<script data-pm-proxy="intercept"></script><?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Lucas da Motta]]></title><description><![CDATA[Estudo filosofia com a razão e a teologia, com o coração, que é o órgão mais importante que compõem o meu ser]]></description><link>https://lucasdamota.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!0PX1!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Flucasdamota.substack.com%2Fimg%2Fsubstack.png</url><title>Lucas da Motta</title><link>https://lucasdamota.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Fri, 04 Sep 2026 14:18:31 GMT</lastBuildDate><atom:link href="/__u/lucasdamota.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Lucas da Mota]]></copyright><language><![CDATA[en]]></language><webMaster><![CDATA[lucasdamota@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[lucasdamota@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Lucas da Motta]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Lucas da Motta]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[lucasdamota@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[lucasdamota@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Lucas da Motta]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[Escrituralismo, epistemologia reformada e História da Salvação ]]></title><description><![CDATA[O debate que continua]]></description><link>https://lucasdamota.substack.com/p/teste</link><guid isPermaLink="false">https://lucasdamota.substack.com/p/teste</guid><dc:creator><![CDATA[Lucas da Motta]]></dc:creator><pubDate>Sat, 15 Aug 2026 22:02:48 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/d78daa04-b99b-4610-b550-9f043bad6988_768x1190.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Reposta para <a href="/__u/substack.com/@orlandot3?utm_source=share&amp;utm_medium=android&amp;r=6go5mm">Orlando Terceiro</a>. </p><p>Respondendo ao artigo:</p><p>https://oterceiro.substack.com/p/conhecimento-acaso-e-o-deus-que-ensina?utm_source=share&amp;utm_medium=android&amp;r=6go5mm</p><p><strong>I. Sobre:</strong> <em>O problema come&#231;a quando voc&#234; quer conservar, ao mesmo tempo, uma no&#231;&#227;o fal&#237;vel de conhecimento e um crit&#233;rio forte o bastante para distingui-lo da sorte epist&#234;mica, duas exig&#234;ncias que n&#227;o cabem juntas: quanto mais voc&#234; fortalece o crit&#233;rio, mais se aproxima da posi&#231;&#227;o que pretende evitar; quanto mais o enfraquece, mais Gettier volta para o atormentar aqui.</em></p><p><strong>Comento: </strong>evito o escrituralismo tal como voc&#234; o definiu &#8212; ainda preciso ir a Gordon Clark para ver por mim mesmo, e estou ansioso por faz&#234;-lo &#8212; justamente pelo fato de que eu n&#227;o consigo concordar com suas conclus&#245;es, a saber, que a cren&#231;a de que estou escrevendo estas notas n&#227;o passa de uma mera opini&#227;o &#8212; verdadeira, mas ainda assim uma mera opini&#227;o. Se uma teoria me resulta que eu tenha que descartar essa cren&#231;a como candidata a conhecimento, tenho aqui uma raz&#227;o para desconfiar dela, n&#227;o importa que continuemos a atribuir veracidade &#224; cren&#231;a. Estou injustificado em mant&#234;-la, e as suas utilidades pr&#225;ticas n&#227;o ser&#227;o motivo suficiente para continuar crendo nela, da mesma forma que um evolucionista naturalista tem um anulador poderoso o bastante para injustificar todas e quaisquer cren&#231;as que ele possa vir a ter com base naquelas faculdades criadas pelo processo evolucion&#225;rio cego. Esse &#233;, inclusive, o argumento evolucionista contra o naturalismo, de Alvin Plantinga. Outro caso an&#225;logo: a distin&#231;&#227;o entre n&#250;meno e fen&#244;meno em Immanuel Kant se baseia nas famosas antinomias, que s&#227;o casos em que duas teses antit&#233;ticas podem ser igualmente demonstradas com argumentos igualmente poderosos. A solu&#231;&#227;o de Kant &#233; que essas teses e argumentos n&#227;o se referem ao mundo das <em>Dinge an sich</em>, das coisas tais como s&#227;o em si mesmas &#8212; caso em que haveriam contradi&#231;&#245;es verdadeiras &#8212;, mas ao mundo dos fen&#244;menos, que s&#227;o transcendentalmente ideias (dependem de n&#243;s para que tenham realidade e estrutura), ainda que sejam empiricamente reais. Os exemplos de antinomias que Kant nos fornece s&#227;o bem fracos, na verdade, mas h&#225; outros casos surpreendentemente fortes, como os paradoxos inspirados no paradoxo de Russel envolvendo conjuntos e predicados. Embora reconhe&#231;a o poder desses paradoxos, n&#227;o estou nem um pouco inclinado a aceitar uma teoria t&#227;o esdr&#250;xula como o idealismo transcendental de Kant. O mais prov&#225;vel &#233; que quem prop&#245;e isso se sinta simplesmente maravilhado pela mera beleza e poder intelectual que dessa teoria parecem emanar, o que n&#227;o constitui grande raz&#227;o para que as outras pessoas &#8212; aquelas que ficam mais impressionadas com a incoer&#234;ncia da imagem do que com a sua beleza &#8212; a aceitem.</p><p>IB. Sem falar que um sistema internamente coerente, com todas as suas proposi&#231;&#245;es sendo deduzidas validamente de um conjunto finito de axiomas &#8212; talvez de um s&#243; axioma &#8212;, n&#227;o necessariamente o torna um sistema verdadeiro &#8212; nem mesmo mais provavelmente verdadeiro que outros &#8212;, mas apenas um sistema muito bem internamente organizado. E, o pouco que sei de escrituralismo por nossas conversas, essa parece ser uma tese do sistema. Corrija&#8211;me se estiver errado. A coer&#234;ncia interna entre as partes de um todo n&#227;o equivale &#224; verdade e, portanto, n&#227;o pode ser crit&#233;rio para se escolher uma teoria em detrimento da outra. Na verdade, se esse n&#227;o fosse o caso, ter&#237;amos uma multiplica&#231;&#227;o infinita de universos &#8212; um verdadeiro multiverso &#8212;, pois todos os mundos poss&#237;veis s&#227;o internamente coerentes, maximamente consistentes, mas, nem por isso, atuais. Mesmo na Matem&#225;tica, a exist&#234;ncia de um sistema formal rigorosamente axiomatizado n&#227;o implica que todas as verdades relevantes possam ser obtidas dentro dele; &#233; justamente isso que os teoremas da incompletude de G&#246;del tornam manifesto. Se coer&#234;ncia interna absoluta implicasse verdade, ter&#237;amos que v&#225;rias das proposi&#231;&#245;es da Matem&#225;tica seriam, no m&#237;nimo, extremamente problem&#225;ticas, em virtude de sua funda&#231;&#227;o. N&#227;o apenas isso, ter&#237;amos que as proposi&#231;&#245;es de ordem l&#243;gico&#8211;lingu&#237;sticas tamb&#233;m possuiriam um problema fundamental, pois sabemos dos diversos paradoxos que surgem dentro da estrutura interna desses sistemas. Considere um predicado <em>P</em> que predica apenas aqueles predicados que n&#227;o se predicam, o que &#233; uma varia&#231;&#227;o do paradoxo de Russel envolvendo predicados. Pergunta: <em>P</em> predica a si mesmo? Se sim, ent&#227;o n&#227;o; se n&#227;o, ent&#227;o sim. E o que falar dos sistemas l&#243;gicos n&#227;o&#8211;aristot&#233;licos, como a l&#243;gica para&#8211;consistente, que relativiza o princ&#237;pio da n&#227;o contradi&#231;&#227;o em alguns casos sem com isso incorrer no princ&#237;pio da explos&#227;o? Tudo isso &#233; suficiente para rejeitar os sistemas da matem&#225;tica, l&#243;gica, lingu&#237;stica e tantos outros que, n&#227;o apenas n&#227;o s&#227;o internamente coerentes, como tamb&#233;m cont&#233;m poss&#237;veis paradoxos, como conhecimento? Claro que n&#227;o! Tornam, ent&#227;o, menos verdadeiros? Tamb&#233;m n&#227;o. &#201; essa extrapola&#231;&#227;o indevida que evito. No caso do paradoxo de Russel, a solu&#231;&#227;o &#233; simples: reformular a teoria ing&#234;nua de conjuntos para Zermelo&#8211;Fraenkel para n&#227;o se ter essas implica&#231;&#245;es. Em suma, os custos do escrituralismo me parecem ser maiores do que os benef&#237;cios. Por isso n&#227;o consigo aceit&#225;&#8211;lo.</p><p><strong>II. Sobre:</strong> Seu primeiro exemplo merece come&#231;ar pelo detalhe mais elementar, justamente porque ele ilustra o problema maior... etc.,</p><p><strong>Comento:</strong> Em meu texto disse que "Smith acredita, com a justifica&#231;&#227;o em um c&#225;lculo matem&#225;tico errado, que (A) &#8220;173 &#233; um n&#250;mero primo&#8221; &#233; uma proposi&#231;&#227;o falsa.&#8221; Ou seja, Smith acredita que &#8220;173 n&#227;o &#233; um n&#250;mero primo&#8221;. Seu coment&#225;rio foi: &#8220;Voc&#234; escreve que a proposi&#231;&#227;o A, &#8220;173 &#233; um n&#250;mero primo&#8221;, &#233; falsa porque Smith errou o c&#225;lculo; ocorre que 173 &#233; primo. Se sua inten&#231;&#227;o era dizer que Smith acredita falsamente que 173 n&#227;o &#233; primo, ent&#227;o a cren&#231;a relevante seria &#8220;173 n&#227;o &#233; primo&#8221;, enquanto a proposi&#231;&#227;o A que voc&#234; escreveu continuaria sendo outra.&#8221; &#211;bvio que a primeira op&#231;&#227;o &#8212; &#8220;173 &#233; um n&#250;mero primo&#8221; &#233; uma proposi&#231;&#227;o falsa &#8212; n&#227;o &#233; a que estou intencionando. Ent&#227;o a frase &#8220;a proposi&#231;&#227;o A, &#8220;173 &#233; um n&#250;mero primo&#8221;, &#233; falsa porque Smith errou o c&#225;lculo" n&#227;o faz sentido algum. Quanto &#224; segunda op&#231;&#227;o, fiz a observa&#231;&#227;o que Smith acredita que a proposi&#231;&#227;o &#8220;173 &#233; um n&#250;mero primo&#8221; &#233; uma proposi&#231;&#227;o falsa, resumindo em (A). E (A), ajuntei em (i), &#233; falsa, pois 173 &#233; um n&#250;mero primo. H&#225; aqui uma distin&#231;&#227;o sutil: um aspecto dox&#225;stico e um aspecto proposicional. "Smith acredita que a proposi&#231;&#227;o &#8220;173 &#233; um n&#250;mero primo&#8221; &#233; uma proposi&#231;&#227;o falsa com base em um c&#225;lculo errado&#8221; &#233; o aspecto dox&#225;stico, o qual implica a proposi&#231;&#227;o &#8220;173 n&#227;o &#233; um n&#250;mero primo&#8221;. &#8220;173 &#233; um n&#250;mero primo&#8221; &#233; o aspecto proposicional, que est&#225; dentro do contexto dox&#225;stico maior. Mas confesso que meu texto p&#244;de soar muito d&#250;bio nessas regi&#245;es. Em minha mente, (A), por conter o aspecto dox&#225;stico, deveria ser lido: &#8220;173 n&#227;o &#233; um n&#250;mero primo&#8221;. Vou entender sua frustra&#231;&#227;o, ainda assim, e prefiro conceder que errei na exposi&#231;&#227;o, pois n&#227;o d&#225; para fazer que o outro leia do mesmo jeito o texto que o escritor dele, mas, em termos te&#243;ricos, n&#227;o acredito que tenha errado &#8212; pelo menos se o texto for entendido adequadamente. Se errei, errei em ter digitado &#8220;137&#8221; em lugar de &#8220;173&#8221; em (B), mas, acredito, o contexto talvez sugerisse que foi desaten&#231;&#227;o da minha parte, o que voc&#234; percebeu em seguida.</p><p><strong>III. Sobre:</strong> <em>Se a palavra justifica&#231;&#227;o significar &#8220;um processo que parece razo&#225;vel ao sujeito, embora possa conter erro&#8221;, o seu exemplo funciona contra essa no&#231;&#227;o fal&#237;vel de justifica&#231;&#227;o; concedido. Essa, por&#233;m, nunca foi a justifica&#231;&#227;o que estou defendendo.</em></p><p><strong>Comento:</strong> partimos de dois axiomas fundamentalmente distintos aqui. N&#227;o tanto porque minha no&#231;&#227;o de justifica&#231;&#227;o &#8212; prefiro a no&#231;&#227;o de aval &#8212; &#8220;seja [a de] um processo que parece razo&#225;vel ao sujeito, embora possa conter erro&#8221;, quanto pelo fato de voc&#234; desconsiderar como conhecimento cren&#231;as contingentemente verdadeiras, que n&#227;o podem ser simplesmente derivadas rigorosamente do axioma a que voc&#234; parte. Estou escrevendo estas notas e creio nisso &#8212; que estou escrevendo estas notas; acredito que cumpro as condi&#231;&#245;es do aval, tanto do maxiambiente quanto dos miniambientes epist&#234;micos; assim, minha cren&#231;a &#233; avalizada e, acredito, verdadeira; n&#227;o consigo ver quaisquer anuladores bem sucedidos dessa cren&#231;a. Ent&#227;o julgo que tenho conhecimento. A perspectiva de que uma cren&#231;a n&#227;o dedutivamente derivada de uma base certa n&#227;o pode constituir conhecimento &#233;, ela pr&#243;pria, uma tese filos&#243;fica, que deve ser devidamente demonstrada. Quanto a mim, mostrei como uma cren&#231;a desse tipo pode ser conhecimento &#8212; caso cumpra as condi&#231;&#245;es do aval, seja verdadeira e n&#227;o tenha anuladores bem sucedidos. Cito, mais uma vez, um trecho de Thomas Reid:</p><p>&#8220;O c&#233;tico me pergunta: &#8216;Por que voc&#234; acredita na exist&#234;ncia do objeto externo que voc&#234; percebe?&#8217;. Essa cren&#231;a, senhor, n&#227;o &#233; da minha lavra. Veio da forja da Natureza, conserva a sua imagem e assinatura e, se n&#227;o for correta, a culpa n&#227;o &#233; minha: tudo o que fiz foi confiar nela, e sem suspeita. A raz&#227;o, diz o c&#233;tico, &#233; o &#250;nico juiz da verdade, e dever&#237;amos renunciar a toda opini&#227;o e toda cren&#231;a que n&#227;o se fundamentam na raz&#227;o. Mas por que haveria eu, senhor, de acreditar na faculdade da raz&#227;o mais do que na da percep&#231;&#227;o? Ambas vieram da mesma oficina e foram criadas pelo mesmo artes&#227;o; e se ele p&#244;s um peda&#231;o de material falso nas minhas m&#227;os, o que o impediria de p&#244;r no outro?&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a></p><p>IIIB. Mais um exemplo de como uma cren&#231;a, que n&#227;o &#233; derivada de um axioma certo atrav&#233;s de um racioc&#237;nio silog&#237;stico, pode ser caso de conhecimento, de maneira apropriadamente b&#225;sica: sabemos que h&#225; proposi&#231;&#245;es que expressam meramente uma atitude de cren&#231;a para com uma proposi&#231;&#227;o, como &#8220;Eu acredito na proposi&#231;&#227;o (A): h&#225; uma &#225;rvore diante de mim&#8221;. Podemos inclusive destrinchar duas proposi&#231;&#245;es que comp&#245;e essa esp&#233;cie de proposi&#231;&#227;o:</p><p>P. H&#225; uma &#225;rvore diante de mim;</p><p>Q. Eu acredito que P. </p><p>Perceba que estamos considerando Q, n&#227;o P <em>simpliciter</em>. Primeiro: o valor de verdade desse tipo de proposi&#231;&#227;o n&#227;o depende do valor de verdade da proposi&#231;&#227;o crida, ou seja, em vias de ser uma proposi&#231;&#227;o verdadeira, Q n&#227;o depende da veracidade de P. Isso &#233; &#243;bvio, pois P pode ser falsa, n&#227;o havendo nenhuma &#225;rvore diante de mim por eu ser um c&#233;rebro de Boltzmann. Mas, ainda que eu seja um c&#233;rebro de Boltzmann e n&#227;o haja nenhuma &#225;rvore diante de mim, claro est&#225; que eu acredito haver uma &#225;rvore diante de mim. Segundo: uma proposi&#231;&#227;o desse tipo &#233; descritiva, pois ela descreve minha atitude de cren&#231;a para com uma proposi&#231;&#227;o particular; ela descreve, portanto, um estado de coisas dox&#225;sticas. Terceiro: ela n&#227;o parece ser a conclus&#227;o de uma infer&#234;ncia a partir de certas premissas mais fundamentais, pois, nesse caso, ter&#237;amos o estranho caso de eu n&#227;o saber que creio em algo antes de realizar o racioc&#237;nio silog&#237;stico. Esse terceiro ponto &#233; muito importante. Eu n&#227;o acredito que acredito que h&#225; uma &#225;rvore diante de mim, portanto Q, com base em uma infer&#234;ncia a partir de proposi&#231;&#245;es mais b&#225;sicas. &#201; uma atitude de cren&#231;a n&#227;o&#8211;silog&#237;stica. Quarto: n&#227;o parece ser verdade que Q seja uma mera opini&#227;o verdadeira, mas um caso de conhecimento: eu conhe&#231;o, sem que precise de um racioc&#237;nio argumentativo anterior, o meu pr&#243;prio estado de coisas dox&#225;sticas. Perceba duas coisas: (i) Q n&#227;o &#233; sujeito aos problema do tipo de Gettier, pois n&#227;o me parece poss&#237;vel Q ser uma proposi&#231;&#227;o verdadeira por mero acidente feliz; (ii) Q n&#227;o &#233; derivada de nenhuma proposi&#231;&#227;o mais b&#225;sica. Temos, ent&#227;o, uma cren&#231;a apropriadamente b&#225;sica que &#233; conhecimento.</p><p><strong>IV. Sobre:</strong> <em>Seu exemplo, portanto, repete a posi&#231;&#227;o por outro caminho, pois o problema de Gettier alcan&#231;a toda justifica&#231;&#227;o fal&#237;vel que permita uma separa&#231;&#227;o entre o fundamento da cren&#231;a e a verdade da proposi&#231;&#227;o, ainda que essa falibilidade apare&#231;a num c&#225;lculo em vez de numa sensa&#231;&#227;o. Se um c&#225;lculo fal&#237;vel for tratado como fundamento suficiente, a sorte pode entrar. Se uma mem&#243;ria fal&#237;vel for tratada como fundamento suficiente, a sorte pode entrar. Se uma faculdade cognitiva fal&#237;vel for tratada como fundamento suficiente, a sorte pode entrar.</em></p><p><strong>Comento:</strong> H&#225; duas coisas aqui: Em primeiro lugar, voc&#234; parece reduzir Gettier a uma mera tautologia, como disse em minhas respostas anteriores. &#8220;O problema de Gettier alcan&#231;a toda justifica&#231;&#227;o fal&#237;vel que permita uma separa&#231;&#227;o entre o fundamento da cren&#231;a e a verdade da proposi&#231;&#227;o&#8221; &#233; uma tautologia, pois esse problema n&#227;o alcan&#231;aria uma suposta justifica&#231;&#227;o infal&#237;vel, devido justamente a sua infalibilidade. &#201; &#243;bvio que o problema de Gettier est&#225; l&#225; onde h&#225; falibilidade. Isso, no entanto, n&#227;o prova o seu ponto nem representa o que Gettier tem em vista em sua cr&#237;tica, a meu ver. N&#227;o representa porque uma tautologia n&#227;o &#233; uma explica&#231;&#227;o, n&#227;o fornece conte&#250;do novo ao nosso conjunto de cren&#231;as, pois &#233; n&#227;o saber algo a mais saber que um casado n&#227;o &#233; um solteiro, e &#233; geralmente concedido que os problemas de Gettier acrescentaram informa&#231;&#227;o ao nosso conjunto de informa&#231;&#245;es; n&#227;o prova porque voc&#234; pressup&#245;e &#8212; ou parece pressupor &#8212; que falibilidade equivale &#224; falibilidade necess&#225;ria. E aqui est&#225; o segundo ponto: voc&#234; diz &#8212; e eu concordo &#8212; que, &#8220;Se um c&#225;lculo fal&#237;vel for tratado como fundamento suficiente, a sorte pode entrar. Se uma mem&#243;ria fal&#237;vel for tratada como fundamento suficiente, a sorte pode entrar. Se uma faculdade cognitiva fal&#237;vel for tratada como fundamento suficiente, a sorte pode entrar.&#8221; Perceba o seu salto l&#243;gico: de &#8220;se... pode&#8221;, voc&#234; conclui &#8220;&#233; certo que...&#8221; Amanh&#227; eu posso morrer; isso n&#227;o significa que amanh&#227; eu irei morrer. De novo, voc&#234; precisa demonstrar que todas as teorias que partem de uma justifica&#231;&#227;o fal&#237;vel &#8212; prefiro, mais uma vez, a no&#231;&#227;o de aval &#8212; s&#227;o insuficientes em todos os mundos poss&#237;veis e que, portanto, s&#243; uma justifica&#231;&#227;o infal&#237;vel &#233; que garante o conhecimento. N&#227;o confunda &#8220;justifica&#231;&#227;o fal&#237;vel&#8221; com a teoria espec&#237;fica da justifica&#231;&#227;o criticada por Gettier. &#201; por isso que venho enfatizando sempre que prefiro a no&#231;&#227;o de aval.</p><p><strong>V. Sobre:</strong> <em>H&#225; uma diferen&#231;a enorme entre dizer que um racioc&#237;nio &#233; a priori e dizer que ele &#233; v&#225;lido. Um erro formal cometido sem consulta aos sentidos continua sendo erro. A express&#227;o a priori n&#227;o asperge &#225;gua benta sobre uma fal&#225;cia a purificando.</em></p><p><strong>Comento:</strong> Formulei os exemplos <em>a priori</em> para esclarecer que os problemas do tipo Gettier n&#227;o se restringem &#224;s cren&#231;as derivadas a partir da experi&#234;ncia, o que me pareceu ter sido a sua interpreta&#231;&#227;o em respostas anteriores. Esse foi meu objetivo com estes dois casos.</p><p><strong>VI. Sobre:</strong> Quanto ao elo que falta em sua lista, trata-se da implica&#231;&#227;o, isto &#233;, da rela&#231;&#227;o pela qual a conclus&#227;o segue necessariamente das premissas.</p><p><strong>Comento:</strong> em minha resposta original, n&#227;o estava tentando explicar como, em sua vis&#227;o, d&#225;&#8211;se o conhecimento, mas <em>o que</em> <em>significa</em> <em>dizer</em> que Smith erra por n&#227;o haver elo entre o fundamento e a proposi&#231;&#227;o crida. Dei, ent&#227;o, tr&#234;s op&#231;&#245;es poss&#237;veis: (i) que a proposi&#231;&#227;o crida n&#227;o dizia respeito ao objeto, ao referente; (ii) que o elo, por ser muito fr&#225;gil, impossibilita o conhecimento ou (iii) o torna mais improv&#225;vel. N&#227;o consigo ver outras possibilidades. Rejeitei (i) e (iii) como a <em>sua</em> vis&#227;o: (i) por ser patentemente falsa, a menos que estejamos prontos para incorrer no idealismo transcendental de Kant; (iii) pelo fato de ser insuficiente para mostrar que o conhecimento, nessas condi&#231;&#245;es, &#233; imposs&#237;vel. (iii) apenas afirmar ser o conhecimento improv&#225;vel, n&#227;o imposs&#237;vel. Por isso, pela for&#231;a da proposi&#231;&#227;o, considerei (ii). Voc&#234; escreve: &#8220;Quanto ao elo que falta em sua lista, trata-se da implica&#231;&#227;o, isto &#233;, da rela&#231;&#227;o pela qual a conclus&#227;o segue necessariamente das premissas.&#8221; Se estiver certo, voc&#234; est&#225; tratando aqui de como o conhecimento &#233; obtido &#8212; atrav&#233;s &#8220;da rela&#231;&#227;o pela qual a conclus&#227;o segue necessariamente das premissas&#8221;. Se for isso, ent&#227;o estamos operando em dois n&#237;veis diferentes. </p><p>VIB. Fa&#231;o uma observa&#231;&#227;o importante aqui&#8212; em sua teoria do conhecimento. Voc&#234; diz: &#8220;Quando uma conclus&#227;o segue validamente de premissas verdadeiras, sua verdade deixa de ser uma quest&#227;o de probabilidade em rela&#231;&#227;o a essas premissas; a necessidade decorre da forma v&#225;lida e da verdade do conte&#250;do assumido.&#8221; Mas a l&#243;gica n&#227;o estabelece a verdade material das proposi&#231;&#245;es, apenas a validade dos silogismos constru&#237;dos. Voc&#234; ainda precisa demonstrar a veracidade das premissas para obter a conclus&#227;o. &#8220;Se todos os homens s&#227;o mortais e S&#243;crates &#233; homem, &#8220;S&#243;crates &#233; mortal&#8221; n&#227;o recebe setenta, oitenta ou noventa e nove por cento de apoio&#8221; &#8212; concordo, mas a certeza n&#227;o &#233; pr&#243;pria do conte&#250;do das proposi&#231;&#245;es, mas da forma do silogismo. Tamb&#233;m &#233; certo o seguinte silogismo: &#8220;Se a lua &#233; feita de queijo, ent&#227;o Deus existe; a lua &#233; feita de queijo; ent&#227;o, Deus existe&#8221;. &#201; claro que uma conclus&#227;o extra&#237;da validamente de premissas verdadeiras pode ser caso de conhecimento; deduzida rigorosamente, de maneira necess&#225;ria, digamos que seja de fato conhecimento. Mas voc&#234; n&#227;o pode simplesmente assumir a veracidade dessas premissas. E, no entanto, o que voc&#234; ter&#225; ser&#225; uma regress&#227;o infinita de premissas compostas sendo estabelecidas com base em premissas mais simples; ou voc&#234; chegar&#225; em um axioma irredut&#237;vel, a partir do qual voc&#234; extrair&#225; aquelas outras premissas. E essa &#250;ltima op&#231;&#227;o n&#227;o necessariamente significa um axioma <em>prima facie</em> verdadeiro &#8212; &#233; poss&#237;vel que voc&#234; pare em uma ponto irredut&#237;vel que n&#227;o seja uma proposi&#231;&#227;o necessariamente verdadeira. Mas veja que o que voc&#234; tem aqui &#233; apenas coer&#234;ncia interna, validade silog&#237;stica, n&#227;o verdade. &#201; a&#237; que entram as cren&#231;as apropriadamente b&#225;sicas de Plantinga: n&#227;o preciso demonstrar dedutivamente a veracidade da minha cren&#231;a sobre o mundo externo para que ela seja conhecimento, at&#233; porque isso &#233; impratic&#225;vel. Ela &#233; uma cren&#231;a apropriadamente b&#225;sica sobre a qual eu extraio outras cren&#231;as, as quais, pelo crit&#233;rio da transitividade do aval, s&#227;o tamb&#233;m avalizadas. Lembre&#8211;se que o aval &#233; suficiente para tornar uma cren&#231;a apropriadamente b&#225;sica e que seja verdadeira em um caso de conhecimento, mas nem todas as cren&#231;as s&#227;o apropriadamente b&#225;sicas. E, como disse, h&#225; axiomas que, embora n&#227;o sejam necessariamente verdadeiros, como os princ&#237;pios fundantes da l&#243;gica aristot&#233;lica, servem, em muitos sistemas, como as bases de constru&#231;&#227;o dos mesmos. Esses axiomas s&#227;o especialmente contemplados pela teoria epistemol&#243;gica de Plantinga. H&#225; alguns argumentos para se chegar &#224; conclus&#227;o de que o tempo, por exemplo, &#233; uma caracter&#237;stica fundamental do mundo e que as categorias de passado, presente e futuro s&#227;o objetivas, n&#227;o meras ilus&#245;es da mente humana. Esse &#233;, de forma resumida, o n&#250;cleo da teoria A do tempo ou S&#233;rie A de John McTaggart, embora ele n&#227;o a aceitasse essa teoria. Creio, no entanto, que o devir temporal &#233; uma caracter&#237;stica objetiva do mundo de maneira apropriadamente b&#225;sica, sem que precise, para tanto, fornecer um conjunto de argumentos silog&#237;sticos, assim como n&#227;o preciso faz&#234;-lo para acreditar que minha mem&#243;ria &#233; uma faculdade cognitiva confi&#225;vel e que me fornece conhecimento sobre meu passado. Essa &#233; a posi&#231;&#227;o assumida por William Lane Craig.</p><p>VIC. Voc&#234; escreve: &#8220;Gettier &#233; devastador contra teorias que chamam de conhecimento uma cren&#231;a cuja justifica&#231;&#227;o pode estar satisfeita enquanto a verdade entra por outra porta, e nisso concordamos. O que n&#227;o se segue &#233; que toda teoria poss&#237;vel de conhecimento tenha sido atingida.&#8221; Mas voc&#234; n&#227;o observa sua intui&#231;&#227;o de maneira perfeita, pois acredita que nenhuma epistemologia que n&#227;o seja &#8220;dedutiva&#8221; seja v&#225;lida. E mesmo que uma tal epistemologia seja a correta, isso n&#227;o significa que as outras n&#227;o o sejam, pois n&#227;o s&#227;o concorrentes. Voc&#234; escreve, ent&#227;o: &#8220;Para atingir uma epistemologia dedutiva, o caso teria de apresentar premissas infalivelmente verdadeiras, infer&#234;ncia v&#225;lida e uma conclus&#227;o verdadeira por mero acaso.&#8221; Considere este caso, que escrevi em outro texto:<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a> pense em um intelecto doxasticamente puro, ou seja, um intelecto que at&#233; ent&#227;o n&#227;o assumiu como verdadeira nenhuma proposi&#231;&#227;o, n&#227;o tendo, portanto, qualquer cren&#231;a, seja ela correta, seja incorreta.  Esse intelecto, ainda por cima, &#233; epistemicamente fal&#237;vel, ou seja, ele &#233; capaz de formar cren&#231;as falsas, ainda que tamb&#233;m &#8212; &#233; claro &#8212; cren&#231;as verdadeiras. Em algum momento na vida desse intelecto, surgiu&#8211;lhe a primeira proposi&#231;&#227;o: (A) &#8220;Eu posso contrair cren&#231;as falsas&#8221;. Veja que ele ainda n&#227;o teve nenhuma decis&#227;o dox&#225;stica, isto &#233;, ele ainda n&#227;o a considerou verdadeira ou falsa. H&#225; duas possibilidades de decis&#227;o: se ele a considera verdadeira e ela &#233; verdadeira, ent&#227;o ele tem uma cren&#231;a verdadeira, pois &#233; mesmo epistemicamente fal&#237;vel; se ele a considera falsa e ela &#233; verdadeira, ent&#227;o ele tem uma cren&#231;a falsa, embora a proposi&#231;&#227;o continue sendo verdadeira, sendo sua cren&#231;a falsa inclusive uma confirma&#231;&#227;o da proposi&#231;&#227;o. Digamos que ele escolheu a primeira op&#231;&#227;o: ele passa a acreditar na proposi&#231;&#227;o. Veja que a cren&#231;a desse intelecto na veracidade da proposi&#231;&#227;o em quest&#227;o &#233; infal&#237;vel em algum sentido, pois ele, se estiver certo, saber&#225; que &#233; epistemicamente fal&#237;vel; se, por&#233;m, estiver errado, sua cren&#231;a ainda ser&#225; correta, o que significa dizer que ele n&#227;o pode estar errado. Lembre&#8211;se que ele &#233; um intelecto doxasticamente puro, ou seja, (A) &#233; a sua primeira proposi&#231;&#227;o crida. Logo, o intelecto em quest&#227;o tem uma cren&#231;a infalivelmente verdadeira, pois n&#227;o pode estar errada em nenhum mundo poss&#237;vel dadas aquelas condi&#231;&#245;es, mas que n&#227;o &#233; conhecimento. Deixe&#8211;me esclarecer a situa&#231;&#227;o desse intelecto: em nenhum mundo poss&#237;vel ele pode estar errado ao acreditar em (A): se a proposi&#231;&#227;o for verdadeira, sua cren&#231;a ser&#225; correta; se for falsa, sua cren&#231;a ser&#225; correta, pois contraiu uma cren&#231;a falsa, (A). Mas, ainda assim, voc&#234; n&#227;o chamaria a cren&#231;a desse intelecto de conhecimento, chamaria?</p><p>VID. Meu texto original diz que, &#8220;Se h&#225; uma raz&#227;o para se acreditar na possibilidade de um conhecimento, por mais contingente que seja sua base, acredito que devemos observar a navalha de Ockham e preferir a tese mais simples, que, acredito, tem maior &#8212; ou igual &#8212; poder explicativo que sua ant&#237;tese.&#8221; Esse texto est&#225; dentro do contexto em que cito &#8220;o aparecimento de teorias causais, anulabilistas e evidencialistas, al&#233;m das propostas confiabilistas e externalistas posteriores a Gettier&#8221;. Voc&#234; separou o contexto do texto, o que, acredito, enfraqueceu a no&#231;&#227;o por detr&#225;s dele. Os fil&#243;sofos posteriores a Gettier n&#227;o descartaram a possibilidade de conhecimento do mundo externo, por exemplo; eles apenas foram atr&#225;s de outras teorias para fundamentar esse tipo de conhecimento, pois &#233; mais simples acreditar que &#8220;estou diante de uma &#225;rvore&#8221; &#233; conhecimento do que uma opini&#227;o incapaz de se tornar conhecimento devido aos mecanismos ocultos da forma&#231;&#227;o de cren&#231;as propostos pelo escrituralismo; &#233; mais simples acreditar que &#8220;estou escrevendo estas notas&#8221; pode ser um caso de conhecimento do que uma opini&#227;o interminavelmente impotente de conhecimento, pelo menos se Deus a n&#227;o a quiser purificar. E, de novo, n&#227;o entendo como uma cren&#231;a verdadeira formada pelos mesmos mecanismos que formam o conhecimento n&#227;o &#233; tamb&#233;m conhecimento ou n&#227;o pode s&#234;&#8211;lo: qual a diferen&#231;a concreta entre uma opini&#227;o verdadeira e o conhecimento nessa teoria? N&#227;o &#233; a origem, certamente. &#201; a vontade divina? Al&#233;m disso, se eu sei que uma determinada cren&#231;a &#233; uma mera opini&#227;o verdadeira, n&#227;o conhecimento, por que ainda mant&#234;-la? E esse meu conhecimento de que uma cren&#231;a &#233; uma mera opini&#227;o verdadeira &#233;, ele tamb&#233;m, uma mera opini&#227;o verdadeira ou conhecimento? Qual o crit&#233;rio para distinguir essas duas categorias? Ainda preciso ler mais sobre o escrituralismo para satisfazer essas minhas d&#250;vidas.</p><p><strong>VII. Sobre:</strong> <em>Eu olho para a mesa e digo: &#8220;h&#225; uma x&#237;cara diante de mim&#8221;; posso estar correto, e provavelmente estou, de modo que posso agir com base nisso, pegar a x&#237;cara, beber o caf&#233; e seguir a manh&#227; sem qualquer crise filos&#243;fica. Nada na posi&#231;&#227;o escrituralista me obriga a fingir que n&#227;o h&#225; mesa, caf&#233; ou janela, pelo contr&#225;rio, o testemunho divino da causa&#231;&#227;o cont&#237;nua e eficiente me garante seguran&#231;a.</em></p><p><strong>Comento:</strong> n&#227;o entendo a raz&#227;o por que isso n&#227;o consistiria conhecimento. N&#227;o h&#225; aparentemente, nessa teoria, muita diferen&#231;a entre opini&#227;o verdadeira e conhecimento. O que, acrescido &#224; opini&#227;o verdadeira, a torna conhecimento? Os decretos eternos de Deus? </p><p><strong>VIII. Sobre: </strong><em>Por qual fundamento eu transformo essa cren&#231;a em conhecimento infalivelmente certificado? Voc&#234; responde com uma faculdade cognitiva confi&#225;vel, e eu pergunto como sabe que ela foi confi&#225;vel neste caso; voc&#234; responde que estava em ambiente adequado, e eu pergunto como sabe que o ambiente era adequado; voc&#234; responde que a cren&#231;a &#233; verdadeira, e ent&#227;o pergunto como estabeleceu a verdade dela sem recorrer &#224; mesma faculdade cujo funcionamento est&#225; sendo avaliado.</em></p><p><strong>Comento:</strong> primeiro: rejeito a primeira parte do texto, pois n&#227;o acredito ser uma condi&#231;&#227;o necess&#225;ria do conhecimento garantir infalivelmente que uma cren&#231;a seja conhecimento a partir de algum fundamento anterior. Voc&#234; precisa demonstrar que essa condi&#231;&#227;o &#233; necess&#225;ria, uma vez que essa intui&#231;&#227;o nem de longe &#233; t&#227;o evidente que possa passar sem um argumento para base&#225;&#8211;la. Mas n&#227;o acredito que isso &#233; poss&#237;vel de ser realizado; &#233;, pelo menos, uma impossibildade epist&#234;mica, a meu ver. Segundo: sejam as proposi&#231;&#245;es:</p><p>P. H&#225; uma &#225;rvore diante de mim;</p><p>Q. Eu acredito que P.</p><p>Como vimos, Q expressa uma cren&#231;a apropriadamente b&#225;sica: ela n&#227;o &#233; a conclus&#227;o de um silogismo. Acredito que minha faculdade de forma&#231;&#227;o de cren&#231;as &#233; confi&#225;vel o bastante para que eu assuma Q como verdadeira. Se n&#227;o fosse, n&#227;o poderia assumir Q, pois ent&#227;o teria um anulador de Q. Ou seja, a pr&#243;pria cren&#231;a na confiabilidade das faculdades cognitivas &#233; uma cren&#231;a apropriadamente b&#225;sica, pois toda argumenta&#231;&#227;o &#8212; tamb&#233;m a sua n&#227;o menos que a minha &#8212; a pressup&#245;e como dado fundamental. Ela n&#227;o &#233;, contudo, um axioma l&#243;gico&#8211;matem&#225;tico.</p><p>Terceiro: voc&#234; parece importar para uma l&#243;gica externalista, que prev&#234; condi&#231;&#245;es do conhecimento que n&#227;o est&#227;o dentro do poder do sujeito manipular, uma l&#243;gica n&#227;o&#8211;externalista, julgando, assim, a teoria a partir do ponto de vista de uma teoria contr&#225;ria. De modo que sua pergunta &#8220;eu pergunto como sabe que o ambiente era adequado&#8221; &#233; inv&#225;lida a partir dos princ&#237;pios externalistas. Voc&#234; pode querer demonstrar a falsidade do externalismo ou mesmo a veracidade da sua pr&#243;pria perspectiva, mas, at&#233; l&#225;, esse tipo de racioc&#237;nio continua sendo peti&#231;&#227;o de princ&#237;pio.</p><p>Quarto: se eu partisse do seu ponto de vista, n&#227;o seria poss&#237;vel acreditar em absolutamente nenhuma proposi&#231;&#227;o, pois todas as cren&#231;as surgem dessas faculdades cognitivas, e toda tentativa de &#8220;mostrar&#8221; sua confiabilidade a pressuporia. Mais uma vez, minha atitude de cren&#231;a para com a confiabilidade das minhas faculdades &#233; exatamente o tipo de cren&#231;a que mais poderia reclamar a si o direito de ser apropriadamente b&#225;sica. Voc&#234; pressup&#245;e que isso n&#227;o pode ser feito, por isso escreve: &#8220;voc&#234; responde que a cren&#231;a &#233; verdadeira, e ent&#227;o pergunto como estabeleceu a verdade dela sem recorrer &#224; mesma faculdade cujo funcionamento est&#225; sendo avaliado.&#8221; Mas calculo que voc&#234; ter&#225; de mostrar a raz&#227;o por que isso n&#227;o pode ser feito. Voc&#234; acrescenta: &#8220;N&#227;o existe fundamenta&#231;&#227;o para crer nessa faculdade cognitiva, ambiente adequado ou cren&#231;a verdadeira, porque tudo isso foi postulado axiomaticamente e falha nesse ponto.&#8221; Talvez n&#227;o haja da perspectiva de uma epistemologia dedutiva, o que n&#227;o me faz aceit&#225;&#8211;la; muito pelo contr&#225;rio, esse fato me faz rejeit&#225;&#8211;la e buscar outras teorias que me fa&#231;am conservar o conhecimento l&#225; onde n&#227;o &#233; poss&#237;vel deduzir rigorosamente uma conclus&#227;o a partir de algumas premissas.</p><p><strong>IX</strong>. De fato, &#8220;Um homem pode sentir certeza absoluta de uma lembran&#231;a falsa; outro pode hesitar diante de uma demonstra&#231;&#227;o correta. A for&#231;a com que a mente aperta uma cren&#231;a n&#227;o mede a verdade da cren&#231;a.&#8221; No entanto, n&#227;o parece razo&#225;vel que eu esteja errado ao acreditar que eu acredito na proposi&#231;&#227;o &#8220;H&#225; uma &#225;rvore diante de mim&#8221;. Sim, um homem pode sentir certeza absoluta de uma lembran&#231;a falsa, mas ele n&#227;o pode errar ao acreditar que se lembra disto ou daquilo; o mundo externo pode ser uma ilus&#227;o dos meus sentidos, mas a cren&#231;a de que estou vendo uma m&#227;o escrevendo estas notas &#233; incorrig&#237;vel para mim. </p><p>IXB. Concordo que &#8220;Voc&#234; n&#227;o pode transportar a certeza de uma proposi&#231;&#227;o para outra s&#243; porque ambas parecem &#243;bvias.&#8221; Ainda assim, posso reunir em um mesmo conjunto v&#225;rias esp&#233;cies de cren&#231;a que compartilham uma mesma caracter&#237;stica, e o chamo de conjunto das cren&#231;as apropriadamente b&#225;sicas. Creio que o passado &#233; t&#227;o antigo quanto me parece e n&#227;o posso provar dedutiva ou indutivamente isso, assim como acredito que o mundo externo &#233; objetivo e n&#227;o uma mera ilus&#227;o da minha mente; que h&#225; outras mentes al&#233;m da minha; que eu comi uma ma&#231;&#227; pela manh&#227; atrav&#233;s da mem&#243;ria, sem que possa tamb&#233;m provar, dedutiva ou indutivamente, nenhuma dessas cren&#231;as. </p><p>IXC. &#8220;Deus pode causar conhecimento inato na mente, e a Escritura nos informa que h&#225; conte&#250;dos desse tipo: o conhecimento de Deus, a consci&#234;ncia de sua lei e a racionalidade pela qual pensamos n&#227;o s&#227;o conclus&#245;es emp&#237;ricas fabricadas depois de muitas observa&#231;&#245;es, pois Deus manifesta, ensina e ilumina.&#8221; Eu teria muito cautela em importar para as Escrituras estruturas e teorias filos&#243;ficas posteriores, pois elas n&#227;o t&#234;m como objetivo nos fazer ensinar filosofia ou a exist&#234;ncia de ideias inatas, ou fundamentar o racionalismo em detrimento do empirismo etc.; elas contam uma hist&#243;ria, de como Deus criou o mundo e o redimiu em Jesus Cristo. Por isso elas devem ser lidas como o testemunho fiel da Historia da Salva&#231;&#227;o etc. Isso &#233; o que perpassa as Escrituras, &#233; uma importa&#231;&#227;o de objetivos outros pode fazer anuviar o seu ensino. Fazem isso muito ordinariamente os cat&#243;licos quando, a partir de dados isolados da estrutura maior da Historia da Salva&#231;&#227;o, deduzem inadvertidamente toda uma dogm&#225;tica, substituindo o centro das Escrituras ora pela periferia, ora por elementos que jamais estavam dentro dos seus limites.</p><p>IXD. Voc&#234; escreve: &#8220;Deus causa todo pensamento e garante como conhecimento aquilo que revela, aquilo que a revela&#231;&#227;o identifica como conhecimento inato e aquilo que segue validamente de proposi&#231;&#245;es garantidas.&#8221; E ent&#227;o explica que &#8220;Misturar causa&#231;&#227;o e garantia &#233; como dizer que, porque o mesmo professor escreveu no quadro uma pergunta e a resposta, ambas exercem a mesma fun&#231;&#227;o l&#243;gica.&#8221; Vou aceitar a especula&#231;&#227;o, mas n&#227;o consigo ver nela qualquer coer&#234;ncia ou raz&#227;o que me leve a adot&#225;&#8211;la.</p><p><strong>X. </strong>Voc&#234;<strong> </strong>faz uma s&#233;rie de perguntas e ent&#227;o acrescenta: &#8220;Se a resposta for outra opera&#231;&#227;o das mesmas faculdades, a confiabilidade &#233; usada para certificar a confiabilidade. Se a resposta for que o sujeito n&#227;o precisa saber, ent&#227;o o externalismo pode, no m&#225;ximo, permitir que um observador onisciente classifique de fora a cren&#231;a como conhecimento.&#8221; Primeiro: o confiabilismo n&#227;o se salva de algo parecido, pois precisa reconduzir todas as proposi&#231;&#245;es ao axioma infal&#237;vel assumido. Segundo: parece&#8211;me errado julgar uma teoria com casos pr&#225;ticos. E isso n&#227;o &#233; uma arbitrariedade da minha parte para defender minha vis&#227;o. Considere os paradoxos de Zen&#227;o, atrav&#233;s dos quais se fundamenta a teoria de seu mestre, Parm&#234;nides, a respeito da impossibilidade de movimento. Tomemos o seguinte paradoxo: para que um sujeito <em>S</em> sa&#237;a de um ponto <em>p<sub>1</sub></em><sub> </sub>para <em>p<sub>2</sub></em>, <em>S</em> precisa, primeiro, sair de <em>p<sub>1</sub></em><sub> </sub>at&#233; <em>p<sub>1/2</sub></em>. Acontece, por&#233;m, que, para sair de <em>p<sub>1</sub></em><sub> </sub>para <em>p<sub>1/2</sub></em>, <em>S</em> precisa passar atrav&#233;s de <em>p<sub>1</sub></em> para <em>p<sub>1/4</sub></em> e, para chegar em <em>p<sub>1/4</sub></em>, <em>S</em> precisa sair de <em>p<sub>1</sub></em><sub> </sub>para <em>p<sub>1/8</sub></em>, e assim sucessivamente, <em>ad infinitum</em>, de modo que a <em>S</em> &#233; imposs&#237;vel sair de <em>p<sub>1</sub></em><sub> </sub>at&#233; <em>p<sub>2</sub></em>. Logo, o movimento &#233; imposs&#237;vel. N&#227;o &#233;, por&#233;m, refutar o argumento mostrar que se &#233; capaz de mover a m&#227;o de um lado para o outro e concluir, a partir da&#237;, que o movimento &#233; poss&#237;vel sim. Deve&#8211;se mostrar que o argumento de Zen&#227;o possui algum erro ou que a teoria de Parm&#234;nides, que o argumento intenta demonstrar, &#233; falha em algum sentido. Forneci a voc&#234; como o conhecimento opera dentro de uma teoria confiabilista, mais especificamente da teoria do aval de Plantinga. Se essa teoria estiver certa, temos faculdades cognitivas que funcionam apropriadamente e que podem funcionar precisamente l&#225; onde elas funcionam corretamente etc. Se esse for o caso, crer na confiabilidade dessas faculdades prov&#233;m de uma faculdade confi&#225;vel, de modo que estar&#237;amos dentro dos nossos deveres epist&#234;micos em manter essa cren&#231;a. Se voc&#234; n&#227;o gosta dessa conclus&#227;o, talvez tenha de mostrar que a teoria n&#227;o funciona, n&#227;o simplesmente tentar reduzi&#8211;la a uma sofisticada peti&#231;&#227;o de princ&#237;pio. </p><p>XB. Voc&#234; continua: &#8220;Se a resposta for que o sujeito n&#227;o precisa saber, ent&#227;o o externalismo pode, no m&#225;ximo, permitir que um observador onisciente classifique de fora a cren&#231;a como conhecimento.&#8221; Mais uma vez, voc&#234; est&#225; lan&#231;ando cr&#237;ticas em um n&#237;vel da teoria pretendendo que elas alcancem outro n&#237;vel. H&#225; um n&#237;vel te&#243;rico e um n&#237;vel pr&#225;tico, casu&#237;stico. Ao levantar obje&#231;&#245;es contra o &#250;ltimo, voc&#234; n&#227;o necessariamente consegue estabelecer a falsidade do primeiro. Do ponto de vista te&#243;rico, &#233; poss&#237;vel saber quando o conhecimento ocorre dada a veracidade da epistemologia reformada; do ponto de vista pr&#225;tico, pode ser mais dif&#237;cil, o que n&#227;o significa impossibilidade. Se, por&#233;m, voc&#234; quer refutar a teoria, calculo que ter&#225; atacar a teoria. Voc&#234; ajunta: &#8220;[&#8230;] uma teoria pode descrever as condi&#231;&#245;es que, se satisfeitas, fariam de uma cren&#231;a um caso de conhecimento e ainda assim n&#227;o fornecer um fundamento epistemol&#243;gico ao conhecedor.&#8221; Pense no <em>sensus divinitatis</em>, uma suposta faculdade ou mecanismo cognitivo atrav&#233;s do qual, em muit&#237;ssimas circunst&#226;ncias, ao homem &#233; produzidas cren&#231;as acerca de Deus. &#201; sobre o <em>sensus divinitatis</em> que Plantinga argumenta que a cren&#231;a te&#237;sta, em geral, e a cren&#231;a crist&#227;, em particular, podem ser conhecimento. Essa faculdade cumpre as condi&#231;&#245;es <em>te&#243;ricas</em> do aval, de modo que, se real, &#233; fonte de conhecimento. Para descartar a cren&#231;a em Deus como conhecimento, o cr&#237;tico teria primeiro de mostrar que Deus n&#227;o existe ou que, se existe, Ele n&#227;o estaria preocupado em fornecer ao homem uma faculdade especial atrav&#233;s da qual ele forma cren&#231;as acerca d&#8217;Ele. Dois projetos, acredito, invi&#225;veis &#8212; ou, pelo menos, ainda n&#227;o realizados. Ou seja, voc&#234; tem as condi&#231;&#245;es do aval aplicadas a um caso particular, a cren&#231;a em Deus; voc&#234; s&#243; pode rejeitar a aplica&#231;&#227;o da teoria na pr&#225;tica se primeiro mostrou que a teoria falha.</p><p>XC. Voc&#234; escreve: &#8220;o que torna uma fun&#231;&#227;o apropriada?&#8221; Plantinga explica: &#8220;o cora&#231;&#227;o do leitor foi constitu&#237;do para funcionar de determinada maneira: por exemplo, a sua puls&#227;o deve ser cerca de 50 a 80 batimentos por minuto quando est&#225; em repouso (se tiver menos de 40 anos), atingindo o m&#225;ximo de 180 a 200 batimentos por minuto quando estiver fazendo um exerc&#237;cio realmente exigente. Se a sua pulsa&#231;&#227;o em repouso for de 160, ou se ele n&#227;o conseguir levar a sua pulsa&#231;&#227;o acima de 60 por mais que se exercite, &#233; porque o seu cora&#231;&#227;o n&#227;o est&#225; funcionando apropriadamente. (Por outro lado, um <em>p&#225;ssaro</em> cuja pulsa&#231;&#227;o em repouso seja de 160 poder&#225; ser perfeitamente saud&#225;vel.)&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a></p><p>XD. &#8220;O problema &#233; que o externalismo tenta salvar o conhecimento colocando parte decisiva de sua garantia num lugar ao qual o sujeito n&#227;o tem acesso e depois continua usando a palavra &#8220;conhecimento&#8221; como se a pergunta original tivesse sido respondida.&#8221; Veja que isso s&#243; seria um problema se o externalismo falhasse em assegurar razoavelmente a possibilidade de conhecimento ao colocar &#8220;parte decisiva de sua garantia num lugar ao qual o sujeito n&#227;o tem acesso&#8221;. Voc&#234; acredita que sim; eu, por&#233;m, acredito que n&#227;o. E, mais uma vez, trago &#224; mem&#243;ria a distin&#231;&#227;o entre um n&#237;vel te&#243;rico e um n&#237;vel pr&#225;tico/casu&#237;stico do sistema. Em n&#237;vel te&#243;rico, as condi&#231;&#245;es necess&#225;rias e, como creio, suficientes para o conhecimento &#8212; o aval, na perspectiva de Plantinga &#8212; est&#227;o dispon&#237;veis; em n&#237;vel casu&#237;stico, por&#233;m, pode ser que, em certas situa&#231;&#245;es, ser&#225; impratic&#225;vel a um sujeito confiar que est&#225; em posse de conhecimento se, para tanto, ele tiver de inspecionar o ambiente epist&#234;mico em que se encontra, para valid&#225;&#8211;lo como adequado. Al&#233;m disso, o ambiente em que me encontro agora &#8212; minha casa &#8212; me parece ser um ambiente epist&#234;mico adequado para a forma&#231;&#227;o de cren&#231;as verdadeiras: n&#227;o &#233;, portanto, como se estiv&#233;ssemos na atmosfera de Marte, sofrendo interfer&#234;ncia da radia&#231;&#227;o de um outro planeta e, consequentemente, formando cren&#231;as distorcidas.</p><p><strong>XI. Sobre:</strong> &#8220;Primeiro voc&#234; explica que, no externalismo, um sujeito pode perder conhecimento por fatores do ambiente cognitivo dos quais n&#227;o est&#225; consciente. Depois afirma que conhecimento est&#225; intimamente ligado ao cumprimento dos deveres racionais e que, se algu&#233;m cumprir as condi&#231;&#245;es do aval e possuir cren&#231;a verdadeira, estar&#225; dentro de suas responsabilidades racionais ao aceit&#225;-la como conhecimento.&#8221;</p><p><strong>Comento: </strong>n&#227;o acredito que haja qualquer contradi&#231;&#227;o aqui. Talvez haveria se eu partisse do mesmo ponto em que voc&#234; est&#225; partindo e tivesse de considerar que uma pessoa s&#243; est&#225; dentro dos seus direitos epist&#234;micos em acreditar em uma proposi&#231;&#227;o se, e somente se, tivesse de, todas as vezes, averiguar se cumpre as condi&#231;&#245;es do aval. De fato, a maior parte das minhas cren&#231;as &#233; formada sem que eu tenha consci&#234;ncia da teoria do aval de Plantinga, mas isso n&#227;o significa que ela n&#227;o continue funcionando por causa disso, da mesma forma que eu n&#227;o respiro conscientemente em todas as ocasi&#245;es, ainda que nem por isso morra sempre asfixiado. Como sempre, estava tomando caf&#233; sem prestar aten&#231;&#227;o nas condi&#231;&#245;es do aval e simplesmente estava tomando como &#243;bvio que tudo aquilo era real: perdi, por causa disso, o aval? N&#227;o! Agora, por&#233;m, consciente dos crit&#233;rios da forma&#231;&#227;o de uma cren&#231;a verdadeira que seja conhecimento, creio que as observo, de modo que julgo estar dentro dos meus direitos epist&#234;micos em sustentar a cren&#231;a de que, sim, &#233; o caso de eu estar bebendo caf&#233;, de que essa cren&#231;a constitui conhecimento. Ela cumpre as condi&#231;&#245;es do aval, e a pessoa que n&#227;o a considera conhecimento ter&#225; de me fornecer um bom anulador, ou mostrar que a cren&#231;a seja falsa ou que a teoria de Plantinga n&#227;o funciona.</p><p>XIB. Voc&#234; escreve: &#8220;Dizer que um crist&#227;o pode ser racionalmente inculp&#225;vel ao crer em Deus n&#227;o equivale a demonstrar que sua cren&#231;a &#233; conhecimento.&#8221; E o que Plantinga mostrou foi exatamente como um crist&#227;o pode ter conhecimento de maneira apropriadamente b&#225;sica, sem necessitar de argumentos silog&#237;sticos, em rela&#231;&#227;o &#224; exist&#234;ncia de Deus. Se Deus existe de fato, ent&#227;o muito provavelmente o crist&#227;o tem conhecimento sobre Ele, ainda que n&#227;o necessariamente via silogismo. H&#225; dois tipos tradicionais de obje&#231;&#245;es &#224; cren&#231;a em Deus: as obje&#231;&#245;es <em>de facto</em>, cujo objeto &#233; a exist&#234;ncia de Deus em si mesma &#8212; objeta&#8211;se, com argumentos, que Deus n&#227;o existe &#8212;, e as obje&#231;&#245;es <em>de jure</em>, cujo objeto n&#227;o depende da exist&#234;ncia ou n&#227;o de Deus, mas da pr&#243;pria cren&#231;a do crist&#227;o: a conclus&#227;o de uma obje&#231;&#227;o desse tipo &#233; sempre a de que h&#225; algo errado na cren&#231;a crist&#227; &#8212; algo que n&#227;o a sua falsidade &#8212; ou ent&#227;o que h&#225; algo de errado no crente crist&#227;o: a cren&#231;a ou o crente n&#227;o t&#234;m justifica&#231;&#227;o, ou s&#227;o irracionais, ou racionalmente inaceit&#225;veis, ou deixam a desejar de algum modo. Perceba, por&#233;m, que uma obje&#231;&#227;o <em>de jure</em>, para ser v&#225;lida, n&#227;o pode depender de uma obje&#231;&#227;o<em> de facto</em>. O projeto de Plantinga, no entanto, mostra que uma obje&#231;&#227;o <em>de jure</em>, que seja de fato <em>de jure</em>, n&#227;o pode ser feita contra a cren&#231;a crist&#227;, que, se Deus existe mesmo, o crente crist&#227;o pode ter conhecimento d&#8217;Ele e que, portanto, o c&#233;tico precisa, primeiro, mostrar que Deus n&#227;o existe. Mas a&#237; j&#225; n&#227;o temos mais obje&#231;&#227;o <em>de jure</em>, mas obje&#231;&#227;o <em>de facto</em>. Plantinga n&#227;o prova que Deus existe, mas prova que, se Deus existe, o crist&#227;o tem conhecimento n&#227;o&#8211;proposicional. O c&#233;tico, portanto, ter&#225; de provar que Deus n&#227;o existe para provar que o crist&#227;o n&#227;o tem conhecimento.</p><p>XIC. Voc&#234; escreve: &#8220;Se o projeto quer provar apenas que a f&#233; crist&#227; pode ser racional sem argumentos te&#237;stas, temos uma discuss&#227;o, por mais boba que seja. Se quer fornecer o fundamento pelo qual o crist&#227;o sabe que Deus existe, a pergunta pelo crit&#233;rio volta do come&#231;o.&#8221; Primeiro: essa discuss&#227;o nem de longe &#233; uma discuss&#227;o boba. Como disse na nota anterior, um dos tipos mais conhecidos de obje&#231;&#227;o &#224; cren&#231;a te&#237;sta e crist&#227; &#233; justamente a obje&#231;&#227;o de jure, que, se v&#225;lida, mostra que o te&#237;sta ou o crist&#227;o n&#227;o pode sustentar suas cren&#231;as, ainda que Deus exista mesmo. Marx e Freud argumentaram precisamente nessa dire&#231;&#227;o: Marx, que a cren&#231;a em Deus &#233; formada por faculdades cognitivas disfuncionais, reflexo de uma sociedade capitalista doentia; Freud, que a cren&#231;a em Deus &#233; formada por uma faculdade cuja fun&#231;&#227;o n&#227;o &#233; a produ&#231;&#227;o de cren&#231;as verdadeiras, mas a realiza&#231;&#227;o de desejos. Ambas as cr&#237;ticas n&#227;o partem da veracidade ou n&#227;o da cren&#231;a te&#237;sta ou crist&#227; e, por isso mesmo, s&#227;o mais poderosas que as obje&#231;&#245;es <em>de facto</em>, pois, mesmo que Deus possa existir, o te&#237;sta ou crist&#227;o n&#227;o pode crer nisso com base em suas faculdades doentias e disfuncionais (Marx) ou que n&#227;o objetivam a produ&#231;&#227;o de cren&#231;as verdadeiras (Freud). Segundo: o fundamento n&#227;o&#8211;proposicional/n&#227;o&#8211;silog&#237;stico &#233; justamente aquela faculdade que Jo&#227;o Calvino chama <em>sensus divinitatis</em>, que seria respons&#225;vel pela forma&#231;&#227;o no crente da cren&#231;a em Deus; h&#225; tamb&#233;m a instiga&#231;&#227;o interior do Esp&#237;rito Santo, que leva o crente te&#237;sta a abra&#231;ar as verdades espec&#237;ficas da f&#233; crist&#227;. Assim, atrav&#233;s do <em>sensus divinitatis</em> e da instiga&#231;&#227;o interna do Esp&#237;rito, o crist&#227;o pode estar seguro que tem conhecimento de Deus, ainda que n&#227;o disponha de argumentos para provar que Deus existe e que esse Deus &#233; Aquele que se revelou em Jesus Cristo.</p><p>XID. Voc&#234; sugere ent&#227;o que, &#8220;Quanto ao escrituralismo, ele n&#227;o pede licen&#231;a &#224; raz&#227;o aut&#244;noma para crer em Deus; come&#231;a com Deus falando, o que parece mais dogm&#225;tico apenas porque &#233; mais honesto sobre o primeiro princ&#237;pio.&#8221; Sua cr&#237;tica, contudo, n&#227;o &#233; apenas contra os que se apoiam numa raz&#227;o humana aut&#244;noma, mas inclusive contra os que defendem uma epistemologia reformada: &#8220;A diferen&#231;a &#233; que o crist&#227;o escrituralista n&#227;o esconde o seu come&#231;o dentro de express&#245;es como &#8220;fun&#231;&#227;o apropriada&#8221;, &#8220;senso comum&#8221; ou &#8220;faculdade confi&#225;vel&#8221;.&#8221; Mas isso seria uma contradi&#231;&#227;o com as pr&#243;prias bases da epistemologia reformada, cujo fundamento n&#227;o &#233; a raz&#227;o humana operando livre independentemente at&#233; chegar em Deus atrav&#233;s de argumentos, mas o <em>sensus divinitatis </em>em adi&#231;&#227;o ao testemunho do Esp&#237;rito Santo no cora&#231;&#227;o do crente. Chamar isso de racionalismo me parece um erro muito crasso: defendemos que o crente pode prescindir de argumenta&#231;&#227;o racional para crer em Deus e ter, ainda assim, conhecimento!</p><p><strong>XII. Sobre:</strong> <em>Voc&#234; diz que, se o monergismo fosse ampliado at&#233; o ocasionalismo, natureza e gra&#231;a se tornariam concorrentes. Mas concorr&#234;ncia exige dois agentes disputando o mesmo tipo de causalidade, e o ocasionalismo nega justamente essa duplicidade.</em></p><p><strong>Comento:</strong> o que me pareceu foi que o ocasionalismo surge depois que a rela&#231;&#227;o entre a natureza e gra&#231;a se tornam problem&#225;ticas, n&#227;o que a teoria em si promova concorr&#234;ncia entre esses dois princ&#237;pios. Mas veja que isso &#233; pior: voc&#234; previamente considera natureza e gra&#231;a concorrentes e, por isso, precisa anular uma para afirmar a outra. A mera possibilidade de uma causalidade secund&#225;ria &#233; equivalente a um poder causal divino em paralelo ao poder causal de Deus. Dizer que Deus governa todas as coisas, mesmo que atrav&#233;s de causas secund&#225;rias, n&#227;o significa que estamos atribuindo divindade aos aspectos naturais do mundo. Como G. W. Leibniz percebeu, Deus pode tra&#231;ar uma &#250;nica linha atrav&#233;s de uma infinidade de pontos dispostos em uma superf&#237;cie, por mais aleat&#243;rio que eles tenham sido desenhados. E Leibniz foi quem tamb&#233;m sugeriu que &#8220;as vontades ou a&#231;&#245;es de Deus dividem&#8211;se, comumente, em ordin&#225;rias e extraordin&#225;rias&#8221;, assegurando que &#8220;Deus nada faz fora da ordem. Assim, aquilo que &#233; tido por extraordin&#225;rio, o &#233; apenas relativamente a alguma ordem particular estabelecida entre as criaturas, pois quanto &#224; ordem universal, tudo nela est&#225; conforme.&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-4" href="#footnote-4" target="_self">4</a> E Wolfhart Pannenberg, usando no&#231;&#227;o parecida, defende a ideia de milagres como eventos incomuns que contradizem nossas concep&#231;&#245;es habituais do curso da natureza, mas n&#227;o a natureza em si mesma.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-5" href="#footnote-5" target="_self">5</a> A causalidade divina, portanto, n&#227;o anula as causas secund&#225;rias, mas as estabelece: elas n&#227;o s&#227;o concorrentes e, portanto, n&#227;o precisamos anul&#225;&#8211;las como poderes divinos paralelos ao poder de Deus.</p><p>XIIB. E nisso, &#233; claro, at&#233; voc&#234; concorda: &#8220;Por natureza n&#227;o devemos entender um segundo deus administrando uma parte do universo enquanto a gra&#231;a administra outra. &#8220;Natureza&#8221; &#233; o nome que damos &#224; ordem regular na qual Deus costuma agir.&#8221; A extrapola&#231;&#227;o at&#233; o ocasionalismo, por&#233;m, me parece injustificada se, como foi mostrado, podemos assegurar a soberania de Deus e a liberdade das causas secund&#225;rias. N&#227;o &#233; preciso dizer que as causas secund&#225;rias n&#227;o s&#227;o objetivas sob o pre&#231;o de negarmos a soberania de Deus, o que talvez pudesse enfraquecer Seu poder, que se preservaria &#250;nica e exclusivamente se neg&#225;ssemos a realidade daquelas. Deus &#233; um Rei que governa os Seus s&#250;ditos, t&#227;o pr&#243;ximos deles quanto se &#233; capaz, concretamente, e todas as coisas concorrem para cumprir Sua vontade, seja por obedi&#234;ncia, seja por rebeldia: se por rebeldia, Deus luta contra, fazendo que as a&#231;&#245;es das criaturas, por mais que intentassem outro fim, fossem conduzidas para o fim decretado por Deus. Para melhor entendimento desse ponto, veja o ponto XC.</p><p>XIIC. &#201; ent&#227;o que voc&#234; critica minha imagem da soberania de Deus como luta: &#8220;Na verdade, a sua alternativa cria uma dificuldade maior. Se Deus &#8220;luta contra a cria&#231;&#227;o em favor da cria&#231;&#227;o&#8221;, como voc&#234; escreve, precisamos perguntar de onde vem o poder contra o qual ele luta.&#8221; Para explicar o que quis dizer com aquela linguagem, preciso explicar algumas coisas de Louis Le Blanc de Beaulieu, cujo texto<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-6" href="#footnote-6" target="_self">6</a> sobre a remiss&#227;o dos pecados e culpa conden&#225;vel dos eleitos foi que me inspirou a us&#225;&#8211;la. Primeiro: Le Blanc explica no que consiste a remiss&#227;o dos pecados: &#8220;aquele que antes estava exclu&#237;do do favor de Deus e sujeito &#224;s puni&#231;&#245;es que a lei de Deus amea&#231;a aos transgressores deixa de estar nessa condi&#231;&#227;o.&#8221; Assim, o pecado faz duas coisas: (i) exclui o homem da gra&#231;a de Deus e (ii) o submete aos castigos que a justi&#231;a divina exige por uma ofensa desse tipo. Mas, &#8220;Quando tal d&#237;vida &#233; paga, e a pessoa deixa de estar sujeita &#224;s puni&#231;&#245;es que a justi&#231;a divina reivindica dos pecadores, diz-se que os pecados dessa pessoa s&#227;o perdoados; por&#233;m, permanecem retidos enquanto o pecador permanecer obrigado &#224; puni&#231;&#227;o por eles perante Deus.&#8221; Segundo: Le Blanc distingue (i) o decreto eterno pelo qual Deus decide remir os pecados dos eleitos e (ii) &#8220;a efetiva remiss&#227;o e perd&#227;o desses pecados&#8221;. (i) acontece na eternidade e por pura gra&#231;a; (ii) acontece no tempo; (i) &#233; insuficiente para a remiss&#227;o, pois, sem (ii), n&#227;o &#233; efetivado. Ele escreve: &#8220;Uma coisa &#233; fazer com que os eleitos deixem de estar realmente sujeitos &#224;s puni&#231;&#245;es que o pecado merece, e outra &#233; formular um decreto para realizar isso futuramente.&#8221; Terceiro: a satisfa&#231;&#227;o da justi&#231;a de Deus contra o pecado, como &#233; &#243;bvio, acontece na cruz do Senhor Jesus Cristo, de modo que &#8220;n&#227;o se perdoam, nem jamais foram perdoados os pecados de ningu&#233;m, sen&#227;o em vista e m&#233;rito da satisfa&#231;&#227;o de Cristo, a qual seria consumada e agora foi consumada no devido tempo.&#8221; Quarto: ainda assim, os pecados dos eleitos n&#227;o s&#227;o perdoados a menos que os m&#233;ritos de Cristo sejam a eles imputados, e isso atrav&#233;s do &#8220;arrependimento, da f&#233; viva e do amor eficaz&#8221;. Le Blanc ajunta que &#8220;Ningu&#233;m deixa de estar sujeito &#224; ira divina provocada pelos seus pecados unicamente por causa da morte e paix&#227;o de Cristo, a menos que antes retrate e abandone os pecados por um arrependimento sincero, acompanhado de f&#233;, mediante a qual busca a miseric&#243;rdia de Deus em Cristo.&#8221; Com efeito, quem persevera no pecado permanece vinculado &#224;s puni&#231;&#245;es decorrentes do pecado. Ao contr&#225;rio, o pecador fica livre dessa obriga&#231;&#227;o t&#227;o logo renuncie ao pecado, busque e implore a gra&#231;a e miseric&#243;rdia de Deus com cora&#231;&#227;o contrito. O que mais me impressionou em Le Blanc foi sua sobriedade ao falar da obra que Jesus Cristo realizou em Sua cruz, sem que implicasse qualquer no&#231;&#227;o autom&#225;tica da reden&#231;&#227;o, como se os decretos eternos de Deus fossem suficientes para operar a reden&#231;&#227;o. A remiss&#227;o dos pecados acontece no tempo e s&#243; quando o homem, assistido pelo Esp&#237;rito Santo, que dobra a sua vontade, manifesta arrependimento, f&#233; viva em Cristo e boas obras, ainda que baseada nos decretos eternos de Deus. Embora Deus n&#227;o fa&#231;a nada pela metade, Ele tamb&#233;m n&#227;o dobra a vontade do homem num s&#243; momento, mas por grada&#231;&#227;o, donde se preserva todo o drama da salva&#231;&#227;o; Ele vai amolecendo, atrav&#233;s do Seu Esp&#237;rito, o cora&#231;&#227;o de pedra do homem; Ele assopra o Seu Esp&#237;rito sobre os ossos secos e faz crescer os tend&#245;es e as carnes, cobrindo tudo com pele e trazendo vida ao que estava morto. Se n&#227;o fosse assim, o decreto eterno seria suficiente, pois foi suficiente o decreto da cria&#231;&#227;o para que o mundo surgisse <em>ex nihilo</em>, n&#227;o por composi&#231;&#227;o, mas por cria&#231;&#227;o absoluta a partir do nada. &#201; nesse sentido que Deus luta com o homem para salv&#225;&#8211;lo: Ele n&#227;o o trata como um rob&#244;, mas vai dobrando Sua vontade paulatinamente e com do&#231;ura e ternura, mesmo que o homem v&#225; se debatendo, como a um endemoninhado. E John Davenant escreve: &#8220;N&#227;o reconhecemos nenhuma predetermina&#231;&#227;o que decorra do decreto absoluto de Deus de maneira que, em boas ou m&#225;s a&#231;&#245;es, remova o dom&#237;nio natural que os agentes livres t&#234;m sobre suas pr&#243;prias a&#231;&#245;es.&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-7" href="#footnote-7" target="_self">7</a> </p><p>XIIE. Voc&#234; acrescenta: &#8220;se quisermos falar em parcim&#244;nia novamente, uma causa eficiente universal &#233; metafisicamente menos proliferada do que incont&#225;veis poderes causais criados cuja exist&#234;ncia ainda teria de ser explicada, sustentada e coordenada.&#8221; Confesso que, em termos puramente absolutos, o ocasionalismo &#233; mais simples do que a tese que estou propondo. Contudo, deve haver nem que seja um ponto do tamanho da d&#233;cima parte de ponta de um fio de cabelo reservado &#224; liberdade humana, do contr&#225;rio, os homens n&#227;o ser&#227;o n&#227;o apenas livres e respons&#225;veis, mas tampouco conscientes, n&#227;o passando de meras pedras impessoais que Deus manipula. Com efeito, n&#227;o podemos sustentar a simplicidade do ocasionalismo em termos absolutos, pelo menos se n&#227;o quisermos negar a doutrina b&#237;blica da liberdade e responsabilidade humanas. Nesse sentido, em termos relativos, minha tese continua a mais simples.</p><p><strong>XIII. Sobre:</strong> &#8220;Se dez homens interpretam mal uma proposi&#231;&#227;o verdadeira, a proposi&#231;&#227;o n&#227;o se torna menos verdadeira. Se dez milh&#245;es concordam com outra, ela n&#227;o se torna mais verdadeira. A hist&#243;ria da concord&#226;ncia humana mede concord&#226;ncia humana, e n&#227;o autoridade divina.&#8221;</p><p><strong>Comento:</strong> n&#227;o &#233; o caso de as verdades matem&#225;ticas terem atravessado os s&#233;culos de maneira quase irreform&#225;vel por causa de um consenso arbitr&#225;rio, mas precisamente por causa da certeza das suas proposi&#231;&#245;es, o que n&#227;o &#233; o caso nem com a teologia nem com a filosofia. Foi por causa disso que Ren&#233; Descartes tentou um m&#233;todo inspirado na matem&#225;tica para fundar sua filosofia. N&#227;o &#233; um mero consenso hist&#243;rico&#8211;social que a soma dos quadrados dos catetos &#233; igual ao quadrado da hipotenusa em um tri&#226;ngulo ret&#226;ngulo.</p><p>XIIIB. Voc&#234; acrescenta que &#8220;Seria estranho dizer que a Escritura &#233; menos certa porque tradi&#231;&#245;es rivais, escolas teol&#243;gicas e int&#233;rpretes de toda esp&#233;cie discordaram sobre seu conte&#250;do.&#8221; Mas esse trecho prova justamente o meu ponto, que n&#227;o trata das Escrituras em si, mas do conhecimento humano sobre as Escrituras. &#201; historicamente muito &#243;bvio que a reflex&#227;o dos te&#243;logos deu origem &#224; incont&#225;veis escolas de pensamento e, at&#233; que o Senhor volte, a tend&#234;ncia n&#227;o parece querer mudar. Mas a reflex&#227;o humana sobre a matem&#225;tica experimentou uma instabilidade muito extraordin&#225;ria desde os gregos. Essa observa&#231;&#227;o foi a base do meu argumento original. De fato, &#8220;a estabilidade de uma demonstra&#231;&#227;o matem&#225;tica n&#227;o a torna autoridade sobre a Palavra de Deus.&#8221; Mas torna a reflex&#227;o matem&#225;tica mais est&#225;vel que a reflex&#227;o teol&#243;gica, e esse sempre foi o meu ponto. Em rela&#231;&#227;o &#224; sua reflex&#227;o seguinte, n&#227;o tenho nada a acrescentar, pois n&#227;o sou um platonista e nem poderia crer na exist&#234;ncia de um dom&#237;nio infinito de objetos abstratos aos quais Deus n&#227;o criou, o que iria contra a &#234;nfase das Escrituras de que Ele criou todas as coisas. Fico com Filo de Alexandria aqui.</p><p><strong>XIV.</strong> Aqui n&#227;o posso come&#231;ar comentando um trecho seu. Preciso confessar algo que me parece ser o caso, ainda que seja uma impress&#227;o que possa n&#227;o condizer com a verdade. Mas, ao longo de nossos trocas, me pareceu que o escrituralismo, atrav&#233;s deste ocasionalismo intransigente, peca por tentar explicar como os mecanismos da soberania de Deus operam internamente, quando a linguagem dos padr&#245;es cl&#225;ssicos da f&#233; reformada se limitam a descrever o que acontece, n&#227;o como acontece. Pois a Confiss&#227;o de F&#233; de Westminster declara que, &#8220;Desde toda a eternidade e pelo mui s&#225;bio e santo conselho de sua pr&#243;pria vontade, Deus ordenou, livre e inalteravelmente, tudo quanto acontece, por&#233;m de modo que nem Deus &#233; o autor do pecado, nem violentada &#233; a vontade da criatura, <em>nem &#233; tirada a liberdade ou conting&#234;ncia das causas secund&#225;rias, antes estabelecidas</em>.&#8221; (cap. III.1) E os C&#226;nones de Dort, sobre o modo por que deve ser ensinada a divina elei&#231;&#227;o e reprova&#231;&#227;o, diz: &#8220;Deve ser ensinada com esp&#237;rito de discri&#231;&#227;o, de modo reverente e santo, sem curiosa investiga&#231;&#227;o dos caminhos do Alt&#237;ssimo, para a gl&#243;ria do santo Nome de Deus e consola&#231;&#227;o vivificante do seu povo.&#8221; (cap. I.14) Sobre a provid&#234;ncia de Deus, assim se expressa a Confiss&#227;o Belga: &#8220;E n&#227;o queremos investigar curiosamente as obras dele (que ultrapassam o entendimento humano) al&#233;m da nossa capacidade de entender.&#8221; (art. 13) Se tudo isso &#233; dito sobre uma doutrina que se cr&#234; t&#227;o abundantemente comprovada pelos textos das Escrituras, com o ap&#243;stolo Paulo gastando tr&#234;s cap&#237;tulos de Romanos para explic&#225;&#8211;la, o que dizer da especula&#231;&#227;o sobre os mecanismos pelos quais Deus produz cren&#231;as nas mentes humanas, que nem por um momento &#233; um assunto sobre o qual os autores b&#237;blicos est&#227;o interessados?</p><p>XIVB. &#201; verdade que &#8220;Em 2 Tessalonicenses 2.11, Deus envia a opera&#231;&#227;o do erro para que homens creiam na mentira.&#8221; Temos aqui um testemunho sobre a soberania de Deus, mas tamb&#233;m sobre a responsabilidade do homem, que, acredito, &#233; minada ou enfraquecida pelo escrituralismo tal como voc&#234; o apresentou a mim. Pois Deus &#8220;lhes manda a opera&#231;&#227;o do erro&#8221; porque &#8220;n&#227;o acolheram o amor da verdade para serem salvos.