<script data-pm-proxy="intercept"></script><?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Myriam Scotti]]></title><description><![CDATA[Escritora e poeta. Mestre em literatura e crítica literária. Colunista da revista O Odisseu.]]></description><link>https://myriamscotti.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!YiFR!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9769d93a-418f-4e00-8d01-55219849d883_1168x872.jpeg</url><title>Myriam Scotti</title><link>https://myriamscotti.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Tue, 01 Sep 2026 22:13:21 GMT</lastBuildDate><atom:link href="/__u/myriamscotti.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Myriam Scotti]]></copyright><language><![CDATA[en]]></language><webMaster><![CDATA[myriamscotti@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[myriamscotti@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Myriam Scotti]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Myriam Scotti]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[myriamscotti@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[myriamscotti@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Myriam Scotti]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[A escrita de si não é um espelho]]></title><description><![CDATA[Ensaio]]></description><link>https://myriamscotti.substack.com/p/a-escrita-de-si-nao-e-um-espelho</link><guid isPermaLink="false">https://myriamscotti.substack.com/p/a-escrita-de-si-nao-e-um-espelho</guid><dc:creator><![CDATA[Myriam Scotti]]></dc:creator><pubDate>Sun, 30 Aug 2026 01:56:01 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!df7K!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9c88146b-0f18-421e-ba57-3d8b49db10ec_941x1672.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span>Durante muito tempo, resisti &#224; autofic&#231;&#227;o. Talvez porque, para mim, sempre tenha sido mais f&#225;cil escrever sobre o outro do que escrever sobre mim mesma. Inventar uma personagem, construir sua voz, imaginar seus desejos e contradi&#231;&#245;es me oferece uma esp&#233;cie de dist&#226;ncia e tamb&#233;m de desafio em rela&#231;&#227;o ao que posso fazer por meio da imagina&#231;&#227;o. Afinal, criar uma personagem, completamente alheia a mim, me permite observ&#225;-la, desloc&#225;-la, deform&#225;-la, abandon&#225;-la durante algum tempo e depois voltar. Quando a mat&#233;ria da escrita sou eu, essa dist&#226;ncia precisa ser constru&#237;da. E talvez tenha sido essa a maior dificuldade que encontrei ao come&#231;ar a escrever </span><em><span>O peso do corpo</span></em><span>, projeto de autofic&#231;&#227;o que publiquei em fragmentos aqui no Substack.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Desde o in&#237;cio do projeto, uma quest&#227;o se imp&#244;s: como separar a autora da pessoa sobre quem estou escrevendo se, em alguma medida, elas s&#227;o a mesma? Digo &#8220;em alguma medida&#8221; porque a experi&#234;ncia de escrever come&#231;ou justamente a mostrar que essa identidade estava longe de ser simples. A mulher que viveu determinados acontecimentos n&#227;o &#233; exatamente a mesma que agora tenta narr&#225;-los. Entre uma e outra existem o tempo, a mem&#243;ria, o esquecimento, aquilo que aprendi depois e, sobretudo, a linguagem.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Uma das dificuldades mais inesperadas foi decidir o que deveria permanecer no texto. Afinal, quando escrevemos fic&#231;&#227;o a partir de personagens inventadas, tamb&#233;m escolhemos, naturalmente, quais cenas entram e quais ficam de fora. Mas, ao escrever sobre a pr&#243;pria vida, essa escolha adquire outro peso. Algumas lembran&#231;as podem at&#233; ser importantes para n&#243;s, mas completamente desnecess&#225;rias para a narrativa. Outras parecem pequenas na experi&#234;ncia vivida e, quando colocadas no papel, revelam uma for&#231;a que n&#227;o hav&#237;amos percebido. Durante o processo, havia acontecimentos de que gostava, por&#233;m n&#227;o combinaram com o projeto; assim como houve cenas que me esforcei para preservar. Havia pessoas que marcaram minha hist&#243;ria, mas que n&#227;o precisavam ser escritas e epis&#243;dios dos quais me lembrava com muita nitidez, mas que simplesmente n&#227;o pertenciam ao livro que estava escrevendo.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Foi preciso aceitar uma coisa aparentemente &#243;bvia, mas dif&#237;cil quando a mat&#233;ria &#233; autobiogr&#225;fica: nem tudo o que aconteceu precisa ser contado. Cortar uma lembran&#231;a n&#227;o significa dizer que ela n&#227;o foi importante. Significa apenas reconhecer que import&#226;ncia biogr&#225;fica e import&#226;ncia liter&#225;ria n&#227;o s&#227;o a mesma coisa.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Penso ter sido justamente a&#237; que comecei a compreender melhor aquilo que durante algum tempo me afastou da autofic&#231;&#227;o. Eu procurava um tom capaz de falar de mim sem transformar a literatura numa esp&#233;cie de depoimento. N&#227;o queria apenas registrar experi&#234;ncias nem organizar cronologicamente acontecimentos da minha vida. Queria descobrir o que poderia surgir quando essa experi&#234;ncia fosse submetida &#224;s exig&#234;ncias da forma, da linguagem e da narrativa. E confesso: encontrar esse tom continua sendo uma negocia&#231;&#227;o, ainda que os textos j&#225; estejam publicados nesta plataforma.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#201; que houve momentos em que percebi que me incomodou estar pr&#243;xima demais daquilo que aconteceu e precisei me afastar para conseguir escrever. Em outros, &#233; justamente um detalhe muito &#237;ntimo que d&#225; verdade &#224; cena. Algumas lembran&#231;as resistem &#224; linguagem; outras se transformam assim que encontram uma frase. E h&#225; ainda aquelas que, uma vez escritas, parecem j&#225; n&#227;o pertencer inteiramente a mim. Ou seja, diferentemente de uma receita de bolo, n&#227;o h&#225; receita pronta na literatura. S&#243; se descobre o que funciona enquanto se (re)escreve.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Foi durante esse processo que uma pergunta come&#231;ou a me acompanhar: quando escrevemos sobre n&#243;s mesmos, estamos revelando um &#8220;eu&#8221; que j&#225; existia ou construindo, pela linguagem, uma vers&#227;o daquele que fomos? Ora, em geral, imaginamos que primeiro existe uma identidade e, depois, a escrita tenta represent&#225;-la. Entretanto, a escrita de si n&#227;o funciona apenas como um espelho. O sujeito que escreve seleciona acontecimentos, estabelece rela&#231;&#245;es entre eles, escolhe palavras, produz sil&#234;ncios, cria come&#231;os e finais e atribui sentidos que talvez n&#227;o existissem no momento da experi&#234;ncia.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Enquanto vivemos, n&#227;o podemos editar a n&#243;s mesmos nem aos outros. N&#227;o conhecemos o final da cena, ignoramos as consequ&#234;ncias de determinados gestos, n&#227;o sabemos quais acontecimentos permanecer&#227;o na mem&#243;ria e quais desaparecer&#227;o. Simplesmente vivemos. Quando escrevemos, fazemos outra coisa. E &#233; exatamente essa diferen&#231;a que me interessa.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O &#8220;eu&#8221; que aparece no texto n&#227;o &#233; exatamente igual &#224; pessoa que vive fora dele. Mesmo quando autora, narradora e personagem parecem apontar para a mesma pessoa, alguma coisa acontece na passagem da vida para a linguagem. Entre a experi&#234;ncia e a escrita existe uma constru&#231;&#227;o.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>No s&#233;culo XIX, Arthur Rimbaud formulou uma intui&#231;&#227;o que parece antecipar parte desse problema. Em uma das cartas hoje conhecidas como </span><em><span>Cartas do vidente</span></em><span>, escreveu a famosa frase: </span><em><span>Je est un autre</span></em><span>, isto &#233;, &#8220;Eu &#233; um outro&#8221;. A constru&#231;&#227;o deliberadamente rompe a concord&#226;ncia esperada. Rimbaud n&#227;o diz </span><em><span>Je suis un autre</span></em><span>, &#8220;eu sou um outro&#8221;. Ao escrever &#8220;eu &#233;&#8221;, desestabiliza o pr&#243;prio sujeito da frase.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O gesto &#233; mais profundo do que uma provoca&#231;&#227;o gramatical. H&#225; nele a suspeita de que aquilo que fala em n&#243;s n&#227;o est&#225; inteiramente submetido ao nosso dom&#237;nio. Em outra dessas formula&#231;&#245;es, Rimbaud contesta a ideia de que o pensamento perten&#231;a soberanamente ao sujeito: seria falso dizer &#8220;eu penso&#8221;; mais apropriado seria admitir, de algum modo, que &#8220;pensam-me&#8221;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>H&#225; nessa formula&#231;&#227;o uma extraordin&#225;ria desconfian&#231;a diante da ideia de um &#8220;eu&#8221; &#237;ntegro, transparente para si mesmo e senhor absoluto de sua pr&#243;pria consci&#234;ncia. Muito antes de Freud sistematizar uma teoria do inconsciente, Rimbaud intu&#237;a poeticamente que pensamentos, imagens, desejos e contradi&#231;&#245;es podem escapar &#224;quilo que acreditamos saber sobre n&#243;s.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Essa percep&#231;&#227;o interessa de maneira particular &#224; literatura porque todo(a) escritor(a) conhece, em algum grau, a experi&#234;ncia de ser surpreendido pelo pr&#243;prio texto. Come&#231;amos a escrever acreditando saber aquilo que queremos dizer e, em determinado momento, a escrita se desloca. Uma imagem imprevista aparece; uma personagem reage de uma maneira que n&#227;o hav&#237;amos planejado; uma lembran&#231;a convoca outra aparentemente esquecida. Ou, escrevemos uma frase e, ao rel&#234;-la, percebemos nela uma tens&#227;o que ainda n&#227;o sab&#237;amos formular. H&#225; momentos muito interessantes durante a escrita em que somos quase leitores daquilo que acabamos de escrever.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O &#8220;outro&#8221; de Rimbaud, nesse sentido, n&#227;o precisa ser entendido como uma segunda pessoa escondida dentro de n&#243;s. Talvez seja mais interessante pens&#225;-lo como aquilo que desconhecemos de n&#243;s mesmos e que a linguagem, por instantes, permite aparecer. A escrita deixa ent&#227;o de ser apenas um instrumento de express&#227;o do que j&#225; sabemos. Ela se transforma tamb&#233;m em territ&#243;rio de descoberta.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Dessa maneira, penso que n&#227;o escrevemos somente porque sabemos. &#192;s vezes escrevemos para descobrir o que sabemos. Essa compreens&#227;o encontra um desvio importante no pensamento de Roland Barthes. Ao refletir sobre a narrativa, o cr&#237;tico franc&#234;s estabelece uma distin&#231;&#227;o fundamental: &#8220;Quem fala (na narrativa) n&#227;o &#233; quem escreve (na vida) e quem escreve n&#227;o &#233; quem &#233;&#8221;. Essa formula&#231;&#227;o impede que confundamos automaticamente tr&#234;s inst&#226;ncias que frequentemente tratamos como se fossem uma s&#243;: a pessoa real, o autor e o narrador.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A pessoa real possui um corpo, uma biografia, rela&#231;&#245;es, desejos, contradi&#231;&#245;es e uma exist&#234;ncia infinitamente maior do que qualquer obra que possa produzir. O autor j&#225; pertence a outra ordem: &#233; tamb&#233;m um nome inscrito na literatura, aquele sob o qual determinados textos circulam e s&#227;o reconhecidos. O narrador, por sua vez, &#233; uma constru&#231;&#227;o da pr&#243;pria obra, a voz a partir da qual uma narrativa organiza aquilo que conta. Essas tr&#234;s inst&#226;ncias podem compartilhar o mesmo nome e, ainda assim, n&#227;o se tornam id&#234;nticas. A distin&#231;&#227;o adquire uma for&#231;a ainda maior no c&#233;lebre ensaio &#8220;A morte do autor&#8221;, inclu&#237;do em </span><em><span>O rumor da l&#237;ngua</span></em><span>. Nele, Barthes escreve:</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;A escritura &#233; a destrui&#231;&#227;o de toda voz, de toda origem. A escritura &#233; esse neutro, esse composto, esse obl&#237;quo pelo qual foge o nosso sujeito, o branco-e-preto em que vem se perder toda identidade, a come&#231;ar pela do corpo que escreve. Sem d&#250;vida, sempre foi assim: desde que um fato &#233; contado para fins intransitivos, e n&#227;o para agir diretamente sobre o real, isto &#233;, finalmente, fora de qualquer fun&#231;&#227;o que n&#227;o seja o exerc&#237;cio do s&#237;mbolo, produz-se esse desligamento, a voz perde a sua origem, o autor entra na sua pr&#243;pria morte, a escritura come&#231;a.&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#201; importante compreender o alcance dessa &#8220;morte&#8221;. Barthes evidentemente n&#227;o anuncia o desaparecimento f&#237;sico do escritor, tampouco afirma que sua biografia ou as circunst&#226;ncias hist&#243;ricas de produ&#231;&#227;o de uma obra sejam irrelevantes. O que ele coloca sob suspeita &#233; a autoridade concedida ao autor como explica&#231;&#227;o definitiva de seu pr&#243;prio texto.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Durante muito tempo, ler uma obra significou, frequentemente, procurar por tr&#225;s dela a inten&#231;&#227;o de quem a escreveu: o que o autor realmente quis dizer? A pergunta pressup&#245;e que exista um significado &#250;ltimo e que ele esteja guardado na consci&#234;ncia daquele que produziu a obra. Conhecer sua inten&#231;&#227;o permitiria, ent&#227;o, solucionar o texto.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Barthes rompe com essa expectativa. Depois de escrita, uma obra n&#227;o permanece inteiramente sob o controle de quem a produziu. As palavras n&#227;o come&#231;am no escritor. Elas j&#225; existiam antes dele, possuem hist&#243;ria, acumulam sentidos, atravessam discursos sociais, convocam outros textos e estabelecem rela&#231;&#245;es que o pr&#243;prio autor pode n&#227;o ter planejado.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Da&#237; uma das frases mais provocadoras do ensaio: &#8220;&#201; a linguagem que fala, n&#227;o o autor&#8221;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Isso n&#227;o significa negar o trabalho de escrita. O escritor, sabemos: escolhe, corta, reescreve, reorganiza, hesita, abandona frases e encontra outras. A escrita &#233; tamb&#233;m decis&#227;o, t&#233;cnica e trabalho. O que Barthes retira do autor n&#227;o &#233; a autoria material da obra, mas a propriedade absoluta sobre seus significados. &#201; nesse ponto que a discuss&#227;o se torna particularmente f&#233;rtil quando pensamos na escrita de si. &#192; primeira vista, poderia parecer que h&#225; uma contradi&#231;&#227;o. Se Barthes anuncia a morte do autor, como pensar a autobiografia, as mem&#243;rias, os di&#225;rios ou as diferentes formas contempor&#226;neas de escrita autobiogr&#225;fica? Se algu&#233;m escreve sobre a pr&#243;pria experi&#234;ncia, n&#227;o seria justamente o autor a origem daquele texto?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A contradi&#231;&#227;o desaparece quando distinguimos experi&#234;ncia e linguagem. O texto autobiogr&#225;fico nasce de uma vida, mas n&#227;o &#233; a pr&#243;pria vida. A experi&#234;ncia fornece uma mat&#233;ria, por&#233;m, no instante em que essa mat&#233;ria entra na linguagem, sofre uma transforma&#231;&#227;o. &#201; selecionada, ordenada, nomeada, ganha ritmo. Certos epis&#243;dios tornam-se centrais, outros desaparecem. Uma lembran&#231;a de poucos minutos pode ocupar v&#225;rias p&#225;ginas; anos inteiros podem ser condensados em uma &#250;nica frase. Parece-me que Literatura &#233; saber o que fazer diante de tanta liberdade.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#201; que, vejam, a vida n&#227;o possui necessariamente a mesma organiza&#231;&#227;o que a narrativa lhe atribui. H&#225; ainda outra diferen&#231;a decisiva. Entre aquele que viveu e aquele que escreve existe o tempo. Quem escreve hoje sobre a pr&#243;pria inf&#226;ncia n&#227;o &#233; mais a crian&#231;a que viveu aqueles acontecimentos. Sabe coisas que ela desconhecia. Conhece consequ&#234;ncias que naquele momento ainda n&#227;o haviam ocorrido. Pode compreender determinados gestos dos adultos de maneira inteiramente diferente. Pode tamb&#233;m distorc&#234;-los, preench&#234;-los com interpreta&#231;&#245;es posteriores ou reorganiz&#225;-los a partir da pessoa em que se tornou.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Em qualquer escrita retrospectiva convivem, portanto, ao menos tr&#234;s posi&#231;&#245;es: aquele que viveu o acontecimento, aquele que hoje se lembra dele e aquele que, no interior da linguagem, transforma essa lembran&#231;a em narrativa. Essas figuras se aproximam, mas jamais coincidem perfeitamente.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#201; por isso que recordar n&#227;o significa simplesmente retirar uma cena intacta de algum arquivo interior. A mem&#243;ria tamb&#233;m trabalha (e num bel&#237;ssimo movimento de ger&#250;ndio): esquecendo, reorganizando, deslocando, associando, preenchendo vazios. Algumas lembran&#231;as talvez sobrevivam apenas porque foram narradas muitas vezes; outras podem ter sido modificadas pelas hist&#243;rias que familiares contaram sobre n&#243;s at&#233; que j&#225; n&#227;o saibamos distinguir aquilo que efetivamente recordamos daquilo que aprendemos a recordar.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A escrita acrescenta ainda outra camada a esse processo. Quando uma experi&#234;ncia se transforma em texto, aquilo que aconteceu passa a obedecer n&#227;o apenas &#224; l&#243;gica da mem&#243;ria, mas tamb&#233;m &#224;s exig&#234;ncias da linguagem. Uma frase pede ritmo; uma cena exige perspectiva; uma narrativa solicita (quase sempre) cortes. Certos detalhes adquirem uma pot&#234;ncia simb&#243;lica que talvez nunca tenham possu&#237;do quando os vivemos. O escritor percebe rela&#231;&#245;es onde antes havia apenas acontecimentos dispersos.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Nesse sentido, escrever sobre si n&#227;o &#233; recuperar o passado tal como ele foi. &#201; estabelecer, no presente, uma rela&#231;&#227;o com aquilo que fomos. E reside a&#237; uma das for&#231;as mais perturbadoras da escrita de si: acreditamos estar voltando para encontrar algu&#233;m conhecido e descobrimos um estrangeiro.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O passado nos pertence, mas j&#225; n&#227;o est&#225; dispon&#237;vel para n&#243;s de maneira integral. A pessoa que fomos permanece inacess&#237;vel em alguma medida. Podemos persegui-la por fotografias, cartas, objetos, documentos, lembran&#231;as e relatos, mas aquilo que reconstru&#237;mos ser&#225; sempre atravessado pela consci&#234;ncia daquele que somos agora.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O &#8220;eu&#8221; autobiogr&#225;fico nasce exatamente nessa dist&#226;ncia. Por isso, talvez a escrita de si seja menos um espelho do que uma esp&#233;cie de negocia&#231;&#227;o entre diferentes vers&#245;es de uma mesma exist&#234;ncia: aquele que viveu, aquele que lembra, aquele que escreve e aquele que surge quando as palavras finalmente chegam &#224; p&#225;gina.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Rimbaud desconfiava que o &#8220;eu&#8221; pudesse ser outro. Barthes mostrou que, quando entramos na linguagem, deixamos de ser a origem soberana de tudo o que nossas palavras significam. Pensadas juntas, essas duas formula&#231;&#245;es abalam a cren&#231;a de que escrever sobre si seria simplesmente contar a pr&#243;pria verdade. A (nossa) literatura pode come&#231;ar justamente quando essa seguran&#231;a desaparece. Porque aquele que escreve sobre si n&#227;o encontra no texto apenas aquilo que j&#225; sabia sobre a pr&#243;pria vida. Encontra tamb&#233;m lacunas, contradi&#231;&#245;es, inven&#231;&#245;es da mem&#243;ria e sentidos produzidos posteriormente. Encontra aquilo que foi e aquilo que j&#225; n&#227;o consegue mais alcan&#231;ar. E, algumas vezes, no espa&#231;o aberto entre experi&#234;ncia, mem&#243;ria e linguagem, encontra algu&#233;m que ainda n&#227;o sabia que era.</span></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!df7K!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9c88146b-0f18-421e-ba57-3d8b49db10ec_941x1672.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!df7K!, /__u/myriamscotti.substack.com/w_424, /__u/myriamscotti.substack.com/c_limit, /__u/myriamscotti.substack.com/f_webp, /__u/myriamscotti.substack.com/q_auto:good, /__u/myriamscotti.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9c88146b-0f18-421e-ba57-3d8b49db10ec_941x1672.png 424w, 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molhado]]></title><description><![CDATA[Conto]]></description><link>https://myriamscotti.substack.com/p/cheiro-de-peixe-de-rio-de-barro-molhado</link><guid isPermaLink="false">https://myriamscotti.substack.com/p/cheiro-de-peixe-de-rio-de-barro-molhado</guid><dc:creator><![CDATA[Myriam Scotti]]></dc:creator><pubDate>Tue, 25 Aug 2026 01:20:44 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!s7Vp!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F87875c71-3e82-4e04-975b-bc36bbc47aee_1061x599.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>A menina tomou um susto quando viu a mancha amarronzada na calcinha, uma mancha pequena ainda, meio enferrujada, espalhando devagar pelo tecido molhado, e por alguns segundos ficou apenas olhando aquilo sem entender, tentando lembrar se tinha se arranhado em algum lugar, sentado num prego solto da escola, numa ponta de madeira da ponte, qualquer coisa, mas n&#227;o conseguia recordar dor nenhuma, nem corte, nem ard&#234;ncia, nada, apenas aquela sensa&#231;&#227;o ruim crescendo dentro dela enquanto abaixava e levantava a calcinha entre os dedos como se o pano sozinho pudesse explicar o que estava acontecendo com seu corpo.</p><p>Saiu chorando at&#233; a cozinha.</p><p>A m&#227;e limpava peixe na pia e primeiro nem deu import&#226;ncia, apenas mandou a menina parar com aquele esc&#226;ndalo, mas depois pegou a calcinha da m&#227;o dela e ficou observando a mancha em sil&#234;ncio, s&#233;ria demais de repente, como quem reconhece uma lembran&#231;a antiga voltando antes do tempo.</p><p>&#8212; Se acalma, menina.</p><p>Lavou rapidamente as m&#227;os na bacia ao lado da pia, secou nos pr&#243;prios shorts e tornou a olhar para ela.</p><p>&#8212; N&#227;o pensei que tu fosse virar mulher agora t&#227;o novinha assim, mas acontece.</p><p>A menina fungava sem entender.</p><p>&#8212; Mas o que &#233; isso, m&#227;e? Eu t&#244; doente?</p><p>A m&#227;e soltou uma risada debochada.</p><p>&#8212; Doente nada, besta. Agora tu j&#225; &#233; mocinha.</p><p>Depois abriu o arm&#225;rio alto da cozinha, aquele onde guardava pano velho, linha, agulha e sacola de mercado, e separou alguns retalhos dobrados enquanto falava sem olhar diretamente pra filha:</p><p>&#8212; S&#243; tem que come&#231;ar a se cuidar mais.</p><p>&#8212; De qu&#234;?</p><p>A m&#227;e hesitou.</p><p>L&#225; fora o rio fazia aquele barulho baixo de &#225;gua cheia batendo nas estacas da casa.</p><p>&#8212; Do boto.</p><p>A menina ficou quieta imediatamente. Conhecia hist&#243;rias suficientes para entender que aquilo mudava as coisas. As meninas que viravam mocinhas come&#231;avam a ouvir recomenda&#231;&#245;es demais: n&#227;o andar sozinha no porto quando escurecesse, n&#227;o aceitar presente de homem bonito nas festas, n&#227;o tomar banho de rio depois das 18h, porque era nessas horas que o boto aparecia, vestido de branco, chap&#233;u na cabe&#231;a pra esconder o furo, sorrindo bonito para as mulheres antes de levar alguma coisa delas embora.</p><p>Ela sentiu tristeza. At&#233; aquele momento sua vida era simples, quase toda feita de brincar na rua, correr atr&#225;s dos meninos no barranco, tomar banho no rio at&#233; os dedos enrugarem e reclamar da escola. Agora existia uma coisa invis&#237;vel rondando seu corpo. Agora precisava &#8220;se cuidar&#8221;.</p><p>Naquela noite demorou muito pra dormir. Ficou escutando o rio atr&#225;s da casa enquanto a m&#227;e costurava na sala e o barulho da m&#225;quina atravessava a madeira fina das paredes como uma respira&#231;&#227;o apressada. De vez em quando alguma embarca&#231;&#227;o passava longe e a luz atravessava rapidamente as frestas do quarto, deslizando pelo teto.</p><p>A menina tentou permanecer acordada, mas o sono vinha em banzeiros. Quando despertou outra vez n&#227;o sabia quanto tempo tinha passado. A casa estava quieta. Quieta demais. Ent&#227;o percebeu que a porta do quarto estava aberta. N&#227;o completamente. Apenas um pouco. Havia algu&#233;m sentado na cama.</p><p>A menina primeiro pensou que fosse o pai, mas logo viu o chap&#233;u. O corpo inteiro endureceu. Quis chamar pela m&#227;e, por&#233;m sua voz parecia presa em algum lugar dentro do peito, como nos sonhos ruins em que a pessoa tenta correr e n&#227;o consegue mover as pernas. O homem n&#227;o dizia nada. Permanecia sentado perto dela, respirando devagar, e ent&#227;o a menina sentiu o cheiro. Um cheiro conhecido: de peixe, de rio, de barro molhado. E outro mais quente, um suor azedo que ela tinha certeza de j&#225; ter sentido antes, embora naquele instante n&#227;o conseguisse lembrar onde.</p><p>O homem colocou as m&#227;os por baixo do len&#231;ol lentamente, como quem procura alguma coisa escondida. A menina fechou os olhos e pensou: o boto entrou em casa. Quando ele puxou sua roupa ela tentou prender uma perna na outra, mas isso pareceu irrit&#225;-lo, porque os movimentos ficaram bruscos, pesados, e ent&#227;o veio aquela dor imposs&#237;vel, uma dor dilacerante abrindo seu ventre por dentro, t&#227;o funda que durante alguns segundos ela acreditou que fosse morrer ali mesmo, sem conseguir respirar, esmagada pelo peso daquele corpo e pelo cheiro do rio grudado nele.</p><p>Mordeu o pr&#243;prio bra&#231;o pra n&#227;o gritar. Depois ouviu apenas a respira&#231;&#227;o do homem perto do seu ouvido, forte, cansada, quase raivosa. Em algum momento ele foi embora. Ela n&#227;o viu quando. Ficou encolhida na cama, tremendo, as pernas meladas de sangue e uma dor pulsando entre elas, sem compreender direito o que tinha acontecido, sem saber se aquilo fazia parte de virar mulher, se todas as meninas passavam por aquilo depois que o sangue aparecia pela primeira vez.</p><p>Na manh&#227; seguinte acordou cedo e lavou escondido a calcinha no tanque antes que a m&#227;e levantasse. Esfregou tanto o tecido que os dedos come&#231;aram a arder. N&#227;o queria que brigassem com ela. Tinha atra&#237;do o boto pra dentro de casa. Depois disso passou a dormir com medo do cheiro antes mesmo de ouvir a porta abrindo. E por muitas noites aquilo se repetiu.</p><p>&#192;s vezes ela despertava apenas quando sentia o colch&#227;o afundar. Outras vezes j&#225; acordava com aquela respira&#231;&#227;o perto demais, o chap&#233;u parado na escurid&#227;o do quarto, o peso das m&#227;os puxando o len&#231;ol devagar. Nunca conseguia enxergar direito o rosto do homem. Parecia que a noite escondia de prop&#243;sito certas partes dele. Mas o cheiro ficava cada vez mais familiar. Meses depois sua barriga come&#231;ou a crescer. A m&#227;e primeiro disse que era verme. Depois passou a olhar a filha sob um sil&#234;ncio comprido demais.</p><p>Numa manh&#227; abafada, durante o almo&#231;o, o pai chegou da feira carregando sacolas de peixe e sentou-se &#224; mesa sem tomar banho, cansado, enxugando o suor da testa na pr&#243;pria camisa. A menina estava colocando farinha no prato quando sentiu o cheiro: de peixe, de rio, de barro molhado. Veio o cheiro quente, de suor azedo secando sobre a pele. Exatamente o mesmo.</p><p>A colher escapou da m&#227;o dela.</p><p>O pai ergueu os olhos.</p><p>&#8212; Que foi?</p><p>A menina sentiu o est&#244;mago se revolver violentamente.</p><p>Levantou da mesa e vomitou no ch&#227;o da cozinha.</p><p>Obs: conto-homenagem &#224;s tantas meninas violentadas pelos interiores do meu Estado.  A realidade amaz&#244;nica n&#227;o &#233; mitol&#243;gica! </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!s7Vp!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F87875c71-3e82-4e04-975b-bc36bbc47aee_1061x599.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!s7Vp!, /__u/myriamscotti.substack.com/w_424, /__u/myriamscotti.substack.com/c_limit, /__u/myriamscotti.substack.com/f_webp, /__u/myriamscotti.substack.com/q_auto:good, /__u/myriamscotti.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F87875c71-3e82-4e04-975b-bc36bbc47aee_1061x599.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!s7Vp!, /__u/myriamscotti.substack.com/w_848, /__u/myriamscotti.substack.com/c_limit, 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isPermaLink="false">https://myriamscotti.substack.com/p/rasga-mortalha</guid><dc:creator><![CDATA[Myriam Scotti]]></dc:creator><pubDate>Fri, 21 Aug 2026 19:32:22 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!cEHt!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F347e2a23-4a53-4d3a-b1f3-f64d9a6ebd84_1091x895.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Um calor danado me afogueando, daqueles que deixam a roupa grudada no corpo e o pensamento mole. Avisei a m&#227;e que ia no igarap&#233; me refrescar. Ela nem tirou os olhos da pia onde limpava os bod&#243;s, mas a voz saiu seca:</p><p>&#8212; Tu t&#225; naqueles dias, menina. N&#227;o pode.</p><p>Continuei parada na porta, abanando a blusa pra entrar vento por dentro.</p><p>&#8212; Mas eu t&#244; que n&#227;o me aguento com esse calor, m&#227;e.</p><p>Ela largou a faca. S&#243; ent&#227;o me olhou.</p><p>&#8212; V&#225; no tanque e joga uma &#225;gua na cara, mas tomar banho no igarap&#233; n&#227;o pode.</p><p>Falou baixo, daquele jeito que ela falava quando tinha medo de alguma coisa escutar.</p><p>Eu devia ter obedecido.</p><p>Mas ningu&#233;m aguenta agosto no interior. O ver&#227;o amaz&#244;nico faz o mundo ficar parado, at&#233; os cachorros dormem com a l&#237;ngua pra fora. Aproveitei que ia na casa da tia Arminda buscar um bolo de macaxeira e me taquei pelo caminho do igarap&#233;. A mata inteira chiava. Cigarra, folha seca, galho estalando. E aquele cheiro de &#225;gua gelada e fresca chegando antes da &#225;gua.</p><p>Quando cheguei, tudo tava quieto demais.</p><p>Nem menino pulando da ponte, nem mulher lavando roupa, nem casco de canoa batendo. S&#243; o igarap&#233; liso, escuro, parado igual um olho aberto.