<script data-pm-proxy="intercept"></script><?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[laura sanches]]></title><description><![CDATA[laura sanches]]></description><link>https://laurasanches.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!qXqD!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4ad1453f-b8c2-4ca2-bf42-1d39f76a7d53_1080x1080.jpeg</url><title>laura sanches</title><link>https://laurasanches.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Wed, 02 Sep 2026 20:00:30 GMT</lastBuildDate><atom:link href="/__u/laurasanches.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[laura sanches]]></copyright><language><![CDATA[en]]></language><webMaster><![CDATA[laurasanches@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[laurasanches@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[laura sanches]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[laura sanches]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[laurasanches@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[laurasanches@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[laura sanches]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[O sofrimento não precisa de diagnósticos ]]></title><description><![CDATA[e o modelo m&#233;dico n&#227;o se aplica &#224;s emo&#231;&#245;es]]></description><link>https://laurasanches.substack.com/p/o-sofrimento-nao-precisa-de-diagnosticos</link><guid isPermaLink="false">https://laurasanches.substack.com/p/o-sofrimento-nao-precisa-de-diagnosticos</guid><dc:creator><![CDATA[laura sanches]]></dc:creator><pubDate>Thu, 27 Aug 2026 12:41:14 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/df7f9016-204a-4ca0-b09f-10d83829c0f0_1080x1350.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Nos &#250;ltimos dias tenho estado a reflectir sobre a forma como o modelo m&#233;dico tem vindo a ser aplicado &#224;s emo&#231;&#245;es e no impacto que isto tem tido. J&#225; ouvi o Gordon Neufeld explicar que, inicialmente quando se come&#231;ou a falar em doen&#231;a mental isto teve um impacto positivo no sentido de nos ajudar a perceber que as pessoas n&#227;o t&#234;m determinados sintomas apenas por falta de for&#231;a de vontade. O conceito de doen&#231;a mental ajuda-nos a perceber que as pessoas n&#227;o ficam nesse modo porque querem, n&#227;o o fazem de prop&#243;sito e isso teve a sua import&#226;ncia porque antigamente havia muito mais a tend&#234;ncia para acreditarmos que bastava as pessoas terem alguma for&#231;a de vontade para se livrarem dos seus sintomas. Lembro-me de ter uma amiga pr&#243;xima com anorexia nervosa quando &#233;ramos adolescentes e de ainda existir em muitas pessoas a vis&#227;o de que bastava obrigar uma pessoa a comer para isso ficar resolvido. Creio que hoje em dia, nesse aspecto, evolu&#237;mos bastante no sentido de percebermos que as emo&#231;&#245;es s&#227;o bem mais complexas e que esses quadros n&#227;o se resolvem com tanta simplicidade. E, nesse aspecto, essa no&#231;&#227;o de doen&#231;a mental ter&#225; sido &#250;til. Mas, como explica Gordon Neufeld, essa utilidade esgota-se aqui, porque as nossas emo&#231;&#245;es n&#227;o s&#227;o t&#227;o simples de classificar e de resolver como as doen&#231;as do corpo. </p><p>Estas f&#233;rias li dois livros importantes que ajudam ainda mais a solidificar esta no&#231;&#227;o de que estamos a viver uma verdadeira epidemia de sobre-diagn&#243;sticos e isso tem um impacto mais negativo do que positivo na sa&#250;de mental. O primeiro livro &#233; de uma m&#233;dica neurologista e fala da forma como o excesso de diagn&#243;sticos pode ser prejudicial mesmo na medicina, porque muitas vezes de diagnosticam doen&#231;as e fazem-se tratamentos para coisas que poderiam evoluir positivamente sem nenhuma interven&#231;&#227;o m&#233;dica. Mas esta m&#233;dica tamb&#233;m fala na forma como este excesso de diagn&#243;sticos se tem estendido a algumas quest&#245;es da sa&#250;de mental como o autismo e o d&#233;fice de aten&#231;&#227;o. Estas eram duas perturba&#231;&#245;es que precisavam de alguns crit&#233;rios severos para serem diagnosticadas h&#225; alguns anos atr&#225;s e que hoje em dia quase se banalizaram, porque os seus crit&#233;rios foram demasiado alargados. E uma das preocupa&#231;&#245;es principais que ela descreve no livro prende-se com o facto de isto fazer com que algumas das pessoas que sofrem com formas mais severas destas condi&#231;&#245;es acabem mesmo por ficar sem acesso a tratamentos importantes e necess&#225;rios que acabam por ser ocupados com pessoas que t&#234;m manifesta&#231;&#245;es perfeitamente funcionais da doen&#231;a. Os recursos n&#227;o s&#227;o infinitos e quando alargamos muito os crit&#233;rios de diagn&#243;stico, acabamos por desloc&#225;-los para pessoas que talvez nem tivessem assim tanta necessidade de ter esses apoios. Al&#233;m de que quando os pr&#243;prios profissionais se habituam a ver pessoas perfeitamente funcionais com determinados diagn&#243;sticos tamb&#233;m acabam por mais facilmente desvalorizar a incapacidade real das pessoas que mais precisavam de apoio. </p><p>Neste livro ela d&#225; o exemplo de um jovem com autismo praticamente n&#227;o-verbal e com um Q.I. abaixo de 50 cuja m&#227;e ficou com esperan&#231;a de encontrar apoio quando abriu uma escola especializada em autismo na sua zona, mas que afinal viu a sua entrada recusada porque os seus sintomas eram demasiado severos. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!rheI!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F38992bf4-f28c-474b-8a36-9d0a89fa24b2_4080x3060.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source 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colaboradores da DMS-III e da DSM-IV, os manuais de diagn&#243;stico mais usados no mundo e escreveu este livro j&#225; em 2013 precisamente por estar muito apreensivo com a nova edi&#231;&#227;o da DMS, entretanto j&#225; publicada, que alargava v&#225;rios crit&#233;rios de uma forma que a seu ver era muito preocupante.  </p><p>A utilidade de um diagn&#243;stico &#233; o facto de nos permitir encontrar as causas, mas mais importante, um tratamento para eliminar ou pelo menos atenuar o sofrimento que essa condi&#231;&#227;o ou doen&#231;a pode provocar na pessoa. Acontece que, se na medicina esta liga&#231;&#227;o directa entre o diagn&#243;stico e a cura ou al&#237;vio nem sempre &#233; poss&#237;vel, na sa&#250;de mental muito menos o ser&#225;. </p><p>Na sa&#250;de f&#237;sica, apesar de existirem sempre algumas inc&#243;gnitas tamb&#233;m existem alguns par&#226;metros bem delineados e relativamente f&#225;ceis de observar que indicam se a pessoa est&#225; saud&#225;vel ou n&#227;o. Se a nossa temperatura corporal estiver acima dos 38 graus, por exemplo, &#233; f&#225;cil concluir que h&#225; um processo de doen&#231;a em curso. Se a tens&#227;o arterial estiver abaixo ou acima de determinados valores tamb&#233;m &#233; f&#225;cil perceber que a sa&#250;de pode estar em risco e sempre que fazemos an&#225;lises ao sangue ou &#224; urina existem valores esperados para tudo aquilo que est&#225; a ser avaliado e qualquer desvio desses valores ser&#225; sinal de que alguma coisa n&#227;o est&#225; a funcionar como seria desej&#225;vel. Ainda assim, a linha onde se tra&#231;a estes valores em alguns casos &#233; discut&#237;vel e alguns m&#233;dicos apontam para a press&#227;o das farmac&#234;uticas no estabelecimento de determinados crit&#233;rios. No caso do colesterol por exemplo, alguns m&#233;dicos afirmam que os valores foram alterados h&#225; algum tempo justamente por causa da press&#227;o da ind&#250;stria farmac&#234;utica para vender mais comprimidos. E neste livro Allen Frances culpa tamb&#233;m a press&#227;o da ind&#250;stria farmac&#234;utica para o aumento dos diagn&#243;sticos. Bem como o aumento do n&#250;mero de profissionais que, no fundo, tamb&#233;m validam a sua import&#226;ncia atrav&#233;s dos diagn&#243;sticos e tamb&#233;m me parece uma quest&#227;o relevante. </p><p>&#201; mais f&#225;cil tra&#231;ar alguns par&#226;metros para as quest&#245;es f&#237;sicas e conseguimos encontrar v&#225;rios tipos de marcadores f&#237;sicos para a maior parte das doen&#231;as, o que j&#225; n&#227;o se aplica &#224;s quest&#245;es emocionais. N&#227;o existem marcadores universais para nenhuma das condi&#231;&#245;es descritas na DSM, nem para nenhum diagn&#243;stico em sa&#250;de mental. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Vsup!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4bc4d8ec-a6d2-4f77-ad12-35ab565db838_4080x3060.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Vsup!, /__u/laurasanches.substack.com/w_424, /__u/laurasanches.substack.com/c_limit, /__u/laurasanches.substack.com/f_webp, /__u/laurasanches.substack.com/q_auto:good, /__u/laurasanches.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4bc4d8ec-a6d2-4f77-ad12-35ab565db838_4080x3060.jpeg 424w, 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poder&#227;o ser &#250;teis nesses casos. Allen Frances usa o exemplo da esquizofrenia, que pode ser totalmente impeditiva de se ter uma vida funcional e integrada e em que sabemos que alguma medica&#231;&#227;o pode ser uma ajuda importante para lidar com os sintomas. Ou o caso de uma depress&#227;o em que a pessoa n&#227;o consegue mesmo sair da cama, por exemplo e a medica&#231;&#227;o pode conseguir ajud&#225;-la a lidar com o dia-a-dia. Mas a verdade &#233; que mesmo nestes casos, por muito que nos tenhamos habituado a acreditar nas promessas da neuroci&#234;ncia e n&#227;o s&#243;, ainda n&#227;o foi poss&#237;vel encontrar um marcador biol&#243;gico ou uma altera&#231;&#227;o cerebral ou neurol&#243;gica que expliquem, por si s&#243; o aparecimento destas doen&#231;as. Encontram-se si algumas altera&#231;&#245;es no funcionamento cerebral, sim e nos neurotransmissores de quem tem uma depress&#227;o, mas a verdade &#233; que n&#227;o se pode afirmar que estes s&#227;o a causa da doen&#231;a nem podem ser usados para a diagnosticar s&#243; por si. Porque estas altera&#231;&#245;es variam de pessoa para pessoa, n&#227;o est&#227;o necessariamente presentes em todas e n&#227;o t&#234;m a mesma intensidade em todos os casos. </p><p>Uma revis&#227;o de estudos sobre a depress&#227;o publicada em 2022 e <a href="https://www.nature.com/articles/s41380-022-01661-0">que pode ser lida aqui</a>, por exemplo, chegou &#224; conclus&#227;o que n&#227;o podemos afirmar com toda a certeza de que a redu&#231;&#227;o da serotonina &#233; a causa da depress&#227;o, por muito que nos tenhamos habituado a ouvir esta associa&#231;&#227;o e a sua autora principal, Joanna Moncrief, &#233; uma das vozes mais cr&#237;ticas sobre o uso generalizado dos anti-depressivos hoje em dia. </p><p>A verdade &#233; que parece que hoje em dia muitas pessoas sentem que precisam de um diagn&#243;stico para validar o seu sofrimento e para sentirem que as suas dificuldades s&#227;o leg&#237;timas. O problema &#233; que quando criamos uma identidade de doen&#231;a, mesmo que a primeira sensa&#231;&#227;o seja de al&#237;vio, a longo prazo isto acaba por trazer mais sofrimento porque passamos a acreditar nas limita&#231;&#245;es que ela traz e na ideia de que existe alguma coisa que n&#227;o funciona de forma correcta dentro de n&#243;s. </p><p> A vantagem de se ter um diagn&#243;stico &#233; o facto de nos permitir compreender as causas da doen&#231;a e encontrar o tratamento necess&#225;rio para a ultrapassar ou, pelo menos, para minimizar os seus efeitos. Mas, como j&#225; vimos, se na doen&#231;a mental n&#227;o &#233; poss&#237;vel identificar claramente as causas isso significa que tamb&#233;m n&#227;o &#233; poss&#237;vel identificar um tratamento verdadeiramente eficaz, pelo menos n&#227;o do ponto de vista dos tratamentos qu&#237;micos. </p><p>Como j&#225; disse em alguns casos a medica&#231;&#227;o pode ser uma ajuda importante para que as pessoas consigam funcionar no mundo e para serem capazes de lidar com os seus sintomas, mas a verdade &#233; que a medica&#231;&#227;o em psiquiatria tamb&#233;m n&#227;o &#233; uma ci&#234;ncia exacta. Psiquiatras diferentes podem receitar f&#225;rmacos muito diferentes para a mesma perturba&#231;&#227;o e a medica&#231;&#227;o n&#227;o tem exactamente o mesmo efeito em todas as pessoas. Receitar um anti-psic&#243;tico, um estabilizador de humor ou um anti-depressivo &#233; muito diferente de receitar um antibi&#243;tico que j&#225; foi bem estudado para uma determinada bact&#233;ria, por exemplo. Os estabilizadores de humor e os antipsic&#243;ticos s&#227;o dois exemplos de f&#225;rmacos que foram criados para lidar com situa&#231;&#245;es de crise e para pessoas com condi&#231;&#245;es que poderiam ser bastante incapacitantes e que hoje em dia se receitam em casos muito mais ligeiros, muitas vezes por m&#233;dicos de fam&#237;lia e em casos em que a verdade &#233; que fazem mais mal do que bem. Porque impedem a pessoa de se adaptar verdadeiramente ao que est&#225; a acontecer na sua vida, ao n&#227;o lidar com as suas emo&#231;&#245;es, criam a ideia de que &#233; necess&#225;ria uma subst&#226;ncia qu&#237;mica para se conseguir lidar com a frustra&#231;&#227;o, o medo, a ansiedade e a tristeza (emo&#231;&#245;es que fazem naturalmente parte da vida de todos n&#243;s) e t&#234;m efeitos secund&#225;rios que podem ser mesmo muito prejudiciais para a sa&#250;de a longo prazo. </p><p>A verdade &#233; que n&#227;o existe um &#250;nico comprimido no mundo, nem uma combina&#231;&#227;o deles que elimine o nosso sofrimento. Muitas vezes aquilo que os psicof&#225;rmacos fazem &#233; desligar-nos das nossas emo&#231;&#245;es. Porque quando essas emo&#231;&#245;es se tornam demasiado intensas, elas podem realmente impedir-nos de funcionar como gostar&#237;amos ou como &#233; esperado de n&#243;s. Acontece que, se conseguirmos ficar suficientemente anestesiados para sermos imunes &#224; dor isso tamb&#233;m significa que ficaremos imunes ao prazer, &#224; alegria, &#224; felicidade e at&#233; ao amor. Porque para sentir prazer, precisamos de ser capazes de sentir dor tamb&#233;m. Sentir as emo&#231;&#245;es &#233; uma condi&#231;&#227;o essencial para o amadurecimento e por isso os psicof&#225;rmacos muitas vezes tamb&#233;m nos impedem, em certa medida, de crescer verdadeiramente. Porque n&#227;o podemos aprender a lidar com aquilo que n&#227;o sentimos e n&#227;o podemos amadurecer se n&#227;o aprendermos a lidar com a frustra&#231;&#227;o, com a tristeza e com o alarme e o medo. Por isso &#233; que tamb&#233;m precisamos de ser especialmente cautelosos do que toca a medicar crian&#231;as ou jovens, porque os adultos apesar de tudo, j&#225; ter&#227;o tido alguma possibilidade de fazer essa aprendizagem, em princ&#237;pio. Mas a inf&#226;ncia e a adolesc&#234;ncia s&#227;o per&#237;odos cr&#237;ticos em que o contexto tem muito mais peso e em que determinadas aprendizagens precisam de acontecer. E torna-se muito mais dif&#237;cil que essas aprendizagens aconte&#231;am se os jovens ou crian&#231;as n&#227;o estiverem em contacto com as suas emo&#231;&#245;es. </p><p> Aquilo que explicam tamb&#233;m estes autores &#233; que antigamente aquilo que diagnostic&#225;vamos eram problemas s&#233;rios, pessoas que realmente n&#227;o conseguiam funcionar no mundo e hoje em dia pass&#225;mos a diagnosticar tudo aquilo que podem ser apenas manifesta&#231;&#245;es naturais e normais de toda a variabilidade humana. </p><p>Quando atribu&#237;mos as nossas dificuldades a uma doen&#231;a e n&#227;o apenas ao facto de sermos como somos, estamos tamb&#233;m implicitamente a dizer que n&#227;o temos o direito de ser assim. &#201; como se precis&#225;ssemos de uma justifica&#231;&#227;o que, por um lado nos liberta da culpa e da responsabilidade, mas por outro nos prende nesse lugar em que tamb&#233;m n&#227;o &#233; poss&#237;vel fazer diferente. </p><p>E isto &#233; particularmente grave quando &#233; aplicado a crian&#231;as e jovens que ainda est&#227;o a construir a sua identidade. </p><p>Eu fiz o meu est&#225;gio acad&#233;mico, h&#225; mais de 20 anos, em escolas do primeiro ciclo onde uma boa parte do meu tempo era passado a aplicar testes e a fazer relat&#243;rios. E percebi que aquilo que acontecia sempre que os adultos recebiam essas avalia&#231;&#245;es, aquilo que acontecia era uma certa desresponsabiliza&#231;&#227;o: os professores passavam a acreditar que os alunos precisavam de apoio especial e por isso sentiam que n&#227;o precisavam de se preocupar tanto com eles nas aulas, ao mesmo tempo que tamb&#233;m ficavam aliviados porque afinal n&#227;o era por sua culpa que o aluno n&#227;o aprendia e os pais tamb&#233;m sentiam esse al&#237;vio de saber que afinal as dificuldades tamb&#233;m n&#227;o eram culpa deles e passavam mais facilmente a responsabilidade de ajudar os filhos aos especialistas que deveriam saber identificar os problemas e o caminho para sair deles. </p><p>Acontece que um diagn&#243;stico n&#227;o diz nada sobre a origem das dificuldades da crian&#231;a, nem ajuda a iluminar os problemas e as din&#226;micas que os alimentam na sua vida di&#225;ria. E, mais grave, um diagn&#243;stico, faz com que os adultos respons&#225;veis por essas din&#226;micas e aqueles que podem fazer verdadeiramente a diferen&#231;a na vida da crian&#231;a e que precisam de assumir a responsabilidade por ela, se demitam desse papel por acreditarem que ser&#227;o os especialistas que t&#234;m as respostas para ajudar melhor a crian&#231;a. E isso &#233; provavelmente o efeito mais nefasto deste excesso de diagn&#243;sticos na inf&#226;ncia, porque aquilo de que as crian&#231;as mais precisam &#233; de adultos capazes de assumirem a sua responsabilidade na vida delas. De adultos que se sintam capazes e dispon&#237;veis para cuidar delas. No meu &#250;ltimo livro, Educar com Culpa, falei disto e da forma como isso pode prejudicar a rela&#231;&#227;o das crian&#231;as com os pais e a confian&#231;a que elas tamb&#233;m precisam de ter neles. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!s-w1!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8c276010-8be1-4c7c-9dd1-c7614c963ddd_1080x1350.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!s-w1!, /__u/laurasanches.substack.com/w_424, /__u/laurasanches.substack.com/c_limit, /__u/laurasanches.substack.com/f_webp, /__u/laurasanches.substack.com/q_auto:good, 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E esta necessidade de encaixar num determinado r&#243;tulo hoje em dia n&#227;o me parece que ajude em nada nessa aprendizagem. Um dos melhores exemplos &#233; o d&#233;fice de aten&#231;&#227;o. Sempre existiram pessoas a que cham&#225;vamos simplesmente distra&#237;das, sem que isso significasse nada demais. Lembro-me que a minha av&#243; usava muitas vezes uma express&#227;o popular que dizia: quem n&#227;o tem cabe&#231;a tem pernas, para falar dos passos extra que tinha de dar quando se esquecia de alguma coisa e precisava de voltar para tr&#225;s ou das voltas que dava &#224; procura de algo que n&#227;o sabia onde estava. A necessidade atual de encaixar quase todas as distra&#231;&#245;es e coisas parecidas num diagn&#243;stico de d&#233;fice de aten&#231;&#227;o, n&#227;o me parece que ajude nada a lidar com algo que poderia perfeitamente, na esmagadora maioria dos casos, ser encarado apenas como uma variabilidade dentro de todas as caracter&#237;sticas que as pessoas podem ter. O pr&#243;prio Allen Frances, diz que segundo os crit&#233;rios provavelmente poderia ser diagnosticado como tendo d&#233;fice de aten&#231;&#227;o, quando h&#225; algum tempo atr&#225;s era apenas um professor distra&#237;do. Quando atribu&#237;mos a algum defeito do nosso c&#233;rebro aquilo que poderiam ser classificadas apenas como distra&#231;&#245;es pontuais ou mesmo rotineiras, por um lado isso pode trazer o al&#237;vio de sentirmos que a culpa n&#227;o &#233; nossa pelo nosso c&#233;rebro ter sido de alguma forma mal constru&#237;do, mas por outro, traz o peso de sentirmos que existe alguma coisa errada e que ela n&#227;o vai mudar, porque &#233; causada por algum tipo de defeito ou anormalidade estrutural. E &#233; importante referir tamb&#233;m que as neuroci&#234;ncias n&#227;o sustentam esta ideia de que existe alguma altera&#231;&#227;o estrutural no c&#233;rebro das pessoas com este diagn&#243;stico. </p><p>E &#233; importante lembrar que a aten&#231;&#227;o depende sempre das nossas emo&#231;&#245;es, quando estamos em modo de alerta, quando estamos cansados ou quando existem outras emo&#231;&#245;es muito intensas &#233; natural que a aten&#231;&#227;o se disperse e que se torne mais dif&#237;cil manter o foco. Tamb&#233;m existem pessoas que s&#227;o naturalmente mais reativas e por isso se distraem mais facilmente. Os processos de aten&#231;&#227;o s&#227;o, a maior parte das vezes, mais um reflexo do nosso estado interno do que de alguma perturba&#231;&#227;o.