<script data-pm-proxy="intercept"></script><?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[nas entre(linhas)]]></title><description><![CDATA[psicanalista, psicóloga e escutadora do que não é dito. histórias que parecem sobre outros, mas quase sempre encontram você.]]></description><link>https://ocnathalie.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Cs_M!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F100c3a89-a198-4851-b5a0-779961b8c924_1288x1290.png</url><title>nas entre(linhas)</title><link>https://ocnathalie.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Wed, 02 Sep 2026 05:46:30 GMT</lastBuildDate><atom:link href="/__u/ocnathalie.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Náthalie Ocáriz]]></copyright><language><![CDATA[en]]></language><webMaster><![CDATA[ocnathalie@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[ocnathalie@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[nas entre(linhas)]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[nas entre(linhas)]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[ocnathalie@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[ocnathalie@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[nas entre(linhas)]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[nós dois, de novo]]></title><description><![CDATA[eles n&#227;o haviam deixado de se amar. mas alguma coisa j&#225; n&#227;o cabia na rela&#231;&#227;o.]]></description><link>https://ocnathalie.substack.com/p/nos-dois-de-novo</link><guid isPermaLink="false">https://ocnathalie.substack.com/p/nos-dois-de-novo</guid><dc:creator><![CDATA[nas entre(linhas)]]></dc:creator><pubDate>Wed, 26 Aug 2026 15:05:40 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/0eb401f6-d6a2-410e-a78c-816a3f345854_1672x941.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>eles j&#225; n&#227;o sabiam se o amor seria suficiente.</span></p><p></p><p><span>quando contavam sobre o que estava acontecendo, a primeira rea&#231;&#227;o das pessoas era procurar o problema.</span></p><p><span>esperavam uma trai&#231;&#227;o.</span></p><p><span>uma d&#237;vida ou alguma grande briga.</span></p><p></p><p><span>afinal, havia o estere&#243;tipo de que homens sempre tra&#237;am.</span></p><p><span>e as pesquisas apontavam os problemas financeiros como uma das principais causas de div&#243;rcio.</span></p><p></p><p><span>eles quase torciam para que fosse alguma coisa assim.</span></p><p><span>algo concreto.</span></p><p><span>algo que pudesse ser apontado, discutido e, quem sabe, resolvido.</span></p><p></p><p><span>porque, em tese, s&#243; se resolve aquilo que se pode ver.</span></p><p><span>e talvez esse fosse justamente o princ&#237;pio dos problemas deles.</span></p><p><span>n&#227;o sabiam dizer o que andava lhes perturbando.</span></p><p><span>n&#227;o conseguiam lembrar de uma fase em que n&#227;o se amassem.</span></p><p><span>mesmo agora, quando duvidavam de toda a rela&#231;&#227;o, n&#227;o duvidavam do amor que sentiam um pelo outro.</span></p><p></p><p><span>o problema era outro.</span></p><p><span>o amor j&#225; n&#227;o parecia ser suficiente para faz&#234;-los felizes.</span></p><p></p><p><span>algu&#233;m chegou a sugerir:</span></p><p><span>&#8212; por que voc&#234;s n&#227;o se separam?</span></p><p></p><p><span>a pergunta parecia simples.</span></p><p><span>mas eles n&#227;o eram um casal que desistia facilmente.</span></p><p><span>filhos de fam&#237;lias disfuncionais, haviam prometido a si mesmos, muitos anos antes, que fariam aquela rela&#231;&#227;o funcionar.</span></p><p><span>considerar o div&#243;rcio seria, de alguma maneira, admitir que tinham quebrado a promessa.</span></p><p><span>que haviam falhado com eles mesmos.</span></p><p></p><p><span>n&#227;o era falta de esfor&#231;o.</span></p><p><span>ela tentou estar mais presente.</span></p><p><span>ele tentou ser mais rom&#226;ntico.</span></p><p><span>ela sugeriu terapia de casal.</span></p><p><span>ele comprou todos os livros que encontrou sobre como salvar uma rela&#231;&#227;o.</span></p><p></p><p><span>tentaram conversar.</span></p><p><span>tentaram viajar.</span></p><p><span>tentaram voltar a fazer coisas juntos.</span></p><p><span>mas a sensa&#231;&#227;o permanecia.</span></p><p></p><p><span>eram duas pe&#231;as tentando for&#231;ar um encaixe que, em algum momento, havia deixado de acontecer naturalmente.</span></p><p><span>ent&#227;o aceitaram a derrota.</span></p><p><span>o amor nem sempre era suficiente.</span></p><p></p><p><span>decididos a se separar, come&#231;aram a dividir os objetos da casa.</span></p><p><span>e foi curioso perceber que separar uma vida em duas era muito mais dif&#237;cil do que imaginaram.</span></p><p><span>haviam livros que pertenciam aos dois.</span></p><p><span>canecas que ningu&#233;m lembrava quem havia comprado.</span></p><p><span>presentes de anivers&#225;rios.</span></p><p><span>fotografias.</span></p><p><span>bilhetes.</span></p><p><span>objetos sem qualquer valor financeiro que, ainda assim, pareciam imposs&#237;veis de colocar em uma caixa com o nome de apenas uma pessoa.</span></p><p></p><p><span>imersos naquele passado que agora precisavam repartir, foram revivendo cada situa&#231;&#227;o.</span></p><p><span>cada desaven&#231;a, cada reconcilia&#231;&#227;o.</span></p><p><span>cada conquista, cada fracasso.</span></p><p><span>cada apoio.</span></p><p><span>cada amparo.</span></p><p></p><p><span>at&#233; que ela encontrou uma fotografia.</span></p><p><span>ficou alguns segundos olhando.</span></p><p><span>depois sorriu, surpresa.</span></p><p><span>&#8212; eu tinha esquecido que voc&#234; j&#225; teve tatuagem!</span></p><p></p><p><span>entregou a foto a ele.</span></p><p><span>ela lembrava de quase todos os detalhes da hist&#243;ria dos dois.</span></p><p><span>mas aquele havia escapado da mem&#243;ria.</span></p><p><span>ele riu e contou novamente a hist&#243;ria da tatuagem.</span></p><p></p><p><span>fora uma das suas grandes travessuras da adolesc&#234;ncia.</span></p><p><span>queria impressionar os amigos.</span></p><p><span>queria provar aos pais que j&#225; era adulto.</span></p><p><span>acabou descobrindo uma alergia e ganhando, como consequ&#234;ncia, um castigo bastante infantil.</span></p><p><span>contou tudo rindo.</span></p><p></p><p><span>falou da raiva que sentia dos pais naquela &#233;poca, por n&#227;o aceitarem seu crescimento.</span></p><p><span>falou de como sua adolesc&#234;ncia havia sido atravessada por tentativas de se firmar, de provar quem era.</span></p><p><span>a tatuagem tinha sido apenas uma delas.</span></p><p></p><p><span>esperava que ela risse da hist&#243;ria.</span></p><p><span>mas ela permaneceu s&#233;ria.</span></p><p><span>olhou novamente para a fotografia.</span></p><p><span>&#8212; &#233; isso.</span></p><p></p><p><span>ele n&#227;o entendeu.</span></p><p><span>ela tamb&#233;m n&#227;o sabia explicar direito.</span></p><p><span>mas, de repente, alguma coisa havia feito sentido.</span></p><p></p><p><span>talvez eles estivessem tentando salvar uma rela&#231;&#227;o que j&#225; n&#227;o existia.</span></p><p><span>n&#227;o porque o amor tivesse acabado.</span></p><p><span>mas porque eles haviam mudado.</span></p><p><span>ainda n&#227;o haviam chegado ao est&#225;gio da raiva que ele sentira pelos pais naquela &#233;poca.</span></p><p><span>ou, pelo menos, assim esperavam.</span></p><p></p><p><span>mas, assim como acontece em qualquer outra fase da vida, eles estavam mudando de novo.</span></p><p><span>e talvez n&#227;o tivessem percebido que precisariam se adaptar.</span></p><p><span>se conhecer novamente.</span></p><p><span>se apaixonar novamente.</span></p><p></p><p><span>eles amavam um ao outro.</span></p><p><span>amavam aquilo que reconheciam como ess&#234;ncia um do outro.</span></p><p><span>e essa ess&#234;ncia n&#227;o estava mudando.</span></p><p></p><p><span>mas o homem daquela fotografia j&#225; n&#227;o era exatamente o homem que estava diante dela.</span></p><p><span>e ela tamb&#233;m n&#227;o era mais a mulher que ele havia conhecido tantos anos antes.</span></p><p><span>o casal que antes vivia em sincronia estava entrando em outra fase.</span></p><p><span>entretanto continuava tentando dan&#231;ar a m&#250;sica antiga.</span></p><p></p><p><span>talvez fosse por isso que tudo parecia t&#227;o dif&#237;cil.</span></p><p><span>n&#227;o precisavam necessariamente terminar.</span></p><p></p><p><span>precisavam come&#231;ar de novo.</span></p><p><span>n&#227;o o relacionamento.</span></p><p><span>eles mesmos.</span></p><p></p><p><span>precisariam descobrir as novas manias.</span></p><p><span>as novas peculiaridades.</span></p><p><span>os novos desejos.</span></p><p><span>as coisas que passaram a incomodar.</span></p><p><span>as que passaram a fazer rir.</span></p><p><span>as vers&#245;es que surgiriam conforme os anos continuassem passando.</span></p><p></p><p><span>o amor que os mantinha unidos n&#227;o havia desaparecido.</span></p><p><span>mas amor tamb&#233;m precisa de alimento.</span></p><p><span>precisa de curiosidade.</span></p><p><span>de admira&#231;&#227;o.</span></p><p><span>de espa&#231;o para que o outro possa mudar sem que isso seja entendido como uma amea&#231;a &#224;quilo que foi constru&#237;do.</span></p><p></p><p>porque amar algu&#233;m por muitos anos n&#227;o significa conhe</p><p><span>cer para sempre a mesma pessoa.</span></p><p><span>significa aceitar que, de tempos em tempos, ser&#225; preciso conhec&#234;-la outra vez.</span></p><p></p><p><span>a quest&#227;o entre eles nunca foi falta de amor.</span></p><p><span>mas talvez tivessem esquecido que, para uma rela&#231;&#227;o permanecer viva</span><strong><span>, </span></strong><span>o amor tamb&#233;m precisa se atualizar.</span></p><p></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ocnathalie.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ocnathalie.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[sobre deixar ir]]></title><description><![CDATA[algumas formas de amor aquecem. outras nos impedem de sentir o vento.]]></description><link>https://ocnathalie.substack.com/p/sobre-deixar-ir</link><guid isPermaLink="false">https://ocnathalie.substack.com/p/sobre-deixar-ir</guid><dc:creator><![CDATA[nas entre(linhas)]]></dc:creator><pubDate>Wed, 19 Aug 2026 15:05:58 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/bd8c324b-33ca-476a-ac3f-df85fd4f0385_1672x941.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>ela tinha uma cole&#231;&#227;o peculiar.</span></p><p></p><p><span>j&#225; havia anos que seus olhos aprendiam a reconhecer um bom cobertor &#224; dist&#226;ncia.</span></p><p><span>n&#227;o importava a cor.</span></p><p><span>nem o tamanho.