</p><p>Nem pedi licen&#231;a pra M&#227;e d&#8217;&#225;gua. Tirei a roupa e mergulhei de uma vez.</p><p>A &#225;gua gelada me abocanhou inteira. Na mesma hora o corpo desacendeu. Fiquei de bubuia um tempo, olhando as nuvens correndo no c&#233;u branco, sentindo o mundo distante, como se eu tivesse afundado mais do que devia. Debaixo d&#8217;&#225;gua dava pra ouvir um zumbido grosso, quase uma voz.</p><p>Quando sa&#237;, fui sentar na beira. Enterrei os p&#233;s na areia molhada e comecei a desenhar riscos com o dedo.</p><p>Foi ent&#227;o que ouvi:</p><p>Um grito comprido, arranhado, saindo de algum lugar muito perto do meu ouvido.</p><p>Quase ca&#237; pra tr&#225;s. Olhei pros lados. Nada.</p><p>Ent&#227;o, o grito veio de novo: Rasga-mortalha! Reconheci na hora. Aquele pio desgra&#231;ado que anuncia morte. S&#243; que n&#227;o parecia vir da mata. Parecia vir de dentro da minha cabe&#231;a. Tapei os ouvidos, mas continuava escutando. Quanto mais eu tentava afastar, mais perto ficava. O som atravessava meu ju&#237;zo, entrando fino pelo olho, pelo nariz, pela garganta. Comecei a sentir tontura. Foi quando notei os c&#237;rculos na &#225;gua. Pequenos primeiro. Depois maiores, bem maiores, como se algu&#233;m respirasse l&#225; embaixo.</p><p>Fiquei olhando. Sem conseguir piscar, sentindo uma dor terr&#237;vel na cabe&#231;a. Foi quando vi uma coisa escura se mexendo no fundo. N&#227;o dava pra ver direito, mas eu sabia que tava me olhando de volta. O grito da rasga-mortalha veio outra vez, t&#227;o forte que senti uma fisgada no ventre. Uma dor quente escorreu entre minhas pernas e pensei na minha m&#227;e, no jeito que ela tinha baixado a voz antes de eu sair.</p><p>N&#227;o pode.</p><p>A &#225;gua come&#231;ou a bater devagar na margem. Indo e vindo. Indo e vindo. Parecia chamar. E levantei sem perceber que tava levantando. Entrei no igarap&#233; de novo e a &#225;gua subiu pelos meus tornozelos, meus joelhos, minhas coxas. Gelada. Boa. O grito diminu&#237;a quanto mais eu avan&#231;ava. Era isso que ela queria: que eu fosse cada vez mais fundo.</p><p>Os c&#237;rculos se abriram bem na minha frente e por um instante vi um rosto debaixo d&#8217;&#225;gua. Branco, inchado, os cabelos boiando feito raiz. Os olhos abertos demais. Mas o pior foi perceber que o rosto era parecido com o meu. &nbsp;Senti uma felicidade estranha. Uma calma que nunca senti antes. Era bom. Pensei que talvez eu j&#225; estivesse cansada da vida e s&#243; n&#227;o soubesse. Afundei mais um passo. Ent&#227;o alguma coisa agarrou meu cabelo com for&#231;a.</p><p>&#8212; Menina desgra&#231;ada!</p><p>Era tia Arminda. Ela puxava meus cabelos enquanto eu me debatia, tentando voltar pra &#225;gua. Eu queria explicar que precisava entrar outra vez, que tinha algu&#233;m me esperando l&#225; embaixo, algu&#233;m que conhecia meu nome. Mas minha boca s&#243; fazia entrar &#225;gua e barro.</p><p>&#8212; Me larga! &#8212; gritei. &#8212; Ela t&#225; me chamando!</p><p>Tia Arminda ficou p&#225;lida. Me arrastou pela areia at&#233; longe da margem. Eu arranhava o ch&#227;o tentando voltar. O grito da rasga-mortalha agora era t&#227;o alto que parecia cortar meu cr&#226;nio por dentro.</p><p>Ela segurou meu rosto com as duas m&#227;os.</p><p>&#8212; Tu n&#227;o sabe, diacho, que n&#227;o se entra no igarap&#233; quando a regra desce?</p><p>Comecei a chorar sem saber por qu&#234;. Foi ent&#227;o que olhei pro igarap&#233; mais uma vez. A superf&#237;cie tava lisinha de novo.</p><p>S&#243; os meus rastros entrando na &#225;gua. E outros, menores, saindo dela.</p><p></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!cEHt!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F347e2a23-4a53-4d3a-b1f3-f64d9a6ebd84_1091x895.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!cEHt!, /__u/myriamscotti.substack.com/w_424, /__u/myriamscotti.substack.com/c_limit, /__u/myriamscotti.substack.com/f_webp, /__u/myriamscotti.substack.com/q_auto:good, /__u/myriamscotti.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F347e2a23-4a53-4d3a-b1f3-f64d9a6ebd84_1091x895.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!cEHt!, /__u/myriamscotti.substack.com/w_848, /__u/myriamscotti.substack.com/c_limit, 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]]></title><description><![CDATA[Cr&#244;nica]]></description><link>https://myriamscotti.substack.com/p/aceito-a-condicao</link><guid isPermaLink="false">https://myriamscotti.substack.com/p/aceito-a-condicao</guid><dc:creator><![CDATA[Myriam Scotti]]></dc:creator><pubDate>Tue, 18 Aug 2026 18:18:58 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!pPCq!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F168b24cb-8255-4db1-9cf3-c57464117f40_1206x668.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p><p>Minha <em>playlist</em> dos anos 2000 era, basicamente, Los Hermanos. Fui a shows, passei horas trancada no quarto escutando os CDs, repetindo m&#250;sicas at&#233; decorar n&#227;o apenas as letras, mas as pausas, os instrumentos, os sil&#234;ncios que movimentavam tantas sensa&#231;&#245;es num corpo rec&#233;m-sa&#237;do da adolesc&#234;ncia, que tateava a vida adulta. Com eles senti algo parecido com o que havia sentido, anos antes, ouvindo meu pai tocar Raul Seixas, Caetano e toda aquela gente incr&#237;vel que embalava a nossa casa e que, para mim, acabou se confundindo com a pr&#243;pria ideia dos anos 80.</p><p>Los Hermanos foi um novo sopro. Uma poesia na qual eu me reconhecia, descoberta sem a media&#231;&#227;o do meu pai. Talvez por isso suas m&#250;sicas tenham atravessado tamb&#233;m momentos importantes da minha vida. Entrei de bra&#231;os dados com meus pais para me casar ao som de <em>Casa pr&#233;-fabricada</em>. Anos depois, quando Giovanni e eu renovamos os votos, a escolhida foi <em>Meu amor &#233; teu</em>, de Marcelo Camelo.</p><p>Mas uma das m&#250;sicas de que mais gosto &#233; <em>O velho e o mo&#231;o</em>. Especialmente a segunda parte, quando diz:</p><p>&#8220;ora, se n&#227;o sou eu</p><p>quem mais vai decidir</p><p>o que &#233; bom pra mim?</p><p>dispenso a previs&#227;o.</p><p>se o que eu sou</p><p>&#233; tamb&#233;m o que escolhi ser,</p><p>aceito a condi&#231;&#227;o.&#8221;</p><p>Penso gostar tanto desses versos porque, quando os escutei pela primeira vez, tive a impress&#227;o de que poderia t&#234;-los escrito. Minha m&#227;e costumava reclamar que eu quase nunca perguntava sua opini&#227;o antes de tomar uma decis&#227;o. Isso valia para coisas pequenas, como escolher uma roupa numa loja, e para aquelas capazes de mudar o rumo de uma vida. Eu ouvia, claro. Mas perguntar o que deveria fazer era outra coisa.</p><p>Talvez essa independ&#234;ncia tenha nascido justamente da observa&#231;&#227;o do contr&#225;rio. Cresci assistindo ao quanto minha m&#227;e ainda dependia da opini&#227;o da minha av&#243; para algumas escolhas e, sem perceber, devo ter decidido construir para mim uma maneira diferente de estar no mundo. N&#227;o necessariamente melhor. Apenas minha.</p><p>Quando resolvi encerrar a sociedade que mantinha como advogada e me lan&#231;ar, &#224;s cegas, na literatura, tomei uma das decis&#245;es mais dif&#237;ceis da minha vida. E n&#227;o pedi opini&#227;o. Eu simplesmente intu&#237;a. Intu&#237;a que era aquilo que precisava fazer, embora tamb&#233;m soubesse que, por algum tempo, perderia autonomia financeira; que viriam os olhares incr&#233;dulos, as perguntas atravessadas, a desconfian&#231;a de quem talvez atribu&#237;sse minha decis&#227;o &#224; falta de ju&#237;zo, e, naquele momento, at&#233; &#224; minha sanidade pu&#233;rpera.</p><p>Como algu&#233;m abandona uma profiss&#227;o est&#225;vel para escrever livros? N&#227;o sei se abandonei alguma coisa. Quem sabe tenha apenas escolhido outra. E escolher &#233; tamb&#233;m aceitar aquilo que vem grudado &#224; escolha.</p><p>Era isso que aquela m&#250;sica parecia me dizer: se aquilo que eu era tamb&#233;m era consequ&#234;ncia do que eu escolhia ser, ent&#227;o me cabia aceitar a condi&#231;&#227;o. N&#227;o apenas a parte bonita da mudan&#231;a, mas tamb&#233;m o medo, a instabilidade, a perda, a d&#250;vida. N&#227;o havia previs&#227;o capaz de me garantir que daria certo. E talvez justamente por isso a decis&#227;o precisasse ser minha.</p><p>Minha av&#243; costumava dizer que tinha medo de que eu n&#227;o vivesse muito, porque fazia tudo com intensidade demais, como se fosse sempre a &#250;ltima vez. Durante muito tempo achei gra&#231;a. Hoje penso: mas n&#227;o &#233;, de alguma forma? Afinal, podemos voltar v&#225;rias vezes ao mesmo lugar, ouvir de novo a mesma m&#250;sica, amar a mesma pessoa, entrar outra vez no mesmo rio. Ainda assim, alguma coisa ter&#225; mudado. O lugar &#233; outro porque n&#243;s somos outros. A m&#250;sica encontra um corpo diferente.</p><p>O amor atravessou mais alguns anos. E o rio, bem, o rio nunca &#233; o mesmo.</p><p>Talvez por isso eu nunca tenha aprendido a viver pela metade. Se o que sou &#233; tamb&#233;m o que escolhi ser, aceito a condi&#231;&#227;o.</p><p></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!pPCq!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F168b24cb-8255-4db1-9cf3-c57464117f40_1206x668.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!pPCq!, /__u/myriamscotti.substack.com/w_424, /__u/myriamscotti.substack.com/c_limit, /__u/myriamscotti.substack.com/f_webp, /__u/myriamscotti.substack.com/q_auto:good, /__u/myriamscotti.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F168b24cb-8255-4db1-9cf3-c57464117f40_1206x668.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!pPCq!, /__u/myriamscotti.substack.com/w_848, 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Charbel.]]></description><link>https://myriamscotti.substack.com/p/lacunas-da-vida-real</link><guid isPermaLink="false">https://myriamscotti.substack.com/p/lacunas-da-vida-real</guid><dc:creator><![CDATA[Myriam Scotti]]></dc:creator><pubDate>Fri, 14 Aug 2026 15:38:10 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!5lgF!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9bcce5e8-d34e-4143-9fb9-5a05791105cf_1106x853.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Terminei h&#225; pouco a leitura do &#243;timo <em>Lacunas</em>, de Felipe Charbel. &#201; um livro de ensaios sobre o pr&#243;prio ensaio, sobre escrita, teorias conspirat&#243;rias e, sobretudo, sobre a vida de leitor &#8212; ou de n&#227;o leitor. Charbel escreve sobre as lacunas que vamos acumulando na vida liter&#225;ria: aqueles livros dos quais escapamos sem saber direito por qu&#234;, obras que permanecem &#224; espera enquanto seguimos acreditando que um dia haver&#225; tempo para elas.</p><p>Enquanto lia, pensei nas minhas pr&#243;prias lacunas.</p><p>Nas &#250;ltimas semanas precisei diminuir o ritmo da leitura e da escrita por motivos de sa&#250;de, mas tamb&#233;m por uma necessidade que eu vinha adiando: viver os dias reais. Tenho a impress&#227;o de que, h&#225; algum tempo, a literatura anda com as costas mais largas do que eu gostaria, ocupando um espa&#231;o que antes pertencia &#224; vida.</p><p>Foi nesses dias mais lentos que abri as gavetas dos meus filhos.</p><p>Talvez eu as tivesse negligenciado porque, no fundo, me recusava a admitir que o tempo passa. Encontrei bermudas e camisetas para crian&#231;as de oito e nove anos, embora Noah tenha completado onze em junho. Descobri cal&#231;as tamanho 16 do meu primog&#234;nito, que hoje veste M e cal&#231;a t&#234;nis 41. Separei roupas ainda novas para o irm&#227;o mais novo usar daqui a algum tempo, dobrei camisetas para doa&#231;&#227;o, encontrei sapatos que j&#225; n&#227;o cabiam em p&#233;s que cresceram mais r&#225;pido do que eu desejava como m&#227;e.</p><p>N&#227;o sei exatamente quais emo&#231;&#245;es me atravessaram enquanto enchia aquelas sacolas.</p><p>Depois vieram as minhas coisas. Sand&#225;lias se desfazendo pelo tempo. Roupas que eu n&#227;o vestia havia meses. Um edredom completamente manchado porque permanecera esquecido no fundo do arm&#225;rio, e, em Manaus, o mofo nunca esquece de ningu&#233;m. Percebi que alguns c&#244;modos j&#225; pedem uma nova dem&#227;o de tinta, que h&#225; gavetas precisando de ajuste, que a lumin&#225;ria da despensa continua queimada, esperando uma aten&#231;&#227;o que nunca chega.</p><p>Ent&#227;o fui olhar o caderno onde anoto minhas leituras.</p><p>Quarenta livros neste semestre. E isso sem contar os livros que leio com meus filhos, os artigos de jornais, a escrita e a reescrita de dois romances hist&#243;ricos, as resenhas, ensaios e cr&#244;nicas para ve&#237;culos digitais, as mesas liter&#225;rias, as oficinas de escrita, os cursos de discuss&#227;o liter&#225;ria, as palestras, as conversas liter&#225;rias que promovo, a curadoria de um festival.</p><p>Ficou evidente o motivo de tantas lacunas na minha vida de fora.</p><p>Quando penso nisso, sinto uma culpa dif&#237;cil de admitir: no fundo, eu gostaria mesmo de me ocupar apenas dos livros.</p><p>Mas o pr&#243;prio Charbel me apresentou um companheiro de inquieta&#231;&#227;o. Perto dos quarenta anos, Montaigne decidiu se aposentar &#8220;a fim de levar uma vida ociosa dali para frente&#8221;. O plano, por&#233;m, fracassou. Em vez da paz desejada, encontrou uma mente ainda mais ruidosa. A ina&#231;&#227;o lhe agitava os nervos. Foi justamente desse desconforto que nasceram seus ensaios: uma escrita livre para dar vaz&#227;o aos pensamentos que chegavam em cascata.</p><p>Reconhe&#231;o essa inquieta&#231;&#227;o. Ainda n&#227;o encontrei o equil&#237;brio entre a vida de dentro e a vida de fora. Muitas vezes vivo as duas ao mesmo tempo. Se estou num evento cercada de pessoas, de repente, me pego pensando em como terminar um texto pendente. Ou se escuto uma frase particularmente boa e, antes mesmo que a conversa continue, puxo o celular para anot&#225;-la, imaginando que talvez um dia ela caiba na boca de uma personagem.</p><p>H&#225; anos sinto dificuldade de assistir a um filme. Sempre penso nos livros que ainda preciso ler. Assistir parece uma perda de tempo, embora eu desperdice esse mesmo tempo no celular, seja por trabalho, seja por v&#237;cio.</p><p>Tamb&#233;m conhe&#231;o as madrugadas das mentes inquietas. Acordo por causa de uma hist&#243;ria que insiste em existir, por sonhar com o romance que estou escrevendo ou simplesmente porque a ansiedade resolve antecipar mil desgra&#231;as que desaparecem assim que o dia come&#231;a a despontar; meus medos t&#234;m dessas, v&#227;o se dissipando conforme os raios de sol adentram a janela.</p><p>Talvez as minhas maiores lacunas nunca tenham sido os livros que ainda n&#227;o li. Talvez sejam justamente as gavetas que demorei para abrir, as l&#226;mpadas queimadas que aprendi a n&#227;o enxergar, o edredom esquecido no fundo do arm&#225;rio, os p&#233;s dos meus filhos crescendo em sil&#234;ncio enquanto eu virava mais uma p&#225;gina. Talvez o maior desafio n&#227;o seja encontrar tempo para a literatura, mas impedir que ela ocupe tamb&#233;m o espa&#231;o daquilo que, no fim das contas, &#233; a pr&#243;pria mat&#233;ria de onde os livros nascem.</p><p>No entanto, penso que provavelmente eu esteja errada ao pensar que preciso impedir que a literatura ocupe tanto espa&#231;o. Nem sei se conseguiria existir de outra maneira. Ser&#225; mesmo que existe uma f&#243;rmula para equilibrar a vida de dentro e a de fora? Ou essa balan&#231;a nunca deixa de oscilar? Tamb&#233;m me pergunto do que fujo quando me refugio nos livros. O que h&#225; na vida do lado de fora que, &#224;s vezes, parece mais dif&#237;cil de suportar do que a companhia das palavras?</p><p>Pensando bem, essa n&#227;o &#233; uma pergunta de agora. Ainda na inf&#226;ncia eu gostava do isolamento. Brincava sozinha, conversava comigo mesma, escrevia di&#225;rios porque nunca encontrava algu&#233;m em quem pudesse confiar plenamente. Passava horas esquecidas na biblioteca/escrit&#243;rio do meu pai, cercada de livros, discos e CDs. Lembro da sensa&#231;&#227;o n&#237;tida de que ali eu era mais feliz do que em qualquer outro lugar.</p><p>Quem sabe algumas pessoas passem a vida procurando um lugar onde se sintam em casa. Eu o encontrei muito cedo. A literatura nunca foi apenas um ref&#250;gio. Talvez tenha sido, desde o princ&#237;pio, a minha maneira de habitar o mundo. E decerto seja justamente por isso que ainda me custa tanto aprender a sair dela.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!5lgF!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9bcce5e8-d34e-4143-9fb9-5a05791105cf_1106x853.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!5lgF!, /__u/myriamscotti.substack.com/w_424, /__u/myriamscotti.substack.com/c_limit, /__u/myriamscotti.substack.com/f_webp, /__u/myriamscotti.substack.com/q_auto:good, /__u/myriamscotti.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9bcce5e8-d34e-4143-9fb9-5a05791105cf_1106x853.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!5lgF!, /__u/myriamscotti.substack.com/w_848, 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isPermaLink="false">https://myriamscotti.substack.com/p/o-amor-nos-tempo-do-agora</guid><dc:creator><![CDATA[Myriam Scotti]]></dc:creator><pubDate>Thu, 13 Aug 2026 14:02:45 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!s-_8!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F256e2498-c86e-4c23-ab2c-82d588ac5106_457x657.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Tenho notado a chegada de muitos livros, filmes e s&#233;ries que voltam a falar de amor. Mas n&#227;o daquele amor piegas, embalado por promessas eternas e finais perfeitos. &#201; um amor cheio de rachaduras, feridas e recome&#231;os. Um amor que, &#224;s vezes, n&#227;o p&#244;de continuar, mas nem por isso deixou de ter sido verdadeiro enquanto existiu. Parecia imposs&#237;vel retornar a uma tem&#225;tica t&#227;o explorada. Ainda assim, ela voltou. E talvez tenha voltado porque nunca precisamos tanto dela.</p><p>Vivemos cercados por uma realidade que caminha a passos largos para a distopia. Guerras, intoler&#226;ncias, crises, a velocidade das redes, os algoritmos que nos aproximam de tudo e, paradoxalmente, nos afastam uns dos outros. Talvez por isso tenhamos voltado a procurar hist&#243;rias de amor. N&#227;o para fugir do mundo, mas para permanecer nele. N&#227;o hist&#243;rias idealizadas, mas aquelas em que nos reconhecemos. Hist&#243;rias que nos aterrem, que nos devolvam alguma humanidade, que nos fa&#231;am acreditar que ainda existe um lugar poss&#237;vel para o afeto.</p><p>Ali&#225;s, talvez seja por isso que eu mesma tenha voltado a escrever sobre o amor. J&#225; escrevi poemas, cr&#244;nicas, cartas. E, alguns anos atr&#225;s, renovei meus votos de casamento. N&#227;o porque o primeiro ritual tivesse deixado de valer, mas porque j&#225; n&#227;o &#233;ramos as mesmas pessoas. Era preciso marcar uma nova travessia. Dar nome &#224; decis&#227;o de permanecer. Reconhecer que aquele amor, para continuar vivo, precisava nascer de novo.</p><p>Desde ent&#227;o, penso que temos nos casado muitas vezes.</p><p>Casamo-nos sempre que a vida nos muda. Quando um de n&#243;s j&#225; n&#227;o cabe na vers&#227;o antiga de si mesmo oudepois das crises silenciosas, das conversas dif&#237;ceis, das pequenas decep&#231;&#245;es, das alegrias inesperadas. Casamo-nos, sobretudo, quando descobrimos que amar algu&#233;m tamb&#233;m &#233; aprender a amar quem essa pessoa est&#225; se tornando.</p><p>Nem sempre a sintonia acontece. E, quando ela se perde, n&#227;o adianta aumentar o volume: &#233; preciso reajustar a frequ&#234;ncia. Principalmente quando h&#225; filhos. Os filhos ocupam quase todo o espa&#231;o durante muitos anos. Depois, crescem; ganham autonomia. Precisam menos da nossa presen&#231;a constante. E, de repente, devolvem ao casal um tempo que parecia perdido. Esse reencontro pode ser bonito, mas tamb&#233;m assustador. Porque, se durante anos deixamos de cultivar a rela&#231;&#227;o, o hiato entre duas pessoas vai se alargando em sil&#234;ncio, at&#233; que nenhuma ponte pare&#231;a poss&#237;vel.</p><p>Relacionar-se &#233; dif&#237;cil. Amar &#233; dif&#237;cil. H&#225; ingredientes que nem sempre est&#227;o &#224; m&#227;o. &#192;s vezes, &#233; preciso remexer o fundo de n&#243;s mesmos para encontr&#225;-los. &#201; preciso renunciar ao orgulho, revisar certezas, abandonar vers&#245;es antigas da pr&#243;pria hist&#243;ria. E essa busca raramente &#233; r&#225;pida. Talvez por isso eu ache que s&#243; seja poss&#237;vel insistir quando existe amor.</p><p>Mas n&#227;o falo de um amor incondicional, aquele que tudo aceita e tudo suporta. Penso num amor flex&#237;vel. Um amor capaz de acompanhar as mudan&#231;as sem exigir perman&#234;ncias imposs&#237;veis. Um amor que compreende que ningu&#233;m atravessa a vida sem se transformar. Talvez seja esse o amor que tenha voltado &#224;s estantes e &#224;s telas. N&#227;o o amor que promete felicidade eterna, mas o que conhece as imperfei&#231;&#245;es e, ainda assim, escolhe permanecer. O amor que entende que permanecer nunca &#233; ficar parado; &#233; continuar caminhando, &#224;s vezes em ritmos diferentes, at&#233; encontrar de novo um compasso comum.</p><p>Gosto de pensar no amor como um lugar de descanso. Um lugar onde um encontra no outro a torcida mais sincera, o aplauso mais vibrante para as pequenas conquistas. E tamb&#233;m o abra&#231;o-&#250;tero: aquele que acolhe nas dores, nas aus&#234;ncias, na saudade, no desespero, nos dias em que a vontade &#233; desaparecer.</p><p>Saber que existe algu&#233;m com a m&#227;o estendida na superf&#237;cie, pronto para nos puxar de volta. Algu&#233;m que nos lembre que ainda vale a pena tentar outra vez. E falhar de novo, sem medo.</p><p>Porque o bom amor ancora.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!s-_8!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F256e2498-c86e-4c23-ab2c-82d588ac5106_457x657.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!s-_8!, /__u/myriamscotti.substack.com/w_424, /__u/myriamscotti.substack.com/c_limit, /__u/myriamscotti.substack.com/f_webp, /__u/myriamscotti.substack.com/q_auto:good, /__u/myriamscotti.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F256e2498-c86e-4c23-ab2c-82d588ac5106_457x657.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!s-_8!, /__u/myriamscotti.substack.com/w_848, /__u/myriamscotti.substack.com/c_limit, 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Julho/26]]></description><link>https://myriamscotti.substack.com/p/entre-o-caos-e-a-permanencia-a-ficcao</link><guid isPermaLink="false">https://myriamscotti.substack.com/p/entre-o-caos-e-a-permanencia-a-ficcao</guid><dc:creator><![CDATA[Myriam Scotti]]></dc:creator><pubDate>Tue, 11 Aug 2026 13:23:06 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!2tUC!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F04df668a-af6f-4cbd-a696-b60b2828f0f0_979x1500.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>H&#225; escritores que parecem retornar sempre ao mesmo tema, n&#227;o por mera redund&#226;ncia, mas por fidelidade a uma esp&#233;cie de obsess&#227;o. O escritor italiano Sandro Veronesi &#233; um deles. Em seus romances, a vida costuma ser transpassada por acontecimentos que desorganizam tudo: uma morte inesperada, uma trag&#233;dia familiar, uma perda amorosa, um abalo capaz de dividir a exist&#234;ncia entre um antes e um depois. A partir desse ponto de ruptura, seus personagens n&#227;o seguem simplesmente adiante. Eles permanecem em ger&#250;ndio: resistindo, hesitando, escutando, tentando compreender aquilo que talvez jamais possa ser inteiramente compreendido.</p><p>&#201; por isso que a republica&#231;&#227;o de <em>Caos calmo,</em> no Brasil, dessa vez pela Aut&#234;ntica Contempor&#226;nea (2026), permite ao leitor brasileiro reencontrar um dos nomes mais importantes da literatura italiana contempor&#226;nea em um de seus romances centrais. Escrevo &#8220;reencontrar&#8221; porque o autor j&#225; havia sido traduzido no Brasil no in&#237;cio dos anos 2000, mas n&#227;o causou o mesmo impacto que na atualidade.</p><p>Vencedor do Pr&#234;mio Strega em 2006, <em>Caos calmo</em> antecipa muitas das quest&#245;es que Veronesi retomaria, anos depois, em <em>O colibri</em> (Aut&#234;ntica, 2024), romance que lhe renderia o mesmo pr&#234;mio e que, de longe, permanece como meu livro preferido do autor. Ao lado de <em>Setembro Negro</em> (Aut&#234;ntica, 2025), essas tr&#234;s obras comp&#245;em o que eu poderia chamar de tr&#237;ade da perda e das formas poss&#237;veis de n&#227;o desistir depois que algo se rompe.</p><p>Em <em>Caos calmo</em>, tudo come&#231;a com uma cena intensa e muito tumultuada. Pietro Paladini e seu irm&#227;o salvam, cada um, uma mulher que se afogava no mar: dois irm&#227;os, t&#227;o diferentes entre si, mas ambos apaixonados pelo <em>surf</em>, se reencontram durante o ver&#227;o europeu, compartilham alguns momentos de distra&#231;&#227;o e, de repente, se veem diante da morte, salvando, simultaneamente, duas mulheres prestes a desaparecer sob &#225;guas agitadas. Enquanto Pietro, o narrador-protagonista, decide segurar pelas costas a mulher que tenta resgatar e que n&#227;o para de se debater, num desespero t&#237;pico de quem est&#225; se afogando, ele percebe, contra a pr&#243;pria vontade, uma ere&#231;&#227;o inesperada.</p><p>A cena &#233; desconcertante porque Veronesi n&#227;o suaviza as contradi&#231;&#245;es do corpo, da vida e da morte. Ao contr&#225;rio, ele as coloca no centro da narrativa. H&#225; ali uma simultaneidade brutal -e at&#233; ris&#237;vel-entre desejo e amea&#231;a, impulso vital e proximidade do fim. No entanto, assim que a cena termina, e ainda estamos nos recuperando dos detalhes desse evento, o narrador, ao voltar para casa, depara-se com uma grande perda; E Pietro, em vez de se desesperar, trava. Em vez de reagir como se espera de algu&#233;m em luto, ou seja, cumprir o roteiro social da dor, faz uma escolha inusitada: decide parar.</p><p>Todos os dias, ele se senta num banco de pra&#231;a em frente &#224; escola da filha, Claudia, e espera por ela. Essa atitude nasce de uma promessa feita &#224; menina no primeiro dia de aula ap&#243;s a morte da m&#227;e. Embora, de in&#237;cio, pare&#231;a uma tentativa de preocupa&#231;&#227;o com o bem-estar da filha, aos poucos compreendemos que esse gesto foi para acolher a si mesmo. &#201; a presen&#231;a da menina, sua sa&#237;da da escola, a repeti&#231;&#227;o desse pequeno ritual di&#225;rio que impede Pietro de desaparecer dentro do pr&#243;prio abismo no qual reluta em admitir que se encontra absorvido.</p><p>Com o passar das semanas, o banco de pra&#231;a deixa de ser apenas um lugar de espera. Torna-se uma esp&#233;cie de div&#227; a c&#233;u aberto, um confession&#225;rio improvisado, um lugar de suspens&#227;o no meio da cidade. Em vez de ser consolado, Pietro passa a consolar. As pessoas v&#227;o at&#233; ele, sentam-se, falam de suas ang&#250;stias, seus fracassos, seus desejos, suas culpas. Em certas passagens, pensei nesse narrador como um psicanalista; em outras, ele se doava tanto &#224; escuta que mais parecia um padre ouvindo seus fi&#233;is.</p><p>Mas h&#225; algo amb&#237;guo nessa conduta. Ao se dedicar &#224;s dores alheias, Pietro se distancia do verdadeiro caos do pr&#243;prio luto. Ao escutar e observar o mundo &#224; sua volta, blinda-se de olhar para si mesmo. Sentado naquele banco, ele se transforma numa figura paradoxal e escuta os outros justamente para adiar a escuta de si. H&#225;, nisso, algo psicanal&#237;tico, tema de interesse do escritor em todos os seus livros &#8211; a dor deslocada, a fala que contorna o trauma, a tentativa de elaborar a perda por vias indiretas. Como se, antes de poder tocar no pr&#243;prio luto, Pietro precisasse escutar o luto dos outros.</p><p>Durante tr&#234;s meses, ele n&#227;o permite que a saudade ou a dor da perda o atravessem por completo. Recusa, inclusive, o conselho da cunhada, que lhe oferece o contato de um psicanalista. Mas talvez seja justamente a&#237; que o romance encontre sua for&#231;a: Veronesi compreende que o luto nem sempre se apresenta como desespero vis&#237;vel. &#192;s vezes, ele aparece como paralisia, ou como a decis&#227;o aparentemente simples de permanecer sentado no mesmo lugar todos os dias.</p><p>Contudo, para que a leitura flua, &#233; preciso que o leitor entre no jogo da fic&#231;&#227;o proposto por Veronesi, porque h&#225; momentos em que realidade e fantasia se confundem e nos confundem. O que &#233; verdade? O que &#233; ilus&#227;o? E at&#233; que ponto a ilus&#227;o ajuda na hora da dor? Talvez, em certos momentos do luto, a fantasia funcione como uma ponte provis&#243;ria, um abrigo necess&#225;rio at&#233; o dia em que seja poss&#237;vel sair das sombras e voltar a desejar viver a pr&#243;pria vida.</p><p>Ali&#225;s, preciso contar que durante a leitura, foi imposs&#237;vel n&#227;o me deixar contagiar tamb&#233;m pela trilha sonora proposta pelo romance. Passei a ler suas p&#225;ginas ao som de <em>Radiohead</em>, como se eu mesma estivesse dentro daquele carro com Pietro Paladini e admito: tamb&#233;m tive vontade de me confessar, de falar sem pressa diante de algu&#233;m que, justamente por estar suspenso da pr&#243;pria vida, torna-se capaz de escutar a vida dos outros com generosidade.</p><p>Inclusive, essa tens&#227;o entre paralisia e continuidade, entre trauma e sobreviv&#234;ncia, aparece de maneira ainda mais comovente no romance <em>O colibri</em>. O t&#237;tulo remete ao pequeno p&#225;ssaro cuja perman&#234;ncia no ar exige esfor&#231;o cont&#237;nuo. Marco Carrera, o protagonista-narrador, &#233; justamente esse homem que permanece. Oftalmologista, pai, av&#244;, amante silencioso e sobrevivente de sucessivas perdas, ele atravessa a vida como quem sustenta um movimento quase invis&#237;vel, mas vital. O colibri n&#227;o est&#225; parado, embora pare&#231;a. Ele bate as asas numa velocidade quase impercept&#237;vel para conseguir permanecer no ar. Marco tamb&#233;m.</p><p>H&#225;, nesse romance, uma palavra que ilumina toda a leitura: <em>emm&#233;no</em>, verbo grego que significa &#8220;persevero&#8221;. Foi exatamente essa a sensa&#231;&#227;o que tive ao ler <em>O colibri</em>. Precisei perseverar. Algumas passagens eram dolorosas demais e me arremessaram para mem&#243;rias sombrias das quais eu preferia me manter afastada. Ainda assim, fiz bem em sustentar a leitura. Veronesi desafia as conven&#231;&#245;es de uma narrativa linear para mergulhar na complexidade da mem&#243;ria e, sobretudo, da condi&#231;&#227;o humana diante da perda. O realismo emocional se sobrep&#245;e &#224; cronologia, e o essencial muitas vezes se revela nos sil&#234;ncios que cercam as experi&#234;ncias mais devastadoras da vida.