</p><p>Um exemplo um pouco extremo talvez, vem do filme uma mente brilhante que descreve a vida de um matem&#225;tico genial, que tinha um diagn&#243;stico de esquizofrenia e tinha alucina&#231;&#245;es de pessoas que falavam com ele e que o perturbavam bastante, como &#233; costume acontecer nestes casos, claro. Este matem&#225;tico foi medicado, mas o problema era que a medica&#231;&#227;o que eliminava as alucina&#231;&#245;es tamb&#233;m eliminava uma boa parte das suas capacidades matem&#225;ticas e afectava a sua capacidade de trabalho. A certa altura ele desistiu de tomar a medica&#231;&#227;o e decidiu aprender a viver com as suas alucina&#231;&#245;es; conseguiu mesmo encontrar um m&#233;todo para distinguir se eram pessoas reais ou alucina&#231;&#245;es quando elas apareciam: as pessoas das alucina&#231;&#245;es n&#227;o envelheciam. Isto permitiu-lhe n&#227;o ser t&#227;o perturbado por elas e manter as suas capacidades, claro que este &#233; um caso excepcional e que n&#227;o estar&#225; ao alcance da maioria das pessoas, mas ainda assim, serve bem para demonstrar que mais importante do que o sintoma &#233; mesmo a forma como lidamos com ele e a capacidade que temos de o encaixar na nossa vida. </p><p>Se eu acreditar que todas as minhas distra&#231;&#245;es ou todas as minhas tristezas  s&#227;o sinais de PHDA ou de depress&#227;o, isso d&#225;-lhes um peso e uma import&#226;ncia muito maior do que se as aceitar apenas como uma parte da vida e uma manifesta&#231;&#227;o de que n&#227;o estamos sempre iguais e as nossas emo&#231;&#245;es flutuam naturalmente e a nossa aten&#231;&#227;o &#233; bastante influenciada por elas. Da mesma forma se cada vez que o meu alarme disparar eu acreditar que estou perante um problema de ansiedade isso tamb&#233;m s&#243; far&#225; com que o alarme dispare mais ainda e com mais intensidade. Na verdade este &#233; o mecanismo que est&#225; por tr&#225;s dos ataques de p&#226;nico: o alarme dispara por qualquer motivo que a pessoa n&#227;o reconhece e ela come&#231;a a ficar com tanto medo dos sintomas que isso alimenta mais ainda o alarme at&#233; chegar a um pico bastante dif&#237;cil de suportar. E uma das formas de aprender a lidar com isto &#233; justamente n&#227;o entrar em modo de luta com os sintomas. </p><p>E se tudo isto &#233; importante para os adultos &#233; mais importante ainda no que diz respeito &#224;s crian&#231;as que sentem muito mais o peso dos r&#243;tulos que cada vez mais tendemos a colocar-lhes e em quem isso ter&#225; consequ&#234;ncias muito mais dr&#225;sticas. </p><p>Ou&#231;o muitas vezes dos pais repetida a ideia de que quanto mais cedo de se come&#231;ar a intervir melhor. Mas a verdade &#233; que isto nem sempre &#233; verdade e na maior parte dos casos essas interven&#231;&#245;es podem fazer mais mal do que bem. As crian&#231;as n&#227;o se desenvolvem todas ao mesmo tempo, n&#227;o passam todas pelas mesmas fases e hoje h&#225; uma tend&#234;ncia crescente para procurar diagn&#243;sticos quando alguma coisa n&#227;o encaixa nas nossas expectativas. Acontece que muitas coisas passam naturalmente com o tempo, se lhes dermos espa&#231;o para isso e outras precisam apenas que sejam criadas as condi&#231;&#245;es necess&#225;rias para possam acontecer. </p><p>Muitos pais procuram diagn&#243;sticos para sentir que as crian&#231;as, na escola, t&#234;m apoio de que necessitam. Mas h&#225; v&#225;rias coisas a considerar aqui tamb&#233;m: primeiro todas as crian&#231;as com dificuldades deveriam ter o apoio de que precisam para lidar com elas. Segundo nem sempre os apoios atribu&#237;dos s&#227;o aquilo de que a crian&#231;a verdadeiramente precisa: &#224;s vezes as crian&#231;as s&#243; precisam de mais tempo para crescer, de mais tempo para brincar ou de mudar alguma coisa nas din&#226;micas das suas vidas que podem n&#227;o estar a funcionar. E &#233; preciso pensar que cada vez que fazemos um diagn&#243;stico para obter algum tipo de benef&#237;cio, isso tamb&#233;m vai fazer com que a crian&#231;a carregue o peso desse r&#243;tulo para o resto da vida e com que se torne mais f&#225;cil passar a acreditar que &#233; menos capaz por causa dele. </p><p> </p><p></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Incidentes no parque e uma reflexão sobre a forma como lidamos com as crianças ]]></title><description><![CDATA[Este fim de semana tive uma situa&#231;&#227;o que me deixou a pensar em v&#225;rias coisas importantes.]]></description><link>https://laurasanches.substack.com/p/incidentes-no-parque-e-uma-reflexao</link><guid isPermaLink="false">https://laurasanches.substack.com/p/incidentes-no-parque-e-uma-reflexao</guid><dc:creator><![CDATA[laura sanches]]></dc:creator><pubDate>Mon, 13 Jul 2026 10:02:54 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/f02e439d-0fd8-4bde-820f-e422f0f6bf19_400x593.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Este fim de semana tive uma situa&#231;&#227;o que me deixou a pensar em v&#225;rias coisas importantes. Eu estava com os meus filhos e um casal amigo no jardim e est&#225;vamos sentados na esplanada enquanto o meu filho e a filha desse casal brincavam um pouco afastados. A certa altura vieram os dois para o p&#233; de n&#243;s com ar assustado e o meu filho estava j&#225; lavado em l&#225;grimas. Pelo que conseguimos perceber umas meninas (uma delas um ano mais velha do que eles) come&#231;aram a meter-se com os dois e andavam atr&#225;s deles a provoc&#225;-los com aquela tro&#231;a de crian&#231;a que at&#233; podemos achar que n&#227;o tem grande import&#226;ncia, mas que os estava a incomodar a ambos: andavam atr&#225;s deles a cantar &#8220;olha os namorados, primos e casados&#8221;. Entretanto o meu filho tinha uma cana de bambu na m&#227;o e resolveu dar-lhes um chega para l&#225; com a cana, batendo um pouco numa delas com ela - segundo nos contaram os dois, at&#233; acertou mais na amiga, que n&#227;o se magoou, do que nessa menina. Depois disso as meninas foram-se embora, mas voltaram logo a seguir com a m&#227;e atr&#225;s. E foi aqui que a coisa ficou feia porque a senhora resolveu p&#244;r-se a gritar com os dois e a dizer que ia chamar a pol&#237;cia. Foi ent&#227;o que vieram os dois ter connosco assustad&#237;ssimos com a reac&#231;&#227;o descontrolada da senhora que n&#243;s, infelizmente, n&#227;o vimos. Entretanto o meu filho continuou um bom bocado a chorar no meu colo e o meu marido achou importante ir pedir satisfa&#231;&#245;es &#224; senhora. O que n&#227;o serviu de nada, naturalmente, mas sempre teve o efeito importante de mostrar &#224;s crian&#231;as que algu&#233;m as defendia, apesar de tudo. A resposta que a senhora lhe deu foi que chamaria a pol&#237;cia sempre que visse algu&#233;m a bater nas filhas dela e que n&#243;s n&#227;o pod&#237;amos estar sentados na esplanada enquanto os mi&#250;dos brincavam no parque, entre outras coisas desadequadas e descontroladas. </p><p>Mas a verdade &#233; que a coisa deve ter sido t&#227;o feia que, passado um bom bocado, veio uma amiga que estava com ela pedir desculpa ao meu filho e &#224; amiga, dizendo que quando o meu marido l&#225; foi n&#227;o quis falar porque n&#227;o podia desautorizar a sua amiga, mas que eles nunca deveriam ter ouvido aquelas coisas e que eram s&#243; crian&#231;as a brincar e n&#227;o tinham feito mal nenhum. Agrade&#231;o a esta senhora que tenha vindo ter connosco porque, apesar de tudo, acho que foi importante para os dois mi&#250;dos terem ouvido aquilo de outra pessoa que n&#227;o os seus pais e que ainda por cima conhecia a que lhes gritou. E sempre restaurou um pouco o sentimento de que existem pessoas decentes no mundo. </p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://laurasanches.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><h2>Um menino a bater numa menina n&#227;o &#233; um homem a bater numa mulher </h2><p>Mas neste epis&#243;dio triste aquilo que me fez ficar a pensar foram duas coisas importantes: a primeira &#233; que n&#227;o consigo n&#227;o acreditar que se tivesse sido a amiga e n&#227;o o meu filho a pegar na tal cana de bambu a senhora talvez tivesse tido uma atitude ligeiramente diferente. Porque infelizmente vejo um clima crescente de intoler&#226;ncia para com a agressividade dos rapazes e j&#225; vi a infeliz associa&#231;&#227;o de que um rapaz a bater numa rapariga pode ser um pren&#250;ncio para a viol&#234;ncia dom&#233;stica. Vi recentemente a publica&#231;&#227;o de uma <em>influencer</em>, m&#227;e de dois rapazes, que dizia j&#225; lhes ter ensinado que sempre que vissem um menino a bater numa menina n&#227;o podiam ficar quietos. E isto parece-me grave. N&#227;o &#233; justo pormos esse peso nos rapazes, nem faz&#234;-los sentir que h&#225; qualquer coisa de profundamente errado consigo e com os seus impulsos. </p><p>Primeiro &#233; preciso dizer claramente que um menino a bater numa menina n&#227;o &#233; um homem a bater numa mulher. Na inf&#226;ncia n&#227;o existe uma diferen&#231;a f&#237;sica t&#227;o grande entre rapazes e raparigas. &#201; s&#243; com as hormonas da puberdade que essas diferen&#231;as se instalam e que os rapazes ficam maioritariamente mais fortes e maiores do que as raparigas. Na inf&#226;ncia ainda n&#227;o existem grandes diferen&#231;as de for&#231;a, nem de altura, nem de rapidez e &#233; f&#225;cil at&#233; encontrar raparigas que se destacam dos rapazes da mesma idade nestes aspetos.  </p><p>Mas depois h&#225; o lado emocional que &#233; o mais importante na verdade e um rapaz que bate numa menina n&#227;o &#233; um agressor em pot&#234;ncia porque &#233; apenas uma crian&#231;a que ainda n&#227;o tem maturidade para fazer diferente. J&#225; expliquei <a href="/__u/open.substack.com/pub/laurasanches/p/criancas-que-batem?r=1lqruj&amp;utm_campaign=post-expanded-share&amp;utm_medium=web">aqui </a>aquilo que leva uma crian&#231;a a bater e porque &#233; que isto &#233; t&#227;o diferente de um adulto ou mesmo de um adolescente que bate. Porque uma crian&#231;a ainda n&#227;o tem maturidade para fazer melhor, principalmente nos momentos de crise. Os adultos por vezes tamb&#233;m n&#227;o t&#234;m, mas isso significa que algo correu mal no seu desenvolvimento e numa crian&#231;a &#233; apenas aquilo que &#233; esperado e natural. Claro que isto n&#227;o significa que n&#227;o devamos intervir sempre que necess&#225;rio, impedi-las de bater se pudermos e claro que tamb&#233;m &#233; importante falar das coisas e transmitir-lhes a nossa vis&#227;o do mundo e os nossos valores. E pode ser importante tamb&#233;m falar sobre algumas situa&#231;&#245;es e sobre aquilo que poderiam ter feito diferente. Mas &#233; preciso que saibamos que, primeiro n&#227;o &#233; nos momentos de crise em que todos est&#227;o exaltados que estas mensagens passam melhor, segundo n&#227;o &#233; por saberem melhor que as crian&#231;as v&#227;o conseguir sempre fazer melhor. </p><div class="digest-post-embed" data-attrs="{&quot;nodeId&quot;:&quot;35cfb87d-85bc-46c5-b14e-0dcab7584465&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;Uma das quest&#245;es que mais me surge em consulta &#233; o sobre como lidar com o facto das crian&#231;as baterem nos pais ou noutras pessoas.&quot;,&quot;cta&quot;:null,&quot;showBylines&quot;:true,&quot;showDescription&quot;:true,&quot;showImage&quot;:true,&quot;size&quot;:&quot;md&quot;,&quot;isEditorNode&quot;:true,&quot;title&quot;:&quot;Crian&#231;as que batem&quot;,&quot;publishedBylines&quot;:[{&quot;id&quot;:96987259,&quot;name&quot;:&quot;laura sanches&quot;,&quot;bio&quot;:null,&quot;photo_url&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/4ad1453f-b8c2-4ca2-bf42-1d39f76a7d53_1080x1080.jpeg&quot;,&quot;is_guest&quot;:false,&quot;bestseller_tier&quot;:null}],&quot;post_date&quot;:&quot;2026-02-02T19:13:50.626Z&quot;,&quot;cover_image&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!hoLw!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3b16ec88-d255-4f75-8371-7882c2018c8b_1080x1080.png&quot;,&quot;cover_image_alt&quot;:null,&quot;canonical_url&quot;:&quot;https://laurasanches.substack.com/p/criancas-que-batem&quot;,&quot;section_name&quot;:null,&quot;video_upload_id&quot;:null,&quot;id&quot;:186650842,&quot;type&quot;:&quot;newsletter&quot;,&quot;reaction_count&quot;:4,&quot;comment_count&quot;:0,&quot;publication_id&quot;:4793750,&quot;publication_name&quot;:&quot;laura sanches&quot;,&quot;publication_logo_url&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!qXqD!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4ad1453f-b8c2-4ca2-bf42-1d39f76a7d53_1080x1080.jpeg&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;youtube_url&quot;:null,&quot;show_links&quot;:null,&quot;feed_url&quot;:null}"></div><h1>Agressividade nem sempre &#233; viol&#234;ncia</h1><p>Depois tamb&#233;m reparo que h&#225; muita confus&#227;o hoje em dia sobre aquilo que &#233; a agressividade e aquilo que &#233; a viol&#234;ncia e s&#227;o coisas diferentes. As crian&#231;as s&#227;o naturalmente agressivas, sim. E essa agressividade precisa de sair, da&#237; que &#233; importante dar-lhes espa&#231;o tamb&#233;m para a libertarem na brincadeira. E aquilo que acontece &#233; que a agressividade dos rapazes tipicamente &#233; mais expressa de forma f&#237;sica e as raparigas t&#234;m uma agressividade mais verbal. </p><p>Os rapazes entram mais em lutas e as raparigas t&#234;m mais comportamentos de tentar isolar aquelas de quem n&#227;o gostam, de tentarem voltar umas contra as outras e de dizerem coisas m&#225;s. Mas, apesar de tudo &#233; importante distinguirmos esta agressividade natural daquilo que &#233; verdadeiramente a viol&#234;ncia. Viol&#234;ncia implica que exista uma vontade de ferir e prejudicar verdadeiramente o outro, a agressividade vem dos impulsos e do instinto e existe naturalmente em todas as crian&#231;as, n&#227;o precisa de ser aprendida, enquanto que a viol&#234;ncia &#233; algo mais pensado e implica alguma aprendizagem. Pode surgir tamb&#233;m numa primeira fase de um impulso agressivo, mas nem todos os impulsos agressivos se transformam em viol&#234;ncia. Um rapaz que bate noutra crian&#231;a que o estava a irritar ou a deixar frustrado por algum motivo, estava apenas a fazer uma descarga agressiva. Um rapaz que bate deliberadamente para humilhar, para tro&#231;ar, para se mostrar mais forte ou para dominar de alguma forma, est&#225; a exercer viol&#234;ncia. Mas essa viol&#234;ncia tamb&#233;m pode ser exercida sem agressividade f&#237;sica, uma rapariga que repetidamente tente fazer com que outra seja isolada, gozada, humilhada pelos restantes colegas, est&#225; a exercer uma forma de viol&#234;ncia tamb&#233;m e pode nunca levantar um dedo. Uma rapariga que diga simplesmente a outra, num momento de frustra&#231;&#227;o, que j&#225; n&#227;o gosta dela ou at&#233; que ela &#233; parva, pode estar s&#243; a fazer essa descarga impulsiva e a ser agressiva sem ser necessariamente violenta. </p><p>A viol&#234;ncia implica que exista j&#225; uma certa capacidade de nos pormos no lugar do outro e de sabermos que ele vai sofrer com o nosso comportamento o que, uma boa parte das vezes, com as crian&#231;as n&#227;o existe ainda, ou existe de forma t&#227;o rudimentar que n&#227;o &#233; poss&#237;vel us&#225;-la nos momentos de crise. </p><p>Tamb&#233;m &#233; importante percebermos que uma crian&#231;a agressiva n&#227;o &#233; necessariamente um adulto violento, nem sequer um adolescente, porque &#233; suposto que o amadurecimento lhes traga a capacidade de controlar os seus impulsos. &#201; certo que existem pessoas mais reativas e tamb&#233;m mais agressivas, mas isso tamb&#233;m n&#227;o significa que sejam violentas, desde que tenham amadurecido bem essa capacidade de controlar os impulsos de que tamb&#233;m j&#225; falei <a href="/__u/open.substack.com/pub/laurasanches/p/quando-sao-os-adultos-que-se-descontrolam?r=1lqruj&amp;utm_campaign=post-expanded-share&amp;utm_medium=web">aqui</a>.</p><div class="digest-post-embed" data-attrs="{&quot;nodeId&quot;:&quot;d729af6c-4079-4187-b231-0340204a070e&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;No &#250;ltimo texto falei do que acontece quando as crian&#231;as ficam frustradas e batem nos pais ou outras pessoas. Mas tamb&#233;m recebo em consulta muitas m&#227;es e pais que se sentem culpados e at&#233; envergonhados pela forma como lidam com os filhos nesses momentos.&quot;,&quot;cta&quot;:null,&quot;showBylines&quot;:true,&quot;showDescription&quot;:true,&quot;showImage&quot;:true,&quot;size&quot;:&quot;lg&quot;,&quot;isEditorNode&quot;:true,&quot;title&quot;:&quot;Quando s&#227;o os adultos que se descontrolam &quot;,&quot;publishedBylines&quot;:[{&quot;id&quot;:96987259,&quot;name&quot;:&quot;laura sanches&quot;,&quot;bio&quot;:null,&quot;photo_url&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/4ad1453f-b8c2-4ca2-bf42-1d39f76a7d53_1080x1080.jpeg&quot;,&quot;is_guest&quot;:false,&quot;bestseller_tier&quot;:null}],&quot;post_date&quot;:&quot;2026-02-18T17:00:18.245Z&quot;,&quot;cover_image&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!9TIz!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F13169f72-2599-434f-8aad-90eeaf5f9867_1024x1024.png&quot;,&quot;cover_image_alt&quot;:null,&quot;canonical_url&quot;:&quot;https://laurasanches.substack.com/p/quando-sao-os-adultos-que-se-descontrolam&quot;,&quot;section_name&quot;:null,&quot;video_upload_id&quot;:null,&quot;id&quot;:187068911,&quot;type&quot;:&quot;newsletter&quot;,&quot;reaction_count&quot;:2,&quot;comment_count&quot;:0,&quot;publication_id&quot;:4793750,&quot;publication_name&quot;:&quot;laura sanches&quot;,&quot;publication_logo_url&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!qXqD!