&#8221; (v. 10) Al&#233;m disso, o texto jamais diz que Deus causa o estado de coisas dox&#225;sticas no homem, mas que ele (o homem) d&#225; cr&#233;dito &#224; mentira. A tese escrituralista &#233; talvez uma poss&#237;vel explica&#231;&#227;o de como essa rela&#231;&#227;o dox&#225;stica entre Deus e o homem acontece, n&#227;o uma conclus&#227;o extra&#237;da de uma exegese dos textos b&#237;blicos. E Paulo n&#227;o parece querer nos ensinar os mecanismos do fen&#244;meno, mas o fen&#244;meno em si. O mesmo vale para o texto de 1Reis 22, com um acr&#233;scimo: aquele texto &#233; um relato de um evento, n&#227;o uma teoria de como Deus costuma se relacionar doxasticamente com o homem. Deve&#8211;se ter muito cuidado em se extrair muitas conclus&#245;es epistemol&#243;gicas de um texto que simplesmente n&#227;o est&#225; querendo nos ensinar epistemologia, pois, nesse caso, ser&#237;amos n&#243;s, pessoas do s&#233;culo XXI, seu p&#250;blico alvo, n&#227;o o povo de Israel contempor&#226;neo &#224; sua escrita. As Escrituras n&#227;o s&#227;o um livro de f&#243;rmulas que, quando combinadas, produzem uma rea&#231;&#227;o qu&#237;mica; ela &#233; o testemunho fiel da Hist&#243;ria da Salva&#231;&#227;o, de G&#234;nesis at&#233; Apocalipse, e n&#227;o se deve enxertar uma categoria estranha ao corpo da narrativa. Quanto a Romanos 9, &#233; dito de fato que Deus endurece a quem quer, mas Paulo est&#225; se referindo ao cora&#231;&#227;o, n&#227;o &#224; mente. Na verdade, a mente, na estrutura b&#237;blica, &#233; parte do que se entende ser o cora&#231;&#227;o, mas n&#227;o a totalidade do cora&#231;&#227;o. N&#227;o sou o maior f&#227; de Rousas John Rushdoony, mas ele percebeu, em um texto que infelizmente perdi, uma caracter&#237;stica muito importante da revela&#231;&#227;o b&#237;blica: a revela&#231;&#227;o n&#227;o deve ser entendida primariamente em termos informativos, pois ent&#227;o ser&#237;amos salvos atrav&#233;s do conhecimento que dela ter&#237;amos, o que &#233; a l&#243;gica mesma do gnosticismo; a revela&#231;&#227;o busca a reden&#231;&#227;o de um cora&#231;&#227;o endurecido contra Deus; e o conhecimento salv&#237;fico n&#227;o &#233; simplesmente conhecimento intelectual, mas &#8220;Deus igualmente penetra at&#233; os recantos mais &#237;ntimos do homem. Ele abre o cora&#231;&#227;o fechado e enternece o que est&#225; duro, circuncida o que est&#225; incircunciso e introduz novas qualidades na vontade. Essa vontade estava morta, mas ele a faz reviver; era m&#225;, mas ele a torna boa; estava indisposta, mas ele a torna disposta; era rebelde, mas ele a faz obediente.&#8221; (Os C&#226;nones de Dort, capt. III e IV, art. 11) Satan&#225;s pode at&#233; ter cren&#231;as verdadeiras sobre Deus, mas seu cora&#231;&#227;o n&#227;o deixa de ser um cora&#231;&#227;o de pedra, em constante rebeli&#227;o contra Yahweh; os dem&#244;nios de fato cr&#234;em e tremem (Tg 2.19). Com efeito, um cora&#231;&#227;o endurecido n&#227;o &#233; uma mente na qual Deus causou cren&#231;as falsas, mas um cora&#231;&#227;o que resiste a Deus, &#8220;um perverso cora&#231;&#227;o de incredulidade&#8221; (Hb 3.12)</p><p>XIVC. Voc&#234; escreve ent&#227;o: &#8220;Isso faz de Deus um mentiroso? N&#227;o, porque Deus n&#227;o acredita numa proposi&#231;&#227;o falsa e a anuncia como verdadeira sob uma obriga&#231;&#227;o moral que viola; ele conhece a verdade perfeitamente.&#8221; Acho que h&#225; dois erros aqui, um de defini&#231;&#227;o, outro de teoria: de defini&#231;&#227;o porque &#8220;acreditar numa proposi&#231;&#227;o falsa e a anunciar como verdadeira&#8221; n&#227;o torna algu&#233;m mentiroso, apenas enganado. Santo Agostinho concorda comigo: &#8220;Com efeito, nem todo aquele que diz algo falso mente, se acredita ou sup&#245;e ser verdadeiro aquilo que diz.&#8221; De teoria porque voc&#234; pressup&#245;e que mentir &#233; apenas falar uma inverdade, talvez visando enganar uma outra pessoa. Mas, como disse em minha resposta original, Agostinho n&#227;o concorda com isso: &#8220;[&#8230;] se pode mentir dizendo a verdade [quando se tem a inten&#231;&#227;o de mentir], mas se se acredita que algo &#233; falso quando na realidade &#233; verdadeiro.&#8221; E explica a raz&#227;o: &#8220;Porque &#233; a partir da inten&#231;&#227;o da alma, e n&#227;o pela verdade ou falsidade das pr&#243;prias coisas, que algo deve ser considerado como verdade ou mentira.&#8221; O meu exemplo se mant&#233;m: &#8220;fazer com que algu&#233;m, por exemplo, tome o caminho errado em uma estrada contando&#8211;lhe a verdade, mas de maneira intencionalmente voltada para faz&#234;-lo errar, tamb&#233;m &#233; mentira.&#8221; Logo, n&#227;o creio que sua resposta tenha sido suficiente.</p><p>XIVD. H&#225; uma falsa equival&#234;ncia quando voc&#234; escreve: &#8220;Quando julga um pecador entregando&#8211;o &#224; mentira que ama, Deus n&#227;o se torna o pecador julgado, do mesmo modo que determinar a crucifica&#231;&#227;o n&#227;o o transforma em Judas.&#8221; Se sua tese for apenas que Deus entrega o pecador &#224; mentira, abandona&#8211;o ao erro e ao pecado em que nasceu e no qual morrer&#225;, n&#227;o vejo nenhum problema. Os C&#226;nones de Dort esclarece que, &#8220;Em Deus, n&#227;o est&#225;, de forma alguma, a causa ou a culpa dessa incredulidade. O homem tem essa culpa, assim como a de todos os demais pecados&#8221; (cap. I.5) E, com base no mesmo cap&#237;tulo e artigo 15 dos C&#226;nones, &#233; poss&#237;vel dizer que o decreto da reprova&#231;&#227;o &#233; passivo, ao passo que o da elei&#231;&#227;o &#233; ativo. Davenant vai al&#233;m: &#8220;&#201; falso que a doutrina da Predestina&#231;&#227;o e da Reprova&#231;&#227;o absolutas fa&#231;a com que Deus governe as a&#231;&#245;es sobrenaturalmente boas dos eleitos de modo que eles n&#227;o possam escolher sen&#227;o fazer o que fazem, ou as a&#231;&#245;es m&#225;s e perversas dos n&#227;o-eleitos. A Predestina&#231;&#227;o Absoluta, pela virtude da gra&#231;a eficaz, governa e afeta a vontade livre dos predestinados, de modo que os leva a agir livremente conforme agem. E a N&#227;o-elei&#231;&#227;o ou Reprova&#231;&#227;o Absoluta permite que os r&#233;probos sejam guiados por sua pr&#243;pria vontade defeituosa, de modo que livremente e por escolha deliberada fazem o que fazem. Eles n&#227;o apenas pensam ou sonham que possuem tal liberdade, mas sua pr&#243;pria experi&#234;ncia e consci&#234;ncia lhes asseguram que a t&#234;m.&#8221; E elogia a concep&#231;&#227;o de Ruiz acerca da permiss&#227;o divina, &#8220;que &#233; considerada um efeito da Reprova&#231;&#227;o negativa, como &#8220;um decreto permanente em Deus pelo qual Ele decide n&#227;o impedir o pecado e decide fazer certos bens, ainda que saiba que, por ocasi&#227;o deles, o pecado ser&#225; cometido&#8221;.&#8221; E conclui: &#8220;Aquele que comete suas a&#231;&#245;es perversas com delibera&#231;&#227;o e escolha n&#227;o apenas tem dentro de si a pot&#234;ncia da vontade livre, mas tamb&#233;m o uso livre dessa pot&#234;ncia, e pode, mediante outra delibera&#231;&#227;o, decidir fazer o contr&#225;rio ou suspender tal a&#231;&#227;o.&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-8" href="#footnote-8" target="_self">8</a> Calvino tamb&#233;m, comentando sobre os modos pelos quais as criaturas executam a vontade de Deus, faz com que os &#237;mpios obede&#231;am ao Senhor, ainda que guiados por um esp&#237;rito de rebeli&#227;o: &#8220;[&#8230;] os homens servem a Deus de duas formas: ou executam suas ordens de bom grado, ou s&#227;o levados a assim agirem por impulso cego. Os anjos e os fi&#233;is cumprem os mandados de Deus por serem orientados pelo esp&#237;rito de obedi&#234;ncia; por&#233;m, os &#237;mpios, bem como o diabo (que &#233; o cabe&#231;a deles), tamb&#233;m cumprem as ordens divinas; isso, entretanto, n&#227;o lhes &#233; imputado como obedi&#234;ncia, pois apenas s&#227;o guiados por seus prop&#243;sitos perversos, procurando destruir, tanto quanto podem, todo o governo de Deus; por&#233;m, s&#227;o coagidos, quer queiram quer n&#227;o queiram, a obedecerem a Deus, n&#227;o volunt&#225;ria ou desejosamente, como eu disse; contudo, o Senhor faz com que todos os esfor&#231;os deles correspondam ao fim que ele decretou. Ent&#227;o, seja qual for a tentativa que Satan&#225;s e os &#237;mpios fa&#231;am, eles, ao mesmo tempo, servem a Deus e obedecem &#224;s ordens dele; e, conquanto se encolerizem contra Deus, esse, todavia, controla-os pela sua r&#233;dea, guiando tamb&#233;m assim seus esfor&#231;os e seus objetivos para que correspondam &#224;s suas finalidades.&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-9" href="#footnote-9" target="_self">9</a> Mas voc&#234;, ao longo desta conversa, est&#225; dizendo que Deus causa cren&#231;as falsas no homem, o que n&#227;o consigo aceitar de maneira alguma. Assim, dizer que Deus entrega os homens a si mesmos, para que pequem e errem, n&#227;o equivale a dizer que Deus causa todos os seus estados de coisas epist&#234;micas. N&#227;o &#233; o Esp&#237;rito Santo que leva os homens a pecaram contra si mesmo, mas os pr&#243;prios homens &#233; quem pecam contra o Esp&#237;rito Santo.</p><p>XIVE. Voc&#234; acrescenta: &#8220;Deus n&#227;o est&#225; debaixo do preceito dado &#224; criatura como se fosse outro homem na fila. Ele n&#227;o pode pecar porque sua pr&#243;pria natureza &#233; o padr&#227;o do bem e sua Palavra expressa essa santidade. Isso n&#227;o torna o bem arbitr&#225;rio, pois Deus n&#227;o muda de car&#225;ter e n&#227;o pode negar a si mesmo; apenas conserva a diferen&#231;a entre o Legislador e a criatura obrigada por seu preceito. Imperativo e Decreto s&#227;o diferentes.&#8221; N&#227;o poderia concordar mais. Deus &#233; &#8220;uma fonte transbordante de todo bem.&#8221; (Confiss&#227;o Belga art. 1) Ele &#233; a fonte &#250;ltima dos valores morais, e os Seus mandatos divinos s&#227;o a fonte &#250;ltima dos deveres morais humanos. Assim, Deus n&#227;o pode pecar, o que &#233; uma impossibilidade l&#243;gica e metaf&#237;sica. Mas isso nunca foi um problema para mim. Meu problema &#233; quanto &#224; explica&#231;&#227;o da raz&#227;o por que Deus n&#227;o pode pecar ainda que Ele esteja aparentemente envolvido com o pecado, como se Ele pudesse se banhar em um xinqueiro sem se sujar. Assim, n&#227;o importa como descrevemos os atos de Deus, argumentaremos que n&#227;o estamos atribuindo pecado a Ele porque Ele n&#227;o pode pecar. Em &#250;ltima an&#225;lise, esse tipo de racioc&#237;nio opera da seguinte maneira: n&#227;o estamos atribuindo pecado a Deus porque n&#227;o estamos atribuindo pecado a Deus. N&#227;o h&#225; explica&#231;&#227;o real aqui. </p><p>XIVF. Voc&#234; ent&#227;o escreve: &#8220;Sua leitura de Eva cont&#233;m ainda uma causalidade que o texto n&#227;o lhe d&#225;. Voc&#234; v&#234; a serpente falar e Eva crer, ent&#227;o conclui que a serpente produziu eficientemente a cren&#231;a.&#8221; Claro que eu n&#227;o estava dizendo que a serpente causou em Eva a cren&#231;a falsa, como Deus faz em sua teoria. Nesse sentido, ironicamente, podemos falar em ocasi&#227;o, pois a serpente foi ocasi&#227;o n&#227;o para que Deus causasse em Eva sua cren&#231;a falsa, mas para que Eva, tentada pela sua pr&#243;pria cobi&#231;a, fosse atra&#237;da e seduzida por essa. &#8220;Ent&#227;o, a cobi&#231;a, depois de haver concebido, d&#225; luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte.&#8221; (Tg 1.14&#8211;15) Mas dizer &#8220;A narrativa mostra a sucess&#227;o dos acontecimentos, a inten&#231;&#227;o da serpente e a responsabilidade dos sujeitos, sem mostrar uma pot&#234;ncia metaf&#237;sica passando da l&#237;ngua da serpente para a mente de Eva&#8221; me parece exigir do texto uma estrutura filos&#243;fica e metaf&#237;sica que simplesmente n&#227;o existe no texto. Repito: as Escrituras s&#227;o a testemunha fiel da Hist&#243;ria da Salva&#231;&#227;o; exigir dela discuss&#227;o a respeito de causalidade &#233; um anacronismo que deve ser evitado sempre. G&#234;nesis n&#227;o foi escrito por um fil&#243;sofo ocidental influenciado por Plat&#227;o e Arist&#243;teles, mas por algu&#233;m que estava narrando os atos de Yahweh na hist&#243;ria para um p&#250;blico&#8211;alvo originalmente muito simples.</p><p><strong>XV</strong>. Chegamos ao ponto que mais queria discutir: minha defini&#231;&#227;o do objeto da teologia como o ser de Deus tanto no tempo quanto no espa&#231;o, ao que voc&#234; comentou que &#8220;Aqui, meu jovem, voc&#234; pagou caro demais para evitar o ocasionalismo.&#8221; Precisamos, antes de tudo, entender o que quis dizer com essa formula&#231;&#227;o, que n&#227;o pretende ser nenhuma inova&#231;&#227;o, mas uma explica&#231;&#227;o da estrutura subjacente da pr&#243;pria Hist&#243;ria da Salva&#231;&#227;o. Escrevi uma nota sobre meu pensamento que reproduzo a seguir, com coment&#225;rios complementares.</p><p><strong>Hist&#243;ria Sagrada e Hist&#243;ria da Salva&#231;&#227;o</strong></p><p>(Nota I) A Hist&#243;ria Sagrada, segundo Mircea Eliade, &#233; a hist&#243;ria dos atos criadores no <em>illud tempus</em> dos Entes Sobrenaturais. Ainda que pertencente a um tempo qualitativamente distinto do tempo no qual os humanos vivem &#8212; o tempo profano &#8212;, o tempo sagrado das origens &#233; indefinidamente recuper&#225;vel atrav&#233;s dos rituais de reatualiza&#231;&#227;o.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-10" href="#footnote-10" target="_self">10</a></p><p>H&#225; aqui algumas coisas que temos de definir de maneira precisa. Primeiro: h&#225; uma distin&#231;&#227;o na defini&#231;&#227;o de Eliade entre um tempo sagrado e um tempo profano, duas categorias temporais qualitativamente distintas. Segundo: o tempo sagrado diz respeito aos tempos primordiais das origens, quando os Entes Sobrenaturais, os deuses, trouxeram os elementos constitutivos do mundo e o pr&#243;prio mundo &#224; exist&#234;ncia. Terceiro: esse tempo &#233; o tempo no qual coisas novas surgiram pela primeira vez &#8212; perdoe&#8211;me a redund&#226;ncia &#8212; e &#233; um tempo sagrado porque &#233; nele que os Entes Sobrenaturais est&#227;o ativos, dando forma &#224; mat&#233;ria informe do princ&#237;pio dos tempos. Quarto: o tempo profano &#233; um tempo que est&#225; em um processo constante de degrada&#231;&#227;o e envelhecimento, pois, &#224; medida que o tempo passa, o tempo profano se afasta cada vez mais do tempo sagrado, afastando&#8211;se, portanto, da sua fonte da juventude, por assim dizer, envelhecendo cada vez mais. Quinto: &#233; por causa do motivo anterior que &#233; necess&#225;ria a realiza&#231;&#227;o de ritos de reatualiza&#231;&#227;o, para fazer com que o tempo profano seja transfigurado pelo tempo sagrado, e para que o mundo, agora contempor&#226;neo dos Entes Sobrenaturais, possa rejuvenescer. S&#227;o rituais de reatualiza&#231;&#227;o, pois se acredita que, atrav&#233;s deles, o mundo &#233; constante e indefinidamente recuperado, recriado, evitando, assim, sua destrui&#231;&#227;o total e absoluta.</p><p>(Nota II) A teologia b&#237;blica deve ser entendida como uma Hist&#243;ria Sagrada, mas com algumas diferen&#231;as fundamentais. &#201; Hist&#243;ria Sagrada porque &#233; a hist&#243;ria da invas&#227;o do <em>Totalmente Outro</em> no tempo. &#201;, por&#233;m, diferente da categoria de Eliade por tr&#234;s motivos: (i) Yahweh n&#227;o se manifesta apenas no <em>illud tempus</em>, como tamb&#233;m no devir da hist&#243;ria: no come&#231;o, no meio e no fim da hist&#243;ria; (ii) esses Seus atos de invas&#227;o n&#227;o podem ser ritualisticamente reatualizados pelos homens &#8212; Ele &#233; soberano em Sua doa&#231;&#227;o; (iii) por causa de (ii), Suas invas&#245;es n&#227;o s&#227;o um evento c&#237;clico, mas linear e clim&#225;tico, isto &#233;, encaminham&#8211;se para um cl&#237;max.</p><p>Mais uma vez, algumas coisas devem ficar bem definidas aqui. Entendo a teologia b&#237;blica como <em>Hist&#243;ria Sagrada</em>. E a raz&#227;o &#233; dada: &#8220;&#201; Hist&#243;ria Sagrada porque &#233; a hist&#243;ria da invas&#227;o do <em>Totalmente Outro</em> no tempo.&#8221; Ou seja, a teologia b&#237;blica &#233; Hist&#243;ria Sagrada porque &#233; a hist&#243;ria dos atos de Yahweh no tempo e no espa&#231;o; ou: porque &#233; a hist&#243;ria dos atos de Yahweh na hist&#243;ria. As religi&#245;es das sociedades primitivas &#233; tamb&#233;m uma esp&#233;cie de hist&#243;ria sagrada na medida em que relatam a invas&#227;o dos deuses no mundo, quase que em sua totalidade para trazer algo novo &#224; exist&#234;ncia. Por isso elas s&#227;o, em sua maioria, hist&#243;rias cosmog&#244;nicas, sobre como os deuses criaram as coisas do mundo e o pr&#243;prio mundo no <em>illud tempus</em>. H&#225;, portanto, uma certa semelhan&#231;a entre a teologia b&#237;blica e as outras religi&#245;es. Aten&#231;&#227;o! Embora concorde com essa semelhan&#231;a formal, forne&#231;o tr&#234;s raz&#245;es pelas quais distingo a Hist&#243;ria Sagrada das Escrituras das demais religi&#245;es. Primeiro: &#8220;Yahweh n&#227;o se manifesta apenas no <em>illud tempus</em>, como tamb&#233;m no come&#231;o, no meio e no fim da hist&#243;ria.&#8221; Os mitos das outras religi&#245;es geralmente concentram a atividade dos deuses no princ&#237;pio do mundo; alguns at&#233; esperam uma atividade no fim da hist&#243;ria. A Hist&#243;ria Sagrada das Escrituras, por&#233;m, estende os atos criadores e redentores de Yahweh ao longo de toda a hist&#243;ria: n&#227;o s&#243; em seu come&#231;o ou fim, mas no come&#231;o, no meio e no fim da hist&#243;ria. E isso &#233; surpreendentemente! &#201; s&#243; nessa Hist&#243;ria que o ser da Divindade, embora independente da cria&#231;&#227;o, est&#225; no tempo, est&#225; na hist&#243;ria, agindo na hist&#243;ria para criar e redimir etc. Segundo: &#8220;esses Seus atos de invas&#227;o n&#227;o podem ser ritualisticamente reatualizados pelos homens &#8212; Ele &#233; soberano em Sua doa&#231;&#227;o.&#8221; Isso &#233; importante: os atos de Yahweh na hist&#243;ria n&#227;o podem ser manipulados ou causados pelos homens; Ele &#233; soberano etc. Atrav&#233;s dos rituais de reatualiza&#231;&#227;o do mundo, os homens das sociedades primitivas acreditavam poder invocar a presen&#231;a dos Entes Sobrenaturais, cuja presen&#231;a na hist&#243;ria &#233; suficiente para renov&#225;-la. Isso n&#227;o acontece com Yahweh! Em Seus atos de estabelecimento de alian&#231;a, por exemplo, Ele &#233; quem toma a iniciativa: nunca s&#227;o os homens que travam, pela primeira vez, uma alian&#231;a com o Senhor.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-11" href="#footnote-11" target="_self">11</a> Terceiro: &#8220;por causa de (ii), Suas invas&#245;es n&#227;o s&#227;o um evento c&#237;clico, mas linear e clim&#225;tico, isto &#233;, encaminham&#8211;se para um cl&#237;max.&#8221; O mundo recriado pelos ritos de reatualiza&#231;&#227;o n&#227;o permanece nesse estado para sempre, pois ele volta a desgastar&#8211;se e a envelhecer com a passagem do tempo profano e com o distanciamento inexor&#225;vel em rela&#231;&#227;o ao tempo sagrado. Acontece, ent&#227;o, que esses ritos devem sempre ser realizados dentro de um per&#237;odo de tempo, geralmente coincidente com o ano. Assim, as invas&#245;es dos Entes Sobrenaturais no mundo s&#227;o c&#237;clicas: eles s&#227;o invocados periodicamente para renovar o mundo que est&#225; se degenerando, se corrompendo, se desgastando etc. Os atos de Yahweh na hist&#243;ria, contudo, n&#227;o s&#227;o c&#237;clicos, mas lineares e clim&#225;ticos: Ele entra no mundo para cumprir os Seus prop&#243;sitos de reden&#231;&#227;o, governando todas as coisas de modo a guiar a hist&#243;ria para um fim por Ele mesmo decretado. &#201; linear, pois n&#227;o &#233; c&#237;clico, isto &#233;, possui uma seta de tempo voltada para o futuro; &#233; clim&#225;tico, pois progride at&#233; chegar a um fim previamente determinado.</p><p>(Nota III) A partir de (iii), extra&#237;mos o car&#225;ter nuclear da Hist&#243;ria Sagrada das Escrituras: ela &#233; Hist&#243;ria da Salva&#231;&#227;o. N&#227;o &#233; apenas o caso de que Yahweh age soberanamente na hist&#243;ria; Ele a governa e a encaminha com respeito a um fim. Assim, temos que a Hist&#243;ria Sagrada &#233; Hist&#243;ria da Salva&#231;&#227;o e que (i) a Hist&#243;ria da Salva&#231;&#227;o pode ser entendida dessa forma &#8212; como o conjunto atos salv&#237;ficos de Deus na hist&#243;ria &#8212; e tamb&#233;m (ii) como Salva&#231;&#227;o da Historia &#8212; como o conjunto dos atos salv&#237;ficos de Deus na hist&#243;ria para a hist&#243;ria.</p><p>Vamos por parte. A nota II identifica a teologia b&#237;blica como Hist&#243;ria Sagrada, pois &#233; a hist&#243;ria dos atos de Yahweh dentro da hist&#243;ria, atos esses que s&#227;o soberanos, n&#227;o s&#227;o c&#237;clicos e se encaminham para um fim. A nota III identifica o car&#225;ter dessa Hist&#243;ria Sagrada como Hist&#243;ria da Salva&#231;&#227;o, ou seja, como <em>Heilsgeschichte</em>. A Hist&#243;ria Sagrada &#233; Hist&#243;ria da Salva&#231;&#227;o na medida em que seus temas fundamentais e constitutivos (Dooyerweerd) s&#227;o cria&#231;&#227;o&#8211;queda&#8211;reden&#231;&#227;o. &#201; ent&#227;o que formulo que a Hist&#243;ria da Salva&#231;&#227;o pode ser entendida tanto como Hist&#243;ria da Salva&#231;&#227;o, ou seja, como a hist&#243;ria dos atos redentores de Deus na hist&#243;ria, quanto como Salva&#231;&#227;o da Hist&#243;ria, ou seja, como a hist&#243;ria dos atos redentores de Deus na hist&#243;ria <em>em favor da hist&#243;ria</em>: a Hist&#243;ria da Salva&#231;&#227;o &#233; a Salva&#231;&#227;o da Historia, e a Salva&#231;&#227;o da Hist&#243;ria &#233; a Hist&#243;ria da Salva&#231;&#227;o.</p><p>Este &#233;, resumidamente, meu pensamento. Gostei especialmente da sua frase: &#8220;O Criador atua na cria&#231;&#227;o sem virar parte dela.&#8221; E claro que concordo. Mas, para fazer justi&#231;a aos textos das Escrituras, diria que o ser de Deus (i) n&#227;o depende de nada fora de si mesmo (asseidade), (ii) n&#227;o &#233; sujeito &#224; rea&#231;&#227;o por ocasi&#227;o de uma a&#231;&#227;o das criaturas fora de si mesmo (impassibilidade), (iii) est&#225; fora tanto do tempo quanto do espa&#231;o, mas que, ainda assim, por livre gra&#231;a, escolheu entrar no mundo. Os atos de Deus n&#227;o emanam d&#8217;Ele sobre ou dentro do mundo; Ele n&#227;o age atrav&#233;s de nada, mas imediatamente, atrav&#233;s de si mesmo: Deus age no mundo atrav&#233;s de Deus; o ser de Deus est&#225; no mundo n&#227;o atrav&#233;s dos efeitos de Seus atos ou dos Seus pr&#243;prios atos, mas atrav&#233;s do pr&#243;prio ser de Deus. Assim, concordo com &#8220;Dizer que Deus age na hist&#243;ria &#233; b&#237;blico, assim como dizer que o Filho assumiu verdadeira natureza humana e entrou na hist&#243;ria &#233; o cristianismo elementar. Dizer que o ser de Deus est&#225; dentro do tempo e do espa&#231;o &#233; outra coisa&#8221;, como se o Seu ser se confundisse com o ser das criaturas. N&#227;o! Ele se vale de causas secund&#225;rias, mas n&#227;o se vale de causas secund&#225;rias para estar no tempo e no espa&#231;o e, mesmo a&#237;, Ele n&#227;o se perde no tempo ou no espa&#231;o. Veja que o ser de Deus &#233; qualitativamente distinto do ser da cria&#231;&#227;o, n&#227;o por n&#227;o estar na cria&#231;&#227;o, mas por ser o que &#233;. O ser de Deus estar na cria&#231;&#227;o n&#227;o significa ser igual ao ser da cria&#231;&#227;o nem colapsa a distin&#231;&#227;o qualitativa infinita, pois ela nunca dependeu de uma condi&#231;&#227;o, a saber, o <em>n&#227;o&#8211;estar&#8211;na&#8211;cria&#231;&#227;o</em>. Deus n&#227;o tem partes constituintes; Ele est&#225; todo em Si mesmo; Ele &#233; todo Ele mesmo etc. Deus se relacionar com a cria&#231;&#227;o atrav&#233;s de um outro, mesmo que dos efeitos dos Seus atos ou dos pr&#243;prios atos, parece sugerir que Ele toca na hist&#243;ria sem toc&#225;&#8211;la de fato. E quando digo que o ser de Deus est&#225;, por livre gra&#231;a, na cria&#231;&#227;o, n&#227;o estou dizendo em sentido espacial, como se a cria&#231;&#227;o fosse um container no qual Deus se encontra, da mesma forma que, quando alguns fil&#243;sofos dizem que a dist&#226;ncia entre Deus e a natureza &#233; nula, para enfatizar Sua onipresen&#231;a, eles tamb&#233;m n&#227;o dizem em sentido espacial.</p><p>Conv&#233;m que eu d&#234; uma pista de como isso &#233; poss&#237;vel &#8212; ou seja, que o ser de Deus esteja no mundo, mas que n&#227;o se confunda com o mundo. Pensei em algo como um equil&#237;brio din&#226;mico entre a transcend&#234;ncia e a iman&#234;ncia de Deus, de modo que, quanto mais pr&#243;ximo de Deus est&#225; do mundo, na mesma propor&#231;&#227;o Deus est&#225; fora do mundo, como se Sua iman&#234;ncia aprofundasse cada vez mais a Sua transcend&#234;ncia, de modo que Ele nunca jamais se perderia no mundo. Quanto mais dentro do mundo, mais fora do mundo; quanto mais imanente, mais transcendente. N&#227;o &#233; um equil&#237;brio est&#225;tico por dois motivos: primeiro, porque o ser de Deus n&#227;o &#233; est&#225;tico, mas, o que &#233; pr&#243;prio de um ser pessoal, vivo; segundo, porque um equil&#237;brio est&#225;tico pressup&#245;e uma mesma propor&#231;&#227;o entre a transcend&#234;ncia e a iman&#234;ncia, quando Deus &#233; totalmente outro. Uma analogia &#8212; uma segunda analogia &#8212; pode esclarecer esse ponto: quanto mais algu&#233;m adentra uma floresta com uma lanterna, mais vai deixando para tr&#225;s a escurid&#227;o, mais vai aprofundando a escurid&#227;o, ainda que retrospectivamente. Assim, quanto mais Deus se torna para n&#243;s &#8212; Emanuel, &#8220;Deus conosco&#8221; &#8212;, mais Ele aprofunda a distin&#231;&#227;o qualitativa infinita entre Ele e n&#243;s, entre Criador e criatura, entre eternidade e tempo etc. Essa explica&#231;&#227;o, conquanto provis&#243;ria, me parece ser bem sucedida naquilo em que ela se prop&#245;e: explicar como o ser Deus, por mais dentro do mundo que esteja, n&#227;o se confunde com o mundo. Al&#233;m disso, ela comunica bem &#8212; salvo as devidas propor&#231;&#245;es &#8212; com a <em>teologia da cruz</em>, de Lutero, pois prev&#234; que o ponto de maior aproxima&#231;&#227;o de Deus em rela&#231;&#227;o ao mundo &#233;, simultaneamente &#8212; talvez, melhor dizendo, dialeticamente &#8212;, o ponto de maior distanciamento: a cruz! E conv&#233;m que seja assim, pois Deus &#233; um fogo consumidor, ou seja, incontrol&#225;vel, pois n&#227;o &#233; um &#237;dolo; Ele incaptur&#225;vel etc. Poderia relacionar minha ideia com o <em>extra calvinisticum</em>, mas creio que ela j&#225; ficou suficientemente clara.</p><p>XVB. Mas a&#237; voc&#234; escreve: &#8220;Quando uma teoria epistemol&#243;gica come&#231;a exigindo que o mundo externo seja fonte de conhecimento e termina colocando o ser de Deus dentro do mundo externo, conv&#233;m perguntar se levada at&#233; as &#250;ltimas consequ&#234;ncias n&#227;o revelou o pressuposto que estava escondido desde o in&#237;cio.&#8221; Mas a minha filosofia n&#227;o depende da minha teologia, nem a minha teologia depende da minha filosofia. Acredito tanto na liberdade do pensador, que preserva minha liberdade de pensar filosofia e teologia sem me prender a um &#250;nico departamento, quanto na liberdade do pensamento, que preserva a l&#243;gica interna de cada disciplina. Se meu argumento teol&#243;gico me levou que rejeitasse o ocasionalismo, cheguei nessa conclus&#227;o seguindo os princ&#237;pios do que acredito ser a teologia, sem que precisasse tornar uma serva da outra. E sobre este trecho &#8212; &#8220;Isso enfraquece precisamente a distin&#231;&#227;o entre Criador e criatura que o ocasionalismo leva a s&#233;rio.&#8221; &#8212;, acredito que minha exposi&#231;&#227;o anterior o resolveu.</p><p>XVC. Voc&#234; escreve: &#8220;Se cada criatura depende dele para existir, mover-se e pensar, nenhuma doutrina o coloca mais intimamente presente &#224; cria&#231;&#227;o sem confundi-lo com ela.&#8221; O que &#233; precisamente o que meu texto faz: Deus est&#225; na cria&#231;&#227;o atrav&#233;s de Deus, n&#227;o atrav&#233;s de qualquer mediador, mas isso n&#227;o colapsa a distin&#231;&#227;o qualitativa infinita entre Ele e a cria&#231;&#227;o: at&#233; a aprofunda cada vez mais. Se voc&#234; acha que isso &#233; poss&#237;vel dentro do ocasionalismo, ent&#227;o perdeu a cr&#237;tica que tinha feito a mim. Chegamos na mesma conclus&#227;o partindo de premissas distintas. Voc&#234; pode rejeitar a maneira pela qual eu chego l&#225;, mas n&#227;o o ponto de chegada, que &#233; inclusive o seu, que, para voc&#234;, &#233; o que torna Deus mais intimamente presente &#224; cria&#231;&#227;o sem confundi&#8211;lo com ela. Ou seja, a proximidade de Deus nunca foi um problema para voc&#234;, de modo que n&#227;o entendo a raz&#227;o de ter me criticado nesse ponto. Voc&#234; acredita tamb&#233;m que Deus age atrav&#233;s Deus no mundo, pois n&#227;o h&#225;, em sua vis&#227;o, causa eficiente fora de Deus. Logo, a &#8220;dist&#226;ncia&#8221; entre Deus e o mundo n&#227;o pode, se sua vis&#227;o for levada &#224;s &#250;ltimas consequ&#234;ncias, ser preenchida por uma s&#233;rie de causas eficientes que n&#227;o sejam Ele; essa dist&#226;ncia tem que ser nula, caso contr&#225;rio, o ocasionalismo perde todo seu sentido. Mas, como disse, Deus pode estar no tempo e no espa&#231;o sem ser temporal ou espacial e, se voc&#234; n&#227;o concorda com isso, talvez o seu ocasionalismo possa lev&#225;-lo a uma vis&#227;o temporal e espacial de Deus ou a uma vis&#227;o em que tempo e espa&#231;o tornam&#8211;se ilus&#245;es, n&#227;o realidades objetivas: duas conclus&#245;es que s&#227;o problem&#225;ticas. Acredito, assim, que minha exposi&#231;&#227;o conserva melhor v&#225;rias &#234;nfases das Escrituras, principalmente se levarmos a s&#233;rio a categoria da Historia da Salva&#231;&#227;o.</p><p><strong>XVI</strong>. <strong>Sobre:</strong> <em>Curiosamente, voc&#234; j&#225; percebeu quase tudo o que seria necess&#225;rio para chegar &#224; solu&#231;&#227;o.</em></p><p><strong>Comento:</strong> ter entendido a l&#243;gica interna do seu pensamento n&#227;o significa necessariamente ter concordado com ele ou que estou racionalmente comprometido com sua conclus&#227;o. Assim, embora conceda que um &#8220;corpo fal&#237;vel n&#227;o pode servir como causa infal&#237;vel da verdade&#8221;, nunca concedi que o conhecimento precise de um canal infal&#237;vel; concedo &#8220;que a coincid&#234;ncia entre cren&#231;a e realidade n&#227;o basta&#8221;, por isso me sinto motivado a ir atr&#225;s de outras teorias que resolva esse impasse; &#8220;que o ocasionalismo aparece quando perguntamos como uma proposi&#231;&#227;o alcan&#231;a a mente sem transformar sinais f&#237;sicos em pequenos deuses causais&#8221;, mas n&#227;o concordo com a premissa a partir da qual o ocasionalismo surge; e &#8220;que o problema de Gettier pode ser reconstru&#237;do fora da experi&#234;ncia sensorial quando a justifica&#231;&#227;o permanece fal&#237;vel&#8221;, o que n&#227;o me faz nem por um segundo afirmar que n&#227;o haja possibilidade de conhecimento nas condi&#231;&#245;es da falibilidade epist&#234;mica. Logo, n&#227;o poderia concordar menos com a conclus&#227;o: &#8220;Dessas concess&#245;es segue uma conclus&#227;o que n&#227;o conduz de volta ao confiabilismo.&#8221;</p><p>XVIB. Voc&#234; prop&#245;e que &#8220;o escrituralismo oferece uma resposta mais estreita e, justamente por isso, mais limpa: conhecimento &#233; verdade proposicional recebida sob garantia divina, a Escritura &#233; o primeiro princ&#237;pio p&#250;blico e infal&#237;vel, e aquilo que dela segue validamente conserva a garantia.&#8221; Primeiro: conceder cada um desses pontos n&#227;o equivale necessariamente a dizer que essa teoria do conhecimento seja exaustiva e que ela limite exaustivamente todos os poss&#237;veis casos de conhecimento. Embora esteja convencido que temos, nas Escrituras, um caso de conhecimento, n&#227;o estou convencido de que n&#227;o temos casos de conhecimento fora das Escrituras, como em rela&#231;&#227;o ao mundo externo. Segundo: as Escrituras n&#227;o ca&#237;ram do c&#233;u e nem chegaram at&#233; n&#243;s atrav&#233;s de um processo imaculado no que diz respeito &#224; influ&#234;ncia humana, e nem prescindimos das contribui&#231;&#245;es humanas para termos a Palavra de Deus em nossas m&#227;os. Pois a ci&#234;ncia da cr&#237;tica textual do Novo Testamento, por exemplo, trabalha com os manuscritos b&#237;blicos que chegaram at&#233; n&#243;s e, atrav&#233;s da an&#225;lise cr&#237;tica de varia&#231;&#245;es, interpola&#231;&#245;es, erros e outras variantes do processo de c&#243;pia e tradu&#231;&#227;o dos aut&#243;grafos, reconstr&#243;i o texto original, e isso atrav&#233;s dos m&#233;todos cient&#237;ficos apropriados. Voc&#234; &#233; capaz de dizer que n&#227;o h&#225; possibilidade de haver conhecimento nessa &#225;rea e que todas as suas proposi&#231;&#245;es s&#227;o apenas opini&#245;es verdadeiras? Mas, sem ela, voc&#234; n&#227;o teria as Escrituras, que acredita ser o crit&#233;rio na determina&#231;&#227;o do conhecimento. Talvez voc&#234; diga que seja conhecimento, mas, nesse caso, n&#227;o consigo ver a raz&#227;o pela qual outros tipos de verdade n&#227;o possam ser contados como conhecimento. A ci&#234;ncia da cr&#237;tica textual &#233; uma ci&#234;ncia eminentemente filol&#243;gica, que pressup&#245;e uma s&#233;rie de compromissos metaf&#237;sicos, como a objetividade tanto do mundo externo quanto do pr&#243;prio passado, dentre v&#225;rias outras. Aceitar que ela &#233; conhecimento requer de voc&#234; aceitar tamb&#233;m a validade como conhecimento desses outros pressupostos, caso contr&#225;rio, ter&#237;amos uma ci&#234;ncia que se funda em entimemas inseguros, indignos de serem o suporte de uma candidata a conhecimento. Mas, se voc&#234; rejeita a cr&#237;tica textual como conhecimento, voc&#234; perde as Escrituras. H&#225; uma outra possibilidade: voc&#234; rejeita de fato a cr&#237;tica textual como conhecimento, acreditando que seus resultados n&#227;o passam de meras opini&#245;es verdadeiras. Logo, o texto das nossas B&#237;blias, por ser o resultado de opini&#245;es, n&#227;o pode contar como conhecimento em si mesmo, mas, na pr&#225;tica da leitura, Deus atrav&#233;s de Seu Esp&#237;rito revela para n&#243;s o conte&#250;do original, que, esse sim, constitui conhecimento. Assim, as Escrituras tais como as temos hoje tamb&#233;m seriam a ocasi&#227;o para um conhecimento relevado por Deus em nossas mentes. Nesse caso, por&#233;m, voc&#234; tem quase a neo&#8211;ortodoxia de Karl Barth; na verdade, eu diria que uma neo&#8211;ortodoxia piorada. Claro est&#225; que voc&#234; n&#227;o aceitar&#225; isso. Mas a&#237; julgo que seu crit&#233;rio de conhecimento deve abrir a possibilidade para contarmos como conhecimento as ci&#234;ncias b&#237;blicas, o que, por&#233;m, far&#225; voc&#234; sair de um escrituralismo estrito.</p><p>XVIC. Esta frase &#8212; &#8220;Chamar opini&#227;o de opini&#227;o n&#227;o destr&#243;i a vida; destr&#243;i apenas a pretens&#227;o de infalibilidade da criatura&#8221; &#8212; n&#227;o acerta o alvo pretendido, pois jamais um confiabilistas tentou atribuir infalibilidade &#224; criatura ao conceder a possibilidade de um conhecimento que seja n&#227;o infal&#237;vel. A pr&#243;pria descri&#231;&#227;o do projeto confiabilista o prova. O escrituralista, por sua vez, faz exatamente isso, ainda que o conjunto universo do conhecimento seja significativamente menor, pois, a partir do crit&#233;rio escrituralista, todo conhecimento que o homem disp&#245;e &#233; infal&#237;vel, ainda que ele possa ter opini&#245;es meramente verdadeiras. &#201; at&#233;, em certo sentido, tautol&#243;gica: conhecimento s&#243; &#233; conhecimento se infal&#237;vel, portanto, todo conhecimento leg&#237;timo que o homem possa ter &#233; infal&#237;vel.</p><p>XVID. Voc&#234; escreve: &#8220;No fim, sua alternativa exige uma escolha que pode ser formulada sem mist&#233;rio. Ou voc&#234; conserva uma no&#231;&#227;o fal&#237;vel de conhecimento e aceita que, em muitos casos, o sujeito n&#227;o possui como distinguir conhecimento de opini&#227;o verdadeira afortunada; ou exige uma garantia que exclua a sorte e ter&#225; de buscar um fundamento que n&#227;o dependa das faculdades fal&#237;veis que est&#227;o sendo examinadas.&#8221; Mesmo que conced&#233;ssemos o seu ponto, &#233; uma fal&#225;cia querer que ele chegue l&#225; onde voc&#234; quer que ele chegue. Pode ser que, &#8220;em muitos casos, o sujeito n&#227;o possui como distinguir conhecimento de opini&#227;o verdadeira afortunada&#8221;, mas isso n&#227;o significa que, portanto, em nenhum caso ele &#233; capaz de faz&#234;-lo; significa apenas que o mundo nem sempre &#233; transparente, que o sujeito do conhecimento nem sempre ter&#225; a capacidade de averiguar se sua cren&#231;a &#233; conhecimento ou mera cren&#231;a verdadeira. O confiabilismo, por&#233;m, jamais pediu um crit&#233;rio matem&#225;tico de identifica&#231;&#227;o do conhecimento. N&#227;o se pode julg&#225;&#8211;lo a partir da l&#243;gica escrituralista. E voc&#234; acrescenta: &#8220;Voc&#234; come&#231;ou sua resposta dizendo que viu surgir naturalmente a necessidade do ocasionalismo.&#8221; De fato, se eu concordasse com algumas premissas, teria a conclus&#227;o ocasionalista. Percebi a infer&#234;ncia. No entanto, jamais aceitei as premissas. Fico menos maravilhado com o poder do ocasionalismo para resolver uma s&#233;rie de quest&#245;es e mais com a estranheza da imagem por ele implicada, assim como fico com o idealismo transcendental de Kant, ainda que muitos encontrem nele um sistema muito elegante para explicar exaustivamente o mundo.</p><p><em>Soli Deo Gloria</em></p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>Thomas Reid, <em>Inquiry and essays</em>, edi&#231;&#227;o de Keith Lehrer; Ronald E. Bean&#8211;blossom (Indian&#243;polis: Bobbs&#8211;Merrill, 1975), p. 84&#8211;5.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>https://lucasdamota.substack.com/p/um-ser-doxasticamente-infalivel-pode?utm_source=share&amp;utm_medium=android&amp;r=6go5mm</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="#footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p>Alvin Plantinga, Cren&#231;a crist&#227; avalizada, trad. Desid&#233;rio Murcho (S&#227;o Paulo: Vida Nova, 2018), 174.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-4" href="#footnote-anchor-4" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">4</a><div class="footnote-content"><p>G. W. LEIBNIZ, <em>Discurso de metaf&#237;sica</em>, VI, &#8220;Deus nada faz fora da ordem e nem mesmo &#233; poss&#237;vel forjar acontecimentos que n&#227;o sejam regulares&#8221;.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-5" href="#footnote-anchor-5" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">5</a><div class="footnote-content"><p>WOLFHART PANNENBERG, &#8220;<em>The Concept of Miracle</em>,&#8221; Zygon 37, no. 3 (2002): 759.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-6" href="#footnote-anchor-6" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">6</a><div class="footnote-content"><p>https://sedulitas.substack.com/p/le-blanc-sobre-a-remissao-dos-pecados?utm_source=share&amp;utm_medium=android&amp;r=6go5mm</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-7" href="#footnote-anchor-7" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">7</a><div class="footnote-content"><p>https://lucemacedo.substack.com/p/davenant-e-a-harmonia-entre-predestinacao?utm_source=share&amp;utm_medium=android&amp;r=6go5mm</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-8" href="#footnote-anchor-8" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">8</a><div class="footnote-content"><p>https://lucemacedo.substack.com/p/davenant-e-a-harmonia-entre-predestinacao?utm_source=share&amp;utm_medium=android&amp;r=6go5mm</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-9" href="#footnote-anchor-9" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">9</a><div class="footnote-content"><p>Jo&#227;o CALVINO. <em>Coment&#225;rio de Joel</em>. Tradu&#231;&#227;o para o portugu&#234;s de Vanderson Moura da Silva; revis&#227;o e edi&#231;&#227;o de Felipe Sabino de Ara&#250;jo Neto. [S.l.]: Monergismo.com, 2008, p. 38.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-10" href="#footnote-anchor-10" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">10</a><div class="footnote-content"><p>MIRCEA ELIADE, <em>Aspectos do mito</em>, tradu&#231;&#227;o de Manuela Torres, Lisboa: Edi&#231;&#245;es 70, 1963, p. 12&#8211;13.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-11" href="#footnote-anchor-11" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">11</a><div class="footnote-content"><p>ROBERTSON, O. Palmer, <em>Cristo dos pactos</em>, tradu&#231;&#227;o de Am&#233;rico J. Ribeiro, Campinas - SP: Luz Para o Caminho, 1997, p. 8.</p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Sexta reposta a Orlando Terceiro ]]></title><description><![CDATA[De um debate que estamos tendo]]></description><link>https://lucasdamota.substack.com/p/sexta-reposta-a-orlando-terceiro</link><guid isPermaLink="false">https://lucasdamota.substack.com/p/sexta-reposta-a-orlando-terceiro</guid><dc:creator><![CDATA[Lucas da Motta]]></dc:creator><pubDate>Wed, 12 Aug 2026 17:37:00 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/8577f6cd-8436-4d83-9d85-49de8bcfd47e_720x919.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Como o Substack me impediu de ter escrito o coment&#225;rio que escrevi devido &#224; sua extens&#227;o, decidi transform&#225;&#8211;lo em um artigo. O Substack nunca ir&#225; me parar! Eis o texto:</p><p>Vi surgir naturalmente a necessidade do ocasionalismo se lev&#225;ssemos &#224;s &#250;ltimas consequ&#234;ncias o seu pensamento. Faria as seguintes observa&#231;&#245;es sobre esta parte de defini&#231;&#245;es:</p><p>1. Vamos formular mais dois casos do tipo Gettier, os quais, acredito, mostram que o conhecimento <em>a posteriori</em> n&#227;o &#233; o &#250;nico que est&#225; sujeito &#224; cr&#237;tica de Gettier &#224; defini&#231;&#227;o cl&#225;ssica do conhecimento. Nesse caso, a justifica&#231;&#227;o que Gettier combate &#233; mais abrangente que aquela fundada na experi&#234;ncia. Smith acredita, com a justifica&#231;&#227;o em um c&#225;lculo matem&#225;tico errado, que (A) &#8220;173 &#233; um n&#250;mero primo&#8221; &#233; uma proposi&#231;&#227;o falsa. A partir de uma disjun&#231;&#227;o, Smith formula a cren&#231;a de que (B) &#8220;137 &#233; um n&#250;mero primo ou a soma dos &#226;ngulos internos de um tri&#226;ngulo euclidiano &#233; 180&#176;&#8221;. Temos que</p><p>(i) (A) &#233; falsa, pois Smith errou o c&#225;lculo;</p><p>(ii) (B) &#233; verdadeira, pois a segunda parte da proposi&#231;&#227;o &#233; uma verdade necess&#225;ria;</p><p>(iii) Smith tem uma cren&#231;a verdadeira justificada em (B).</p><p>Mas n&#227;o podemos dizer que Smith  conhece (B), pois a verdade de (B) &#233; um mero acidente feliz.</p><p>Outro caso: digamos que Smith queira demonstrar um novo teorema <em>T</em>, mas, numa das partes de sua argumenta&#231;&#227;o &#8212; talvez a Linha 4 (uma fal&#225;cia formal) &#8212; h&#225; um erro que ele n&#227;o percebeu. Acontece que, na linha 12, Smith comete mais um erro, o qual acaba por cancelar os efeitos do erro anterior, reconduzindo a argumenta&#231;&#227;o para o caminho correto. Temos que:</p><p>(iv) Smith acredita que <em>T</em>;</p><p>(v) <em>T</em> &#233; um teorema verdadeiro;</p><p>(vi) Smith est&#225; justificado, com base em seus c&#225;lculos, a acreditar que <em>T</em>.</p><p>Mas, mais uma vez, Smith n&#227;o tem conhecimento, ainda que tenha uma cren&#231;a verdadeira justificada, cuja justifica&#231;&#227;o n&#227;o &#233; <em>a posteriori</em>, mas <em>a priori</em>, independente da experi&#234;ncia. Assim, o problema da justifica&#231;&#227;o n&#227;o &#233; apenas uma poss&#237;vel depend&#234;ncia absoluta de uma fonte emp&#237;rica.</p><p>2.  Parece&#8211;me que dizer que Smith errou porque n&#227;o havia elo entre o fundamento e a verdade da proposi&#231;&#227;o pode gerar tr&#234;s op&#231;&#245;es: (i) que a proposi&#231;&#227;o crida n&#227;o dizia respeito ao objeto, ao referente, (ii) que o elo, por ser muito fr&#225;gil, impossibilita o conhecimento ou (iii) o torna mais improv&#225;vel. Creio que voc&#234; n&#227;o esteja defendendo (i) ou (iii): a primeira &#233; muito exagerada e a segunda, por improv&#225;vel que seja, n&#227;o conduziria a conclus&#227;o requerida. (ii), no entanto, parece exigir mais do argumento do que ele de fato fornece, pois Gettier apenas diz &#8212; e a&#237; est&#225; a sua for&#231;a &#8212; que a justifica&#231;&#227;o, tal como tradicionalmente entendida, &#233; insuficiente para gerar conhecimento, mas n&#227;o que seja causa do n&#227;o&#8211;conhecimento ou que n&#227;o seja poss&#237;vel encontrar outras teorias epistemol&#243;gicas que garantam o conhecimento. Essas teses ainda precisam ser estabelecidas. Al&#233;m disso, durante a segunda metade do s&#233;culo passado, surgiram imediatamente diversas teorias para contornar os problemas de Gettier: teorias causais, anulabilistas, evidencialistas e confiabilistas. Plantinga est&#225; entre os confiabilistas ou externalistas. Se h&#225; uma raz&#227;o para se acreditar na possibilidade de um conhecimento, por mais contingente que seja sua base, acredito que devemos observar a navalha de Ockham e preferir a tese mais simples, que, acredito, tem maior &#8212; ou igual &#8212; poder explicativo que sua ant&#237;tese.</p><p>3. H&#225; duas observa&#231;&#245;es que eu faria aqui, e agrade&#231;o pela corre&#231;&#227;o. Em primeiro lugar, a cren&#231;a de que estou diante de uma x&#237;cara ou de uma &#225;rvore n&#227;o pode ser derivada daquele axioma que &#233; o n&#250;cleo do seu pensamento, pelo menos n&#227;o dedutivamente, raz&#227;o pela qual voc&#234; a descarta como candidata a conhecimento, redefindo&#8211;a como opini&#227;o. Isso colapsaria boa parte das cren&#231;as que se cr&#234; serem poss&#237;veis de serem conhecidas, entre as quais cren&#231;as muito caras, como &#8220;Eu existo&#8221;. Essa &#233; conhecimento ou tamb&#233;m um caso de opini&#227;o? Se a primeira op&#231;&#227;o, por que as demais cren&#231;as n&#227;o s&#227;o conhecimento como ela? Se a segunda, temos que &#233; mais certo crer em proposi&#231;&#245;es deduzidas da revela&#231;&#227;o do que na pr&#243;pria exist&#234;ncia, o que n&#227;o me parece poss&#237;vel: como uma mente pode estar mais segura de algo do que de si mesma? Esse conhecimento n&#227;o passa pela mente, ainda que divinamente mediado? Em segundo lugar, voc&#234; tem que explicar a raz&#227;o por que algumas cren&#231;as s&#227;o classificadas como conhecimento, ao passo que outras s&#227;o postas como opini&#245;es &#8212; opini&#245;es verdadeiras, mas n&#227;o conhecimento &#8212;, a despeito do fato de todas terem sido causadas por Deus na mente humana. Deus certamente causou a cren&#231;a em Mois&#233;s de que ele estava diante de uma sar&#231;a que n&#227;o se consumia no fogo: essa cren&#231;a era conhecimento ou opini&#227;o verdadeira? Pela natureza da revela&#231;&#227;o, diria que conhecimento. Mas se Deus &#233; capaz de assegurar o conhecimento a Mois&#233;s de estar diante de uma sar&#231;a ardendo em fogo, por que a minha cren&#231;a, que Deus causou em mim, de estar diante de uma &#225;rvore n&#227;o &#233; sen&#227;o opini&#227;o verdadeira? Deve haver alguma raz&#227;o escondida aqui.</p><p>4. Em primeiro lugar, este efeito causado &#233; aparente e faz parte da pr&#243;pria l&#243;gica confiabilista. Como disse na nota (2), Gettier foi o ponto de inflex&#227;o para o surgimento de m&#250;ltiplas teorias do conhecimento que n&#227;o mais tratavam ingenuamente o conhecimento como cren&#231;a verdadeira justificada, como as teorias causais, anulabilistas e evidencialistas. Como esclarece Bruno Uch&#244;a, doutor em filosofia, com conhecimento t&#233;cnico na epistemologia de Plantinga, &#8220;O confiabilismo divergia das outras teorias por propor que, em situa&#231;&#245;es espec&#237;ficas, nossa falta de conhecimento se dava por algo que estava fora de nosso alcance epist&#234;mico ou, mais especificamente, algo de que n&#227;o est&#225;vamos diretamente conscientes. A d&#233;cada de 1980 foi dominada, ent&#227;o, por um entrave entre teorias internalistas e externalistas, em que aquelas defendiam, <em>grosso modo</em>, uma esp&#233;cie de acesso cognitivo interno direto &#224;quilo que justifica nossas cren&#231;as, e estas defendiam que n&#227;o temos tal acesso, uma vez que podemos deixar de ter conhecimento pelo fato de algo do ambiente cognitivo fazer com que nossas faculdades cognitivas envolvidas no processo de forma&#231;&#227;o de cren&#231;a n&#227;o fossem confi&#225;veis naquela situa&#231;&#227;o espec&#237;fica.&#8221; Assim, o conhecimento surge quando um conjunto espec&#237;fico de fatores est&#227;o reunidos, conjunto esse que Plantinga nomeia aval: &#8220;Em suma, pois, uma cren&#231;a s&#243; tem aval para um sujeito <em>S</em> se essa cren&#231;a for produzida nele por faculdades cognitivas funcionando apropriadamente (sem disfun&#231;&#245;es), em um ambiente cognitivo apropriado ao g&#234;nero de faculdades cognitivas de <em>S</em> e segundo um plano de des&#237;gnio que vise com &#234;xito &#224; verdade.&#8221; (Cren&#231;a Crist&#227; Avalizada, p. 176) H&#225;, claro, anuladores de uma cren&#231;a avalizada, entre os quais a pr&#243;pria falsidade da cren&#231;a. Plantinga discute a no&#231;&#227;o de anuladores nas p&#225;ginas 363&#8212;364 de sua <em>magnus opus</em>. Conhecimento &#233; cren&#231;a verdadeira avalizada: a verdade &#233; t&#227;o importante quanto o aval. Em segundo lugar, discordo com a suposi&#231;&#227;o de que &#8220;des&#237;gnio apropriado&#8221; implique necessariamente teleologia. Na verdade, o pr&#243;prio Plantinga rejeitou essa tese, que seria uma peti&#231;&#227;o de princ&#237;pio enorme ao seu projeto epistemol&#243;gico: &#8220;N&#227;o precisamos, a princ&#237;pio, considerar que as no&#231;&#245;es de plano de des&#237;gnio e modo pelo qual algo deve funcionar implicam qualquer des&#237;gnio ou prop&#243;sito consciente. N&#227;o quero aqui afirmar que os organismos s&#227;o criados por um agente consciente (Deus) segundo um plano de des&#237;gnio, mais ou menos como os artefatos humanos s&#227;o constru&#237;dos e concebidos (apesar de eu pensar, de fato, que a verdade est&#225; pr&#243;xima disso). N&#227;o estou supondo, pelo menos a princ&#237;pio, que a exist&#234;ncia de um plano de des&#237;gnio implica que o homem tenha sido criado por Deus ou por outro agente consciente; talvez seja poss&#237;vel que a evolu&#231;&#227;o (sem o direcionamento de Deus ou de qualquer outra pessoa) nos tenha, de algum modo, nos equipado com o nosso plano de des&#237;gnio.&#8221; (Cren&#231;a Crist&#227; Avalizada, p. 174; <em>Warrant and Proper Function</em>, p. 11ss.).</p><p>5. S&#243; posso refor&#231;ar meu ponto: conhecimento est&#225; intimamente ligado ao cumprimento dos pr&#243;prios deveres racionais, com a racionalidade, portanto. Se voc&#234; cumprir as condi&#231;&#245;es do aval e ter uma cren&#231;a verdadeira, acredito que voc&#234; estar&#225; dentro de suas responsabilidades racionais em aceit&#225;&#8211;la como conhecimento. &#201; por esse motivo que acredito que, mesmo que fosse imposs&#237;vel demonstrar a exist&#234;ncia de Deus, o crist&#227;o estaria dentro de seus deveres racionais se cresse que Ele existia, pois ent&#227;o ele poderia ter aval e, se a cren&#231;a dele fosse verdadeira, conhecimento. Isso nada mais &#233; do que a suma do projeto epistemol&#243;gico de Plantinga.</p><p>6. Aqui tenho de fazer algumas observa&#231;&#245;es de ordem teol&#243;gica. Em primeiro lugar, embora seja calvinista, n&#227;o consigo &#8212; pelo menos n&#227;o ainda &#8212; expandir o monergismo a ponto de torn&#225;&#8211;lo ocasionalismo, precisamente pelo fato de que ent&#227;o os princ&#237;pios da natureza e da gra&#231;a seriam sempre concorrentes. E Deus n&#227;o est&#225; contra a natureza, mas a favor dela, redimindo&#8211;a; Cristo, que &#233; o novo Ad&#227;o, veio para destruir o poder do diabo que impedia os filhos de Deus de serem o que s&#227;o: filhos de Deus pela f&#233; em Cristo. Em segundo lugar, minha tese prova&#8211;se pelas pr&#243;prias evid&#234;ncias levantadas, pois o fato de o homem ter cren&#231;as falsas me parece ser melhor explicado por uma perspectiva n&#227;o&#8211;ocasionalista. &#201; mais prefer&#237;vel pelo princ&#237;pio da parcim&#244;nia. </p><p>7. Concordo que as leis da l&#243;gica e as proposi&#231;&#245;es matem&#225;ticas, bem como outros objetos abstratos, como formas geom&#233;tricas, proposi&#231;&#245;es e assim por diante, n&#227;o s&#227;o independentes de Deus, de onde ter&#237;amos um platonismo estranho &#224;s Escrituras. Objetos abstratos s&#227;o a pr&#243;pria forma pela qual Deus raciocina. Mas h&#225; algumas coisas que quero observar: se a l&#243;gica e a matem&#225;tica n&#227;o deixam de ser objetos da revela&#231;&#227;o, ent&#227;o temos uma revela&#231;&#227;o mais certa que a revela&#231;&#227;o especial. Pois a hist&#243;ria da igreja est&#225; a&#237; para mostrar o qu&#227;o distante pode ir um teol&#243;go em suas especula&#231;&#245;es a respeito da revela&#231;&#227;o especial, e como a hist&#243;ria da teologia n&#227;o &#233; t&#227;o diferente da hist&#243;ria da filosofia, que abunda em teorias das mais diversas, muitas das quais dificilmente compat&#237;veis entre si. Mas a hist&#243;ria da l&#243;gica e da matem&#225;tica &#233; exatamente o inverso: os <em>Elementos de Euclides </em>jamais foram reeditados em termos de conte&#250;do, sen&#227;o para atualizar a linguagem. Eu diria at&#233; que os Elementos de Euclides quase se confundem com &#8220;O Livro&#8221; de que tanto pensava Paul Erdos: uma cole&#231;&#227;o plat&#244;nica das provas matem&#225;ticas mais simples poss&#237;veis. Com efeito, ter&#237;amos que Deus se revela mais claramente na matem&#225;tica do que em Cristo ou nas Escrituras.</p><p>8. Primeiro: temo o quase&#8211;platonismo dessa tese, que substitui o mundo das ideias pela revela&#231;&#227;o, &#250;nico axioma poss&#237;vel do conhecimento, e considera as demais cren&#231;as, verdadeiras ou falsas, como opini&#245;es apenas, por n&#227;o estarem em um rela&#231;&#227;o direta e dedutiva com a revela&#231;&#227;o. Defino o objeto da teologia como o <em>ser de Deus no tempo e no espa&#231;o</em>; o mundo externo, portanto, em minha vis&#227;o, pode igualmente ser fonte de conhecimento, ainda que n&#227;o seja um axioma infal&#237;vel. Segundo: l&#225; no <em>Sobre a Mentira</em>, Santo Agostinho n&#227;o restringe o ato de mentir ao falar mentiras; fazer com que algu&#233;m, por exemplo, tome o caminho errado em uma estrada contando&#8211;lhe a verdade, mas de maneira intencionalmente voltada para faz&#234;-lo errar, tamb&#233;m &#233; mentira. Dentre v&#225;rios outros casos que o te&#243;logo ajunta. Temo que dizer que Deus causa em n&#243;s opini&#245;es que sejam falsas contribui para que Deus seja moralmente respons&#225;vel pelo erro. N&#227;o foi Deus que fez suscitar em Eva a cren&#231;a falsa de que, ao comer do fruto proibido, ela e seu marido, Ad&#227;o, nosso pai, n&#227;o apenas seriam como Ele, mas tamb&#233;m n&#227;o morreriam; foi a serpente, Satan&#225;s. Terceiro: ainda que eu acredite na soberania de Deus em executar no mundo o que Ele decidiu em Seus decretos eternos, inclino&#8211;me para achar que essa soberania, pelo menos do ponto de vista das Escrituras, designa n&#227;o um mecanismo autom&#225;tico que, quando acionado, executa por Deus, que permanece distante, os Seus prop&#243;sitos. Deus age em Deus; Deus se revela atrav&#233;s de Deus (Barth); o ser de Deus est&#225; dentro do tempo e do espa&#231;o; logo, Ele governa, sim, mas lutando contra a cria&#231;&#227;o em favor da cria&#231;&#227;o, como que externamente, fora do homem etc. N&#227;o vejo base b&#237;blica que suporte a tese de que Deus causa todos os estados mentais do homem, e dificilmente os fil&#243;sofos aceitariam que Deus causar cren&#231;as falsas numa mente n&#227;o necessariamente levaria a que nos refer&#237;ssemos a Deus como autor do erro.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A vida o mais concreta possível e o suicídio ]]></title><description><![CDATA[Pensamentos n&#227;o t&#227;o edificantes assim]]></description><link>https://lucasdamota.substack.com/p/a-vida-o-mais-concreta-possivel-e</link><guid isPermaLink="false">https://lucasdamota.substack.com/p/a-vida-o-mais-concreta-possivel-e</guid><dc:creator><![CDATA[Lucas da Motta]]></dc:creator><pubDate>Wed, 12 Aug 2026 13:52:35 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/27daed47-02fc-4313-9a8b-9ffdd3c6dc08_3000x1688.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Decidi que precisava esvaziar a minha pr&#243;pria filosofia &#8212; em que medida posso cham&#225;-la de <em>filosofia</em> e mesmo de <em>minha</em> &#233; algo que ignoro de todo &#8212; se quisesse ser coerente com a mesma, que &#233; essencialmente uma <em>filosofia do esvaziamento </em>&#8212; uma <em>filosofia ken&#243;tica</em> &#8212; por ser, antes de tudo, <em>a filosofia da vida o mais concreta poss&#237;vel</em>. Estas notas desorganizadas tem o objetivo de faz&#234;-lo. Desconhe&#231;o, contudo, a que fim me levar&#225; a reflex&#227;o: se &#233; fim digno de ser escrito ou mera bagatela.</p><p>De onde se define o que seja tal coisa &#8212; a vida o mais concreta poss&#237;vel? Busco com essa pergunta o ponto de vista a partir do qual o conceito &#233; constru&#237;do. Fa&#231;o isso por uma raz&#227;o que me ocorreu enquanto escrevia a nota anterior: &#233; costume que tenho de definir a vida o mais concreta poss&#237;vel da perspectiva de uma vida o mais abstrata poss&#237;vel. Ou &#233; isso o que me parece que venho fazendo &#8212; n&#227;o todas as vezes em que me proponho a pensar nesse assunto, para ser justo comigo mesmo, mas em uma boa quantidade de vezes... sem d&#250;vida alguma! E imagino, com alguma dist&#226;ncia daquele ponto em que a realidade e a concretude se tocam para mim, no que consistiria a vida o mais concreta poss&#237;vel, fazendo s&#243; que aumente minha <em>anacronicidade</em> dela, aprofundando, para dizer &#224; maneira de Mario Ferreira dos Santos, cada vez mais a <em>crise.</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a> De modo que, em &#250;ltima an&#225;lise, traio minha pr&#243;pria filosofia quando saio da vida para defini&#8211;la; quando tomo o ponto de vista da vida o mais abstrata poss&#237;vel para lan&#231;ar alguma luz sobre a vida o mais concreta poss&#237;vel. &#8220;Como eu viveria se levasse a s&#233;rio o conceito desta filosofia&#8221; equivale a ainda permanecer fora da vida, a alargar ainda mais o abismo que geralmente h&#225; entre essas duas esp&#233;cies de vida. &#201; insuficiente; &#233; um exerc&#237;cio que acontece l&#225; fora, que n&#227;o ajuda para que algu&#233;m entre na realidade o mais concreta poss&#237;vel &#8212; ao menos n&#227;o imediatamente, pois, imediatamente, o que se tem &#233; s&#243; mais anacronicidade e aliena&#231;&#227;o. E o que ter&#237;amos caso tiv&#233;ssemos algo, caso tiv&#233;ssemos uma resposta que iluminasse&#8211;nos quanto ao modo por que viver&#237;amos t&#227;o logo come&#231;&#225;ssemos por levar a vida o mais concreta poss&#237;vel com mais seriedade do que geralmente fazemos? Uma concretiza&#231;&#227;o de um ideal abstrato? E por que a vida deveria ter de submeter&#8211;se a isso, quando a sua l&#243;gica interna deveria ser a estrutura de sua exist&#234;ncia, a base sobre a qual ela desliza? N&#227;o tenho respostas para nenhuma dessas quest&#245;es, cujo alcance, inclusive, bem como import&#226;ncia, desconhe&#231;o. Apenas as registrei para n&#227;o serem esquecidas. &#8220;A exig&#234;ncia deve ser ouvida &#8212; e eu entendo o que &#233; dito como falando apenas a mim&#8212; para que eu possa aprender n&#227;o apenas a recorrer &#224; gra&#231;a, mas recorrer a ela em rela&#231;&#227;o ao uso da gra&#231;a.&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a></p><p>Temos algo, ainda assim, ainda que seja &#8212; alguns argumentariam &#8212; um tru&#237;smo in&#250;til: &#233; do ponto de vista da vista o mais concreta poss&#237;vel que a vida o mais concreta poss&#237;vel deve ser conceituada. Mesmo aqui temos um exemplo daquele esvaziamento de que falei no princ&#237;pio, que, por hora, n&#227;o busca o dever&#8211;ser, mas o ser; n&#227;o o ideal derivado mesmo que dos princ&#237;pios desta filosofia, mas o ponto de intersec&#231;&#227;o entre realidade e concretude, e isso, deixo sempre bem claro, relativamente a mim. &#201; do ponto de vista da vida o mais concreta poss&#237;vel que uma filosofia da vida o mais concreta poss&#237;vel pode ser, pouco a pouco, delineada. E, conforme &#233; do meu costume faz&#234;-lo, essa esp&#233;cie de vida n&#227;o &#233; &#8212; e n&#227;o poderia ser &#8212; sen&#227;o a minha pr&#243;pria vida: a minha vida, esta minha vida, n&#227;o certamente a tua vida, que &#233; a mais concreta poss&#237;vel para ti, mas n&#227;o para mim. Com efeito, a vida o mais concreta poss&#237;vel pode ser posta como &#8220;o ponto de m&#225;xima aproxima&#231;&#227;o entre a realidade e a concretude, sempre para mim&#8221;. Enfatizo aqui o aspecto relativo ou relacional dessa defini&#231;&#227;o, pois a tua vida, embora a mais concreta poss&#237;vel para ti, continua sendo, n&#227;o obstante e de certa forma, muito abstrata relativamente a mim. A segunda raz&#227;o dessa minha &#234;nfase se deve ao fato de a Torre Eiffel ser, em termos absolutos, um ponto onde realidade e concretude coincidem, de fato, mas que em termos relativos &#8212; e isso para mim &#8212;, ela &#233; t&#227;o abstrata quanto o n&#250;mero sete, por estar suficientemente longe daquele ponto em refer&#234;ncia a mim em que o que &#233; real e o que &#233; concreto se tornam uma s&#243; e mesma coisa, a saber, a minha pr&#243;pria vida. </p><p>Uma das coisas que caracterizam essa esp&#233;cie de vida &#233; a limita&#231;&#227;o tempo&#8211;espacial da mesma, donde a sua finitude. Poderia dizer&#8211;se que, na verdade, a vida o mais concreta poss&#237;vel, qual tesouro, recorta pequen&#237;ssimas por&#231;&#245;es tanto do tempo quanto do espa&#231;o e as reclama para si. De qualquer forma, temos que o tempo e o espa&#231;o limitam a vida o mais concreta poss&#237;vel &#8212; ou, da outra perspectiva, s&#227;o por ela limitados. Com efeito, o tempo limitado pela realidade concreta da vida &#8212; da minha vida, vale sempre lembrar &#8212; &#233; o <em>agora</em>, e o espa&#231;o limitado por ela &#233; o <em>aqui</em>: <em>o aqui e agora</em> da vida o mais concreta poss&#237;vel. Os paralelos anti&#233;ticos do aqui e agora da minha vida seriam <em>o ali e depois</em>, categorias, portanto, abstratas, n&#227;o concretas, ao contr&#225;rio das primeiras.</p><p>Surge da&#237; um perigo &#8212; mais especificamente do esvaziamento para a vida o mais concreta poss&#237;vel: <em>o suic&#237;dio</em>. Pois no reino abstrato em que habita o homem alienado de sua vida n&#227;o h&#225; possibilidade de suic&#237;dio, pois abstra&#231;&#245;es n&#227;o costumam tirar a pr&#243;pria vida. O suic&#237;dio s&#243; &#233; poss&#237;vel no reino da vida o mais concreta poss&#237;vel, pois &#233; s&#243; quando a vida est&#225; suficientemente pr&#243;xima que &#233; poss&#237;vel rejeit&#225;&#8211;la. O infeliz que tira a sua pr&#243;pria vida chegou muito perto da vida e sem preparo: rejeitou a vida porque sentiu em seu pesco&#231;o o seu bafo frio e desesperador. </p><p>Nem tudo, por&#233;m, s&#227;o cad&#225;veres, pois, ao mesmo tempo em que o suic&#237;dio surge como possibilidade existencial quando algu&#233;m se esvazia e se torna o mais contempor&#226;neo poss&#237;vel de si mesmo, a ponto de tornar&#8211;se si mesmo, tamb&#233;m acontece de surgir a possibilidade de aceita&#231;&#227;o da vida o mais concreta poss&#237;vel enquanto tal, em toda a sua finitude tempo&#8211;espacial, por mais escandalosa que ela pare&#231;a ser. Esse &#233;, surpreendentemente, um fen&#244;meno muito parecido com as duas poss&#237;veis rea&#231;&#245;es das pessoas diante de Jesus Cristo tal como explicada por S&#248;ren Kierkegaard. Pois, embora Cristo tenha convidado doce e ternamente para si a todos os pecadores, os doentes, para nele encontrarem o m&#233;dico que &#233;, simultaneamente, a cura para as suas doen&#231;as mortais, o que se v&#234; ocorrer &#233; um verdadeiro paradoxo: &#8220;uma vasta multid&#227;o que estremece e recai at&#233; que se precipitem &#224; frente e pisoteiem, de modo que, se do resultado algu&#233;m inferisse o que foi dito, poder&#237;amos antes concluir que &#8220;<em>procul o procul este profani</em>&#8221; foi dito em vez de &#8220;vinde a mim&#8221;.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a> Esc&#226;ndalo ou f&#233;, tanto aqui quanto ali; tanto quando o homem se encontra diante de Cristo quanto quando o homem se encontra diante da pr&#243;pria vida, mas de sua vida esvaziada, concreta, t&#227;o pr&#243;xima dele quanto a sua pr&#243;pria pele. Esc&#226;ndalo ou f&#233;, por um lado, e suic&#237;dio e aceita&#231;&#227;o da vida, por outro. S&#227;o as duas &#250;nicas op&#231;&#245;es, pois a aliena&#231;&#227;o atrav&#233;s da anacronicidade em rela&#231;&#227;o &#224; vida &#233; um tipo de suic&#237;dio, definido como a rejei&#231;&#227;o, seja ela abstrata ou concreta, da &#250;nica esp&#233;cie de vida que pode ser existencial e seriamente rejeitada, cuja rejei&#231;&#227;o &#233; a &#250;nica com s&#233;rias implica&#231;&#245;es &#8212; implica&#231;&#245;es de vida e morte!<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-4" href="#footnote-4" target="_self">4</a> Mais uma vez, a rejei&#231;&#227;o abstrata ou concreta da vida o mais concreta poss&#237;vel, o que constitui o suic&#237;dio, &#233; a &#250;nica com implica&#231;&#245;es concretas; a rejei&#231;&#227;o de uma vida abstrata &#233; t&#227;o inf&#233;rtil em termos concretos quanto a sua aceita&#231;&#227;o.</p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>SANTOS, M&#225;rio Ferreira dos. <em>Filosofia da crise. </em>S&#227;o Paulo: &#201; Realiza&#231;&#245;es, 2010,<em> </em>p. 19&#8211;33.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>S&#216;REN KIERKEGAARD, <em>A pr&#225;tica do cristianismo: por Anti-Climacus n&#186; I, II, III</em>, trad. Paulo Abe, 1. ed. (Londrina, PR: Livrarias Fam&#237;lia Crist&#227;, 2021), p. 9.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="#footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p>KIERKEGAARD, <em>A pr&#225;tica do cristianismo</em>, p. 26.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-4" href="#footnote-anchor-4" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">4</a><div class="footnote-content"><p>CAMUS, Albert. <em>O mito de S&#237;sifo: ensaio sobre o absurdo</em>. Tradu&#231;&#227;o de Ari Roitman e Paulina Watch. 32. ed. Rio de Janeiro: Record, 2024, p. 17.</p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Teria sido suficiente!]]></title><description><![CDATA[Sim, teria!]]></description><link>https://lucasdamota.substack.com/p/teria-sido-suficiente</link><guid isPermaLink="false">https://lucasdamota.substack.com/p/teria-sido-suficiente</guid><dc:creator><![CDATA[Lucas da Motta]]></dc:creator><pubDate>Mon, 10 Aug 2026 09:00:50 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/fdaf68e4-f9f6-41ec-9331-ac2f9d06186b_934x600.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Se Ele nos tivesse tirado do Egito, e n&#227;o tivesse executado ju&#237;zos sobre eles, teria sido suficiente!</p><p>Se Ele tivesse executado ju&#237;zos sobre eles, e n&#227;o sobre seus &#237;dolos, teria sido suficiente!</p><p>Se Ele tivesse destru&#237;do seus &#237;dolos, e n&#227;o tivesse ferido seus primog&#234;nitos, teria sido suficiente!</p><p>Se Ele tivesse ferido seus primog&#234;nitos, e n&#227;o nos tivesse dado suas riquezas, teria sido suficiente!</p><p>Se Ele nos tivesse dado suas riquezas, e n&#227;o tivesse aberto o mar para n&#243;s, teria sido suficiente!</p><p>Se Ele tivesse aberto o mar para n&#243;s, e n&#227;o nos tivesse feito passar por ele em terra seca, teria sido suficiente!</p><p>Se Ele nos tivesse feito passar pelo mar em terra seca, e n&#227;o tivesse afogado nossos opressores nele, teria sido suficiente!</p><p>Se Ele tivesse afogado nossos opressores nele, e n&#227;o tivesse sustentado nossas necessidades no deserto por quarenta anos, teria sido suficiente!</p><p>Se Ele tivesse sustentado nossas necessidades no deserto por quarenta anos, e n&#227;o nos tivesse alimentado com o man&#225;, teria sido suficiente!</p><p>Se Ele nos tivesse alimentado com o man&#225;, e n&#227;o nos tivesse dado o S&#225;bado, teria sido suficiente!</p><p>Se Ele nos tivesse dado o Shabat, e n&#227;o nos tivesse trazido diante do Monte Sinai, teria sido suficiente!</p><p>Se Ele nos tivesse trazido diante do Monte Sinai, e n&#227;o nos tivesse dado a Lei, teria sido suficiente!</p><p>Se Ele nos tivesse dado a Lei, e n&#227;o nos tivesse introduzido na terra de Israel, teria sido suficiente!</p><p>Se Ele nos tivesse introduzido na terra de Israel, e n&#227;o tivesse constru&#237;do para n&#243;s o Templo, teria sido suficiente!</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[ Ó, Iesu, que tanto espero, a Vós temo!]]></title><description><![CDATA[Po&#233;tica]]></description><link>https://lucasdamota.substack.com/p/o-iesu-que-tanto-espero-a-vos-temo</link><guid isPermaLink="false">https://lucasdamota.substack.com/p/o-iesu-que-tanto-espero-a-vos-temo</guid><dc:creator><![CDATA[Lucas da Motta]]></dc:creator><pubDate>Sat, 08 Aug 2026 14:08:50 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/e12d0840-2b7d-48db-88d9-81a6731b98ae_1280x720.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">Com tanto medo que ando,
&#211; Iesu, do meu pecado,
Que de V&#243;s tenha afastado 
Minha vida:

Eis a minha amarga lida,
Pois o quanto mais me achego,
Mais de V&#243;s me trava o medo,
Mais me afasto.

Que sou tudo, menos casto,
V&#243;s sabeis, j&#225; n&#227;o Vos conto,
Pois seria nisso tonto
De verdade;

Mas Vos pe&#231;o, &#243; Santidade,
Que por V&#243;s a minha vida
Possa ser toda engolida,
Sem resgate.

Como outrora V&#243;s curaste,
Cura agora com ternura,
Esta pobre criatura 
Isso clama. 

Sou menino que Vos chama,
&#211; meu Pai, Irm&#227;o maior;
De mim tenha pouca d&#243;,
Que me basta.

N&#227;o atentes para a casta
Donde vem o malfadado;
N&#227;o atines co'o pecado,
Que comete. 

Mas setenta vezes sete 
Que perdoe a mau a&#231;&#227;o
E alimente o Vosso p&#227;o 
O garoto:

Ele teme o Vosso rosto
Por haver muito pecado,
Por haver Vos maltratado,
Seu amor.

Quando longe o pecador,
N&#227;o lhe fere a consci&#234;ncia 
Que n&#227;o pode ter ci&#234;ncia 
Do seu mal.

Pois que vive em treva tal,
Que por mais que ao sol levante,
Sua luz n&#227;o se garante 
Que se veja;

Por mais pr&#243;ximo que esteja
Dum espelho o pr&#243;prio rosto,
N&#227;o se pode neste posto 
Enxergar;

E nem mesmo o paladar
No sabor da pr&#243;pria morte,
Pode ter ma' outra sorte,
Diferente;

E o seu corpo sequer sente 
Ver&#227;o, outono ou inverno,
Nem o fogo dos infernos
Lhe fascina.

Se, meu Deus, a sua crina,
V&#243;s puxardes para um lado,
N&#227;o ser&#225; seu outro fado 
Mas negar;

Que por V&#243;s n&#227;o buscar&#225;,
Porque morto em seus pecados
Para ser por V&#243;s guiado 
Pela m&#227;o.

N&#227;o &#233; minha posi&#231;&#227;o
Que estou, mas O conhe&#231;o,
E por isso sinto um medo
Desse lume;

Pois &#233; t&#227;o altivo o cume,
Que me custa pra escalar
Sem temer de trope&#231;ar 
Numa pedra.

Mas n&#227;o seja a que se medra
Nos sonhos de Daniel,
Pedra que da terra ao c&#233;u 
Enche o mundo;

Pedra que no po&#231;o fundo 
De minh'alma ao ser lan&#231;ada
&#193;gua doce da salgada
Logo torna;

Pedra que da &#225;gua morna,
&#193;gua quent'&#225;gua da vida,
A transforma na bebida 
Que eu tomo;