</p><p>Nesse sentido, o escritor italiano trabalha de maneira muito potente com o tempo psicol&#243;gico. Em seus romances, o tempo n&#227;o avan&#231;a apenas pela sucess&#227;o dos acontecimentos, mas se expande ou se contrai, conforme os sentimentos das personagens convocam. H&#225; momentos em que uma lembran&#231;a ou um detalhe aparentemente m&#237;nimo parecem suspender a narrativa inteira, como se a experi&#234;ncia interior dos personagens tivesse mais for&#231;a do que a cronologia externa. Essa dilata&#231;&#227;o do tempo, sobretudo em <em>O colibri</em> e <em>Caos calmo</em>, aproxima-se da escrita proustiana- como em <em>Em busca do tempo perdido</em>, o passado n&#227;o aparece como algo encerrado, mas como mat&#233;ria viva, capaz de invadir o presente e reorganizar a percep&#231;&#227;o da vida. Em suas obras, Veronesi escolhe esticar o tempo da narrativa porque compreende que a dor, a mem&#243;ria e o luto n&#227;o obedecem ao rel&#243;gio; eles t&#234;m uma dura&#231;&#227;o pr&#243;pria, ainda que muitas vezes desmedida.</p><p>Diante das in&#250;meras trag&#233;dias que atravessam sua vida, Marco, narrador de <em>O colibri</em>, n&#227;o sucumbe. Ele permanece. Permanece porque Miraijin, sua neta, ainda precisa dele, e &#233; nela que se concentra um dos gestos &#233;ticos mais bonitos do livro: a escolha de cuidar, mesmo em meio &#224; ru&#237;na. Miraijin, nomeada como &#8220;o homem do futuro&#8221;, desloca a expectativa do pr&#243;prio futuro. Quando se revela que esse &#8220;homem&#8221; ser&#225; uma mulher, Veronesi nos convida a pensar se, talvez, o futuro s&#243; possa existir sob outra l&#243;gica, outra sensibilidade. O feminino, aqui, n&#227;o aparece apenas como g&#234;nero biol&#243;gico, mas como paradigma de cuidado, escuta e reinven&#231;&#227;o do humano.</p><p>Se em <em>Caos calmo,</em> Pietro permanece sentado diante da escola da filha para n&#227;o desabar, em <em>O colibri</em> Marco permanece em movimento para n&#227;o cair. Um parece im&#243;vel; o outro parece atravessar continuamente perdas, amores e tempos. Mas ambos encarnam a mesma pergunta: o que fazemos quando a vida nos tira aquilo que nos sustentava? Em Veronesi, a resposta nunca &#233; simples. N&#227;o h&#225; supera&#231;&#227;o f&#225;cil, h&#225; perman&#234;ncia e cuidado amalgamados num esfor&#231;o, muitas vezes silencioso, de continuar respirando.</p><p>J&#225; em <em>Setembro Negro</em>, Veronesi retorna &#224; inf&#226;ncia e &#224; mem&#243;ria para investigar como uma trag&#233;dia pode reorganizar uma vida inteira. O romance parte justamente desse ponto de inflex&#227;o: quando somos atravessados por uma trag&#233;dia, raramente voltamos a ser quem &#233;ramos. Arrisco dizer: quase nunca. O autor n&#227;o revela de imediato o acontecimento que transforma a vida do protagonista. Com isso, mant&#233;m o leitor num estado de suspens&#227;o e expectativa, enquanto reconstr&#243;i, com delicadeza, os fragmentos de uma inf&#226;ncia luminosa abruptamente interrompida por uma trag&#233;dia familiar.</p><p>Diferente de <em>O colibri</em>, em que a mem&#243;ria flui em espirais, <em>Setembro Negro</em> opta por uma linearidade mais firme, quase como se o narrador precisasse ordenar o passado para suportar o presente. Essa conten&#231;&#227;o n&#227;o diminui o impacto da narrativa. Ao contr&#225;rio, confere ao romance uma pot&#234;ncia quase documental. Veronesi escreve com a ternura de quem se aproxima da pr&#243;pria hist&#243;ria com cautela, como se a crian&#231;a daquele tempo ainda sobrevivesse nele e precisasse ser acolhida.</p><p>Ao longo do romance, somos conduzidos por cenas que evocam a It&#225;lia dos anos 1970: as Olimp&#237;adas, os jogos de futebol, as corridas de F&#243;rmula 1, as can&#231;&#245;es que formavam a trilha sonora daquela juventude. Essas refer&#234;ncias n&#227;o funcionam como saudosismo f&#225;cil. Elas comp&#245;em um tempo em que as rela&#231;&#245;es humanas pareciam mais tang&#237;veis, menos mediadas por telas e distra&#231;&#245;es, um tempo em que o presente talvez ainda pudesse ser vivido com mais inteireza. Mas essa luminosidade &#233; atravessada por uma sombra. Em <em>Setembro Negro</em>, a inf&#226;ncia aparece como territ&#243;rio de encantamento e perda, de descoberta e amea&#231;a. O passado, quando o revisitamos, nunca volta intacto.</p><p>Ao aproximar as obras <em>Caos calmo</em>, <em>O colibri</em> e <em>Setembro Negro</em>, percebo que Veronesi escreve obsessivamente sobre aquilo que permanece depois do abalo. Pietro permanece no banco da pra&#231;a; Marco permanece como o colibri, sustentando-se no ar, apesar das perdas; Gigio permanece ligado &#224; inf&#226;ncia interrompida, tentando ordenar a mem&#243;ria para compreender o que ainda d&#243;i. Em todos eles, a trag&#233;dia n&#227;o &#233; apenas um acontecimento. &#201; uma for&#231;a que reorganiza a linguagem, o tempo, o corpo e a rela&#231;&#227;o com os outros.</p><p>N&#227;o &#224; toa, penso que Sandro Veronesi se inscreve numa linhagem primorosa da literatura italiana contempor&#226;nea, ao lado de autores como Elena Ferrante e Domenico Starnone, com quem compartilha o interesse pelas fissuras familiares, pelos sil&#234;ncios, pelas zonas de sombra dos afetos. Como eles, n&#227;o teme parecer sentimental ao tratar daquilo que se rompe dentro de uma fam&#237;lia. Mas, diferentemente de Starnone, cujo estilo tende a ser mais seco, objetivo e cortante, Veronesi se entrega a uma escrita densa, verborr&#225;gica, col&#233;rica, muitas vezes excessiva.</p><p>Ele descreve detalhes que outros escritores talvez deixassem de lado. Prolonga cenas, acumula pensamentos, esmi&#250;&#231;a gestos m&#237;nimos, insiste em aspectos aparentemente secund&#225;rios. Confesso que, em alguns momentos, esse excesso me incomodou. Houve trechos em que me perguntei sobre a necessidade de alongar tanto certas passagens. Mas compreendo que esse &#233; tamb&#233;m o estilo do autor, e talvez seja justamente isso que torna seus livros t&#227;o &#250;nicos e belos. Veronesi n&#227;o escreve para simplificar a experi&#234;ncia humana. Ele escreve para mostrar sua desordem.</p><p>Seus romances s&#227;o belos porque aceitam o excesso da vida: o constrangimento do corpo, a irracionalidade do desejo, a viol&#234;ncia da perda, a persist&#234;ncia da mem&#243;ria, o peso dos v&#237;nculos familiares, a necessidade de cuidar mesmo quando tudo parece arruinado. Em suas p&#225;ginas, o caos nunca &#233; apenas destrui&#231;&#227;o. &#192;s vezes, &#233; tamb&#233;m a forma mais honesta de nomear aquilo que ainda n&#227;o conseguimos compreender.</p><p>Portanto, ler Sandro Veronesi &#233; ser convidado a revisitar nossas pr&#243;prias perdas, a interrogar nossos afetos e a repensar a ideia de futuro. &#201; aceitar permanecer algum tempo diante da dor sem tentar resolv&#234;-la depressa demais. &#201; sentar-se ao lado de seus personagens e escutar suas hesita&#231;&#245;es. &#201; reconhecer que, diante das trag&#233;dias que nos atravessam e &#224;s vezes nos perfuram, talvez n&#227;o exista uma sa&#237;da imediata, mas apenas um gesto m&#237;nimo e ao mesmo tempo radical: continuar ali e tentar respirar, esperar e talvez encarar o maior desafio: perseverar.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" 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Pais]]></description><link>https://myriamscotti.substack.com/p/por-uma-nova-paternidade</link><guid isPermaLink="false">https://myriamscotti.substack.com/p/por-uma-nova-paternidade</guid><dc:creator><![CDATA[Myriam Scotti]]></dc:creator><pubDate>Mon, 10 Aug 2026 12:41:08 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!CK_b!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7f223c65-72a8-439d-8c49-d49fdcff69de_1206x1497.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Esse &#233; o meu desejo para esse Dia dos Pais. O modelo milenar, sabemos, est&#225; ultrapassado simplesmente porque as mulheres est&#227;o exaustas e os meninos precisam crescer sob novos paradigmas paternos. E, pensando nisso, gosto de receber boas dicas de leitura e, quando o escritor e professor Julian Fuks faz uma sugest&#227;o, costumo segui-la porque sei que encontrarei uma especial, capaz de ampliar n&#227;o apenas meu repert&#243;rio liter&#225;rio, mas tamb&#233;m meu modo de olhar para o mundo. Foi assim que me vi mergulhada nas p&#225;ginas de <em>Literatura infantil: Cartas ao filho</em> (Companhia das Letras, 2023), do escritor chileno Alejandro Zambra.</p><p>No livro, o narrador acompanha o crescimento do filho, registra epis&#243;dios do cotidiano para preservar lembran&#231;as que a crian&#231;a inevitavelmente esquecer&#225; e, ao mesmo tempo, interroga, com enorme delicadeza, o universo masculino, sobretudo a paternidade. Um dos trechos mais poderosos est&#225; logo na p&#225;gina 8, quando escreve: &#8220;Enquanto as mulheres transmitiam &#224;s suas filhas o imperativo asfixiante da maternidade, n&#243;s crescemos mimados e incautos e at&#233; cantarolando 'Billie Jean'. Nossos pais tentaram, &#224; sua maneira, nos ensinar a ser homens, mas n&#227;o nos ensinaram a ser pais. Os pais deles tampouco lhes ensinaram isso. E assim por diante.&#8221;</p><p>Fechei o livro, mas permaneci presa &#224;quela p&#225;gina. Pensei no meu pai e no pai dele. Depois, no meu marido e no pai dele. Sem perceber, desenhava uma esp&#233;cie de &#225;rvore geneal&#243;gica da paternidade, tentando entender de onde vinha esse modelo de homem que atravessou gera&#231;&#245;es.</p><p>Cresci numa casa onde os homens eram servidos. Minha av&#243; materna mimava meu pai como se ele fosse mais um filho. O cuidado da casa, das filhas e da rotina nunca parecia dizer respeito a ele. Meu pai era convocado apenas quando eu fazia alguma peraltice. Bastava minha m&#227;e dizer: &#8220;Vou contar para o seu pai&#8221; para que meu corpo enrijecesse e meus olhos se arregalassem diante do medo do castigo, &#224;s vezes por ter demorado para tomar banho ou por ter comido escondida um pacote de bolachas recheadas.</p><p>Tamb&#233;m me lembro do meu av&#244; paterno terminando o almo&#231;o enquanto minha av&#243; nos advertia, a n&#243;s, netos, que brinc&#225;ssemos em sil&#234;ncio porque ele iria cochilar e n&#227;o gostava de ser incomodado. Meu av&#244; materno sequer participou da minha inf&#226;ncia. Desquitou-se da minha av&#243; quando minha m&#227;e tinha quinze anos. Cresci ouvindo hist&#243;rias sobre sua rigidez e o medo que despertava nos filhos. Eram homens diferentes, mas pertencentes &#224; mesma tradi&#231;&#227;o: a de pais respeitados, temidos, provedores, por&#233;m distantes do cuidado cotidiano.</p><p>Quando me casei, levei comigo uma receita pronta do que significava ser uma &#8220;boa esposa&#8221;. S&#243; n&#227;o sabia que aquela receita tamb&#233;m previa um marido parecido com meu pai e meus av&#244;s. Foi o nascimento do nosso primeiro filho que tornou imposs&#237;vel continuar representando aquele papel. Ou reformul&#225;vamos as regras da nossa fam&#237;lia, ou n&#227;o dar&#237;amos certo.</p><p>Eu n&#227;o queria que meu marido fosse algu&#233;m apenas com presen&#231;a marcada pelos hor&#225;rios de chegada e sa&#237;da, como um h&#243;spede da pr&#243;pria casa. Desejava um pai presente nas noites mal dormidas, nas fraldas, nas consultas m&#233;dicas, nos deveres da escola, nos abra&#231;os sem motivo. Enfim, um pai que cuidasse.</p><p>Essa inquieta&#231;&#227;o n&#227;o nasceu sozinha. Foi alimentada pelas leituras de tantas mulheres feministas. Curiosamente, eu n&#227;o tinha mulheres feministas por perto para ouvir ou observar. Foi a literatura que me despertou. Foram os livros que me ofereceram palavras para nomear um inc&#244;modo que eu carregava h&#225; muito tempo.</p><p>Giovanni poderia ter recusado meus questionamentos. Poderia ter respondido que sempre fora assim. Em vez disso, decidiu caminhar comigo por um processo longo (e muitas vezes doloroso) de desaprender. Desconstruir um modelo de masculinidade aprendido desde a inf&#226;ncia talvez seja uma das tarefas mais dif&#237;ceis da vida adulta.</p><p>Mas eu tamb&#233;m precisava olhar para os meus dois meninos. De que adiantaria defender os direitos das mulheres, escrever sobre desigualdade e continuar educando meus filhos para reproduzirem o mesmo modelo masculino que eu criticava? Nunca gostei da incoer&#234;ncia. Escrever uma coisa e viver outra nunca foi uma possibilidade para mim.</p><p>Ainda caminhamos a passos de formiga, mas j&#225; encontro homens que me enchem de esperan&#231;a. Homens que n&#227;o t&#234;m medo de abandonar uma masculinidade violenta, insens&#237;vel e autorit&#225;ria para se tornarem pais amorosos, afetuosos e cuidadores. Porque n&#227;o h&#225; igualdade de g&#234;nero poss&#237;vel enquanto insistirmos em acreditar que o cuidado pertence naturalmente &#224;s mulheres.</p><p>A ci&#234;ncia, ali&#225;s, desmonta essa ideia. Em <em>O mito do instinto materno</em> (Companhia das Letras, 2022), a jornalista especializada em sa&#250;de e ci&#234;ncias, Chelsea Conaboy, re&#250;ne pesquisas impressionantes que mostram o quanto a parentalidade remodela profundamente o c&#233;rebro de quem cuida. Como escreve a autora, &#8220;as pesquisas sugerem a remodela&#231;&#227;o do c&#233;rebro parental, o qual vai muito al&#233;m de uma reacomoda&#231;&#227;o da mob&#237;lia para dar lugar a mais um papel numa vida atarefada. A entrada na parentalidade move paredes de sustenta&#231;&#227;o, modifica a planta baixa, altera o modo como muita luz entra nos ambientes&#8221;. E essa transforma&#231;&#227;o acontece independentemente do g&#234;nero. Ali&#225;s, acontece independentemente se quem cuida &#233; pai, m&#227;e, av&#243;s, cuidadores etc.; basta se aproximar e cuidar para que todo o c&#233;rebro se reprograme, pois &#8220;pesquisadores descobriram que o c&#233;rebro parental muda de modos adequados precisamente a esse prop&#243;sito. Os circuitos envolvidos na cogni&#231;&#227;o social &#8211; como lemos, interpretamos e respondemos a sinais das pessoas &#224; nossa volta e das que est&#227;o em um contexto social mais amplo &#8211; parecem se fortalecer e se tornar acentuadamente responsivos ao dil&#250;vio de sinais que um beb&#234; fornece&#8221;. (p. 131).&nbsp;</p><p>Em outro momento do livro, Conaboy afirma que tornar-se m&#227;e ou pai &#233; um processo. N&#227;o existe um interruptor acionado no nascimento de um filho, nem um instinto naturalmente reservado &#224;s mulheres. Existe uma aprendizagem constru&#237;da no v&#237;nculo, na presen&#231;a e na repeti&#231;&#227;o dos gestos de cuidado.</p><p>Talvez seja justamente isso que tenha faltado aos homens das gera&#231;&#245;es anteriores: n&#227;o um instinto que nunca existiu, mas a oportunidade e o incentivo para viver plenamente esse processo. Se, como escreve Alejandro Zambra, nossos pais aprenderam a ser homens, mas n&#227;o aprenderam a ser pais, talvez a tarefa da nossa gera&#231;&#227;o seja interromper essa heran&#231;a. Ensinar aos nossos filhos que o cuidado n&#227;o &#233; ajuda, favor ou exce&#231;&#227;o. &#201; uma responsabilidade compartilhada, uma forma de amar e tamb&#233;m de aprender. Porque uma nova paternidade n&#227;o nasce pronta. Ela se constr&#243;i no dia a dia, na conviv&#234;ncia e no cuidado com essas crian&#231;as a quem os homens costumam chamar de suas, mesmo que as vejam esporadicamente e n&#227;o fa&#231;am ideia do n&#250;mero do cal&#231;ado, quanto pesam, a altura, o desenho de que mais gostam de assistir ou o nome da professora.</p><p>E, para quem quiser continuar essa conversa depois de finalizar este texto, deixo uma &#250;ltima recomenda&#231;&#227;o: o podcast <em>O pai t&#225; onde?</em>, de Greg&#243;rio Duvivier. Ao ouvir pais que tentam reinventar a maneira de exercer a paternidade, encontramos homens dispostos a abandonar uma masculinidade baseada na dureza, na invulnerabilidade e no sil&#234;ncio emocional para descobrir que cuidar, demonstrar afeto e acolher as pr&#243;prias fragilidades tamb&#233;m s&#227;o formas de coragem. Talvez seja justamente a&#237; que comece a nova paternidade que desejo para os meus filhos e, especialmente, para os homens que eles se tornar&#227;o.</p><p></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!CK_b!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7f223c65-72a8-439d-8c49-d49fdcff69de_1206x1497.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!CK_b!, /__u/myriamscotti.substack.com/w_424, /__u/myriamscotti.substack.com/c_limit, /__u/myriamscotti.substack.com/f_webp, /__u/myriamscotti.substack.com/q_auto:good, /__u/myriamscotti.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7f223c65-72a8-439d-8c49-d49fdcff69de_1206x1497.jpeg 424w, 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isPermaLink="false">https://myriamscotti.substack.com/p/o-peso-do-corpo-175</guid><dc:creator><![CDATA[Myriam Scotti]]></dc:creator><pubDate>Fri, 07 Aug 2026 10:30:31 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!NoiW!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F456be4b1-3721-4c01-b105-1e171c4c0593_1206x1496.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Ao folhear as fotos dos tr&#234;s aos seis meses do meu primeiro filho, recordo que o verdadeiro tormento n&#227;o era apenas a maternidade, nem s&#243; a trai&#231;&#227;o, nem a solid&#227;o dom&#233;stica: era, sobretudo, o corpo. Meu corpo. Essa estrutura, carne, mat&#233;ria, subst&#226;ncia, massa, forma que sempre me acompanhou como problema desde a inf&#226;ncia.</p><p>Lembro que, ainda menina, minha av&#243; dizia que eu precisava cuidar da minha apar&#234;ncia porque &#8220;homem gosta de mulher que se cuida&#8221;. Eu aprendi cedo que o corpo era moeda. Eu me sentia sempre excessiva &#8212; ou insuficiente &#8212; nunca adequada. Ou era gorda demais, ou baixa demais, ou, pior: toda errada demais.</p><p>E no p&#243;s-parto essa hist&#243;ria corporal explodiu.</p><p>Meu corpo parecia uma casa invadida. O ventre fl&#225;cido; a cicatriz avermelhada e dura; Os seios enormes e doloridos, vazando leite o tempo todo, como torneiras defeituosas. Eu olhava no espelho e n&#227;o reconhecia a imagem. Parecia um corpo usurpado, um corpo que tinha servido a todos: ao beb&#234;, &#224; obstetra, &#224; enfermeira, ao hospital, &#224; fam&#237;lia, &#224; fun&#231;&#227;o, menos a mim.</p><p>Houve uma tarde durante o banho que, enquanto segurava o beb&#234; na banheira, meus bra&#231;os tremiam, n&#227;o tanto pelo medo de deix&#225;-lo escorregar, mas pelo p&#226;nico de sentir que eu havia desaparecido de mim mesma. Havia apenas um corpo exausto, obedecendo &#224;s obriga&#231;&#245;es de cuidado no autom&#225;tico. N&#227;o estava envolvida com o meu filho, que se divertia mexendo as perninhas, salpicando &#225;gua pra todo lado. Queria terminar aquela tarefa o quanto antes para conseguir descansar na poltrona, ainda que n&#227;o fosse um descanso completo, pois estaria amamentando e isso era tamb&#233;m extenuante. Quando o beb&#234; acabava de mamar, n&#227;o penas meu peito secava, mas o corpo inteiro. Bebia dois copos de &#225;gua seguidos, como se tivesse atravessado um deserto.</p><p>Assim, quando percebi que n&#227;o estava produzindo mais tanto leite, nem acordava com a camisola ensopada e meu filho se esfor&#231;ava para que algo sa&#237;sse daquela mama mole e seca, senti como se o &#250;ltimo v&#237;nculo funcional entre corpo e maternidade tivesse falhado. Meus seios, h&#225; t&#227;o pouco tempo redondos e empinados, agora murchavam, como frutos colhidos prematuramente. Isso reacendeu toda a mem&#243;ria corporal da adolesc&#234;ncia: as dietas, as revistas femininas, as tabelas de medidas, as cal&#231;as que n&#227;o fechavam, o espelho como inimigo.</p><p>A pediatra dizia: &#8220;N&#227;o se culpe. Isso acontece.&#8221;</p><p>Mas era imposs&#237;vel n&#227;o culpar o corpo. Porque o corpo sempre assumiu a culpa antes de mim. Ele foi respons&#225;vel por n&#227;o ser atraente o suficiente, n&#227;o ser magro o suficiente, n&#227;o ser desej&#225;vel o suficiente; e agora, n&#227;o ser nutridor o suficiente.</p><p>Sa&#237; do consult&#243;rio me sentindo uma mulher-ru&#237;na. Como se meu corpo tivesse tra&#237;do a todos: aos pais, ao marido, ao filho, a mim mesma.</p><p>E quando G. tentava me consolar ou me tocar, eu me retra&#237;a; n&#227;o por repulsa a ele, mas por repulsa a mim. Eu n&#227;o queria ser vista. N&#227;o queria ser apalpada, olhada, avaliada. Eu estava grotesca aos meus pr&#243;prios olhos. Eu tinha vergonha de existir no espa&#231;o.</p><p>Numa tarde, conversando com minha amiga, lembro quando ela disse:</p><p>&#8220;Voc&#234; t&#225; t&#227;o bonita, amiga, s&#243; est&#225; cansada.&#8221;</p><p>Claro que eu n&#227;o consegui acreditar. Porque a insatisfa&#231;&#227;o corporal n&#227;o &#233; l&#243;gica, &#233; cr&#244;nica. &#201; uma lente deformante que carrego desde menina. Quando penso hoje, percebo que a maternidade n&#227;o apenas transformou o corpo, ela desmontou o pacto secreto que eu tinha com ele: o pacto de controle. Eu podia perder peso com dieta, eu podia disfar&#231;ar com roupa, eu podia maquiar a apar&#234;ncia. Mas o puerp&#233;rio&#8230; o puerp&#233;rio &#233; um zool&#243;gico biol&#243;gico incontrol&#225;vel: sangue, leite, suor, flacidez, gases, cheiro. O corpo se torna animal: instinto e carne exposta.</p><p>A minha insatisfa&#231;&#227;o corporal era muito mais antiga do que os problemas com meu marido. Muito anterior ao beb&#234;. Ela vinha de uma inf&#226;ncia educada para agradar. De uma adolesc&#234;ncia condicionada para competir. De uma vida inteira tentando caber num contorno que nunca foi meu.</p><p>Alcan&#231;o, enfim, os &#225;lbuns de 2011 e encontro fotos do anivers&#225;rio de um ano do meu filho. Nelas, eu apare&#231;o sorrindo, muito magra, de um jeito quase irreal, como se nunca tivesse parido, como se meu corpo n&#227;o tivesse vivido nenhuma transforma&#231;&#227;o. Minha barriga era lisa, os bra&#231;os finos, os ossos do rosto marcados. E eu me lembro, olhando para aquela imagem, de sentir um orgulho secreto, quase infantil: olha s&#243;, sobrevivi &#224; maternidade e recuperei o meu corpo.</p><p>Mas hoje, ao revisitar aquela foto com mais honestidade, percebo que ela escondia uma hist&#243;ria; a hist&#243;ria de como cheguei ali. Porque aquilo n&#227;o foi milagre metab&#243;lico; foi interven&#231;&#227;o. Foi reconstru&#231;&#227;o artificial.</p><p>H&#225; quatro meses daquela foto, eu tinha feito a cirurgia est&#233;tica. Meu amorzinho, com apenas oito meses, ficou trinta dias sem meu colo, porque meu peito rec&#233;m-operado n&#227;o podia suportar seu peso. O leite j&#225; havia secado fazia tempo e, com ele, meus seios murcharam, pendentes, moles, lembran&#231;as quase grotescas de um tempo recente. Eu n&#227;o conseguia me olhar no espelho. A inseguran&#231;a voltou a me assombrar como na inf&#226;ncia, quando me chamavam de bolo fofo.</p><p>Naquele momento, tudo se resumiu a uma urg&#234;ncia: consertar o que a maternidade havia &#8220;estragado&#8221;. Hoje vejo que eu estava tentando corrigir n&#227;o apenas o corpo, mas uma hist&#243;ria inteira de inadequa&#231;&#227;o corporal.</p><p>Minha m&#227;e tentou me dissuadir. Meu marido disse que n&#227;o precisava. Minha irm&#227; me julgou com o olhar incr&#233;dulo. Mas eu estava decidida. N&#227;o suportava mais me ver deformada na lente do meu pr&#243;prio julgamento. Ent&#227;o terceirizei os cuidados do meu filho em nome da apar&#234;ncia e isso ainda me d&#243;i confessar.</p><p>Na foto, por&#233;m, tudo &#233; celebra&#231;&#227;o artificial: eu aparento leveza, dentro de um vestido justo; sa&#250;de, com as ma&#231;as do rosto bem maquiadas; autocontrole, ostentando um sorriso bem treinado diante do espelho. Mas s&#243; eu sabia e sei que, por tr&#225;s daquele corpo magro, havia dor, culpa, e uma tentativa desesperada de reconstruir a mulher que sempre achei que deveria ser, mas nunca pude de fato habitar.</p><p>Demorei para aceitar que sozinha eu n&#227;o conseguiria ir muito longe, sucumbiria &#224; depress&#227;o tal qual na adolesc&#234;ncia. Por insist&#234;ncia de uma prima, comecei a fazer an&#225;lise.</p><p>Na primeira sess&#227;o, a psic&#243;loga fez uma pergunta simples: &#8220;Como voc&#234; est&#225;?&#8221;. E eu n&#227;o soube responder. Apenas chorei. Chorei durante cinquenta minutos, como se algu&#233;m tivesse enfim aberto a torneira que eu segurava fechada havia mais de um ano.</p><p>Demorou muito at&#233; eu conseguir falar de mim sem me sentir rid&#237;cula. Eu me sentia culpada por estar triste. &#8220;Voc&#234; tem um filho saud&#225;vel, uma casa, trabalho, um marido&#8221;, as pessoas diziam. Como se isso fosse uma blindagem contra o sofrimento. A terapia foi, aos poucos, desmontando essa ideia de que a gratid&#227;o impede a dor. Eu podia ser grata e, ao mesmo tempo, estar destru&#237;da. Uma coisa n&#227;o anulava a outra.</p><p>Lembro que, num dos primeiros meses de terapia, eu ainda me estranhava quando passava diante de um espelho. N&#227;o reconhecia o corpo que me encarava. Nem o rosto. As olheiras, a boca sem cor, a postura curvada, o quadril ampliado. Eu olhava aquela mulher e pensava: &#8220;Em que momento eu me tornei isso?&#8221;. A terapeuta insistia para que eu dissesse &#8220;meu corpo&#8221;, e n&#227;o &#8220;isso&#8221;. S&#243; que, naquela &#233;poca, &#8220;meu corpo&#8221; parecia um exagero de intimidade. Falar &#8220;isso&#8221; era mais f&#225;cil, mantinha dist&#226;ncia.</p><p>Demorei para entender que, por tr&#225;s de toda aquela rejei&#231;&#227;o p&#243;s-parto, havia uma hist&#243;ria antiga. O corpo n&#227;o virou problema de repente, depois do parto. A maternidade apenas jogou luz num inc&#244;modo que me acompanha desde sempre: a sensa&#231;&#227;o de nunca estar &#224; altura do que o espelho devolvia. Na inf&#226;ncia, quando me chamavam de &#8220;bolo fofo&#8221;, eu j&#225; havia aprendido que o corpo podia ser motivo de piada. Na adolesc&#234;ncia, quando eu vivia comparando minha barriga com as das outras meninas, eu j&#225; tinha certeza de que meu lugar no mundo dependia de quantos cent&#237;metros sobravam na minha cal&#231;a jeans. O p&#243;s-parto s&#243; reorganizou todas essas mem&#243;rias, como se algu&#233;m tivesse mexido num ba&#250; esquecido e espalhado o conte&#250;do no meio da sala.</p><p>A terapia foi, nesse processo, uma esp&#233;cie de ch&#227;o: um lugar onde eu podia existir fora dos pap&#233;is de m&#227;e, esposa, filha. Onde eu podia ser s&#243; mulher, e, &#224;s vezes, nem isso: s&#243; um amontoado de d&#250;vidas tentando se organizar.</p><p>Ainda assim, apesar de todo esse aprendizado, uma coisa permaneceu: o corpo. O corpo nunca deixou de ser quest&#227;o. Por mais que eu entenda, racionalmente, as press&#245;es est&#233;ticas, os padr&#245;es irreais, os discursos que vendem magreza como sin&#244;nimo de sucesso, algo em mim continua perseguindo uma forma que n&#227;o existe. &#201; como se eu carregasse h&#225; d&#233;cadas a imagem de uma mulher imagin&#225;ria: mais magra, mais firme, mais lisa, mais jovem, e vivesse em eterna tentativa de me aproximar dela. Uma vers&#227;o de mim que n&#227;o envelhece, n&#227;o engravida, n&#227;o cede e se recusa a cair.</p><p>A terapia me ajudou a enxergar isso, a nomear, a compreender. Mas compreender n&#227;o &#233; o mesmo que deixar de sentir. Eu sei de onde vem a voz que me critica, sei reconhecer quando ela fala, sei que ela n&#227;o &#233; toda a verdade, e, mesmo assim, continuo, muitas vezes, obedecendo a ela. Continuo me pesando al&#233;m da conta, fazendo c&#225;lculos silenciosos de calorias, comemorando quando alguma roupa fica frouxa, me punindo quando o espelho n&#227;o devolve o que considero aceit&#225;vel.</p><p>E mesmo depois de anos de an&#225;lise, de conversas sobre autoaceita&#231;&#227;o, de acordos internos para ser mais gentil comigo mesma, continuo a frequentar a endocrinologista, uma esp&#233;cie de seguran&#231;a est&#233;tica. Para qualquer observador externo, estou bem. Para mim mesma tamb&#233;m, em boa parte do tempo. Mas eu sei que, l&#225; no fundo, ainda existe uma inquieta&#231;&#227;o em rela&#231;&#227;o ao corpo que n&#227;o se aquieta. Embora eu esteja num peso considerado &#243;timo, embora fa&#231;a atividade f&#237;sica todos os dias, embora tenha exames em ordem, eu estou aqui neste escrit&#243;rio pensando na consulta que marquei para segunda-feira. Quero testar um novo medicamento. Algo que promete acelerar o metabolismo, secar o que ainda sobra, polir as arestas do meu contorno.</p><p>N&#227;o contei para ningu&#233;m. Nem para a terapeuta, nem para a minha m&#227;e, nem para as amigas que me lembram da import&#226;ncia da autoaceita&#231;&#227;o, nem para meu marido. &#201; um acerto que estabeleci comigo mesma e com esse corpo que nunca parece suficiente. Talvez ainda n&#227;o tenha desistido completamente de perseguir aquela mulher imagin&#225;ria. Pode at&#233; ser que um dia eu consiga fazer as pazes definitivas com meu corpo, aprendendo, de verdade, a habit&#225;-lo sem guerra. Ou quem sabe eu chegue a um ponto em que n&#227;o precise de dietas secretas, cirurgias e consultas escondidas. Mas esse dia ainda n&#227;o &#233; hoje.</p><p>Hoje, revendo essas fotos, eu s&#243; anseio pela consulta com a endocrinologista marcada para amanh&#227;, &#224;s 14h.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!NoiW!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F456be4b1-3721-4c01-b105-1e171c4c0593_1206x1496.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!NoiW!, /__u/myriamscotti.substack.com/w_424, /__u/myriamscotti.substack.com/c_limit, /__u/myriamscotti.substack.com/f_webp, /__u/myriamscotti.substack.com/q_auto:good, /__u/myriamscotti.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F456be4b1-3721-4c01-b105-1e171c4c0593_1206x1496.png 424w, 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Odisseu sobre o romance "Como navegar o abismo", de Paula Gicovate, Record (2026).]]></description><link>https://myriamscotti.substack.com/p/navegando-meus-proprios-abismos</link><guid isPermaLink="false">https://myriamscotti.substack.com/p/navegando-meus-proprios-abismos</guid><dc:creator><![CDATA[Myriam Scotti]]></dc:creator><pubDate>Thu, 06 Aug 2026 14:40:44 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!AIKn!