<script data-pm-proxy="intercept"></script><?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Boletim da Renovação Carismática Sebastianista]]></title><description><![CDATA[Boletim da Renovação Carismática Sebastianista, uma obra em progresso em torno de criação literária, simbolismo tradicional, espectrologia, crítica cultural e terapêutica. ]]></description><link>https://oricardodecarvalho.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!tnaR!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd46e3652-0d66-4180-a9a4-8a17cb145299_1080x1080.jpeg</url><title>Boletim da Renovação Carismática Sebastianista</title><link>https://oricardodecarvalho.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Fri, 04 Sep 2026 06:04:06 GMT</lastBuildDate><atom:link href="/__u/oricardodecarvalho.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Ricardo de Carvalho]]></copyright><language><![CDATA[pt-br]]></language><webMaster><![CDATA[oricardodecarvalho@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[oricardodecarvalho@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Ricardo de Carvalho]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Ricardo de Carvalho]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[oricardodecarvalho@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[oricardodecarvalho@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Ricardo de Carvalho]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[O demonho no espelho de obsidiana]]></title><description><![CDATA[Outro conto terr&#237;vel do volume &#8220;O Aut&#244;mato de Descartes&#8221;, que vem sendo publicado m&#234;s a m&#234;s neste boletim.]]></description><link>https://oricardodecarvalho.substack.com/p/o-demonho-no-espelho-de-obsidiana</link><guid isPermaLink="false">https://oricardodecarvalho.substack.com/p/o-demonho-no-espelho-de-obsidiana</guid><dc:creator><![CDATA[Ricardo de Carvalho]]></dc:creator><pubDate>Tue, 01 Sep 2026 12:33:18 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!OTVk!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2676606c-7f93-418c-9ec1-d9e5f5f4f6ab_649x1040.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Pode ser que tenha ocorrido assim nessa outra vez, de uma rainha vi&#250;va de beleza incompar&#225;vel cujo nome fosse Gertrudes, ter sentido inveja dessa outra mo&#231;a graciosa, por&#233;m esquisita, que vivia em vila pr&#243;xima ao seu pal&#225;cio. E pode haver de ter estourado uma confus&#227;o em torno de um espelho escuro de obsidiana de origem d'al&#233;m do Oceano Atl&#226;ntico, de quando sete an&#245;es filhos de primos tiveram algum papel catalisador num quiproqu&#243; infernal, em que um cavaleiro ca&#231;ador garboso possa ter tido um papel tamb&#233;m importante no desenlace dessa bagun&#231;a. Pode ter sido dessa hist&#243;ria ser situ&#225;vel geograficamente em algum daqueles interreinos no limiar entre Portugal e Castela, na &#233;poca em que os dois pa&#237;ses estavam sob a mesma coroa, de que hoje ningu&#233;m lembra mais. Pode ser.</p><p>E al&#233;m de tudo pode ter havido esse espelho de obsidiana negrazulada que, embora oriundo de um novo continente, veio a chegar ali desde a Inglaterra, n&#227;o se sabendo at&#233; hoje por quais meios, s&#243; se sabendo, ao menos segundo o que o mercador disse aos an&#245;es feirantes que compraram dele na feirinha da vila pr&#243;xima ao pal&#225;cio da tal Rainha, que pertencera ao bruxo de uma outra rainha, essa inglesa. Esse mesmo bruxo, ainda disse ele, pode ter sido respons&#225;vel pela derrota da Invenc&#237;vel Armada dos castelhanos, n&#227;o por causa do mist&#233;rio contido no espelho, por&#233;m por motivo do conhecimento acerca dos movimentos e caprichos dos ventos e das nuvens e dos mares e das luas. Mesmo os sete an&#245;es desacreditando disso, pois mercador &#233; tudo mentiroso, pagaram-lhe o custo alto que fora pedido, uma vez que a hist&#243;ria era boa e incrementava o valor do artefato; o futuro comprador o levaria mais pelo conto que pelo espelho em si, o que n&#227;o estaria errado, muito pelo contr&#225;rio.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://oricardodecarvalho.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Boletim da Renova&#231;&#227;o Carism&#225;tica Sebastianista &#233; uma publica&#231;&#227;o apoiada pelos leitores. Para receber novos posts e apoiar meu trabalho, considere tornar-se uma assinatura gratuita ou uma assinatura paga.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>No outro lado do espelho, ent&#227;o j&#225; no quarto dessa tal Rainha, deu-se a conhecer a ela, na forma de uma sombra humanoide, da qual mal se via algo al&#233;m de uns olhos e o rasgo de uma boca, um demonho que at&#233; ent&#227;o n&#227;o havia se apresentado nem ao mercador nem aos an&#245;es.</p><p>No in&#237;cio, esse demonho era triste por apenas conseguir refletir as formas perfeitas da Rainha, ela t&#227;o insegura de sua pr&#243;pria beleza, ele sem poder toc&#225;-las, mas por fim se conformou, e se esfor&#231;ava o m&#225;ximo poss&#237;vel por refletir com maior for&#231;a o que j&#225; era belo em excesso.</p><p>Apesar de que a Rainha j&#225; passasse dos trinta outonos, &#233;poca terr&#237;vel para as belezas femininas de ent&#227;o, ela quase nem precisava de truques cosm&#233;ticos em sua face. O demonho encerrado no espelho sabia que a maquiagem feminina foi ensinada pelos ditos anjos vigilantes aos homens, junto com outras artes tais como a metalurgia, a lapida&#231;&#227;o de pedras preciosas, o uso de tinturas e algumas ci&#234;ncias profanas, como essa arte de falar com esp&#237;ritos em espelhos. O demonho (que ent&#227;o pouco sabia de si pr&#243;prio, uma vez que sua identidade se perdera de tanto refletir a identidade de seus operadores, cujas vontades f&#233;rreas distorciam o que viam no sentido do que queriam ver), j&#225; pensou ter sido um desses anjos vigilantes que, segundo dizem por a&#237;, desciam &#224; terra para ter amores com as humanas, por&#233;m como ele n&#227;o conseguia sair dali para tomar a Rainha em seus bra&#231;os, chegara &#224; conclus&#227;o de ser s&#243; besteira toda essa hist&#243;ria.</p><p>E, bem, pode ter sido ainda que uma vez ela o tenha quebrado com um murro, rachando-o ao meio &#224; altura do reflexo de seus peitos. Era um espelho grande, o que &#233; ind&#237;cio de que talvez n&#227;o fosse o espelho que pertencera ao bruxo ingl&#234;s, cujo espelho de obsidiana era bem menor, mas quem sabe, nunca saberemos.</p><p>Num dia em que ele estava cansado de elogiar sua dona sem receber nada em troca (Gertrudes a Magn&#237;fica costumava se despir diante dele em troca de segredos arcanos acerca do que acontecia no reino quando acordava com alguma intui&#231;&#227;o ruim latejando-lhe a fronte lisa, mas h&#225; um tempo ela estava desinteressada desse tipo de problema, devido ao cora&#231;&#227;o macamb&#250;zio), diante da pergunta rotineira sobre haver alguma mulher mais bonita do que ela nos seus dom&#237;nios, o esp&#237;rito respondeu que sim, e nisso ela tornou-se mais bonita do que nunca por causa do vermelhor de raiva nas ma&#231;&#227;s daquele rosto que havia perdido o vi&#231;o h&#225; poucos anos, mas que ainda se mantinha exuberante, fora o muxoxo daqueles l&#225;bios carnosos como p&#234;ssegos a dar-lhe um encanto primaveril. "Existe uma camponesa, seu nome &#233; Alba". A Rainha, conseguindo ficar mais bonita ainda com seus olhos indecisos entre f&#250;ria e frustra&#231;&#227;o, perguntou se n&#227;o era del&#237;rio de sua parte. O demonho nada mais respondeu. E assim ficou uns bons dias sem falar mais nada, apenas olhando de canto de olho sua rainha, que, de todo o modo, o cobriu com seda vinda de oriente long&#237;nquo.</p><p>Gertrudes pode ent&#227;o ter ordenado aos seus inferiores que encontrassem a jovem chamada de Alba, mas ningu&#233;m sabia de algu&#233;m com tal nome, o reino era pequeno e todos seus habitantes se conheciam, e mesmo depois de uma busca pelos cantos mais afastados, nada encontraram. Acontece, ou pode ter acontecido, que enquanto espiava certo cavaleiro funcion&#225;rio seu de seu pal&#225;cio, que se mantinha h&#225; meses firme ante seus ataques ven&#233;reos, de ter descoberto que ele gostava de uma mocinha albina, de bastos cabelos brancos como cera de restos derretidos de vela e olhos claros da cor de mel, e boca escura como sangue seco de gansos. Depois de um tempo observando-a, descobriu pelas fofocas de suas damas que o seu desejado cavaleiro havia pedido a m&#227;o dela em casamento, e ele s&#243; estava juntando os presentes que a Rainha lhe dava enquanto o seduzia, para um dia poder vend&#234;-los e, com os dinheiros, o casal ir para as terras al&#233;m-mar recome&#231;ar a vida.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!OTVk!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2676606c-7f93-418c-9ec1-d9e5f5f4f6ab_649x1040.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!OTVk!, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/w_424, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/c_limit, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/f_webp, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/q_auto:good, 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Essa mo&#231;a albina foi quem disse para o cavaleiro se aproveitar da falta de f&#233; que a pr&#243;pria Rainha cultivava de seus dotes naturais (por isso que perguntava tanto ao espelho a mesma pergunta, tendo mil outras cousas mais valiosas para perguntar), foi ela quem lhe deu a ideia de dizer que o cavaleiro havia prometido &#224; m&#227;e que s&#243; se deitaria com uma mulher ap&#243;s tr&#234;s anos de luto, al&#233;m de outras lorotas, de modo que a Rainha pensou que a forma de mant&#234;-lo cativo dela, al&#233;m de mostrar de vez em quando seus peitos e coxas de forma muito r&#225;pida, acumulando desejo no seu cora&#231;&#227;o, seria encher-lhe de pr&#234;mios.</p><p>Mas ent&#227;o passando a saber da mentirada toda, a Rainha fez o que era pra fazer: ordenou ao cavaleiro que a acompanhasse numa ca&#231;ada no Bosque dos Desencontrados. O cavaleiro sentiu medo, percebeu logo que era um truque, e era um truque, mas n&#227;o para o que ele achava que seria, n&#227;o era que a Rainha enfim se sentaria sobre ele esfregando os peitos em sua cara de um modo tal que ele n&#227;o conseguiria se segurar, ainda mais com seu perfume guardado s&#243; para as ocasi&#245;es de siz&#237;gia hormonal, s&#243; que o que aconteceu realmente, ou o que poderia ter lhe acontecido caso tudo isso realmente tivesse acontecido (eu acho que aconteceu, o demonho n&#227;o tem certeza), foi de a Rainha, em meio a um trecho mais denso de mato, ter lhe enfiado o punhal de prata na goela, para depois afog&#225;-lo no riacho. Em seguida pegou o lobo que ela mesma havia matado antes com o cavaleiro, e com faca e dentes arrancou-lhe a cabe&#231;a pra mostrar como &#225;libi aos cavaleiros que vinham com eles antes de ela t&#234;-los despistado, e enfim lhes dizer: "foi este lobo amaldi&#231;oado, matem todos os lobos que puderem encontrar em vingan&#231;a a meu honrado cavaleiro!", isso, claro, ap&#243;s ter arrancado com ferramenta r&#250;stica uns dentes e unhas do bicho para marcar o corpo do cad&#225;ver, inclusive arrancando os culh&#245;es com a mand&#237;bula do lobo num furioso exerc&#237;cio de for&#231;a.</p><p>No pal&#225;cio, as not&#237;cias da morte do cavaleiro j&#225; haviam chegado &#224; albina, que ent&#227;o estava procurando lagartixas nuns quartos vazios. A Rainha a encontrou em pranto convulsivo, rasgando a pr&#243;pria roupa, maldizendo o dia em que nasceu, e lacerando as pernas branqu&#237;ssimas. Gertrudes ofereceu um vinho para acalm&#225;-la. A mo&#231;a, sem nem pensar duas vezes, aceitou-o e tomou meia garrafa numa golada, estrebuchando em seguida ali mesmo. Foi engasgo, disse a Rainha depois &#224;s outras damas de corte, que a princ&#237;pio ficaram felizes pois Alba era muito convencida e se achava que valia mais que as outras suas companheiras de servi&#231;o.</p><p>O demonho no espelho rachado de obsidiana viu sua Rainha nessa mesma noite, ela com roupas de luto, e considerou-a mais linda do que nunca, ele que n&#227;o a via fazia umas luas j&#225;. Gertrudes lhe contou tudo, sem mentir, com dor mas tamb&#233;m com certo orgulho da for&#231;a de suas m&#227;os e dentes, e apaixonada pela sua pr&#243;pria imagem refletida no espelho, estava realmente um espet&#225;culo de fatal beleza. Por&#233;m, mesmo tremendo de amor, o demonho vaticinou que uma maldi&#231;&#227;o cairia sobre o reino, que seria destru&#237;do por um ex&#233;rcito de sete an&#245;es, um justo castigo divino. Ela riu, pois sabia dos sete an&#245;es que vendiam badulaques na feira (eles cujos nomes eram Brancoso, Patuscada, Lindinho da Mam&#227;e, Arrombado, Intanguildo, Bucho de Javaporco e Saturnino Descalabro). S&#243; n&#227;o esperava que justo essses sete passariam os tr&#234;s dias seguintes dando detalhes a todos os clientes de como os assassinatos do cavaleiro e da dama teriam acontecido, um a um inventando uma vers&#227;o incompat&#237;vel com a de cada um dos outros, mas com engenho suficiente para dividir o reino contra e a favor da Rainha.</p><p>Enquanto o povo se entregava &#224; viol&#234;ncia contra os cavaleiros da Rainha, cessando apenas quando a Rainha acossada terminou de quebrar o espelho e ela, usando um caco de obsidiana para rasgar seus pr&#243;prios peitos e sangrar at&#233; a morte, l&#225; do outro lado de um c&#243;rrego e de um monte uma jovem morena filha de pais novos convertidos, irm&#227; daquela mo&#231;a albina que foi morta, escondia-se numa capela, rezando para que o rei, que a visitava em seus sonhos na forma de um lindo touro negro, viesse para acabar com tudo aquilo e a levasse para as terras do outro lado do Atl&#226;ntico, tomando-a como rainha. Os dois fundariam um reino de paz, conforme o demonho daquele espelho (que chegou a pertencer a ela, mas foi devolvido aos an&#245;es, de quem havia comprado-o, porque teve medo) lhe vaticinara, um reino que se estenderia por toda a face da terra, onde todas as pessoas do mundo seriam felizes para sempre.</p><p><span>(</span><em>Com esse conto continuo a soltar, aos poucos, os relatos de visagens a serem coligidos num volume por enquanto intitulado de </em><span>O Aut&#244;mato de Descartes</span><em><span>. O intuito &#233; publicar um por m&#234;s nessa linha. Os outros contos at&#233; agora publicados s&#227;o: </span></em></p><p><em><span>i. </span><a href="/__u/oricardodecarvalho.substack.com/p/nos-fomos-o-que-tu-es-e-tu-seras">N&#243;s fomos o que tu &#233;s e tu ser&#225;s o que n&#243;s somos</a></em></p><p><em><span>ii. </span><a href="/__u/oricardodecarvalho.substack.com/p/relato-de-um-caso-aparentemente-incomum">Relato de um caso aparentemente incomum, mas que todavia por&#233;m no entanto tem se repetido com frequ&#234;ncia alta nos ambientes corporativos de nossa sociedade supostamente desencantada</a>)</em></p><p></p><p><em>Se n&#227;o quer assinar, mas pensa em outra forma de apoiar este trabalho, voc&#234; pode tamb&#233;m fazer doa&#231;&#245;es avulsas. O pix &#233; oricardodecarvalho@gmail.com. Agradecemos desde j&#225; seu apoio!</em></p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://oricardodecarvalho.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Boletim da Renova&#231;&#227;o Carism&#225;tica Sebastianista &#233; uma publica&#231;&#227;o apoiada pelos leitores. Para receber novos posts e apoiar meu trabalho, considere tornar-se uma assinatura gratuita ou uma assinatura paga.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A virtude solar do mel]]></title><description><![CDATA[Refleix&#227;o sobre o que faz o mel ser mel e o homem ser homem em rela&#231;&#227;o aos seus lugares na cadeia do ser.]]></description><link>https://oricardodecarvalho.substack.com/p/a-virtude-solar-do-mel</link><guid isPermaLink="false">https://oricardodecarvalho.substack.com/p/a-virtude-solar-do-mel</guid><dc:creator><![CDATA[Ricardo de Carvalho]]></dc:creator><pubDate>Tue, 25 Aug 2026 11:30:56 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!4KfE!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F24146544-13ed-489c-a039-3fca37fa3bee_640x918.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>Dizem que o mel &#233; luz solar l&#237;quida. J&#225; eu digo mais: o mel &#233; a perfei&#231;&#227;o solar ao n&#237;vel do sub-reino dos insetos, e a contempla&#231;&#227;o de sua natureza pode nos ensinar algo sobre a nossa virtude solar espec&#237;fica.</span></p><p><span>Conversava com a </span><a href="/__u/oceanodeflor.substack.com/"><span>Tatiane</span></a><span> sobre a sua ida a uma feirinha, e ela me contava sobre o mel algo de que quase ningu&#233;m percebe, porque quase ningu&#233;m realmente presta aten&#231;&#227;o no mel e em nada. Um daqueles aspectos sobre um alimento t&#227;o banal e comum no dia-a-dia, que se tornaram opacos aos nossos olhos, secos que est&#227;o de h&#225;bitos mec&#226;nicos. Se a gente estranhasse mais as coisas comuns do dia a dia, nunca ficaria entediado, dizem, e acho que deve ser assim sim. </span></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://oricardodecarvalho.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Boletim da Renova&#231;&#227;o Carism&#225;tica Sebastianista &#233; uma publica&#231;&#227;o apoiada pelos leitores. Para receber novos posts e apoiar meu trabalho, considere tornar-se uma assinatura gratuita ou uma assinatura paga.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p><span>Ela falava entusiasmada sobre como o mel de um lugar &#233; diferente de outro. Uma colmeia de uma dada fazendo ou floresta do mundo engendra o mel a partir de uma combina&#231;&#227;o irrepetit&#237;vel, embora os elementos em si precisem ser os mesmos: a intensidade da luz solar naquele espa&#231;o, o tipo de terra que nutriu a planta (pois o solo de um lugar tem nutrientes diferentes da terra de outro), da esp&#233;cie de flor que a abelha colheu o p&#243;len, a qualidade do ar (se mais &#250;mido ou mais seco, polu&#237;do ou n&#227;o).</span></p><p><span>Nenhum mel &#233; igual a outro, porque nenhum lugar do mundo oferece exatamente as mesmas qualidades nutrizes que outra. </span>Coisas que a gente trata como dadas, sempre existentes, s&#227;o na verdade resultado de um processo enorme, quase invis&#237;vel porque cotidiano.</p><p><span>Ela parecia sentir o que senti no dia em que descobri que boa parte das plantas que cultivamos hoje foi domesticada. Frutas e verduras como conhecemos s&#243; existem por causa de gera&#231;&#245;es de trabalho humano moldando a natureza. Alguns frutos, cereais e verduras nem existiam na natureza bruta, s&#227;o inven&#231;&#227;o nossa. E as que existem, s&#227;o diferentes na natureza selvagem. Foi uma expans&#227;o de consci&#234;ncia me dar conta disso. E sim, expans&#227;o de consci&#234;ncia tem muito menos a ver com enxergar outras camadas de realidade invis&#237;veis &#224; maior parte da humanidade, e mais com realmente passar a ver o que est&#225; sempre &#224; nossa frente e que n&#227;o percebemos, aquilo que j&#225; est&#225; l&#225; quieto, dando-se a conhecer sem maiores arroubos.</span></p><p><span>Voltando ao mel: sim, mel &#233; luz solar l&#237;quida.</span></p><p><span>Como li por a&#237; outro dia: a planta absorve energia luminosa do sol, a abelha extrai a ess&#234;ncia dessa frequ&#234;ncia de luz das flores e a codifica no mel. Quando voc&#234; come o mel, est&#225; consumindo, de forma concreta, c&#243;digos de luz solar transformados por um processo vivo.</span></p><p><span>Em tudo h&#225; informa&#231;&#227;o porque em tudo h&#225; energia. E ao transmitir sua informa&#231;&#227;o pelos sentidos, o mel comunica algo de si, como eu comunico algo de mim ao mel que se torna parte do que sou.</span></p><p><span>Na simb&#243;lica da cadeia do ser tradicional, o mel ocupa, no sub-reino dos insetos, o sentido que o ouro ocupa no reino mineral, a folha de louro no vegetal, o le&#227;o no animal, o rei na pol&#237;tica, o sol no sistema solar, o ser humano na natureza inteira, e Cristo Rei no conjunto de toda a realidade.</span></p><p><span>&#201; a assinatura solar se repetindo em escalas diferentes, do metal ao trono celeste.</span></p><p><span>E cada safra de mel &#233; &#250;nica porque sua perfei&#231;&#227;o solar &#233; &#250;nica: ela eleva as qualidades daquele lugar espec&#237;fico, sublima o que aquele ambiente tinha de melhor a oferecer, trabalhando inclusive as impurezas ao seu favor. As safras ir&#227;o se diferir na espessura, na acidez, no grau de do&#231;ura, no tom e brilho do dourado, no seu odor, mas tudo remetendo &#224; mesma virtude solar. Porque mesmo o sol parecendo o mesmo sempre, ao n&#237;vel simb&#243;lico &#233; um no nascente, outro ao meio-dia e outro no poente, &#233; um no ver&#227;o e outro no inverno, &#233; um na linha do Equador e outro nos tr&#243;picos. </span></p><p><span>E &#233; diverso na forma como sua energia circula em cada corpo humano, na informa&#231;&#227;o que passou de si, na medida em que participa de nossa vida no outro lado de uma corrente em que n&#243;s participamos da vida do Sol.</span></p><p><span>A individua&#231;&#227;o ocorre quando voc&#234; deixa de ser moldado pelo ambiente e passa a mold&#225;-lo pela sua pr&#243;pria vontade e presen&#231;a. O ambiente n&#227;o mais o oprime, voc&#234; que regenera o ambiente.</span></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!4KfE!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F24146544-13ed-489c-a039-3fca37fa3bee_640x918.webp" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!4KfE!, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/w_424, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/c_limit, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/f_webp, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/q_auto:good, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F24146544-13ed-489c-a039-3fca37fa3bee_640x918.webp 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!4KfE!, 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Porque o ser humano &#233; o mais sobrenatural de todos os seres abaixo de Deus.</span></p><p><em><span>Se n&#227;o quiser assinar mas pensa em outra forma de apoiar este trabalho, voc&#234; pode tamb&#233;m fazer doa&#231;&#245;es avulsas. O pix &#233; oricardodecarvalho@gmail.com. Agradecemos desde j&#225; seu apoio!</span></em></p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://oricardodecarvalho.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Boletim da Renova&#231;&#227;o Carism&#225;tica Sebastianista &#233; uma publica&#231;&#227;o apoiada pelos leitores. 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data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Vt6J!, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/w_424, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/c_limit, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/f_webp, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/q_auto:good, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F03d9c613-e2d8-4516-baf1-fc7ae3b4f209_1247x1600.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Vt6J!, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/w_848, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/c_limit, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/f_webp, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/q_auto:good, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F03d9c613-e2d8-4516-baf1-fc7ae3b4f209_1247x1600.jpeg 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Vt6J!, 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Antes era Cartas da Ilha Grande (uma refer&#234;ncia ao nome ind&#237;gena da ilha em que vivo, Upaon A&#231;u), agora &#233; Boletim da Renova&#231;&#227;o Carism&#225;tica Sebastianista. Bem a Renova&#231;&#227;o Carism&#225;tica Sebastianista n&#227;o &#233; um movimento religioso, mas uma ilumiara. &#201; isso, estou erguendo uma ilumiara do zero, e a newsletter &#233; o boletim deste empreendimento l&#250;dico, art&#237;stico e diria at&#233; terap&#234;utico, e s&#243; n&#227;o digo m&#225;gico porque magia &#233; coisa do demonho. E sim, essa cria&#231;&#227;o tem a ver com o que escrevi na <a href="/__u/oricardodecarvalho.substack.com/p/por-onde-venho-perambulando">entrada anterior deste di&#225;rio</a>.</p><p>viii.</p><p><span>H&#225; mais ou menos dois anos venho feito uma pesquisa informal para delineamento das bases do que chamo de arquevitalismo crist&#227;o, que &#233; um dos motivos do porqu&#234; de eu estar criando uma ilumiara. Aqui e ali vejo autores com preocupa&#231;&#245;es pr&#243;ximas &#224;s minhas, e no momento &#233; menos algo do qual podemos reunir em torno de um -ismo, e mais uma atmosfera de preocupa&#231;&#245;es que convergem para um vontade de pensar e, principalmente, viver, estrat&#233;gias crist&#227;s em sociedade em que o corpo n&#227;o brigue mais com a mente (e aqui n&#227;o estou falando de moral, mas de algo mais profundo e amplo). Tem a ver com o sol, com vida das plantas e animais, com ritualiza&#231;&#227;o da vida, da regenera&#231;&#227;o do sentido da festa, do universo enquanto uma liturgia c&#243;smica em Cristo.</span></p><p>O pr&#243;prio exerc&#237;cio de criatividade aqui apresentado faz parte disso, j&#225; que duas figuras basilares para mim neste empreendimento s&#227;o o Tolkien e o Suassuna. E no caso de Suassuna, sua obra tem uma evidente fun&#231;&#227;o terap&#234;utica para si, al&#233;m da fun&#231;&#227;o, expressa por ele mesmo, de renovadora de possibilidades vitais para o pa&#237;s.</p><p><span>Diante da etiqueta &#8220;vitalismo crist&#227;o&#8221; que pus num perfil de outra rede, um amigo perguntou o que isso era, e pediu um v&#237;deo em que isso fosse explicado. Colo aqui um texto que iria deixar para mais tarde, e que &#233; apenas uma revis&#227;o elaborada da transcri&#231;&#227;o da resposta que dei a este meu amigo:</span></p><blockquote><p>H&#225; algo emergindo, ainda difuso, incapaz ainda de se enxergar como um movimento e que talvez se disperse ao ponto de nunca virar um, mas de que consigo enxergar uma figura a convergir para os meus interesses nos &#250;ltimos dois anos por causa da minha querela contra a depress&#227;o e a ansiedade. &#201; um fen&#244;meno vis&#237;vel entre ortodoxos nos Estados Unidos, como o Paul Kingsnorth e seu recente <em><a href="https://www.amazon.com.br/Against-Machine-Unmaking-Paul-Kingsnorth/dp/0593850637">Against the Machine: On the Unmaking of Humanity</a></em>, mas que noto tamb&#233;m em autores cat&#243;licos, anglicanos e heterodoxos de outras vertentes crist&#227;s: escritores de linhagens variadas que compartilham um mesmo desconforto com o presente, embora expresso em registros distintos.</p><p>O que os une n&#227;o &#233; a cr&#237;tica &#224; modernidade que esteve em voga h&#225; uma d&#233;cada, aquela de peso mais pol&#237;tico e filos&#243;fico, centrada na dissolu&#231;&#227;o moral e no autoritarismo, cuja imagem &#233; a caricatura que fizeram de Olavo de Carvalho (e Olavo &#233; importante para mim nesse projeto por outras &#225;reas de suas investiga&#231;&#245;es como a do simbolismo natural, do conhecimento por presen&#231;a, das doze camadas da personalidade e sobre as press&#245;es da sociedade contra a consci&#234;ncia, mas deixarei pra contar isso depois, num texto que estou enrolado h&#225; uns dois anos pra entregar a um site de um amigo). Inclusive alguns de n&#243;s j&#225; aceitamos que vivemos um p&#243;s-liberalismo, o ponto sendo tentar saber o que fazer a partir disso. </p><p>&#201; outra coisa: um olhar voltado para o modo como a internet e a intelig&#234;ncia artificial destroem a capacidade humana de aten&#231;&#227;o, adoecendo as pessoas atrav&#233;s da forma como as redes sociais capturam e mercantilizam sua consci&#234;ncia, enxergando-as n&#227;o como pessoas, mas como algoritmos, dados tabul&#225;veis para ser manipulados por uma internet operando por intelig&#234;ncia artifical, cuja natureza daemoniaca ainda precisa ser mais investigada, dado sua origem mais remota em experimentos renascentistas como a esteganografia do Abade Tritemius (<a href="https://www.damagemag.com/p/the-internet-is-made-of-demons">e aqui o que h&#225; de daem&#244;nico &#233; menos pela presen&#231;a de &#8220;algo estranho&#8221; e mais pelo modo de operar</a>). Trata-se, em geral, de gente de direita por&#233;m pouco afeita ao capitalismo, e menos ainda &#224; sua face tecnol&#243;gica dist&#243;pica cuja face mais conhecido &#233; a do candidado a anticristo, o Peter Thiel, e os doidinhos do Iluminismo das Trevas Curtis Yarvin e Nick Land.</p><p>N&#227;o por acaso, a primeira enc&#237;clica do Papa Le&#227;o XIV sobre intelig&#234;ncia artificial, <em><a href="https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/encyclicals/documents/20260515-magnifica-humanitas.html">Magnifica humanitas</a></em>, converge para essa demanda, numa reflex&#227;o sobre o valor do trabalho em rela&#231;&#227;o &#224;quilo que nos faz ser humanos, tanto no sentido vertical, de imagem e semelhan&#231;a de um Deus criador, quanto na horizontal, de sociedade que deveria buscar o bem comum acima da otimiza&#231;&#227;o de lucros e do desenvolvimento de um sistema aut&#244;mato que serve ao pantagruelismo psicod&#233;lico de um capitalismo maqu&#237;nico gerador de ilus&#245;es, de fantasmas famintos (e aqui o termo deleuziano &#233; uma provoca&#231;&#227;o tendo em vista Nick Land). </p><p>Essa valoriza&#231;&#227;o do trabalho &#233; um aspecto dessa sensibilidade emergente, alimentada por duas frentes simult&#226;neas: de um lado, a percep&#231;&#227;o de que o trabalho contempor&#226;neo perdeu sentido (a recusa ao trabalho de certo movimento de esquerda foi muito mal-compreendido pela direita devido &#224; guerra cultural, tendo mais a vez com essa perda de sentido que tamb&#233;m a n&#243;s nos aflige e que n&#243;s temos uma resposta muito melhor do que s&#243; dizem am&#233;m ao que os liberais dizem), de outro, o modo brutal como a automa&#231;&#227;o e a intelig&#234;ncia artificial desestabilizaram os postos de trabalho existentes. Mas n&#227;o se trata de um retorno ao trabalhismo crist&#227;o da primeira metade do s&#233;culo XX, que perdeu sua for&#231;a ao ser capturado e esvaziado pelos partidos socialistas. &#201; antes uma valoriza&#231;&#227;o do artesanato, da aten&#231;&#227;o, do modo como a pessoa inteira se entrega a um of&#237;cio, e de como esse entregar-se pode nos curar, ou ao menos dar uma medida correta da vida humana. Aqui o pensamento de Simone Weil, que n&#227;o era cat&#243;lica, mas cuja obra &#233; valorizada por essa nova sensibilidade, encontra eco. Tolkien e Chesterton completam esse quadro de refer&#234;ncias: n&#227;o como pensadores pol&#237;ticos, mas como buscadores de formas mais tradicionais de habitar este mundo, atentos &#224; exist&#234;ncia corporal, ao folclore, &#224;s festas populares, com uma cr&#237;tica &#224; tecnologia que dialoga com o pontificado atual. De minha parte, posso colocar o Suassuna ao lado desses dois por compartilhar anseios comum e por ter dado respostas muito fecundas para a gente.