<script data-pm-proxy="intercept"></script><?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Machadada]]></title><description><![CDATA[Eu escrevo, eu bordo e eu choro 🌈]]></description><link>https://janaina.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!8hE-!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fjanaina.substack.com%2Fimg%2Fsubstack.png</url><title>Machadada</title><link>https://janaina.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Fri, 04 Sep 2026 19:55:26 GMT</lastBuildDate><atom:link href="/__u/janaina.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Janaína]]></copyright><language><![CDATA[pt]]></language><webMaster><![CDATA[janaina@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[janaina@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Janaína]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Janaína]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[janaina@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[janaina@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Janaína]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[2 anos sem você]]></title><description><![CDATA[a maior dor e o maior amor da minha vida]]></description><link>https://janaina.substack.com/p/2-anos-sem-voce</link><guid isPermaLink="false">https://janaina.substack.com/p/2-anos-sem-voce</guid><dc:creator><![CDATA[Janaína]]></dc:creator><pubDate>Thu, 27 Aug 2026 21:03:40 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/752e8070-bfb4-473a-8065-cae64fdf55e0_3024x3024.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>eu me lembro do dia, por mais que eu tente apaga-lo da lembran&#231;a. eu me lembro do dia anterior, da culpa, da dor. sua mensagem que chegou dizendo que voc&#234; tinha feito um sop&#227;o, pra eu ir la jantar com voc&#234;. n&#227;o fui porque eu estava t&#227;o deprimida que n&#227;o conseguia sequer sair da cama, ent&#227;o naquele dia, duas amigas foram l&#225; em casa arrumar as coisas pra mim. </p><p>lembro de acordar e perceber que era a primeira vez que voc&#234; n&#227;o tinha mandado mensagem cedo, como fazia desde que precisou me tirar do hospital. minha dinda mandou mensagem tambem, perguntando se tinha falado com voc&#234;. &#233; estranho, mas por mais que eu n&#227;o quisesse, foi naquele momento que eu soube. <br><br>a partir da&#237;, lembro do que pareceu uma multid&#227;o na porta da sua casa, todos me esperando prontos pra me segurarem. &#8220;voc&#234; precisa ser forte", &#8220;me solta eu quero minha m&#227;e&#8221;. o lampejo de esperan&#231;a ao ver a ambul&#226;ncia estilha&#231;ado. voc&#234;, no sof&#225;, segurando o ter&#231;o que hoje fica bem exposto na minha casa, apesar de n&#227;o ter nenhuma religi&#227;o. eu sentada no ch&#227;o, comendo o sop&#227;o que voc&#234; tinha feito, a &#250;ltima vez que comeria sua comida. </p><p>era pra ser eu. eu deveria ter te encontrado, eu deveria ter passado as suas &#250;ltimas horas contigo, jantado com voc&#234;, ouvido voc&#234; rir e roncar e falar sozinha. eu deveria ter acordado de manh&#227;, ido at&#233; a sala e percebido que voc&#234; tinha partido. eu penso nisso e sinto culpa, dor, arrependimento, e tudo piora, pois tamb&#233;m sinto al&#237;vio. eu n&#227;o sei como reagiria, n&#227;o sei se seria capaz de ter vivido depois disso. </p><p>eu morri junto com voc&#234;, m&#227;e. as pessoas n&#227;o entendem, mas eu n&#227;o tenho nada do que costumava ser antes de voc&#234; partir. n&#227;o sou a mesma pessoa, n&#227;o tenho o mesmo rosto, o mesmo corpo, a mesma alma. sinto diferente, vejo diferente, penso diferente. ajo como uma nova pessoa, porque foi isso que precisei virar para seguir em frente. &#8220;voc&#234; &#233; t&#227;o forte&#8221;, nossa, n&#227;o, sou fraca, estou desmoronando todos os dias, segurando as pontas, compartimentalizando. eu sobrevivo porque n&#227;o tenho outra op&#231;&#227;o, a n&#227;o ser ir com voc&#234;. </p><p>e quase fui, como pensei nisso! gatite me segurou pela pata, bento me segurou pela m&#227;o. dor e amor coexistem, como pode? disse que n&#227;o tenho religi&#227;o, mas minha religi&#227;o &#233; voc&#234;. a gente tende a santificar quem morre, mas eu n&#227;o fa&#231;o isso: lembro das suas falhas, n&#227;o pra pensar mal de voc&#234;, mas para me lembrar que voc&#234; &#233; humana. foi humana. mas lembro ainda mais das coisas boas: sua bondade incontest&#225;vel, sua casa e seu cora&#231;&#227;o sempre abertos, sua aceita&#231;&#227;o e acolhimento, sua parceria e companheirismo, sua vontade de viver. sua vontade de viver, m&#227;e. </p><p>datas significativas batem diferente. nesse momento, sinto que meu peito &#233; um buraco negro e profundo, sugando toda felicidade que pode existir em mim. sinto dor no peito, na barriga, na garganta. sinto fraqueza, como se meu corpo n&#227;o fosse capaz de sustentar a dor da perda. as l&#225;grimas caem e as l&#225;grimas secam e as l&#225;grimas caem e as l&#225;grimas secam. estou exausta, mas se sentir dor significa que sua lembran&#231;a segue aqui, ent&#227;o a aceito de bom grado. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" 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isPermaLink="false">https://janaina.substack.com/p/tirar-o-corpo-da-cabeca</guid><dc:creator><![CDATA[Janaína]]></dc:creator><pubDate>Tue, 07 Apr 2026 19:29:53 GMT</pubDate><enclosure url="https://i.scdn.co/image/ab6765630000ba8a1c9874a5d6421c0ba4d5933d" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>sou oficialmente f&#227; das artes: gosto de bordar, de pintar, de fazer cer&#226;mica, de criar minhas fantasias carnavalescas, de ouvir m&#250;sica, ir ao museu, dan&#231;ar, escrever. gosto de tudo que posso fazer com minhas m&#227;os e que demandem ou um completo foco ou desconex&#227;o total do mundo real. e a cada vez mais, viver sem tanta tecnologia. </p><p>&#8220;aiii mas t&#225; na modinha, todo mundo quer viver offline&#8221;. meu deus, sim! tomara que a gente domine o mundo e passe a usar a tecnologia novamente como uma ferramenta, e n&#227;o como forma de viver. n&#227;o tem a ver com isso, ou talvez seja tudo a mesma coisa mas a verdade &#233; que o excesso de rede social me faz, a cada dia mais, querer uma vida, um corpo, um sonho que n&#227;o &#233; meu. o corpo padr&#227;o muda todo dia, e o meu nunca acompanha; trabalho com tecnologia (a ironia!) e existe uma repeti&#231;&#227;o constante de que eu deveria estar sempre atr&#225;s de um emprego melhor, um sal&#225;rio maior, morar em SP porque tem mais oportunidades; a intelig&#234;ncia artificial segue dominando os espa&#231;os que deveriam ser seguros e privados, sem falar os espa&#231;os dos artistas; voltei para o BR mas o sonho de morar na Europa n&#227;o pode morrer, mas se moro na Europa, deveria estar sempre me sentindo culpada e voltar a morar no BR. </p><p>a quest&#227;o &#233; que quando sou s&#243; eu me cobrando mil coisas, tudo bem - errrr quer dizer&#8230; - mas quando essa cobran&#231;a vem de lugares e pessoas que eu nunca vi na vida e n&#227;o tiveram a mesma trajet&#243;ria que eu, perde o sentido. eu estava me norteando pelo sucesso dessas pessoas, e esquecendo de valorizar o que &#233; meu. </p><p>o que &#233; meu: fiz uma aula aberta de timbal e, apesar de ser um instrumento dif&#237;cil, eu amei. achei que n&#227;o conseguiria sequer bater corretamente, mas a aula fluiu. come&#231;o as aulas oficialmente amanh&#227;, e n&#227;o s&#243; estou animada para aprender algo novo, como a foto tirada nesse dia, com o timbal agarrado em mim, foi a primeira em muito muito tempo que olhei e gostei do que vi. n&#227;o porque me achei bonita ou magra ou que meu cabelo estava perfeito, nem nada. eu gostei porque foi o resultado de um momento que minha preocupa&#231;&#227;o n&#227;o estava no meu corpo, e sim nas minhas m&#227;os. e eu fui capaz de ouvir, aprender, reproduzir um som, e nada disso dependeu da minha apar&#234;ncia. </p><p>foi um estalo, viu?! nesse dia, decidi dar um tempo do instagram, e para minha surpresa (n&#227;o, nenhuma), voltei a ler. a estudar. a bordar, e a fazer cer&#226;mica. fiz umas tenebrosas, n&#227;o ficaram nem de recorda&#231;&#227;o, mas o fazer, literalmente colocar a m&#227;o na massa, canalizar meus sentimentos atrav&#233;s das minhas m&#227;os. tem sido lindo, tem sido uma del&#237;cia, e por isso, vou compartilhar algumas sugest&#245;es aqui pra te incentivar a fazer o mesmo - n&#227;o que voc&#234; precise sair do instagram, mas quem sabe ocupar um pouco do seu tempo em outras coisas legais? <br><br>comece lendo minha amiga amada <span class="mention-wrap" data-attrs="{&quot;name&quot;:&quot;Vania Lima&quot;,&quot;id&quot;:1252870,&quot;type&quot;:&quot;user&quot;,&quot;url&quot;:null,&quot;photo_url&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/f77bfca0-522b-4af2-8f76-d40606f94db1_546x546.png&quot;,&quot;uuid&quot;:&quot;f2fc31d1-7c03-4ac4-ac04-dcdb18494e8f&quot;}" data-component-name="MentionToDOM"></span> que escreve <span class="mention-wrap" data-attrs="{&quot;name&quot;:&quot;como ser feliz num mundo triste&quot;,&quot;id&quot;:7076252,&quot;type&quot;:&quot;pub&quot;,&quot;url&quot;:null,&quot;photo_url&quot;:null,&quot;uuid&quot;:&quot;512881b4-ddb1-41a6-a6c8-dc49ad7e08db&quot;}" data-component-name="MentionToDOM"></span> &#10024;<br><br>aul&#227;o de timbal e a foto da mudan&#231;a              essas sobreviveram ao expurgo &#128514;</p><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/205b892e-3521-41b1-988d-e4a1b27587e3_1200x1600.jpeg&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/923c5064-d2c4-4c3d-b109-ea42cdb57b41_4284x4507.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/0af0d3f2-67be-4e73-91bd-31b1ee7fd4e6_1456x720.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p></p><p>por incr&#237;vel que pare&#231;a, esse eps do podcast da <s>diva</s> nutri descontru&#237;da tem tudo a ver com o que to vivendo e s&#243; ouvi depois das decis&#245;es tomadas! ou&#231;am Pabylle sempre &#128156;</p><iframe class="spotify-wrap podcast" data-attrs="{&quot;image&quot;:&quot;https://i.scdn.co/image/ab6765630000ba8a1c9874a5d6421c0ba4d5933d&quot;,&quot;title&quot;:&quot;Voc&#234; &#233; o que voc&#234; come... DIGITALMENTE&quot;,&quot;subtitle&quot;:&quot;Pabyle Flauzino&quot;,&quot;description&quot;:&quot;Episode&quot;,&quot;url&quot;:&quot;https://open.spotify.com/episode/4iDAfHEQzOG0wdIzLGHWH1&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;noScroll&quot;:false}" src="https://open.spotify.com/embed/episode/4iDAfHEQzOG0wdIzLGHWH1" frameborder="0" gesture="media" allowfullscreen="true" allow="encrypted-media" data-component-name="Spotify2ToDOM"></iframe><p>bordar &#233; uma del&#237;cia e &#233;, provavelmente, a atividade que mais me desliga do mundo e ningu&#233;m melhor pra ensinar do que o <a href="https://www.youtube.com/@ClubedoBordado">Clube do Bordado</a>: </p><div id="youtube2-d7puEfocWr4" class="youtube-wrap" data-attrs="{&quot;videoId&quot;:&quot;d7puEfocWr4&quot;,&quot;startTime&quot;:null,&quot;endTime&quot;:null}" data-component-name="Youtube2ToDOM"><div class="youtube-inner"><iframe src="https://www.youtube-nocookie.com/embed/d7puEfocWr4?rel=0&amp;autoplay=0&amp;showinfo=0&amp;enablejsapi=0" frameborder="0" loading="lazy" gesture="media" allow="autoplay; fullscreen" allowautoplay="true" allowfullscreen="true" width="728" height="409"></iframe></div></div><p>livros!! </p><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/12e62abf-a186-4b98-9b33-d3d825102db8_376x556.png&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/1b710f98-034a-46cf-8873-9842ab8258bd_374x554.png&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/55d85a55-2ec7-425f-a5ea-88b7498edf67_330x552.png&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/fa282c8a-0eaa-49cf-a81c-fb2c9f69ca56_362x556.png&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/77d58357-41e4-42d5-ab98-2cdad7de408a_364x546.png&quot;},{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/cf57b43a-225b-4f84-9457-8f1a02d833f3_378x554.