</span></p><p><span>era uma quest&#227;o de textura.</span></p><p></p><p><span>alguns prometiam aquecer.</span></p><p><span>outros pareciam feitos para abra&#231;ar.</span></p><p><span>esses eram os seus preferidos.</span></p><p></p><p><span>quando algu&#233;m visitava sua casa, ela mostrava a cole&#231;&#227;o com um orgulho dif&#237;cil de esconder.</span></p><p><span>empilhados em prateleiras.</span></p><p><span>dobrados sobre o sof&#225;.</span></p><p><span>guardados em caixas para &#8220;o caso de um dia precisar&#8221;.</span></p><p></p><p><span>os amigos sempre faziam a mesma pergunta.</span></p><p><span>&#8212; por que cobertores?</span></p><p></p><p><span>havia tanta coisa para colecionar.</span></p><p><span>livros.</span></p><p><span>vinis.</span></p><p><span>plantas.</span></p><p><span>x&#237;caras.</span></p><p><span>por que justamente cobertores?</span></p><p></p><p><span>ela nunca soube responder direito.</span></p><p><span>sabia apenas descrever uma sensa&#231;&#227;o.</span></p><p><span>a lembran&#231;a de um tecido macio envolvendo seu corpo nos dias em que o mundo parecia assustador demais.</span></p><p></p><p><span>o cobertor estava l&#225; quando caiu da bicicleta e voltou para casa com os joelhos ralados.</span></p><p><span>quando decorou a coreografia da festa da escola.</span></p><p><span>quando tirou a primeira nota baixa.</span></p><p><span>quando foi escolhida para discursar na formatura.</span></p><p><span>quando teve o cora&#231;&#227;o partido pela primeira vez.</span></p><p><span>quando voltou sorrindo do primeiro encontro.</span></p><p><span>quando brigou com os pais.</span></p><p><span>quando se sentiu profundamente amada por eles.</span></p><p></p><p><span>era curioso.</span></p><p><span>os acontecimentos mudavam.</span></p><p><span>o cobertor permanecia.</span></p><p><span>como se soubesse acolher tanto a alegria quanto a tristeza.</span></p><p><span>durante muito tempo acreditou que era isso que o tornava t&#227;o especial.</span></p><p></p><p><span>s&#243; muitos anos depois percebeu que n&#227;o era exatamente o cobertor que a acalmava.</span></p><p><span>era tudo aquilo que ele representava.</span></p><p><span>prote&#231;&#227;o.</span></p><p><span>amparo.</span></p><p><span>a certeza silenciosa de que algu&#233;m cuidaria dela at&#233; o desconforto passar.</span></p><p></p><p><span>talvez tenha sido por isso que nunca parou de comprar novos.</span></p><p><span>sempre existia um mais macio.</span></p><p><span>mais quente.</span></p><p><span>mais confort&#225;vel.</span></p><p><span>como se fosse poss&#237;vel estocar seguran&#231;a para o futuro.</span></p><p><span>como se pudesse construir uma reserva suficiente para nunca mais sentir frio.</span></p><p><span>ou precisar de algu&#233;m.</span></p><p></p><p><span>a cole&#231;&#227;o crescia.</span></p><p><span>e, curiosamente, a casa parecia cada vez menor.</span></p><p><span>havia cobertores para todas as esta&#231;&#245;es.</span></p><p><span>para todos os humores.</span></p><p><span>para todos os medos que ela sequer tinha vivido.</span></p><p></p><p><span>o que ela nunca percebeu &#233; que, aos poucos, come&#231;ou a us&#225;-los para mais do que aquecer.</span></p><p><span>os usava para adiar conversas dif&#237;ceis.</span></p><p><span>para permanecer onde j&#225; n&#227;o queria estar.</span></p><p><span>para convencer a si mesma de que bastava esperar mais um pouco.</span></p><p><span>enrolada em tantas camadas de prote&#231;&#227;o, o mundo l&#225; fora parecia cada vez mais distante.</span></p><p><span>e quanto mais distante o mundo ficava, mais indispens&#225;veis os cobertores pareciam.</span></p><p></p><p><span>foi s&#243; quando um deles come&#231;ou a se desfazer nas bordas que o medo apareceu.</span></p><p><span>n&#227;o o medo de perder um tecido.</span></p><p><span>mas o de descobrir que havia passado anos acreditando que prote&#231;&#227;o era algo que se guardava no arm&#225;rio.</span></p><p><span>quando, na verdade, algumas formas de amparo s&#243; existem no encontro com o outro.</span></p><p></p><p><span>ela ainda gosta de cobertores.</span></p><p><span>continua escolhendo os mais macios.</span></p><p><span>continua se enrolando neles nos dias dif&#237;ceis.</span></p><p></p><p><span>foi outro coisa que mudou.</span></p><p><span>ela j&#225; n&#227;o espera que um cobertor fa&#231;a o trabalho de um abra&#231;o.</span></p><p><span>nem que um tecido carregue sozinho o peso de proteg&#234;-la da vida.</span></p><p><span>porque descobriu que existe uma diferen&#231;a delicada entre aquecer e esconder.</span></p><p></p><p><span>o calor pode nos preparar para voltar ao mundo.</span></p><p><span>enquanto o esconderijo nos convence de que nunca dever&#237;amos sair dele.</span></p><p></p><p><span>e, &#224;s vezes, a prote&#231;&#227;o mais bonita n&#227;o &#233; aquela que nos mant&#233;m cobertos.</span></p><p><span>&#233; a que nos acompanha at&#233; a porta, ajeita o casaco nos nossos ombros e, com um pouco de receio e muito amor, nos deixa ir.</span></p><p></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ocnathalie.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ocnathalie.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[ninguém mora no topo]]></title><description><![CDATA[a parte dif&#237;cil n&#227;o &#233; chegar. &#233; descobrir que a roda continua girando.]]></description><link>https://ocnathalie.substack.com/p/ninguem-mora-no-topo</link><guid isPermaLink="false">https://ocnathalie.substack.com/p/ninguem-mora-no-topo</guid><dc:creator><![CDATA[nas entre(linhas)]]></dc:creator><pubDate>Wed, 12 Aug 2026 15:05:14 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/6a5ebfa1-c02a-496d-83fa-67da65d15c31_1672x941.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>ela sempre escolhia a cabine que subia de costas.</span></p><p><span>gostava da ilus&#227;o de que n&#227;o estava indo a lugar nenhum.</span></p><p><span>era menos angustiante do que assistir o topo se aproximando.</span></p><p></p><p><span>desde pequena tinha pressa.</span></p><p><span>pressa para aprender a ler.</span></p><p><span>para crescer.</span></p><p><span>para ter a pr&#243;pria chave de casa.</span></p><p><span>para dirigir.</span></p><p><span>para terminar a faculdade.</span></p><p><span>para conseguir um trabalho.</span></p><p><span>para descobrir, enfim, como era ser adulta.</span></p><p></p><p><span>acreditava que existia um momento exato em que tudo faria sentido.</span></p><p><span>um dia em que acordaria sabendo responder perguntas que hoje ainda a assustavam.</span></p><p><span>como declarar imposto de renda.</span></p><p><span>como amar algu&#233;m sem tanto medo.</span></p><p><span>como decidir onde morar.</span></p><p><span>como perceber que estava no caminho certo.</span></p><p></p><p><span>esse dia nunca chegou.</span></p><p></p><p><span>em compensa&#231;&#227;o, os anivers&#225;rios continuaram chegando sem atraso.</span></p><p><span>e, de repente, ela j&#225; tinha a idade que, quando crian&#231;a, imaginava ser suficiente para entender a vida.</span></p><p><span>n&#227;o era.</span></p><p></p><p><span>&#224;s vezes olhava ao redor e tinha a impress&#227;o de que todo mundo havia recebido um manual.</span></p><p><span>menos ela.</span></p><p></p><p><span>os outros pareciam saber investir dinheiro.</span></p><p><span>planejar o futuro.</span></p><p><span>comprar apartamentos.</span></p><p><span>escolher carreiras.</span></p><p><span>ter filhos.</span></p><p><span>ela ainda comemorava quando conseguia lembrar de regar as plantas.</span></p><p></p><p><span>foi pensando nisso que aceitou entrar na roda-gigante.</span></p><p><span>a cabine come&#231;ou a subir lentamente.</span></p><p><span>devagar demais para quem sempre quis antecipar o pr&#243;ximo cap&#237;tulo.</span></p><p></p><p><span>l&#225; de baixo, olhava para o alto imaginando como seria chegar.</span></p><p><span>tinha certeza de que, quando finalmente alcan&#231;asse o topo, alguma coisa mudaria dentro dela.</span></p><p><span>e, por alguns instantes, mudou.</span></p><p></p><p><span>quando a cabine parou l&#225; em cima, o mundo pareceu imenso.</span></p><p><span>as pessoas viraram pontos.</span></p><p><span>as ruas desenhavam caminhos que ela nunca tinha percebido.</span></p><p><span>o horizonte parecia n&#227;o terminar.</span></p><p></p><p><span>pela primeira vez, entendeu por que tanta gente queria chegar ali.</span></p><p><span>havia beleza naquela perspectiva.</span></p><p><span>havia orgulho.</span></p><p><span>havia uma sensa&#231;&#227;o silenciosa de ter percorrido um longo caminho.</span></p><p></p><p><span>mas havia outra coisa tamb&#233;m.</span></p><p><span>o vento.</span></p><p><span>ele soprava diferente l&#225; em cima.</span></p><p><span>mais forte.</span></p><p><span>mais frio.</span></p><p></p><p><span>e, junto com a vista, veio um pensamento inesperado.</span></p><p><em><span>&#8220;e se eu cair?&#8221;</span></em></p><p></p><p><span>era curioso.</span></p><p><span>passara tantos anos acreditando que seu maior desejo era chegar ao topo.</span></p><p><span>ningu&#233;m lhe contou que toda conquista amplia tamb&#233;m o tamanho das perdas poss&#237;veis.</span></p><p><span>quanto mais alto se sobe, mais coisas passam a importar.</span></p><p><span>mais escolhas precisam ser feitas.</span></p><p><span>mais pessoas dependem de n&#243;s.</span></p><p><span>mais medo existe de deixar tudo escapar entre os dedos.</span></p><p></p><p><span>ela sorriu ainda com medo.</span></p><p><span>porque, pela primeira vez, era um medo novo.</span></p><p><span>antes temia nunca chegar.</span></p><p><span>agora temia perder o que conquistara.</span></p><p></p><p><span>talvez fosse isso que chamavam de vida adulta.</span></p><p><span>n&#227;o um lugar onde finalmente sabemos viver.</span></p><p><span>mas um lugar onde apenas mudamos as perguntas.</span></p><p></p><p><span>a cabine permaneceu alguns segundos no alto.</span></p><p><span>depois come&#231;ou a descer.</span></p><p><span>instintivamente, ela quis impedir.</span></p><p><span>esperar mais um pouco.</span></p><p><span>guardar aquela vista.</span></p><p><span>mas a roda n&#227;o perguntava se algu&#233;m estava pronto.</span></p><p><span>ela simplesmente continuava girando.</span></p><p></p><p><span>foi ent&#227;o que percebeu a parte mais bonita do brinquedo:</span></p><p><span>o topo nunca pertence a ningu&#233;m.</span></p><p><span>ele apenas nos visita por alguns instantes.</span></p><p></p><p><span>assim como os dias em que tudo parece dar certo.</span></p><p><span>assim como os amores.</span></p><p><span>os trabalhos.</span></p><p><span>as fases tranquilas.</span></p><p><span>a alegria.