</p><p>H&#225;, paralelamente, uma segunda vertente, mais discreta, ainda mais difusa, voltada &#224; astrologia tradicional e &#224; medicina integrada, cuja figura de refer&#234;ncia &#233; Nicolas Culpeper, m&#233;dico ingl&#234;s do s&#233;culo XVII que via o corpo como totalidade indissoci&#225;vel da mente, recomendando o cuidado com o sol, com os ritmos naturais, com a ideia de que o cosmos &#233; quase um organismo vivo, tudo em comunica&#231;&#227;o energ&#233;tica. No corpo humano h&#225; uma cibern&#233;tica interna de elementos (fogo, &#225;gua, ar e terra) an&#225;loga &#224; da que acontece no universo, microcosmos e macrocosmos. N&#227;o &#233; um movimento exclusivamente crist&#227;o: h&#225; gente de fora do cristianismo buscando essa mesma vis&#227;o integrada, e aqui o sufi Peter Kingsley, em sua revis&#227;o da medicina sagrada em Parm&#234;nides e Jung, me interessa bastante, assim como as especula&#231;&#245;es do rosacruz Valentim Tomberg, cuja obra tem suas falhas graves aqui e ali, mas que cont&#233;m insights inescap&#225;veis em muitos outros pontos. Mas a vanguarda, mais uma vez, &#233; crist&#227;, cat&#243;licos, anglicanos, ortodoxos.</p><p>Dentro dessa vertente, duas figuras t&#234;m peso. A primeira &#233; a de Santa Hildegarda von Bingen, hoje revisitada por quem discute dieta ancestral, herbalismo, que enxerga a natureza como epifania divina de um Criador que n&#227;o se confunde com sua cria&#231;&#227;o, mas que nela est&#225; em toda parte. A segunda &#233; S&#227;o M&#225;ximo, o Confessor, um dos padres da Igreja que compreendia o universo como uma esp&#233;cie de liturgia c&#243;smica: <a href="https://www.amazon.com.br/Cosmic-Liturgy-Universe-According-Confessor/dp/0898707587">os sacramentos da tradi&#231;&#227;o servem n&#227;o s&#243; para regenerar os seres humanos, mas todo o universo. </a>N&#227;o se trata de ecologismo: a ideia &#233; que o sacrif&#237;cio de Cristo na cruz, repetido a cada missa, regenera n&#227;o apenas a humanidade, mas a natureza inteira: os animais, as plantas, a mat&#233;ria do mundo.</p><p>Santa Hildegarda oferece, ainda uma vez, um conceito decisivo para essa cosmovis&#227;o: a <em>veriditas</em>, o &#8220;verdor&#8221;, uma for&#231;a vital que permeia tanto os corpos, humanos, animais, vegetais, quanto, analogicamente, o universo inteiro atrav&#233;s da a&#231;&#227;o criadora, manteedora e regenrativa do Esp&#237;rito Santo: o sol, o ar, os rios, os mares, o que h&#225; debaixo da terra. &#201; uma no&#231;&#227;o que aproxima o pensamento medieval crist&#227;o de certas concep&#231;&#245;es de for&#231;a vital &#224;s presentes nas culturas hindu, chinesa e isl&#226;mica, um conhecimento que, no Ocidente, foi majoritariamente esquecido, mas que sobreviveu em fragmentos: em Paracelso, em Leibniz, em Espinosa, na pr&#243;pria homeopatia, t&#227;o desprezada quanto, no fundo, fiel a essa mesma intui&#231;&#227;o, (vide as especula&#231;&#245;es de argentinos como Tom&#225;s Pablo Paschero e Alfonso Masi Elizalde, que tentaram conciliar a vis&#227;o de for&#231;a vital com o tomismo e Jung), secularizada no <em>&#233;lan vital</em> de Bergson e nas descri&#231;&#245;es de fluxos imanentes de circula&#231;&#227;o de pot&#234;ncias vitais como a libido em Deleuze e Guatari.</p><p>Se essa tradi&#231;&#227;o perdeu terreno no Ocidente, onde a medicina seguiu outro caminho, mais mecanicista, ela permaneceu viva nas escolas orientais: na ayurveda, na medicina tradicional chinesa, no Feng Shui, na acupuntura. O que se observa agora &#233;, talvez, uma tentativa de reencontrar, na pr&#243;pria tradi&#231;&#227;o ocidental, em Culpeper, mas sobretudo na base teol&#243;gico-filos&#243;fica j&#225; presente em Hildegarda, aquilo que se foi buscar, por necessidade, no Oriente, uma vez que a percep&#231;&#227;o de que toda as doen&#231;as tem algo de psicossom&#225;tico j&#225; se estabeleceu em muitos c&#237;rculos de viv&#234;ncias, ajudando a enterrar aquela vis&#227;o p&#243;s-descarteana de medicina, ainda que seja muito forte ainda em outros meios.</p><p>O que emerge, enfim, n&#227;o &#233; um programa pol&#237;tico nem uma escola filos&#243;fica organizada, mas uma sensibilidade comum: a recusa do desencantamento do mundo, a reafirma&#231;&#227;o do corpo, do trabalho manual, do cosmos como organismo vivo e sacramental, uma resposta, ainda incerta em seus contornos, ao mesmo mal-estar que a intelig&#234;ncia artificial, o trabalho sem sentido que n&#227;o respeita os ciclos naturais e a economia da aten&#231;&#227;o impuseram ao presente.</p></blockquote><p>ix.</p><p>Sobre a intelig&#234;ncia artificial, estou justamente lendo s&#243; agora a enc&#237;clica papal. Ao mesmo tempo, venha fazendo um experimento em outro site (experimento de tempo determinado, 90 dias) de cria&#231;&#227;o di&#225;ria de textos com a ajuda de geradores de texto, Colocarei dois dos textos abaixo, uma em que explico o m&#233;todo e suas contradi&#231;&#245;es, e um em que falei sobre um tema que interessa demais ao projeto do arquevitalismo crist&#227;o: a vida criativa de Dante Alighieri. </p><p>Antes de mais nada, essa linha de pensamento que descrevi cultiva, em sua maioria, uma vis&#227;o rom&#226;ntica anti-tecnologia, de asco total &#224; intelig&#234;ncia artificial. N&#227;o sou rom&#226;ntico, sou barroco. Por isso, quanto &#224; IA, tento fazer o que Vil&#233;m Flusser prop&#244;s, nem fugir disso como camp&#244;nio que foge de supostos demonhos, mas procurar entend&#234;-la para n&#227;o ser consumido mentalmente por ela (os contos fant&#225;sticos que estou publicando sob o t&#237;tulo de <a href="/__u/oricardodecarvalho.substack.com/p/relato-de-um-caso-aparentemente-incomum">O Aut&#244;mato de Descartes</a> t&#234;m tudo a ver com isso):</p><blockquote><p><span>Tenho testado aqui no Threads um tipo de escrita que busca viraliza&#231;&#227;o, pra vender depois um e-book por aqui e criar portf&#243;lio para trabalhar como redator em alguma editora, ag&#234;ncia ou algo afim.</span></p><p><span>N&#227;o uso IA pra compor os posts. Mas uso modelos de copywriter, e s&#227;o justamente os modelos que a IA usa hoje pra compor os textos dela. E depois boto na IA pra revis&#227;o textual e fazer o checklist desses elementos que podem ajudar na distribui&#231;&#227;o pelo algoritmo.</span></p><p><span>Fica ent&#227;o esse ouroboros desgra&#231;ado.</span></p><p><span>O processo &#233; sempre o mesmo: pego uma s&#233;rie de insights antigos meus, ou pesco coisas que vejo por a&#237; que conversam com a proposta do produto, reescrevo num modelo de </span><em><span>copy</span></em><span>.</span></p><p><span>E, ao fim, me incomodo.Porque o resultado realmente parece texto de IA.</span></p><p><span>Fico me perguntando se n&#227;o seria mais honesto jogar o insight puro direto na m&#225;quina, e pedir pro Golem n&#227;o s&#243; artificializar a coisa, mas tamb&#233;m calcular o algoritmo pra mim.</span></p><p><span>Porque, al&#233;m de tudo, voc&#234; tem que escrever pensando n&#227;o em pessoas concretas, mas num algoritmo impessoal. </span></p><p><span>Ainda assim, continuo aqui. Nesse jogo cego contra o algoritmo e suas conven&#231;&#245;es de texto, tentando colocar um m&#237;nimo que seja de sangue e alma no meio disso.</span></p><p><span>Sei como isso termina nas hist&#243;rias de fic&#231;&#227;o cient&#237;fica: o rebelde sempre chega no ponto em que precisa ir atr&#225;s da tomada, desligar a m&#225;quina.</span></p><p><span>E conversar com essas m&#225;quinas n&#227;o est&#225; t&#227;o longe das velhas hist&#243;rias de magos que come&#231;am conjurando pequenos dem&#244;nios, achando que podem domin&#225;-los, at&#233; precisarem ir atr&#225;s do padre pedir exorcismo, porque a energia deles j&#225; infectou o processo mental do mago, como um v&#237;rus.</span></p></blockquote><p><em>(l&#225; eu conclu&#237; com um CTA rid&#237;culo, n&#227;o o transporei aqui. J&#225; o segundo texto &#233; mais valioso, e o fiz a partir de uma dica antiga de leitura do <a href="https://www.instagram.com/pedrosettec/">Pedro Sette-C&#227;mara </a>que ficou rondando minha cabe&#231;a desde ent&#227;o. Publico-o numa sub-entrada pr&#243;pria deste di&#225;rio, mantendo contudo a forma horrorosa da publica&#231;&#227;o original:)</em></p><p>x.</p><blockquote><p><span>Dante teria escrito a Divina Com&#233;dia para se curar de um problema nervoso.</span></p><p><span>Tenho pensado muito nessa tese recente de que esse poema foi composta num sentido meio medicinal, uma cura de si.</span></p><p><span>Ac&#237;dia &#233; um daqueles chamados 7 pecados capitais, geralmente entendido hoje como pregui&#231;a ou at&#233; mesmo com depress&#227;o, e contra isso que Dante teria lutado.</span></p><p><span>Vejam s&#243;:</span></p><p><span>A pesquisadora Jennifer Rushworth, em </span><em><a href="https://academic.oup.com/book/1511/chapter-abstract/140936646?redirectedFrom=fulltext"><span>Mourning and Acedia in Dante</span></a></em><span>, argumenta que Dante escreveu seu maior poema, em parte, pra escapar da ac&#237;dia.</span></p><p><span>O ponto de partida da leitura dela &#233; o pr&#243;prio Inferno, especificamente o fim do canto VII. Ali Dante retrata as almas dos que viveram em ac&#237;dia, submersas na lama do rio Estige, incapazes de completar a frase presa na garganta. A fala deles sa&#237;a entrecortada, sufocada pelo pr&#243;prio lodo.</span></p><p><span>Rushworth l&#234; isso como uma descri&#231;&#227;o quase cl&#237;nica do que os te&#243;ricos modernos chamam de linguagem melanc&#243;lica: fala travada, com dificuldade de fluir. O v&#237;cio da ac&#237;dia, no Inferno, &#233; mais do que pecado, &#233; o colapso da pr&#243;pria capacidade de se expressar.</span></p><p><span>(Pecado capital &#233; uma tradu&#231;&#227;o ruim do conceito criado por Ev&#225;grio P&#244;ntico: o sentido mais pr&#243;ximo &#233; o de v&#237;cio capital, ou de maus pensamentos. Mas isso &#233; hist&#243;ria pra outro dia).</span></p><p><span>O Purgat&#243;rio, na leitura dela, &#233; constru&#237;do como resposta direta a isso. A cura proposta por Dante n&#227;o &#233; abstrata, n&#227;o &#233; uma mudan&#231;a de pensamento ou de vis&#227;o de vida.</span></p><p><span>&#201; lit&#250;rgica.</span></p><p><span>Cada um dos sete terra&#231;os do Purgat&#243;rio tem sua pr&#243;pria estrutura ritual de ora&#231;&#227;o: um verso do Pai Nosso, uma bem-aventuran&#231;a recitada em voz alta, um hino entoado pelas almas em prociss&#227;o.</span></p><p><span>A alma no Purgat&#243;rio n&#227;o se purifica sozinha, mas se purifica cantando junto com outras almas. </span></p><p><span>No terra&#231;o espec&#237;fico da pregui&#231;a, canto XVIII, as almas correm (percebam isso: correm, corpos em movimento) recitando em voz alta exemplos hist&#243;ricos de zelo e pressa espiritual, como se o pr&#243;prio movimento do corpo e a repeti&#231;&#227;o da voz fossem o ant&#237;doto direto pro estado de paralisia que as trouxe at&#233; ali.</span></p><p><span>&#201; o oposto daquela fala quebrada do Inferno. Aqui a voz est&#225; fluindo, em coro ritmado num movimento de marcha. </span></p><p><span>A liturgia sempre cuidou disso: repeti&#231;&#227;o ordenada recentra uma mente dispersa. O canto obriga o corpo a manter cad&#234;ncia, assim como palavra recitada junto com outros tira voc&#234; do looping solit&#225;rio da pr&#243;pria cabe&#231;a.</span></p><p><span>Os rituais antigos da tradi&#231;&#227;o usam os mesmos elementos: palavra cantada, gestos repetidos, presen&#231;a coletiva, harmonia de inten&#231;&#245;es: nada disso &#233; pra enfeite, pra deixar bonitinho, mas algo criado numa estrutura funcional contra o vazio paralisante.</span></p><p><span>Dante escrever a Com&#233;dia inteira, ent&#227;o, n&#227;o seria s&#243; um feito liter&#225;rio. Seria o pr&#243;prio ato de compor, palavra ap&#243;s palavra, terceto ap&#243;s terceto, funcionando como disciplina contra a paralisia que ele mesmo retratava no inferno que criou, curando-se assim no Purgat&#243;rio, atrav&#233;s da mesma estrutura lit&#250;rgica que ele descrevia com imagina&#231;&#227;o intensa.</span></p></blockquote><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://oricardodecarvalho.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Boletim da Renova&#231;&#227;o Carism&#225;tica Sebastianista &#233; uma publica&#231;&#227;o apoiada pelos leitores. 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Como os outros, &#233; um do g&#234;nero "relato de visagem" n&#227;o o leia de noite para n&#227;o ter medo de ver coisa no corredor, ou de sonhar com alma penada.]]></description><link>https://oricardodecarvalho.substack.com/p/relato-de-um-caso-aparentemente-incomum</link><guid isPermaLink="false">https://oricardodecarvalho.substack.com/p/relato-de-um-caso-aparentemente-incomum</guid><dc:creator><![CDATA[Ricardo de Carvalho]]></dc:creator><pubDate>Mon, 10 Aug 2026 13:19:20 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!vmsL!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7ad32d52-1c49-4445-b866-c27c10aa2180_1200x1604.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!vmsL!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7ad32d52-1c49-4445-b866-c27c10aa2180_1200x1604.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!vmsL!, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/w_424, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/c_limit, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/f_webp, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/q_auto:good, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7ad32d52-1c49-4445-b866-c27c10aa2180_1200x1604.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!vmsL!, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/w_848, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/c_limit, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/f_webp, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/q_auto:good, 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stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p>Depois de muito tempo cogitando apresentar o M&#233;todo Alaor de Destravamento de Fluxos (M&#233;todo ALDEFLUX) para a diretoria geral da Co.LAP S.A., em S&#227;o Paulo, o gerente regional M&#225;rcio Marc&#237;lio deletou o documento em que apresentava a t&#233;cnica, texto esse que levou as f&#233;rias inteiras digitando em seu laptop no quarto de dormir. &#8220;N&#227;o vale a pena&#8221;, disse de si para si enquanto olhava pela janela, no quintal, a coruja rasga-mortalha de um olho s&#243; que o mirava de volta de cima do muro limoso. &#8220;Nada vale a pena&#8221; &#233; o que dizia, pensando na sua ex-mulher, que pedira o div&#243;rcio naquele outro dia em que ele sabia que era para ter tirado as meias para, em seguida, cal&#231;&#225;-las ao contr&#225;rio, evitando assim o que todos os sinais do mundo vinham anunciando h&#225; meses. &#8220;Nada&#8221;.</p><p>Na segunda-feira seguinte, os seus colegas de trabalho receberam-no com algum calorzinho, embora n&#227;o muito. Todos vinham sofrendo saudades do seu Alaor, o senhor de cabelos brancos e m&#227;os de goleiro h&#250;ngaro dos anos 60 que cuidava do almoxarifado, e M&#225;rcio Marc&#237;lio tamb&#233;m trazia essa tristeza. Alaor fora pessoa diuturnamente prestativa e simp&#225;tica, sabia o nome de todos os funcion&#225;rios da firma, dava bom-dia perguntando pela fam&#237;lia, essas coisinhas capazes de relaxar qualquer um num ambiente que oscila ritmicamente entre polos de t&#233;dio e tens&#227;o, a depender das posi&#231;&#245;es da Lua e de Marte no c&#233;u acima e abaixo de n&#243;s.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://oricardodecarvalho.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Boletim da Renova&#231;&#227;o Carism&#225;tica Sebastianista &#233; uma publica&#231;&#227;o apoiada pelos leitores. Para receber novos posts e apoiar meu trabalho, considere tornar-se uma assinatura gratuita ou uma assinatura paga.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Todos cultivavam a mem&#243;ria de quando se chegava ao setor dele com express&#227;o baixa, humor frio e passos pesados de trombose espiritual, e seu Alaor dizia que tudo daria certo, o que quer que estivesse acontecendo iria se resolver em breve, a motiva&#231;&#227;o dada num sorriso terno feito pan&#231;a de gato zarolho a ronronar. Sua empatia desarmava a todos, facilmente os colegas de firma acabavam por dizer a causa do sofrimento circunstancial. &#192;s vezes se dizia por cima, &#224;s vezes com detalhes, e o consolo dado por Alaor consistia em vaticinar que todo problema se resolve por si mesmo se n&#243;s n&#227;o sabotarmos o ritmo da resolu&#231;&#227;o, a termodin&#226;mica de pensamentos, palavras, atos e omiss&#245;es em torno do drama. E terminava com uma dica: &#8220;Os chineses sempre fazem algo nesses momentos em que um problema parece insol&#250;vel: eles tiram as meias e depois vestem-nas ao contr&#225;rio em seguida e pimba!, o problema come&#231;a a se dissolver&#8221;. Sendo que, nesse &#8220;pimba!&#8221;, Alaor batia com for&#231;a sua m&#227;o canhota no tampo da bancada.</p><p>Nunca ningu&#233;m pensou em tentar esse ritual na firma at&#233; o dia em que um rel&#226;mpago forte demais interrompeu o fluxo de energia no pr&#233;dio por alguns minutos e, quando a luz voltou, um HD queimou-se. Esse HD continha um documento essencial para o fechamento de um neg&#243;cio que salvaria os empregos dele, pois se perigava encerrar a filial da Co.LAP S.A. no Estado naquele ano. Por algum motivo, haviam se esquecido de manter um <em>back-up</em> daquele documento, e seria imposs&#237;vel refaz&#234;-lo a tempo da reuni&#227;o marcada para apresent&#225;-lo. At&#233; que M&#225;rcio Marc&#237;lio, do mais profundo de seu humor negro, disse para todos do departamento que tirassem as meias e vestissem-nas ao contr&#225;rio. As mulheres xingaram-no enquanto os homens choravam. Norberto, o t&#233;cnico em tecnologia da informa&#231;&#227;o, mordia com for&#231;a um boneco <em>Funko Pop</em> do diretor de cinema Christopher Nolan no banheiro. </p><p>Quando o desespero diminuiu um pouco e os colegas se voltavam para suas mesas, M&#225;rcio Marc&#237;lio simplesmente fez o que recomendara antes: foi ao centro da sala e, de forma espetaculosa, tirou as meias e vestiu-as ao avesso, enquanto mirava com olhar entrecerrado para cada um dos colegas. A mais nervosa das mulheres f&#234;-lo em seguida, e o &#250;ltimo a se juntar ao rito, Ganymedes, inverteu-as enquanto rezava o Pai-Nosso. Por fim, Norberto, tamb&#233;m de meias trocadas, ligou o computador de novo e abriu, sem maiores problemas, o documento. Todos pularam e cantaram uma famosa can&#231;&#227;o da banda de rock Coldplay, como se fossem ciganos em dias de lua cheia, todos girando ao redor de M&#225;rcio Marc&#237;lio<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a>.</p><p>A partir da&#237;, todos come&#231;aram a aplicar o m&#233;todo chin&#234;s de destravamento de fluxo em suas vidas. Contavam seus casos na hora do caf&#233;: um falou da dor de dente que passou a tempo de esperar o dia do dentista para fazer o tratamento de canal, outra disse do rapaz que estava em d&#250;vida em pedir para sair com ela e acabou convidando-a, um terceiro conseguiu recordar pela primeira vez, em detalhes, o rosto do pai que perdera quando crian&#231;a, a quarta disse da biqueira que a pol&#237;cia p&#244;s abaixo na esquina de sua rua, o quinto nada falou da primeira ere&#231;&#227;o plena que teve em sete anos, mas a sexta contou que finalmente estava gr&#225;vida ap&#243;s cinco anos de tentativas. A pr&#243;pria firma estava em vias de ser a mais lucrativa entre as regionais no pa&#237;s.</p><p>Foi em uma nublada manh&#227; de s&#225;bado que Alaor morreu, pondo fim ao uso do m&#233;todo entre eles. M&#225;rcio Marc&#237;lio era o &#250;nico do departamento na empresa naquele dia, o &#250;ltimo que o presenciou vivo. Carecia de uma resma de papel. Ao encontr&#225;-lo triste em sua bancada, Alaor, que sempre se apresentava com uma express&#227;o jovial, algo como um Papai Noel cheio de boletos pagos em seu saco de presentes, M&#225;rcio Marc&#237;lio perguntou: &#8220;Est&#225;s bem, seu Alaor?&#8221;, e o homem respondeu secamente: &#8220;Depois de 28 anos, a minha mulher me deixou para viver com aquele pastor miser&#225;vel que me punha chifres h&#225; pelo menos 14 anos&#8221;. M&#225;rcio Marc&#237;lio, sem rea&#231;&#227;o, calou-se, e o seu Alaor tamb&#233;m, este esperando o colega dizer a que veio. Sem conseguir pedir o papel, e sem energia vital para consol&#225;-lo, M&#225;rcio Marc&#237;lio n&#227;o sabe por que disse o que disse: que ele tirasse as meias e as virasse do avesso para vesti-las em seguida.</p><p>&#8220;Voc&#234; est&#225; brincando com minha cara, senhor M&#225;rcio Marc&#237;lio?&#8221;</p><p>Depois de um sil&#234;ncio enorme de meio minuto, M&#225;rcio respondeu perguntando:</p><p>&#8220;Por qu&#234;? Voc&#234; sempre recomenda isso, disse que era uma t&#233;cnica chinesa milenar... e n&#243;s testamos no departamento e... deu certo em todas as vezes...&#8221;</p><p>Seu Alaor baixou as p&#225;lpebras gordinhas, e seus bei&#231;os de pele descascada quase n&#227;o se mexiam na resposta. &#8220;Isso sempre foi uma piada para tir&#225;-los da tristeza. Eu mesmo que inventei, mas nunca o fiz porque isso &#233; bem idiota.&#8221;</p><p>M&#225;rcio Marc&#237;lio queria sair correndo dali, constrangido, mas continuou parado e, por fim, insistiu: &#8220;Tentar n&#227;o doer&#225; nada, seu Alaor.&#8221;</p><p>Os olhos de Alaor estavam tristes como um negativo de foto de um mar com um sol ao fundo. Saindo de tr&#225;s de sua bancada, andou devagarinho para o meio da sala com uma dificuldade que n&#227;o era decorrente s&#243; da idade avan&#231;ada, mas tamb&#233;m dos quase 150 quilos espalhados numa altura de menos de um metro e sessenta. Antes de trocar as meias, despiu-se de todo o uniforme, deixando s&#243; a cueca samba-can&#231;&#227;o estampada com nen&#250;fares, narcisos e cris&#226;ntemos, e as meias. Esse movimento todo lentamente por causa da dor na alma e no corpo. Ap&#243;s virar do avesso as meias vermelhas e troc&#225;-las, respirou fundo e disse, ofegante:</p><p>&#8220;O destino a gente constr&#243;i menos pelas nossas a&#231;&#245;es positivas do que pelos gestos de autossabotagem, seu M&#225;rcio Marc&#237;lio? E se fui eu que joguei minha mulher nos bra&#231;os daquele desgranhento, que direitos tenho de pedir perd&#227;o a ela ou de perdo&#225;-la? Ali&#225;s, menti, n&#227;o inventei aquela piada, foi ela, que sempre a soltava quando eu n&#227;o conseguia resolver um problema dom&#233;stico, seu M&#225;rcio Marc&#237;lio, porque eu sempre fui desajeitado na vida e n&#227;o pude proporcionar nada grande para a gente, e ela vinha com isso para me humilhar, era uma piada odiosa, repetida mil vezes, e que eu tentava sublimar de minhas ang&#250;stias usando-a como piada com voc&#234;s, que s&#227;o muito mais agrad&#225;veis a mim do que ela, voc&#234;s s&#227;o o meu amor como ela nunca foi. Seu M&#225;rcio Marc&#237;lio, responda, at&#233; que ponto o destino que a gente libera n&#227;</p><p>O grito breve e abafado quase n&#227;o saiu de sua garganta enquanto Alaor queimava de dentro para fora. M&#225;rcio Marc&#237;lio demorou em entender, mesmo quando viu a fuma&#231;a sair da boca e do nariz dele, mas o cheiro de carne podre queimando, e o bucho enorme junto com o peito p&#225;lido de albino (Seu Alaor era albino) enegrecendo e chamuscando a partir das ra&#237;zes dos pelos, esses sinais deram-lhe a pista de que presenciava ali o caso raro de combust&#227;o espont&#226;nea, fen&#244;meno nunca explicado pela ci&#234;ncia, embora testemunhado algumas vezes ao longo da hist&#243;ria, sendo que quase sempre o testemunho se desse com a pessoa encontrada j&#225; morta, sem sinais de fontes externas de calor ou de inflama&#231;&#227;o. As c&#226;meras internas filmaram tudo, M&#225;rcio Marc&#237;lio n&#227;o precisaria explicar-se na pol&#237;cia para nada.</p><p>No IML, ningu&#233;m entendeu o que aconteceu ali, apenas que, realmente, os &#243;rg&#227;os internos em torno do plexo solar queimaram-se, expandindo o calor pela pele. A &#250;nica hip&#243;tese aventada, mas n&#227;o registrada pelo m&#233;dico-chefe, foi &#8220;coisa do dem&#244;nio&#8221;, ele que vira alguns fatos inexplic&#225;veis em anos de exerc&#237;cio da medicina legal e sabia como o mundo sobrenatural n&#227;o se preocupa em ser intelig&#237;vel para a gente quando a gente n&#227;o tenta ser intelig&#237;vel aos habitantes dos entremundos (dura li&#231;&#227;o que aprendera com os resqu&#237;cios ps&#237;quicos da mo&#231;a que assombrava o necrot&#233;rio, impedindo-o de fazer besteiras nas salas de necr&#243;psia).</p><p>O M&#233;todo Alaor de Destravamento de Fluxos (ALDEFLUX) n&#227;o foi mais utilizado desde esse dia, embora a ex-estagi&#225;ria Susanny Kat&#8217;rina ainda guarde o documento escrito por M&#225;rcio Marc&#237;lio para um uso futuro de malef&#237;cio contra os seus inimigos, eles que viviam conspirando pelo seu fracasso, aqueles malditos.</p><p>(<em>Com esse conto coontinuo a soltar, aos poucos, os relatos de visagens a serem coligidos num volume por enquanto intitulado de </em><span>O Aut&#244;mato de Descartes</span><em>. O intuito &#233; publicar um conto por m&#234;s nessa linha. O primeiro foi este <a href="/__u/oricardodecarvalho.substack.com/p/nos-fomos-o-que-tu-es-e-tu-seras">aqui</a>.)</em></p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>S&#243; estranhar&#225; esse ato quem n&#227;o conhece as t&#233;cnicas de R.H. comuns hoje em dia para gerar pertencimento, identidade e empoderamento nos ambientes de trabalho.</p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O Hobbit e sua estrutura zodiacal: uma leitura simbólica]]></title><description><![CDATA[Apenas um exerc&#237;cio feito ap&#243;s uma leitura recente do cl&#225;ssico de Tolkien.]]></description><link>https://oricardodecarvalho.substack.com/p/o-hobbit-e-sua-estrutura-zodiacal</link><guid isPermaLink="false">https://oricardodecarvalho.substack.com/p/o-hobbit-e-sua-estrutura-zodiacal</guid><dc:creator><![CDATA[Ricardo de Carvalho]]></dc:creator><pubDate>Fri, 07 Aug 2026 20:19:33 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ayNm!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F89fed47f-c3e5-4c7b-9955-7fa4591a348c_312x532.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Diferente dAs Cr&#244;nicas de N&#225;rnia, em que C.S. Lewis planejou conscientemente cada um dos sete livros como uma analogia do simbolismo dos sete planetas tradicionais (Lua e Sol inclu&#237;dos, na astrologia tradicional s&#243; se contam os planetas vis&#237;veis a olho nu, n&#227;o entrando portanto Urano, Netuno e Plut&#227;o, que nem eram conhecidos), n&#227;o h&#225; evid&#234;ncia de que Tolkien tenha feito o mesmo em O Hobbit. Mas ler O Hobbit a partir do simbolismo tradicional &#233; uma leitura interpretativa leg&#237;tima: ele era profundamente versado nas tradi&#231;&#245;es cat&#243;licas medievais e das pag&#227;s que bebem das mesmas fontes simb&#243;licas da astrologia.</p><p>Nesta nota, publico alguns apontamentos de percep&#231;&#245;es que tive na leitura recente do livro, sem interesse de esgot&#225;-lo simbolicamente (at&#233; porque outros aspectos n&#227;o estruturais da obra me chamaram mais aten&#231;&#227;o at&#233;), e apenas como algu&#233;m que ainda est&#225; dominando esse simbolismo:</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://oricardodecarvalho.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Boletim da Renova&#231;&#227;o Carism&#225;tica Sebastianista &#233; uma publica&#231;&#227;o apoiada pelos leitores. Para receber novos posts e apoiar meu trabalho, considere tornar-se uma assinatura gratuita ou uma assinatura paga.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>A jornada de Bilbo tem 17 cap&#237;tulos, com estrutura claramente epis&#243;dica. A astrologia tradicional organiza o zod&#237;aco como um ciclo de individua&#231;&#227;o, prova e retorno: exatamente o arco de Bilbo.</p><p>Bilbo funciona como o Ascendente da hist&#243;ria. Em astrologia, o Ascendente &#233; o ponto de contato entre o eu interior e o mundo exterior: na natureza, &#233; o limite entre o c&#233;u vis&#237;vel acima do horizonte leste e o invis&#237;vel abaixo dele. Bilbo &#233; esse ponto na narrativa: o leitor dentro da hist&#243;ria, o &#8220;pequeno&#8221; mediando entre escalas &#233;picas.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ayNm!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F89fed47f-c3e5-4c7b-9955-7fa4591a348c_312x532.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ayNm!, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/w_424, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/c_limit, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/f_webp, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/q_auto:good, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F89fed47f-c3e5-4c7b-9955-7fa4591a348c_312x532.jpeg 424w, 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y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">Melhor capa de todas as edi&#231;&#245;es do livro</figcaption></figure></div><p>&#9800; &#193;ries: A Festa Inesperada (cap. 1)<br>&#193;ries &#233; o signo do in&#237;cio impulsivo, do fogo que chama &#224; a&#231;&#227;o. Gandalf marca a porta, os an&#245;es chegam, e Bilbo &#233; arrastado pra fora de sua natureza, sem planejar, sem querer. &#201; o carneiro que parte sem olhar pra tr&#225;s.