Isso aqui, bem simples, somo:
&#211; Iesu, que tanto quero,
&#211; Iesu, que tanto espero:
A V&#243;s temo!</pre></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[David Martyn Lloyd–Jones sobre João Calvino ]]></title><description><![CDATA[O Caso Acusativo]]></description><link>https://lucasdamota.substack.com/p/david-martyn-lloydjones-sobre-joao</link><guid isPermaLink="false">https://lucasdamota.substack.com/p/david-martyn-lloydjones-sobre-joao</guid><dc:creator><![CDATA[Lucas da Motta]]></dc:creator><pubDate>Thu, 30 Jul 2026 19:31:51 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/e0e74443-3d7e-4f72-a4d3-a1f58a13b344_650x472.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>(Extra&#237;do do livro <em>Discernindo os Tempos,</em> do dr. David  Martyn Lloyd-Jones, Editora PES, p. 42-4. <em>Fi&#8211;lo porque qui&#8211;lo</em>)</p><p>Nada &#233; mais significativo, quanto &#224; grande mudan&#231;a que se deu no campo da teologia durante o s&#233;culo passado, do que o lugar agora cedido e a aten&#231;&#227;o dada ao grande homem de Genebra, que &#233; o assunto desta palestra.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a></p><p>At&#233; h&#225; quase vinte anos, dava-se pouca aten&#231;&#227;o a Jo&#227;o Calvino, e quando algu&#233;m falava dele era para amontoar insultos sobre ele, com desprezo. Ele era visto como uma pessoa cruel, dominadora e dura. Quanto &#224; sua obra, dizia-se que ele foi o autor do sistema teol&#243;gico mais opressivo e ferrenho que j&#225; se viu. Segundo essa cren&#231;a, os principais efeitos da obra que ele realizou no campo da religi&#227;o foram colocar e manter as pessoas num estado de escravid&#227;o espiritual e, numa esfera mais ampla, abrir o caminho para o capitalismo. Acreditava-se, pois, que a sua influ&#234;ncia foi totalmente nociva e que ele n&#227;o era de nenhum interesse palp&#225;vel para o mundo, exceto o fato de ser um esp&#233;cime, se n&#227;o um monstro, no museu da teologia e da religi&#227;o. </p><p>N&#227;o &#233; essa a situa&#231;&#227;o hoje, por&#233;m. De fato, faz-se mais men&#231;&#227;o dele agora do que em quase um s&#233;culo, e Calvino e o calvinismo s&#227;o temas de muito argumento e debate nos c&#237;rculos teol&#243;gicos. Talvez seja o avivamento teol&#243;gico ligado ao nome da Karl Barth que explica isto, se a gente v&#234; as coisas externamente. Mas tamb&#233;m &#233; preciso explicar Barth e a sua posi&#231;&#227;o. Que foi que o levou de volta a Calvino? A sua pr&#243;pria reposta &#233; que ele n&#227;o p&#244;de encontrar em nenhum outro lugar uma explica&#231;&#227;o satisfat&#243;ria da vida, especialmente dos problemas do s&#233;culo vinte, nem tampouco uma &#226;ncora para a sua alma e para a sua f&#233; em meio ao fragor da tormenta. Seja qual for a explica&#231;&#227;o, o fato &#233; que se formaram sociedades calvinistas neste pa&#237;s, nos Estados Unidos e Canad&#225;, na Austr&#225;lia, na Nova Zel&#226;ndia e na &#193;frica do Sul, &#224; parte das que se formaram noutros pa&#237;ses da Europa antes da guerra. De fato, foi realizado um Congresso Calvinista Internacional em Edimburgo em 1938, e duas confer&#234;ncias similares foram levadas a efeito na Am&#233;rica durante a guerra. Tamb&#233;m s&#227;o publicados regularmente peri&#243;dicos para discuss&#227;o de t&#243;picos e problemas do ponto de vista do ensino de Calvino; e este ano o livro-texto que est&#225; sendo usado nas aulas teol&#243;gicas do New College, Edimburgo, &#233; a Institui&#231;&#227;o da Religi&#227;o Crist&#227; (as &#8220;Institutas&#8221;), de Jo&#227;o Calvino. Muito me agradaria se eu pudesse acrescentar que houve um movimento similar em Gales. </p><p>Portanto, o tempo est&#225; maduro para olharmos de relance este homem que influenciou a vida do mundo em t&#227;o grande medida. Que dizer do homem propriamente dito? Ele nasceu em Noyon, na Picardia, em 1509. Sabemos muito pouco do seu pai e da sua m&#227;e, exceto que a sua m&#227;e era famosa por sua vida piedosa. Desde o princ&#237;pio Calvino mostrou que tinha capacidades mentais fora do comum. Os seus pais eram cat&#243;licos romanos, e a sua inten&#231;&#227;o natural era preparar o seu inteligente filho para uma carreira eminente na igreja. Da&#237;, os seus campos de estudo eram filosofia, teologia, direito e literatura. Embora sobressa&#237;sse em todas as &#225;reas, a sua esfera favorita era a literatura, e o vemos em Paris, aos vinte e dois anos de idade, como erudito humanista, sendo a sua maior ambi&#231;&#227;o na vida ter renome como escritor. Era um aluno t&#227;o extraordin&#225;rio que muitas vezes fez prele&#231;&#245;es aos seus colegas de estudos substituindo os seus professores, e quanto ao seu estilo de vida e &#224; sua conduta, ele era conhecido por sua sobriedade. Na verdade, ele dava &#234;nfase &#224; distin&#231;&#227;o moral com tanta veem&#234;ncia que recebeu o apelido de &#8220;O Caso Acusativo&#8221;. Mas, como acontecera com Lutero antes dele, e com Jo&#227;o Wesley e muitos outros depois, a moralidade n&#227;o foi suficiente para mitigar sua alma sedenta. Quando estava com vinte e tr&#234;s anos de idade, experimentou a convers&#227;o evang&#233;lica, e o curso da sua vida se transformou completamente. Tendo enxergado a verdade, e tendo experimentado o poder desta em sua alma, deu as costas &#224; igreja de Roma e se tornou protestante. N&#227;o dispomos de tempo para seguir a hist&#243;ria da sua vida, por&#233;m sabemos que ele passou quase todo o resto da sua vida em Genebra, como ministro do evangelho. Trabalhou ali desde 1536 at&#233; a sua morte, em 1564, com exce&#231;&#227;o do per&#237;odo de 1538 a 1541, quando as autoridades genebrinas o expulsaram, e ele foi para o &#8220;ex&#237;lio&#8221;, em Estrasburgo. </p><p>Calvino era magro, de estatura mediana, testa larga e olhos penetrantes. Sua sa&#250;de foi muito fr&#225;gil durante a sua vida toda, porque ele sofria de asma. Era extremamente dif&#237;cil persuadi-lo a comer e a dormir. Apesar de ter um esp&#237;rito senhoril, o testemunho dos que o conheceram melhor sugere que nunca houve um homem t&#227;o humilde e santo como ele. Seu principal objetivo na vida era glorificar a Deus, e ele se dedicou a isso completamente, sem pena do seu corpo nem dos seus recursos. Ele gostava de pensar em si mesmo como escritor crist&#227;o e, se tivesse seguido a sua inclina&#231;&#227;o pessoal, teria limitado a sua obra unicamente a esse campo; entretanto um amigo o amea&#231;ou com o ju&#237;zo de Deus, se n&#227;o se comprometesse a pregar, e o resultado foi que, segundo a principal autoridade sobre a sua vida, ele pregou em m&#233;dia todos os dias e, com freq&#252;&#234;ncia, duas vezes num dia, em Genebra, durante vinte e cinco anos. Devido &#224; asma, ele falava lentamente, e n&#227;o se poderia descrev&#234;-lo como orador eloq&#252;ente. Tampouco se pode pensar nele como um pregador que s&#243; apelasse para a mente e para o intelecto. Uma certa ternura piedosa muitas vezes irrompia nas reuni&#245;es, subjugando os presentes. </p><p>O mundo lembra-se dele, n&#227;o tanto como pregador, mas como autor de cinq&#252;enta e nove obras volumosas. Ele escreveu trinta coment&#225;rios dos livros da B&#237;blia, incluindo-se todo o Novo Testamento, menos a Segunda e a Terceira Ep&#237;stolas de Jo&#227;o e o livro de Apocalipse. </p><p>Al&#233;m disso, Calvino era um constante missivista e, das suas cartas, 4000 foram publicadas. Tamb&#233;m teve infind&#225;veis oportunidades, numa &#233;poca amante de pol&#234;micas, da fazer uso da sua incompar&#225;vel habilidade como polemista. Ningu&#233;m se lhe igualava no uso do &#8220;florete&#8221;, e quando a isso se acrescenta o seu talento especial para a l&#243;gica, vemos nele, possivelmente, o maior &#8220;polemista&#8221; que o mundo j&#225; viu. </p><p>Quando recordamos que ele estava perpetuamente envolvido em contendas ou em consultas com as autoridades de Genebra, concernentes &#224;s condi&#231;&#245;es morais e sociais da cidade, n&#227;o nos surpreende que tenha morrido com apenas cinq&#252;enta e cinco anos de idade. O mist&#233;rio &#233; como ele conseguiu realizar tanto em t&#227;o pouco tempo. Ningu&#233;m sabe onde ele foi sepultado, por&#233;m a sua maior contribui&#231;&#227;o para a literatura teol&#243;gica, a Institui&#231;&#227;o da Religi&#227;o Crist&#227; (as &#8220;Institutas&#8221;), sobressai como um memorial para ele. Ele escreveu essa obra quando tinha vinte e cinco anos de idade, e a primeira publica&#231;&#227;o dela foi na Basil&#233;ia, em 1536, todavia Calvino continuou trabalhando nela, ampliando-a e reeditando-a durante a sua vida toda. </p><p>&#201; sem d&#250;vida a sua obra prima. A verdade &#233; que se pode dizer que nenhum outro livro teve tanta influ&#234;ncia sobre o homem e sobre a hist&#243;ria da civiliza&#231;&#227;o. N&#227;o &#233; tampouco exagero dizer que foram as &#8220;Institutas&#8221; que salvaram a Reforma Protestante, pois elas constituem a summa theologica do protestantismo, e a mais clara declara&#231;&#227;o de f&#233; que a f&#233; evang&#233;lica j&#225; teve. </p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>Palestra radiof&#244;nica para a BBC, em Gales, em 25 de junho de 1944. </p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Um ser doxasticamente infalível pode ter crenças falsas]]></title><description><![CDATA[Ainda que n&#227;o as tenha]]></description><link>https://lucasdamota.substack.com/p/um-ser-doxasticamente-infalivel-pode</link><guid isPermaLink="false">https://lucasdamota.substack.com/p/um-ser-doxasticamente-infalivel-pode</guid><dc:creator><![CDATA[Lucas da Motta]]></dc:creator><pubDate>Wed, 29 Jul 2026 10:40:39 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/5973ffd1-88d4-40c1-817e-5cc2e8521ae0_347x253.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<h4>Introdu&#231;&#227;o </h4><p>Defino um ser doxasticamente infal&#237;vel como um ser capaz de crer apenas em proposi&#231;&#245;es verdadeiras. Isso, contudo, n&#227;o significa onisci&#234;ncia, pois, embora os elementos do conjunto universo de cren&#231;as desse ser sejam todos verdadeiros, esse seu conjunto de cren&#231;as n&#227;o &#233; <em>m&#225;ximo</em>. Ou seja, ele n&#227;o necessariamente acredita em todas as proposi&#231;&#245;es verdadeiras, ainda que as proposi&#231;&#245;es que t&#234;m seu assentimento sejam todas verdadeiras. Isso &#233; muito importante para o sucesso do meu argumento, que &#233;: <em>um ser doxasticamente infal&#237;vel pode saber que &#233; epistemicamente fal&#237;vel</em>. Ou seja, embora ele acredite apenas em proposi&#231;&#245;es verdadeiras, isso n&#227;o o torna epistemicamente infal&#237;vel. E este artigo provar&#225; essa tese.</p><h4>Um intelecto doxasticamente puro </h4><p>Considere um intelecto doxasticamente puro. N&#227;o digo um intelecto ainda por se desenvolver, mas um j&#225; bem desenvolvido. Um que, em termos de maturidade epist&#234;mica, se assemelhe a um intelecto adulto. A &#250;nica diferen&#231;a &#233; que o nosso intelecto &#233; doxasticamente puro. Ou seja, ele n&#227;o tem qualquer cren&#231;a tampouco considera como verdadeira &#8211; ou falsa &#8211; qualquer proposi&#231;&#227;o. Certamente n&#227;o h&#225; nada parecido com isso no mundo atual. Entretanto, &#233; logicamente poss&#237;vel que um intelecto puro exista em alguma situa&#231;&#227;o contrafactual consistente. Portanto, em algum mundo poss&#237;vel, h&#225; um intelecto com as caracter&#237;sticas acima descritas, isto &#233;, um intelecto puro, o qual n&#227;o tem qualquer tipo de cren&#231;a.</p><p>Digamos que na vida contrafactual deste intelecto surja a primeira e, at&#233; ent&#227;o, &#250;nica proposi&#231;&#227;o para ele analisar. Descontamos aqui suas poss&#237;veis rea&#231;&#245;es diante de tal abrupta apari&#231;&#227;o. Tampouco necessitamos explorar pormenorizadamente a maneira pela qual se deu aquela revela&#231;&#227;o. Tomemos o fato como um contigente bruto para fins did&#225;ticos.</p><p>A proposi&#231;&#227;o que apareceu em sua vida intrapsiqu&#237;ca foi (P): "Eu posso contrair cren&#231;as falsas". "Eu", aqui, se refere ao intelecto puro, pois &#233; ele o sujeito epist&#234;mico considerado. Ele compreendeu bem a proposi&#231;&#227;o e ao qu&#234; ela se referia. Al&#233;m disto, ele, neste momento, n&#227;o tinha apreendido como uma cren&#231;a particular a tal proposi&#231;&#227;o. Havia, pois, uma n&#237;tida separa&#231;&#227;o dox&#225;stica entre ele e a proposi&#231;&#227;o em quest&#227;o.</p><p>Analisando-a, o intelecto puro resolveu consider&#225;-la uma proposi&#231;&#227;o verdadeira. Isso sem qualquer desenvolvimento argumentativo pr&#233;vio, pois, ainda nessa altura, aquela era a &#250;nica senten&#231;a que ele tinha assimilado. Foi ent&#227;o que uma segunda cren&#231;a surgiu-lhe (Q): "Eu acredito que P". Podemos organizar, do seguinte modo, estas proposi&#231;&#245;es:</p><p>(P) "Eu posso contrair cren&#231;as falsas";</p><p>(Q) Eu acredito que P.</p><p>O intelecto puro jamais formara qualquer cren&#231;a. Para ele, P era sua inicia&#231;&#227;o neste dom&#237;nio dox&#225;stico. Com efeito, ele n&#227;o tinha contra&#237;do quaisquer cren&#231;as falsas, de maneira que sua atitude de cren&#231;a em Q com respeito &#224; P era tamb&#233;m dox&#225;stica e historicamente pura. Ou seja, Q n&#227;o era o reflexo imediato do fato daquele intelecto ter contra&#237;do cren&#231;as falsas, como se sua atitude epist&#234;mica resultasse de uma medita&#231;&#227;o sobre seu pr&#243;prio estado epist&#234;mico. Eu, particularmente, acredito que posso ter e acreditar em falsas proposi&#231;&#245;es baseado no simples fato &#8212; e anterior &#224; minha confiss&#227;o de falibilidade &#8212; de que eu tive e acreditei, no passado, em falsas proposi&#231;&#245;es. Mas esse cen&#225;rio n&#227;o aplica-se ao intelecto puro em estudo. P era sua primeir&#237;ssima cren&#231;a, a qual ele considerava verdadeira.</p><p>Da conjun&#231;&#227;o de P e Q (P&#8743;Q), segue as seguintes considera&#231;&#245;es:</p><p>(1). Se P &#233; verdadeiro, ent&#227;o o intelecto puro contraiu [em Q] uma cren&#231;a verdadeira [a saber, P];</p><p>(2). Se (1), ent&#227;o o intelecto puro podia contrair cren&#231;as falsas;</p><p>(1'). Se P &#233; falso, ent&#227;o o intelecto puro contraiu [em Q] uma cren&#231;a falsa [a saber, P];</p><p>(2'). Se (1'), ent&#227;o o intelecto puro podia contrair cren&#231;as falsas.</p><p>Lembremos que P afirma que "Eu [a saber, o intelecto puro [relativamente ao intelecto puro, etc.]] posso contrair cren&#231;as falsas" e, conforme Q, o intelecto puro considerou P como uma cren&#231;a particular. Ele considerou P uma proposi&#231;&#227;o verdadeira.</p><p>Com efeito, se P fosse verdadeiro (1), ent&#227;o o intelecto puro poderia contrair cren&#231;as falsas (2). N&#227;o h&#225; nada de mais aqui. Prossigamos para a segunda parte &#8211; as duas &#250;ltimas premissas. Se P fosse falsa (1'), ent&#227;o o intelecto puro contraiu uma cren&#231;a falsa, a saber, P, pois Q afirma exatamente isso, a saber, que o intelecto puro contraiu P como uma cren&#231;a particular, considerando-a uma proposi&#231;&#227;o verdadeira. Mas, se o intelecto puro contraiu P &#8212; e uma vez que P, em (1'), &#233; uma proposi&#231;&#227;o falsa &#8212;, ent&#227;o o mesmo intelecto puro contraiu uma cren&#231;a falsa. Logo, conforme (2'), o intelecto puro poderia contrair cren&#231;as falsas, mesmo que P fosse falso &#8212; nesse caso, o pr&#243;prio P seria a cren&#231;a falsa que o intelecto puro viria a contrair. E, no entanto, P, dado Q, n&#227;o poderia ser falso. Ou seja, se P &#8212; "Eu posso contrair cren&#231;as falsas" &#8212; fosse uma proposi&#231;&#227;o falsa e uma vez que o intelecto puro, em Q, contraiu P como uma cren&#231;a particular, ent&#227;o o intelecto puro contraiu uma cren&#231;a falsa, a saber, P. Em todo caso, P continuaria sendo verdadeira, pois se P afirma que &#233; poss&#237;vel, para o intelecto puro, contrair cren&#231;as falsas e, dado que o intelecto puro contraiu P como uma cren&#231;a particular &#8212; e, ainda, sendo P, nesta reflex&#227;o, uma cren&#231;a falsa do intelecto puro &#8212;, ent&#227;o segue-se que o intelecto puro pode contrair cren&#231;as falsas. Em outras palavras: se P for verdadeira, ent&#227;o o intelecto puro pode contrair cren&#231;as falsas; se P for falsa, ent&#227;o o intelecto puro pode contrair cren&#231;as falsas.</p><p>H&#225; uma outra possibilidade. At&#233; aqui, consideramos a atitude de cren&#231;a daquele intelecto com respeito &#224; P como sendo uma atitude de cren&#231;a positiva &#8212; "Eu acredito que P". Poder&#237;amos pensar em um mundo poss&#237;vel no qual o intelecto puro n&#227;o considera P uma proposi&#231;&#227;o verdadeira e, portanto, n&#227;o a contrai como uma cren&#231;a verdadeira. Nesse mundo, o intelecto puro considera P uma proposi&#231;&#227;o falsa. Logo:</p><p>(P) "Eu posso contrair cren&#231;as falsas";</p><p>(Q') Eu n&#227;o acredito que P.</p><p>Neste caso, Q' n&#227;o exigiria a verdade de P pela contradi&#231;&#227;o decorrida da nega&#231;&#227;o de P. Esta exig&#234;ncia s&#243; acontece no caso de (P&#8743;Q). Portanto, nossa an&#225;lise deve focar-se na conjun&#231;&#227;o de P e Q, e n&#227;o nesta segunda possibilidade que nada oferece de &#250;til para o pensamento.</p><h4>Infalibilidade dox&#225;stica e falibilidade epist&#234;mica</h4><p>Deixemos o intelecto puro de lado, e olhemos a quest&#227;o por um novo &#226;ngulo. Na verdade, considerarei os problemas aqui descritos solidentitariamente, isto &#233;, do ponto de vista de minha subjetividade particular. Ou seja, n&#227;o pretendo extrapolar universalmente as consequ&#234;ncias que, porventura, poder&#227;o ser extra&#237;das neste escrito, valendo as mesmas apenas para mim. Obviamente que, ao considerar o leitor, por si mesmo &#8212; isto &#233;, solidentitariamente &#8212;, esta minha linha de racioc&#237;nio, a mesma valer&#225; tamb&#233;m para ele. N&#227;o tomo, no entanto, a mim mesmo, apressadamente, como justificativa para generaliza&#231;&#245;es. Convido o leitor a testar por si mesmo as teses aqui defendidas.</p><p>Vamos reconsiderar as mesmas proposi&#231;&#245;es anteriormente expostas, a saber:</p><p>(P). "Eu posso contrair cren&#231;as falsas";</p><p>(Q). Eu acredito que P.</p><p>Solidentitariamente, eu atesto a veracidade de Q, pois acredito que P. Isto significa que eu sou &#8212; ou pelo menos assim acredito &#8212; doxasticamente fal&#237;vel. Mesmo no caso do intelecto puro, previamente &#224; contra&#231;&#227;o dele de P, se P o descrevesse genuinamente, ent&#227;o ele seria um ser doxasticamente fal&#237;vel, ainda que, no momento em quest&#227;o, ele n&#227;o tivesse contra&#237;do nenhuma cren&#231;a. Sou, portanto, um ser doxasticamente fal&#237;vel &#8212; ou, de novo, assim acredito.</p><p>H&#225; duas possibilidades al&#233;ticas com respeito &#224; P, a saber: ou P &#233; verdadeiro ou P &#233; falso e, a depender da alternativa, haver&#227;o duas possibilidades dox&#225;sticas com respeito &#224; Q: ou Q &#233; uma atitude de cren&#231;a certa ou Q &#233; uma atitude de cren&#231;a errada. Distingo, pois, a veracidade e a falsidade al&#233;ticas &#8212; que aplicam-se &#224; proposi&#231;&#245;es &#8212; da "certidade" e da "erradidade" dox&#225;sticas &#8212; que aplicam-se &#224; atitudes de cren&#231;a. Se, pois, P &#233; uma proposi&#231;&#227;o aleticamente verdadeira, ent&#227;o Q &#233; uma atitude de cren&#231;a doxasticamente certa. Por outro lado, se P &#233; uma proposi&#231;&#227;o aleticamente falsa, ent&#227;o Q &#233; uma atitude de cren&#231;a doxasticamente errada.</p><p>Consideremos a primeira op&#231;&#227;o, isto &#233;, a de que P &#233; uma proposi&#231;&#227;o verdadeira. Se, pois, P &#233; uma proposi&#231;&#227;o verdadeira, ent&#227;o &#233; verdade que "Eu posso contrair cren&#231;as falsas". Ou seja, dada a veracidade de P, ent&#227;o segue-se a veracidade da minha pr&#243;pria falibilidade dox&#225;stica. N&#227;o h&#225; nada t&#227;o surpreendente aqui.</p><p>Prossigamos para a segunda alternativa, isto &#233;, a de que P &#233; uma proposi&#231;&#227;o falsa. Se, pois, P &#233; uma proposi&#231;&#227;o falsa, ent&#227;o segue-se sua ant&#237;tese:</p><p>(P'). "Eu n&#227;o posso contrair cren&#231;as falsas".</p><p>Isso &#233; &#243;bvio, pois apenas uma, de duas teses contr&#225;rias, &#233; verdadeira e, se &#233; falso que eu posso contrair cren&#231;as falsas, ent&#227;o &#233; verdadeiro que eu n&#227;o posso contrair cren&#231;as falsas. Logo, temos:</p><p>(P). "Eu posso contrair cren&#231;as falsas";</p><p>(P'). "Eu n&#227;o posso contrair cren&#231;as falsas".</p><p>Ainda assim, minha atitude de cren&#231;a, em Q, considerou P &#8212; e n&#227;o P' &#8212; como uma cren&#231;a minha. Ou seja, se P for uma proposi&#231;&#227;o falsa, porque eu a considerei como uma cren&#231;a particular &#8212; porque eu a contrai como uma cren&#231;a minha &#8211;, ent&#227;o eu contrai uma cren&#231;a falsa. Esta &#233; a implica&#231;&#227;o: se P &#233; uma proposi&#231;&#227;o falsa, e uma vez que P &#233; uma de minhas cren&#231;as, ent&#227;o segue-se que eu contrai uma cren&#231;a falsa. Eis a&#237; o problema: se P for falso, ent&#227;o P' &#233; verdadeira &#8211; e se P' &#233; verdadeiro, ent&#227;o eu n&#227;o posso contrair cren&#231;as falsas. Isto significa que eu jamais poderia contrair uma cren&#231;a falsa. Mas P faz parte das minhas cren&#231;as &#8212; e foi dito que P era &#233; uma proposi&#231;&#227;o falsa. Ou seja, eu contrai uma cren&#231;a falsa, a saber, P &#8212; caso P seja considerada como uma proposi&#231;&#227;o falsa. Temos, pois, um algo interessante, pois tanto faz se P &#233; verdadeira ou falsa &#8212; dado Q, P n&#227;o pode ser falsa, pois, se fosse, levaria-nos &#224; contradi&#231;&#245;es. Ou seja:</p><p>(1). Se P &#233; verdadeiro, ent&#227;o eu contrai [em Q] uma cren&#231;a verdadeira, a saber, P;</p><p>(2). Se (1), ent&#227;o eu posso contrair cren&#231;as falsas;</p><p>(1'). Se P &#233; falso, ent&#227;o eu contrai [em Q] uma cren&#231;a falsa, a saber, P;</p><p>(2'). Se (1'), ent&#227;o eu posso contrair cren&#231;as falsas.</p><p>Em forma de silogismo ficaria:</p><p>(P1). "Eu posso contrair cren&#231;as falsas";</p><p>(P2). Eu acredito que P1 [eu contrai P1 como uma cren&#231;a particular];</p><p>(P3). Se P1 &#233; verdadeiro, ent&#227;o [por causa de P2] eu posso contrair cren&#231;as falsas;</p><p>(P4). Se P1 &#233; falso, ent&#227;o [por causa de P2] eu contrai uma cren&#231;a falsa;</p><p>(P5). Se P4, ent&#227;o eu posso contrair cren&#231;as falsas.</p><p>Em &#250;ltima an&#225;lise, se P2, ent&#227;o P1 s&#243; pode ser verdadeira. A alega&#231;&#227;o de P4 &#233; contraditada pela sua pr&#243;pria implica&#231;&#227;o (P5), ou seja, a afirma&#231;&#227;o de que P1 &#233; falsa levaria-nos a admitir que contra&#237;mos, em P2, uma cren&#231;a falsa, a saber, P1, o que implicaria a veracidade de P1. Segue-se, pois, o seguinte princ&#237;pio:</p><p><em>Em todos os mundos, se P1 e dado P2, ent&#227;o P1 n&#227;o pode ser falsa.</em></p><p>Me parece que P2 condiciona a veracidade de P1. Poder&#225; algu&#233;m alegar que a falibilidade deve ser dada antes para que este argumento funcione. N&#227;o nego isto. Pelo menos, n&#227;o diretamente. &#201; claro que h&#225; influ&#234;ncia da constata&#231;&#227;o a posteriori da minha pr&#243;pria limita&#231;&#227;o epist&#234;mica neste caso. No entanto, imagino que o mesmo paradoxo me asseguraria a factualidade da minha falibilidade mesmo se eu n&#227;o pudesse saber a posteriori que sou fal&#237;vel. Pensemos desta forma. Em um mundo poss&#237;vel, eu possuo duas caracter&#237;sticas:</p><p>(A). Conhe&#231;o apenas verdades a priori;</p><p>que, por nega&#231;&#227;o, resultaria em:</p><p>(A'). N&#227;o posso conhecer verdades a posteriori;</p><p>mas usaremos apenas A; e:</p><p>(B). As verdades a priori que conhe&#231;o, as conhe&#231;o infalivelmente;</p><p>ou seja, n&#227;o h&#225; nenhuma verdade a priori que eu n&#227;o conhe&#231;a (A) e todas elas eu conhe&#231;o infalivelmente, isto &#233;, n&#227;o posso errar nesse modo de conhecimento a respeito delas (B).</p><p>A despeito de A e B, com respeito aos conhecimentos emp&#237;ricos &#8212; aqueles que s&#227;o adquiridos de modo a posteriori &#8212;, eu sou fal&#237;vel. Mas, uma vez que eu n&#227;o posso ter conhecimento a posteriori &#8212; por causa de A &#8212;, eu n&#227;o posso tamb&#233;m saber que eu sou fal&#237;vel. A pergunta &#233;: como resolver este problema? Como posso saber que sou fal&#237;vel mesmo que, com respeito aquele &#226;mbito em rela&#231;&#227;o ao qual sou verdadeiramente fal&#237;vel, n&#227;o tenho dele nenhum acesso? A resposta, me parece, encontra-se naquela constru&#231;&#227;o, pois bastaria que eu acreditasse em P1 &#8212; ou, conforme a antiga nomenclatura, em P &#8212; para saber que sou doxasticamente fal&#237;vel. Sim, pois se P1 fosse uma proposi&#231;&#227;o verdadeira, ent&#227;o de fato eu poderia contrair cren&#231;as falsas. Alternativamente, se P1 fosse falsa, ent&#227;o eu teria contra&#237;do uma cren&#231;a falsa, pois ent&#227;o teria contra&#237;do P1 e, portanto, eu ainda poderia contrair cren&#231;as falsas. Em todo caso, <em>saberia perfeitamente que sou um ser epistemicamente fal&#237;vel ainda que s&#243; tivesse cren&#231;as infal&#237;veis, ou seja, ainda que eu fosse doxasticamente infal&#237;vel!</em></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Viagens no tempo implicam um ceticismo radical em relação ao livre arbítrio ]]></title><description><![CDATA[Adianto que n&#227;o conduzirei o argumento de modo a chegar em uma conclus&#227;o espec&#237;fica, como se pretendesse, atrav&#233;s deste artigo, expor uma &#250;nica tese l&#225; no fim do mesmo.]]></description><link>https://lucasdamota.substack.com/p/viagens-no-tempo-implicam-um-ceticismo</link><guid isPermaLink="false">https://lucasdamota.substack.com/p/viagens-no-tempo-implicam-um-ceticismo</guid><dc:creator><![CDATA[Lucas da Motta]]></dc:creator><pubDate>Tue, 28 Jul 2026 10:11:39 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/c46f9e0b-6329-4d2f-8ebd-7a355271a19e_1280x720.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<h4>Introdu&#231;&#227;o &#224; tese</h4><p>Adianto que n&#227;o conduzirei o argumento de modo a chegar em uma conclus&#227;o espec&#237;fica, como se pretendesse, atrav&#233;s deste artigo, expor uma &#250;nica tese l&#225; no fim do mesmo. Antes, pelo contr&#225;rio, explicarei algumas ideias a que cheguei quando me pus a pensar nestes assuntos, sem, portanto, um programa pr&#233;&#8211;definido.</p><p>H&#225; v&#225;rias consequ&#234;ncias deste meu <em>modus operandi</em>, a primeira das quais &#233; a minha ignor&#226;ncia <em>a priori</em> de todas as implica&#231;&#245;es e do alcance das ideias aqui descritas. N&#227;o que eu n&#227;o v&#225; esclarecer o significado do meu pensamento e o que ele implica. No entanto, n&#227;o julgo que minhas explana&#231;&#245;es sejam exaustivas e encerrem tudo o que poderia ser dito sobre ele. A segunda consequ&#234;ncia pode parecer estar em um estado de tens&#227;o com a primeira: pelo fato de eu n&#227;o ter explorado exaustivamente o campo sobre o qual estou escrevendo, &#233; natural que, ao longo da escrita, v&#225;rias ideias novas v&#227;o surgindo. De modo que, depois de ter finalizado um par&#225;grafo, tenha eu de re&#8211;escrev&#234;&#8211;lo para fazer justi&#231;a &#224;s novas conclus&#245;es a que cheguei posteriormente, o que poder&#225; tornar o texto muito irregular e n&#227;o t&#227;o organizado quanto o leitor talvez desejasse. </p><p>Assim, pe&#231;o do leitor apenas que leve tudo isto em conta caso venha a desgostar do estilo deste ou daquele par&#225;grafo ou, dotado de uma mente mais afiada e arguta que a minha, venha a identificar erros l&#243;gicos em minha argumenta&#231;&#227;o, implica&#231;&#245;es &#224;s quais n&#227;o me ative no momento, refuta&#231;&#245;es ou mesmo melhores formas de se estabelecer um ou outro ponto. Afinal de contas, lan&#231;ada uma ideia no mundo, ela j&#225; n&#227;o pertence mais ao pensador original, tornando&#8211;se propriedade de todos, sujeita &#224;s cr&#237;ticas e ao melhoramento da coletividade. Sei muito bem disso.</p><h4>Tese</h4><p>Comecemos, portanto. &#201; fundamental ao meu pensamento a sugest&#227;o de que, <em>se S viaja do tempo de t<sub>2  </sub>para o tempo t<sub>1</sub>, ent&#227;o S volta a ter o conte&#250;do mental de t<sub>1 </sub>e, consequentemente, perde o conte&#250;do mental de t<sub>2</sub></em>. </p><p>Conv&#233;m&#8211;nos esclarecer, antes de tentarmos &#8220;mostrar&#8221; a verdade da tese, o que ela significa e &#8212; o que &#233; mais importante ainda &#8212; o que ela n&#227;o significa. Pois bem, o <em>conte&#250;do mental de S</em> pode ser temporiamente entendido como <em>o conjunto das cren&#231;as e pensamentos de S em um determinado tempo</em>. O aspecto dox&#225;stico<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a> dessa defini&#231;&#227;o &#233; central para a nossa discuss&#227;o, ainda que outros aspectos pudessem ser referendados aqui.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a> Digamos, ent&#227;o, que <em>S</em>, em <em>t<sub>2</sub></em>, estivesse envolto dos seguintes pensamentos: &#8220;Eu lancei uma pedra no mar&#8221;. Esse ser&#225; o conte&#250;do mental de <em>S </em>em <em>t<sub>2</sub></em>, que resumiremos por CMT<sub>2</sub>. Claro est&#225; que, em <em>t<sub>2</sub></em>, o conte&#250;do mental de <em>S</em> engloba suas cren&#231;as e pensamentos de <em>t<sub>1</sub></em><sub> </sub>e <em>t<sub>2</sub></em>. Assim, digamos que, em <em>t<sub>1</sub></em>, o conte&#250;do mental de <em>S</em> (CMT<sub>1</sub>) fosse: &#8220;Eu lan&#231;arei uma pedra no mar&#8221;. Com efeito, o conte&#250;do mental global (CMG) de <em>S</em> em <em>t<sub>2</sub></em> &#233; composto pelo CMT<sub>2 </sub>e pelo CMT<sub>1</sub>, a saber, &#8220;Eu lancei uma pedra no mar&#8221; e &#8220;Eu lan&#231;arei uma pedra no mar&#8221;, respectivamente. &#201; l&#243;gico que o CMG de <em>S</em> em <em>t<sub>1</sub></em><sub> </sub>ser&#225; composto apenas pelo CMT<sub>1</sub>.  </p><p>A minha f&#243;rmula do in&#237;cio estabelece que, se <em>S</em> viaja do tempo de <em>t<sub>2</sub></em><sub>  </sub>para o tempo <em>t<sub>1</sub></em>, ent&#227;o <em>S</em> volta a ter o conte&#250;do mental de <em>t<sub>1</sub></em><sub> </sub>e, consequentemente, perde o conte&#250;do mental de <em>t<sub>2</sub></em>. H&#225; aqui uma no&#231;&#227;o estranha &#224;s pessoas que pensam no assunto das viagens no tempo, as quais acreditam que o conte&#250;do mental de um indiv&#237;duo &#233; conservado em sua viagem para o passado. Com efeito, feita a sua viagem, ele saber&#225; que voltou no tempo, que &#233;, portanto, um viajante do tempo e o que acontecer&#225; no futuro, de onde veio. Minha intui&#231;&#227;o, por&#233;m, diz exatamente o contr&#225;rio: se <em>S</em> volta no tempo, de <em>t<sub>2</sub></em> para <em>t<sub>1</sub></em>, <em>S</em> perde o CMT<sub>2</sub>, e o seu CMG volta a resumir&#8211;se em seu CMT<sub>1</sub>. Em outras palavras, se <em>S</em> viaja do tempo no qual ele pensou: &#8220;Eu lancei uma pedra no mar&#8221;, para o tempo no qual ele pensou: &#8220;Eu lan&#231;arei uma pedra no mar&#8221;, ent&#227;o <em>S</em> n&#227;o mais acredita que &#8220;Eu lancei uma pedra no mar&#8221; e volta a pensar apenas que &#8220;Eu lan&#231;arei uma pedra no mar&#8221;.</p><p>Feito, desse modo, o esclarecimento do significado da f&#243;rmula inicial, &#233; oportuno que forne&#231;amos as raz&#245;es pelas coisas a f&#243;rmula em quest&#227;o &#233; verdadeira.</p><h4>Demonstra&#231;&#227;o da tese </h4><p>Digamos que <em>S</em>, ao voltar no tempo de <em>t<sub>2</sub></em><sub> </sub>ao tempo <em>t<sub>1</sub></em>, conservasse, em <em>t<sub>1</sub></em>, o CMT<sub>2</sub>, de modo que o CMG de <em>S</em> em <em>t<sub>1</sub></em><sub> </sub>fosse a conjun&#231;&#227;o do CMT<sub>1 </sub>e do CMT<sub>2</sub>. Nesse caso, <em>S</em>, ao voltar no tempo, n&#227;o acreditaria apenas que &#8220;Eu lan&#231;arei uma pedra ao mar&#8221;, mas tamb&#233;m que &#8220;Eu lancei uma pedra ao mar&#8221;, e isso tudo em sua segunda passagem pelo tempo <em>t<sub>1</sub></em>.</p><p>A primeira coisa que podemos concluir &#233; que <em>algo</em> <em>novo surgiu em t<sub>1</sub></em>. Sim, pois o CMG de <em>S</em> em <em>t<sub>1</sub></em><sub> </sub>em sua primeira e original passagem por <em>t<sub>1</sub></em> continha apenas o CMT<sub>1</sub>, isto &#233;, que &#8220;Eu lan&#231;arei uma pedra ao mar&#8221;. Nessa segunda passagem, por&#233;m, o CMG de <em>S</em> ganhou mais um subconjunto, que &#233; o subconjunto do CMT<sub>2</sub>, isto &#233;, que &#8220;Eu lancei uma pedra ao mar&#8221;. </p><p>Uma segunda coisa que podemos concluir disso &#233; que <em>S</em>, agora em sua segunda passagem por <em>t<sub>1</sub></em> e munido de seu conhecimento a respeito do que ir&#225; acontecer em <em>t<sub>2</sub></em>, pode, pelo menos em teoria, decidir n&#227;o viajar no tempo quando <em>t<sub>2 </sub></em>chegar. Claro que isso depende da capacidade de <em>S</em> em decidir viajar no tempo ou n&#227;o. Em nosso experimento mental, <em>S</em> est&#225; equipado de uma verdadeira m&#225;quina do tempo, sobre a qual tem o controle para fazer a viagem ou n&#227;o. Satisfeita essa condi&#231;&#227;o, <em>S</em>, em sua segunda passagem por <em>t<sub>2</sub></em>, poder&#225; decidir n&#227;o viajar para <em>t<sub>1</sub></em>, o que &#233; um absurdo, pois a sua segunda passagem por <em>t<sub>1</sub></em> depende da viagem por ele empreendida em sua primeira passagem por <em>t<sub>2</sub></em>. Se a viagem na primeira passagem por <em>t<sub>2</sub></em><sub> </sub>n&#227;o tivesse ocorrido, <em>S</em> n&#227;o estaria em sua segunda passagem tanto por <em>t<sub>1</sub></em><sub> </sub>quando por <em>t<sub>2</sub></em>. Agora, por&#233;m, nessa segunda passagem, ele tem o poder de decidir n&#227;o fazer a viagem. Isso, por si s&#243;, &#233; muito contra&#8211;intuitivo para podermos aceitar a possibilidade de viagens no tempo, mas as coisas s&#243; pioram.</p><p>O segundo cen&#225;rio &#233; o seguinte: se <em>S</em> viaja do tempo <em>t<sub>2</sub></em><sub> </sub>para o tempo <em>t<sub>1</sub></em>, a cren&#231;a de <em>S</em> em sua primeira passagem por <em>t<sub>2</sub></em><sub> </sub>&#8212; &#8220;Eu lancei uma pedra no mar&#8221; &#8212; possui um valor de verdade mesmo em sua segunda passagem por <em>t<sub>1</sub></em>. No tempo <em>t<sub>1</sub></em> original, por&#233;m, a proposi&#231;&#227;o &#8220;Eu lancei uma pedra no mar&#8221; n&#227;o era ainda verdadeira. Com efeito, ter&#237;amos que uma mesma proposi&#231;&#227;o seria verdadeira e falsa ao mesmo tempo. </p><p>Algu&#233;m poderia tentar resolver esse impasse dox&#225;stico sugerindo que &#8220;Eu lancei uma pedra no mar&#8221; &#233; falsa relativamente &#224; <em>t<sub>1</sub></em>,<sub> </sub>mas verdadeira relativamente &#224; <em>t<sub>2</sub></em>. Ainda que mais coisas pudessem ser ditas a respeito dessa quest&#227;o, levantemos o seguinte contra&#8211;argumento: <em>S</em> aprende jogar xadrez somente em <em>t<sub>2</sub></em>. Ele n&#227;o sabe jogar em <em>t<sub>1</sub></em>. Ao voltar no tempo e passar uma segunda vez por <em>t<sub>1</sub></em>, <em>S</em> tanto saber&#225; quanto n&#227;o saber&#225; jogar xadrez. E n&#227;o resolver&#225; o impasse a sugest&#227;o de que <em>S</em> n&#227;o sabe jogar xadrez em <em>t<sub>1</sub></em>, mas que ele o sabe em <em>t<sub>2</sub></em>. Pois, nesse nosso caso, <em>S</em> est&#225; em sua segunda passagem por <em>t<sub>1</sub></em>, conservando o conte&#250;do mental tanto de <em>t<sub>1</sub></em><sub> </sub>quanto de <em>t<sub>2</sub></em>. </p><p>Nesse momento, algu&#233;m poderia supor que <em>S</em>, ao voltar para <em>t<sub>1</sub></em> em uma segunda passagem, n&#227;o conserva mais o CMT<sub>1</sub>, apenas o CMT<sub>2</sub>. De modo que seria falso que <em>S</em>, em sua segunda passagem por <em>t<sub>1</sub></em>, tanto n&#227;o sabe quanto sabe jogar xadrez. A verdade seria que <em>S</em> apenas sabe jogar xadrez, ainda que, em sua primeira passagem por <em>t<sub>1</sub></em>, <em>S</em> n&#227;o o soubesse. </p><p>H&#225; alguns problemas com essa sugest&#227;o. O primeiro &#233; o seguinte: qual a raz&#227;o suficiente pela qual <em>S</em> conserva apenas o CMT<sub>2</sub>? Poderia ser o caso de <em>S</em>, em sua segunda passagem por <em>t<sub>1</sub></em>, conservasse apenas o CMT<sub>1</sub>, o que implicaria que <em>S</em>, mesmo em sua segunda passagem por <em>t<sub>1</sub></em>, n&#227;o saberia jogar xadrez, precisando aprend&#234;&#8211;lo em sua segunda passagem por <em>t<sub>2</sub></em>. E isso &#233; o que a nossa f&#243;rmula do in&#237;cio prop&#245;e: <em>S</em>, em sua viagem no tempo para o passado, perde o conte&#250;do mental do futuro, sendo reduzido ao conte&#250;do mental que ele tinha no passado. Por que, ent&#227;o, <em>S</em> conserva apenas o CMT<sub>2</sub>, e n&#227;o tamb&#233;m o conte&#250;do mental de <em>t<sub>1</sub></em>? N&#227;o &#233; suficiente dizer que, fazendo esse racioc&#237;nio, estar&#237;amos afastando uma poss&#237;vel contradi&#231;&#227;o l&#243;gica, pois a minha sugest&#227;o &#8212; a de que <em>S</em> perde totalmente o CMT<sub>2 </sub>em sua viagem para <em>t<sub>1</sub></em><sub> </sub>&#8212; seria equivalente, afastaria de igual modo as poss&#237;veis contradi&#231;&#245;es nessa &#225;rea.</p><p>Mas h&#225; um problema mais s&#233;rio com a sugest&#227;o de que <em>S</em>, ao voltar para o passado, conserva apenas o conte&#250;do mental do futuro. Digamos que, de fato, esse seja o caso: <em>S</em>, ao viajar tempo&#8211;espacialmente para <em>t<sub>1</sub></em><sub> </sub>a partir de <em>t<sub>2</sub></em>, conserva apenas o CMT<sub>2</sub>. Assim, em sua segunda passagem por <em>t<sub>1</sub></em>, pelo fato de ele conservar o CMT<sub>2</sub>, <em>S</em> sabe jogar xadrez, e s&#243;. Pois bem, e quanto ao resto do mundo? Ora, voltar no tempo significa voltar ao estado de coisas do mundo tempo&#8211;espacial do passado. Se, portanto, <em>S</em> conserva CMT<sub>2</sub> em sua segunda passagem por <em>t<sub>1</sub></em>, o mundo tamb&#233;m conserva o seu conte&#250;do contempor&#226;neo ao tempo <em>t<sub>2</sub></em> na segunda passagem de <em>S</em> por <em>t<sub>1</sub></em>?  </p><p>H&#225;, evidentemente, duas alternativas: sim ou n&#227;o. Mas as coisas se tornam mais complexas no caso da primeira alternativa. Digamos, ent&#227;o, que sim, que o mundo, na segunda passagem de <em>S</em> por <em>t<sub>1</sub></em>, conserva o seu conte&#250;do contempor&#226;neo ao tempo <em>t<sub>2</sub></em>. Surge da&#237; duas op&#231;&#245;es: ele conserva tamb&#233;m o conte&#250;do contempor&#226;neo &#224; primeira passagem de <em>S</em> por <em>t<sub>1</sub></em><sub> </sub>ou n&#227;o? Se sim, voltamos &#224;s contradi&#231;&#245;es ou, no m&#237;nimo, estaremos comprometidos com a exist&#234;ncia de outros universos f&#237;sicos paralelos ao nosso. Por que? Porque <em>S</em>, em <em>t<sub>1</sub></em>, ainda n&#227;o sabe jogar xadrez, o que ele aprender&#225; em <em>t<sub>2</sub></em>. A op&#231;&#227;o da contradi&#231;&#227;o diz respeito &#224; coexist&#234;ncia de conte&#250;dos mutuamente contradit&#243;rios em um &#250;nico e mesmo mundo. A op&#231;&#227;o dos diversos universos f&#237;sicos &#8212; um multiverso &#8212; seria a solu&#231;&#227;o para se afastar aquela contradi&#231;&#227;o: h&#225; sim conte&#250;dos mutuamente contradit&#243;rios, mas n&#227;o em um mesmo e &#250;nico mundo, e sim em dois universos f&#237;sicos distintos. Essa solu&#231;&#227;o, por&#233;m, j&#225; n&#227;o se trata mais de viagens no tempo, mas sim em duplica&#231;&#227;o de universos ou viagens por um multiverso.</p><p>Se n&#227;o &#8212; se o mundo n&#227;o conserva o conte&#250;do de <em>t<sub>1</sub></em>, apenas o de <em>t<sub>2</sub></em> &#8212;, ent&#227;o <em>S</em> n&#227;o viajou no tempo coisa nenhuma! O que houve foi uma reafirma&#231;&#227;o do pr&#243;prio estado de coisas de <em>t<sub>2</sub></em>. Ou seja, em nenhum dos cen&#225;rios temos viagens no tempo: ou temos contradi&#231;&#245;es l&#243;gicas, ou viagens por um multiverso ou a reafirma&#231;&#227;o tautol&#243;gica do estado de coisas contempor&#226;neo. </p><p>Conclu&#237;mos, ent&#227;o, que, se <em>S</em> viaja do tempo de <em>t<sub>2</sub></em>  para o tempo <em>t<sub>1</sub></em>, ent&#227;o <em>S</em> volta a ter o conte&#250;do mental de <em>t<sub>1</sub></em> e, consequentemente, perde o conte&#250;do mental de <em>t<sub>2</sub></em>. A menos que isso seja verdade, a no&#231;&#227;o de viagem no tempo &#233; perdida: ou temos contradi&#231;&#245;es l&#243;gicas, ou viagens por um multiverso &#8212; n&#227;o viagens no tempo &#8212;, ou uma reafirma&#231;&#227;o do presente.</p><h4>Implica&#231;&#245;es da tese </h4><p>Ainda assim, essa no&#231;&#227;o de viagens no tempo &#233; fonte de uma s&#233;rie de absurdos, os quais s&#227;o suficientes para descartarmos a possibilidade de se viajar no tempo, a menos que estejamos prontos para aceitar um ceticismo radical sobre absolutamente tudo o que nos cerca.</p><p>Como dissemos l&#225; no come&#231;o, <em>S</em>, em <em>t<sub>1</sub></em>, acredita que &#8220;Eu lan&#231;arei uma pedra no mar&#8221; e, em <em>t<sub>2</sub></em>, <em>S</em> acredita que &#8220;Eu lancei uma pedra no mar&#8221;. Ao viajar tempo&#8211;espacialmente de <em>t<sub>2</sub></em><sub> </sub>para <em>t<sub>1</sub></em>, <em>S</em> perde todo CMT<sub>2</sub>, sendo de novo reduzido ao CMT<sub>1</sub>. Ou seja, em sua viagem para o passado, <em>S</em> volta a acreditar apenas que &#8220;Eu lan&#231;arei uma pedra no mar&#8221;. Para ele, o CMT<sub>1</sub> e o CMG em sua segunda passagem por <em>t<sub>1</sub></em> coincidem. </p><p>A primeira coisa que surge da&#237; &#233; um verdadeiro <em>eterno retorno</em> para <em>S</em>. Em sua primeira passagem por <em>t<sub>1</sub></em><sub> </sub>e <em>t<sub>2</sub></em>, <em>S</em> decide, em <em>t<sub>2</sub></em>, viajar tempo&#8211;espacialmente para <em>t<sub>1</sub></em>, resetando o seu CMG para incluir apenas o CMT<sub>1</sub>, perdendo, portanto, o CMT<sub>2</sub>. Agora, ent&#227;o, <em>S</em> est&#225; em sua segunda passagem por <em>t<sub>1</sub></em> e, da mesma forma que, em sua primeira passagem, ele acreditava estar sobe o controle de suas a&#231;&#245;es e pensamentos, ele, em sua segunda passagem, acredita na mesma coisa. Quando, ent&#227;o, chega, pela segunda vez, em <em>t<sub>2</sub></em>, <em>S</em>, acreditando ser sua primeira vez, faz de novo a viagem e volta, mais uma vez, para o passado, pela terceira vez. E isso <em>ad infinitum</em>, sendo que, em todas as vezes, <em>S</em> acredita estar fazendo tudo aquilo pela primeira vez, pois o seu conte&#250;do mental de t<sub>1 </sub>e<sub> </sub>t<sub>2 </sub>repetem&#8211;se indefinidamente.</p><p>Isso n&#227;o seria poss&#237;vel a menos que o pr&#243;prio mundo estivesse sujeito ao eterno retorno no qual <em>S</em> caiu. A liberdade do mundo e a liberdade de <em>S</em> est&#227;o conectadas, de modo que, se o mundo perde sua liberdade, <em>S</em> tamb&#233;m perde a sua; semelhantemente, se <em>S</em> perde a sua liberdade naquele ciclo infinito, o mundo tamb&#233;m perde a sua. Com efeito, o mundo inteiro, por causa da viagem operada por <em>S</em>, est&#225; fadado a repetir&#8211;se para sempre, sendo que, em todas as repeti&#231;&#245;es, tudo se parecer&#225; como se estivesse ocorrendo pela primeira vez.</p><p>Ter&#237;amos, pois, uma liberdade fenomenol&#243;gica em que todos, tanto <em>S</em> quanto as demais pessoas e o pr&#243;prio mundo, acreditariam com todas as for&#231;as serem livres. Tudo n&#227;o passaria de uma ilus&#227;o. Fenomenologicamente livres, por&#233;m ontologicamente determinados. </p><p>A coisa mais devastadora, por&#233;m, &#233; que eu, neste exato momento, poderia ser um viajante no tempo. &#8220;Mas voc&#234; &#233; capaz de agir e pensar de maneira livre, n&#227;o determinada&#8221; &#8212; voc&#234; poderia sugerir. Lembre&#8211;se, por&#233;m, que <em>S</em> tamb&#233;m acredita nisso. Ou seja, por mais livre que eu me sinta, eu poderia estar em um ciclo infinito de repeti&#231;&#245;es, em um eterno retorno, me iludindo com uma liberdade ilus&#243;ria. E n&#227;o h&#225; nada que eu possa fazer para mostrar que esse cen&#225;rio n&#227;o &#233; o caso, pois todos os mesmos esfor&#231;os cairiam no mesmo buraco negro. A menos, portanto, que descartemos a no&#231;&#227;o de viagens no tempo, o que nos resta &#233; um ceticismo implac&#225;vel, mais forte que a for&#231;a de atra&#231;&#227;o de um burac&#227;o negro, a partir do qual n&#227;o ser&#237;amos capazes de dizer se somos livres ou n&#227;o, viajantes no tempo ou n&#227;o; se o mundo &#233; livre ou se ele est&#225; fadado a um ciclo infinito de retornos.</p><p>N&#227;o se engane, por&#233;m: mesmo que uma part&#237;cula infinitesimal, menor que a d&#233;cima parte da ponta de um fio de cabelo, voltasse no tempo, ter&#237;amos os mesmos cen&#225;rios. Ou essa part&#237;cula teria viajado por um multiverso, n&#227;o atrav&#233;s do tempo deste nosso mundo, ou n&#227;o ser&#237;amos capazes de vencer o ceticismo.</p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>Relativo &#224; cren&#231;as.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>Como os atos de vontade de <em>S</em> em um tempo espec&#237;fico.</p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Um Messias bom é um Messias crucificado ]]></title><description><![CDATA[Estudo filosofia com a raz&#227;o e a teologia, com o cora&#231;&#227;o, que &#233; o &#243;rg&#227;o mais importante que comp&#245;em o meu ser]]></description><link>https://lucasdamota.substack.com/p/um-messias-bom-e-um-messias-crucificado</link><guid isPermaLink="false">https://lucasdamota.substack.com/p/um-messias-bom-e-um-messias-crucificado</guid><dc:creator><![CDATA[Lucas da Motta]]></dc:creator><pubDate>Thu, 23 Jul 2026 08:49:07 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/00997830-d7d5-45e1-a134-43ca501a13bc_850x527.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><em>Um Messias bom &#233; um Messias crucificado</em>. E Pr&#243;cula &#8212; ou Claudia &#8212;, mulher de P&#244;ncio Pilatos, como Pedro no passado, tentou fazer a cabe&#231;a de Pilatos, levando&#8211;o que n&#227;o condenasse aquele Galileu, que o soltasse em lugar de Barrab&#225;s, o homicida (Mt 27.19; Mc 15.7). &#8220;Arreda, Satan&#225;s! Tu &#233;s para mim pedra de trope&#231;o, porque n&#227;o cogitas das coisas de Deus, e sim das dos homens&#8221; (Mt 16.21&#8211;23; Mc 8.31&#8211;33; Lc 9.22) &#8212; muito provavelmente lhe responderia Jesus as boas, por&#233;m satanicamente inspiradas, inten&#231;&#245;es, que terminariam, se atendidas, por distanciar o Messias da Sua cruz.</p><p>Slavoj &#381;i&#382;ek foi quem &#8212; acredite ou n&#227;o &#8212; me levou a que lesse desse modo o significado de Pr&#243;cula no relato da Paix&#227;o. Ele comentou a respeito disso em um debate que travou com, dentre outras pessoas, William Lane Craig, ontem mesmo, no canal de YouTube <em>Premier Unbelievable</em>.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a> E embora eu mesmo tenha muit&#237;ssimas ressalvas com o pensamento de &#381;i&#382;ek, mormente com a sua leitura hegeliana do evento de Cristo, n&#227;o pude deixar de ver aqui uma tend&#234;ncia evang&#233;lica, uma tend&#234;ncia que perpassa todos os evangelhos, principalmente os sin&#243;ticos. A bem da verdade, &#381;i&#382;ek, como ele mesmo confessa, est&#225; repetindo as interpreta&#231;&#245;es de alguns protestantes noruegueses. Credito&#8211;lhes, portanto, o valios&#237;ssimo <em>insight</em>. </p><p>Um Messias bom &#233; um Messias crucificado. Muitas coisas h&#225; que eu poderia comentar sobre essa senten&#231;a n&#227;o pouco pol&#234;mica. Se quisesse ser mais biblicamente preciso, diria <em>senten&#231;a escandalosa</em>: &#8220;esc&#226;ndalo para os judeus, loucura para os gentios&#8221; (1Co 1.23). E a primeira delas &#233; justamente a perspectiva a partir da qual se estabelece que um Messias bom &#233; um Messias crucificado, que &#233;, naturalmente, a perspectiva divina, n&#227;o humana. Porque, como foi dito, da perspectiva puramente humana, um Messias/Rei crucificado, mas, por isso mesmo, vitorioso, ou &#233; motivo de esc&#226;ndalo ou &#233; locura. Longe est&#225; desse ponto de vista que a cruz de Cristo seja &#8220;poder de Deus e sabedoria de Deus&#8221; (1Co 1.23), que o evangelho da cruz seja &#8220;o poder de Deus para salva&#231;&#227;o de todo aquele que cr&#234;&#8221; (Rm 1.16).</p><p>Mas n&#227;o apenas isso. Nos &#233; poss&#237;vel ir al&#233;m, pois, uma vez que a perspectiva humana n&#227;o apenas n&#227;o &#233; a perspectiva divina, como tamb&#233;m &#233; uma perspectiva contr&#225;ria &#224; perspectiva divina, pode&#8211;se concluir que essa perspectiva, que esse ponto de vista demasiadamente humano, &#233; tamb&#233;m um ponto de vista sat&#226;nico. De modo que n&#227;o h&#225; neutralidade aqui: &#8220;Quem n&#227;o &#233; por mim &#233; contra mim; e quem comigo n&#227;o ajunta espalha.&#8221; (Mt 12.30) E isso n&#227;o &#233; exagero nosso, mas um entendimento que o pr&#243;prio Jesus tinha a respeito de Sua pessoa e minist&#233;rio, que era o minist&#233;rio do Servo Sofredor de Isa&#237;as 53, cuja obedi&#234;ncia cruciforme era a express&#227;o do fato de Ele ser, como nenhum outro, o Filho de Deus.</p><p>&#8220;Este &#233; o meu Filho amado, em quem me comprazo.&#8221; (Mt 3.17; Mc 1.11; Lc 1.35) Este &#233; o Filho em quem Deus Pai tem prazer e se compraz, porque Ele, ao contr&#225;rio do Israel desobediente, infiel e rebelde, n&#227;o faz a Sua pr&#243;pria vontade, mas a vontade d&#8217;Aquele que o enviou. E que vontade &#233; essa, na qual temos sido santificados (Hb 10.10)? Ser&#225; por acaso a que, para a qual, Cristo, precisamente por ser quem &#233;, a saber, o Filho de Deus, transformasse as pedras em p&#227;es, se lan&#231;asse do pin&#225;culo do templo ou conquistasse os reinos do mundo, mas de maneira que n&#227;o passasse pela cruz? De modo algum! Para tr&#225;s, Satan&#225;s, de quem essa vontade corresponde, vontade sat&#226;nica, que se op&#245;e &#224; vontade do c&#233;u!</p><p>Mas qual &#233; aquela vontade, a que corresponde o ponto de vista divino? Que o caminho sagrado &#8212; a <em>via sacra </em>&#8212; do Messias equivalesse ao caminho da cruz &#8212; <em>via crucis</em> &#8212;, n&#227;o ao caminho da gl&#243;ria &#8212; <em>via gloriae</em>; que, portanto, o caminho sagrado de Jesus Cristo, o Filho de Deus, fosse o caminho da cruz. Essa foi a vontade do Pai, a qual Cristo, como Filho, jamais poderia desobedecer; a qual Ele n&#227;o poderia desobedecer por tamb&#233;m consistir em Sua pr&#243;pria vontade. Porque o Pai tem prazer no Filho, e o Filho tem prazer na vontade do Pai, em faz&#234;-la. &#8220;Seja feita a tua vontade, assim na terra como no c&#233;u&#8221; (Mt 6.10) &#8212; foi a ora&#231;&#227;o que nos ensinou, a qual tamb&#233;m cumpriu em Si mesmo, quando, no Gets&#234;mani, escondeu&#8211;se na vontade do Pai, abra&#231;ando o c&#225;lice da cruz.</p><p>Satan&#225;s, por sua vez, como a antiga serpente que &#233;, tentou, por diversas vezes e de diferentes modos e atrav&#233;s de v&#225;rias pessoas, conduzir o caminho de Cristo para longe da cruz, mesmo que para as gl&#243;rias deste mundo; n&#227;o se importava em perder para Ele os reinos terrenos, contanto que o fizesse desobedecer a vontade divina, como fez com Ad&#227;o e Eva e, muito tempo depois, com Israel no deserto. Cristo, embora havendo triunfado sobre as tenta&#231;&#245;es no deserto, iria deparar&#8211;se ao longo de Seu minist&#233;rio com outras investidas do diabo. N&#227;o &#233; &#224; toa que Lucas, concluindo o relato das tenta&#231;&#245;es, afasta o diabo de Jesus &#8220;at&#233; o tempo oportuno&#8221; (Lc 4.13). Com efeito, pode&#8211;se at&#233; dizer que o minist&#233;rio de Cristo deu&#8211;se num campo de batalha, mais precisamente no territ&#243;rio do inimigo, no deserto. Mas, como a primeira ocorr&#234;ncia implicava, Ele n&#227;o estava mais se defendendo, encurralado pelos inimigos; Ele estava atacando, fazendo que o Reino de Deus se expandisse para dentro do territ&#243;rio inimigo e o invadisse, conquistando cada cent&#237;metro de terra, libertando os cativos do diabo.</p><p>&#201; dentro desse contexto que a interven&#231;&#227;o de Pr&#243;cula deve ser lida. Ela sonhou e, em seu sonho, muito sofreu por causa de Jesus, o que fez com que ela intercedesse junto a Pilatos para libert&#225;&#8211;lo, para salv&#225;&#8211;lo da cruz. Muitos j&#225; propuseram que o pr&#243;prio Satan&#225;s inspirara&#8211;lhe o sonho. N&#227;o, por&#233;m, sem alguma raz&#227;o, pois, aqui, temos mais um ser humano que, a partir da perspectiva demasiadamente humana e, portanto, diab&#243;lica, tenta frustrar a obra de reden&#231;&#227;o de Deus, desviando o Messias da cruz. De modo que n&#227;o h&#225; her&#243;i no relato da Paix&#227;o: Judas o trai; os onze fogem; a multid&#227;o grita: &#8220;crucifica&#8211;o&#8221;, bem como os principais sacerdotes e escribas do povo; Pilatos se acovarda; os anjos poderiam, se Ele o quisesse, livr&#225;&#8211;lo; Jo&#227;o Marcos foge desnudo; Pr&#243;cula tenta salv&#225;&#8211;lo. E o resto de n&#243;s, que achamos n&#227;o termos parte em hediondo crime &#8212; foi os nossos pecados que o Messias estava carregando sobre Si no madeiro. </p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>https://youtu.be/spiiYYgi9Wg?is=Zdd7ra5PCp1vg8By</p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O fim do exílio de Israel em Jesus Cristo]]></title><description><![CDATA[Um esbo&#231;o de uma teologia b&#237;blica]]></description><link>https://lucasdamota.substack.com/p/o-fim-do-exilio-de-israel-em-jesus</link><guid isPermaLink="false">https://lucasdamota.substack.com/p/o-fim-do-exilio-de-israel-em-jesus</guid><dc:creator><![CDATA[Lucas da Motta]]></dc:creator><pubDate>Sat, 18 Jul 2026 22:24:04 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/5b80bd35-bd1f-42cf-b15b-0ff2b0bce062_1280x720.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="pullquote"><p>Junto aos rios da Babil&#244;nia nos assentamos e choramos, lembrando&#8211;nos de Si&#227;o. Salmo 137.1</p></div><h4>1. Um pacto de sangue soberanamente administrado </h4><p>Uma alian&#231;a, assim conceituaremos, consiste em &#8220;um pacto de sangue soberanamente administrado.&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a> Essa defini&#231;&#227;o encerra tr&#234;s elementos fundamentais que fazem parte do conceito b&#237;blico de alian&#231;a: uma alian&#231;a, dentro desse contexto, &#233; (i) um pacto (ii) de sangue (iii) que Deus, de modo <em>unilateral</em>, estabelece com algu&#233;m ou com um povo.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a> <a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a></p><p>Em primeiro lugar, temos que uma alian&#231;a &#233; um <em>pacto</em>, isto &#233;, <em>uma rela&#231;&#227;o oficial que une duas pessoas</em>. As &#250;nicas excess&#245;es, que apresentam seres impessoais como uma das partes do pacto, s&#227;o G&#234;nesis 9.10, 12 e 17, em que Deus estabelece o pacto com os animais do campo; veja tamb&#233;m Os&#233;ias 2.18 e Jeremias 33.20 e 25. Fora esses casos, em todas as outras ocorr&#234;ncias de &#8220;alian&#231;a&#8221; (&#1489;&#1456;&#1468;&#1512;&#1460;&#1497;&#1514;) no Antigo Testamento (AT), as partes do pacto s&#227;o sempre seres pessoais. Por exemplo: homens com homens,<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-4" href="#footnote-4" target="_self">4</a> Deus com o homem<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-5" href="#footnote-5" target="_self">5</a> e o homem com Deus.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-6" href="#footnote-6" target="_self">6</a></p><p>Em segundo lugar, temos que uma alian&#231;a, sendo um pacto, &#233; um <em>pacto de sangue</em> &#8212; ou <em>pacto de vida e morte</em> &#8212;, o que significa dizer que as partes envolvidas est&#227;o em um relacionamento absoluto de compromisso. Se ambas cumprissem os termos da alian&#231;a, ambas teriam o direito de reclamar para si os benef&#237;cios da mesma. As maldi&#231;&#245;es da alian&#231;a, por&#233;m, cairiam sobre a parte transgressora. </p><p>N&#227;o &#233; &#224; toa que, em um ritual de estabelecimento de uma alian&#231;a, houvesse a morte de um animal. Na medida em que se faz uma alian&#231;a, animais s&#227;o &#8220;cortados&#8221; em cerim&#244;nia ritual. O significado &#233; bem &#243;bvio: a parte transgressora do pacto teria o mesmo destino que o animal morto. O. Palmer Robertson comenta a respeito que,</p><blockquote><p>Tanto a evid&#234;ncia b&#237;blica quanto a extrab&#237;blica combinam no sentido de confirmar significa&#231;&#227;o espec&#237;fica para este ritual. A divis&#227;o do animal simboliza um &#8220;penhor de morte&#8221;, no momento do compromisso da alian&#231;a. Os animais desmembrados representam a maldi&#231;&#227;o que o autor do pacto invoca sobre si mesmo caso viole o compromisso que fez.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-7" href="#footnote-7" target="_self">7</a></p></blockquote><p>Em terceiro e &#250;ltimo lugar, temos que uma alian&#231;a &#233; um pacto <em>soberanamente administrado</em>. Nas Escrituras, &#233; sempre Deus quem introduz uma rela&#231;&#227;o com car&#225;ter de alian&#231;a com outro algu&#233;m, de maneira totalmente unilateral. Nada de barganha, troca ou contrato caracteriza as alian&#231;as divinas das Escrituras. O soberano Senhor do c&#233;u e da terra dita os termos da sua alian&#231;a.</p><p>Por ora, estas explica&#231;&#245;es s&#227;o suficientes. No desenvolvimento do artigo, outros aspectos da alian&#231;a ser&#227;o trazidos &#224; tona.</p><h4>2. Deuteron&#244;mio e os tratados hititas de suserania e vassalagem </h4><p>G. E. Mendenhall, ao perceber as semelhan&#231;as estruturais entre tratados hititas de suserania e vassalagem e o texto de Deuteron&#244;mio, bem como o de &#202;xodo 20&#8212;23, prop&#244;s que os documentos b&#237;blicos foram lavrados segundo o modelo daqueles tratados. Ele mostrou que Deuteron&#244;mio continha todos os elementos necess&#225;rios &#8212; e na mesma ordem &#8212; dos textos da Idade do Bronze Tardio encontrados em Hattu&#353;a&#353; (ou Boghazke&#252;i, seu nome atual), a capital do Novo Imp&#233;rio Hitita. O n&#250;cleo dos livros can&#244;nicos seria, portanto, o de um tratado de alian&#231;a estabelecido por Deus com Israel, e isso nos moldes dos tratados hititas. V&#225;rios estudiosos concordaram com as conclus&#245;es de Mendenhall, muitos dos quais da ala conservadora,<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-8" href="#footnote-8" target="_self">8</a> embora &#8212; como seria de se esperar &#8212; muitos outros tenham discordado dele.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-9" href="#footnote-9" target="_self">9</a></p><p>Os tratados hititas de suserania e vassalagem continham seis elementos b&#225;sicos: (i) pre&#226;mbulo, (ii) pr&#243;logo hist&#243;rico, (iii) estipula&#231;&#245;es gerais, (iv) estipula&#231;&#245;es espec&#237;ficas, (v) ben&#231;&#227;os e maldi&#231;&#245;es e (vi) testemunhas.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-10" href="#footnote-10" target="_self">10</a> O que nos interessa mesmo &#233; o elemento (v). Ainda assim, faremos uma breve explica&#231;&#227;o dos demais, usando, para tanto, o pr&#243;prio livro de Deuteron&#244;mio.</p><p><strong>(i) Pre&#226;mbulo (1.1&#8212;5)</strong>. Quatro coisas s&#227;o listadas aqui: o cen&#225;rio e a ocasi&#227;o por detr&#225;s dos eventos narrados e, o que &#233; mais importante ainda, a origem divina humanamente mediada da alian&#231;a que est&#225; sendo renovada.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-11" href="#footnote-11" target="_self">11</a> Yahweh &#233; o Grande Rei, o qual, soberanamente, introduz a rela&#231;&#227;o pactual com Israel, e Mois&#233;s &#233; o Seu mediador porta&#8211;voz.</p><p><strong>(ii)</strong> <strong>Pr&#243;logo hist&#243;rico (1.6&#8212;4.40)</strong>. No pr&#243;logo hist&#243;rico, o Grande Rei geralmente fundamenta seu direito de senhorio sobre o povo vassalo por causa de seus relacionamentos passados. Seja porque ele, ou um antepassado seu, conquistou ou libertou aquele povo da opress&#227;o de terceiros &#8212; ou quaisquer outros motivos pertinentes &#8212;, o suserano reclama para si o direito sobre aquele povo.</p><p>Em Deuteron&#244;mio, o pr&#243;logo hist&#243;rico se concentra na jornada de Israel desde o Sinai at&#233; &#224;s plan&#237;cies de Moabe, trazendo &#224; mem&#243;ria a constante rebeli&#227;o de Israel (1.26-28,32; 3.26) e o castigo de Deus (1.34-40,45; 2.14-15; 4.3).</p><p><strong>(iii) Estipula&#231;&#245;es gerais (5.1&#8212;11.32)</strong>. Essa se&#231;&#227;o explica os princ&#237;pios do relacionamento entre os participantes da alian&#231;a. Ela esclarece quem &#233; o Grande Rei, o que ele fez por aqueles que escolheu para a comunh&#227;o da alian&#231;a, o que far&#225; nos anos vindouros e como eles devem reagir.</p><p>Em Deuteron&#244;mio, os princ&#237;pios gerais da alian&#231;a est&#227;o resumidos no chamado Shem&#225; de 6.4&#8211;5: &#8220;Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus, &#233; o &#250;nico Senhor. Amar&#225;s, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu cora&#231;&#227;o, e de toda a tua alma, e de todo o teu poder.&#8221; Al&#233;m disso, quem Yahweh &#233; est&#225; &#233; melhor explicado nos quatro primeiros mandamentos do Dec&#225;logo (5.6&#8211;15). Como Israel deve reagir em atos de amor &#224; realeza do Senhor est&#225; explicado nos seis mandamentos restantes (5.6&#8211;21).</p><p><strong>(iv) Estipula&#231;&#245;es espec&#237;ficas (12.1&#8212;26.15)</strong>. Percebe&#8211;se um crescimento de especificidade nas regula&#231;&#245;es da alian&#231;a, o qual parte da estipula&#231;&#227;o mais b&#225;sica &#8212; o Shem&#225; &#8212; para um desenvolvimento mais expandido daquele princ&#237;pio central &#8212; o Dec&#225;logo. Na se&#231;&#227;o das estipula&#231;&#245;es espec&#237;ficas, os princ&#237;pios do Shem&#225; e do Dec&#225;logo v&#227;o ser aplicados a todos os aspectos da vida dentro da alian&#231;a.</p><p><strong>(v) Ben&#231;&#227;os e maldi&#231;&#245;es (27.1&#8212;28.68)</strong>. Essa parte dos tratados hititas era composto pela declara&#231;&#227;o das recompensas e san&#231;&#245;es. Se o vassalo permanecesse fiel &#224;s estipula&#231;&#245;es da alian&#231;a, ent&#227;o ele teria o favor do suserano. Por outro lado, caso infringisse os termos do pacto, o vassalo estaria sujeito &#224; ira do suserano, podendo, inclusive, perder todos os benef&#237;cios da alian&#231;a. Voltaremos em breve a esse aspecto dos tratados.</p><p><strong>(vi) As testemunhas (30.19; 31.19; 32.1&#8211;43)</strong>. O tipo de tratado que &#233; uma alian&#231;a entre duas pessoas exige a presen&#231;a de testemunhas, dado o seu car&#225;ter de transa&#231;&#227;o jur&#237;dica. Na tradi&#231;&#227;o hitita, as testemunhas desse tipo de contrato eram os pr&#243;prios deuses, que se inteiravam do conte&#250;do da alian&#231;a e que eram os respons&#225;veis por fazer com que as partes contratantes permanecessem fi&#233;is &#224;s suas respectivas responsabilidades pactuais.</p><p>Algo de muito interessante acontece no caso de Deuteron&#244;mio. A inst&#226;ncia m&#225;xima em termos de testemunha entre os hititas, como foi dito, eram os deuses. Esses, por&#233;m, jamais poderiam cumprir tal papel no caso de uma rela&#231;&#227;o pactual entre Yahweh e Israel, pois, para esse, <em>eles sequer existiam</em>. A formalidade, ainda assim, precisava ser observada. Com efeito, s&#227;o os c&#233;us e a terra as testemunhas da alian&#231;a do Senhor com Israel (Dt 30.19). Fora isso, o pr&#243;prio c&#226;ntico de Mois&#233;s serve tamb&#233;m como testemunha do pacto (31.19; 32.1&#8211;43).</p><h4>3. A maior maldi&#231;&#227;o da alian&#231;a</h4><p>Estudamos, por enquanto, os aspectos mais gerais da alian&#231;a tal como apresentada nos textos b&#237;blicos &#8212; isso na se&#231;&#227;o (1), <em>Um pacto de sangue soberanamente administrado</em> &#8212;, at&#233; a estrutura pactual do livro de Deuteron&#244;mio &#8212; isso na se&#231;&#227;o (2), <em>Deuteron&#244;mio e os tratados hititas de suserania e vassalagem</em>. </p><p>Devemos ter sempre em mente a especificidade do livro de Deuteron&#244;mio, que n&#227;o era uma simples declara&#231;&#227;o da rela&#231;&#227;o pactual entre Deus e o Seu povo. Isso porque a alian&#231;a com Israel n&#227;o fora  firmada nas campinas de Moabe, o contexto geogr&#225;fico dos discursos de Mois&#233;s nesse livro, mas no Sinai. &#202;xodo 20&#8212;23 seria, por sua vez, a declara&#231;&#227;o oficial da alian&#231;a sina&#237;tica.</p><p>Deuteron&#244;mio pode ser melhor compreendido como um texto de <em>renova&#231;&#227;o</em> do compromisso de Israel em rela&#231;&#227;o &#224; alian&#231;a. A primeira gera&#231;&#227;o de hebreus que sa&#237;ram do Egito pereceram totalmente em sua peregrina&#231;&#227;o de quarenta anos ao longo do deserto. Os hebreus que estavam se preparando para entrar em Cana&#227; constitu&#237;am uma nova gera&#231;&#227;o do povo de Deus, que n&#227;o tinha, como a gera&#231;&#227;o anterior, adorado o bezerro de ouro t&#227;o logo sa&#237;ram do Egito. Assim, fazia&#8211;se necess&#225;rio, antes da conquista da Terra Prometida, uma renova&#231;&#227;o de todo o povo em seu compromisso para com Deus.</p><p>Avan&#231;ando um pouco mais no tempo at&#233; a &#233;poca da monarquia, nos deparamos com uma situa&#231;&#227;o nova envolvendo os profetas de Deus, por um lado, e o rei e o povo de Israel, por outro. Antes da monarquia, o minist&#233;rio dos profetas se manifestava de diversos modos. Com a institui&#231;&#227;o de um rei humano, no entanto, os profetas, que eram os porta&#8211;vozes de Deus, passaram a orbitar cada vez mais os reis como cabe&#231;as do povo. </p><p>Agora, Israel, o povo vassalo de Deus, o Grande Rei, tinha um rei&#8211;vassalo, evidentemente levantado por Yahweh para govern&#225;&#8211;lo. Dentro desse esquema, os profetas se tornaram os emiss&#225;rios enviados por Deus, o suserano, para, em primeiro lugar, o rei&#8211;vassalo e, atrav&#233;s dele, o pr&#243;prio povo vassalo. A <em>introdu&#231;&#227;o aos livros prof&#233;ticos</em>, na se&#231;&#227;o <em>o papel dos profetas</em>, da B&#237;blia de Estudo de Genebra resume bem a discuss&#227;o:</p><blockquote><p>Os profetas de Israel serviam de mensageiros entre Deus, o Rei supremo, e seu rei humano e a na&#231;&#227;o, Israel. Usando de uma analogia com as pr&#225;ticas pol&#237;ticas do mundo antigo, o Rei divino de Israel enviava emiss&#225;rios prof&#233;ticos para dar orienta&#231;&#227;o, louvar a fidelidade e condenar as transgress&#245;es das alian&#231;as que ele havia estabelecido com o seu povo vassalo.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-12" href="#footnote-12" target="_self">12</a></p></blockquote><p>Esses profetas prometiam as mesmas ben&#231;&#227;os e maldi&#231;&#245;es que j&#225; estavam registradas no texto de Deuteron&#244;mio, condicionando os benef&#237;cios e malef&#237;cios da alian&#231;a &#224; integridade de Israel para com o seu Deus. Eles, portanto, n&#227;o profetizavam no v&#225;cuo, mas ministravam dentro do contexto pactual do AT. Em segundo lugar, os profetas n&#227;o eram vates da mitologia grega, como Tir&#233;sias, que adivinhavam, sob a inspira&#231;&#227;o dos deuses, o futuro. Eles estavam calcados, isso sim, nas promessas de ben&#231;&#227;os e maldi&#231;&#245;es que Deus fizera a Israel quando travou com o povo a alian&#231;a no Sinai, renovando&#8211;a para a nova gera&#231;&#227;o de hebreus nas plan&#237;cies de Moabe. A B&#237;blia de Estudo de Genebra comenta:</p><blockquote><p>Em conformidade com os termos da alian&#231;a, os profetas anunciaram v&#225;rias maldi&#231;&#245;es secund&#225;rias, bem como a maior maldi&#231;&#227;o de todas, a saber, a destrui&#231;&#227;o total e o ex&#237;lio da Terra Prometida. Tamb&#233;m proclamaram v&#225;rias ben&#231;&#227;os secund&#225;rias, bem como a maior ben&#231;&#227;o de todas, a saber, a restaura&#231;&#227;o depois do ex&#237;lio.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-13" href="#footnote-13" target="_self">13</a></p></blockquote><p>Assim, o ex&#237;lio da Terra Prometida era a maior maldi&#231;&#227;o poss&#237;vel dentro da estrutura pactual do AT. &#201; &#243;bvio, portanto, que o retorno do ex&#237;lio seria a maior ben&#231;&#227;o poss&#237;vel da alian&#231;a. Com efeito, Robertson observa que:</p><blockquote><p>Como um para&#237;so restaurado, a possess&#227;o da terra significava a possess&#227;o dos prop&#243;sitos redentores de Deus. Assim sendo, por essa perspectiva, o que poderia significar para o povo de Deus o desterro da terra? Eles haviam se tornado o &#8220;N&#227;o&#8211;Meu&#8211;Povo&#8221; (ver Os 1.9). N&#227;o mais possu&#237;am o s&#237;mbolo das ben&#231;&#227;os da reden&#231;&#227;o. O que poderia ser mais dr&#225;stico?<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-14" href="#footnote-14" target="_self">14</a></p></blockquote><p>Em virtude da infidelidade indisciplinada de Israel, o reino do norte, Deus decidiu usar a Ass&#237;ria para julg&#225;&#8211;los. O ataque ocorreu em tr&#234;s est&#225;gios principais. Em c. 734 a.C., Israel se aliou &#224; S&#237;ria para resistir ao dom&#237;nio ass&#237;rio, o que resultou em nada, pois a Ass&#237;ria derrotou a S&#237;ria e, por fim, Israel caiu, subjugada (2Rs 15.20&#8211;29). Em 722 a.C., reagindo &#224;s novas rebeli&#245;es, a Ass&#237;ria acabou destruindo Samaria, ent&#227;o capital do reino do norte, e exilou v&#225;rios dos seus cidad&#227;os. Em 701 a.C., Senaqueribe atacou Jud&#225;, o reino do sul, e chegou a sitiar Jerusal&#233;m, mas Deus a livrou das m&#227;os dos ass&#237;rios (2Rs 17&#8212;19).</p><p>Ap&#243;s conquistar a capital da Ass&#237;ria, N&#237;nive, em 612 a.C., a Babil&#244;nia faria  com o reino do sul, Jud&#225;, o mesmo que os ass&#237;rios fizeram com o reino do norte, Israel. Em 605 a.C. ocorreu a primeira invas&#227;o: alguns membros da elite de Jud&#225;, como Daniel e seus amigos (Dn 1.3&#8211;6), ap&#243;s serem subjugados, foram deportados para a Babil&#244;nia. A segunda invas&#227;o aconteceu em 597 a.C., quando uma nova deporta&#231;&#227;o de judeus, como Ezequiel (Ez, 33.21; 2Rs 24.14), teve lugar. A terceira invas&#227;o, ocorrida em 586 a.C., resultou na destrui&#231;&#227;o de Jerusal&#233;m e no ex&#237;lio de quase toda a popula&#231;&#227;o (2Rs 25.1&#8211;21).</p><p>E, desse modo, a maior maldi&#231;&#227;o contida na alian&#231;a sina&#237;tica foi concretizada. Israel, a quem Deus chama &#8220;N&#227;o&#8211;Meu&#8211;Povo&#8221; &#8212; &#8220;porque v&#243;s n&#227;o sois meu povo, nem eu serei vosso Deus&#8221; (Os 1.9) &#8212;; a quem Deus, quando o tirou da terra da escravid&#227;o, o Egito, o chamou &#8220;meu filho primog&#234;nito&#8221; &#8212; &#8220;Israel &#233; meu filho, meu primog&#234;nito&#8221; (&#202;x 4.22; cf. Os 11.1) &#8212;; Israel, digo, fora lan&#231;ada da Terra da promessa rumo ao ex&#237;lio, para longe das ben&#231;&#227;os da alian&#231;a de Deus. &#201; nesse contexto que lamenta o salmista:</p><blockquote><p>Junto aos rios da Babil&#244;nia nos assentamos e choramos, lembrando&#8211;nos de Si&#227;o (Sl 137.1).</p></blockquote><h4>4. O fim do ex&#237;lio de Israel em Jesus o Messias</h4><p>O fim propriamente hist&#243;rico do ex&#237;lio babil&#244;nico se deu quando o imperador Ciro da P&#233;rsia, em 539&#8211;538 a.C., tendo derrotado a Babil&#244;nia, permitiu que os judeus voltassem a Jerusal&#233;m. Liderados por Josu&#233;, o sumo sacerdote, e Zorobabel, o descendente de Davi, um pequeno grupo de judeus regressou &#224; Terra Prometida. Depois de alguns atrasos, o templo finalmente foi reconstru&#237;do em 520&#8211;515 a.C.</p><p>H&#225; um sentido &#8212; sentido muit&#237;ssimo importante &#8212;, por&#233;m, em que o ex&#237;lio ainda n&#227;o teve um fim &#8212; pelo menos n&#227;o para os judeus contempor&#226;neos de Jesus. Quem faz essa observa&#231;&#227;o &#233; Claude Tassin. Comentando o documento geneal&#243;gico contido no evangelho segundo Mateus, Tassin faz com que o evangelista divida a hist&#243;ria em tr&#234;s partes: a era patriarcal (Abra&#227;o at&#233; Davi (Mt 1.2&#8211;6)), o per&#237;odo mon&#225;rquico (Davi at&#233; o ex&#237;lio (Mt 1.6&#8211;11)) e os tempos p&#243;s&#8211;ex&#237;licos, at&#233; o tempo do Messias (Mt 1.12&#8211;16). Ap&#243;s explicar o car&#225;ter catequ&#233;tico do material de Mateus em rela&#231;&#227;o ao AT, Tassin escreve:</p><blockquote><p>No pensamento judaico da &#233;poca de Jesus, o tempo dos ex&#237;lios, com uma di&#225;spora que j&#225; existia havia muito tempo, ainda n&#227;o havia terminado. Esperava-se que o Profeta dos &#250;ltimos tempos pusesse fim &#224; dispers&#227;o e, segundo algumas tradi&#231;&#245;es antigas, seria na Galileia que come&#231;aria a reunifica&#231;&#227;o final [&#8230;] Assim, a genealogia insinua a ideia de que a miss&#227;o de Cristo deveria p&#244;r fim aos ex&#237;lios do seu povo.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-15" href="#footnote-15" target="_self">15</a> (tradu&#231;&#227;o minha)</p></blockquote><p>Para fins did&#225;ticos, podemos classificar Mateus 1.1&#8212;2.23 como um dos dois pr&#243;logos do evangelho que gira em torno da inf&#226;ncia de Jesus. Essa parte, por sua vez, pode ser divida em outras duas sub&#8211;partes: (i) aquela que trata da identidade do Messias (cap. 1) e (ii) aquela que trata de onde o Messias veio (cap. 2).<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-16" href="#footnote-16" target="_self">16</a>  O segundo pr&#243;logo, que cobre os cap&#237;tulo 3.1&#8212;4.16, apresentar&#225; o minist&#233;rio de Jo&#227;o de Batista e sua rela&#231;&#227;o com Jesus.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-17" href="#footnote-17" target="_self">17</a></p><p>A se&#231;&#227;o que nos interessa aqui &#233; Mateus 2.1&#8211;23. Mas, tendo dito algumas coisas sobre a genealogia (Mt 1.1&#8211;17), seria justo que discut&#237;ssemos algumas coisas a respeito da narrativa do nascimento de Jesus.</p><p>Deparamo&#8211;nos imediatamente com dois aspectos do relato. [Vale lembrar que o cap&#237;tulo 1 se concentra na identidade do Messias, como tema espec&#237;fico, e em Sua inf&#226;ncia, como tema geral] O primeiro &#233; a semelhan&#231;a que a introdu&#231;&#227;o dessa parte do relato tem com aquela que abre a genealogia de Cristo:</p><p>A. Livro da genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abra&#227;o (Mt 1.1);</p><p>B. Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim&#8230; (Mt 1.18).</p><p>A genealogia visa responder &#224; pergunta &#8220;Quem &#233; Jesus?&#8221;, ao passo que o relato do nascimento tem a fun&#231;&#227;o de explicar como Jesus adquiriu Sua identidade.</p><p>O segundo aspecto sobre essa se&#231;&#227;o do evangelho &#233; a sua necessidade como complemento da genealogia. At&#233; ent&#227;o, Mateus registrou tr&#234;s grupos de quatorze homens que estavam diretamente relacionados &#224; ascend&#234;ncia do Messias. Agora, por&#233;m, ele nos conta como Jos&#233; n&#227;o teve qualquer participa&#231;&#227;o carnal no nascimento de Jesus, recorrendo a <em>modelos b&#237;blicos</em> com o objetivo de estabelecer uma origem sagrada para Cristo. Os g&#234;neros que utiliza s&#227;o dois: os relatos de an&#250;ncio, que conferem uma miss&#227;o especial aos escolhidos de Deus, e uma encena&#231;&#227;o fundamentalmente inspirada na hist&#243;ria do patriarca Jos&#233;, &#8220;o homem dos sonhos&#8221; (Gn 37.19).</p><p>O n&#250;cleo da narrativa &#233; a revela&#231;&#227;o do anjo de quem Jesus seria dentro da hist&#243;ria da salva&#231;&#227;o: &#8220;Jos&#233;, Filho de Davi, n&#227;o temas receber Maria, tua mulher, porque o que nela foi gerado &#233; do Esp&#237;rito Santo. Ela dar&#225; &#224; luz um filho e lhe por&#225;s o nome de Jesus, porque ele salvar&#225; o seu povo dos pecados deles.&#8221; (Mt 1.20&#8211;21) E o evangelista interpreta o acontecimento como o cumprimento de uma profecia: &#8220;Ora, tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que fora dito pelo Senhor por interm&#233;dio do profeta: eis que a virgem conceber&#225; e dar&#225; &#224; luz um filho, e ele ser&#225; chamado pelo nome de Emanuel (que quer dizer: Deus conosco).&#8221; (Mt 1.22&#8211;23; cf. Is 7.14)</p><p>Ele salvar&#225; o seu povo dos pecados deles e ser&#225; chamado &#8212; ou conhecido &#8212; de Emanuel, &#8220;Deus conosco&#8221;. Chamado por quem? Por Maria? Ou por outras pessoas? Se por outras pessoas, qual a identidade delas? Talvez por aqueles que, dentre todas as na&#231;&#245;es (Mt 28.19), creriam em Jesus como o Messias. A esses, assegura Jesus: &#8220;eis que estou convosco [Deus conosco] todos os dias at&#233; &#224; consuma&#231;&#227;o dos s&#233;culos.&#8221; (Mt 28.20)<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-18" href="#footnote-18" target="_self">18</a></p><p>Dito isso, o cap&#237;tulo realmente pertinente para os nossos prop&#243;sitos &#233; o cap&#237;tulo 2, em que os lugares &#8212; Bel&#233;m, Egito e Nazar&#233; &#8212; desempenham um papel muito importante. </p><p>H&#225; muitas coisas que gostaria de discutir sobre esse cap&#237;tulo. A primeira delas &#233; a ir&#244;nica invers&#227;o daqueles que esperar&#237;amos reconhecer em Jesus, o Messias de Israel (Mt 2.1&#8211;12). Nem Herodes nem os principais sacerdotes e escribas do povo &#8212; nem mesmo o pr&#243;prio povo &#8212; atentou para Jesus. Herodes, inclusive, como um novo Fara&#243;, tentou mat&#225;&#8211;Lo. Os &#250;nicos que reconhecem &#8220;o rec&#233;m&#8211;nascido rei dos judeus&#8221; (Mt 2.2) &#233; um grupo de magos vindos do Oriente. Ou seja, um grupo de gentios pag&#227;os. J&#225; aqui h&#225; o germe da universalidade que o messianismo de Jesus representaria, abrindo a salva&#231;&#227;o para incluir os gentios, e n&#227;o s&#243; os judeus. O lugar central desses acontecimentos &#233; Bel&#233;m da Judeia.</p><p>H&#225;, ent&#227;o, a hist&#243;ria do ex&#237;lio da sagrada fam&#237;lia para o Egito, para fugir da ira de Herodes, e o seu retorno para a Terra Prometida (Mt 2.13&#8211;23). Para Mateus, Jesus &#233; tanto o Novo Mois&#233;s &#8212; o profeta semelhante a Mois&#233;s que estava por vir (Dt 18.15) &#8212; quanto <em>Israel em carne e osso</em>. O relato segue tr&#234;s momentos b&#225;sicos: a fuga para o Egito em obedi&#234;ncia ao an&#250;ncio que o anjo fez a Jos&#233; em sonho Mt 2.13&#8211;15), a matan&#231;a dos inocentes em Bel&#233;m (Mt 2.16&#8211;18) e o retorno da sagrada fam&#237;lia para a terra de Israel (Mt 2.19&#8211;23).</p><p>&#201; f&#225;cil perceber o paralelo entre Jesus e Mois&#233;s. Fara&#243; amea&#231;a tirar a vida de Mois&#233;s, motivo pelo qual o libertador de Israel foge do Egito para Midi&#227; (&#202;x 2.15), da mesma forma que, amea&#231;ados por Herodes, Jos&#233; e sua fam&#237;lia, divinamente avisados, fogem n&#227;o <em>do Egito</em>, mas <em>para o Egito</em>, para longe de Israel. Sendo por Deus informado que Fara&#243; tinha morrido, Mois&#233;s retorna ao Egito, com o fim de libertar os filhos de Israel da escravid&#227;o (&#202;x 4.19&#8211;20); e Jos&#233;, avisado pelo anjo que Herodes, que procurava o menino para o matar, morrera, volta &#224; Israel, mas, por medo de Arquelau, t&#227;o cruel quanto Herodes, vai habitar em Nazar&#233; (Mt 2.19&#8211;23).</p><p>O papel de Jesus como o Novo Mois&#233;s &#233; important&#237;ssimo. Foi Ele quem liderou o novo &#202;xodo dos filhos de Israel para fora do Egito. No entanto, &#233; <em>Jesus como Israel em carne e osso</em> que nos interessa aqui. E Ele, como Israel, p&#244;s um fim ao ex&#237;lio. Se f&#244;ssemos usar uma express&#227;o consagrada pelo uso b&#237;blico, dir&#237;amos que Jesus &#233; <em>Israel</em> <em>em carne e sangue</em> (Hb 2.14); se f&#244;ssemos usar uma express&#227;o consagrada pelo uso patr&#237;stico, dir&#237;amos que Jesus <em>recapitulou</em> a hist&#243;ria de Israel; se f&#244;ssemos usar uma express&#227;o consagrada pelo uso de N. T. Wright, dir&#237;amos que Jesus &#233; <em>Israel</em> <em>em Pessoa</em>. Mas, mais apropriadamente, usaremos a express&#227;o <em>Israel em carne e osso</em>. </p><p>Entre a fuga para o Egito e o retorno para Israel, Mateus cita a matan&#231;a dos inocentes ocorrida em Bel&#233;m, al&#233;m de acrescentar uma profecia retirada de Jeremias 31. Tudo isso &#8212; principalmente a profecia &#8212; &#233; importante para a nossa tese. </p><p>Ap&#243;s ser informado pelo anjo dos planos de Herodes e obedecendo&#8211;lhe a palavra, Jos&#233; foge para o Egito e permanece l&#225; &#8220;at&#233; a morte de Herodes, para que se cumprisse o que fora dito pelo Senhor, por interm&#233;dio do profeta: do Egito chamei o meu Filho.&#8221; (Mt 2.15; cf. Os 11.1) A profecia de Oseias que Mateus usa  refere&#8211;se ao chamado de Deus de seu filho Israel para fora do Egito. Foi o pr&#243;prio Deus quem chamou Israel de Seu filho ao amea&#231;ar Fara&#243;: &#8220;Israel &#233; meu filho, meu primog&#234;nito. Digo&#8211;te, pois: deixa ir meu filho, para que me sirva; mas, se recusares deix&#225;&#8211;lo ir, eis que eu matarei teu filho, teu primog&#234;nito.