</span></p><p><span>nenhuma delas existe para ser permanente.</span></p><p><span>e talvez seja justamente isso que permita que outras tamb&#233;m cheguem.</span></p><p></p><p><span>quando seus p&#233;s tocaram o ch&#227;o outra vez, ela j&#225; n&#227;o tinha tanta pressa.</span></p><p><span>ainda n&#227;o havia encontrado todas as respostas.</span></p><p><span>mas finalmente desconfiou de uma coisa.</span></p><p></p><p><span>talvez a vida nunca tenha sido uma corrida at&#233; o topo.</span></p><p><span>talvez fosse mais parecida com uma roda-gigante.</span></p><p><span>h&#225; dias em que estamos subindo sem perceber.</span></p><p><span>h&#225; dias em que a vista nos encontra.</span></p><p><span>h&#225; dias em que tudo parece descer r&#225;pido demais.</span></p><p><span>e nenhum deles diz, sozinho, quem somos.</span></p><p></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ocnathalie.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ocnathalie.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[quem está com medo de cair?]]></title><description><![CDATA[nem sempre &#233; quem est&#225; em cima da bicicleta]]></description><link>https://ocnathalie.substack.com/p/quem-esta-com-medo-de-cair</link><guid isPermaLink="false">https://ocnathalie.substack.com/p/quem-esta-com-medo-de-cair</guid><dc:creator><![CDATA[nas entre(linhas)]]></dc:creator><pubDate>Wed, 05 Aug 2026 15:05:38 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/0648a285-958e-453b-b537-a860953f5735_1672x941.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>&#8212; deixa que eu te ajudo.</span></p><p></p><p><span>era quase um reflexo.</span></p><p><span>a frase escapava antes mesmo que algu&#233;m terminasse de explicar o problema.</span></p><p><span>se um colega demorava para concluir uma tarefa, ela j&#225; puxava o computador para perto.</span></p><p><span>se uma amiga hesitava diante de uma decis&#227;o, ela organizava as possibilidades.</span></p><p><span>se algu&#233;m carregava peso, ela estendia as m&#227;os.</span></p><p><span>se algu&#233;m chorava, ela encontrava as palavras.</span></p><p></p><p><span>era r&#225;pida.</span></p><p><span>eficiente.</span></p><p><span>atenciosa.</span></p><p></p><p><span>ningu&#233;m duvidava da sua generosidade.</span></p><p><span>nem ela.</span></p><p><span>afinal, ajudar sempre pareceu uma qualidade.</span></p><p></p><p><span>e talvez fosse.</span></p><p><span>o problema nunca esteve na ajuda.</span></p><p><span>esteve na dificuldade de ir embora depois dela.</span></p><p></p><p><span>ela permanecia.</span></p><p><span>conferia.</span></p><p><span>refazia.</span></p><p><span>lembrava.</span></p><p><span>antecipava.</span></p><p><span>como quem dizia, em sil&#234;ncio:</span></p><p><em><span>&#8220;&#233; melhor deixar comigo.&#8221;</span></em></p><p></p><p><span>durante muito tempo acreditou que fazia isso por amor.</span></p><p><span>at&#233; o dia em que observou um pai ensinando a filha a andar de bicicleta.</span></p><p></p><p><span>ela pedalava com o corpo tenso.</span></p><p><span>os bra&#231;os duros.</span></p><p><span>os joelhos inseguros.</span></p><p><span>olhando para tr&#225;s a cada dois segundos para conferir se ele ainda estava ali.</span></p><p></p><p><span>o pai segurava firme o banco.</span></p><p><span>corria atr&#225;s dela.</span></p><p><span>&#224;s vezes corrigia o guid&#227;o.</span></p><p><span>&#224;s vezes equilibrava o peso.</span></p><p><span>at&#233; que, sem avisar, soltou.</span></p><p><span>ela continuou pedalando.</span></p><p></p><p><span>por alguns segundos, acreditou que ainda estava sendo segurada.</span></p><p><span>quando percebeu que estava sozinha, desequilibrou.</span></p><p><span>caiu.</span></p><p><span>chorou.</span></p><p><span>levantou.</span></p><p><span>tentou outra vez.</span></p><p></p><p><span>na terceira tentativa j&#225; ria enquanto pedalava.</span></p><p><span>foi ent&#227;o que ela percebeu uma coisa.</span></p><p><span>se aquele pai tivesse continuado segurando o banco para sempre, talvez a menina nunca ca&#237;sse.</span></p><p><span>mas tamb&#233;m nunca descobriria que era capaz de seguir sozinha.</span></p><p></p><p><span>essa ideia ficou ecoando por dias.</span></p><p><span>quantas bicicletas ela nunca tinha soltado?</span></p><p><span>quantos guid&#245;es continuava segurando sem perceber?</span></p><p></p><p><span>era curioso.</span></p><p><span>ela dizia odiar que tudo dependesse dela.</span></p><p><span>reclamava do excesso de responsabilidade.</span></p><p><span>do cansa&#231;o.</span></p><p><span>de nunca conseguir descansar.</span></p><p></p><p><span>mas, sempre que algu&#233;m come&#231;ava a encontrar o pr&#243;prio equil&#237;brio, ela voltava a segurar o banco.</span></p><p><span>n&#227;o porque n&#227;o confiasse no outro.</span></p><p><span>talvez porque ainda n&#227;o confiasse no vazio que surgiria quando deixassem de precisar dela.</span></p><p><span>afinal, quem seria ela se ningu&#233;m dissesse:</span></p><p><em><span>&#8220;ainda bem que voc&#234; est&#225; aqui.&#8221;</span></em></p><p></p><p><span>essa foi a parte mais dif&#237;cil de admitir.</span></p><p><span>n&#227;o era apenas o outro que se tornava dependente.</span></p><p><span>ela tamb&#233;m.</span></p><p></p><p><span>dependia da necessidade alheia para continuar ocupando um lugar que lhe parecia seguro.</span></p><p><span>ajudar lhe dava uma fun&#231;&#227;o.</span></p><p><span>ser indispens&#225;vel lhe dava identidade.</span></p><p><span>e, sem querer, confundiu cuidado com controle.</span></p><p></p><p><span>demorou para descobrir que algumas das pessoas que mais a amavam tamb&#233;m precisavam que ela soltasse o banco.</span></p><p><span>n&#227;o porque recusassem seu carinho.</span></p><p><span>mas porque queriam experimentar a alegria &#8212; e o susto &#8212; de descobrir as pr&#243;prias pernas.</span></p><p></p><p><span>desde ent&#227;o ela continua ajudando.</span></p><p><span>continua oferecendo a m&#227;o.</span></p><p><span>continua correndo ao lado de quem ama.</span></p><p><span>mas aprendeu uma diferen&#231;a importante.</span></p><p></p><p><span>existem momentos em que cuidar &#233; segurar.</span></p><p><span>e existem outros em que cuidar &#233; confiar.</span></p><p></p><p><span>hoje, antes de dizer &#8220;deixa que eu te ajudo&#8221;, ela faz uma pergunta que nunca fazia.</span></p><p><em><span>&#8220;voc&#234; quer ajuda... ou s&#243; precisa que eu permane&#231;a aqui enquanto voc&#234; tenta?&#8221;</span></em></p><p></p><p><span>descobriu que, &#224;s vezes, a maior demonstra&#231;&#227;o de amor n&#227;o &#233; impedir a queda.</span></p><p><span>&#233; permanecer por perto, acreditando que o outro tamb&#233;m pode aprender a pedalar.</span></p><p></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ocnathalie.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ocnathalie.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[formas de permanecer]]></title><description><![CDATA[algumas coisas continuam de p&#233; porque aprenderam a se mover]]></description><link>https://ocnathalie.substack.com/p/formas-de-permanecer</link><guid isPermaLink="false">https://ocnathalie.substack.com/p/formas-de-permanecer</guid><dc:creator><![CDATA[nas entre(linhas)]]></dc:creator><pubDate>Wed, 29 Jul 2026 15:05:11 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/242b1689-9bb8-432d-96da-c102e3f6e8c0_1672x941.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>n&#227;o se lembra exatamente quando come&#231;ou a acreditar que precisava ser forte.</span></p><p><span>mas hoje ia &#224; academia seis vezes por semana.</span></p><p><span>n&#227;o chorava na frente de ningu&#233;m.</span></p><p><span>n&#227;o pedia ajuda.</span></p><p><span>talvez s&#243; ao chatgpt.</span></p><p><span>e ele, felizmente, n&#227;o contaria a ningu&#233;m.</span></p><p></p><p><span>tamb&#233;m n&#227;o sabe dizer quando a vida lhe ensinou que precisava parecer est&#225;vel.</span></p><p><span>seguro.</span></p><p><span>confiante.</span></p><p></p><p><span>na &#233;poca, aquilo lhe pareceu uma boa not&#237;cia.</span></p><p><span>afinal, quem recusaria essas qualidades?</span></p><p><span>o que n&#227;o percebeu foi que, junto com elas, veio outra companheira.</span></p><p><span>a rigidez.</span></p><p></p><p><span>para tudo o que era capaz de fazer, esperava dos outros o mesmo esfor&#231;o.</span></p><p><span>se lhe pedissem um x, entregava exatamente um x.</span></p><p><span>sem inclinar.</span></p><p><span>sem adaptar.</span></p><p><span>sem improvisar.</span></p><p></p><p><span>a simples ideia de mudar de rota lhe causava um desconforto dif&#237;cil de explicar.</span></p><p><span>como se qualquer desvio fosse uma derrota.</span></p><p></p><p><span>durante muito tempo acreditou que consist&#234;ncia era isso.</span></p><p><span>n&#227;o mudar.</span></p><p><span>n&#227;o ceder.</span></p><p><span>n&#227;o vacilar.</span></p><p><span>n&#227;o dobrar.</span></p><p><span>era bonito na teoria.</span></p><p><span>na pr&#225;tica, cansava.</span></p><p></p><p><span>porque viver tem um p&#233;ssimo h&#225;bito de desorganizar os planos.</span></p><p><span>as pessoas n&#227;o respondem como imaginamos.</span></p><p><span>os corpos adoecem.</span></p><p><span>os amores mudam de forma.</span></p><p><span>os trabalhos pedem caminhos que nunca aprendemos.</span></p><p><span>e, cedo ou tarde, toda vida conhece alguma tempestade.</span></p><p></p><p><span>foi numa dessas que algu&#233;m lhe falou sobre os bambus.</span></p><p><span>descobriu, com um certo espanto, que eles nem sequer s&#227;o &#225;rvores.</span></p><p><span>s&#227;o gram&#237;neas.</span></p><p><span>e talvez justamente por isso tenham tanto a ensinar.</span></p><p></p><p><span>quando ventos muito fortes atravessam uma floresta, &#225;rvores r&#237;gidas podem partir.</span></p><p><span>o bambu faz outra coisa.</span></p><p><span>ele se curva.</span></p><p><span>cede.</span></p><p><span>acompanha a dire&#231;&#227;o do vento por algum tempo.</span></p><p><span>e, quando a tempestade passa, volta lentamente &#224; posi&#231;&#227;o.</span></p><p><span>n&#227;o porque seja mais fraco.</span></p><p><span>mas porque descobriu uma forma diferente de permanecer.</span></p><p></p><p><span>durante dias essa imagem n&#227;o saiu da sua cabe&#231;a.</span></p><p><span>talvez porque fosse exatamente o contr&#225;rio de tudo o que aprendera.</span></p><p></p><p><span>cresceu acreditando que for&#231;a era aguentar.</span></p><p><span>que maturidade era suportar.</span></p><p><span>que coragem era nunca demonstrar medo.</span></p><p></p><p><span>ningu&#233;m lhe contou que existe uma coragem enorme em mudar de ideia.