</p><p>&#9801; Touro: Dentro da Terra / Os Trolls (cap. 2)<br>Touro rege a terra, os bens materiais, a gula. Os tr&#234;s trolls Bert, Tom e Will s&#227;o figuras de apetite bruto e possessividade: querem comer e discutem sobre como v&#227;o comer. A resolu&#231;&#227;o do conflito contra eles vem do estratagema, n&#227;o da for&#231;a.</p><p>&#9802; G&#234;meos: Rivendell / Elrond (cap. 3)<br>A Casa do &#218;ltimo Lar tem dupla natureza: descanso, conhecimento, poesia e conselho. Elrond decifra as runas lunares: G&#234;meos rege a linguagem, os mensageiros, o conhecimento mediador. &#201; tamb&#233;m o cap&#237;tulo mais breve e leve, como o ar geminiano.</p><p>&#9803; C&#226;ncer: As Montanhas Nubladas / O Goblin (cap. 4-5)<br>C&#226;ncer rege as cavernas, o subterr&#226;neo, a mem&#243;ria e o oculto. A descida &#224;s entranhas da montanha culmina no encontro com Gollum: um ser que vive nas profundezas, que perdeu sua identidade, que guarda seu &#8220;tesouro precioso&#8221; com obsess&#227;o lunar. O Anel encontrado aqui &#233; um objeto de ilus&#227;o, tema canceriano por excel&#234;ncia.</p><p><strong>&#9804; </strong>Le&#227;o: A Fuga / Gandalf e as &#193;guias (Cap. 6)<br>Sa&#237;da das trevas para a luz solar. As &#193;guias (criaturas solares, nobres, soberanas do c&#233;u) resgatam a companhia. Le&#227;o rege a soberania, o cora&#231;&#227;o, o hero&#237;smo vis&#237;vel. &#201; o primeiro momento em que Bilbo come&#231;a a ser reconhecido pelos an&#245;es.</p><p><strong>&#9805; </strong>Virgem: Beorn (Cap. 7)<br>Beorn &#233; o homem-urso, ligado &#224; terra, aos animais, &#224; natureza c&#237;clica. Virgem rege o servi&#231;o, o artesanato, a humildade e o discernimento. Ele n&#227;o &#233; nem vil&#227;o nem her&#243;i glorioso: &#233; funcional, discreto, misterioso. Serve &#224; companhia mas sob suas pr&#243;prias regras austeras.</p><p><strong>&#9806; </strong>Libra: Floresta de Mirkwood / Os Elfos das Trevas (Cap. 8&#8211;9)<br>Libra rege os julgamentos, as pris&#245;es sociais e os equil&#237;brios de poder. O rei Thranduil aprisiona os an&#245;es num julgamento de conveni&#234;ncia pol&#237;tica: n&#227;o por maldade pura, mas por interesse e desconfian&#231;a. Bilbo precisa usar diplomacia e ast&#250;cia (faculdades librianas) para libertar a todos nos barris.</p><p><strong>&#9807; </strong>Escorpi&#227;o: Esgaroth / A Aproxima&#231;&#227;o da Montanha (Cap. 10&#8211;11)<br>Escorpi&#227;o rege a morte, a transforma&#231;&#227;o, o poder oculto e os tesouros subterr&#226;neos. A Cidade do Lago &#233; constru&#237;da sobre &#225;guas escuras; a Montanha Solit&#225;ria ergue-se sombria no horizonte. A sombra de Smaug paira sobre tudo: o drag&#227;o &#233; por excel&#234;ncia uma figura escorpiana: guardi&#227;o de riquezas, venenoso, transforma pelo fogo.</p><p><strong>&#9808; </strong>Sagit&#225;rio: Smaug (Cap. 12)<br>O arqueiro do zod&#237;aco versus o drag&#227;o: Bilbo enfrenta Smaug com palavras: adivinha&#231;&#245;es, enigmas, lisonja. Sagit&#225;rio rege a busca da verdade, a filosofia, mas tamb&#233;m a flecha certeira. &#201; Bard, o arqueiro, quem mata Smaug com a flecha negra: a imagem sagitariana por excel&#234;ncia.</p><p><strong>&#9809;</strong> Capric&#243;rnio: A Morte de Smaug e a Reivindica&#231;&#227;o da Montanha (Cap. 13&#8211;14)<br>Capric&#243;rnio rege a ambi&#231;&#227;o, as estruturas de poder, a heran&#231;a e o peso da hist&#243;ria. Thorin, ao entrar na Montanha, revela sua face mais capricorniana: a obsess&#227;o com o trono, o ouro, a linhagem. A doen&#231;a do drag&#227;o que o acomete &#233; a sombra de Capric&#243;rnio, &#233; a ambi&#231;&#227;o que se devora a si mesma.</p><p><strong>&#9810; </strong>Aqu&#225;rio: A Batalha dos Cinco Ex&#233;rcitos (Cap. 17)<br>Aqu&#225;rio rege o coletivo, a ruptura da ordem antiga, os ideais comunit&#225;rios. A batalha n&#227;o &#233; travada por um her&#243;i individual: &#233; ca&#243;tica, coletiva, e s&#243; se resolve pela interven&#231;&#227;o de for&#231;as maiores (as &#193;guias, Beorn). O ideal aquariano de comunidade entre povos diferentes (elfos, homens, an&#227;os, hobbit) emerge a duras penas.</p><p><strong>&#9811; </strong>Peixes: O Retorno / A Saudade do Lar (Cap. 18&#8211;19)<br>Peixes &#233; o &#250;ltimo signo: dissolu&#231;&#227;o, retorno ao oceano primordial, nostalgia. Bilbo volta para Bols&#227;o-do-Fim, descobre que foi dado como morto, seus pertences est&#227;o em leil&#227;o. Ele retorna transformado, mas o mundo n&#227;o o reconhece direito. &#201; a melancolia pisciana do her&#243;i que n&#227;o consegue se situar mais em nenhum dos dois mundos.</p><p>A jornada de Bilbo dura aproximadamente 14 meses, n&#227;o um ano solar completo, mas pr&#243;ximo o suficiente para que essa estrutura coincida em muito com as qualidades simb&#243;licas das esta&#231;&#245;es. O arco cronol&#243;gico &#233; mais ou menos assim: partida na tarde de abril (a festa inesperada &#233; em 26 de abril, segundo o calend&#225;rio tolkieniano estabelecido retrospectivamente no Ap&#234;ndice D de O Senhor dos An&#233;is). A chegada &#224; Montanha Solit&#225;ria e morte de Smaug &#233; em meados de outubro: o lago congelando, o outono avan&#231;ado. A Batalha dos Cinco Ex&#233;rcitos &#233; no in&#237;cio do inverno, e o Retorno de Bilbo &#224; sua vila &#233; em junho do ano seguinte.</p><p>Ent&#227;o o arco &#233;:</p><p>Primavera :: Ver&#227;o :: Outono :: Inverno :: Primavera seguinte</p><p>O que d&#225; de fato uma volta completa da roda do ano, mas espalhada por mais de um ciclo, n&#227;o exatamente um ano calend&#225;rio.</p><p>Essa estrutura se aproxima mais, portanto, do ciclo agr&#237;cola-ritual das tradi&#231;&#245;es indo-europ&#233;ias do que de um ano solar preciso: o her&#243;i parte com o florescimento, desce ao mundo das trevas no outono/inverno (a Montanha, Smaug, a batalha), e retorna com a primavera seguinte. &#201; a estrutura de Pers&#233;fone, de Os&#237;ris, de Dom Sebasti&#227;o na encantaria, da queda e ascens&#227;o que Tolkien conhecia muito bem atrav&#233;s de Frazer e dos mitos n&#243;rdicos.</p><p>Na astrologia tradicional isso corresponderia menos ao ciclo zodiacal de 12 signos e mais ao ciclo dos quatro &#226;ngulos do ano: os dois solst&#237;cios e os dois equin&#243;cios como pontos de virada narrativa.</p><p>As descri&#231;&#245;es de ambiente, assim, acompanham a qualidade do signo em que o Sol est&#225;: no clima, no espa&#231;o onde a a&#231;&#227;o acontece.</p><p>Em seu importante ensaio Sobre Hist&#243;rias de Fadas, Tolkien acentuava o quanto as criaturas do folclore s&#227;o seres intermedi&#225;rios entre a animalidade e o humano. Elas t&#234;m algum livre-arb&#237;trio, mas est&#227;o mais perto da natureza do que n&#243;s, e por isso suas hist&#243;ria demostram com clareza simb&#243;lica como a natureza imp&#245;e limites &#224;s nossas emo&#231;&#245;es. Suas motiva&#231;&#245;es sendo mais &#8220;puras&#8221;, intempestivas, quase sem os labirintos liminais entre instintos e raz&#245;es que n&#243;s temos. Entre outros motivos, &#233; por isso defendia a leitura desse g&#234;nero, inclusive por adultos (ele mesmo passou a se interessar por esse tipo de hist&#243;ria j&#225; longe da inf&#226;ncia): pelo modo como representam a for&#231;a da natureza em nosso comportamento. </p><p>Mas a natureza n&#227;o delimita o todo da nossa personalidade. Como bem definiu Tolkien: o homem &#233; a mais sobrenatural das criaturas. O que est&#225; de acordo com a astrologia tradicional.</p><p><em>(Com essa postagem inauguro outra se&#231;&#227;o do Boletim da Renova&#231;&#227;o Carism&#225;tica Sebastianista: o Lun&#225;rio Perp&#233;tuo, onde publicarei minhas notas de estudos de astrologia pr&#225;tica, simbolismo natural e calend&#225;rio lit&#250;rgico).</em></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://oricardodecarvalho.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Boletim da Renova&#231;&#227;o Carism&#225;tica Sebastianista &#233; uma publica&#231;&#227;o apoiada pelos leitores. Para receber novos posts e apoiar meu trabalho, considere tornar-se uma assinatura gratuita ou uma assinatura paga.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Nós fomos o que tu és e tu serás o que nós somos]]></title><description><![CDATA[Republico um conto de mist&#233;rio sobre um suposto encontro que tive com um suposto ex-presidente, onde revelo fatos assombrosos sobre origens de artefatos nacionais.]]></description><link>https://oricardodecarvalho.substack.com/p/nos-fomos-o-que-tu-es-e-tu-seras</link><guid isPermaLink="false">https://oricardodecarvalho.substack.com/p/nos-fomos-o-que-tu-es-e-tu-seras</guid><dc:creator><![CDATA[Ricardo de Carvalho]]></dc:creator><pubDate>Tue, 14 Jul 2026 13:04:06 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Flq-!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F53e59714-b8a4-47f5-b16b-c1470bdee9e6_888x409.avif" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Eu estava na metade da minha vida quando o ex-presidente e imortal Sn&#235;y apresentou-me um documento secreto acerca das coisas espantosas que acontecem nos &#237;nferos de nosso pa&#237;s. Havia passado o dia na casa de um amigo que mora no Calhau, eu descia o bairro na dire&#231;&#227;o da parada na avenida Litor&#226;nea quando, de repente, vi-me diante da casa do homem. Fiquei analisando um pouco o port&#227;o, por causa daquela lenda de que o dito foi tomado de um famoso cemit&#233;rio antigo de nossa cidade. Ent&#227;o ele apareceu na janela, sumiu, por fim veio pelo terra&#231;o apontando para a edi&#231;&#227;o antiga do Carlos Magno e os Doze Pares de Fran&#231;a nas minhas m&#227;os, eu havia ganho de meu amigo nesse dia.</p><p>Era a hora da novela das seis, a que passava foi aquela sobre o Segundo Reinado. Sn&#235;y convidou-me para assistir com ele para depois me mostrar a sua biblioteca onde guardava tesouros como sua edi&#231;&#227;o de inf&#226;ncia desse meu livro. </p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://oricardodecarvalho.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Boletim da Renova&#231;&#227;o Carism&#225;tica Sebastianista &#233; uma publica&#231;&#227;o apoiada pelos leitores. Para receber novos posts e apoiar meu trabalho, considere tornar-se uma assinatura gratuita ou uma assinatura paga.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>No epis&#243;dio do dia, o Imperador DomPedro II se perdia na mata e encontrava uns &#237;ndios, e com eles tomava ch&#225; de ayahuasca, tendo assim uma experi&#234;ncia vision&#225;ria, espiritual.</p><p>Eu disse que esse era o tipo de licen&#231;a po&#233;tica que eu usaria caso fosse o escritor da novela. Sn&#235;y respondeu que n&#227;o era t&#227;o viajante assim a cena: o Pedro real cultivou uma vida dedicada aos Pequenos e Grandes Mist&#233;rios, nos quais foi iniciado por Bonif&#225;cio de Andrada e Silva, seu tutor. Surpreendi-me. Sabia que o Imperador fora ma&#231;om, mas achava que era desses ma&#231;ons velhos cheira-peido que se re&#250;nem apenas pelos jogos de poder e para falar que bom era no tempo deles. N&#227;o acompanho a novela, mas disse que noutro dia vi uma cena em que Dom Pedro II conversava com Thoth, o esp&#237;rito iniciador dos mist&#233;rios herm&#233;ticos, e eu achei que isso era uma refer&#234;ncia ao famoso gosto do Imperador pela cultura eg&#237;pcia. &#8220;N&#227;o&#8221;, disse Sn&#235;y, &#8220;Dom Pedro II conversava muito com Hermes-Toth, como bom fil&#243;sofo herm&#233;tico que era, e eu posso lhe provar. Mas s&#243; depois da novela.&#8221;</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Flq-!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F53e59714-b8a4-47f5-b16b-c1470bdee9e6_888x409.avif" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Flq-!, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/w_424, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/c_limit, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/f_webp, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/q_auto:good, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F53e59714-b8a4-47f5-b16b-c1470bdee9e6_888x409.avif 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Flq-!, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/w_848, 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stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">Cromolitografia de 1898</figcaption></figure></div><p>Terminou o cap&#237;tulo e ele me levou &#224; sua imensa biblioteca. Ficaria boquiaberto caso fosse desse que ficam boquiabertos de assombro e de espanto. Mostrou-me uns cadernos muito velhos, centen&#225;rios. &#8220;Sabe o que s&#227;o estes livros? S&#227;o di&#225;rios em que Dom Pedro II anotava as pr&#225;ticas m&#225;gicas dele. Veja, n&#227;o d&#225; para entender nada, n&#233;? Estes s&#237;mbolos aqui s&#227;o nota&#231;&#245;es simb&#243;licas de planetas, elementos, opera&#231;&#245;es, sigilos, essas coisas. O resto est&#225; todo em l&#237;ngua tupi, mas em caracteres hebraicos.&#8221; Perguntei se ele conseguia ler, e ele disse que sim, alguma coisa. Decifrar esses cadernos, que ganhara do amigo Josu&#233; Montello, era uma distra&#231;&#227;o da velhice. &#8220;J&#225; est&#225; no meu testamento que a Biblioteca Nacional ir&#225; receb&#234;-los depois que eu morrer, n&#227;o se preocupe&#8221;, disse, rindo.</p><p>&#8220;Olha aqui.&#8221; Mostrou-me uma foto muito antiga de um homem negro. &#8220;Este era o dentista-barbeiro que o atendia. Raimundo Nonato, o nome dele. Era m&#233;dium, e dizia receber o esp&#237;rito do Dom Sebasti&#227;o, com quem Dom Pedro II conversava pedindo conselhos. Veja, aqui est&#227;o algumas coisas que o esp&#237;rito passou pro Imperador.&#8221; E aquele vener&#225;vel homem mostrava-me noutros cadernos (eram uns sete) uns esquemas estranhos. &#8220;Isto aqui &#233; a receita da feijoada, que Dom Sebasti&#227;o disse ter aprendido de crist&#227;os et&#237;opes na &#193;frica, ensinado-a num transe &#224; m&#237;stica louca Rosa Egipc&#237;aca. conhece-a? Veja s&#243;, a feijoada n&#227;o &#233; nem um prato franc&#234;s nem uma estrat&#233;gia usada por escravos para aproveitar restos de comida da casa-grande.&#8221;</p><p>Sn&#235;y abriu outro caderno, fazendo-me surpresa novamente: eram animais desenhados, acompanhados cada um de um numeral. &#8220;&#201; o jogo do bicho. Pelo que entendi, &#233; uma estrat&#233;gia m&#225;gica de manipular energias on&#237;ricas. Sabe, aquela coisa de decifrar sonhos para tentar acertar qual bicho sair&#225; nessa loteria popular. Cria-se assim no campo astral uma rede de energia que est&#225; alimentando as for&#231;as simbolizadas pelos animais. S&#243; n&#227;o consegui decifrar que for&#231;as s&#227;o essas.&#8221;</p><p>Claro que fiquei fascinado por aquilo ali, mesmo n&#227;o acreditando em nada. Era um tesouro incr&#237;vel.</p><p>Por fim, mostrou-me outro caderno. Nele, indica&#231;&#245;es do auto do Bumba-Meu-Boi: os personagens, as datas sagradas em que se deviam dar os principais ritos (o batismo e a morte do boi, entre outros), algumas letras de can&#231;&#245;es para o auto. &#8220;Isto aqui &#233; maravilhoso: Dom Sebasti&#227;o lhe disse que esse auto deveria ser representado em todo m&#234;s de junho para restaurar as for&#231;as criativas que fecundam a natureza e renovam as possibilidades perdidas durante o ano na sociedade no campo pol&#237;tico, art&#237;stico e espiritual. &#201; uma festa inici&#225;tica, e neste caderno se encontra a sabedoria oculta por tr&#225;s do folguedo.&#8221;</p><p>&#8220;Poder&#237;amos passar a noite toda nisso&#8221;, falou o ex-presidente, mas j&#225; estava se cansando, daqui a pouco iria jantar pra assistir o jornal e depois dormir (n&#227;o gostava da novela das nove).</p><p>Enquanto ele me levava ao port&#227;o da rua, falou-me outro mist&#233;rio, desta vez sobre a queda do Imperador. &#8220;Um segredo que o mundo n&#227;o pode saber ainda: Dom Sebasti&#227;o recomendou a Dom Pedro II que pusesse um s&#243;sia para reinar em seu lugar, para que ele pudesse se dedicar ao hermetismo sem distra&#231;&#245;es. Afinal, n&#227;o mandar, mas investigar o universo &#233; que era a Verdadeira Vontade do pai de Dona Isabel. E assim fez nos &#250;ltimos dez anos do Imp&#233;rio. Quando deu aquela merda toda com Deodoro da Fonseca, Dom Pedro II j&#225; estava morando escondido numa fazenda no Planalto Central h&#225; anos, tentando transformar seu chumbo em ouro. Ca&#237;do o trono, decidiu-se a buscar uma cidade sagrada que existiria nas profundezas do Brasil, no subterr&#226;neo do pa&#237;s. Dessa vez n&#227;o foi Dom Sebasti&#227;o que lhe falou dessa cidade, o rei soube atrav&#233;s de um manuscrito feito por bandeirantes no s&#233;culo XVI.&#8221;</p><p>Eu perguntei se n&#227;o era o Manuscrito 512, que instigou o Coronel Fawcett, um ingl&#234;s, a perder-se na Serra do Roncador em busca dessa cidade no come&#231;o do s&#233;culo XX. &#8220;Sim, esse mesmo, s&#243; que Dom Pedro II foi ao lugar certo, na Bahia.&#8221;</p><p>&#8220;Ele achou?&#8221;</p><p>&#8220;S&#243; Deus sabe&#8221;, disse, com aquele brilho nos olhos que o acompanhou durante toda a nossa conversa.</p><p>Depois de outros mist&#233;rios que n&#227;o posso contar, despedimo-nos. Fui andando at&#233; a Avenida Litor&#226;nea, e num quiosque pedi uma cerveja. Passei uma boa hora meditando sobre outonos de patriarcas antes de voltar pra casa. Pareceu um sonho. </p><p><em>Com essa postagem inauguro uma se&#231;&#227;o desta newsletter: Espectrologia. S&#227;o exerc&#237;cios de espectrologia aplicada: horror, mundos intermedi&#225;rios, ovnis, fic&#231;&#227;o especulativa, seres do folclore, terra dos sonhos. Com esse conto come&#231;o tamb&#233;m a soltar, aos poucos, os relatos de visagens a serem coligidos num volume por enquanto intitulado de </em>O Aut&#244;mato de Descartes<em>. O intuito &#233; publicar um conto por m&#234;s nessa linha.</em></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://oricardodecarvalho.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Boletim da Renova&#231;&#227;o Carism&#225;tica Sebastianista &#233; uma publica&#231;&#227;o apoiada pelos leitores. Para receber novos posts e apoiar meu trabalho, considere tornar-se uma assinatura gratuita ou uma assinatura paga.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Por onde venho perambulando]]></title><description><![CDATA[Em que inicio uma nova se&#231;&#227;o neste per&#237;odico: Comp&#234;ndio Narrativo do Peregrino do Quinto Imp&#233;rio]]></description><link>https://oricardodecarvalho.substack.com/p/por-onde-venho-perambulando</link><guid isPermaLink="false">https://oricardodecarvalho.substack.com/p/por-onde-venho-perambulando</guid><dc:creator><![CDATA[Ricardo de Carvalho]]></dc:creator><pubDate>Tue, 23 Jun 2026 16:24:33 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!iM3c!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5ff2513d-f474-4092-a49c-71969164c262_720x1280.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Entrada 230626 do Comp&#234;ndio Narrativo do Peregrino do Quinto Imp&#233;rio, v&#233;spera da festa de S&#227;o Jo&#227;o</p><p>i.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://oricardodecarvalho.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Boletim da Renova&#231;&#227;o Carism&#225;tica Sebastianista &#233; uma publica&#231;&#227;o apoiada pelos leitores. Para receber novos posts e apoiar meu trabalho, considere tornar-se uma assinatura gratuita ou uma assinatura paga.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Se "todo come&#231;o &#233; involunt&#225;rio", cada recome&#231;o &#233; um ato de soberania e um ato de perd&#227;o diante das falhas cometidas enquanto se tentava ser fiel &#224;quela inten&#231;&#227;o inicial. Pois o perd&#227;o em si j&#225; &#233; um ato de soberania: &#233; n&#227;o deixar que a m&#225;goa e o arrependimento continuem travando o bem que voc&#234; foi chamado a fazer.</p><p>ii.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!n0cn!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6715b8e6-cf55-4dae-8a35-b21adc1e89e9_960x1354.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!n0cn!, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/w_424, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/c_limit, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/f_webp, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/q_auto:good, 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y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">&#8220;O Homem do Zod&#237;aco&#8221;, um diagrama de um corpo humano e s&#237;mbolos astrol&#243;gicos de um manuscrito gal&#234;s do s&#233;culo XV.</figcaption></figure></div><p></p><blockquote><p>Voc&#234; est&#225; deitado na poltrona reclin&#225;vel para a transfus&#227;o de sangue, em seguida sente a picada da agulha no antebra&#231;o enquanto aperta o punho contra si. Voc&#234; geralmente gosta de ver o sangue preenchendo a bolsa com o fluxo inicial de fluido percorrendo o cano transparente de pl&#225;stico, mas dessa vez far&#225; diferente. Voc&#234; est&#225; calmo e o ambiente ao redor tamb&#233;m: a tv suficientemente baixa para ser ignorada, o zumbido dos equipamentos de recolher sangue e refrigerar o ar como uma frequ&#234;ncia prop&#237;cia ao transe ou &#224; medita&#231;&#227;o. Voc&#234; fecha os olhos e a doutora ao lado pergunta se voc&#234; est&#225; bem. Voc&#234; responde que sim, voc&#234; diz que vai aproveitar para relaxar a cabe&#231;a.</p><p>Voc&#234; faz aqueles exerc&#237;cios respirat&#243;rios de movimento quatern&#225;rio: a aten&#231;&#227;o no inspirar vagaroso, depois na reten&#231;&#227;o do ar no diafragma, depois no expirar tamb&#233;m vagaroso, depois no esvaziar dos pulm&#245;es por um curto per&#237;odo para depois retomar o ciclo. O foco mental sempre no pr&#243;prio corpo. Se um pensamento emerge, voc&#234; o deixa ir sem se deter nele, um movimento de drible semelhante a mil outras t&#233;cnicas respirat&#243;rias como a de Jacobsen ou aquela de visualizar cada osso do corpo, do topo da cabe&#231;a, onde o chacra da coroa vibra, at&#233; os artelhos nos p&#233;s, e cont&#225;-los um por um at&#233; que o c&#233;rebro desligue seu mecanismo emissor e deixe operando o mecanismo receptor, para deixar de impedir que a realidade nos fale sem que interponhamos uma discursividade que distor&#231;a essa informa&#231;&#227;o feito frequ&#234;ncias se interpondo e bagun&#231;ando a mensagem.</p><p>Voc&#234; se pergunta se isso n&#227;o &#233; perigoso, n&#227;o s&#243; do ponto de vista fisiol&#243;gico, mas mental e, pior ainda, espiritual. Uma pessoa pode se tornar uma antena de quiumbas e cracas astrais, todo mundo j&#225; &#233; um ponto de intersec&#231;&#227;o de correntes de causalidade, de eventos f&#237;sicos, a&#231;&#245;es humanas e energias arquet&#237;picas, fora as frequ&#234;ncias eletromagn&#233;ticas emanando de mil fontes diversas num raio de duzentos metros. </p><p>Voc&#234; deixa o pensamento ir sem dialogar com ele. Outros pensamentos v&#234;m e voc&#234; apenas se esquiva deles. Em pouco tempo sua mente &#233; um campo aberto. Voc&#234; consegue mais ou menos captar o momento em que os impulsos el&#233;tricos na massa do seu c&#233;rebro mudam para um valor de hertz diferente daquele da vig&#237;lia e daquele do sonho, mas n&#227;o o verbaliza para si. &#201; quase uma &#8220;lombra&#8221; o que voc&#234; sente. Ent&#227;o voc&#234; tem um <em>insight</em> poderoso, abre os olhos e v&#234; a bolsa quase cheia balan&#231;ando ritmicamente no equipamento com seu sangue. Voc&#234; guarda para si o <em>insight</em> e agradece a Deus.</p><p>Voc&#234; sabe que o <em>insight</em> veio atrav&#233;s de voc&#234;, uma reconfigura&#231;&#227;o de mem&#243;rias aflorando das sinapses sob a forma de um atrator estranho que, devido aos <em>arythmos arkhoi</em> que o estruturam, reconfigura informa&#231;&#245;es v&#225;rias antes virtualizadas e as atualiza todas na unidade de uma ideia. Um amigo, ao ouvir seu relato, dir&#225; que &#233; a mesma l&#243;gica dos exerc&#237;cios de asfixiamento er&#243;tico no meio da rela&#231;&#227;o sexual que Julius Evola praticava para ter revela&#231;&#245;es vindas do que quer que ele estivesse mexendo em termos de arqu&#233;tipos, <em>daemons</em> ou o escambau, intui&#231;&#245;es que ele usava na sua busca pela realiza&#231;&#227;o da grande obra. Voc&#234; imagina que os mesmos circuitos est&#227;o operando em todas as pessoas, voc&#234; intui os efeitos dos circuitos em nossos corpos e mentes, voc&#234; sabe que sua mente &#233; seu corpo, o seu c&#233;rebro se ramifica por toda a extens&#227;o material de voc&#234; atrav&#233;s das termina&#231;&#245;es nervosas, voc&#234; imagina que os efeitos do fluxo ordenado ou desordenado nesses circuitos dependem dos deuses que essa pessoa cultiva, de quais deuses s&#227;o capturados por esse fluxo.</p><p>No fim do relato, voc&#234; recomendar&#225; aos amigos numa rede social privada que eles doem sangue: &#233; &#243;timo para aqueles que precisam, &#233; &#243;timo tamb&#233;m porque renova seu sangue e tem efeitos positivos no organismo, como diminuir o n&#237;vel de ferritina. O pessoal do <em>biohacking</em> deve conhecer muitos outros benef&#237;cios, voc&#234; acentuar&#225;. Mas voc&#234; ao dora j&#225; est&#225; satisfeito o suficiente com a possibilidade de promover a circula&#231;&#227;o de informa&#231;&#227;o nessa cibern&#233;tica de participa&#231;&#227;o simb&#243;lica no mist&#233;rio, na medida em que doar algo de si auxilia nas correntes de renova&#231;&#227;o e expans&#227;o de energias travadas (energia sendo um nome ruim para correntes de causalidade f&#237;sicas e abstratas, humanas e, porque n&#227;o dizer, supra e infra-humanas que interferem em variados graus no livre arb&#237;trio). E, como rebote, fortalece internamente em voc&#234; a fonte das correntes de prosperidade &#8212; e prosperidade segundo o simbolismo jupiterino, muito al&#233;m do material &#8212; podendo tamb&#233;m pensar que sim, a lei da atra&#231;&#227;o existe enquanto fortalecimento da pr&#243;pria presen&#231;a no ser, mas que, como em quase todos os conceitos do esoterismo, existe, mas n&#227;o desse jeito que esses doidos vivem falando.</p></blockquote><p>(Trecho do meu romance <em>&#8220;O Auto de Dom Sebasti&#227;o Contra a Serpente Encantada&#8221;</em>, ainda inacabado.)</p><p>iii.</p><p>Tenho pensado muito <a href="https://www.youtube.com/watch?v=mt63A5vZ-UM">naquela fala de Olavo sobre criar o pr&#243;prio sistema</a>. Aquela sobre o erro de passar o tempo todo combatendo o sistema opressor porque, desse modo, voc&#234; acaba configurando seu pr&#243;prio ser pelas coordenadas desse sistema que deseja destruir: voc&#234; vive em fun&#231;&#227;o dele. O sistema j&#225; habita na gente e delimita o alcance das rea&#231;&#245;es contr&#225;rios, atac&#225;-lo com as armas criadas por ele s&#243; serve para fortalecer o seu dom&#237;nio em n&#243;s. Pior: o sistema se apropria das estrat&#233;gias que se cria para feri-lo, voltando-as no sentido pr&#243;prio fortalecimento. </p><p>A solu&#231;&#227;o &#233; criar o pr&#243;prio sistema sob um outro sistema de valores, cultiv&#225;-los como um jardim, uma estufa em meio ao caos.</p><p>Devido ao movimento descontrolado de pensamentos negativos constante nestes meus &#250;ltimos anos (o tal do <em>overthinking</em> das pessoas com TDA, contra os quais &#233; muito dif&#237;cil lutar quando todos os m&#233;dicos falharam por d&#233;cadas em detectar esse probleminha), cuja causa material consiste nos circuitos adoecidos nesse processo de descompensamento entre a hiperatividade de sinapses de uma am&#237;gdala hiperestimulada e as conex&#245;es enfraquecidas nesse c&#243;rtex pr&#233;-frontal respons&#225;vel pela l&#243;gica e pelo controle emocional, a autossabotagem e o pensamento viciado atravancaram os rumos de uma cria&#231;&#227;o de um sistema pessoal. Neste mundo deca&#237;do j&#225; &#233; imposs&#237;vel a liberdade total diante das potestades do ar. </p><p>O problema tanto maior com os insights nunca deixando de surgir. &#201; como estar ligado constantemente a uma fonte de criatividade mas sob uma maldi&#231;&#227;o, como a que ocorre naquela edi&#231;&#227;o de de Sandman em que um escritor sequestra Calipso, uma das Nove Musas da antiguidade grega, e a abusa constantemente porque isso o faz ter ideias que o ajudam a retomar uma carreira liter&#225;ria fracassada. Sandman, a entidade cujo reino &#233; o Sonhar, consegue resgatar Calipso, e sua puni&#231;&#227;o &#233; lan&#231;ar sobre o escritor a seguinte maldi&#231;&#227;o: in&#250;meras ideias maravilhosas nascendo sem parar, de modo que ele n&#227;o consegue focar a aten&#231;&#227;o em uma s&#243;. O escritor n&#227;o tem a m&#237;nima ag&#234;ncia de calar a mente para manifestar a ideia fora de si, disseminar a ideia, deix&#225;-la crescer no subsolo, v&#234;-la brotar e cuidar dela com podas, &#225;gua, prote&#231;&#227;o do sol e dos vermes at&#233; poder colher seus frutos e vend&#234;-los no mercado na forma de uma obra art&#237;stica acabada. Assim que eu me sentia (pouco importa aqui se as ideias eram boas ou n&#227;o).</p><p>A ansiedade foi crescendo e piorando na medida em que comecei a ter medo de repetir o destino do personagem. No fim da hq, do nada ele sentiu um vazio na mente. Nenhuma ideia nova, nenhum<em> insight</em>, a imagina&#231;&#227;o se atrofiou, secou. Uma analogia poss&#237;vel para a pessoa que chega a um estado depressivo tal em que n&#227;o sente mais gosto em nada, perdendo toda motiva&#231;&#227;o de criar uma sa&#237;da desse inferno. </p><p>Gra&#231;as a Deus, aconteceu algo por aqui antes da cat&#225;strofe.</p><p>iv.