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4ad1453f-b8c2-4ca2-bf42-1d39f76a7d53_1080x1080.jpeg&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;youtube_url&quot;:null,&quot;show_links&quot;:null,&quot;feed_url&quot;:null}"></div><p>Na verdade at&#233; podemos encarar a agressividade como uma coisa positiva quando ela &#233; usada para nos fazer lutar ou defender os nossos interesses, um jogador de qualquer desporto de competi&#231;&#227;o, por exemplo, precisa de uma boa dose de agressividade para ter sucesso, ou at&#233; mesmo algu&#233;m que quer vencer nos neg&#243;cios. </p><h1>Adultos que intimidam crian&#231;as </h1><p>Outro aspecto que tamb&#233;m me parece importante referir &#233; esta quest&#227;o dos adultos hoje em dia parecerem sentir-se cada vez mais no direito de dar descomposturas a crian&#231;as que n&#227;o s&#227;o suas. &#201; certo que sempre existiram pessoas desiquilibradas, e at&#233; me lembro que h&#225; muitos anos uma m&#227;e estrangeira me disse que em Portugal lhe parecia que as pessoas achavam que as crian&#231;as eram propriedade p&#250;blica porque se sentiam sempre no direito de falar com elas e de dar palpites. E na verdade, acho que isto at&#233; se tem vindo a perder um pouco e era uma caracter&#237;stica nossa que sempre me pareceu positiva mesmo que se tornasse inconveniente por vezes. Mas era sinal de que ainda existiam alguns resqu&#237;cios de uma certa no&#231;&#227;o de comunidade que hoje em dia j&#225; me parece quase completamente perdida, pelo menos em Lisboa, onde vivo. Mas neste momento observo um certo paradoxo, que parece contradit&#243;rio mas que provavelmente &#233; efeito desta polariza&#231;&#227;o que acontece de forma cada vez mais vincada a tantos n&#237;veis: se por um lado parece que se perdeu essa coisa de todas as pessoas, principalmente as mais velhas, se sentirem no direito de falar e at&#233; de tocar nas crian&#231;as na rua, ao mesmo tempo vejo cada vez mais adultos que se sentem no direito de ralhar e dar raspanetes &#224;s crian&#231;as de outros. </p><p>A escola onde os meus filhos andaram sempre teve a pol&#237;tica de deixar entrar os pais, sem qualquer tipo de restri&#231;&#227;o. E isso sempre funcionou lindamente. No per&#237;odo de adapta&#231;&#227;o os pais podiam estar nas salas o tempo que sentissem necess&#225;rio e isso ia funcionando e no final do dia era comum ver pais no recreio a conversar enquanto as crian&#231;as brincavam. Mesmo quando o meu filho mais novo ainda n&#227;o estava inscrito brincava muito no recreio quando &#237;amos buscar o irm&#227;o, enquanto eu encontrava sempre l&#225; mais algum pai ou m&#227;e para conversar. E tudo funcionava at&#233; que recentemente come&#231;aram a existir cada vez mais problemas, com pais que se sentem no direito de chegar ao recreio e intervir nos conflitos naturais das crian&#231;as dando serm&#245;es ou raspanetes &#224;s crian&#231;as. E infelizmente tamb&#233;m me chegam cada vez mais casos destes nas consultas, algo que tamb&#233;m n&#227;o era comum h&#225; uns anos atr&#225;s. E &#233; preciso dizer que isto n&#227;o &#233; adequado, mesmo nada adequado. </p><p>Aquilo que nos permite influenciar o comportamento de uma crian&#231;a &#233; a rela&#231;&#227;o que temos com ela, &#233; a partir desta que podemos transmitir valores ou ensinar aquilo que nos parece adequado em cada momento. &#201; a partir da rela&#231;&#227;o que temos algum poder para chegar &#224; crian&#231;a e para nos fazermos ouvir ou seguir quando &#233; necess&#225;rio. Se essa rela&#231;&#227;o n&#227;o existe ent&#227;o s&#243; sobra a for&#231;a bruta e a&#237; aquilo que temos &#233; uma pessoa maior a tentar intimidar pelo medo uma pessoa mais pequena, como fez esta senhora com o meu filho e a amiga. E isso n&#227;o &#233; correcto nem passa a mensagem adequada: a mensagem que isto transmite &#233; a de que quando somos mais fortes podemos intimidar os outros. E o resultado, como aconteceu neste caso, s&#227;o apenas crian&#231;as assustadas quando ainda t&#234;m a capacidade de se assustar; porque quando isto acontece excessivamente as crian&#231;as tamb&#233;m aprendem a defender-se desligando e a&#237; &#233; quando os problemas maiores podem come&#231;ar. Mas quando uma crian&#231;a se assusta ela n&#227;o est&#225; em grandes condi&#231;&#245;es para perceber o que quer que seja que lhe queiramos transmitir, est&#225; apenas em modo de alerta a tentar encontrar forma de se defender e essa n&#227;o &#233; a melhor maneira de transmitir nenhum tipo de ensinamento. </p><p>Na verdade um adulto que faz isto a uma crian&#231;a est&#225; tamb&#233;m a ser bastante imaturo e at&#233; a ter um comportamento que pode ser considerado de bullying porque &#233; uma tentativa de intimida&#231;&#227;o. E isto sim, &#233; violento. </p><p>Parece que os adultos de hoje t&#234;m cada vez mais dificuldade de lidar com os conflitos e a agressividade natural das crian&#231;as. Quando sentimos que alguma coisa magoou os nossos filhos na intera&#231;&#227;o com os outros o nosso papel &#233; o de sermos o colo onde ele pode chorar e o escudo que o protege dessas feridas fazendo com que a nossa rela&#231;&#227;o com ele seja mais importante do que a que existe com os pares. &#201; isto que faz a diferen&#231;a e quando nos sentimos seguros de que este &#233; o nosso papel, sabemos que n&#227;o precisamos de interferir directamente nos conflitos para lhes dar seguran&#231;a. </p><p>Parece-me que os adultos de hoje est&#227;o cada vez mais inseguros e confusos em rela&#231;&#227;o ao seu verdadeiro papel na educa&#231;&#227;o das crian&#231;as e talvez por isso tenham cada vez mais comportamentos desadequados e imaturos como esta senhora teve. </p><p>Outro aspecto desta situa&#231;&#227;o tamb&#233;m foi o facto dela nos ter criticado enquanto pais, quando o meu marido foi falar com ela, porque est&#225;vamos sentados na esplanada enquanto os mi&#250;dos brincavam a uns metros de dist&#226;ncia. Mas sobre esta cultura do medo em que vivemos hoje em dia e sobre esta incapacidade de darmos alguma liberdade &#224;s crian&#231;as, ao mesmo tempo que as deixamos vaguear livremente no mundo infinitamente mais perigoso dos ecr&#227;s, j&#225; falei bastante no meu &#250;ltimo livro: Educar com Culpa, por isso n&#227;o vou explorar aqui. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!9ReJ!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffd5ebbf5-8d07-42a3-bbd3-8beb154fac19_250x370.webp" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!9ReJ!, /__u/laurasanches.substack.com/w_424, /__u/laurasanches.substack.com/c_limit, /__u/laurasanches.substack.com/f_webp, /__u/laurasanches.substack.com/q_auto:good, 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Culpa&quot;,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:null,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="Capa do artigo Educar com Culpa" title="Capa do artigo Educar com Culpa" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!9ReJ!, /__u/laurasanches.substack.com/w_424, /__u/laurasanches.substack.com/c_limit, /__u/laurasanches.substack.com/f_auto, /__u/laurasanches.substack.com/q_auto:good, /__u/laurasanches.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffd5ebbf5-8d07-42a3-bbd3-8beb154fac19_250x370.webp 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!9ReJ!, /__u/laurasanches.substack.com/w_848, /__u/laurasanches.substack.com/c_limit, /__u/laurasanches.substack.com/f_auto, /__u/laurasanches.substack.com/q_auto:good, 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class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" 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o deixando afastar-se nunca de mim. </p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://laurasanches.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! 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E por isso tamb&#233;m se t&#234;m multiplicado as publica&#231;&#245;es sobre isto nas redes e pediram-me que desse tamb&#233;m a minha opini&#227;o sobre o tema. </p><p>Ent&#227;o vou esclarecer alguns pontos que a mim me parecem importantes. Primeiro &#233; preciso lembrar que aquilo que protege as crian&#231;as &#233; sempre a rela&#231;&#227;o. As crian&#231;as s&#243; deveriam ficar aos cuidados de pessoas com quem j&#225; tenham tido possibilidade de estabelecer uma rela&#231;&#227;o e todas as rela&#231;&#245;es que precisem de ser criadas t&#234;m de o ser a partir das suas rela&#231;&#245;es prim&#225;rias para que essa liga&#231;&#227;o se d&#234;. E este &#233; um dos problemas das escolas que nem sempre permitem que isso aconte&#231;a quando vedam a entrada aos pais e n&#227;o &#233; com c&#226;maras de seguran&#231;a que ser&#225; resolvido. Mas j&#225; falei bastante sobre isso noutras alturas. </p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://laurasanches.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Mas, a verdade &#233; que aquilo que se sabe sobre abusos nos mostra que uma boa parte deles acontece precisamente em rela&#231;&#245;es que supostamente seriam de confian&#231;a. E a verdade tamb&#233;m &#233; que, nestes casos, infelizmente, tamb&#233;m n&#227;o &#233; a informa&#231;&#227;o que protege a crian&#231;a. Numa crian&#231;a pequena n&#227;o chega saber melhor para fazer melhor, n&#227;o &#233; pelo facto delas serem capazes de identificar comportamentos desadequados que ter&#227;o a capacidade de os impedir, infelizmente. Um dos grandes problemas deste tipo de abusos &#233; justamente o facto de partirem de adultos com uma grande capacidade de manipula&#231;&#227;o e de chegarem at&#233; &#224;s crian&#231;as. </p><p>Mas mesmo nestes casos o factor protetor mais importante continua a ser a rela&#231;&#227;o, a rela&#231;&#227;o com outros adultos presentes e dispon&#237;veis que ser&#227;o capazes de identificar nas crian&#231;as as altera&#231;&#245;es de comportamento que costumam acontecer nestes casos. Al&#233;m de que, uma crian&#231;a com rela&#231;&#245;es de confian&#231;a com pessoas com quem se sente segura tamb&#233;m ser&#225; menos manipul&#225;vel. As crian&#231;as que t&#234;m rela&#231;&#245;es seguras como base aprendem a criar rela&#231;&#245;es a partir dessas, por isso &#233; que a presen&#231;a dos pais nas escolas &#233; essencial no per&#237;odo de adapta&#231;&#227;o, para ajudar a fazer essa transfer&#234;ncia do apego. Al&#233;m disso uma crian&#231;a que est&#225; habituada a ser tratada com respeito tamb&#233;m distingue mais facilmente quando uma rela&#231;&#227;o sai desses padr&#245;es e est&#225; mais capaz de entrar em contacto com o desconforto que isto lhe pode provocar. </p><p>Por outro lado uma crian&#231;a que tenha as suas necessidades preenchidas por adultos de confian&#231;a tamb&#233;m pode ser uma presa um pouco menos f&#225;cil porque n&#227;o estar&#225; t&#227;o necessitada da aten&#231;&#227;o de outros adultos.  </p><p>Por outro lado, mesmo que tudo isto falhe (e infelizmente isso pode acontecer), uma crian&#231;a que tem boas liga&#231;&#245;es com adultos tamb&#233;m ter&#225; muito mais dificuldade em guardar segredos deles, porque sente que isso cria uma dist&#226;ncia na rela&#231;&#227;o e sente que isso n&#227;o &#233; positivo. Isto no caso das crian&#231;as mais crescidas, porque nas mais pequenas ainda n&#227;o h&#225; esta consci&#234;ncia. Antes dos seis anos de idade, regra geral, as crian&#231;as n&#227;o t&#234;m muita consci&#234;ncia do que realmente significa guardar um segredo. Mas, a partir dessa idade, quando t&#234;m rela&#231;&#245;es seguras, j&#225; percebem que os segredos prejudicam muito o sentimento de intimidade e perten&#231;a, por isso j&#225; ter&#227;o dificuldade em guard&#225;-los. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!oQRk!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fda9dd8e5-2553-4112-b071-ac96bb2171ee_1080x1080.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!oQRk!, /__u/laurasanches.substack.com/w_424, /__u/laurasanches.substack.com/c_limit, /__u/laurasanches.substack.com/f_webp, /__u/laurasanches.substack.com/q_auto:good, 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estiverem atentos e dispon&#237;veis. Alguns desses sinais podem vir na forma de altera&#231;&#245;es do comportamento, altera&#231;&#245;es de humor ou de sono ou podem mesmo aparecer na brincadeira. Na verdade &#233; muito prov&#225;vel que as crian&#231;as reproduzam na brincadeira aquilo que precisam de processar na vida real, aquilo que as incomoda ou que est&#227;o a ter dificuldade em assimilar, quando esse espa&#231;o lhes &#233; dado. E uma crian&#231;a com boas rela&#231;&#245;es tamb&#233;m faz isto mais facilmente e tamb&#233;m ter&#225; adultos que estar&#227;o provavelmente mais atentos &#224;s suas brincadeiras. </p><h1><strong>Qual o papel de uma rela&#231;&#227;o segura na vida de uma crian&#231;a?</strong> </h1><p>Numa rela&#231;&#227;o segura as crian&#231;as aprendem que podem expressar as suas emo&#231;&#245;es, incluindo aquelas que as incomodam, mesmo que n&#227;o o fa&#231;am por palavras. Aprendem que as podem expressar na brincadeira e at&#233; nos momentos de frustra&#231;&#227;o. E, numa rela&#231;&#227;o segura, os adultos est&#227;o presentes e dispon&#237;veis para ajudar a crian&#231;a a processar o que pode estar a sentir e para a ajudar a fazer sentido das suas experiencias. </p><p>Uma rela&#231;&#227;o segura &#233; o que permite &#224; crian&#231;a desenvolver-se e amadurecer. </p><p>Numa rela&#231;&#227;o segura os adultos tamb&#233;m confiam no tempo para que o amadurecimento da crian&#231;a se d&#234;, sem tentarem apress&#225;-lo. E &#233; aqui que entra o problema do excesso de informa&#231;&#227;o que temos hoje em dia. Temos tend&#234;ncia para acreditar que podemos apressar esse amadurecimento ensinando a crian&#231;a a crescer, explicando as coisas e debitando informa&#231;&#227;o. Mas isto n&#227;o &#233; verdade. O amadurecimento n&#227;o se ensina, ele precisa das condi&#231;&#245;es certas para acontecer. </p><p>Uma das regras b&#225;sicas quando falamos com as crian&#231;as de temas que exigem alguma maturidade para serem compreendidos &#233; n&#227;o lhes darmos mais informa&#231;&#227;o do que aquela que elas est&#227;o preparadas para assimilar. Isto faz-se mais respondendo &#224;s perguntas delas de forma objectiva, sem nos adiantarmos a responder ao que elas n&#227;o perguntaram. </p><p>Por isso &#233; que n&#227;o acredito que os livros sejam a melhor forma de tratarmos destes temas com as crian&#231;as. Um livro &#233; algo pr&#233;-preparado, que n&#227;o nos permite t&#227;o facilmente adaptar a conversa &#224; crian&#231;a que temos &#224; frente. E que n&#227;o nos faz apenas responder &#224;s suas perguntas, nos leva facilmente a adiantar informa&#231;&#227;o que ela ainda n&#227;o pediu para receber. </p><p>Sei que existem estudos que mostram que falar destas coisas com as crian&#231;as pode ter um papel preventivo, mas a verdade &#233; que esses estudos podem n&#227;o estar a medir a coisa certa. Primeiro porque n&#227;o podemos fazer estudos verdadeiramente experimentais, j&#225; que como &#233; &#243;bvio, n&#227;o vamos sujeitar crian&#231;as a estas possibilidades apenas como experi&#234;ncia. Segundo porque temos tend&#234;ncia a acreditar que a linguagem tem um factor protector e que o simples facto de as crian&#231;as terem adquirido mais vocabul&#225;rio sobre este tema significa que tamb&#233;m ser&#227;o mais capazes de falar sobre ele quando for necess&#225;rio e isto pode n&#227;o ser verdade. </p><h1><strong>E porque &#233; que a maturidade &#233; importante para estes temas? </strong></h1><p>Porque a maturidade nos permite p&#244;r as coisas no contexto necess&#225;rio para que elas possam ser assimiladas de forma que fa&#231;a verdadeiramente sentido. Quando falamos de sexualidade ela n&#227;o pode ser desligada das emo&#231;&#245;es e das rela&#231;&#245;es, porque &#233; esse o contexto necess&#225;rio para a assimilarmos. Ainda h&#225; dias ouvi uma entrevista de um autor cujo trabalho &#233; uma grande refer&#234;ncia para mim, o Iain McGilchrist, neurocientista, psiquiatra e fil&#243;sofo, afirmar que hoje em dia temos tend&#234;ncia para falar deste tema (e de outros) como se estiv&#233;ssemos a dar instru&#231;&#245;es para montar uma m&#225;quina de lavar: ficamos focados apenas nas partes e esquecemos que o todo &#233; maior do que a sua soma. O todo neste caso s&#227;o as rela&#231;&#245;es, n&#227;o adianta muito falar de sexualidade apenas de um ponto de vista mec&#226;nico com as crian&#231;as, porque n&#227;o &#233; disso que elas precisam para conseguirem integr&#225;-la nas suas vidas de forma verdadeiramente adequada. Claro que, a partir de uma certa idade, faz algum sentido abordar determinados temas do ponto de vista da biologia e &#233; &#243;bvio que estes factos podem e devem fazer parte do programa de algumas disciplinas. Mas &#233; importante lembrar que a sexualidade &#233; muito mais do que isso. N&#227;o s&#227;o os factos cient&#237;ficos ou descritivos que v&#227;o fazer verdadeiramente a diferen&#231;a na vida das crian&#231;as e mesmo dos adolescentes, apesar de parecermos cada vez mais convencidos do contr&#225;rio. A verdade &#233; que estes factos nunca estiveram t&#227;o acess&#237;veis. Mas eles precisam de ser compreendidos com todas as nuances emocionais que fazem parte do contexto, porque &#233; isso que faz toda a diferen&#231;a. Mas tamb&#233;m &#233; isso que exige maturidade. <br><strong>Para que fique bem claro: n&#227;o digo que a informa&#231;&#227;o n&#227;o faz falta, o que digo &#233; que ela tem de ser contextualizada e dada &#224; medida da maturidade de cada crian&#231;a. E tamb&#233;m acho importante referir que neste texto estou a falar sobretudo de crian&#231;as, n&#227;o de adolescentes, embora algumas coisas ainda se apliquem tamb&#233;m a estes. </strong></p><p>Por isso tamb&#233;m n&#227;o acho que a escola se deva substituir aos pais neste papel, principalmente quando falamos de crian&#231;as. Se &#233; verdade que algumas fam&#237;lias podem ter mais dificuldade em tocar neste temas a verdade tamb&#233;m &#233; que n&#227;o acredito que substituir o papel dos pais pela escola v&#225; verdadeiramente resolver esse problema, principalmente nos moldes em que ela hoje funciona. </p><h1>Falar de consentimento &#233; importante ? </h1><p>Ainda h&#225; dias algu&#233;m me pediu opini&#227;o sobre ensinar as crian&#231;as o que &#233; consentimento atrav&#233;s de m&#250;sicas. E aquilo que tenho a dizer sobre isto &#233; que, mais uma vez, tamb&#233;m n&#227;o acredito que isto seja algo que se ensine, ou melhor, acredito que &#233; algo que vai sendo ensinado de forma natural e que faz parte da rela&#231;&#227;o, sem que precise de ser propriamente enfatizado. </p><p>Por volta dos dois anos as crian&#231;as come&#231;am naturalmente a sentir-se muito donas do seu pr&#243;prio corpo, n&#227;o &#233; por acaso que pode ser t&#227;o dif&#237;cil mudar fraldas nesta idade, por exemplo. Ent&#227;o n&#227;o precisamos de ensinar a uma crian&#231;a aquilo que ela naturalmente j&#225; sente e que faz parte do seu desenvolvimento. E tamb&#233;m n&#227;o acredito que se ensina consentimento pedindo autoriza&#231;&#227;o para tudo &#224; crian&#231;a. Aquilo que as crian&#231;as precisam de aprender mesmo &#233; a confiar nos adultos, para se deixarem cuidar. E cuidar, por vezes, tamb&#233;m implica fazer algumas coisas ao corpo delas, como limpar o coc&#243;, claro, se sabemos que v&#227;o ficar com o rabo assado caso n&#227;o deixem. Por vezes as crian&#231;as tamb&#233;m t&#234;m que ir ao m&#233;dico e tamb&#233;m tem que lhes ser feitas coisas que elas n&#227;o compreendem, n&#227;o gostam e que preferiam n&#227;o fazer. O nosso papel aqui, se sentimos que essas coisas s&#227;o importantes e necess&#225;rias, n&#227;o &#233; pedir-lhes consentimento quando elas n&#227;o t&#234;m ainda no&#231;&#227;o daquilo que implica n&#227;o fazer essas coisas. O consentimento n&#227;o pode ser dado quando n&#227;o h&#225; uma consci&#234;ncia verdadeira dos riscos. O nosso papel &#233; fazer com que confiem em n&#243;s, &#233; criar as condi&#231;&#245;es para que se deixem guiar, mesmo que isso em alguns momentos implique ir contra a vontade delas. E tamb&#233;m pode ser o de fazer algum tipo de repara&#231;&#227;o e de oferecer conforto quando percebemos que para a crian&#231;a foi mesmo dif&#237;cil lidar com aquilo, claro. &#201; importante mostrar que percebemos o seu desconforto, que ele &#233; natural e que ela tem todo o direito de ficar frustrada, mas que, ainda assim, h&#225; coisas que os adultos sabem melhor. </p><p>N&#227;o me parece que haja nada de positivo em ensinar as crian&#231;as a desconfiar dos adultos. N&#227;o podemos achar que temos de lhes dar as ferramentas para elas se defenderem apenas porque n&#227;o nos sentimos capazes de assumir esse papel. Nem me parece positivo ensinar que devem desconfiar de uma boa parte das pessoas. Isso s&#243; faz com que vivam num modo de alerta que n&#227;o lhes permite amadurecer de verdade. E n&#227;o faz sentido refor&#231;ar nas crian&#231;as aquilo que &#233; natural numa crian&#231;a de dois ou tr&#234;s anos, mas que &#233; suposto que se v&#225; atenuando com a idade. </p><p>A verdade &#233; que uma crian&#231;a saud&#225;vel e com boas rela&#231;&#245;es estabelecidas tem sempre um grau de desconfian&#231;a natural em rela&#231;&#227;o &#224;s pessoas com quem ainda n&#227;o estabeleceu essas liga&#231;&#245;es. E &#233; isso que &#233; importante reconhecer e valorizar. N&#227;o precisamos de ensinar as crian&#231;as a desconfiar, s&#243; precisamos de as ajudar a sentir que podem ser fieis aos seus instintos. E isto faz-se se lidarmos com naturalidade com elas nessas situa&#231;&#245;es. </p><p>N&#227;o precisamos de as ensinar que ningu&#233;m pode tocar no corpo delas. Primeiro porque isso n&#227;o &#233; verdade, h&#225; situa&#231;&#245;es em que os adultos precisam mesmo de o fazer. Segundo porque essa &#233; a sua tend&#234;ncia natural. As crian&#231;as n&#227;o gostam muito de ser tocadas por pessoas a quem n&#227;o est&#227;o ligadas. Nas mais t&#237;midas isto &#233; mais intenso, mas todas o sentem em maior ou menor medida. Por isso s&#243; temos de lidar com isto com naturalidade. </p><p><br>&#201; a maturidade que vai permitir &#224; crian&#231;a decidir em que situa&#231;&#245;es pode ser importante passar por cima desses instintos ou n&#227;o. Porque a verdade, &#233; que viver em sociedade, por vezes tamb&#233;m implica que fa&#231;amos certas coisas que nem sempre nos apetecem fazer em nome de certas conven&#231;&#245;es sociais. Mas esse amadurecimento precisa de tempo, n&#227;o de ensinamentos. </p><p>Sobre a quest&#227;o de ensinar que existem partes privadas, tamb&#233;m me parece que isso &#233; algo que se vai fazendo naturalmente em todas as fam&#237;lias. As crian&#231;as passam por fases em que gostam de andar nuas e naturalmente, na maior parte das fam&#237;lias, v&#227;o aprendendo que precisam de andar vestidas quando est&#227;o em p&#250;blico pelo menos, precisamente porque existe essa ideia das partes privadas. E tamb&#233;m &#233; natural que as crian&#231;as passem por fases em que t&#234;m curiosidade de conhecer e at&#233; mexer nas partes privadas dos pais, irm&#227;os ou de outras crian&#231;as e naturalmente, tamb&#233;m vamos explicando que n&#227;o &#233; suposto fazermos isso. <strong>Mas se passamos a vida a falar do assunto ou se at&#233; inventamos m&#250;sicas para estar constantemente a repetir estes ensinamentos, arriscamos a que aconte&#231;a justamente o contr&#225;rio: fazemos com que aquilo que deveria ser apenas uma aprendizagem natural, se torne um tema t&#227;o presente e t&#227;o intenso que acabamos por ativar a contra-vontade da crian&#231;a.