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe91bdccc-6de5-442b-ace4-8c750fec91b4_987x1500.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"></p><p style="text-align: justify;">Em 2008, acompanhei a doen&#231;a da minha av&#243; at&#233; a sua morte. De origem judaica, a despedida cumpriria rituais muito espec&#237;ficos. Fui avisada de que ela havia partido por volta das seis horas da manh&#227; do dia 17 de dezembro. Minha prima foi a primeira a chegar ao hospital e iniciou os procedimentos: cobriu o rosto da minha av&#243; para que n&#227;o fosse mais visto e aguardou a libera&#231;&#227;o do corpo para o cemit&#233;rio judaico. Ali, as mulheres respons&#225;veis pela lavagem-ritual j&#225; nos esperavam. Minha irm&#227; e eu tamb&#233;m participamos daquele momento.</p><p style="text-align: justify;">Lembro-me de que n&#227;o chorei durante aquela purifica&#231;&#227;o do corpo. Apenas agi, enquanto passava a esponja &#250;mida nas m&#227;ozinhas que por tantos anos me afagaram. As l&#225;grimas que guardei desse momento s&#243; vieram anos depois, quando precisei narrar, em um romance meu, a morte de uma personagem que atravessaria o mesmo ritual vivido pela minha av&#243;. Foi somente ao escrever aquela cena que consegui, enfim, chorar a despedida que permanecera suspensa dentro de mim.</p><p style="text-align: justify;">Algo semelhante aconteceu durante a leitura de <em>Como navegar o abismo</em>, novo romance de Paula Gicovate (Record, 2026). A cada p&#225;gina, eu revisitava meus pr&#243;prios abismos. No momento que lia, lembrava-me constantemente do ensaio <em>Olha-me e narra-me</em>, da fil&#243;sofa italiana Adriana Cavarero (Bazar do Tempo, 2025), quando afirma que &#8220;todas as dores s&#227;o suport&#225;veis se as inserimos em uma hist&#243;ria, ou se uma hist&#243;ria &#233; contada sobre elas.&#8221; (p.07). Mais adiante, Cavarero acrescenta: &#8220;as hist&#243;rias de vida s&#227;o narradas e ouvidas com interesse porque s&#227;o similares e, no entanto, novas, insubstitu&#237;veis e inesperadas. Do in&#237;cio ao fim.&#8221; (p.08).</p><p style="text-align: justify;">Esse trecho me fez compreender melhor aquilo que me havia acontecido anos antes. Eu n&#227;o chorei diante do corpo da minha av&#243; sendo preparado; chorei diante da fic&#231;&#227;o. N&#227;o porque a literatura substitua a vida, mas porque ela oferece uma forma para aquilo que a experi&#234;ncia, sozinha, n&#227;o consegue organizar. A narrativa n&#227;o elimina a dor; ela lhe confere um contorno, um ritmo, uma possibilidade de perman&#234;ncia. Talvez seja justamente essa uma das belezas da literatura: tornar narr&#225;vel aquilo que, vivido, permanecia sem linguagem. &#201; sob essa perspectiva que <em>Como navegar o abismo</em> revela toda a sua for&#231;a.</p><p style="text-align: justify;">No romance, somos apresentados &#224; narradora Nara, uma chef de cozinha que vive no Rio de Janeiro e recebe um importante pr&#234;mio profissional no mesmo dia em que descobre a doen&#231;a da m&#227;e. A partir desse instante, sua vida desmorona. Ela abandona o emprego e retorna para Fontana, onde a m&#227;e vive com a av&#243;, figura com quem mant&#233;m uma rela&#231;&#227;o marcada por ressentimentos e afetos contradit&#243;rios.</p><p style="text-align: justify;">Pouco a pouco, compreendemos que a hist&#243;ria daquela fam&#237;lia &#233; permeada de sucessivas falhas de cuidado. A av&#243; jamais conseguiu amar plenamente Cec&#237;lia, m&#227;e de Nara, e pequenas frases ou atitudes cru&#233;is, espalhadas pela narrativa, revelam uma viol&#234;ncia cotidiana, como na vez em que a av&#243; comeu os iogurtes de Cec&#237;lia, que j&#225; estava em dieta restritiva por causa do c&#226;ncer; ou quando Cec&#237;lia conta que sabe que a m&#227;e a culpa pela trai&#231;&#227;o que sofreu do marido com uma vi&#250;va, m&#227;e de sua melhor amiga. Cec&#237;lia, entretanto, n&#227;o se deixa contaminar pelo rancor de sua m&#227;e, rompendo parcialmente esse ciclo ao construir com a filha uma rela&#231;&#227;o de intimidade rara. Mais do que m&#227;e e filha, eram companheiras de alegrias e dores. Essa &#233; justamente a intensidade que torna a orfandade insuport&#225;vel para a narradora-protagonista.</p><p style="text-align: justify;">Depois da morte da m&#227;e, Nara teria todas as raz&#245;es para retornar ao Rio e reconstruir a pr&#243;pria vida. Mas ela n&#227;o consegue. Permanece na antiga casa, cuidando da av&#243;, dividida entre o amor, a culpa, a obriga&#231;&#227;o e a raiva. J&#225; n&#227;o consegue cozinhar. Afasta-se dos amigos, do trabalho e do namorado. Suspende a pr&#243;pria exist&#234;ncia como se, permanecendo im&#243;vel, pudesse impedir que o tempo continuasse correndo.</p><p style="text-align: justify;">&#201; justamente aqui que reside, a meu ver, a maior qualidade liter&#225;ria de <em>Como navegar o abismo</em>. Paula Gicovate compreende que o luto n&#227;o transforma apenas os sentimentos de quem perde algu&#233;m; ele transforma tamb&#233;m (sobretudo) a percep&#231;&#227;o do tempo. Quem vive uma perda importante passa a habitar uma temporalidade pr&#243;pria, dissociada da urg&#234;ncia do mundo. Enquanto a vida continua acontecendo para todos, quem est&#225; enlutado experimenta a estranha sensa&#231;&#227;o de existir &#224; margem dela, como se o rel&#243;gio coletivo continuasse avan&#231;ando, mas o tempo interior permanece interrompido.</p><p style="text-align: justify;">O romance encontra uma forma para essa experi&#234;ncia. Gicovate resiste &#224; l&#243;gica narrativa da supera&#231;&#227;o, que costuma conduzir personagens desde um sofrimento inicial at&#233; uma resolu&#231;&#227;o final. Seu interesse n&#227;o est&#225; em mostrar como Nara vence a dor, mas em acompanhar a lenta reorganiza&#231;&#227;o de uma exist&#234;ncia que perdeu seu eixo. O luto deixa de ser um epis&#243;dio da narrativa para tornar-se sua pr&#243;pria estrutura. Isso se manifesta na constru&#231;&#227;o do romance. Os acontecimentos deixam de obedecer ao ritmo acelerado da produtividade e passam a seguir o tempo interno da protagonista. A narrativa desacelera, insiste na rotina ordin&#225;ria, nas pausas, nas repeti&#231;&#245;es, nos dias aparentemente iguais. H&#225; uma recusa deliberada da pressa. O leitor &#233; convidado a permanecer nesse tempo outro, e n&#227;o simplesmente a observ&#225;-lo de fora. Por vezes, confesso, me senti entediada e essa sensa&#231;&#227;o &#233; proposital. Gosto quando percebo a inten&#231;&#227;o de quem escreve. As escolhas narrativas de Gicovate demonstram a seguran&#231;a e a maturidade de quem sabe o que est&#225; provocando no leitor.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o &#224; toa a reflex&#227;o de Adriana Cavarero ecoe de maneira t&#227;o profunda durante a leitura. N&#227;o &#233; apenas porque Nara conta sua hist&#243;ria, mas porque a forma encontrada por Gicovate permite que o leitor reconhe&#231;a a pr&#243;pria experi&#234;ncia naquela narrativa. A hist&#243;ria de Nara permanece singular, mas sua temporalidade torna-se compartilh&#225;vel. Essa experi&#234;ncia est&#233;tica nasce tamb&#233;m da escolha de uma linguagem sobretudo contempor&#226;nea. A autora escreve sem ornamentos desnecess&#225;rios, apostando num l&#233;xico direto e coloquial, que cria uma identifica&#231;&#227;o quase imediata com o leitor, de modo que n&#227;o h&#225; dist&#226;ncia entre quem narra e quem l&#234;.</p><p style="text-align: justify;">Essa aparente simplicidade, no entanto, resulta de uma escrita de grande precis&#227;o. A autora sabe que, diante da perda, s&#227;o os detalhes que sustentam a mem&#243;ria. Em vez de recorrer a grandes cenas dram&#225;ticas, concentra a emo&#231;&#227;o em experi&#234;ncias aparentemente simples e por isso mesmo t&#227;o humanas, como nesta cena:</p><p style="text-align: justify;"><strong>&#8220;Minha m&#227;e s&#243; partiu quando eu sa&#237; do quarto. S&#243; se deixou ir quando eu n&#227;o ocupava mais a cadeira ao lado da cama. Quando em um minuto eu soltei sua m&#227;o para ir ao corredor. Deu o &#250;ltimo suspiro enquanto eu respirava fundo do outro lado da porta, pensando at&#233; quando aquela agonia ia durar. Ela partiu, a enfermeira avisou. E eu senti um al&#237;vio tremendo, uma paz m&#237;stica, uma serenidade ancestral. E nunca mais senti isso de novo.&#8221;</strong> (p. 34).</p><p style="text-align: justify;">O trecho sintetiza uma das experi&#234;ncias mais dif&#237;ceis de admitir durante o luto: o al&#237;vio. Paula n&#227;o teme aproximar sentimentos contradit&#243;rios. Ao contr&#225;rio, compreende que a perda de algu&#233;m muito amado n&#227;o produz apenas tristeza. H&#225; exaust&#227;o, culpa, e, &#224;s vezes, um instante inesperado de paz. Ao permitir que sua personagem nomeie esse sentimento sem julg&#225;-lo, a autora humaniza uma experi&#234;ncia que costuma permanecer interditada pela sociedade.</p><p style="text-align: justify;">Outro aspecto particularmente sens&#237;vel do romance &#233; a maneira como revela a culpa provocada pelo retorno &#224; vida cotidiana. Depois da morte de algu&#233;m, as tarefas mais banais parecem adquirir um peso desproporcional. Comer, escolher uma roupa, conversar sobre assuntos triviais, sentir desejo ou at&#233; rir podem parecer pequenas trai&#231;&#245;es contra quem j&#225; n&#227;o est&#225; mais presente. Paula capta esse deslocamento sem precisar explic&#225;-lo; basta uma cena para que o leitor (se)reconhe&#231;a (n)essa estranheza:</p><p style="text-align: justify;"><strong>&#8220;Depois da missa, fui jantar com Marta e Cris, em um restaurante antigo da cidade. Queria um lugar velho, com comida de qualidade duvidosa e gosto afetivo, onde eu pudesse ficar longe dos olhares condescendentes.&#8221;</strong> (p. 45).</p><p style="text-align: justify;">Ou ainda quando narra a primeira transa ap&#243;s a morte da m&#227;e:</p><p style="text-align: justify;"><strong>&#8220;A cada movimento eu lembrava que tenho barriga, peito, pele, bunda. Ele metia e eu senta que voltava aos poucos, retornava das profundezas e tomava de volta o corpo que tinha perdido.&#8221;</strong> (p. 129).</p><p style="text-align: justify;">&#201; nesse sentido que a prosa de Gicovate confia na intelig&#234;ncia emocional do leitor, oferecendo-lhe espa&#231;o para reconhecer, na narrativa, as pr&#243;prias emo&#231;&#245;es. Assim, a experi&#234;ncia do luto deixa de ser apenas representada e passa a ser esteticamente compartilhada.</p><p style="text-align: justify;">O romance tamb&#233;m lan&#231;a um olhar atento sobre aqueles que cercam Nara. Amigos e namorado desejam ajud&#225;-la, mas pouco compreendem a natureza daquela experi&#234;ncia. Seu companheiro, apresentado inicialmente como o parceiro ideal, revela aos poucos uma necessidade constante de controlar seus movimentos e determinar quando ela deveria &#8220;voltar ao normal&#8221;. A dificuldade de aceitar a transforma&#231;&#227;o provocada pela perda acaba expondo os limites desse amor.</p><p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo, Paula evidencia, sem qualquer discurso panflet&#225;rio, a perman&#234;ncia de uma divis&#227;o profundamente desigual do cuidado. Cec&#237;lia foi a filha que permaneceu ao lado da m&#227;e, apesar de nunca ter sido verdadeiramente amada por ela. Depois de sua morte, espera-se naturalmente que Nara assuma esse lugar. Os filhos homens, t&#227;o valorizados pela av&#243; ao longo da vida, pouco participam desse processo.</p><p style="text-align: justify;">A cr&#237;tica social surge sem interromper a delicadeza da narrativa. O romance apenas mostra como o cuidado continua sendo percebido como uma voca&#231;&#227;o feminina, quase uma heran&#231;a transmitida entre gera&#231;&#245;es, enquanto aos homens permanece reservado o direito de seguir vivendo suas pr&#243;prias vidas.</p><p style="text-align: justify;">Ao longo desse percurso, Nara compreende que o luto n&#227;o modifica apenas sua rela&#231;&#227;o com a m&#227;e ausente; modifica sua pr&#243;pria identidade. A mulher que existia antes daquela perda deixou de existir. Voltar ao Rio significaria retomar uma vida que j&#225; n&#227;o lhe pertence mais. O romance mostra com delicadeza que sobreviver a uma perda n&#227;o significa recuperar quem &#233;ramos, mas aprender a existir como algu&#233;m transformado por ela.</p><p style="text-align: justify;">Ainda assim, permanece uma fresta de esperan&#231;a. Nara recorda a can&#231;&#227;o que a m&#227;e gostava de cantar, porque &#8220;mist&#233;rio sempre h&#225; de pintar por a&#237;&#8221;. A frase funciona como uma promessa discreta: n&#227;o a promessa de esquecer, mas a de que a vida, um dia, voltar&#225; a encontrar passagem.</p><p style="text-align: justify;">Hannah Arendt, lembrada por Adriana Cavarero em <em>Olha-me e narra-me</em>, afirma que a narra&#231;&#227;o revela o sentido sem cometer o erro de defini-lo. Provavelmente esse o maior m&#233;rito de <em>Como navegar o abismo</em>. Paula Gicovate n&#227;o pretende explicar o luto, tampouco oferecer respostas sobre como sobreviver a ele. Sua escrita recusa qualquer voca&#231;&#227;o terap&#234;utica ou pedag&#243;gica. Em vez disso, constr&#243;i uma narrativa capaz de devolver forma a uma experi&#234;ncia que, para quem a vive, costuma parecer desforme.</p><p style="text-align: justify;">Cavarero escreve que &#233; preciso recebermos nossa pr&#243;pria hist&#243;ria por meio da narrativa de outro, porque cada ser humano, <strong>&#8220;ainda que n&#227;o deseje saber, sabe que &#233; um ser narr&#225;vel imerso na autonarra&#231;&#227;o espont&#226;nea da pr&#243;pria mem&#243;ria.&#8221;</strong> (p. 54).</p><p style="text-align: justify;">Ao terminar <em>Como navegar o abismo</em>, compreendi novamente aquilo que havia experimentado anos antes, quando escrevi a cena inspirada na morte da minha av&#243;. Algumas dores permanecem mudas enquanto as vivemos. &#201; somente quando uma narrativa as acolhe, seja a nossa, seja a de outro, que elas come&#231;am, enfim, a adquirir um contorno palp&#225;vel.</p><p style="text-align: justify;">&#201; dessa maneira que o romance de Paula Gicovate ultrapassa a hist&#243;ria de Nara. Ao narrar um luto singular, torna narr&#225;veis tantos outros. Penso residir a&#237; uma das tarefas mais profundas da literatura: oferecer ao leitor uma hist&#243;ria capaz de devolver forma &#224;quilo que, durante muito tempo, permaneceu sem vocabul&#225;rio. Esse romance n&#227;o narra apenas a dor da perda; ele inventa uma forma liter&#225;ria para esse tempo suspenso em que continuamos vivendo enquanto tudo em n&#243;s parece ter parado. &#201; nesse delicado descompasso entre o tempo do mundo e o tempo da dor que <em>Como navegar o abismo</em> encontra sua forma e beleza.</p><p style="text-align: justify;">Obs.: No dia seguinte &#224; leitura do romance, n&#227;o resisti e fui preparar um bolo de milho. Assim como a av&#243; da narradora, vov&#243; preparava sobremesas como ningu&#233;m e eu adorava observ&#225;-la bater as massas dos bolos, mexer a panela at&#233; chegar ao ponto exato do doce de cupua&#231;u que cobriria a mousse e acabei herdando seu talento para a cozinha. Hoje, quando a saudade bate forte, fa&#231;o um bolo para assim tentar aplacar a saudade e o vazio que ela deixou&#8230;</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!AIKn!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe91bdccc-6de5-442b-ace4-8c750fec91b4_987x1500.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!AIKn!, /__u/myriamscotti.substack.com/w_424, /__u/myriamscotti.substack.com/c_limit, /__u/myriamscotti.substack.com/f_webp, /__u/myriamscotti.substack.com/q_auto:good, /__u/myriamscotti.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe91bdccc-6de5-442b-ace4-8c750fec91b4_987x1500.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!AIKn!, 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isPermaLink="false">https://myriamscotti.substack.com/p/o-peso-do-corpo-a76</guid><dc:creator><![CDATA[Myriam Scotti]]></dc:creator><pubDate>Mon, 03 Aug 2026 13:48:48 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!1KCU!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F799574c2-e1a8-491b-bcd9-b6adc415f8e4_1206x1595.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">J&#225; faz uma hora que estou aqui enfurnada nesse escrit&#243;rio &#224; procura de respostas que n&#227;o vir&#227;o, mas, ainda assim, insisto. Ou&#231;o meus filhos rindo de alguma brincadeira que meu pai est&#225; aprontando na sala. Ou&#231;o mam&#227;e falar que est&#225; esquentando o feij&#227;o e passando a farofa na manteiga, exatamente como minha av&#243; fazia. Ou&#231;o meu marido conversar com algu&#233;m pelo celular. Mas nada &#233; mais importante que essa escava&#231;&#227;o. Enfim, chego aos &#225;lbuns que meus pais montaram do primeiro netinho, do meu primeiro filhinho. Um momento muito feliz para eles, nem desconfiavam o que se passava comigo. Mam&#227;e at&#233; intu&#237;a que eu n&#227;o estava bem, mas n&#227;o alcan&#231;ava que mais do que a ang&#250;stia pela chegada do primeiro filho, meu casamento estava se desfazendo.</p><p style="text-align: justify;">Quando penso naquelas primeiras semanas ap&#243;s a ces&#225;rea, percebo que entrei naquela casa como quem cruza um limite irrevers&#237;vel: com um bebezinho nos bra&#231;os e uma sensa&#231;&#227;o de fracasso que eu ainda n&#227;o sabia nomear. Eu queria fugir, desistir de todas as decis&#245;es at&#233; ent&#227;o tomadas, dar adeus a tudo e a todos, desparecer no mundo, s&#243; para n&#227;o ter que enfrentar o porvir. S&#243; para n&#227;o ter que ser respons&#225;vel pela vida de algu&#233;m que eu mal conhecia. S&#243; para n&#227;o ter que fingir para as pessoas uma felicidade inexistente.</p><p style="text-align: justify;">As dores causadas pela ces&#225;rea eram t&#227;o agudas que mal conseguia me levantar da cama para amamentar. Lembro-me de chorar junto com o meu filho quando ele anunciava com um grunhido que era hora de mamar. Eu n&#227;o queria sair da cama; do&#237;a em qualquer posi&#231;&#227;o, como se meu corpo tivesse sobrevivido a um atropelamento. A m&#233;dica me ofereceu analg&#233;sicos, mas rejeitei por medo de prejudicar o beb&#234;. Na gravidez, eu havia lido sobre rem&#233;dios que atrasam o desenvolvimento do rec&#233;m-nascido, e tudo o que eu menos desejava era mais uma culpa para carregar.</p><p style="text-align: justify;">As imagens que tenho desse per&#237;odo s&#227;o fragmentadas: peda&#231;os de banho nos intervalos poss&#237;veis, refei&#231;&#245;es que eu mal mastigava e horas intermin&#225;veis extraindo leite com a bombinha, como uma vaca d&#243;cil e exausta. Meu beb&#234;, mesmo t&#227;o pequeno e fr&#225;gil, parecia compreender a minha tristeza &#8212; talvez porque a tenha absorvido no ventre &#8212; e suportava, quietinho, os meus choros escondidos debaixo do chuveiro enquanto ele dormia no beb&#234;-conforto dentro do banheiro.</p><p style="text-align: justify;">Quando revisito os primeiros dias da chegada do meu filho, cerca de vinte e cinco dias, me deparo uma mulher tentando ainda compreender onde o amor apaixonado que havia entre marido e mulher come&#231;ou a se perder. Na &#233;poca, eu acreditava que, com o tempo, recuperaria a forma do corpo, e, consequentemente, a beleza, a autoestima. Imaginava que, &#224; medida que a cicatriz da ces&#225;rea fosse incorporada pela pele, aquele homem voltaria a me olhar com desejo ou pelo menos com ternura. Mas ele continuava a me evitar, como se o simples contato visual fosse uma amea&#231;a. E foi essa rejei&#231;&#227;o cont&#237;nua que finalmente me empurrou para a conversa que se tornou, retrospectivamente, um marco irrevers&#237;vel.</p><p style="text-align: justify;">Lembro de n&#243;s dois diante da televis&#227;o da sala, o beb&#234; entre n&#243;s. E penso hoje como essa imagem diz tanto: um casal que j&#225; n&#227;o se toca, separado por uma crian&#231;a que deveria uni-los. Eu mirava meu marido e sentia que havia ali um estranho dividindo o sof&#225; comigo. Talvez eu estivesse esperando que ele tomasse a iniciativa. Mas n&#227;o, precisava ser eu a rasgar a membrana do sil&#234;ncio. A mulher que fui naquele instante falava com toda a frustra&#231;&#227;o acumulada na gravidez, no parto, no puerp&#233;rio, nas noites insones, no abandono velado.</p><p style="text-align: justify;">&#8220;Chega. N&#227;o aguento mais esse desprezo. O que voc&#234; quer? Tem outra?&#8221;</p><p style="text-align: justify;">Hoje percebo que eu n&#227;o perguntava s&#243; a ele, eu perguntava a mim tamb&#233;m: <em><span>o que voc&#234; ainda est&#225; fazendo aqui?</span></em> Porque a suspeita j&#225; morava em mim. Eu havia convivido com ela durante meses, como se fosse um inquilino. S&#243; que, durante a gravidez, eu n&#227;o tinha coragem de dar-lhe nome e forma. N&#227;o tinha espa&#231;o emocional para enfrentar. Eu j&#225; estava lidando com meu corpo se alterando, com o medo de n&#227;o ser boa m&#227;e, de n&#227;o voltar a ser mulher para ningu&#233;m, de ser engolida por uma maternidade que n&#227;o terminaria nunca.</p><p style="text-align: justify;">Quando aquele homem, j&#225; irreconhec&#237;vel para mim, baixou a cabe&#231;a, senti o golpe antes mesmo de ouvi-lo. O sil&#234;ncio dele foi mais eloquente que qualquer palavra. Eu entendi ali que n&#227;o era paranoia, eu havia sido tra&#237;da. E mesmo assim precisei ouvir:</p><p style="text-align: justify;">&#8220;N&#227;o, n&#227;o tem&#8230; mas teve.&#8221;</p><p style="text-align: justify;">Sinto at&#233; hoje o impacto daquelas palavras: como se muitas facas fossem penetrando devagar meu est&#244;mago. A dor foi f&#237;sica. A n&#225;usea irracional. Meu corpo reconheceu, antes de minha mente, que algo irrevog&#225;vel havia acontecido. Eu tremia inteira, sem conseguir controlar meus ossos que de repente pareciam ter se descolado da carne. E tamb&#233;m me lembro da compara&#231;&#227;o imediata com a adolesc&#234;ncia, quando meu primeiro namorado exigia provar outros corpos, outras &#8220;experi&#234;ncias&#8221;, porque eu ainda n&#227;o estava &#8220;pronta&#8221;. Ali entendi que, para muitos homens, nossos corpos s&#227;o degraus ou buracos, nunca destinos.</p><p style="text-align: justify;">Eu quis gritar. Quis quebrar algo. Quis arrancar dele a verdade inteira. Mas meu filhinho dormia. E ele n&#227;o tinha culpa alguma de nossas mis&#233;rias conjugais.</p><p style="text-align: justify;">A enfermeira que ainda estava me acompanhando entrou naquele momento quase como um elemento providencial da cena e compreendeu o drama apenas pelo ar pesado da sala. Seu olhar me permitiu fugir. Ela assumiu o beb&#234;; eu subi as escadas. Com raiva. Com os pontos internos ainda frescos. Com a carne fraca tentando sustentar a alma.</p><p style="text-align: justify;">&#8220;Se acalma, voc&#234; pode passar mal&#8221;, ela disse.</p><p style="text-align: justify;">Mas eu <em>j&#225;</em> estava mal. Havia muito tempo.</p><p style="text-align: justify;">Quando voltei a falar com G., foi como quem procura certezas num desespero final:</p><p style="text-align: justify;">&#8220;&#201; algu&#233;m que eu conhe&#231;o?&#8221;</p><p style="text-align: justify;">Hoje penso: por que esse detalhe importa? Como se a dor tivesse hierarquia.</p><p style="text-align: justify;">Se fosse uma mulher desconhecida, doeria. Se fosse algu&#233;m que eu conhe&#231;o, doeria de outra maneira. Qualquer cen&#225;rio &#233; um corte. S&#243; muda o formato.</p><p style="text-align: justify;">Eu queria entender a l&#243;gica da trai&#231;&#227;o. Onde? Quando? Quantas vezes? Em que posi&#231;&#227;o? Ele queria minimizar: &#8220;N&#227;o significou nada.&#8221; Mas hoje vejo o equ&#237;voco dessa frase. Porque amor e sexo n&#227;o s&#227;o os &#250;nicos significados poss&#237;veis. Ele depositou naquela mulher a liberdade que recusou a mim. O corpo dele escolheu fugir do meu. Isso por si s&#243; j&#225; era significativo.</p><p style="text-align: justify;">Quando eu revelei a trai&#231;&#227;o cometida no passado, quando ainda namor&#225;vamos, n&#227;o foi vingan&#231;a, foi tentativa de equival&#234;ncia. De me reerguer do ch&#227;o da humilha&#231;&#227;o. De dizer: <em><span>eu tamb&#233;m fui desejada por outro, e sobrevivi</span></em>.</p><p style="text-align: justify;">Ele quis detalhes, e me recusei, da mesma forma que ele se recusara.</p><p style="text-align: justify;">Hoje percebo que aquilo foi a nossa guerra de narrativas: Quem feriu mais? Quem enganou antes? Quem mentiu melhor?</p><p style="text-align: justify;">Mas quando disse:</p><p style="text-align: justify;">&#8220;N&#227;o pense que o que me arrasa &#233; voc&#234; ter tido outra. N&#227;o sou sua dona. Mas a deslealdade no meu momento mais fr&#225;gil, isso n&#227;o tem perd&#227;o.&#8221; Percebo agora que isso continha a verdade mais &#237;ntima. Eu n&#227;o precisava dele como amante, eu precisava dele como aliado. Como testemunha da minha vulnerabilidade. Ele n&#227;o soube ser.</p><p style="text-align: justify;">Lembro que o choro do meu filho me chamou de volta ao presente. A maternidade, essa esp&#233;cie de jugo absoluto, me puxou pelo bra&#231;o. Fui ao quartinho dele com o rosto em brasa. Quando o coloquei ao peito, algo ancestral aconteceu: o &#250;tero se contraiu, como se a dor emocional tivesse gatilhos f&#237;sicos. A amamenta&#231;&#227;o trazia c&#243;lica uterina e, paradoxalmente, al&#237;vio. Talvez a maternidade seja isso: um cont&#237;nuo de dor e consolo atravessando o mesmo corpo.</p><p style="text-align: justify;">A enfermeira falava palavras de consolo: &#8220;isso passa&#8221;, &#8220;seu filho &#233; o mais importante&#8221;, &#8220;voc&#234; ser&#225; uma m&#227;e maravilhosa&#8221;. E eu queria acreditar. Queria muito. Mas sentia um abismo abrindo dentro de mim: e se eu n&#227;o fosse uma boa m&#227;e? E se eu estivesse falhando j&#225;? E se meu filhinho sentisse meu pranto interno?</p><p style="text-align: justify;">Quando recordo aquela noite, sinto que ali come&#231;ou o luto da mulher que eu havia sido. Foi o momento em que percebi que o fracasso n&#227;o estava s&#243; no casamento, mas na imagem que eu fazia de mim mesma. E talvez seja essa a parte mais dif&#237;cil de perdoar: quando n&#227;o &#233; mais o outro que nos desilude, mas n&#243;s mesmos.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!1KCU!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F799574c2-e1a8-491b-bcd9-b6adc415f8e4_1206x1595.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!1KCU!, /__u/myriamscotti.substack.com/w_424, /__u/myriamscotti.substack.com/c_limit, /__u/myriamscotti.substack.com/f_webp, /__u/myriamscotti.substack.com/q_auto:good, /__u/myriamscotti.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F799574c2-e1a8-491b-bcd9-b6adc415f8e4_1206x1595.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!1KCU!, 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trecho]]></description><link>https://myriamscotti.substack.com/p/o-peso-do-corpo</link><guid isPermaLink="false">https://myriamscotti.substack.com/p/o-peso-do-corpo</guid><dc:creator><![CDATA[Myriam Scotti]]></dc:creator><pubDate>Tue, 21 Jul 2026 11:02:59 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ZRvz!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5490b6c1-46ec-4634-a1c3-7683722b08ae_550x359.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>Os &#250;ltimos meses do ano costumam inaugurar as chuvas amaz&#244;nicas. Mas, naquele 13 de novembro de 2010, o sol ainda ardia e a umidade alta abafava o clima. Nunca fui uma pessoa incomodada com o calor de Manaus, mas a gravidez transformou n&#227;o apenas o corpo como tamb&#233;m as sensa&#231;&#245;es do corpo alargado, o qual eu era obrigada a chamar de meu. Conforme a barriga expandia, o mal-estar provocado pela quentura me amofinava mais e mais e at&#233; o suor, t&#227;o incomum para mim, se tornou intenso, me for&#231;ando a trocar de blusa mais de uma vez ao dia. Al&#233;m disso, o meu olfato mudou e os cheiros se intensificaram, causando-me n&#225;useas constantes e terr&#237;veis enxaquecas.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>No entanto, talvez eu nem me tocasse de tudo isso se n&#227;o rejeitasse a barriga enorme que tanto me deformava. Ainda que inconscientemente, acusei meu corpo agigantado pelo fiasco do meu casamento. Afinal, tinha sido a partir da not&#237;cia da gravidez que G. se distanciara, transformando-se num completo estranho. Por mais que eu tentasse, n&#227;o conseguia afastar o pensamento de que a maternidade tinha arruinado a minha rela&#231;&#227;o. Ao mesmo tempo, como podia um ser t&#227;o inocente ter alguma culpa? Ele nem tinha escolhido vir, eu que o desejei. Ser&#237;amos n&#243;s dois apenas, caso o pior acontecesse. Eu precisava me preparar para isso.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Entrei no sagu&#227;o do hospital de m&#227;os dadas com G. e, logo atr&#225;s vinham meus pais, irm&#227; e os amigos mais pr&#243;ximos, ansiosos para se tornarem tios. Carinhas alegres me abra&#231;avam e felicitavam. &#8220;Ai, amiga, n&#227;o vemos a hora de conhec&#234;-lo!; Adoramos o nome!&#8221;; &#8220;Pode vir, bebezinho, j&#225; queremos te conhecer!&#8221; e v&#225;rias m&#227;os esfregavam a minha barriga pontuda. Eu n&#227;o sabia o que sentir. Ao mesmo tempo em que queria me ver livre daquela barriga que tanto me incomodava, temia o porvir. E se eu n&#227;o fosse capaz de cuidar do meu filho? E se eu n&#227;o o amasse? E se...</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Equipe m&#233;dica pronta, fui levada para o centro cir&#250;rgico de cadeira de rodas, meu marido ao meu lado, tenso, provavelmente espreitado pela culpa. O anestesiologista tentava me acalmar, enquanto preparava a seringa. &#8220;Precisa relaxar mais o corpo se n&#227;o d&#243;i mais&#8221;. Como relaxar vendo o tamanho da agulha que ele enfiaria em mim?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Ai! Que dor, meu Deus, n&#227;o vou aguentar! T&#225; doendo muito, Doutor...&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Calma, respira fundo, vai passar, eu prometo.