&#8221; (&#202;x 4.22&#8211;23) Israel era o filho primog&#234;nito de Deus tanto quanto o pr&#237;ncipe herdeiro do Egito era o filho primog&#234;nito de Fara&#243;. </p><p>Assim, Mateus encontra uma Pessoa, Jesus o Messias, em uma profecia que, originalmente, referia&#8211;se a um povo, Israel. N&#227;o &#233; &#224; toa que Tassin comenta:</p><blockquote><p>O Filho Jesus &#233; o filho Israel; ele assume o destino do povo eleito, para o qual inaugurar&#225; um novo &#202;xodo.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-19" href="#footnote-19" target="_self">19</a> (tradu&#231;&#227;o minha)</p></blockquote><p>Neste momento da hist&#243;ria sagrada, Israel em carne e osso participou do ex&#237;lio do povo de Israel. &#8220;Vendo&#8211;se iludido pelos magos, enfureceu&#8211;se Herodes grandemente e mandou matar todos os meninos de Bel&#233;m e de todos os seus arredores, de dois anos para baixo, conforme o tempo do qual com precis&#227;o se informara dos magos.&#8221; (Mt 2.16) A invas&#227;o contra o reino do norte &#8212; contra as tribos de Efraim e Manass&#233;s, filhos de Jos&#233; e netos de Raquel &#8212; ocorrera mais uma vez. &#8220;Ouviu&#8211;se um clamor em Ram&#225;, pranto, [choro] e grande lamento; era Raquel chorando por seus filhos e inconsol&#225;vel porque n&#227;o mais existem.&#8221; (Mt 2.18; cf. Jr 31.15)</p><p>N&#227;o podemos, por&#233;m, parar por a&#237;. O texto de Jeremias n&#227;o &#233; uma lamenta&#231;&#227;o do ex&#237;lio ass&#237;rio ou babil&#244;nico, mas uma promessa de que o ex&#237;lio n&#227;o seria para sempre e de que Israel voltaria &#224; Terra Prometida, e isso nos tempos da Nova Alian&#231;a (Jr 31.31&#8211;34). Deus promete em diversos lugares desta profecia de Jeremias:</p><blockquote><p>&#8220;Eis que os trarei da terra do Norte e os congregarei das extremidades da terra; e, entre eles, tamb&#233;m os cegos e os aleijados, as mulheres gr&#225;vidas e as de parto; em grande congrega&#231;&#227;o, voltar&#227;o para aqui. Vir&#227;o com choro, e com s&#250;plicas os levarei; gui&#225;&#8211;los&#8211;ei aos ribeiros de &#225;guas, por caminho reto em que n&#227;o trope&#231;ar&#227;o; <em>porque sou pai para Israel, e Efraim &#233; o meu primog&#234;nito</em>.&#8221; (Jr 31.8&#8211;9 (it&#225;licos meus))</p></blockquote><p>Em sequ&#234;ncia &#224; profecia de Jeremias, Mateus relata que Israel em carne e osso voltou do ex&#237;lio para a Terra da promessa. &#8220;Disp&#244;s&#8211;se ele [ou seja, Jos&#233;], tomou o menino e sua m&#227;e e regressou para a terra de Israel.&#8221; (Mt 2.20) &#201; isto mesmo! O tempo em que o ex&#237;lio do povo de Deus teria um fim finalmente tinha chegado! O tempo da Nova Alian&#231;a, da congrega&#231;&#227;o universal dos filhos de Deus de todos os lugares da terra para os quais Deus os espalhara, estava sendo inaugurado por um beb&#234; indefeso e fr&#225;gil, que era, ao mesmo, Emanuel, &#8220;Deus conosco&#8221;. Yahweh em carne e osso, &#8220;o Senhor, Deus de Israel [&#8230;] visitou e redimiu o seu povo, e suscitou plena e poderosa salva&#231;&#227;o na casa de Davi, seu servo&#8221; (Lc 1.68&#8211;69). A nova era da Hist&#243;ria da Salva&#231;&#227;o, a era da vinda do Esp&#237;rito de Deus, da nova cria&#231;&#227;o e da ressurrei&#231;&#227;o dos mortos, estava acontecendo.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-20" href="#footnote-20" target="_self">20</a> O Reino de Deus em breve seria inaugurado pelo Messias, o Senhor Jesus.</p><p>&#8220;E foi habitar numa cidade chamada Nazar&#233;, para que se cumprisse o que fora dito por interm&#233;dio dos profetas: ele ser&#225; chamado Nazareno.&#8221; (Mt 2.23) Mateus n&#227;o cita um profeta em espec&#237;fico. N&#227;o h&#225; nenhuma profecia explicitamente parecida com essa no AT. Ele simplesmente fala em &#8220;profetas&#8221;. Diversas palavras semitas v&#234;m &#224; mente como poss&#237;veis refer&#234;ncias &#224; profecia: a palavra <em>nazir</em>, de onde nazireu, &#8220;consagrado a Deus&#8221;, como Sans&#227;o (Jz 13.5&#8211;7); o termo <em>netzer</em>, um &#8220;renovo&#8221; que vem das ra&#237;zes de Jess&#233;, como em Isa&#237;as 11.1; ou mesmo &#8220;a seita dos nazarenos&#8221; (At 24.5), que eram os crist&#227;os da Palestina e com os quais, se essa  alternativa for a correta, Jesus se identifica intimamente. Seja como for, o fato de Jesus vir a ser conhecido como &#8220;o nazareno&#8221;, como &#8220;Jesus de Nazar&#233;&#8221; (Mc 1.9; Jo 1.45), refor&#231;a o Seu minist&#233;rio terreno como o minist&#233;rio do Servo Sofredor de Isa&#237;as 53, que &#8220;era desprezado e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que &#233; padecer [&#8230;]&#8221; (Is 53.3)</p><h4>5. Israel no Israel em carne e osso; filhos de Deus no Filho de Deus</h4><p>Precisamos, agora, for&#231;ar a pergunta: <em>como</em> exatamente o ex&#237;lio finda em Jesus Cristo? Devemos nos recordar a defini&#231;&#227;o de alian&#231;a que cobre os dados b&#237;blicos: alian&#231;a &#233; &#8220;um pacto de sangue soberanamente administrado&#8221;. Levando em conta essa defini&#231;&#227;o, farei um caso geral e um caso espec&#237;fico de como Deus reconciliou em Cristo todas as coisas (Cl 1.20), judeus e gentios, reconciliando &#8220;ambos em um s&#243; corpo com Deus, por interm&#233;dio da cruz, destruindo por ela a inimizade.&#8221; (Ef 3.16)</p><p><strong>5.1. Caso espec&#237;fico</strong></p><p>O caso geral, primeiro. Como dissemos no come&#231;o deste artigo, uma alian&#231;a &#233; um pacto de sangue, um pacto de vida ou morte. Muitos, contudo, confundem uma alian&#231;a com um testamento, acreditando serem ambos a mesma coisa. Isso n&#227;o poderia estar mais longe da verdade. Nas Escrituras, h&#225; uma diferen&#231;a s&#250;til, por&#233;m decisiva, entre uma alian&#231;a e um testamento. &#201; verdade que ambos envolvem, em algum grau, o elemento morte. A diferen&#231;a, por&#233;m, est&#225; na posi&#231;&#227;o em que esse elemento se encontra nos dois tipos de contrato. No caso de uma alian&#231;a, a morte se encontra no fim e s&#243; quando uma das partes viola um dos termos de seus termos. Em um testamento, contudo, a morte se encontra no come&#231;o, pois &#233; ela que <em>ativa</em> o testamento. </p><p>Em segundo lugar, em uma alian&#231;a, n&#227;o &#233; necess&#225;rio que uma das partes morra. Muito pelo contr&#225;rio, a morte de uma das partes significa que a alian&#231;a foi violada. O transgressor da alian&#231;a, ent&#227;o, tem o mesmo fim que o animal sacrificado no ritual de se fazer o pacto. Em um testamento, por&#233;m, <em>&#233;</em> <em>necess&#225;rio</em> <em>que o testador morra</em>, caso contr&#225;rio, o testamento n&#227;o tem qualquer for&#231;a, e o herdeiro do mesmo n&#227;o recebe a heran&#231;a. S&#243; na morte do testador &#233; que o testamento ganha for&#231;a de lei. Portanto, concordo com Robertson:</p><blockquote><p>No caso de uma &#8220;alian&#231;a&#8221;, a morte est&#225; no princ&#237;pio da rela&#231;&#227;o entre duas partes, simbolizando o fator maldi&#231;&#227;o potencial na alian&#231;a. No caso de um &#8220;testamento&#8221;, a morte est&#225; no fim da rela&#231;&#227;o entre as duas partes, efetivando uma heran&#231;a.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-21" href="#footnote-21" target="_self">21</a></p></blockquote><p>Como mostramos ao longo deste artigo, o povo de Israel, por diversas vezes e em diversas ocasi&#245;es de sua hist&#243;ria, n&#227;o permaneceu fiel &#224; alian&#231;a do Sinai, traindo&#8211;a constantemente. Mesmo no retorno &#224; Terra Prometida ap&#243;s o ex&#237;lio babil&#244;nico, a religi&#227;o falsa se arraigou de tal modo entre o povo que todas as esperan&#231;as da concretiza&#231;&#227;o gloriosa do Reino de Deus passaram a ser projetadas num futuro distante. Com efeito, Israel estava por debaixo de todas as maldi&#231;&#245;es da alian&#231;a e, negativamente, n&#227;o era digno de nenhuma das ben&#231;&#227;os da mesma: ele infringiu o pacto. &#201; precisamente nesse contexto &#8212; &#8220;[&#8230;] no contexto da morte por alian&#231;a, n&#227;o da morte testament&#225;ria, que deve ser entendida a morte de Jesus Cristo. A morte de Cristo foi um sacrif&#237;cio substitucional. Cristo morreu como um substituto do infrator da alian&#231;a. A substitui&#231;&#227;o &#233; essencial para a compreens&#227;o da morte de Cristo.&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-22" href="#footnote-22" target="_self">22</a></p><p>Deus, em Jeremias 31, prometeu uma Nova Alian&#231;a. Mas essa alian&#231;a n&#227;o poderia vir a menos que a justi&#231;a de Deus fosse satisfeita e o transgressor da Antiga Alian&#231;a, morto. Foi ent&#227;o que Jesus o Messias, o Israel em carne e osso, foi julgado no lugar do Israel transgressor. Antes da cruz, Deus n&#227;o lidou com o pecado do modo por que deveria, do modo adequado, e isso para poder se manifestar como um Deus justo na cruz, no sangue de Jesus Cristo, e como o justificador daquele tem f&#233; em Cristo (Rm 3.21&#8211;26).</p><p>Desse modo, em Sua cruz, Jesus absorveu todas as maldi&#231;&#245;es da alian&#231;a e a pr&#243;pria ira de Deus contra o pecado. Ele bebeu o ex&#237;lio de Deus, o abandono do Pai &#8212; que era o que Israel merecia &#8212;, em Sua morte expiat&#243;ria, estabelecendo para sempre a paz entre Deus e o homem (Rm 5.1).</p><p><strong>5.2. Caso espec&#237;fico</strong></p><p>Esse foi o caso geral. Demos, agora, uma olhada no caso espec&#237;fico. Sendo um caso espec&#237;fico, irei me basear inteiramente &#8212; ou principalmente &#8212; em uma carta espec&#237;fica do ap&#243;stolo Paulo: a carta aos g&#225;latas.</p><p>Acredito que podemos fazer uma divis&#227;o no material dessa ep&#237;stola entre uma parte mais hist&#243;rica e uma mais &#8220;teol&#243;gica&#8221;. &#201; claro que ambas as &#8220;partes&#8221; s&#227;o teol&#243;gicas, mas a segunda, sabemos, &#233; mais teologicamente densa do que a primeira. </p><p><strong>5.2a. Se&#231;&#227;o hist&#243;rica da ep&#237;stola</strong></p><p>Ap&#243;s o pref&#225;cio (Gl 1.1&#8211;5), Paulo d&#225; in&#237;cio ao material especificamente hist&#243;rico da sua ep&#237;stola (Gl 1.6&#8212;2.21), fazendo men&#231;&#227;o de sua surpresa ao saber que os g&#225;latas estavam, conscientemente ou n&#227;o, abandonando o evangelho que ele pregou entre eles (Gl 1.6), aceitando que deveriam cincuncidar&#8211;se para poderem ser enxertados no povo de Deus (Gl 5.2&#8211;3). Essa primeira prega&#231;&#227;o do ap&#243;stolo vai aparecer mais uma vez no come&#231;o do cap&#237;tulo 3. Na maior parte da se&#231;&#227;o hist&#243;rica, Paulo defende a origem divina divinamente mediada do seu evangelho e, consequentemente, do seu apostolado (Gl 1.10&#8211;17); ele tamb&#233;m cita duas visitas que fizera aos ap&#243;stolos de Jerusal&#233;m, a segunda das quais aparentemente mais oficial que a outra (Gl 1.18&#8211;2.10). Na segunda dessas visitas, os principais entre os ap&#243;stolos, ou seja, Tiago, Cefas (Pedro) e Jo&#227;o, reconheceram o apostolado de Paulo e estenderam a ele a destra da comunh&#227;o (Gl 2.1&#8211;10). </p><p>Algum tempo depois, contudo, houve um incidente traum&#225;tico em Antioquia, envolvendo Paulo e Pedro. E aqui confesso que estarei descrevendo especificamente a minha interpreta&#231;&#227;o das palavras de Paulo. A pol&#234;mica girou em torno da quest&#227;o da circuncis&#227;o como algo necess&#225;rio para que os gentios pudessem participar da comunh&#227;o de mesa com os judeus. &#8220;[&#8230;] antes de chegarem alguns da parte de Tiago, [Pedro] comia com os gentios; quando, por&#233;m, chegaram, afastou&#8211;se e, por fim, veio a apartar&#8211;se, temendo os da circuncis&#227;o.&#8221; (Gl 2.12) &#201; a&#237; que Paulo, vendo que Pedro, Barnab&#233; e os judeus que acompanharam Pedro em sua hipocrisia, &#8220;n&#227;o procediam corretamente segundo a verdade do evangelho&#8221; (Gl 2.13&#8211;14), repreendeu a Cefas na presen&#231;a de todos (Gl 2.14&#8211;21).</p><p>Desde o revolucion&#225;rio <em>Paul and Palestinian Judaism</em>, de E. P. Sanders, houve uma mudan&#231;a de paradigma nos estudos do Juda&#237;smo do Segundo Templo. Atrav&#233;s do que ele chamou de <em>nomismo da alian&#231;a</em> (<em>covenantal nomism</em>), Sanders desbancou a interpreta&#231;&#227;o tradicional, herdada de Lutero, que via os judeus do primeiro s&#233;culo como <em>soteriologicamente legalistas</em>. Sanders argumentou que isso n&#227;o seria poss&#237;vel, pois, para um judeu, o simples fato de nascer judeu significava pertencer &#224; alian&#231;a e ao povo de Deus e, portanto, aos justos. Um judeu n&#227;o precisava &#8220;ganhar a salva&#231;&#227;o atrav&#233;s de sua obedi&#234;ncia &#224; lei&#8221;, pois ele, desde o tempo de sua circuncis&#227;o, j&#225; era contado entre os eleitos.</p><p>Mas, se os judeus do primeiro s&#233;culo n&#227;o eram soteriologicamente legalistas, como a interpreta&#231;&#227;o protestante padr&#227;o acreditou por muito tempo, contra quem Paulo se levantou para defender t&#227;o apaixonadamente o seu evangelho da livre gra&#231;a de Deus? Os judeus n&#227;o acreditavam que Deus os tinha escolhido para serem o Seu povo porque eles mereceram (Dt 7.7&#8211;8). Deus os escolheu com base em Sua infinita gra&#231;a e miseric&#243;rdia, n&#227;o com base em algum m&#233;rito pr&#243;prio. Mas, se os judeus acreditavam mesmo nessas coisas, por que Paulo parece imputar&#8211;lhes precisamente o tipo de legalismo soteriol&#243;gico que eles jamais poderiam aceitar?<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-23" href="#footnote-23" target="_self">23</a></p><p>O trabalho de Sanders produziu uma onda gigantesca dentro dos estudos do NT, em cuja crista estavam estudiosos como N. T. Wright e James Dunn. Estou &#8212; &#233; claro &#8212; falando da Nova Perspectiva em Paulo &#8212; ou Novas Perspectivas. Seria um esfor&#231;o &#225;rduo tentar esbo&#231;ar aqui o pensamento de Wright e Dunn. &#201;&#8211;nos suficiente observar que eles, principalmente Wright, reinterpretaram a linguagem paulina da justifica&#231;&#227;o pela f&#233; para que ela n&#227;o carregasse &#8212; pelo menos n&#227;o primariamente &#8212; os aspectos soteriol&#243;gicos que a interpreta&#231;&#227;o protestante luterana implicava. Em Wright, por exemplo, a justifica&#231;&#227;o deixa de ser primariamente uma declara&#231;&#227;o forense de justi&#231;a da parte de Deus sobre o pecado e passa a funcionar como uma declara&#231;&#227;o mais eclesiol&#243;gico, social, horizontal: &#233; a declara&#231;&#227;o divina de que algu&#233;m faz parte do povo de Deus.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-24" href="#footnote-24" target="_self">24</a> <a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-25" href="#footnote-25" target="_self">25</a></p><p>Para os nossos prop&#243;sitos, a principal contribui&#231;&#227;o de Dunn ser&#225; a sua reinterpreta&#231;&#227;o da express&#227;o &#964;&#940; &#8217;&#941;&#961;&#947;&#945; &#964;&#959;&#944; &#957;&#972;&#956;&#959;&#965; (&#8220;obras da lei&#8221;) para significar os <em>marcadores &#233;tnicos</em> que separavam os judeus dos gentios e faziam dos primeiros os &#250;nicos membros da alian&#231;a: a circuncis&#227;o, o s&#225;bado e as leis diet&#233;ticas de Lev&#237;tico 11.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-26" href="#footnote-26" target="_self">26</a> </p><p>As obras da lei s&#227;o algo que separa os judeus dos gentios. Com efeito, os judeus n&#227;o tinham permiss&#227;o de achegar&#8211;se a um gentio em comunh&#227;o (At 10.28; 11.2&#8211;3, 19; 15.1). A comunh&#227;o com os gentios passava pela circuncis&#227;o dos &#250;ltimos e, portanto, pela convers&#227;o dos gentios ao Juda&#237;smo. Assim, o legalismo dos judeus era menos soteriol&#243;gico e mais &#233;tnico; era um legalismo pactual. </p><p>&#201; dentro desse contexto que leremos as palavras de Paulo a Pedro. O que Paulo est&#225; negando de maneira direta neste trecho &#8212; G&#225;latas 2.14&#8211;21 &#8212; me parece ser a necessidade dos gentios observarem as obras da lei, no sentido de marcadores &#233;tnicos, para poderem ser considerados membros do novo povo de Deus. E a circuncis&#227;o, evidentemente, &#233; a mais importante aqui &#8212; e em Romanos 2&#8212;3. </p><p>Segundo me parece, tanto Paulo quanto Pedro concordavam que as obras da lei n&#227;o eram mais condi&#231;&#245;es <em>sine qua non </em>para demarcar os membros da alian&#231;a. Pedro, embora judeu segundo a carne &#8212; embora judeu por natureza e n&#227;o pecador dentre os gentios &#8212;, ou seja, embora circuncidado, vivia como um gentio (Gl 2 2.14). Mas, hipocritamente, obrigava que os gentios vivessem como os judeus. O que essas coisas significam &#233; o seguinte: Pedro, &#224; semelhan&#231;a de Paulo, deixou para tr&#225;s as obras da lei como marcadores &#233;tnicos, abra&#231;ando em seu lugar a f&#233; em Jesus Cristo. Parece&#8211;me que esse &#233; o sentido dos vers&#237;culos 15&#8211;16. Mas ele, quando em presen&#231;a dos que eram do partido da circuncis&#227;o, obrigava que os gentios, para participarem da comunh&#227;o crist&#227;, passassem pelo rito da circuncis&#227;o. Ou seja, ele tornou a edificar aquilo que tinha destru&#237;do anteriormente (v. 18): ele retomou as obras da lei como marcadores &#233;tnicos. Com isso, ele se colocava fora da alian&#231;a demarcada pelas obras da lei, pois ele tamb&#233;m as tinha rejeitado. Portanto, Pedro a si mesmo se constituiu transgressor.</p><p>Paulo, por&#233;m, destruiu as obras da lei como marcadores &#233;tnicos do povo de Deus para nunca mais tornar reedific&#225;&#8211;las. &#8220;Porque&#8221;, diz ele, &#8220;mediante a pr&#243;pria lei, morri para a lei, a fim de viver para Deus.&#8221; (v. 19) &#8220;Estar em Cristo mediante a f&#233;&#8221;, sem as obras da lei, &#233; o que define algu&#233;m como membro do corpo de Cristo, filho de Abra&#227;o e filho de Deus, co&#8211;herdeiro com Cristo das promessas abra&#226;micas etc. &#8220;Pois se a justi&#231;a &#233; mediante a lei, segue&#8211;se que morreu Cristo em v&#227;o.&#8221; (v. 21) </p><p>Para corresponder &#224; for&#231;a da express&#227;o de Paulo &#8212; &#8220;se a justi&#231;a&#8230;&#8221; &#8212;, proponho que &#8220;estar em Cristo mediante a f&#233;&#8221;, ou &#8220;ser membro da fam&#237;lia de Deus&#8221;, ou &#8220;ser filho de Deus pela f&#233; em Jesus&#8221;, e assim por diante, equivalem a &#8220;ser justo diante de Deus&#8221;. E por que isso &#233; importante? Porque, me parece, n&#227;o devemos separar a eclesiologia da soteriologia. Em primeiro lugar, a eclesiologia em Paulo &#233; uma eclesiologia cristol&#243;gica: ser parte do povo de Deus significa ser parte do corpo de Cristo. Em segundo lugar, a soteriologia tamb&#233;m &#233; cristol&#243;gica: em Cristo os crentes s&#227;o predestinados, chamados, justificados, santificados e glorificados (Rm 8.29&#8211;30). Logo, eclesiologia e soteriologia coincidem em Paulo, pois ambas s&#227;o fundamentalmente cristol&#243;gicas. &#201; digno de nota que, nessa interpreta&#231;&#227;o, &#8220;estar em Cristo pela f&#233;&#8221; e, portanto, &#8220;ser justo diante de Deus&#8221;, &#233; um <em>status </em>forense, por assim dizer, e n&#227;o uma efus&#227;o de uma posi&#231;&#227;o ou justi&#231;a externa ao crente. Com efeito, a declara&#231;&#227;o divina de que o pecador, judeu ou gentio, faz parte da comunidade da Nova Alian&#231;a pela f&#233; em Jesus o Messias, sem as obras da lei (Wright), e a declara&#231;&#227;o divina de que o pecador, judeu ou gentio, &#233; justo diante de Deus pela f&#233; em Jesus o Messias, sem as obras da lei (Lutero), s&#227;o duas faces do mesmo evento: n&#227;o h&#225; justi&#231;a diante de Deus fora de Jesus Cristo e n&#227;o &#233; poss&#237;vel estar em Cristo pela f&#233; sem ser justo diante de Deus.</p><p>Essa minha interpreta&#231;&#227;o ficar&#225; ainda mais clara na sequ&#234;ncia, quando discutirmos a parte mais teol&#243;gica da carta aos G&#225;latas.</p><p><strong>5.2b. Se&#231;&#227;o teol&#243;gica da ep&#237;stola </strong></p><p>A cren&#231;a de Paulo de que os g&#225;latas receberam o Esp&#237;rito pela prega&#231;&#227;o da f&#233;, e n&#227;o pelas obras da lei (Gl 3.1&#8211;5), &#233; muit&#237;ssimo reveladora da sua teologia. Al&#233;m disso, a vinda do Esp&#237;rito sobre os g&#225;latas est&#225; intimamente relacionada &#224; filia&#231;&#227;o abra&#226;mica, isto &#233;, &#224; condi&#231;&#227;o de uma pessoa ser filho de Abra&#227;o e, assim, herdeiro das promessas que Deus fez ao patriarca (Gl 3.6&#8211;14). E tudo isso tem implica&#231;&#245;es significativas quanto &#224; inclus&#227;o dos gentios no povo de Deus, pois s&#227;o filhos de Abra&#227;o aqueles que t&#234;m a mesma f&#233; que teve Abra&#227;o (Rm 4); s&#227;o filhos de Abra&#227;o aqueles que t&#234;m f&#233; no &#250;nico e verdadeiro Filho de Abra&#227;o, Jesus Cristo (Gl 3.15&#8211;29). Com efeito, n&#227;o s&#227;o filhos de Abra&#227;o os que s&#227;o judeus apenas exteriormente, mas s&#227;o filhos de Abra&#227;o os que s&#227;o judeus interiormente (Rm 2.25&#8211;29). Esses, que incluem judeus e gentios fi&#233;is, s&#227;o o Israel de Deus (Gl 6.16). Com efeito, em Jesus Cristo, Deus reuniu todos os filhos de Abra&#227;o de todos os povos da terra, judeus e gentios, em um mesmo corpo, acabando de uma vez por todas com o ex&#237;lio. Isso, contudo, s&#243; foi poss&#237;vel quando o &#250;nico e verdadeiro Filho de Abra&#227;o, o herdeiro leg&#237;timo das promessas abra&#226;micas e do Esp&#237;rito Santo, veio, sofreu na cruz as maldi&#231;&#245;es da alian&#231;a, resgatou Israel de debaixo da lei e da velha era, libertando todos os filhos de Deus que, outrora, estavam debaixo da escravid&#227;o (Gl 4.1&#8212;31).</p><p>Os crist&#227;os g&#225;latas estavam se deixando levar pelo falso evangelho daqueles que exigiam deles, al&#233;m de Jesus, a circuncis&#227;o para serem considerados membros leg&#237;timos da comunidade do Messias. As perguntas de Paulo exp&#245;em o erro deles: &#8220;recebestes o Esp&#237;rito pelas obras da lei ou pela prega&#231;&#227;o da f&#233;? [&#8230;] Aquele, pois, que vos concede o Esp&#237;rito e que opera milagres entre v&#243;s, porventura, faz pelas obras da lei ou pela prega&#231;&#227;o da f&#233;?&#8221; (Gl 3.2 e 5).</p><p>Os g&#225;latas eram gentios. Portanto, incircuncisos, &#8220;separados da comunidade de Israel e estranhos aos concertos da promessa, n&#227;o tendo esperan&#231;a e sem Deus no mundo.&#8221; (Ef 2.12) Ainda assim, foram agraciados pela concretiza&#231;&#227;o das promessas de Deus referentes ao Esp&#237;rito Santo, e isso sem terem de circuncidar&#8211;se. Pedro, nos Atos dos Ap&#243;stolos, tamb&#233;m reconhece a extens&#227;o aos gentios da promessa do Esp&#237;rito (At 10.47; 11.17; 15.8). Em todos esses casos, a circuncis&#227;o nunca foi algo necess&#225;rio. Os incircuncisos recebem o Esp&#237;rito sem terem de alterar seu estado de incircuncis&#227;o, &#8220;pois nem a circuncis&#227;o &#233; coisa alguma, nem a incircuncis&#227;o, mas o ser nova criatura.&#8221; (Gl 6.15) Os g&#225;latas, por sua vez, estavam aceitando a prega&#231;&#227;o dos judaizantes referente &#224; necessidade de eles circuncidarem&#8211;se para poderem ser considerados membros do povo de Deus.</p><p>Em seguida, Paulo revela quem realmente s&#227;o os filhos de Abra&#227;o. Desde de a prega&#231;&#227;o de Jo&#227;o Batista, vemos que, entre os judeus, havia uma falsa equival&#234;ncia, que seria melhor corrigida por Paulo: o filho de Abra&#227;o &#233; equivalente ao judeu circunciso. Jo&#227;o n&#227;o p&#244;de calar&#8211;se: &#8220;Ra&#231;a de v&#237;boras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura? Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento; e n&#227;o comeceis a dizer entre v&#243;s mesmos: temos por pai a Abra&#227;o; porque eu vos afirmo que destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abra&#227;o.&#8221; (Mt 3.7&#8211;8; Lc 3.7&#8211;8) E essa equival&#234;ncia &#233; a mesma com a qual os judeus se defenderam da acusa&#231;&#227;o de Jesus (Jo 8.31&#8211;59)</p><p>Paulo rejeita essa equival&#234;ncia. Baseado no fato de que Abra&#227;o foi justificado pela f&#233;, e isso antes de ser circuncidado (Rm 4), ele conclui: &#8220;Sabei, pois, que os da f&#233; &#233; que s&#227;o filhos de Abra&#227;o.&#8221; (Gl 3.7) E foi com base nessa justi&#231;a procedente da f&#233; que coube a Abra&#227;o &#8220;a promessa de ser herdeiro do mundo&#8221; (Rm 4.13) &#8220;De modo que os da f&#233; s&#227;o aben&#231;oados com o crente Abra&#227;o.&#8221; (Gl 3.9) Como disse l&#225; em cima, em minha concep&#231;&#227;o, a eclesiologia de Paulo &#233; soteriol&#243;gica, e a sua soteriologia &#233; eclesiol&#243;gica. O fato de Abra&#227;o e os seus verdadeiros descendentes terem sido justificados pela f&#233; indica duas coisas: (i) que eles se tornaram povo de Deus, comunidade da alian&#231;a de Deus etc., e (ii) que eles se tornaram justos diante de Deus &#8212; uma justifica&#231;&#227;o forense; ou, uma justi&#231;a escatol&#243;gica e, portanto, futura, mas que j&#225; &#233; presente.</p><p>Depois disso, Paulo revela quem realmente s&#227;o os que est&#227;o debaixo da maldi&#231;&#227;o. E, evidentemente, s&#227;o aqueles que pertencem &#224;s obras da lei. &#8220;Todos quantos, pois, s&#227;o das obras da lei est&#227;o debaixo de maldi&#231;&#227;o&#8221; (Gl 3.10), comenta Paulo. O motivo &#233; que a pr&#243;pria lei declara: &#8220;Maldito todo aquele que n&#227;o permanece em todas as coisas escritas no Livro da Lei, para pratic&#225;&#8211;las.&#8221; (Gl 3.11; cf. Lv 18.5) Debaixo da Antiga Alian&#231;a, os judeus estavam igualmente debaixo das maldi&#231;&#245;es pactuais, pois eles n&#227;o foram fi&#233;is &#224;s regula&#231;&#245;es pactuais. O povo de Israel falhou como povo de Deus e foi levado para o cativeiro. </p><p>Mas &#8220;Cristo nos resgatou da maldi&#231;&#227;o da lei, fazendo&#8211;se ele pr&#243;prio maldi&#231;&#227;o em nosso lugar&#8221; (Gl 3.13). Jesus Cristo tornou&#8211;se maldi&#231;&#227;o em lugar de Israel, ou seja, Ele foi punido com as maldi&#231;&#245;es da alian&#231;a violada pelo povo de Deus. Mas n&#227;o somente isso, pois, agora, os gentios podem ser tamb&#233;m enxertados no povo de Deus e, pela f&#233; em Jesus Cristo, tornam&#8211;se filhos de Abra&#227;o e herdeiros das promessas abra&#226;micas e do Esp&#237;rito Santo. Israel como povo falhou, transgrediu a alian&#231;a e mereceu as maldi&#231;&#245;es; Jesus o Messias, o Filho de Deus e Israel em carne e osso, resgatou os eleitos das maldi&#231;&#245;es pactuais e estendeu as ben&#231;&#227;os de Abra&#227;o at&#233; os gentios. </p><p>Acredito que estes vers&#237;culos &#8212; 3.1&#8211;14 &#8212; ainda n&#227;o possuem toda a clareza dos vers&#237;culos subsequentes. Esses, sim, constituem a defesa mais did&#225;tica poss&#237;vel do evangelho de Paulo.</p><p>G&#225;latas 3.15&#8212;4.31, mas principalmente os &#250;ltimos vers&#237;culos do cap&#237;tulo 3, tratam da rela&#231;&#227;o entre Abra&#227;o e o seu &#250;nico e verdadeiro Filho, Jesus Cristo (Gl 3.16) e a doa&#231;&#227;o da lei s&#243; depois de quatrocentos e trinta anos de Abra&#227;o e o seu descendente, Jesus, terem recebido de Deus as promessas de Sua alian&#231;a (Gl 3.17). Entre Abra&#227;o e a vinda de Jesus Cristo, Deus acrescentou a lei &#224; experi&#234;ncia hist&#243;rica de Israel, e isso, Paulo explica, &#8220;por causa das transgress&#245;es, at&#233; que viesse o descendente a quem se fez a promessa&#8221; (Gl 3.17). Esse per&#237;odo de tempo entre Abra&#227;o e Cristo, que foi dominado pela lei, foi o per&#237;odo da escravid&#227;o dos filhos de Deus (Gl 4.1&#8211;3, 21&#8211;31; 5.1), do qual Cristo, vindo ao mundo, nos libertou (Gl 3.23&#8211;29; 4.4&#8211;7). </p><p>A comunidade dos eleitos de Deus, os descendentes espirituais de Abra&#227;o, experimentaram dois per&#237;odos de tempo dentro da hist&#243;ria da salva&#231;&#227;o: um antes e um depois de Cristo. Em sua experi&#234;ncia anterior &#224; vinda de Cristo, eles estavam &#8220;sob a tutela da lei e nela encerrados&#8221; (Gl 3.23); &#8220;subordinados ao aio&#8221; (Gl 3.25); em nada diferentes de escravos, &#8220;sob tutores e curadores [&#8230;] servilmente sujeitos aos rudimentos do mundo&#8221; (Gl 4.1&#8211;3), e assim por diante. Essa parece ser a mesma situa&#231;&#227;o da hist&#243;ria de Israel debaixo da lei de Mois&#233;s que Paulo desenvolve em Romanos 7.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-27" href="#footnote-27" target="_self">27</a> </p><p>Tal situa&#231;&#227;o, por&#233;m, de modo algum seria permanente, tampouco os que viviam debaixo da lei estavam aptos para herdarem as ben&#231;&#227;os de Abra&#227;o. Em primeiro lugar, porque o &#250;nico, verdadeiro e leg&#237;timo Filho e, portanto, herdeiro de Abra&#227;o, Jesus Cristo, ainda n&#227;o tinha se revelado ao mundo. Em segundo lugar, porque a lei, embora santa, justa e boa (Rm 7.12), pressionando a carne, fazia aumentar o pecado (Rm 5.20). Logo, debaixo da lei, seria imposs&#237;vel agradar a Deus, pois, sendo a lei espiritual, ela n&#227;o poderia jamais ser observada por um homem carnal (Rm 7.13&#8211;23). Uma imagem v&#237;vida dessa verdade &#233; dada por John Bunyan, cujo peregrino, ao aproximar&#8211;se do Sinai, a casa do sr. Legalidade, teme que ele ca&#237;a sobre si:</p><blockquote><p>Mas eis que, quando j&#225; se aproximava da colina, esta lhe pareceu t&#227;o alta, e, al&#233;m disso, a encosta mais pr&#243;xima do caminho pendia a tal altura, que Crist&#227;o<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-28" href="#footnote-28" target="_self">28</a>  teve medo de se aventurar mais, temendo que a colina lhe ca&#237;sse sobre a cabe&#231;a. Portanto ali ficou im&#243;vel, sem saber o que fazer. O fardo agora lhe parecia mais pesado do que quando ele seguia seu caminho. Tamb&#233;m da colina vinham lampejos de fogo, e Crist&#227;o temeu vir a ser queimado (&#202;x 19:16,18). Suava e at&#233; tremia de medo (Hb 12:21).<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-29" href="#footnote-29" target="_self">29</a></p></blockquote><p>&#8220;Vindo, por&#233;m, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que receb&#234;ssemos a ado&#231;&#227;o de filhos.&#8221; (Gl 4.4) No cap&#237;tulo anterior, Paulo descreve da seguinte forma o mesmo evento da vinda do Filho: &#8220;Mas, tendo vindo a f&#233;, j&#225; n&#227;o permanecemos subordinados ao aio. Pois todos v&#243;s s&#227;o filhos de Deus mediante a f&#233; em Jesus.&#8221; (Gl 3.25&#8211;26) Aqui, &#233; a f&#233; que se manifestou e, em sua manifesta&#231;&#227;o, a liberdade dos filhos de Deus em rela&#231;&#227;o &#224; lei. Precisamos organizar todos os dados destes textos.</p><p>Como dissemos, Deus fez as Suas promessas &#8212; dentre as quais estavam as promessas do Esp&#237;rito (Gl 3.14) e da heran&#231;a do mundo vindouro (Rm 4.13) &#8212; a Abra&#227;o e ao Filho de Abra&#227;o, o Senhor Jesus Cristo. Entre Abra&#227;o e Jesus, Deus adicionou a lei &#8220;por causa das transgress&#245;es&#8221;. Quando Ele veio &#8212; &#8220;nascido de mulher, nascido sob a lei&#8221; &#8212;, Ele resgatou os filhos de Abra&#227;o que estavam debaixo da lei. Aqui, &#8220;filhos de Abra&#227;o&#8221; parece incluir at&#233; mesmo os gentios, ainda que eles n&#227;o estivessem literalmente debaixo da lei de Mois&#233;s durante o AT. Caso contr&#225;rio, o argumento de Paulo em G&#225;latas 3&#8212;4 n&#227;o faria sentido: ele parece ver os pr&#243;prios crist&#227;os g&#225;latas &#8220;sub a tutela da lei e nela encerrados, para essa f&#233; que, de futuro, haveria de revelar&#8211;se&#8221; (Gl 3.23).</p><p>Deus, ent&#227;o, cumpriu as promessas que fez a Abra&#227;o em Jesus Cristo, o Filho de Abra&#227;o. E, agora, os que pertencem a Jesus Cristo pela f&#233;, ou os que est&#227;o em Jesus Cristo pela f&#233;, ou os que foram batizados em Jesus Cristo, revestindo&#8211;se d&#8217;Ele, tornam&#8211;se tamb&#233;m filhos de Abra&#227;o e, portanto, herdeiros das mesmas promessas (Gl 3.25&#8211;29). De modo que, porque s&#227;o filhos, Deus lhes envia o Esp&#237;rito de Seu Filho, &#8220;que clama: Aba, Pai!&#8221; (Gl 4.6) Assim, os filhos de Deus alcan&#231;am a maioridade e deixam de ser como os escravos (Gl 4.7). Assim, judeus e gentios tornam&#8211;se igualmente filhos de Abra&#227;o pela f&#233; em Cristo, constituindo o Israel espiritual (Rm 9&#8212;11), o Israel de Deus (Gl 6.16). </p><p>G&#225;latas 4.21&#8211;31 n&#227;o acrescenta muita coisa nova ao pensamento. Paulo usa as alegorias de Sara e do monte Si&#227;o, por um lado, e as de Agar e do monte Sinai, por outro, para refor&#231;ar o que ele j&#225; tinha desenvolvido: somente os que s&#227;o filhos de Abra&#227;o pela f&#233; em Cristo s&#227;o de fato livres. Os demais &#8212; que s&#227;o apenas fisicamente descendentes de Abra&#227;o por causa da circuncis&#227;o &#8212;, por ainda estarem debaixo da lei, s&#227;o escravos. A f&#233; em Jesus em Romanos 9&#8212;11, inclusive, &#233; o que torna algu&#233;m descendente de Abra&#227;o.</p><p><strong>5.2c. S&#237;ntese</strong></p><p>A conclus&#227;o da teologia de Paulo nesta ep&#237;stola n&#227;o poderia ser outra: &#8220;Dessarte, n&#227;o pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos v&#243;s sois um em Cristo Jesus.&#8221; (Gl 3.28)  E, porque s&#227;o um em Cristo Jesus, o Filho de Abra&#227;o, s&#227;o tamb&#233;m filhos de Abra&#227;o, &#8220;herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo&#8221; (Rm 8.17). Assim, judeus e gentios s&#227;o reunidos em s&#243; povo, que est&#225; debaixo de uma mesma e &#250;nica alian&#231;a, a Nova Alian&#231;a no sangue de Jesus Cristo, sendo a f&#233;, jamais a circuncis&#227;o, o marcador &#233;tnico dos filhos de Deus, dos filhos e herdeiros de Abra&#227;o. O ex&#237;lio dos povos, a triste divis&#227;o entre as na&#231;&#245;es, s&#227;o abolidas em Cristo. Em Abra&#227;o todos os povos da terra s&#227;o aben&#231;oados (Gn 12.3); os filhos de Deus espalhados por todas as na&#231;&#245;es que est&#227;o debaixo do c&#233;u s&#227;o finalmente reunidos em um s&#243; corpo, em uma mesma fam&#237;lia.</p><p>Em seu <em>Vida e Comunh&#227;o</em>, Dietrich Bonhoeffer observa que &#8220;n&#227;o &#233; &#243;bvio que a pessoa crist&#227; viva entre crist&#227;os.&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-30" href="#footnote-30" target="_self">30</a> H&#225; um sentido no qual o povo de Deus ainda est&#225; fisicamente em ex&#237;lio, mas de modo algum espiritualmente. Sim, tanto Tiago quanto Pedro escrevem para os filhos de Deus que est&#227;o na Dispers&#227;o (Tg 1.1; 1Pd 1.1). Mas Deus em Cristo j&#225; reconciliou consigo todos os eleitos, de modo que a igreja de Deus pode at&#233; estar em Roma (Rm 1.7), Corinto (1Co 1.2; 2Co 1.1), &#201;feso (Ef 1.1) ou Colossos (Cl 1.2), mas ela n&#227;o pertence a nenhum desses lugares. </p><p>O ex&#237;lio dos judeus e gentios acabou. O Novo Mois&#233;s j&#225; os tirou do Egito. N&#227;o h&#225; mais perigo de apostasia no deserto, pois o Israel em carne e osso, ao contr&#225;rio do povo de Israel, venceu as tenta&#231;&#245;es do diabo naquele lugar (Mt 4.1&#8211;11; Mc 1.12&#8211;13; Lc 4.1&#8211;13). Agora, Ele, como o Novo Josu&#233;, guiar&#225; o Seu povo rumo &#224; Cana&#227; vindoura (Hb 4.1&#8211;13). E Jo&#227;o de Patmos, em Apocalipse 7.9&#8211;17, v&#234; uma &#8220;grande multid&#227;o que ningu&#233;m podia enumerar, de todas as na&#231;&#245;es, tribos, povos e l&#237;nguas, em p&#233; diante do trono e do Cordeiro&#8221;.</p><p><em>Soli Deo Gloria</em></p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>Cristo dos Pactos. ROBERTSON, O. Palmer. Trad. Am&#233;rico J. Ribeiro. Campinas - SP: Luz Para o Caminho, 1997, p. 8.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>Para uma discuss&#227;o mais aprofundada sobre os tr&#234;s elementos que constituem uma alian&#231;a, veja ROBERTSON, pp. 7&#8211;19.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="#footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p>Estamos tratando aqui das alian&#231;as em que uma das partes &#233; o pr&#243;prio Deus. &#201; verdade, por&#233;m, que o termo podia ser empregado para se referir aos pactos em que ambas as partes eram humanos (Gn 21.27, 32; 2Sm 3.12&#8211;13).</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-4" href="#footnote-anchor-4" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">4</a><div class="footnote-content"><p>Gn 21.27, 32; 2Sm 3.12&#8211;13.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-5" href="#footnote-anchor-5" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">5</a><div class="footnote-content"><p>Gn 15.18; &#202;x 24.8; Dt 5.2; 2Cr 21.7; SI 89.3; Jr 31.31, 33; Ez 37.26.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-6" href="#footnote-anchor-6" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">6</a><div class="footnote-content"><p>Que n&#227;o &#233; bem uma rela&#231;&#227;o de alian&#231;a <em>inaugurada</em> pelo homem. Nesses casos, o que h&#225; &#233; uma renova&#231;&#227;o de uma alian&#231;a anteriormente estabelecida por Deus, e apenas por Ele, com o homem. Cf. com 2Rs 11.17; 23.3; 2Cr 29.10.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-7" href="#footnote-anchor-7" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">7</a><div class="footnote-content"><p>ROBERTSON, p. 13.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-8" href="#footnote-anchor-8" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">8</a><div class="footnote-content"><p>Veja esp. K. A. Kitchen, <em>Ancient Orient and Old Testament</em> (London: Tyndale, 1966), p. 90-102; id., <em>The Bible in its world</em> (Downers Grove: InterVarsity, 1978), p. 79-85; M. G. Kline, <em>Treaty of the great king</em> (Grand Rapids: Eerdmans, 1963); id., <em>The structure of biblical authority</em> (Grand Rapids: Eerdmans, 1972); J. A. Thompson, <em>The ancient Near Eastern treaties and the Old Testament</em> (London: Tyndale, 1964); G. J. Wenham, <em>The structure and date of Deuteronomy</em> (tese de doutorado, <em>University of London</em>, 1969), p. 182-216.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-9" href="#footnote-anchor-9" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">9</a><div class="footnote-content"><p>K. Baltzer, <em>The covenant formulary in Old Testament, Jewish, and Early Christian writings</em> (Philadelphia: Fortress, 1970); R. Frankena, <em>The vassal-treaties of Esarhaddon and the dating of Deuteronomy</em>, OTS 14 (1965): 122-54; D. R. Hillers, <em>Covenant: the history of a biblical idea (Baltimore: Johns Hopkins</em>, 1969); D. J. McCarthy, <em>Treaty and covenant</em>, AnBib 21 (Rome: <em>Pontifical Biblical Institute,</em> 1963); ibid., <em>Old Testament covenant</em> (Atlanta: John Knox, 1972); R. Smend, <em>Die Bundesformel</em>, TS 68 (Z&#252;rich: EVZ, 1963); M. Weinfeld, <em>Deuteronomy and the deuteronomic school</em> (Oxford: Clarendon, 1972).</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-10" href="#footnote-anchor-10" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">10</a><div class="footnote-content"><p><span>MENDENHALL, George E. </span><em><span>Covenant forms in Israelite tradition</span></em><span>. The Biblical Archaeologist, v. 17, n. 3, 1954, p. 50&#8211;76, especialmente p. 58&#8211;60.</span></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-11" href="#footnote-anchor-11" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">11</a><div class="footnote-content"><p>Renovada pois a alian&#231;a celebrada aqui foi originalmente estabelecida no Sinai.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-12" href="#footnote-anchor-12" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">12</a><div class="footnote-content"><p>B&#237;blia de Estudo de Genebra. 2&#170; ed. Barueri, SP : Sociedade B&#237;blica do Brasil; S&#227;o Paulo : Cultura Crist&#227;, 2009, p. 880.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-13" href="#footnote-anchor-13" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">13</a><div class="footnote-content"><p>B&#237;blia de Estudo de Genebra, p. 880.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-14" href="#footnote-anchor-14" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">14</a><div class="footnote-content"><p>ROBERTSON, O. Palmer. Coment&#225;rios do Antigo Testamento: Naum, Habacuque e Sofonias. Trad. Neuza Batista da Silva. S&#227;o Paulo: Cultura Crist&#227;, 2011, p. 13. </p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-15" href="#footnote-anchor-15" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">15</a><div class="footnote-content"><p>TASSIN, Claude. <em>Evangelio de Jesucristo seg&#250;n san Mateo</em>. Estella (Navarra): Verbo Divino, 2006, p. 7.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-16" href="#footnote-anchor-16" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">16</a><div class="footnote-content"><p>TASSIN, pp. 6&#8211;15.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-17" href="#footnote-anchor-17" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">17</a><div class="footnote-content"><p>TASSIN, pp. 16&#8211;21.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-18" href="#footnote-anchor-18" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">18</a><div class="footnote-content"><p>TASSIN, p. 10.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-19" href="#footnote-anchor-19" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">19</a><div class="footnote-content"><p>TASSIN, p. 14.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-20" href="#footnote-anchor-20" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">20</a><div class="footnote-content"><p>Para uma discuss&#227;o sobre a inaugura&#231;&#227;o da nova era da Hist&#243;ria da Salva&#231;&#227;o, veja o meu artigo: https://open.substack.com/pub/lucasdamota/p/a-inauguracao-da-nova-era-da-historia?utm_source=share&amp;utm_medium=android&amp;r=6go5mm</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-21" href="#footnote-anchor-21" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">21</a><div class="footnote-content"><p>ROBERTSON, Cristo dos pactos, p. 15.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-22" href="#footnote-anchor-22" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">22</a><div class="footnote-content"><p>ROBERTSON, <em>idem</em>.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-23" href="#footnote-anchor-23" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">23</a><div class="footnote-content"><p>Sanders achava inclusive inconsistente e contradit&#243;rio o ensinamento do pr&#243;prio Paulo sobre a lei. Veja E. P. Sanders, <em>Paul, the haw and the Jewish People</em> (Philadelphia: Fortress, 1983), p. 3-4.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-24" href="#footnote-anchor-24" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">24</a><div class="footnote-content"><p>Para uma exposi&#231;&#227;o sucinta da especificidade do pensamento de N. T. Wright sobre a quest&#227;o da justifica&#231;&#227;o e da linguagem paulina da justifica&#231;&#227;o, ver N. T. Wright, "<em>Justification: Yesterday, Today, and Forever</em>," <em>Journal of the Evangelical Theological Society</em> 54, n. 1 (2011): 49&#8211;63, esp. 54&#8211;58.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-25" href="#footnote-anchor-25" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">25</a><div class="footnote-content"><p>Para uma an&#225;lise cr&#237;tica da resignifica&#231;&#227;o da linguagem paulina de justi&#231;a operada pelas novas perspectivas, ver Douglas J. Moo, <em>Romanos: coment&#225;rio exeg&#233;tico</em>, trad. Daniel Hubert Kroker (S&#227;o Paulo: Vida Nova, 2023), ePub, &#8220;Excurso: A linguagem de justi&#231;a em Paulo&#8221;.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-26" href="#footnote-anchor-26" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">26</a><div class="footnote-content"><p>Para uma defesa de Dunn de sua interpreta&#231;&#227;o de &#964;&#940; &#8217;&#941;&#961;&#947;&#945; &#964;&#959;&#944; &#957;&#972;&#956;&#959;&#965; como marcadores &#233;tnicos, ver DUNN, James D. G. <em>A nova perspectiva sobre Paulo</em>. Tradu&#231;&#227;o de Monika Ottermann. Santo Andr&#233;, SP: Academia Crist&#227;, 2011, p. 187-215; ver tamb&#233;m Nelson Oliveira S&#225;, <em>&#8220;Obras da Lei&#8221; em G&#225;latas: um estudo a partir de James Dunn </em>(Disserta&#231;&#227;o de Mestrado em Teologia, Faculdades EST, S&#227;o Leopoldo, 2017), 77&#8211;121.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-27" href="#footnote-anchor-27" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">27</a><div class="footnote-content"><p>MOO, &#8220;7. A hist&#243;ria e a experi&#234;ncia de Israel debaixo da Lei (7.7&#8211;25)&#8221;.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-28" href="#footnote-anchor-28" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">28</a><div class="footnote-content"><p>Crist&#227;o &#233; o nome do her&#243;i de Bunyan.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-29" href="#footnote-anchor-29" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">29</a><div class="footnote-content"><p>John Bunyan, <em>O Peregrino</em>, trad. Eduardo Pereira e Ferreira (S&#227;o Paulo: Mundo Crist&#227;o, 2013.), ePub, &#8220;As armadilhas do caminho&#8221; (cap. 3).</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-30" href="#footnote-anchor-30" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">30</a><div class="footnote-content"><p>BONHOEFFER, Dietrich. <em>Vida em comunh&#227;o</em>. 3. ed. rev. S&#227;o Leopoldo: Sinodal, 1997. p. 9.</p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Duas questões de teologia especulativa ]]></title><description><![CDATA[PERGUNTA: A Segunda Pessoa da Trindade (doravante, SPT) &#233; o Filho eterno de Deus ou apenas o Filho econ&#244;mico de Deus?]]></description><link>https://lucasdamota.substack.com/p/duas-questoes-de-teologia-especulativa</link><guid isPermaLink="false">https://lucasdamota.substack.com/p/duas-questoes-de-teologia-especulativa</guid><dc:creator><![CDATA[Lucas da Motta]]></dc:creator><pubDate>Tue, 14 Jul 2026 23:27:05 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/49b5b400-ae2a-4e0e-8ae2-b8bb10327746_1600x1200.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong>PERGUNTA: A Segunda Pessoa da Trindade (</strong><em><strong>doravante</strong></em><strong>, SPT) &#233; o Filho eterno de Deus ou apenas o Filho econ&#244;mico de Deus?</strong></p><p><strong>RESPOSTA:</strong> Conv&#233;m-nos esclarecer, com o uso da raz&#227;o, as implica&#231;&#245;es da tese da filia&#231;&#227;o apenas econ&#244;mica, para, s&#243; ent&#227;o, buscar alguma luz nas Escrituras.</p><p>I. Se a SPT &#233; apenas economicamente o Filho de Deus, ent&#227;o a SPT n&#227;o &#233; intrinsecamente o Filho de Deus, mas extrinsecamente; n&#227;o essencialmente, mas acidentalmente. Se a filia&#231;&#227;o fosse apenas econ&#244;mica, n&#227;o eterna, ent&#227;o naturalmente a SPT s&#243; seria o Filho de Deus dentro do contexto da economia, mas n&#227;o dentro do contexto da eternidade. Dentro do contexto da eternidade, a SPT n&#227;o seria o Filho de Deus.</p><p>II. Se a SPT &#233; apenas economicamente o Filho de Deus, ent&#227;o a Primeira Pessoa da Trindade (<em>doravante</em>, PPT) tamb&#233;m &#233; apenas economicamente, n&#227;o eternamente, o Pai de Deus,<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a> pois, se a filia&#231;&#227;o da SPT &#233; apenas econ&#244;mica, ent&#227;o a paternidade da PPT &#233; tamb&#233;m apenas econ&#244;mica. Com efeito, a PPT n&#227;o seria intrinsecamente o Pai de Deus, mas apenas extrinsecamente, n&#227;o essencialmente, mas acidentalmente &#8212; ou seja, n&#227;o dentro do contexto da eternidade, mas apenas dentro do contexto da economia. E, assim, nem a PPT seria o Pai eterno de Deus nem a SPT seria o Filho eterno de Deus.</p><p>III. Se nem a PPT &#233; o Pai eterno de Deus nem a SPT &#233; o Filho eterno de Deus, ent&#227;o, <em>ex hypothesi</em>, a PPT poderia ser o Filho econ&#244;mico de Deus, e a SPT poderia ser o Pai econ&#244;mico de Deus. H&#225; apenas duas op&#231;&#245;es aqui:</p><p><em>a</em>. Ou h&#225; uma raz&#227;o suficiente eterna, intr&#237;nseca &#224;s Pessoas da Trindade (<em>doravante</em>, PT), que explique a conting&#234;ncia da paternidade e da filia&#231;&#227;o econ&#244;micas; ou:</p><p><em>b</em>. N&#227;o h&#225; nenhuma raz&#227;o suficiente que explique a conting&#234;ncia da paternidade e da filia&#231;&#227;o econ&#244;micas.</p><p>Nesse &#250;ltimo caso, a paternidade econ&#244;mica da PPT e a filia&#231;&#227;o econ&#244;mica da SPT n&#227;o teriam qualquer explica&#231;&#227;o ou raz&#227;o suficiente, tornando-se contingentes brutos, inexplic&#225;veis etc. Logo, &#224; pergunta &#8220;por que a PPT &#233; o Pai econ&#244;mico de Deus e a SPT &#233; o Filho econ&#244;mico&#8221; (ainda estamos trabalhando com a tese da filia&#231;&#227;o apenas econ&#244;mica) n&#227;o haveria qualquer resposta, apenas o sil&#234;ncio. Isso, no entanto, parece ser muito pouco digno da gl&#243;ria de Deus &#8211; e ainda nem sequer entramos no texto das Escrituras! Ademais, parece ser imposs&#237;vel que um fato contingente possa ser um contingente bruto, sem uma raz&#227;o suficiente que explique a sua atualidade.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a></p><p>Quanto &#224; primeira op&#231;&#227;o, se a raz&#227;o suficiente para explicar a paternidade e a filia&#231;&#227;o econ&#244;micas das PT fosse tamb&#233;m uma raz&#227;o econ&#244;mica, externa &#224;s pr&#243;prias PT, tornar-se-ia dif&#237;cil &#8212; para n&#227;o dizer imposs&#237;vel &#8212; explicar a raz&#227;o da impossibilidade da PPT ser o Filho econ&#244;mico de Deus e da PST ser o Pai econ&#244;mico de Deus. Se a raz&#227;o suficiente da conting&#234;ncia da paternidade e da filia&#231;&#227;o econ&#244;micas n&#227;o for eterna, ent&#227;o (III) n&#227;o pode ser negada. E, portanto, a PPT poderia ser o Filho econ&#244;mico de Deus, e a SPT poderia ser o Pai econ&#244;mico de Deus.</p><p>Mas, se quisermos negar (III), devemos aceitar <em>a</em>: a PPT n&#227;o pode ser o Filho eterno de Deus nem a SPT pode ser o Pai eterno de Deus porque h&#225; uma raz&#227;o suficiente intr&#237;nseca, portanto, eterna, &#224;s Pessoas trinit&#225;rias. Mas se h&#225; uma raz&#227;o suficiente intr&#237;nseca &#224;s PT e eterna, ent&#227;o, baseados nessa raz&#227;o suficiente, podemos falar tamb&#233;m em paternidade e filia&#231;&#227;o eternas, n&#227;o apenas econ&#244;micas. A raz&#227;o suficiente que explica a paternidade econ&#244;mica da PPT &#233; a raz&#227;o suficiente que explica a paternidade eterna da PPT. Isso, ao menos, n&#227;o pode ser contestado por quem aceita a tese da filia&#231;&#227;o econ&#244;mica da SPT e rejeita (III).</p><p>Assim, ou se aceita que h&#225; uma raz&#227;o suficiente eterna por detr&#225;s da Trindade econ&#244;mica ou que a Trindade econ&#244;mica n&#227;o apenas n&#227;o reflete a Trindade eterna, como tamb&#233;m &#233; um fato bruto sem qualquer raz&#227;o suficiente: a PPT n&#227;o tem nenhuma raz&#227;o suficiente para ser o Pai econ&#244;mico de Deus; Ele &#233; o Pai econ&#244;mico de Deus por nenhuma raz&#227;o. Se n&#227;o h&#225; uma raz&#227;o eterna e intr&#237;nseca &#224;s Pessoas, apenas uma raz&#227;o econ&#244;mica, ainda assim a raz&#227;o econ&#244;mica que &#233; suficiente para a PPT parece ser, em tese, tamb&#233;m suficiente para SPT. Mas, se se aceita uma raz&#227;o suficiente eterna e intr&#237;nseca &#224;s Pessoas trinit&#225;rias, raz&#227;o pela qual a PPT &#233; o Pai econ&#244;mico de Deus e a SPT &#233; o Filho econ&#244;mico de Deus, ent&#227;o n&#227;o vejo como se pode criticar a paternidade eterna e a filia&#231;&#227;o eterna das PT, pois ent&#227;o a distin&#231;&#227;o seria baseada em uma distin&#231;&#227;o objetiva entre as Pessoas trinit&#225;rias. Lembre-nos que ainda estamos trabalhando dentro da tese da filia&#231;&#227;o apenas econ&#244;mica.</p><p>IV. Al&#233;m dos mais, se a PPT e a SPT s&#227;o apenas economicamente Pai de Deus e Filho de Deus, respectivamente, temos, ent&#227;o, mais duas op&#231;&#245;es para considerar:</p><p><em>c</em>. Ou a Trindade <em>ab intra</em> &#8212; a Trindade tal como &#233; em Si mesma e para Si mesma, sem a cria&#231;&#227;o &#8212; n&#227;o tem um rosto &#8212; para ser mais exato, ou as Pessoas da Trindade <em>ab intra</em> simplesmente n&#227;o t&#234;m rostos eternos, isto &#233;, personalidades/personas para al&#233;m da pessoalidade/pessoa;</p><p><em>d</em>. Ou as Pessoas da Trindade <em>ab intra</em> t&#234;m rostos eternos que, no entanto, n&#227;o foram revelados na economia.</p><p>Quando falo em &#8220;rostos eternos&#8221;, conv&#233;m explicar que n&#227;o estou tratando de rostos f&#237;sicos, como se Deus tivesse um corpo. Estou tratando da personalidade/persona de uma pessoalidade/pessoa.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a> Dentro da tese da filia&#231;&#227;o tamb&#233;m eterna, n&#227;o s&#243; econ&#244;mica, a filia&#231;&#227;o ou a qualidade da PST ser o &#8220;Filho de Deus&#8221; &#233; o rosto eterno da PST, assim como a paternidade ou a qualidade da PPT ser o &#8220;Pai de Deus&#8221; &#233; o rosto eterno da PPT.</p><p>Logo, aquelas duas op&#231;&#245;es dizem, respectivamente, que (i) as Pessoas trinit&#225;rias n&#227;o t&#234;m rostos eternos, sendo Pessoas sem persona, pessoalidade sem personalidade, e que (ii) as Pessoas trinit&#225;rias t&#234;m sim rostos eternos, mas que n&#227;o podemos ter qualquer apreens&#227;o deles. Essa segunda op&#231;&#227;o nega que &#8220;ser o Filho de Deus&#8221; seja o rosto eterno da SPT. Ela tem um rosto eterno, mas n&#227;o &#233; aquele revelado na economia, que n&#227;o passa de uma m&#225;scara &#8212; n&#227;o um rosto, de fato. Assim, h&#225; uma raz&#227;o suficiente que &#233; eterna e intr&#237;nseca &#224;s Pessoas trinit&#225;rias, motivo pelo qual elas t&#234;m rostos eternos distintos, ainda que n&#227;o economicamente revelados. N&#227;o se sabe qual seja essa raz&#227;o suficiente, n&#227;o se sabe o porqu&#234; dos rostos trinit&#225;rios n&#227;o ter sido revelados na economia, mas afirma-se todas essas coisas.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-4" href="#footnote-4" target="_self">4</a> H&#225; mais desespero e uma vontade obsessiva de negar o dogma da igreja do que de fato busca pela verdade. Com efeito, podemos rejeitar essa op&#231;&#227;o como mera manifesta&#231;&#227;o de um desejo por inova&#231;&#227;o, incapaz de aceitar a verdade crida pela igreja crist&#227;.</p><p>A primeira op&#231;&#227;o &#233; muito pior que a segunda, pois dissolve toda personalidade das Pessoas divinas, restando apenas tr&#234;s Pessoas essencialmente despersonalizadas, tr&#234;s Pessoas sem rostos. H&#225; muitos problemas com essa tese, o primeiro dos quais &#233; a dificuldade de se diferenciar as Pessoas entre Si quando elas n&#227;o apresentam nenhuma diferen&#231;a que n&#227;o a mera quantidade. Al&#233;m disso, pressup&#245;em ser poss&#237;vel distinguir pessoa de persona, o que ainda precisa ser demonstrado no caso de Deus. Logo, essa alternativa &#233; muito mais bizarra do que a primeira, pois pelo menos a primeira nos oferece uma Trindade com um rosto, enquanto que essa nos apresenta um Deus sem qualquer rosto. E, como afirma o Salmo segundo, deve-se beijar o rosto do Filho para que o Pai n&#227;o se irrite.</p><p>N&#227;o! Baseado em todas essas implica&#231;&#245;es que surgem a partir da tese da filia&#231;&#227;o apenas econ&#244;mica, conv&#233;m-nos preferir racionalmente a doutrina de que as Pessoas da Trindade eterna possuem, cada qual, um rosto eterno particular, que nos &#233; dado a conhecer em Sua autorevela&#231;&#227;o na economia. Assim, o rosto eterno do Pai &#233; o Seu &#8220;gerar eternamente o Filho e d&#8217;Ele ser Pai&#8221;; do Filho, o Seu &#8220;ser gerado eternamente do Pai e d&#8217;Ele ser Filho&#8221;; do Esp&#237;rito, o Seu &#8220;proceder eternamente do Pai atrav&#233;s do Filho e d&#8217;Eles ser o Esp&#237;rito&#8221;.</p><p>Esta &#233; a an&#225;lise racional que podemos fazer, evidentemente n&#227;o sem a ajuda da Palavra de Deus, o &#250;nico padr&#227;o de f&#233; e obras. A quest&#227;o que nos propomos &#233;, me parece, resolvida assim que soubermos o conte&#250;do das Escrituras a respeito. Vale observar que as Escrituras n&#227;o foram escritas para nos fornecer uma dogm&#225;tica. Assim, n&#227;o podemos esperar que vamos encintrar nelas uma afirma&#231;&#227;o clara e objetiva que possa responder a nossa quest&#227;o. Boa parte de seu conte&#250;do relevante para a nossa discuss&#227;o &#8211; os materiais do Novo Testamento (<em>doravante</em>, NT), dentre eles as ep&#237;stolas paulinas &#8211; foram escritos em situa&#231;&#245;es concretas para responder &#224; necessidades concretas, e n&#227;o para sanar a curiosidade de te&#243;logos e fil&#243;sofos.</p><p>Parece claro no NT que o messianismo crist&#227;o estava intimamente ligado &#224; teologia da Palavra de Deus como o agente da cria&#231;&#227;o. Embora haja quem leia Jo&#227;o 1 a partir da filosofia da <em>physis</em> do per&#237;odo pr&#233;-socr&#225;tico do pensamento grego, parece melhor enquadr&#225;-lo contra a tradi&#231;&#227;o judaica que remonta at&#233; Prov&#233;rbios 8. Em algumas partes do Antigo Testamento, &#233; dito abertamente que Deus criou o mundo com muita sabedoria (Pv 3.19&#8211;23) e, em G&#234;nesis 1, que Deus criou o mundo atrav&#233;s de Sua Palavra soberana. Em Jo&#227;o 1.14, essa Palavra se torna carne e vem armar a Sua tenda entre n&#243;s, a quem o ap&#243;stolo chama de o &#8220;Unig&#234;nito do Pai, cheio de gra&#231;a e de verdade.&#8221; Assim, o Messias, que era Filho de Deus, dentro da tradi&#231;&#227;o judaica, apenas em um sentido econ&#244;mico, no NT torna-se o Messias Filho de Deus que pr&#233;-existe &#224; Sua encarna&#231;&#227;o como Messias, sendo o Logos eterno por meio de quem Deus criou todas as coisas e atrav&#233;s de quem todas as coisas permanecem no ser.</p><p>Isso &#233; t&#227;o verdadeiro que a linguagem do NT quanto &#224; encarna&#231;&#227;o do Verbo &#233; que Deus enviou o Seu Filho ao mundo (Jo 3.16); o Filho veio da descend&#234;ncia de Davi segundo a carne (Rm 1.3); vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou o Seu Filho (Gl 4.4); o Pai criou todas as coisas no Filho, sendo Ele antes de todas as coisas, por meio de quem tudo subsiste (Cl 1.13&#8211;17); Deus constitui o Filho como herdeiro de tudo, por meio de quem Ele criou o mundo, sendo que o Filho sustenta todas as coisas pela palavra do Seu poder (Hb 1.2,3); o Filho de Deus se manifestou para destruir as obras do diabo (1Jo 3.8), e assim por diante. A rela&#231;&#227;o eterna entre o Pai e o Filho &#233; t&#227;o nuclear no NT que Deus passou a ser redefinido como &#8220;o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo&#8221;, que teve Seu sangue derramado antes mesmo de haver mundo (1Pd 1.20).</p><p>N&#227;o h&#225;, portanto, no NT, qualquer ind&#237;cio de que o Verbo de Deus foi adotado por Ele em algum momento de Seu minist&#233;rio terreno. Ele, subsistindo eternamente como Filho de Deus, foi enviado ao mundo &#8212; n&#227;o &#233; precisamente isso que ensina a par&#225;bola dos lavradores maus (Mt 21.33&#8211;46; Mc 12.1&#8211;12; Lc 20.9&#8211;19)? Assim, a doutrina da eterna filia&#231;&#227;o do Logos &#233; ensinada e implicada de muitos lugares do NT. Dele tamb&#233;m d&#225; testemunho o Credo Niceno: &#8220;[&#8230;] o unig&#234;nito Filho de Deus, gerado pelo Pai antes de todos os s&#233;culos, Deus de Deus, Luz da Luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado n&#227;o criado, consubstancial ao Pai [&#8230;]&#8221;.</p><p><strong>PERGUNTA: O que significa dizer que o Esp&#237;rito Santo procede eternamente do Pai </strong><em><strong>per Filium</strong></em><strong>?</strong></p><p><strong>RESPOSTA:</strong></p><p>I. &#201; sabido haver uma disputa hist&#243;rica entre os te&#243;logos ocidentais e orientais quanto &#224; quest&#227;o do <em>Filioque</em> (lit. &#8220;e do Filho&#8221;), que &#233; uma cl&#225;usula acrescentada pela tradi&#231;&#227;o ocidental ao Credo Niceno-Constantinopolitano (325/381) dentro do contexto da process&#227;o do Esp&#237;rito Santo a partir do Pai. Com efeito, tem-se a f&#243;rmula &#8220;[cremos] no Esp&#237;rito Santo, Senhor e Vivificador, que procede do Pai <em>e do Filho</em> [&#8230;]&#8221;. A tradi&#231;&#227;o oriental, por sua vez, parece preservar a vers&#227;o mais antiga do Credo, na qual o Esp&#237;rito Santo procede apenas do Pai, o que &#233; bem caro para os ortodoxos e sua famosa &#234;nfase na &#8220;Monarquia&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-5" href="#footnote-5" target="_self">5</a> paterna dentro da Trindade Sant&#237;ssima. Assim, segundo essa vers&#227;o do Credo, o Pai tanto gerou eternamente o Filho quanto d&#8217;Ele (ainda do Pai) o Esp&#237;rito Santo procede eternamente, e s&#243; d&#8217;Ele, imediatamente etc. A controv&#233;rsia relacionada ao <em>Filioque</em> foi tal que acabou por causa o Cisma de 1054, que dividiu as Igrejas Cat&#243;lica e Ortodoxa at&#233; os dias de hoje.</p><p>II. Devemos considerar a quest&#227;o, como fizemos no problema teol&#243;gico n.&#176;1, a partir da economia e, dessa, se poss&#237;vel for, para a eternidade. Ou seja, devemos considerar a Trindade econ&#244;mica, <em>ab extra</em>, e Suas poss&#237;veis implica&#231;&#245;es quanto &#224; Trindade eterna, <em>ab intra</em>. Para tanto, assumo a primeira metade da regra de Karl Rahner: &#8220;a Trindade econ&#244;mica &#233; a Trindade imanente&#8221;.</p><p>III. No que diz respeito &#224; Trindade econ&#244;mica, diria que a quest&#227;o da miss&#227;o (n&#227;o process&#227;o eterna) do Esp&#237;rito &#233; bem clara. Durante o batismo de Jesus, o Esp&#237;rito Santo, enviado do Pai, desce sobre Cristo (Mt 3.16; Mc 1.10; Lc 3.22; Jo 1.32), enchendo-o<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-6" href="#footnote-6" target="_self">6</a> a ponto de gui&#225;-Lo em Seu minist&#233;rio de prega&#231;&#227;o, exorcismo e cura (Mt 4.1; Mc 1.12; Lc 4.1). Ora, no Antigo Testamento, tanto os reis de Israel, principalmente Davi (1Sm 16.13; 2Sm 23.2; Sl 51.11), quanto os profetas, s&#227;o possu&#237;dos pelo Esp&#237;rito de Deus para a realiza&#231;&#227;o de seus of&#237;cios especiais. Os profetas s&#227;o mais relevantes para a nossa quest&#227;o do que os reis da linhagem dav&#237;dica, pois, guiados pelo Esp&#237;rito de Deus (2Pd 1.21), eles eram a boca atrav&#233;s da qual Deus falava e se revelava ao Seu povo (&#202;x 4.16; Hb 1.1). Tanto &#233; assim que, em Am&#243;s 3.7, Deus declara que nada faria sem antes comunicar aos Seus servos, os profetas. De modo que os profetas de Israel eram o <em>locus</em> da autocomunica&#231;&#227;o de Deus no Antigo Testamento e, por serem-no, eles eram tamb&#233;m cheios do Esp&#237;rito, que &#8220;penetra todas as coisas, at&#233; as profundezas de Deus.&#8221; (1Co 2.10&#8211;16). N&#227;o h&#225; minist&#233;rio prof&#233;tico, que &#233; essencialmente relevat&#243;rio, &#224; parte da un&#231;&#227;o do Esp&#237;rito. Isso &#233; &#243;bvio. No Juda&#237;smo apocal&#237;ptico &#8211; e, aqui, uso como refer&#234;ncia a Teologia do Novo Testamento de Joachim Jeremias e o artigo <em>The Kingdom of God: Reign or Realm</em>, de George Eldon Ladd &#8211;, ap&#243;s a morte do &#250;ltimo profeta do Antigo Testamento, o Esp&#237;rito se calou e Deus, consequentemente, abandonou a este mundo. A aus&#234;ncia do Esp&#237;rito nesta era (<em>&#233;on</em>) &#233; a aus&#234;ncia do pr&#243;prio Deus e uma evid&#234;ncia de que ela est&#225; condenada. Haver&#225;, ent&#227;o, um dia em que Deus, como um rei glorioso, invadir&#225; esta era m&#225;, dando-lhe um fim definitivo e inaugurando &#8220;a nova cria&#231;&#227;o&#8221;, a nova era do Esp&#237;rito, em que o conhecimento da gl&#243;ria do Senhor encher&#225; o mundo, &#8220;como as &#225;guas cobrem o mar&#8221; (Is 11.9; Hb 2.14). O Esp&#237;rito, ent&#227;o, voltar&#225; a atuar entre os homens, cessando o Seu per&#237;odo de sil&#234;ncio escatol&#243;gico para nunca mais calar-se. Talvez seja dentro deste contexto hist&#243;rico-teol&#243;gico que o testemunho de Jo&#227;o deve ser entendido: &#8220;eu vi o Esp&#237;rito descer do c&#233;u como uma pomba e repousar sobre ele.&#8221; (Jo 1.32). O Esp&#237;rito voltou a falar, depois de ter permanecido em sil&#234;ncio durante anos! Deus finalmente tinha entrado na hist&#243;ria, voltando a agir dentro dela redentivamente, para cumprir os Seus prop&#243;sitos de salva&#231;&#227;o! A nova cria&#231;&#227;o estava sendo inaugurada! A afirma&#231;&#227;o do Novo Testamento n&#227;o &#233; que Jesus era mais um profeta dentro da longa cadeia de profetas de Israel; os escritores dos evangelhos afirmam que, agora &#8211; no &#8220;agora&#8221; escatol&#243;gico dos tempos &#8211;, o Esp&#237;rito Santo encheu Algu&#233;m como nunca tinha feito antes, como se Ele (o Esp&#237;rito) estivesse, desde agora e para sempre, todo em Jesus o Messias, o que &#233; a mesma ideia em Hebreus 1.1. O cap&#237;tulo 2 dos Atos dos Ap&#243;stolos deve ser enquadrado dentro desse contexto, de Jesus sendo inteiramente possu&#237;do pelo Esp&#237;rito de Deus &#8212; de toda a plenitude da divindade estar habitando corporalmente n&#8217;Ele (Cl 2.9). Em posse do Esp&#237;rito Divino, o Messias ressurreto p&#244;de cumprir a profecia de Joel 2.28&#8211;32, e, assim, Ele derramou d&#8217;Aquele Esp&#237;rito sobre os Seus ap&#243;stolos, de modo que ficaram cheios do Esp&#237;rito (At 2.1&#8211;4).</p><p>IV. Vemos aqui, ent&#227;o, a miss&#227;o econ&#244;mica do Esp&#237;rito Santo: o Esp&#237;rito de Deus procede de Deus Pai atrav&#233;s do Filho (<em>per Filium</em>). Deus derramou o Seu Esp&#237;rito sobre o Messias em Seu batismo, que O possuiu inteira e completamente de modo a poder, Ele pr&#243;prio, derram&#225;-Lo sobre os Seus ap&#243;stolos no dia de Pentecostes. Nessa miss&#227;o econ&#244;mica, por&#233;m, o Esp&#237;rito n&#227;o procede do Pai e do Filho como se fossem um s&#243; princ&#237;pio, tampouco procede do Pai sem ter quase nenhuma rela&#231;&#227;o com o Filho. Nessa tese, o Esp&#237;rito procede do Pai e do Pai somente &#8211; donde se preserva a Monarquia paterna &#8211;, mas n&#227;o imediatamente, e sim mediatamente, isto &#233;, por meio do Filho. Porque h&#225;, anteriormente &#224; miss&#227;o econ&#244;mica, uma esp&#233;cie de <em>pericorese econ&#244;mica</em>, que &#233; justamente o relacionamento interpenetrado da Trindade no desenrolar do plano da salva&#231;&#227;o. Isso &#233; particularmente claro para mim: &#233; dito, no Novo Testamento, que o Pai criou o mundo &#8220;no Filho&#8221; (ou, atrav&#233;s do Filho) (Jo 1.3,10; Cl 1.16,17; Hb 1.2,3), que o Pai nos predestinou no Filho (Rm 8.29; Ef 1.4,5), que o Pai se revelou mais clara e perfeitamente no Filho (Jo 1.14,17,18; 10.30; 14.8&#8211;9; 2Co 4.6; Cl 1.15; Hb 1.2,3), que o Pai est&#225; agora reinando atrav&#233;s do Filho (Mt 4.17; 12.28; Mc 1.15; Lc 11.20; 17.21; 1Co 15.25&#8211;28; Fp 2.11), e assim por diante. N&#227;o apenas o que Deus faz, Ele o faz no Filho &#8212; no contexto do Novo Testamento &#8212;, como tamb&#233;m o que Deus &#233;, Ele o &#233; no Filho (e o Filho, n&#8217;Ele), de modo que o &#8220;conceito&#8221; judaico de Deus &#233; redefinido no Novo Testamento a partir de Cristo, para incluir a pr&#243;pria pessoa de Jesus (1Co 8.6): agora, Deus &#233; o Pai do nosso Senhor Jesus Cristo. Est&#225; a&#237; aquela interpenetra&#231;&#227;o da Trindade no plano da reden&#231;&#227;o: o Pai est&#225; completa e inteiramente interpenetrado &#8212; habitando &#8212; no Filho e o Filho, no Pai, mesmo no desenrolar da obra de repara&#231;&#227;o. N&#227;o nos esque&#231;amos que Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo (2Co 5.19). Assim, a miss&#227;o econ&#244;mica do Esp&#237;rito tamb&#233;m &#233; uma <em>miss&#227;o pericor&#233;tica</em>: o Esp&#237;rito procede do Pai <em>pericoreticamente</em> no Filho &#8212; dentro ainda da economia. Essa &#233; a parte econ&#244;mica da minha tese sobre o <em>per Filium</em>: que o Esp&#237;rito &#233; enviado pelo Pai, que &#233; o &#250;nico princ&#237;pio da miss&#227;o, mas de modo pericor&#233;tico no Filho.</p><p>V. O segundo passo l&#243;gico da minha argumenta&#231;&#227;o seria defender que a Trindade econ&#244;mica, particularmente sobre essa quest&#227;o da miss&#227;o pneum&#225;tica, revela de fato o relacionamento da Trindade eterna. Devemos ser cuidadosos no trato da rela&#231;&#227;o entre a Trindade eterna e a Trindade econ&#244;mica, de modo que, para quase qualquer coisa que possamos falar sobre a &#250;ltima, devemos demonstrar que podemos fazer o mesmo com a primeira. N&#227;o podemos, por&#233;m, exagerar a distin&#231;&#227;o a ponto de cairmos em um kantismo trinit&#225;rio, implicando haver as mesmas categorias do n&#250;meno e do fen&#244;meno no caso de Deus. Tampouco podemos fazer como Parm&#234;nides e Plat&#227;o e negar, como o primeiro, a objetividade da hist&#243;ria e seu devir, e concentrar, como o segundo, toda a realidade em um mundo das ideias distante deste mundo de ilus&#245;es. Ao mesmo tempo, n&#227;o podemos simplesmente dissolver as distin&#231;&#245;es entre Deus tal como &#233; em Si e para Si mesmo e Deus tal como &#233; para n&#243;s. O equil&#237;brio aqui &#233; a mais importante das virtudes.</p><p>VI. Ainda que nem tudo na economia venha da eternidade, o Esp&#237;rito, que &#233; o Esp&#237;rito econ&#244;mico de Deus, deve ser o Esp&#237;rito eterno de Deus. E, aqui, voltamos &#224; discuss&#227;o a respeito dos &#8220;rostos eternos&#8221; da Trindade, que tratamos em outro lugar. Irei pressupor algumas coisas que disse no problema anterior. Sabemos que o rosto eterno do Pai [rosto = personalidade da pessoalidade divina] &#233; justamente o &#8220;ser Pai de Deus&#8221; e que o rosto eterno do Filho &#233; o &#8220;ser Filho de Deus&#8221;. Tanto no Antigo quanto &#8212; mais claramente ainda &#8212; no Novo Testamento, o Esp&#237;rito n&#227;o parece ser apenas <em>funcionalmente</em> o Esp&#237;rito de Deus. Paulo, em 1 Cor&#237;ntios 2.10 e 11, compara o Esp&#237;rito de Deus com o esp&#237;rito do homem: da mesma forma que o homem tem um esp&#237;rito, que conhece &#8220;as coisas do homem&#8221;, Deus tem um Esp&#237;rito, que &#8220;conhece as coisas de Deus&#8221;. O Esp&#237;rito aqui n&#227;o &#233; funcional e apenas economicamente Esp&#237;rito de Deus, mas, de fato, O Esp&#237;rito de Deus. Ou seja, o Esp&#237;rito &#233; o Esp&#237;rito eterno de Deus, da mesma forma que o Filho &#233; o Filho eterno de Deus, e o Pai &#233; o Pai eterno de Deus. Em segundo lugar, aquela pericorese econ&#244;mica, submetida ao tempo e &#224; hist&#243;ria, &#233; tamb&#233;m eterna, o que &#233; bem evidente se se considera que as Pessoas da Trindade s&#227;o justamente isto: Pessoas, Pessoas eternas e, portanto, em um relacionamento pessoal eterno, interpenetrado atrav&#233;s do amor de cada qual pelo outro. Como disse ao longo do texto, Deus, no Novo Testamento, passa a ser entendido em termos cristol&#243;gicos: Ele &#233; o Pai do nosso Senhor Jesus Cristo, e o nosso Senhor Jesus Cristo &#233; o Filho de Deus, e um e outro habitam um no outro, em uma interpenetra&#231;&#227;o e comunh&#227;o eternas. E &#233; &#243;bvio tamb&#233;m que o Esp&#237;rito, que &#233; o Esp&#237;rito eterno de Deus Pai, n&#227;o pode estar fora dessa comunh&#227;o entre o Pai e o Filho, n&#227;o sendo Ele, por&#233;m, Esp&#237;rito do Filho, mas do Pai. Deus Pai tem tanto um Esp&#237;rito, que &#233; Deus, quanto um Filho, que &#233; Deus, mas nem o Esp&#237;rito tem um Pai ou um Filho nem o Filho tem um Esp&#237;rito. E, no entanto, pelo fato do Pai estar em um relacionamento de amor pericor&#233;tico com o Filho, o Esp&#237;rito, que &#233; d&#8217;Ele, n&#227;o escapa desse relacionamento. Com efeito, o Pai gerou eternamente o Filho e tem eternamente um Esp&#237;rito no Filho, pois o que Deus &#233;, Ele o &#233; no Filho, e o Deus tem, que &#233; o Seu Esp&#237;rito Santo, Ele O tem no Filho, e tudo o que o Pai tem, o Filho tem. Logo, o Esp&#237;rito procede eternamente do Pai, e somente do Pai, mas tamb&#233;m eternamente no Filho, e somente no Filho. Com isso, no entanto, n&#227;o se diminui a divindade de nenhuma Pessoa trinit&#225;ria, pois o Esp&#237;rito, procedendo de Deus Pai <em>per Filium</em>, &#233; o Verdadeiro Deus e a Vida Eterna. Am&#233;m!</p><p><em>Soli Deo Gloria</em></p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>Pai de Deus, claro, pois a Primeira Pessoa da Trindade &#233; o Pai da Segunda Pessoa da Trindade, que &#233; Deus. Se, portanto, Maria &#233; digna de ser chamada m&#227;e de Deus &#8212; pois Jesus Cristo &#233; verdadeiramente Deus &#8212;, mais ainda a PPT.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>Logo, estou pressupondo uma vers&#227;o forte do princ&#237;pio leibniziano da raz&#227;o suficiente.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="#footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p>Que tamb&#233;m n&#227;o podem ser descoladas uma da outra. </p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-4" href="#footnote-anchor-4" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">4</a><div class="footnote-content"><p>Ao contr&#225;rio do que parece ser o caso. Assumo aqui a primeira metade da regra de Karl Rahner: &#8220;a Trindade econ&#244;mica &#233; a Trindade imanente&#8221;.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-5" href="#footnote-anchor-5" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">5</a><div class="footnote-content"><p>&#8220;Monarquia&#8221;, aqui, significa literalmente &#8220;um s&#243; princ&#237;pio&#8221; (<em>monarkh&#237;a</em>, de &#956;&#972;&#957;&#959;&#962;, "um/singular," e &#7936;&#961;&#967;&#969;&#957;, "l&#237;der/chefe/princ&#237;pio&#8221;). Com o termo, os te&#243;logos estabelecem que o Pai &#233; o &#250;nico princ&#237;pio tanto da filia&#231;&#227;o do Filho quanto da process&#227;o do Esp&#237;rito, a origem da divindade etc.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-6" href="#footnote-anchor-6" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">6</a><div class="footnote-content"><p>Em Marcos, o Esp&#237;rito possui a Jesus Cristo.</p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Quando você é jovem, tudo faz sentido porque você é burro]]></title><description><![CDATA[E outras reflex&#245;es]]></description><link>https://lucasdamota.substack.com/p/quando-voce-e-jovem-tudo-faz-sentido</link><guid isPermaLink="false">https://lucasdamota.substack.com/p/quando-voce-e-jovem-tudo-faz-sentido</guid><dc:creator><![CDATA[Lucas da Motta]]></dc:creator><pubDate>Mon, 06 Jul 2026 20:41:14 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/53a11a94-4228-48f7-9931-9a7abcdea51e_1280x720.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>1. &#201; algo realmente assustador como somos capazes de dizer as maiores atrocidades do mundo ao mesmo tempo em que cremos ter raz&#227;o ou mesmo que compreendemos o assunto sobre o qual estamos discursando. Escrevi um conjunto de textos que, &#224; &#233;poca, achei ser a ess&#234;ncia do que constitui a genialidade e, naturalmente, tive a mais forte impress&#227;o de que entendia daquelas coisas. Pobre de mim! Reli-os hoje mesmo. E qual n&#227;o foi a vergonha que me dominou quando me caiu a ficha de que minha ignor&#226;ncia era maior que a minha arrog&#226;ncia! Aqueles textos &#8212; &#233; at&#233; um ato de puro desaforo com outros que merecem esse t&#237;tulo cham&#225;-los assim &#8212; n&#227;o servem para muita coisa: s&#227;o, em sua totalidade, in&#250;teis e uma express&#227;o v&#237;vida do que &#233; capaz a imaturidade quando incentivada. Decidi, portanto, permanecer calado quando nada tiver a dizer. Desse modo, talvez passe menos por situa&#231;&#245;es desconfort&#225;veis no futuro.</p><p>2. A for&#231;a das suas convic&#231;&#245;es parece ser inversamente proporcional ao tanto que voc&#234; sabe. Quanto menos voc&#234; conhece sobre algo, mais seguro estar&#225; de suas afirma&#231;&#245;es e menos conseguir&#225; entender como as demais pessoas podem ousar n&#227;o lev&#225;-lo a s&#233;rio ou simplesmente n&#227;o se convencer de suas opini&#245;es.</p><p>3. O texto daquele que sabe &#233; livre. Na verdade, aquele que sabe goza da liberdade de poder escrever do jeito que bem entender sobre aquilo que conhece: ele n&#227;o precisa de muletas, isto &#233;, de clich&#234;s, palavras e frases batidas. Talvez seja uma implica&#231;&#227;o disso o fato de que os verdadeiros conhecedores e s&#225;bios n&#227;o parecem ser perfeccionistas em sua maneira de expressar as pr&#243;prias opini&#245;es. Pouco importa para eles a apar&#234;ncia e a est&#233;tica dos seus textos. Um perfeccionista, no entanto, quer uma exposi&#231;&#227;o toda numerada, com uma classifica&#231;&#227;o sistem&#225;tica do que nela &#233; tese e argumento. Talvez eu esteja sendo um pouco duro com essa esp&#233;cie de gente, na qual certamente me incluo. Mas, por experi&#234;ncia pr&#243;pria, j&#225; me submeti &#8212; e isso por um bom tempo &#8212; &#224; tirania da forma perfeita, o que resultou apenas em quase negligenciar por completo o conte&#250;do ou, quando n&#227;o, em distorc&#234;-lo. O perfeccionista n&#227;o consegue lan&#231;ar um olhar geral sobre a floresta que est&#225; bem &#224; sua frente, reduzindo o escopo de sua vis&#227;o para, qui&#231;&#225;, ver uma &#250;nica &#225;rvore solit&#225;ria.</p><p>4. Como ia dizendo antes de me perder no caminho dos pensamentos, o s&#225;bio &#8212; aquele que conhece o porqu&#234; das coisas, em sentido bem aristot&#233;lico &#8212; &#233; livre quanto ao modo pelo qual discute as coisas que est&#227;o debaixo do seu senhorio, do seu dom&#237;nio. Ele n&#227;o precisa ir como que tateando num quarto escuro, chegando &#224; porta de sa&#237;da &#224;s apalpadelas indignas; ele n&#227;o treme enquanto caminha, mas caminha com uma desenvoltura digna de um anjo, com passos leves e elegantes, sem grosserias, sem dureza. Ele sabe exatamente quais s&#227;o as palavras capazes de comunicar aquela nuance ultrasspec&#237;fica, nuance que, antes de ser ideia, foi algo parecido com um sentimento, uma intui&#231;&#227;o sutil e, paradoxalmente, forte em sua alma. O s&#225;bio nunca &#233; ref&#233;m da linguagem pronta, j&#225; petrificada pelo uso. Ao contr&#225;rio, &#233; ele quem expande os horizontes de um idioma e, desse modo, os horizontes da pr&#243;pria imagina&#231;&#227;o das pessoas. Ele &#233; o centro da consci&#234;ncia de um povo, a cabe&#231;a cujo corpo &#233; o povo. Enquanto conduzia os atenienses em dire&#231;&#227;o &#224; virtude e para longe dos v&#237;cios, S&#243;crates era o timoneiro que, por meio de um pequeno leme, conduzia a embarca&#231;&#227;o de Atenas com seguran&#231;a e muita destreza. Morto, por&#233;m, j&#225; n&#227;o havia quem lembrasse &#224; multid&#227;o seus deveres e que ela daria contas de seus atos, cedo ou tarde. N&#227;o foi &#224; toa que recaiu sobre eles &#8212; eles que fizeram o fil&#243;sofo tomar a cicuta &#8212; o mau vatic&#237;nio de S&#243;crates, como se pode ler no final da sua Apologia. Outra caracter&#237;stica do s&#225;bio, e que S&#243;crates foi um dos primeiros a viver concretamente, &#233; que ele, por um senso de dever divino, por assim dizer, coloca-se como mestre de toda uma comunidade, em rela&#231;&#227;o &#224; qual aquele povo tem a obriga&#231;&#227;o irrecus&#225;vel de manter sempre os ouvidos bem abertos. A sua sabedoria diz respeito a eles, interessa-lhes mais do que a ningu&#233;m, e a eles ser&#225; imputada a culpa caso venham a negligenciar o que ele tem a dizer, podendo, inclusive, ser castigados pela hist&#243;ria, como aconteceu com os atenienses.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Teu pai já morto e tua mãe defunta ]]></title><description><![CDATA[Ao p&#244;r do sol daquele dia escuro, Em choro achei-me, em l&#225;grimas, banhado, Pois nada concebia em meu futuro, Porque na morte estava o meu passado; E o firmamento em &#225;guas se afogou, Seu l&#237;quido em meu sangue misturado; Foi quando um vento frio me cercou, Que me rondava desde o lado norte, E pelos meus cabelos me levou Para um lugar de dor, e choro, e morte. Cheguei depressa numa tumba aberta, Pairando ao ar, o vento, meu suporte. Em todo o canto pus o meu alerta, Tamanho o medo que me dominava, Que at&#233; agora o peito meu aperta. Daquela noite o breu, que me cercava, As nuvens escondia l&#225; no alto, Tapava o brilho, o &#233;ter me deixava. E, de repente, ali, como um assalto, Ouvi detr&#225;s de mim grunhida voz, Que para si chamava o tolo, incauto, E o vento, que j&#225; era meu algoz, Virou-me todo o corpo dominado, Fazendo&#8211;me tremer de medo ap&#243;s; E, mesmo que estivesse acorrentado, Suplico que me deixe, sem sucesso, Qual S&#237;sifo ao rochedo seu ligado, Que mesmo tendo feito algum progresso, Retorna pro lugar que come&#231;ou: Oh c&#233;us!]]></description><link>https://lucasdamota.substack.com/p/teu-pai-ja-morto-e-tua-mae-defunta</link><guid isPermaLink="false">https://lucasdamota.substack.com/p/teu-pai-ja-morto-e-tua-mae-defunta</guid><dc:creator><![CDATA[Lucas da Motta]]></dc:creator><pubDate>Mon, 29 Jun 2026 12:38:13 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/3cba49f6-2233-49a5-8ea0-3ea67b9ad18b_624x491.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">Ao p&#244;r do sol daquele dia escuro,
Em choro achei-me, em l&#225;grimas, banhado,
Pois nada concebia em meu futuro,