</strong> Um instinto que a leva justamente a ter vontade de fazer o oposto daquilo que se sente pressionada a fazer. Este instinto fica ainda mais forte se esta press&#227;o vem de algu&#233;m com quem a crian&#231;a n&#227;o tem uma liga&#231;&#227;o ativa naquele momento. E de repente se os adultos est&#227;o sempre a falar daquilo e &#233; um tema que est&#225; sempre presente corremos at&#233; o risco de estar a alimentar uma poss&#237;vel obsess&#227;o com o tema.  </p><h1>Ainda sobre o consentimento - Devemos ou n&#227;o for&#231;ar a dar beijinhos? </h1><p>J&#225; falei sobre isto noutros textos aqui, nomeadamente aquilo em que explico a timidez, mas mais uma vez acho que quando falamos disto como sendo uma aprendizagem sobre o consentimento estamos a misturar temas. Acho que n&#227;o faz sentido for&#231;ar uma crian&#231;a a dar beijinhos ou mesmo a cumprimentar quando ela n&#227;o se sente preparada para o fazer, mas n&#227;o &#233; porque isso conduzir&#225; a poss&#237;veis abusos. Acho que n&#227;o faz sentido fazer isto porque estamos a passar por cima do instinto da crian&#231;a e a dizer-lhe que ela n&#227;o deve prestar-lhe muita aten&#231;&#227;o, o que faz com que a crian&#231;a sinta que h&#225; algo de errado com esse instinto, logo consigo mesma e tamb&#233;m com que precise de desligar-se das suas emo&#231;&#245;es e sensa&#231;&#245;es para poder passar por cima do instinto o que, a longo prazo, n&#227;o &#233; positivo. </p><p><a href="/__u/laurasanches.substack.com/p/timidez-nao-e-vergonha">Ler mais aqui - timidez n&#227;o &#233; vergonha</a></p><p>A verdade &#233; que as not&#237;cias e as redes sociais fazem com que nos pare&#231;a que o abuso de crian&#231;as &#233; mais frequente do que aquilo que ele na realidade &#233;. Por cada adulto abusador que possa existir no mundo, existem muitos mais que s&#227;o dignos de confian&#231;a. E n&#227;o acho que seja ben&#233;fico para as crian&#231;as sentirem que n&#227;o podem confiar nos adultos &#224; sua volta, antes pelo contr&#225;rio. Por isso o nosso papel n&#227;o &#233; ensin&#225;-las a defender-se, &#233; assumirmos a responsabilidade de as manter em rela&#231;&#245;es seguras e de as ajudarmos a lidar com os estragos quando n&#227;o fomos capazes de as proteger.  </p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://laurasanches.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! 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Muitas coisas importantes foram partilhadas e provavelmente falarei sobre elas noutra altura, at&#233; porque o Gordon Neufeld &#233; sempre a minha grande refer&#234;ncia no que toca &#224; parentalidade e ao desenvolvimento infantil e falo bastante sobre ele e sobre o modelo que desenvolveu nos meus livros tamb&#233;m. </p><p>Mas hoje gostaria de falar de outra reflex&#227;o que tamb&#233;m esteve presente nesse fim de semana. Tive o prazer de ter a companhia de uma amiga ligada &#224; educa&#231;&#227;o, a Sara Gomes (<a href="https://www.educasao.org/">https://www.educasao.org/</a> ), que tem participado em v&#225;rias confer&#234;ncias sobre temas ligados ao desenvolvimento, educa&#231;&#227;o, parentalidade e trauma e que a certa altura comentou que neste tipo de confer&#234;ncias a audi&#234;ncia &#233; sempre esmagadoramente feminina, no entanto, os palestrantes s&#227;o na maioria homens. Neste caso, por acaso, n&#227;o foi verdade porque tivemos um homem e duas mulheres a falar, mas &#233; verdade que a figura principal do instituto n&#227;o deixa de ser um homem. Que a certa altura at&#233; partilhou que viajava bastante para dar palestras enquanto a mulher estava em casa com os filhos. E estou a trazer isto para aqui porque &#233; muito f&#225;cil polarizarmos esta quest&#227;o e vejo com demasiada frequ&#234;ncia a ideia de que isto &#233; um problema, porque mostra a desigualdade entre homens e mulheres e na verdade n&#227;o acho que tenha de o ser. Sim, &#233; verdade que existem diferen&#231;as entre homens e mulheres a grande quest&#227;o &#233; que isso n&#227;o precisa de ser problem&#225;tico. </p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://laurasanches.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! 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Mas as minhas gravidezes n&#227;o foram f&#225;ceis, por isso sentia que ficava logo em modo de pausa quando engravidava e depois deles nascerem tamb&#233;m sentia que era eu que queria estar com eles a maior parte do tempo, sobretudo no primeiro ano de vida. Por muito que confiasse no pai dos meus filhos e sabendo que ele &#233; muito capaz de cuidar deles, ainda assim era eu que tinha a mama e era eu que era a m&#227;e e o meu instinto dizia-me que era eu que deveria estar com eles. Al&#233;m de que tamb&#233;m sentia que gostava muito de estar com eles, claro. Mas, ao mesmo tempo, tamb&#233;m gostava de trabalhar e lembro-me de sentir que isso me fazia perder tempo que podia dedicar a escrever ou a estudar ou a fazer outras coisas que eram t&#227;o importantes para mim. E que se fosse homem talvez pudesse ter v&#225;rios filhos e n&#227;o sentir nada disso. </p><p>Por isso compreendo que &#233; f&#225;cil ficarmos ressentidas quando vemos que os homens parecem passar-nos &#224; frente na capacidade de fazer certas coisas. Mas a verdade &#233; que, hoje passados alguns anos de estar em casa com beb&#233;s ao colo, percebo que olhamos para estas quest&#245;es todas de uma forma muito errada. Percebo que at&#233; tenho muitas saudades desse tempo em que tinha beb&#233;s ao colo o dia inteiro e n&#227;o tinha muito mais para fazer a n&#227;o ser cuidar deles, percebo que a vida &#233; feita de fases e que n&#227;o ficamos em nenhuma delas para sempre. E que os beb&#233;s crescem depressa e rapidamente podemos voltar a fazer as outras coisas que nos parecem t&#227;o importantes. E, mais importante, percebo tamb&#233;m que cuidar de um beb&#233; &#233; mais gratificante, preenchedor e importante do que qualquer outra coisa que possa ter feito ou vir a fazer na vida. Os beb&#233;s fazem-nos sentir que somos a mesmo a sua resposta. Cuidar de um beb&#233;, mesmo com todo o cansa&#231;o, desgaste, noites mal dormidas e falta de apoio que muitas vezes existe, ainda assim, faz-nos sentir que temos uma esp&#233;cie de super-poder, quando sabemos que ele se acalma imediatamente no nosso colo ou com a nossa mama. E essa sensa&#231;&#227;o de preenchimento, de sermos a pessoa certa no lugar certo e o centro do mundo para aquele ser pequenino que nos sorri e se ilumina quando nos v&#234;, nada mais no mundo nos pode dar. </p><p>Por isso hoje quando olho para tr&#225;s n&#227;o sinto que ter filhos e ficar com eles em casa algum tempo tenha atrasado em nada a minha vida, sinto at&#233; que a adiantou em muitas coisas importantes. Gordon Neufeld diz que os adultos crescem quando est&#227;o a cuidar e nada melhor do que cuidar de um beb&#233; para podermos sentir isso. Ter filhos estar presente e cuidar deles tamb&#233;m nos faz amadurecer. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!LfmX!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbc8424be-01db-424e-937b-bf1ddc1472b3_1080x1080.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!LfmX!, /__u/laurasanches.substack.com/w_424, /__u/laurasanches.substack.com/c_limit, /__u/laurasanches.substack.com/f_webp, /__u/laurasanches.substack.com/q_auto:good, /__u/laurasanches.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbc8424be-01db-424e-937b-bf1ddc1472b3_1080x1080.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!LfmX!, /__u/laurasanches.substack.com/w_848, 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Est&#225; no facto de cada vez mais querermos medir e polarizar tudo. Est&#225; no facto de n&#227;o valorizarmos os cuidados tanto como valorizamos a produ&#231;&#227;o. Recebo nas consultas algumas m&#227;es que decidiram ficar em casa com os filhos e uma das quest&#245;es muito presentes nas suas vidas &#233; tamb&#233;m a forma como a sociedade as v&#234; como se n&#227;o estivessem a fazer nada de importante. Como se cuidar de um ser humano que ser&#225; um futuro adulto fosse menos importante do que servir &#224;s mesas ou gerir empresas ou fazer investiga&#231;&#227;o cientifica ou escrever livros. N&#227;o &#233;. E nunca deveria ser visto como tal.</p><p>&#201; natural que os homens que entram neste mundo da educa&#231;&#227;o, da parentalidade ou mesmo da sa&#250;de mental se destaquem de certa forma. N&#227;o s&#243; porque talvez tenham mais tempo para se dedicar ao trabalho, mas tamb&#233;m porque sendo uma &#225;rea mais tipicamente procurada pelas mulheres parece-me natural que os homens que entram nela tenham uma verdadeira voca&#231;&#227;o para a&#237; estar. Porque se n&#227;o fossem movidos por essa motiva&#231;&#227;o mais profunda provavelmente deixar-se-iam empurrar para outras &#225;reas mais tipicamente masculinas. </p><p>Mas, de qualquer modo o ponto importante que quero trazer para aqui n&#227;o &#233; aquilo que cada um faz ou deixa de fazer. &#201; a forma como o contabilizamos. Porque n&#227;o tem de ser mais importante o pai que est&#225; em cima do palco e que deixou os filhos em casa do que a mulher que est&#225; a cuidar deles. Os dois s&#227;o agentes de mudan&#231;a na verdade, cada um de formas diferentes. E tamb&#233;m n&#227;o precisamos de olhar para as m&#227;es que ficam com os filhos em casa como algu&#233;m que se sacrifica em nome de algo maior. Precisamos sim de criar condi&#231;&#245;es para que ficar com os filhos em casa n&#227;o seja um sacrif&#237;cio. E isso passa por criar condi&#231;&#245;es financeiras, reconhecendo que &#233; um papel fundamental e importante na sociedade, condi&#231;&#245;es emocionais, reconhecendo que essas m&#227;es precisam de ser cuidadas tamb&#233;m e precisam de uma rede de apoio que lhes permita n&#227;o ficarem isoladas e condi&#231;&#245;es estruturais que lhes permitam tamb&#233;m n&#227;o terem que abdicar completamente daquilo que gostam de fazer. Isto pode passar por criar oportunidades de trabalho em part-time que podem ser muito poucas horas quando os filhos s&#227;o pequenos e ir aumentando gradualmente ou permitindo que voltem facilmente ao mercado de trabalho alguns anos depois de terem ficado em casa, sem que isso seja mal visto. </p><p>No meu caso tive a sorte de poder sempre decidir quando queria voltar ao trabalho e quantas horas queria trabalhar por dia, que eram muito poucas nos primeiros anos dos meus dois filhos, e tive tamb&#233;m a sorte de ter um marido que podia ficar com eles nessas horas em que eu trabalhava, porque tamb&#233;m podia organizar o seu tempo. Mas &#233; essencial que isto n&#227;o seja um privil&#233;gio, claro que n&#227;o ser&#225; poss&#237;vel faz&#234;-lo em todo o tipo de trabalhos, mas era fundamental que se fosse tornando cada vez mais poss&#237;vel em quase todos. Para que as m&#227;es n&#227;o tenham de escolher entre ficar em casa e abdicar completamente daquilo que gostam de fazer ou manter a sua profiss&#227;o, mas terem que abdicar de estar presentes para cuidar dos filhos a maior part</p><p>e do tempo. Isto n&#227;o precisava de ser uma escolha se a sociedade se organizasse de outra maneira. </p><p>E tamb&#233;m &#233; importante que n&#227;o tornemos isto uma competi&#231;&#227;o entre pais e m&#227;es. Porque ao dizer que nos primeiros meses de vida, ou no primeiro ano pelo menos, ser&#227;o maioritariamente as m&#227;es que acredito que devem estar presentes, n&#227;o estou a menorizar o papel do pai. N&#227;o estou a dizer que os pais n&#227;o sabem cuidar, felizmente tenho um excelente exemplo de pai cuidador para os meus filhos. Mas a verdade &#233; que os homens n&#227;o ficam gr&#225;vidos, nem amamentam e estas s&#227;o duas coisas importantes e com grande impacto nos primeiros tempos de vida. Claro que uma m&#227;e que n&#227;o amamenta ou que n&#227;o engravidou n&#227;o &#233; menos capaz, nem pior m&#227;e por isso. Mas m&#227;es e pais t&#234;m papeis diferentes. Isto n&#227;o quer dizer que n&#227;o existam excep&#231;&#245;es e n&#227;o quer dizer que os pais n&#227;o possam cuidar t&#227;o bem como as m&#227;es quando isso &#233; necess&#225;rio. A grande quest&#227;o aqui &#233; que podemos aceitar as diferen&#231;as sem termos que as tornar um problema e sem entrarmos no jogo de achar que ser diferente significa que &#233; melhor ou pior porque nem tudo na vida tem que ser uma competi&#231;&#227;o e ningu&#233;m sai a ganhar  quando estamos constantemente a querer classificar tudo dessa forma. </p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://laurasanches.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Quando são os adultos que se descontrolam ]]></title><description><![CDATA[No &#250;ltimo texto falei do que acontece quando as crian&#231;as ficam frustradas e batem nos pais ou outras pessoas.]]></description><link>https://laurasanches.substack.com/p/quando-sao-os-adultos-que-se-descontrolam</link><guid isPermaLink="false">https://laurasanches.substack.com/p/quando-sao-os-adultos-que-se-descontrolam</guid><dc:creator><![CDATA[laura sanches]]></dc:creator><pubDate>Wed, 18 Feb 2026 17:00:18 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!9TIz!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F13169f72-2599-434f-8aad-90eeaf5f9867_1024x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>No &#250;ltimo texto falei do que acontece quando as crian&#231;as ficam frustradas e batem nos pais ou outras pessoas. Mas tamb&#233;m recebo em consulta muitas m&#227;es e pais que se sentem culpados e at&#233; envergonhados pela forma como lidam com os filhos nesses momentos. </p><p>Em primeiro lugar acho sempre importante frisar que n&#227;o &#233; realista acreditar que podemos educar os nossos filhos sem nunca nos irritarmos com eles e sem que isso nos leve por vezes a levantar a voz. Na verdade as crian&#231;as precisam tamb&#233;m de conviver com a nossa zanga, precisam de aprender que as rela&#231;&#245;es se reparam e de saber que somos capazes de assumir a responsabilidade de fazer essa repara&#231;&#227;o. Precisam tamb&#233;m de sentir que as suas emo&#231;&#245;es fazem algum eco em n&#243;s, n&#227;o &#233; suposto que fiquemos completamente calmos quando temos uma crian&#231;a descontrolada &#224; nossa frente e isso at&#233; pode ser mais frustrante para a crian&#231;a, porque ela tamb&#233;m precisa de sentir que nos importamos com o que est&#225; a sentir e, para isso, temos que nos deixar afectar. Isto n&#227;o quer dizer que podemos perder o controlo, mas &#233; natural que nos sintamos frustrados quando temos uma crian&#231;a descontrolada nas m&#227;os e &#233; natural que essa frustra&#231;&#227;o se fa&#231;a notar. O que &#233; importante &#233; que sejamos capazes de n&#227;o deixar que essa frustra&#231;&#227;o cause demasiados estragos e existem algumas raz&#245;es para o facto de n&#227;o sermos capazes de o fazer em alguns momentos. </p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://laurasanches.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Algumas pessoas falam da import&#226;ncia de termos consci&#234;ncia dos nossos valores e motiva&#231;&#245;es e de as usarmos para guiar o nosso comportamento. Mas a verdade &#233; que &#233; f&#225;cil estarmos conscientes dos nossos valores quando tudo est&#225; tranquilo, mas nem sempre conseguimos deixar-nos guiar por eles nos momentos de crise. Porque quando nos sentimos amea&#231;ados por algum motivo, as partes mais racionais da nossa consci&#234;ncia deixam de funcionar com a mesma efic&#225;cia e nem sempre s&#227;o suficientes para influenciar positivamente o nosso comportamento. </p><p>Vou resumir aqui aquelas que me parecem ser as principais raz&#245;es para os estragos que muitas vezes fazemos sem querer na rela&#231;&#227;o com os nossos filhos.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!9TIz!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F13169f72-2599-434f-8aad-90eeaf5f9867_1024x1024.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!9TIz!, /__u/laurasanches.substack.com/w_424, /__u/laurasanches.substack.com/c_limit, 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Para que esse amadurecimento aconte&#231;a &#233; preciso que existam as condi&#231;&#245;es que o permitem. Quando uma crian&#231;a cresce completamente sozinha com as suas emo&#231;&#245;es, sem ningu&#233;m que a ajude a processar e a fazer algum sentido do que sente, &#233; mais dif&#237;cil que este amadurecimento aconte&#231;a e isso nota-se sobretudo nos momentos de crise. </p><p>Quando nos sentimos frustrados isso ativa um modo de alerta, em que nos sentimos amea&#231;ados e todo o nosso foco passa a estar em como lidar com essa amea&#231;a, o que muitas vezes nos faz passar ao modo de ataque.</p><p>Se n&#227;o formos capazes de sentir o amor ao mesmo tempo que a zanga este modo de ataque pode tornar-se bem mais prejudicial. O amor &#233; o trav&#227;o mais importante para nos impedir de fazer estragos nos momentos mais cr&#237;ticos. Claro que, em alguns momentos, ele pode estar muito camuflado pela zanga, mas mesmo assim, &#233; importante sermos capazes de sentir que o amor existe l&#225; por baixo dessa camada para que o impulso de atacar n&#227;o cause tantos estragos.</p><p> </p><p>Por vezes tamb&#233;m acontece que quando nos sentimos feridos, ou em risco de virmos a s&#234;-lo, ativamos um instinto a que Gordon Neufeld chama desapego defensivo. Quando estamos neste modo queremos acreditar que n&#227;o precisamos daquela pessoa (por medo de que essa depend&#234;ncia nos fa&#231;a sentir mais dor) e isso tamb&#233;m faz com que se torne mais f&#225;cil fazermos estragos. Neufeld diz que &#233; importante que sejamos capazes de reconhecer este estado porque &#233; nele que ficamos mais capazes de ferir a outra pessoa. Quando estamos neste modo n&#227;o temos nenhum desejo de nos conectar ao outro e, se &#233; relativamente natural sentir isto numa rela&#231;&#227;o de casal, n&#227;o ser&#225; t&#227;o natural assim senti-lo com os filhos porque n&#227;o &#233; suposto que sintamos necessidade de nos defender dos nossos filhos deste modo. Mas a verdade &#233; que quando temos uma hist&#243;ria muito traum&#225;tica e alguma imaturidade (por falta de condi&#231;&#245;es para que um verdadeiro amadurecimento acontecesse) isto pode acontecer e &#233; das coisas que mais estragos pode causar numa crian&#231;a, sentir que os pais naquele momento n&#227;o querem mesmo conectar-se com ela, por isso &#233; importante que sejamos capazes de o reconhecer e de encontrar uma forma de lidar com isto sem que cause demasiado preju&#237;zo na rela&#231;&#227;o. E, sempre que nos dermos conta de que foi isto que aconteceu, &#233; fundamental que sejamos capazes de assumir a responsabilidade de fazer a repara&#231;&#227;o necess&#225;ria a seguir. Mostrar que a rela&#231;&#227;o est&#225; intacta e nos importamos com aquilo que a crian&#231;a sente. </p><ul><li><p><strong>Falta de capacidade para assumir a responsabilidade que leva a uma sensa&#231;&#227;o de perda de controlo </strong></p></li></ul><p>Um dos grandes gatilhos que nos faz entrar em modo de alerta com as crian&#231;as &#233; a sensa&#231;&#227;o de perda de controlo. A sensa&#231;&#227;o de que somos completamente impotentes para influenciar o comportamento delas, porque n&#227;o nos ouvem e n&#227;o mostram nenhum interesse em fazer o que queremos que fa&#231;am em determinados momentos. E na verdade muitas vezes isto acontece por n&#227;o sermos capazes de nos responsabilizar para fazer aquilo que elas ainda n&#227;o conseguem fazer sozinhas ou quando esperamos que as crian&#231;as colaborem connosco. Um exemplo t&#237;pico &#233; o da crian&#231;a que est&#225; a fazer algum disparate e a m&#227;e que lhe repete para parar v&#225;rias vezes, sem que isso tenha nenhum efeito, at&#233; que se cansa e acaba por explodir por ver que as suas palavras n&#227;o servem para nada. Nestes casos &#233; muito mais eficiente assumirmos que a crian&#231;a n&#227;o consegue mesmo parar e temos que ser n&#243;s a assumir essa responsabilidade por ela. Isto pode implicar tirar-lhe algum objecto das m&#227;os, por exemplo. No fundo quando esperamos que a crian&#231;a simplesmente obede&#231;a e interrompa um comportamento mesmo que ela ainda n&#227;o tenha maturidade para isso ficamos duplamente frustrados porque n&#227;o obtemos o resultado que quer&#237;amos e pensamos que a crian&#231;a n&#227;o est&#225; a ligar ao que dizemos e esta mistura muitas vezes leva a que reajamos com muito mais agressividade do que seria desej&#225;vel. Se assumirmos desde o in&#237;cio que a responsabilidade de interromper aquele comportamento &#233; nossa &#233; muito mais prov&#225;vel que o fa&#231;amos com mais controlo e de uma forma assertiva mas ponderada.