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/516eb166-764d-4d80-b4b8-9dc3317336d2_1456x964.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p>comecei tamb&#233;m a assistir algumas s&#233;ries, mas nenhuma me prendeu e eu amei tanto e me fez t&#227;o felizinha a cada fim de epis&#243;dio como <a href="https://www.netflix.com/br/title/80217863">One Piece </a>&#129401;</p><div id="youtube2-Ades3pQbeh8" class="youtube-wrap" data-attrs="{&quot;videoId&quot;:&quot;Ades3pQbeh8&quot;,&quot;startTime&quot;:null,&quot;endTime&quot;:null}" data-component-name="Youtube2ToDOM"><div class="youtube-inner"><iframe src="https://www.youtube-nocookie.com/embed/Ades3pQbeh8?rel=0&amp;autoplay=0&amp;showinfo=0&amp;enablejsapi=0" frameborder="0" loading="lazy" gesture="media" allow="autoplay; fullscreen" allowautoplay="true" allowfullscreen="true" width="728" height="409"></iframe></div></div><p>e por fim, tenho meus hiperfocos musicais hehe e transito entre Hozier-TaylorSwift-OsGarotin(v&#227;o fazer tour na Europa, c&#234; viu?)-Dominguinho-e mais recentemente, Joyce Alane:</p><div id="youtube2-2X5h4cCO7Uo" class="youtube-wrap" data-attrs="{&quot;videoId&quot;:&quot;2X5h4cCO7Uo&quot;,&quot;startTime&quot;:null,&quot;endTime&quot;:null}" data-component-name="Youtube2ToDOM"><div class="youtube-inner"><iframe src="https://www.youtube-nocookie.com/embed/2X5h4cCO7Uo?rel=0&amp;autoplay=0&amp;showinfo=0&amp;enablejsapi=0" frameborder="0" loading="lazy" gesture="media" allow="autoplay; fullscreen" allowautoplay="true" allowfullscreen="true" width="728" height="409"></iframe></div></div><p><br>at&#233; a pr&#243;xima conversa virtualizada de uma vidinha pacata e desvirtualizada! <br><br>beijo beijo! </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[so long, london]]></title><description><![CDATA[608 dias depois]]></description><link>https://janaina.substack.com/p/so-long-london</link><guid isPermaLink="false">https://janaina.substack.com/p/so-long-london</guid><dc:creator><![CDATA[Janaína]]></dc:creator><pubDate>Thu, 13 Nov 2025 20:48:35 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/8dd859a0-53a4-49e6-ac95-f363cc341d21_2975x3631.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>eu sempre achei curioso o quanto eu gosto de taylor swift. ela tem uma figura que eu costumo ignorar, desprezar at&#233;: bilion&#225;ria, branqu&#237;ssima (e aqui eu estou falando de estrutra social), bem barbiezinha. ent&#227;o por que, deusa minha, eu ou&#231;o em loop e espero ansiosamente pelos alb&#250;ns dela? descobri muito recentemente que &#233; porque ela &#233; vulner&#225;vel, sincera, escreve transbordando dor, poesia, raiva. sempre a vers&#227;o dela de cada hist&#243;ria, e que bom, porque ela n&#227;o pode falar por mais ningu&#233;m. escrevo, inclusive, ouvindo a m&#250;sica que d&#225; t&#237;tulo a esse post e que cabe t&#227;o bem no que venho mastigando a semanas: &#233; hora de dar tchau as lembran&#231;as londrinas. </p><p>eu amei Londres - amei a cidade que tem as cores cinza e vermelho marcadas na minha cabe&#231;a, que dependendo da esta&#231;&#227;o do ano, podem se misturar aos tons de verde dos parques e amarelo p&#225;lido do sol fraco; amei a independ&#234;ncia financeira que conquistei depois de tantos anos desejando, o novo relacionamento que eu e meu ex-marido moldamos, usando nossas sa&#237;das a dois para desbravar a cidade e a forma como caber&#237;amos um na vida do outro a partir dali, a intensidade com que me entreguei a novas rela&#231;&#245;es e a intensidade com que recebi de volta, as amizades conquistadas em filas de banheiro e nas trincheiras da primeira fila do show do Baco; amei o qu&#227;o delicioso era me enrolar em cobertas com ta&#231;as de vinho tinto no inverno, conversando e conversando, compartilhando assuntos que poderiam durar dias e meses e anos se o metr&#244; de Londres n&#227;o tivesse hora pra fechar e me obrigasse a voltar pra casa cedo. eu amei Londres, profundamente. </p><p>mas mesmo depois de tanto tempo longe, eu ainda me pego olhando para o conjunto dos anos l&#225; vividos com tanta dor, uma ferida que n&#227;o fecha. n&#227;o d&#225; pra amar tudo e l&#225; eu fui tra&#237;da, usada, tratada com descaso, insensibilidade e insensatez. e o pior &#233; que isso tudo foi feito por outros, mas tamb&#233;m por mim. me coloquei em risco, deixei que a felicidade de uns importasse mais que a minha, que a exist&#234;ncia de outros me afetassem tanto! eu feri pessoas, perdi pessoas, embaralhei as pernas, excedi meus limites repetidamente, confundi amigos com inimigos, e pessoas que n&#227;o gostavam de mim com pessoas que se importavam. abri minha vida, minha casa, minha individualidade e tive tudo isso usado contra mim. li&#231;&#245;es que ficam, mas tamb&#233;m dores que n&#227;o curam. enxergo minha responsabilidade em cada uma e todas as decis&#245;es que me trouxeram at&#233; aqui, e ao contr&#225;rio do que &#233; pregado por a&#237;, isso n&#227;o d&#225; leveza ao famoso processo, mas liberta o peso da culpa - sou respons&#225;vel pelos meus erros, n&#227;o eles por mim.</p><p>tentei de tudo pra deixar pra l&#225;: reconstru&#237; minha vida aqui no Rio e me cerquei de pessoas que confio, que me amam apesar de mim, que est&#227;o na mesma energia, que sabem estabelecer seus limites, e agora eu sei respeit&#225;-los; herdei o gato da minha m&#227;e, adotei mais um, bordei, pintei, cozinhei, dancei, sa&#237; pelada no carnaval, morei sozinha (!!!!), dividi casa com desconhecidos, fui corretamente medicada e estabilizada, comecei novos hobbies em que sou p&#233;ssima mas que fa&#231;o cheia de vontade de deixar minhas m&#227;os expressarem aquilo que n&#227;o consigo com a&#231;&#245;es, estou vivendo um amor tranquilo, s&#243;brio, carinhoso, respeitoso, saud&#225;vel. deletei fotos de muitos tantos, e mantive de algumas porque dessas, as lembran&#231;as boas e o amor trocado, ainda que possa n&#227;o existir mais, compensa reviver. mas sabe o que? s&#243; escrever me liberta. acho que eu sabia disso mas n&#227;o estava pronta pra deixar tanta coisa para tr&#225;s. </p><p>a vida segue. pessoas param de responder mensagens e de perguntar sobre a vida, e eu tamb&#233;m porque o bagulho &#233; correria caos confus&#227;o, &#233; boleto pra pagar, trabalho, academia, estudos, terapia, preciso e quero dar aten&#231;&#227;o &#224;s pessoas que fazem parte da minha vida agora, e assisto nas arquibancadas enquanto quem tanto j&#225; esteve presente faz o mesmo. n&#227;o d&#225; pra carregar todo mundo, e n&#227;o d&#225; pra ser carregada por todos. n&#227;o escrevo isso com rancor ou m&#225;goa, apenas atesto um fato. eu percebi que seguia tentando me apegar &#224; uma felicidade inventada, mas a realidade esteve sempre no encal&#231;o. </p><p>hoje, ouvindo taylor swift, analisando as letras das m&#250;sicas que ela usa como desabafo para poder desenhar suas dores e seguir sua vida, quis fazer isso tamb&#233;m. listar o que me machucou e o que me preencheu, dar nome e rosto &#224;s dores que me foram causadas, receb&#234;-las na minha casa, e depois dispens&#225;-las. fechar a porta com for&#231;a, arrumar a bagun&#231;a que deixamos pra tr&#225;s e finalmente iniciar o processo de superar ao inv&#233;s de me esconder. </p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[mãe]]></title><description><![CDATA[um texto de muitos do que ainda tenho a te dizer]]></description><link>https://janaina.substack.com/p/mae</link><guid isPermaLink="false">https://janaina.substack.com/p/mae</guid><dc:creator><![CDATA[Janaína]]></dc:creator><pubDate>Tue, 05 Aug 2025 15:04:51 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/759d0df2-3f40-43cc-82dc-8082eea890dc_3024x4032.heic" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>no seu anivers&#225;rio do ano passado, a gente saiu pra almo&#231;ar, do jeito que voc&#234; gostava. sentada &#224; sua frente na mesa do restaurante, vi o quanto voc&#234; reluzia, um pouco modesta, pela celebra&#231;&#227;o p&#250;blica da sua vida. foi ali que pensei que iria fazer uma festa pra comemorar os seus setentas anos. n&#227;o cheguei a desenvolver, mas eu sabia que teria um tema, que conversar&#237;amos com uma m&#233;dica para que voc&#234; pudesse beber suas caipirinhas, e que ningu&#233;m poderia ficar no seu p&#233; pelo que voc&#234; escolhesse comer. </p><p>70 anos, n&#233; m&#227;e. precisava ser especial. voc&#234; se foi 20 dias depois. imortalizada nos 69, rezando o ter&#231;o deitada no sof&#225; da sua sala, a express&#227;o tranquila de quem estava dormindo. a sopa que voc&#234; tinha feito no dia anterior ainda estava no fog&#227;o. o gatite me recebeu meio confuso, meio aliviado. imagino que ele tenha te cutucado com as patinhas, dado cabe&#231;adas na sua m&#227;o, e n&#227;o conseguiu entender o por que voc&#234; n&#227;o respondia a ele. ou ele entendeu sim, a quest&#227;o &#233; que ele n&#227;o gostou. fomos viver juntos, eu e ele, e n&#243;s dois entramos em um processo de dor e saudade que eu n&#227;o acho que existam palavras capazes de descrever. eu nunca tinha perdido ningu&#233;m pr&#243;ximo, e perder logo voc&#234; tirou meu ch&#227;o. minhas paredes. a funda&#231;&#227;o da minha casa. </p><p>eu, que morei fora por tanto tempo que me sentia rasgada ao meio, com peda&#231;os espalhados pelos lugares onde amei e fui amada. que achava que o conceito de lar era transit&#243;rio, caleidosc&#243;pico, mut&#225;vel, difuso, n&#227;o me atentei aos sinais claros, de como dormia melhor e profundamente na sua cama, como se meu corpo reconhecesse aquilo que minha mente ainda n&#227;o sabia. que me sentia abra&#231;ada e segura ao sentir seu cheiro, e que me encaixava em qualquer molde que sa&#237;sse da sua boca na palavra &#8216;filha&#8217;. ao ver suas coisas embaladas, seu sof&#225; sendo carregado para fora do apartamento, fui profundamente ferida pela ideia de que existe gente na vida que n&#227;o vai conhecer o tom da sua voz, nem vai vivenciar uma cena de drama e pirra&#231;a sua. </p><p>fui profunda e irremediavelmente ferida pelo sil&#234;ncio da sua aus&#234;ncia. n&#227;o existe mais ru&#237;do de fundo com o tom dos seus mon&#243;logos, panelas batendo, voc&#234; respondendo aos apresentadores da televis&#227;o, suas risadas enquanto ouvia um audiobook no fone. n&#227;o existe mais liga&#231;&#245;es no meio do dia para que uma fofoca seja contada. n&#227;o tem mais voc&#234; perguntando pelos gatos, se esfor&#231;ando pra entender meu trabalho, pedindo pra eu explicar o que &#233; comunismo pra que voc&#234; possa se apresentar como uma. n&#227;o tem mais hino do flamengo no seu parab&#233;ns. essa sexta feira, dia oito de agosto de 2025, n&#227;o vai ter voc&#234;, e nenhuma outra em nenhum outro ano que vir&#225;. eu vou te comemorar m&#227;e, porque sua vida cabe na eternidade e porque voc&#234; resiste e persiste no amor que deixou espalhado por aqui. </p><p>mas eu vou sofrer, m&#227;e, porque tudo que eu queria era seu colo e a infinidade de tempo que eu achei que ter&#237;amos juntas para celebrar nossas conquistas. vou sofrer porque vou deitar com dor e l&#225;grimas, mas sua presen&#231;a na cama me confortando e me mantendo segura agora n&#227;o passa de um desejo secreto que sussurro pro escuro enquanto me encolho para impedir que a imensid&#227;o da saudade, dos e se's e dos arrependimentos vazem por a&#237;, devastando tudo ao redor com sua intensidade. </p><p>persisto, m&#227;e. estranhamente mais forte, previsivelmente mais vulner&#225;vel, e eternamente com saudade. </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[uma tragédia evitável]]></title><description><![CDATA[uma das maiores causas do suic&#237;dio &#233; o