&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>E passou. Devagar, transferiram-me para a mesa de cirurgia, um p&#226;nico se apoderou de mim quando n&#227;o senti mais as pernas e as m&#227;os foram amarradas, al&#233;m de um pano verde sendo estendido a fim de tampar o bal&#233; dos m&#233;dicos. A perda total do controle sobre o pr&#243;prio corpo. V&#225;rias pessoas me manipulando e eu im&#243;vel, aleijada, amarrada, destru&#237;da por dentro e por fora. O que havia de bonito na maternidade? Era s&#243; o que passava pela minha mente... O que fiz comigo? O que fiz com o meu corpo? Em nome de qu&#234; escolhi me maltratar daquela maneira?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A cena, da qual eu j&#225; n&#227;o era mais a protagonista, estava longe de ser o que eu imaginara como o dia do parto. Nada do que planejei ao longo dos anos estava acontecendo. As infec&#231;&#245;es urin&#225;rias constantes interromperam meu sonho de parto normal; a transforma&#231;&#227;o do meu corpo horrorizou meu marido; a alegria de ser m&#227;e ainda n&#227;o me visitara... Meus pensamentos se dissiparam pela m&#227;o de G. segurando a minha cada vez mais forte. Parecia at&#233; que era ele quem estava sendo aberto. De repente, um mal-estar, uma &#226;nsia de v&#244;mito e ent&#227;o o anestesiologista, atento, me diz:</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;&#201; que est&#227;o te manipulando, vou ajustar a medica&#231;&#227;o&#8221;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Embora anestesiada, percebia a for&#231;a que faziam para que o beb&#234; sa&#237;sse.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Vem, papai, j&#225; vai nascer, vem r&#225;pido!&#8221;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Enfim, o choro. Do beb&#234; e o meu. A pediatra mostra-o rapidamente para mim, dou um beijinho em suas bochechas rosadas e ainda com resto de parto. Constato o quanto ele &#233; pequeno e magrinho, n&#227;o estava pronto para vir a esse mundo. Nem ele nem eu. Fomos ambos arrancados de nossas vidas seguras para sermos arremessados &#224;quele mundo hostil chamado puerp&#233;rio, do qual eu mal ouvira falar, mas conheceria &#8211; muito em breve &#8211; todas as suas cores.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Temos que lev&#225;-lo agora, vamos examin&#225;-lo, ele precisa ir para a incubadora se recuperar, t&#225; muito cansadinho. Voc&#234; vai dormir, m&#227;ezinha. Precisa descansar.&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O beb&#234; estava cansado, respirando com dificuldade. Eu queria saber mais sobre o estado de sa&#250;de do meu filho, mas as palavras se embolaram e, aos poucos, vi todos os rostos bem emba&#231;ados.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Acordei da anestesia durante a madrugada, por volta das 4h, olhei para os lados e flagrei meu marido dormindo na poltrona e a enfermeira que me acompanhava sentada no sof&#225;, mexendo no celular. Ela se aproximou de mim e perguntei onde estava o beb&#234;, fazendo men&#231;&#227;o de levantar. G. despertou assustado e tamb&#233;m se aproximou, passando a m&#227;o nos meus cabelos.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Calma, voc&#234; est&#225; operada, n&#227;o pode levantar assim.&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Agora voc&#234; se preocupa comigo? Posso sim e vou. Se n&#227;o quiser me ajudar, sai da frente.&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Mas, amor, ele t&#225; na UTI.&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;&#201; meu filho, eu vou!&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Deixa ela ir.&#8221;, falou a enfermeira que me acompanhava.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ciente da minha teimosia, G. me ajudou a levantar, veio uma tontura e sentei para me recuperar. A enfermeira se aproximou e explicou que eu teria que andar com cuidado, &#8220;s&#243; faz doze horas que voc&#234; se operou, precisa ter calma, meu bem.&#8221; Era como se tivesse desaprendido a andar, p&#233; ante p&#233;, amparada por G. e bastante curvada, caminhei por um corredor, que me pareceu longo demais, at&#233; a UTI neonatal.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Na antessala e, sem a roupa adequada, me encaminhei para a sala principal onde havia v&#225;rias incubadoras, mas s&#243; o meu filho estava internado. Vestindo uma fraldinha adaptada para o seu tamanho, muito magrinho, de sonda, luvas e touquinha, t&#227;o fr&#225;gil, como poderia me fazer algum mal? Olhei para meu marido com &#243;dio, como eu poderia pensar que meu filho era respons&#225;vel pela minha infelicidade? Tive vontade de gritar para G. &#8220;MONSTRO&#8221;, mas a enfermeira plantonista apareceu e com uma cara bem brava me chamou a aten&#231;&#227;o.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Voc&#234; n&#227;o pode entrar assim, sem autoriza&#231;&#227;o e sem a roupa adequada.&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Sou a m&#227;e e quero v&#234;-lo.&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Mas, m&#227;ezinha, ele est&#225; muito fraquinho.&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>M&#227;ezinha uma ova. O que achavam que era? Imbecil?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>G., percebendo que eu n&#227;o cederia, tomou a frente e pediu desculpas por termos entrado sem autoriza&#231;&#227;o e me convenceu a voltar para o quarto. Sa&#237; daquela UTI triste, me sentindo um lixo.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Eu n&#227;o fui capaz de proteger meu filho no meu corpo pelo tempo que ele precisava.&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;N&#227;o &#233; sua culpa.&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;N&#227;o mesmo. &#201; nossa!&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;N&#227;o fala assim, vai...&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Quero deitar, t&#244; com muita dor.&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;N&#227;o era pra voc&#234; ter se esfor&#231;ado ainda.&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Quem &#233; voc&#234; pra me dizer o que devo ou n&#227;o fazer?&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;S&#243; estou querendo ajudar.&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Um pouco tarde, n&#227;o?&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ap&#243;s quarenta e oito horas, meu beb&#234; se recuperava muito bem, mas minha press&#227;o come&#231;ou a subir, retardando a alta hospitalar. N&#227;o conseguia parar de pensar como seria ir para casa com um beb&#234; e ser respons&#225;vel por sua sobreviv&#234;ncia. Eu n&#227;o daria conta, eu ainda n&#227;o estava pronta para cuidar de um filho.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Eu vim para liberar voc&#234;s para casa, mas diante do seu quadro, vou te deixar em observa&#231;&#227;o at&#233; amanh&#227;. O que est&#225; acontecendo? Relaxe, seu filho est&#225; bem, sua cirurgia n&#227;o teve nenhuma intercorr&#234;ncia, n&#227;o tem motivo para estar ansiosa assim.&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Como explicar para a m&#233;dica tudo o que aconteceu durante aquele 2010? Como reportar que eu estava triste e queria minha vida de volta, que eu n&#227;o queria estar naquele lugar nem naquela condi&#231;&#227;o? Seria loucura dizer que eu n&#227;o tinha a menor vontade de voltar para casa com uma crian&#231;a estranha no colo de quem agora me tornaram respons&#225;vel para sempre? Ali&#225;s, pensar que um filho mudava a minha via para sempre me desesperou e, por mim, pod&#237;amos continuar naquele hospital tamb&#233;m para sempre, assim eu nunca ficaria sozinha com o beb&#234;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Sem poder dizer a verdade, limitei-me a prometer que me acalmaria e esbocei um sorriso.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ao longo do dia seguinte ao parto, recebi v&#225;rias visitas. Por fora, mantive-me impec&#225;vel, como minha av&#243; me ensinou tantas vezes. &#8220;Ningu&#233;m precisa saber dos seus problemas, roupa suja se lava em casa e s&#243; entre os nossos&#8221;. Para ajudar a disfar&#231;ar, pedi ao G. minha bolsinha de maquiagem que estava na mala, penteei os cabelos, treinei uma carinha alegre. Cumpri tudo o que aprendi nos vinte e sete anos que vov&#243; esteve em minha vida. Ali&#225;s, depois que vov&#243; nos deixou, suas frases, feito um disco furado, ecoavam o tempo todo na minha mente. Ela ficaria orgulhosa: sua neta conseguira disfar&#231;ar as olheiras, a cara de dor e a tristeza. Acomodada entre travesseiros, uma prima querida chegou e, arregalando os olhos, elogiou:</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Menina, nem parece que est&#225; parida. Qual o segredo?&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Perto da hora do almo&#231;o, a enfermeira do hospital veio medir minha press&#227;o, e, ainda bem, baixara e, provavelmente, receber&#237;amos alta no fim do dia. Ent&#227;o, o que mais temia aconteceu: meu filho viria para o quarto, n&#227;o precisava mais ficar na incubadora. Enrijeci. O que faria com aquela crian&#231;a? A enfermeira que me acompanhava, percebeu meu semblante e se aproximou da cama. &#8220;Vou estar aqui para te ajudar, viu? &#201; seu filho, voc&#234; j&#225; sabe o que deve fazer&#8221;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>De repente a porta se abriu e o beb&#234; apareceu igual um pacotinho dentro do ber&#231;o transparente. Dormia sereno, vestido com o macac&#227;ozinho branco que eu escolhera meses atr&#225;s, junto com as luvinhas e meias.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Quer carregar?&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Sem esperar minha resposta, a enfermeira-acompanhante respondeu que sim e pegou o beb&#234; com uma destreza impressionante.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Voc&#234;s precisam se conhecer!&#8221; e com cuidado depositou aquele negocinho t&#227;o fr&#225;gil, parecia morto de t&#227;o quieto, mas estava rosadinho e a barriguinha se movimentava rapidamente, num movimento de inspira&#231;&#227;o e expira&#231;&#227;o feito o que eu treinara nas aulas de yoga para gr&#225;vidas.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ao estranh&#225;-lo, tamb&#233;m n&#227;o sabia mais quem eu era. N&#227;o me reconhecia mais naquele novo corpo. Percebi meu marido nos admirando, mas ele tamb&#233;m n&#227;o era o mesmo de antes. Quem seremos? Minha prima desfez o nosso transe e sugeriu umas fotos.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Vai l&#225;, papai.&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A primeira foto da fam&#237;lia completa.</span></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ZRvz!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5490b6c1-46ec-4634-a1c3-7683722b08ae_550x359.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ZRvz!, /__u/myriamscotti.substack.com/w_424, /__u/myriamscotti.substack.com/c_limit, /__u/myriamscotti.substack.com/f_webp, /__u/myriamscotti.substack.com/q_auto:good, 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Godinho]]></description><link>https://myriamscotti.substack.com/p/paralelo-11</link><guid isPermaLink="false">https://myriamscotti.substack.com/p/paralelo-11</guid><dc:creator><![CDATA[Myriam Scotti]]></dc:creator><pubDate>Mon, 20 Jul 2026 12:58:34 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!dPHE!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Feda4ae62-83f3-45bd-820b-1931e126ad03_3011x4490.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Passei o domingo em outro tempo-espa&#231;o, completamente absorvida pela hist&#243;ria dram&#225;tica de <em>Paralelo 11</em>, novo romance de Sandra Godinho, rec&#233;m-publicado pela Editora Faria e Silva. Finalista do Pr&#234;mio LeYa 2024, o livro encerra uma trilogia dedicada aos massacres ind&#237;genas na Amaz&#244;nia. Desta vez, a autora entrela&#231;a com not&#225;vel habilidade fatos hist&#243;ricos e fic&#231;&#227;o para reconstruir o genoc&#237;dio do povo Cinta-Larga, ocorrido em 1963, na regi&#227;o entre os rios Aripuan&#227; e Roosevelt, no atual Mato Grosso.</p><p style="text-align: justify;">A narrativa se sustenta sobretudo em duas vozes marcantes. A primeira &#233; a da sertaneja Alma, que, em uma prosa po&#233;tica de grande for&#231;a, narra sua fuga das agruras da seca em dire&#231;&#227;o &#224; Amaz&#244;nia, onde busca sobreviver e acaba encontrando outra forma de viol&#234;ncia. A segunda &#233; a do padre Jonas, mission&#225;rio dilacerado por uma crise de f&#233; diante das atrocidades que testemunha em nome do chamado &#8220;desenvolvimento&#8221; da regi&#227;o amaz&#244;nica.</p><p style="text-align: justify;">Sandra Godinho escreve sem concess&#245;es. Sua prosa &#233; destemida e n&#227;o recorre a eufemismos para representar a viol&#234;ncia imposta aos povos ind&#237;genas, especialmente &#224;s mulheres. Ao contr&#225;rio, desmonta qualquer narrativa civilizat&#243;ria e deixa evidente quem s&#227;o os verdadeiros selvagens: os homens brancos que, movidos pela ambi&#231;&#227;o, revelam-se capazes dos atos mais brutais.</p><p style="text-align: justify;">Mas <em>Paralelo 11</em> n&#227;o se limita a reconstituir um epis&#243;dio hist&#243;rico. O romance convoca o leitor a encarar um passado que permanece pouco conhecido e, muitas vezes, deliberadamente silenciado. Sandra Godinho revolve a terra da mem&#243;ria e faz emergir aquilo que insistimos em soterrar. Aproximar-se desse passado n&#227;o &#233; um exerc&#237;cio de nostalgia, mas de responsabilidade. &#201; olhando para ele que podemos compreender o presente e reconhecer os discursos que, ainda hoje, parecem sentir saudade de tempos que deveriam apenas nos envergonhar.</p><p style="text-align: justify;">Se nos falta mem&#243;ria hist&#243;rica, que venha a boa literatura cumprir esse papel. <em>Paralelo 11</em> nos lembra que o genoc&#237;dio dos povos origin&#225;rios n&#227;o pertence apenas ao passado: &#233; uma ferida que permanece aberta e cuja lembran&#231;a &#233; condi&#231;&#227;o para que atrocidades como essa nunca mais se repitam.</p><p></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!dPHE!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Feda4ae62-83f3-45bd-820b-1931e126ad03_3011x4490.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!dPHE!, /__u/myriamscotti.substack.com/w_424, /__u/myriamscotti.substack.com/c_limit, /__u/myriamscotti.substack.com/f_webp, /__u/myriamscotti.substack.com/q_auto:good, /__u/myriamscotti.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Feda4ae62-83f3-45bd-820b-1931e126ad03_3011x4490.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!dPHE!, /__u/myriamscotti.substack.com/w_848, /__u/myriamscotti.substack.com/c_limit, /__u/myriamscotti.substack.com/f_webp, /__u/myriamscotti.substack.com/q_auto:good, /__u/myriamscotti.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Feda4ae62-83f3-45bd-820b-1931e126ad03_3011x4490.jpeg 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!dPHE!, /__u/myriamscotti.substack.com/w_1272, /__u/myriamscotti.substack.com/c_limit, 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isPermaLink="false">https://myriamscotti.substack.com/p/a-surra</guid><dc:creator><![CDATA[Myriam Scotti]]></dc:creator><pubDate>Mon, 13 Jul 2026 13:22:54 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!NkP0!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Faa560057-4680-4775-a64c-a4c0b4168681_1206x959.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>O fim da tarde descia sobre o igarap&#233; com uma lentid&#227;o abafada de agosto, como se o c&#233;u inteiro estivesse com pregui&#231;a do calor. Aos poucos, por entre as copas altas, os &#250;ltimos raios laranja-avermelhados tingiam as folhas, os troncos e a pele tom de guaran&#225; da &#225;gua. O ar permanecia pesado, parado, t&#237;pico do ver&#227;o amaz&#244;nico.</p><p>Mesmo depois que o sol come&#231;ava a se esconder, o calor n&#227;o ia embora, apenas mudava de lugar, saindo das telhas, das t&#225;buas e dos corpos suados para se enroscar debaixo das &#225;rvores, onde ficava preso entre os cip&#243;s como um bafo morno, fazendo a pele co&#231;ar e o esqueletopedir &#225;gua gelada, enquanto os sons da floresta come&#231;avam a mudar, confusos entre cigarras, sapos, p&#225;ssaros que iam se tornando invis&#237;veis, pequenos estalose um grito agudo vindo de algum ponto da mata que ningu&#233;m conseguia enxergar.</p><p>O igarap&#233;, estreito e escuro, parecia mais fundo naquela hora do que ao meio-dia, porque a &#225;gua deixava de ser transparente e passava a guardar uma cor de ch&#225; de crajiru concentrado, uma cor de segredo, e as margens, que de dia eram apenas lama, raiz e mato, agora se fechavam como se tivessem vontade pr&#243;pria, tornando o caminho de volta mais comprido e mais quieto.</p><p>&#192;s seis horas da tarde, quando a luz se desfazia depressa como quem se esconde de algo e o verde da mata escurecia por camadas at&#233; se confundir com o c&#233;u da noite, o lugar inteiro se transformava de um jeito quase humano, como se observasse sem olhos o menino que ainda insistia em ficar na &#225;gua. O frescor do banho, t&#227;o desejado durante a tarde inteira, come&#231;ava a trazer uma sensa&#231;&#227;o diferente, menos de al&#237;vio e mais de receio, como se aquele corpo pequeno, rindo e batendo as pernas dentro do igarap&#233;, estivesse ocupando um espa&#231;o que j&#225; n&#227;o lhe pertencia. A &#225;gua lambia seus ombros com uma frieza cada vez mais escura, os peixinhos sumiam entre as ra&#237;zes submersas, as sombras das &#225;rvores se alongavam e a mata, antes t&#227;o aberta e convidativa, parecia se inclinar devagar, silenciosa e cerrada, esperando que ele sa&#237;sse.</p><p>Quando enfim percebeu que a claridade j&#225; n&#227;o vinha do c&#233;u, mas apenas de um resto avermelhado preso entre as folhas mais altas, o menino sentiu um arrepio subir pelas costas molhadas, n&#227;o porque a &#225;gua estivesse fria demais, mas porque a quietude que se abriu ao redor parecia ter sido feita de prop&#243;sito para ele. Ele ainda tentou rir sozinho, daquele riso pequeno que crian&#231;a usa para espantar medo sem admitir que tem medo, mas o som morreu depressa, engolido pela mata, e, enquanto subia segurando nas ra&#237;zes, com os calcanhares escorregando no barro liso e a bermuda pesada grudada nas pernas, lembrou da voz da m&#227;e avisando que quando o sol se despedia a &#225;gua mudava de dono.</p><p>&#8212; A m&#227;e vai ralhar comigo. &#8212; pensou alto, tentando espantar o medo que j&#225; tinha se apoderado dele.</p><p>A casa n&#227;o ficava longe, e de dia o caminho era t&#227;o conhecido que ele podia faz&#234;-lo correndo, pulando a raiz grande da suma&#250;ma ca&#237;da, passando pelo a&#231;aizeiro onde costumava trepar para colher a fruta, mas naquela hora a trilha parecia ter se afastado dele, e cada curva, antes pequena, agora se dobrava para dentro da mata como se quisesse levar o menino para um lugar que n&#227;o era sua casa. O calor continuava suspenso no ar, misturado ao vapor que subia da terra, mas a pele dele, ainda molhada, come&#231;ou a se arrepiar de um jeito que n&#227;o combinava com o abafamento da tarde.</p><p>Foi ent&#227;o que o primeiro cip&#243; bateu, n&#227;o como um arranh&#227;o de quem passa desatento por dentro do mato.Veio de lado, fino e estalou nas costas do menino com uma certeza t&#227;o grande que ele parou no meio da trilha, sem respirar direito, tentando entender se tinha corrido demais, se tinha trope&#231;ado, se algum galho solto havia voltado como vara depois de ser empurrado por seu pr&#243;prio corpo, mas a dor ardida, espalhada numa linha quente sobre a pele, dizia outra coisa, e antes que ele conseguisse olhar para tr&#225;s, outro golpe veio nas pernas, t&#227;o baixo e t&#227;o certeiro que seus joelhos fraquejaram e seus dedos se enterraram na lama.</p><p>A mata, ao redor, permanecia fechada e pacata, mas n&#227;o era mais a quietude natural do anoitecer; era um sil&#234;ncio vigiado, desses que parecem segurar o f&#244;lego, e o menino, com o cora&#231;&#227;o saltando pela boca, chamou pela m&#227;e numa voz que saiu menor do que ele esperava, quebrada pela vergonha de estar longe de casa quando j&#225; devia estar sentado no assoalho, comendo farinha com peixe ou fingindo que n&#227;o ouvia o ralho. Nenhuma resposta veio, apenas um estalo seco no alto, depois outro mais perto, e, de repente, uma chuva de folhas caiu sobre seus ombros como se algu&#233;m tivesse sacudido os galhos acima dele com raiva, cobrindo seu rosto, entrando na boca, grudando nos olhos, enquanto os cip&#243;s pendurados balan&#231;avam devagar, mesmo sem vento.</p><p>Ele come&#231;ou a correr, mas a trilha agora parecia errar de prop&#243;sito, fechando-se em ra&#237;zes altas, po&#231;as escuras, troncos inclinados e sombras de &#225;rvores que se atravessavam diante dele e a cada passo alguma coisa o surrava, ora um galho que descia e lhe batia na orelha, ora uma raiz que subia do ch&#227;o e lhe arrancava o equil&#237;brio, ora uma folha larga que se colava ao seu rosto com a for&#231;a de uma m&#227;o molhada, fazendo-o trope&#231;ar, engolir choro e pedir desculpa sem saber exatamente a quem. A voz da m&#227;e voltava dentro da cabe&#231;a, repetindo que menino teimoso aprende com a vara do mundo, que &#225;gua de tardinha n&#227;o lava, leva, que quem n&#227;o escuta m&#227;e escuta mato, e quanto mais ele tentava expulsar aquelas palavras, mais a mata parecia diz&#234;-las com todos os seus ru&#237;dos.</p><p>Ele j&#225; n&#227;o corria bonito, como correm as crian&#231;as quando apostam corrida na beira do rio; corria torto, solu&#231;ando, com uma m&#227;o protegendo a cabe&#231;a e a outra estendida para afastar o mato, embora o mato o alcan&#231;asse de todos os lados, e, por um momento, entre duas &#225;rvores, pareceu-lhe ver dois meninos parados na trilha, magros, molhados, cobertos de lama at&#233; os joelhos, olhando para ele. Eram crian&#231;as como ele, ou quase como ele; e uma delas ergueu devagar um cip&#243; fino, enquanto a outra sorria sem mostrar os dentes. O menino fechou os olhos e passou por entre elas gritando, sentindo no mesmo instante a ard&#234;ncia de outra lambada atravessar suas costas, e, quando olhou de novo, j&#225; n&#227;o havia ningu&#233;m, s&#243; a trilha escura, a mata respirando quente e a casa, muito adiante, acesa por uma lamparina amarela que parecia menor do que deveria.</p><p>Ao surgir no terreiro, sujo, arranhado, abatido, ele n&#227;o chamou mais pela m&#227;e, porque de repente entendeu que ela j&#225; sabia, que talvez tivesse sabido desde o primeiro mergulho, desde o primeiro minuto depois das seis, desde o momento em que o igarap&#233; aceitou seu corpo e guardou sua desobedi&#234;ncia para entregar &#224; mata no caminho de volta. A m&#227;e estava na porta, im&#243;vel, com o pano de prato nos ombros, e a luz atr&#225;s dela desenhava seu corpo como uma sombra firme, cansada, sem espanto. Ele tentou dizer que tinham batido nele, que foram dois meninos, que foi o cip&#243;, que foi o mato, que n&#227;o tinha culpa porque o calor era grande demais e a &#225;gua chamava, mas a boca s&#243; conseguiu soltar um choro comprido, desses que n&#227;o pedem socorro, pedem perd&#227;o.</p><p>A m&#227;e se aproximou devagar, levantou a camisa dele e olhou as marcas sem tocar, seguindo com os olhos cada linha vermelha aberta sobre a pele, cada arranh&#227;o fino, cada mancha de lama grudada onde os galhos tinham alcan&#231;ado, e por um instante o menino esperou que ela o abra&#231;asse, que dissesse que aquilo passaria, que nenhuma coisa da mata entraria em casa atr&#225;s dele. Mas ela apenas respirou fundo, como quem reconhece uma visita antiga, olhou para al&#233;m do terreiro, para o escuro entre as &#225;rvores, e disse baixo, n&#227;o com raiva, mas com uma tristeza dura:</p><p>&#8212; Eu te disse que depois das seis o igarap&#233; n&#227;o era mais teu.</p><p>Imagem do Google </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!NkP0!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Faa560057-4680-4775-a64c-a4c0b4168681_1206x959.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!NkP0!, /__u/myriamscotti.substack.com/w_424, /__u/myriamscotti.substack.com/c_limit, /__u/myriamscotti.substack.com/f_webp, /__u/myriamscotti.substack.com/q_auto:good, 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isPermaLink="false">https://myriamscotti.substack.com/p/a-beira-do-corpo-f96</guid><dc:creator><![CDATA[Myriam Scotti]]></dc:creator><pubDate>Fri, 03 Jul 2026 14:11:15 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!p6Wk!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbd4a0a9e-6270-450a-bff2-ec2255c71c84_1290x929.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span>Entre o s&#233;timo e o oitavo m&#234;s de gesta&#231;&#227;o, al&#233;m de enfrentar a apar&#234;ncia cada vez mais arredondada e inchada, t&#237;pica de um corpo gr&#225;vido, epis&#243;dios de infec&#231;&#227;o urin&#225;ria se tornaram frequentes. Feito l&#226;mina, o xixi me feria durante a passagem pela uretra. Por causa desse inc&#244;modo, precisava ir muitas vezes ao banheiro e, mesmo com vergonha, pedia licen&#231;a para sair no meio das audi&#234;ncias. As pessoas presentes at&#233; pareciam ser compreensivas, mas nunca gostei de chamar aten&#231;&#227;o, ainda mais se o motivo fosse o meu corpo. Al&#233;m das manh&#227;s, as madrugadas, antes calmas e de descanso, tornaram-se agitadas pelas muitas idas ao banheiro, mas o al&#237;vio n&#227;o vinha e a ard&#234;ncia na urina s&#243; aumentava.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Preocupada, marquei consulta com a obstetra. Ela receitou o antibi&#243;tico mesmo antes do resultado do exame de urina sair, e, demonstrando certa impaci&#234;ncia, fez recomenda&#231;&#245;es: &#8220;tome mais &#225;gua e redobre os cuidados com a higiene &#237;ntima&#8221;, como se eu j&#225; n&#227;o o fizesse. Mas, no m&#234;s seguinte a bact&#233;ria voltou, o xixi novamente passando pela minha uretra feito faca, sentia calafrios e dores fortes no p&#233; da barriga. Quando a dor era insuport&#225;vel, compartilhava com G., mas ele permanecia calado, sem demonstrar empatia com o meu sofrimento. Para piorar, a vontade de me alimentar diminuiu e, no exame seguinte, descobri que o beb&#234; n&#227;o ganhara peso nenhum.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Na consulta, mais um pux&#227;o de orelha da obstetra. Ela tamb&#233;m n&#227;o era chegada a delicadezas com as pacientes: </span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Do jeito que voc&#234; est&#225;, talvez seu filho nas&#231;a antes da hora. Vou receitar os suplementos necess&#225;rios para o caso disso ocorrer. &#8220;Essa crian&#231;a precisa ganhar peso urgentemente, entendeu? Coma muita prote&#237;na&#8221;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Sim, doutora. Farei isso.&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Mais uma vez, sa&#237; murcha do consult&#243;rio, sentindo culpa por n&#227;o querer comer, por n&#227;o estar feliz, por desejar voltar a minha vida de antes da gravidez. A essa altura, G. nem me acompanhava mais nas consultas, comparecendo apenas para os exames de imagem que n&#227;o pareciam comov&#234;-lo, mesmo quando a m&#233;dica aumentava o volume para escutarmos os batimentos card&#237;acos, era um sorriso amarelo, de quem n&#227;o estava feliz.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Quando completei trinta e duas semanas, comecei a sentir uma dor aguda ao andar do estacionamento at&#233; o pr&#233;dio onde aconteciam as audi&#234;ncias, andava com cada vez mais dificuldade, sentia que algo n&#227;o estava bem. Como n&#227;o queria aborrecer ainda mais o meu marido nem preocupar minha fam&#237;lia, n&#227;o ousei avisar a m&#233;dica nem adiantar a consulta. Esperei a data j&#225; marcada pela secret&#225;ria no m&#234;s anterior. Ent&#227;o, o susto.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Voc&#234; n&#227;o estava sentindo nada de estranho? Nenhum inc&#244;modo?&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Sentia, mas achava que era normal, talvez o beb&#234; come&#231;ando a encaixar.&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Sim, isso mesmo! Mas n&#227;o &#233; pra ser agora. Saiba que est&#225; entrando em trabalho de parto e isso &#233; muito grave.&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Vou ter que ir para o hospital, doutora? Nem fiz a malinha.&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Bom, ou faz repouso absoluto em casa ou terei que te internar at&#233; o beb&#234; nascer.&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Prometo que vou cumprir o repouso, n&#227;o quero ir para o hospital.&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ali, vi G. se preocupar e olhar para mim com candura pela primeira vez. Mas eu j&#225; estava t&#227;o deprimida que o gesto n&#227;o me afetou. Os dias que j&#225; eram longos, tornaram-se infinitos. Passava dia e noite deitada com a tv ligada ou lendo livros sobre a chegada do beb&#234;. Piaf ficava aos p&#233;s da cama, fazendo-me companhia. Ela me via chorar e dava lambidinhas nas minhas m&#227;os quando eu a tocava. Levantava o m&#237;nimo poss&#237;vel, s&#243; para ir ao banheiro. No trajeto, passava pelo espelho e tentava contemplar aquela barriga enorme, tentava encontrar alguma beleza naquele estado, mas sentia pena e raiva de mim mesma. Onde estava com a cabe&#231;a quando achei boa ideia formar uma fam&#237;lia?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Agora estava presa dentro de um quarto, sendo respons&#225;vel pela vida de um serzinho que se movia dentro de mim e dependia do meu comportamento para sobreviver pelas pr&#243;ximas semanas. Ningu&#233;m me visitava, as amigas estavam sempre ocupadas demais para uma conversa ao vivo, uma mensagem parecia suficiente para demonstrar preocupa&#231;&#227;o. Mal sabiam o quanto aquela solid&#227;o me maltratava. Mas n&#227;o tinham como saber mesmo, eu n&#227;o comentava sobre os meus problemas.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>G., por sua vez, esfor&#231;ava-se para sair do escrit&#243;rio e ir almo&#231;ar comigo. Escutava o carro entrando na garagem, suas pisadas firmes na sala e depois os barulhos na cozinha, para ent&#227;o, devagar, abrir a porta do quarto trazendo o meu almo&#231;o na mesma bandeja que antes ele costumava me surpreender com um caf&#233; caprichado nas manh&#227;s de domingo, quando ainda &#233;ramos um casal apaixonado, cheios de planos para o futuro.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Oi. T&#225; bem?