</p><ul><li><p><strong>A intencionalidade que atribu&#237;mos ao comportamento da crian&#231;a </strong></p></li></ul><p>Muitas vezes temos expectativas desajustadas em rela&#231;&#227;o &#224; forma como uma crian&#231;a se deve ou consegue comportar e isso faz com que atribuamos motiva&#231;&#245;es erradas ao seu comportamento. Pensamos que as crian&#231;as est&#227;o a fazer determinadas coisas apenas para nos irritarem ou para nos provocarem quando est&#227;o apenas a ser crian&#231;as e a agir em fun&#231;&#227;o das suas emo&#231;&#245;es ou instintos. Uma boa parte do comportamento das crian&#231;as &#233; instintivo, mas temos muita tend&#234;ncia para lhes atribuir uma racionalidade que nem sempre existe. O facto das crian&#231;as terem no&#231;&#227;o do que &#233; certo ou errado nem sempre significa que o consigam cumprir, como expliquei no texto anterior. <br>Por isso quando dizemos que est&#227;o a testar limites ou que est&#227;o a provocar-nos a maior parte das vezes n&#227;o &#233; nada disso que se passa, porque n&#227;o existe propriamente uma motiva&#231;&#227;o clara para o seu comportamento </p><ul><li><p><strong>Cren&#231;as que nos levam a assumir que precisamos de estar zangados para ensinar uma li&#231;&#227;o </strong></p></li></ul><p>Esta &#233; uma das raz&#245;es que talvez seja mais importante discutirmos, porque me parece importante que tomemos consci&#234;ncia de que a zanga n&#227;o educa. As crian&#231;as n&#227;o aprendem porque estamos zangados com elas, antes pelo contr&#225;rio: sentir que estamos zangados cria uma barreira a que sejamos realmente compreendidos, porque as crian&#231;as ficam &#224; defesa e quando se defendem est&#227;o muito menos receptivas a ouvir a mensagem que queremos passar. &#201; verdade que o medo pode ser um eficaz bloqueador de determinados comportamentos, mas tamb&#233;m &#233; verdade que a longo prazo este tem consequ&#234;ncias bastante negativas. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!MqVK!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4b002254-d511-4e7a-a4c2-bfe7d7e19e01_1080x1080.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!MqVK!, 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Ou&#231;o com muita frequ&#234;ncia pais que perguntam: ent&#227;o mas se n&#227;o h&#225; consequ&#234;ncias como &#233; que ele vai aprender? Educar uma crian&#231;a n&#227;o &#233; como treinar um c&#227;o em que esperamos que determinados comportamentos sejam associados, atrav&#233;s do condicionamento, a determinados acontecimentos de recompensa ou puni&#231;&#227;o. Os seres humanos s&#227;o muito mais complexos e aquilo que queremos que guie os nossos filhos &#233; um sistema de valores juntamente com a maturidade que permite desenvolver a capacidade de controlar os impulsos. </p><p>N&#227;o s&#227;o as consequ&#234;ncias que contribuem para isto, muito menos aquelas que s&#227;o criadas artificialmente por n&#243;s. Mas, mesmo aquelas que acontecem naturalmente e que v&#234;m no seguimento directo de um determinado comportamento nem sempre ensinam grande coisa, porque <strong>h&#225; algo que &#233; fundamental para que nos deixemos transformar pelas consequ&#234;ncias das nossas a&#231;&#245;es: sermos capazes de entrar em contacto com as emo&#231;&#245;es</strong>. Acontece que uma boa parte dos comportamentos que nos incomodam nas crian&#231;as, v&#234;m justamente do facto delas estarem defendidas das suas emo&#231;&#245;es e n&#227;o serem capazes de entrar em contacto com as emo&#231;&#245;es mais vulner&#225;veis. A vergonha e culpa s&#227;o das emo&#231;&#245;es mais vulner&#225;veis que podemos sentir e s&#227;o tamb&#233;m aquelas que &#233; suposto que sintamos quando percebemos que erramos. Mas uma crian&#231;a s&#243; consegue deixar-se entrar em contacto com emo&#231;&#245;es t&#227;o dif&#237;ceis se houver um contexto de seguran&#231;a que lhe permita lidar com elas. E para isso &#233; importante que elas saibam que estamos do lado delas, dispon&#237;veis para as ajudar a fazer melhor muito mais do que para assinalar o erros ou para as castigar quando falham. </p><ul><li><p><strong>Falta de escapes emocionais que leva ao acumular de frustra&#231;&#227;o </strong></p></li></ul><p>Tal como as crian&#231;as precisam de brincar, <strong>os adultos tamb&#233;m precisam de encontrar daquilo a que Gordon Neufeld chama o recreio emocional:</strong> um espa&#231;o onde possam entrar em contacto com as suas emo&#231;&#245;es e express&#225;-las de forma livre. Neufeld compara as emo&#231;&#245;es a uma esp&#233;cie de descarga el&#233;ctrica e quando n&#227;o fazemos nada para descarregar essa eletricidade ela vai-se acumulando no corpo e acaba pode sair da forma pior nos momentos mais cr&#237;ticos. Se formos tendo o cuidado de a descarregar pontualmente, teremos menos carga acumulada nos momentos de crise e por isso a explos&#227;o ser&#225; mais leve. No meu &#250;ltimo livro, Educar com culpa, falei bastante da import&#226;ncia da brincadeira para as crian&#231;as mas tamb&#233;m para os adultos. </p><p>Este recreio emocional pode ser qualquer coisa e podem ser coisas muito diferentes para cada pessoa, mas &#233; essencialmente um espa&#231;o onde fazemos coisas que n&#227;o contam para nada, como na brincadeira, mas que nos ajudam a entrar em contacto com as emo&#231;&#245;es e a encontrar uma forma de as expressar. Vivemos numa sociedade demasiado focada no trabalho e nem sempre &#233; f&#225;cil encontrar este recreio emocional e descobrir aquele que funciona melhor conosco. Mas quando n&#227;o temos esta rotina &#233; muito mais prov&#225;vel que as emo&#231;&#245;es se acumulem e que saiam de forma descontrolada nos momentos em que o alarme dispara. </p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://laurasanches.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! 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Com o intuito de proteger, de nos protegermos uns dos outros e at&#233; de n&#243;s pr&#243;prios, criamos um espa&#231;o p&#250;blico cada vez mais vigiado.</p><p>H&#225; poucos dias falava algu&#233;m me dizia que p&#244;r um localizador na mochila dos mi&#250;dos quando v&#227;o para a escola (algo que me parece uma pr&#225;tica j&#225; bastante comum) podia ser uma boa ideia, tamb&#233;m j&#225; observei com algum espanto (mais do que uma vez) casais em que um consegue saber onde &#233; que o outro est&#225; atrav&#233;s do localizador do telem&#243;vel, j&#225; ouvi pais, vezes sem conta a queixarem-se de receberem poucos v&#237;deos e fotos da escola onde os filhos est&#227;o,  e, mais recentemente, vi v&#225;rias pessoas a defender que as creches passassem a ter sistemas de videovigil&#226;ncia para evitar situa&#231;&#245;es chocantes e tr&#225;gicas como aquela que h&#225; poucos dias veio a p&#250;blico sobre os maus tratos sofridos por v&#225;rias crian&#231;as pequenas. </p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://laurasanches.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Eu pr&#243;pria defendia a proibi&#231;&#227;o das redes sociais para os menores de 16 anos ( como expliquei recentemente num podcast do p&#250;blico), como uma medida coerente numa sociedade em que tantas outras coisas nocivas s&#227;o proibidas aos jovens e come&#231;o agora a questionar-me seriamente acerca dessa medida porque me parece que pode ser uma forma de abrir caminho &#224; identidade digital. Que &#233; mais uma maneira da tecnologia nos cercar e apertar cada vez mais a pris&#227;o digital que estamos a criar, em nome da seguran&#231;a, claro. O problema &#233; que essa suposta seguran&#231;a vem tamb&#233;m com controlo. E esse controlo impede-nos de crescer. Para amadurecer precisamos de ter alguma liberdade, a liberdade vem com riscos, sim, mas esses riscos s&#227;o necess&#225;rios para que possamos amadurecer realmente. </p><p>Com isto n&#227;o quero dizer que todos os riscos s&#227;o igualmente v&#225;lidos, claro. Da mesma forma que n&#227;o deixamos as crian&#231;as consumirem &#225;lcool ou drogas livremente , tamb&#233;m n&#227;o acredito que devam usar redes sociais precisamente pelas mesmas raz&#245;es: porque os riscos nestes casos s&#227;o muito superiores a qualquer benef&#237;cio que possa existir. No entanto, come&#231;o a ter s&#233;rias d&#250;vidas em rela&#231;&#227;o &#224; forma de se implementar esta proibi&#231;&#227;o se ela vier trazer a ideia da identidade digital como forma de provarmos a nossa identidade online. </p><p>As crian&#231;as precisam de correr  riscos para poderem desenvolver o seu sistema de alarme, para se familiarizarem com as suas sensa&#231;&#245;es e para que ele seja calibrado, para poderem lidar com verdadeiras situa&#231;&#245;es de amea&#231;a mais tarde. Talvez porque temos cada vez menos crian&#231;as com tempo para a brincadeira livre, onde esses riscos surgem naturalmente, tamb&#233;m temos gera&#231;&#245;es que crescem cada vez mais com a ideia de que a seguran&#231;a &#233; sempre uma coisa boa. Mas a seguran&#231;a deixa de ser boa se se torna uma pris&#227;o, por muito que essa pris&#227;o nos possa parecer confort&#225;vel e apelativa. A seguran&#231;a deixa de ser uma coisa boa se nos impede de confrontar os nossos medos e de descobrir a nossa coragem. </p><p>Os adolescentes ou as crian&#231;as um pouco mais velhas precisam de descobrir essa coragem em coisas t&#227;o simples como irem para a escola sozinhos, por exemplo. Precisam de correr alguns riscos no mundo real, onde vivem e com o qual precisam de aprender a relacionar-se. Porque &#233; este mundo que tamb&#233;m os faz aprender sobre si mesmos, sobre o seu corpo, sobre as suas emo&#231;&#245;es, n&#227;o o digital. Mas isso desaparece se souberem que os pais est&#227;o a vigiar cada um dos seus passos, &#224; dist&#226;ncia de um simples telefonema, prontos para intervir a qualquer instante. Claro que &#233; importante que as crian&#231;as e jovens saibam que os pais est&#227;o atentos e dispon&#237;veis para ajudar, mas isso &#233; muito diferente de vigiar cada passo que d&#227;o. Tamb&#233;m &#233; fundamental que eles saibam que os pais confiam em si, que sabem que eles s&#227;o capazes de lidar com as situa&#231;&#245;es mesmo quando s&#227;o imprevistas. Os jovens precisam tamb&#233;m de descobrir este espa&#231;o de liberdade de estarem entregues aos seus pr&#243;prios pensamentos, medos e receios, pois s&#243; assim podem tamb&#233;m descobrir a sua coragem para lidar com eles. <br>Precisam de poder criar uma liga&#231;&#227;o com o mundo f&#237;sico, mais do que com o digital onde hoje muitos vivem a maior parte do tempo. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Dczd!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F90109437-5aad-44f8-af3d-c6aa3f189e94_1080x1080.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Dczd!, /__u/laurasanches.substack.com/w_424, /__u/laurasanches.substack.com/c_limit, /__u/laurasanches.substack.com/f_webp, 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Se as empregadas de uma creche deixam de bater nas crian&#231;as apenas porque est&#227;o a ser filmadas, isso n&#227;o as vai tornar calorosas, nem presentes, nem dispon&#237;veis ou acolhedoras como as crian&#231;as precisam. E um sistema de videovigil&#226;ncia teria de ser muito apurado para ser capaz de captar todas as express&#245;es n&#227;o verbais mais subtis que t&#234;m um papel t&#227;o importante nos relacionamentos para o mal e para o bem. As c&#226;maras n&#227;o podem substituir as pessoas, n&#227;o podem substituir a nossa responsabilidade de sentirmos que as crian&#231;as est&#227;o bem entregues ou n&#227;o e a nossa responsabilidade de aprendermos a ler os sinais dos nossos filhos e a valorizar aquilo que eles nos transmitem. </p><p><br>As c&#226;maras d&#227;o-nos uma seguran&#231;a ilus&#243;ria, num mundo onde a superf&#237;cie &#233; mais valorizada do que a profundidade. As c&#226;maras n&#227;o ensinam ningu&#233;m a cuidar e n&#227;o nos permitem a n&#243;s criar pontes com quem cuida. Se acreditamos que ter c&#226;maras numa creche ir&#225; garantir que eles sejam bem cuidados, ent&#227;o o pr&#243;ximo passo poder&#225; ser assumir que ter l&#225; robots que s&#227;o sempre fi&#225;veis e previs&#237;veis seria mais seguro. Mas porque &#233; que isto nunca funcionaria e at&#233; nos parece chocante? Porque n&#227;o podemos criar rela&#231;&#227;o com um robot. Mas tamb&#233;m n&#227;o podemos criar rela&#231;&#227;o com uma pessoa que se porta de forma automatizada porque est&#225; a ser filmada, nem podemos criar uma rela&#231;&#227;o com pessoas que n&#227;o conhecemos porque os pais n&#227;o entram na escola. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ttO7!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F090bba5f-1f8b-49a6-9bb0-b8c8bf0e37ad_1024x608.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ttO7!, /__u/laurasanches.substack.com/w_424, /__u/laurasanches.substack.com/c_limit, /__u/laurasanches.substack.com/f_webp, /__u/laurasanches.substack.com/q_auto:good, 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No fundo uma auxiliar que bate nas crian&#231;as &#233; algu&#233;m que &#233; incapaz de criar uma rela&#231;&#227;o com elas e se valoriz&#225;ssemos mais isto tamb&#233;m ser&#237;amos mais capazes de impedir que acontecesse. </p><p>Tamb&#233;m falo com muitas pessoas que trabalham em escolas e que sentem os pais de hoje mais inseguros, mais exigentes e com mais tend&#234;ncia para interferirem no trabalho da escola. &#201; verdade que os pais tamb&#233;m precisam de confiar nos adultos que est&#227;o nas escolas, porque os professores n&#227;o podem cuidar das crian&#231;as e dos pais ao mesmo tempo, mas tamb&#233;m &#233; verdade que se torna mais f&#225;cil confiar quando as coisas s&#227;o transparentes, quando a entrada &#233; permitida e quando conhecemos as pessoas a quem entregamos os nossos filhos. N&#227;o faz sentido que a escola continue a ser um mundo &#224; parte da fam&#237;lia. E se o problema &#233; a organiza&#231;&#227;o ent&#227;o &#233; preciso perceber o que fazem as escolas em que os pais sempre puderam entrar para se organizarem e funcionarem bem, porque elas existem felizmente. N&#227;o s&#227;o as c&#226;maras que v&#227;o resolver aquele que &#233; um problema humano: n&#227;o &#233; natural entregarmos os nossos filhos diariamente aos cuidados de estranhos e tamb&#233;m n&#227;o &#233; muito natural cuidar dos filhos de pessoas que s&#227;o estranhas para n&#243;s. Por isso &#233; importante que as creches e jardins infantis deixem de ser lugares fechados &#224; fam&#237;lia. </p><p>Claro que isto exige bom senso por parte dos pais, porque infelizmente tamb&#233;m j&#225; ouvi demasiados casos de pais que acham que podem entrar no recreio e dar raspanetes a crian&#231;as que n&#227;o s&#227;o suas, mas n&#227;o &#233; tratando todos como crian&#231;as que iremos ter comportamentos adultos. E viver num estado em que tudo &#233; vigiado &#233; p&#244;r-nos a todos no lugar de crian&#231;as. N&#227;o faz sentido vivermos numa sociedade obcecada em dar autonomia &#224;s crian&#231;as, mesmo com coisas em que elas ainda n&#227;o est&#227;o preparadas para a ter e depois tratar todos os adultos como se fossem crian&#231;as irrespons&#225;veis e inconscientes que precisam de ser vigiadas todo o tempo, para serem punidas pelo que n&#227;o cumprirem. </p><p>At&#233; porque se as crian&#231;as n&#227;o amadurecem nessas condi&#231;&#245;es, os adultos muito menos. E se criamos um mundo que nos trata como crian&#231;as, &#233; como crian&#231;as que nos iremos comportar. </p><p>Preocupa-me que cada vez mais vejamos na tecnologia e na vigil&#226;ncia as respostas e a seguran&#231;a que n&#227;o encontramos no mundo e nas rela&#231;&#245;es, que &#233; de onde ela deveria vir em primeiro lugar. Preocupa-me perceber que entramos cada vez mais numa pris&#227;o digital sem nos apercebamos disso e que estejamos a construir um mundo cada vez mais vigiado pensando que isso &#233; para o bem o de todos. </p><p>Mas quando nos focamos mais na vigil&#226;ncia e na tecnologia do que nas rela&#231;&#245;es aquilo que constru&#237;mos &#233; um mundo muito mais pobre, muito mais vazio e mais perigoso a muitos n&#237;veis. A verdadeira seguran&#231;a vem de coisas que parecem estar cada vez mais em perigo: termos rela&#231;&#245;es pr&#243;ximas de confian&#231;a, um sentimento de comunidade que vem das rela&#231;&#245;es mais superficiais, mas que nos d&#227;o esse sentimento de perten&#231;a e dos rituais colectivos que perdemos cada vez mais e que tamb&#233;m s&#227;o t&#227;o importantes para nos ajudarem a encontrar o nosso lugar no mundo e na comunidade.</p><p>Os adolescentes precisam de ter tempo para olhar para dentro para se descobrirem e precisam tamb&#233;m de tempo para olhar para o mundo real, &#224; sua frente e de terem formas de sentir que lhe pertencem. O mundo digital em muitos vivem a maior parte do seu tempo prejudica ou impede mesmo esta descoberta. </p><p>E o problema &#233; que temos cada vez mais adultos que tamb&#233;m vivem excessivamente nesse mundo, por isso n&#227;o admira que se esque&#231;am daquilo que &#233; real e daquilo que verdadeiramente importa. </p><p>Estamos perdidos e preocupa-me que, em vez de olharmos para as pessoas como a solu&#231;&#227;o comecemos a acreditar cada vez mais nas m&#225;quinas. Em vez de confiarmos que precisamos de criar um espa&#231;o onde o amadurecimento se torne poss&#237;vel pensemos em criar cada vez mais espa&#231;os de puni&#231;&#227;o e de controlo que n&#227;o ajudam ningu&#233;m a crescer. <br><br>N&#227;o precisamos de criar mais organismos de vigil&#226;ncia, nem mais entidades fiscalizadoras que j&#225; existem em excesso at&#233;, precisamos &#233; de recuperar a confian&#231;a. A confian&#231;a nas pessoas, na sociedade e no mundo em geral. E isso s&#243; se faz se come&#231;armos por valorizar as rela&#231;&#245;es e percebermos que s&#227;o elas que nos fazem crescer e que &#233; quando crescemos, quando amadurecemos que tamb&#233;m nos tornamos mais capazes de contribuir para um mundo melhor. Enquanto isso n&#227;o acontece, n&#227;o podemos esperar que as m&#225;quinas e as intelig&#234;ncias artificiais que cri&#225;mos ocupem o lugar daquilo que deveria ser exclusivamente humano: o lugar de cuidado, pelo outro e pelas pessoas em geral que &#233; o &#250;nico s&#237;tio de onde poderemos esperar que venham as verdadeiras solu&#231;&#245;es. </p><p>Um mundo em que eliminamos o risco tamb&#233;m eliminamos a coragem e tudo aquilo que nos torna humanos, porque s&#243; quando nos permitimos sofrer &#233; que tamb&#233;m estamos prontos para amar e sem amor a vida fica bem mais cinzenta e vazia, sem emo&#231;&#245;es e sentimos somos apenas aut&#243;matos. E &#233; aqui que est&#225; o verdadeiro perigo. </p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://laurasanches.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Crianças que batem]]></title><description><![CDATA[Uma das quest&#245;es que mais me surge em consulta &#233; o sobre como lidar com o facto das crian&#231;as baterem nos pais ou noutras pessoas.]]></description><link>https://laurasanches.substack.com/p/criancas-que-batem</link><guid isPermaLink="false">https://laurasanches.substack.com/p/criancas-que-batem</guid><dc:creator><![CDATA[laura sanches]]></dc:creator><pubDate>Mon, 02 Feb 2026 19:13:50 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!hoLw!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3b16ec88-d255-4f75-8371-7882c2018c8b_1080x1080.