Porque na morte estava o meu passado;
E o firmamento em &#225;guas se afogou,
Seu l&#237;quido em meu sangue misturado;

Foi quando um vento frio me cercou,
Que me rondava desde o lado norte,
E pelos meus cabelos me levou

Para um lugar de dor, e choro, e morte.
Cheguei depressa numa tumba aberta,
Pairando ao ar, o vento, meu suporte.

Em todo o canto pus o meu alerta,
Tamanho o medo que me dominava,
Que at&#233; agora o peito meu aperta.

Daquela noite o breu, que me cercava,
As nuvens escondia l&#225; no alto,
Tapava o brilho, o &#233;ter me deixava.

E, de repente, ali, como um assalto,
Ouvi detr&#225;s de mim grunhida voz,
Que para si chamava o tolo, incauto,

E o vento, que j&#225; era meu algoz,
Virou-me todo o corpo dominado,
Fazendo&#8211;me tremer de medo ap&#243;s;

E, mesmo que estivesse acorrentado,
Suplico que me deixe, sem sucesso,
Qual S&#237;sifo ao rochedo seu ligado,

Que mesmo tendo feito algum progresso,
Retorna pro lugar que come&#231;ou:
Oh c&#233;us! Eu era S&#237;sifo confesso!

De banda, a minha vista algu&#233;m mirou,
E, r&#225;pido, meus pelos se eri&#231;aram,
De toda aquela carne que restou;

Estrelas mil no z&#234;nite cruzaram,
Com a lua, entre as nuvens, irrompendo,
E sobre mim soturna luz banharam. 

E me tirou do ch&#227;o o dito vento,
Mas novamente a&#237; me derrubou,
Num solavanco muito violento.

Ca&#237;do estava quando algu&#233;m tocou
As costas, e senti-o mui gelado;
Com suas m&#227;os do p&#243; me levantou.

T&#227;o logo o vi, fiquei desesperado,
A coisa, que n&#227;o era deste mundo,
Que tinha do meu f&#244;lego roubado.

E pelo solo, o cemit&#233;rio imundo,
Fui arrastando o corpo lentamente,
&#192; sombra do fantasma moribundo,

Que por An&#250;bis, deus de toda gente,
Erguido foi do Hades, a Mans&#227;o 
De pobres&#8230; e de ricos igualmente.

Tornou-me para si com suas m&#227;os,
De ossos e de carne corrompidas,
E costuradas por um s&#243; tend&#227;o;

Desconhe&#231;o mesmo hoje qual a vida
De qualquer tipo que lhe sustentava,
Mas sei que, da carca&#231;a mui ferida,

N&#227;o era vivo, pois que morto estava &#8211;
Um morto que, contudo, estava andando
E que pelo meu nome ali chamava.

&#8212; &#8220;Eu sei quem &#233;s&#8221; &#8212; o morto, cochichando,
Tentava me atrair para mais perto;
&#8212; &#8220;Tu sabes quem eu sou&#8221;, continuando,

Enregelou-me, e eu, boquiaberto,
Feito a mulher de L&#243;, n&#227;o me movia,
Como um dormente, mas 'inda desperto.

E sempre a coisa para mim sorria;
T&#227;o bizarra a vis&#227;o que me prendeu,
Pensei que dentro em breve morreria.

Ah mundo malfadado que nasceu!
Ah Cronos, que me tenta e nunca some!
N&#227;o v&#234;s a&#237; sorrindo um filho teu,

Que usa o medo e meu vigor consome?
Ah flor aberta ao dia al&#233;m, vindouro &#8211;
Que &#233; futuro e, nele, tudo &#233; fome!

Como aguentar da vida o seu agouro,
Se v&#234;s que nem na morte findar&#225;,
Nem cessa o seu matar no matadouro?

&#8212; &#8220;Quem &#233;s diabo?&#8221; &#8212; a l&#237;ngua a gaguejar,
Tremia qual bambu perante a aragem,
Ou como as ondas que carrega o mar.

&#8212; &#8220;Responda-me a quest&#227;o, &#243; tu, miragem,
Que dos meus pesadelos tens sa&#237;do;
Vai logo, me responda, e sem bobagem,

&#8220;Ou tua l&#237;ngua tem se contra&#237;do?&#8221;
&#8212; &#8220;Pois bem! Se eu morri pela saudade,
Pela saudade foi-me concedido

&#8220;Que, desde a prova da mortalidade,
Voltasse neste mundo turbulento,
E revelasse a ti toda a verdade.

&#8220;Eu, que persigo o homem, virulento,
Atr&#225;s dos passos seus eu sempre vou;
De v&#243;s, mortais, pesar e sofrimento;

&#8220;E aqui, neste planeta fr&#225;gil, sou:
Cuidado pra uns; pra outros, paz;
Em mim cansada vida repousou.

&#8220;Mas, isso tudo n&#227;o te satisfaz &#8212;
O teu vazio, fonte de perguntas &#8212;.
Fica, ent&#227;o, aqui: &#8220;filho, eu sou teus pais,