&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Mais ou menos. Bem chato n&#227;o poder sair daqui.&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Imagino. Hoje tem picadinho, arroz e salada.&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Voc&#234; n&#227;o vai comer?&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;J&#225; almocei pelo escrit&#243;rio. Vim rapidinho.&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Depois de cinco semanas em repouso total, comecei a sentir a calcinha constantemente &#250;mida, e, ing&#234;nua, supus ser escape de xixi. Ria de mim mesma sobre o quanto o corpo gr&#225;vido me humilhava, nem a urina eu conseguia mais segurar. Apesar do m&#234;s de novembro j&#225; ter iniciado h&#225; mais de uma semana, o calor ainda era forte e as chuvas t&#237;midas. Lembro de acordar nesse dia com muito calor, a camisola suada, desejando um banho sem pressa, daqueles que levam embora calor e ang&#250;stia. A passos lentos, me despi e entrei no box com cuidado para n&#227;o escorregar. Era o dia de nova ultrassom e esperava ter boas not&#237;cias, depois de ter cumprido todo o repouso recomendado. Entrei na sala apreensiva. O marido dessa vez teve de me acompanhar, j&#225; estava na reta final e proibida de dirigir. A sala de espera lotada de mulheres em diferentes est&#225;gios de gravidez, algumas acompanhadas de crian&#231;as mais velhas que n&#227;o paravam de pular, dar gritinhos, correrem em volta da mesa e a m&#227;e pedindo que sossegassem com uma express&#227;o de cansa&#231;o que me apavorou, onde estava a felicidade prometida &#224;s m&#227;es? N&#227;o via a hora de chamarem meu nome para eu sair daquele espa&#231;o que mais parecia um hosp&#237;cio. Nunca gostei de gritos e confus&#227;o, mas tinha decidido me tornar m&#227;e. </span></p><p style="text-align: justify;"><span>A m&#233;dica passou o gel morninho, colocou o aparelho na barriga, logo ouvimos os barulhos esquisitos e depois o cora&#231;&#227;o do beb&#234;. G. me olhou aliviado, com um leve sorriso. Diante de tanto sil&#234;ncio, perguntei se estava tudo bem, mas a doutora permaneceu calada, passando o aparelho de um lado para o outro.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Voc&#234; sentiu sua calcinha ficar molhada esses dias?&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Senti sim. Desaprendi a segurar o xixi&#8221;, e dou uma risadinha.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ela n&#227;o retribuiu o riso.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;N&#227;o &#233; xixi, &#233; l&#237;quido amni&#243;tico. Voc&#234; devia ter avisado a obstetra que estava sentindo algo vazar&#8221;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;&#201; perigoso?&#8221;. Pergunta um agora preocupado paizinho.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Bom, est&#225; muito abaixo do esperado, acho que o beb&#234; precisa nascer hoje&#8221;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Hoje?&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Me apavorei.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Sim, vou ligar para sua obstetra. Ele pode entrar em sofrimento; mesmo n&#227;o sendo o momento ideal, est&#225; mais perigoso o beb&#234; ficar a&#237; dentro do que fora.&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O consult&#243;rio da obstetra era no mesmo andar do ultrassom. Logo que a vi, percebi sua apreens&#227;o. Ela me encaminhou para a maca onde faria o exame de toque. Ser mulher &#233; uma desgra&#231;a, pensei enquanto sentia uma dor dilacerante. A m&#233;dica conferiu o rel&#243;gio, e, sem titubear declarou:</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;S&#227;o meio-dia, aguardo voc&#234;s no hospital &#224;s tr&#234;s da tarde para interna&#231;&#227;o e, &#224;s quatro, ser&#225; o parto. N&#227;o coma nada, ok? J&#225; escolheram o nome do beb&#234;, afinal? N&#227;o d&#225; mais para adiar.&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Virei-me para o meu marido, ali, um completo estranho e lamentei quanto tempo perdemos deixando de curtir aquelas d&#250;vidas e todas as conjeturas que se faz &#224; espera de um filho, mas sabia do seu desejo por homenagear um grande amigo nosso e assim decidimos.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ligo para mam&#227;e e em seguida para minha irm&#227;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Mas j&#225;? N&#227;o t&#225; muito cedo pra ele nascer? Ele t&#225; bem?&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Tentei amenizar o que a m&#233;dica falou durante o exame, at&#233; porque mam&#227;e me culparia. &#8216;Como assim voc&#234; estava vazando e achou que era normal?&#8217; Melhor me poupar de mais ansiedade. J&#225; bastava ter de parir antes da hora. Liguei tamb&#233;m para a enfermeira que dormiria comigo nas noites no hospital. Ela me tranquilizou:</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Vai sair tudo bem, querida. Logo, logo estar&#225; com seu filhinho nos bra&#231;os. At&#233; daqui a pouco.&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Observo G. ligar para os pais com uma voz tr&#234;mula, como se quisesse chorar. Mas n&#227;o me abalo e finjo n&#227;o ter percebido. Chegamos em casa e ele corre para o banheiro e vomita. Era tudo o que eu precisava, um marido frouxo. Subo as escadas com ainda mais dor depois do maldito toque, entro no quarto do beb&#234;, est&#225; tudo pronto. Vov&#243; dizia: &#8220;nunca deixe nada para cima da hora, a gente n&#227;o sabe se vai adoecer ou sofrer um acidente&#8221;. Ela sempre tinha raz&#227;o. Desde o s&#233;timo m&#234;s as roupinhas estavam arrumadas, lavadas e passadas. O ber&#231;o montado, pelo marceneiro de confian&#231;a do papai, a poltrona ao lado, o lustre novo pendurado, banheiro limp&#237;ssimo. S&#243; faltava meu filho nascer.</span></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!p6Wk!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbd4a0a9e-6270-450a-bff2-ec2255c71c84_1290x929.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!p6Wk!, /__u/myriamscotti.substack.com/w_424, /__u/myriamscotti.substack.com/c_limit, /__u/myriamscotti.substack.com/f_webp, /__u/myriamscotti.substack.com/q_auto:good, /__u/myriamscotti.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbd4a0a9e-6270-450a-bff2-ec2255c71c84_1290x929.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!p6Wk!, /__u/myriamscotti.substack.com/w_848, /__u/myriamscotti.substack.com/c_limit, 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antes…]]></title><description><![CDATA[Conto-carta]]></description><link>https://myriamscotti.substack.com/p/desculpa-por-nao-conseguir-dizer</link><guid isPermaLink="false">https://myriamscotti.substack.com/p/desculpa-por-nao-conseguir-dizer</guid><dc:creator><![CDATA[Myriam Scotti]]></dc:creator><pubDate>Tue, 30 Jun 2026 13:22:03 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A8Oh!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F13ca61ee-8c88-4d7e-a097-b2f173c20d01_340x415.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>Rio de Janeiro, maio de 2000.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>H&#225; tanto tempo engasgada e s&#243; agora conseguirei te dizer, ou melhor, te escrever o que venho sentindo ao longo de todos esses anos e guardando em um pote de sil&#234;ncios. S&#227;o gritos abafados que nunca tive coragem de deixar sair. Seria brutal demais para voc&#234; ou seria brutal demais para mim? N&#227;o sei ao certo. O fato &#233; que quando pensei que deveria redigir uma carta antes de voc&#234; partir, fiz um grande esfor&#231;o para sair da letargia em que meu corpo ainda se encontra. Talvez n&#227;o seja apenas letargia, pois sinto dores dilacerantes, e, apesar de j&#225; ter tomado alguns comprimidos, n&#227;o melhorei. &#201; uma dor-des&#226;nimo, uma dor-vazio. Voc&#234;, como de costume, &#233; respons&#225;vel por isso, de modo que te amo e te odeio, na mesma propor&#231;&#227;o. Talvez essa dubiedade de sentimentos n&#227;o tenha me permitido sair de perto de voc&#234;, como tantas vezes prometi e acabei n&#227;o cumprindo. Agora, &#233; voc&#234; quem vai. Vai certamente para me mostrar que ganhou. Voc&#234; sempre vence e consegue o que quer, n&#227;o &#233; mesmo?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A chuva l&#225; fora &#233; torrencial. Assisto-a cair pela janela do meu quarto escuro e &#250;mido, enquanto passo os olhos pelo teto e percebo manchas de mofo que h&#225; anos dividem esse espa&#231;o comigo. Definitivamente, esse cen&#225;rio melanc&#243;lico n&#227;o me incita qualquer coragem para levantar da cama e escrever. Mas, ao pensar que essa seria a minha &#250;ltima chance de dizer o que h&#225; tanto prorrogo, decidi respirar fundo e levantar, a fim de ir at&#233; a gaveta da escrivaninha, a mesma que h&#225; tempos voc&#234; diz para eu trocar e que acabou de chegar da terceira reforma. Afinal, sou apegada &#224;s coisas que me trazem lembran&#231;as e essa escrivaninha foi a &#250;nica coisa que restou da casa da minha inf&#226;ncia, embora saiba que voc&#234; preferiria que daquela casa tivesse restado nada. &#8220;Quero esquecer essa vida!&#8221; foi o que voc&#234; me falou, olhando pela &#250;ltima vez a casa de muro baixo, cor de ab&#243;bora, tom que voc&#234; odiava por achar que chamava aten&#231;&#227;o demais e discri&#231;&#227;o sempre fora seu lema. Sem demonstrar ressentimento, virou as costas segurando duas malas, enquanto eu tentava equilibrar a escrivaninha que insisti em levar para o apartamento novo. O maldito apartamento de dois quartos, do outro lado da cidade, que me fez mudar de escola e perder todos os amigos que eu tinha, apenas porque voc&#234; queria recome&#231;ar sua vida em um lugar diferente e que em nada sugerisse o tempo em que moramos no centro. Quase enlouqueci junto com voc&#234;, lembra? Possivelmente n&#227;o, j&#225; que costuma esquecer com facilidade os males que causa, preferindo s&#243; guardar na mem&#243;ria aquilo que a atinge, mesmo que seja uma besteira ou uma birra sem nexo. O papel de v&#237;tima, n&#227;o raras vezes, lhe caiu como uma luva. Inclusive, duvido que algo do que estou escrevendo tenha passado alguma vez pela sua cabe&#231;a&#8230; voc&#234; n&#227;o se d&#225; conta do quanto &#233; ego&#237;sta. De qualquer modo, o barulho dessa chuva est&#250;pida n&#227;o me permite organizar bem o que quero escrever e ent&#227;o estou deixando a caneta me guiar, sem me preocupar com uma ordem, ali&#225;s, ta&#237; uma coisa que lhe tira do s&#233;rio: bagun&#231;a. Pronto! Encontrei um bom come&#231;o. A sua disciplina transtornou nossas vidas. Disciplina nada! Vamos dar o nome certo &#224;s coisas: loucura por limpeza e organiza&#231;&#227;o, anos mais tarde diagnosticada como TOC severo, embora voc&#234; fizesse quest&#227;o de esconder de todos e de si mesma a doen&#231;a que lhe atormentou boa parte da vida, at&#233; voc&#234; se permitir uma avalia&#231;&#227;o e um tratamento decente.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Que tal recapitular, por exemplo, quando eu era pequena e mal podia brincar, pois quando eu come&#231;ava a tirar os poucos brinquedos que eu tinha do ba&#250; e da prateleira, voc&#234; logo vinha e come&#231;ava a arrumar, como se eu nem estivesse ali, brincando no &#250;nico espa&#231;o da casa a mim destinado, mas, que, no fundo, tamb&#233;m n&#227;o era meu? Sua obsess&#227;o por limpeza e organiza&#231;&#227;o n&#227;o permitia que f&#244;ssemos pessoas de verdade. Eu n&#227;o podia brincar na rua com as filhas da vizinha para n&#227;o sujar a roupa, n&#227;o podia ter uma bicicleta, visto que podia rasgar o vestido ou cair e me machucar feio e voc&#234; n&#227;o lidava bem com curativos; tamb&#233;m n&#227;o podia sentar &#224; mesa sem avental, n&#227;o podia fazer os trabalhinhos da escola em casa que precisassem de tinta, tinha que tomar de quatro a cinco banhos por dia e lavar as m&#227;os dezenas de vezes, inclusive para chegar perto de voc&#234; e te dar um abra&#231;o, pois, s&#243; de pensar que eu poderia estar contaminada com algum v&#237;rus trazido da escola ou da rua, voc&#234; tremia inteira. Por certo voc&#234; nem lembra, mas, vivia se esquivando das minhas tentativas de carinho e eu ficava a abra&#231;ar a mim mesma, consolando meus pr&#243;prios ombros que suplicavam por um afago. Sua vontade era a de que f&#244;ssemos rob&#244;s, assim, nada sairia do &#8220;devido lugar&#8221;. N&#227;o &#224; toa, meu pai nos deixou. Ele n&#227;o aguentou sua fixa&#231;&#227;o pelos detalhes, pela vida meticulosa, sem surpresas, sem acasos, sem alguma desordem, tudo sempre limpo, impec&#225;vel, arrumado, cheirando a detergente e a desinfetante. Voc&#234; mesma cheirava a detergente e a desinfetante. Imagino que sua obsess&#227;o tamb&#233;m n&#227;o permitia que o pai lhe tocasse com frequ&#234;ncia. Lembro-me de acordar mais tarde aos domingos e flagr&#225;-los na cozinha: ele tentando abra&#231;&#225;-la e voc&#234; desviando e empurrando, como se fosse uma lagartixa. Dizia com um sorriso for&#231;ado e cara de nojo que ele precisava de um banho, pois estava suado depois ter ido &#224; padaria comprar p&#227;o e voc&#234; odiava suor. Os desvios foram tantos que desse casamento apenas eu nasci.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Quando o pai se foi, eu estava para completar oito anos, e por isso gravei suas palavras duras na &#250;ltima discuss&#227;o que tiveram. Ele bradava que a vida ao seu lado se tornara insuport&#225;vel e que voc&#234; tinha enterrado todo o amor que um dia ele sentira ao longo dos dez anos que passaram juntos. Fora de si, saiu desarrumando a casa inteira, quebrando pratos e copos, arrancando quadros da parede, puxando os len&#231;&#243;is das camas, enquanto voc&#234; gritava para ele parar, em um acesso de p&#226;nico que lhe fez desmaiar e ir para o hospital. Mesmo ap&#243;s os exames comprovarem sua doen&#231;a e o m&#233;dico ter garantido que com medica&#231;&#227;o e terapia voc&#234; sairia da crise, meu pai desistiu de voc&#234;, e, por consequ&#234;ncia, de mim. N&#227;o o vimos mais desde ent&#227;o. Ele nos deixou e n&#243;s deixamos para tr&#225;s a vida que t&#237;nhamos levado para entrarmos em uma nova etapa.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Voc&#234; talvez esconda em algum lugar do seu cora&#231;&#227;o a culpa por saber o quanto foi sofrido para mim ter que me preocupar mais com voc&#234; do que voc&#234; comigo. Minha inf&#226;ncia foi encurtada para estar atenta se voc&#234; cumpria as prescri&#231;&#245;es m&#233;dicas e se estava mesmo indo &#224; terapia. Seu humor oscilava e os dias de depress&#227;o passaram a ser ainda mais constantes com a separa&#231;&#227;o do pai. Durante esses dias, viv&#237;amos o inferno, com seus choros ininterruptos e sua recusa em sair do quarto para comer. Sem saber mais como ajudar, ligava para tia Zuleide, que largava tudo o que estava fazendo para nos socorrer. Muitas vezes pass&#225;vamos mais de uma semana em sua casa, at&#233; que voc&#234; se recuperasse e pudesse voltar para nosso apartamento de novo. Confesso que adorava quando crises aconteciam porque a casa da tia Zuleide se tornou o meu para&#237;so. A comida era farta e gostosa, tinha os primos para brincar e conversar, tinha o amor e o cuidado que eu n&#227;o conhecia com voc&#234;. Quando sua cabe&#231;a melhorava, eu ficava triste por ter de voltar &#224; solid&#227;o e &#224; frieza do apartamento.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>No entanto, minha m&#227;e, n&#227;o se engane. Apesar das m&#225;s recorda&#231;&#245;es, n&#227;o posso deixar de reconhecer seu esfor&#231;o poucos meses depois das medica&#231;&#245;es come&#231;arem a fazer efeito. Voc&#234; voltou a costurar para fora e as freguesas passaram a ser regulares. Nossa vida financeira ficou menos apertada e assim conclu&#237; meus estudos e entrei na universidade. Quanto a isso, serei eternamente grata, pois o dinheiro que o pai mandava atrav&#233;s de um amigo, mal dava para pagar as contas de &#225;gua e luz. O pai, naquele dia do hospital, decidiu nos riscar da sua vida. Quando me dei conta disso, tamb&#233;m tentei ignor&#225;-lo, embora no fundo, tivesse raiva de mim mesma por ainda sentir muita falta de seu abra&#231;o e de seu boa noite antes de me colocar para dormir. Dessa aliena&#231;&#227;o parental, inclusive, acho que nunca me recuperei, pois ainda sou invadida por pesadelos em que sou crian&#231;a e espero o pai me buscar na escola, mas ele nunca chega. Acordo com o rosto &#250;mido de l&#225;grimas e com a camisola suada. Nunca entendi os motivos do pai, que era t&#227;o presente e amoroso comigo, n&#227;o querer manter o v&#237;nculo, condenando-me ao abandono, como se eu tivesse alguma responsabilidade por voc&#234; ser doente.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Culpa, ali&#225;s, &#233; algo que faz parte de mim. Ouso dizer ser at&#233; mesmo minha ess&#234;ncia, pois sinto quase um remorso por ter nascido e por ter, de algum modo, contribu&#237;do com a vida miser&#225;vel que voc&#234; dizia levar. Talvez a causa disso esteja no fato de que, desde a mais tenra idade, ou&#231;o suas lam&#250;rias sobre o quanto ficar gr&#225;vida lhe fizera infeliz. Cada vez que voc&#234; ia at&#233; o arm&#225;rio da sala de estar e remexia naquela caixa vermelha com listras brancas, onde as fotos antigas s&#227;o guardadas at&#233; hoje, eu era obrigada a escutar sobre os piores meses da sua vida. N&#227;o raro voc&#234; escolhia a &#250;nica foto gr&#225;vida de mim, usando um vestido escuro, de mangas curtas e cinto afivelado, forrado na mesma cor, para destilar toda sua raiva pelo mundo e descontar na pessoa mais pr&#243;xima e fr&#225;gil, impondo a mim a culpa por ter ocupado o seu corpo. E isso, m&#227;e, voc&#234; faz at&#233; hoje, mesmo depois de quarenta anos. Sentirei falta disso agora que voc&#234; vai embora? N&#227;o soa estranho imaginar sentir saudade de algo ruim? Estarei eu louca? Herdei seu gene doente? Na tal foto, que ontem decidi pegar para guardar comigo, seu olhar &#233; perdido e o rosto emoldurado por uma tristeza profunda, restando para mim a sensa&#231;&#227;o de que a vida inteira fui uma intrusa respons&#225;vel por sua transforma&#231;&#227;o em um ser quase imposs&#237;vel de se conviver. Essa m&#225; lembran&#231;a, me traz outra ainda pior: a de quando lhe contei que estava gr&#225;vida e, voc&#234;, secamente, disse que sentia muito, embora tivesse certeza de que eu me sairia muito bem. Esse desafio, sem d&#250;vida, venci. Pois, ao contr&#225;rio de voc&#234;, ficar gr&#225;vida era um desejo desde a adolesc&#234;ncia. Ainda que tivesse outras metas para mim, ser m&#227;e nunca deixou de estar nos meus planos. Talvez isso se desse porque eu, de forma n&#227;o consciente, desejasse provar que um filho &#233; capaz de trazer alegria e ser bem mais leve do que o peso que voc&#234; costumava colocar sobre mim. </span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ali&#225;s, tudo o que a rodeia &#233; muito pesado. Para voc&#234; at&#233; respirar &#233; um dilema e isso contribuiu para que eu crescesse achando que ser adulto &#233; muito dif&#237;cil. N&#227;o que eu n&#227;o tenha tido meus perrengues e disso voc&#234; bem sabe, porque quando as coisas v&#227;o muito mal, acabo ligando para pedir conselho, ainda que eu me arrependa no minuto seguinte, assim que voc&#234; solta o ar e diz: &#8220;bem que avisei&#8221;, como h&#225; um ano, quando o Gilberto pediu a nossa separa&#231;&#227;o e eu te liguei aos prantos e voc&#234; ouviu muda, para somente ao final me dizer que j&#225; sabia que ele n&#227;o prestava. Curioso &#233; que nunca importou o tamanho do meu problema, voc&#234; jamais soube me acalentar. Ao contr&#225;rio, o normal &#233; me colocar ainda mais para baixo. Nossa simbiose &#233; um neg&#243;cio esquisito: brigamos toda semana, nos magoamos, mas nunca ao ponto de nos mantermos distantes demais. Ainda que tentemos repelir uma a outra, acabamos nos reaproximando, nem que seja para discordarmos pela en&#233;sima vez. </span></p><p style="text-align: justify;"><span>N&#227;o sei, provavelmente sou um pouco masoquista e queira voc&#234; por perto, mesmo que seja para despejar sua raiva em mim. &#201; que voc&#234; n&#227;o ofereceu outro tipo de amor e cuidado. Ent&#227;o, me acostumei a aceitar o que vier, muito embora quase sempre me machuque. Ainda bem que com o Francisco voc&#234; n&#227;o &#233; assim&#8230;por causa do meu filho pude conhecer o lado doce e meigo que voc&#234; jamais mostrou para mim. Gosto de v&#234;-los juntos, ainda que me doa n&#227;o entender onde eu tanto errava para merecer somente o seu pior lado. Voc&#234; talvez nem fa&#231;a ideia da m&#225;goa que me causa quando fala: &#8220;Ah, que maravilha o meu neto. N&#227;o d&#225; um pingo de trabalho. Adoro ficar com ele. T&#227;o bonzinho, que encho de mimos. N&#227;o sei a quem puxou, porque a V&#226;nia&#8230;&#8221; e assim, faz seis anos que ou&#231;o o quanto meu filho &#233; melhor do que eu, quando na verdade, por alguma raz&#227;o que nunca compreendi, voc&#234; &#233; quem escolheu ser uma pessoa melhor para meu filho. Provavelmente esse seja o jeito de voc&#234; dizer que me ama. Ser&#225;? Acho que n&#227;o terei a resposta. Embora eu lamente bastante n&#227;o ter tido o seu carinho, fico feliz por Francisco, que vai ter mem&#243;rias maravilhosas suas, bem diferentes das minhas, t&#227;o amargas e &#225;ridas, como daquela vez em que tentei apresentar um namoradinho e voc&#234; estava em seus dias de depress&#227;o e mandou o menino embora, pois ele era muito bonito e esperto para mim. Nem sei quantos dias chorei. Ele nunca mais falou comigo e ainda espalhou pelo col&#233;gio que eu tinha uma m&#227;e louca. Ao tentar argumentar, voc&#234; mandou que eu fosse para o quarto e ficasse sem jantar. &#8220;Eu preciso de sil&#234;ncio. N&#227;o consigo raciocinar com voc&#234; aqui me perturbando!&#8221; Foi o que voc&#234; gritou, enquanto eu me perguntava o que tinha feito de errado. </span></p><p style="text-align: justify;"><span>Voc&#234;, m&#227;ezinha, afugentou namorado, amigos, vizinhos, marido. S&#243; eu permaneci o quanto pude ao seu lado, ainda que para ser punida t&#227;o somente por existir em sua vida. A &#250;nica coisa de bom grado que voc&#234; fez foi proporcionar a minha educa&#231;&#227;o, claro que a um alto pre&#231;o: no m&#237;nimo eu tinha que estar entre os tr&#234;s melhores da turma. E como eu queria seu amor mais do que qualquer coisa, ficava sempre em primeiro lugar para voc&#234; me exibir para alguma amiga que encontrasse na rua. Contentei-me com, ao inv&#233;s de ser sua filha, ser seu trof&#233;u. Pelo menos cheguei longe e hoje colho os frutos desse esfor&#231;o.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Que pena, voc&#234; &#233; o melhor e o pior da minha vida&#8230;n&#227;o poucas vezes tentei te abandonar e seguir meu caminho sem sua sombra, mas, n&#227;o consegui. Passava dias sem te ligar, na esperan&#231;a de que, com a dist&#226;ncia, voc&#234; fosse mais af&#225;vel ao telefone. No entanto, como de costume, eu te perguntava como estavam as coisas e voc&#234; respondia que estava cansada demais, ou doente, ou com enxaqueca, ou qualquer coisa que n&#227;o fosse positiva. N&#227;o me recordo de alguma vez eu te ligar e voc&#234; dizer que estava bem e que o dia tinha sido &#243;timo. Quando voc&#234; cobrava o porqu&#234; do meu sumi&#231;o, eu dizia que n&#227;o gostava de falar ao telefone, mas, na verdade, ligar para voc&#234; era a certeza de que eu s&#243; escutaria reclama&#231;&#245;es e eu terminaria a nossa conversa pesada demais para sorrir durante o resto do dia. Ent&#227;o, temendo me contaminar com sua negatividade pela vida, eu sumia um pouco para tentar ser feliz&#8230;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ali&#225;s, por sempre temer sua rea&#231;&#227;o, cresci passiva, sem conseguir dizer o que estava entalado, me sufocando, como uma espinha de peixe atravessada na garganta. Foi preciso voc&#234; tomar a iniciativa para que eu (finalmente), nestas p&#225;ginas, expressasse tudo o que venho armazenando em algum lugar obscuro do meu c&#233;rebro. Desculpa por n&#227;o conseguir dizer isso antes. Talvez a gente tivesse se entendido ou talvez a gente tivesse rompido de vez, mas algo poderia ter acontecido entre n&#243;s. Pena que o que n&#227;o foi, nunca mais ser&#225;. Fui covarde, com medo de voc&#234; e de mim.</span></p><p><span>Agora, depois de despejar tudo o que estava guardado, sinto-me exausta. A chuva, enfim, passou, o dia amanheceu e o sol j&#225; invade o quarto, ardendo os meus olhos, que permanecem molhados. N&#227;o sei quanto tempo levarei para senti-los secos novamente. Nem aqui, nessas linhas, consigo te dar adeus, mesmo sabendo que preciso arranjar for&#231;as para trocar de roupa e sair para colocar essa carta entre suas m&#227;os frias. Eu queria s&#243; mais uma vez escutar o quanto sou fraca ou o quanto minha roupa me deixa envelhecida e que ningu&#233;m vai me olhar. Eu queria s&#243; mais umavez escutar a sua voz, sem me importar com o que vou ouvir&#8230;m&#227;e, &#224;s avessas te amei muito e espero que &#224;s avessas voc&#234; tamb&#233;m tenha me amado. Nesse momento, sou um vazio e vou precisar aprender a existir sem sua presen&#231;a. Quem sabe agora eu descubra quem sou de verdade. V&#225; em paz, deixe-me em paz&#8230;voc&#234; consegue?</span></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!A8Oh!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F13ca61ee-8c88-4d7e-a097-b2f173c20d01_340x415.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!A8Oh!, /__u/myriamscotti.substack.com/w_424, /__u/myriamscotti.substack.com/c_limit, /__u/myriamscotti.substack.com/f_webp, /__u/myriamscotti.substack.com/q_auto:good, /__u/myriamscotti.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F13ca61ee-8c88-4d7e-a097-b2f173c20d01_340x415.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!A8Oh!, /__u/myriamscotti.substack.com/w_848, /__u/myriamscotti.substack.com/c_limit, 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Amazonense]]></title><description><![CDATA[Palestra para as Efem&#233;rides Amaz&#244;nicas 2026 na UFAM em 22.06.26]]></description><link>https://myriamscotti.substack.com/p/narrativas-do-pertencimento-memoria</link><guid isPermaLink="false">https://myriamscotti.substack.com/p/narrativas-do-pertencimento-memoria</guid><dc:creator><![CDATA[Myriam Scotti]]></dc:creator><pubDate>Wed, 24 Jun 2026 13:25:19 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Q-ri!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fcf036db8-5f11-41b5-9399-b8edfe4f4ada_900x675.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Se escrever &#233; uma disposi&#231;&#227;o que se constr&#243;i no presente, ela n&#227;o se dissocia do passado, pois cada palavra que escrevemos carrega consigo uma hist&#243;ria, uma mem&#243;ria, uma rede de vozes que a antecedem. H&#225;, na linguagem, uma sedimenta&#231;&#227;o de experi&#234;ncias que n&#227;o nos pertencem inteiramente, mas que nos percorrem, de modo que a escrita n&#227;o se configura apenas como express&#227;o individual, mas como continuidade, ainda que fragment&#225;ria, de uma tradi&#231;&#227;o que, no caso, sobretudo das mulheres, foi constantemente interrompida, silenciada, sobretudo, deslegitimada.</p><p style="text-align: justify;">Escrever, nesse sentido, passa a ser tamb&#233;m uma forma de escuta. N&#227;o uma escuta passiva, mas uma escuta implicada, que se compromete com aquilo que emerge. Trata-se de uma tentativa de dar passagem a vozes que n&#227;o puderam se inscrever plenamente na linguagem, vozes que foram contidas ou desviadas, e que, ainda assim, deixaram vest&#237;gios, marcas, fragmentos que hoje nos convocam. H&#225; algo que insiste, que retorna, que pede continuidade, e, para mim, escrever pode ser responder a esse chamado.</p><p style="text-align: justify;">Esse reconhecimento de que somos constitu&#237;das por m&#250;ltiplas camadas, por diferentes tempos, experi&#234;ncias, mem&#243;rias, desloca a ideia de um sujeito unit&#225;rio e est&#225;vel. Somos trespassadas por hist&#243;rias que nem sempre vivemos diretamente, mas que se inscrevem em n&#243;s de maneira difusa, quase sempre silenciosa. O corpo se torna, ent&#227;o, esse territ&#243;rio onde tais inscri&#231;&#245;es se acumulam. Antes mesmo de escrevermos, j&#225; fomos escritas: pelas rela&#231;&#245;es, pelas heran&#231;as, bem como pelas aus&#234;ncias.</p><p style="text-align: justify;">Assim, penso que escrever n&#227;o &#233; apenas um ato de cria&#231;&#227;o, mas tamb&#233;m de continuidade. N&#227;o de uma tradi&#231;&#227;o linear, organizada, mas de uma tradi&#231;&#227;o feita de lacunas, de rupturas e de recome&#231;os. H&#225; um trabalho de recomposi&#231;&#227;o, mas tamb&#233;m de inven&#231;&#227;o: dar forma ao que n&#227;o chegou a se constituir plenamente, imaginar aquilo que foi interrompido, sustentar aquilo que n&#227;o p&#244;de ser sustentado.</p><p style="text-align: justify;">Uma das minhas obras foi uma tentativa de reconstruir a hist&#243;ria da chegada de imigrantes na Amaz&#244;nia e, sobretudo, precisava escrever sobre as tantas mulheres que atravessaram o oceano sem saber que tipo de vida as aguardava, o quanto se tornariam solit&#225;rias, como conviveriam com a sensa&#231;&#227;o de terem sido engolidas pela floresta, enquanto os homens desbravavam caminhos e as abandonavam por meses. Passei anos da minha vida de leitora lendo e aprendendo sob a perspectiva masculina dessa hist&#243;ria.</p><p style="text-align: justify;">Com o passar dos anos e me tornando mais experiente como escritora, senti a necessidade de dar voz &#224;s tantas mulheres que vieram para o Norte do Brasil e foram esquecidas e/ou silenciadas. Elas &#8212; e eu mesma &#8212; precis&#225;vamos de uma linguagem pr&#243;pria que descrevesse essas sensa&#231;&#245;es guardadas nas cavernas de cada mulher que experimentou &#8212; e ainda experimenta &#8212; essa vida e n&#227;o conseguiu falar a respeito porque n&#227;o havia um vocabul&#225;rio para descrever seus inc&#244;modos.