema com essas exig&#234;ncias &#233; o &#244;nus de precisar tentar explicar o que s&#227;o as defini&#231;&#245;es, bem como suas exig&#234;ncias e esp&#233;cies para a maior parte dos interlocutores.</p><p></p><p>Digo-te isso n&#227;o em tom de superioridade, mas com pesar advindo do menosprezo das ferramentas b&#225;sicas da aprendizagem - um t&#237;tulo j&#225; conhecido para o <em>Trivium</em> e o <em>Quadrivium</em>, embora sua autora n&#227;o tenha sido t&#227;o feliz ao apresentar como adquirir as artes liberais.</p><p></p><p>Ou seja, a dificuldade com a formula&#231;&#227;o de boas defini&#231;&#245;es hoje adv&#233;m da car&#234;ncia de recursos l&#243;gicos e do contato com os grandes fil&#243;sofos. Por causa disso, ouvimos diversas f&#243;rmulas vazias ao questionarmos &#8220;o que &#233; educa&#231;&#227;o?&#8221;.</p><p></p><p>S&#243;crates come&#231;ou as suas discuss&#245;es em um cen&#225;rio n&#227;o t&#227;o diferente.</p><p></p><p>Por vezes, n&#227;o chegou a uma resposta com o seu interlocutor; evidenciou, por&#233;m, a ignor&#226;ncia de uma pessoa que achava saber alguma coisa (<em>v. Livro I da Rep&#250;blica</em> e <em>M&#234;non</em>), bem como nos ensinou a desvendarmos o nosso pr&#243;prio desconhecimento disfar&#231;ado de chamativos medalh&#245;es (<em>v. A Teoria do Medalh&#227;o</em> de Machado de Assis).</p><p></p><p>A fim de esclarecer a distin&#231;&#227;o entre educa&#231;&#227;o moderna e cl&#225;ssica, apresentar-te-ei o delineamento de algumas defini&#231;&#245;es ao longo do texto. Espero que possamos tamb&#233;m dialogar a respeito do exposto.</p><h2>Princ&#237;pios e consequ&#234;ncias gerais da Educa&#231;&#227;o Moderna</h2><p>Ao falar de educa&#231;&#227;o moderna ou contempor&#226;nea, n&#227;o me refiro tanto a um per&#237;odo, mas mais a uma no&#231;&#227;o.</p><p></p><p>&#201; a concep&#231;&#227;o de educa&#231;&#227;o como uma arte de transmitir informa&#231;&#245;es e t&#233;cnicas a fim de que os alunos se tornem capacitados a fazer provas e, posteriormente, a inserirem-se no mercado de trabalho.</p><p></p><p>Visualizar isso, contudo, n&#227;o basta. Precisamos ser como S&#243;crates e questionar a vis&#227;o antropol&#243;gica subjacente a essa filosofia da educa&#231;&#227;o, pois homens e mulheres s&#227;o os seus destinat&#225;rios.</p><p></p><p>A preocupa&#231;&#227;o com o repasse de informa&#231;&#245;es e o ensino de t&#233;cnicas laborais &#233; o cume da pedagogia no contexto em que o homem &#233; um ser vivo cujo fim a cria&#231;&#227;o do pr&#243;prio mundo, necessitando, para tanto, apenas dos meios materiais (<em>v. Natural Law and Human Rights</em> de Pierre Manent).</p><p></p><p>Os diversos sistemas filos&#243;ficos se aproximam de tais no&#231;&#245;es com roupas variadas, sejam os racionalistas sejam os antirracionalistas (<em>v. A Raiz Antitomista da Modernidade Filos&#243;fica</em> de Daniel Scherer).</p><p></p><p>Ambos os movimentos desprezaram a raz&#227;o humana, pois ou a reduziram &#224; capacidade de conhecer fen&#244;menos quantific&#225;veis ou defenderam a sua inexist&#234;ncia. Nos dois casos, o homem tentou ser exaltado, mas acabou caindo num abismo profundo. Com as justificativas de cada per&#237;odo, o beb&#234; foi jogado fora com a &#225;gua suja.</p><p></p><p>O que sobrou foi apenas a categoriza&#231;&#227;o do homem como <em>ser vivo</em>, pois as demais qualifica&#231;&#245;es - predic&#225;veis para ser mais preciso - foram, progressivamente, deletadas da defini&#231;&#227;o. A potencialidade distintiva desse ser vivo &#233; a cria&#231;&#227;o da pr&#243;pria natureza.</p><p></p><p>Embora a realidade nos evidencie que isso &#233; imposs&#237;vel, colocando uma parede em frente ao nosso caminho, colocou-se o homem como medida de todas as coisas e, desse ato, seguiu-se a frustra&#231;&#227;o de quem ocupa o lugar indevido e precisa ser removido de l&#225;.</p><p></p><p>A educa&#231;&#227;o moderna se reduz &#224; transmiss&#227;o de o que pensar e como fazer algo (<em>v. What Is Classical Education?</em> de Martin Cothran). A partir da defini&#231;&#227;o de ser humano como um novo demiurgo - art&#237;fice - cuja obra &#233; a pr&#243;pria natureza, resta a defesa dessa vis&#227;o pelo ensino ideol&#243;gico, o qual n&#227;o fornece instrumentos para analisar mensagens, mas apenas memorizar as j&#225; repassadas, bem como a instru&#231;&#227;o nas t&#233;cnicas que permitiram ao aluno ter uma fonte de renda.</p><p></p><p>Diante dessa defini&#231;&#227;o de educa&#231;&#227;o e vis&#227;o antropol&#243;gica, podemos listar as caracter&#237;sticas da educa&#231;&#227;o moderna (<em>v. Catholic Liberal Education Freedom in Christ</em> de Elisabeth Sullivan):</p><ul><li><p>Fragmenta&#231;&#227;o curricular ou curr&#237;culos diversos em uma mesma escola.</p></li><li><p>Preocupa&#231;&#227;o central com o ensino de t&#233;cnicas variadas para provas e inser&#231;&#227;o no mercado e trabalho.</p></li><li><p>Transmiss&#227;o excessiva de informa&#231;&#245;es.</p></li><li><p>Diversidade desconexa de conte&#250;do.</p></li><li><p>Aprendizagem passiva.</p><p></p></li></ul><p>N&#227;o raro, vimos, vemos e veremos alunos padecentes do seguinte:</p><ul><li><p>Incapacidade de refletir sobre o que recebe.</p></li><li><p>Desorienta&#231;&#227;o acerca do que fazer com a riqueza recebida.</p></li><li><p>Vis&#227;o da educa&#231;&#227;o como treinamento para uma prova que apenas avalia a memoriza&#231;&#227;o.</p></li><li><p>Des&#226;nimo para continuar os estudos e frustra&#231;&#227;o ao termin&#225;-los.</p></li></ul><p></p><p>Esses esclarecimentos fazem sentido para ti? Chegaste a notar as caracter&#237;sticas apontas e/ou a sofrer as consequ&#234;ncias mencionadas?</p><p>Espero que essa carta te ajude.</p><p></p><p><em>In proximum,</em></p><p></p><p><em>Vale.</em></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://isvpompeu.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption"></p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item></channel></rss>