&#8220;Teu pai j&#225; morto e tua m&#227;e defunta.&#8221;</pre></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A inauguração da nova era da História da Salvação ]]></title><description><![CDATA[Teologia de Romanos 1:3&#8211;4]]></description><link>https://lucasdamota.substack.com/p/a-inauguracao-da-nova-era-da-historia</link><guid isPermaLink="false">https://lucasdamota.substack.com/p/a-inauguracao-da-nova-era-da-historia</guid><dc:creator><![CDATA[Lucas da Motta]]></dc:creator><pubDate>Sat, 20 Jun 2026 23:42:04 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/7fb1d250-77fd-4f1b-86ba-d809a4157b14_960x540.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="pullquote"><p>Acerca de seu Filho, que nasceu da descend&#234;ncia de Davi segundo a carne, declarado Filho de Deus em poder, segundo o Esp&#237;rito de santifica&#231;&#227;o, pela ressurrei&#231;&#227;o dos mortos, &#8212; Jesus Cristo, nosso Senhor. Romanos 1:3&#8211;4</p></div><h4><strong>A comunidade em Roma e a evangeliza&#231;&#227;o da Espanha (esbo&#231;o)</strong></h4><p>Paulo est&#225; escrevendo para uma comunidade crist&#227; nunca visitada por ele. &#201; o pr&#243;prio ap&#243;stolo quem confessa isso. Em Romanos 1:10&#8211;11 e 13, Paulo faz refer&#234;ncia ao seu desejo de visitar os crist&#227;os romanos, mas, segundo consta no vers&#237;culo 13, at&#233; aquele momento, ele tinha sido impedido de faz&#234;-lo. Muito provavelmente isso se deveu ao seu minist&#233;rio de prega&#231;&#227;o ao longo do Mediterr&#226;neo oriental at&#233; a Maced&#244;nia. Uma vez terminada a obra de evangeliza&#231;&#227;o naquelas regi&#245;es, por&#233;m, Paulo, em Romanos 15:22&#8211;26, afirma a sua inten&#231;&#227;o de ir ter com os romanos logo depois de levar as ofertas que as igrejas gent&#237;licas haviam reunido para os crist&#227;os judeus.</p><p>Al&#233;m disso, &#233; muito prov&#225;vel que a comunidade crist&#227; em Roma n&#227;o tenha sido fundada diretamente por um ap&#243;stolo. A origem dessa comunidade &#233; deveras org&#226;nica, afluindo para Roma os judeus que tinham ouvido o evangelho pregado em Jerusal&#233;m, por ocasi&#227;o do Pentecostes, como narrado em Atos 2. N&#227;o foi Pedro, portanto, o fundador da igreja romana, como querem algumas tradi&#231;&#245;es crist&#227;s, mas um grupo de judeus convertidos &#224; f&#233; em Jesus como o Cristo. </p><p>Originalmente, a igreja romana era majoritariamente judaica em termos &#233;tnicos, embora, certamente, com alguma porcentagem de crist&#227;os gentios. No entanto, a partir da expuls&#227;o dos judeus de Roma no tempo do Imperador Cl&#225;udio (por volta de 49 d.C),<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a> a comunidade perdeu grande parte de seus membros judeus, permanecendo os gentios, e o que era uma comunidade crist&#227;-judaica, tornou-se crist&#227;-gent&#237;lica. Os crist&#227;os judeus tornaram-se minoria e, partir dessa nova composi&#231;&#227;o, as tens&#245;es entre crist&#227;os judeus e crist&#227;os gentios aprofundaram-se cada vez mais &#8211; Romanos 9&#8211;11 pode ser lido sob esse contexto de intrigas entre crist&#227;os judeus e crist&#227;os gentios.</p><p>Foi o mesmo Paulo quem nos forneceu a evid&#234;ncia da origem n&#227;o diretamente apost&#243;lica da comunidade crist&#227; em Roma. As inten&#231;&#245;es de Paulo em sua viagem &#224; Roma, que muito provavelmente eram pela fixa&#231;&#227;o da comunidade como o novo centro log&#237;stico para o seu minist&#233;rio de prega&#231;&#227;o na Espanha (Rm 15:22&#8211;24), passavam pela evangeliza&#231;&#227;o dos pr&#243;prios crist&#227;os romanos. Eles j&#225; eram crist&#227;os (Rm 1:8&#8211;9), mas o ap&#243;stolo dos gentios queria apresent&#225;-los ao seu evangelho (1:11,13&#8211;15). Em Romanos 15:20, por&#233;m, Paulo confessa o seu <em>modus operandi</em>: ele n&#227;o pregava onde Cristo j&#225; tinha do sido anunciado. Conclui&#8211;se que, muito provavelmente, os crist&#227;os romanos n&#227;o tenham se convertido atrav&#233;s da prega&#231;&#227;o de um ap&#243;stolo.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a></p><p>E, como foi afirmado, Paulo nunca visitara a comunidade de Roma at&#233; a escrita desta carta. Ele terminara sua campanha evangel&#237;stica por todo o sudeste europeu, sempre tendo como lugar estrat&#233;gico Antioquia da S&#237;ria, a partir de onde ele fazia suas campanhas.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a></p><p>Conforme o cap&#237;tulo 15 da carta, Paulo tinha planos de pregar o evangelho na Espanha, que ficava bem longe de Antioquia, criando diversas dificuldades log&#237;sticas para o ap&#243;stolo. Roma, assim, surge como uma solu&#231;&#227;o: Paulo, tendo o apoio da comunidade romana, poderia pregar seu evangelho no sudoeste da Europa. Mas como os crist&#227;os romanos confiariam em algu&#233;m que nunca tinham visto antes sen&#227;o apenas de nome? Atrav&#233;s de uma carta, na qual Paulo daria provas de sua &#8220;ortodoxia&#8221; e explicaria para eles no que consistia a mensagem evang&#233;lica que pregava. Portanto, a carta de Paulo aos romanos &#233; uma carta de recomenda&#231;&#227;o do ap&#243;stolo, pela qual ele ganharia o apoio da comunidade romana &#8211; que inclu&#237;a apoio financeiro &#8211;, podendo, dessa forma, pregar o evangelho &#8220;at&#233; os confins da terra&#8221; (At 1.8).</p><h4>Apostolado e evangelho </h4><p>Romanos 1:1&#8211;7 &#8212; o pref&#225;cio mais extenso de todas as cartas gregas descobertas at&#233; hoje<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-4" href="#footnote-4" target="_self">4</a> &#8212; pode ser dividido em quatro partes, a terceira das quais encapsula um princ&#237;pio e a aplica&#231;&#227;o do mesmo: Romanos 1:1, Romanos 1:2&#8211;4, Romanos 1:5&#8211;6 e Romanos 1:7. </p><p>Na primeira se&#231;&#227;o, Paulo se descreve como um ap&#243;stolo e como algu&#233;m que foi separado para o evangelho de Deus, exatamente nessa ordem. Na segunda se&#231;&#227;o, por&#233;m, ele a inverte: come&#231;a por descrever o evangelho para o qual ele foi chamado. &#201; s&#243; na terceira se&#231;&#227;o que ele retoma o tema de seu apostolado e, como observei h&#225; pouco, o ap&#243;stolo nos fornece um princ&#237;pio e uma aplica&#231;&#227;o do mesmo: o seu minist&#233;rio era o apostolado da incircuncis&#227;o (Gl 2:7&#8211;8), para os gentios (Rm 11:13; 15:16,18), o que inclu&#237;a os pr&#243;prios crist&#227;os romanos (Rm 1:6).</p><p>N. T. Wright foi quem mais claramente explicou o sentido destas tr&#234;s se&#231;&#245;es tomadas em conjunto:</p><p>&#8220;[&#8230;] a palavra &#8220;evangelho&#8221; n&#227;o aparece muitas vezes na carta, por&#233;m est&#225; na base de tudo o que Paulo declara. Aqui, ele define o que esse evangelho realmente &#233;, parte porque isso define quem o pr&#243;prio Paulo &#233; (ele foi &#8220;separado&#8221; para o trabalho espec&#237;fico de anunciar esse evangelho) e, em parte, porque o evangelho em si gera um mapa com o qual &#233; poss&#237;vel ver o mundo inteiro e descobrir a qual lugar se pertence. &#201; isso que os vers&#237;culos 5 e 6 fazem: o evangelho reivindica o mundo inteiro para o Rei Jesus, e isso inclui os crist&#227;os em Roma.&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-5" href="#footnote-5" target="_self">5</a></p><p>Finalmente, a &#250;ltima se&#231;&#227;o (Rm 1:7) diz respeito &#224; sauda&#231;&#227;o de Paulo: &#8220;gra&#231;a a v&#243;s outros e paz, da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo.&#8221; Nada aqui &#233; casual. A paz que Paulo deseja que seja dos crist&#227;os romanos &#233; fruto da gra&#231;a. Assim, Paulo deseja que a gra&#231;a, que gera a paz entre Deus e o homem (Rm 5:1), esteja com eles.</p><p>Ap&#243;s descrever a si mesmo como &#8220;servo de Jesus Cristo, chamado para ap&#243;stolo, separado para o evangelho de Deus&#8221; (Em 1.1), Paulo descreve o evangelho para o qual foi chamado e ao qual pregava. Esse evangelho n&#227;o era uma novidade, uma excentricidade que o ap&#243;stolo inventara arbitrariamente; pelo contr&#225;rio, ele &#8220;havia&#8221; sido &#8220;prometido pelos seus [de Deus] profetas nas Sagradas Escrituras&#8221; (Rm 1.2). Basicamente, ent&#227;o, o evangelho que Paulo pregava era a concretiza&#231;&#227;o das promessas judaicas, as quais foram feitas nas Escrituras judaicas do Antigo Testamento (AT). N&#227;o h&#225;, portanto, disrup&#231;&#227;o entre a Antiga e a Nova Alian&#231;a, mas um cumprimento da Antiga na Nova. Mas sobre o qu&#234; ou quem versam estas boas&#8211;novas? </p><h4>A Antiga Era e a Nova Era</h4><p>Paulo afirma claramente: o evangelho, que &#233; o evangelho de Deus, &#233; sobre o Seu Filho, Jesus Cristo, nosso Senhor. Jesus &#233; o objeto do evangelho, seu conte&#250;do, seu n&#250;cleo, a &#243;rbita em torno da qual ele gravita. Isso &#233; a primeira coisa que devemos saber, que o evangelho de Deus &#233; sobre Jesus Cristo. Mas, em que sentido? Neste:</p><div class="pullquote"><p>Acerca de seu Filho, que nasceu da descend&#234;ncia de Davi segundo a carne, declarado Filho de Deus em poder [ou, com poder], segundo o Esp&#237;rito de santifica&#231;&#227;o [ou, Esp&#237;rito Santo], pela ressurrei&#231;&#227;o dos mortos, &#8212; Jesus Cristo, nosso Senhor.</p></div><p>H&#225; uma leitura comum um tanto quanto equivocada em rela&#231;&#227;o &#224;s express&#245;es &#8220;segundo a carne&#8221; e &#8220;segundo o Esp&#237;rito de santifica&#231;&#227;o&#8221;. Com base nela, as duas naturezas de Jesus estariam aqui tematizadas: a natureza humana, &#8220;segundo a carne&#8221;, e a natureza divina, &#8220;segundo o Esp&#237;rito de santifica&#231;&#227;o&#8221;. E, &#8220;segundo a carne&#8221;, segundo Sua natureza humana, Jesus seria &#8220;Filho de Davi&#8221;; mas, &#8220;segundo o Esp&#237;rito de santifica&#231;&#227;o&#8221;, segundo Sua natureza divina, &#8220;Filho de Deus&#8221;.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-6" href="#footnote-6" target="_self">6</a></p><p>Essa interpreta&#231;&#227;o est&#225; quase certamente errada, pois n&#227;o &#233; isso que o ap&#243;stolo est&#225; querendo dizer &#8211; pelo menos n&#227;o em primeiro plano. &#201; claro que ambas as express&#245;es s&#227;o paralelas, mas, diferentemente do que acontece na vis&#227;o anteriormente explicada, o paralelismo aqui &#233; antit&#233;tico, contrapondo duas ideias mutuamente excludentes. &#8220;Segundo a carne&#8221; e &#8220;segundo o Esp&#237;rito de santifica&#231;&#227;o&#8221;, portanto, apontam para duas no&#231;&#245;es contr&#225;rias entre si. </p><p>O termo &#8220;carne&#8221; (<em>sarx</em>) &#233; extremamente importante ao longo da argumenta&#231;&#227;o de Romanos.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-7" href="#footnote-7" target="_self">7</a> Ele &#233; geralmente acompanhado por outras palavras teologicamente significativas, como &#8220;pecado&#8221;, &#8220;morte&#8221;, &#8220;lei&#8221;. Em Paulo, essas palavras descrevem os poderes espirituais  que escravizam a presente era m&#225;, o presente s&#233;culo/<em>&#233;on</em> mau (Gl 1.4). O que isso significa? </p><p>&#8220;Carne&#8221; e &#8220;Esp&#237;rito&#8221;, em Paulo, descrevem duas eras hist&#243;rico&#8211;salv&#237;ficas contrastantes: a antiga era, dominada pelo pecado, pela morte e pela carne, e a nova era, dominada pela justi&#231;a, vida e d&#225;diva escatol&#243;gica do Esp&#237;rito Santo.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-8" href="#footnote-8" target="_self">8</a></p><p>Uma incurs&#227;o ao longo da hist&#243;ria do conceito de &#8220;os &#250;ltimos dias&#8221; pode esclarecer um pouco mais nosso entendimento.</p><p>Mois&#233;s descreveu o futuro de Israel em dois est&#225;gios (Lv 26:14&#8211;45; Dt 4:25&#8211;31; 30:1&#8211;10). Em primeiro lugar, ele falou que o povo passaria por um tempo de pecado e apostasia. Israel iria transgredir os termos da alian&#231;a que Deus firmara com ele no Sinai e, desse modo, seria exilado para al&#233;m dos limites da Terra Prometida, uma vez que o ex&#237;lio era o castigo supremo da antiga alian&#231;a.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-9" href="#footnote-9" target="_self">9</a> Esse ex&#237;lio ocorreu quando os ass&#237;rios derrotaram Israel, o reino do norte, em 722 a.C. (2Rs 17) e quando, posteriormente, os babil&#244;nios derrotaram Jud&#225;, o reino do sul, e Jerusal&#233;m em 586 a.C. (2Rs 25). Em segundo lugar, Mois&#233;s prometeu que, depois do ex&#237;lio e quando o povo se arrependesse de seus pecados, Deus os traria novamente para a sua terra e os aben&#231;oaria ainda mais do que antes (Dt 30:5). Em Deuteron&#244;mio 4:30, Mois&#233;s afirma que essa era de restaura&#231;&#227;o depois do ex&#237;lio se daria &#8220;nos &#250;ltimos dias&#8221;.</p><p>Esta mesma estrutura &#8212; ou teologia &#8212; de duas eras &#8212; uma era de pecado e uma era de restaura&#231;&#227;o, sendo que essa &#250;ltima &#233; localizada &#8220;nos &#250;ltimos dias&#8221; &#8212; est&#225; presente nos profetas do AT. Muitos deles profetizaram o ex&#237;lio por ocasi&#227;o da transgress&#227;o da alian&#231;a cometida por Israel, mas tamb&#233;m prometeram que Deus n&#227;o os abandonaria para sempre, mas que, "nos &#250;ltimos dias&#8221;, Ele os traria novamente para as ben&#231;&#227;os da Sua alian&#231;a (p. ex., Is 2:2&#8211;5; Os 3:5). Essa era futura de restaura&#231;&#227;o e ben&#231;&#227;o &#233; tamb&#233;m apresentada como o momento em que o Reino de Deus seria estabelecido na terra para sempre (Is 52:7), como os novos c&#233;us e a nova terra (Is 65:17), como o tempo da nova alian&#231;a (Jr 31:31) e da alian&#231;a de paz (Ez 34:25) &#8212; entre outros.</p><p>Os judeus do per&#237;odo intertestament&#225;rio &#8212; o per&#237;odo entre os dois testamentos &#8212; herdaram a mesma teologia do AT e continuaram a interpretar a Hist&#243;ria em termos de duas eras. A express&#227;o &#8220;esta era&#8221; era compreendida como &#8220;a presente era m&#225;&#8221; (Gl 1:4), como a era &#8220;segundo a carne&#8221; (Rm 1:3); ou seja, como a &#8220;velha era&#8221; dominada pelo pecado e pela morte, pelo ex&#237;lio do povo de Deus das ben&#231;&#227;os de Sua alian&#231;a e assim por diante. Havia, entre os judeus de inclina&#231;&#227;o mais apocal&#237;ptica, um certo pessimismo em rela&#231;&#227;o &#224; &#8220;esta era&#8221;: O Esp&#237;rito de Deus n&#227;o mais estava ativo na Hist&#243;ria. A &#8220;era por vir&#8221;, por sua vez, era entendida em termos puramente escatol&#243;gicos, isto &#233;, como o estabelecimento definitivo do Reino de Deus sobre o mundo atrav&#233;s do Seu Messias; como o tempo em que os justos mortos ressuscitariam e, juntos com os justos vivos, herdariam a Nova Cria&#231;&#227;o e desfrutariam de todo bem, honra e alegria que Deus lhes concederia;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-10" href="#footnote-10" target="_self">10</a> <a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-11" href="#footnote-11" target="_self">11</a> como o tempo em que os &#237;mpios seriam castigados,<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-12" href="#footnote-12" target="_self">12</a> inclusive os anjos maus.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-13" href="#footnote-13" target="_self">13</a></p><p>Podemos resumir do seguinte modo: a &#8220;velha era&#8221; era entendida pelos judeus como a presente situa&#231;&#227;o da Hist&#243;ria debaixo do pecado e da morte, em que o povo justo de Deus est&#225; debaixo dos poderes tiranos do mundo, em constante ex&#237;lio das ben&#231;&#227;os de Sua alian&#231;a; a &#8220;nova era&#8221;, por sua vez, seria o momento da Hist&#243;ria em que Deus se levantaria para p&#244;r um fim definitivo &#224; velha era, resgatar o Seu povo de debaixo daqueles poderes tiranos, ressuscitando os justos mortos; destruir o pecado e a morte para sempre; castigar os &#237;mpios, homens e anjos, e recriar o cosmos inteiro, dando origem &#224; Nova Cria&#231;&#227;o, no qual n&#227;o mais existiriam pecado, &#8220;morte, pranto, clamor ou dor&#8221; (Ap 21:4). E, &#233; claro, tudo isso atrav&#233;s do Seu Messias, o filho de Davi, que reinaria sobre o Seu povo para sempre.</p><p>Este &#233; o esquema escatol&#243;gico da esperan&#231;a judaica, que era influente  durante o primeiro s&#233;culo e que fazia parte da maneira de pensar do ap&#243;stolo Paulo. Quando Paulo usa as express&#245;es &#8220;segundo a carne&#8221; e &#8220;segundo o Esp&#237;rito de santifica&#231;&#227;o&#8221;, ele est&#225; partindo dessa estrutura judaica, mas com algumas diferen&#231;as no uso, que ficar&#227;o claras ao longo desta discuss&#227;o. </p><h4>&#8220;Segundo a carne&#8221; e &#8220;segundo o Esp&#237;rito de santifica&#231;&#227;o&#8221;</h4><p>Jesus, conforme Paulo, &#8220;nasceu da descend&#234;ncia de Davi&#8221;, ou, como est&#225; em outras vers&#245;es, &#8220;veio da descend&#234;ncia&#8221;, implicando &#8211; ou pressupondo &#8211; que Ele, antes de ter vindo, j&#225; existia.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-14" href="#footnote-14" target="_self">14</a> &#201; assim que pensa Douglas Moo, vendo a&#237; uma referencia &#224; pr&#233;-exist&#234;ncia do Filho, que n&#227;o passou a existir como Filho em Seu nascimento, mas que, existindo desde toda a eternidade, entrou na hist&#243;ria atrav&#233;s de um corpo humano. </p><p>Vimos que a maneira usual de se pensar dos judeus &#224; &#233;poca de Paulo resumia toda a hist&#243;ria humana como que estando debaixo do pecado e da morte, e que, para alguns apocal&#237;pticos, a antiga/velha era tinha sido abandonada por Deus. Conclui-se, ent&#227;o, que, ao tornar-se um ser humano, o Filho de Deus tamb&#233;m esteve, por algum tempo, debaixo da antiga era, da era do pecado e da morte &#8211; por&#233;m, &#233; claro, sem pecado (Hb 4:15). E &#233; precisamente isso o que significa a express&#227;o &#8220;segundo a carne&#8221;: segundo a carne, debaixo da era dominada pela carne, pecado e morte, o Filho de Deus &#8220;veio da descend&#234;ncia de Davi&#8221;. Ou seja, o Filho eterno de Deus penetrou a antiga era como descendente de Davi, como o Rei messi&#226;nico dos judeus, como o Rei de Israel. Logo, &#8220;que nasceu da descend&#234;ncia de Davi segundo a carne&#8221; pode ser resumido em: o Filho eterno de Deus entrou na antiga era, dominada pelo pecado e pela morte, como o Descendente de Davi, o Rei Dav&#237;dico, o Messias &#8220;prometido pelos seus profetas nas Sagradas Escritura&#8221;, que reinaria sobre Israel, Seu povo. </p><p>Mas e quanto &#224; segunda express&#227;o: &#8220;segundo o Esp&#237;rito de santifica&#231;&#227;o&#8221;? O que Jesus era &#8220;segundo a carne&#8221;, ou seja, dentro da antiga era? &#8220;Filho de Davi&#8221; &#8211; exato. E o que Ele &#233; afirmado ser &#8220;segundo o Esp&#237;rito de santifica&#231;&#227;o&#8221;, isto &#233;, dentro da nova era? &#8220;Filho de Deus em poder&#8221; ou &#8220;Filho de Deus com poder&#8221;.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-15" href="#footnote-15" target="_self">15</a> Mas o que isso significa? Conv&#233;m notar que, seja l&#225; o que &#8220;Filho de Deus com poder&#8221; signifique, a express&#227;o est&#225; intimamente relacionada com &#8220;a ressurrei&#231;&#227;o dos mortos&#8221;. Jesus &#233; &#8220;Filho de Deus com poder&#8221; por causa da &#8220;ressurrei&#231;&#227;o dos mortos&#8221;. Antes de mais nada, por&#233;m, n&#227;o estou afirmando que o Senhor tornou-se Filho de Deus, de modo que, antes de tornar-se tal, Ele n&#227;o o era. De maneira alguma, pois, como vimos, no vers&#237;culo 3, Paulo afirma que o Filho &#8220;veio&#8221;, indicando que, antes dessa vinda, Ele pr&#233;-existia como Filho. Mas h&#225; algo que aconteceu com Jesus ap&#243;s Sua ressurrei&#231;&#227;o, algo de absolutamente novo e que est&#225; indicado pela express&#227;o &#8220;Filho de Deus com poder&#8221;. Resumindo, ent&#227;o: de algum modo, Jesus &#233; &#8220;Filho de Deus com poder&#8221; por causa da &#8220;ressurrei&#231;&#227;o dos mortos&#8221;. E aqui devemos, mais uma vez, voltar &#224; estrutura escatol&#243;gica judaica das duas eras. Uma das coisas que manifestaria a vinda da nova era e o fim da antiga era seria justamente a ressurrei&#231;&#227;o final de todos os eleitos de Deus. A morte, que era o poder a dominar durante a antiga era, seria aniquilada pela vinda da nova e, desse modo, n&#227;o existiria mais morte alguma dentro dessa era de justi&#231;a e vida. Paulo, ent&#227;o &#8211; dentro desse contexto &#8211;, est&#225; afirmando algo magn&#237;fico: a nova era j&#225; come&#231;ou, pois Jesus Cristo, o Filho de Deus, ressuscitou dos mortos. Vale notar a diferen&#231;a entre o pensamento do ap&#243;stolo e a vis&#227;o judaica, que esperava a ressurrei&#231;&#227;o de todos os eleitos, n&#227;o de um apenas. Para Paulo, por&#233;m, embora a nova era j&#225; tivesse sido inaugurada, apenas Jesus ressuscitara, &#8220;sendo a prim&#237;cia dos que dormem&#8221; (1Co 15.20). A ressurrei&#231;&#227;o de todos os crentes ainda estava por vir, o que marca a segunda diferen&#231;a entre Paulo e seus compatriotas judeus. Para esses &#250;ltimos, a vinda da nova era poria um fim definitivo e absoluto &#224; antiga era, que seria completamente aniquilada. Para Paulo, no entanto, a vinda da nova era em Jesus Cristo &#8211; em virtude de Sua ressurrei&#231;&#227;o pelo poder de Deus &#8211; n&#227;o foi algo final, mas um come&#231;o, um processo que ainda seria consumado no final dos tempos. Assim, a nova, embora j&#225; inaugurada, n&#227;o estava consumada, de modo que a antiga era, embora j&#225; parcialmente derrotada, ainda era uma realidade. As duas eras, portanto, coexistiriam at&#233; que, no fim dos tempos, quando Jesus viesse pela segunda vez, a nova era daria um &#8220;basta&#8221; &#224; antiga era do pecado e morte. Essa &#233; uma das profundas diferen&#231;as entre Paulo e os judeus, diferen&#231;a essa que Paulo est&#225; ecoando do pr&#243;prio Jesus de Nazar&#233;, para quem o Reino de Deus era tanto uma realidade presente &#8211; &#8220;[&#8230;] a v&#243;s &#233; chegado o Reino de Deus.&#8221; (Mt 3.2) &#8211; quanto uma realidade futura &#8211; &#8220;[&#8230;] at&#233; que se cumpra no Reino de Deus.&#8221; (Lc 22.16). Essa &#233; a &#8220;escatologia inaugurada&#8221; do Novo Testamento (Geerhardus Vos, Oscar Cullman). </p><p>Voltemos ao texto de Paulo: &#8220;declarado Filho de Deus em poder, segundo o Esp&#237;rito de santifica&#231;&#227;o, pela ressurrei&#231;&#227;o dos mortos &#8212; Jesus Cristo, nosso Senhor&#8221;. Como vimos, para Paulo, a ressurrei&#231;&#227;o de &#8220;Jesus Cristo, nosso Senhor&#8221;, inaugura a nova era do &#8220;Esp&#237;rito de santifica&#231;&#227;o&#8221;, a Nova Era da justi&#231;a e da vida, embora n&#227;o d&#234; um fim definitivo &#224; antiga era do pecado e da morte. Assim, Jesus &#233; &#8220;declarado Filho de Deus com poder&#8221; &#224; luz da nova era, que foi inaugurada em Sua ressurrei&#231;&#227;o. A ressurrei&#231;&#227;o declara, de algum modo, que Jesus Cristo &#233; o Filho poderoso de Deus. </p><p>Talvez compreendamos o que isso significa se lermos alguns trechos de Hebreus: </p><div class="pullquote"><p>Porque n&#227;o foi aos anjos que sujeitou o mundo futuro de que falamos; mas, em certo lugar, testificou algu&#233;m, dizendo: que &#233; o homem, para que dele te lembres? Ou o filho do homem, para que o visites? Tu o fizeste um pouco menor do que os anjos, de gl&#243;ria e de honra o coroaste e o constitu&#237;ste sobre as obras de tuas m&#227;os. Todas as coisas lhe sujeitaste debaixo dos p&#233;s [&#8230;]</p></div><p>Escrevi um <a href="/__u/open.substack.com/pub/lucasdamota/p/a-entronizacao-cosmica-do-filho-de?utm_source=share&amp;utm_medium=android&amp;r=6go5mm">artigo</a> sobre o ensino de Hebreus 1, segundo o qual Jesus Cristo &#233; superior aos anjos justamente porque Ele, em Sua ressurrei&#231;&#227;o e ascens&#227;o, foi entronizado por Deus como o Senhor do cosmos, o herdeiro de todas as coisas. Convido o leitor a conferir meu argumento desenvolvido naquele texto.</p><p>H&#225; um contraste sendo criado aqui. O autor de Hebreus est&#225; contrapondo os anjos com os homens, criados &#224; imagem de Deus. Segundo ele, Deus n&#227;o sujeitou o &#8220;mundo futuro&#8221; &#8212; a consuma&#231;&#227;o, por ocasi&#227;o da parusia, da nova era que Jesus Cristo inaugurou em Sua ressurrei&#231;&#227;o &#8212; aos anjos, mas aos homens. Embora eles tenham sido criados &#8220;um pouco menor do que os anjos&#8221;, os homens foram corados por Deus de gl&#243;ria e de honra, e Deus os estabeleceu como senhores de todas as coisas, como Seus herdeiros do mundo. Ele est&#225;, &#233; claro, ecoando o ensino de G&#234;nesis 1&#8212;2. A express&#227;o &#8220;Todas as coisas sujeitaste debaixo dos p&#233;s&#8221;, aplicada aqui aos homens, foi usada para se referir &#224; entroniza&#231;&#227;o c&#243;smica do Filho de Deus no cap&#237;tulo 1 (v. 13).</p><p>No entanto, o autor de Hebreus rapidamente observa que, embora as Escrituras afirmem que Deus tenha colocado todas as coisas debaixo dos p&#233;s dos homens, &#8220;ainda n&#227;o vemos todas as coisas a ele sujeitas&#8221; (Hb 2:8). Nos vers&#237;culos posteriores, ele chega a dizer que, antes da vinda de Cristo, os &#8220;descendentes de Abra&#227;o&#8221; (Hb 2:16) &#8220;estavam sujeitos &#224; escravid&#227;o por toda a vida&#8221; (Hb 2:15). </p><p>Logo, ainda n&#227;o vemos os homens como senhores. Vemos, por&#233;m, um Homem, o Senhor Jesus Cristo, &#8220;que, por um pouco, tendo sido feito menor que os anjos&#8230; por causa do sofrimento da morte, foi coroado de gl&#243;ria e de honra, para que, pela gra&#231;a de Deus, provasse a morte por todo homem.&#8221; (Hb 2:9) O escritor desta carta repete o vers&#237;culo, que ele tinha aplicado aos homens eleitos, e o aplica ao pr&#243;prio Cristo. Jesus, ent&#227;o, &#224; semelhan&#231;a dos homens, foi feito um pouco menor que os anjos. Claro que, em Seu caso, n&#227;o estamos falando de nascimento pura e simplesmente, mas de encarna&#231;&#227;o. E Ele se tornou um pouco menor do que os anjos &#8220;por causa do sofrimento da morte&#8221;, &#8220;para que, por sua morte, destru&#237;sse aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo, e livrasse todos que, pelo pavor da morte, estavam sujeito &#224; escravid&#227;o por toda a vida.&#8221; (Hb 2:14&#8211;15)</p><p>No entanto, &#8220;depois de ter feito a purifica&#231;&#227;o dos pecados&#8221; em Sua morte, Cristo &#8220;assentou&#8211;se &#224; direita da Majestade, nas alturas, tendo&#8211;se tornado t&#227;o superior aos anjos quanto herdou mais excelente nome do que eles.&#8221; (Hb 1:3&#8211;4) Isto &#233;, Ele ressuscitou dos mortos como o poderoso Filho de Deus, como o Senhor do mundo. Ainda n&#227;o vemos todos os eleitos como senhores/herdeiros da cria&#231;&#227;o de Deus. Mas h&#225; um que j&#225; alcan&#231;ou esse est&#225;gio: Jesus Cristo.</p><p>Aqui, Jesus &#233; entronizado como o Rei soberano do &#8220;mundo futuro&#8221;, que corresponde &#224; nova era consumada. Deus O colocou sobre toda a cria&#231;&#227;o, de modo que todas as coisas estejam por debaixo de Seus p&#233;s, para sempre. &#8220;Cria&#231;&#227;o&#8221; e &#8220;todas coisas&#8221; essas que correspondem, de novo, &#224; nova era consumada, &#224; Nova Cria&#231;&#227;o. </p><p>Al&#233;m do texto de Hebreus, Paulo, em 1Cor&#237;ntios, afirma algo parecido: &#8220;porque conv&#233;m que [Ele, Jesus Cristo] reine at&#233; que haja posto a todos os inimigos debaixo de seus p&#233;s.&#8221; (15.25); &#8220;Ele nos tirou da potestade das trevas [da Antiga Era] e nos transportou para o Reino do Filho do seu amor [para a Nova Era].&#8221; (Cl 2.13). O pr&#243;prio Jesus, ao ressuscitar, afirmou-Se Rei sobre todas as coisas: &#8220;&#233;-me dado todo o poder no c&#233;u e na terra.&#8221; (Mt 28.18); ao ser perguntado pelos membros do Sin&#233;drio se Ele era de fato o &#8220;Cristo, o Filho do Deus bendito&#8221; (Mc 14.61), Ele respondeu claramente: &#8220;Eu o sou, e vereis o Filho do Homem assentado &#224; direita do Todo-Poderoso e vindo sobre as nuvens dos c&#233;us.&#8221; (14.62). </p><p>Est&#234;v&#227;o, enquanto era apedrejado pelos inimigos de Cristo, viu o Messias entronizado como Rei acima de todos os c&#233;us: &#8220;eis que vejo os c&#233;us abertos e o Filho do Homem, que est&#225; em p&#233; &#224; m&#227;o direita de Deus.&#8221; (At 7.56). E, da mesma forma, todo o coro do Novo Testamento canta em un&#237;ssono o reinado soberano do Jesus o Messias: &#8220;todos os reinos do mundo vieram a ser do nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinar&#225; para sempre.&#8221; (Ap 11.15). </p><p>Com efeito, Jesus ter sido &#8220;declarado Filho de Deus em poder, segundo o Esp&#237;rito de santifica&#231;&#227;o, pela ressurrei&#231;&#227;o dos mortos&#8221;, em Romanos 1.4, significa a mesma coisa que todos aqueles e tantos outros textos do Novo Testamento: que o Filho de Deus, Jesus Cristo, foi coroado por Deus como o Rei sobre a nova era, que foi inaugurada em Sua ressurrei&#231;&#227;o. E isso alinha-se &#224; profecia do Salmo segundo, interpretada cristologicamente pelo autor de Hebreus: &#8220;porque a qual dos anjos disse jamais: tu &#233;s meu Filho, hoje te gerei?&#8221; (Hb 1.5). Ao ressuscitar a Jesus dos mortos, Deus O gerou no tempo, dando-Lhe como heran&#231;a n&#227;o apenas Israel, um peda&#231;o de terra no Oriente M&#233;dio, mas o mundo todo e toda a cria&#231;&#227;o restaurada. Se Jesus &#233; descendente &#8220;de Davi segundo a carne&#8221; e, portanto, herdeiro do trono de Israel, Ele &#233;, &#8220;segundo o Esp&#237;rito de santifica&#231;&#227;o&#8221;, &#8220;Filho de Deus em poder&#8221; e, portanto, herdeiro do trono do mundo.</p><p>Concluo com as palavras de Douglas Moo:</p><div class="pullquote"><p>Na vida terrena de Jesus (sua vida &#8220;no dom&#237;nio da carne&#8221;), ele era a semente dav&#237;dica, o Messias. Mas, embora isso seja verdadeiro e valioso, n&#227;o conta a hist&#243;ria toda. Para os crist&#227;os, Jesus &#233; tamb&#233;m, no &#8220;dom&#237;nio do Esp&#237;rito&#8221;, o Filho de Deus poderoso e que d&#225; vida. Em Cristo a nova era da hist&#243;ria redentora come&#231;ou e, nesse novo est&#225;gio do plano de Deus, Jesus reina como Filho de Deus, ativo poderosamente para levar salva&#231;&#227;o a todos os que cr&#234;em (1:16).</p></div><p><em>Soli Deo Gloria</em></p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>Esse evento &#233; relato por Lucas no livro dos Atos dos Ap&#243;stolos (18:2)</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>Para uma exposi&#231;&#227;o mais cuidadosa dessa perspectiva, incluindo uma descri&#231;&#227;o mais detalhada de como o cristianismo chegou a Roma com os judeus convertidos em Atos 2, veja a introdu&#231;&#227;o do coment&#225;rio exeg&#233;tico de Douglas J. Moo sobre Romanos (Moo, 2023).</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="#footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p>Para uma an&#225;lise de Antioquia como o eixo mission&#225;rio por excel&#234;ncia no cristianismo primitivo e em Atos, veja <em>Paiva (2015), Antioquia, Paulo de Tarso e a forma&#231;&#227;o da religi&#227;o crist&#227;</em>.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-4" href="#footnote-anchor-4" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">4</a><div class="footnote-content"><p>Byrskog afirma: &#8220;Nenhuma outra carta antiga do ambiente greco-romano ou tradicionalmente judaico cont&#233;m uma introdu&#231;&#227;o de carta t&#227;o extensa (&#8220;<em>Epistolography, rhetoric and letter prescript</em>&#8221;, p. 38). Michel e K&#228;semann, seguindo Lohmeyer (&#8220;<em>Probleme paulinischer Theologie</em>&#8221;, p. 158-73), sugerem que a forma mais longa de pref&#225;cio empregada por Paulo talvez derive de um modelo judaico-oriental de reda&#231;&#227;o de carta (cf. 2Mc 11.1-6). Isso, no entanto, &#233; contestado por Roller (<em>Formular der paulinischen Briefe</em>, p. 213-38) e Cranfield.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-5" href="#footnote-anchor-5" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">5</a><div class="footnote-content"><p>Wright (2020), se&#231;&#227;o sobre Romanos 1:1&#8211;7, intitulada &#8220;Boas&#8211;novas sobre o novo rei&#8221;.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-6" href="#footnote-anchor-6" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">6</a><div class="footnote-content"><p>Hodge; Haldane; Shedd; Gifford.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-7" href="#footnote-anchor-7" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">7</a><div class="footnote-content"><p>Transcrevo aqui a nota 43 do coment&#225;rio de exeg&#233;tico Douglas Moo (2023): &#8220;Paulo nunca usa &#963;&#940;&#961;&#958; em seu significado mais simples: os tecidos macios do corpo humano. No entanto, como no grego secular, Paulo pode usar a palavra para se referir ao corpo humano como um todo (p. ex., 1Co 5:5[?]; 6:16; 2Co 7:1; 12:7; Gl 4:13; Ef 5:31), mas com mais mais frequ&#234;ncia para pessoa de modo geral (p. ex., Rm 3:20; Gl 1:16 &#8212; esse uso resulta da equival&#234;ncia com o hebr. &#1489;&#1464;&#1468;&#1513;&#1474;&#1464;&#1512;). Os empregos paulinos mais teologicamente significativos do termo abrangem um espectro de significado que vai desde um uso bem neutro, designando a natureza ou exist&#234;ncia humana como tal (p. ex., Rm 4:1; 8:3; 9:8; 1Co 1:29; 15:50), at&#233; um significado muito mais negativo (ou &#233;tico): a vida humana ou o mundo material considerados independentes do dom&#237;nio espiritual, ou at&#233; mesmo em oposi&#231;&#227;o a ele (p. ex. Rm 7:5; 8:8; 13:14; Gl 5:13&#8211;18 &#8212; veja esp. Dunn, &#8220;Jesus &#8212; flesh and spirit&#8221;, esp. p. 44&#8211;45; idem, <em>Theology</em>, p. 62&#8211;70). Laato contrasta de forma &#250;til essas duas &#234;nfases principais: a pessoa humana como distinta de Deus; a pessoa humana em contraste com Deus (<em>Paulus und das Judentum</em>, p. 95). Para o ensino de Paulo sobre carne, veja mais em Sand, <em>Begriff</em> &#8220;<em>Sarx</em>&#8221;; Brandenburger, <em>Fleisch und Geist</em>; Stacey, <em>Pauline view of man</em>, p. 154&#8211;80; E. Scweizer, <em>TDNT</em> 7.99&#8211;124.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-8" href="#footnote-anchor-8" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">8</a><div class="footnote-content"><p>Para essa abordagem, veja esp. Ridderbos, Paul, p. 64-8; e G. Vos, &#8220;<em>Eschatological aspec</em>t&#8221;, p. 103-5.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-9" href="#footnote-anchor-9" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">9</a><div class="footnote-content"><p>Para uma discuss&#227;o desses assuntos, veja a introdu&#231;&#227;o do coment&#225;rio ao livro de Deuteron&#244;mio, em MERRILL, Eugene H. Deuteron&#244;mio: coment&#225;rio exeg&#233;tico. S&#227;o Paulo: Vida Nova, 2025. </p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-10" href="#footnote-anchor-10" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">10</a><div class="footnote-content"><p>1 Enoque 103:2.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-11" href="#footnote-anchor-11" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">11</a><div class="footnote-content"><p>Um breve resumo de outros textos apocal&#237;pticos com semelhante perspectiva escatol&#243;gica pode ser visto em: ROSSANO, P; RAVASI, G; GIRLANDA A. (eds.). <em>Nuevo Diccionario de Teolog&#237;a B&#237;blica. Madrid: Ediciones Paulinas</em>, 1990, p. 1616.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-12" href="#footnote-anchor-12" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">12</a><div class="footnote-content"><p>1 Enoque 96:3.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-13" href="#footnote-anchor-13" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">13</a><div class="footnote-content"><p>1 Enoque 1:6; 10:8; 19:1.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-14" href="#footnote-anchor-14" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">14</a><div class="footnote-content"><p>Contra Dunn.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-15" href="#footnote-anchor-15" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">15</a><div class="footnote-content"><p>Ou, &#8220;O Filho poderoso de Deus&#8221;.</p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A entronização cósmica do Filho de Deus]]></title><description><![CDATA[Uma leitura de Hebreus 1]]></description><link>https://lucasdamota.substack.com/p/a-entronizacao-cosmica-do-filho-de</link><guid isPermaLink="false">https://lucasdamota.substack.com/p/a-entronizacao-cosmica-do-filho-de</guid><dc:creator><![CDATA[Lucas da Motta]]></dc:creator><pubDate>Wed, 10 Jun 2026 20:06:44 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/42f6dde0-532c-4314-9a69-1670abb19f7e_739x415.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<h4><strong>INTRODU&#199;&#195;O</strong> </h4><p>H&#225; duas ep&#237;stolas no Novo Testamento (NT) que ocupam um lugar especial dentro do meu cora&#231;&#227;o: Romanos e Hebreus.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a> &#201; f&#225;cil entender o motivo pelo qual um protestante tem em alt&#237;ssima conta a ep&#237;stola de Paulo &#8220;aos amados de Deus que est&#227;o em Roma&#8221; (Rm 1:7): a doutrina da justifica&#231;&#227;o pela f&#233;, independentemente das obras da lei.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a> Fa&#231;o minhas as palavras de Martinho Lutero:</p><p>&#8220;Esta carta &#233; verdadeiramente a mais importante pe&#231;a do Novo Testamento. &#201; o evangelho mais puro. &#201; de grande valor para um crist&#227;o n&#227;o somente para memorizar palavra por palavra, mas tamb&#233;m para o ocupar com isso diariamente, como se fosse o p&#227;o di&#225;rio da alma. &#201; imposs&#237;vel ler ou meditar nesta carta t&#227;o pouco. Quanto mais algu&#233;m lida com ela, mais preciosa ela se torna e melhor ela saboreia.&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a></p><p>Mas e quanto a Hebreus, uma carta disputada desde a igreja primitiva e que Lutero, em seu Novo Testamento de 1522, colocou quase como um ap&#234;ndice no final do <em>corpus</em>,<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-4" href="#footnote-4" target="_self">4</a> juntamente com os demais <em>antilegomena?</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-5" href="#footnote-5" target="_self">5</a> Talvez o primeiro cap&#237;tulo deste riqu&#237;ssimo tesouro da f&#233; crist&#227; primitiva o explique, o que &#233; convenientemente o objetivo deste meu artigo. Isto &#233;, proponho aqui uma leitura do cap&#237;tulo 1 de Hebreus, e espero sinceramente que o leitor, no final da leitura da minha exposi&#231;&#227;o, tamb&#233;m possa apreciar esta carta infelizmente obscurecida pela leg&#237;tima import&#226;ncia, por exemplo, das cartas do ap&#243;stolo Paulo, principalmente Romanos.</p><h4>TESE</h4><p>&#201; fundamental para a ep&#237;stola aos Hebreus o tema da superioridade de Cristo sobre seres (anjos), pessoas (Mois&#233;s, Ar&#227;o) e institui&#231;&#245;es (sacerd&#243;cio lev&#237;tico) caracter&#237;sticos da Antiga Alian&#231;a, ou que desempenhavam um papel central durante os tempos do Antigo Testamento (AT). Por exemplo: Todo o coment&#225;rio de Simon Kistemaker<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-6" href="#footnote-6" target="_self">6</a> est&#225; constru&#237;do de modo a dar maior &#234;nfase &#224; discuss&#227;o da superioridade do Filho de Deus ao longo de Hebreus. &#201; com base nessa primazia de Cristo que o autor exorta os seus destinat&#225;rios a n&#227;o retrocederem na f&#233; (Hb 2:5&#8211;18; 3:7&#8211;4:13; 5:11&#8211;6:12; 10:19&#8211;12:29), pois assim como a Nova Alian&#231;a possui melhores promessas que a Antiga, o castigo debaixo da nova dispensa&#231;&#227;o ser&#225; apropriadamente maior para aqueles que retrocederem.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-7" href="#footnote-7" target="_self">7</a></p><p>Com efeito, o tema da superioridade do Filho de Deus est&#225; tamb&#233;m presente neste primeiro cap&#237;tulo, sendo a compara&#231;&#227;o feita com os anjos: O Filho de Deus &#233; superior aos anjos de Deus (Hb 1:4). &#201; muito f&#225;cil de se estabelecer esse ponto. O texto &#233; bem claro. A quest&#227;o mais dif&#237;cil &#233;: Por que? Por que o Filho de Deus est&#225; acima de todos os anjos de Deus? Qual &#233; o fundamento que o autor de Hebreus usa para declarar a primazia de Cristo? Estas n&#227;o s&#227;o, de modo algum, perguntas in&#250;teis, impostas de fora para dentro do texto. Muito pelo contr&#225;rio, o autor explica o motivo pelo qual o Filho &#233; superior aos anjos, e isso tem a ver com <em>a entroniza&#231;&#227;o c&#243;smica de Cristo</em>.</p><p>&#201; moderna a divis&#227;o de cap&#237;tulos dos textos das Escrituras, e n&#227;o algo que pertencia aos manuscritos originais. Devemos, portanto, ter cuidado para n&#227;o deixarmos fora do enquadramento assuntos importantes que s&#243; s&#227;o discutidos nos cap&#237;tulos que n&#227;o estamos considerando. Assim, qualquer divis&#227;o do texto em se&#231;&#245;es deve partir do pr&#243;prio texto. Felizmente, a divis&#227;o das nossas B&#237;blias do primeiro cap&#237;tulo de Hebreus me parece correta, capturando muito bem a unidade dessa se&#231;&#227;o. Mas podemos fazer mais. Acredito que Hebreus 1 possa ser dividido em duas partes, em ambas das quais o assunto tratado &#233; o mesmo: Hebreus 1:1&#8211;4 e 1:5&#8211;14.</p><h4><strong>HEBREUS 1:1&#8211;4</strong></h4><p>&#8220;Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais pelos profetas, nestes &#250;ltimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual tamb&#233;m fez o universo.&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-8" href="#footnote-8" target="_self">8</a> (Hb 1:1&#8211;2)</p><p>H&#225; muitas coisas que podemos discutir sobre esse vers&#237;culo. Conv&#233;m, portanto, que sejamos organizados em nossa tarefa. Assim, vamos por partes.</p><p>Em primeiro lugar, &#233; poss&#237;vel perceber uma certa semelhan&#231;a estrutural entre esse texto e o de Romanos 1:2&#8211;4. A semelhan&#231;a n&#227;o &#233; apenas terminol&#243;gica, mas &#8212; o que acredito ser mais importante &#8212; teol&#243;gica. Tanto Paulo quanto o autor de Hebreus, em seus respectivos textos, contrap&#245;em dois per&#237;odos de tempo de significa&#231;&#227;o teol&#243;gica fundamental. Paulo faz isso usando as express&#245;es &#8220;segundo a carne&#8221; e &#8220;segundo o Esp&#237;rito de santifica&#231;&#227;o&#8221;, enquanto que o autor de Hebreus o faz com os termos &#8220;outrora&#8221; e &#8220;nestes &#250;ltimos tempos&#8221;. Os dois, no entanto, est&#227;o falando da mesma coisa &#8212; ou melhor, das mesmas coisas.</p><p>Utilizarei os termos &#8220;velha era&#8221; e &#8220;nova era&#8221; para me referir aos dois per&#237;odos de tempo em quest&#227;o, respectivamente. A realidade dessas eras &#233; mais claramente vista em Hebreus do que em Romanos, tanto mais quando se considera que &#8220;segundo a carne&#8221; e &#8220;segundo o Esp&#237;rito de santifica&#231;&#227;o&#8221; foram interpretados, ao longo da hist&#243;ria da igreja, como se referindo &#224;s naturezas divina e humana de Jesus. N&#227;o posso explicar a interpreta&#231;&#227;o que considero correta dos vers&#237;culos de Romanos neste artigo, mas o leitor pode conhecer minha vis&#227;o explicada neste meu outro texto: <a href="/__u/open.substack.com/pub/lucasdamota/p/a-inauguracao-da-nova-era-da-historia?utm_source=share&amp;utm_medium=android&amp;r=6go5mm">A inaugura&#231;&#227;o da nova era da Hist&#243;ria da Salva&#231;&#227;o</a>. </p><p>O que estou querendo dizer com &#8220;velha era&#8221; e &#8220;nova era&#8221;? Para responder essa quest&#227;o, devemos passar em vista o conceito veterotestament&#225;rio de &#8220;&#250;ltimos dias&#8221; e sua evolu&#231;&#227;o que desembocou no NT. </p><p>Mois&#233;s descreveu o futuro de Israel em dois est&#225;gios (LV 26:14&#8211;45; Dt 4:25&#8211;31; 30:1&#8211;10). Em primeiro lugar, ele falou que o povo passaria por um tempo de pecado e apostasia. Israel iria transgredir os termos da alian&#231;a que Deus firmara com ele no Sinai e, desse modo, seria exilado para al&#233;m dos limites da Terra Prometida, uma vez que o ex&#237;lio era o castigo supremo da antiga alian&#231;a.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-9" href="#footnote-9" target="_self">9</a> Esse ex&#237;lio ocorreu quando os ass&#237;rios derrotaram Israel, o reino do norte, em 722 a.C. (2Rs 17) e quando, posteriormente, os babil&#244;nios derrotaram Jud&#225;, o reino do sul, e Jerusal&#233;m em 586 a.C. (2Rs 25). Em segundo lugar, Mois&#233;s prometeu que, depois do ex&#237;lio e quando o povo se arrependesse de seus pecados, Deus os traria novamente para a sua terra e os aben&#231;oaria ainda mais do que antes (Dt 30:5). Em Deuteron&#244;mio 4:30, Mois&#233;s afirma que essa era de restaura&#231;&#227;o depois do ex&#237;lio se daria &#8220;nos &#250;ltimos dias&#8221;.</p><p>Esta mesma estrutura de duas eras &#8212; uma era de pecado e uma era de restaura&#231;&#227;o, sendo que essa &#250;ltima &#233; localizada &#8220;nos &#250;ltimos dias&#8221; &#8212; est&#225; presente nos profetas do AT. Muitos deles profetizaram<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-10" href="#footnote-10" target="_self">10</a> o ex&#237;lio por ocasi&#227;o da transgress&#227;o da alian&#231;a cometida por Israel, mas tamb&#233;m prometeram que Deus n&#227;o os abandonaria para sempre, mas que, "nos &#250;ltimos dias&#8221;, Ele os traria novamente para as ben&#231;&#227;os da Sua alian&#231;a (p. ex., Is 2:2&#8211;5; Os 3:5). Essa era futura de restaura&#231;&#227;o e ben&#231;&#227;o &#233; tamb&#233;m apresentada como o momento em que o Reino de Deus seria estabelecido na terra para sempre (Is 52:7), como os novos c&#233;us e a nova terra (Is 65:17), como o tempo da nova alian&#231;a (Jr 31:31) e alian&#231;a de paz (Ez 34:25) &#8212; entre outros.</p><p>Os judeus do per&#237;odo intertestament&#225;rio &#8212; o per&#237;odo entre os dois testamentos &#8212; herdaram a mesma teologia do AT e continuaram a interpretar a Hist&#243;ria em termos de duas eras. A express&#227;o &#8220;esta era&#8221; era compreendida como &#8220;a presente era m&#225;&#8221; (Gl 1:4), como a era &#8220;segundo a carne&#8221; (Rm 1:3); ou seja, como a &#8220;velha era&#8221; dominada pelo pecado e pela morte, pelo ex&#237;lio do povo de Deus das ben&#231;&#227;os de Sua alian&#231;a e assim por diante. Havia, entre os judeus de inclina&#231;&#227;o mais apocal&#237;ptica, um certo pessimismo em rela&#231;&#227;o &#224; &#8220;esta era&#8221;: O Esp&#237;rito de Deus n&#227;o mais estava presente, n&#227;o mais estava ativo na Hist&#243;ria.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-11" href="#footnote-11" target="_self">11</a><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-12" href="#footnote-12" target="_self">12</a> A &#8220;era por vir&#8221;, por sua vez, era entendida em termos puramente escatol&#243;gicos, isto &#233;, como o estabelecimento definitivo do Reino de Deus sobre o mundo atrav&#233;s do Seu Messias; como o tempo em que os justos mortos ressuscitariam e, juntos com os justos vivos, herdariam a Nova Cria&#231;&#227;o e desfrutariam de todo bem, honra e alegria que Deus lhes concederia;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-13" href="#footnote-13" target="_self">13</a><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-14" href="#footnote-14" target="_self">14</a> como o tempo em que os &#237;mpios seriam castigados,<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-15" href="#footnote-15" target="_self">15</a> inclusive os anjos maus.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-16" href="#footnote-16" target="_self">16</a></p><p>Podemos resumir do seguinte modo: a &#8220;velha era&#8221; era entendida pelos judeus como a presente situa&#231;&#227;o da Hist&#243;ria debaixo do pecado e da morte, em que o povo justo de Deus est&#225; debaixo dos poderes tiranos do mundo, em constante ex&#237;lio das ben&#231;&#227;os de Sua alian&#231;a; a &#8220;nova era&#8221;, por sua vez, seria o momento da Hist&#243;ria em que Deus se levantaria para p&#244;r um fim definitivo &#224; velha era, resgatar o Seu povo de debaixo daqueles poderes tiranos, ressuscitando os justos mortos; destruir o pecado e a morte para sempre; castigar os &#237;mpios, homens e anjos, e recriar o cosmos inteiro, dando origem &#224; Nova Cria&#231;&#227;o, no qual n&#227;o mais existiriam pecado, &#8220;morte, pranto, clamor ou dor&#8221; (Ap 21:4). E, &#233; claro, tudo isso atrav&#233;s do Seu Messias, o filho de Davi, que reinaria sobre o Seu povo para sempre. </p><p>Pode ter parecido totalmente desnecess&#225;ria esta incurs&#227;o que fizemos sobre a evolu&#231;&#227;o das express&#245;es &#8220;&#250;ltimos dias&#8221;, &#8220;velha era&#8221; e &#8220;nova era&#8221;. Acredite em mim: n&#227;o foi! Voltemos, agora, ao texto que abriu esta se&#231;&#227;o:</p><p>&#8220;Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais pelos profetas, nestes &#250;ltimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual tamb&#233;m fez o universo.&#8221;</p><p>Como disse anteriormente, &#8220;outrora&#8221; e &#8220;nestes &#250;ltimos dias&#8221; se referem, respectivamente, &#224; velha era e &#224; nova era. Durante a velha era do pecado e da morte, &#8220;Deus falou aos pais pelos profetas&#8221;. Agora, por&#233;m, nos tempos da nova era &#8212; da era dominada pelo Esp&#237;rito de Deus e pela vida &#8212;, &#8220;Deus falou pelo Filho&#8221;. &#201; evidente, portanto, que, para o autor de Hebreus, a nova era havia chegado em Jesus Cristo, o Messias de Israel. Mas aqui surge uma das diferen&#231;as mais impressionantes da teologia crist&#227; primitiva em rela&#231;&#227;o &#224; esperan&#231;a judaica cl&#225;ssica e que chamaremos, por motivos did&#225;ticos, de &#8220;escatologia inaugurada&#8221;, em oposi&#231;&#227;o &#224; &#8220;escatologia realizada&#8221;. A escatologia inaugurada da ep&#237;stola aos Hebreus &#8212; e que &#233; o lugar&#8211;comum do pr&#243;prio NT &#8212; afirma que a nova era do Esp&#237;rito de Deus havia sido inaugurada pelo Messias, o Senhor Jesus, mas n&#227;o em toda a sua extens&#227;o. O Reino de Deus j&#225; chegou, mas ainda n&#227;o totalmente &#8212; e &#233; daqui que surge a express&#227;o que encapsula essa vis&#227;o escatol&#243;gica, o famoso &#8220;j&#225;, mas ainda n&#227;o&#8221;. Com efeito, embora tenha sido inaugurada, a nova era coexiste com a velha era. Os crist&#227;os, seguidores do Messias, vivem entre eras: foram libertos da velha era para o gozo da nova era (Gl 1:4; Cl 1:13), mas ainda experimentam as tenta&#231;&#245;es do pecado e ainda s&#227;o mortais, portanto, corrupt&#237;veis (1Co 15). O fim dos s&#233;culos j&#225; chegou (1Co 10:11; Hb 1:1; 1Jo 2:18), mas s&#243; ser&#225; consumado quando o Senhor Jesus Cristo voltar, depois de Deus haver posto debaixo dos Seus p&#233;s todos os Seus inimigos. Ent&#227;o, o Filho entregar&#225; o Reino ao Pai, que ser&#225; tudo em todos (1Co 15:28).</p><p>Os eventos salv&#237;ficos da nova era s&#227;o particularmente importantes para a conclus&#227;o do cap&#237;tulo 2 de Hebreus. Antigamente, Deus falou a Sua Palavra atrav&#233;s dos profetas de Israel, mas, agora, Ele est&#225; falando pelo Filho. &#8220;Se, pois, se tornou firme a palavra falada por meio de anjos,<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-17" href="#footnote-17" target="_self">17</a> e toda transgress&#227;o ou desobedi&#234;ncia recebeu justo castigo, como escaparemos n&#243;s, se negligenciamos t&#227;o grande salva&#231;&#227;o? A qual, tendo sido inicialmente anunciada pelo Senhor, foi&#8211;nos depois confirmada pelos que a ouviram [&#8230;]&#8221; (Hb 2:2&#8211;3). A compara&#231;&#227;o entre Cristo e os anjos, por&#233;m, n&#227;o aparece at&#233; o vers&#237;culo 4 desta nossa se&#231;&#227;o, e deve ser vista como uma conclus&#227;o direta do que foi estabelecido antes, a saber, a entroniza&#231;&#227;o c&#243;smica do Filho de Deus. E acredito que est&#225; a&#237; o fundamento com base no qual o autor de Hebreus pode declarar que o Filho de Deus &#233; superior aos anjos de Deus.</p><p>Ap&#243;s mencionar a inaugura&#231;&#227;o da nova era da hist&#243;ria da salva&#231;&#227;o em Jesus Cristo, o autor desta ep&#237;stola afirma do Filho que Deus o &#8220;constitui herdeiro de todas as coisas&#8221;. H&#225; mais outras duas ocorr&#234;ncias, neste cap&#237;tulo, de termos relacionados &#224; heran&#231;a: Hebreus 1:4, em que o Filho herda precisamente o t&#237;tulo de Filho, e Hebreus 1:14, no qual os crist&#227;os herdam a salva&#231;&#227;o. Minha tese &#233; que, em rela&#231;&#227;o a Cristo, a express&#227;o &#8220;herdar todas as coisas&#8221; e &#8220;herdar um mais excelente nome&#8221; significam a mesma coisa: que Jesus Cristo, por ocasi&#227;o de Sua ressurrei&#231;&#227;o, foi entronizado &#224; direita de Deus, em cumprimento de Daniel 7. Para ser ainda mais preciso: Jesus Cristo, o Filho de Deus, por ocasi&#227;o de Sua ressurrei&#231;&#227;o dentre os mortos, herdou o Reino de Deus<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-18" href="#footnote-18" target="_self">18</a> sobre todas as coisas, sobre os c&#233;us e a terra. Ele foi constitu&#237;do &#8220;herdeiro de todas as coisas&#8221;; Ele se assentou &#8220;&#224; direita da Majestade, nas alturas&#8221;; Ele &#8220;herdou mais excelente nome&#8221; do que os anjos. </p><p>&#201; esse o sentido de Romanos 1:4: &#8220;[Cristo] foi designado Filho de Deus com poder, segundo o esp&#237;rito de santidade, pela ressurrei&#231;&#227;o dos mortos&#8221;. O Ressuscitado, em Mateus 28:18, diz exatamente a mesma coisa: &#8220;Toda a autoridade me foi dada no c&#233;u e na terra.&#8221; 1 Pedro, falando tamb&#233;m do Ressuscitado, afirma que Ele, &#8220;depois de ir para o c&#233;u, est&#225; &#224; destra de Deus, ficando&#8211;lhe subordinados anjos, e potestades, e poderes.&#8221; Al&#233;m de tudo isso, me parece que, quando os Evangelhos sin&#243;ticos relatam que Deus, por ocasi&#227;o do batismo de Jesus, declarou&#8211;o Seu &#8220;Filho amado&#8221;, em quem Ele tinha prazer, esses Evangelhos estavam querendo dar a entender que Cristo, a partir de ent&#227;o, estava herdando o Reino c&#243;smico de Seu Pai. &#8220;O Filho do Homem tem na terra poder para perdoar pecados&#8221; (Mt 9:6; Mc 2:10) precisamente porque Deus o Pai lhe deu esse poder. O Evangelho de Jo&#227;o &#233; ainda mais claro sobre isso: O Filho n&#227;o pode fazer de Si mesmo, sen&#227;o somente o que o Pai lhe deus para fazer (Jo 5:19). E assim por diante.</p><p>Logo, ao se assentar &#224; direita da Majestade, nas alturas, Jesus Cristo, o Crucificado que foi ressuscitado, herdou, como Filho de Deus que &#233;, o Reino c&#243;smico de Seu Pai, isto &#233;, o Seu governo soberano sobre toda a cria&#231;&#227;o, incluindo anjos e homens. Em Filipenses 2:9, Cristo herda o nome &#8220;Senhor&#8221; (v. 9). Na Septuaginta (a tradu&#231;&#227;o grega do AT), Deus &#233; representado pelo t&#237;tulo de &#8220;Senhor&#8221; (grego, <em>kyrios</em>). Em Isa&#237;as 45:23, &#233; YHWH diante de quem &#8220;se dobrar&#225; todo joelho&#8221; e por quem &#8220;jurar&#225; toda l&#237;ngua&#8221;.  Assim, Jesus herdou do Pai o Seu pr&#243;prio nome, ou seja, a Sua autoridade sobre os c&#233;us e a terra, &#8220;para que toda l&#237;ngua confesse que Jesus Cristo &#233; o Senhor, para gl&#243;ria de Deus Pai.&#8221; (v. 11)</p><p>&#201; f&#225;cil, portanto, ver por que raz&#227;o o Filho de Deus &#233; superior aos anjos de Deus: pois o Filho de Deus herdou um nome que anjo algum jamais teve ou ter&#225; (Hb 2:5). Al&#233;m disso, pelo fato desse nome implicar o senhorio de Cristo sobre o cosmos inteiro, incluindo os anjos, o governo do Filho se estende tamb&#233;m aos seres ang&#233;licos. Em Ef&#233;sios 1, &#8220;o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da gloria&#8221; ressuscitou Cristo dentre os mortos e o fez assentar &#224; Sua direita nos lugares celestiais, acima de todo principado, e potestade, e poder, e dom&#237;nio, e de todo nome que se possa referir n&#227;o s&#243; no presente s&#233;culo [na presente era m&#225;], mas tamb&#233;m no vindouro.&#8221; (vs. 20&#8211;21) </p><h4>HEBREUS 1:5&#8211;14</h4><p>Como vimos, o ponto alto de Hebreus 1:1&#8211;4 &#233; a declara&#231;&#227;o de que o Filho de Deus &#233; superior aos anjos, e isso porque Ele &#8220;herdou mais excelente nome do que eles&#8221;. Isso significa basicamente que o Filho de Deus herdou o Reino c&#243;smico de Seu Pai, que o fez assentar &#224; Sua direita, nas alturas. Evidentemente esse evento n&#227;o podia ter ocorrido antes da ressurrei&#231;&#227;o dentre os mortos e, se Hebreus 1:1&#8211;4 n&#227;o a cita explicitamente, pelo menos a pressup&#245;e. Em Hebreus 1:3, h&#225; um salto da morte de Cristo &#8212; &#8220;depois de ter feito a purifica&#231;&#227;o dos pecados&#8221; &#8212; para Sua entroniza&#231;&#227;o no c&#233;u &#8212; &#8220;assentou&#8211;se &#224; direita da Majestade, nas alturas&#8221;. Ainda assim, &#233; o Ressuscitado que se assenta no trono de Deus, de onde passa a reinar sobre c&#233;us e terra, anjos e homens.</p><p>Em nossa segunda se&#231;&#227;o &#8212; Hebreus 1:5&#8211;14 &#8212;, o autor afirma a mesma coisa, mas agora usando para tanto do apoio das Escrituras do AT. Isto &#233;, ele reafirma a entroniza&#231;&#227;o c&#243;smica de Cristo com base em diversas passagens do AT, e, atrav&#233;s de perguntas ret&#243;ricas, conclui mais uma vez pela superioridade de Cristo em rela&#231;&#227;o aos anjos. </p><p>H&#225; algo muito interessante que eu gostaria de comentar sobre os primeiros vers&#237;culos retirados do AT, que s&#227;o:</p><ol><li><p>Tu &#233;s meu Filho, eu hoje te gerei (Hb 1:5; cf. Sl 2:7);</p></li><li><p>Eu lhe serei Pai, e ele me sera Filho (Hb 1:5; cf. 2Sm 7:14 e 1Cr 17:13).</p></li></ol><p>Ambos os textos, no AT, est&#227;o dentro de contextos de coroa&#231;&#227;o ou do rei Davi (o primeiro) ou do descendente do rei Davi (o segundo). No primeiro, Davi, rei de Israel, &#233; declarado o filho real de Deus na sua cora&#231;&#227;o. No segundo, Deus prometeu manter o seu relacionamento paternal com o descendente de Davi. </p><p>N&#227;o &#233; isso, por&#233;m, o que destacar aqui. </p><p>Em seu livro, &#8220;<em>Jesus, o Senhor, Segundo o Ap&#243;stolo Paulo</em>&#8221;, Gordon Fee exp&#245;e e explica os tr&#234;s t&#237;tulos messi&#226;nicos que aparecem no Antigo Testamento, mas de modo que a rela&#231;&#227;o entre eles &#233; obscurecida em virtude de suas aparentes tens&#245;es. S&#227;o eles: o Rei Dav&#237;dico, que &#233; o t&#237;tulo mais obviamente messi&#226;nico entre os tr&#234;s, o Servo Sofredor de Isa&#237;as 53 e o Filho do Homem de Daniel 7. As tens&#245;es, ainda que aparentes apenas, s&#227;o superficialmente bem claras: o Rei Dav&#237;dico &#233; um l&#237;der terreno do povo de Deus, um rei-guerreiro descendente do grande rei Davi; o Servo Sofredor de Isa&#237;as 53 &#233; um pobre miser&#225;vel, desprezado e maltratado, sobre o qual recaem todos os castigos que deveriam recair sobre Israel por causa de seu pecado; finalmente, o Filho do Homem de Daniel 7 &#233; um ser divino-celestial, que se aproxima diante do &#8220;Anci&#227;o de Dias&#8221; (v. 13) e, d&#8217;Ele, recebe &#8220;dom&#237;nio, gl&#243;ria, e o reino&#8221; (v. 14). </p><p>Concentrar&#8211;nos&#8211;emos na primeira e na terceira personagens citadas: o Rei Dav&#237;dico e o Filho do Homem de Daniel 7. Por que? Porque acredito que o autor de Hebreus &#8212; e os demais escritores do NT &#8212; entendiam a figura do Rei Messi&#226;nico atrav&#233;s das lentes do Filho do Homem escatol&#243;gico que aparece no livro do profeta Daniel. Assim, enquanto o autor de Hebreus cita dois textos de coroa&#231;&#227;o de um rei terreno, ele est&#225; com os olhos voltados para a coroa&#231;&#227;o c&#243;smica do Filho de Deus. Para ele, portanto, o Rei Dav&#237;dico &#233; o Filho do Homem e o Filho do Homem &#233; o Rei Dav&#237;dico, e em Jesus Cristo ambas as personagens messi&#226;nicas s&#227;o unificadas. E, mais uma vez, &#233; isso que Paulo tem em  mente ao falar que Jesus Cristo, &#8220;segundo a carne, veio da descend&#234;ncia de Davi, e foi designado Filho de Deus com poder, segundo o esp&#237;rito de santidade, pela ressurrei&#231;&#227;o dos mortos&#8221; (Rm 1:3&#8211;4).</p><p>Logo, ainda que possamos ler aqueles dois vers&#237;culos e pensar que se referem ao Rei Dav&#237;dico, temos de ter em mente que o autor de Hebreus est&#225; pensando mais no Filho do Homem do que em qualquer outra figura do AT. E por que isso &#233; importante? Porque, de novo, a coroa&#231;&#227;o c&#243;smica de Hebreus depende da ressurrei&#231;&#227;o de Cristo, a qual, por sua vez, depende de Sua morte. Mas o Messias terreno <em>simpliciter</em> n&#227;o morre, tampouco se assenta no trono celestial de Deus. Mas tudo isso acontece ao Filho do Homem, pelo menos simbolicamente no texto de Daniel.</p><p>As vis&#245;es de Daniel no cap&#237;tulo 7 de seu livro a respeito da entroniza&#231;&#227;o de &#8220;um como o Filho do Homem&#8221; (v. 13) devem ser lidas &#224; luz de Daniel 6:1&#8211;28, que &#233; o relato do livramento da cova dos le&#245;es. Quando fazemos isso, temos o seguinte quadro: Um homem &#8212; que &#233; o pr&#243;prio Daniel &#8212; &#233; lan&#231;ado numa cova (Dn 6:16), e uma pedra &#233; posta sobre ela (Dn 6:17). Ao longo dos vers&#237;culos 19&#8211;23, somos informados que, contra toda expectativa, Daniel n&#227;o fora comido pelos le&#245;es: o Seu Deus o livrou da morte. Assim, Daniel &#233; erguido daquela cova s&#227;o e salvo, e se torna pr&#243;spero &#8220;no reinado de Dario e no reinado de Ciro, o persa.&#8221; (Dn 6:18) O que &#233; interessante &#233; que, em Daniel 7, o Filho do Homem ascende da terra at&#233; o trono de Deus, o Anci&#227;o de Dias (v. 13), e recebe &#8220;dom&#237;nio, e gl&#243;ria, e o reino, para que os povos, na&#231;&#245;es e homens de todas as l&#237;nguas o servissem.&#8221; (v. 14) </p><p>Como &#233; sabido, o livro de Daniel &#233; um <em>crescendum</em>: h&#225; quase que apenas uma mensagem no livro todo, a qual, ao longo dos cap&#237;tulos, vai recebendo cada vez mais aprofundamento. De fato, o sonho de Nabucodonosor e as vis&#245;es de 7:1&#8212;12:13 compartilham um mesmo n&#250;cleo, ainda que, nesses &#250;ltimos vers&#237;culos, aquele n&#250;cleo receba mais informa&#231;&#245;es. Com efeito, n&#227;o &#233; absurdo ler o relato de Daniel na cova dos le&#245;es e a vis&#227;o do Filho do Homem vindo at&#233; o Anci&#227;o de Dias como compartilhando um mesmo n&#250;cleo: Daniel ascende da cova depois do livramento de Deus do mesmo modo que o Filho do Homem ascende da terra at&#233; o Anci&#227;o de Dias;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-19" href="#footnote-19" target="_self">19</a> os inimigos de Daniel s&#227;o destru&#237;dos (Dn 6:24) assim como o dom&#237;nio dos quatro animais &#233; subjugado no cap&#237;tulo 7; Daniel prospera no reinado de Dario e Ciro, e o Filho do Homem herda o Reino do pr&#243;prio YHWH. </p><p>Algo parecido acontece na hist&#243;ria de Jos&#233; e, eu diria, talvez tenhamos de ler Daniel como um eco distante do final de G&#234;nesis. Embora o plano original de seus irm&#227;os tenha sido matar Jos&#233; e lan&#231;ar seu corpo morto em uma cova (Gn 37:18,20), R&#250;ben, o primog&#234;nito dos filhos de Jac&#243;, prop&#244;s a seus irm&#227;os apenas que o lan&#231;assem vivo na cova (Gn 37:21&#8211;21). R&#250;ben queria livrar Jos&#233; de suas m&#227;os e torn&#225;-lo a seu pai. Por instiga&#231;&#227;o de Jud&#225; (Gn 37:26&#8211;27), os filhos de Jac&#243; acabaram vendendo Jos&#233; para alguns mercadores midianitas, os quais o levaram para o Egito (Gn 38:28). Para Jac&#243;, Jos&#233; tinha morrido (Gn 33&#8211;35). Como sabemos, por&#233;m, Deus livrou Jos&#233; da morte (Gn 50:20; cf. Gn 45:5,7&#8211;8) e o fez senhor sobre toda a terra do Egito (Gn 41:38&#8211;45; cf. 45:9). &#201; muito surpreendente que Far&#227;o tenha feito Jos&#233; o segundo maior em todo o seu reino (Gn 41:40&#8211;41,43&#8211;44), ordenou que os eg&#237;pcios se ajoelhassem diante dele (Gn 41:43) e lhe deu um novo nome &#8212; Zafenate&#8211;Panei, &#8220;Deus fala e vive&#8221; &#8212; (Gn 41:45). N&#227;o bastasse isso, os irm&#227;os de Jos&#233; &#8212; antes, seus inimigos &#8212; se ajoelham diante dele (Gn 42:6), cumprindo, desse modo, o seu sonho (Gn 37:5&#8211;8).</p><p>O que estou tentando mostrar que &#233;, provavelmente, Daniel &#233; um eco da hist&#243;ria de Jos&#233; e que o autor de Hebreus, ao usar as profecias a respeito do Rei Dav&#237;dico atrav&#233;s das lentes do Filho do Homem de Daniel 7, muito provavelmente tenha interpretado a entroniza&#231;&#227;o c&#243;smica de Cristo com base na mesma estrutura: um homem &#233; abandonado para morrer, mas Deus o livra e o exalta sobre os demais. Seja como for, os dois vers&#237;culos em quest&#227;o,</p><ol><li><p>Tu &#233;s meu Filho, eu hoje te gerei (Hb 1:5; cf. Sl 2:7);</p></li><li><p>Eu lhe serei Pai, e ele me sera Filho (Hb 1:5; cf. 2Sm 7:14 e 1Cr 17:13),</p></li></ol><p>Por estarem dentro do contexto da entroniza&#231;&#227;o c&#243;smica do Filho de Deus em Hebreus 1:1&#8211;4, deve ser interpretado nos termos, sem que se esque&#231;a que o Rei Dav&#237;dico aqui foi reinterpretado com base no Filho do Homem de Daniel 7 para explicar o mais adequadamente o que tinha ocorrido ao pr&#243;prio Cristo. A pergunta ret&#243;rica do autor de Hebreus carrega consigo a sua resposta: Deus jamais fez assentar qualquer anjo em Seu trono celestial, jamais chamou qualquer anjo de Filho, o herdeiro de Seu reino. Assim, o Filho &#233; superior aos anjos.</p><p>O terceiro vers&#237;culo que aparece neste primeiro cap&#237;tulo &#233; o seguinte:</p><ol start="3"><li><p>E todos os anjos de Deus o adorem (Hb 1:6).<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-20" href="#footnote-20" target="_self">20</a></p></li></ol><p>O autor comenta que isso foi ordenado a partir do momento em que Deus introduziu o Seu &#8220;Primog&#234;nito no mundo&#8221;. </p><p>Com base em Hebreus 2:5, o escritor  se coloca como que estando discutindo h&#225; algum tempo sobre &#8220;o mundo por vir&#8221;. Al&#233;m disso, o Ressuscitado &#233; constantemente referido como o &#8220;Primog&#234;nito dentre os mortos&#8221; em outros textos do NT (Cl 1:18; Ap 1:5). A express&#227;o &#8220;as prim&#237;cias dos que dormem&#8221; (1Co 15:20; cf. At 26:23) tem o mesmo sentido. Com base nessas observa&#231;&#245;es, proponho a seguinte interpreta&#231;&#227;o: o autor de Hebreus n&#227;o est&#225; falando da encarna&#231;&#227;o de Cristo, mas de Sua ressurrei&#231;&#227;o dentre os mortos e subsequente ascens&#227;o at&#233; o trono de Deus. Deus introduziu Cristo no mundo por vir, isto &#233;, o ressuscitou dentre os mortos e, porque Ele foi o primeiro da ressurrei&#231;&#227;o dos mortos (At 26:23), Ele &#233; designado como o Primog&#234;nito de Deus. </p><p>Essa interpreta&#231;&#227;o tem o m&#233;rito de dar continuidade ao tema da entroniza&#231;&#227;o c&#243;smica do Filho de Deus. A interpreta&#231;&#227;o que sup&#245;e a encarna&#231;&#227;o exigiria uma &#8220;quebra&#8221; no racioc&#237;nio do autor, que antes e depois discute apenas como o Filho de Deus &#233; superior aos anjos por causa de Sua entroniza&#231;&#227;o. Al&#233;m disso, se minha interpreta&#231;&#227;o estiver correta, assim como Jesus Cristo herdou o nome de Filho em Sua entroniza&#231;&#227;o, da mesma forma o Pai exigiu, no momento da ascens&#227;o do Seu Filho, que todos os anjos o adorassem. O que, evidentemente, atesta mais uma vez que o Filho de Deus &#233; superior aos anjos de Deus.</p><p>Os dois vers&#237;culos retirados do AT implicam duas caracter&#237;sticas em rela&#231;&#227;o ao Reino que o Filho de Deus herdou de Seu Pai:</p><ol start="4"><li><p>O teu trono, &#243; Deus, &#233; para todo o sempre (Hb 1:8; cf. Sl 45:6);</p></li><li><p>Cetro de equidade &#233; o cetro do teu reino (Hb 1:8&#8211;9; cf. Sl 45:6&#8211;7).</p></li></ol><p>Ou seja, o Reino de Cristo &#233; tanto eterno &#8212; atravessa ambas as eras da hist&#243;ria da salva&#231;&#227;o &#8212; quanto justo &#8212; &#233; um Reino que pertence &#224; nova era da hist&#243;ria da salva&#231;&#227;o. Os pr&#243;ximos vers&#237;culos descrevem ainda mais a eternidade e incorruptibilidade do Reino do Filho de Deus:</p><ol start="6"><li><p>No princ&#237;pio, Senhor, lan&#231;aste os fundamentos da terra, e os c&#233;us s&#227;o obras das tuas m&#227;os; eles perecer&#227;o, tu, por&#233;m, permaneces; sim, todos eles envelhecer&#227;o qual veste; tamb&#233;m, qual manto, os enrolar&#225;s, e, como veste, ser&#227;o igualmente mudados; tu, por&#233;m, &#233;s o mesmo, e os teus anos jamais ter&#227;o fim.&#8221; (Hb 1:10&#8211;12; cf. Sl 102:25&#8211;25)</p></li></ol><p>H&#225; muit&#237;ssimas coisas que queria discutir sobre esses vers&#237;culos, mas, infelizmente, s&#243; posso fazer algumas observa&#231;&#245;es superficiais. Deus me ampare!</p><p>H&#225; uma diferen&#231;a que precisa ser notada entre os tr&#234;s vers&#237;culos que discutimos anteriormente e estes tr&#234;s &#250;ltimos. Nos primeiros tr&#234;s, embora as implica&#231;&#245;es cristol&#243;gicas sejam claras, Jesus Cristo &#233; apresentado como Filho de Deus, ou como o Primog&#234;nito de Deus. A atribui&#231;&#227;o de divindade n&#227;o &#233; t&#227;o expl&#237;cita assim. No entanto, no que diz respeito aos &#250;ltimos tr&#234;s vers&#237;culos, essa atribui&#231;&#227;o &#233; mais &#243;bvia. No primeiro, por exemplo, o Filho &#233; chamado de Deus por Deus! No &#250;ltimo, o t&#237;tulo &#8220;Senhor&#8221; &#8211; por detr&#225;s do qual est&#225; o nome pr&#243;prio de Deus no AT, YHWH &#8211; &#233; creditado a Jesus. </p><p>Em segundo lugar, vemos nestes tr&#234;s &#250;ltimos vers&#237;culos a a&#231;&#227;o de Cristo herdar o Reino de Deus de maneira mais clara que nos tr&#234;s anteriores. Cristo n&#227;o apenas herda de Deus o Seu nome pr&#243;prio, YHWH &#8211; &#8220;Senhor&#8221; &#8211;, como tamb&#233;m o Seu governo c&#243;smico, pois os predicados do governo de Deus s&#227;o os mesmos do governo de Cristo. Assim, se Deus reina com justi&#231;a e equidade, Cristo tamb&#233;m o faz, e, da mesma forma que o governo c&#243;smico de Deus &#233; eterno, o governo de Cristo tamb&#233;m o &#233;. </p><p>Em terceiro lugar, esses vers&#237;culos, quando comparados ao vers&#237;culo que o autor de Hebreus usa para descrever os anjos &#8212; &#8220;Aquele que a seus anjos faz ventos, e a seus ministros, labareda de fogo&#8221; (cf. Sl 104:4) &#8212;; digo, estes tr&#234;s &#250;ltimos vers&#237;culos estabelecem juntos mais uma vez a superioridade de Cristo. Enquanto que os anjos s&#227;o vento e fogo e, portanto, mut&#225;veis em algum sentido, sujeitos &#224; mudan&#231;a, inconstantes, v&#227;os etc.; o Filho de Deus, por Seu torno, &#8220;permanece para sempre&#8221;, &#8220;&#233; o mesmo&#8221; e os Seus &#8220;anos jamais ter&#227;o fim&#8221;. Al&#233;m disso, enquanto que os anjos s&#227;o &#8220;ministros de Deus&#8221; e, portanto, servos, o Filho de Deus &#233; Senhor.</p><p>Mais algumas coisas sobre o &#250;ltimo dos tr&#234;s vers&#237;culos, que &#233; o seguinte:</p><ol start="6"><li><p>No princ&#237;pio, Senhor, lan&#231;aste os fundamentos da terra, e os c&#233;us s&#227;o obras das tuas m&#227;os; eles perecer&#227;o, tu, por&#233;m, permaneces; sim, todos eles envelhecer&#227;o qual veste; tamb&#233;m, qual manto, os enrolar&#225;s, e, como veste, ser&#227;o igualmente mudados; tu, por&#233;m, &#233;s o mesmo, e os teus anos jamais ter&#227;o fim.&#8221; (Hb 1:10&#8211;12; cf. Sl 102:25&#8211;25)</p></li></ol><p>Muitas coisas surgem &#224; mente quando tratamos deste texto. Em primeiro lugar, devemos sempre nos lembrar que ele est&#225; falando do Filho de Deus (Hb 1:8), e n&#227;o de Deus. Isso &#233; importante porque s&#243; assim podemos sentir a sua for&#231;a. Em segundo lugar, estamos lendo esse texto atrav&#233;s das lentes do autor de Hebreus. O vers&#237;culo original do Salmo 102 tem Deus como sujeito, mas, aqui, o sujeito enquadrado &#233; o pr&#243;prio Cristo. Em terceiro lugar, o texto atribui ao Filho de Deus, o Senhor Jesus Cristo, o ato de criar o mundo, que, no AT, &#233; uma a&#231;&#227;o &#250;nica e exclusivamente divina. Aqui, &#233; o Filho de Deus que lan&#231;a os fundamentos da terra e cria os c&#233;us como obra de Suas m&#227;os. Em quarto lugar, o texto faz uma compara&#231;&#227;o entre o mundo e o Seu Criador, que, de novo, &#233; o Filho para o escritor de Hebreus. Enquanto que o cosmos de c&#233;us e terra &#233; corrupt&#237;vel, o Senhor &#233; incorrupt&#237;vel, isto &#233;, n&#227;o &#233; sujeito &#224; morte, sendo eterno. Antes de Sua encarna&#231;&#227;o, o Filho de Deus era eterno; depois de Sua morte, o Filho de Deus permanece eterno. Em quinto lugar, talvez o texto traga, atrav&#233;s das lentes de Hebreus, a esperan&#231;a da restaura&#231;&#227;o do cosmos. O Filho de Deus enrola o mundo corrupt&#237;vel como se fosse um manto e, como se fosse uma veste, Ele o muda, transformando&#8211;a. Com tudo isso, por&#233;m, Ele continua o mesmo, isto &#233;, imut&#225;vel no sentido de eterno. </p><p>Chegamos, finalmente, no s&#233;timo e &#250;ltimo vers&#237;culo que o autor de Hebreus retira do AT para se referir &#224; entroniza&#231;&#227;o c&#243;smica do Filho de Deus e, consequentemente, Sua superioridade sobre os anjos de Deus:</p><ol start="7"><li><p>&#8220;Assenta&#8211;te &#224; minha direita, at&#233; que eu ponha os teus inimigos por estrado de teus p&#233;s.&#8221; (Hb 1:13; cf. Sl 110:1)</p></li></ol><p>Ao contr&#225;rio dos seis vers&#237;culos anteriores, este &#233; o que mais aparece na argumenta&#231;&#227;o de Hebreus (5:6,10; 6:20; 7:3,11,17,21; 8:1; 10:10&#8211;13; 12:2).</p><p>Novamente, como vimos ao longo dos tr&#234;s primeiros vers&#237;culos, uma promessa para o Rei Dav&#237;dico &#233; reinterpretada atrav&#233;s do Filho do Homem de Daniel 7 para explicar o evento de Cristo: Sua ascens&#227;o e sess&#227;o ao lado de Deus. Aqui, por&#233;m, o autor pergunta a qual dos anjos Deus jamais convidou para assentar&#8211;se com Ele em seu trono e governar o mundo. Claro que apenas o Filho de Deus tem essa prerrogativa. Com efeito, mais uma vez, fica estabelecida a Sua superioridade sobre os anjos, e isso atrav&#233;s de Sua entroniza&#231;&#227;o acima de todos os c&#233;us. N&#227;o, os anjos n&#227;o reinam com Deus, mas s&#227;o apenas &#8220;esp&#237;ritos ministradores, enviados para servi&#231;o a favor dos que v&#227;o de herdar a salva&#231;&#227;o&#8221; (Hb1:14).</p><h4>CONCLUS&#195;O </h4><p>Podemos, agora, concluir algumas coisas. Como acredito que foi demonstrado, podemos dividir a ep&#237;stola aos Hebreus em duas se&#231;&#245;es: Hebreus 1:1&#8211;4 e Hebreus 1:5&#8211;14. Ambas, por&#233;m, compartilham o mesmo objetivo, que &#233; declarar que o Filho de Deus, o Senhor Jesus Cristo, &#233; superior aos anjos de Deus. Ele faz isso partindo da entroniza&#231;&#227;o c&#243;smica do Filho de Deus, que &#233; o ato do Filho herdar o reino/governo c&#243;smico do Seu Pai. Esse ato de herdar o dom&#237;nio c&#243;smico de Deus inaugura a nova era da hist&#243;ria da salva&#231;&#227;o, que &#233; a era do Esp&#237;rito de Deus e da vida. E, no entanto, o escritor de Hebreus constr&#243;i seu pensamento de modo a fundamentar sua exorta&#231;&#227;o no cap&#237;tulo 2:1&#8211;3. Se o Filho de Deus &#233; superior aos anjos de Deus, aqueles que rejeitaram a Sua mensagem sofrer&#227;o maior castigo do que aqueles que foram desobedientes &#224; mensagem trazida pelos anjos. </p><p>Com efeito, creio que ficou claro o motivo pelo qual eu tenho em alta conta esta ep&#237;stola. Minha ora&#231;&#227;o a Deus &#233; para que Ele ilume a mente dos leitores, de modo que possam ler, e entender, e apreciar como conv&#233;m este tesouro riqu&#237;ssimo da f&#233; crist&#227; primitiva. E que jamais sejamos negligentes para com a Palavra anunciada incialmente pelo Senhor e depois confirmada pelos que a ouviram.</p><p><em>Soli Deo Gloria</em></p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>Embora o corpo de Hebreus se pare&#231;a mais com um serm&#227;o ou homilia, seu final &#233; t&#237;pico das ep&#237;stolas do NT.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>&#201; claro que n&#227;o s&#227;o apenas os protestantes que v&#234;em em Romanos o umbigo da teologia da crist&#227;. Jo&#227;o Cris&#243;stomo, o maior pregador do s&#233;culo 5, lia o livro de Romanos em voz alta para si uma vez por semana. Agostinho considerava essa carta como crucial para a compreens&#227;o do restante das Escrituras.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="#footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p>"<em>Vorrede auf die Epistel S. Paul: an die Romer" in D.Martin Luther: Die ganze Heilige Schrifft Deutsch 1545 aus new zurericht, ed. Hans Volz and Heinz Blanke. Munich: Roger &amp; Bernhard. 1972, vol. 2, pp. 2254-2268.</em></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-4" href="#footnote-anchor-4" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">4</a><div class="footnote-content"><p><em><a href="https://www.bible-researcher.com/antilegomena.html">Luther's Treatment of the 'Disputed Books' of the New Testament.</a></em></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-5" href="#footnote-anchor-5" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">5</a><div class="footnote-content"><p>Ou seja, Tiago,  2 Pedro,  2 e 3 Jo&#227;o, Judas e o Apocalipse de Jo&#227;o. A canonicidade desses documentos nunca foi incontest&#225;vel durante os primeiros s&#233;culos do Cristianismo, como o foi a dos <em>Homologoumena </em>(livros indisput&#225;veis).</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-6" href="#footnote-anchor-6" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">6</a><div class="footnote-content"><p><em>Exposition of the Epistle to the Hebrews (1984).</em></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-7" href="#footnote-anchor-7" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">7</a><div class="footnote-content"><p>Logo, o conte&#250;do te&#243;rico, por assim dizer, de Hebreus n&#227;o deve ser entendido como um fim em si mesmo, sen&#227;o como a base para o chamado do autor aos seus destinat&#225;rios &#224; perseveran&#231;a na f&#233;.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-8" href="#footnote-anchor-8" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">8</a><div class="footnote-content"><p>&#8220;Universo&#8221; traduz o grego &#945;&#7984;&#8182;&#957;&#945;&#962;. Uma outra tradu&#231;&#227;o poderia ser: &#8220;eras&#8221;, ou mesmo &#8220;mundo&#8221;/&#8220;cosmos&#8221;.