sil&#234;ncio]]></description><link>https://janaina.substack.com/p/uma-tragedia-evitavel</link><guid isPermaLink="false">https://janaina.substack.com/p/uma-tragedia-evitavel</guid><dc:creator><![CDATA[Janaína]]></dc:creator><pubDate>Wed, 04 Dec 2024 19:25:00 GMT</pubDate><enclosure url="https://i.scdn.co/image/ab6765630000ba8a22e31c35d807f93a5c6d4a82" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p></p><iframe class="spotify-wrap podcast" data-attrs="{&quot;image&quot;:&quot;https://i.scdn.co/image/ab6765630000ba8a22e31c35d807f93a5c6d4a82&quot;,&quot;title&quot;:&quot;#82 - Suic&#237;dio&quot;,&quot;subtitle&quot;:&quot;B9&quot;,&quot;description&quot;:&quot;Episode&quot;,&quot;url&quot;:&quot;https://open.spotify.com/episode/512T3mVr8WTmZTItYcZMrk&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;noScroll&quot;:false}" src="https://open.spotify.com/embed/episode/512T3mVr8WTmZTItYcZMrk" frameborder="0" gesture="media" allowfullscreen="true" allow="encrypted-media" data-component-name="Spotify2ToDOM"></iframe><iframe class="spotify-wrap podcast" data-attrs="{&quot;image&quot;:&quot;https://i.scdn.co/image/ab6765630000ba8a2f93f84839041bdff20d3312&quot;,&quot;title&quot;:&quot;Suic&#237;dio: reflex&#245;es psicanal&#237;ticas &quot;,&quot;subtitle&quot;:&quot;Alexandre Patricio de Almeida&quot;,&quot;description&quot;:&quot;Episode&quot;,&quot;url&quot;:&quot;https://open.spotify.com/episode/620dOhZDGECuqoA71dfH3b&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;noScroll&quot;:false}" src="https://open.spotify.com/embed/episode/620dOhZDGECuqoA71dfH3b" frameborder="0" gesture="media" allowfullscreen="true" allow="encrypted-media" data-component-name="Spotify2ToDOM"></iframe>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[o pôr do sol do subúrbio]]></title><description><![CDATA[e sim, ele &#233; o mais bonito]]></description><link>https://janaina.substack.com/p/o-por-do-sol-do-suburbio</link><guid isPermaLink="false">https://janaina.substack.com/p/o-por-do-sol-do-suburbio</guid><dc:creator><![CDATA[Janaína]]></dc:creator><pubDate>Thu, 15 Aug 2024 22:25:38 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/082f4c9f-16b6-4f1b-9f96-32951b47c004_1066x1082.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>n&#227;o sei se voc&#234; sabe, mas deve saber a essa altura, que fui nascida e criada no sub&#250;rbio perif&#233;rico do rio de janeiro. durante toda minha vida no brasil, esse fato n&#227;o foi de grande import&#226;ncia, mas a hist&#243;ria mudou muito quando fui recolonizada - ou seja, fui morar na europa. </p><div class="paywall-jump" data-component-name="PaywallToDOM"></div><p>quando crian&#231;a, eu brincava descal&#231;a na rua, principalmente aos domingos quando os moradores fechavam de esquina a esquina com cavaletes de madeira: eu soltava pipa, escalava &#225;rvores, arrancava o tamp&#227;o do ded&#227;o do p&#233; enquanto brincava de pique, de queimada, de bola; aprendi a soltar pipa melhor que muito menino porque meu pai fazia vendia e soltava, e eu andava tal qual uma sombra atr&#225;s dele. </p><p>nos dias de aula, ia caminhando cedo e sozinha os 15 minutos at&#233; a escola mas dificilmente voltava s&#243;: a gente sa&#237;a da aula, eu e minhas amigas e amigos, e compr&#225;vamos biscoito fofura e refrigerante conven&#231;&#227;o com o vale transporte (em papel!!!) que a m&#227;e de uma delas dava. sent&#225;vamos no meio fio naquele calor grudento p&#243;s aula, passando o pacote de biscoito como se estiv&#233;ssemos compartilhando uma garrafa de vinho pelo gargalo. depois com&#237;amos bala 7 belo, os dedos colando de tanto a&#231;&#250;car e a sede que n&#227;o passava j&#225; que quer&#237;amos mat&#225;-la com algo mais doce ainda. </p><p>dias gloriosos, eu diria. depois do nosso banquete improvisado, sub&#237;amos para minha casa, onde pass&#225;vamos o resto da tarde sem fazer nada - especialmente o dever de casa - s&#243; fofocando ou vendo novela. esses dias passaram r&#225;pidos demais e talvez a 7 belo nem seja t&#227;o gostosa assim mas hoje em dia ela tem esse sabor e por isso eu vivo comendo-a. </p><p>acabaram, &#233; claro. cada um foi para uma escola, a gente continuava se vendo, mas n&#227;o mais compartilhando o sabor pegajoso de refrigerante barato. t&#227;o t&#227;o cedo eu comecei a trabalhar e a ter responsabilidades e a ter que deixar a adolesc&#234;ncia de lado para ser a mais adulta de um lar: mas para mim, isso era nada mais que o normal. o mesmo que a vizinha, que meus primos, e assim ia indo. </p><p>virei uma adulta respons&#225;vel, consciente, trabalhadora, mas sem entender o impacto que essa minha vida - desde sentar no meio fio &#224; come&#231;ar a trabalhar aos 16 anos - tinham em mim, nem o quanto iam dizer sobre minha personalidade. apenas era. mudei pra europa no fim de 2016, definitivamente no fim de 2017 e lentamente as pe&#231;as do quebra cabe&#231;a foram se encaixando: eu era <strong>diferente </strong>dos outros brasileiros que encontrava l&#225; por fora. eu tinha consci&#234;ncia de classe sem nem saber disso, porque eu era a classe sobre a qual eles tinham consci&#234;ncia: oper&#225;ria classe baixa gente pobre. </p><p>eu que nunca tinha feito hipismo quando crian&#231;a visitas a s&#237;tios brincar em uma vila protegida, que nunca tive piscina em casa ou recebia meus amigos pra lancharem de tarde com bolinho e suquinho; eu, que comecei a trabalhar quando a maioria dos que vivem por essas bandas estavam estudando em cursinhos pr&#233; vestibular para entrarem nas melhores faculdades e escreverem com maestria suas futuras carreiras brilhantes, essa mesma que eu nunca tive a oportunidade de tentar mas que nunca me pareceu injusto.</p><p>at&#233; ent&#227;o, &#233; claro. l&#225; em Amsterdam, eu percebia como meus modos, meu sotaque de quem n&#227;o estudou ingl&#234;s desde cedo (eu nunca estudei ingl&#234;s. eu falo porque eu sou persistente e fui atr&#225;s sozinha), minha educa&#231;&#227;o e meu passado impactavam na forma como eu era tratada, tanto pelos gringos quanto pelos meus&#8230; ham ham&#8230; conterr&#226;neos. </p><p>n&#227;o os considero meus conterr&#226;neos, sabe? n&#227;o somos iguais. e eu sei disso porque eu tentei ser: cogitei mudar meu nome no curr&#237;culo para n&#227;o ser &#243;bvio demais de onde eu era e ter pelo menos a chance de uma entrevista; cogitei mentir sobre meu passado e sobre meus pais e sobre ter pulado o muro de madrugada e roubado &#225;gua de uma f&#225;brica para encher nossa caixa d'&#224;gua, j&#225; que ela tinha sido cortada. pensei em at&#233; mesmo mudar minha apar&#234;ncia: meu nariz me irritava e minha cor me destacava. meu corpo, voluptuoso, chamava aten&#231;&#227;o e me fazia mais diferente ainda. n&#227;o queria mais dan&#231;ar meu funk nem cantar meu pagode porque n&#227;o me aproximava de nada do que a europa tinha a oferecer.</p><p>mas. </p><p>mas.. eu nunca desisti de ser eu mesma. mesmo nos momentos mais dif&#237;ceis, mesmo quando todos ao meu redor tinham suas vidas encaminhadas e tranquilas e adaptadas e colonizadas, mesmo quando eu poderia ter tentado um monte pra me encaixar, eu n&#227;o quis de verdade. eu amava dan&#231;ar funk at&#233; o ch&#227;o nas festas, me lembrando que foi esse o ritmo que descolonizou meus quadris, meus movimentos, me colocou na minha classe. cantava pagode alto, sambava descal&#231;a, corrigia os gringos que nunca conseguiam acertar meu nome sem jamais permitir que eles o mudasse &#224; sua comodidade. </p><p>quando pintei os girass&#243;is de van gogh vers&#227;o baco exu dos blues, eu pintei porque aquele era o sol que me representava: gira gira girass&#243;is amarelos soberanos, observando do alto as favelas do rio, que me criaram. mostrando pra mim, pra voc&#234; e pra todo mundo, que o p&#244;r do sol do sub&#250;rbio &#233; o mais bonito sim. </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[falar ou não falar sobre isso]]></title><description><![CDATA[uma quase interna&#231;&#227;o psiquiatrica]]></description><link>https://janaina.substack.com/p/falar-ou-nao-falar-sobre-isso</link><guid isPermaLink="false">https://janaina.substack.com/p/falar-ou-nao-falar-sobre-isso</guid><dc:creator><![CDATA[Janaína]]></dc:creator><pubDate>Wed, 14 Aug 2024 13:54:40 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/6602ed8c-b9c2-4192-b00c-1b18129fd3b2_1125x558.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>eu pensei muito se falaria sobre isso. mas lembrei que minha inten&#231;&#227;o &#233; ser a &#8216;influencer da depress&#227;o&#8217;, n&#227;o no sentido de trazer o pior disso, mas de trazer a real. muita gente vive e sofre calada, sem entender se est&#225; exagerando nos sentimentos ou dramatizando - e n&#227;o estamos, &#233; apenas a depress&#227;o mesmo. mas a gente n&#227;o se comunica n&#233;?</p><p>bem, dia desses eu tomei duas cartelas de um remedio com vinho. n&#227;o tive uma overdose, apenas fiquei altamente alterada, muito mesmo. procurei emergencia psiqui&#225;trica no Rio e meu deus, como &#233; dif&#237;cil. fui parar no CER do centro primeiro, onde fui muito bem atendida (tirando a veia que ela estourou no acesso) e depois fui encaminhada para o CPRJ. fui muito bem atendida tamb&#233;m, mas fui convidada a me internar. </p><p>e a&#237; meus amigues&#8230; eu tive que aceitar n&#233;. n&#227;o durei cinco horas dentro daquela enfermaria: mulheres gritando, chorando, amarradas na cama. uma mulher sentou do meu lado e simplesmente disse que eu era muito amorosa (??????) e que se dependesse dela, ela ia sair atirando RATATATATATA em todo mundo ali. eu paniquei. pedi alta. n&#227;o me deram. eu fiz barraco, porque afinal &#233; um direito meu j&#225; que a interna&#231;&#227;o foi volunt&#225;ria (n&#227;o o barraco, isso n&#227;o &#233; bem um direito) e me acharam uma m&#233;dica que me ouviu e me deu essa alta, confiando em minha e na minha m&#227;e. </p><p>o que eu quero dizer com isso &#233;: cuidem-se. s&#233;rio mesmo. depress&#227;o parece uma doen&#231;a simples, uma tristeza ou at&#233; uma apatia, mas o que eu sinto tem nada a ver com (s&#243;) isso: sou autodestrutiva, ansiosa demais, como a ponta dos dedos, tenho medo do abandono, acho que todo mundo me odeia e so me atura, choro sim, choro muito; deito na cama de barriga pra cima e encaro o teto pedindo pra ele me convencer a n&#227;o desistir de viver. sinto saudades de quem s&#243; me maltratou porque sinto que &#233; isso que mere&#231;o. escrevo no espelho nomes que me motivem a ficar, e nomes que sinto que n&#227;o v&#227;o se importar com minha ida. </p><p>a depress&#227;o &#233; louca, no pior e melhor sentido da palavra. melhor porque ela te diz que o que voc&#234; sente &#233; real, e que voc&#234; merece cuidado, carinho, aten&#231;&#227;o, MAIS CUIDADO MUITO CUIDADO MESMO, paci&#234;ncia e compreens&#227;o; e no pior, porque n&#233;, depress&#227;o. </p><p>cuidem-se. n&#227;o se deixem chegar ao ponto que eu cheguei. hoje acordei cedo (tipo, 4 da manh&#227; - tenho ins&#244;nia cr&#244;nica) e depois do susto de ontem, levantei, corri, me matriculei na academia E MALHEI, fiz alongamento e agora to aqui escrevendo e convencendo um algu&#233;m a ouvir Hozier sem parar. </p><p>cuidem-se. e sinceramente, me chamem se precisarem do apoio que eu SEI que as pessoas mais pr&#243;ximas n&#227;o conseguem te dar.</p><p> </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[a depressão é ingrata]]></title><description><![CDATA[e foi banalizada]]></description><link>https://janaina.substack.com/p/a-depressao-e-ingrata</link><guid isPermaLink="false">https://janaina.substack.com/p/a-depressao-e-ingrata</guid><dc:creator><![CDATA[Janaína]]></dc:creator><pubDate>Sun, 04 Aug 2024 08:05:01 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/8c2cc724-e389-4439-9e21-4079aa1fb3b5_1036x1814.