</p><p>Nisso de ficar pensando e pesquisando sistemas pessoais, a mem&#243;ria primeira ativada foi a do <em>Di&#225;rio da Felicidade</em>, de Nicolae Steinhardt, algo de que j&#225; falei <a href="/__u/oricardodecarvalho.substack.com/p/quando-nao-existe-a-politica">por aqui</a>: aquelas pessoas fazendo da pris&#227;o um ambiente cavaleiresco, no qual usavam a cultura cultivada no tempo da liberdade para criar um sistema paralelo ao comunismo romeno. Se o sistema oprimia seus corpos, eles n&#227;o deixaram que os esmagasse por dentro. &#201; imposs&#237;vel n&#227;o lembrar tamb&#233;m do in&#237;cio do di&#225;rio, onde Steinhardt fala de figuras que, diante de momentos terr&#237;veis como o in&#237;cio de uma guerra ou um julgamento que j&#225; se sabia que seria injusto, estavam vivendo em uma outra frequ&#234;ncia.</p><p>&#201; algo dif&#237;cil para quem entra nesse sistema com o c&#233;rebro inflamado, o que pode gerar frustra&#231;&#245;es que por sua vez adoecem ainda mais a mente. H&#225; todo um trabalho de aprender a conviver com o pr&#243;prio corpo, as emo&#231;&#245;es e o pensamento para evitar que os circuitos errados sejam sempre disparados e acabem refor&#231;ando esse caminho maltratado; ou seja, trata-se de ajustar a neuroplasticidade (n&#227;o estranhem esta linguagem ao longo de todo este boletim: ando lendo <em>Gra&#231;a Infinita</em>, de David Foster Wallace, e deixando-me contaminar pelo livro).</p><p>Basta pensar na quantidade de gente em um pa&#237;s com liberdade como o Brasil, mas com os circuitos internos todos deformados. Isso &#233; algo que s&#243; comecei a entender recentemente, ap&#243;s alguns estudos sobre o problema daquilo que chamo de <em>arch&#233;</em> vital (um nome ruim que preciso trocar, mas que &#233; uma tentativa de chegar &#224; realidade concreta comum daquilo a que v&#225;rias tradi&#231;&#245;es d&#227;o nomes diferentes: <em>viriditas</em>, <em>qi</em>, <em>prana</em>, for&#231;a vital, <em>vis</em>, <em>&#233;lan vital</em>, <em>conatus</em>; depois falo disso em boletins futuros).</p><p>Lembro de um <em>tweet</em> que dizia que o sucesso de uma pessoa depende do fluxo harm&#244;nico dos quatro horm&#244;nios da felicidade, a saber: serotonina, ocitocina, dopamina e endorfina. Algu&#233;m, que viu o galo cantar mas n&#227;o sabe onde, disse que pensar assim era um retorno a uma vis&#227;o mecanicista do come&#231;o da modernidade, uma imagem de sa&#250;de em torno dos quatro humores (sangue, b&#237;lis negra, b&#237;lis amarela e fleuma), uma pr&#233;-psicologia dos temperamentos. O erro est&#225;, claro, em n&#227;o ver que essa vis&#227;o &#233; mais antiga que o mecanicismo moderno. </p><p>(Um erro curioso que, por sua vez, me lembrou o <em>tweet</em> de outro sujeito que criticou a vis&#227;o do Papa sobre o homem, na &#250;ltima enc&#237;clica, como dualista, quando a tradi&#231;&#227;o que o Papa mant&#233;m entende o homem como um composto integrado de corpo, alma e esp&#237;rito. Mas isso &#233; o Twitter).</p><p>Bem, os quatro humores s&#227;o an&#225;logos dos quatro elementos da f&#237;sica antiga, que, por sua vez, s&#243; podem ser entendidos &#224; luz de um quinto elemento que os transcende. A pesquisa sobre <em>arch&#233; vital</em> tem tudo a ver com isso.</p><p>v.</p><p>Parte do caminho que percorri aqui foi influenciada pelo contato recente com os aceleracionistas, que, por sua vez, me levaram a me interessar por Deleuze e Guattari. Esses dois trataram da quest&#227;o da circula&#231;&#227;o de energia vital em um meio cultural, econ&#244;mico e pol&#237;tico que organiza esses fluxos. Lembro quando, ainda aluno novo do COF, anotei os assuntos aos quais gostaria de me dedicar pela vida toda, e um deles era a rela&#231;&#227;o entre depress&#227;o e cultura, algo que Olavo chega a mencionar aqui e ali, sem sistematizar. O interesse n&#227;o surgiu por causa da crise depressiva &#8212; a depress&#227;o s&#243; foi se manifestar na pandemia &#8212;, mas porque eu convivia com muitas pessoas doentes. Nunca fui atr&#225;s de sistematizar esse problema, mas as descri&#231;&#245;es de esquemas de fluxos libidinais e afins em Deleuze e Guattari com que me deparei naquelas conversas alucinadas na outra rede me trouxeram de volta a esse intuito perdido.</p><p>N&#227;o tenho como apontar aqui os erros graves da perspectiva constru&#237;da por ambos, sobretudo aqueles que t&#234;m origem em Spinoza, mas preciso reconhecer que esse contato me ajudou a perceber, em Santa Hildegarda e em Culpeper (este conheci gra&#231;as ao trabalho de <a href="https://www.instagram.com/salisburialucas/">Salisb&#250;ria</a>, cujo trabalho &#233; um dos oito ou nove empreendimentos culturais mais importantes sendo feitas hoje no Brasil), um fio que sigo tentando desfiar, no qual estou bem emaranhado.</p><p>Algo que tamb&#233;m apenas indicarei, por quest&#227;o de espa&#231;o e escopo, para tratar em outro momento, &#233; como <a href="https://www.amazon.com.br/Based-Deleuze-Reactionary-Leftism-Gilles/dp/1734452900">um livro pol&#234;mico e mal compreendido</a> de <a href="https://otherlife.co/about/">Justin Murphy</a>, em que apresenta uma leitura &#8220;direitista&#8221; de Deleuze, deu-me a impress&#227;o de que aquilo que Murphy viu nesse autor &#8212; suas descri&#231;&#245;es de fluxos e modos de escapar do sistema para uma forma pr&#243;pria de existir &#8212; se aproxima bastante de uma descri&#231;&#227;o da carreira de Olavo e de alguns de seus problemas. </p><p>Ia concluir esta se&#231;&#227;o linkando para um texto citado por Murphy em sua <em>newsletter </em>mas que acabei n&#227;o encontrando. Era uma descri&#231;&#227;o esquem&#225;tica de uma estrat&#233;gia de inova&#231;&#227;o, para que o pesquisador se destacasse num campo criativo. Nele havia um desenho que representava a ideia: umas linhas emaranhadas, vetores ao longo de um tempo acerca das pesquisas num campo do saber, em que a maior parte das linhas em vermelho simbolizavam as linhas de pesquisas j&#225; estabelecidas, enquanto &#224; direita e &#224; esquerda as linhas, em outra cor, representavam pontos de vista abandonados ou esquecidos. A ideia era explorar estas correntes de possibilidades hoje ignoradas. Minha ideia era fazer alguma analogia com as discuss&#245;es desta edi&#231;&#227;o do Boletim. Mas queria mesmo era repostar a ilustra&#231;&#227;o porque ela se parecia muito com o desenho de um terapeuta explicando como se tratava a neuroplasticidade de uma pessoa que estava com algumas sinapses adoecidas, de modo que os pensamentos flu&#237;am apenas por elas, reptindo os mesmos pensamentos de medo diante de situa&#231;&#245;es que exigem uma resposta criativa. Umas sinapses grossas no centro, enquanto ao redor outras livres mas n&#227;o usadas: a neuroplasticidade se resolvia atrav&#233;s de estrat&#233;gias de reeduca&#231;&#227;o dos afetos e da imagina&#231;&#227;o em que se procurava as sinapses ao redor.</p><p>N&#227;o encontrando o desenho, fiz este, a partir da mem&#243;ria:</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!iM3c!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5ff2513d-f474-4092-a49c-71969164c262_720x1280.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!iM3c!, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/w_424, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/c_limit, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/f_webp, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/q_auto:good, 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Para receber novos posts e apoiar meu trabalho, considere tornar-se uma assinatura gratuita ou uma assinatura paga.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Só uma última palavra sobre formação do imaginário]]></title><description><![CDATA[Mais o registro de um pensamento intrusivo e menos chutes em cachorros mortos]]></description><link>https://oricardodecarvalho.substack.com/p/so-uma-ultima-palavra-sobre-formacao</link><guid isPermaLink="false">https://oricardodecarvalho.substack.com/p/so-uma-ultima-palavra-sobre-formacao</guid><dc:creator><![CDATA[Ricardo de Carvalho]]></dc:creator><pubDate>Wed, 07 Jan 2026 20:08:20 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!8Nfr!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa91591e2-1ee4-4cfb-b218-d0aa33a5a9b7_477x478.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Certo, ningu&#233;m mais tem paci&#234;ncia com o tema: a onda de cursos digitais na &#225;rea de &#8220;alta cultura&#8221; j&#225; passou; novas tend&#234;ncias e formatos de ensino online come&#231;am a aparecer, e o que tenho a dizer j&#225; nem me apaixona no momento como me apaixonava h&#225; alguns anos &#8212; assim como a den&#250;ncia do tratamento equivocado do tema j&#225; foi feita por pessoas competentes. Quem viu, viu.</p><p>Acontece que ontem eu relia o Evangelho de Mateus, cap&#237;tulo 9, no qual Jesus usa uma imagem que sempre me vinha &#224; mente quando ouvia falar de forma&#231;&#227;o do imagin&#225;rio: a do vinho novo em odres velhos. O vers&#237;culo &#233; o 17:</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://oricardodecarvalho.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Renova&#231;&#227;o Carism&#225;tica Sebastianista &#233; uma publica&#231;&#227;o apoiada pelos leitores. Para receber novos posts e apoiar meu trabalho, considere fazer uma assinatura gratuita ou uma assinatura paga.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><blockquote><p>N&#227;o se coloca tampouco vinho novo em odres velhos; do contr&#225;rio, os odres se rompem, o vinho se derrama e os odres se perdem. Coloca-se, por&#233;m, o vinho novo em odres novos, e assim tanto um como outro se conservam.</p></blockquote><p>N&#227;o me interessa aqui falar do contexto evang&#233;lico em si; eu n&#227;o pensava numa analogia entre a forma&#231;&#227;o do imagin&#225;rio e a convers&#227;o a um ensinamento novo. Meu foco era o processo de desenvolvimento da consci&#234;ncia em rela&#231;&#227;o &#224;s artes que &#8220;consumimos&#8221;.</p><p>Como alguns devem lembrar, os perfis mais populares no Instagram faziam an&#225;lises superficiais de obras liter&#225;rias e cinematogr&#225;ficas, privilegiando aquelas que traziam algum conte&#250;do moralmente alinhado a uma vis&#227;o crist&#227; conservadora. Promoviam a import&#226;ncia de se ter zelo com o que se v&#234;, l&#234; e ouve, pois, evidentemente, nossa imagina&#231;&#227;o &#233; modelada pelo imagin&#225;rio da sociedade. Uma vez que a imagina&#231;&#227;o move a vontade na dire&#231;&#227;o de valores internalizados no esp&#237;rito (estou reduzindo bastante a quest&#227;o, eu sei, mas em suma &#233; isso), tal sele&#231;&#227;o de obras ajudaria a desenvolver virtudes contr&#225;rias aos v&#237;cios que o resto do povo alimenta enquanto consome o que a Globo, a Netflix e as paradas do Spotify promovem.</p><p>O problema &#233; que o nosso imagin&#225;rio j&#225; vem formado, na adolesc&#234;ncia, por todo tipo de influ&#234;ncia recebida desde a inf&#226;ncia at&#233; ent&#227;o: valores da fam&#237;lia, das m&#237;dias populares, videogames, a m&#250;sica da moda, a religi&#227;o (ou a falta dela), quadrinhos, enfim. A ideia de passar a ler Tolkien, Chesterton, alguns cl&#225;ssicos e afins apenas por causa dos valores, quando a sensibilidade j&#225; havia sido estruturada de modo ca&#243;tico, cheia de contradi&#231;&#245;es, gerando cacoetes cognitivos, funis de realidade e outros modelamentos naturalizados a ponto de se tornarem inconscientes, s&#243; poderia produzir o efeito do vinho novo em odre velho &#8212; no m&#225;ximo, uma perfumaria. S&#243; fazia sentido falar de forma&#231;&#227;o do imagin&#225;rio nesse n&#237;vel caso se tratasse de educa&#231;&#227;o infantil, e mesmo assim seria uma forma&#231;&#227;o incompleta.</p><p>N&#227;o &#224; toa, a forma&#231;&#227;o do imagin&#225;rio foi pensada por Olavo dentro do quadro geral de m&#233;todos que ele criou para formar personalidades filos&#243;ficas, n&#227;o crentes comuns. A forma&#231;&#227;o do imagin&#225;rio se d&#225; em conjunto com outras t&#233;cnicas ensinadas no COF, como o exerc&#237;cio do necrol&#243;gio, o treinamento da linguagem por meio da teoria dos quatro discursos, o aprimoramento do testemunho qualificado etc. A cr&#237;tica cultural, tal como Olavo a desenvolveu, tem objetivos bem espec&#237;ficos e nunca esteve no horizonte daqueles influenciadores. </p><p>Leem-se os melhores romances, poemas e contos, entre outros objetivos, para ampliar o conhecimento das possibilidades humanas, de modo que o fil&#243;sofo n&#227;o caia excessivamente em abstra&#231;&#245;es e esquemas sobre a humanidade que deixem de fora aquilo de que o homem &#233; capaz, para o bem e para o mal, bem como aquilo que lhe &#233; imposs&#237;vel realizar. A cultura tamb&#233;m &#233; um registro de seus limites, conforme experienciados ao longo da hist&#243;ria em sua &#226;nsia promet&#233;ica de super&#225;-los. </p><p>Soma-se a isso todo um treinamento para n&#227;o negar a unidade do real, limpar da consci&#234;ncia tudo aquilo que a cultura nos impede de acessar, em algum n&#237;vel, quanto aos princ&#237;pios primeiros. Essa &#8220;limpeza&#8221;, ou melhor, &#8220;reestrutura&#231;&#227;o&#8221; do imagin&#225;rio, a partir de um trabalho interior, transmuta os odres para o recebimento de um vinho novo que &#233; menos o vinho da cultura e mais o vinho da realidade &#8212; cuja presen&#231;a nos chega por meio do discurso que molda nossos atos e afetos.</p><p>(Ali&#225;s, outra mem&#243;ria que sempre me vem &#233; a de um texto que li h&#225; mais de quinze anos, num blog, sobre padres ortodoxos americanos que recomendavam livros de Dostoi&#233;vski a rec&#233;m-convertidos. Na ortodoxia, h&#225; uma preocupa&#231;&#227;o diferente da dos cat&#243;licos em rela&#231;&#227;o ao uso das imagens: procura-se reduzir o n&#250;mero de imagens interiores &#224;quelas que seriam conformadas &#224; Imagem divina em Cristo e em seus santos &#8212; por isso os &#237;cones costumam represent&#225;-los com cores, rostos, roupas e instrumentos de maneira pr&#233;-definida desde o in&#237;cio da cria&#231;&#227;o dessas imagens. Dostoi&#233;vski seria interessante porque se encontra a meio termo entre o imagin&#225;rio romanesco ocidental e o imagin&#225;rio ortodoxo russo, servindo como um amaciamento das paredes do odre para que, depois, a convers&#227;o o desocidentalize, e o vinho novo n&#227;o se azede ao ser vertido.)</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!8Nfr!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa91591e2-1ee4-4cfb-b218-d0aa33a5a9b7_477x478.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!8Nfr!, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/w_424, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/c_limit, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/f_webp, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/q_auto:good, 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stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p>Olavo chegou a usar, mais de uma vez, a imagem do m&#233;dico antigo para explicar seu m&#233;todo de aprendizado filos&#243;fico. Assim como o m&#233;dico-apotec&#225;rio, em sociedades tradicionais, experimentava em si as subst&#226;ncias para descobrir o ponto em que eram venenosas e o ponto em que eram curativas, o fil&#243;sofo deve absorver toda a tradi&#231;&#227;o filos&#243;fica para encontrar um ant&#237;doto contra seus efeitos negativos na sociedade. As obras liter&#225;rias passavam a integrar o universo interior do fil&#243;sofo de modo an&#225;logo. Trata-se de uma vis&#227;o alquimista do processo, na qual o fil&#243;sofo separa a experi&#234;ncia conceitual e imaginativa absorvida e a remodela pelo pensamento. Troca-se o vinho novo vertido em odre velho pelas opera&#231;&#245;es no atanor, no forno alqu&#237;mico. Por isso Olavo podia recomendar, sem problemas, um autor como Henry Miller, enquanto aqueles influenciadores poderiam ser condenados &#224; fogueira dos influenciados caso recomendassem, sei l&#225;, Baudelaire. E a aquisi&#231;&#227;o conjunta de uma consci&#234;ncia formal e est&#233;tica &#8212; que vai muito al&#233;m da faixa mais superficial das representa&#231;&#245;es &#8212; fortaleceria, por sua vez, essa dimens&#227;o moral da personalidade com mais profundidade (no sentido de enraizamento) do que o simples foco nela mesma, no choque de a&#231;&#245;es, ou na mensagem moral da anedota ou da f&#225;bula.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://oricardodecarvalho.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Renova&#231;&#227;o Carism&#225;tica Sebastianista &#233; uma publica&#231;&#227;o apoiada pelos leitores. Para receber novos posts e apoiar meu trabalho, considere fazer uma assinatura gratuita ou uma assinatura paga.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Duas notas sobre ficção]]></title><description><![CDATA[Numa nota falo mal da aten&#231;&#227;o exagerada a obras menores como Torto Arado, noutra detono gente que fica discutindo filminho da Marvel em vez de film&#227;o do Glauber Rocha]]></description><link>https://oricardodecarvalho.substack.com/p/duas-notas-sobre-ficcao</link><guid isPermaLink="false">https://oricardodecarvalho.substack.com/p/duas-notas-sobre-ficcao</guid><dc:creator><![CDATA[Ricardo de Carvalho]]></dc:creator><pubDate>Mon, 24 Nov 2025 12:49:05 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!2VRI!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fcd0eaa97-e904-4b83-bfa5-67fd31e962e3_480x360.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>A obra liter&#225;ria ficcional dotada de for&#231;a &#8212; penso em for&#231;a como categoria est&#233;tica, tal como a concebiam Harold Bloom e Fernando Pessoa &#8212; &#233; feliz em representar os choques das paix&#245;es humanas com acuidade, profundidade e amplitude. Shakespeare disse que a vida &#233; um teatro em que h&#225; sete atores em drama; nisso h&#225; tamb&#233;m um simbolismo astrol&#243;gico: pense na hierarquia das paix&#245;es simbolizadas nos planetas nas din&#226;micas de resolu&#231;&#227;o dos conflitos humanos. A gravidade dos desejos e a gra&#231;a nas vontades agem nessa termodin&#226;mica de paix&#245;es, e o bom autor conhece suas leis. H&#225; algo daquilo que &#233; chamado por Leonardo da Vinci de fantasia exata que &#233; o que se v&#234; na representa&#231;&#227;o fiel &#224; realidade. O leitor com bagagem saber&#225; elencar algumas obras fortes em que o autor conscientemente n&#227;o se interessa nesse aspecto (que n&#227;o &#233; o &#250;nico fator de julgamento est&#233;tico), claro, sabendo reconhecer porque o autor trabalhou seus personagens de modo negativo.</p><p>O grande artista, ao tentar representar com a maior fidelidade poss&#237;vel essas paix&#245;es, acaba oferecendo um retrato rico das for&#231;as sociais que se manifestam nas perip&#233;cias. Pois quem mente (mesmo no caso da &#8220;nobre mentira&#8221; que &#233; a arte) procura fornecer o maior n&#250;mero poss&#237;vel de detalhes acidentais da a&#231;&#227;o para convencer o ouvinte e mover seus sentimentos em seu favor. Mesmo na obra mais aleg&#243;rica ou situada em um palco absurdo, as personagens s&#227;o imaginadas a partir de tipologias espirituais, no sentido que Olavo d&#225; ao que, no mundo hindu, chama-se castas, no medieval, ordens, e na sociologia, classes sociais.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://oricardodecarvalho.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption"><em>Cartas da Ilha Grande</em> &#233; uma publica&#231;&#227;o mantida pelos leitores. Para receber novas postagens e apoiar meu trabalho, considere tornar-se um assinante gratuito ou pago.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>O problema da cr&#237;tica acad&#234;mica atual, que reduziu tudo ao social e ao hist&#243;rico, &#233; que o interesse atribu&#237;do a uma obra liter&#225;ria de real qualidade (n&#227;o falo aqui dos atuais panfletos identit&#225;rios em forma de romance) cresce &#224; medida que o autor, bem-sucedido na representa&#231;&#227;o dos choques das paix&#245;es, tamb&#233;m se sai bem no acidental, isto &#233;, na circunst&#226;ncia (embora seja preciso lembrar, como disse tamb&#233;m Olavo, que os acidentes s&#227;o metafisicamente necess&#225;rios). Tal &#234;nfase no acidental prov&#233;m daquela necessidade psicol&#243;gica pr&#243;pria do mentiroso &#8212; do nobre mentiroso &#8212; sobre a qual falei, e que acaba por desviar a aten&#231;&#227;o do essencial da arte.</p><p>J&#225; o bom leitor saber&#225; reconhecer a pertin&#234;ncia do retrato social que fundamenta a obra; mas o que lhe dar&#225; prazer ser&#225; comover-se com aquilo que est&#225; no centro, na ess&#234;ncia da composi&#231;&#227;o art&#237;stica. E mesmo o bom escritor que tenha forte interesse pol&#237;tico e conceda protagonismo &#224;s for&#231;as sociais s&#243; &#233; realmente bom quando se trai: quando revela a liberdade de esp&#237;rito presente em seus personagens, na medida em que estes transcendem as for&#231;as externas que tentam reduzi-los a pe&#231;as de um mecanismo impessoal &#8212; ainda que essa transcend&#234;ncia se d&#234; apenas no plano do pensamento.</p><p>*</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!2VRI!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fcd0eaa97-e904-4b83-bfa5-67fd31e962e3_480x360.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!2VRI!, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/w_424, 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Ainda assim, continuei acompanhando de longe o projetudo, sobretudo porque me chamavam a aten&#231;&#227;o os usos que direitistas e esquerdistas fazem da cultura pop na internet.</p><p>Uma das formas de acompanhar essa &#8220;cultura&#8221; deu-se por meio do canal <a href="https://www.youtube.com/@QuadrinhosNaSarjeta">Quadrinhos da Sarjeta</a>, do professor e ex-cineasta Alexandre Linck. Tenho mil cr&#237;ticas &#224;s abordagens dele, mas &#233; o &#250;nico canal brasileiro sobre quadrinhos que considero assist&#237;vel, muitos epis&#243;dios t&#234;m valor consider&#225;vel.</p><p>O coment&#225;rio desta nota &#233; uma rea&#231;&#227;o lateral a uma vis&#227;o que ele tem sobre a ideia de que h&#225; algo como um avan&#231;o da cultura <em>woke</em> nas obras cinematogr&#225;ficas, s&#233;ries, quadrinhos e anima&#231;&#245;es (Linck &#233; um negacionista quanto &#224; apropria&#231;&#227;o dessas marcas).</p><p>Pois bem: h&#225; uma reclama&#231;&#227;o constante nas redes sociais contra a forma como a direita se apropriou de obras que chegaram a ser catalogadas com a rubrica ir&#244;nica de <em>cinema incel</em>: filmes como <em>Clube da Luta</em>, <em>Eles Vivem</em>, <em>Matrix</em>, <em>Joker</em>, <em>Psicopata Americano</em>, entre outros, que fazem cr&#237;ticas progressistas n&#227;o apenas ao sistema capitalista, mas principalmente &#224; figura do macho. Eles foram adotados justamente como defesa desse sistema e do masculinismo &#8220;t&#243;xico&#8221;. Os f&#227;s desses filmes seriam burros por n&#227;o entenderem a mensagem. Inteligentes s&#227;o os progressistas, essas figuras que deixaram de lado os bons livros de Umberto Eco (penso em <em>Obra Aberta</em>) em favor da obra-prima da desonestidade intelectual que &#233; <em>O Fascismo Eterno</em>.</p><p>(A prop&#243;sito: n&#227;o h&#225; masculinismo t&#243;xico sem feminilidade cancer&#237;gena)</p><p>Linck, algumas vezes, defendeu que as obras v&#234;m sendo pensadas de forma d&#250;bia desde o roteiro justamente para alcan&#231;ar os dois espectros ideol&#243;gicos e gerar discuss&#245;es animadas pela rivalidade, o que ajudaria na bilheteria. Pode ser. Mas vejo a dupla leitura potencial em cada <em>blockbuster </em>sob outra chave.</p><p>O abuso de formas como a jornada do her&#243;i gera tipos de roteiros em que os personagens encarnam arqu&#233;tipos muito pr&#243;ximos de um esquematismo que permite a identifica&#231;&#227;o por parte de todo mundo. Quanto mais pr&#243;ximo de uma pureza aleg&#243;rica, menos uma personalidade complexa se apresenta nas personagens. Personalidade se cultiva a meio caminho entre o arqu&#233;tipo e o estere&#243;tipo &#8212; e o estere&#243;tipo &#233; um arqu&#233;tipo customiz&#225;vel. As obras conceituais, mais experimentais por assim dizer, n&#227;o permitem essa apropria&#231;&#227;o m&#250;tua porque bebem naqueles elementos contra-culturais pensados justamente para sabotar a onipresen&#231;a dessas estruturas narrativos que dominam a cultura. Soma-se a isso o mimetismo presente nas rivalidades, descrito em detalhes na obra de Ren&#233; Girard; ent&#227;o comportamentos e rea&#231;&#245;es tornam-se facilmente intercambi&#225;veis, refletindo-se como espelhos colocados uns diante dos outros.</p><p>(Mas nem todas: um dia ainda defenderei uma leitura conservadora de <em>Barravento</em>, de Glauber Rocha, em di&#225;logo com as obras posteriores que buscaram cada vez mais uma ruptura com a tradi&#231;&#227;o &#8212; por&#233;m ainda dentro da tradi&#231;&#227;o. Invers&#245;es simb&#243;licas de cunho milenarista, como aparece em Glauber, s&#243; s&#227;o poss&#237;veis dentro da tradi&#231;&#227;o, e, por isso mesmo, fazem parte dela; at&#233; porque o <em>Livro do Apocalipse</em>, o c&#243;digo-fonte da cultura ocidental, j&#225; previu essas invers&#245;es.)</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://oricardodecarvalho.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption"><em>Cartas da Ilha Grande</em> &#233; uma publica&#231;&#227;o mantida pelos leitores. Para receber novas postagens e apoiar meu trabalho, considere tornar-se um assinante gratuito ou pago..</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Talvez você é que seja um chatgepetê humano.]]></title><description><![CDATA[Pensando a arte gerada por intelig&#234;ncia artificial por causa da urg&#234;ncia de voltarmos ao artesanato]]></description><link>https://oricardodecarvalho.substack.com/p/talvez-voce-e-que-seja-um-chatgepete</link><guid isPermaLink="false">https://oricardodecarvalho.substack.com/p/talvez-voce-e-que-seja-um-chatgepete</guid><dc:creator><![CDATA[Ricardo de Carvalho]]></dc:creator><pubDate>Fri, 21 Nov 2025 16:00:07 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ywA8!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb2fe6c34-d5a4-4715-8175-32743f27de3d_1024x1024.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Reacion&#225;rios s&#227;o os &#250;nicos que ainda podem sustentar a queixa de que a arte feita por IA n&#227;o &#233; arte. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ywA8!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb2fe6c34-d5a4-4715-8175-32743f27de3d_1024x1024.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ywA8!, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/w_424, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/c_limit, 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data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/b2fe6c34-d5a4-4715-8175-32743f27de3d_1024x1024.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:1024,&quot;width&quot;:1024,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:253873,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://oricardodecarvalho.substack.com/i/179564862?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb2fe6c34-d5a4-4715-8175-32743f27de3d_1024x1024.jpeg&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ywA8!, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/w_424, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/c_limit, 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y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">Pedi para a IA da Microsoft fazer uma releitura cyberpunk do quadro As meninas, do Vel&#225;squez</figcaption></figure></div><p>&#201; uma ironia hist&#243;rica: todo o s&#233;culo XX foi atravessado por vanguardas que se dedicaram justamente a dissolver, fragmentar ou relativizar o papel da ag&#234;ncia humana na cria&#231;&#227;o art&#237;stica &#8212; seja por meio do acaso programado, da aleatoriedade combinat&#243;ria de imagens, textos e sons, seja pela incorpora&#231;&#227;o de aparatos eletr&#244;nicos &#224; medida que computadores e m&#225;quinas afins se tornavam acess&#237;veis. Paralelamente, floresceram experi&#234;ncias de arte colaborativa, ou mesmo coletiva, nas quais autores se apropriavam, desmontavam e recombinavam materiais uns dos outros, movidos por ambi&#231;&#245;es que iam da cr&#237;tica ao individualismo &#8220;neoliberal&#8221; a projetos de coletivismo ut&#243;pico, como no caso recente do Banksy.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://oricardodecarvalho.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Cartas da Ilha Grande &#233; uma publica&#231;&#227;o sustentada pelos leitores. Para receber novos posts e apoiar meu trabalho, considere tornar-se assinante gratuito ou pago.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Quando os memes surgiram, lembrei-me de um antigo amigo deleuziano que, nos anos 2000, nutria verdadeiro fasc&#237;nio por esses experimentos; a l&#243;gica, afinal, era convergente. Nesse sentido, a <em>promptografia</em> &#8212; nome apropriado para o que hoje se produz com geradores de imagem &#8212; revela sua natureza h&#237;brida: exige-se uma cota m&#237;nima de ag&#234;ncia no prompt, outra nos algoritmos que operam segundo f&#243;rmulas concebidas por humanos, apoiadas, por sua vez, em tradi&#231;&#245;es art&#237;sticas consolidadas. Quanto mais consciente da hist&#243;ria das artes, e das linguagens da programa&#231;&#227;o, for o criador, tanto mais plena ser&#225; a pot&#234;ncia art&#237;stica dessa pr&#225;tica.</p><p>Em seu uso &#8220;fraco&#8221;, entretanto, a promptografia n&#227;o se distancia tanto de outras formas de produ&#231;&#227;o cultural igualmente formulaicas: o ilustrador que repete clich&#233;s com indiferen&#231;a; a m&#250;sica de diva pop concebida por uma d&#250;zia de m&#227;os seguindo os padr&#245;es mais previs&#237;veis do mercado; o autor de fantasia que se agarra com devo&#231;&#227;o literalista &#224; moldura da Jornada do Her&#243;i. A arte feita por IA &#233;, nesse sentido, apenas o espelho em que o artista med&#237;ocre reluta em se reconhecer.