</span></p><p><span>que tamb&#233;m &#233; for&#231;a dizer &#8220;hoje eu n&#227;o consigo.&#8221;</span></p><p><span>que pedir ajuda exige m&#250;sculos que academia nenhuma desenvolve.</span></p><p><span>e que h&#225; uma flexibilidade que n&#227;o enfraquece.</span></p><p><span>ela sustenta.</span></p><p></p><p><span>aos poucos come&#231;ou a desconfiar das pr&#243;prias certezas.</span></p><p><span>percebeu que passara anos confundindo firmeza com dureza.</span></p><p><span>e que h&#225; uma diferen&#231;a importante entre as duas.</span></p><p></p><p><span>o firme permanece fiel ao que importa.</span></p><p><span>o r&#237;gido permanece fiel at&#233; ao que j&#225; deixou de fazer sentido.</span></p><p></p><p><span>desde ent&#227;o, ainda gosta de levantar peso.</span></p><p><span>continua admirando disciplina.</span></p><p><span>ainda tenta honrar os compromissos que assume.</span></p><p><span>algumas coisas n&#227;o mudaram.</span></p><p><span>o que mudou foi a maneira como entende a palavra for&#231;a.</span></p><p><span>agora ela sabe que algumas estruturas s&#243; permanecem porque aprenderam a se mover.</span></p><p></p><p><span>e que, curiosamente, a natureza parece confiar muito mais na flexibilidade do que no controle.</span></p><p><span>talvez por isso o bambu continue de p&#233; depois da tempestade.</span></p><p><span>n&#227;o porque enfrentou o vento.</span></p><p><span>mas porque, por alguns instantes, aceitou dan&#231;ar com ele.</span></p><p><span>e h&#225; uma sabedoria bonita nisso.</span></p><p></p><p><span>porque existem dias em que resistir salva.</span></p><p><span>mas existem outros em que &#233; justamente a capacidade de ceder que nos impede de quebrar.</span></p><p></p><p><span>e, &#224;s vezes, permanecer n&#227;o tem nada a ver com ficar exatamente no mesmo lugar.</span></p><p><span>tem a ver com voltar a si depois que o vento passa.</span></p><p></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ocnathalie.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ocnathalie.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[o dia em que ela desmaiou na prova ]]></title><description><![CDATA[uma hist&#243;ria sobre desempenho, medo e a necessidade de se provar]]></description><link>https://ocnathalie.substack.com/p/o-dia-em-que-ela-desmaiou-na-prova</link><guid isPermaLink="false">https://ocnathalie.substack.com/p/o-dia-em-que-ela-desmaiou-na-prova</guid><dc:creator><![CDATA[nas entre(linhas)]]></dc:creator><pubDate>Wed, 22 Jul 2026 15:05:20 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/e57b4b71-943a-484e-97ce-58f8b77597c1_1200x674.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>no alto da prova, em vermelho, estava a senten&#231;a.</span></p><p></p><p><span>ela nunca entendeu por que professores gostavam tanto de canetas vermelhas.</span></p><p><span>por que n&#227;o um verde neon?</span></p><p><span>um rosa?</span></p><p><span>um azul com glitter?</span></p><p><span>at&#233; um laranja pareceria menos definitivo.</span></p><p><span>o vermelho tinha um jeito estranho de transformar qualquer observa&#231;&#227;o em veredito.</span></p><p></p><p><span>ela demorou alguns minutos antes de olhar a nota.</span></p><p><span>eram apenas quatro n&#250;meros e uma v&#237;rgula.</span></p><p><span>t&#227;o pequenos.</span></p><p><span>t&#227;o capazes de ocupar o corpo inteiro.</span></p><p></p><p><span>alguns diriam que era s&#243; um n&#250;mero.</span></p><p><span>ela sabia que n&#227;o.</span></p><p></p><p><span>n&#250;meros mediam.</span></p><p><span>mediam sua altura.</span></p><p><span>seu peso.</span></p><p><span>seu tempo.</span></p><p><span>seu desempenho.</span></p><p></p><p><span>alguns n&#250;meros ela torcia para que diminu&#237;ssem.</span></p><p><span>outros precisava desesperadamente que aumentassem.</span></p><p><span>mas todos pareciam responder &#224; mesma pergunta.</span></p><p><span>&#8220;voc&#234; &#233; suficiente?&#8221;</span></p><p></p><p><span>durante muito tempo acreditou que a resposta morava ali.</span></p><p><span>na m&#233;dia.</span></p><p><span>na nota.</span></p><p><span>na classifica&#231;&#227;o.</span></p><p><span>na aprova&#231;&#227;o.</span></p><p></p><p><span>era por isso que estudava at&#233; tarde.</span></p><p><span>que relia a mesma p&#225;gina cinco vezes.</span></p><p><span>que sa&#237;a de uma prova sem lembrar das respostas certas, apenas das erradas.</span></p><p></p><p><span>porque nunca estava fazendo uma prova.</span></p><p><span>estava tentando se provar.</span></p><p></p><p><span>at&#233; aquele dia.</span></p><p></p><p><span>ela ainda se lembra do vermelho antes mesmo de lembrar do n&#250;mero.</span></p><p><span>lembra do calor subindo pelo rosto.</span></p><p><span>das m&#227;os geladas.</span></p><p><span>do peito apertado.</span></p><p><span>do ar que parecia escasso.</span></p><p><span>lembra de pensar, por um segundo, que morrer de vergonha talvez fosse uma possibilidade real.</span></p><p></p><p><span>sua &#250;ltima lembran&#231;a antes de tudo escurecer foi aquela nota.</span></p><p><span>registrada no alto da folha.</span></p><p><span>como se algu&#233;m tivesse finalmente descoberto aquilo que ela passara anos tentando esconder.</span></p><p><span>a prova de que n&#227;o era boa o bastante.</span></p><p></p><p><span>demorou muito tempo para perceber que aquele desmaio n&#227;o tinha come&#231;ado naquela sala.</span></p><p><span>ele vinha sendo constru&#237;do h&#225; anos.</span></p><p><span>em cada elogio recebido apenas quando acertava.</span></p><p><span>em cada compara&#231;&#227;o.</span></p><p><span>em cada vez que confundiu desempenho com valor.</span></p><p><span>em cada ocasi&#227;o em que aprendeu que amor tamb&#233;m podia parecer um boletim.</span></p><p></p><p><span>porque existem pessoas que crescem acreditando que s&#243; merecem descanso depois da nota.</span></p><p><span>s&#243; merecem orgulho depois do resultado.</span></p><p><span>s&#243; merecem carinho depois da aprova&#231;&#227;o.</span></p><p></p><p><span>e ent&#227;o a escola termina.</span></p><p><span>mas a prova continua.</span></p><p><span>ela troca de cen&#225;rio.</span></p><p></p><p><span>agora a nota vem em forma de produtividade.</span></p><p><span>de sal&#225;rio.</span></p><p><span>de seguidores.</span></p><p><span>de reconhecimento.</span></p><p><span>de um curr&#237;culo.</span></p><p><span>de uma casa.</span></p><p><span>de um casamento.</span></p><p><span>de um corpo.</span></p><p></p><p><span>o papel desaparece.</span></p><p><span>a avalia&#231;&#227;o, n&#227;o.</span></p><p><span>e, sem perceber, ela passou a viver como quem nunca entrega a prova.</span></p><p></p><p><span>cada conversa era uma oportunidade de mostrar que sabia.</span></p><p><span>cada trabalho precisava ser impec&#225;vel.</span></p><p><span>cada erro parecia uma fraude prestes a ser descoberta.</span></p><p><span>ela estava sempre estudando para um exame que ningu&#233;m anunciava.</span></p><p></p><p><span>o mais curioso &#233; que as perguntas tamb&#233;m mudaram.</span></p><p><span>j&#225; n&#227;o eram sobre matem&#225;tica ou hist&#243;ria.</span></p><p><span>eram silenciosas.</span></p><p><span>&#8220;ser&#225; que fui boa o bastante?&#8221;</span></p><p><span>&#8220;ser&#225; que perceberam que eu n&#227;o sei tudo?&#8221;</span></p><p><span>&#8220;ser&#225; que decepcionei algu&#233;m?&#8221;</span></p><p></p><p><span>durante anos tentou responder a todas elas.</span></p><p><span>at&#233; que um dia encontrou uma pergunta diferente.</span></p><p><span>dessas que n&#227;o cabem numa folha.</span></p><p><span>&#8220;e se eu passar a vida inteira tentando me provar para uma banca que nunca existiu?&#8221;</span></p><p></p><p><span>foi estranho pensar nisso.</span></p><p><span>porque significava admitir que talvez ningu&#233;m estivesse corrigindo sua prova.</span></p><p><span>talvez o olhar mais severo sempre tivesse sido o dela.</span></p><p></p><p><span>ela ainda sente o cora&#231;&#227;o acelerar diante de avalia&#231;&#245;es.</span></p><p><span>ainda revisa um e-mail mais vezes do que gostaria.</span></p><p><span>ainda conhece bem a voz que sussurra que poderia ter feito melhor.</span></p><p></p><p><span>algumas aprendizagens demoram para perder a for&#231;a.</span></p><p><span>mas existe uma diferen&#231;a.</span></p><p><span>ela j&#225; n&#227;o entra em toda prova acreditando que sua exist&#234;ncia est&#225; em jogo.</span></p><p></p><p><span>algumas provas medem conhecimento.</span></p><p><span>outras medem preparo.</span></p><p><span>nenhuma delas mede o tamanho de uma vida.</span></p><p></p><p><span>e talvez a maior delas seja justamente essa:</span></p><p><span>descobrir que h&#225; uma enorme dist&#226;ncia entre fazer uma prova...</span></p><p><span>e passar a vida inteira tentando se provar.</span></p><p></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ocnathalie.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ocnathalie.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[o tamanho da paisagem]]></title><description><![CDATA[&#224;s vezes a d&#250;vida pesa mais do que a pr&#243;pria escurid&#227;o.]]></description><link>https://ocnathalie.substack.com/p/o-tamanho-da-paisagem</link><guid isPermaLink="false">https://ocnathalie.substack.com/p/o-tamanho-da-paisagem</guid><dc:creator><![CDATA[nas entre(linhas)]]></dc:creator><pubDate>Wed, 15 Jul 2026 15:06:06 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/971cb627-d6a9-4897-860d-5ab1ef0d0db1_1672x941.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>L. tinha uma sombra.</span></p><p><span>mas, diferente das outras, a dela nunca obedecia ao sol.</span></p><p><span>n&#227;o aumentava no fim da tarde.</span></p><p><span>n&#227;o desaparecia ao meio-dia.</span></p><p><span>e nem ia embora quando anoitecia.</span></p><p></p><p><span>mas arrisco dizer que era justamente no escuro que ela ganhava contorno.</span></p><p><span>como se a aus&#234;ncia de luz lhe desse permiss&#227;o para existir.</span></p><p></p><p><span>L. j&#225; n&#227;o se lembrava quando a sombra tinha chegado.</span></p><p><span>&#224;s vezes imaginava que sempre estivera ali.</span></p><p><span>talvez pequena demais para ser notada.</span></p><p><span>talvez confundida com um tra&#231;o da pr&#243;pria personalidade.</span></p><p><span>talvez apenas esperando o momento de ocupar mais espa&#231;o.</span></p><p></p><p><span>houve &#233;pocas em que quase n&#227;o a via.</span></p><p><span>em outras, ela caminhava um passo &#224; frente.</span></p><p><span>havia dias em que a sombra parecia t&#227;o grande que qualquer tentativa de enxergar o mundo passava primeiro por ela.</span></p><p></p><p><span>tentou muitas coisas.