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>esse assunto surge em quase toda sess&#227;o das terapias que eu fa&#231;o: como reconhecer a depress&#227;o como uma doen&#231;a? se eu estivesse com um membro fraturado e engessado, as pessoas me mandariam sair da cama, apesar da dor? acho que por reconhecer uma ferida vis&#237;vel, galera tem mais empatia. o acontece quase zero com uma doen&#231;a mental - que vem sendo banalizada e minimizada &#8212; qualquer tristeza vira depress&#227;o, e qualquer sensa&#231;&#227;o de ansiedade se transforma num transtorno. </p><p>teve aquele v&#237;deo do ch&#225; revela&#231;&#227;o de transtorno mental e quando eu vi, eu me senti t&#227;o t&#227;o ofendida. foi uma representa&#231;&#227;o t&#227;o insens&#237;vel do que significa viver com uma doen&#231;a mental. por mais vezes que eu gostaria, minha depress&#227;o me paralisa, me consome, me deixa de cama, apenas sentindo nada nada nada a n&#227;o ser de tristeza pra baixo. n&#227;o tomo banho, n&#227;o como, n&#227;o escovo o dente. existo porque &#233; o que tem pra fazer. por vezes me faz chorar, sozinha, solu&#231;os grandes e desesperados e uma desesperan&#231;a profunda. espero, em dor, que esses dias acabem.</p><p>a depress&#227;o &#233; uma doen&#231;a ingrata: se n&#227;o consigo sair da cama, sou julgada, chamada de pregui&#231;osa, pux&#245;es de orelha pra eu arrumar logo um emprego, n&#227;o importa qu&#227;o mal eu esteja, qu&#227;o forte as cicatrizes do meu pulso estejam &#8212; eu nunca estou mal o suficiente. nunca &#233; depress&#227;o, &#233; s&#243; pregui&#231;a e falta de for&#231;a de vontade.</p><p>se, apesar da dor, do vazio, do caos, das l&#225;grimas, dos cortes, das overdoses, das idas &#224; emerg&#234;ncia de forma preventiva, do abuso de alcool, de se colocar em risco de forma proposital e consciente, se ainda assim, voc&#234; aparece em p&#250;blico limpa, sorri, acena e conversa &#8212; ent&#227;o n&#227;o est&#225; depressiva o suficiente.</p><p>n&#227;o consigo entender quem festejaria viver dessa forma. </p><p>falo bastante sobre meus dias ruins, porque acho que compreender o que realmente vivemos &#233; um passo para a empatia. e tamb&#233;m porque acho que o instagram j&#225; est&#225; cheio demais de vidas perfeitas e a gente precisa de um pux&#227;o pra realidade. ningu&#233;m ta bem, mas falta sensibilidade da nossa parte para reconhecer e acolher a dor do outro.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[por um feminismo afro-latino-americano]]></title><description><![CDATA[rever&#234;ncias &#224; L&#233;lia Gonzalez]]></description><link>https://janaina.substack.com/p/por-um-feminismo-afro-latino-americano</link><guid isPermaLink="false">https://janaina.substack.com/p/por-um-feminismo-afro-latino-americano</guid><dc:creator><![CDATA[Janaína]]></dc:creator><pubDate>Thu, 01 Aug 2024 19:02:57 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/2100a5e6-e27b-4773-81a2-29bb49c55354_3024x3024.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>com v&#225;rios temas que quero abordar aqui e sem nenhum cronograma, nem mesmo um mental, consegui decidir por fim como come&#231;ar: falando de feminismo e <strong>L&#233;lia</strong>.</p>
      <p>
          <a href="/__u/janaina.substack.com/p/por-um-feminismo-afro-latino-americano">
              Read more
          </a>
      </p>
   ]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[inscrição paga etc]]></title><description><![CDATA[calma que eu vou explicar]]></description><link>https://janaina.substack.com/p/inscricao-paga-etc</link><guid isPermaLink="false">https://janaina.substack.com/p/inscricao-paga-etc</guid><dc:creator><![CDATA[Janaína]]></dc:creator><pubDate>Thu, 18 Jul 2024 11:31:04 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!asIC!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff5db8f0c-fad2-4870-96b5-87acb5eec3ac_1125x1128.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>coloquei l&#225; nos meus stories uma pergunta sobre newsletter paga, se ainda rolava ou nem. o resultado foi uma enquete de Schr&#246;dinger:</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!asIC!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff5db8f0c-fad2-4870-96b5-87acb5eec3ac_1125x1128.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!asIC!, /__u/janaina.substack.com/w_424, /__u/janaina.substack.com/c_limit, /__u/janaina.substack.com/f_webp, /__u/janaina.substack.com/q_auto:good, /__u/janaina.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff5db8f0c-fad2-4870-96b5-87acb5eec3ac_1125x1128.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!asIC!, /__u/janaina.substack.com/w_848, /__u/janaina.substack.com/c_limit, /__u/janaina.substack.com/f_webp, /__u/janaina.substack.com/q_auto:good, 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mas, para quem quiser e puder (poder &#233; muito importante viu minha gente?!!!), eu vou compartilhar textos mais nichados sobre feminismo latinoamericano, imigra&#231;&#227;o, pol&#237;ticas de sa&#250;de mental para imigrantes, voc&#234;s entenderam, para assinantes. a proposta &#233; de 3 a 4 textos por m&#234;s - ter o compromisso de escrever sobre temas que eu amo me deixa muito contente! </p><p>&#8220;ai mas pq?&#8221; voc&#234; se pergunta. eu te respondo, volte <a href="/__u/janaina.substack.com/p/cartas">uma casinha</a> - enquanto cuido da minha sa&#250;de mental, n&#227;o posso (nem consigo) trabalhar, mas os boletos n&#227;o se importam com isso, ent&#227;o qualquer forma de renda que possa entrar, eu t&#244; adotando. onlyfans vem em seguida. </p><p>&#233; isso. pra quem j&#225; t&#225; inscrito na newsletter e quiser se tornar assinante pago, tem uma op&#231;&#227;o ali no cantinho direito da tela:</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Bnsa!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F39f90a14-0e4f-4b7f-a8d9-921beb7febb2_1318x236.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Bnsa!, /__u/janaina.substack.com/w_424, /__u/janaina.substack.com/c_limit, /__u/janaina.substack.com/f_webp, /__u/janaina.substack.com/q_auto:good, /__u/janaina.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F39f90a14-0e4f-4b7f-a8d9-921beb7febb2_1318x236.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Bnsa!, /__u/janaina.substack.com/w_848, /__u/janaina.substack.com/c_limit, /__u/janaina.substack.com/f_webp, /__u/janaina.substack.com/q_auto:good, 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url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/bc4c874f-5747-4840-8808-5b76ed9780b4_3024x2493.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>o mar hoje est&#225; o mais bonito que j&#225; vi desde que cheguei aqui. n&#227;o est&#225; ventando, e o sol est&#225; forte e brilhando, id&#237;lico at&#233;. em qualquer outro dia da minha vida, podendo ter sido ontem ou at&#233; amanh&#227;, eu diria que isso &#233; uma puta sacanagem injusta com a minha cara, que de todos os dias poss&#237;veis para essa beleza, a Espanha escolheu logo o meu &#250;ltimo dia livre aqui para oferecer esse espet&#225;culo. mas hoje, e s&#243; hoje, escolho ver como um presente de despedida ao inv&#233;s de uma zomba&#231;&#227;o. depois de pouco mais de dois meses, vou dizer um at&#233; logo para esse lar tempor&#225;rio em que vivi tanta dor e tanta cor - em tr&#234;s dias, volto para o Rio de Janeiro, lugar onde hoje n&#227;o possuo quase nenhum la&#231;o al&#233;m da minha fam&#237;lia mais pr&#243;xima, para tratar uma depress&#227;o aguda, profunda e grave. </p><p>no meu pulso, cicatrizes discretas mostram o lugar onde escolhi extravasar dores que muitas vezes meu corpo n&#227;o sustentava. eu prometi a algu&#233;m - n&#227;o lembro quem nessa confus&#227;o de pedidos preocupados - que n&#227;o faria mais isso; e mesmo sabendo que n&#227;o &#233; uma promessa que posso manter, sigo sem novos cortes h&#225; tempo o suficiente para que essas cicatrizes estejam, por agora, curadas. ao contr&#225;rio daquelas que infligi em algumas pessoas, que ainda est&#227;o abertas e incertas de como ser&#227;o fechadas: h&#225; duas semanas atr&#225;s ou tr&#234;s ou quatro - eu sinceramente n&#227;o sei quando, meu tempo passa t&#227;o diferente agora, os dias se confundem e se mesclam, as vezes t&#227;o r&#225;pido, mas em sua maioria t&#227;o lentos e confusos e enevoados - eu tomei uma cartela inteira de comprimidos. menos de uma semana depois, tomei mais outra cartela, e mais alguns extras, porque s&#243; uma n&#227;o deu resultado na primeira vez. nas duas vezes, muito mais pessoas que somente eu foram atingidas pela minha decis&#227;o: quem recebeu minha mensagem de despedida e moveu meio mundo &#224; dist&#226;ncia para que eu fosse encontrada; quem me encontrou e me viu perdendo as for&#231;as e esvaindo a consci&#234;ncia enquanto me levava pro hospital e ficou horas e dias do meu lado enquanto eu suava os rem&#233;dios e chorava as l&#225;grimas dessa tentativa; quem n&#227;o conseguiu encarar meus olhos quando cheguei, porque n&#227;o h&#225; nada de normal nesse tipo de volta pra casa; quem, na segunda vez, n&#227;o s&#243; me levou ao hospital, mas teve que assistir o processo invasivo de uma lavagem estomacal e me deixar internada durante a noite porque era incerto o que aquela overdose poderia fazer com meu cora&#231;&#227;o.</p><p>n&#227;o acho que h&#225; o que eu fa&#231;a que possa apagar os sentimentos que isso causou - em mim e nos meus. o que posso fazer agora &#233; tentar me curar - da&#237; a ida ao Brasil. e escrever, porque escrever sempre foi a &#250;nica coisa que nunca abandonei, nem nos meus piores momentos. vou tentar, ent&#227;o, contar atrav&#233;s de cartas de amor de desculpas de saudade de novidade, cartas para todos todas todes que estiveram do meu lado nesses momentos e que n&#227;o desistiram de mim (e olha, tiveram motivos) porque quero esclarecer sentimentos e momentos e quero compartilhar essa jornada que o amor de voc&#234;s me fez escolher. </p><p>vou postar as cartas <a href="https://medium.com/@ninamachadada">aqui</a>, e talvez nomes sejam trocados, talvez novos destinat&#225;rios cheguem pelo caminho, talvez eu desista de tudo e nunca mais escreva nada, poste nada, viva nada. mas enquanto eu escrever, vou estar aqui.  </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[mudança]]></title><description><![CDATA[peloamordedeus eu cansei de ser emocionada]]></description><link>https://janaina.substack.com/p/mudanca</link><guid isPermaLink="false">https://janaina.substack.com/p/mudanca</guid><dc:creator><![CDATA[Janaína]]></dc:creator><pubDate>Fri, 22 Mar 2024 16:30:13 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/311eab22-9dd2-498a-9db8-b06bdcd9bd1f_1500x2000.