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-9" href="#footnote-anchor-9" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">9</a><div class="footnote-content"><p>Para uma discuss&#227;o desses assuntos, veja a introdu&#231;&#227;o do coment&#225;rio ao livro de Deuteron&#244;mio, em MERRILL, Eugene H. <strong>Deuteron&#244;mio:</strong> coment&#225;rio exeg&#233;tico. S&#227;o Paulo: Vida Nova, 2025. </p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-10" href="#footnote-anchor-10" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">10</a><div class="footnote-content"><p>H&#225; um sentido no qual os profetas do AT se distinguem, por exemplo, dos vates gregos. Isa&#237;as n&#227;o tem o mesmo papel que um Tir&#233;sias na hist&#243;ria do rei &#201;dipo porque o profeta de Israel profetiza com base dos termos da alian&#231;a do Sinai, renovada no Deuteron&#244;mio. Nesse sentido, a profecia de Isa&#237;as deve ser vista como um processo que Deus levanta contra o seu povo rebelde: Deus est&#225; literalmente processando Israel por ele ter descumprido as regula&#231;&#245;es da alian&#231;a.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-11" href="#footnote-anchor-11" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">11</a><div class="footnote-content"><p>Se n&#227;o fosse pela esperan&#231;a da vinda do Reino de Deus na nova era, poder&#237;amos dizer que esses judeus passaram a ver YHWH como um <em>deus otiosus</em> (Deus ocioso). </p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-12" href="#footnote-anchor-12" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">12</a><div class="footnote-content"><p>Imagine, ent&#227;o, a surpresa dos judeus ao ouvirem que o Esp&#237;rito Santo havia entrado mais uma vez na Hist&#243;ria por meio de Jesus de Nazar&#233; (Mt 3:16; Mc 1:10; Lc 3:22; Jo 1:32&#8211;33)!</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-13" href="#footnote-anchor-13" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">13</a><div class="footnote-content"><p>1 Enoque 103:2.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-14" href="#footnote-anchor-14" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">14</a><div class="footnote-content"><p>Um breve resumo de outros textos apocal&#237;pticos com semelhante perspectiva escatol&#243;gica pode ser visto em: ROSSANO, P; RAVASI, G; GIRLANDA A. (eds.). <em>Nuevo Diccionario de Teolog&#237;a B&#237;blica. Madrid: Ediciones Paulinas</em>, 1990, p. 1616.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-15" href="#footnote-anchor-15" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">15</a><div class="footnote-content"><p>1 Enoque 96:3.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-16" href="#footnote-anchor-16" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">16</a><div class="footnote-content"><p>Veja, por exemplo, 1 Enoque 1:6; 10:8; 19:1.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-17" href="#footnote-anchor-17" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">17</a><div class="footnote-content"><p>A interpreta&#231;&#227;o de que a lei havia sido dada por interm&#233;dio de anjos era difundida nas comunidades judaicas do s&#233;culo 1 (At 7:53; Gl 3:19).</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-18" href="#footnote-anchor-18" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">18</a><div class="footnote-content"><p>Para uma discuss&#227;o a respeito do significado da express&#227;o &#8220;Reino de Deus&#8221; como o governo de Deus na Hist&#243;ria, veja George Eldon Ladd, <em>&#8220;The Kingdom of God&#8212;Reign or Realm?&#8221;, Journal of Biblical Literature</em> 81, no. 3 (1962): 230&#8211;238; C. H. Dodd, <em>The Parables of the Kingdom</em> (1961), cap. 2, &#8220;<em>The Kingdom of God</em>&#8221;.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-19" href="#footnote-anchor-19" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">19</a><div class="footnote-content"><p>Talvez at&#233; salvo dos quatro animais que aparecem um pouco antes no cap&#237;tulo.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-20" href="#footnote-anchor-20" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">20</a><div class="footnote-content"><p>Esse vers&#237;culo provavelmente &#233; da tradu&#231;&#227;o grega (Septuaginta) de Deuteron&#244;mio 32:34, embora tamb&#233;m lembre Salmo97:7.</p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Paulo Apocalíptico ]]></title><description><![CDATA[Interpreta&#231;&#227;o de David B. Bronson da teologia do ap&#243;stolo Paulo]]></description><link>https://lucasdamota.substack.com/p/paulo-apocaliptico</link><guid isPermaLink="false">https://lucasdamota.substack.com/p/paulo-apocaliptico</guid><dc:creator><![CDATA[Lucas da Motta]]></dc:creator><pubDate>Tue, 09 Jun 2026 17:35:47 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/6da6a6e7-df3f-446b-98f2-20476ce773b1_345x256.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Algumas observa&#231;&#245;es precisam ser feitas antes de adentrarmos no tema proposto, como &#233; natural. Elas acompanhar&#227;o o argumento como pressupostos sempre presentes. </p><p>Em primeiro lugar, a vis&#227;o explicada aqui, que pode ser encontrada em <em>Paul and Apocalyptic Judaism</em>,<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a> foi elaborada por David B. Bronson antes mesmo de haver a grande revolu&#231;&#227;o dentro dos estudos do Novo Testamento e do Juda&#237;smo Palestinense, encabe&#231;ada principalmente por E.P Sanders<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a> e pelos proponentes das novas perspectivas em Paulo, como James D.G Dunn e N.T Wright. Sanders, como &#233; sabido, prop&#244;s uma nova interpreta&#231;&#227;o a respeito do Juda&#237;smo do per&#237;odo do Segundo Templo, desafiando n&#227;o apenas o paradigma protestante hist&#243;rico, assim como &#8211; e principalmente &#8211; os estudiosos do final do s&#233;culo XIX e in&#237;cio do s&#233;culo XX. Com efeito, a proposta de Bronson, em muitos aspectos, pode naturalmente ser considerada desatualizada, o que n&#227;o &#233; uma cr&#237;tica a Bronson, apenas uma observa&#231;&#227;o contextual. Em segundo lugar, meu objetivo &#233; t&#227;o somente tentar descrever as linhas gerais do pensamento de Bronson a respeito de Paulo e do Juda&#237;smo Apocal&#237;ptico, n&#227;o subscrever as suas teses. Posso ser acusado de ter entendido equivocadamente as suas opini&#245;es, mas n&#227;o de t&#234;-las defendido, porque n&#227;o as defendo de modo algum. Sou um mero paleont&#243;logo tentando descrever este f&#243;ssil extremamente interessante e parte da hist&#243;ria passada. S&#227;o estes os meus dois pressupostos essenciais.</p><p>Em <em>Paul and Apocalyptic Judaism</em>, David B. Bronson tem dois objetivos que guiam sua escrita, que &#233; responder, em primeiro lugar, a quest&#227;o de que tipo de judeu era Paulo antes de sua &#8220;convers&#227;o&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a> e, em segundo lugar, o que essa convers&#227;o significou para ele. As respostas s&#227;o imediatamente seguidas das perguntas colocadas: em primeiro lugar, Paulo era um judeu apocal&#237;ptico antes de sua convers&#227;o e, em segundo lugar, ap&#243;s sua convers&#227;o, ele &#8220;descobriu&#8221; ou &#8220;inventou&#8221; a &#8220;hist&#243;ria da salva&#231;&#227;o&#8221;. Bronson, portanto, procura demonstrar ambas as proposi&#231;&#245;es ao longo de seu artigo, partindo, como ele afirma, da distin&#231;&#227;o operada por Dietrich R&#246;sler<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-4" href="#footnote-4" target="_self">4</a> entre &#8220;Juda&#237;smo Apocal&#237;ptico&#8221; (<em>doravante</em>, JA) e &#8220;Juda&#237;smo Rab&#237;nico&#8221; (<em>doravante</em>, JR) Conv&#233;m notar, por&#233;m, que Bronson aceita apenas o aspecto formal das categorias de R&#246;sler, n&#227;o se comprometendo com seu conte&#250;do. &#201; que, para R&#246;sler, o JA era caracterizado por uma cosmovis&#227;o totalizante da realidade, integrando todos os aspectos da exist&#234;ncia, enquanto que, no JR, a &#234;nfase reca&#237;a n&#227;o tanto em uma cosmovis&#227;o quanto nas obriga&#231;&#245;es relacionadas &#224; <em>Torah</em>, &#224; observ&#226;ncia das leis e mandamentos. Essa interpreta&#231;&#227;o pode ser, conforme Bronson, posta em d&#250;vida,<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-5" href="#footnote-5" target="_self">5</a> o que n&#227;o significa que n&#227;o haja uma distin&#231;&#227;o no Juda&#237;smo primitivo entre um ala mais apocal&#237;ptica e outra mais rab&#237;nica. Essa distin&#231;&#227;o existe e &#233; a raz&#227;o pela qual Bronson continua com as categorias propostas por R&#246;sler.</p><p>Nota-se uma &#234;nfase fundamental de Bronson na import&#226;ncia da <em>primeira guerra romana de 66&#8211;73 d.C</em> em rela&#231;&#227;o tanto ao Juda&#237;smo quanto ao pr&#243;prio Cristianismo posteriores. Com a destrui&#231;&#227;o de Jerusal&#233;m no ano 70, tanto o Juda&#237;smo, dando origem &#224; sua &#8220;vers&#227;o&#8221; rab&#237;nica centrada no Talmude, quanto o Cristianismo, entraram em um processo de despolitiza&#231;&#227;o, refletindo um instinto de sobreviv&#234;ncia que, por sua vez, refletia o trauma causado pelo general Tito e suas tropas. Em segundo lugar, o evento em quest&#227;o foi um divisor de &#225;guas entre o Juda&#237;smo e o Cristianismo, que, a partir de ent&#227;o, se distanciaram progressivamente um do outro, sem, por&#233;m, perder totalmente o contato. </p><p>A destrui&#231;&#227;o de Jerusal&#233;m no ano 70 &#233; de extrema import&#226;ncia para a argumenta&#231;&#227;o de Bronson, que, atrav&#233;s dela, explica as aparentes discrep&#226;ncias entre o retrato de Paulo contido em suas ep&#237;stolas e o seu retrato contido nos Atos dos Ap&#243;stolos, o qual, segundo Bronson, foi escrito depois do ano 70 e que refletia o trauma recente. </p><p>Embora o &#237;mpeto apocal&#237;ptico dos judeus tenha cessado com a destrui&#231;&#227;o da Cidade Santa, dando origem ao rabinismo judaico, antes desse divisor de &#225;guas, os judeus apocal&#237;pticos se distinguiam dos judeus rab&#237;nicos em virtude de sua postura diante do Imp&#233;rio Romano. Podemos dizer n&#227;o apenas que, em geral, os judeus palestinenses eram anti-romanos e que os judeus da di&#225;spora eram pro-romanos, mas tamb&#233;m que, em geral, os judeus rab&#237;nicos eram pro-romanos,<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-6" href="#footnote-6" target="_self">6</a> enquanto que os judeus apocal&#237;pticos eram anti-romanos.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-7" href="#footnote-7" target="_self">7</a></p><p>Ap&#243;s fazer suas observa&#231;&#245;es sobre a destrui&#231;&#227;o de Jerusal&#233;m por Roma como o divisor de &#225;guas tanto da tradi&#231;&#227;o judaica quando da tradi&#231;&#227;o crist&#227;, Bronson admite duas coisas em rela&#231;&#227;o a Paulo, a segunda das quais &#233; a raz&#227;o pela qual ele atribui a Paulo o t&#237;tulo de &#8220;apocal&#237;ptico&#8221;. Em primeiro lugar, h&#225; elementos claramente rab&#237;nicos na teologia de Paulo, como o seu pro-romanismo (cf. Rm 13). Al&#233;m disso, de acordo com Filipenses 3, Paulo cresceu dentro de uma ortodoxia proto-rab&#237;nica (proto-rabinismo e outros cognatos = manifesta&#231;&#227;o do rabinismo anterior ao ano 70), o que explica sua tend&#234;ncia para a &#233;tica helenista, ret&#243;rica helenista e conservadorismo ou pol&#237;tica de orienta&#231;&#227;o pro-romana. Mas, em segundo lugar, temos de centralizar o evento decisivo da vida de Paulo em um <em>apocalipse</em>, na revela&#231;&#227;o que ele teve de Deus a respeito de Jesus Cristo, relatada em G&#225;latas 1 e, posteriormente, em Atos 9. E, me parece, aqui &#233; a parte central da argumenta&#231;&#227;o de Bronson, na qual ele defende tanto o apocalipticismo de Paulo quanto uma n&#227;o t&#227;o tradicional perspectiva a respeito de seu apostolado e miss&#227;o aos gentios, al&#233;m de cumprir seu segundo objetivo, que era mostrar que Paulo &#8220;descobriu&#8221; ou &#8220;inventou&#8221; a hist&#243;ria da salva&#231;&#227;o. A revela&#231;&#227;o de G&#225;latas 1, para Bronson, esconde duas coisas important&#237;ssimas: em primeiro lugar, o chamado de Paulo e seu comissionamento para ser um &#8220;ap&#243;stolo de Jesus Cristo&#8221; (1Co 1.1) e, em segundo lugar, &#8220;<em>a radical diversion of the course of history</em>&#8221;, ou seja, uma mudan&#231;a radical no curso da hist&#243;ria. Devemos nos prender um pouco nesse &#250;ltimo ponto; depois seguiremos comentando o resto da argumenta&#231;&#227;o de Bronson. Aquela mudan&#231;a radical no curso da hist&#243;ria, que estava relacionada ao encontro de Paulo com o Ressuscitado, &#233; a raz&#227;o pela qual Bronson afirma que o ap&#243;stolo descobriu a hist&#243;ria da salva&#231;&#227;o. Mas, para ele, a hist&#243;ria da salva&#231;&#227;o n&#227;o diz respeito &#224; sequ&#234;ncia ou cronologia dos atos alegadamente salv&#237;ficos de Deus, mas &#224; realiza&#231;&#227;o da salva&#231;&#227;o. Segundo Bronson:</p><p><em>&#8220;The difference between what Paul claimed to have apprehended and what other prophets claimed to have apprehended is that Paul&#8217;s was final, decisive, eschatological. And, perhaps more impressive to the historian, it has remained so from that day even to this.&#8221;</em> </p><p>Bronson, aparentemente, est&#225; afirmando que, em Paulo, h&#225; uma esp&#233;cie de <em>escatologia realizada</em>, n&#227;o tanto inaugurada, que &#233; menos radical. O que aconteceu com Paulo na estrada de Damasco fez com que o ap&#243;stolo compreendesse que o fim escatol&#243;gico havia sido realizado em Jesus Cristo. Se essa minha interpreta&#231;&#227;o estiver correta &#8211; o que n&#227;o o afirmo com toda certeza, embora o creia &#8211;, a escatologia realizada de Bronson &#233; mais um motivo para sermos cr&#237;ticos ao seu pensamento, desde que parece ser um ponto de relativa concord&#226;ncia no meio acad&#234;mico que, no Novo Testamento, &#233; uma escatologia inaugurada que &#233; a estrutura teol&#243;gica por detr&#225;s tanto das prega&#231;&#245;es de Jesus quanto dos escritos apost&#243;licos. Al&#233;m do mais, se minha interpreta&#231;&#227;o estiver correta, Bronson aparentemente credita a Paulo o ter inventado essa perspectiva acerca da hist&#243;ria da salva&#231;&#227;o, totalmente independente e contr&#225;rio &#224; prega&#231;&#227;o de Jesus, segunda a qual o Reino de Deus havia chegado, mas n&#227;o em sua plenitude. O problema &#233; que essa tens&#227;o &#8211; para n&#227;o chamarmos de contradi&#231;&#227;o &#8211; seria certamente uma fonte de v&#225;rias intrigas entre Paulo e os demais ap&#243;stolos, que conheciam a perspectiva de Jesus em primeira m&#227;o. O fato de n&#227;o haver nenhuma evid&#234;ncia a respeito de qualquer tens&#227;o no &#226;mbito da escatologia da igreja primitiva sugere que tal tens&#227;o simplesmente n&#227;o existia, e que a escatologia inaugurada, n&#227;o realizada, era o lugar-comum dos ap&#243;stolos e das v&#225;rias comunidades crist&#227;s.</p><p>Algumas coisas devem ser notadas em rela&#231;&#227;o ao chamado de Paulo e seu comissionamento para ser um ap&#243;stolo em G&#225;latas 1. &#201; que a forma e o conte&#250;do dessa epifania s&#227;o semelhantes &#8211; para n&#227;o dizer os mesmos &#8211; daqueles encontrados nos profetas de Israel do Antigo Testamento.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-8" href="#footnote-8" target="_self">8</a> Na verdade, Paulo literalmente usa Jeremias 1.5 em G&#225;latas 1.15 para falar sobre o seu chamado. Al&#233;m disso, Paulo demonstra a veracidade e a validade de seu chamado e apostolado usando os textos das Escrituras judaicas, m&#233;todo esse utilizado nos c&#237;rculos proto-rab&#237;nicos. Baseado nesse m&#233;todo, Bronson argumenta que a teologia de Paulo s&#243; poderia ser entendida por outros judeus. Os gentios n&#227;o assumiam que as Escrituras judaicas poderiam explicar a hist&#243;ria, de modo que Paulo, partindo desse pressuposto, s&#243; podia estar dialogando com outros judeus, e n&#227;o com gentios. Na verdade, Bronson radicaliza ainda mais esse princ&#237;pio: ele parece defender que o p&#250;blico-alvo das cartas autenticamente paulinas era um p&#250;blico judeu, n&#227;o gentio. E aqui aparece a nem um pouco tradicional vis&#227;o a respeito do apostolado de Paulo: Paulo n&#227;o era exatamente o ap&#243;stolo dos gentios, mas dos judeus da di&#225;spora. O termo &#8220;gentio&#8221;, ent&#227;o, n&#227;o descreve um n&#227;o-judeu, mas um judeu n&#227;o-palestinense ou, o que d&#225; no mesmo, um judeu da di&#225;spora. Segundo Bronson: </p><p>&#8220;<em>Paul was the apostle or prophet to the diaspora Jews, and only incidentally or secondarily, if at all, to the gentiles, if by the latter term we mean non-Jews.</em>&#8221; </p><p>Bronson come&#231;a, ent&#227;o, a discutir os elementos caracteristicamente apocal&#237;pticos da teologia paulina. Ele acredita que, para Paulo, o aspecto central do evento de Cristo n&#227;o era a sua vida, minist&#233;rio ou morte, mas sua ressurrei&#231;&#227;o dos mortos e exalta&#231;&#227;o, que tiveram implica&#231;&#245;es para toda a humanidade, n&#227;o apenas para os judeus. O que ocorreu <em>na</em> e <em>pela</em> ressurrei&#231;&#227;o aplica-se tanto aos gentios quanto aos judeus, sem parcialidade. Embora Paulo tenha baseado essas conclus&#245;es nas Escrituras, as suas consequ&#234;ncias n&#227;o eram bem vistas por aqueles que levavam em conta a elei&#231;&#227;o especial de Israel. Mas, para Bronson, o caracter&#237;stica mais &#243;bvia do apocalipticismo paulino dizia respeito &#224; sua miss&#227;o aos judeus da di&#225;spora &#8211; n&#227;o aos gentios, como &#233; tradicionalmente crido. O Deus de Israel tinha cumprido as suas promessas ao seu povo, elevando-o como o agente da cura e dos prop&#243;sitos redentores de Deus, o que tinha s&#233;rias implica&#231;&#245;es com respeito &#224; Roma. Al&#233;m disso, o mesmo Deus que cumpriu suas promessas enviou o seu ap&#243;stolo-profeta para que pregasse as boas-novas para os judeus que estavam longe da Terra Prometida. Bronson argumenta que ambos os pontos fizeram com que Paulo se distanciasse significativamente do JR, uma vez que eram caracter&#237;sticas do JA. Por causa disso, Bronson prefere aplicar o t&#237;tulo &#8220;apocal&#237;ptico&#8221;, e n&#227;o &#8220;rab&#237;nico&#8221;, a Paulo. Vale notar que a proclama&#231;&#227;o de Paulo n&#227;o era diretamente contra Roma, mas certamente os l&#237;deres palestinenses, respons&#225;veis pela manuten&#231;&#227;o da paz e da ordem daquela col&#244;nia romana que era Israel, sentiram as implica&#231;&#245;es pol&#237;ticas de sua teologia. Bronson acredita que, antes de sua convers&#227;o, Paulo, nascido em um ambiente fortemente proto-rab&#237;nico, nutria aspira&#231;&#245;es apocal&#237;pticas, as quais ele n&#227;o conseguiu satisfazer dentro do JR. Mas, depois de ter se encontrado com o Senhor ressurreto e entendendo os prop&#243;sitos de Deus para a hist&#243;ria, Paulo consentiu com sua inclina&#231;&#227;o apocal&#237;ptica, ao mesmo tempo em que validou seu apostolado atrav&#233;s dos m&#233;todos tipicamente proto-rab&#237;nicos.</p><p>Bronson confessa que sua interpreta&#231;&#227;o n&#227;o se parece em nada com a vis&#227;o tradicional a respeito do ap&#243;stolo Paulo. Ele argumenta, por&#233;m, que tal se d&#225; porque a sua interpreta&#231;&#227;o baseia-se nas ep&#237;stolas paulinas, escritas antes da destrui&#231;&#227;o de Jerusal&#233;m no ano 70, enquanto que a vis&#227;o tradicional baseia-se tamb&#233;m nos Atos dos Ap&#243;stolos, que foram escritos depois do ano 70. Paulo em Atos aparenta n&#227;o ser t&#227;o politicamente contr&#225;rio a Roma porque Atos &#233; pro-Roma, escrito depois do trauma que judeus e crist&#227;os tiveram n&#227;o h&#225; tanto tempo. &#201; a partir desse contexto pol&#237;tico que a diferen&#231;a entre o Paulo das ep&#237;stolas e o Paulo dos Atos deve ser considerada. Segundo Bronson:</p><p><em>&#8220;For Paul the possibility of armed rebellion was virtually inconceivable, but for Luke it was a recent and terrible memory. For Paul the problem of Rome was, for one thing, reduced by the need for social and civic sta- bility, and for another, was referred to the cosmic perspective of being ultimately a problem for history&#8217;s Lord to cope with. For Luke the vital choice was between a distinct and thorough pro-Romanism and a policy of sedition and insurrection.&#8221;</em></p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p><em>Journal of Biblical Literature</em>, Vol. 83, No. 3 (Sep., 1964), pp. 287-292.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p><em>Paul and Palestinian Judaism: A Comparison of Patterns of Religion</em> (1977).</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="#footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p>Para Brosson, Paulo aparentemente nunca abandonou o Juda&#237;smo, mas permaneceu conscientemente um judeu.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-4" href="#footnote-anchor-4" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">4</a><div class="footnote-content"><p>Ele faz esta distin&#231;&#227;o em sua monografia de 1975, <em>Gesetz und Geschichte</em>.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-5" href="#footnote-anchor-5" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">5</a><div class="footnote-content"><p>As pr&#243;prias categorias de &#8220;Juda&#237;smo Apocal&#237;ptico&#8221; e &#8220;Juda&#237;smo Rab&#237;nico&#8221;  n&#227;o s&#227;o consensuais na academia; cf. E. K&#228;ssemann, ZTK, 57 (1960), pp. 162- 85; 59 (1962), pp. 257-84; e B. Newman, NTS, 10 (1963/64), pp. 133-39, esp. p. 134, n. 4.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-6" href="#footnote-anchor-6" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">6</a><div class="footnote-content"><p>Bronson comente numa das notas: &#8220;Judas Macabeu n&#227;o &#233; mencionado no Talmude; assim observa P. Levertoff, <em>Die religi&#246;se Denkweise der Chassidim</em>, p. 111. Compar&#225;vel ao desapego estoico &#8212; segundo o qual um cidad&#227;o do mundo &#233;, de fato, um cidad&#227;o de nenhuma p&#243;lis &#8212; &#233; a racionaliza&#231;&#227;o judaica de que &#8216;n&#227;o temos senhor sen&#227;o o Senhor&#8217; (cf. R. M. Grant, <em>The Sword and the Cross</em>, p. 46), express&#227;o utilizada pelos chamaitas (Abel, op. cit., I, p. 423) e pelos refugiados da primeira guerra romana (ibid., II, p. 43), e que acabou sendo tomada como evidente por R. Yohanan ben Nappaha no s&#233;culo III d.C. (Goppelt, op. cit., p. 163).&#8221;</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-7" href="#footnote-anchor-7" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">7</a><div class="footnote-content"><p>Em outra nota: &#8220;Havia, &#233; claro, um meio-termo, ocupado pela literatura sapiencial e pelos escritos apolog&#233;ticos; cf. Cerfaux-Tondriau, op. cit., p. 218 e ss., e P. Dalbert, <em>Die Theologie der hellenistisch-j&#252;dischen Missionsliteratur unter Ausschluss von Philo und Josephus, passim.</em>&#8221;</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-8" href="#footnote-anchor-8" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">8</a><div class="footnote-content"><p>Cf. U. Wilckens, ZTK, 56 (1959), pp. 273-93; E. Jenni, TZ, 15 (1959), pp. 321-39; H. Braun, ZTK, 56 (1959), pp. 1-18.</p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O ātmān em sua relação com o corpo]]></title><description><![CDATA[Uma exposi&#231;&#227;o da vis&#227;o do Bhaktivedanta Swami Prabhupada]]></description><link>https://lucasdamota.substack.com/p/o-atman-em-sua-relacao-com-o-corpo</link><guid isPermaLink="false">https://lucasdamota.substack.com/p/o-atman-em-sua-relacao-com-o-corpo</guid><dc:creator><![CDATA[Lucas da Motta]]></dc:creator><pubDate>Mon, 08 Jun 2026 09:47:54 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/7e394642-2bdc-4c5e-bf34-bf94d4c09488_3241x3620.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="pullquote"><p>&#8220;&#211; descendente de Bharata, aquele que habita o corpo &#233; eterno e n&#227;o pode jamais ser morto. Portanto, n&#227;o precisas te lamentar por nenhuma criatura.&#8221; (Bhagavad-g&#299;t&#257; 2.30)</p></div><p>Logo no in&#237;cio do seu <em>Al&#233;m do Nascimento e da Morte</em>, o Bhaktivedanta Abhay Charan De<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a>, mais conhecido como Bhaktivedanta Swami Prabhupada, estabelece o princ&#237;pio de que deriva boa parte de seu pensamento: </p><p><em>&#8220;O primeiro passo em mat&#233;ria de auto-realiza&#231;&#227;o &#233; compreendermos que nossa verdadeira identidade &#233; independente do corpo.&#8221;</em></p><p>&#201; estabelecida aqui uma distin&#231;&#227;o qualitativa entre duas realidades: a alma e o corpo. Em segundo lugar, a alma &#8212; e somente a alma &#8212; &#233; compreendida como o centro da identidade do sujeito. Mais tarde, mas ainda neste primeiro cap&#237;tulo, Prabhupada se vale de uma analogia reveladora: a alma est&#225; para o corpo assim como um motorista est&#225; para o autom&#243;vel que dirige. Nas palavras do Bhaktivedanta: </p><p><em>&#8220;Temos que nos manter sempre &#224; parte do corpo, como senhores dele, e n&#227;o como servos. Se soubermos dirigir bem um autom&#243;vel, este nos prestar&#225; bons servi&#231;os; do contr&#225;rio, correremos perigo.&#8221;</em></p><p>Conforme explica Mircea Eliade na nota 24 do cap&#237;tulo 4 de seu <em>Mito e Realidade</em> (1972), enquanto a religi&#227;o indiana popular aceita e valoriza a exist&#234;ncia do mundo, as elites religiosas e filos&#243;ficas, buscando uma <em>liberta&#231;&#227;o</em> das ilus&#245;es e dos sofrimentos, necessariamente acabam por anular a realidade material. &#201; o caso de Prabhupada, para quem a desidentifica&#231;&#227;o do <em>eu</em> em rela&#231;&#227;o ao corpo &#233; uma condi&#231;&#227;o <em>sine qua non</em> para que o sujeito possa <em>transcender a morte e entrar no mundo espiritual que est&#225; mais al&#233;m</em>. Com efeito, o corpo &#233; uma pris&#227;o para a alma, um cativeiro para o esp&#237;rito, de modo que a identifica&#231;&#227;o do <em>eu</em> com o corpo no qual temporariamente habita &#233; uma ilus&#227;o que impede <em>a felicidade e a independ&#234;ncia que transcendem a morte</em>.</p><p>Prabhupada prossegue a sua argumenta&#231;&#227;o distinguindo a proposta de liberta&#231;&#227;o espiritual do Bhagavad-g&#299;t&#257; em rela&#231;&#227;o &#224;s propostas budistas. E, mais uma vez, a distin&#231;&#227;o qualitativa entre a alma e o corpo e a identidade do <em>eu</em> atrelada &#250;nica e exclusivamente &#224; alma espiritual desempenha um papel fundamental na compara&#231;&#227;o. &#201; que, segundo o Bhaktivedanta, os budistas, assim como os de tradi&#231;&#227;o v&#233;dica, compreendem que a identifica&#231;&#227;o corp&#243;rea &#233; <em>uma fonte de afli&#231;&#227;o</em>, uma <em>situa&#231;&#227;o delirante</em>. A solu&#231;&#227;o budista, por&#233;m, n&#227;o agrada o Bhaktivedanta, pois, ao colocar na ina&#231;&#227;o do nirvana e na desintegra&#231;&#227;o do corpo material a liberta&#231;&#227;o dos males atrelados &#224; identifica&#231;&#227;o corp&#243;rea, os budistas parecem propor um meio de <em>salva&#231;&#227;o</em> essencialmente materialista, sem a devida considera&#231;&#227;o ao elemento imaterial e irredut&#237;vel do indiv&#237;duo &#8212; o <em>&#257;tm&#257;n</em>. O Bhagavad Gita, por seu turno, <em>indica que este corpo material n&#227;o &#233; tudo o que existe</em>.</p><p>Duas coisas s&#227;o, ent&#227;o, ditas a respeito da consci&#234;ncia: em primeiro lugar, que a consci&#234;ncia &#233; absolutamente necess&#225;ria para a vitalidade do corpo, sem a qual ter&#237;amos apenas um corpo morto; em segundo lugar, que a consci&#234;ncia &#233; o <em>sintoma</em> da alma ou do esp&#237;rito. S&#243; h&#225; consci&#234;ncia, por assim dizer, porque h&#225; uma realidade mais profunda que a consci&#234;ncia, que &#233; justamente o <em>&#257;tm&#257;n</em>, o centro da identidade do sujeito. Como escreve Prabhupada:</p><p><em>Assim como fuma&#231;a e calor s&#227;o sintomas do fogo, a consci&#234;ncia &#233; o sintoma da alma. A energia da alma, ou o Eu, &#233; manifestada na forma de consci&#234;ncia. De fato, a consci&#234;ncia prova que a alma est&#225; presente.</em></p><p>E essa observa&#231;&#227;o &#233; de t&#227;o grande import&#226;ncia que ela <em>n&#227;o &#233; apenas a filosofia do Bhagavad-g&#299;t&#257;, mas a conclus&#227;o de toda a literatura v&#233;dica</em>.</p><p>Tanto os impersonalistas seguidores de &#346;a&#7749;kar&#257;c&#257;rya quanto os vai&#7779;&#7751;avas, dentro da sucess&#227;o discipular iniciada por &#346;r&#299; K&#7771;&#7779;&#7751;a, concordam neste ponto: a alma &#233; irredut&#237;vel em rela&#231;&#227;o ao corpo e o verdadeiro centro do <em>Eu Profundo</em>. Os budistas, acrescenta Prabhupada, negam isso, afirmando que a alma &#233; t&#227;o somente um epifen&#244;meno da organiza&#231;&#227;o da mat&#233;ria. Prabhupada responde que essa tese n&#227;o pode ser verdadeira, pois h&#225; casos em que, embora a mesma organiza&#231;&#227;o dos elementos f&#237;sico&#8211;qu&#237;micos se achem presentes, contudo n&#227;o h&#225; surgimento de consci&#234;ncia algum &#8212; como nos casos de pessoas mortas. Com efeito, o substrato material seria insuficiente para fazer surgir a consci&#234;ncia, implicando uma origem heterog&#234;nea do elemento espiritual humano.</p><p>Nem se pode usar do fraqu&#237;ssimo argumento de que a alma n&#227;o existe porque n&#227;o pode ser empiricamente detectada, porque n&#227;o pode ser vista. Esse &#233; simplesmente um erro deselegante de filosofia, pois ignora o fato de que h&#225; outras coisas que n&#227;o podem ser vistas, mas que, ainda assim, evidentemente existem, como o ar, as ondas radiof&#244;nicas, o som e as bact&#233;rias diminutas. Al&#233;m disso, a alma pode ser percebida por meio daquilo que lhe &#233; pr&#243;prio, por meio do seu sintoma, isto &#233;, a consci&#234;ncia.</p><p>Afastados estes mal&#8211;entendidos, Prabhupada d&#225; continuidade &#224; sua exposi&#231;&#227;o reiterando, agora com a autoridade de &#346;r&#299; K&#7771;&#7779;&#7751;a, que &#233; da falsa identifica&#231;&#227;o com o corpo que surgem as mis&#233;rias dos homens. Com efeito, </p><p><em>&#8220;&#211; filho de Kunt&#299;, o aparecimento tempor&#225;rio de felicidade e afli&#231;&#227;o, e seu desaparecimento no devido curso do tempo, s&#227;o como o aparecimento e o desaparecimento do inverno e do ver&#227;o. Eles surgem da percep&#231;&#227;o dos sentidos, &#243; descendente de Bharata, e &#233; preciso aprender a toler&#225;-los sem se perturbar.&#8221;</em> (Bg. 2.14)</p><p>O Bhaktivedanta explica essa per&#237;cope dizendo que s&#227;o os &#243;rg&#227;os dos sentidos corp&#243;reos, quando em contato com algum objeto, a causa das sensa&#231;&#245;es de prazer e desprazer. Assim, nos deliciamos com a &#225;gua quando estamos em pleno ver&#227;o escaldante, ao passo que evitamos a mesm&#237;ssima &#225;gua durante o inverno. A &#225;gua em si &#233; a mesma, mas diferentemente experimentada pelos &#243;rg&#227;os dos sentidos, que nos causam o conforto e o desconforto de ambas as situa&#231;&#245;es.</p><p>Vale notar, no entanto, que Prabhupada n&#227;o rejeita o prazer e a felicidade tomados em si mesmos. Ele explica que a alma individual, como parte integrante do Ser Supremo, &#233; constitucionalmente orientada para a felicidade e para o prazer. O nome pr&#243;prio <em>K&#7771;&#7779;&#7751;a</em>, composto de K&#7771;&#7779; = <em>o maior</em> e &#7751;a = <em>prazer</em>, significa literalmente <em>o maior prazer</em>. Sendo partes de K&#7771;&#7779;&#7751;a, cada alma anseia pelo prazer. Se, portanto, K&#7771;&#7779;&#7751;a &#233; a ess&#234;ncia da felicidade intermin&#225;vel e ilimitada, as almas, quando emanam dele, s&#227;o constitu&#237;das a partir da felicidade suprema e insuper&#225;vel e carregam em si mesmas as centelhas de sua origem. </p><p>&#201; dito que o Ser Supremo &#233; <em>sac-cid-&#257;nanda-vigraha&#7717;</em>, isto &#233;, a personifica&#231;&#227;o do conhecimento, da bem-aventuran&#231;a e da eternidade. Partindo do fato de que <em>uma gota d&#8217;&#225;gua do mar tem todas as propriedades do oceano em si</em>, o Bhaktivedanta conclui que as emana&#231;&#245;es de K&#7771;&#7779;&#7751;a espelhar&#227;o, a seu modo significativamente diminuto, o seu conhecimento, bem&#8211;aventuran&#231;a e eternidade. E isso pode ser melhor visto nas <em>cidades, estradas, pontes, grandes edif&#237;cios, monumentos e grandes civiliza&#231;&#245;es</em>. Toda a grandiosidade da cultura humana e de suas obras ao longo do tempo derivam de um princ&#237;pio do tamanho da d&#233;cima mil&#233;sima parte da ponta de um fio de cabelo, segundo as estimativas do Bhagavad-g&#299;t&#257;. Se o <em>&#257;tm&#257;n</em>, ainda que t&#227;o pequenino, &#233; capaz de t&#227;o grandes coisas &#8212; imagina Prabhupada &#8212;, quem dir&#225; o Ser Supremo, que &#233; a plenitude do conhecimento, da bem&#8211;aventuran&#231;a e da eternidade&#8230;</p><p>Assim, por serem efulg&#234;ncia menor de K&#7771;&#7779;&#7751;a, as almas s&#227;o naturalmente orientadas para as qualidades do todo: conhecimento, bem&#8211;aventuran&#231;a e eternidade. O corpo, no entanto, acrescenta Prabhupada, &#233; um obst&#225;culo &#224; realiza&#231;&#227;o da inclina&#231;&#227;o do <em>&#257;tm&#257;n</em>, frustrando&#8211;a. A liberta&#231;&#227;o do corpo, portanto, equivale &#224; libera&#231;&#227;o da alma de tudo aquilo que a impede de ser genu&#237;na e verdadeiramente feliz, n&#227;o segundo os padr&#245;es de felicidade corporais, mas segundo os padr&#245;es de felicidade espirituais; n&#227;o no corpo, mas fora dele; n&#227;o neste mundo natural, mas noutro mundo espiritual. A esse respeito, Prabhupada comenta:</p><p><em>&#8220;Atualmente, estamos tentando alcan&#231;ar a eternidade, a bem-aventuran&#231;a e o conhecimento usando um instrumento imperfeito. Na realidade, nosso avan&#231;o em dire&#231;&#227;o a estes objetivos est&#225; sendo obstru&#237;do pelo corpo material; &#233; preciso, portanto, que cheguemos &#224; realiza&#231;&#227;o de nossa exist&#234;ncia al&#233;m do corpo.&#8221;</em></p><p>O corpo &#233; composto por sentidos, os quais s&#227;o levados de um &#224; outra parte quando instigados daqui e dali por seus respectivos objetos. O Bhagavad-g&#299;t&#257; &#233; claro quanto a isso:</p><p><em>&#8220;Assim como um barco sobre as &#225;guas &#233; arrastado por um vento forte, mesmo um &#250;nico sentido em que a mente se concentre pode arrebatar a intelig&#234;ncia de um homem.&#8221;</em>(Bg. 2.67)</p><p>Urge &#224; alma ter o pleno controle sobre os os sentidos do corpo em que temporariamente habita, tornando&#8211;se, assim, um <em>gosv&#257;m&#299;</em> (= <em>aquele que controla os sentidos</em>). Segundo o Bhaktivedanta, estar t&#227;o associado ao corpo a ponto de se identificar com ele impossibilita que o indiv&#237;duo se estabele&#231;a em sua verdadeira identidade como alma espiritual. N&#227;o se pode nunca se desviar devido &#224;s armadilhas do prazer corporal, que n&#227;o &#233; prazer coisa nenhuma, pois &#233; moment&#226;neo, oscilante e intoxicante; s&#243; o prazer da alma, n&#227;o o do corpo, &#233; o verdadeiro prazer. &#201; imposs&#237;vel a quem se identifica com o corpo ou que se deixa levar pelas sensa&#231;&#245;es de prazer a ele relacionadas se estabelecer como uma alma espiritual, irredut&#237;vel e anterior ao corpo.</p><p>A centralidade da distin&#231;&#227;o qualitativa entre alma e corpo em Prabhupada pode ser sentida em sua interpreta&#231;&#227;o dos livros sagrados de outras religi&#245;es, como a B&#237;blia e o Alcor&#227;o. Em primeiro lugar, ele coloca todos esses <em>tipos</em> de livros na categoria de <em>livros de conhecimento</em>, na qual entrariam o Antigo e o Novo Testamentos, o Alcor&#227;o e os pr&#243;prios Vedas. &#8220;Qual &#233; o objetivo de todos estes livros de conhecimento?&#8221; &#8212; pergunta ele &#8212; &#8220;Eles s&#227;o feitos para nos capacitar a entender nossa posi&#231;&#227;o como almas puras. Seu objetivo &#233; limitar as atividades corp&#243;reas a determinadas regras e regula&#231;&#245;es, conhecidos como c&#243;digos morais.&#8221; Atrav&#233;s, portanto, da regula&#231;&#227;o das atividades corp&#243;reas, os livros sagrados teriam como objetivo levar os fi&#233;is a se reconhecerem como almas distintas do corpo. Isso &#233; significativo, pois d&#225; o tom da import&#226;ncia do princ&#237;pio da irredutibilidade do <em>eu</em> para o Bhaktivedanta, tanto mais quando se considera as fundamentais diferen&#231;as entre a B&#237;blia e o Bhagavad-g&#299;t&#257;, mormente no que diz respeito &#224; bondade da mat&#233;ria e &#224; centralidade da ressurrei&#231;&#227;o de Jesus Cristo no Cristianismo. Prabhupada, por&#233;m, relativiza tudo isso para poder universalizar a compreens&#227;o v&#233;dica acerca do homem.</p><p>O corpo, portanto, deve ser controlado atrav&#233;s de c&#243;digos de conduta para que a alma esteja livre de suas varia&#231;&#245;es e possa, assim, <em>alcan&#231;ar a perfei&#231;&#227;o mais elevada</em>. O mesmo princ&#237;pio regulativo, comum &#224; toda humanidade, se faz presente tamb&#233;m na rela&#231;&#227;o entre o Estado e a sociedade. O magistrado civil, com o objetivo de alcan&#231;ar a paz e a harmonia entre os seus s&#250;ditos, estipula leis para controlar seus instintos. Essa situa&#231;&#227;o &#233; condi&#231;&#227;o para a evolu&#231;&#227;o e florescimento da sociedade, da mesma forma que a disciplina tamb&#233;m o &#233; para com a vida individual de cada alma em sua rela&#231;&#227;o com o corpo.</p><p>Assim, as regula&#231;&#245;es dos Vedas, diz K&#7771;&#7779;&#7751;a a Arjuna (Bg 2.44&#8211;45), &#8220;destinam-se a controlar os tr&#234;s modos da natureza material: bondade, paix&#227;o e ignor&#226;ncia (<em>traigu&#7751;ya-vi&#7779;ay&#257; ved&#257;&#7717;</em>).&#8221; K&#7771;&#7779;&#7751;a tamb&#233;m aconselha que Arjuna se estabele&#231;a para al&#233;m das dualidades ilus&#243;rias do mundo habitado pelo corpo, ou seja, se estabele&#231;a em sua verdadeira identidade como alma espiritual. As dualidades, como prazer e dor, calor e frio etc., s&#227;o efeitos causados pelos &#243;rg&#227;os dos sentidos em contato com seus respectivos objetos, como j&#225; foi dito antes. Conv&#233;m, portanto, transcender agora o estado corp&#243;reo, deixar de ter a pr&#243;pria identidade condicionada pelo corpo, para que as dualidades sejam vencidas e se alcance os mundos espirituais. Prabhupada &#233; enf&#225;tico em negar que &#233; proibido ao homem qualquer forma de prazer. Seu prazer, no entanto, n&#227;o est&#225; na realidade material, mas al&#233;m do corpo. Conforme ele escreve:</p><p><em>&#8220;Temos o direito natural de sentir prazer, pois essa &#233; a caracter&#237;stica da alma espiritual, mas a alma espiritual tenta sentir prazer materialmente, e a&#237; est&#225; o erro.&#8221;</em></p><p>Prabhupada, ent&#227;o, critica o condicionamento do prazer &#224; mat&#233;ria e ao corpo. Ele observa que bem pode uma pessoa ter as melhores qualifica&#231;&#245;es enquanto estiver viva. No entanto, t&#227;o logo morra e sua alma transmigre para um novo corpo, todo o seu conhecimento adquirido na vida anterior se perder&#225; totalmente e ele ter&#225; de, mais uma vez, come&#231;ar do zero. Ele escreve que, &#8220;em uma vida passada, algu&#233;m pode ter sido um grande s&#225;bio, mas nessa vida ele ter&#225; que come&#231;ar de novo, indo &#224; escola para aprender a ler e escrever desde o in&#237;cio. Todo o conhecimento material adquirido na vida anterior &#233; esquecido.&#8221; Logo, todo prazer e conhecimento material e corporalmente condicionados est&#227;o fadados a desaparecerem; somente um prazer e um conhecimento que seja pr&#243;prio do <em>&#257;tm&#257;n</em> &#233; eterno. </p><p>Um homem doente, aponta o Bhaktivedanta, experimenta o gosto de uma maneira diferente da de uma pessoa s&#227;, ainda que ambos estejam experimentando o mesmo alimento. De modo que, similarmente, uma pessoa intoxicada pela corporeidade n&#227;o ter&#225; a mesma experi&#234;ncia das quest&#245;es espirituais do que se estivesse completamente livre de suas influ&#234;ncias corp&#243;reas. Nesse caso, a doen&#231;a para a morte &#233; a situa&#231;&#227;o corp&#243;rea de cada qual, que distorce a pr&#243;pria maneira de se relacionar com a espiritualidade e que tem de ser, consequentemente, vencida. Assim, <em>se queremos realmente nos libertar das mis&#233;rias da exist&#234;ncia material, devemos reduzir ao m&#237;nimo os prazeres e demandas de nossos corpos</em>.</p><p>O Bhaktivedanta explica, ent&#227;o, que o prazer material e corporal, por n&#227;o ser duradouro &#8212; de fato, por n&#227;o ser eternamente duradouro &#8212;, n&#227;o &#233; prazer em absoluto, e que, portanto, somente o prazer que n&#227;o tem fim (<em>anante</em>) &#233; prazer de verdade. Os <em>yog&#299;s</em>, por exemplo, em seus esfor&#231;os de eleva&#231;&#227;o espiritual, est&#227;o experimentando aquele prazer (<em>ramante</em>) inesgot&#225;vel e inexaur&#237;vel, mas apenas porque esse prazer est&#225; relacionado com o Supremo Apreciador (<em>R&#257;ma</em>), que &#233; o pr&#243;prio K&#7771;&#7779;&#7751;a. Em &#250;ltima an&#225;lise &#8212; no c&#244;mputo geral &#8212;, K&#7771;&#7779;&#7751;a &#233; o verdadeiro apreciador, sendo que tudo o mais &#233; objeto da aprecia&#231;&#227;o da Suprema Personalidade de Deus. E aqui est&#225; uma das partes mais intrigantes da exposi&#231;&#227;o de Prabhupada.</p><p>Segundo o l&#237;der religioso, h&#225; apenas um sujeito da aprecia&#231;&#227;o, que &#233; o pr&#243;prio Supremo Apreciador. Os seres humanos s&#227;o o objeto da aprecia&#231;&#227;o, n&#227;o o sujeito da aprecia&#231;&#227;o, e o verdadeiro prazer est&#225; em reconhecer essa situa&#231;&#227;o: h&#225; apenas um apreciador; tudo o mais &#233; apreciado por ele. No entanto, isso n&#227;o significa que os humanos nunca possam participar daquele prazer do Supremo Apreciador. &#201; de grande ajuda a analogia proposta por Prabhupada: o esposo &#233; o apreciador (<em>puru&#7779;a</em>) e a esposa (<em>prak&#7771;ti</em>), a apreciada. Essa &#233; uma distin&#231;&#227;o que deve ser operada e mantida sempre em mente. Ainda assim, no momento da aprecia&#231;&#227;o do prazer, n&#227;o &#233; apenas o esposo que sente prazer nem tampouco a esposa sente um prazer menor que o do seu marido: ambos participam do mesmo prazer, na mesma intensidade. Logo, no prazer do apreciador &#8212; o esposo &#8212; est&#225; o prazer da apreciada &#8212; a esposa.</p><p>O Bhaktivedanta explica que Deus, ou seja, K&#7771;&#7779;&#7751;a, para sentir prazer, se expandiu em muitas formas, que s&#227;o justamente os seres humanos. Ele fez isso porque aparentemente estava sozinho e, assim, incapaz de ter prazer. &#201; o pr&#243;prio Bhaktivedanta que observa que &#8220;sabemos por experi&#234;ncia que praticamente n&#227;o h&#225; prazer em se sentar sozinho em um quarto e conversar com as paredes. Entretanto, se h&#225; cinco pessoas presentes, nosso prazer aumenta&#8230;&#8221;. </p><p>K&#7771;&#7779;&#7751;a se expandiu em muitas formas para ter prazer, porque o prazer s&#243; existe quando &#233; encontrado no outro, que condiciona em si a exist&#234;ncia do prazer verdadeiro. Esses outros, portanto, est&#227;o na categoria de apreciados, n&#227;o de apreciadores; s&#227;o subordinados de K&#7771;&#7779;&#7751;a, o objeto de seu prazer etc. Prabhupada logo observa que os outros, os seres humanos, embora na categoria de apreciados, podem participar do mesmo prazer de K&#7771;&#7779;&#7751;a. No prazer da Suprema Personalidade de Deus est&#225;, portanto, o prazer de todos os humanos. Mas a busca pelo prazer no mundo condicionado pela mat&#233;ria atrav&#233;s do corpo est&#225; fadada ao fracasso, &#224; destrui&#231;&#227;o, ao aniquilamento.</p><p><em>&#8220;Apenas o corpo material da entidade viva indestrut&#237;vel, imensur&#225;vel e eterna est&#225; sujeito &#224; destrui&#231;&#227;o; portanto luta, &#243; descendente de Bharata.&#8221;</em> (Bg. 2.18)</p><p>E a maneira como se pode transcender a vida corporalmente condicionada &#233; atrav&#233;s da <em>consci&#234;ncia de K&#7771;&#7779;&#7751;a</em>. E atrav&#233;s da supera&#231;&#227;o do corpo e dos tr&#234;s modos da natureza (bondade, paix&#227;o e ignor&#226;ncia), explica o Bhagavad-g&#299;t&#257;, &#233; poss&#237;vel &#8220;libertar-se do nascimento, da morte, da velhice e de suas afli&#231;&#245;es, podendo desfrutar do n&#233;ctar, mesmo nesta vida.&#8221;</p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>Abhay Charan De &#233; o nome de nascimento do Bhaktivedanta. Em sua inicia&#231;&#227;o em 1933, seu mestre espiritual, Srila Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura, deu-lhe o nome de Abhay Charanaravinda Dasa. Ele recebeu o t&#237;tulo de Bhaktivedanta devido aos seus estudos e tradu&#231;&#245;es. Swami &#233; o t&#237;tulo dado a quem assume a ordem de vida de ren&#250;ncia (sannyasa). Prabhupada &#233; o t&#237;tulo honor&#237;fico dado por seus alunos, significando &#8220;aquele aos cujos p&#233;s se refugiam os mestres&#8221;.</p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Platão muito provavelmente estava errado]]></title><description><![CDATA[Cren&#231;as verdadeiras justificadas n&#227;o s&#227;o conhecimento]]></description><link>https://lucasdamota.substack.com/p/platao-muito-provavelmente-estava</link><guid isPermaLink="false">https://lucasdamota.substack.com/p/platao-muito-provavelmente-estava</guid><dc:creator><![CDATA[Lucas da Motta]]></dc:creator><pubDate>Tue, 26 May 2026 23:16:44 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/37a398fc-70eb-4e11-8ae7-91a16800301a_1080x839.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>H&#225; muitos exemplos de artigos que, quando publicados, revolucionaram uma determinada &#225;rea da filosofia, substituindo paradigmas antigos por outros mais novos. Foi isso o que aconteceu quando, em 1892, Gottlob Frege abriu o caminho para o chamado <em>giro lingu&#237;stico</em> atrav&#233;s de seu cl&#225;ssico <em>Sobre o sentido e a refer&#234;ncia</em>, deslocando o foco filos&#243;fico da metaf&#237;sica para a linguagem. Em filosofia da mente, Thomas Nagel desafiou o reducionismo materialista com uma simples pergunta: <em>What is it like to be a bat?</em> (Como &#233; ser um morcego?), sugerindo &#8220;haver fatos al&#233;m do alcance dos conceitos humanos&#8221;, o que tornaria o problema mente-corpo insol&#250;vel em termos estritamente objetivos. J&#225; no campo da epistemologia, o papel de revolucion&#225;rio via artigo coube ao fil&#243;sofo norte-americano Edmund Gettier, que deve sua fama justamente ao texto<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a> que desafiou a defini&#231;&#227;o cl&#225;ssica de conhecimento. E &#233; precisamente esse artigo o objeto deste meu texto.</p><p>O problema da defini&#231;&#227;o de conhecimento n&#227;o &#233; algo que suscitou o interesse apenas dos fil&#243;sofos modernos. Muito pelo contr&#225;rio, Plat&#227;o, tanto no <em>Teeteto</em> quanto no <em>M&#233;non</em>, j&#225; estava discutindo esse tema, aparentemente propondo uma defini&#231;&#227;o que permaneceria inconteste durante v&#225;rias centenas de s&#233;culos. Ele parece levar em considera&#231;&#227;o em Teeteto 201 e provavelmente aceita em M&#233;non 98 a tese de que <em>o conhecimento &#233; cren&#231;a verdadeira justificada</em>. A veracidade e a justifica&#231;&#227;o de uma cren&#231;a seriam, portanto, suficientes para torn&#225;-la conhecimento e, caso uma cren&#231;a carecesse desses daqueles elementos, ela n&#227;o poderia ser considerada &#7952;&#960;&#953;&#963;&#964;&#942;&#956;&#951; (<em>episteme</em>). Como foi observado, essa defini&#231;&#227;o permaneceu o paradigma da grande maioria das perspectivas a respeito da natureza do conhecimento, sendo o modelo padr&#227;o de boa parte das epistemologias ocidentais. Gettier p&#245;e em f&#243;rmula a proposta de Plat&#227;o:</p><p><em>a</em>) S sabe que P se, e somente se,</p><p>I. P &#233; verdadeira,</p><p>II. S acredita que P [ou seja, acredita na veracidade de P, que P &#233; uma proposi&#231;&#227;o verdadeira etc.]; e</p><p>III. S est&#225; justificado em acreditar que P.</p><p>H&#225; muitas interpreta&#231;&#245;es diferentes a respeito dessa defini&#231;&#227;o. No entanto, ela foi, por um per&#237;odo significativo de tempo, o lugar-comum de muitos epistem&#243;logos. Roderick Chisholm, por exemplo, a traduz da seguinte forma:<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a></p><p><em>b</em>) S sabe que P se, e somente se,</p><p>I. S aceita que P;</p><p>II. S tem provas adequadas para P; e </p><p>III. P &#233; verdadeira.</p><p>A. J Ayer, por sua vez, reformula a tese  do seguinte modo:<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a></p><p><em>c</em>) S sabe que P se, e somente se,</p><p>I. P &#233; verdadeira,</p><p>II. S est&#225; seguro que P &#233; verdadeira, e</p><p>III. S tem o direito de estar seguro que P &#233; verdadeira.</p><p>Assim, em Chisholm, &#8220;justifica&#231;&#227;o&#8221; diz respeito a &#8220;ter provas adequadas para&#8221; e, em Ayer, a &#8220;ter o direito de estar seguro que&#8221;; ambos, por&#233;m, partem da defini&#231;&#227;o cl&#225;ssica do conhecimento como cren&#231;a verdadeira justificada, divergindo apenas quanto &#224; interpreta&#231;&#227;o do que seja essa tal de justifica&#231;&#227;o. Gettier, por sua vez, argumenta que <em>a</em> &#233; insuficiente para tornar uma mera cren&#231;a em conhecimento, sendo poss&#237;vel que exista uma cren&#231;a verdadeira e justificada que, ainda assim, n&#227;o seja conhecimento. Com efeito, atacando a base, Gettier disfere um golpe mortal ao que foi constru&#237;do sobre ela, demonstrando, assim, a insufici&#234;ncia das defini&#231;&#245;es de Chisholm, Ayer e de tantos outros que aceitaram a equa&#231;&#227;o &#8220;cren&#231;a verdadeira justificada = conhecimento&#8221;. Esse &#233; o seu objetivo em seu pequeno artigo <em>Is justified true belief knowledge?</em>. Segundo Gettier:</p><p>&#8220;<em>[&#8230;] a &#233; falsa, pois as condi&#231;&#245;es dadas acima n&#227;o constituem uma condi&#231;&#227;o suficiente para a verdade da proposi&#231;&#227;o de que S sabe que P. O mesmo argumento ir&#225; mostrar que b e c falham se substituirmos &#8220;tem provas adequadas para&#8221; ou &#8220;tem o direito de estar seguro que&#8221; por &#8220;est&#225; justificado em acreditar que&#8221;</em>.&#8221;</p><p>Antes de apresentar os seus famosos casos, conhecidos como &#8220;casos [do tipo] Gettier&#8221;, Gettier faz duas observa&#231;&#245;es muito importantes para o sucesso de sua demonstra&#231;&#227;o. Em primeiro lugar, ele observa que a justifica&#231;&#227;o <em>simpliciter</em> n&#227;o exige que uma cren&#231;a seja verdadeira, sendo poss&#237;vel que uma pessoa esteja epistemicamente justificada em acreditar numa proposi&#231;&#227;o falsa. Ele afirma:</p><p>&#8220;<em>[&#8230;] se tomarmos &#8220;justificado&#8221; no sentido em que S est&#225; justificado em acreditar que P constitui uma condi&#231;&#227;o necess&#225;ria para que S saiba que P, ent&#227;o &#233; poss&#237;vel que uma pessoa esteja justificada em acreditar numa proposi&#231;&#227;o que &#233; de facto falsa.</em>&#8221;</p><p>Em segundo lugar, Gettier defende que, se S est&#225; justificado em acreditar que P e P implica Q e S, ap&#243;s deduzir Q de P, aceita que Q, ent&#227;o S est&#225; tamb&#233;m justificado em acreditar que Q. H&#225;, ent&#227;o, uma esp&#233;cie de transfer&#234;ncia de justifica&#231;&#227;o entre cren&#231;as que est&#227;o logicamente relacionadas:<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-4" href="#footnote-4" target="_self">4</a> se P implica Q e se S est&#225; justificado em acreditar que P, ent&#227;o S est&#225; igualmente justificado em acreditar que Q ao deduzir Q de P. Esses dois aspectos s&#227;o extremamente importantes, pois Gettier operar&#225; a partir deles.</p><p>Chegamos, ent&#227;o, aos casos de Gettier propriamente ditos, pelos quais ele argumenta que a defini&#231;&#227;o cl&#225;ssica do conhecimento como cren&#231;a verdadeira justificada &#233; insuficiente, destruindo, assim, o paradigma hist&#243;rico da epistemologia. O primeiro caso &#233; o seguinte:</p><p><strong>Caso I</strong></p><p>Imaginemos que Smith e Jones se tinham candidato a um certo emprego, sendo que Smith tem fortes provas a favor da seguinte proposi&#231;&#227;o conjuntiva:</p><p><em>d</em>) Jones &#233; o homem que vai ficar com o emprego, e Jones tem dez moedas no bolso.</p><p>Digamos que as provas que Smith tem a favor de <em>d</em> sejam que o dono da companhia lhe assegurou que, por fim, Jones seria selecionado, e que ele, Smith, tenha contado as moedas do bolso de Jones h&#225; dez minutos. Evidentemente, a proposi&#231;&#227;o <em>d</em> implica a proposi&#231;&#227;o:</p><p><em>e</em>) o homem que vai ficar com o emprego tem dez moedas no bolso.</p><p>&#201; aqui que Gettier aplica seu segundo pressuposto, explicado anteriormente: Smith, em primeiro lugar, deduz <em>e</em> a partir de <em>d</em>, e, uma vez que Smith est&#225; justificado em acreditar em <em>d</em>, pois ele tem fortes provas a favor de <em>d</em>, assim tamb&#233;m ele est&#225; justificado em acreditar em <em>e</em>. Logo, Smith n&#227;o apenas est&#225; justificado em acreditar em <em>d</em>, como tamb&#233;m em acreditar em <em>e</em>, que ele deduziu a partir de <em>d</em>, a favor da qual ele tem fortes provas. Devemos ter esse cen&#225;rio sempre em mente: Smith est&#225; justificado em acreditar que &#8220;o homem que vai ficar com o emprego tem dez moedas no bolso&#8221;, pois ele est&#225; justificado em acreditar que &#8220;Jones &#233; o homem que vai ficar com o emprego&#8221; e que &#8220;Jones tem dez moedas no bolso.&#8221; Gettier, ent&#227;o, pede que imaginemos o seguinte: sem o saber, &#233; ele, Smith, e n&#227;o Jones, que vai ficar com emprego e, mais uma vez sem o saber, ele, Smith, tem dez moedas no bolso. Logo, embora a proposi&#231;&#227;o <em>d</em> seja falsa &#8211; pois n&#227;o &#233; Jones, mas Smith, que vai conseguir o emprego &#8211;, a proposi&#231;&#227;o <em>e</em> continua sendo verdadeira, pois Smith, que &#233; quem vai ficar com o emprego, tem dez moedas no bolso. As condi&#231;&#245;es supostamente suficientes para converter uma cren&#231;a em conhecimento &#8211; S sabe que P se, e somente se, (I) P &#233; verdadeira, (II) S acredita que P e (III) S est&#225; justificado em acreditar que P &#8211; s&#227;o satisfeitas no caso de Smith: (1) <em>e</em> &#233; verdadeira, (2) Smith acredita que <em>e</em> &#233; verdadeira e (3) Smith est&#225; justificado em acreditar que <em>e</em> &#233; verdadeira. <em>e</em> &#233; uma proposi&#231;&#227;o que se baseia em <em>d</em>, em rela&#231;&#227;o &#224; qual Smith est&#225; justificado por ter fortes provas; logo, Smith est&#225; tamb&#233;m justificado em acreditar em <em>e</em>. Al&#233;m disso, vimos que <em>e</em> &#233; de fato uma proposi&#231;&#227;o verdadeira, pois, embora n&#227;o seja Jones quem v&#225; ficar com o emprego, Smith, que &#233; o homem que vai ficar com o emprego, tem dez moedas no bolso. Portanto, a cren&#231;a de Smith &#233; tanto verdadeira quanto justificada. &#201; claro, por&#233;m, que a cren&#231;a de Smith n&#227;o &#233; conhecimento, pois, como observa Gettier:</p><p>&#8220;<em>[&#8230;] e &#233; verdadeira em virtude das moedas que est&#227;o no bolso de Smith, ao passo que Smith n&#227;o sabe quantas moedas tem no bolso e baseia a sua cren&#231;a em e no facto de ter contado as moedas do bolso de Jones, que ele erradamente acredita tratar-se do homem que ir&#225; ficar com o emprego.</em>&#8221;</p><p>Ou seja, Smith tem uma cren&#231;a verdadeira justificada &#8211; &#8220;o homem que vai ficar com o emprego tem dez moedas no bolso&#8221; &#8211;; mas n&#227;o &#233; verdade &#8211; como deveria ser caso a defini&#231;&#227;o cl&#225;ssica de conhecimento fosse suficiente &#8211; que a cren&#231;a de Smith seja conhecimento. Ela ainda n&#227;o &#233; conhecimento, embora seja tanto verdadeira quanto justificada. De modo que a verdade e a justifica&#231;&#227;o n&#227;o s&#227;o condi&#231;&#245;es suficientes para que uma cren&#231;a seja conhecimento.</p><p>Avancemos para o segundo caso proposto por Gettier:</p><p><strong>Caso II </strong></p><p>Digamos que Smith tem fortes provas a favor da seguinte proposi&#231;&#227;o:</p><p><em>f</em>) Jones tem um Ford.</p><p>Desde que Smith se lembra, Jones sempre teve um carro Ford, e Jones acabou de oferecer boleia a Smith enquanto estava ao volante de um Ford &#8211; s&#227;o essas as provas que Smith tem em favor de <em>f</em>. Al&#233;m disso, Smith tem outro amigo, Brown, do qual desconhece o paradeiro. Selecionando aleatoriamente tr&#234;s localidades, Smith constr&#243;i as seguintes proposi&#231;&#245;es:</p><p><em>g</em>) Ou Jones tem um Ford ou Brown est&#225; em Boston.</p><p><em>h</em>) Ou Jones tem um Ford ou Brown est&#225; em Barcelona.</p><p><em>i</em>) Ou Jones tem um Ford ou Brown est&#225; em Brest-Litovsk.</p><p>Como acontece no primeiro caso, <em>f</em> implica cada uma das proposi&#231;&#245;es acima. Smith deduziu corretamente <em>g</em>, <em>h</em> e <em>i</em> a partir de <em>f</em>. Al&#233;m disso, pelo fato de Smith estar justificado em acreditar em <em>f</em>, e dado que <em>f</em> implica <em>g</em>, <em>h</em> e <em>i</em>, Smith est&#225; tamb&#233;m justificado em acreditar em <em>g</em>, <em>h</em> e <em>i</em>. A condi&#231;&#227;o da justifica&#231;&#227;o foi satisfeita no caso das tr&#234;s proposi&#231;&#245;es acima. &#8220;Mas imagine-se agora que se verificam mais duas condi&#231;&#245;es&#8221;, sugere Gettier. Em primeiro lugar, ao contr&#225;rio do que pensava Smith, Jones nunca teve um Ford; o carro que ele dirigia era um carro alugado. Em segundo lugar, por incr&#237;vel que possa parecer, Brown de fato se encontra em Barcelona, de modo que <em>h</em> &#233; verdadeira. Ou seja, como vimos em rela&#231;&#227;o ao primeiro caso, duas coisas aconteceram com Smith: em primeiro lugar, por acreditar em <em>h</em> e pelo fato de <em>h</em> ser uma implica&#231;&#227;o de <em>f</em>, a favor da qual Smith tem fortes provas, Smith est&#225; epistemicamente justificado em acreditar em <em>h</em>. Em segundo lugar, embora Jones nunca tivesse tido um Ford, Brown est&#225; em Barcelona, de modo que <em>h</em> &#233; uma proposi&#231;&#227;o verdadeira. Com efeito, a cren&#231;a de Smith em <em>h</em> &#233; tanto verdadeira quanto justificada, embora evidentemente n&#227;o seja conhecimento.</p><p>Assim, os dois casos Gettier mostram com sucesso que a equa&#231;&#227;o &#8220;cren&#231;a verdadeira justificada = conhecimento&#8221; &#233; falsa ou, pelo menos, insuficiente. &#201; logicamente poss&#237;vel que existam cren&#231;as que s&#227;o tanto verdadeiras quanto justificadas, embora n&#227;o sejam conhecimento. A veracidade e a justifica&#231;&#227;o s&#227;o insuficientes para tornar uma cren&#231;a conhecimento, sendo necess&#225;rio ou algum outro elemento ou outra teoria epistemol&#243;gica. Como conclui Gettier:</p><p>&#8220;<em>Estes dois exemplos mostram que a defini&#231;&#227;o a n&#227;o fornece uma condi&#231;&#227;o suficiente para que algu&#233;m saiba uma dada proposi&#231;&#227;o.</em>&#8221;</p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p><em>Is justified true belief knowledge?</em> (1963)</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p><em>Roderick M. Chisholm, Perceiving: A Philosophical Study (Ithaca, NY, 1957), pp. 16.</em></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="#footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p><em>A. J. Ayer, The Problem of Knowledge (London, 1956).</em></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-4" href="#footnote-anchor-4" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">4</a><div class="footnote-content"><p>Trata-se, em termos l&#243;gicos, de fechamento da justifica&#231;&#227;o sob implica&#231;&#227;o, isto &#233;, da preserva&#231;&#227;o da justifica&#231;&#227;o atrav&#233;s de infer&#234;ncias v&#225;lidas.</p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O método diagonal de Nick Land]]></title><description><![CDATA[Como o capitalismo &#233; a intelig&#234;ncia artificial]]></description><link>https://lucasdamota.substack.com/p/o-metodo-diagonal-de-nick-land</link><guid isPermaLink="false">https://lucasdamota.substack.com/p/o-metodo-diagonal-de-nick-land</guid><dc:creator><![CDATA[Lucas da Motta]]></dc:creator><pubDate>Fri, 22 May 2026 23:13:24 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/a012af2b-567c-43ac-93c4-6b7530401dc3_738x415.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Estive lendo um artigo extremamente instigante e, como n&#227;o consegui conter o entusiasmo, decidi escrever algumas coisas sobre a ideia que ele se prop&#244;s a explicar. Vale a pena observar que eu mesmo n&#227;o concordo nem com a tese apresentada nem com as premissas que levaram a ela. Afinal de contas, n&#227;o &#233; preciso que algu&#233;m compre todo o Idealismo Transcendental de Kant para ach&#225;&#8209;lo teoricamente elegante. O artigo no qual tive contato com a ideia &#233; <a href="/__u/open.substack.com/pub/thedangerousmaybe/p/capitalism-is-artificial-intelligence?utm_source=share&amp;utm_medium=android&amp;r=6go5mm">este</a>.</p><p>&#201; famosa a tese de Nick Land segundo a qual <em>o capitalismo &#233; a intelig&#234;ncia artificial</em>, o que significa dizer que o primeiro &#233; a realiza&#231;&#227;o processual &#8212;ou hist&#243;rica &#8212; do segundo. Surgem naturalmente as perguntas: como podemos fazer com que essa senten&#231;a tenha algum sentido? Exprime ela algum significado? Se sim, qual? H&#225; muitas outras interessant&#237;ssimas perguntas que a perspectiva de Land levanta e que eu gostaria muito de comentar. No entanto, neste texto, meu objetivo &#233; tentar esclarecer uma s&#243; quest&#227;o: explicar a interpreta&#231;&#227;o <em><a href="/__u/substack.com/@thedangerousmaybe?utm_source=share&amp;utm_medium=android&amp;r=6go5mm">The Dangerous Maybe</a></em>, para quem a tese landiana &#233; um caso de ju&#237;zo anal&#237;tico <em>a posteriori</em>. </p><p>O autor do artigo original conduziu o racioc&#237;nio de uma maneira espec&#237;fica, mas eu tomei a liberdade de reconstruir o caminho com outros elementos. No entanto, o lugar em que desembocam ambos os canais de &#225;gua continua o mesmo.</p><p>Desid&#233;rio Murcho, em seu artigo <em><a href="https://criticanarede.com/introkripke.html">Uma introdu&#231;&#227;o ao necess&#225;rio a posteriori</a></em>, explica que h&#225; pelo menos tr&#234;s tipos fundamentais de modalidade: as modalidades al&#233;ticas, epist&#234;micas e sem&#226;nticas. As que s&#227;o importantes para n&#243;s s&#227;o as &#250;ltimas duas: as modalidades epist&#234;micas e sem&#226;nticas.</p><p>&#201; assim que Murcho nos explica as modalidades sem&#226;nticas:</p><p>&#8220;Tome&#8209;se, mais uma vez, a frase &#8216;S&#243;crates era um fil&#243;sofo&#8217;. Esta frase contrasta claramente com uma frase como &#8216;Se S&#243;crates era solteiro, [S&#243;crates] n&#227;o era casado&#8217;. Esta &#250;ltima frase exprime uma verdade anal&#237;tica, ao passo que a primeira exprime uma verdade sint&#233;tica. O valor de verdade de uma frase anal&#237;tica determina&#8209;se recorrendo unicamente ao significado das palavras e &#224; sintaxe (isto &#233;, ao modo de concatena&#231;&#227;o dos s&#237;mbolos que constituem a frase); mas o valor de verdade de uma frase sint&#233;tica n&#227;o se determina unicamente recorrendo ao significado das palavras e &#224; sintaxe.&#8221;</p><p>Mais dois exemplos bastam para vermos com mais facilidade a diferen&#231;a entre proposi&#231;&#245;es anal&#237;ticas e sint&#233;ticas. Considere a seguinte senten&#231;a: &#8220;todos os solteiros s&#227;o casados&#8221;. Esse &#233; um caso de uma proposi&#231;&#227;o anal&#237;tica, pois o predicado (&#8220;s&#227;o casados&#8221;) est&#225; contido no sujeito da senten&#231;a (&#8220;todos os solteiros&#8221;) &#8212; ser um solteiro significa n&#227;o ser um casado. &#201; diferente de &#8220;Plat&#227;o &#233; disc&#237;pulo de S&#243;crates&#8221;. Nesse caso, &#8220;Plat&#227;o&#8221;, o sujeito da frase, n&#227;o significa &#8220;ser disc&#237;pulo de S&#243;crates&#8221;. Logo, o predicado n&#227;o est&#225; contido no sujeito, e a senten&#231;a &#233; uma proposi&#231;&#227;o sint&#233;tica.</p><p>Uma caracter&#237;stica das proposi&#231;&#245;es anal&#237;ticas que devemos ter em mente &#233; que elas n&#227;o expandem o conjunto das coisas que conhecemos. Saber que todos os solteiros n&#227;o s&#227;o casados n&#227;o &#233; saber algo novo: voc&#234; n&#227;o tem mais informa&#231;&#245;es por mentalizar essa senten&#231;a do que tinha antes. As proposi&#231;&#245;es sint&#233;ticas, no entanto, acrescentam conhecimento novo &#224;quilo que j&#225; sabemos: voc&#234; ganha uma nova informa&#231;&#227;o quando aprende que Plat&#227;o era disc&#237;pulo de S&#243;crates.</p><p>No que diz respeito &#224;s modalidades epist&#234;micas, Murcho comenta que:</p><p>&#8220;[Elas] n&#227;o se referem ao modo como uma frase &#233; verdadeira ou falsa, mas ao modo como uma frase &#233; conhecida. Para eu saber que a frase &#8216;S&#243;crates era um fil&#243;sofo&#8217; &#233; verdadeira tenho de recorrer &#224; experi&#234;ncia emp&#237;rica: consultar registros hist&#243;ricos, por exemplo. Mas n&#227;o tenho de consultar registros hist&#243;ricos para saber que a frase &#8216;Se S&#243;crates era um fil&#243;sofo, [S&#243;crates] era um fil&#243;sofo&#8217; &#233; verdadeira [&#8230;] Chama&#8209;se conhecimento <em>a priori</em> ao primeiro tipo de conhecimento e conhecimento <em>a posteriori</em> ao segundo tipo de conhecimento.&#8221;</p><p>A ideia aqui &#233; simples: eu posso saber <em>a priori</em> que todos os tri&#226;ngulos t&#234;m tr&#234;s lados, isto &#233;, eu n&#227;o preciso verificar empiricamente todos os tri&#226;ngulos que existem para saber isso. No entanto, eu n&#227;o posso saber do mesmo modo que todos os cavalos s&#227;o negros. A experi&#234;ncia nesse caso &#233; insubstitu&#237;vel, e esse modo de se obter o conhecimento &#233; chamado <em>a posteriori</em>.</p><p>&#201; f&#225;cil querer fazer o seguinte racioc&#237;nio, como muitas vezes foi feito antes da Segunda Revolu&#231;&#227;o Copernicana: todas as proposi&#231;&#245;es anal&#237;ticas s&#227;o conhecidas <em>a priori</em>, ao passo que todas as proposi&#231;&#245;es sint&#233;ticas <em>s&#243; podem ser conhecidas a posteriori</em>. Immanuel Kant, no entanto, em resposta aos problemas que David Hume  (1711&#8211;1776) levantou, que tinham como consequ&#234;ncia que as verdades das ci&#234;ncias como a f&#237;sica eram contingentes, defendeu a exist&#234;ncia de verdades sint&#233;ticas que poderiam ser descobertas a<em> priori</em>, como, por exemplo, as verdades da f&#237;sica. Um segundo exemplo s&#227;o algumas verdades da matem&#225;tica. Para Kant, &#8220;5 + 7 = 12&#8221;, embora sendo conhecida <em>a priori</em>, &#233; uma proposi&#231;&#227;o sint&#233;tica. Ela gera novo conhecimento para o conjunto total de nossos conhecimentos e o seu predicado, &#8220;= 12&#8221;, n&#227;o est&#225; contido em seu sujeito, &#8220;5 + 7&#8221;.</p><p>Uma imagem pode facilitar a compreens&#227;o:</p><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/85f678b2-bf73-4638-b0ca-470826d50d26_1254x1254.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/85f678b2-bf73-4638-b0ca-470826d50d26_1254x1254.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p>Esta foi a descoberta de Kant: a exist&#234;ncia de proposi&#231;&#245;es sint&#233;ticas que poderiam ser estabelecidas <em>a priori</em> como verdadeiras. Veja que, representando a posi&#231;&#227;o de Kant, uma seta sai do &#8220;sint&#233;tico&#8221; para o &#8220;<em>a priori</em>&#8221;. Chamemos&#8211;na &#8220;diagonal kantiana&#8221;. Perceba, no entanto, que nenhuma seta &#233; cruzada do anal&#237;tico para o <em>a posteriori</em>. E isso tem uma raz&#227;o de ser, pois &#233; geralmente reconhecido que proposi&#231;&#245;es anal&#237;ticas <em>a posteriori</em> s&#227;o logicamente imposs&#237;veis. Segundo <em>The Dangerous Maybe</em>.</p><p>&#8220;<em>The reason why this type of proposition is outright rejected is because it involves a contradiction in terms. If a proposition is analytic, then its truth does not rely on experience, but if a proposition is a posteriori, then its truth is determined on the basis of experience. Thus, we can forget all about the analytic a posteriori proposition.</em>&#8221;</p><p>O que, por&#233;m, &#233; rejeitado por Kant e pela maioria de seus disc&#237;pulos, &#233; aceito por Nick Land. E aqui voltamos &#224; frase que abriu este artigo: &#8220;o capitalismo &#233; a intelig&#234;ncia artificial&#8221;. Para <em>The Dangerous Maybe</em>, a tese de Land s&#243; pode corretamente interpretada como uma caso de ju&#237;zo anal&#237;tico <em>a posteriori</em>. E aqui estaria a &#8220;diagonal landiana&#8221;:</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!xmM0!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F445fed51-297e-40c5-a113-7c2f8c3320db_1254x1254.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!xmM0!, /__u/lucasdamota.substack.com/w_424, /__u/lucasdamota.substack.com/c_limit, /__u/lucasdamota.substack.com/f_webp, /__u/lucasdamota.substack.com/q_auto:good, /__u/lucasdamota.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F445fed51-297e-40c5-a113-7c2f8c3320db_1254x1254.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!xmM0!, /__u/lucasdamota.substack.com/w_848, /__u/lucasdamota.substack.com/c_limit, 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data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/445fed51-297e-40c5-a113-7c2f8c3320db_1254x1254.png&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:1254,&quot;width&quot;:1254,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:1229639,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://lucasdamota.substack.com/i/198885136?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F445fed51-297e-40c5-a113-7c2f8c3320db_1254x1254.png&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!xmM0!, /__u/lucasdamota.substack.com/w_424, /__u/lucasdamota.substack.com/c_limit, /__u/lucasdamota.substack.com/f_auto, 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Primeiro, na categoria de proposi&#231;&#245;es anal&#237;ticas <em>a priori</em>. H&#225; duas dificuldades que impossibilitam essa classifica&#231;&#227;o. Em primeiro lugar, n&#227;o &#233; verdade que &#8220;o capitalismo &#233; a intelig&#234;ncia artificial&#8221; seja um ju&#237;zo anal&#237;tico, pois seu predicado n&#227;o est&#225; necessariamente contido em seu sujeito. Em segundo lugar, a verdade dessa tese s&#243; pode ser estabelecida por meio da experi&#234;ncia, n&#227;o de modo <em>a priori</em>. </p><p>Consideremos a tese a partir das proposi&#231;&#245;es sint&#233;ticas <em>a posteriori</em>. Para <em>The Dangerous Maybe</em>, essa classifica&#231;&#227;o n&#227;o tem for&#231;a suficiente para honrar total e completamente a perspectiva de Land:</p><p>&#8220;<em>The law of identity is A = A, for example, &#8220;capitalism is capitalism&#8221; or &#8220;artificial intelligence is artificial intelligence&#8221;, but, for Land, &#8220;capitalism is artificial intelligence&#8221; is essentially the same as the other two &#8212; capitalism is artificial intelligence is an instance of A = A. If this is the case, then the Landian thesis is not a synthetic proposition.</em>&#8221;</p><p>Logo, ela n&#227;o ser&#225; tamb&#233;m um caso de ju&#237;zo sint&#233;tico <em>a priori</em>. Se o fosse, a mesma dificuldade surgiria mais uma vez. O que resta &#233; a categoria de ju&#237;zos anal&#237;ticos <em>a posteriori</em>. Para ser mais preciso, o n&#250;cleo da tese de Land &#233; uma proposi&#231;&#227;o sint&#233;tica que <em>quer</em> ser anal&#237;tica.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a></p><p>Mas como isso pode ser verdadeiro? &#201; necess&#225;rio que saibamos o significado do conceito de <em>hipersti&#231;&#227;o</em>, que nada mais &#233; do que uma fic&#231;&#227;o que pode se torna realidade.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a> &#201; a partir do conceito de hipersti&#231;&#227;o que podemos entender como &#8220;o capitalismo &#233; a intelig&#234;ncia artificial&#8221; pode ser um caso de ju&#237;zo anal&#237;tico <em>a posteriori</em>. Na verdade, &#233; a partir desse conceito que podemos entender como uma proposi&#231;&#227;o pode chegar a ser classificada como um ju&#237;zo anal&#237;tico <em>a posteriori</em>, antes de tudo! &#201; que esse tipo de ju&#237;zo &#233; o melhor exemplo que poder&#237;amos ter de uma hipersti&#231;&#227;o, de uma fic&#231;&#227;o que se torna realidade.</p><p>Atualmente, a tese de Land &#233; uma proposi&#231;&#227;o anal&#237;tica <em>fict&#237;cia</em>. Ela, no entanto, est&#225; no processo de se tornar retrocronicamente uma proposi&#231;&#227;o anal&#237;tica de fato, o que acabar&#225; acontecendo. Ou seja,</p><p>&#8220;<em>Right now it is a synthetic proposition but will retroactively be revealed to be an analytic proposition and it will do so a posteriori, that is, it will do so on the basis of empirical experience in the future.</em>&#8221;</p><p>Em outras palavras, h&#225; um sentido no qual a tese de Land &#233; constitu&#237;da por uma proposi&#231;&#227;o que &#233; aparentemente sint&#233;tica. Atualmente, ela &#233; de fato uma proposi&#231;&#227;o sint&#233;tica. No entanto, ela &#233; tamb&#233;m um exemplo de hipersti&#231;&#227;o na medida em que &#233; uma proposi&#231;&#227;o <em>hipersticionalmente</em> anal&#237;tica. Sua analiticidade &#233; uma fic&#231;&#227;o atual que se revelar&#225; retrocronicamente &#8212; retrospectivamente &#8212; verdadeira, e poderemos &#8212; se estivermos vivos &#8212; saber disso <em>a posteriori</em>. Ou seja, o capitalismo est&#225; posto em um processo hist&#243;rico que culminar&#225; na revela&#231;&#227;o <em>a posteriori</em> de que ele sempre foi, em todos os seus est&#225;gios de desenvolvimento, a intelig&#234;ncia artificial em um sentido anal&#237;tico. &#201; por esse motivo que a senten&#231;a &#8220;o capitalismo &#233; a intelig&#234;ncia artificial&#8221; &#8212; ou &#8220;o capitalismo e a intelig&#234;ncia artificial s&#227;o a mesma coisa&#8221; etc. &#8212; &#233; um exemplo de um ju&#237;zo anal&#237;tico <em>a posteriori</em>. </p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>&#201; assim que The Dangerous Maybe interpreta a tese landiana: &#8220;<em>Land&#8217;s thesis &#8220;capitalism is artificial intelligence&#8221; is not an analytic apriori proposition, not a synthetic a posteriori proposition, and not a synthetic a priori proposition. My claim is that &#8220;capitalism is artificial intelligence&#8221; is an analytic a posteriori proposition. If the synthetic a priori proposition is the Kantian diagonal, then the analytic a posteriori proposition is the Landian diagonal.</em>&#8221;</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>Nas palavras de <em>The Dangerous Maybe</em>, <em>A hyperstition is a fiction that makes itself real.</em></p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Notas de um perfeccionista ]]></title><description><![CDATA[&#201; ou tudo ou nada]]></description><link>https://lucasdamota.substack.com/p/notas-de-um-perfeccionista</link><guid isPermaLink="false">https://lucasdamota.substack.com/p/notas-de-um-perfeccionista</guid><dc:creator><![CDATA[Lucas da Motta]]></dc:creator><pubDate>Fri, 15 May 2026 21:14:57 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/673eb8d6-42e9-4fac-82aa-b6f2f66ac045_698x439.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Dificilmente as coisas acontecem de maneira linear para mim. Talvez eu tenha sido enganado por uma ideia equivocada sobre o processo criativo. Pois, em minha experi&#234;ncia, quase nunca consigo executar algo minimamente significativo da primeira vez. Todas as minhas primeiras tentativas acabam por se revelar um verdadeiro fracasso. Nesse sentido, n&#227;o sou bom em quase nada daquilo a que me proponho. Nem sei como ainda n&#227;o descartei estas anota&#231;&#245;es de primeira m&#227;o.</p><p>Em um filme que assisti sobre Wolfgang Amadeus Mozart [<em>Amadeus</em> de 1984], senti&#8209;me participando da mesma frustra&#231;&#227;o que Antonio Salieri, pois as anota&#231;&#245;es do g&#234;nio alem&#227;o n&#227;o tinham nenhuma corre&#231;&#227;o &#8212; fato esse que se torna mais humilhante para n&#243;s quando sabemos que elas s&#227;o notas de primeira gera&#231;&#227;o, aut&#243;grafos originais, n&#227;o vers&#245;es posteriores baseadas em tentativa e erro de manuscritos descartados.</p><p>Mozart &#233; um deus; Salieri, um homem, e eu, um verme. Mozart cria tudo ex nihilo e da maneira mais perfeita poss&#237;vel, sem qualquer desenvolvimento hist&#243;rico que o preceda. J&#225; Salieri cria por meio de um processo evolutivo, lenta e gradualmente, o que torna inevit&#225;vel que surjam erros e imperfei&#231;&#245;es. Ao cabo, por&#233;m, tem&#8209;se algo genuinamente belo, ainda que constitu&#237;do pela hist&#243;ria fal&#237;vel. Quanto a mim &#8212; oh!, que pena de mim mesmo! &#8212; calar&#8209;me&#8209;ei sobre a compara&#231;&#227;o.</p><p>Talvez eu queira interpretar o que acabei de escrever, fornecendo alguma inteligibilidade ao conjunto de observa&#231;&#245;es acima.</p><p>A atividade criativa do meu esp&#237;rito &#233; essencialmente evolutiva, mas sem garantia alguma de sucesso. &#201; um processo evolutivo que se desdobra sobre si mesmo, aperfei&#231;oando&#8209;se indefinidamente. E o que resulta desse aperfei&#231;oamento n&#227;o &#233; mais perfeito que as tentativas anteriores. Com efeito, vejo&#8209;me aperfei&#231;oando os pr&#243;prios aperfei&#231;oamentos. E isso <em>ad nauseam</em>. Leia as primeiras observa&#231;&#245;es &#224; luz destas &#250;ltimas teoriza&#231;&#245;es, que s&#227;o as formas mais perfeitas das primeiros, e ver&#225;s duas camadas de uma mesma tentativa. Duas camadas: uma lenta e gradualmente seguida da outra rumo &#224; perfei&#231;&#227;o teimosamente distante. Eis a&#237; a suma da minha atividade espiritual.</p><p>J&#225; li incont&#225;veis vezes os mesmos cap&#237;tulos de livros s&#243; para ter a sensa&#231;&#227;o de t&#234;&#8209;los perfeitamente compreendido. &#192;s vezes, parece que busco um n&#237;vel de compreens&#227;o superior ao do pr&#243;prio autor daquele texto. N&#227;o raras vezes, essa obsess&#227;o me faz desistir de ler todo um livro por n&#227;o ter entendido um par&#225;grafo apenas de seu pref&#225;cio. Isso n&#227;o &#233; mera express&#227;o da arbitrariedade da minha vontade, como se eu quisesse que as coisas fossem assim. O perfeccionismo n&#227;o &#233; um produto do arb&#237;trio, mas uma for&#231;a que o constrange. Nessa rela&#231;&#227;o sou escravo e n&#227;o senhor.</p>]]></content:encoded></item></channel></rss>