</p><p>E, de maneira semelhante ao que ocorreu com as vanguardas do in&#237;cio do s&#233;culo passado &#8212; confrontadas com a padroniza&#231;&#227;o da arte burguesa e com a perda de sentido de um virtuosismo mim&#233;tico ap&#243;s a fotografia &#8212; o desafio contempor&#226;neo n&#227;o est&#225; em rejeitar o novo instrumento, mas em reorient&#225;-lo. Para isso, ser&#225; preciso voltar os olhos para a tradi&#231;&#227;o: como Pound ao vasculhar a poesia medieval, Gaud&#237; ao atualizar a arte sacra; Parajanov fazendo cinema a partir do estilo medieval de pintura ou Picasso bebendo na arte cerimonial africana. James Joyce ao pensar uma est&#233;tica inteira com conceitos de Santo Tom&#225;s de Aquino.</p><p>O que a arte por IA imp&#245;e &#233; um desafio criativo um retorno, paradoxal e inevit&#225;vel, &#224; pergunta mais antiga: de onde vem, afinal, a forma?</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://oricardodecarvalho.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Cartas da Ilha Grande &#233; uma publica&#231;&#227;o sustentada pelos leitores. Para receber novos posts e apoiar meu trabalho, considere tornar-se assinante gratuito ou pago.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O nascimento da comédia]]></title><description><![CDATA[Uma rea&#231;&#227;o &#224; catarse c&#244;mica nas redes em formas de piadas sobre um epis&#243;dio recente da guerra civil brasileira]]></description><link>https://oricardodecarvalho.substack.com/p/o-nascimento-da-comedia</link><guid isPermaLink="false">https://oricardodecarvalho.substack.com/p/o-nascimento-da-comedia</guid><dc:creator><![CDATA[Ricardo de Carvalho]]></dc:creator><pubDate>Sat, 01 Nov 2025 12:12:26 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!AKKx!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1189eae3-c29a-4069-a26e-d13f27ebd86c_1280x952.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>(a edi&#231;&#227;o presente no site tem um par&#225;grafo a mais que a edi&#231;&#227;o enviada aos e-mails)</p><p>H&#225; alguns dias ocorreu o massacre do BOPE contra o Comando Vermelho no Rio de Janeiro, e as rea&#231;&#245;es nas redes sociais, em especial no Twitter, chamaram-me a aten&#231;&#227;o por alguns fatores. Quero, por&#233;m, falar apenas de um: a disputa sobre o que se pode ou n&#227;o rir. Esta postagem, inclusive, nasceu nessa rede social, e a reescrevo agora para ampliar o que ali ficou herm&#233;tico.</p><p>Sempre se deu enfoque ao olhar que Arist&#243;teles lan&#231;ou sobre o conceito de catarse na an&#225;lise do teatro tr&#225;gico, mas muitas vezes n&#227;o se atentou tanto &#224; sua fun&#231;&#227;o medicinal. Sim, o amigo deve ter se lembrado da regula&#231;&#227;o ps&#237;quica, do descarrego das emo&#231;&#245;es represadas do p&#250;blico, que ocorria &#224; medida que a estrutura narrativa se encaminhava para a revela&#231;&#227;o final de um segredo &#8212; sobretudo se o amigo tiver interesse por psicologia. Escrevo esta nota pensando numa vis&#227;o mais bruta da medicina das sociedades antigas e arcaicas, daquela medicina que se confundia com arte e com magia (ou religi&#227;o, se o amigo cat&#243;lico se escandalizar, como eu), para falar n&#227;o da trag&#233;dia, mas da com&#233;dia.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://oricardodecarvalho.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption"><strong>Cartas da Ilha Grande</strong> &#233; uma publica&#231;&#227;o mantida pelo apoio dos leitores. Para receber novos textos e apoiar meu trabalho, considere tornar-se assinante gratuito ou pago.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!AKKx!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1189eae3-c29a-4069-a26e-d13f27ebd86c_1280x952.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!AKKx!, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/w_424, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/c_limit, 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Sem querer estender-me demasiado numa explica&#231;&#227;o que demandaria espa&#231;o excessivo para os fins deste texto, remeto a um exemplo que li nesta semana mesmo em Jung.</p><p>Numa tribo, ou numa sociedade arcaica &#8212; at&#233; mesmo de complexidade imperial &#8212;, quando algu&#233;m ficava doente e ia ao paj&#233;, ao sacerdote, ao xam&#227;, este, al&#233;m de lhe dar algum rem&#233;dio natural, se necess&#225;rio, contava uma hist&#243;ria. Essa hist&#243;ria poderia ser cantada, poderia at&#233; ser teatralizada, ritualizada. Mas a hist&#243;ria tinha de estar ali. E n&#227;o era qualquer historinha, mas algum mito importante no complexo cultural daquela sociedade. Entre esses povos n&#227;o havia a no&#231;&#227;o de separa&#231;&#227;o entre mente e corpo como h&#225; na civiliza&#231;&#227;o moderna (mesmo que v&#225;rias tentativas de superar essa divis&#227;o tenham sido articuladas, desde a homeopatia at&#233; o resgate de religiosidades arcaicas). Uma doen&#231;a do corpo era tamb&#233;m uma doen&#231;a da mente &#8212; e vice-versa. A hist&#243;ria contada, cantada ou dan&#231;ada era escolhida pelo seu simbolismo pr&#243;prio, cujo sentido fosse an&#225;logo ao simbolismo da f&#243;rmula material ingerida (o rem&#233;dio) e &#224; doen&#231;a, que era em si tamb&#233;m um s&#237;mbolo de energias desajustadas na pessoa.</p><p>O teatro grego derivava dos ritos a Baco, nos quais essa fun&#231;&#227;o medicinal se exercia. Na verdade, antropologicamente falando, todo rito religioso &#233; medicinal nesse sentido mais amplo dos antigos &#8212; inclusive a Santa Missa, que &#233; tamb&#233;m um teatro: o Teatro do Sacramento, para usar a express&#227;o de Ant&#244;nio Vieira &#8212; e um evento m&#225;gico de transmuta&#231;&#227;o da mat&#233;ria, a transubstancia&#231;&#227;o da h&#243;stia, cujo efeito curativo j&#225; foi acentuado por muitos te&#243;logos e santos. Mas trata-se de uma cura da natureza humana, claro, embora aqui e ali apare&#231;am propostas terap&#234;uticas em que a frequenta&#231;&#227;o dos sacramentos cat&#243;licos tem o seu lugar.</p><p>O teatro grego surge aut&#244;nomo em rela&#231;&#227;o aos festivais b&#225;quicos, com o acento de evento civil e papel de regula&#231;&#227;o ps&#237;quica da <em>polis</em>, sob o ponto de vista pol&#237;tico. Claro que os temas sagrados persistem nas hist&#243;rias &#8212; Eur&#237;pides chegou a ser acusado de revelar os segredos das religi&#245;es de mist&#233;rio em suas pe&#231;as &#8212;, mas ali h&#225; uma autonomiza&#231;&#227;o da hist&#243;ria em si, a ponto de influenciar formas narrativas como o di&#225;logo plat&#244;nico, de modo que sempre foi f&#225;cil ler os textos sobreviventes como fic&#231;&#245;es, num sentimento pr&#243;ximo ao de quem hoje vai a uma pe&#231;a qualquer ou assiste a um filme.</p><p>Nietzsche, ali&#225;s, foi certeiro ao reconhecer, em <em>O Nascimento da Trag&#233;dia</em>, que grande parte do efeito cat&#225;rtico vinha da m&#250;sica que acompanhava os ritos. &#201; bem poss&#237;vel que apenas o poder dos tambores e das melodias j&#225; gerasse esses efeitos na plateia: os instrumentos e os coros utilizavam simbolicamente a m&#250;sica no tom apropriado ao que se contava &#8212; o conte&#250;do apol&#237;neo. Ao longo da hist&#243;ria do Ocidente, pouco se deu aten&#231;&#227;o a esse papel musical ao se ler as pe&#231;as e ao se estudar o tratado de Arist&#243;teles. A descoberta de Nietzsche foi t&#227;o extraordin&#225;ria que acabou ofuscando, em grande parte do pensamento do s&#233;culo XX, a dimens&#227;o formal da arte &#8212; sobretudo nas correntes que defendiam a m&#250;sica transgressora sob uma forma quase espiritual. Harold Bloom, em <em>Press&#225;gios do Mil&#234;nio</em>, apontou bem esse fen&#244;meno ao observar que o rock dos anos 1960 quase chegou a um ponto de explos&#227;o religiosa semelhante ao do Grande Avivamento norte-americano do s&#233;culo XIX &#8212; aquele que gerou todo tipo de seita milenarista, com impacto cont&#237;nuo na cultura das tr&#234;s Am&#233;ricas. Esse mesmo esp&#237;rito reaparece, por exemplo, na Renova&#231;&#227;o Carism&#225;tica Cat&#243;lica, que busca trazer o elemento dionis&#237;aco das m&#250;sicas, das ora&#231;&#245;es em l&#237;nguas e dos transes, tentando resgatar os efeitos medicinais da Missa tradicional &#8212; vide a &#8220;Missa de Cura e Liberta&#231;&#227;o&#8221; &#8212;, tudo embalado num estilo musical derivado do rock. Assim, jogaram-se fora quase todos os aspectos apol&#237;neos formais na constru&#231;&#227;o de personagens e cenas, bem como no cuidado com a linguagem, reduzindo grande parte da arte feita hoje ao que se costuma chamar de &#8220;dedo no cu e gritaria&#8221;. </p><p>Bem, e o que isso tem a ver com o humor negro que se espalhou pelas redes a respeito do embate entre policiais e traficantes? Volta e meia me pego pensando na parte perdida da <em>Po&#233;tica</em>, a que trata da com&#233;dia, e no que Arist&#243;teles diria a respeito do tipo de descarga ps&#237;quica que o riso provoca quando suscitado por narrativas &#8212; que, aposto, seriam vistas tamb&#233;m como terap&#234;uticas. N&#227;o sei se ele usaria o conceito de catarse, mas, no m&#237;nimo, um an&#225;logo a esse efeito. Assim como ainda sentimos algo pr&#243;ximo ao efeito cat&#225;rtico quando assistimos a filmes modernos ou lemos romances, podemos notar que o riso tamb&#233;m gera um efeito psicossom&#225;tico em n&#243;s. Lembro sempre de que, durante o tempo em que foi exibida a s&#233;rie c&#244;mica <em>Sai de Baixo</em> (gravada como uma pe&#231;a de teatro, com p&#250;blico e tudo), a Globo foi informada de que os &#237;ndices de suic&#237;dios dominicais diminu&#237;ram consideravelmente.</p><p>Inclusive, h&#225; pouco li em Jung sobre rituais antigos em que mulheres da alta classe contavam piadas obscenas, como ocorria nos mist&#233;rios eleusinos ou &#243;rficos. O humor acerca de realidades que n&#227;o podiam ser tratadas socialmente devido &#224; etiqueta &#8212; por serem reprimidas no conv&#237;vio p&#250;blico &#8212; continuava a ser alimentado internamente; e o escape provocado nos rituais era, portanto, poderoso, regulador de fluxos emocionais que, se estagnados, poderiam gerar doen&#231;as individuais que, pelo n&#250;mero, acabariam por se desenvolver em crises sociais.</p><p>A nota inicial foi uma rea&#231;&#227;o minha ao grande n&#250;mero de piadas nas redes sobre o j&#225; citado massacre. Pois bem: os povos sempre tiveram tabus acerca do riso, de modo a proteger aquilo que &#233; sagrado no horizonte de consci&#234;ncia da comunidade. Tribos e imp&#233;rios costumavam tratar de modo jocoso os inimigos nas representa&#231;&#245;es que faziam deles (isso aparece at&#233; no Antigo Testamento &#8212; e me perdoem se n&#227;o posso trazer agora um exemplo, mas h&#225; muito material c&#244;mico que temos dificuldade em reconhecer como tal por causa das tradu&#231;&#245;es e da perda de certas refer&#234;ncias da &#233;poca). Esse &#233; um antecedente antropol&#243;gico do que hoje chamamos de xenofobia ou racismo (embora o racismo, como tal, s&#243; possa ser reconhecido como fruto da mentalidade biol&#243;gica moderna, como demonstrou Voegelin em <em>Hitler e os Alem&#227;es</em>).</p><p>Um <em>tweet</em> espec&#237;fico me levou ao sentimento que me traz aqui: algu&#233;m reclamava de que aqueles que se incomodaram com as piadas sobre o assassinato recente de Charles Kirk estavam rindo do destino sangrento dos traficantes. N&#227;o vou falar da despropor&#231;&#227;o entre os dois casos, mas sim da falta de agrega&#231;&#227;o valorativa numa mesma sociedade em que aquilo que &#233; sagrado para um lado &#233; demon&#237;aco para o outro. Da&#237; o riso hoje ser condenado n&#227;o segundo a vis&#227;o obtusa de Umberto Eco em <em>O Nome da Rosa</em>, em que um padre assassino esconde a tal metade perdida do livro de Arist&#243;teles devido ao car&#225;ter subversivo do riso. O problema se d&#225; quando o riso serve para aliviar a tens&#227;o de uma parte da tribo enquanto a outra est&#225; chorando sobre o mesmo tema: o que &#233; com&#233;dia para um lado &#233; trag&#233;dia para o outro &#8212; e isso ocorre porque antes foi destru&#237;da a unidade ritual&#237;stica que unia os afetos de toda a sociedade num mesmo sistema de valores.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://oricardodecarvalho.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption"><strong>Cartas da Ilha Grande</strong> &#233; uma publica&#231;&#227;o mantida pelo apoio dos leitores. 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Pretendo retomar o Semin&#225;rio um dia, contudo.</p><p>Os assinantes destas cartas sabem do curso que dei no ano passado cujo nome &#233; <em>Desvendando a Narrativa Inici&#225;tica dOs Lus&#237;adas</em>. Este foi o primeiro &#8220;ataque&#8221;, a fim de teste e experimento, do <em>Semin&#225;rio 12Palavras - Cultura e Esp&#237;rito</em>. A id&#233;ia ali foi apresentar uma pesquisa minha sobre esse problema, ao mesmo tempo em que discutia quest&#245;es do imagin&#225;rio, simbolismo, cultura e afins. Como disse durante as aulas, o curso daria base a um livro, que est&#225; em processo de escrita.</p><p>O novo curso que estou lan&#231;ando &#233; um segundo &#8220;ataque&#8221;: Imagin&#225;rio Medieval: Sacramento, Tempo e Luz. Com ele pretendo avan&#231;ar na profissionaliza&#231;&#227;o do Semin&#225;rio enquanto empreendimento independente de alto n&#237;vel.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://oricardodecarvalho.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Cartas da Ilha Grande is a reader-supported publication. To receive new posts and support my work, consider becoming a free or paid subscriber.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!NgJI!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F21ce7f49-5a3d-47a6-b7bd-24a61944b108_2560x1440.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!NgJI!, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/w_424, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/c_limit, 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stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p>Ao contr&#225;rio do curso anterior, em que um processo de lan&#231;amento na linha dos produtos de marketing digital foi feito, neste eu simplesmente estou divulgado direto. A primeira aula j&#225; ser&#225; nesta pr&#243;xima sexta, que ser&#225; o dia das aulas semanais. Fa&#231;o isso por dois motivos: cansa&#231;o do universo do marketing, e para experimentar algumas teses acerca do tempo qualificado. Isso ficar&#225; claro ao longo do curso, que est&#225; estruturado segundo o calend&#225;rio lit&#250;rgico, como poderemos ver aqui:</p><ul><li><p>MAR&#199;O DE 2025: O tempo do carnaval - Assombrologia em A Terra Devastada, de T S Eliot - O sentido da Quaresma x Campanha da Freternidade</p></li><li><p>ABRIL de 2025: A Demanda do Santo Graal (primeiro contato) - O Banquete do Cordeiro e o sentido apocal&#237;ptico da Missa - A h&#243;stia consagrada e a simb&#243;lica de Mario Ferreira dos Santos</p></li><li><p>MAIO de 2025: A Missa enquanto &#233;pico latino - O Apocalipse de S&#227;o Jo&#227;o enquanto gram&#225;tica do imagin&#225;rio do Ocidente - Eneida de Virg&#237;lio</p></li><li><p>JUNHO de 2025: O oitavo sacramento proibido - Milenarismo e a festa do Divino Esp&#237;rito Santo- As festas juninas</p></li><li><p>JULHO de 2025: Dante, o primeiro homem moderno - A Divina Com&#233;dia e a Luz, o s&#237;mbolo dos s&#237;mbolos</p></li><li><p>AGOSTO de 2025: Tantum ergo sacramentum - C&#226;ntico do Irm&#227;o Sol - In&#237;cio da Quaresma de S&#227;o Miguel Arcanjo</p></li><li><p>SETEMBRO de 2025: A teoria do s&#237;mbolo de Olavo de Carvalho</p></li><li><p>OUTUBRO de 2025: Nossa Senhora de Guadalupe, Aparecida e de F&#225;tima - O milagre no medievo</p></li><li><p>NOVEMBRO de 2025: Cristo Rei do Universo - Cosmologia</p></li><li><p>DEZEMBRO de 2025: O calend&#225;rio lit&#250;rgico e o tempo espiralado</p></li><li><p>JANEIRO de 2026: Dom Quixote e o esgar&#231;amento do tempo medieval - Sil&#234;ncio, de Sushaku Edo</p></li><li><p>FEVEREIRO de 2026: Ant&#244;nio Vieira: o Teatro do Sacramento e a Hist&#243;ria do Futuro - Carnaval novamente - Quarta-Feira de Cinzas, de T S Eliot</p></li></ul><p>O leitor deve ter percebido que o curso n&#227;o ser&#225; uma exposi&#231;&#227;o direta dos princ&#237;pios do imagin&#225;rio medieval. Intercalarei aulas de teoria, outras apresentando os s&#237;mbolos, e outras tantas discutindo alguns cl&#225;ssicos liter&#225;rios que tem a ver com o problema que apresento. Mas h&#225; um sentido em torno do problema da forma&#231;&#227;o do imagin&#225;rio social e da natureza dos s&#237;mbolos.</p><p>Se o amigo leitor estiver curioso, <a href="https://libertandoofluxo.my.canva.site/seminario12palavras-cursoimaginariomedieval">neste link dou mais detalhes</a>, al&#233;m dos pre&#231;os e dos links de inscri&#231;&#227;o. Digo j&#225; que &#233; barato. Mais uma vez, estarei testando elementos da minha tese na pr&#243;pria forma como o curso est&#225; sendo divulgado e vendido.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://oricardodecarvalho.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">"Cartas da Ilha Grande" &#233; uma publica&#231;&#227;o sustentada pelos leitores. Para receber novas postagens e apoiar meu trabalho, considere tornar-se um assinante gratuito ou pago.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Entre Leviatã e Beemote]]></title><description><![CDATA[Pequena entrevista para uma mat&#233;ria sobre o anivers&#225;rio de um importante livro de Olavo de Carvalho]]></description><link>https://oricardodecarvalho.substack.com/p/entre-leviata-e-beemote</link><guid isPermaLink="false">https://oricardodecarvalho.substack.com/p/entre-leviata-e-beemote</guid><dc:creator><![CDATA[Ricardo de Carvalho]]></dc:creator><pubDate>Thu, 30 Jan 2025 21:35:36 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!i2gP!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb5cd8c1e-e116-49c4-bba1-2ede156bc32b_862x1200.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>O jornalista Andr&#233; Corr&#234;a escreveu para o jornal<em> A Gazeta do Povo</em> mat&#233;ria a prop&#243;sito dos 30 anos de anivers&#225;rio de <em>A Nova Era e a Revolu&#231;&#227;o Cultural: Fritjof Capra e Antonio Gramsci</em>, de Olavo de Carvalho, e eu respondi a algumas perguntas acerca do livro em si, e de sua influ&#234;ncia na pol&#237;tica e cultura brasileira desde ent&#227;o. Pode-se ler a mat&#233;ria neste <a href="https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/trilogia-30-anos-nova-era-revolucao-cultural-olavo-carvalho/">link</a>, e aproveito a carta de hoje para publicar integralmente as minhas respostas. Presto assim a minha homenagem ao professor, cujo anivers&#225;rio de tr&#234;s anos de morte foi no dia 24 deste m&#234;s.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!i2gP!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb5cd8c1e-e116-49c4-bba1-2ede156bc32b_862x1200.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!i2gP!, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/w_424, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/c_limit, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/f_webp, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/q_auto:good, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb5cd8c1e-e116-49c4-bba1-2ede156bc32b_862x1200.jpeg 424w, 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stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">A cl&#225;ssica ilustra&#231;&#227;o de William Blake sobre os monstros b&#237;blicos Leviat&#227; e Beemote</figcaption></figure></div><p><em>1 &#8220;A nova era&#8221; &#233; considerado o primeiro volume da &#8220;trilogia&#8221; do Olavo, seguido por &#8220;jardim das afli&#231;&#245;es&#8221; e &#8220;imbecil coletivo&#8221;. Olavo o aponta como uma introdu&#231;&#227;o. Ele parece ser mais irregular que os sucessores. Acha que &#233; uma obra inferior?</em></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://oricardodecarvalho.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Cartas da Ilha Grande &#233; uma publica&#231;&#227;o apoiada pelos leitores. 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A impress&#227;o se d&#225; tamb&#233;m pelo foco em Capra e em Gramsci, como manifesta&#231;&#245;es das for&#231;as simbolizadas naqueles dois seres (a opress&#227;o da necessidade natural, de um lado, e do psiquismo infranatural antimetaf&#237;sico, do outro), mas os dois exemplos n&#227;o esgotam a extens&#227;o do problema. Essas an&#225;lises eram parte pequena de um n&#250;mero maior de investiga&#231;&#245;es que ele j&#225; discutia com alunos e em publica&#231;&#245;es de circula&#231;&#227;o restrita. Essas pesquisas iriam aparecer n&#227;o s&#243; no restante da trilogia, mas ao logo de sua produ&#231;&#227;o posterior. Ent&#227;o, se o ensaio &#233; inferior, &#233; no sentido quantitativo de extens&#227;o: poderia at&#233; sair como ap&#234;ndice do <em>Jardim das Afli&#231;&#245;es</em>, por exemplo, trechos seus seriam facilmente encaix&#225;veis em artigos do <em>O Imbecil Coletivo</em>.</p><p><em>2. 20 anos depois, consegue me dizer em que p&#233; est&#227;o os fen&#244;menos apontados por Olavo, como a revolu&#231;&#227;o cultural e a ideologia da &#8220;Nova Era&#8221;?</em></p><p>Muito da intensa cr&#237;tica atual &#224; presen&#231;a avassaladora da agenda <em>woke</em> demonstra n&#227;o s&#243; a for&#231;a dos fen&#244;menos analisados por Olavo, como d&#225; a medida do taanto que ele foi vision&#225;rio. Muito se fala que ele importou um tipo de cr&#237;tica existente nos EUA, mas Olavo a desenvolveu a partir de sua pr&#243;pria realidade. Primeiro, durante os anos de envolvimento com os tradicionalistas, pouco tendo a ver com a mentalidade protestante de quem fazia essas den&#250;ncias l&#225; fora. Depois, enquanto aplica&#231;&#245;es de algumas de suas teorias, como a dos quatro discursos, a da tipologia do poder e a dos sujeitos hist&#243;ricos. O mesmo pode-se dizer acerca da ideologia da Nova Era: s&#243; ver o tanto de <em>coachs</em> qu&#226;nticos e gurus esot&#233;ricos surgindo a cada semana, alcan&#231;ando influ&#234;ncia na pol&#237;tica e na cultura, seja na esquerda ou na direita.</p><p><em>3. A &#8220;revolu&#231;&#227;o cultural&#8221; ainda &#233; mais debatida, j&#225; a &#8220;Nova era&#8221; parece um conceito um pouco vago. Sabe me explicar os motivos disso?</em></p><p>O Olavo teve alguma produ&#231;&#227;o voltada ao esoterismo nos anos 80 e come&#231;o dos 90, e j&#225; l&#225; a cr&#237;tica ao espiritualismo da Nova Era era algo menor, ligada ao intuito principal de divulgar princ&#237;pios do tradicionalismo de influ&#234;ncia perenialista. J&#225; na &#233;poca da trilogia ele se apresentava como cr&#237;tico cultural na grande imprensa, o interesse na Nova Era aparecendo agora sob o interesse maior de estudos civilizacionais, em seu projeto de entender a situa&#231;&#227;o do Brasil na hist&#243;ria cultural do Ocidente. Contudo, chegou a anunciar um estudo sobre a influ&#234;ncia das seitas, que acabou abandonado.</p><p><em>4. Olavo aponta que o combate &#224; corrup&#231;&#227;o, por exemplo, nada mais &#233; do que a &#8220;Politiza&#231;&#227;o da &#233;tica&#8221;, o &#8220;estado policial em nome da moralidade&#8221;, sobretudo em rela&#231;&#227;o ao PT. Pode-se dizer que, hoje, o judici&#225;rio, de certa forma, se tornou o agente deste fen&#244;meno?</em></p><p>Embora o judici&#225;rio tenha se tornado instrumento importante da agenda revolucion&#225;ria, o discurso da &#233;tica me parece que tem sido evitado (at&#233; porque a den&#250;ncia &#233;tica tamb&#233;m foi foi usado pelos bolsonaristas, quem &#233; chamado de ladr&#227;o hoje em dias nas redes sociais &#233; o atual presidente). Ouve-se sim falar de democracia na voz dos ministros, como o mais alto valor a ser preservado no pa&#237;s, o que tem mais a ver com a cr&#237;tica que Olavo fez em <em>O Jardim das Afli&#231;&#245;es</em> &#224; ideia de religi&#227;o civil. A diferen&#231;a atual &#233; que, gra&#231;as &#224; den&#250;ncia que aparece n<em>O Jardim</em> acerca de estrat&#233;gias como a PNL e da infiltra&#231;&#227;o da milit&#226;ncia em todas as institui&#231;&#245;es poss&#237;veis, metade do pa&#237;s n&#227;o d&#225; mais cr&#233;dito a tais truques lingu&#237;sticos na mesma intensidade com que se dava nos anos 90. O Brasil perdeu a inoc&#234;ncia ap&#243;s o Olavo.</p><p><em>5. Olavo chega a dizer em &#8220;a nova era&#8221; que &#8220;Lula &#233; um homem decente&#8221;, depois critica duramente o PT. Consegue me explicar os motivos desta s&#250;bita mudan&#231;a do Olavo, no pr&#243;prio livro?</em></p><p>O Lula como figura humilde, s&#237;mbolo da suposta consci&#234;ncia de classe do homem trabalhador brasileiro, isso enganou at&#233; lideran&#231;as hist&#243;ricas do PT. H&#225; quem diga que ele foi posto &#224; frente como <em>proxy</em>, avatar que s&#243; obedeceria aos ditames da milit&#226;ncia revolucion&#225;ria que dirigiria o partido por tr&#225;s das cortinas. Mas Lula cresceu demais, lideran&#231;as hist&#243;ricas tiveram que buscar outros partidos, quando n&#227;o fundar novos, porque n&#227;o aceitaram os rumos seguidos por Lula. Nisso o Olavo foi enganado como todos, mas com o poder em m&#227;os o atual presidente revelou seu car&#225;ter.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://oricardodecarvalho.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Cartas da Ilha Grande is a reader-supported publication. To receive new posts and support my work, consider becoming a free or paid subscriber.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Quando não existe a política]]></title><description><![CDATA[Modelos de sa&#237;da ante o asfixiamento do esp&#237;rito em Flusser, Noica e Steinhardt.]]></description><link>https://oricardodecarvalho.substack.com/p/quando-nao-existe-a-politica</link><guid isPermaLink="false">https://oricardodecarvalho.substack.com/p/quando-nao-existe-a-politica</guid><dc:creator><![CDATA[Ricardo de Carvalho]]></dc:creator><pubDate>Sun, 26 Jan 2025 21:18:51 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!4nPd!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7ee6b7a4-a23f-418d-8888-74e08a78242d_499x345.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><em>O texto a seguir &#233; de 2015, uma rea&#231;&#227;o a um inc&#244;modo da &#233;poca. Hoje estamos num ponto avan&#231;ado do processo pol&#237;tico que agitava o pa&#237;s de ent&#227;o e, se ainda penso que a conversa fiada nacional nas redes sociais e nas ruas ainda &#233; uma repeti&#231;&#227;o de chav&#245;es e gatilhos emotivos nascidos a partir de uma discuss&#227;o interna de S&#227;o Paulo, entendo que h&#225; bem mais um jogo. Na verdade eu j&#225; sabia mais, o motivo do texto n&#227;o era descrever uma din&#226;mica entre discurso e poder, mas atentar para uma possibilidade de sa&#237;da daquela esquematiza&#231;&#227;o fechada.</em></p><p><em>Reproduzo em parte a postagem (quase tudo do que estava naquele blog hoje fechado), e fa&#231;o um coment&#225;rio tendo em vista uma rea&#231;&#227;o atual, nascida na motiva&#231;&#227;o que me guia nesta </em>newsletter<em>.</em></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://oricardodecarvalho.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Cartas da Ilha Grande is a reader-supported publication. To receive new posts and support my work, consider becoming a free or paid subscriber.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><blockquote><p>E s&#243; cresce a desconfian&#231;a de que o antagonismo pol&#237;tico no pa&#237;s, polarizado na disputa PT x PSDB, &#233; em verdade a exterioriza&#231;&#227;o de um embate paulista em sua origem e ess&#234;ncia: &#233; o filho de mentalidade pequeno-burguesa brigando com o irm&#227;o, cuja revolta adolescente toma as caracter&#237;sticas do modismo do dia: eco-ambientalismo, teoria do g&#234;nero, cicloativismo, meu-corpo-minhas-regras, etc.</p><p>&#201; uma briga de fam&#237;lia. A princ&#237;pio, n&#227;o pertence a quem &#233; de fora. Por alguma raz&#227;o, &#233; mimetizada pelos jovens de outros Estados.</p><p>Quando reparei nesse n&#243;, passei a manter aquela postura expressa por um dito daqui do Maranh&#227;o: "Eles, que s&#227;o brancos, que se entendam". N&#227;o s&#227;o os esquemas paulistanos que refletem as aspira&#231;&#245;es totais do brasileiro, o que muitos de n&#243;s desejamos tem semelhan&#231;as e diferen&#231;as.</p></blockquote><p>(Coment&#225;rio: falando desde S&#227;o Luis &#8212; o t&#237;tulo desta <em>newsletter</em>, <em>Cartas da Ilha Grande</em>, remete ao nome oficial da ilha onde se localiza a cidade, Upaon-A&#231;u, palavra de origem tupi-guarani que significa isso, Ilha Grande &#8212;, aqueles temas com os quais liberais e progressistas se batiam pareciam ter pouco a ver com a realidade daqui, como o wokismo ou a uberiza&#231;&#227;o do trabalho &#8212; termos ruins que uso para evitar uma longa discuss&#227;o, nomes que progressistas e liberais odiariam &#8212; preciso me render e reconhecer que se tornaram a nossa discuss&#227;o tamb&#233;m, <strong>infelizmente</strong>. Afora o fato de que repetiam a seu modo a din&#226;mica interna da discuss&#227;o americana, dos partidos republicano e democrata.)</p><blockquote><p>H&#225; uma carta de Vil&#233;m Flusser, escrita em 1990, que descreve o quase nada de pol&#237;tico que h&#225; neste ambiente de hoje, por paradoxal que seja:</p><p>&#8216;O que acabo de oferecer como explica&#231;&#227;o da fal&#234;ncia cultural paulistana (e brasileira) parece negado pela abund&#226;ncia de discuss&#227;o 'pol&#237;tica' nos <em>media</em> e na conversa quotidiana ('elei&#231;&#245;es', partidos, etc). A quantidade indigest&#237;vel de coment&#225;rios 'pol&#237;ticos' nos jornais, por exemplo, parece indicar consci&#234;ncia pol&#237;tica da sociedade. Creio que, pelo contr&#225;rio, o fen&#244;meno confirma minha tese. Nas discuss&#245;es e nos coment&#225;rios n&#227;o se articula consci&#234;ncia pol&#237;tica, isto &#233;: senso de responsabilidade intersubjetiva, mas curiosa mistura entre sensacionalismo l&#250;dico (como nas contendas de <em>football</em>), revolta econ&#244;mica privada e tentativa de racionalizar a pr&#243;pria impot&#234;ncia face a decis&#245;es dificilmente localiz&#225;veis e analis&#225;veis. A discuss&#227;o pol&#237;tica paulistana revela, a meu ver, precisamente a falta de politiza&#231;&#227;o da qual falei acima. O rem&#233;dio n&#227;o &#233; a 'politiza&#231;&#227;o das massas'(...). (carta citada em cap&#237;tulo da disserta&#231;&#227;o <em>Flusser: uma hist&#243;ria dos diabos</em>, de Ricardo Mendes)&#8217;</p><p>N&#227;o &#233; o Brasil de hoje? N&#227;o define as duas correntes que disputam o poder? N&#227;o h&#225; pol&#237;tica!