</span></p><p><span>algumas diminu&#237;am seus contornos.</span></p><p><span>outras a deixavam estranhamente mais pesada.</span></p><p><span>algumas prometiam sil&#234;ncio.</span></p><p><span>outras prometiam desaparecimento.</span></p><p><span>quase nenhuma cumpria exatamente o que prometia.</span></p><p><span>porque a sombra tinha esse h&#225;bito inconveniente de escapar das certezas.</span></p><p></p><p><span>o que L. mais desejava era uma vida em que n&#227;o precisasse olhar por cima do ombro.</span></p><p><span>uma vida em que pudesse rir sem pensar:</span></p><p><span>&#8220;e se amanh&#227; ela voltar?&#8221;</span></p><p><span>uma vida em que um dia triste fosse apenas um dia triste.</span></p><p><span>e n&#227;o o come&#231;o de alguma coisa que L. conhecia bem demais.</span></p><p></p><p><span>descobriu que, &#224;s vezes, a sombra era menos dif&#237;cil do que a d&#250;vida.</span></p><p><span>porque a d&#250;vida n&#227;o tinha forma.</span></p><p><span>n&#227;o dava para apontar.</span></p><p><span>n&#227;o dava para medir.</span></p><p><span>ela se escondia dentro de perguntas pequenas.</span></p><p><span>estou realmente bem?</span></p><p><span>ou apenas entre uma tempestade e outra?</span></p><p><span>posso fazer planos para o m&#234;s que vem?</span></p><p><span>posso confiar nessa alegria?</span></p><p><span>posso parar de vigiar?</span></p><p></p><p><span>durante muito tempo acreditou que viver seria expulsar a sombra.</span></p><p><span>como se a vida s&#243; pudesse come&#231;ar quando ela finalmente desaparecesse.</span></p><p><span>isso fez com que adiasse muita coisa.</span></p><p><span>adiou viagens.</span></p><p><span>adiou encontros.</span></p><p><span>adiou projetos.</span></p><p><span>adiou dias felizes.</span></p><p><span>esperando pelo momento em que pisaria num ch&#227;o completamente iluminado.</span></p><p></p><p><span>esse dia nunca chegou.</span></p><p></p><p><span>o que chegou foi outra compreens&#227;o.</span></p><p><span>a de que a sombra continuava ali.</span></p><p><span>mas j&#225; n&#227;o ocupava toda a paisagem.</span></p><p></p><p><span>L. descobriu que sombras tamb&#233;m precisam de luz para existir.</span></p><p><span>e, por mais estranho que pare&#231;a, foi essa ideia que a tranquilizou.</span></p><p></p><p><span>porque, se havia sombra, era porque alguma luz continuava acesa.</span></p><p><span>talvez pequena.</span></p><p><span>talvez distante em alguns dias.</span></p><p><span>mas suficiente para desenhar seus contornos.</span></p><p></p><p><span>desde ent&#227;o, L. nunca mais esperou viver uma vida sem sombras.</span></p><p><span>passou a desejar outra coisa.</span></p><p><span>uma vida grande o bastante para que a sombra deixasse de ser a &#250;nica coisa que seus olhos conseguiam ver.</span></p><p><span>e, curiosamente, foi quando parou de medir a vida pela aus&#234;ncia da sombra que come&#231;ou a perceber tudo aquilo que a luz ainda podia alcan&#231;ar.</span></p><p></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ocnathalie.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ocnathalie.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[formas de montar o mundo]]></title><description><![CDATA[ou porque tantas discuss&#245;es come&#231;am quando confundimos diferen&#231;a com erro]]></description><link>https://ocnathalie.substack.com/p/formas-de-montar-o-mundo</link><guid isPermaLink="false">https://ocnathalie.substack.com/p/formas-de-montar-o-mundo</guid><dc:creator><![CDATA[nas entre(linhas)]]></dc:creator><pubDate>Wed, 08 Jul 2026 15:05:28 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/f41a6608-68ff-4574-ad9d-ab7e7a823c82_1672x941.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>quebra-cabe&#231;as n&#227;o quebram s&#243; a paci&#234;ncia.</span></p><p><span>&#224;s vezes quebram rela&#231;&#245;es.</span></p><p><span>quebram a comunica&#231;&#227;o.</span></p><p><span>e, de vez em quando, quebram a ilus&#227;o de que duas pessoas olham para o mesmo mundo da mesma maneira.</span></p><p></p><p><span>imagine uma fam&#237;lia reunida em volta da mesa.</span></p><p><span>a caixa aberta.</span></p><p><span>as pe&#231;as espalhadas.</span></p><p></p><p><span>ningu&#233;m combinou como come&#231;ar.</span></p><p><span>nem precisou.</span></p><p><span>cada um estende a m&#227;o e faz aquilo que lhe parece mais &#243;bvio.</span></p><p></p><p><span>algu&#233;m procura os cantos.</span></p><p><span>afinal, toda moldura precisa existir antes do centro.</span></p><p></p><p><span>outra pessoa separa as pe&#231;as por cor.</span></p><p><span>o c&#233;u de um lado.</span></p><p><span>as &#225;rvores do outro.</span></p><p></p><p><span>h&#225; quem vire todas as pe&#231;as para cima antes de qualquer coisa.</span></p><p><span>h&#225; quem procure formatos parecidos.</span></p><p><span>h&#225; at&#233; quem escolha uma &#250;nica pe&#231;a e comece por ela, como se confiasse que o resto acabaria se revelando depois.</span></p><p></p><p><span>&#233; curioso.</span></p><p><span>se cada um estivesse sozinho, provavelmente todos chegariam ao mesmo resultado.</span></p><p><span>o quebra-cabe&#231;a ficaria pronto.</span></p><p><span>talvez por caminhos diferentes.</span></p><p><span>talvez demorando mais ou menos tempo.</span></p><p><span>mas ficaria pronto.</span></p><p></p><p><span>o problema nunca foi o m&#233;todo.</span></p><p><span>o problema come&#231;a quando algu&#233;m resolve defender por que o seu &#233; melhor.</span></p><p><span>&#8220;assim &#233; mais r&#225;pido.&#8221;</span></p><p><span>&#8220;voc&#234; est&#225; fazendo errado.&#8221;</span></p><p><span>&#8220;deixa que eu fa&#231;o.&#8221;</span></p><p><span>&#8220;n&#227;o faz sentido come&#231;ar por a&#237;.&#8221;</span></p><p></p><p><span>e, sem perceber, deixam de montar um quebra-cabe&#231;a.</span></p><p><span>passam a montar argumentos.</span></p><p><span>cada pe&#231;a encaixada vira uma prova.</span></p><p><span>cada sugest&#227;o, uma cr&#237;tica.</span></p><p><span>cada diferen&#231;a, uma amea&#231;a.</span></p><p></p><p><span>&#233; curioso como fazemos isso tamb&#233;m fora da mesa.</span></p><p><span>achamos que estamos discutindo sobre dinheiro.</span></p><p><span>sobre filhos.</span></p><p><span>sobre pol&#237;tica.</span></p><p><span>sobre tarefas da casa.</span></p><p><span>sobre a forma certa de amar.</span></p><p><span>mas, muitas vezes, o que realmente est&#225; em jogo &#233; outra coisa.</span></p><p></p><p><span>&#233; a necessidade silenciosa de convencer o outro de que o nosso jeito de organizar o mundo &#233; o jeito certo.</span></p><p><span>talvez porque admitir que existem outros caminhos d&#234; uma certa vertigem.</span></p><p><span>se o outro consegue chegar ao mesmo lugar pensando de uma forma completamente diferente da minha...</span></p><p><span>o que isso diz sobre as certezas que passei tanto tempo defendendo?</span></p><p></p><p><span>ent&#227;o falamos.</span></p><p><span>explicamos.</span></p><p><span>corrigimos.</span></p><p><span>aconselhamos.</span></p><p><span>traduzimos o outro para uma linguagem que fa&#231;a sentido para n&#243;s.</span></p><p><span>e chamamos isso de escuta.</span></p><p></p><p><span>mas escutar talvez seja justamente o contr&#225;rio.</span></p><p><span>escutar &#233; resistir &#224; tenta&#231;&#227;o de completar a frase do outro.</span></p><p><span>&#233; suportar alguns segundos sem preparar uma resposta.</span></p><p><span>&#233; permanecer curioso mesmo quando temos certeza de que discordamos.</span></p><p><span>porque entender como algu&#233;m pensa d&#225; trabalho.</span></p><p><span>exige abandonar, ainda que por alguns instantes, o conforto de acreditar que existe apenas uma forma correta de encaixar as pe&#231;as.</span></p><p><span>e isso cansa.</span></p><p></p><p><span>&#233; muito mais f&#225;cil ensinar do que perguntar.</span></p><p><span>&#233; muito mais confort&#225;vel responder do que descobrir.</span></p><p></p><p><span>talvez por isso tantos di&#225;logos terminem antes mesmo de come&#231;ar.</span></p><p><span>n&#227;o porque faltaram palavras.</span></p><p><span>mas porque sobrou pressa.</span></p><p><span>pressa para convencer.</span></p><p><span>pressa para corrigir.</span></p><p><span>pressa para chegar ao final da imagem sem antes olhar para as pe&#231;as que o outro tem nas m&#227;os.</span></p><p></p><p><span>no fim da tarde, o quebra-cabe&#231;a finalmente ficou pronto.</span></p><p><span>ningu&#233;m mais lembrava quem havia encontrado a primeira pe&#231;a.</span></p><p><span>ou quem insistiu para come&#231;ar pelos cantos.</span></p><p><span>ou quem dizia que separar por cor era perda de tempo.</span></p><p><span>a imagem estava inteira.</span></p><p></p><p><span>e talvez essa seja a parte mais bonita dos quebra-cabe&#231;as.</span></p><p><span>quando eles terminam, j&#225; n&#227;o importa qual pe&#231;a veio primeiro.</span></p><p><span>o desenho s&#243; existe porque pe&#231;as completamente diferentes se uniram no mesmo espa&#231;o sem precisar ter o mesmo formato.</span></p><p><span>talvez as rela&#231;&#245;es se pare&#231;am mais com isso do que gostar&#237;amos de admitir.</span></p><p><span>n&#227;o sobrevivem porque pensamos igual.</span></p><p><span>sobrevivem quando deixamos de tentar transformar a pe&#231;a do outro em uma c&#243;pia da nossa.</span></p><p><span>e aceitamos que, &#224;s vezes, ela s&#243; foi feita para encaixar de um jeito que nunca nos ocorreria &#8211; e honestamente, n&#227;o &#233; isso que faz tudo ser mais caoticamente divertido?</span></p><p></p><p></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ocnathalie.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ocnathalie.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[roupas que não servem mais]]></title><description><![CDATA[e outros lugares e vers&#245;es que ela continuou tentando vestir]]></description><link>https://ocnathalie.substack.com/p/roupas-que-nao-servem-mais</link><guid isPermaLink="false">https://ocnathalie.substack.com/p/roupas-que-nao-servem-mais</guid><dc:creator><![CDATA[nas entre(linhas)]]></dc:creator><pubDate>Wed, 01 Jul 2026 15:06:59 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/62ffdeab-831d-481e-9964-cd1b36bdf96f_1672x941.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>j&#225; tinha se tornado um ritual.</span></p><p></p><p><span>com express&#227;o insatisfeita, ela observava o caimento das suas roupas.</span></p><p><span>algumas justas demais.</span></p><p><span>outras largas demais.</span></p><p></p><p><span>nada parecia lhe caber.</span></p><p><span>nada parecia lhe servir.</span></p><p></p><p><span>havia algum tempo que as coisas estavam assim.