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Uma das quest&#245;es que mais me surge em consulta &#233; o sobre como lidar com o facto das crian&#231;as baterem nos pais ou noutras pessoas. </p><p>E sinto que este &#233; tamb&#233;m um dos comportamentos que gera maior incompreens&#227;o na sociedade em geral, mexe com muitos medos, desperta muitos fantasmas e provoca muitos desentendimentos.  </p><p>E &#233; um comportamento que leva muitos pais ou m&#227;es a sentir vergonha, com medo que isso signifique que n&#227;o est&#227;o a ser bons pais, por isso &#233; importante compreender porque &#233; que ele acontece. E tamb&#233;m ajuda saber que &#233; relativamente frequente nos primeiros anos. </p><p>Porque ainda temos tend&#234;ncia a ver as coisas de uma forma muito linear, achamos que uma crian&#231;a pequena que bate nos pais ser&#225; sempre um adolescente muito complicado de gerir. E importa perceber porque &#233;  que isto n&#227;o &#233; necessariamente verdade: existem diferen&#231;as muito importantes entre uma crian&#231;a pequena, as suas capacidades e desenvolvimento e um adolescente.</p><p>Vivemos numa &#233;poca em que os mais velhos v&#234;em com preocupa&#231;&#227;o o facto dos pais das gera&#231;&#245;es mais novas educarem as crian&#231;as de forma muito diferente e isto muitas vezes tamb&#233;m provoca conflitos nas fam&#237;lias. Uma destas preocupa&#231;&#245;es tem at&#233; alguma legitimidade, a meu ver, a quest&#227;o de haver hoje uma tend&#234;ncia para n&#227;o valorizarmos tanto a hierarquia entre pais e filhos que antigamente era mais valorizada. Mas a verdade &#233; que valorizar essa hierarquia passa tamb&#233;m por compreender as crian&#231;as e por lidar com elas &#224; medida do est&#225;gio de desenvolvimento em que se encontram. E, se &#233; verdade que &#233; fundamental manter uma hierarquia natural entre pais e filhos tamb&#233;m acredito que esta s&#243; pode ser mantida de forma saud&#225;vel se valorizarmos a rela&#231;&#227;o e formos capazes de compreender que &#233; dentro dela que podemos realmente educar com os limites que nos pare&#231;am importantes, ao mesmo tempo que tamb&#233;m damos espa&#231;o e tempo &#224;s crian&#231;as para que possam aprender a lidar com as suas pr&#243;prias emo&#231;&#245;es, atrav&#233;s dos nossos cuidados.</p><p>Uma crian&#231;a &#233; muito diferente de um adulto e mesmo de um adolescente porque ainda n&#227;o tem os filtros que n&#243;s temos e que nos permitem controlar a agressividade nos momentos de frustra&#231;&#227;o. Idealmente, porque a verdade &#233; que em alguns adultos estes filtros ainda n&#227;o existem ou n&#227;o funcionam muito bem.</p><p>Um dos filtros importantes &#233; a capacidade de nos pormos no lugar do outro e de compreendermos o impacto que as nossas ac&#231;&#245;es podem ter nele. E antes dos 4 anos de idade as crian&#231;as ainda n&#227;o come&#231;aram a desenvolver aquilo a que se chama a teoria da mente, que lhes permite justamente compreender que outras pessoas podem ter uma perspectiva diferente da sua e podem sentir ou pensar coisas diferentes. &#201; verdade que alguns estudos mais recentes mostram que isto pode come&#231;ar a desenvolver-se um bocadinho antes, mas nos momentos de crise voltamos sempre ao nosso estado mais imaturo e todas as capacidades que ainda n&#227;o estejam bem desenvolvidas &#233; como se n&#227;o existissem.</p><p></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!hoLw!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3b16ec88-d255-4f75-8371-7882c2018c8b_1080x1080.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!hoLw!, /__u/laurasanches.substack.com/w_424, /__u/laurasanches.substack.com/c_limit, /__u/laurasanches.substack.com/f_webp, /__u/laurasanches.substack.com/q_auto:good, /__u/laurasanches.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3b16ec88-d255-4f75-8371-7882c2018c8b_1080x1080.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!hoLw!, /__u/laurasanches.substack.com/w_848, /__u/laurasanches.substack.com/c_limit, /__u/laurasanches.substack.com/f_webp, /__u/laurasanches.substack.com/q_auto:good, /__u/laurasanches.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3b16ec88-d255-4f75-8371-7882c2018c8b_1080x1080.png 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!hoLw!, /__u/laurasanches.substack.com/w_1272, /__u/laurasanches.substack.com/c_limit, /__u/laurasanches.substack.com/f_webp, /__u/laurasanches.substack.com/q_auto:good, 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Isto provoca alguns conflitos e muita frustra&#231;&#227;o tamb&#233;m porque n&#227;o facilita o entendimento com as outras pessoas, sobretudo com crian&#231;as da mesma idade ou mais novas que tamb&#233;m ainda n&#227;o conseguem por-se no lugar do outro.</p><p>Antes dos tr&#234;s anos de idade as crian&#231;as tamb&#233;m ainda n&#227;o t&#234;m verdadeiramente um desejo de agradar aos seus cuidadores, por isso tamb&#233;m n&#227;o serve de muito saberem que estes n&#227;o gostam que elas o fa&#231;am.</p><p>At&#233; esta idade as crian&#231;as s&#227;o movidas muito em fun&#231;&#227;o do prazer e dos impulsos e instintos, por isso batem com toda a naturalidade nos momentos de frustra&#231;&#227;o. &#192;s vezes, o aparecimento destes dois filtros - a capacidade de se por no lugar do outro e o desejo de agradar - juntamente com o desenvolvimento da linguagem e de uma maior capacidade de entender o mundo, j&#225; s&#227;o suficientes para melhorar a agressividade com os pares, mas &#233; muito natural que ainda n&#227;o seja suficiente para a eliminar completamente com os pais ou irm&#227;os nos momentos mais cr&#237;ticos.</p><p>Primeiro porque os pais ou irm&#227;os, sendo as liga&#231;&#245;es mais pr&#243;ximas que as crian&#231;as t&#234;m tamb&#233;m s&#227;o justamente aqueles que espoletam nelas os sentimentos mais intensos e por isso tamb&#233;m &#233; natural que a frustra&#231;&#227;o com eles seja maior. Depois porque &#233; com os pais que elas devem sentir-se seguras para libertar e mostrar toda a sua frustra&#231;&#227;o e isso tamb&#233;m torna tudo mais intenso.</p><p>Alguns pais dizem-me que os filhos, nesta idade, j&#225; sabem muito bem que n&#227;o deveriam bater, mas a verdade &#233; que antes dos seis, sete anos de idade, saber n&#227;o significa de todo ser capaz de fazer melhor. At&#233; mesmo para os adultos isso pode ser dif&#237;cil por vezes, basta pensar na quantidade de coisas que fazemos no nosso dia-a-dia sabendo que n&#227;o ser&#227;o provavelmente as melhores escolhas.</p><p>Esta dificuldade vem do facto de s&#243; por volta dos 6, 7 anos de idade (em crian&#231;as mais sens&#237;veis isto pode come&#231;ar s&#243; aos 8) come&#231;ar a entrar em funcionamento uma parte importante do c&#233;rebro: o cort&#233;x-pr&#233;-frontal. E &#233; esta zona do c&#233;rebro que permite controlar os impulsos e sentir duas coisas opostas ao mesmo tempo. Quando esta zona ainda n&#227;o est&#225; desenvolvida o que acontece &#233; que as crian&#231;as n&#227;o s&#227;o capazes de sentir duas coisas opostas em simult&#226;neo. Por isso quando est&#227;o zangadas s&#243; sentem a zanga, e se est&#227;o zangadas connosco, naquele momento &#233; s&#243; isso que sentem, n&#227;o t&#234;m capacidade de sentir o amor e a zanga em simult&#226;neo. Por isso dizem facilmente que j&#225; n&#227;o gostam de n&#243;s e algumas t&#234;m tamb&#233;m a tend&#234;ncia de nos querer magoar.</p><p>S&#243; quando somos capazes de sentir o amor ao mesmo tempo que a zanga &#233; que come&#231;amos tamb&#233;m a ser capazes de perceber que, por muito magoados que estejamos em dado momento, n&#227;o queremos realmente magoar aquela pessoa com quem nos zang&#225;mos. Muitos adultos ainda n&#227;o conseguem fazer isto e por isso tamb&#233;m atacam nos momentos de frustra&#231;&#227;o, mesmo que n&#227;o ataquem com o corpo. Mas para as crian&#231;as pequenas os impulsos de ataque s&#227;o mais naturalmente sentidos no corpo.</p><p>&#201; importante perceber que este desenvolvimento embora se torne poss&#237;vel a partir destas idades, n&#227;o quer dizer que aconte&#231;a sempre. Por isso muitos adultos ainda n&#227;o conseguem lidar bem com a ang&#250;stia que a ambival&#234;ncia pode trazer, porque n&#227;o tiveram possibilidade de fazer este desenvolvimento.</p><p>Ent&#227;o quando uma crian&#231;a bate nos pais, em primeiro lugar &#233; preciso perceber se ela ainda n&#227;o est&#225; a ser capaz de controlar esse impulso porque n&#227;o tem maturidade para tal (mesmo que at&#233; j&#225; tenha idade) porque o amadurecimento nem sempre acontece nas alturas esperadas. </p><p>Depois &#233; importante lembrar tamb&#233;m que isto s&#243; acontece se a crian&#231;a n&#227;o tem medo de o fazer. O medo de perder a liga&#231;&#227;o com as pessoas importantes pode ter um efeito de bloqueio sim, porque o medo &#233; um poderoso inibidor do comportamento. Mas n&#227;o &#233; a forma ideal de o fazermos porque tem outras consequ&#234;ncias, sobretudo a longo prazo. Algumas crian&#231;as s&#243; batem na m&#227;e ou s&#243; batem no pai porque se sentem seguras o suficiente para o fazer com aquela pessoa e n&#227;o com a outra e isso n&#227;o &#233; necessariamente mau sinal apesar de tudo.</p><p>Tamb&#233;m &#233; importante saber, se a crian&#231;a tem vontade de fazer diferente. Se ela n&#227;o tiver vontade de fazer diferente, significa que talvez tenhamos de lhe transmitir porque &#233; que para n&#243;s &#233; importante que o fa&#231;a. Educar tamb&#233;m passa por sermos capazes de transmitir os nossos valores. Mas isto s&#243; faz sentido se a crian&#231;a j&#225; tiver maturidade para os cumprir. E esses valores passam tanto melhor quanto mais alimentarmos e valorizarmos a rela&#231;&#227;o.</p><p>Claro que isto n&#227;o quer dizer que tenhamos que aceitar passivamente esse comportamento. &#201; importante que assumamos a responsabilidade de ajudar as crian&#231;as a fazer aquilo que elas ainda n&#227;o conseguem fazer sozinhas. Temos que assumir a responsabilidade de n&#227;o deixar que a sua zanga cause estragos, estragos nos outros, mas tamb&#233;m na rela&#231;&#227;o que t&#234;m connosco. E tamb&#233;m assumir a  responsabilidade de n&#227;o deixar que nos batam quando sentirmos essa necessidade, mas sem esperar propriamente que isso parta delas. Assumir a responsabilidade tamb&#233;m significa n&#227;o exigir da crian&#231;a aquilo que ela ainda n&#227;o consegue dar.</p><p>E aqui n&#227;o existem receitas nem f&#243;rmulas cada pai ou m&#227;e ter&#225; de saber como lidar com os seus filhos nestes momentos e tamb&#233;m aquilo que est&#225; ou n&#227;o disposto a aceitar e a assumir.</p><p>Uma crian&#231;a que bate nos pais n&#227;o est&#225; obrigatoriamente a faltar-lhes ao respeito e os pais que permitem que os filhos lhes batam tamb&#233;m n&#227;o est&#227;o necessariamente a ser negligentes.</p><p>Falta acrescentar que quando h&#225; um problema de agressividade muito frequente, a partir dos seis, sete anos de idade ou mesmo um pouco antes, isto tamb&#233;m pode significar que a crian&#231;a est&#225; com alguma dificuldade em processar a frustra&#231;&#227;o, que pode precisar de ajuda para encontrar as suas l&#225;grimas que s&#227;o a sa&#237;da mais adequada para ela ou que est&#225; simplesmente com falta de escapes que se tornem descargas naturais (como a brincadeira livre) ou com muitas coisas que n&#227;o est&#227;o a funcionar na sua vida e que devem ser analisadas. </p><p>E aquilo que gera mais frustra&#231;&#227;o &#233; sentirmos que as nossas rela&#231;&#245;es n&#227;o est&#227;o a funcionar. </p><p>Infelizmente esta dificuldade de lidar com a frustra&#231;&#227;o &#233; cada vez mais comum, por v&#225;rios motivos que descrevi tamb&#233;m no meu &#250;ltimo livro: educar com culpa.</p><p>&#201; relativamente natural que a sa&#237;da para a frustra&#231;&#227;o de uma crian&#231;a de 2 anos seja com mais frequ&#234;ncia o bater, mas &#224; medida que ela vai crescendo &#233; importante que tamb&#233;m aprenda a encontrar sa&#237;das mais adequadas. E uma delas &#233; a das l&#225;grimas de que muitas crian&#231;as fogem porque n&#227;o se sentem seguras para entrar em contacto com a tristeza. </p><p>Quando pergunto aos pais das crian&#231;as que batem muito se elas choram com frequ&#234;ncia, quase sempre me dizem que n&#227;o. Que &#233; muito raro chorarem de tristeza mesmo. O choro de zanga &#233; diferente. </p><p>N&#227;o acho que devamos desvalorizar completamente a agressividade, nem ficarmos passivos perante a mesma. Mas &#233; fundamental termos em conta a idade e sabermos que n&#227;o &#233; com explica&#231;&#245;es, nem com ensinamentos e muito menos com castigos e amea&#231;as que podemos for&#231;ar um amadurecimento que ainda n&#227;o tem condi&#231;&#245;es para acontecer. E quando obrigamos uma crian&#231;a a comportar-se de forma mais madura do que aquilo que ela consegue n&#227;o estamos a assumir a nossa responsabilidade, s&#243; estamos a aumentar a sua frustra&#231;&#227;o. Porque assumir a responsabilidade tamb&#233;m passa por fazer pela crian&#231;a aquilo que sabemos que ela ainda n&#227;o tem condi&#231;&#245;es para fazer sozinha.&nbsp;</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[As praxes mostram como falhamos com os jovens ]]></title><description><![CDATA[Todos os anos por esta altura me cruzo diariamente com bandos de jovens vestidos de preto que cumprem o ritual das chamadas praxes acad&#233;micas.]]></description><link>https://laurasanches.substack.com/p/as-praxes-mostram-como-falhamos-com</link><guid isPermaLink="false">https://laurasanches.substack.com/p/as-praxes-mostram-como-falhamos-com</guid><dc:creator><![CDATA[laura sanches]]></dc:creator><pubDate>Mon, 22 Sep 2025 16:57:44 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!oe0E!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F554aa820-87da-40eb-9ad9-39312e51fa86_1080x1080.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Todos os anos por esta altura me cruzo diariamente com bandos de jovens vestidos de preto que cumprem o ritual das chamadas praxes acad&#233;micas. E sempre que me cruzo com eles n&#227;o consigo deixar de pensar que este espect&#225;culo que enche as nossas ruas e parques todos os anos &#233; uma triste demonstra&#231;&#227;o da forma como a sociedade em geral tem vindo a falhar aos nossos jovens. </p><p>E tem vindo a falhar de muitas formas. Uma delas &#233; a falta de rituais que sempre marcaram a vida das sociedades e que hoje em dia temos cada vez menos. Por isso n&#227;o &#233; de admirar que os jovens tentem criar os seus pr&#243;prios ritos de passagem que marcam a entrada em novas fases da vida. Os rituais coletivos s&#227;o importantes para a nossa estrutura&#231;&#227;o enquanto sociedade, ajudam a fortalecer e a alimentar os sentimentos de perten&#231;a e inclus&#227;o que s&#227;o importantes, mas tamb&#233;m contribuem para um sentimento de identidade que &#233; essencial na passagem para a vida adulta. Quando fazem parte dos rituais dos adultos as crian&#231;as aprendem a estruturar a sua pr&#243;pria vis&#227;o da vida e, dentro da estrutura da comunidade, tamb&#233;m aprendem mais facilmente a descobrir quem s&#227;o. &#201; menos assustador partir quando sabemos que temos para onde voltar. E um sentimento de comunidade - que os rituais de grupo ajudam a fortalecer - criam mais esse sentimento de comunidade que tanto falta nos nossos dias. </p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://laurasanches.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Quando os jovens participam nos ritos de passagem que s&#227;o criados especialmente para marcar a entrada em novas fases da vida e que sempre fizeram parte da vida em sociedade tamb&#233;m aprendem quem s&#227;o e aquilo que se espera de si. A entrada na idade adulta costumava ser marcada com determinados rituais ou ritos de passagem que serviam para que os jovens se sentissem capazes de entrar nessa nova fase, aceites por aqueles que j&#225; estavam nela e, ao mesmo tempo, serviam tamb&#233;m para orientar e mostrar aquilo que a sociedade ou a comunidade esperava deles nesse novo lugar que passariam a ocupar. </p><p>Hoje j&#225; quase n&#227;o temos rituais, n&#227;o h&#225; um sentimento de perten&#231;a &#224; comunidade e a adolesc&#234;ncia &#233; algo que se prolonga cada vez mais, sendo os seus limites cada vez menos definidos. Como &#233; que nos sentimos adultos se ningu&#233;m nos reconhece enquanto tal? </p><p>Nestas condi&#231;&#245;es parece-me natural que os jovens procurem re-criar os seus pr&#243;prios ritos de passagem numa tentativa de encontrarem essa estrutura perdida. </p><p>O problema &#233; que estes rituais que se perderam sempre foram orientados justamente por aqueles que j&#225; teriam passado essa ponte: pelos adultos, mais capazes de orientar, estruturar e de dar suporte nessa passagem. </p><p>Mas aqui temos outro dos problemas dos nossos dias, &#233; que os adultos parecem estar cada vez mais a demitir-se desse papel orientador e estruturante, ao mesmo tempo que os pr&#243;prios jovens tamb&#233;m o rejeitam cada vez mais. </p><p>&#201; o problema da orienta&#231;&#227;o para os pares - uma express&#227;o criada por Gordon Neufeld, que explica como os jovens dos nossos dias procuram muito mais as suas refer&#234;ncias nos outros jovens do que nos adultos. Esta orienta&#231;&#227;o para os pares acontece tamb&#233;m por v&#225;rios factores que Gordon Neufeld descreve muito bem no livro que escreveu com o Gabor Mat&#233; e que tamb&#233;m j&#225; resumi nos meus. </p><p>Mas o que &#233; importante percebermos aqui &#233; que esta orienta&#231;&#227;o para os pares faz com que os jovens tenham tanta necessidade de ser aceites no grupo que acabam por ser incapazes de levar em conta os seus pr&#243;prios limites ou os limites dos outros. Por isso vemos nestes rituais situa&#231;&#245;es de verdadeira humilha&#231;&#227;o que v&#227;o demasiadas vezes longe demais e em que os envolvidos precisam de estar muito desligados de si pr&#243;prios, mas tamb&#233;m dos outros, para ser capazes de as levar at&#233; ao fim. </p><p>Os jovens orientados para os pares t&#234;m muito pouco espa&#231;o para tomar as suas pr&#243;prias decis&#245;es, porque n&#227;o querem arriscar-se a ser rejeitados pelo grupo. </p><p>&#201; natural que, &#224; partida, exista alguma vontade de entrar neste tipo de ritual e de fazer parte do grupo. Mas, para um jovem saud&#225;vel, seria de esperar que existisse tamb&#233;m a capacidade de sentir quando estaria a ir longe demais na sua humilha&#231;&#227;o ou na dos outros. </p><p>O grande desafio do amadurecimento que deveria acontecer na adolesc&#234;ncia, &#233; aprender a estar junto, a fazer parte do grupo, mas sem perder o sentimento de individualidade, sem deixar de ser a sua pr&#243;pria pessoa, como costuma dizer Gordon Neufeld. Temos tanta preocupa&#231;&#227;o com a autonomia das crian&#231;as hoje em dia, que muitas vezes as empurramos para essa orienta&#231;&#227;o para os pares, afastando-as de n&#243;s e recusando-nos a reconhecer e aceitar a depend&#234;ncia natural dos primeiros anos de vida. As crian&#231;as precisam de saber que &#233; seguro depender dos adultos para serem capazes de desenvolver uma verdadeira autonomia.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!oe0E!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F554aa820-87da-40eb-9ad9-39312e51fa86_1080x1080.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!oe0E!, /__u/laurasanches.substack.com/w_424, /__u/laurasanches.substack.com/c_limit, /__u/laurasanches.substack.com/f_webp, /__u/laurasanches.substack.com/q_auto:good, /__u/laurasanches.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F554aa820-87da-40eb-9ad9-39312e51fa86_1080x1080.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!oe0E!, 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aprendem a ver-se de fora, a estar conscientes da sua pessoa e das suas emo&#231;&#245;es e isto traz consigo algum alarme.</p><p>Mas estamos tamb&#233;m cada vez menos capazes de os deixar sentir esse alarme. E cada vez menos capazes de lhes dar espa&#231;os vazios onde possam verdadeiramente encontrar-se. Por isso os nossos adolescentes n&#227;o crescem, n&#227;o amadurecem.  </p><p>Quando os afastamos de n&#243;s os nossos filhos, quando os entregamos aos pares, quando n&#227;o os deixamos sentir que &#233; seguro depender, que estamos dispon&#237;veis e que podem confiar em n&#243;s, torna-se muito mais dif&#237;cil que eles descubram quem s&#227;o. Por isso encontram nas praxes uma tentativa de camuflar a ang&#250;stia que vem com essa falta de identidade. O grupo com os seus rituais cat&#225;rticos d&#225;-lhes temporariamente um sentimento de perten&#231;a, de inclus&#227;o e de aceita&#231;&#227;o. O problema &#233; que quando estes sentimentos v&#234;m de um grupo de pares, eles n&#227;o formam uma base segura. Porque n&#227;o podemos ser uma base para ningu&#233;m, quando n&#243;s pr&#243;prios ainda n&#227;o fizemos o caminho. Mas quando nos deixamos levar pela ilus&#227;o fica mais dif&#237;cil perceber que n&#227;o estamos no caminho certo, por isso os jovens que sofrem estas humilha&#231;&#245;es hoje s&#227;o precisamente os mesmos que as ir&#227;o provocar amanh&#227;. <br></p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://laurasanches.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! 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Este &#233; um projeto importante e que considero muito necess&#225;rio numa sociedade que em muitos aspectos parece realmente cada vez mais polarizada. </p><p>Mas houve uma das perguntas que me ficou na cabe&#231;a e a que sinto que faltaram acrescentar algumas coisas. Talvez uma parte minha tenha ficado com algum receio de desviar o rumo da conversa para quest&#245;es mais pol&#237;ticas, mas a verdade &#233; que h&#225; coisas que me sinto sempre mais &#224; vontade a explicar por escrito. </p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://laurasanches.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>A pergunta, que se bem lembro na verdade nem era bem uma pergunta, mas mais um coment&#225;rio, era sobre o facto de aparentemente nas fam&#237;lias mais conotadas com a direita existir uma maior valoriza&#231;&#227;o da fam&#237;lia e at&#233; daquilo a que Gordon Neufeld chama a aldeia de apego: um grupo com um n&#250;mero de adultos dispon&#237;veis e presentes suficientemente grande para que as crian&#231;as tenham v&#225;rias pessoas com quem podem contar, para cuidar das suas necessidades. </p><p>&#201; verdade que nos grupos pol&#237;ticos mais conotados com a direita parecer haver uma maior preocupa&#231;&#227;o com a fam&#237;lia e com a cria&#231;&#227;o de uma estrutura que &#233; importante tamb&#233;m para as crian&#231;as. &#201; natural que esta ideia da import&#226;ncia da fam&#237;lia e da estrutura surja com mais facilidade numa vis&#227;o mais conservadora do mundo. </p><p>A esquerda atual tipicamente tem uma maior preocupa&#231;&#227;o com as minorias e com as quest&#245;es individuais e acaba por isso por ter uma vis&#227;o mais individualista nas suas pol&#237;ticas. </p><p>Aqui, mais do que uma discuss&#227;o pol&#237;tica em que n&#227;o quero entrar (e talvez por isso n&#227;o tenha desenvolvido muito a resposta na entrevista) aquilo que considero mais importante &#233; mesmo que tenhamos a capacidade de perceber que estas duas vis&#245;es do mundo s&#227;o importantes e n&#227;o precisam de ser incompat&#237;veis. </p><p>At&#233; &#224; altura do 25 de Abril, em Portugal, viv&#237;amos numa sociedade orientada sobretudo para os valores coletivistas. Uma sociedade coletivista &#233; aquela em que as necessidades do grupo s&#227;o mais importantes do que as do individuo, por isso h&#225; uma maior tend&#234;ncia para que as pessoas valorizem e cumpram as normas sociais; &#233; uma sociedade mais r&#237;gida no sentido em que h&#225; menos espa&#231;o para a diferen&#231;a e para a express&#227;o individual. Hoje em dia  temos exemplos de sociedades coletivistas sobretudo em pa&#237;ses asi&#225;ticos, como o Jap&#227;o ou a China. </p><p>Uma sociedade coletivista tende a dar mais import&#226;ncia &#224; fam&#237;lia e h&#225; geralmente uma maior disponibilidade dos adultos para cuidarem das crian&#231;as no geral, porque elas s&#227;o vistas como uma parte importante do coletivo. Isto faz com que existam mais adultos dispon&#237;veis, ao mesmo tempo que a estrutura da fam&#237;lia &#233; protegida tamb&#233;m. Claro que isto tamb&#233;m contribuiu no passado para que muitas pessoas vivessem em casamentos infelizes e at&#233; em situa&#231;&#245;es de viol&#234;ncia, porque o sofrimento individual n&#227;o era t&#227;o valorizado. </p><p>Nas sociedades mais individualistas - de que o maior exemplo ser&#225; talvez os EUA, onde esta orienta&#231;&#227;o ganhou forma a partir dos anos 50, 60 - as vontades e motiva&#231;&#245;es individuais s&#227;o mais importantes do que o grupo. E claro que isto trouxe algumas conquistas importantes sobretudo para grupos que na altura eram minorit&#225;rios e poderiam sofrer alguma discrimina&#231;&#227;o. Mas tamb&#233;m contribuiu para que se perdesse alguma estrutura e para criar um mundo que, na verdade, apesar de parecer mais inclusivo e respeitador tamb&#233;m se tornou mais hostil. Porque para respeitar e para que sejamos capazes de acolher verdadeiramente o outro precisamos de, em primeiro lugar, nos sentir seguros. </p><p>E as crian&#231;as n&#227;o crescem com seguran&#231;a se n&#227;o tiverem adultos dispon&#237;veis para cuidar das suas necessidades. Numa cultura coletivista isto acontece mais facilmente, porque se assume que &#233; esse o papel dos adultos. Mas quando as necessidades do indiv&#237;duo s&#227;o postas em primeiro lugar, torna-se mais f&#225;cil entrar numa guerra entre as necessidades do adulto e as da crian&#231;a, algo que nunca deveria sequer existir.  Quando temos uma crian&#231;a pequena o nosso papel &#233; cuidar dela, mas se achamos que precisamos de dar mais import&#226;ncia &#224; nossa necessidade de ir fazer uma viagem ou de sair &#224; noite com os amigos, ent&#227;o criamos espa&#231;o para que os problemas comecem porque sem sempre &#233; f&#225;cil definir onde come&#231;am as nossas necessidades e acabam as da crian&#231;a. </p><p>Quando entramos neste registo perde-se mais facilmente a estrutura de que as crian&#231;as precisam para se sentirem cuidadas: aquilo a que Gordon Neufeld chama a cascata de cuidados hier&#225;rquicos, em que os mais velhos cuidam naturalmente dos mais novos. &#201; importante real&#231;ar aqui que os pais tamb&#233;m precisam de ser cuidados, sim. Mas precisam de ser cuidados pelos seus pais ou pelas pessoas mais velhas da comunidade que representam figuras de refer&#234;ncia para eles. N&#227;o pelos pares. E este &#233; um dos problemas do individualismo: acreditarmos que a resposta est&#225; nos pares, quando n&#227;o &#233; daqui que vem o verdadeiro cuidado, aquele que nos permite descansar de verdade. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!DqH6!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc671de05-4280-471b-a31b-ecb801e9a72e_1080x1080.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!DqH6!, /__u/laurasanches.substack.com/w_424, /__u/laurasanches.substack.com/c_limit, /__u/laurasanches.substack.com/f_webp, /__u/laurasanches.substack.com/q_auto:good, 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E que o caminho para o amadurecimento acontece quando tentamos integrar as duas e n&#227;o quando queremos acreditar que apenas a nossa vis&#227;o &#233; a certa. </p><p>Para que sejamos capazes de valorizar realmente o grupo e a comunidade, primeiro precisamos de nos sentir valorizados e reconhecidos como indiv&#237;duos. As crian&#231;as precisam de ser reconhecidas pelos pais e outros adultos importantes, precisam de se sentir vistas, acolhidas, especiais para pelo menos uma pessoa nas suas vidas. Mas &#233; muito mais dif&#237;cil fazer isto quando n&#227;o h&#225; uma estrutura que nos suporte e apoie. Uma crian&#231;a que cresce com este sentimento de seguran&#231;a ser&#225; mais facilmente um adulto que sabe valorizar o coletivo e a estrutura, mas que tamb&#233;m &#233; capaz de ver os indiv&#237;duos que o comp&#245;em sempre que isso &#233; necess&#225;rio. </p><p>A capacidade de acolher o outro nasce de nos termos sentido acolhidos na nossa inf&#226;ncia. O grande desafio do amadurecimento &#233; conseguirmos sentir-nos parte do todo sem nos perdermos enquanto pessoa individual. Nas palavras de Gordon Neufeld o grande desafio &#233; aprendermos a estar juntos, sem deixarmos de ser separados. E &#233; s&#243; quando somos capazes de ser a nossa pr&#243;pria pessoa que tamb&#233;m somos capazes de cuidar realmente dos outros, mesmo daqueles que n&#227;o fazem parte do nosso grupo. </p><p>Precisamos de desenvolver a capacidade de criar o nosso pr&#243;prio mundo interno para aceitarmos o dos outros sem o sentir como uma amea&#231;a, mesmo nos casos em que esse mundo &#233; muito diferente do nosso. Precisamos de partir da aceita&#231;&#227;o do nosso mundo interno, que s&#243; acontece quando nos sentimos reconhecidos e aceites pelas pessoas importantes da nossa vida, para sermos capazes de aceitar o outro com todas as suas diferen&#231;as. </p><p>Quando n&#227;o crescemos com essa certeza de que est&#225; tudo bem em sermos a nossa pr&#243;pria pessoa, essa certeza de que podemos criar liga&#231;&#245;es significativas e seguras com as pessoas importantes da nossa vida, os outros representam sempre uma amea&#231;a, principalmente quando s&#227;o muito diferentes. E isto cria um mundo mais polarizado e em que os outros parecem sempre muito mais hostis. </p><p></p><p></p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://laurasanches.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! 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Dei comigo a sentir-me incomodada, pela forma como ela n&#227;o protegia a intimidade da outra pessoa, que suponho que fosse sua amiga e fiquei a reflectir um pouco sobre a forma como esta quest&#227;o da privacidade me parece t&#227;o desvalorizada nos nossos dias e sobre porque &#233; que isto &#233; importante. </p><p>Como destaca t&#227;o bem o &#250;ltimo livro no Nicholas Carr, a privacidade sempre foi algo bastante valorizado na comunica&#231;&#227;o, tanto que &#233; proibido por lei abrir correspond&#234;ncia dirigida a outras pessoas. E, numa fase inicial, quando se tornou p&#250;blico que os e-mails n&#227;o eram uma coisa privada, houve mesmo um movimento contra isto. No entanto hoje em dia n&#227;o parecemos importar-nos com a falta de privacidade que existe online e n&#227;o falo apenas dos coment&#225;rios p&#250;blicos que deixamos em redes sociais ou outros sites e cuja inten&#231;&#227;o pode ser mesmo a de que sejam lidos por v&#225;rias pessoas, mas a verdade &#233; que tudo o que fazemos online &#233; de alguma forma vigiado e monitorizado pelas empresas que colecionam os nossos dados. Acho que a maior parte das vezes n&#227;o temos no&#231;&#227;o do ponto a que essa vigil&#226;ncia existe ou, em nome da conveni&#234;ncia, escolhemos n&#227;o pensar nela. Porque preferimos manter a conveni&#234;ncia do algoritmo que parece saber exactamente de que &#233; que precisamos ou de que &#233; que vamos gostar, ou manter a conveni&#234;ncia das comunica&#231;&#245;es r&#225;pidas e aparentemente f&#225;ceis que os ecr&#227;s nos permitem. </p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://laurasanches.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! 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Ele diz que os telegramas que nesta altura j&#225; podiam ser enviados fizeram com que rapidamente acontecesse uma escalada do conflito, muito mais depressa do que aquela que aconteceria com uma diplomacia dependente de meios de comunica&#231;&#227;o muito mais lentos e que, ao mesmo tempo, tamb&#233;m permitiam uma comunica&#231;&#227;o mais reflectida e ponderada. Al&#233;m de que o telegrafo tamb&#233;m tornou poss&#237;vel um posicionamento estrat&#233;gico das tropas muito mais r&#225;pido. </p><p>Lembro-me de escrever cartas para as minhas amigas nas f&#233;rias de ver&#227;o e do tempo que passava &#224; espera que as cartas voltassem e a verdade &#233; que hoje em dia, comunicamos com muito mais rapidez e frequ&#234;ncia, mas as comunica&#231;&#245;es tendem a ser muito mais superficiais. Porque a rapidez e o automatismo alimentam muito mais os impulsos e instintos do que o pensamento reflectido e cuidado. Mas isto tamb&#233;m ter&#225; alguma coisa a ver com as quest&#245;es da privacidade provavelmente. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ZAPA!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1ec702fe-2ea5-4986-ba0b-505c0fe9401c_856x541.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ZAPA!, /__u/laurasanches.substack.com/w_424, /__u/laurasanches.substack.com/c_limit, /__u/laurasanches.substack.com/f_webp, /__u/laurasanches.substack.com/q_auto:good, /__u/laurasanches.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1ec702fe-2ea5-4986-ba0b-505c0fe9401c_856x541.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ZAPA!, /__u/laurasanches.substack.com/w_848, 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class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">Photo by <a href="/__u/laurasanches.substack.com/true">Scott Graham</a> on <a href="https://unsplash.com">Unsplash</a></figcaption></figure></div><p></p><p>Sherry Turtkle &#233; uma psic&#243;loga cujos livros tamb&#233;m me t&#234;m ajudado muito a reflectir sobre estes temas e ela pr&#243;pria tamb&#233;m diz que cada vez que escrevemos um e-mail temos uma ilus&#227;o de privacidade que, no entanto, n&#227;o existe. Os e-mails que escrevemos n&#227;o s&#227;o privados assim como nada daquilo que escrevemos online. J&#225; ouvi pessoas dizerem que n&#227;o se importam com essa falta de privacidade porque as suas vidas n&#227;o s&#227;o assim t&#227;o interessantes para que algu&#233;m se ocupe delas. </p><p>Mas porque &#233; que isto nos deveria importar mais? Porque quando sabemos que estamos verdadeiramente sozinhos com os nossos pensamentos ou com a pessoa com quem estamos a desabafar, como acontece quando escrevemos uma carta a algu&#233;m, por exemplo, podemos permitir-nos ir muito mais fundo nas nossas reflex&#245;es e naquilo que queremos partilhar. Por muito que saibamos que as empresas que vigiam os nossos dados n&#227;o est&#227;o particularmente interessadas em n&#243;s como indiv&#237;duos, nem nos pormenores das nossas vidas privadas, o simples facto de termos consci&#234;ncia de que esta vigil&#226;ncia existe j&#225; serve para condicionar de alguma forma a capacidade de criar intimidade com a pessoa a quem nos dirigimos. No momento em que escrevemos um e-mail h&#225; esta ilus&#227;o de que estamos a falar s&#243; com a pessoa a quem nos dirigimos, no entanto h&#225; outra parte de n&#243;s que sabe que n&#227;o ser&#225; bem assim. </p><p>Para criar intimidade precisamos de ficar vulner&#225;veis, precisamos de n&#227;o ter medo de nos expor. Precisamos de ter um grau de confian&#231;a no facto de que, no outro lado, algu&#233;m vai cuidar dessa parte do mundo interno que estamos a revelar, precisamos de confiar que a outra pessoa vai ser capaz de receber essa parte de n&#243;s que estamos a entregar e que vai saber cuidar dela. N&#227;o &#233; poss&#237;vel sentir isto com pessoas que n&#227;o conhecemos. </p><p>Por isso &#233; que os coment&#225;rios online s&#227;o tendencialmente muito mais agressivos e polarizados do que uma conversa cara-a-cara, porque n&#227;o podemos dar-nos ao luxo de ficar muito vulner&#225;veis em frente a uma quantidade de pessoas que n&#227;o controlamos e que podemos nem conhecer. </p><p>O problema &#233; que parece que nos estamos a tornar cada vez mais insens&#237;veis a esta cultura da exposi&#231;&#227;o em que vivemos. Vivemos num paradoxo em que parece que temos que nos mostrar cada vez mais, mas em que, ao mesmo tempo, mostramos cada vez menos de n&#243;s. J&#225; ouvi o Gordon Neufeld falar da forma como as gera&#231;&#245;es de adolescentes antigamente tinham mais tend&#234;ncia para se tapar com a roupa, como se se quisessem esconder do mundo por n&#227;o se sentirem ainda muito confort&#225;veis na sua pele (usando por exemplo roupas muito largas) e as dos nossos dias t&#234;m muito mais tend&#234;ncia para se despirem. E isto demonstra muito bem o que est&#225; a acontecer: temos esta necessidade de nos expor cada vez mais, mas ao mesmo tempo mostramos cada vez menos o nosso interior. E vamos ficando cada vez mais insens&#237;veis &#224; forma como esta exposi&#231;&#227;o tamb&#233;m nos convida a uma superficializa&#231;&#227;o. Porque a verdade &#233; que nos arriscamos muito mais quando mostramos o que temos no cora&#231;&#227;o do que quando mostramos o corpo. </p><p>Para criar rela&#231;&#245;es &#237;ntimas precisamos de cuidar dessa intimidade e a privacidade &#233; uma parte essencial dela. Quando dou consultas online, por exemplo, fa&#231;o quest&#227;o de usar auscultadores porque esta &#233; uma forma de mostrar claramente &#224;s pessoas que a sua privacidade est&#225; a assegurada. Eu sei que estou numa sala sozinha, com a porta fechada, que na verdade &#233; precisamente a mesma sala que uso para as consultas presenciais, mas as pessoas podem n&#227;o o saber e os auscultadores mostram claramente que s&#243; eu posso ouvir as suas palavras. </p><p>Quando deixamos que todas as pessoas ou&#231;am uma mensagem que nos foi dirigida n&#227;o estamos a proteger a intimidade daquela pessoa, que n&#227;o faz ideia das condi&#231;&#245;es em que a mensagem foi ouvida. E a mensagem poderia ser apenas sobre trivialidades que n&#227;o interessam verdadeiramente a mais ningu&#233;m, o problema &#233; que quando n&#227;o temos a certeza como &#233; que a nossa comunica&#231;&#227;o &#233; tratada ficamos muito mais predispostos para falar apenas de trivialidades mesmo. </p><p>E sem intimidade com os outros acabamos por n&#227;o ter tamb&#233;m uma verdadeira intimidade connosco, porque as distrac&#231;&#245;es constantes que os ecr&#227;s nos trazem tamb&#233;m servem para nos afastar do que sentimos e do que pensamos. E isto forma um ciclo porque quando n&#227;o nos conhecemos, quando n&#227;o passamos tempo connosco, tamb&#233;m n&#227;o somos capazes de criar rela&#231;&#245;es com os outros. E quanto mais superficiais forem as nossas rela&#231;&#245;es mais acabamos por nos iludir com esta ideia de que podemos expor-nos &#224; vontade sem que isso cause danos ou preju&#237;zos. E mais necessidade temos de procurar nos outros a confirma&#231;&#227;o de que essa nossa exposi&#231;&#227;o foi bem recebida e os likes nas redes sociais v&#227;o preenchendo essa fun&#231;&#227;o de nos fazerem ser vistos e ouvidos, sem que os sejamos na realidade. Mantendo e alimentando assim um vazio que, ao mesmo tempo, fingem preencher e perpetuando esta cultura da superficialidade em que a verdadeira intimidade come&#231;a a parecer algo cada vez mais raro. </p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://laurasanches.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! 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Infelizmente emos muita tend&#234;ncia para confundir timidez com vergonha quando, na verdade s&#227;o duas coisas bem diferentes.</p><p>Gordon Neufeld refere-se &#224; timidez como: estar reservado para as suas pessoas. Esta &#233; uma bonita defini&#231;&#227;o que nos ajuda a perceber que uma crian&#231;a t&#237;mida precisa, antes de mais, de sentir que tem uma liga&#231;&#227;o com os adultos para se conseguir mostrar. A timidez &#233; um instinto que mostra que a crian&#231;a precisa de se sentir ligada &#224;s pessoas com quem interage: na aus&#234;ncia desse sentimento de liga&#231;&#227;o o seu instinto diz-lhe que n&#227;o &#233; correcto comunicar ou interagir com aquelas pessoas, por isso ela pode recusar-se a cumprimentar, por exemplo, ou at&#233; mesmo a falar com elas.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://laurasanches.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>A vergonha &#233; o sentimento de que se fez algo errado ou de que existe algo de errado conosco. Esta sim pode ser um problema, se surge com demasiada frequ&#234;ncia. Mas a verdade &#233; que as crian&#231;as n&#227;o sentem vergonha com frequ&#234;ncia se os adultos n&#227;o as envergonharem. A vergonha n&#227;o &#233; um instinto, &#233; uma emo&#231;&#227;o que vem de nos sentirmos de alguma forma exclu&#237;dos do grupo ou menos dignos de estar na presen&#231;a de uma pessoa. Esta pode ser uma emo&#231;&#227;o importante quando se faz algo de verdadeiramente errado, mas n&#227;o &#233; suposto nem ben&#233;fico que sejam os adultos a fazer com que as crian&#231;as o sintam. Pode ser algo espont&#226;neo, que acontece quando a crian&#231;a sente que fez alguma coisa de mal, mas n&#227;o deve ser algo imposto pelo adulto &#224; crian&#231;a.