</p><p>E por isso tenho pensado muito em dois grandes romenos do s&#233;culo passado, o fil&#243;sofo Constantin Noica e o cr&#237;tico liter&#225;rio e monge ortodoxo Nicolae Steinhardt, mestre e disc&#237;pulo, ambos publicados pela &#201; Realiza&#231;&#245;es. Os dois entregaram-se ao estudo das culturas romena e ocidental para sobreviverem a um regime cuja possibilidade de pol&#237;tica era inexistente: o totalitarismo comunista.</p><p>N&#227;o era s&#243; no c&#225;rcere, experi&#234;ncia vivida pelos dois, que os seus cora&#231;&#245;es e mentes sofreram esse estrangulamento: quando livres, na Universidade n&#227;o se podia estudar muito al&#233;m de Marx e os ap&#243;stolos da causa. Para que os dois n&#227;o enlouquecessem, estrat&#233;gias foram postas em pr&#225;ticas.</p><p>Noica organizou uma "escola" clandestinamente, e, entre outras atividades civilizat&#243;rias, fez uma leitura lenta e concentrada da <em>Fenomenologia do Esp&#237;rito</em> de Hegel ao longo de um ano. O objetivo n&#227;o era formar eruditos especialistas na filosofia do alem&#227;o, algo que os centros europeus geraram com abund&#226;ncia e sucesso. O que se queria era perscrutar, nos movimentos internos da hist&#243;ria, a natureza espiritual espec&#237;fica de sua Rom&#234;nia, o que somente lhe foi dado ser e a nenhuma outra na&#231;&#227;o mais. Muitos frutos nasceram dessa e outras pr&#225;ticas de Noica, como a vida intelectual de Nicolae Steinhardt, esta nascida na precariedade e na entrega ao Esp&#237;rito.</p><p>Steinhardt foi preso, e l&#225; viveu uma aut&#234;ntica vida de cultura. Montou na surdina um grupo de estudos em que ele e seus companheiros escolhiam uma mat&#233;ria, e palestrando uns para os outros: os romances <em>Doutor Fausto</em> e <em>A montanha m&#225;gica</em> de Thomas Mann, <em>A revolu&#231;&#227;o das massas</em> de Ortega y Gasset, li&#231;&#245;es de s&#226;nscrito e espanhol, biologia geral e hist&#243;ria da cultura, entre outros. Homens reunidos em priva&#231;&#227;o, numa situa&#231;&#227;o criada para degradar a humanidade neles, e, contra tudo e contra todos, n&#227;o se deixaram ser derrotados, dominando as circunst&#226;ncias. Um ambiente tal que Steinhardt descreve de um jeito que quase nos leva a ter <em>inveja branca</em> dele:</p><p>&#8216;De todas as partes -- como as nuvens de montanha -- nasce e se condensa na cela 34 aquela atmosfera inef&#225;vel e sem igual que somente a pris&#227;o pode criar: algo muito pr&#243;ximo ao que deve ter sido a corte dos duques de Burg&#250;ndia ou do rei Ren&#232; de Arles ou de uma <em>court d'amour</em> proven&#231;al, algo muito semelhante ao para&#237;so, algo muito japon&#234;s, cavalheiresco, algo que enlouqueceria Henry de Montherlant, Ernst J&#252;nger, Stefan George, Marlaux, Chesterton, Solzhenitsyn, algo constitu&#237;do de coragem, amor do paradoxo, teimosia, loucura santa e vontade de transcender a qualquer pre&#231;o a miser&#225;vel condi&#231;&#227;o humana (...). (<em>Di&#225;rio da felicidade, </em>trad. de Elp&#237;dio M&#225;rio Dantas Fonseca, Realiza&#231;&#245;es).&#8217;</p><p>O que mais me enche os olhos e aquece a alma lendo o di&#225;rio de Steinhardt &#233; sua tentativa de articular cr&#237;tica cultural e o seu processo de convers&#227;o &#224; f&#233; crist&#227; (ele era judeu), tema principal de seu <em>Di&#225;rio da felicidade</em>. As realiza&#231;&#245;es dos ficcionistas e poetas de todas as &#233;pocas e na&#231;&#245;es falam do destino do homem concreto, da recorda&#231;&#227;o das mais altas possibilidades humanas, e da den&#250;ncia de qu&#227;o baixo um homem pode chegar quando se afasta dos princ&#237;pios fundamentais &#8212; ou deles &#233; afastado, como no caso daquela Rom&#234;nia. Steinhardt, que se batizou na cela, procurou compreender os dramas temporais e as obras da imagina&#231;&#227;o &#224; luz da Paix&#227;o de Cristo. Homero, Cervantes, Flaubert, Dostoievski, Bulgakov, T. S. Eliot e toda a literatura de seu pa&#237;s eram pensadas &#224; luz da Paix&#227;o de Cristo, gerando o choque tensional entre hist&#243;ria e eternidade que permitiu a ele conhecer aspectos novos sobre sua vida e o mundo em redor. Cultura n&#227;o era um escapismo, um entorpecente, mas um aprofundamento naquela sua realidade. A cria&#231;&#227;o no presente era uma atitude necess&#225;ria para salvar suas circunst&#226;ncias ao mesmo tempo em que pensava os rumos de sua Rom&#234;nia.</p><p>Minha esperan&#231;a s&#243; vem de projetos afins. N&#227;o significa, &#233; claro, que algumas rea&#231;&#245;es e umas vit&#243;rias aqui e ali n&#227;o possam ser festejadas, ou que se deva diminuir a for&#231;a com que se hasteiam algumas bandeiras necess&#225;rias. O que h&#225; &#233; o p&#233; no ch&#227;o, reconhecer que tudo est&#225; por fazer, exorcizar o encosto que assumiu a identidade de Dom Sebasti&#227;o.</p></blockquote><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!4nPd!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7ee6b7a4-a23f-418d-8888-74e08a78242d_499x345.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!4nPd!, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/w_424, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/c_limit, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/f_webp, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/q_auto:good, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7ee6b7a4-a23f-418d-8888-74e08a78242d_499x345.jpeg 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Mas se o gatilho ret&#243;rico a piscar na consci&#234;ncia involuntariamente for &#8220;isent&#227;o&#8221;, a cabo da contrapoi&#231;&#227;o dos p&#243;los da disputa de poder do momento, pe&#231;o ao menos que busque conhecer o futuro dos integrantes da Escola de P&#259;ltini&#537;, o grupo orientado por Noica, ap&#243;s a dissolu&#231;&#227;o do regime comunista na Rom&#234;nia. E que fique claro que eu n&#227;o penso numa sa&#237;da pol&#237;tica atrav&#233;s da cultura, mas invisto na cultura procuro pela reconquista do senso da realidade. Um senso que pode dar em manifesta&#231;&#245;es das mais diversas, feito a renova&#231;&#227;o filos&#243;fica romena, ou na vida espiritual aut&#234;ntica do padre Steinhardt.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!OhMT!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffdde3b19-13bf-4fc1-a1b6-7af4dfdbfcfe_1000x600.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!OhMT!, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/w_424, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/c_limit, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/f_webp, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/q_auto:good, 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class="image-caption">Constantin Noica</figcaption></figure></div><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://oricardodecarvalho.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption"><strong>Cartas da Ilha Grande</strong> &#233; uma publica&#231;&#227;o apoiada pelos leitores. 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O livro &#233; um manual pr&#225;tico, como esses que a gente v&#234; sempre anunciado nas redes sociais. Trata-se de <em><a href="https://scholar.otherlife.co/">The Independent Scholar</a>,</em> do <a href="https://x.com/jmrphy">Justin Murphy</a>.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!u7XG!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fdc5cc356-232d-4e64-8c40-1c0525229928_480x360.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!u7XG!, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/w_424, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/c_limit, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/f_webp, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/q_auto:good, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fdc5cc356-232d-4e64-8c40-1c0525229928_480x360.jpeg 424w, 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Sua virada para um caminho de cria&#231;&#227;o intelectual independente da Academia tem interesse pr&#243;prio, valeria uma postagem inteira; mas quero focar no manual. </p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://oricardodecarvalho.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Cartas da Ilha Grande is a reader-supported publication. To receive new posts and support my work, consider becoming a free or paid subscriber.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Ap&#243;s ter problemas profissionais e tentativas de &#8220;cancelamento&#8221; devido a algumas falas, decidiu sair do cargo na universidade para experimentar na internet formas de produzir conhecimento relevante e livre, e conseguir viver do trabalho intelectual. Foi assim que p&#244;s no ar empreendimentos como <em><a href="https://www.otherlife.co/">Other Life</a></em>, onde publica seus escritos. Al&#233;m disso, tem um podcast, mant&#233;m um f&#243;rum em que orienta outros pesquisadores nesse caminho, profere cursos e publica livros.</p><p>Quem me deu not&#237;cia do Murphy foi o <a href="https://ronaldrobson.com/">Ronald Robson</a>, que j&#225; vinha pondo em pr&#225;tica experimentos afins ao esp&#237;rito de <em>Other Life</em>. A prop&#243;sito, recomendo muito o que ele vem fazendo em <em><a href="https://ronaldrobson.com/2024/04/30/na-fronteira-de-uma-epoca-com-video/">Convivium</a></em>. Ouso dizer que n&#227;o h&#225; nada t&#227;o relevante e original sendo proposto em institui&#231;&#245;es oficiais brasileiras quanto a revis&#227;o da modernidade e do projeto humanista que vem apresentando nos cursos desse ciclo. E o que ele promete com o <em><a href="https://ronaldrobson.com/flusser_project/">FLUSSER_project</a> </em>&#233; impressionante.</p><p>O que eu quero tratar um tanto &#233; acerca pontos da proposta de Murphy porque imagino que seria bom se mais pessoas fizessem algo assim no Brasil. Murphy tem chamado aten&#231;&#227;o com seu <em>Other life, </em>at&#233; porque o mal estar com as universidades n&#227;o &#233; sentimento exclusivo dos brasileiros. Como bem j&#225; tratou Ronald em seus cursos, hoje vivemos algo parecido com a transi&#231;&#227;o da escol&#225;stica para a modernidade, quando um desgaste de possibilidades de cria&#231;&#227;o afetou o ensino universit&#225;rio, enquanto que o advento de tecnologias (a prensa de Gutenberg, por exemplo) e novas realidades sociais (a urbaniza&#231;&#227;o, o com&#233;rcio) permitiu que surgissem formas de express&#227;o e circuitos de circula&#231;&#227;o de conhecimento diversos aos de antes. Pois agora o ciclo intelectual moderno se escota com o engessamento da burocracia universit&#225;ria, as universidades reduzidas a espa&#231;os de concentra&#231;&#227;o de poder, carreirismo e nascedouros de milit&#226;ncias ideol&#243;gicas, enquanto que a internet e a inform&#225;tica em geral d&#227;o ao mundo possibilidades incomensur&#225;veis e imprevis&#237;veis.</p><p>No ano passado tentei algo nesse sentido, em meu curso <em>Desvendando a Narrativa Inici&#225;tica dOs Lus&#237;adas</em>. Uma s&#233;rie de quest&#245;es da vida me impediu de levar o projeto conforme eu previa, e por isso decidi n&#227;o propor nenhum curso novo neste ano, ao menos enquanto alguns obst&#225;culos de foro privado n&#227;o forem superados. Enfim, o curso est&#225; a ser finalizado, um ensaio longo sobre o tema se encontra em processo de escrita.  Inspirado pelo que Robson e Murphy andam fazendo, pretendo dedicar boa parte dos pr&#243;ximo meses desta <em>newsletter</em> a falar do processo, seja postando trechos do ensaio, mandando cartas sobre temas afins, ou publicando medita&#231;&#245;es sobre o desafio de se tornar um <em>pesquisador independente</em>.</p><h1>As propostas de Murphy</h1><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ERb3!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F454c0ca1-6e6d-4e9c-a264-9b020b5921ab_1414x2000.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ERb3!, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/w_424, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/c_limit, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/f_webp, 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Usar redes sociais ao m&#237;nimo para desocupar a mente e criar com qualidade e const&#226;ncia. Manter uma rotina de leitura (2h/dia), escrita (2h/dia) e publica&#231;&#227;o (1 a 3 entradas por semana atrav&#233;s de um dispostivo como o <em>Substack</em> em que publico). Cria&#231;&#227;o de uma marca pessoal. Como automatizar algumas tarefas e monetizar seu trabalho. Que formas publicar segundo as plataformas dispon&#237;veis de <em>microblogging</em> e disparo de <em>newsletters</em>. A id&#233;ia &#233; criar a partir das leituras dos cl&#225;ssicos.</p><p>O programa de publica&#231;&#245;es que vai guiar os pr&#243;ximos meses desta minha <em>newsletter</em> j&#225; &#233; orientada por uma de suas propostas, a de seguir uma <em>plano de pesquisa</em>. A estrat&#233;gia consiste em escolher um autor cl&#225;ssico, podendo ser s&#243; uma obra dele e, a partir de uma leitura profunda, <em>criar</em>. Claro que a proposta pode ser levada numa pesquisa mais ampla, de um problema que necessite de ser realizado num tipo de pesquisa mais tradicional. Depois de alguns meses focado na agenda, pode-se escrever um livro e/ou vender um curso explorando o tema. No meu caso, eu j&#225; proferi um curso conjugando medita&#231;&#227;o pessoal em torno de uma obra com resolu&#231;&#227;o de problema acad&#234;mico (tento dar uma resposta a uma quest&#227;o acerca do sentido d<em>Os Lus&#237;adas</em> que agitou alguns nomes grandes da camon&#237;stica). O que farei a partir de agora &#233; me focar na escrita de um ensaio longo apresentando os resultados desse trabalho. </p><p>Todas as propostas do programa me parecem bastante aplic&#225;veis, embora exijam algum tempo para que a m&#225;quina ande sozinha e o pesquisador possa viver do seu trabalo sem se atrelar a uma faculdade. Nos EUA tem dado certo para v&#225;rios estudiosos, mas sabemos como aqui no Brasil o buraco &#233; mais embaixo. Mas acho que, se o amigo leitor contempla os tr&#234;s requisitos, creio que valha a pena tentar.</p><p>Para quem n&#227;o sabe, <em>body of work</em> &#233; uma express&#227;o que significa o conjunto de trabalhos, obras ou repert&#243;rio de um indiv&#237;duo. Pode ser a cole&#231;&#227;o de contribui&#231;&#245;es profissionais, intelectuais ou criativas de uma pessoa, como livros, performances, pinturas ou artigos de pesquisa. A express&#227;o se refere n&#227;o apenas &#224;s pe&#231;as individuais, mas tamb&#233;m aos temas, evolu&#231;&#227;o e impacto. Trabalhar em um <em>body of work</em> exige compromisso e consist&#234;ncia, o que permite que o resultado final demonstre a capacidade, estilo e voz do artista ou pesquisador. O <em>body of work</em> pode ser um portf&#243;lio que mostra a capacidade de criar coes&#227;o dentro de uma ideia.</p><p>Esses requisitos tratam de voca&#231;&#227;o, de escolha de vida, da possibilidade de uma <em>outra vida</em>. <em>Body of work </em>em si j&#225; contempla unidade no tempo, persist&#234;ncia aliada &#224; consist&#234;ncia em torno de a&#231;&#245;es cont&#237;nuas e descont&#237;nuas nascendo e nutrindo-se dessa vontade criadora. </p><p>Note que Murphy fala em crer mais em beleza e verdade que em fama e dinheiro, sem excluir estes dois: a divulga&#231;&#227;o e o sustento devem servir &#224; obra, e n&#227;o &#233; a obra que deva se sujeitar aos baixos instintos de uma audi&#234;ncia ampla demais. Tanto que o programa tamb&#233;m trata do crescimento org&#226;nico do projeto, de modos de divulga&#231;&#227;o para buscar um p&#250;blico qualificado e numeroso o suficiente n&#227;o para deixar a pessoa rica, mas para sustentar sua nova vida. </p><p>Murphy disse recentemente num <em>tweet</em> que se deve temer uma fama instant&#226;nea sem uma obra s&#243;lida por tr&#225;s. H&#225; algo de sat&#226;nico nisso, na grande premia&#231;&#227;o &#224; falta de esfor&#231;o, de trabalho. Fora que, se vem f&#225;cil, vai f&#225;cil, e o infoprodutor vai passar mais tempo gastando energia mental em criar estrat&#233;gias agressivas e disruptitvas para capturar a aten&#231;&#227;o de clientes e manter sua fortuna, do que realmente em criar uma obra s&#243;lida. Trocar a cultura pela propaganda.</p><p>A forma de escrita, baseada na tradi&#231;&#227;o do ensaio, ser&#225; o elemento principal nesse caminho. A ideia n&#227;o &#233; replicar as formas acad&#234;micas caducas de artigos e teses eruditas que pouco passam de entrecruzamento de cita&#231;&#245;es de autorizados pelo <em>corpus</em> do departamento a que o acad&#234;mico est&#225; atrelado. A ideia &#233; aproveitar a liberdade para fazer algo melhor que uma produ&#231;&#227;o cujo fim &#233; engordar curr&#237;culo e manter a ind&#250;stria de revistas cient&#237;ficas.</p><p>Busca-se liberdade de cria&#231;&#227;o enquanto se ergue uma nova comunidade &#8212; ou seja, n&#227;o queremos o solipsismo de apenas dar as costas para o <em>stablishment</em> e fazer do jeito que se quer, n&#227;o estamos falando neste n&#237;vel mais tosco de individualismo. Falamos de <em>personalismo</em>. Em um dos cap&#237;tulos d&#225;-se aten&#231;&#227;o a este ponto, o que fazer para criar correntes de leitores e parceiros com que possamos falar sem o policiamento institucional.</p><p>Isso n&#227;o tem s&#243; a ver com o conte&#250;do, que &#233; a preocupa&#231;&#227;o do que nos vem quando nos lembramos do crescente de censura promovida pela grande m&#237;dia, pelos Estados e, bizarramente, pelos departamentos universit&#225;rios. Tem a ver com forma, do que trato a falar por fim.</p><h1>O ensaio enquanto <em>laboratorium</em></h1><p>A ep&#237;grafe do livro &#233; o seguinte trecho de Ralph Waldo Emerson, retirado de <em>Self-Reliance</em>:</p><blockquote><p>Fale o que voc&#234; pensa agora com palavras duras, e amanh&#227; fale o que pensa amanh&#227; com palavras duras novamente, ainda que isso contradiga tudo o que voc&#234; disse hoje. &#8212; 'Ah, assim voc&#234; certamente ser&#225; mal interpretado.' &#8212; E &#233; t&#227;o ruim assim ser mal interpretado? Pit&#225;goras foi mal interpretado, e S&#243;crates, e Jesus, e Lutero, e Cop&#233;rnico, e Galileu, e Newton, e todo esp&#237;rito puro e s&#225;bio que j&#225; tomou forma humana. Ser grande &#233; ser mal interpretado.</p></blockquote><p>Por agora importa-me menos o chamado para exercer uma linguagem rebelde ao panopticon da vez, e mais pela forma <strong>ensaio</strong> em si. Tenho pensado muito nos sentidos originais do termo que designa o g&#234;nero, remetendo principalmente a dois de seus aspectos, o de tentativa e o de experi&#234;ncia. </p><p>Um &#233; aquele montaigneano de fala irrespons&#225;vel (no bom sentido) e despreocupado, sem imposi&#231;&#227;o externa que remetea a uma unidade de conhecimento al&#233;m da unidade da vida interior de quem escreve os ensaios. </p><p>Outro &#233; o baconiano de experimento cient&#237;fico, de prova, no sentido de ci&#234;ncia da &#233;poca em que os experimentos laboratoriais ainda guardavam muito de opera&#231;&#227;o alqu&#237;mica: o saber acerca de um dado exterior do mundo precisa tamb&#233;m ser provado em sua verdade no amadurecimento enquanto realidade espiritual do sujeito que pensou e escreveu em forma cuidada literariamente. <em>Ora et labora</em>, <em>labor</em> + <em>oratorium</em>, laborat&#243;rio.</p><p>Pensar as entradas da <em>newsletter</em> enquanto <em>ensaios </em>no sentido forte da palavra. Um dos livros do meu top pessoal de 2024 foi justamente a colet&#226;nea <em><a href="https://lojadoims.com.br/product/36287/doze-ensaios-sobre-o-ensaio">Doze ensaios sobre o ensaio</a></em>, onde aqui e ali aparecia a preocupa&#231;&#227;o acerca do uso frouxo dessa forma que tanto faz fama hoje em dia. Delimitar os contornos da forma liter&#225;ria, quando &#233; do <em>quid </em>do ensaio essa indisciplina que o situa em v&#233;rtice oposta &#224; das teses na cruz da metaf&#237;sica dos g&#234;neros liter&#225;rios, &#233; esfor&#231;o que move v&#225;rios dos textos compilados ali.</p><p>Murphy disse tamb&#233;m em rede social sobre a necessidade de buscar formas liter&#225;rias vitais, para que um pensamento poderoso possa circular com energia. Emerson &#233; um bom exemplo de cultor do ensaio, ele que ainda hoje mant&#233;m-se vivo no ambiente cultural norte-americano. Por mais que eu discorde aqui e ali com o que ele diz em seus ensaios, n&#227;o tem como n&#227;o reconhecer que ele se imp&#245;e a partir de seus escritos como presen&#231;a vital, real. O tipo de presen&#231;a necess&#225;ria num mundo de virtualidades, em que as possibilidades postas pela inform&#225;tica e pela internet s&#227;o facilmente articuladas a servi&#231;o da incultura, da transforma&#231;&#227;o de potenciais criadores em NPCs.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://oricardodecarvalho.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Cartas da Ilha Grande por enquanto &#233; 100 % gratuita. 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O mesmo pode ser dito do cora&#231;&#227;o em sua expans&#227;o atrav&#233;s das art&#233;rias e das veias. E a partir da&#237; a vis&#227;o melhora: onde est&#227;o nossas termina&#231;&#245;es nervosas, a&#237; est&#225; nosso sangue. E chego &#224; concre&#231;&#227;o daquele ideal antigo de unificar a raz&#227;o ao amor. O corpo inteiro pensa, na medida em que o corpo inteiro sente.</p><p>E por falar em retrospectiva, uma das palavras do ano foi DOPAMINA, o horm&#244;nio que regula a felicidade, a saciedade dos desejos. O modo como o uso de redes sociais bagun&#231;a o fluxo da subst&#226;ncia, alterando o humor a ponto de disparar gatilhos de depress&#227;o e de ansiedade, foi o que a tornou t&#227;o repetida. Inclusive, nos &#250;ltimos dias vi aumentar a freq&#252;&#234;ncia de an&#250;ncios de infoprodutos vendendo t&#233;cnicas para dar um jeito no tal horm&#244;nio, aproveitando as ansiedades pr&#243;prias da virada do ano.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://oricardodecarvalho.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Cartas da Ilha Grande is a reader-supported publication. To receive new posts and support my work, consider becoming a free or paid subscriber.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Menos aten&#231;&#227;o se deu quanto ao que o h&#225;bito de redes provoca em nossa intelig&#234;ncia. Quer dizer, at&#233; se deu muita, mas n&#227;o tanto quanto ao esgotamento emocional causado pelos algoritmos. Agora mesmo, enquanto folheava minha edi&#231;&#227;o de <em>Fantasmas da minha vida</em>, de Mark Fisher (uma das leituras mais marcantes do ano), procurando uma cita&#231;&#227;o para esta carta, encontro um trecho que tem a ver com os dois pontos, os efeitos negativos das redes no humor e na intelig&#234;ncia:</p><blockquote><p>Me lembro da argumenta&#231;&#227;o de Franco Berardi sobre a rela&#231;&#227;o entre a sobrecarga de informa&#231;&#227;o e a depress&#227;o. O argumento de Berardi n&#227;o &#233; que a explos&#227;o das .com tenha causado a depress&#227;o, mas o contr&#225;rio: a explos&#227;o foi causada pela press&#227;o excessiva colocada no sistema nervoso das pessoas por novas tecnologias de informa&#231;&#227;o. Agora, mais de uma d&#233;cada ap&#243;s essa explos&#227;o, a densidade dos dados aumentou enormemente. O oper&#225;rio paradigm&#225;tico passa a ser o oper&#225;rio de telemarketing &#8212; o ciborgue banal, punido sempre que se desconecte da matriz comunicativa.</p></blockquote><p>Passei boa parte do ano lutando contra esse problema: combate entre v&#237;cio no Twitter (e eu s&#243; me lembro do David Foster Wallace viciado em televis&#227;o, que muito o angustiava, mas que lhe deu rico material para reflex&#227;o a ser devidamente usado em sua fic&#231;&#227;o e ensa&#237;stica), o &#243;dio ao Instagram e a necessidade de divulgar meus trabalhos na internet. Comecei uma s&#233;rie de textos di&#225;rios no IG sobre essa quest&#227;o, cheguei a repost&#225;-los nas Notas daqui do Substack, por&#233;m n&#227;o conclu&#237;, abandonei-a na metade.</p><p>Ali eu queria juntar um depoimento pessoal, a partir da minha experi&#234;ncia com ansiedade e depress&#227;o, &#224;s cr&#237;ticas que foram se avolumando durante o ano na <em>direitosfera</em> virtual. Era uma medita&#231;&#227;o tamb&#233;m sobre cultura, sobre teoria da informa&#231;&#227;o, queria falar do impacto que o <em>Isto &#233; &#225;gua</em> do DFW provocou em mim, em como encontrei a resposta &#224; quest&#227;o principal desse discurso de formatura anos depois no livro <em>Conhecimento por presen&#231;a</em> (ensaio de <a href="https://ronaldrobson.com/">Ronald Robson</a> sobre Olavo de Carvalho).Queria tamb&#233;m ligar essas cr&#237;ticas a pontos que Mark Fisher trabalhou de forma muito equivocada em seu j&#225; citado livro, complementar o argumento com reflex&#245;es de Simone Weil acerca das rela&#231;&#245;es entre cultura e aten&#231;&#227;o (cultura serve para que n&#243;s afinemos a capacidade de aten&#231;&#227;o para o que realmente importa) e de Wolfgang Smith sobre o <a href="https://blogdo.yurivieira.com/2012/06/wolfgang-smith-demonio-distracao/">dem&#244;nio da distra&#231;&#227;o</a> (se nossa vida espiritual depende da integridade de nosso ser no foco que &#233; Cristo, ent&#227;o uma aten&#231;&#227;o que a toda hora &#233; desviada por distra&#231;&#245;es f&#250;teis &#233; an&#225;loga a uma alma que &#233; possu&#237;da por uma multid&#227;o de dem&#244;nio, Legi&#227;o).</p><p>N&#227;o sei se darei fim &#224;quela s&#233;rie, s&#243; sei que abandonei-a na metade quando consegui expurgar uma s&#233;rie de tormentos que vinham me paralizando a vontade. Um amigo at&#233;  chegou a comentar, l&#225; no Instagram, do quanto que &#233; comum que autores usem a escrita com objetivo de cura. Se houve alguma cura a&#237;, deu-se ao superar essa ang&#250;stia com as redes socias, e poder voltar a aten&#231;&#227;o ao que fortalece a consci&#234;ncia, como, por exemplo. os estudos que apresentei num curso (<em>Desvendando a Narrativa Inici&#225;tica dOs Lus&#237;adas</em>).</p><p>Essa pesquisa do cl&#225;ssico provou para mim de uma vez por todas como a aten&#231;&#227;o con&#237;nua a uma obra de alto valor art&#237;stico tamb&#233;m &#233; um exerc&#237;cio terap&#234;utico, naquele alto sentido terap&#234;utico que buscavam os fil&#243;sofos e humanistas na entrega amorosa a um grande livro. Ainda preciso mandar a &#250;ltima aula, para encerrar esse ciclo, e aproveitarei a ocasi&#227;o para complementar o que falo nesta carta.</p><p>Se for para fazer resolu&#231;&#245;es para o ano, que se fa&#231;a uma s&#243;. Listas de dez resolu&#231;&#245;es servem s&#243; para gerar frustra&#231;&#227;o, e frustra&#231;&#227;o &#233; um belo de um fator propiciador de ansiedade. A minha resolu&#231;&#227;o pessoal &#233; afinar mais ainda, atrav&#233;s da cultura e da f&#233;, essa capacidade de aten&#231;&#227;o. Afinal, l&#225; naqueles textos no Instagram eu partia da depress&#227;o enquanto excesso de passado na consci&#234;ncia, e da ansiedade enquanto excesso de futuro, os dois dist&#250;rbios impedindo-nos a viv&#234;ncia do presente, o estarmos presentes, a aceita&#231;&#227;o da Presen&#231;a.</p><p>E eu nem ia escrever esta carta aqui. Po&#233;m um amigo, ao me falar mais uma vez de uma discuss&#227;o imbecil na internet, logo ap&#243;s eu mesmo ter visto uma discuss&#227;o igualmente imbecil no Twitter, deu-me vontade de &#8220;pregar&#8221; a necessidade de se deixar de gastar energia nessa aten&#231;&#227;o cont&#237;nua a idiotices. </p><p>S&#243; me lembrei de uma esot&#233;rica maluca falando uma verdade, a de que n&#227;o &#233; qualquer deus que merece alimentar-se de nosso sangue.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!T6_S!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F626631ba-1286-48eb-807f-07bdf006a6a6_1024x1024.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!T6_S!, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/w_424, 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y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">Promptografia criada por mim atrav&#233;s do Bing Image Creator.</figcaption></figure></div><p>E quero encerrar com o trecho do livro do Mark Fisher, na verdade uma resposta do m&#250;sico experimental John Foxx em entrevista. Publico aqui tendo em vista os exerc&#237;cios que Olavo de Carvalho recomendava no COF para aprimorarmos nossa personalidade em torno do senso de presen&#231;a, uma vez que o conhecimento dos grandes autores n&#227;o &#233; o ponto mais alto da educa&#231;&#227;o liberal ideal, pois est&#225; imediatamente abaixo da contempla&#231;&#227;o amorosa da realidade.</p><blockquote><p>Mas muito mais agitado e estranho, o presente &#233; aquele modo do numinoso que &#8216;inunda como uma mar&#233; suave, impregnando a mente com um clima de adora&#231;&#227;o mais profunda&#8217; [aqui &#233; uma cita&#231;&#227;o de <em>O sagrado</em>, de Rudolf Otto]. [&#8230;]</p><p>O conceito de hecceidade de Duns Scottus &#8212; &#8216;aqui e agora&#8217; &#8212; parece particularmente apropriado. Deleuze e Guattari se apoderam disso em <em>Mil plat&#244;s</em> como um modo despersonalizado de indiv&#237;duo em que tudo &#8212; o sopro do vento, a qualidade da luz &#8212; desempenha um papel. Um certo uso de cinema &#8212; pense, particularmente, em Kubrick e Tarkovsky &#8212; parece especialmente estabelecido para nos sintonizar com a hecceidade, assim como a <em>polaroid</em>, uma captura de uma hecceidade que &#233;, ela mesma, uma hecceidade.</p></blockquote><p> </p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://oricardodecarvalho.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Cartas da Ilha Grande por enquanto &#233; totalmente gr&#225;tis. Para receber novas edi&#231;&#245;es e apoiar meu trabalho, considere assinar a newsletter, seja gratuitamente ou pagante.