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>hoje faz uma semana que eu sa&#237; de Londres. t&#244; aqui na Espanha, numa cidadezinha chamada Torrevieja, enquanto espero meu visto sair - depois, vamos sair visitando regi&#245;es para ver se escolhemos onde morar. o plano inicial era Val&#234;ncia, mas coisas mudaram no meio do caminho, um monte de coisa, inclusive minha vontade de vir. </p><p>faz uma semana que estou morando a n&#227;o mais que 5 minutos do mar. ainda n&#227;o coloquei meus p&#233;s na &#225;gua salgada, que tantos meses atr&#225;s era minha maior motiva&#231;&#227;o para essa mudan&#231;a. faz sol l&#225; fora enquanto escrevo, mas n&#227;o tenho coragem de ir para a praia. a verdade &#233; que estou ressentida com esse clima, com o oceano, com a areia fina. foi tudo isso que me trouxe at&#233; aqui, e aqui:</p><p>faz uma semana que s&#243; choro. parece exagero e eu amaria que fosse, mas foi eu entrar no trem em Liverpool Street que as l&#225;grimas come&#231;aram a cair; foi o ferry aportar na Holanda que eu perdi o controle. aquela imensid&#227;o cinza e chuvosa me separava por oito horas do lugar que chamei de casa nos &#250;ltimos tr&#234;s anos. n&#227;o parei desde ent&#227;o. as l&#225;grimas s&#227;o grandes, grossas, pesadas, e caem independente da minha vontade. por vezes, preciso parar o que t&#244; fazendo, ir para meu quarto e ficar cara a cara, sozinha com essa dor. eu olho pra ela e pe&#231;o pra por favor, fazer com que sua passagem por mim seja breve, mas ela nunca me promete nada. </p><p>todas as mudan&#231;as que fiz na minha vida foram muito desejadas - sair do Brasil pra mochilar no M&#233;xico, viver como n&#244;made na Europa, mudar para a Holanda, sair de Amsterdam para Londres; sempre arrumei as malas animada, ansiosa, com frio bom na barriga, cheia de expectativas; dessa vez, cometi o imenso risco de me apaixonar no caminho. </p><p>me apaixonei por tantas pessoas, por tantos abra&#231;os, lugares e rituais, como ficar descal&#231;a no samba, ir sozinha na aula de forr&#243;, no musical, na praia de pedra e longe de casa; pelas minhas amigas, por ficar de boas juntas, sair pra jantar, pra beber, pra dan&#231;ar, pra jogar, pra viver um monte de momentos deliciosos e pra segurar a barra umas das outras quando a vida apertava onde d&#243;i; me apaixonei imensamente pela cidade que n&#227;o p&#225;ra, que me ofereceu de tudo um pouco, que me fez t&#227;o feliz e ocupada depois de uma vida sofridinha na Holanda. me apaixonei. </p><p>eu <strong>sei</strong> que vai passar. eu sei que pode parecer pouco - uma semana, poxa! mas a verdade &#233; que venho sofrendo com essa mudan&#231;a h&#225; meses, e agora ela &#233; real e eu n&#227;o sei o que fazer. tenho medo do futuro, estou insegura, incerta das minhas escolhas, sem poder voltar atr&#225;s. voltar atr&#225;s n&#227;o &#233; uma op&#231;&#227;o - burocraticamente falando. e al&#233;m do mais, chore por uma semana e venha c&#225; me dizer que &#233; pouco: &#233; muito, &#233; intenso e parece que t&#244; assim h&#225; 722 dias!</p><p>eu <strong>sei</strong> que vai passar. eu sei que em mudan&#231;as assim, rela&#231;&#245;es se perdem, pessoas se superam, a vida continua, todo mundo fica bem, tudo se acerta. e isso &#233; t&#227;o lindo quanto aterrorizante - quem que amo instensamente fica pra tr&#225;s, dessa vez?  </p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[ProgramAda]]></title><description><![CDATA[finalmente est&#225; acontecendo!]]></description><link>https://janaina.substack.com/p/programada</link><guid isPermaLink="false">https://janaina.substack.com/p/programada</guid><dc:creator><![CDATA[Janaína]]></dc:creator><pubDate>Wed, 03 Jan 2024 18:28:19 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1bacdb91-96cc-4c9b-8177-84b60ddcd192_3024x3024.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>t&#225; ficando meio clich&#234; dizer que o ano foi dif&#237;cil, mas foi dif&#237;cil. entrei em 2024 meio assim sei l&#225;, mas com um incentivo do Rafael muito maravilhoso: bora focar no projeto de mentoria de mulheres na &#225;rea de tecnologia? SIM! </p><p>tava muito na hora de tirar essa ideia do papel, e nada nada nada no mundo pra me motivar mais do que ver mulheres imigrantes tra&#231;ando o caminho para independ&#234;ncia financeira, o caminho de volta para si! </p><p>ent&#227;o a princ&#237;pio vai ser assim: eu e Rafael (mas principalmente o Rafa por enquanto, por motivos t&#233;cnicos) vamos fazer aul&#245;es para explicar conceitos t&#233;cnicos da &#225;rea, como API's, testes, fundamentos de programa&#231;&#227;o, algoritmos&#8230; algumas coisitas mais, a serem anunciadas em breve! nosso p&#250;blico alvo vai ser mulheres - acho que vai sem precisar explicar que s&#227;o todes que se identificam como mulheres, e tamb&#233;m pessoas n&#227;o bin&#225;rias - que <strong>j&#225; iniciaram os estudos</strong>, que j&#225; tem algum conhecimento da &#225;rea, seja ele vindo de bootcamp, cursos online (<a href="https://www.freecodecamp.org/">freecodecamp</a>, <a href="https://www.codecademy.com/">code academy</a>, <a href="https://www.programaria.org/">programaria</a>), youtube, qualquer fonte, mas que saiba alguma coisinha! </p><p>vamos focar em aprofundar o conhecimento para que essas mulheres e pessoas que v&#227;o estudar com a gente consigam alcan&#231;ar o mesmo n&#237;vel de conhecimento que nos foi negado devido a sermos uma minoria social. vem com a gente? voc&#234; pode acompanhar nosso projeto em sua pr&#243;pria newsletter <a href="/__u/programada.substack.com/">ProgramAda</a></p><p>nossa primeira aula vai acontecer no dia 11/01 as 19h (UK time) pelo Google Meet! para participar, voc&#234; s&#243; precisa se inscrever nesse <a href="https://forms.gle/RWgLagijiNuFrEtF9">link aqui</a> e esperar o e-mail de confirma&#231;&#227;o com o link da aula :) <br><br>espalhe a palavra da domina&#231;&#227;o feminista na &#225;rea de tecnologia compartilhando esse post, convidando sua amiga/seu amigue pra participar da aula com voc&#234;, contando pra quem t&#225; a&#237; do seu lado! e se voc&#234; tem um tema sobre o qual gostaria de falar pra nossas turmas, me manda email no projetoprogramada@gmail.com</p><p>vai ser lindo e estamos MUITO animados!</p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[sem título]]></title><description><![CDATA[Oi Thiago, voc&#234; lembra de mim?]]></description><link>https://janaina.substack.com/p/sem-titulo</link><guid isPermaLink="false">https://janaina.substack.com/p/sem-titulo</guid><dc:creator><![CDATA[Janaína]]></dc:creator><pubDate>Wed, 12 Jul 2023 21:28:35 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<p>Oi Thiago, voc&#234; lembra de mim? </p><p>Eu tinha 12 anos quando a gente se conheceu, voc&#234; tinha acabado de se mudar com sua fam&#237;lia para a Rua Tom&#225;s Lopes, 293, a duas ruas de dist&#226;ncia da minha. Voc&#234; tinha come&#231;ado recentemente a andar com os &#8220;meninos l&#225; da rua&#8221; (mais sobre essa institui&#231;&#227;o eventualmente, mas voc&#234; sabe quem s&#227;o n&#233;?) e, junto com eles, ficava no meu port&#227;o depois do futebol. Eu era muito muito nova e ing&#234;nua naquela &#233;poca mas os meninos me falaram que voc&#234; gostava de mim, e eles falaram tanto, que eu achei que era hora de deixar a infantilidade para tr&#225;s, mas voc&#234; sabia que eu ainda brincava de boneca quando a gente se conheceu?</p><p>Numa das festinhas que rolou l&#225; na rua, voc&#234; falou que queria ficar comigo e a gente foi para a esquina escura da Rua Helv&#233;tia - eu estava apavorada! Eu nunca tinha ficado com ningu&#233;m, nunca tinha beijado na boca e ali estava eu, com um garoto tr&#234;s anos mais velho que eu! Eu lembro a camisa que voc&#234; estava nesse dia - azul clara, cor de piscina, com uma listra branca rodeando na altura da cintura. A gente n&#227;o se beijou nesse dia - ali&#225;s, come&#231;amos a namorar sem nem ter beijado, voc&#234; lembra? O primeiro beijo rolou no meu sof&#225;, e eu odiei. Claro que n&#227;o te falei isso, eu achei que a culpa era minha, afinal eu era t&#227;o inexperiente. E infantil, vale a pena relembrar. </p><p>A gente come&#231;ou a namorar em Junho, n&#233;? Eu fiz 13 anos em Julho. Voc&#234; sumiu no dia do meu anivers&#225;rio e chegou atrasado na minha festa, e eu estava com muita, muita raiva. Mas voc&#234; me deu um livro de presente e disse que se atrasou porque estava procurando por ele - talvez essa tenha sido a primeira mentira, mas honestamente, foram tantas que eu perdi a conta. O livro era O Di&#225;rio da Princesa - A Princesa Apaixonada. </p><p>Ali&#225;s, por falar em sumir, voc&#234; sumiu v&#225;rias vezes. Lembro de ligar para a sua casa e voc&#234; nunca estar, e depois eu ligar de novo e chamar e chamar e chamar e ningu&#233;m atender porque provavelmente algu&#233;m desconectou a linha para n&#227;o ter que lidar com uma crian&#231;a descontrolada. Voc&#234; sa&#237;a com os meninos para lugares onde nunca me levou, porque &#233; claro, voc&#234; queria ficar com outras. Foram tantas vezes que eu normalizei, era s&#243; mais um fato na nossa rela&#231;&#227;o.</p><p>Lembra de um moletom azul que voc&#234; tinha e eu adorava? Eu queria ele pra mim, mas voc&#234; nunca deu, nem emprestou. Uma vez eu reparei que fazia muito tempo que voc&#234; n&#227;o o usava e te perguntei sobre ele, e na maior tranquilidade, voc&#234; respondeu que uma menina da sua sala tinha ca&#237;do na piscina e voc&#234; deu o moletom para ela. Eu realmente senti como se tivesse tomado um soco no est&#244;mago, mas naquela altura (curta) do nosso relacionamento, eu j&#225; tinha aprendido a n&#227;o te contrariar. N&#227;o falei nada, eu sabia que eu se mencionasse algo, a culpa seria minha no fim. </p><p>Nossa, por falar em culpa! Teve aquela vez que eu falei que eu estava tendo dificuldade na aula de Qu&#237;mica e voc&#234; ofereceu um livro seu para eu estudar. Da&#237; na primeira p&#225;gina do livro tinham v&#225;rios recadinhos de outras garotas para voc&#234;, e eu morri de ci&#250;mes, fumeguei. Queria entender o porqu&#234; voc&#234; deixaria eu ler aquilo, o porqu&#234; voc&#234; me emprestaria, mas ao inv&#233;s de fazer um esc&#226;ndalo, eu apaguei. E quando voc&#234; foi buscar o livro, voc&#234; enlouqueceu! Brigamos feio no port&#227;o da minha casa e voc&#234; me fez pegar um l&#225;pis e reescrever tudo. Enquanto eu fazia isso, morrendo de medo de voc&#234;, voc&#234; ria com deboche. Eu tive tanta vergonha de mim nesse momento que eu nunca contei isso para ningu&#233;m, at&#233; perceber que quem tem que ter vergonha &#233; voc&#234;. </p><p>Aaaah, teve aquela vez que eu fui no show do Imaginasamba com minha m&#227;e no Mello, e voc&#234; ficou puto. N&#227;o queria que eu fosse, mas eu fui mesmo assim. E a&#237; um cara me agarrou a for&#231;a e me beijou, e eu escrevi no meu di&#225;rio sobre isso - sobre como me senti violada e como foi horr&#237;vel, e voc&#234; leu escondido de mim e terminou comigo, porque a culpa tinha sido minha. E por um momento me senti muito aliviada de voc&#234; terminar, mas parecia que eu tinha obriga&#231;&#227;o de te procurar. Eu escrevi at&#233; uma carta, e enviei a letra de uma m&#250;sica d&#8217;Os Travessos - eu nunca mais consegui ouvir essa m&#250;sica. Ela me lembra o qu&#227;o traumatizada e fr&#225;gil voc&#234; me deixou. A gente tinha seis meses de namoro nessa &#233;poca - quase nada para eu j&#225; estar t&#227;o apavorada por voc&#234;. </p><p>Teve uma festa no pr&#233;dio do Anderson que voc&#234; queria ir mas n&#227;o queria que eu fosse porque todos os meninos da rua iam estar l&#225;, e eu ia te atrapalhar. Lembra dessa??? Ningu&#233;m entendeu o motivo de eu n&#227;o ter ido, ou entenderam sim, voc&#234; deve ter contado. A esse ponto, era bem &#243;bvio que voc&#234; mandava e desmandava em mim, e eu fiquei sentada no escuro, no carro do meu pai que estava na garagem, esperando voc&#234; decidir que j&#225; tinha se divertido sem mim e ir me ver. </p><p>Uma vez, a gente estava sentado no quintal da minha casa em cadeiras de praia, e eu estava usando um moletom cinza com cordinhas no capuz, e voc&#234; quis apertar a cordinha para ver at&#233; onde eu aguentava - e eu desmaiei. Acordei na cadeira de praia com voc&#234; p&#225;lido de desespero - achei que fosse preocupa&#231;&#227;o comigo, mas a primeira coisa que voc&#234; falou quando acordei foi &#8220;n&#227;o conta pra ningu&#233;m!&#8221;. Claro que eu n&#227;o ia contar, se voc&#234; me enforcou at&#233; desmaiar por nada, imagina o que faria se eu te contradizesse?   </p><p>Lembra quando voc&#234; foi ver porn&#244; escondido na minha casa? Mas voc&#234; era t&#227;o burro! N&#227;o deletou o hist&#243;rico, sequer abriu uma aba an&#244;nima. E eu vi que voc&#234; estava vendo pornografia infantil e tive tanto nojo de voc&#234;. Mas eu tamb&#233;m tinha tanto medo. Voc&#234; me afastou de todas as minhas amigas, quis que eu acreditasse que estava s&#243; e s&#243; tinha voc&#234;. Mas um dia eu te encontrei na rua com outra menina - estava voc&#234;, o Renan, o Bruno e o Rafael. E quando voc&#234; me viu, voc&#234; entrou em p&#226;nico. Todos voc&#234;s tentaram esconder que voc&#234; tava com ela. Eu nem tive rea&#231;&#227;o, eu j&#225; nem me importava mais. Nessa &#233;poca, eu lembro de querer morrer num acidente ou de pelo menos sofrer algo t&#227;o grave que eu perdesse a mem&#243;ria e nunca mais tivesse que pensar em voc&#234;. Pensei tamb&#233;m em algo que me debilitasse tanto que te for&#231;aria a me abandonar - voc&#234; consegue se ver sendo suporte de algu&#233;m? D&#225; at&#233; vontade de rir. </p><p>Muito r&#225;pido, voc&#234; quis transar. Eu n&#227;o queria, me achava muito nova pra isso, e n&#227;o achava que era a hora. E lembro de voc&#234; conversar s&#233;rio comigo sobre isso: entendia eu n&#227;o querer, mas voc&#234; era homem e precisava disso, portanto se eu n&#227;o fizesse com voc&#234;, voc&#234; ia procurar quem fizesse na rua. Mas seria s&#243; sexo! A gente ia continuar namorando porque voc&#234; me amava muito. Foram semanas me chantageando, me colocando contra a parede. Eu cheguei a cogitar isso: &#8220;vai transar com algu&#233;m na rua e me deixa em paz&#8221;, mas mais uma vez, tive medo. </p><p>Uma tarde em que minha m&#227;e e meu pai n&#227;o estavam em casa, voc&#234; foi l&#225;. Eu disse que n&#227;o queria, mas voc&#234; for&#231;ou. Violentou minha vontade, meu corpo, minha inoc&#234;ncia, minha fragilidade. Gozou dentro quando eu tinha 13 anos! Imagina se eu engravidasse? E quando voc&#234; acabou, voc&#234; levantou, se vestiu, deu um sorriso vitorioso na porta da sala e saiu, provavelmente para contar para seus amigos o que voc&#234; tinha feito. Voc&#234; sempre contou, sempre me exp&#244;s ao rid&#237;culo, &#224; humilha&#231;&#227;o - fosse em privado ou, seu preferido, em p&#250;blico. Fiquei l&#225; naquele colch&#227;o no ch&#227;o, com sangue e dor, humilhada e sozinha, sem saber o que fazer. Como contar isso pra algu&#233;m? Ningu&#233;m ia acreditar, afinal, voc&#234; era meu namorado. Al&#233;m do mais, eu tinha tanta vergonha das coisas que voc&#234; fazia comigo que n&#227;o contava para ningu&#233;m o qu&#227;o abusivo e cruel voc&#234; sempre foi.</p><p>Depois disso, v&#225;rias vezes foram for&#231;adas. Incont&#225;veis vezes que eu fingia que gozava s&#243; para acabar logo. E voc&#234; sa&#237;a e contava para os meninos, que faziam &#8220;piadinhas&#8221; comigo toda vez que me viam. 13, 14, 15 anos e minha vida sexual e abusiva exposta para um bando de garoto que nunca questionou minha seguran&#231;a. </p><p>Meu anivers&#225;rio de 16 anos foi o mais especial da minha vida, porque foi o dia que eu terminei com voc&#234;. Deve ser por isso que eu comemoro muito, at&#233; hoje. Foi um marco muito importante, um livramento. Cercada pelas minhas amigas, amada pelas minhas amigas, amparada pelas minhas amigas. Voc&#234; me perseguiu, cuspiu na minha cara, invadiu minha casa, me humilhou, quase me agrediu em uma festa. Eu ia te denunciar, mas seus pais pediram, imploraram, porque voc&#234; tinha acabado de passar para o Aprendizes de Marinheiro e eu ia estragar seu futuro (rs). Al&#233;m do mais, voc&#234; ia passar um ano longe, e n&#227;o era isso que eu queria? N&#227;o denunciei. Essa &#233; a decis&#227;o que eu mais me arrependo na vida, ver voc&#234; impune e vivendo como se n&#227;o tivesse aberto uma ferida em mim h&#225; mais de 20 anos, e segue como se nem soubesse que est&#225; num ringue de luta. Mas eu luto todos os dias contra voc&#234; e contra as dores que voc&#234; me causou, e isso n&#227;o &#233; justo. </p><p>Eu sei que voc&#234; tem filhos e eu morro de medo por eles. Eu espero que voc&#234; n&#227;o seja t&#227;o cruel a ponto de abusar deles, mas isso n&#227;o sai da minha cabe&#231;a sabe? Os sites de pornografia infantil continuam voltando em flashes. Eu quase te denunciei. Voc&#234; sabia que tem uma lei que permite que pessoas denunciem seus abusadores at&#233; 20 anos depois do ocorrido? E que quando o abuso acontece antes dos 18 anos, esse prazo s&#243; come&#231;a a contar quando a v&#237;tima completa 18 anos? Eu tinha tudo pronto, estava disposta a ir ao Brasil, disposta te enfrentar se fosse preciso. Morro de medo da minha rea&#231;&#227;o, mas estava disposta. Queria que esse abuso todo fosse registrado, que as pessoas ao seu redor te conhecessem de verdade - se &#233; que n&#227;o conhecem. Queria tanto que voc&#234; sofresse! </p><p>Ah, caso voc&#234; esteja a&#237; pensando naquele intervalo do Aprendizes de Marinheiro que voc&#234; voltou ao Rio de Janeiro e eu topei te encontrar e prometi que a gente ia ficar junto quando voc&#234; voltasse, espero que seu ego n&#227;o seja grande a ponto de voc&#234; n&#227;o ter percebido que eu estava te manipulando. Porque eu estava. Eu queria muito minha vinagan&#231;a, e por um tempo me achei uma pessoa horr&#237;vel, quase compar&#225;vel a voc&#234;, mas hoje acho que fiz t&#227;o pouco.</p><p>Eu odeio voc&#234;, Thiago. Odeio no que voc&#234; me transformou enquanto estivemos juntos, e odeio todos os traumas que voc&#234; me deixou. Odeio lembrar de voc&#234; - felizes s&#227;o os dias que voc&#234; n&#227;o cruza minha cabe&#231;a, que as cicatrizes n&#227;o ardem, que a humilha&#231;&#227;o n&#227;o queima. E eu quero que o mundo te odeie tamb&#233;m, por abusar de uma crian&#231;a, por ser uma pessoa cruel e manipuladora, ego&#237;sta, uma pessoa ruim. Eu odeio voc&#234;.  </p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[meu pai caiu de moto]]></title><description><![CDATA[provando que o maior medo da Ludmilla &#233; real]]></description><link>https://janaina.substack.com/p/meu-pai-caiu-de-moto</link><guid isPermaLink="false">https://janaina.substack.com/p/meu-pai-caiu-de-moto</guid><dc:creator><![CDATA[Janaína]]></dc:creator><pubDate>Mon, 10 Jul 2023 16:49:38 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/15533234-8594-408a-94a4-76c11ae11e46_996x550.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>ele t&#225; bem. ele s&#243; luxou o ombro, t&#225; com uma tala e tomando rem&#233;dio por um tempo, sete dias em casa, a moto deu PT. isso aconteceu na sexta de manh&#227; - ele me mandou &#225;udios de tarde mas eu n&#227;o ouvi porque eu tinha terapia a noite, e normalmente espero a terapia acabar pra ouvir not&#237;cias do Brasil, se n&#227;o a terapia gira sempre em torno de l&#225;. quando eu ouvi os &#225;udios, adivinha? ele. n&#227;o. tinha. ido. ao. hospital. o homem sofreu um acidente de moto e achou que tava ok n&#227;o ir ao m&#233;dico. tomou 40 gotas de dipirona e duas cervejas, e esperou. </p><p>esperou eu ouvir o que tinha acontecido e me mexesse <strong>daqui</strong> pra resolver os problemas de l&#225;. eram 9 da noite aqui, eu estava com a cabe&#231;a doendo p&#243;s terapia, um cansa&#231;o extremo da semana, e tive que engolir tudo e achar onde, como e quando ele faria um raio-x e fosse medicado. depois de tudo resolvido, a culpa. </p><p>culpa de n&#227;o ter ouvido o &#225;udio mais cedo; culpa de me sentir sufocada pelas mensagens que vem de l&#225;; culpa por n&#227;o estar l&#225;. </p><p>essa &#250;ltima que nunca me abandona, como se eu estivesse l&#225; fosse ter impedido ele de sofrer um acidente.</p><p>no s&#225;bado, acordei exausta, com o corpo doendo, mas me forcei a ir na rua: comprei meu bolinho de coco gelado, peguei um caf&#233;zinho e quando fui sentar para relaxar, ele me ligou de v&#237;deo. corri pra casa - ele queria me mostrar que estava bem, que n&#227;o tinha se ralado, que estava com o capacete, viu? e que a &#250;nica coisa que tinha sido destru&#237;da tinha sido a moto mesmo (nossa, que tranquilizador).</p><p>ligou ele e minha m&#227;e juntos, e ver meus pais assim, depois de um acidente, acabou com o pouco de energia que me sobrava. o tempo passa, eles envelhecem, e n&#227;o importa o qu&#227;o longe eu esteja, a responsabilidade do envelhecimento deles continua comigo. se v&#227;o chegar bem na velhice, se n&#227;o v&#227;o cometer irresponsabilidades. se um n&#227;o vai beber e dirigir, se a outra n&#227;o vai faltar a hidro ou comer algo que vai disparar a glicose. eles estavam falando e falando e falando enquanto eu encarava a tela e via as rugas que n&#227;o esperam a pr&#243;xima visita ao Brasil, o dente quebrado que n&#227;o cede ao pavor dos dois de dentista, os cabelos brancos precoces causados pelo estresse. </p><p>eles estavam falando e falando e falando e eu estava pensando &#8220;quanto preciso para ir ao Brasil AGORA quanto preciso para ficar l&#225; um m&#234;s dois meses tr&#234;s meses&#8221;. <br>nunca vai ser o suficiente, eu nunca vou conseguir resolver todos os problemas do mundo (deles) sozinha - de l&#225;, daqui. respirei fundo fundo fundo. </p><p>eles pararam de falar e come&#231;aram a brigar um com o outro; tentaram me envolver na briga, voltei &#224; realidade. tudo est&#225; bem de novo (por enquanto).</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[sombra]]></title><description><![CDATA[gatilho de estupro e viol&#234;ncia sexual e psicol&#243;gica]]></description><link>https://janaina.substack.com/p/sombra</link><guid isPermaLink="false">https://janaina.substack.com/p/sombra</guid><dc:creator><![CDATA[Janaína]]></dc:creator><pubDate>Mon, 03 Apr 2023 22:37:15 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ppcz!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2eb98e6f-fc9e-4941-afae-7afc07005557_1514x2048.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>assisti recentemente aquele document&#225;rio do Jonah Hill sobre o m&#233;todo do psiquiatra dele, Stutz o nome. achei a maior parte meio coach, muita coisa superficial e um pouco sem cuidado com casos espec&#237;ficos - acho que &#233; at&#233; normal para um filme curto, ent&#227;o ok. mas uma das coisas que ele fala e que grudou na minha cabe&#231;a e que eu levei para minha terapia foi sobre olhar para o peda&#231;o de si que voc&#234; mais tem vergonha, sua forma mais falha, mais fraca, mais assustada: sua sombra. </p><p>&#233; engra&#231;ado que mesmo sem saber o conceito, quando ele falou isso, eu sabia exatamente quem era a minha: </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ppcz!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2eb98e6f-fc9e-4941-afae-7afc07005557_1514x2048.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ppcz!, /__u/janaina.substack.com/w_424, /__u/janaina.substack.com/c_limit, /__u/janaina.substack.com/f_webp, /__u/janaina.substack.com/q_auto:good, /__u/janaina.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2eb98e6f-fc9e-4941-afae-7afc07005557_1514x2048.