</p><p style="text-align: justify;">Talvez porque a pr&#243;pria Amaz&#244;nia seja tamb&#233;m um territ&#243;rio de sil&#234;ncios. Um territ&#243;rio constru&#237;do por deslocamentos constantes, por chegadas sucessivas, por mem&#243;rias interrompidas. Um lugar profundamente definido pela migra&#231;&#227;o. Vieram para c&#225; nordestinos expulsos pela seca, &#225;rabes e judeus marroquinos fugindo de guerras e crises econ&#244;micas, japoneses, portugueses, ingleses, espanh&#243;is, holandeses e tantos outros tentando reconstruir suas vidas, todos em busca de uma terra da promiss&#227;o. Antes disso, os pr&#243;prios povos ind&#237;genas j&#225; haviam sido violentamente deslocados pelos colonizadores. A Amaz&#244;nia, nesse sentido, n&#227;o &#233; apenas floresta ou paisagem: &#233; um territ&#243;rio de travessias.</p><p style="text-align: justify;">E talvez seja justamente por isso que a literatura amaz&#244;nica esteja t&#227;o profundamente marcada pela mem&#243;ria. N&#227;o uma mem&#243;ria linear ou organizada, mas uma mem&#243;ria fragmentada, feita de restos, de aus&#234;ncias, de narrativas interrompidas. Muitas vezes, aquilo que permanece n&#227;o s&#227;o os grandes acontecimentos hist&#243;ricos, mas pequenas marcas: um sotaque que sobrevive dentro de casa, uma comida preparada da mesma maneira durante gera&#231;&#245;es, palavras herdadas de outras l&#237;nguas, fotografias antigas, sil&#234;ncios repetidos dentro das fam&#237;lias.</p><p style="text-align: justify;">Essa reflex&#227;o se conecta diretamente ao conceito de anarquivamento, desenvolvido pelo cr&#237;tico liter&#225;rio M&#225;rcio Seligmann-Silva. Ao pensar o arquivo, Seligmann-Silva n&#227;o o compreende apenas como um lugar de conserva&#231;&#227;o, mas como um campo de for&#231;as, de disputas e de escolhas. O arquivo guarda, mas tamb&#233;m seleciona. Preserva, mas tamb&#233;m exclui. Organiza, ao mesmo tempo que imp&#245;e uma determinada ordem sobre aquilo que deve ser lembrado e aquilo que pode ser esquecido. Por isso, quando falamos de mem&#243;ria, sobretudo em contextos marcados por viol&#234;ncia, migra&#231;&#227;o, coloniza&#231;&#227;o, apagamento e silenciamento, n&#227;o estamos diante de um passado inteiro, dispon&#237;vel para ser simplesmente recuperado. Estamos diante de ru&#237;nas completamente fragmentadas.</p><p style="text-align: justify;">O passado, sabemos, n&#227;o chega at&#233; n&#243;s como narrativa completa. Ele chega como vest&#237;gio, como fotografia sem legenda, como sil&#234;ncio em torno de uma dor, como l&#237;ngua que se perdeu, como receita que atravessou gera&#231;&#245;es, como sotaque, como gesto, como trauma herdado, ou seja, como terra a ser revolvida. O arquivo da experi&#234;ncia humana raramente se apresenta como totalidade. Ele aparece estilha&#231;ado.</p><p style="text-align: justify;">&#201; nesse ponto que a ideia de anarquivamento se torna t&#227;o pujante para mim. Anarquivar n&#227;o significa simplesmente destruir o arquivo, nem abandon&#225;-lo ao caos. Significa abrir o arquivo &#224; desordem criadora. Significa desconfiar da ordem oficial que foi dada aos documentos, &#224;s lembran&#231;as, aos monumentos, &#224;s genealogias, &#224;s narrativas familiares e nacionais. Significa perguntar: quem organizou este arquivo? Quem ficou de fora? Que vozes foram classificadas como secund&#225;rias? Que experi&#234;ncias foram consideradas pequenas demais para entrar na hist&#243;ria? Que mulheres foram transformadas em nota de rodap&#233;? Que povos foram reduzidos &#224; paisagem? Que dores foram tratadas como detalhe?</p><p style="text-align: justify;">Quando Seligmann-Silva fala em recolecionar as ru&#237;nas dos arquivos e reconstru&#237;-las de modo cr&#237;tico, ele nos convida a pensar uma rela&#231;&#227;o inventiva com os restos. N&#227;o se trata de reconstruir o passado como se fosse poss&#237;vel devolv&#234;-lo &#224; sua forma original. Isso seria uma ilus&#227;o. O que est&#225; quebrado n&#227;o volta a ser inteiro do mesmo modo. Mas talvez a literatura exista justamente para lidar com aquilo que n&#227;o pode ser restaurado plenamente. Escrever, ent&#227;o, seria recolher fragmentos, aproximar peda&#231;os, escutar o que ficou soterrado e permitir que esses restos produzam novos sentidos.</p><p style="text-align: justify;">&#201; nesse sentido que que a ideia de anarquivamento se aproxima sobremaneira da escrita liter&#225;ria. Porque escrever tamb&#233;m &#233; entrar em um arquivo desorganizado. Nenhuma escritora come&#231;a diante de uma mem&#243;ria limpa, linear e perfeitamente catalogada. Come&#231;amos diante de lembran&#231;as incompletas, vers&#245;es contradit&#243;rias, hist&#243;rias mal contadas, frases ouvidas na inf&#226;ncia, lacunas familiares, imagens que retornam sem explica&#231;&#227;o. A escrita nasce, muitas vezes, desse confronto com aquilo que n&#227;o sabemos organizar.</p><p style="text-align: justify;">E talvez seja justamente por isso que escrever seja t&#227;o dif&#237;cil e t&#227;o necess&#225;rio. Porque escrever exige aceitar que a mem&#243;ria n&#227;o obedece &#224; cronologia. Ela retorna por associa&#231;&#227;o, por cheiro, por corpo, por trauma, por desejo, por falta. Uma lembran&#231;a chama outra, mas nem sempre de maneira l&#243;gica. &#192;s vezes, uma imagem da inf&#226;ncia nos leva a uma hist&#243;ria que n&#227;o vivemos. Ou, &#224;s vezes, uma palavra herdada nos coloca diante de uma travessia que aconteceu antes de nascermos. E tantas outras vezes, aquilo que parecia t&#227;o pessoal revela uma hist&#243;ria coletiva, anterior a n&#243;s.</p><p style="text-align: justify;">Dessa maneira, quando penso a literatura amaz&#244;nica a partir do anarquivamento proposto por Seligamann-Silva, percebo que escrever sobre a Amaz&#244;nia &#233; tamb&#233;m mexer em arquivos inst&#225;veis. A Amaz&#244;nia foi narrada, durante muito tempo, por vozes externas ou por perspectivas dominantes. Foi descrita como inferno verde, para&#237;so ex&#243;tico, fronteira econ&#244;mica, reserva de recursos, vazio demogr&#225;fico, terra prometida, espa&#231;o de aventura masculina. Mas essas imagens s&#227;o tamb&#233;m arquivos. Arquivos de poder. Arquivos, sobretudo, coloniais e patriarcais, que organizaram a regi&#227;o a partir de interesses e olhares que nem sempre escutaram aqueles que efetivamente viveram suas travessias, suas perdas e suas perman&#234;ncias.</p><p style="text-align: justify;">Anarquivar a Amaz&#244;nia, ent&#227;o, pode significar desorganizar essas imagens herdadas. Significa retirar a regi&#227;o do lugar de cen&#225;rio e devolv&#234;-la &#224; condi&#231;&#227;o de experi&#234;ncia viva. Significa perguntar n&#227;o apenas quem chegou, quem desbravou, quem explorou, quem enriqueceu ou quem fundou cidades, mas tamb&#233;m quem esperou, quem ficou, quem adoeceu, quem pariu, quem enterrou seus mortos, quem aprendeu uma nova l&#237;ngua, quem esqueceu a l&#237;ngua de origem, quem cozinhou em sil&#234;ncio, quem sentiu medo da floresta, quem se sentiu estrangeira dentro da pr&#243;pria casa.</p><p style="text-align: justify;">Para mim, essa dimens&#227;o &#233; fundamental quando penso nas mulheres migrantes que vieram para o Norte do Brasil. Durante muito tempo, a hist&#243;ria da migra&#231;&#227;o foi narrada como epopeia masculina: homens atravessando rios, abrindo caminhos, enfrentando a mata, construindo com&#233;rcio, fundando fam&#237;lias. Mas onde estavam as mulheres nessa narrativa? Em que arquivo elas foram guardadas? Ou melhor: de que arquivo elas foram exclu&#237;das?</p><p style="text-align: justify;">Muitas dessas mulheres n&#227;o deixaram di&#225;rios, cartas, livros ou documentos oficiais, no m&#225;ximo alguns vest&#237;gios de suas passagens por essa vida, talvez em gestos, em receitas, em pequenos objetos, em fotografias, em hist&#243;rias repetidas pela metade, em doen&#231;as do corpo, ou mesmo em melancolias sem nome. O arquivo delas n&#227;o &#233; monumental. &#201; dom&#233;stico, corporal, subterr&#226;neo. E talvez por isso tenha sido tantas vezes deslegitimado. A literatura, nesse caso, pode funcionar como uma a&#231;&#227;o de anarquivamento porque permite que esses vest&#237;gios sejam recolocados em circula&#231;&#227;o. Ela n&#227;o &#8220;prova&#8221; o passado no sentido documental, mas cria uma escuta para aquilo que o documento n&#227;o conseguiu ou n&#227;o quis registrar.</p><p style="text-align: justify;">H&#225; algo profundamente pol&#237;tico nessa atitude. Quando escrevemos a partir das lacunas, n&#227;o estamos apenas preenchendo vazios com imagina&#231;&#227;o. Estamos denunciando que esses vazios foram produzidos. O sil&#234;ncio das mulheres, dos migrantes, dos povos ind&#237;genas, dos sujeitos racializados, dos pobres, dos deslocados, n&#227;o &#233; apenas aus&#234;ncia natural de registro. Muitas vezes, &#233; resultado de processos hist&#243;ricos de exclus&#227;o. O arquivo oficial n&#227;o falhou por acaso; ele foi constru&#237;do a partir de hierarquias.</p><p style="text-align: justify;">Por isso, anarquivar &#233; tamb&#233;m desobedecer. Desobedecer &#224; ordem que dizia quais vidas mereciam mem&#243;ria. Desobedecer &#224; cronologia dos vencedores. Desobedecer &#224; ideia de que apenas o documento legitimado pelo Estado, pela academia, pela fam&#237;lia patriarcal ou pela hist&#243;ria oficial pode sustentar uma narrativa. A literatura permite outra forma de conhecimento: uma forma sens&#237;vel, imaginativa, &#233;tica, capaz de se aproximar daquilo que permaneceu ferido. A escritora Ursula K. Le Guin escreveu no ensaio <em>A teoria da bolsa de fic&#231;&#227;o</em>, a ideia de que numa hist&#243;ria n&#227;o precisa haver hierarquias, n&#227;o h&#225; podium para um vencedor, o protagonista n&#227;o &#233; apenas um, mas v&#225;rios, pois tudo cabe na bolsa de fic&#231;&#227;o como mecanismo para a escrita de muitas hist&#243;rias e in&#250;meras subjetividades.</p><p style="text-align: justify;">E se tudo cabe, n&#227;o &#224; toa a met&#225;fora da terra, t&#227;o presente na minha obra, se ilumina de maneira ainda mais forte. Revolver a terra &#233; revolver o arquivo. A terra tamb&#233;m guarda camadas. Guarda restos org&#226;nicos, sementes, ossos, ra&#237;zes, &#225;gua antiga, folhas decompostas, marcas de passagem. Nada desaparece completamente na terra; tudo se transforma. O que cai no ch&#227;o entra em outro ciclo de perman&#234;ncia. Portanto, h&#225; mais de uma hist&#243;ria para ser contada.</p><p style="text-align: justify;">Do mesmo modo, a mem&#243;ria n&#227;o desaparece simplesmente. Ela se deposita. &#192;s vezes endurece, outras fermenta, tamb&#233;m apodrece e germina. Escrever &#233; colocar as m&#227;os nesse ch&#227;o. &#201; cavar at&#233; tocar no que estava encoberto. A terra aberta exp&#245;e feridas, ra&#237;zes partidas, mat&#233;rias em decomposi&#231;&#227;o. Mas h&#225; tamb&#233;m vitalidade. Afinal, &#233; justamente da terra revolvida que algo novo pode nascer.</p><p style="text-align: justify;">Ao anarquivar, a escritora n&#227;o organiza o passado para pacific&#225;-lo. Ela o desorganiza para faz&#234;-lo falar de outro modo. Ela abre o arquivo n&#227;o para encerr&#225;-lo em uma conclus&#227;o, mas para permitir que outras perguntas apare&#231;am. Nesse sentido, a escrita n&#227;o cura completamente. Talvez nenhuma escrita cure, mas permite a elabora&#231;&#227;o e pode impedir que certas experi&#234;ncias continuem enterradas no sil&#234;ncio.</p><p style="text-align: justify;">Quando uma escritora toma para si a tarefa de reimaginar a mem&#243;ria das mulheres que vieram antes, ela n&#227;o est&#225; falando por elas no sentido de substituir suas vozes. Esse risco existe e precisa ser reconhecido. Mas talvez a literatura possa fazer outra coisa: criar um espa&#231;o de resson&#226;ncia. Um espa&#231;o onde essas vidas, mesmo fragmentadas, possam voltar a nos interpelar. N&#227;o como personagens exemplares, mas como presen&#231;as complexas, contradit&#243;rias, humanas.</p><p style="text-align: justify;">Anarquivar, portanto, tamb&#233;m se relaciona com uma &#233;tica da escuta. N&#227;o se trata de apropriar-se do passado de maneira arbitr&#225;ria, mas de aproximar-se dele com responsabilidade. O fragmento, a ru&#237;na, e, acima de tudo, a mem&#243;ria do outro exige cuidado. Ao mesmo tempo, esse cuidado n&#227;o significa imobilizar o arquivo, trat&#225;-lo como pe&#231;a de museu, intoc&#225;vel e sagrada. Pelo contr&#225;rio: &#233; preciso tocar, deslocar, remontar, reinscrever. O respeito ao passado n&#227;o est&#225; em mant&#234;-lo fechado, mas em permitir que ele continue produzindo perguntas no presente.</p><p style="text-align: justify;">&#201; por isso que o anarquivamento pode ser pensado, na literatura, como um m&#233;todo de cria&#231;&#227;o. A escritora recolhe materiais dos mais diversos: mem&#243;ria familiar, hist&#243;ria coletiva, imagina&#231;&#227;o, documentos, sil&#234;ncios, afetos, paisagens, cheiros, nomes, vozes. Mas ela n&#227;o os organiza segundo uma l&#243;gica puramente documental. Ela monta, desmonta, aproxima, tensiona. A literatura cria uma esp&#233;cie de arquivo vivo, um arquivo que respira, que se contradiz, que n&#227;o se pretende definitivo.</p><p style="text-align: justify;">Nesse sentido, escrever &#233; uma forma de reabrir o mundo. O arquivo oficial tende a encerrar: isto aconteceu assim, estes foram os protagonistas, esta &#233; a vers&#227;o autorizada. A literatura, ao contr&#225;rio, pergunta: e se olh&#225;ssemos por outro &#226;ngulo? E se escut&#225;ssemos quem estava na margem da cena? E se a personagem secund&#225;ria fosse o centro? E se a mulher que esperava em casa tivesse uma hist&#243;ria mais profunda do que o homem que partiu? E se a terra, aparentemente muda, fosse tamb&#233;m uma narradora?</p><p style="text-align: justify;">&#201; por isso que, para mim, o anarquivamento n&#227;o &#233; apenas uma teoria sobre arquivos ou sobre arte. &#201; uma maneira de compreender a pr&#243;pria escrita. Escrever &#233; anarquivar porque &#233; recolher restos e recus&#225;-los como restos. &#201; olhar para aquilo que foi considerado menor e reconhecer ali uma for&#231;a narrativa. Talvez toda literatura que nasce da mem&#243;ria seja, em alguma medida, uma literatura de escava&#231;&#227;o. Mas n&#227;o escavamos para encontrar uma verdade &#250;nica, enterrada intacta em algum lugar. Escavamos para encontrar camadas.</p><p style="text-align: justify;">A literatura, ent&#227;o, torna-se esse lugar paradoxal: lugar de mem&#243;ria e de inven&#231;&#227;o, de fidelidade e de desobedi&#234;ncia, de escuta e de interven&#231;&#227;o. Ela n&#227;o devolve o passado como ele foi, mas permite que ele retorne como pergunta. E talvez seja isso que mais me interessa: n&#227;o a mem&#243;ria como monumento, mas a mem&#243;ria como terra revolvida. Uma mem&#243;ria que suja as m&#227;os, que abre feridas, que libera cheiros antigos, que encontra ossos e sementes no mesmo ch&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Penso que a experi&#234;ncia migrat&#243;ria produz uma rela&#231;&#227;o muito espec&#237;fica com a identidade. Quem migra, ou nasce atingido pela experi&#234;ncia da migra&#231;&#227;o, frequentemente vive entre mundos. H&#225; sempre algo que pertence e algo que permanece estrangeiro. Talvez por isso tantas personagens da literatura amaz&#244;nica pare&#231;am viver em estado de suspens&#227;o, como se habitassem simultaneamente diferentes tempos e diferentes territ&#243;rios.</p><p style="text-align: justify;">Isso aparece de maneira muito forte na obra de Milton Hatoum. Em romances como Relato de um Certo Oriente e Dois Irm&#227;os, a mem&#243;ria nunca surge como algo est&#225;vel. Ela retorna fragmentada, imbu&#237;da de sil&#234;ncios, ressentimentos e lacunas. Suas personagens vivem constantemente entre pertencimentos incompletos. Existe, em Hatoum, uma sensa&#231;&#227;o cont&#237;nua de desenraizamento, como se o passado permanecesse sempre inacabado.</p><p style="text-align: justify;">Essa mesma tentativa de compreender os deslocamentos humanos e seus efeitos subjetivos aparece tamb&#233;m no professor e apaixonado pela Amaz&#244;nia, Samuel Benchimol, ao refletir sobre a imigra&#231;&#227;o judaica em nosso territ&#243;rio. Sua obra revela como muitas fam&#237;lias chegaram ao Norte do Brasil tentando reconstruir a pr&#243;pria exist&#234;ncia.</p><p style="text-align: justify;">Essa rela&#231;&#227;o entre mem&#243;ria, deslocamento e identidade tamb&#233;m aparece de maneira muito significativa na obra de M&#225;rcio Souza. Em romances como Mad Maria e Galvez, Imperador do Acre, a Amaz&#244;nia deixa de surgir como espa&#231;o ex&#243;tico ou m&#237;tico e passa a ser apresentada como territ&#243;rio pol&#237;tico, hist&#243;rico e profundamente violento.</p><p style="text-align: justify;">J&#225; a poesia de Thiago de Mello constr&#243;i uma rela&#231;&#227;o profundamente afetiva com a Amaz&#244;nia. Em sua escrita, o pertencimento se torna quase uma forma de resist&#234;ncia &#233;tica. H&#225; uma tentativa constante de preservar v&#237;nculos humanos diante da devasta&#231;&#227;o hist&#243;rica, social e ambiental</p><p style="text-align: justify;">Ao pensar ancestralidade e pertencimento, considero igualmente fundamental trazer as contribui&#231;&#245;es do escritor Daniel Munduruku. Em suas narrativas, identidade n&#227;o aparece como experi&#234;ncia individual isolada, mas como rela&#231;&#227;o coletiva com a mem&#243;ria ancestral, com a oralidade e com o territ&#243;rio. Isso demove completamente a no&#231;&#227;o ocidental de sujeito.</p><p style="text-align: justify;">Percebam que citei muitos escritores amaz&#244;nidas e isso n&#227;o foi sem um prop&#243;sito. Em <span>Manaus</span>, a domina&#231;&#227;o masculina no meio cr&#237;tico-liter&#225;rio ainda se faz sentir com for&#231;a e, como consequ&#234;ncia disso, houve (ainda h&#225;) a tentativa de apagamento da produ&#231;&#227;o liter&#225;ria das escritoras. Mas n&#227;o apenas isso: h&#225; tamb&#233;m a centraliza&#231;&#227;o geogr&#225;fica do poder cultural, que concentra visibilidade no eixo sul-sudeste. O resultado &#233; previs&#237;vel: menos espa&#231;o, menos circula&#231;&#227;o, menos reconhecimento das escritoras amazonenses que t&#234;m produzido obras singulares, mas que deslizam para as margens, deixando de ocupar o destaque que merecem.</p><p style="text-align: justify;">Por isso, trago agora alguns exemplos de mulheres escritoras de nossa regi&#227;o, as quais &#8211; com muita compet&#234;ncia &#8211; t&#234;m escrito uma Amaz&#244;nia outra, imbu&#237;da de umidade e de mulheridade. S&#227;o narrativas com l&#233;xico pr&#243;prio e que por isso mesmo t&#234;m anarquivado e revolvido a terra para contar hist&#243;rias, seja por meio da prosa, seja por meio da poesia, mas sempre afastadas da linguagem dominante e patriarcalizada.</p><p style="text-align: justify;">A primeira obra que trago como exemplo &#233; da estupenda escritora e jornalista Verenilde Pereira. Escritora essa que passou d&#233;cadas sem o devido reconhecimento mas que agora vem sendo apropriadamente celebrada com a publica&#231;&#227;o de sua obra pela maior editora do pa&#237;s. <em>Rio sem fim </em>nos arremessa ao encontro de um Amazonas ferido. A hist&#243;ria de Maria Assun&#231;&#227;o e Rosa Maria, meninas ind&#237;genas retiradas de seus territ&#243;rios para servir fam&#237;lias ricas em Manaus, exp&#245;e uma ferida antiga que insiste em supurar: a viol&#234;ncia colonial que nunca cessou. A prosa de Verenilde &#233; sofisticada e extremamente po&#233;tica, pois mesmo imersos na viol&#234;ncia sofrida pelas personagens, ela escreve com uma beleza singular, restituindo a n&#243;s leitores contempor&#226;neos o que a Hist&#243;ria tentou ocultar por centenas de anos.</p><p style="text-align: justify;">Outro exemplo de escrita sofisticada &#233; a da poeta Marta Cortes&#227;o. Ler sua obra &#233; experimentar concretamente aquilo que o pensador Maurice Blanchot chamou de &#8220;espa&#231;o liter&#225;rio&#8221;: um territ&#243;rio aut&#244;nomo onde a linguagem deixa de ser instrumento e passa a existir por si mesma. Cortes&#227;o compreende com habilidade genu&#237;na que a palavra n&#227;o instrui nem explica, antes ela se oferece, amb&#237;gua, aberta, buscando apenas alcan&#231;ar sua pr&#243;pria intensidade po&#233;tica.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o poderia deixar de mencionar nossa poeta maior, Astrid Cabral. Sua obra se destaca por transformar a Amaz&#244;nia em experi&#234;ncia &#237;ntima, simb&#243;lica e existencial, n&#227;o apenas em paisagem regional. Ela escreve a partir da Amaz&#244;nia, por&#233;m, ou por causa disso, alcan&#231;a quest&#245;es universais.</p><p style="text-align: justify;">Tamb&#233;m considero preponderante falar da obra Terra Prometida, de Sandra Godinho, porque ela evidencia justamente essa tens&#227;o entre promessa e realidade que perpassa tantas experi&#234;ncias migrat&#243;rias na Amaz&#244;nia. Al&#233;m desse romance, Godinho escreveu in&#250;meras outras obras que nos convidam a repensar a Amaz&#244;nia.</p><p style="text-align: justify;">Al&#233;m dessas mulheres incr&#237;veis acima citadas, existem ainda muitas outras que os convido a conhecer: a literatura infantojuvenil produzida pelas escritoras Leyla Leong, Elaine Andreatta e Lucila Bonina; a prosa potente de M&#225;rcia Antonelle; a poesia das poetas que tenho orgulho de ser contempor&#226;nea: Rita Alencar Clark, Tain&#225; Vieira, Gracinete Felinto, D&#233;bora Bacelar, Rakel Caminha, Luciana Nobre, S&#237;lvia Grij&#243;, N&#237;vea Chagas e tantas outras mulheres escritoras que comp&#245;em o coletivo amazonense Enluaradas.</p><p style="text-align: justify;">Portanto, somos muitas a anarquivar a linguagem liter&#225;ria. Ouso afirmar, inclusive, que &#233; por causa dessas vozes femininas que a literatura amaz&#244;nica contempor&#226;nea tem se tornado t&#227;o vigorosa: porque ela nos obriga a compreender que a Amaz&#244;nia n&#227;o &#233; homog&#234;nea. N&#227;o existe uma &#250;nica Amaz&#244;nia. Existem m&#250;ltiplas Amaz&#244;nias, m&#250;ltiplas experi&#234;ncias, m&#250;ltiplas formas de narrar o territ&#243;rio. E talvez escrever sobre pertencimento seja justamente tentar habitar essa complexidade sem reduzi-la, e sobretudo, sem silenciamentos.</p><p style="text-align: justify;">Como diz a escritora argentina Bettina Gonz&#225;lez, em sua obra <em>A obriga&#231;&#227;o de ser genial</em> (Bazar do Tempo, 2024), &#233; preciso p&#244;r tamb&#233;m o cora&#231;&#227;o na escrita. Mas essa afirma&#231;&#227;o, &#224; primeira vista simples, carrega uma exig&#234;ncia profunda: escrever n&#227;o &#233; apenas um exerc&#237;cio de t&#233;cnica ou dom&#237;nio da linguagem, &#233; um gesto de entrega. Colocar o cora&#231;&#227;o significa, antes de tudo, estar disposta a se implicar, a n&#227;o se proteger totalmente, a entrar no texto com aquilo que ainda n&#227;o est&#225; resolvido.</p><p style="text-align: justify;">O que ela sugere, de maneira mais radical, &#233; que n&#243;s, como autoras e autores, precisamos admitir nossa pr&#243;pria ignor&#226;ncia. N&#227;o no sentido de falta de preparo, mas como condi&#231;&#227;o essencial da cria&#231;&#227;o. Escrever n&#227;o parte da certeza, mas da perplexidade. Estamos, portanto, dispostas a emanar de uma emo&#231;&#227;o obscura, muitas vezes inintelig&#237;vel, que ainda nem conseguimos nomear. Algo que insiste, que incomoda, que pulsa, mas que ainda n&#227;o se organiza em palavras. E talvez seja exatamente isso que nos move: a tentativa de dar forma ao que ainda n&#227;o tem forma, de dizer o que ainda n&#227;o pode ser dito de maneira clara.</p><p style="text-align: justify;">Escrever, por isso, &#233; uma forma de interrogar o desconhecido. Inclusive o passado. N&#227;o escrevemos porque sabemos, mas porque queremos compreender. A escrita &#233; uma tentativa &#8212; ressalte-se, sempre incompleta &#8212; de aproximar-se de algo, de tatear o mundo, de explorar suas zonas de sombra. O ato, o sil&#234;ncio, o fato evocado: tudo isso pode ser ponto de partida para uma hist&#243;ria, mas nada disso &#233; transparente ou plenamente l&#243;gico. H&#225; sempre algo que escapa, algo que n&#227;o se deixa capturar de imediato.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o &#224; toa, &#233; preciso aceitar o caos como parte do processo. Um caos criativo, f&#233;rtil, onde as ideias ainda est&#227;o desorganizadas, onde as conex&#245;es n&#227;o s&#227;o evidentes, onde o sentido ainda est&#225; em constru&#231;&#227;o. Escrever &#233; entrar nesse territ&#243;rio inst&#225;vel sem garantias, confiando que, ao longo do percurso, algo se revelar&#225;, mesmo que de forma parcial; o resto se completa com imagina&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Gonz&#225;lez tamb&#233;m destaca: n&#227;o escrevemos temas, escrevemos hist&#243;rias. E hist&#243;rias s&#227;o feitas de ambiguidades, de contradi&#231;&#245;es, de tens&#245;es que n&#227;o se resolvem facilmente. Elas n&#227;o existem para ilustrar conceitos, mas para encarnar experi&#234;ncias, para dar corpo a perguntas que talvez nunca tenham uma resposta definitiva.</p><p style="text-align: justify;">Diante disso, escrever &#8212; e, sobretudo, escrever sobre um passado obscuro &#8212; exige aceitar a vulnerabilidade. Exige colocar-se em risco, permitir-se afetar pelo que surge no texto, sustentar o desconforto de n&#227;o ter controle total sobre o que est&#225; sendo criado. Afinal, escrever &#233; tamb&#233;m um processo de descoberta; n&#227;o apenas do mundo, mas de si mesma. E, muitas vezes, o que se descobre n&#227;o &#233; exatamente aquilo que se esperava encontrar.</p><p style="text-align: justify;">Nesse movimento, a escrita se aproxima de uma &#233;tica da alteridade. Se somos feitas de outras e de outros, se carregamos em n&#243;s fragmentos de quem veio antes, ent&#227;o escrever implica tamb&#233;m reconhecer essa rela&#231;&#227;o com o outro. N&#227;o apenas como tema, mas como condi&#231;&#227;o. &#201; nesse ponto, para mim, que a reflex&#227;o do fil&#243;sofo Emmanuel L&#233;vinas se torna fundamental: ao deslocar o centro da filosofia do &#8220;eu&#8221; para o &#8220;outro&#8221;, ele prop&#245;e que a subjetividade n&#227;o se constitui na autonomia, mas na responsabilidade.</p><p style="text-align: justify;">Reconhecer o outro n&#227;o &#233; um gesto neutro ou contemplativo, mas uma experi&#234;ncia que convoca o sujeito &#224; responsabilidade. O encontro com o outro, simbolizado pela figura do rosto, n&#227;o permite indiferen&#231;a: ele interpela, desestabiliza, exige resposta. A responsabilidade, nesse sentido, n&#227;o &#233; uma escolha deliberada, mas algo que nos acontece, que nos acomete antes mesmo de qualquer decis&#227;o consciente.</p><p style="text-align: justify;">Pensar a escrita a partir dessa perspectiva implica compreend&#234;-la como um espa&#231;o onde essa responsabilidade pode se manifestar. Escrever n&#227;o &#233; apenas falar de si, mas responder ao outro, &#224;s vozes silenciadas, &#224;s experi&#234;ncias negadas, &#224;s hist&#243;rias interrompidas. H&#225;, na escrita, uma possibilidade de se tornar respons&#225;vel por aquilo que n&#227;o se viveu diretamente, mas que, ainda assim, nos constitui.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Q-ri!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fcf036db8-5f11-41b5-9399-b8edfe4f4ada_900x675.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Q-ri!, /__u/myriamscotti.substack.com/w_424, /__u/myriamscotti.substack.com/c_limit, /__u/myriamscotti.substack.com/f_webp, /__u/myriamscotti.substack.com/q_auto:good, /__u/myriamscotti.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fcf036db8-5f11-41b5-9399-b8edfe4f4ada_900x675.jpeg 424w, 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revista O Odisseu.]]></description><link>https://myriamscotti.substack.com/p/prefiro-eu-mesma-lutar-com-as-palavras</link><guid isPermaLink="false">https://myriamscotti.substack.com/p/prefiro-eu-mesma-lutar-com-as-palavras</guid><dc:creator><![CDATA[Myriam Scotti]]></dc:creator><pubDate>Fri, 19 Jun 2026 10:38:35 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!cotW!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2205cc3d-da9e-469c-9ad3-77491df13022_791x1067.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>&#201; com o advento da palavra escrita que o liter&#225;rio come&#231;a a se desenhar como registro e a permear a vida do ser humano materialmente. Ao longo do tempo, muitos foram aqueles que se empenharam em conceitos que explicassem o sentido da manifesta&#231;&#227;o liter&#225;ria que, a depender da &#233;poca, foi se modificando, ganhando novos aspectos. Hoje, reconhecer um texto liter&#225;rio n&#227;o &#233; das tarefas mais dif&#237;ceis porque j&#225; introjetamos um aspecto importante: enquanto em nosso cotidiano a palavra &#233; apenas ferramenta facilitadora e objetiva da comunica&#231;&#227;o, no liter&#225;rio, doa-se ao texto, tornando-se amb&#237;gua, a fim de alcan&#231;ar autenticidade, sem a inten&#231;&#227;o de instruir ou ser did&#225;tica, afinal, a literatura n&#227;o &#233; instrumento e, conforme declarou o te&#243;rico Maurice Blanchot, na obra <em>O espa&#231;o liter&#225;rio </em>(Rocco, 2011), &#8220;e quem quer faz&#234;-la exprimir algo mais, nada encontra, descobre que ela nada exprime.&#8221;&nbsp;</p><p>Isso porque, no mundo liter&#225;rio, a palavra se desnuda inteira para o texto, poliss&#234;mica, hesitante entre significa&#231;&#245;es poss&#237;veis, amb&#237;gua, enfim, e, por isso mesmo, po&#233;tica. Nesse sentido, a literatura pode ser compreendida como a capacidade da palavra de se desdobrar em probabilidades e nunca em uma certeza, j&#225; que, ao contr&#225;rio da realidade, em que todos temos um fim, o texto liter&#225;rio resiste &#224; passagem do tempo, podendo, na verdade, sempre se renovar: a cada leitura, a cada &#233;poca, a cada leitor. Em outras palavras, a depender de como se escreve determinado texto, &#233; poss&#237;vel identificar se trata-se de mera comunica&#231;&#227;o ou de um texto liter&#225;rio.&nbsp;</p><p>Portanto, quem se arrisca a escrever literatura sabe que &#233; a singulariza&#231;&#227;o da palavra que a torna po&#233;tica/liter&#225;ria, tendo em vista que h&#225; uma preocupa&#231;&#227;o com a est&#233;tica, com a constru&#231;&#227;o sem&#226;ntica que retirar&#225; o car&#225;ter autom&#225;tico da palavra, uma vez que n&#227;o queremos apenas comunicar, queremos ampliar os poss&#237;veis sentidos do que desejamos dizer. Ou seja, &#233; na estranheza que nasce a linguagem liter&#225;ria. No momento em que deixamos de nos levar pelo automatismo da l&#237;ngua que falamos, surge a possibilidade de se pensar na po&#233;tica da palavra e, conforme escreveu Roland Barthes no ensaio <em>Aula</em> (Cultrix, 2019), &#8220;trapacear a l&#237;ngua&#8221; &#233; o que nos torna os verdadeiros artistas da palavra, a quem comumente denominamos escritoras e escritores.