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Sobre estar livre numa tradição]]></title><description><![CDATA[Tudo uma quest&#227;o de ades&#227;o interior ao que nos ultrapassa at&#233; as origens]]></description><link>https://oricardodecarvalho.substack.com/p/sobre-estar-livre-numa-tradicao</link><guid isPermaLink="false">https://oricardodecarvalho.substack.com/p/sobre-estar-livre-numa-tradicao</guid><dc:creator><![CDATA[Ricardo de Carvalho]]></dc:creator><pubDate>Sat, 21 Dec 2024 11:20:46 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ZpA0!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff82117e3-ce76-4d66-8741-d2ee99105995_1200x1339.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Durante muito tempo me incomodei com a ideia de que, em literatura, o criador deve estar consciente da tradi&#231;&#227;o da sua pr&#243;pria l&#237;ngua. E n&#227;o era um inc&#244;modo de fundo progressista ou an&#225;rquico. Eu s&#243; passei a sent&#237;-lo quando me reconheci &#8220;conservador&#8221;. Antes, em tempo de temperamento esquerdista, eu me fiava no c&#226;none simplesmente por querer ler os melhores livros, n&#227;o perder tempo com besteira.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ZpA0!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff82117e3-ce76-4d66-8741-d2ee99105995_1200x1339.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ZpA0!, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/w_424, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/c_limit, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/f_webp, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/q_auto:good, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff82117e3-ce76-4d66-8741-d2ee99105995_1200x1339.jpeg 424w, 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y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p>Nessa &#233;poca de descobertas liter&#225;rias, se me viesse a motiva&#231;&#227;o para a resist&#234;ncia ao c&#226;none, viria por motivos de vanguarda, gosto pela irrever&#234;ncia e pela subvers&#227;o &#224;s formas, atra&#231;&#227;o por experimentalismos. N&#227;o ligava se a contra-cultura era uma estrat&#233;gia pol&#237;tica de marginalizados para derrubar o sistema. N&#227;o queria saber se Baschiat era negro, se Keih Haring era gay, se Marina<strong> </strong>Abramovi&#263; era mulher: interessava-me a for&#231;a e a beleza no que faziam.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://oricardodecarvalho.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Cartas da Ilha Grande is a reader-supported publication. To receive new posts and support my work, consider becoming a free or paid subscriber.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Estar consciente da tradi&#231;&#227;o da l&#237;ngua implica, &#233; claro, na consci&#234;ncia de se participar de uma tradi&#231;&#227;o de origem europ&#233;ia: conhecer a literatura dos demais idiomas latinos, anglo-sax&#227;os e germ&#226;nicos, dos monumentos po&#233;ticos da Gr&#233;cia antiga, da l&#237;ngua russa, de se estar aberto a obras escritas em l&#237;nguas que entraram depois na festa feito o japon&#234;s (e ver como um g&#234;nero estranho como o haikai se acomoda no complexo cultural do que se chama de Ocidente). E tamb&#233;m das formas que moldaram as cria&#231;&#245;es art&#237;sticas ao longo desses s&#233;culos todos, pelo que h&#225; de multiplicidade no uno nas cosmovis&#245;es, temperamentos e arranjos m&#237;ticos por tr&#225;s das conven&#231;&#245;es e moldes.</p><p>Meu inc&#244;modo surgiu pela rea&#231;&#227;o a uma opini&#227;o besta, de que a cria&#231;&#227;o romanesca deve se ater &#224; linha flaubertiana, como se essa esgotasse as possibilidades do romanesco, como se Flaubert fosse o tipo ideal do escritor (e ele &#233;, mas &#233; um entre alguns outros). Sem dar agora mais aten&#231;&#227;o a esse mito, para responder essa quest&#227;o a mim mesmo eu tive que dar um passo atr&#225;s, esclarecer se &#233; da pr&#243;pria ess&#234;ncia do fazer liter&#225;rio a necessidade de se criar tendo em vista aqueles que criaram antes de n&#243;s e seguir o projeto deles, ao inv&#233;s de inventar do nada um programa pr&#243;prio, feito um Ad&#227;o de manh&#227; cedo.</p><p>Em verdade, o que me incomodava ent&#227;o mal se tratava de inc&#244;modo, era mais um ponto cego por desconhecer algumas notas do que constitui a presen&#231;a de tradi&#231;&#227;o em seu sentido forte quando essa &#233; uma for&#231;a viva, e n&#227;o um arranjo de cascas mortas de uma floresta petrificada que apenas oprime sem dar flores perfumadas e vistosas nem frutos saborosos e nutritivos, nem ra&#237;zes medicinais ou ao menos o al&#237;vio que a copa pode dar ao filtrar a luz do sol em dias secos e quentes e servir de poleiro ao canto dos p&#225;ssaros.</p><p>O imperativo da consci&#234;ncia da l&#237;ngua soava-me arbitr&#225;rio, uma escolha que se pode fazer ou n&#227;o sem grandes preju&#237;zos. Se se dissesse n&#227;o ao ordenamento, cogitei se &#233; poss&#237;vel criar um romance ou poema forte sem que o autor fosse culto. </p><p>Ou seja: o imperativo n&#227;o me soava como necessidade decorrente da presen&#231;a da tradi&#231;&#227;o. Parecia arbitr&#225;rio, um discurso motivador ou opressor apenas.</p><p>Bem depois que me dei conta de que o esp&#237;rito que une as almas criadoras ao longo do tempo num mesmo espa&#231;o compartilhado pelas gera&#231;&#245;es, espa&#231;o em expans&#227;o com o dom&#237;nio da cultura greco-latina primeiro, depois crist&#227;o e hoje p&#243;s-barroco, esse esp&#237;rito n&#227;o &#233; uma figura de linguagem, esse esp&#237;rito tem subst&#226;ncia.</p><p>O esp&#237;rito tem uma concre&#231;&#227;o na ordem do discurso, ordem essa constitu&#237;da materialmente pela biblioteca borgeana infinita da qual todas as obras j&#225; escritas fazem partes. E em sua dimens&#227;o imaterial, pelos atos da consci&#234;ncia na efabula&#231;&#227;o antes de se p&#244;r as palavras em papel ou em tela. Uma concretude que se opera na tens&#227;o entre gravidade (os livros escritos) e a gra&#231;a (o ato criador).</p><p>Pois a percep&#231;&#227;o da concretude dos elementos concernentes &#224; gravidade enquanto extens&#227;o, que &#233; tudo aquilo que Northrop Frye analisou em sua Anatomia da Cr&#237;tica, do que pode ser coletado, medido e comparado (modos, s&#237;mbolos, mitos, g&#234;neros e ritmos), e &#224; gra&#231;a enquanto intensividade (que &#233; a originalidade a emergir do uso das conven&#231;&#245;es dominadas, original menos no sentido do que aparece primeiro no tempo e mais no que &#233; inseminado no tempo desde a Grande Origem de Tudo, e que exige certo n&#237;vel de consci&#234;ncia para que seja experimentado), a percep&#231;&#227;o de suas exist&#234;ncias permitiu-me sentir a necessidade da tradi&#231;&#227;o como propriedade inescap&#225;vel do fazer liter&#225;rio.</p><p>Mas a percep&#231;&#227;o negativa, que se fortaleceu quando lia obras em que os autores desdenhavam a tradi&#231;&#227;o por motivos pol&#237;ticos, foi o que me convenceu. Pois neses poemas e romances percebemos as conven&#231;&#245;es tanto quanto no c&#226;none, por&#233;m sempre numa pobreza criativa atroz, na reprodu&#231;&#227;o de clich&#234;s, no simulacro de poesia sem ritmo algum, no trabalho pregui&#231;oso das met&#225;foras. s&#237;miles e alegorias que quase nunca renovavam o olhar ou a dimens&#227;o expressiva da l&#237;ngua, tudo arrotado na linguagem da m&#237;dia, da ideologia, dos editais de fomento. Por isso que nunca t&#234;m originalidade, nunca.</p><p>E h&#225; mais. Esses autores que negam a tradi&#231;&#227;o da l&#237;ngua ainda assim est&#227;o nela, agindo inconscientemente a partir daquilo que &#233; sombra dos grandes autores: temas que n&#227;o conseguem se articular al&#233;m de frases malsonantes, imagens batidas, do sentimentalismo mais bobo. Vivem a tradi&#231;&#227;o nas suas oitavas mais baixas, pr&#243;ximas ao balbucio e &#224; fala dos senis. J&#225; nasce mat&#233;ria apodrecida, com menos vida do que, sei l&#225;, um soneto parnasiano cometito por algum advogado beletrista em 1953. A grande ironia: est&#227;o na tradi&#231;&#227;o mas sem liberdade, enquanto que um negro como Machado de Assis ou uma bissexual como Virginia Woolf estavam livres nela.</p><p>Nick Land falou recentemente que, em nossa sociedade, apenas fan&#225;ticos religiosos n&#227;o s&#227;o NPCs. O mesmo pode ser dito acerca daqueles que est&#227;o de boa com o c&#226;none. Toda a arraia mi&#250;da restante soa como sa&#237;das de um prompt simples em programas de geradores de texto por intelig&#234;ncia artifical.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://oricardodecarvalho.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Cartas da Ilha Grande &#233; um jornalzinho gratuito mas em breve comea&#231;ar&#225; a ter postagens exclusivas para financiadores. Para receber novas edi&#231;&#245;es e motivar mais ainda meu trabalho, considere assinar em modalidade pagante ou gratuita.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Dionísio e o banquete do Cordeiro]]></title><description><![CDATA[Em que falo da cerim&#244;nia da abertura das Olimp&#237;adas n&#227;o para denunciar o diabolismo na cerim&#244;nia, assunto cujo vinho j&#225; azedou, mas para revelar outro mist&#233;rio oculto em Os Lus&#237;adas]]></description><link>https://oricardodecarvalho.substack.com/p/dionisio-e-o-banquete-do-cordeiro</link><guid isPermaLink="false">https://oricardodecarvalho.substack.com/p/dionisio-e-o-banquete-do-cordeiro</guid><dc:creator><![CDATA[Ricardo de Carvalho]]></dc:creator><pubDate>Mon, 19 Aug 2024 20:49:00 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!OKu2!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffff85734-c8a6-42a0-962e-16e014901274_800x857.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>(Esta &#233; a primeira de uma s&#233;rie de tr&#234;s cartas para explicar o que fa&#231;o no Projeto 12Palavras, ainda n&#227;o oficialmente lan&#231;ado mas j&#225; anunciado, cuja primeira investida cultural vem ocorrendo no curso <a href="https://ricardodecarvalho.com.br/?p=49">Desvendando a narrativa inici&#225;tica dOs Lus&#237;adas</a>)</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!OKu2!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffff85734-c8a6-42a0-962e-16e014901274_800x857.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!OKu2!, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/w_424, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/c_limit, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/f_webp, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/q_auto:good, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffff85734-c8a6-42a0-962e-16e014901274_800x857.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!OKu2!, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/w_848, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/c_limit, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/f_webp, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/q_auto:good, 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J&#225; fizeram-na a contento, como o Jonathan Pageaux <a href="https://youtu.be/rckBhO23cIA?si=LeffALLvrP_H1qap">aqui</a>. Ele mesmo ri da falta de necessidade em interpretar o que est&#225; gritado, restando apontar o cinismo de quem acusou histeria ou hipocrisia nos crist&#227;os que se incomodaram com o festim.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://oricardodecarvalho.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Cartas da Ilha Grande! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Aproveitarei o tema para apresentar uma ou duas ideias que t&#234;m a ver com o empreendimento no qual estou engajado agora, um curso chamado <strong><a href="https://ricardodecarvalho.com.br/?p=49">Desvendando a narrativa inici&#225;tica dOs Lus&#237;adas</a></strong>, que abre os trabalhos do meu <strong>Projeto</strong> <strong>12Palavras</strong>. Publiquei 6 aulas das 13 previstas. </p><p>Um elemento que cresceu em vulto, numa estatura que a princ&#237;pio n&#227;o se mostrava para mim, a fun&#231;&#227;o mist&#233;rica de Baco/Dion&#237;sio na narrativa inici&#225;tica de Cam&#245;es, levou-me ao <em>Nascimento da trag&#233;dia</em>, de Nietzsche, e tamb&#233;m a dedicar bons minutos das aulas a expor uma tens&#227;o cultural que estava em germe no poema. Aos poucos, nos s&#233;culos seguintes, a tens&#227;o emergiu na cultura ocidental, especialmente no Brasil.</p><h2>O simbolismo do banquete</h2><p>Por&#233;m, antes de falar daquilo que &#233; negativo no arqu&#233;tipo de Dion&#237;sio/Baco, acho necess&#225;rio expor a base comum do simbolismo do banquete dos deuses. Pois h&#225; o banquete dionis&#237;aco, que causou esc&#226;ndalo na cerim&#244;nia, e h&#225; o Banquete do Cordeiro do catolicismo: <a href="https://www.amazon.com.br/Banquete-Cordeiro-Missa-Segundo-Convertido/dp/8588158957">reatualiza&#231;&#227;o do drama sagrado da vis&#227;o do Apocalipse no ritual eucar&#237;stico da missa</a>. Na festa parisiense fizeram par&#243;dia demon&#237;aca do rito crist&#227;o ao subverter a iconografia celebrizada por Da Vinci, com a desculpa de que a refer&#234;ncia era um quadro de Jan Harmensz van Bijlert, sendo que seu <em>O festim dos deuses</em> j&#225; explorava a mem&#243;ria e as emo&#231;&#245;es de um p&#250;blico que mantinha a Santa Ceia no horizonte de consci&#234;ncia. </p><p>Para falar do banquete, cito o amigo Lucas Salisb&#250;ria, que havia discorrido <a href="https://x.com/salisburia6">no Twitter</a> sobre a universalidade dos elementos principais da Eucaristia que estiveram presentes, por exemplo, na cultura romana. Reproduzo livremente:</p><blockquote><p>O festim representa a soteriologia: depois que voc&#234; "termina" ou escapa dessa roda da fortuna, o que &#233; que faz? Esta &#233; a vida divina: saborear os frutos que foram gerados ali, nos dias ma&#231;antes da vida comum. voc&#234; come e bebe - desfruta - o que foi produzido. </p><p>A roda do zodiaco, e os trabalhos humanos associados a cada 'esta&#231;&#227;o' do sol, representam essencialmente a feitura de alimento s&#243;lido (p&#227;o) e alimento l&#237;quido (vinho) - ambos presentes na mesa do banquete de Janus. Comer e beber significa: conhecer de fato o valor de que todas as coisas feitas n&#227;o se apresentar&#227;o mais na ambiguidade, mas voc&#234; saber&#225; o valor real de todas essas coisas. Quando voc&#234; come/bebe, voc&#234; sente o gosto e integra definitivamente um bem no seu ser. As virtudes que voc&#234; cambaleava para manter agora, depois da morte, ser&#227;o integradas definitivamente na sua individualidade. E todas as coisas feitas n&#227;o se apresentar&#227;o mais na ambiguidade, mas voc&#234; saber&#225; o valor real de tudo. </p><p>O trigo do p&#227;o "sobe" da terra; a uva do vinho cresce no alto e "desce" at&#233; n&#243;s - &#233; o <em>hieros gamos</em>, o casamento celestial. A integra&#231;ao dos dois &#233; a feitura de um novo corpo, porque o antigo foi feito de barro escuro, e este novo &#233; feito de farinha. Todos os reinos inferiores (mineral, vegetal e animal) est&#227;o dispostos na mesa do homem porque ele &#233; o vice-rei da cria&#231;&#227;o, e dela disp&#245;e porque tem em si o Esp&#237;rito que santifica e espiritualiza tudo o que toca. </p><p>De certa forma, ser consumido pelo homem &#233; o fim mais elevado do mundo inferior, virar p&#227;o e ser comido &#233; o c&#233;u para o trigo; virar vinho e ser bebido &#233; o c&#233;u da uva. Levantar o c&#225;lice em sa&#250;de &#233; um exemplo disso: o vinho que &#233; fermentado debaixo das casas, enterrado para ser protegido da luz e do calor, termina num c&#225;lice de ouro sendo erguido acima de todos os alimentos. tudo o que est&#225; entre este trajeto &#233; simbolicamente consagrado e tamb&#233;m elevado aos bens da terra e os 'santifica', porque os consagra a Deus. </p><p>Um p&#227;o n&#227;o consegue orar, mas n&#243;s oramos por eles.</p></blockquote><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Y_Im!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4a0ba44e-6cbd-4f4e-a4e3-dbb8742c1c4a_600x394.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Y_Im!, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/w_424, 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Porque no epis&#243;dio final de <em>Os Lus&#237;adas</em>, o da Ilha dos Amores, h&#225; um banquete em que festejam homens e deusas ap&#243;s a hierogamia entre essas duas ra&#231;as, o epis&#243;dio culminando em uma apoteose gn&#243;stica: a ascens&#227;o de Vasco ao topo da estrutura da realidade. </p><h2>Baco emergindo da psique para submergir o poema</h2><p>Nesses cantos finais se v&#234; sublimada a presen&#231;a de Baco, derrotado nos epis&#243;dios anteriores em sua disputa contra V&#234;nus. O deus do vinho invocou os deuses das profundezas marinhas para submergir os nautas no oceano profundo. As ninfas, a mando da deusa, se lan&#231;am contra os ventos, estes enviados por Netuno e, em vez de guerrearem entre si, as divas entregam-se a eles em amores, apaziguando-os. Com a natureza harmonizada, a deusa do amor pode assim levar os barcos &#224; ilha m&#237;stica, e promover nela um festim sagrado em homenagem &#224;s virtudes cavaleirescas dos lusitanos.</p><p>A ideia de que o poema &#233; narrativa inici&#225;tica, em que a navega&#231;&#227;o de Vasco da Gama at&#233; a &#205;ndia &#233; uma alegoria de uma jornada da alma at&#233; sua individua&#231;&#227;o, disputa entre  for&#231;as contr&#225;rias simbolizadas em V&#234;nus (o Amor que reintegra a natureza e a humanidade deca&#237;dos em Deus) e Baco (tend&#234;ncias dispersivas da psique, portanto diab&#243;licas), vem sendo tratada ao longo dos &#250;ltimos cem anos por autores como Jorge de Sena, Helder Macedo, Ant&#243;nio Telmo e Luisa N&#243;brega. No primeiro m&#243;dulo do curso apresentei as vis&#245;es desses quatro. </p><p>E me chamou grande aten&#231;&#227;o o modo como N&#243;brega n&#227;o interpretou o poema pelo que h&#225; de solar nele, de jornada imperial, b&#233;lica e masculina de supera&#231;&#227;o, portanto pelo sentido da narrativa &#233;pica. Ela buscou o que h&#225; de esp&#237;rito l&#237;rico-tr&#225;gico representado em Baco enquanto sombra de Cam&#245;es, com a qual a persona do poeta seria identificada em seu suposto ressentimento contra os deuses do Olimpo e a coroa portuguesa, mas tamb&#233;m pelo que Baco tem de promotor da poesia (como disse Harold Bloom a prop&#243;sito de Nietzsche, Baco &#233; o deus da religi&#227;o peculiar dos artistas). Fiquei um tanto quanto impactado pelo engenho com que ela conseguiu subverter a interpreta&#231;&#227;o tradicional: para ela, o sentido profundo do poema &#233; o l&#237;rico-tr&#225;gico ao inv&#233;s do &#233;pico.</p><p>Da&#237; que fui ler o Jung devido &#224; sua presen&#231;a na sua argumenta&#231;&#227;o, e acabei chegando n<em>O Nascimento da Trag&#233;dia</em>, ensaio em que s&#227;o apresentados os conceitos de apol&#237;neo e dionis&#237;aco como eixos de uma vis&#227;o de cultura.</p><p>N&#227;o vou entrar aqui em minha cr&#237;tica a ela (j&#225; fiz parte disso no curso, e pretendo me demorar com mais rigor num ensaio a sair em livro), n&#227;o porque ache sua interpreta&#231;&#227;o importante &#8212; e nem por desdenh&#225;-la: a leitura de seu <em>No reino da &#225;gua o rei do vinho</em> foi prazerosa e estimulante &#8212;, mas por ver ali reflexo do mesmo tipo de influ&#234;ncia inconsciente que gerou a confus&#227;o da cerim&#244;nia &#8220;ol&#237;mpica&#8221;.</p><p>Devo dizer, contudo, que acolhi na minha interpreta&#231;&#227;o sua ideia de que Baco realmente representava uma for&#231;a no inconsciente da persona de Cam&#245;es, uma pot&#234;ncia que tentou emergir para imergir com tudo, querendo fazer naufragar o poema.</p><h2>O sentido da missa negra parisiense</h2><p>Fica bem claro para quem assistiu a cerim&#244;nia com olhos livres: as defesas de que o Festim de Baco teatralizado em Paris n&#227;o era diab&#243;lico, mas um evento para promover a paz e a uni&#227;o das diferen&#231;as, n&#227;o conseguiram esconder que as orgias b&#225;quicas antigas n&#227;o eram festinhas regadas a m&#250;sica ruim e alegria embriagada, mas um frenesi de viol&#234;ncia como visto na macabra cena da mulher cantando <em>heavy metal</em> vagagundo enquanto segurava sua pr&#243;ria cabe&#231;a decepada, ou da reprodu&#231;&#227;o das cenas de &#234;xtase assassino da Revolu&#231;&#227;o Francesa. Recorda V&#237;tor Aguiar e Silva no ensaio <em>O mito de Baco e o seu significado nos Lus&#237;adas</em> (texto publicado em <em>A lira dourada e a tuba canora</em>, que rende um depoimento impressionante da N&#243;brega acerca da universidade portuguesa e da disputa de paix&#245;es no seio da camon&#237;stica), em Roma o Oct&#225;vio Augusto e  Tib&#233;rio tiveram que marginalizar e perseguir o culto a Baco, devido &#224; loucura descontrolada na celebra&#231;&#227;o de seus mist&#233;rios.</p><p>Embora Nietzsche tenha compreendido mal as realidades daquilo que chamou de dionis&#237;aco, acertou na medida que deu &#224; for&#231;a que mentiras, como seu falso mito, t&#234;m de gerar realidades. Este nosso mundo de hoje foi, em boa parte, criado por sua mentira esplendorosa, seu <em>simulacro</em>. </p><p>Cam&#245;es j&#225; sabia que Baco &#233; uma for&#231;a em nossas almas, e uma for&#231;a que deve ser reconhecida, e sublimada, para que n&#227;o nos afogue no seu sangue. Assim como apostava no poder da fic&#231;&#227;o de gerar realidades, ao p&#244;r na boca da ninfa T&#233;tys o discurso de que ela e os demais deuses s&#227;o apenas recursos po&#233;ticos, no m&#225;ximo refer&#234;ncias astrol&#243;gicas.</p><p>Essa tens&#227;o entre o esp&#237;rito &#233;pico e o esp&#237;rito tr&#225;gico, que Nietzsche revelou para o mundo, e que N&#243;brega faz reconhecer como chave de significa&#231;&#227;o do poema, &#233; um contributo que n&#227;o pode ser mais negado, uma vez expresso. </p><p>No curso tento ir mais fundo na tens&#227;o, pois ela obedece a uma din&#226;mica em que concorre um terceiro fator: a consci&#234;ncia hist&#243;rica, o elemento propriamente crist&#227;o nisso tudo. E &#233; bom frisar, hist&#243;rica no seu sentido pleno: hist&#243;ria iluminada pela encarna&#231;&#227;o do Logos no tempo, na tens&#227;o entre determina&#231;&#245;es do Fado e a liberdade orientada pela Provid&#234;ncia Divina.</p><h2>Outro segredo dOs Lus&#237;adas</h2><p>Os Lus&#237;adas<em> exp&#245;em uma tens&#227;o na cultura de sua &#233;poca, tens&#227;o que vinha crescendo no fim do medievo na consci&#234;ncia dos humanistas em meio a tentativas de articular imaginativamente o tempo da hist&#243;ria com o tempo do mito.</em> O tempo progressivo da hist&#243;ria dos reis e cavaleiros e do povo portugu&#234;s, e o tempo circular do mito no simbolismo astrol&#243;gico-natural do cons&#237;lio dos deuses no Olimpo. Uma tens&#227;o que foi muito bem resolvida durante mil anos no medievo, com a viv&#234;ncia de um tempo espiralado, em que a l&#243;gica e a viv&#234;ncia ritual dos sacramentos dava o sentido do tempo c&#237;clico da natureza sob um simbolismo mais amplo, o da vida de Cristo acompanhada sacramentalmente pela comunidade no calend&#225;rio lit&#250;rgico. </p><p>Minha tese acerca da narrativa inici&#225;tica d<em>Os Lus&#237;adas</em>, de que dou mais mais detalhes no curso, &#233;: <strong>uma vez que no humanismo renascentista o equil&#237;brio entre os tempos come&#231;ava a se perder na sociedade, a tentativa de restaurar a propor&#231;&#227;o entre tempo hist&#243;rico e tempo das pot&#234;ncias c&#243;smicas gerou uma &#8220;fenda&#8221; na qual Baco encontrou uma brecha para RENASCER</strong>. A &#8220;energia&#8221; simbolizada no deus do vinho n&#227;o pode permanecer perenemente invocada, precisa ocultar-se de tempos em tempos, como diz Mircea Eliade no cap&#237;tulo dedicado a ele no primeiro tomo de sua <em>Hist&#243;ria das Cren&#231;as e das Id&#233;ias Religiosas</em>. A sua cont&#237;nua invoca&#231;&#227;o e incorpora&#231;&#227;o pode levar a comunidade &#224; sua pr&#243;pria desintegra&#231;&#227;o via indiferencia&#231;&#227;o e esgotamento de suas possibilidades mais baixas, risco representados v&#225;rias vezes no simbolismo de bacantes se lan&#231;ando ao <strong>abismo</strong> <strong>marinho</strong>.</p><p>Por isso n&#227;o posso crer que aquela missa francesa em que, no lugar da h&#243;stia consagrada, serviu-se o corpo feioso de Baco cantando poper&#244;, n&#227;o escondia uma inten&#231;&#227;o diab&#243;lica. O pr&#243;prio Nietzsche diz com todas as letras no <em>Ensaio de uma autocr&#237;tica</em>, texto que teve que escrever porque suas inten&#231;&#245;es em <em>O nascimento da trag&#233;dia </em>ficaram incompreendidas: toda a sua argumenta&#231;&#227;o contra o esp&#237;rito &#233;pico apol&#237;neo e em favor do tragicismo dionis&#237;aco mira <strong>a moralidade crist&#227;</strong>. </p><p>Essa &#233; a chave, a &#250;nica chave poss&#237;vel para interpretar a cerim&#244;nia de abertura das Olimp&#237;adas.</p><p>Quando comecei a divulgar meu curso trabalhando a ideia de que <em>Os Lus&#237;adas</em> era um mapa natal do Brasil, essa quest&#227;o sobre o papel de Baco n&#227;o havia assomado &#224; minha consci&#234;ncia. Da&#237; veio uma intui&#231;&#227;o, de que ainda quero tratar um dia no Projeto 12Palavras, caso ela sobreviva a investiga&#231;&#245;es: a possibilidade de uma vis&#227;o da cultura brasileira em que ela pende entre carnaval, tempo de Baco, e a festa junina, seu p&#234;ndulo se balan&#231;ando no vento pseudo-pentecostal do fionirismo latente em <em>Os Lus&#237;adas</em> (coisa de que falo bastante no curso). Se, como disse Vil&#233;m Flusser, uma contribui&#231;&#227;o da filosofia brasileira ao mundo seria um estudo do modo desordenado com que vivemos a festa, uma vez que o Ocidente se encaminhava para colocar o carnaval no centro da experi&#234;ncia civil-religioso do tempo, acho que faz sentido ir por a&#237;, ainda mais tendo em vista o que Pageaux falou no da presen&#231;a do carnavalesco no j&#225; citado v&#237;deo, pot&#234;ncia desagregadora que esgar&#231;a o real, na cerim&#244;nia. </p><p>Na pr&#243;xima carta criticarei a poss&#237;vel resposta que vem sendo dada ao esp&#237;rito dionis&#237;aco, que &#233; a apol&#237;nea Jornada do Her&#243;i, tamb&#233;m partindo dos problemas discutidos no curso.</p><p>Mas antes de concluir, repito: o dionis&#237;aco &#233; um elemento de nossa psique que n&#227;o deve ser ignorado. A din&#226;mica entre o apol&#237;neo e o dionis&#237;aco &#233; chave fecunda na psicologia individual e do imagin&#225;rio social como um todo, mas os dois s&#227;o aspectos de algo mais profundo e permanente do mundo imaginal. Lembro de algo que li em redes sociais e que nunca achei a fonte, de que a arte barroca concilia o apol&#237;neo e o dionis&#237;aco em uma rede simb&#243;lica completa, mais adequada &#224; realidade. Venho pensando nisso, ainda sem chegar a uma conclus&#227;o, mas o quadro deste pintor peruano me faz crer que sim: consegues perceber como o dion&#237;siaco est&#225; integrado a&#237;?</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!o0FX!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4252ba7a-f15d-4d96-b025-26565c69f975_623x768.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!o0FX!, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/w_424, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/c_limit, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/f_webp, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/q_auto:good, 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D&#225; ao Corpo um prop&#243;sito, um Corpo que se torna uma extens&#227;o (um padr&#227;o que conecta as coisas) ao longo do tempo e n&#227;o do espa&#231;o (&#233; por isso que a sincronicidade acontece). Direcionar a aten&#231;&#227;o &#233; uma peti&#231;&#227;o para governar padr&#245;es.</em></p><p><em>Seele (<a href="https://x.com/UndergroundAeon">https://x.com/UndergroundAeon</a>) </em></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://oricardodecarvalho.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Cartas da Ilha Grande! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!khi0!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F09458275-d1f3-4204-a305-1571b7fbc0a6_1024x756.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!khi0!, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/w_424, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/c_limit, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/f_webp, 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O v&#237;cio n&#227;o era s&#243; nosso, tamb&#233;m era dos alunos mais espertinhos de Humanas e dos professores que arriscavam algum pensamento fora do cabresto ideol&#243;gico. </p><p>Todo mundo que passou pelas Federais conheceu o arquet&#237;pico maconheiro do curso de Filosofia, viu-o se exaltando enquanto expunha um <em>insight</em> idiota ap&#243;s se deparar com algum elemento apropriado para sustentar uma analogia, concordou com o salto l&#243;gico que o levava a um julgamento acerca de algum dos universais: o amor, o crime, a pregui&#231;a, o poder, o chifre, o capricho das mulheres. Problema &#233; que n&#227;o sab&#237;amos reconhecer que colegas mais admirados e os nossos professores tamb&#233;m tinham um imagin&#225;rio igualmente tosco, formulando ideias segundo o mesmo padr&#227;o. Afinal, esses traziam uma carga de leitura que poderia ser acessada a qualquer momento numa discuss&#227;o, e facilmente o interlocutor sa&#237;a impressionado pelo carisma livresco, ou no m&#237;nimo pela aura do diploma, sem se tocar que apenas ouvira um <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Defesa_Chewbacca#:~:text=Defesa%20de%20Chewbacca%20%C3%A9%20uma,o%20caso%20ou%20argumento%20oposit%C3%B3rio.">argumento Chewbacca</a>.