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ppcz!, /__u/janaina.substack.com/w_848, /__u/janaina.substack.com/c_limit, /__u/janaina.substack.com/f_webp, /__u/janaina.substack.com/q_auto:good, 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&#225;rvores, escorregar de barriga pra baixo na passarela de azulejo com sab&#227;o enquanto tomava banho de mangueira, tirar carambola e manga do p&#233;, e comer tudo com as m&#227;os sem pensar nos fiapos amarelos nos dentes. a mesma Jana&#237;na que foi amea&#231;ada, chantageada, violentada e que, um ano atr&#225;s, era culpabilizada pela Jana&#237;na de 32 anos por ter sido estuprada, e por ter permanecido naquele relacionamento por tanto tempo. </p><p>eu olhava pra tr&#225;s cheia de dor e ang&#250;stia e sentia muita raiva dessa sombra que n&#227;o teve coragem de partir, que n&#227;o teve coragem de se defender e que me deixou viver anos que deixaram marcas t&#227;o profundas que estavam esquecidas at&#233; um tempo atr&#225;s. que raiva que eu sentia. muita muita muita. tanta que, quando pensava nas mem&#243;rias dessa &#233;poca, eu n&#227;o tinha um rosto, porque simplesmente n&#227;o conseguia encar&#225;-la. </p><p>e fazer terapia &#233; horr&#237;vel n&#233;? imagina fazer duas vezes na semana simplesmente porque voc&#234; est&#225; transbordando. e isso (e tudo que gira em torno disso) me transbordou tanto que eu explodi - eu surtei mesmo, com detalhes que ainda n&#227;o consigo contar, mas com uma viagem repentina pro Brasil nas costas s&#243; porque eu precisava me sentir amada e acolhida por aqueles que viveram essa hist&#243;ria comigo. </p><p>mas fazer terapia &#233; t&#227;o bom n&#233;? eu deixei de olhar com raiva para a Jana&#237;na de 13 anos, e passei a olhar com pena. pequenos passos. olhei com d&#243;, com desprezo, com indiferen&#231;a, at&#233; que olhei de verdade. era s&#243; uma crian&#231;a - esse fato ainda me choca muito, uma crian&#231;a que gostava de brincar de barbie, fazendo da caixa de sapato a cama das bonecas. ent&#227;o olhei com compaix&#227;o, e finalmente a acolhi. pensei: o que n&#227;o fizeram por mim l&#225; que posso fazer agora? </p><blockquote><p>denunciar. <a href="https://raqueltedesco.jusbrasil.com.br/artigos/396202840/ate-quando-posso-denunciar-um-abuso-sexual-ocorrido-na-infancia">Lei Joanna Maranh&#227;o</a>: <br>&#8220;A contagem de tempo para a prescri&#231;&#227;o s&#243; come&#231;a a contar da data em que a v&#237;tima fizer 18 anos, caso o Minist&#233;rio P&#250;blico n&#227;o tenha antes aberto a a&#231;&#227;o penal contra o agressor. Assim, as v&#237;timas de estupro possuem at&#233; 20 anos ap&#243;s a pr&#225;tica dos crimes para denunciarem o agressor. Exemplificando, uma crian&#231;a sofre um estupro aos 9 anos de idade ter&#225; at&#233; os seus 38 anos para denunciar o abusar, ou seja, a prescri&#231;&#227;o se inicia ao 18 anos e mais anos 20 anos que &#233; prazo de prescri&#231;&#227;o desse crime.&#8221;</p></blockquote><p>durante todos os dolorosos anos e pesadelos e choros descontrolados, uma coisa gritava mais alto que a dor: a injusti&#231;a. eu passando tudo isso e ele? eu sobrevivendo a tudo isso, e o que ele recebia em troca? ningu&#233;m sabe! ent&#227;o, denunciar. <br>denunciar para finalmente sentir um senso de justi&#231;a. denunciar para o fechamento de um ciclo - sem nenhuma esperan&#231;a de que o abusador v&#225; ser condenado, mas com a certeza que tudo que me aconteceu vai ser legitimado, vai existir.</p><p>escrevo sobre esses assuntos muito sens&#237;veis porque alguma mulher antes de mim fez o mesmo, e isso me deu coragem de seguir - e como toda vez que falo desse assunto, minhas mensagens est&#227;o abertas para quem precisar desabafar, e acreditem em mim, voc&#234; n&#227;o &#233; a &#250;nica a mandar, eu sempre recebo MUITAS porque ainda parece errado falar disso n&#233;? mas vamos fazer deixar de ser. </p><p>estou em contato com a <a href="https://www.facebook.com/deFEMde">Rede Feminista Jur&#237;dica </a>para os pr&#243;ximos passos, mas n&#227;o sei at&#233; onde consigo manter isso atualizado. nem sei se consigo manter sem apagar, mas enquanto isso - se tiverem for&#231;a, se tiverem coragem, denunciem &lt;3 n&#227;o passar&#227;o.</p><p> </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[transição de carreira]]></title><description><![CDATA[garota de programa na &#225;rea de computaria (desculpa nunca me canso)]]></description><link>https://janaina.substack.com/p/transicao-de-carreira</link><guid isPermaLink="false">https://janaina.substack.com/p/transicao-de-carreira</guid><dc:creator><![CDATA[Janaína]]></dc:creator><pubDate>Wed, 28 Dec 2022 16:09:07 GMT</pubDate><enclosure url="https://bucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com/public/images/1bacdb91-96cc-4c9b-8177-84b60ddcd192_3024x3024.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Todo dia eu acordo por volta das 8h da manh&#227;, fa&#231;o carinho e recebo muito ronron da Maria Flor, que dorme todos os dias do meu lado, levanto, coloco meu roup&#227;o para suportar o frio, vou ao banheiro, escovo o dente e quando volto para o quarto e olho para a minha mesa toda montada com monitor, laptop, teclado, cadeira, tudo enviado pela empresa, eu sempre penso muito surpresa: puta merda eu consegui, eu sou mesmo programadora, eu tenho mesmo um emprego! Todos. Os. Dias. </p><p>Corta rapidamente para 2019 na v&#233;spera do meu anivers&#225;rio de 30 anos, eu sentada no ch&#227;o do banheiro chorando copiosamente pois tinha chegado aos 30 sem uma carreira, sem um bom sal&#225;rio (eu era recepcionista de um hostel em Amsterdam), desesperan&#231;osa e assustada, com medo de um futuro onde eu n&#227;o conseguiria ser nada do que eu queria, mas mais que isso, de um futuro que eu n&#227;o saberia sequer para onde ir. </p><p>Em 2021, depois de muito tentar outras &#225;reas que eu considerava mais pr&#243;ximas do que eu queria, eu cedi e entrei em um bootcamp de tecnologia. A promessa era 12 semanas de aulas intensas e alta porcentagem de conseguir um emprego nos seis primeiros meses p&#243;s gradua&#231;&#227;o. O bootcamp terminou em setembro e uma das minhas colegas conseguiu emprego em dezembro (na Skyscanner, inclusive), ent&#227;o tem uma verdade a&#237;, mas acho que tem mais coisas que as pessoas n&#227;o contam nesse processo. </p><p>&#201; intenso. Voc&#234; aprende coisas que nunca viu na vida em semanas! &#201; um sentimento de atropelamento e frustra&#231;&#227;o, exaust&#227;o e ansiedade. As aulas eram de 8h as 17h mas eu ficava fazendo os exerc&#237;cios e estudando at&#233; quase 0h todos os dias. Ficava sempre com a sensa&#231;&#227;o de n&#227;o saber nada, de precisar estudar mais e mais e mais para conseguir acompanhar as aulas. Ningu&#233;m te fala, mas as coisas s&#243; come&#231;am a dar um clique na sua cabe&#231;a semanas depois que voc&#234; viu na primeira vez, ent&#227;o essa sensa&#231;&#227;o, por mais horr&#237;vel que seja, passa. O imposs&#237;vel vai lentamente se tornando compreens&#237;vel, at&#233; que se torna algo que voc&#234; consegue fazer. </p><p>&#201; assustador. Quando o bootcamp acabou e eu comecei a fazer entrevistas, eu estava despreparada e com medo. Cada entrevista que eu participava e cada n&#227;o que eu ouvia, alimentava minha s&#237;ndrome da impostora e me fazia ter a certeza que eu n&#227;o queria aquilo, que eu n&#227;o sabia, que n&#227;o era para mim. Eu cheguei at&#233; a desistir mesmo por alguns meses, mas no fundo eu sabia que aquele era o caminho para minha independ&#234;ncia financeira. </p><p>A s&#237;ndrome da impostora ataca profundamente. Voc&#234; sempre acha que vai ter algu&#233;m melhor, mais capaz e porque te dariam uma chance? Nas entrevistas, sua concorr&#234;ncia vai ser homem e vai ser branco, vai ter feito faculdade na &#225;rea enquanto voc&#234; estudou 3 meses para aquilo, ent&#227;o como voc&#234; vai ser escolhida? Mas por incr&#237;vel que pare&#231;a, voc&#234; vai ser. Uma hora ou outra, com prepara&#231;&#227;o e no seu tempo, voc&#234; vai entender que todos os &#8216;n&#227;os&#8217; te deram material para chegar naquela entrevista e passar. Porque a frase mais clich&#234; que eu j&#225; ouvi nesse processo mas tamb&#233;m a mais verdadeira &#233; que voc&#234; vai receber <strong>v&#225;rios n&#227;os</strong>, mas voc&#234; s&#243; precisa de <strong>um sim</strong>. </p><p>Eu comecei a trabalhar em Agosto/2022, quase um ano depois de come&#231;ar o bootcamp. Al&#233;m de tudo que falei ali em cima, tive meus desafios pessoais que interferiram diretamente na minha transi&#231;&#227;o, mas aceitei, respirei, reorganizei e consegui. As dificuldades n&#227;o acabam no momento que voc&#234; come&#231;a um emprego, mas uma vez dentro, lidar com tudo fica mais f&#225;cil porque o peso de precisar de um emprego j&#225; acabou. Os problemas v&#227;o ser outros, mas um passo de cada vez, certo?<br>E para complementar, eu gosto de programar. &#201; divertido, &#233; desafiador e faz eu me sentir uma hacker &#128514;. </p><p>Ent&#227;o se voc&#234; est&#225; flertando com essa transi&#231;&#227;o e &#233; daquelas que acha que in&#237;cio de ano &#233; o momento para tudo, deixa eu dar algumas dicas: </p><ul><li><p>Primeiro, d&#225; uma olhada nesse <a href="https://www.instagram.com/p/CQ7znguJZlp/">post aqui</a> que eu fiz sobre como come&#231;ar a aprender sem precisar pagar nada. Tem gente que n&#227;o precisa de bootcamp ou curso nenhum, aprende sozinha, mas eu n&#227;o funciono assim; se voc&#234; for essa pessoa, vai fundo! </p></li><li><p>Segundo: desde o come&#231;o, quando for aprendendo pequenos projetinhos, vai subindo no GitHub para criar seu protf&#243;lio! Eu n&#227;o recebi esse conselho, mas percebi que teria feito muita diferen&#231;a nas entrevistas ter projetos para explicar.</p></li><li><p>Terceiro: &#233; intenso, &#233; assustador, a s&#237;ndrome da impostora existe, mas se voc&#234; curtir, insiste porque ATEN&#199;&#195;O: paga bem.</p></li><li><p>Quarto: se voc&#234; fizer tudo e ainda assim sentir que n&#227;o &#233; para voc&#234;, t&#225; tudo bem desistir. Tudo bem mesmo! Tem outras &#225;reas dentro da tecnologia que podem se encaixar melhor com seu perfil :) </p></li></ul><p>Acho que logo logo vou colocar l&#225; no instagram uma lista de cursos e bootcamps de gra&#231;a ou com pre&#231;o mais em conta para quem tiver interesse, mas n&#227;o agora que isso aqui j&#225; t&#225; enorme! E qualquer outra d&#250;vida, pode me mandar mensagem l&#225; no privado t&#225;? Eu sempre sempre sempre respondo com todos os detalhes poss&#237;veis porque eu j&#225; estive do outro lado e vou sempre fazer o poss&#237;vel para ajudar quem estiver nesse barco! </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[luckiest girl alive]]></title><description><![CDATA[alerta de gatilho: viol&#234;ncia sexual e emocional.]]></description><link>https://janaina.substack.com/p/luckiest-girl-alive</link><guid isPermaLink="false">https://janaina.substack.com/p/luckiest-girl-alive</guid><dc:creator><![CDATA[Janaína]]></dc:creator><pubDate>Mon, 10 Oct 2022 17:53:17 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<p>Todo mundo estava falando <a href="https://www.imdb.com/title/tt4595186/">desse filme da Netflix</a> e eu fui l&#225; ver. Coisas que faltaram: aviso de gatilho de estupro e bom senso. Coisas que t&#234;m de sobra: viol&#234;ncia, abuso, humilha&#231;&#227;o e uma semelhan&#231;a t&#227;o profunda e intr&#237;nseca com meu momento atual, que eu paralisei, o cora&#231;&#227;o acelerou, o est&#244;mago gelou, as m&#227;os ficaram tremendo e eu precisei desligar o filme antes do final, sentindo minhas emo&#231;&#245;es esfoladas em carne viva. </p><p>Contextualizando: uns anos atr&#225;s, na terapia, eu relembrei (com for&#231;a total) de que minha primeira vez (e v&#225;rias vezes depois da primeira), foi for&#231;ada. Pelo meu namorado da &#233;poca, enquanto eu tinha 13 anos. Seguiu-se por tr&#234;s anos o relacionamento mais t&#243;xico e humilhante que j&#225; vivi, e at&#233; hoje eu n&#227;o falo com ningu&#233;m dos detalhes desses anos - para ser muito sincera, algumas das mem&#243;rias est&#227;o completamente enterradas, e a &#250;nica que coisa que prevalece quando preciso falar disso, &#233; o sentimento aterrador de humilha&#231;&#227;o. </p><p>&#8220;Quando <strong>preciso</strong> falar disso", porque lentamente fui descobrindo que muitas das minhas inseguran&#231;as, medos, emo&#231;&#245;es e sentimentos s&#227;o frutos do que me aconteceu, e quanto mais eu evitava falar, mais eu sofria as consequ&#234;ncias em diversos momentos. O in&#237;cio foi lento, comigo desviando do assunto a sess&#227;o inteira e resolvendo abordar faltando 10 minutos para acabar; ou eu falando que tinha algo mais recente que precisava desabafar, s&#243; para descobrir que aquele acontecimento completamente isolado, quando cavado, me levava diretamente para o momento do abuso. </p><p>Ent&#227;o eu precisei falar sobre isso. E mais uma vez, escolho escrever, porque escrever sempre foi minha v&#225;vula de escape, onde desembara&#231;o meus sentimentos, e descobri que as vezes, o que escrevo ajuda outras pessoas, ent&#227;o aqui estou. </p><p>Numa das cenas finais do filme, a que me for&#231;ou a desligar, foi quando a protagonista revela sua hist&#243;ria publicamente e seu noivo pergunta se ela n&#227;o acha que os abusadores dela j&#225; sofreram o suficiente: dois est&#227;o mortos, um est&#225; na cadeira de rodas; e diz que sente falta do tempo em que ela costumava ser divertida. A cena por si s&#243;, o di&#225;logo que representa a quase totalidade das situa&#231;&#245;es de abuso, &#233; muito dolorosa: a pessoa que ela ama e confia, que deveria acolh&#234;-la, explicitamente toma o lado dos abusadores, e apesar de ter insistido bastante para que ela lidasse com a hist&#243;ria, foi o primeiro a se afastar quando percebeu as consequ&#234;ncias que isso traria para ela.