</span></p><p><span>ela tinha notado as mudan&#231;as no corpo.</span></p><p><span>no equil&#237;brio.</span></p><p><span>na for&#231;a.</span></p><p></p><p><span>mas, na maior parte do tempo, escolhia ignorar.</span></p><p><span>fingia que ainda podia fazer tudo do mesmo jeito.</span></p><p><span>que bastava apertar um pouco aqui.</span></p><p><span>puxar um pouco ali.</span></p><p><span>segurar a pe&#231;a no lugar.</span></p><p></p><p><span>ela fechava os olhos para as marcas que as roupas deixavam ao final do dia.</span></p><p><span>para o desconforto.</span></p><p><span>para o esfor&#231;o necess&#225;rio para sustentar algo que claramente j&#225; n&#227;o havia sido feito para ela.</span></p><p><span>ou talvez ela j&#225; n&#227;o tivesse sido feita para aquilo.</span></p><p><span>porque existia uma parte dela que acreditava que mudar o guarda-roupa seria admitir uma verdade maior.</span></p><p></p><p><span>ela j&#225; n&#227;o era a mesma.</span></p><p><span>e isso a assustava.</span></p><p></p><p><span>porque se as roupas n&#227;o serviam mais, talvez alguns lugares tamb&#233;m n&#227;o servissem.</span></p><p><span>talvez algumas conversas.</span></p><p><span>alguns sonhos.</span></p><p><span>algumas formas de amar.</span></p><p><span>talvez a vers&#227;o dela que aprendeu a agradar.</span></p><p><span>a vers&#227;o que nunca dizia n&#227;o.</span></p><p><span>a vers&#227;o que fazia caber o desejo dos outros, mesmo quando j&#225; n&#227;o sobrava espa&#231;o para o pr&#243;prio.</span></p><p></p><p><span>e se as pessoas que gostavam daquela vers&#227;o percebessem que ela tinha mudado?</span></p><p><span>e se descobrissem que ela j&#225; n&#227;o servia da mesma forma?</span></p><p><span>e se aquilo que um dia foi &#250;til tivesse perdido a utilidade?</span></p><p></p><p><span>ela passou muito tempo confundindo servir com pertencer.</span></p><p><span>como se precisasse ser &#250;til para merecer continuar ocupando um lugar.</span></p><p><span>como se amor fosse uma esp&#233;cie de aluguel pago em gentilezas.</span></p><p><span>como se, ao deixar de servir, ela deixasse de ser querida.</span></p><p><span>ent&#227;o insistia.</span></p><p><span>insistia nas roupas.</span></p><p><span>nos espa&#231;os.</span></p><p><span>nas rela&#231;&#245;es.</span></p><p><span>nas vers&#245;es.</span></p><p><span>insistia porque acreditava que era mais seguro apertar a respira&#231;&#227;o do que correr o risco de n&#227;o caber em lugar nenhum.</span></p><p></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ocnathalie.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ocnathalie.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p></p><p><span>at&#233; que um dia aconteceu algo curioso.</span></p><p></p><p><span>n&#227;o foi uma grande crise.</span></p><p><span>n&#227;o foi uma revela&#231;&#227;o.</span></p><p><span>foi um bot&#227;o.</span></p><p><span>um simples bot&#227;o que se recusava a fechar.</span></p><p></p><p><span>e, pela primeira vez, ela n&#227;o culpou o corpo.</span></p><p><span>n&#227;o prometeu emagrecer.</span></p><p><span>n&#227;o decidiu que voltaria a ser quem era.</span></p><p><span>ela apenas ficou olhando.</span></p><p></p><p><span>e se perguntou uma coisa que nunca havia perguntado antes.</span></p><p><span>e se o problema n&#227;o fosse ela?</span></p><p><span>e se algumas coisas apenas tivessem cumprido sua fun&#231;&#227;o?</span></p><p></p><p><span>porque existem roupas que servem por uma fase.</span></p><p><span>lugares que servem por um tempo.</span></p><p><span>e at&#233; vers&#245;es nossas que foram necess&#225;rias.</span></p><p><span>n&#227;o porque eram falsas.</span></p><p><span>mas porque eram as &#250;nicas poss&#237;veis naquele momento.</span></p><p><span>a menina que agradava serviu para sobreviver.</span></p><p><span>a mulher que dizia sim para tudo serviu para manter alguns v&#237;nculos.</span></p><p><span>a vers&#227;o que suportava mais do que devia serviu para atravessar dias dif&#237;ceis.</span></p><p><span>mas talvez a fun&#231;&#227;o delas n&#227;o fosse durar para sempre.</span></p><p></p><p><span>&#233; poss&#237;vel considerar que algo foi importante sem precisar continuar vestindo.</span></p><p><span>porque nem tudo o que deixa de servir deixa de ter valor.</span></p><p><span>algumas coisas apenas terminam.</span></p><p></p><p><span>como termina uma esta&#231;&#227;o.</span></p><p><span>como termina uma roupa querida.</span></p><p><span>como terminam certas formas de existir.</span></p><p></p><p><span>e h&#225; uma tristeza bonita nisso.</span></p><p><span>porque despedidas tamb&#233;m s&#227;o uma forma de honrar.</span></p><p></p><p><span>na semana seguinte, ela comprou algumas pe&#231;as novas.</span></p><p><span>nada muito diferente.</span></p><p><span>mas suficiente para que pudesse respirar.</span></p><p><span>e foi curioso perceber que, aos poucos, outras coisas tamb&#233;m come&#231;aram a mudar.</span></p><p><span>alguns lugares ficaram apertados.</span></p><p><span>algumas conversas largas demais.</span></p><p><span>alguns pap&#233;is pesados demais para continuar carregando.</span></p><p><span>e pela primeira vez em muito tempo, ela parou de se perguntar se ainda servia para os outros.</span></p><p><span>come&#231;ou a se perguntar se aquilo ainda servia para ela.</span></p><p><span>e talvez sua verdadeira transforma&#231;&#227;o tenha sido trocar essa pergunta.</span></p><p><span>porque h&#225; uma diferen&#231;a enorme entre caber em uma vida e viver apertada dentro dela.</span></p><p></p><p><span>e porque, &#224;s vezes, aquilo que deixa de servir n&#227;o &#233; voc&#234;.</span></p><p><span>&#233; a roupa.</span></p><p><span>&#233; o lugar.</span></p><p><span>&#233; a vers&#227;o.</span></p><p><span>e n&#227;o h&#225; problema em agradecer pelo que foi e seguir em frente com um novo tamanho.</span></p><p><span>afinal, as mudan&#231;as n&#227;o s&#227;o apenas perdas.</span></p><p><span>s&#227;o apenas o corpo da vida dizendo que chegou a hora de respirar de outro jeito.</span></p><p></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ocnathalie.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ocnathalie.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[ela confundia amor com utilidade ]]></title><description><![CDATA[uma hist&#243;ria sobre culpa, voz e a dif&#237;cil tarefa de deixar de ser tudo para todos]]></description><link>https://ocnathalie.substack.com/p/ela-confundia-amor-com-utilidade</link><guid isPermaLink="false">https://ocnathalie.substack.com/p/ela-confundia-amor-com-utilidade</guid><dc:creator><![CDATA[nas entre(linhas)]]></dc:creator><pubDate>Wed, 24 Jun 2026 15:05:16 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/80fd4487-c86a-44cf-8ef9-59cbf28f5ece_1672x941.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>a casa sempre fora barulhenta.</span></p><p><span>n&#227;o pelo tipo de barulho que se escuta da rua.</span></p><p><span>era um barulho diferente.</span></p><p><span>vinha das conversas interrompidas.<br>das portas fechadas com for&#231;a.<br>dos suspiros longos.<br>das reclama&#231;&#245;es repetidas no jantar.</span></p><p><span>ningu&#233;m falava com ela.</span></p><p><span>mas ela escutava.</span></p><p><span>e crian&#231;a tem esse h&#225;bito curioso de acreditar que tudo aquilo que se repete muitas vezes &#233; uma esp&#233;cie de ensinamento.</span></p><p><span>ent&#227;o ela aprendeu.</span></p><p><span>aprendeu que havia sempre alguma coisa faltando.<br>alguma coisa errada.<br>alguma coisa que precisava ser resolvida.</span></p><p><span>e, sem que ningu&#233;m pedisse oficialmente, ela se candidatou para o cargo.</span></p><p><span>virou colecionadora de demandas.</span></p><p><span>guardava as pequenas e as grandes.</span></p><p><span>as ditas em voz alta.<br>as ditas pela metade.<br>as que apareciam escondidas dentro de um &#8220;est&#225; tudo bem&#8221;.</span></p><p><span>ela recolhia tudo.</span></p><p><span>e gostava disso.</span></p><p><span>gostava da sensa&#231;&#227;o de ser necess&#225;ria.</span></p><p><span>de ter utilidade.</span></p><p><span>de poder oferecer os bra&#231;os quando algu&#233;m parecia cansado demais para carregar a pr&#243;pria vida.</span></p><p><span>durante muito tempo acreditou que aquela era sua voca&#231;&#227;o.</span></p><p><span>at&#233; o dia em que algu&#233;m fez uma pergunta estranha.</span></p><p><span>uma pergunta t&#227;o estranha que ela n&#227;o soube responder.</span></p><p><span>&#8220;e voc&#234;?&#8221;</span></p><p><span>foi s&#243; isso.</span></p><p><span>e voc&#234;?</span></p><p><span>o que voc&#234; quer?<br>o que voc&#234; pensa?<br>do que voc&#234; reclama?</span></p><p><span>ela procurou a resposta como quem procura um objeto perdido numa casa escura.</span></p><p><span>abriu gavetas.</span></p><p><span>olhou embaixo dos m&#243;veis.</span></p><p><span>voltou aos lugares de sempre.</span></p><p><span>n&#227;o encontrou nada.</span></p><p><span>ou melhor.</span></p><p><span>n&#227;o encontrou uma voz.</span></p><p><span>encontrou sil&#234;ncio.</span></p><p><span>e pela primeira vez desconfiou que talvez tivesse passado anos escutando o mundo inteiro enquanto aprendia a n&#227;o escutar a si mesma.</span></p><p><span>o problema &#233; que ter uma voz nunca foi apenas sobre falar.</span></p><p><span>era sobre as consequ&#234;ncias.</span></p><p><span>porque uma voz ocupa espa&#231;o.</span></p><p><span>uma voz discorda.<br>uma voz escolhe.<br>uma voz deixa algumas expectativas sem resposta.</span></p><p><span>e ela j&#225; tinha visto o que acontecia com quem fazia isso.</span></p><p><span>j&#225; tinha visto as reclama&#231;&#245;es.</span></p><p><span>as opini&#245;es n&#227;o solicitadas.</span></p><p><span>os olhares de desaprova&#231;&#227;o.</span></p><p><span>os pedidos para que voltassem a caber no lugar de antes.</span></p><p><span>por isso passou tanto tempo em sil&#234;ncio.</span></p><p><span>n&#227;o porque n&#227;o tivesse o que dizer.</span></p><p><span>mas porque acreditava que sua fun&#231;&#227;o era outra.</span></p><p><span>ela estava ali para escutar.<br>para acolher.<br>para resolver.</span></p><p><span>n&#227;o para existir no meio da conversa.</span></p><p><span>mas a pergunta continuava voltando.</span></p><p><span>&#8220;e voc&#234;?&#8221;</span></p><p><span>e, pela primeira vez, ela decidiu n&#227;o fugir.</span></p><p><span>come&#231;ou pequeno.</span></p><p><span>uma opini&#227;o aqui.<br>um limite ali.</span></p><p><span>um &#8220;n&#227;o posso&#8221; atravessado na garganta.</span></p><p><span>um &#8220;n&#227;o quero&#8221; dito quase em sussurro.</span></p><p><span>e cada palavra parecia grande demais para quem passara a vida inteira tentando ocupar o menor espa&#231;o poss&#237;vel.