&nbsp;</p><p>Ora, quando mergulho em um projeto liter&#225;rio, travo uma luta com as palavras. E como j&#225; bem dizia Drummond, &#8220;lutar com palavras &#233; a luta mais v&#227;&#8221;. H&#225; dias em que saio vencida, miser&#225;vel, derrotada pelo texto. H&#225; outros, por&#233;m, em que saio com o peito estufado, vaidosa, aplaudo a minha perspic&#225;cia por finalmente ter encontrado a palavra exata, justa, absoluta, inequ&#237;voca, aquela que cabe perfeitamente, pois nenhuma outra d&#225; conta do que pretendo.</p><p>Dito isso, pergunto-me: qual o sentido de delegar o meu fazer liter&#225;rio para uma m&#225;quina? Talvez porque estejamos num momento de demonstrar apenas desempenho, delegar a escrita a uma intelig&#234;ncia artificial nos torne mais produtivos. No entanto, quando penso em arte, penso imediatamente em subjetividade, em reflex&#227;o, em tempo alargado, em tempo para ruminar aus&#234;ncias e faltas, para, enfim, pensar-me enquanto sujeito. Se delego esse pensamento a uma m&#225;quina, o que vir&#225;, provavelmente, ser&#227;o palavras vazias de alma, pois falta &#224; m&#225;quina, muitas vezes, o que em mim sobra e me leva &#224; escrita: ang&#250;stia. Por &#243;bvio, entendo ser um caminho sem volta, diante de tantos poss&#237;veis benef&#237;cios. Mas, na arte liter&#225;ria, h&#225; de se ter cautela. Claro que somos todos livres para fazermos com a nossa arte o que quisermos, mas penso ser temer&#225;rio quando uma Nobel de literatura declara que escreve um prompt para seu texto ser embelezado por uma intelig&#234;ncia artificial. &#201; evidente que, depois de tantos livros publicados, de ter recebido o maior pr&#234;mio liter&#225;rio do mundo, ela n&#227;o precisa provar que sabe escrever. Isso &#233; &#243;bvio.</p><p>Por&#233;m, penso na responsabilidade de suas recentes declara&#231;&#245;es perante futuras gera&#231;&#245;es. Penso sobretudo no meu filho adolescente que j&#225; me responde o quanto n&#227;o precisa sofrer pensando, escrevendo ou mesmo lendo os paradid&#225;ticos do col&#233;gio, se ele pode perguntar da intelig&#234;ncia artificial qualquer coisa que ele queira. E l&#225; sentamos em volta da mesa para que seu pai e eu expliquemos que ele ainda n&#227;o tem repert&#243;rio, n&#227;o passou pelas mudan&#231;as complexas que uma leitura provocadora acomete em nossos corpos, pensamentos e inconsciente e, que, por isso, delegar &#224; intelig&#234;ncia artificial o labor da leitura e da escrita &#233; desperdi&#231;ar experienciar a vida mais ricamente, em sua multiplicidade, para simplesmente se contentar com dias poucos, rasos, advindos da ignor&#226;ncia. Mas quantas fam&#237;lias podem ou querem ter essa conversa, esse trabalho? Estamos avan&#231;ando ou retroagindo como sociedade?&nbsp;</p><p>N&#227;o estou aqui para responder, estou aqui para cutucar, para inflamar a discuss&#227;o. O livro do querido amigo e escritor S&#233;rgio Rodrigues, <em>Escrever &#233; humano</em> (Companhia das Letras, 2025), &#233; um farol, quando ele afirma, por exemplo, que &#8220;fazer literatura, arte com palavras, significa escrever devagar, &#224; moda humana &#8212; uma palavra, um espa&#231;o, outra palavra, outro espa&#231;o, uma d&#250;vida a cada encruzilhada. Um produto que atende a uma fatia fina do mercado consumidor de textos, mas irreproduz&#237;vel de outra forma. Escrever artisticamente &#233; sondar palavra por palavra, com olhar maravilhado de sequer haver palavra, aquilo que n&#227;o se sabe. Trabalho potencialmente delicioso, mas pesado e n&#227;o terceiriz&#225;vel, que obriga quem o faz a dirigir o foco de suas investiga&#231;&#245;es em v&#225;rias dire&#231;&#245;es ao mesmo tempo: para dentro de si, para o mundo e para a linguagem (e aquilo que dela escapa).&#8221;</p><p>Outro autor que me apaziguou foi o brit&#226;nico Ian McEwan em recente entrevista para a Folha de S&#227;o Paulo (25 de maio de 2026), afirmando que costuma acalmar seu p&#226;nico em rela&#231;&#227;o aos avan&#231;os da intelig&#234;ncia artificial pensando que ela ainda n&#227;o habita um corpo e, portanto, desconhece os prazeres do amor ou as dores soberanamente humanas.&nbsp;</p><p>A intelig&#234;ncia artificial generativa existe porque foi e continua sendo alimentada por n&#243;s e por tantos que escreveram antes. N&#227;o &#233; capaz, pelo menos por enquanto, de ser engenhosamente original e escrever, por exemplo, um romance como <em>Os imortais</em> (F&#243;sforo, 2026), da escritora e jornalista Paulliny Tort, ou a obra acachapante da poeta mineira Ana Martins Marques. &#201; preciso viver para sentir e sentir para ent&#227;o assentar as emo&#231;&#245;es a fim de (conscientemente) escolher as palavras que ir&#227;o se encadear perfeitamente at&#233; se transformarem em literatura.</p><p>Por outro lado, agora ocupando o lugar de leitora, gosto da sensa&#231;&#227;o de me identificar com o texto e pensar: ser&#225; que isso aconteceu mesmo com a escritora? De onde ser&#225; que veio a ideia dessa hist&#243;ria? Como ter&#225; sido seu processo de escrita? Quanto tempo demorou at&#233; encontrar a voz narrativa?&nbsp;</p><p>Ou seja, ler um livro escrito por uma m&#225;quina derruba toda a curiosidade e o encantamento que a leitura me provoca. &#201; t&#227;o sem gra&#231;a quanto passar a l&#237;ngua numa pedra de m&#225;rmore. Jamais poderei ler uma entrevista sobre o pensar liter&#225;rio de uma intelig&#234;ncia artificial generativa, seus planos para outros livros, sobre como foi sua inf&#226;ncia, se repleta de livros ou de conflitos familiares. N&#227;o h&#225; corpo nem alma, portanto, n&#227;o teme a morte, n&#227;o ama enlouquecidamente, n&#227;o chora, n&#227;o se arrepende, n&#227;o mente, n&#227;o trai, n&#227;o se relaciona, n&#227;o goza, n&#227;o se cansa, n&#227;o se machuca, n&#227;o se apavora, n&#227;o sente frio ou fome, n&#227;o se desespera diante de um problema, diante da morte de um ente querido, diante do espelho quando n&#227;o mais se reconhece.&nbsp;</p><p>Por isso e tamb&#233;m por necessitar elaborar meus dias por meio da palavra escrita (por mim mesma), continuarei escrevendo tal como Sherazade contou hist&#243;rias para evitar sua morte, escreverei para tentar n&#227;o deixar morrer a verdadeira arte liter&#225;ria: debru&#231;ando-me sobre um bom dicion&#225;rio e me debatendo diante da tela &#224; procura da palavra, A palavra.</p><p></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" 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homem e a maquina. Di Cavalcanti, 1966.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O peso do corpo]]></title><description><![CDATA[Nono trecho]]></description><link>https://myriamscotti.substack.com/p/a-beira-do-corpo-e11</link><guid isPermaLink="false">https://myriamscotti.substack.com/p/a-beira-do-corpo-e11</guid><dc:creator><![CDATA[Myriam Scotti]]></dc:creator><pubDate>Mon, 15 Jun 2026 13:43:23 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!FTQ5!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F393f269a-3547-4728-879e-82b2bb454f8f_1140x570.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Feito filme, revisitei as tr&#234;s primeiras d&#233;cadas da minha vida, como se passasse a velha fita numa m&#225;quina daquelas antigas, ouvindo o estalar das lembran&#231;as. Mas agora, naquela tarde de almo&#231;o em fam&#237;lia, escutando meus filhos discutirem por alguma bobagem, meu marido e meu pai conversando sobre futebol e mam&#227;e enfurnada na cozinha tentando n&#227;o atrasar o almo&#231;o, estava prestes a me deparar com as mem&#243;rias mais dif&#237;ceis: os &#225;lbuns de 2010. As fotos, as recorda&#231;&#245;es&#8230; tudo ainda estava ali, vivo e pulsante, fresco feito p&#227;o rec&#233;m-sa&#237;do do forno, ainda exalando o perfume quente daquilo que foi e, de algum modo, ainda &#233;.</p><p style="text-align: justify;">No come&#231;o da gravidez, eu imaginava que o amor aumentaria junto com a barriga. Achava que o corpo, ao crescer, atrairia algo de volta: al&#233;m do cuidado, companhia. Como se a vida que crescia dentro de mim fosse um chamado natural para que as pessoas me cercassem de acolhimento. Mas o que se expandiu primeiro n&#227;o foi a ternura, foi o medo: o receio de que eu estivesse vivendo tudo sozinha, mesmo dividindo a casa com algu&#233;m. Era como habitar uma ilha dentro de um continente, cercada de presen&#231;a, mas isolada por dentro.</p><p style="text-align: justify;">Com cada cent&#237;metro da barriga, algo em mim tamb&#233;m se distendia: expectativas, vulnerabilidades, perguntas sem resposta. Eu queria que algu&#233;m percebesse o tremor nos meus dedos ao folhear os exames, o peso das noites insones, a urg&#234;ncia contida na forma como eu buscava, sem admitir, uma m&#227;o que segurasse a minha. Mas a casa parecia trabalhar contra mim; os sons, as rotinas, as conversas curtas demais. Tudo conspirava para revelar aquilo que eu tentava negar: que o amor, quando n&#227;o cresce em dois, come&#231;a a definhar de um lado s&#243;.</p><p style="text-align: justify;">A mudan&#231;a no corpo veio antes da mudan&#231;a na vida. As cal&#231;as come&#231;aram a apertar; o peito, atravessado por veias saltadas, parecia outra pele; o xixi constante fazia do banheiro um destino inevit&#225;vel. A barriga ainda n&#227;o era barriga; era apenas uma protuber&#226;ncia estranha, uma gordura que eu n&#227;o reconhecia como gravidez. Eu me observava nua no espelho do quarto, tentando encontrar beleza naquilo. Apenas meus seios, maiores, me provocavam algum orgulho. Eu precisava que meu marido levantasse a minha auto-estima, me dizendo que eu estava plena, linda, mas G.  mal dirigia o olhar. Se n&#227;o fosse a apatia dele, talvez eu at&#233; conseguisse achar tudo bonito. No entanto, a not&#237;cia da gravidez o afetou negativamente, pois embora tiv&#233;ssemos decidido juntos que estava na hora de aumentarmos a fam&#237;lia, quando se tornou real, ele pareceu ter se arrependido da escolha.</p><p style="text-align: justify;">O dia a dia se arrastava entre desconfortos f&#237;sicos e dores que n&#227;o apareciam em ultrassons. Eu me obrigava a sair do escrit&#243;rio &#224;s quatro da tarde, sonhando apenas com o banho e a cama. Deitava as pernas para cima, tr&#233;gua m&#237;nima antes da hidrogin&#225;stica para gestantes, o &#250;nico momento em que meu corpo flutuava e eu esquecia, por uma hora, que estava sendo abandonada devagar.</p><p style="text-align: justify;">Depois do banho, Piaf, minha fiel cachorrinha, a alegria que chegou na minha vida depois que vov&#243; faleceu, se deitava nos meus p&#233;s enquanto eu zapeava canais sem assistir nada. Esperava meu marido chegar como quem espera um rem&#233;dio fazer efeito: torcendo, mas sem garantia de nada.</p><p style="text-align: justify;">Quando enfim ele passava pela porta, eu tentava puxar conversa &#8212; a fome de di&#225;logo era maior que qualquer enjoo. Contava sobre a dificuldade de estacionar no centro e caminhar dist&#226;ncias nada leves para uma gr&#225;vida, sobre as audi&#234;ncias, sobre o calor insuport&#225;vel. Ele respondia com monoss&#237;labos, com pressa, com olhos grudados na TV.</p><p style="text-align: justify;">&#8220;Foi a algum cliente hoje?&#8221;</p><p style="text-align: justify;">&#8220;Numa empresa nova aqui perto.&#8221;</p><p style="text-align: justify;">&#8220;Foi boa a reuni&#227;o?&#8221;</p><p style="text-align: justify;">&#8220;Foi. Vou preparar o projeto pra semana que vem.&#8221;</p><p style="text-align: justify;">Tudo morria ali.</p><p style="text-align: justify;">A cada tentativa minha de abrir uma fresta, ele erguia um muro.</p><p style="text-align: justify;">Quando mencionei uma pontada na barriga, esperando talvez um gesto de preocupa&#231;&#227;o, ele apenas respondeu:</p><p style="text-align: justify;">&#8220;T&#225; mais pesada, n&#233;?&#8221;</p><p style="text-align: justify;">Uma frase que parecia cuspida.</p><p style="text-align: justify;">Eu s&#243; consegui dizer:</p><p style="text-align: justify;">&#8220;Eu estou gr&#225;vida. N&#227;o estou mais pesada porque quero.&#8221;</p><p style="text-align: justify;">Ele voltou para o jornal. Eu voltei para o sil&#234;ncio.</p><p style="text-align: justify;">E quem me escutaria, ent&#227;o?</p><p style="text-align: justify;">Pensei em ligar para minha irm&#227;, para minha m&#227;e, mas n&#227;o queria preocupar ningu&#233;m. Lembrei da voz da minha av&#243;: &#8220;Coisas de casal ningu&#233;m conta.&#8221;</p><p style="text-align: justify;">E obedeci. A partir daquele momento, passei a representar alegria quando encontrava algu&#233;m na rua: sorriso autom&#225;tico, maquiagem feita, roupas arrumadas. Era o disfarce perfeito para n&#227;o revelar que, por dentro, eu desmoronava.</p><p style="text-align: justify;">Por volta do sexto m&#234;s, a barriga finalmente saltou. Mas n&#227;o como nas fotos de revista: redonda, majestosa. A minha parecia um ovo. O espelho confirmava o que eu temia: quadris alargados, rosto redondo, a velha silhueta indesejada de antes. A gravidez, que deveria ser transforma&#231;&#227;o, virou retorno.</p><p style="text-align: justify;">Eu tirava fotos semanais, sempre com a Piaf ao lado, testando &#226;ngulos que me deixassem toler&#225;vel para enviar &#224; fam&#237;lia. A cada registro, lembrava &#8212; todos os dias &#8212; que j&#225; fui a gorda da escola. E que meu corpo, no fundo, sempre esperou a chance de me lembrar. Aos poucos, abandonei os saltos, guardados em saquinhos de pano, como rel&#237;quias de outra vers&#227;o de mim. Troquei-os por sapatilhas sem gra&#231;a. At&#233; minha postura parecia desistente.</p><p style="text-align: justify;">Eu tentava manter a casa respirando, mas tudo ficava pesado demais. O homem que eu escolhera para chamar de amor da vida havia se tornado um h&#243;spede distante, algu&#233;m que circulava pelos c&#244;modos sem me notar. Ele, que antes era meu amigo, meu riso, meu apoio, agora parecia apenas cansado da minha presen&#231;a.</p><p style="text-align: justify;">Convers&#225;vamos como desconhecidos. Dorm&#237;amos como desconhecidos. Viv&#237;amos como desconhecidos. E, em sil&#234;ncio, eu come&#231;ava a entender: engravidar n&#227;o havia nos aproximado. Havia me deixado s&#243;, num corpo que se dilatava, enquanto o casamento encolhia. Eu ainda acreditava que estava construindo uma fam&#237;lia. S&#243; n&#227;o percebia que j&#225; estava reconstruindo a mim mesma. Por dentro, exausta; por fora, sorrindo para evitar perguntas.</p><p style="text-align: justify;">O amor que eu carregava no ventre crescia. Enquanto o outro amor (que julguei ser para a vida inteira) diminu&#237;a contra a minha vontade. O pai do meu filho, de t&#227;o ausente, come&#231;ava a desaparecer mesmo quando estava ao meu lado. Uma parte de mim esperava que, ao ver meu corpo se transformar, G. se aproximasse. Mas o que crescia entre n&#243;s n&#227;o era o beb&#234;: era uma dist&#226;ncia.</p><p style="text-align: justify;">Eu observava gr&#225;vidas na rua com a mesma sensa&#231;&#227;o com que se observa um idioma que n&#227;o se sabe falar. Elas carregavam a barriga com orgulho, seguras de si. Eu carregava a minha com desconforto. Meu marido, quando olhava para mim &#8212; porque a essa altura ele quase n&#227;o olhava &#8212; parecia confirmar a cr&#237;tica silenciosa que eu j&#225; fazia de mim mesma.</p><p style="text-align: justify;">A frase dele <em>&#8220;est&#225; mais pesada&#8221;</em> grudou na minha pele feito etiqueta que eu tentava arrancar, sem sucesso. E, n&#227;o raro, era o meu pr&#243;prio reflexo que repetia esse insulto sem que ele precisasse abrir a boca. Mas a maior viol&#234;ncia n&#227;o vinha do coment&#225;rio. Vinha da sua aus&#234;ncia.</p><p style="text-align: justify;">Quando virei para ele e disse, com a voz falhando, <em>&#8220;n&#227;o estou mais pesada porque quero&#8221;</em>, percebi que falava com algu&#233;m que havia se afastado antes mesmo de eu conseguir terminar a frase. A rotina se repetia sem nunca se alterar. Passava o dia no escrit&#243;rio ou em audi&#234;ncias, sonhando com o momento de deitar e aliviar as costas, as pernas, o peso do dia, e principalmente o peso da falta. &#192;s vezes, a dor na lombar era menor que a dor de chegar em casa e perceber que ningu&#233;m realmente me esperava.</p><p style="text-align: justify;">Eu dormia ao lado de um homem que eu amava (ou que acreditava ainda amar) e sentia saudade dele. Uma saudade t&#227;o funda que parecia vir de antes de n&#243;s dois. Saudade do adolescente que conversava comigo por horas. Do homem que me segurava pela cintura. Do amigo que ria de tudo e me fazia rir tamb&#233;m. O estranho que dormia agora do meu lado n&#227;o era meu marido. Ou talvez fosse e eu &#233; que havia mudado tanto que j&#225; n&#227;o sabia mais reconhec&#234;-lo. Revelou falhas que estavam ali antes, adormecidas. E a cada noite em que eu me virava e ele n&#227;o se virava comigo, eu entendia um pouco mais: eu estava casada, gr&#225;vida, acompanhada e, ao mesmo tempo, completamente s&#243;.</p><p style="text-align: justify;">O corpo sempre soube antes de mim. Soube quando meu casamento come&#231;ou a ruir, quando G. se afastou. Meu corpo sempre foi a primeira testemunha e, por isso, talvez, tenha sido tamb&#233;m o primeiro acusado. Durante a gesta&#231;&#227;o, ele voltou a ser o que sempre tentaram me convencer que era: um problema a ser corrigido.</p><p style="text-align: justify;">A barriga, que deveria anunciar vida, anunciava desconforto. Era uma barriga que pedia desculpas por existir. Uma barriga que eu, sem perceber, tratava como intrusa, a mesma l&#243;gica da inf&#226;ncia: aquilo que ocupa espa&#231;o demais precisa se encolher. Mas agora eu n&#227;o podia encolher. Eu era, literalmente, dois. O espelho virou meu inimigo &#237;ntimo, um or&#225;culo cruel que eu consultava diariamente esperando uma resposta que nunca vinha. &#192;s vezes colocava a m&#227;o sobre a barriga tentando me convencer: <em>est&#225; tudo bem, fica calma</em>, mas era mentira. Nada estava bem.</p><p style="text-align: justify;">Eu me olhava e n&#227;o me reconhecia. Era um corpo ampliado, alterado por dentro e por fora. E G. confirmava isso com o sil&#234;ncio, um maldito sil&#234;ncio denso, quase pedag&#243;gico. Ele me ensinava, sem palavras, que n&#227;o era esse o corpo que ele desejava. O corpo que ele conheceu, o corpo magro, disciplinado, sustentado por dietas, fome, cigarro e &#225;lcool era o corpo que cabia no mundo dele. O corpo gr&#225;vido era excesso. Uma esp&#233;cie de falha. Era lembran&#231;a do corpo gordo que eu carreguei por anos e passei a vida inteira tentando abandonar.</p><p style="text-align: justify;">A gravidez, ao contr&#225;rio do que eu fantasiava, n&#227;o inaugurou um corpo novo, apenas reativou o corpo antigo e interditado. O corpo, repetidas vezes, ridicularizado na inf&#226;ncia, rejeitado pelos meninos, que n&#227;o cabia nos shorts, nem nas brincadeiras de el&#225;stico, ainda menos nos biqu&#237;nis. O corpo que n&#227;o cabia em mim mesma.</p><p style="text-align: justify;">E &#233; cruel perceber que, quando o corpo volta a ser aquele que voc&#234; passou a vida inteira rejeitando, a mente volta junto. Eu dizia para mim mesma que era apenas uma fase. Mas as mudan&#231;as mensais desmentiam a esperan&#231;a. Quando G. desviava os olhos de mim, meu corpo aprendia a se encolher. Quando ele respondia com pressa de ir embora, meu corpo aprendia a calar. Quando ele me tratava como peso, meu corpo acreditava. E assim se reinstalava, c&#233;lula por c&#233;lula, a mesma l&#243;gica que me acompanhou desde a inf&#226;ncia: se o corpo incomoda, a culpa &#233; dele. Eu nunca aprendi a separar meu corpo de mim. Aprendi a trat&#225;-lo como reflexo; e se o reflexo era horr&#237;vel, eu tamb&#233;m era.</p><p style="text-align: justify;">A verdade mais amarga veio num lampejo, quando vi meu marido deitado ao meu lado, com o controle remoto na m&#227;o, a aten&#231;&#227;o grudada em qualquer coisa que n&#227;o fosse eu: ali, naquela cama, eu percebi que meu corpo tinha sido abandonado antes de mim. E se ele abandonou meu corpo, era quest&#227;o de tempo at&#233; me abandonar inteira.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!FTQ5!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F393f269a-3547-4728-879e-82b2bb454f8f_1140x570.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!FTQ5!, /__u/myriamscotti.substack.com/w_424, /__u/myriamscotti.substack.com/c_limit, /__u/myriamscotti.substack.com/f_webp, /__u/myriamscotti.substack.com/q_auto:good, /__u/myriamscotti.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F393f269a-3547-4728-879e-82b2bb454f8f_1140x570.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!FTQ5!, /__u/myriamscotti.substack.com/w_848, 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ensaio cr&#237;tico]]></description><link>https://myriamscotti.substack.com/p/o-jovem-leitor-diante-da-pergunta</link><guid isPermaLink="false">https://myriamscotti.substack.com/p/o-jovem-leitor-diante-da-pergunta</guid><dc:creator><![CDATA[Myriam Scotti]]></dc:creator><pubDate>Thu, 11 Jun 2026 14:26:04 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!PF8f!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5719aeaa-0bf9-4ee1-8782-c89e373fb8bc_2204x3358.heic" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em um mundo cada vez mais atravessado pela tecnologia, em que se torna mais dif&#237;cil fazer com que os jovens levantem a cabe&#231;a para ver o mundo com seus pr&#243;prios olhos e n&#227;o apenas por meio das telas, a literatura juvenil assume um papel fundamental na forma&#231;&#227;o dos futuros cidad&#227;os. N&#227;o se trata, contudo, de pensar o livro liter&#225;rio como uma ferramenta pedag&#243;gica subordinada ao conte&#250;do escolar, como se a literatura existisse apenas para ensinar uma li&#231;&#227;o, ilustrar um tema ou cumprir uma finalidade previamente determinada. A literatura, quando encontra o leitor, abre uma experi&#234;ncia mais complexa: ela convoca a imagina&#231;&#227;o, desloca certezas, apresenta outras vidas poss&#237;veis e nos coloca diante da alteridade.</p><p style="text-align: justify;">Nesse sentido, talvez a pergunta mais importante n&#227;o seja &#8220;para que serve uma hist&#243;ria?&#8221;, mas o que uma hist&#243;ria &#233; capaz de mover em quem a l&#234;. Um romance pode n&#227;o oferecer respostas prontas, mas pode inaugurar perguntas. Pode fazer com que o jovem leitor se reconhe&#231;a em uma personagem, estranhe uma situa&#231;&#227;o, repense uma escolha, sinta compaix&#227;o por algu&#233;m muito diferente de si. Esse movimento &#233;, em si, formativo. A forma&#231;&#227;o &#233;tica do leitor n&#227;o acontece porque o livro transmite uma moral expl&#237;cita, mas porque a fic&#231;&#227;o oferece a possibilidade de experimentar, pela imagina&#231;&#227;o, modos diversos de estar no mundo.</p><p style="text-align: justify;">No entanto, em tempos de dispers&#227;o permanente, concentrar-se sozinho em uma leitura pode parecer quase imposs&#237;vel para muitos jovens. A solid&#227;o exigida pelo livro concorre com est&#237;mulos r&#225;pidos, notifica&#231;&#245;es, v&#237;deos curtos e uma l&#243;gica de consumo imediato. Por isso, a leitura compartilhada pode ser uma porta de entrada decisiva. Quando um texto &#233; lido em voz alta, quando circula entre vozes, pausas, coment&#225;rios e sil&#234;ncios, ele deixa de ser apenas uma atividade individual e passa a ser uma experi&#234;ncia coletiva. A literatura, nesse contexto, torna-se encontro.</p><p style="text-align: justify;">Acredito que muitas vezes n&#227;o sabemos exatamente o que um livro nos disse, nem o que ele refletiu em n&#243;s, at&#233; termos a oportunidade de conversar com algu&#233;m sobre ele. A conversa d&#225; forma ao impacto da leitura. Aquilo que parecia apenas sensa&#231;&#227;o come&#231;a a ganhar palavras. O inc&#244;modo, a identifica&#231;&#227;o, a d&#250;vida e a emo&#231;&#227;o encontram um espa&#231;o de elabora&#231;&#227;o. &#201; nesse ponto que a escola pode desempenhar um papel precioso: n&#227;o reduzindo a literatura a perguntas de interpreta&#231;&#227;o com respostas esperadas, mas criando condi&#231;&#245;es para que os leitores possam falar do que leram, ouvir os outros e descobrir que um mesmo livro pode produzir experi&#234;ncias diversas.</p><p style="text-align: justify;">A cr&#237;tica liter&#225;ria Cecilia Bajour na obra <em>Ouvir nas entrelinhas </em>(Pulo do gato, 2012) ajuda a pensar essa dimens&#227;o da leitura ao afirmar que os textos liter&#225;rios nos tocam e nos questionam sobre nossas vis&#245;es de mundo, convidando-nos a imaginar como viver&#237;amos aquilo que &#233; representado nas fic&#231;&#245;es. Para ela, o encontro com a arte passa tamb&#233;m pelo abalo que a obra provoca. A escola, nesse sentido, &#233; um lugar privilegiado para &#8220;dar nomes poss&#237;veis a esse terremoto de significados&#8221; e preparar os ouvidos dos leitores para encontrar modos de falar sobre os textos. Essa imagem do terremoto &#233; especialmente potente: um livro pode deslocar internamente o leitor, mas &#233; na conversa que esse deslocamento pode ser reconhecido, partilhado e pensado.</p><p style="text-align: justify;">Minha experi&#234;ncia com <em>Quem chamarei de lar?</em> refor&#231;a essa percep&#231;&#227;o. O fato do meu livro ter chegado &#224; Biblioteca de S&#227;o Paulo e a algumas escolas por meio do PNLD permitiu que ele encontrasse leitores em contextos coletivos de leitura. Alguns professores que trabalharam com a obra me relataram a import&#226;ncia dos di&#225;logos que surgiram em sala de aula. N&#227;o era apenas a leitura do romance que importava, mas aquilo que ele fazia nascer entre os alunos: perguntas, identifica&#231;&#245;es, discord&#226;ncias, mem&#243;rias, reflex&#245;es sobre pertencimento, fam&#237;lia, afeto, abandono, escolha e busca por um lugar no mundo.</p><p style="text-align: justify;">Tamb&#233;m recebi devolutivas de jovens leitores que me encontraram no Instagram e no TikTok para contar o quanto o romance havia sido importante para eles. Esse dado &#233; significativo porque mostra que a tecnologia, muitas vezes vista apenas como inimiga da leitura, tamb&#233;m pode se tornar um espa&#231;o de continuidade do encontro liter&#225;rio. O jovem que l&#234; e depois procura a autora para dizer o que sentiu est&#225;, de algum modo, prolongando a conversa iniciada pelo livro. Ele reafirma suas reflex&#245;es, testa suas interpreta&#231;&#245;es, compartilha o abalo que a leitura produziu. E isso confirma a import&#226;ncia de n&#227;o pensarmos o jovem leitor como algu&#233;m indiferente &#224; literatura, mas como algu&#233;m que precisa encontrar caminhos de acesso, escuta e pertencimento.</p><p style="text-align: justify;">A literatura juvenil, portanto, pode ser uma experi&#234;ncia de forma&#231;&#227;o &#233;tica justamente porque n&#227;o fala de cima para baixo. N&#227;o h&#225; necessidade de hierarquias e sim de trocas. A literatura n&#227;o precisa (nem tem a inten&#231;&#227;o de) moralizar o leitor. Ler uma hist&#243;ria &#233; perceber que h&#225; dores que n&#227;o s&#227;o nossas, mas que podem nos atravessar; que h&#225; realidades que n&#227;o vivemos, mas que podemos tentar compreender; que h&#225; perguntas que pertencem a uma personagem e, de repente, passam a ser tamb&#233;m nossas.</p><p style="text-align: justify;">Por isso, &#233; preciso defender a leitura como um direito. N&#227;o como privil&#233;gio de pessoas mais abastadas, nem como mera obriga&#231;&#227;o escolar, mas como uma condi&#231;&#227;o de participa&#231;&#227;o sens&#237;vel, cr&#237;tica e democr&#225;tica na vida coletiva. Como afirma Silvia Castrill&#243;n na obra <em>O direito de ler </em>(Pulo do gato, 2011), a leitura &#233; um direito de todos e permite o exerc&#237;cio pleno da democracia. Essa afirma&#231;&#227;o desloca a discuss&#227;o do campo do gosto individual para o campo da cidadania. Garantir o acesso &#224; literatura &#233; garantir tamb&#233;m o acesso a formas de imagina&#231;&#227;o, linguagem, pensamento e escuta. O cr&#237;tico liter&#225;rio Ant&#244;nio C&#226;ndido, em seu texto <em>O direito &#224; literatura</em>, tamb&#233;m defendeu que a literatura &#233; algo imprescind&#237;vel &#224; vida humana pois organiza emo&#231;&#245;es, amplia a percep&#231;&#227;o de mundo e nos humaniza.</p><p style="text-align: justify;">Dessa maneira, quando um jovem leitor se encontra com uma hist&#243;ria, ele n&#227;o est&#225; apenas aprendendo sobre personagens ou enredos. Ele est&#225; aprendendo a formular perguntas, a sustentar ambiguidades, a reconhecer conflitos, a ouvir outras vozes e a nomear o que sente. Est&#225; exercitando uma aten&#231;&#227;o que o mundo acelerado frequentemente enfraquece. Est&#225;, sobretudo, descobrindo que sua experi&#234;ncia pode dialogar com a experi&#234;ncia de outros.</p><p style="text-align: justify;">Talvez seja essa uma das respostas poss&#237;veis &#224; pergunta &#8220;para que serve uma hist&#243;ria?&#8221;. Uma hist&#243;ria serve para nos retirar do isolamento; para nos fazer ver com os pr&#243;prios olhos e, ao mesmo tempo, pelos olhos dos outros. Serve para criar comunidade em torno da palavra. Serve para lembrar que formar leitores n&#227;o &#233; apenas ensinar a decodificar textos, mas abrir espa&#231;os para que jovens possam pensar, sentir, discordar, imaginar e conversar. Em tempos de telas onipresentes e aten&#231;&#245;es fragmentadas, a literatura juvenil continua sendo uma das formas mais potentes de devolver ao jovem leitor a possibilidade de olhar o mundo (e a si mesmo) com maior profundidade.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!PF8f!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5719aeaa-0bf9-4ee1-8782-c89e373fb8bc_2204x3358.heic" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!PF8f!, /__u/myriamscotti.substack.com/w_424, /__u/myriamscotti.substack.com/c_limit, /__u/myriamscotti.substack.com/f_webp, /__u/myriamscotti.substack.com/q_auto:good, 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