</p><p>E a resposta dela me foi t&#227;o familiar que parecia que eu mesma tinha escrito a cena: &#8220;n&#227;o sei se sou divertida. N&#227;o sei o que eu sou e que parte inventei para que gostassem de mim&#8230;<br>&#8230; sou uma boneca de corda. Se voc&#234; me der corda, vou dizer o que voc&#234; quer ouvir. Eu me neguei tantas vezes&#8221;. </p><p>Parece loucura dizer que eu falei a mesma coisa na semana passada na terapia? Por muitos anos n&#227;o quis olhar para isso porque eu tinha certeza que assumir que tinha acontecido, enfrentar o caos que me causou, me transformaria automaticamente em uma v&#237;tima digna de pena. N&#227;o queria aceitar que eu entraria nas estat&#237;sticas, n&#227;o queria causar nenhum inc&#244;modo nas pessoas ao meu redor e n&#227;o queria que me tratassem diferente [eu me neguei tantas vezes]. </p><p>Agora que a porteira est&#225; aberta, percebi que quanto mais eu falo, mais eu descubro que n&#227;o sei quem eu sou, n&#227;o sei que parte de mim sempre esteve aqui e qual parte foi inventada para me proteger, para me cercar de pessoas e fazer com que elas n&#227;o desejassem me machucar [vou dizer o que voc&#234; quer ouvir]. </p><p>Tem dias que acordo de pesadelos que nunca mais me deixam, e por um momento iluminado-gratiluz, eu penso que &#233; s&#243; isso com que tenho que me preocupar, com os resqu&#237;cios do pesadelo no meu corpo. Mas a&#237; a n&#233;voa do sono dissipa, e com ela o impacto de que transito pelos meus dias performando - conversas, risadas, refei&#231;&#245;es, banho - porque se dependesse da minha vontade, ficaria deitada encarando o teto e esperando essas feridas sararem [sou uma boneca de corda]. </p><p>E n&#227;o falo sobre isso, a n&#227;o ser na terapia. N&#227;o consigo me aprofundar com as pessoas ao meu redor, porque sei - <strong>eu sei</strong> - que as pessoas cansam. Sentem empatia e querem que voc&#234; melhore, mas elas cansam da morbidez, dos dias cinzentos, da dor, do isolamento, do cansa&#231;o que nunca termina. Pouqu&#237;ssimas pessoas ficam, insistem em te tirar da cama, em querer estar do seu lado mesmo quando voc&#234; n&#227;o tem nada a oferecer. As pessoas cansam, e eu entendo, por isso performo, porque isso faz elas ficarem [n&#227;o sei se sou divertida].</p><p>N&#227;o escrevo isso para que sintam pena nem que me tratem diferente. Escrevo para que talvez, se voc&#234; se reconhecer nesse desabafo, saiba que n&#227;o est&#225; s&#243;, que n&#227;o est&#225; inventando, e que seu sofrimento n&#227;o &#233; exagerado. E para caso voc&#234; tiver algu&#233;m em sua vida passando por algo semelhante, saiba como acolher, ajudar, abra&#231;ar e n&#227;o abandonar.</p><p>Tamb&#233;m n&#227;o vou dizer aqui que se voc&#234; precisar de algu&#233;m para desabafar, que pode contar comigo - voc&#234; pode, mas eu sei que voc&#234; n&#227;o vai. Vai, como eu, pensar que sua hist&#243;ria n&#227;o &#233; t&#227;o importante, que seu trauma n&#227;o &#233; t&#227;o pesado, que sua dor n&#227;o &#233; v&#225;lida. Mas eu ressignifiquei o sentido da palavra v&#237;tima, e tudo bem, hoje eu assumo: fui v&#237;tima de estupro. Isso n&#227;o me define, mas aconteceu comigo. E agora estou aqui nesse caminho de abra&#231;ar a raiva (quanta raiva), lidar com a dor e me reconhecer. T&#225; sendo horr&#237;vel, mas eu recomendo.</p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[nem lar, nem cá]]></title><description><![CDATA[toda imigrante j&#225; escreveu sobre isso]]></description><link>https://janaina.substack.com/p/nem-lar-nem-ca</link><guid isPermaLink="false">https://janaina.substack.com/p/nem-lar-nem-ca</guid><dc:creator><![CDATA[Janaína]]></dc:creator><pubDate>Wed, 13 Jul 2022 16:31:52 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<p>Hoje eu estava escrevendo a mensagem convidando as pessoas para meu anivers&#225;rio aqui em Londres. Enquanto passava pelos contatos na minha agenda, meu cora&#231;&#227;o dava pulinhos esquisitos, mesclados de esperan&#231;a e depois encolhidos pela realidade: pessoas que amo de paix&#227;o e que deixariam minha comemora&#231;&#227;o imensamente mais feliz e familiar, mas que n&#227;o v&#227;o mais estar presente em quase nenhum anivers&#225;rio meu - a n&#227;o ser que eu me divida em tantas, para comemorar nos tantos pa&#237;ses onde moram peda&#231;os do meu cora&#231;&#227;o.</p><p>Estive no Brasil em abril. Eu n&#227;o visitava h&#225; mais de tr&#234;s anos, e eu estava miser&#225;vel de saudade, al&#233;m de ter perdido coisas importantes: a formatura da minha prima, a gravidez e o nascimento do filho de uma amiga de inf&#226;ncia, o primeiro dia da minha m&#227;e na hidrogin&#225;stica. Eu estava sentindo falta do clima, de andar de chinelo no shopping, de ser reconhecida e chamada carinhosamente de &#8216;amor&#8217; pela mo&#231;a da padaria, de ir a praia no meio do outono; montanhas, mar, favelas, asfalto, caos, tudo misturado em uma s&#243; linha de horizonte. Sentia falta do gosto do mam&#227;o, da manga, da banana. Sentia falta de casa.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://janaina.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Machadada! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Chorei quando o avi&#227;o sobrevoou o Rio. Chorei quando desci do avi&#227;o e fui direcionada a fila da imigra&#231;&#227;o s&#243; para brasileiros. Chorei quando sa&#237; no aeroporto e vi meus pais - j&#225; brigando - e ouvi aquela zona familiar, vozes altas e confus&#227;o. &#193;s vezes me acho boba quando choro, mas dessa vez eu entendi cada l&#225;grima. Abracei e fui abra&#231;ada: no aeroporto e tantas vezes que visitei amigas, amigos e fam&#237;lia enquanto estive l&#225;. Amei cada momento, odiei v&#225;rios outros, mas em todos eles um sentimento inesperado predominou: a saudade de casa. </p><p>Mas u&#233;, eu n&#227;o estava em casa? Era isso que eu me dizia enquanto estava aqui em Londres, planejamento minha ida para - veja bem - casa. Ent&#227;o como poderia eu estar sentindo falta de um lugar que eu aparentemente j&#225; estava? Ora ora, bem vinda a vida da imigrante, onde casa deixa de ser um lugar, e passa a ser um sentimento, passam a ser v&#225;rias pessoas, passa a ser a fam&#237;lia que voc&#234; escolha e cultiva em cada peda&#231;o do mundo onde pisa. </p><p>Eu visitava uma praia no Rio e pensava: &#8220;ai meu deus, queria que ela-que-mora-em-Londres tivesse aqui comigo&#8221;; passei na esquina da rua onde cresci e disse &#8220;ai como eu queria que ela-que-mora-em-Barcelona pudesse compartilhar esse momento comigo&#8221;; no churrasco com a fam&#237;lia, lembrei dos encontros escandalosos com a minha fam&#237;lia de Amsterdam. E eu penso o mesmo, diariamente, enquanto vivo minha rotina em Londres, sobre como eu gostaria de vivenciar cada experi&#234;ncia com todos e cada um que deixei no Brasil.</p><p>Voltei para Londres consciente que n&#227;o estava voltando inteira. Um peda&#231;o de mim ficou no Rio de Janeiro, mas eu j&#225; tinha deixado um peda&#231;o de mim em Amsterdam tamb&#233;m. N&#227;o se passa um dia sem que eu me sinta incompleta, com saudades, querendo compartilhar pequenos momentos com tantas pessoas que est&#227;o fora do meu alcance f&#237;sico. Se eu n&#227;o me policio, d&#243;i o tempo todo. Ent&#227;o o que tento fazer &#233; n&#227;o pensar mais em mim como despeda&#231;ada, e sim como expandida. Meu amor cresceu, minha fam&#237;lia se expandiu. Meu cora&#231;&#227;o tem v&#225;rios lares para chamar de seu, v&#225;rios abra&#231;os me esperando ao redor do mundo. </p><p>Lar virou um conceito muito abstrato: n&#227;o moro nele, n&#227;o visito sempre, n&#227;o estou sempre em contato, mas ele existe em suas variadas formas e tamanhos na minha vida, e eu sou sempre, sempre bem vinda quando corro em sua dire&#231;&#227;o. </p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://janaina.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Machadada! 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Eu tinha acabado de come&#231;ar o bootcamp e eu estava t&#227;o estressada e ocupada e nervosa com as coisas que estava aprendendo, com o ritmo di&#225;rio e intenso, que eu acabava pulando refei&#231;&#245;es. Depois de uma semana assim, eu me olhei no espelho e percebi que tinha desinchado. N&#227;o tinha emagrecido, mas tinha desinchado sim. E meu c&#233;rebro raciocinou o seguinte: </p><p>quase quatro anos depois de sair do Brasil, eu ainda estava sem emprego (tema recorrente, n&#233;), tinha engordado mais de 10 quilos, tinha muitas crises de ansiedades e p&#226;nico desde 2018, n&#227;o conseguia manter amizade com as pessoas que eu queria, n&#227;o conseguia cortar la&#231;os com as pessoas que eu n&#227;o queria mais na minha vida, n&#227;o conseguia manter minha fam&#237;lia confort&#225;vel (como eu gostaria), n&#227;o tinha controle de nada nada nada. Mas tinha controle disso, do meu peso, do que eu me permitia comer. </p><p>Eu aprendi que, no meu caso, a bulimia &#233; sobre controle. Ainda &#233;, n&#227;o era. Dia sim, dia n&#227;o eu acho que deixei para tr&#225;s, que me curei, mas se n&#227;o controlo o rumo dos meus pensamentos, eu caio l&#225;, naquele lugar confort&#225;vel onde eu sou dona das minhas escolhas e do resultado que vai trazer para minha vida. Parece louco, mas &#233; um lugar seguro e confort&#225;vel para mim, &#224;s vezes at&#233; belo. </p><p>A gente nunca acha que as coisas v&#227;o acontecer com a gente, at&#233; que acontecem. Eu me questiono muito quem eu sou e onde estou; parece que os anos buscando por algo que eu n&#227;o encontrei, a depress&#227;o, a ansiedade e a bulimia tiraram de mim a resposta mais fundamental: quem sou eu, al&#233;m dessas coisas? Me olho no espelho e penso: o que gosto de fazer? o que quero para minha vida, al&#233;m de sair do caos e da confus&#227;o instaurados na minha cabe&#231;a? para onde quero ir, com quem, quando, por que? Honestamente, quem sou, em quem me transformei?</p><p>N&#227;o tenho essas respostas, n&#227;o ainda. Sei quem eu gostaria de ser, essa imagem &#233; t&#227;o clara na minha cabe&#231;a que eu at&#233; evito olhar para ela: aclan&#231;a-la est&#225; t&#227;o dentro quanto fora do meu controle e eu morro de medo de dar os passos que dependem de mim, de dar errado de novo, e eu ser fr&#225;gil de novo a ponto de demorar a levantar. </p><p>Mas eu comecei a fazer pilates. Agendei a aula sozinha, fui sozinha em uma turma de desconhecidos, segui os exerc&#237;cios, senti dor no corpo enquanto ele acordava, senti al&#237;vio quando percebi que eu sou capaz - as coisas pequenas t&#234;m um signifcado t&#227;o grande! E quando a aula acabou, e est&#225;vamos meditando de frente para o espelho, abri os olhos e vi ali um peda&#231;o de quem eu sei que quero ser. Me encarei por todo o tempo da medita&#231;&#227;o, e gostei do que vi. </p><p>Est&#225;vel, controlada, desejando, se cuidando. E sei que o caminho &#233; longo, e &#233; dolorido (&#244; se sei), mas eu sei que estou chegando l&#225;.  </p>]]></content:encoded></item></channel></rss>