</span></p><p><span>ela continuava escutando as pessoas.</span></p><p><span>continuava se importando.</span></p><p><span>continuava oferecendo colo quando podia.</span></p><p><span>mas agora nem sempre podia.</span></p><p><span>e essa descoberta doeu.</span></p><p><span>doeu perceber que algumas pessoas gostavam mais da sua disponibilidade do que da sua presen&#231;a.</span></p><p><span>doeu assistir certas rela&#231;&#245;es se irritarem diante de uma porta que antes estava sempre aberta.</span></p><p><span>durante algum tempo achou que estava se tornando algu&#233;m pior.</span></p><p><span>menos generosa.</span></p><p><span>menos boa.</span></p><p><span>menos am&#225;vel.</span></p><p><span>at&#233; perceber que estava confundindo amor com utilidade.</span></p><p><span>e que existir para os outros n&#227;o era a mesma coisa que existir com os outros.</span></p><p><span>ent&#227;o a balan&#231;a come&#231;ou a mudar.</span></p><p><span>devagar.</span></p><p><span>como mudam as coisas que passam anos inclinadas para um mesmo lado.</span></p><p><span>algumas rela&#231;&#245;es ficaram pelo caminho.</span></p><p><span>outras ganharam uma profundidade que ela nem sabia ser poss&#237;vel.</span></p><p><span>porque, pela primeira vez, n&#227;o encontravam apenas seus bra&#231;os estendidos.</span></p><p><span>encontravam ela.</span></p><p><span>seus desejos.<br>suas opini&#245;es.<br>suas limita&#231;&#245;es.<br>sua voz.</span></p><p><span>a casa continuava barulhenta.</span></p><p><span>talvez sempre fosse.</span></p><p><span>o mundo tamb&#233;m.</span></p><p><span>sempre haveria demandas.<br>sempre haveria reclama&#231;&#245;es.<br>sempre haveria algu&#233;m esperando que ela resolvesse aquilo que n&#227;o lhe cabia resolver.</span></p><p><span>mas agora existia um outro som.</span></p><p><span>baixo no come&#231;o.</span></p><p><span>quase t&#237;mido.</span></p><p><span>a pr&#243;pria voz.</span></p><p><span>e, pela primeira vez, ela descobriu que n&#227;o precisava silenciar o barulho do mundo para encontrar paz.</span></p><p><span>precisava apenas parar de silenciar a si mesma.</span></p><p></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ocnathalie.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ocnathalie.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><h3></h3>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[a vida do lado de fora]]></title><description><![CDATA[sobre as pris&#245;es confort&#225;veis e as coisas que voltam a florescer]]></description><link>https://ocnathalie.substack.com/p/a-vida-do-lado-de-fora</link><guid isPermaLink="false">https://ocnathalie.substack.com/p/a-vida-do-lado-de-fora</guid><dc:creator><![CDATA[nas entre(linhas)]]></dc:creator><pubDate>Wed, 17 Jun 2026 15:05:57 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/2ae2133d-3feb-4ff1-9d1a-03fa5efaaf76_1032x581.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;o meu desafio n&#227;o &#233; contra a depress&#227;o.</p><p>&#233; contra a minha cama.&#8221;</p><p></p><p>ela repetia isso tantas vezes que a frase j&#225; parecia ensaiada.</p><p>como quem encontrou uma forma simples de explicar algo muito mais complicado.</p><p></p><p>aquela cama era cen&#225;rio dos nossos encontros.</p><p>sempre ali.</p><p>ao fundo das chamadas de v&#237;deo.</p><p>ao fundo das hist&#243;rias.</p><p>ao fundo dos dias.</p><p></p><p>&#224;s vezes eu tinha a impress&#227;o de que ela passava mais tempo olhando para as paredes ao redor daquele cama do que para o mundo.</p><p>e n&#227;o era qualquer cama.</p><p>era uma cama cuidadosamente constru&#237;da.</p><p>uma obra em andamento.</p><p>parte consider&#225;vel do sal&#225;rio desaparecia entre len&#231;&#243;is macios, mantas felpudas, travesseiros novos, cobertores mais quentes, almofadas extras.</p><p>cada camada prometia mais conforto.</p><p>mais aconchego.</p><p>mais prote&#231;&#227;o.</p><p>como se ela estivesse construindo um lugar perfeito para descansar.</p><p>ou talvez um lugar perfeito para n&#227;o precisar ir embora.</p><p>porque existem pris&#245;es que n&#227;o s&#227;o feitas de grades.</p><p>algumas s&#227;o feitas de conforto.</p><p>e s&#227;o muito mais dif&#237;ceis de abandonar.</p><p>ningu&#233;m foge de um lugar que oferece exatamente aquilo que est&#225; procurando.</p><p>seguran&#231;a.</p><p>sil&#234;ncio.</p><p>prote&#231;&#227;o.</p><p></p><p>a cama n&#227;o exigia nada.</p><p>n&#227;o fazia perguntas.</p><p>n&#227;o pedia esfor&#231;o.</p><p>n&#227;o apresentava riscos.</p><p></p><p>o mundo, por outro lado, exigia tudo isso.</p><p>ent&#227;o a conta parecia simples.</p><p>ficar compensava.</p><p>sair n&#227;o.</p><p>durante muito tempo aquilo funcionou.</p><p>at&#233; que deixou de funcionar.</p><p>porque toda pris&#227;o tem um pre&#231;o.</p><p>mesmo as confort&#225;veis.</p><p>principalmente as confort&#225;veis.</p><p></p><p>e um dia ela percebeu que j&#225; n&#227;o estava ficando porque queria.</p><p>estava ficando porque n&#227;o conseguia sair.</p><p></p><p>a cama que antes oferecia abrigo agora delimitava fronteiras.</p><p>o mundo parecia distante.</p><p>assustador.</p><p>barulhento.</p><p>e quanto mais tempo passava ali, mais imposs&#237;vel parecia atravessar a dist&#226;ncia entre o colch&#227;o e a porta.</p><p></p><p>foi nessa &#233;poca que alguma coisa mudou.</p><p>n&#227;o nela.</p><p>na c&#226;mera.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ocnathalie.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ocnathalie.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p></p><p>por acaso, ou talvez n&#227;o.</p><p>o enquadramento mudou alguns cent&#237;metros.</p><p>a cama continuava l&#225;.</p><p>mas agora existia outra coisa na imagem.</p><p>um jardim.</p><p>pequeno.</p><p>esquecido.</p><p>abandonado.</p><p></p><p>durante semanas ele apareceu ao fundo das nossas conversas.</p><p>silencioso.</p><p>esperando.</p><p>e havia algo de familiar naquela cena.</p><p>porque o jardim parecia carregar a mesma tristeza que ela.</p><p>os mesmos sinais de abandono.</p><p>a mesma falta de investimento.</p><p>o mesmo potencial adormecido.</p><p></p><p>enquanto ela passava horas olhando para dentro, existia um peda&#231;o de mundo esperando do lado de fora.</p><p>n&#227;o pedindo garantias.</p><p>n&#227;o prometendo resultados.</p><p>apenas esperando.</p><p>acho que foi a&#237; que a luta mudou de forma.</p><p></p><p>o desafio j&#225; n&#227;o era simplesmente sair da cama.</p><p>sair da cama era um objetivo pequeno demais.</p><p>o desafio passou a ser cuidar do jardim.</p><p></p><p>e isso muda tudo.</p><p>porque ningu&#233;m levanta da cama para cumprir uma tarefa.</p><p>mas &#224;s vezes levanta para cuidar de algo que importa.</p><p></p><p>ela come&#231;ou devagar.</p><p>um dia arrancou uma erva daninha.</p><p>no outro regou uma planta.</p><p>depois passou alguns minutos observando uma folha nova surgir onde antes havia apenas terra.</p><p>n&#227;o era uma transforma&#231;&#227;o bonita.</p><p>n&#227;o era r&#225;pida.</p><p>n&#227;o era inspiradora o tempo inteiro.</p><p>era cansativa.</p><p>incerta.</p><p>cheia de dias em que nada parecia acontecer.</p><p>afinal, jardins n&#227;o oferecem garantias.</p><p>sementes n&#227;o assinam contratos.</p><p>flores n&#227;o prometem aparecer.</p><p>voc&#234; cuida sem saber.</p><p>investe sem saber.</p><p>espera sem saber.</p><p>mas ainda assim cuida.</p><p></p><p>e talvez seja justamente isso que torna um jardim t&#227;o diferente de uma cama.</p><p>a cama oferece conforto imediato.</p><p>o jardim oferece possibilidade.</p><p>e possibilidade exige tolerar alguma dose de desconforto.</p><p>alguma dose de d&#250;vida.</p><p>alguma dose de esperan&#231;a.</p><p></p><p>a depress&#227;o n&#227;o desapareceu.</p><p>ela continuava ali.</p><p>alguns dias mais silenciosa.</p><p>outros mais ruidosa.</p><p>mas algo havia mudado.</p><p></p><p>agora existia tamb&#233;m um jardim.</p><p>e isso significava que parte da sua energia j&#225; n&#227;o estava investida apenas em sobreviver.</p><p>parte dela estava investida em cultivar.</p><p></p><p>o plano de fundo mudou.</p><p>a imagem mudou.</p><p>a hist&#243;ria mudou.</p><p>ela trocou uma pris&#227;o confort&#225;vel por uma aposta incerta.</p><p>e talvez essa seja uma das formas mais corajosas de existir.</p><p>porque ningu&#233;m sabe se uma semente vai florescer.</p><p>mas ainda assim algumas pessoas escolhem plant&#225;-la.</p><p>e, &#224;s vezes, isso j&#225; &#233; vida suficiente para come&#231;ar de novo.</p><p></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ocnathalie.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ocnathalie.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[o que colocamos na mala antes de amar]]></title><description><![CDATA[uma hist&#243;ria sobre amor, heran&#231;as e tudo aquilo que veio junto]]></description><link>https://ocnathalie.substack.com/p/o-que-colocamos-na-mala-antes-de</link><guid isPermaLink="false">https://ocnathalie.substack.com/p/o-que-colocamos-na-mala-antes-de</guid><dc:creator><![CDATA[nas entre(linhas)]]></dc:creator><pubDate>Wed, 10 Jun 2026 15:03:25 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/43fe7b4d-e768-4d93-9f71-15bc0bed8c95_1191x669.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>fui convidada para viajar.</p><p>era minha primeira vez indo sozinha.</p><p>ou melhor, minha primeira vez indo sem a minha aldeia.</p><p></p><p>sem os almo&#231;os de domingo.</p><p>sem os telefonemas da minha m&#227;e.</p><p>sem os conselhos do meu pai.</p><p>sem os bolos da minha av&#243;.</p><p>sem a sensa&#231;&#227;o reconfortante de saber exatamente para onde voltar.</p><p></p><p>&#233;ramos apenas eu e voc&#234;.</p><p>ou pelo menos foi isso que pensei.</p><p>eu n&#227;o sabia para onde ir&#237;amos.</p><p>o destino era surpresa.</p><p>e talvez por isso tenha come&#231;ado a organizar a mala dias antes.</p><p>queria estar pronta.</p><p>ainda que n&#227;o soubesse para qu&#234;.</p><p>enquanto dobrava roupas e separava documentos, encontrei coisas que n&#227;o me lembrava de ter guardado.</p><p></p><p>coloquei na mala os abra&#231;os gentis do meu av&#244;.</p><p>os caf&#233;s demorados da minha av&#243;.</p><p>os conselhos do meu pai.</p><p>as palavras carinhosas da minha m&#227;e.</p><p>achei prudente levar tudo.</p><p>nunca se sabe do que vamos precisar numa viagem.</p><p></p><p>o que eu n&#227;o percebi foi que algumas coisas entraram sem pedir licen&#231;a.</p><p></p><p>o sil&#234;ncio do meu pai quando alguma coisa o incomodava.</p><p>a express&#227;o fechada da minha m&#227;e quando algo n&#227;o sa&#237;a como ela esperava.