</p><p>Por isso &#233; muito importante que n&#227;o envergonhemos as crian&#231;as pela sua timidez. &#201; bom que elas sintam que essa timidez n&#227;o est&#225; errada e que n&#227;o h&#225; nada de mal com a necessidade de serem fieis aos seus instintos.</p><p>&#201; natural que muitas crian&#231;as t&#237;midas tenham muita dificuldade em falar na escola ou em outros contextos onde ainda n&#227;o se sentem junto das suas pessoas.</p><p>Se tentarmos obrigar ou for&#231;ar de alguma maneira a crian&#231;a a passar por cima deste instinto aquilo que podemos conseguir &#233; que ela aprenda a desligar-se do que sente e das suas emo&#231;&#245;es. A longo prazo isto n&#227;o ser&#225; com certeza o mais positivo e trar&#225; certamente alguns problemas.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://images.unsplash.com/photo-1632948456778-f2e17ddc2085?crop=entropy&amp;cs=tinysrgb&amp;fit=max&amp;fm=jpg&amp;ixid=M3wzMDAzMzh8MHwxfHNlYXJjaHwzfHxzaHklMjBraWR8ZW58MHx8fHwxNzQ2NTE0OTA5fDA&amp;ixlib=rb-4.1.0&amp;q=80&amp;w=1080" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://images.unsplash.com/photo-1632948456778-f2e17ddc2085?crop=entropy&amp;cs=tinysrgb&amp;fit=max&amp;fm=jpg&amp;ixid=M3wzMDAzMzh8MHwxfHNlYXJjaHwzfHxzaHklMjBraWR8ZW58MHx8fHwxNzQ2NTE0OTA5fDA&amp;ixlib=rb-4.1.0&amp;q=80&amp;w=1080 424w, 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fetchpriority="high"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">Photo by <a href="/__u/laurasanches.substack.com/true">BenMoses M</a> on <a href="https://unsplash.com">Unsplash</a></figcaption></figure></div><p>A melhor forma de ajudarmos a crian&#231;a a ultrapassar este instinto nos contextos em que sentimos que ele poder&#225; estar a atrapalhar um pouco, como a escola, por exemplo, passar por criarmos uma liga&#231;&#227;o com ela, mostrando que gostamos da sua presen&#231;a e que sabemos e queremos cuida de si. As crian&#231;as pequenas, at&#233; aos seis anos de idade, pelo menos, precisam de sentir que est&#227;o na presen&#231;a de um adulto a quem se sentem ligadas e que sabe cuidar delas para se sentirem seguras. Quando isto n&#227;o acontece elas entram facilmente em modo de alerta, o que faz com que seja ainda mais dif&#237;cil chegar a elas e criar essa liga&#231;&#227;o.</p><p>A forma mais natural de criar uma liga&#231;&#227;o com a crian&#231;a passa por criar uma liga&#231;&#227;o com os pais dela, numa primeira fase. Na escola &#233; importante que a crian&#231;a veja que aquele adulto a quem ser&#225; entregue faz parte do c&#237;rculo de confian&#231;a dos pais, as crian&#231;as aprendem a confiar nos adultos se virem que os pais confiam tamb&#233;m. E para mostrar que confiamos numa determinada pessoa precisamos de comunicar um pouco com ela, &#233; importante que a crian&#231;a veja que os pais gostam dos educadores e vice-versa. Por isso a entrada di&#225;ria dos pais no espa&#231;o da escola e da sala &#233; importante, para facilitar esta comunica&#231;&#227;o, pelos menos nos primeiros seis anos.</p><p>Depois &#233; importante que o adulto seja capaz de fazer aquilo a que Gordon Neufeld chama recolher a crian&#231;a. Isto significa ativar a liga&#231;&#227;o e &#233; algo que precisa de acontecer sempre depois de uma separa&#231;&#227;o. Para termos a certeza de que a crian&#231;a est&#225; pronta para se ligar a n&#243;s Neufeld explica que precisamos de conquistar o seu olhar, um sorriso e um aceno de cabe&#231;a. S&#227;o os tr&#234;s sinais que mostram claramente que ela est&#225; pronta para nos seguir, para se deixar orientar e cuidar. E na verdade fazemos isto naturalmente quando nos cumprimentamos uns aos outros. Com uma crian&#231;a t&#237;mida isto &#233; ainda mais importante, mas pode demorar um pouco mais de tempo e &#233; preciso que seja feito tamb&#233;m com algum respeito pelo seu espa&#231;o. Muitas crian&#231;as t&#237;midas n&#227;o gostam de ser logo tocadas por algu&#233;m que n&#227;o conhecem, por exemplo. E isto tamb&#233;m &#233; importante para os pais quando v&#227;o buscar a crian&#231;a depois da escola ou at&#233; quando ela acorda de manh&#227;. </p><p>A partir do momento em que uma crian&#231;a se sente ligada aos adultos que est&#227;o a cuidar dela, torna-se muito mais f&#225;cil estabelecer liga&#231;&#245;es tamb&#233;m com as outras crian&#231;as e explorar o ambiente &#224; sua volta. Por isso algumas crian&#231;as podem ser muito t&#237;midas na escola e estarem perfeitamente &#224; vontade quando t&#234;m os pais por perto.</p><p>&#201; importante que compreendamos e respeitemos a timidez das crian&#231;as e, acima de tudo, que n&#227;o as envergonhemos por estarem apenas a agir com base no seu instinto. E &#233; &#250;til tamb&#233;m que aprendamos a fazer a distin&#231;&#227;o entre timidez e vergonha, uma crian&#231;a t&#237;mida n&#227;o est&#225; necessariamente envergonhada. E n&#227;o tem que sentir vergonha pela sua timidez. </p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://laurasanches.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Não é de informação que os miúdos precisam ]]></title><description><![CDATA[Ontem estive mais uma vez na escola Gil Vicente, em Lisboa, a falar do impacto dos ecr&#227;s no desenvolvimento das crian&#231;as e dos adolescentes.]]></description><link>https://laurasanches.substack.com/p/nao-e-de-informacao-que-os-miudos</link><guid isPermaLink="false">https://laurasanches.substack.com/p/nao-e-de-informacao-que-os-miudos</guid><dc:creator><![CDATA[laura sanches]]></dc:creator><pubDate>Fri, 25 Apr 2025 09:53:36 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ZwqQ!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6e5f84af-24d0-4c1c-b07f-1c8872f4ba2e_340x467.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Ontem estive mais uma vez na escola Gil Vicente, em Lisboa, a falar do impacto dos ecr&#227;s no desenvolvimento das crian&#231;as e dos adolescentes. </p><p>No final tivemos um debate bastante rico, mas  houve uma pergunta que me ficou na  cabe&#231;a porque me parece bastante reveladora da forma como encaramos a educa&#231;&#227;o, a parentalidade e at&#233; o desenvolvimento dos mi&#250;dos hoje em dia. Uma m&#227;e perguntou-me qual &#233; que eu achava que seria o melhor argumento para convencer a filha de que n&#227;o devia ter redes sociais, porque ela, com 12 anos, lhe pedia diariamente para ter instagram porque isso isso a iria tornar mais popular com os amigos. Infelizmente sabemos todos que este n&#227;o &#233; um caso isolado e contacto diariamente com pais que t&#234;m filhos nesta idades e at&#233; mais novos a pedir para terem acesso &#224;s redes sociais para n&#227;o ficarem exclu&#237;dos do seu grupo de pares. </p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://laurasanches.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! 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No meu &#250;ltimo livro dou o exemplo de uma m&#227;e que me procurou a dizer que a educadora da filha lhe tinha dito que ela precisava de lhe ensinar que n&#227;o se podia bater e ela dizia-me que a filha sabia perfeitamente que n&#227;o podia bater, mas isso n&#227;o resolvia nada. O que &#233; muito natural porque o comportamento das crian&#231;as passa muito mais pelo instinto e pelos impulsos do que pela raz&#227;o. Acontece que o dos adultos tamb&#233;m. </p><p>O Jonathan Haidt tem um livro muito bom sobre a forma como vamos formando as nossas cren&#231;as pol&#237;ticas e n&#227;o s&#243;, onde apresenta v&#225;rios estudos que demonstram bem que aquilo que nos faz adoptar determinadas cren&#231;as passa muito mais pela emo&#231;&#227;o do que pela raz&#227;o. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!BWZ7!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4f2357bb-15f4-472d-8147-ad3fb8b30ac0_262x326.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!BWZ7!, /__u/laurasanches.substack.com/w_424, /__u/laurasanches.substack.com/c_limit, /__u/laurasanches.substack.com/f_webp, /__u/laurasanches.substack.com/q_auto:good, 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Muitos pais j&#225; me disseram que viram a s&#233;rie adolesc&#234;ncia com os filhos e, honestamente, acho um pouco absurda a ideia desta s&#233;rie ser passada nas escolas do Reino Unido, quase como se se tratasse de um document&#225;rio. N&#227;o acredito que um adolescente ganhe alguma coisa apenas por ver essa s&#233;rie e, se n&#227;o estiver preparado para lidar com os conte&#250;dos violentos que ela traz, pode at&#233; perder. Al&#233;m de que muitas coisas na s&#233;rie n&#227;o fazem sequer sentido, mas isso seria motivo para outro texto. Mas quando os jovens s&#227;o expostos a coisas com as quais n&#227;o est&#227;o preparados para lidar, isso s&#243; faz com que se fechem para se desligarem daquela informa&#231;&#227;o que ainda n&#227;o est&#227;o preparados para processar e isto s&#243; prejudica o seu amadurecimento na verdade. Porque para amadurecer precisamos de estar em contacto com as emo&#231;&#245;es e, como costuma dizer o Gordon Neufeld, precisamos de um cora&#231;&#227;o macio. Logo tudo aquilo que contribua para esse fecho tem um impacto sempre mais negativo do que positivo nesse crescimento que depende sempre de sentirmos as emo&#231;&#245;es. </p><p>Tamb&#233;m j&#225; me pediram para ir &#224; escola falar directamente com os jovens sobre este tema mais do que uma vez e respondo sempre que n&#227;o tenho muito interesse nisso, porque prefiro falar com os pais. E n&#227;o &#233; porque n&#227;o gosto de adolescentes, porque gosto muito tenho a certeza de que passaria um bom bocado a debater estas quest&#245;es com eles e a ouvir os seus argumentos. O problema &#233; que n&#227;o acredito na utilidade destas sess&#245;es conduzidas por pessoas estranhas com quem os mi&#250;dos n&#227;o t&#234;m sequer grande hip&#243;tese de criar uma rela&#231;&#227;o, porque os grupos s&#227;o quase sempre demasiado grandes e o tempo demasiado curto. E acrescento que j&#225; ouvi precisamente da boca de alguns adolescentes, incluindo o meu pr&#243;prio filho, o reconhecimento da inutilidade deste tipo de sess&#245;es. E se pensarmos um pouco nos nossos tempos de escola, os professores que nos marcaram mais muito provavelmente foram precisamente aqueles que estavam dispon&#237;veis para construir essa rela&#231;&#227;o, para nos ouvir e compreender, muito mais do que para dar li&#231;&#245;es. </p><p>Aquilo que faz realmente a diferen&#231;a na capacidade dos nossos filhos aceitarem ou n&#227;o os nossos argumentos n&#227;o &#233; a informa&#231;&#227;o que lhes possamos disponibilizar: &#233; a rela&#231;&#227;o que criamos com eles. N&#227;o estou a dizer que n&#227;o devemos falar e que n&#227;o &#233; importante dar-lhes conhecimento das coisas, claro que &#233;, com adolescentes &#233; fundamental que estejamos dispon&#237;veis para compreender o seu ponto de vista e a sua vis&#227;o do mundo, sem julgamentos e tamb&#233;m que sejamos capazes de lhes transmitir aqueles que s&#227;o os nossos valores e de lhes explicar as coisas que sabemos. Mas a verdade &#233; que s&#243; vamos ter uma influ&#234;ncia real nas suas vidas atrav&#233;s da rela&#231;&#227;o, &#233; ela o canal que os faz estarem dispon&#237;veis para aceitar os nossos argumentos e as nossas decis&#245;es, mesmo que isso lhes traga alguma insatisfa&#231;&#227;o. </p><p>Para esta rela&#231;&#227;o existir tamb&#233;m &#233; importante que sejamos capazes de ouvir o lado deles, de perceber porque &#233; que pode ser importante para eles terem redes sociais ou um smartphone ou o que quer que seja, mas isso n&#227;o quer dizer que tenhamos que ceder no que consideramos verdadeiramente importante. H&#225; uma grande diferen&#231;a entre impor uma decis&#227;o e n&#227;o nos nos importarmos com o impacto que ela possa ter na vida dos nossos filhos ou sermos capazes de manter essa decis&#227;o, mas ao mesmo tempo, mostrar que queremos perceber como aquilo os pode afectar e estarmos dispon&#237;veis para os ajudar a lidar com esse impacto.</p><p>Nunca o acesso &#224; informa&#231;&#227;o esteve t&#227;o facilitado e n&#227;o tem sido isso a tornar o mundo melhor. Nem &#233; isso que nos leva a fazer melhores escolhas no dia-a-dia. Quantas vezes escolhemos coisas acerca das quais temos toda a informa&#231;&#227;o do quanto nos podem prejudicar? </p><p><br>Os nossos filhos precisam &#233; de confiar em n&#243;s para se deixarem guiar. Precisam de confiar que queremos o seu melhor, que sabemos fazer boas escolhas e que estamos preocupados com aquilo que sentem e dispon&#237;veis para os ajudar a lidar com isso. </p><p>Precisamos tamb&#233;m de cuidar para que a rela&#231;&#227;o connosco seja mais importante do que a press&#227;o dos pares, mesmo na adolesc&#234;ncia. A rela&#231;&#227;o com os adultos precisa de ser ainda a refer&#234;ncia, mesmo para os adolescentes e tamb&#233;m nem sempre &#233; f&#225;cil percebermos isto num mundo em que  a orienta&#231;&#227;o para os pares parece ser cada vez mais a norma.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ZwqQ!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6e5f84af-24d0-4c1c-b07f-1c8872f4ba2e_340x467.webp" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ZwqQ!, /__u/laurasanches.substack.com/w_424, /__u/laurasanches.substack.com/c_limit, /__u/laurasanches.substack.com/f_webp, /__u/laurasanches.substack.com/q_auto:good, 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Mas para isso temos que nos certificar primeiro de que j&#225; ter&#227;o a maturidade necess&#225;ria para lidar com aquilo que possa correr mal e que t&#234;m tamb&#233;m algo essencial: um colo da nossa parte para onde podem vir chorar sobre tudo o que n&#227;o funcionar. </p><div class="captioned-button-wrap" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://substack.com/refer/laurasanches?utm_source=substack&amp;utm_context=post&amp;utm_content=162112427&amp;utm_campaign=writer_referral_button&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Start a Substack&quot;}" data-component-name="CaptionedButtonToDOM"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Start writing today. 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Acontece que, a paci&#234;ncia tem este paradoxo: quanto mais nos for&#231;amos a t&#234;-la, mais depressa acabamos por perd&#234;-la. Porque quando estamos constantemente a julgar a nossa falta de paci&#234;ncia criamos uma tens&#227;o interna e quando tentamos anular essa tens&#227;o interna fingindo que ela n&#227;o existe ou que n&#227;o a estamos a sentir, acabamos por criar ainda mais tens&#227;o. E quanto mais tens&#227;o criamos, menos pacientes nos tornamos. </p><p>Porque para sermos pacientes ou tolerantes com os comportamentos que tocam nos nossos gatilhos, precisamos de estar tranquilos, em equil&#237;brio e quando passamos uma boa parte do dia a negar ou a reprimir aquilo que estamos a sentir isso perturba esse equil&#237;brio e faz com que sobre muito pouca paci&#234;ncia para responder da forma mais adequada.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://laurasanches.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!cILF!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fef39f647-d894-49fc-8771-6ae561277a13_1080x1080.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!cILF!, /__u/laurasanches.substack.com/w_424, /__u/laurasanches.substack.com/c_limit, /__u/laurasanches.substack.com/f_webp, 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presente e saber que podemos assumi-la sem que isso crie muitos estragos nas nossas rela&#231;&#245;es. Porque os estragos maiores acontecem precisamente quando estamos a tentar neg&#225;-la. Se criarmos essa rela&#231;&#227;o com a nossa falta de paci&#234;ncia e formos capazes de a transmitir aos outros, assumindo que n&#227;o estaremos no nosso melhor, provavelmente n&#227;o faremos tantos estragos nas rela&#231;&#245;es. Al&#233;m disso quando criamos esta rela&#231;&#227;o com a nossa falta de paci&#234;ncia ou irritabilidade, mesmo que n&#227;o consigamos agir preventivamente (porque isso nem sempre &#233; poss&#237;vel), pelo menos podemos reparar as rela&#231;&#245;es quando sentimos que fizemos algo que n&#227;o dev&#237;amos ou quando tomamos consci&#234;ncia de que fomos mais longe do que quer&#237;amos ter ido. E &#233; importante termos consci&#234;ncia de que esta repara&#231;&#227;o &#233; sempre poss&#237;vel desde que estejamos dispostos a assumir a nossa responsabilidade e dispon&#237;veis para perceber como podemos ter afectado a outra pessoa. &#201; importante termos no&#231;&#227;o de que a falta de paci&#234;ncia n&#227;o &#233; necessariamente o que cria mais estragos na nossa rela&#231;&#227;o com os filhos, o que cria mais estragos &#233; a incapacidade de fazermos esta repara&#231;&#227;o e deix&#225;-los sozinhos com o medo ou a ang&#250;stia que lhes podemos ter provocado. E o medo de que a rela&#231;&#227;o esteja em risco. Porque para uma crian&#231;a, sobretudo as mais pequenas, &#233; muito f&#225;cil sentir que n&#227;o gostamos dela quando nos zangamos. Por isso &#233; importante mostrar que a rela&#231;&#227;o n&#227;o est&#225; em risco. &#201; importante tamb&#233;m que n&#227;o responsabilizemos a crian&#231;a pela nossa falta de paci&#234;ncia, claro. E os pedidos de desculpa, quando sentimos que s&#227;o necess&#225;rios, t&#234;m de vir de um sentimento de capacidade, compet&#234;ncia e responsabilidade, n&#227;o de um lado mais fr&#225;gil que mostre &#224; crian&#231;a que n&#227;o sabemos bem aquilo que estamos a fazer porque isso pode ser muito assustador para eles. </p><p>Mas, na verdade, &#233; importante saber que a paci&#234;ncia n&#227;o se for&#231;a, assim como n&#227;o podemos for&#231;ar o amadurecimento ou desenvolvimento de uma crian&#231;a, tamb&#233;m n&#227;o podemos for&#231;ar-nos a estar mais pacientes. Precisamos de criar as condi&#231;&#245;es necess&#225;rias para que essa paci&#234;ncia aconte&#231;a. Precisamos de criar tempo para brincar no nosso dia-a-dia, de criar um espa&#231;o para libertar as nossas emo&#231;&#245;es, para as p&#244;r em movimento. Porque as emo&#231;&#245;es paradas s&#227;o como &#225;gua estagnada: cheiram mal e fazem mal.  A brincadeira para um adulto n&#227;o precisa de ser o mesmo que para uma crian&#231;a, precisa de ser um espa&#231;o de liberdade em que as emo&#231;&#245;es facilmente de movem, um espa&#231;o em que facilmente podemos entrar em contacto com elas. &#201; este o conceito de recreio emocional do Gordon Neufeld e que &#233; uma das formas essenciais de esvaziarmos os nossos copos para que o comportamento dos nossos filhos n&#227;o os entorne rapidamente.</p><p> </p><p>Numa palestra a que assisti do Gordon Neufeld, ele tamb&#233;m explicava que na verdade aquilo que &#233; mais importante quando nos zangamos com os nossos filhos (ou com quem quer que seja) &#233; que sejamos capazes de sentir ao mesmo tempo a frustra&#231;&#227;o - que traz a zanga - e o amor que temos por eles. Se formos capazes de nos agarrar a estas duas emo&#231;&#245;es ao mesmo tempo &#233; menos prov&#225;vel que a nossa zanga fa&#231;a estragos. Porque n&#227;o &#233; a falta de paci&#234;ncia s&#243; por si que faz estragos nas rela&#231;&#245;es, &#233; aquilo que fazemos com ela: quando responsabilizamos as crian&#231;as, quando julgamos o seu comportamento, quando as envergonhamos pelo que fizeram, quando as tratamos mal, sim a&#237; podemos fazer estragos mais dif&#237;ceis de reparar. Mas se formos capazes de sentir o amor ao mesmo tempo que a zanga, torna-se menos prov&#225;vel que estes estragos aconte&#231;am. </p><p>Mas para isto &#233; preciso maturidade. S&#243; um c&#233;rebro maduro &#233; que consegue sentir duas coisas opostas em simult&#226;neo: as crian&#231;as com menos de seis anos n&#227;o o conseguem fazer e alguns adultos tamb&#233;m n&#227;o, porque n&#227;o tiveram as condi&#231;&#245;es necess&#225;rias para que esse desenvolvimento aconte&#231;a. </p><p>E, mais uma vez aqui, a brincadeira tamb&#233;m pode ser a resposta. Porque qualquer coisa que nos ponha em contacto com as emo&#231;&#245;es, ajuda a desenvolver o c&#233;rebro e facilita este amadurecimento. N&#227;o podemos for&#231;ar-nos a amadurecer, mas podemos reconhecer as condi&#231;&#245;es importantes para que este desenvolvimento aconte&#231;a e tentar reproduzi-las na nossa vida. </p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://laurasanches.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! 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