</p><p>as palavras duras do meu av&#244; nos dias dif&#237;ceis.</p><p>a dist&#226;ncia da minha av&#243; quando a tristeza a visitava.</p><p></p><p>levei tudo.</p><p>o que amei.</p><p>e o que me feriu.</p><p>o que recebi.</p><p>e o que faltou.</p><p></p><p>era minha primeira viagem sem eles.</p><p>e eu ainda n&#227;o sabia em que momento usaria cada uma dessas coisas.</p><p></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!it1M!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F532a762b-fc32-4081-a60a-a380f481fc89_1191x1321.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!it1M!, /__u/ocnathalie.substack.com/w_424, /__u/ocnathalie.substack.com/c_limit, /__u/ocnathalie.substack.com/f_webp, /__u/ocnathalie.substack.com/q_auto:good, /__u/ocnathalie.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F532a762b-fc32-4081-a60a-a380f481fc89_1191x1321.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!it1M!, /__u/ocnathalie.substack.com/w_848, /__u/ocnathalie.substack.com/c_limit, /__u/ocnathalie.substack.com/f_webp, /__u/ocnathalie.substack.com/q_auto:good, /__u/ocnathalie.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F532a762b-fc32-4081-a60a-a380f481fc89_1191x1321.png 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!it1M!, /__u/ocnathalie.substack.com/w_1272, /__u/ocnathalie.substack.com/c_limit, /__u/ocnathalie.substack.com/f_webp, 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gestos que voc&#234; repetia sem perceber.</p><p>sil&#234;ncios que n&#227;o pertenciam exatamente a voc&#234;.</p><p>medos que pareciam antigos demais para terem come&#231;ado na nossa hist&#243;ria.</p><p>e foi ent&#227;o que entendi.</p><p></p><p>n&#227;o &#233;ramos dois viajantes.</p><p>&#233;ramos uma pequena multid&#227;o.</p><p>sentavam-se &#224; mesa conosco pessoas que nunca chegaram a nos conhecer.</p><p>viajavam ao nosso lado hist&#243;rias que n&#227;o t&#237;nhamos vivido.</p><p>&#224;s vezes discut&#237;amos e eu respondia usando palavras que nem pareciam minhas.</p><p>outras vezes voc&#234; se afastava por motivos que eu n&#227;o compreendia.</p><p>e n&#243;s dois fic&#225;vamos tentando resolver o presente enquanto convers&#225;vamos com fantasmas do passado.</p><p></p><p>durante algum tempo achei que amar fosse encontrar algu&#233;m que n&#227;o carregasse bagagem.</p><p></p><p>algu&#233;m leve.</p><p>algu&#233;m pronto.</p><p>algu&#233;m que soubesse exatamente o caminho.</p><p></p><p>mas ningu&#233;m chega assim.</p><p>ningu&#233;m embarca vazio.</p><p></p><p>amar, descobri depois, n&#227;o &#233; encontrar algu&#233;m sem malas.</p><p>&#233; abrir cada uma delas aos poucos.</p><p>&#233; mostrar o que veio junto.</p><p>o que gostar&#237;amos de guardar.</p><p>e o que j&#225; est&#225; na hora de deixar para tr&#225;s.</p><p></p><p>porque <em>&#8220;amar &#233; algo que aprendemos sendo amados&#8221;</em>.</p><p>mas tamb&#233;m &#233; algo que desaprendemos e reaprendemos muitas vezes.</p><p></p><p>h&#225; formas de amor que nos ensinaram prote&#231;&#227;o.</p><p>h&#225; formas de amor que nos ensinaram medo.</p><p>h&#225; formas de amor que nos ensinaram presen&#231;a.</p><p>e h&#225; formas de amor que nos ensinaram a desaparecer.</p><p>crescer talvez seja descobrir a diferen&#231;a.</p><p>e escolher, pela primeira vez, o que continua viajando conosco.</p><p></p><p>o destino daquela viagem j&#225; n&#227;o me lembro.</p><p>mas lembro da mala.</p><p>e lembro do espanto ao descobrir que ela estava muito mais cheia do que eu imaginava.</p><p>talvez ainda esteja.</p><p>a diferen&#231;a &#233; que agora, quando encontro algo l&#225; dentro, j&#225; n&#227;o pergunto apenas quem colocou aquilo ali.</p><p>tamb&#233;m me pergunto se ainda faz sentido continuar carregando.</p><p></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ocnathalie.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ocnathalie.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[o que a gente não doa]]></title><description><![CDATA[crescer e a arte de se despedir.]]></description><link>https://ocnathalie.substack.com/p/o-que-a-gente-nao-doa-edd</link><guid isPermaLink="false">https://ocnathalie.substack.com/p/o-que-a-gente-nao-doa-edd</guid><dc:creator><![CDATA[nas entre(linhas)]]></dc:creator><pubDate>Wed, 03 Jun 2026 18:06:16 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!8eoJ!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9ab976b1-861a-44ae-98c7-4a6403743d17_1200x1335.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>escutei de uma adolescente, no meio de uma mudan&#231;a:<br>&#8220;vou precisar desapegar dos meus brinquedos e doar.&#8221;</p><p>fiquei eu e meus bot&#245;es.</p><p>e se ela soubesse<br>que eu, adulta, ainda tenho alguns aguardando serem doados?</p><p>tem restos da nossa inf&#226;ncia que a gente n&#227;o quer abrir m&#227;o.<br>e n&#227;o &#233; sempre sobre o objeto.</p><p>&#224;s vezes &#233; sobre o que ele sustentava.</p><p>um enredo.<br>uma vers&#227;o de mundo.<br>uma forma de existir que ainda n&#227;o tinha sido atravessada por tantas regras.</p><p>tem coisas que a gente guarda sem perceber que est&#225; guardando.<br>ficam ali, encostadas &#8212; numa caixa, numa gaveta, numa parte meio esquecida da casa&#8230;<br>ou da gente.</p><p>e n&#227;o &#233; descuido.<br>&#233; quase um acordo silencioso.</p><p>&#8220;ainda n&#227;o.&#8221;</p><p>a adolescente fala de doar os brinquedos como quem entende que existe um momento certo de deixar para tr&#225;s.</p><p>ela j&#225; entendeu alguma coisa.<br>mesmo que ainda n&#227;o consiga nomear.</p><p>crescer vai exigindo cortes.</p><p>vai pedindo espa&#231;o.</p><p>vai dizendo, de formas sutis e nem t&#227;o sutis assim, que certas coisas &#8220;j&#225; n&#227;o combinam mais&#8221;.</p><p>e &#233; curioso como essa frase aparece:<br>n&#227;o combina mais.</p><p>como se a vida adulta fosse uma esp&#233;cie de vitrine<br>onde tudo precisa fazer sentido est&#233;tico, l&#243;gico, coerente.</p><p>como se a gente tivesse que caber.</p><p>&#233; que a adolesc&#234;ncia come&#231;a a esbarrar no que a vida adulta confirma:<br>existe um mundo cheio de n&#227;o ditos.</p><p>regras que ningu&#233;m explicou,<br>mas todo mundo parece seguir.</p><p>um conjunto de &#8220;tem que&#8221;<br>que n&#227;o vieram com manual,<br>mas vieram com culpa.</p><p>um superego que se constr&#243;i aos poucos,<br>misturando vozes &#8212; dos pais, da escola, da sociedade...<br>at&#233; que, em algum momento, parece s&#243; a nossa pr&#243;pria voz.</p><p>&#8220;j&#225; passou da idade.&#8221;<br>&#8220;isso n&#227;o &#233; coisa de adulto.&#8221;<br>&#8220;seja s&#233;rio.&#8221;<br>&#8220;seja pr&#225;tico.&#8221;<br>&#8220;seja produtivo.&#8221;</p><p>e, no meio disso tudo,<br>o espa&#231;o de criar vai ficando apertado.</p><p>porque criar exige um tipo de liberdade<br>que nem sempre &#233; bem-vinda no mundo adulto.</p><p>criar &#233; perder tempo.<br>&#233; testar sem garantia.<br>&#233; fazer algo que n&#227;o precisa, necessariamente, servir para nada.</p><p>e isso incomoda.</p><p>ent&#227;o a gente aprende, aos poucos,<br>a organizar a vida de um jeito mais&#8230; funcional.</p><p>mais aceito.<br>mais validado.</p><p>e vai deixando de lado aquilo que n&#227;o cabe nesse formato.</p><p>mas n&#227;o doar os brinquedos&#8230;<br>n&#227;o era, exatamente, sobre resist&#234;ncia.</p><p>era uma forma de conservar a inven&#231;&#227;o.</p><p>as hist&#243;rias que n&#227;o tinham come&#231;o, meio e fim definidos.<br>as bonecas que viravam qualquer coisa &#8212; menos o que j&#225; estava dado.<br>os blocos que se recusavam a ser s&#243; blocos<br>e viravam casas, cidades, florestas, universos inteiros.</p><p>era uma forma de manter viva<br>essa capacidade de transformar o que existe<br>em algo que ainda n&#227;o existe.</p><p>talvez por isso seja t&#227;o dif&#237;cil se desfazer.</p><p>porque, junto com o objeto,<br>parece que a gente est&#225; abrindo m&#227;o de uma parte nossa<br>que n&#227;o sabe muito bem se sobrevive do lado de fora.</p><p>mas cresce tamb&#233;m uma outra compreens&#227;o, com o tempo.</p><p>a de que guardar n&#227;o garante perman&#234;ncia.</p><p>e doar n&#227;o significa, necessariamente, perder.</p><p>nem tudo cabe no caminh&#227;o da mudan&#231;a.</p><p>nem tudo atravessa fases, casas, vers&#245;es.</p><p>algumas coisas precisam ir<br>pra que outras possam existir.</p><p>e n&#227;o tem muita poesia nisso, no momento em que acontece.</p><p>tem caixa aberta,<br>tem d&#250;vida,<br>tem um certo peso na escolha.</p><p>&#8220;isso fica?&#8221;<br>&#8220;isso vai?&#8221;</p><p>como se, no fundo, a pergunta fosse outra:<br>&#8220;essa parte de mim ainda precisa existir assim?&#8221;</p><p>os brinquedos v&#227;o ser doados.</p><p>alguns, talvez, fiquem.</p><p>n&#227;o porque s&#227;o mais importantes,<br>mas porque ainda sustentam alguma hist&#243;ria que n&#227;o terminou.</p><p>e tudo bem.</p><p>nem toda despedida precisa ser radical.</p><p>o que talvez mude<br>&#233; a forma de brincar.</p><p>porque a crian&#231;a n&#227;o desaparece.</p><p>ela se reorganiza.</p><p>procura outros espa&#231;os.<br>outras linguagens.<br>outros jeitos de existir dentro de uma vida que, agora, cobra outras coisas.</p><p>&#224;s vezes ela aparece na forma como voc&#234; escreve.<br>ou na forma como imagina cen&#225;rios.<br>ou na maneira como insiste em ver possibilidades<br>onde disseram que n&#227;o tinha.</p><p>a adolescente ainda n&#227;o sabe disso completamente.</p><p>a adulta j&#225; esqueceu algumas vezes.</p><p>mas as duas, cada uma &#224; sua maneira,<br>est&#227;o tentando negociar com o mesmo movimento:</p><p>o de crescer sem se abandonar.</p><p>porque, no fundo,<br>crescer n&#227;o &#233; s&#243; acumular novas vers&#245;es de si.</p><p>&#233; tamb&#233;m aprender a se despedir<br>sem precisar desaparecer junto com aquilo que vai.</p><p><em>&#8220;crescer, no fundo,<br>&#233; uma arte de despedidas.&#8221;</em></p><p>e, talvez, tamb&#233;m,<br>uma arte de reinventar aquilo que parecia que s&#243; existia de um jeito.</p><p></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!8eoJ!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9ab976b1-861a-44ae-98c7-4a6403743d17_1200x1335.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!8eoJ!, /__u/ocnathalie.substack.com/w_424, /__u/ocnathalie.substack.com/c_limit, /__u/ocnathalie.substack.com/f_webp, /__u/ocnathalie.substack.com/q_auto:good, /__u/ocnathalie.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9ab976b1-861a-44ae-98c7-4a6403743d17_1200x1335.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!8eoJ!, /__u/ocnathalie.substack.com/w_848, /__u/ocnathalie.substack.com/c_limit, 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