</p><p>(do que me lembro de um recurso poderoso que intu&#237; ainda no primeiro per&#237;odo da faculdade: diante de um professor no ato de tecer uma an&#225;lise de discurso &#8212; famosa t&#233;cnica francesa de desconversa &#8212; para desconstruir uma ideia alheia, fa&#231;a para si uma an&#225;lise do discurso do professor)</p><p>O conhecimento das estruturas simb&#243;licas &#233; o princ&#237;pio de uma educa&#231;&#227;o ideal. Inicia-se pela vida ritual&#237;stica na Igreja e pela observa&#231;&#227;o e experimenta&#231;&#227;o da natureza. Continua pela sua absor&#231;&#227;o atrav&#233;s da leitura de contos, poemas, romances, pe&#231;as, que j&#225; na inf&#226;ncia dar&#227;o o enredo das brincadeiras e na adolesc&#234;ncia a forma dos primeiros amores. E buscando ao longo da vida o que sempre foi escrito num n&#237;vel de consci&#234;ncia e beleza que fa&#231;a jus &#224;s duas fontes principais do imagin&#225;rio ocidental: a B&#237;blia e a mitologia greco-latina. Assim &#233; que se fortalece nossa capacidade de pensar e intuir diferen&#231;as e semelhan&#231;as, de modo que, ao chegar &#224; faculdade, n&#227;o seja t&#227;o f&#225;cil ser ludibriado pelas intelig&#234;ncias depravadas dos professores e pelo falat&#243;rio imaturo dos pares. </p><p>E o principal: a vida interior tamb&#233;m &#233; fortalecida contra o autoengano, os racioc&#237;nios que criamos para justificar algo que sabemos, l&#225; no fundo, ser besteira.</p><p>E se tal aprendizado &#233; o princ&#237;pio, o fim ideal &#233; conseguir intuir aquela faixa de realidade fundante e muda que permite que essas estruturas <em>sejam e d&#234;em-se a ser conhecidas por n&#243;s</em>.</p><p>Tive essa conversa com o amigo em data pr&#243;xima &#224;quela do in&#237;cio da terr&#237;vel enchente que h&#225; um m&#234;s abalou o Rio Grande do Sul. Al&#233;m do compadecimento com desconhecidos e amigos virtuais que sofreram (e ainda sofrem, e t&#227;o cedo deixar&#227;o de sofrer) com o desastre, fiquei incomodado com o au&#234; em cima daquela cena do cavalo que estava h&#225; mais de dia em cima de uma casa, sem conseguir descer por causa da &#225;gua. A m&#237;dia vinha explorando casos de bichos com uma aten&#231;&#227;o anormal, depois de menosprezar o sofrimento dos ga&#250;chos em favor da cobertura intensa da missa negra de uma cantora decadente no Rio de Janeiro. N&#227;o preciso dizer que o resgate dos animais &#233; parte integrante da crise, eu parei para ver o salvamento do cavalo ao vivo no programa da Ana Maria Braga. Mas me lembro bem do discurso inc&#244;modo de que a resist&#234;ncia do cavalo era um s&#237;mbolo do que se passava ali no Rio Grande do Sul. </p><p>O cavalo inerte esperando pelo poder p&#250;blico para resgat&#225;-lo era, para a Globo e outros jornais, s&#237;mbolo do povo ga&#250;cho. Numa crise que foi gerada justamente pela incompet&#234;ncia do poder p&#250;blico. E enquanto esse povo precisava lutar contra burocracia para salvar-se a si pr&#243;prio, com ajuda de uma corrente bonita de solidariedade que moveu o pa&#237;s (e que, infelizmente, arrefeceu), a m&#237;dia risonha elegeu para s&#237;mbolo um animal passivo &#224; espera do mesmo Estado que p&#244;s o cavalo ali.</p><p>Veja, a quest&#227;o que apresento aqui nem &#233; a de for&#231;ar uma cr&#237;tica liberal (pois nem liberal sou) contra o discurso midi&#225;tico. Afinal, nem acho que houve um intuito consciente de uma m&#237;dia chapa-branca para eleger como s&#237;mbolo agregador de afetos um animal que, em outras situa&#231;&#245;es, serviria sim como s&#237;mbolo de for&#231;a, de resili&#234;ncia. O que me chamou a aten&#231;&#227;o foi o impulso com que os jornalistas expressaram essa analogia. </p><p>O sofrimento animal nos importa enquanto elo de um problema cujo sofrimento &#233; antes de tudo humano. Lembro que os trechos de Grande Sert&#227;o: Veredas e de Vidas Secas que mais me comoveram foram os de mortes de bichos: no primeiro, o sacrif&#237;cio dos cavalos durante uma tocaia, noutro a morte da cachorra Baleia. Mas sabemos que o essencial naquelas dramas era de cerne humano, e esses epis&#243;dios est&#227;o ali para acentuar o alcance c&#243;smico de algo cujo centro est&#225; na alma de quem foi criado semelhante ao Deus que criou os animais.</p><p>Como dizia um amigo jornalista meu, a diferen&#231;a entre publicit&#225;rios e jornalistas consiste em que os primeiros sabem porque v&#227;o ao Inferno.</p><p>O que vimos ali foi um caso de invers&#227;o simb&#243;lica, n&#227;o do tipo que vemos em passagens de n&#237;veis metaf&#237;sicos, mas do que notamos em fases de fim de ciclos culturais, quando um s&#237;mbolo de fertilidade &#233; saudado como um s&#237;mbolo de paralisia, e vice-versa, por exemplo.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Ol7-!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb23d5a6a-4766-4338-b280-ba5864a2263e_1170x642.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Ol7-!, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/w_424, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/c_limit, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/f_webp, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/q_auto:good, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb23d5a6a-4766-4338-b280-ba5864a2263e_1170x642.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Ol7-!, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/w_848, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/c_limit, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/f_webp, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/q_auto:good, 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Esses s&#237;mbolos encenam-se em nossos sonhos fora de nosso controle, expressando conte&#250;dos que passaram despercebidos ou foram recalcados durante a vig&#237;lia. Mas a fonte primeva &#233; a dos m&#237;sticos fundadores das culturas, cujos atos de fala est&#227;o em conson&#226;ncia com um sil&#234;ncio que n&#227;o se origina no mundo sens&#237;vel. </p><p>Esses s&#237;mbolos, uma vez desgarrados das estruturas nas quais foram articuladas em suas origens, hoje irrompem automaticamente no discurso de quem &#233; apenas reprodutor de outras vozes que n&#227;o as suas pr&#243;prias. Assim ocorre atrav&#233;s do grosso de nossa m&#237;dia jornal&#237;stica, artistas, falsos profetas, doutores universit&#225;rios e pol&#237;ticos &#8212; o marketeiro &#233; outro problema, esse sabe bem o quanto &#233; dono do pr&#243;prio poder de falar. O s&#237;mbolo <em>cavalo</em> num discurso ou num rito &#233; a cristaliza&#231;&#227;o sens&#237;vel de opera&#231;&#245;es mental que condensa ao mesmo tempo a ess&#234;ncia e um conjunto amplo de possibilidades de uma qualidade humana. Sendo que a qualidade humana no conjunto de sua extensividade j&#225; &#233; s&#237;mbolo de uma qualidade divina em sua m&#225;xima intensividade.</p><p>Um cavalo resistindo &#224; restri&#231;&#227;o de seu espa&#231;o vital pode servir de s&#237;mbolo para homens resistindo ao estreitamento de vias de acesso e participa&#231;&#227;o no Ser. N&#227;o era o caso na enchente. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!GfNl!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4e0b2df5-da69-44da-8eaf-09a8aef1cc8d_894x662.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!GfNl!, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/w_424, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/c_limit, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/f_webp, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/q_auto:good, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4e0b2df5-da69-44da-8eaf-09a8aef1cc8d_894x662.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!GfNl!, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/w_848, 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Um rei que se nega a essa obriga&#231;&#227;o pode levar o seu pa&#237;s, e portanto seu povo, ao risco de se extinguir, de chegar ao fim de suas possibilidades no tempo, perder sua liberdade, cair na pobreza e enfim ser escravizado por um reino invasor. Possibilidades que foram criadas, sustentadas e renovadas pelas gera&#231;&#245;es anteriores de seus ancestrais, desde o primeiro rei de sua dinastia h&#225; s&#233;culos. Esse simbolismo do rei carrega significados relacionados &#224; fecunda&#231;&#227;o de todos os n&#237;veis do reino que est&#227;o sob a sua responsabilidade: das planta&#231;&#245;es, da paz na comunidade, das gra&#231;as divinas.</p><p>Pois o que mais h&#225;, ao longo da hist&#243;ria do imagin&#225;rio humano, narrativas sobre reis cuja esterilidade, ou imobiliza&#231;&#227;o devido a um encantamento ou a uma doen&#231;a, ou por causa de usurpa&#231;&#227;o de seu trono por um impostor, levaram os seus reinos ao caos. Podemos pensar em &#201;dipo Rei, mas para o que falo aqui &#233; mais interessante lembrar da <em>Demanda do Santo Graal</em> em sua primeira vers&#227;o, a de Chr&#233;tien de Troyes, ou na atualiza&#231;&#227;o do drama do Rei-Pescador n<em>A Terra Devastada</em> de T S Eliot, em que a paralisia real se expande na paralisia de seu povo, que por sua vez se converte em paralisia da pr&#243;pria natureza, que por n&#227;o ser cultivada, n&#227;o d&#225; frutos. E por que falei de um cervo aqui?</p><p>Em <em>Os Lus&#237;adas</em>, Cam&#245;es desloca o cervo de uma lenda latina para fins pr&#243;prios. Como resume V&#237;tor Manuel Aguiar e Siva no Dicion&#225;rio Cam&#245;es:</p><blockquote><p>Act&#233;on foi filho de Aristeu e de Aut&#243;noe &#8212; neto, portanto, de Apollo e de Cadmo &#8212; e aprendeu a arte da ca&#231;a com o centauro Qu&#237;ron, tendo-se tornado um h&#225;bil e apaixonado ca&#231;ador. O epis&#243;dio central do mito consiste na metamorfose de Act&#233;on em cervo e na sua subsequente dilacera&#231;&#227;o mortal por parte de seus pr&#243;prios c&#227;es. [&#8230;] A mais conhecida e influente vers&#227;o do mito encontra-se nas Metamorfoses de Ov&#237;dio (III, 138-252], onde se narra que, ap&#243;s uma jornada venat&#243;ria, &#224; hora do meio-dia &#8212; hora culminante da ard&#234;ncia solar e do desejo er&#243;tico &#8212; Act&#233;on entrou num bosque que n&#227;o conhecia [&#8230;] e avistou numa gruta a deusa Diana, que, acompanhada por ninfas desnudas como ela, tomava banho nas &#225;guas cristalinas. Com gritos de surpresa, as ninfas rodearam a deusa, ocultando-a com seus corpos. Diana, com o rosto tingido de rubor, salpicou com &#225;gua o rosto e os cabelos de Act&#233;on e disse-lhe que poderia contar, se fosse capaz, que a vira despojada de roupa. Logo Act&#233;on se transformou num veado e, tendo perdido a voz, embora mantivesse a consci&#234;ncia de si mesmo, ap&#243;s ter visto nas &#225;guas o seu rosto cervino e suas hastes, encetou uma fuga veloz, mas foi alcan&#231;ado pelos seus c&#227;es que, sem o reconhecerem, o despeda&#231;aram e o devoraram.</p></blockquote><p>Cam&#245;es tinha muito apre&#231;o por esse mito, recontando-o em sua l&#237;rica e usando-o como tema sutil, mas central, do maquin&#225;rio metaf&#243;rico de<em> Os Lus&#237;adas</em>, num genial deslocamento de sentido que s&#243; um escritor em pleno poder da pr&#243;pria palavra seria capaz de operar. </p><p>Act&#233;on aparece primeiramente numa fala da deusa V&#234;nus no primeiro conc&#237;lio dos Deuses: ela cita o fim de Act&#233;on enquanto seduzia J&#250;piter para favorecer a benevol&#234;ncia do chefe do Olimpo na dire&#231;&#227;o dos navegantes portugueses. Conta Aguiar e Silva: &#8220;se Act&#233;on tivesse visto V&#234;nus tal como se mostrou a J&#250;piter, no esplendor pressentido das suas formas corporais mais &#237;ntimas, nunca teria sido morto pelos seus c&#227;es, porque primeiro teria sucumbido aos seus desejos.&#8221; </p><p>O mito reaparece no canto IX, em que Cupido condena a paix&#227;o do Act&#233;on pelos jogos de ca&#231;a que o levara a se apartar do conv&#237;vio das mulheres: por n&#227;o dar livre curso &#224; sua pot&#234;ncia de amar, o ca&#231;ador encontrou sua desgra&#231;a. Nessa est&#226;ncia do canto, a vig&#233;sima-sexta, o primeiro grande comentador da camon&#237;stica, o espanhol Faria e Sousa, prop&#244;s a identifica&#231;&#227;o de Act&#233;on com o rei Dom Sebasti&#227;o. O futuro Encoberto preocupava muito a Portugal, pelo tanto de tempo que gastava com amigos em jogos de ca&#231;a, em vez de procurar uma princesa para torn&#225;-la rainha e am&#225;-la e dar filhos ao Imp&#233;rio. Assim a preocupa&#231;&#227;o aparece no &#233;pico.</p><p>A quest&#227;o &#233; que esse medo era express&#227;o de uma ansiedade maior: a de que Portugal estivesse chegando ao fim de suas possibilidades vitais devido &#8220;aos validos, os criados e monteiros que arruinavam&#8221; a riqueza da fazenda, igual os c&#227;es de Act&#233;on destro&#231;ando e devorando o corpo metamorfoseado de Act&#233;on.</p><p>Dom Sebasti&#227;o era a &#250;ltima esperan&#231;a do reino, mas precisava ser despertado de seu ego&#237;smo. Todo o epis&#243;dio escandaloso da Ilha dos Amores &#233; ritual afrodis&#237;aco para algo al&#233;m da assun&#231;&#227;o de Vasco da Gama a uma vis&#227;o da estrutura do real e das possibilidades futuras, possibilidades liberadas em sua hierogamia com a diva T&#233;tis. Lembremos que, nas civiliza&#231;&#245;es antigas, rituais sagrados de n&#250;pcias entre o rei e uma deusa eram encenados no festival do ano-novo, para que, por simpatia entre o que est&#225; em cima e o que est&#225; em baixo, a terra e o povo revitalizassem as energias esgotadas durante o ano que acabou de acabar. Num lance de genial artif&#237;cio, um cervo aparece contemplando-se calmo na &#225;gua na Ilha dos Amores. Essa ilha &#233; um lugar misterioso, fora do tempo, em que os elementos que estavam em conflito na hist&#243;ria humana s&#227;o harmonizados, de modo que a entropia que desgastava Portugal pudesse ser revertida. Act&#233;on encontrava sua reden&#231;&#227;o como profecia de que um casamento concreto de Dom Sebasti&#227;o seria a manifesta&#231;&#227;o do casamento imaginado por Cam&#245;es no fim do poema.</p><p>Mas Dom Sebasti&#227;o n&#227;o ouviu Cam&#245;es, e foi atr&#225;s de fazer o que o poeta mais temia: continuar seus jogos de ca&#231;a na aventura fatal de uma cruzada em Marrocos, onde sumiu nas areias de um deserto. Cumpriu-se o que Cam&#245;es e os demais lusitanos temiam: Portugal entrou em paralisia cultural, e desde o s&#233;culo passado vem tentando se libertar disso da pior maneira poss&#237;vel: renegando o mito d<em>Os Lus&#237;adas</em>, ou invertendo o seu sentido ao de uma orgia dionis&#237;aca.</p><h2>No qual proponho o dia de Cam&#245;es como parte do calend&#225;rio junino ao lado de S&#227;o Jo&#227;o, S&#227;o Pedro e S&#227;o Mar&#231;al</h2><p>Aqui em meus Estado a lenda de Dom Sebasti&#227;o se liga ao principal festejo popular do Maranh&#227;o, o Bumba-meu-Boi. Resumirei ao m&#225;ximo o auto, que &#233; encenado com variantes a depender de cada grupo, sotaque e comunidade. Uma pobre mulher gr&#225;vida sente desejo de comer l&#237;ngua de boi. Com medo de que o beb&#234; nas&#231;a com a cara parecida com esse &#243;rg&#227;o, seu marido rouba o boi favorito de seu patr&#227;o, um fazendeiro, e cozinha uma iguaria com a l&#237;ngua para a esposa. O fazendeiro cai em desespero e tristeza, e toda a comunidade entra em desordem. &#205;ndios e caboclos s&#227;o orientados a buscar o boi. Descobrem que o animal morreu, e encontram quem o matou. Mais tristeza ainda, mais desordem na comunidade. Chamam um doutor para ressuscitar o boi, quem consegue reanim&#225;-lo &#233; um paj&#233; (ou um padre). Fazendeiro e criado fazem as pazes, e toda a comunidade volta &#224; ordem num n&#237;vel superior, ao da alegria festiva em louvor aos santos. A harmonia &#233; restaurada, ou melhor, renovada, e as correntes da fertilidade voltam a fluir em todas as &#8220;camadas&#8221; do Ser.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!k83R!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F80e8984e-2302-4428-8fc3-2d9314a29cf7_1050x1400.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!k83R!, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/w_424, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/c_limit, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/f_webp, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/q_auto:good, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F80e8984e-2302-4428-8fc3-2d9314a29cf7_1050x1400.jpeg 424w, 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No mundo europeu, o calend&#225;rio de festas juninas substitu&#237;ram, num n&#237;vel superior, certos simbolismos de festas pag&#227;s de honra a deuses relacionados &#224;s pot&#234;ncias da terra, da germina&#231;&#227;o, do Sol. O bumba-meu-boi evidentemente &#233; um rito agr&#225;rio que, em ambiente urbano, n&#227;o perde o sentido de renova&#231;&#227;o da comunidade que oferta a festa aos santos. </p><p>Como disse em aula recente do meu curso <em>Desvendando a narrativa inici&#225;tica dOs Lus&#237;adas</em> (que voc&#234;, assinante, <a href="https://ricardodecarvalho.com.br/?p=49">pode comprar aqui, com um desconto de 24% at&#233; o dia 24 pr&#243;ximo</a>, &#233; s&#243; usar o cupom SEBASTIAO), onde ensino como uma obra-prima da literatura pode enriquecer o seu poder cerebral de fazer <strong>conex&#245;es simb&#243;licas</strong> <strong>exatas</strong>, o esqueleto da estrutura do &#233;pico &#233; o mesmo daquele mito do her&#243;i solar vulgarizado na f&#243;rmula da Jornada do Her&#243;i: hist&#243;rias que condensam o ciclo natural, cultural e espiritual numa aventura cheia de perip&#233;cias. O Sol e o Rei participam, em seus respectivos n&#237;veis, de um mesmo complexo de sentidos em torno de uma das principais qualidades divinas.</p><p>Que na v&#233;spera de S&#227;o Jo&#227;o (exatos seis meses antes do nascimento de Cristo, de quem o Sol &#233; um dos seus principais s&#237;mbolos, sendo assim um limite entre antigas e novas pot&#234;ncias naquele per&#237;odo), Dom Sebasti&#227;o saia de seu sono, de sua paralisia, de seu inverno, e em vez de voltar a repetir jogos de guerra, tome a forma de um touro com uma estrela na testa e pontas de ouro nos chifres (sendo a estrela um s&#237;mbolo do reino divino, e ouro a manifesta&#231;&#227;o mais alta das qualidades celestes ao n&#237;vel do reino mineral, e o chifre um s&#237;mbolo de poder que re&#250;ne o real e o sacerdotal, al&#233;m da fertilidade), e venha aos nos nossos terreiros para dan&#231;ar com os brincantes do boi, um s&#237;mbolo perene de fertilidade, for&#231;a e riqueza, aliviando assim de outra forma a ansiedade de Cam&#245;es, &#233; algo que me comove de um jeito doido, e que eu queria compartilhar com voc&#234;s.</p><p>(um amigo que est&#225; me iniciando nos mist&#233;rios do Bumba-meu-Boi tem muito mais cousas espantosas a falar sobre a festa, mas tudo tem seu tempo) </p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://oricardodecarvalho.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Cartas da Ilha Grande! Assine gratuitamente e d&#234; apoio ao meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Mistérios de Portugal]]></title><description><![CDATA[Em que resgato um texto de 2015 e o publico pela primeira vez. Falo de Hist&#243;ria secreta de Portugal, de Ant&#243;nio Telmo. Tamb&#233;m falo de Bumba-meu-Boi, afinal, &#233; junho. E prometo um mimo aos assinantes.]]></description><link>https://oricardodecarvalho.substack.com/p/misterios-de-portugal</link><guid isPermaLink="false">https://oricardodecarvalho.substack.com/p/misterios-de-portugal</guid><dc:creator><![CDATA[Ricardo de Carvalho]]></dc:creator><pubDate>Wed, 05 Jun 2024 13:52:31 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!6yTD!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa1521d9c-f010-40be-a7b9-38047e3df1cc_660x483.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><em>"Contemos uma hist&#243;ria. Mas que hist&#243;ria?</em><br><em> A hist&#243;ria mal-dormida de uma viagem."</em></p><p><em>Jorge de Lima, Poema IV do Canto Primeiro de Inven&#231;&#227;o de Orfeu</em></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://oricardodecarvalho.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Cartas da Ilha Grande! 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Continuo a n&#227;o aceitar a tese principal do livro, e o pr&#243;prio Telmo chegou a critic&#225;-la<a href="https://www.antonio-telmo-vida-e-obra.pt/news/ineditos-06/"> atrav&#233;s de um pseud&#244;nimo</a> (risos), mas ainda gosto dele por seu tanto de intui&#231;&#245;es poderosas.</em></p><p><em>Telmo faz ali uma cr&#237;tica &#224; vis&#227;o ocidental de hist&#243;ria que &#233; pr&#243;xima da de Gu&#233;non, preferindo o s&#237;mbolo ao hist&#243;rico, mas creio que o modo como hist&#243;ria e tempo m&#237;tico s&#227;o articulados em Os Lus&#237;adas j&#225; exp&#245;e essa impossibilidade de viv&#234;ncia tradicionalista de forma n&#227;o-problem&#225;tica - tradi&#231;&#227;o no sentido de Gu&#233;non - em cultura cat&#243;lica, e isso, al&#233;m de n&#227;o ser um "d&#233;ficit" civilizacional nosso, permite o emergir &#225; consci&#234;ncia de um potencial de sobrevida a esta fase final do ciclo p&#243;s-barroco do Ocidente (algo de que falarei mais detidamente em </em>newsletter<em> futura, a pedido de um amigo, tendo em vista as pesquisas assombrosas de outro amigo).</em></p><p><em>E mesmo que acabe por n&#227;o emergi , am&#233;m. A Encarna&#231;&#227;o do Verbo libera o apocalipse, e n&#227;o a apocat&#225;stase.</em></p><p><em>Eis a nota abaixo. O tom de uma ou outra afirma&#231;&#227;o precisaria ser matizado hoje.</em></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!6yTD!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa1521d9c-f010-40be-a7b9-38047e3df1cc_660x483.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!6yTD!, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/w_424, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/c_limit, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/f_webp, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/q_auto:good, /__u/oricardodecarvalho.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa1521d9c-f010-40be-a7b9-38047e3df1cc_660x483.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!6yTD!, 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Ela carrega um pouco daquele sentimento de desejo de um&nbsp;ref&#250;gio numa teoria da hist&#243;ria, expresso por Thomas Pynchon em <em>Arco-&#205;ris da Gravidade</em>, quando se nega o mist&#233;rio da morte e se demanda um paliativo intelectual para sobreviver a tal "mutila&#231;&#227;o" da alma. Telmo n&#227;o se furta a encarar de frente esse mist&#233;rio, muito pelo contr&#225;rio, mas seu tradicionalismo, que o faz sofrer pelo abandono de Portugal de sua miss&#227;o hist&#243;rica no per&#237;odo pombalino, oculta um mesmo fundo milenarista que &#233;, por outras vias, ancestral do materialismo dial&#233;tico, do positivismo e do Reino de Mil anos l&#225; do austr&#237;aco histri&#244;nico.</p><p>Se me interesso pelo que um perenialista tenha a dizer sobre a hist&#243;ria portuguesa enquanto processo espiritual, deve-se ao reconhecimento de que essas correntes gn&#243;sticas misturaram-se &#224;s vis&#245;es mais ortodoxas, de tal modo que tenham levado um Padre Ant&#244;nio Vieira a sonhar o sonho do Quinto Imp&#233;rio, um reino global cat&#243;lico cujo trono temporal seria em Lisboa por uma vontade expressa diretamente por Jesus Cristo Rei do Universo. Esse sonho, latente em Os <em>Lus&#237;adas</em> e na arquitetura do Mosteiro dos Jer&#244;nimos, emergiu ao longo da literatura luso-brasileira, com o exemplos m&#225;ximos de um filo-ma&#231;&#244;nico Fernando Pessoa al&#233;m-mar e de um cat&#243;lico torto Jorge de Lima por aqui, ou num conservador de esquerda como &#233; o Suassuna no teatro ou de um ateu socialista como o Saramago na prosa, ou naquele maluco maravilhoso que foi o Agostinho da Silva, que achava que a revolu&#231;&#227;o viria quando volt&#225;ssemos a ser como os portugueses do s&#233;culo XII&#8230; </p><p>Todas essas express&#245;es de alta cultura est&#227;o vivas na presen&#231;a popular perene do sebastianismo no auto do Bumba-meu-Boi e na festa alcantarina do Divino Esp&#237;rito Santo.</p><p>Pois &#233; essa consci&#234;ncia espiritualista da arte portuguesa o que mais me interessou neste livro. Eis o argumento: o destino de Portugal est&#225; ligado &#224; inicia&#231;&#227;o de Nicolau Coelho em uma ordem secreta. Ele foi navegador respons&#225;vel por religar Ocidente e Oriente na chegada &#224; &#205;ndia, e depois desocultou o Ocidente que h&#225; para al&#233;m do Ocidente ao sul, para onde o p&#243;lo de manifesta&#231;&#227;o essencial divino vem se deslocando, ao chegar com Pedro &#193;lvares Cabral em nossas terras naquele 22 de abril de 1500. Essa ordem seria o pr&#243;prio pa&#237;s Portugal: desde a nacionaliza&#231;&#227;o dos tesouros templ&#225;rios por mandado do rei-trovador D. Diniz, ap&#243;s a queda da Ordem (que em Portugal n&#227;o foi dissolvida, s&#243; teve o nome mudado para Ordem de Cristo, a primeira ordem de cavalaria que n&#227;o obedecia diretamente &#224; Igreja mas a um rei, o portugu&#234;s: o primeiro ex&#233;rcito nacional da Europa). As principais obras arquitet&#244;nicas do per&#237;odo manuelino, como o Mosteiro dos Jer&#244;nimos, e tal e qual a poesia trovadoresca, traziam em sua geometria sagrada e em seus temas a chave para o segredo da inicia&#231;&#227;o protegida pela Ordem. <em>Os Lus&#237;adas</em> de Cam&#245;es e <em>A Hist&#243;ria do Futuro</em> de Ant&#244;nio Vieira est&#227;o repletos destes simbolismos.</p><p>At&#233; a&#237;, nada demais: a imbrica&#231;&#227;o de motivos esot&#233;ricos em cria&#231;&#245;es exot&#233;ricas naquele ciclo &#233; fato conhecido dos historiadores da arte. Para quem quiser conhecer a natureza e amplitude dessas manifesta&#231;&#245;es simb&#243;licas, recomendo com for&#231;a <em>Os tr&#234;s dedos de Ad&#227;o</em> e <em>A Eva barbada</em>, duas colet&#226;neas de ensaios de Hil&#225;rio Franco Jr, o maior dos medievalistas brasileiros.</p><p>O que Telmo defende &#233; que, em 1513, o rei D. Manuel retira a obra-prima da arquitetura portuguesa, o Mosteiro dos Jer&#244;nimos, das m&#227;os dos templ&#225;rios remanescentes, e d&#225;-la a uma ordem contemplativa, a dos Jer&#244;nimos, essa sem nenhuma liga&#231;&#227;o com esoterismos. Resultado: causa uma ruptura com a miss&#227;o portuguesa enquanto centro primevo de uma tradi&#231;&#227;o espiritual que remontaria ao princ&#237;pio dos tempos.</p><p>Sim, os leitores do metaf&#237;sico perenialista Ren&#233; Gu&#233;non j&#225; devem ter percebido o que Telmo defende: Portugal tornara-se o centro de uma Tradi&#231;&#227;o que, para Gu&#233;non, n&#227;o existia mais no Ocidente ap&#243;s o fim dos templ&#225;rios, apenas no Oriente, nas tradi&#231;&#245;es hindus, isl&#226;micas e chinesas e sei l&#225; mais quem. Por causa dessa aus&#234;ncia, o mundo ocidental entrara em um per&#237;odo decadente que veio escoar na mis&#233;ria espiritual e intelectual das grandes ideologias do s&#233;culo XX: o liberalismo e o socialismo. O processo de ruptura de Portugal terminaria justamente em 1578, o fat&#237;dico ano da morte de Dom Sebasti&#227;o no deserto de Marrocos. Diz Telmo (e &#233; imposs&#237;vel n&#227;o lembrar de Borges):</p><blockquote><p>O tempo anda como as serpentes, n&#227;o evolui uniformemente. A id&#233;ia do tempo rectil&#237;neo e uniforme &#233; uma impossibilidade metaf&#237;sica; implica que, em cada seu momento, fosse absolutamente outro, isto &#233;, deixasse de ser; entre os momentos que o constituem n&#227;o haveria qualquer rela&#231;&#227;o e a exist&#234;ncia de cada um deles s&#243; poderia explicar-se como o resultado de um fiat por um agente exterior ao pr&#243;prio tempo.</p><p>&#201; poss&#237;vel, por&#233;m, defender a teoria de que Portugal existe apenas em forma fantasm&#225;tica h&#225; quatro s&#233;culos precisos&nbsp;(em 1978 cumprem-se 400 anos sobre Alc&#225;cer-Kibir), desde que se fechou definitivamente o ciclo de expans&#227;o ultramarina. A teoria seduziu esp&#237;ritos como o de Guerra Junqueiro e o de Sampaio Bruno. O pr&#243;prio Fernando Pessoa, na Mensagem, parece adoptar o mesmo ponto de vista, pois, com excep&#231;&#227;o dos profetas, mais nenhum her&#243;i &#233; celebrado depois de D. Sebasti&#227;o.</p><p>Outra maneira de p&#244;r o problema consiste em interrogar se o Portugal posterior a 1513 (...) n&#227;o come&#231;a a ser outro povo ou se, para o dizer com palavras diferentes, um dem&#243;nio estranho que lhe tomou o lugar da alma.</p></blockquote><p><em>Os Lus&#237;adas</em> seriam, em verdade, uma narrativa inici&#225;tica, tal e qual A Divina Com&#233;dia, e Cam&#245;es um gn&#243;stico como Dante foi, talvez da mesma ordem dos Fi&#233;is do Amor. Diga-se ainda que a tese da possibilidade de que a Divina Com&#233;dia seja uma alegoria alqu&#237;mica &#233; discutida  academicamente, vide o ensaio do Franco Jr. no rec&#233;m-citado <em>A Eva Barbada</em>. Sobre Cam&#245;es, os elementos neoplat&#244;nicos em sua obra d&#227;o a entender que h&#225;, pelo menos, um conhecimento da literatura esot&#233;rica da &#233;poca. Se ele era um iniciado, a&#237; j&#225; s&#227;o outros quinhentos.</p><p><em>Hoje, ao reler esta nota, &#233; menor meu ceticismo acerca da presen&#231;a de material esot&#233;rico em Os Lus&#237;adas que, &#233; bom frisar, interessam-me enquanto dado da cultura. </em></p><p><em>Em Portugal, Dom Sebasti&#227;o &#233; </em>O Encoberto<em>: gra&#231;as ao seu ocultamento, criou-se o mito de que o povo de l&#225; vive uma vida fantasmag&#243;rica desde que ele sumiu em Marrocos. Mas j&#225; no Maranh&#227;o ele &#233; </em>O Encantado<em>: em toda v&#233;spera de S&#227;o Jo&#227;o o rei se transforma em touro pra dan&#231;ar com a gente nos arraiais. As consequ&#234;ncias cosmog&#244;nicas desse evento s&#227;o incalcul&#225;veis, mas quem vem meditando acerca disso &#233; outro amigo, que ir&#225; revelar grandes mist&#233;rios a seu tempo.</em></p><p><em>Por fim, discuti o livro do Telmo na terceira aula do curso </em>Desvendando a narrativa inici&#225;tica dOs Lus&#237;adas<em>, que est&#225; j&#225; na quarta semana. Aqui <a href="https://ricardodecarvalho.com.br/?p=49">neste link</a> apresento mais informa&#231;&#245;es e como pagar, al&#233;m do v&#237;deo da primeira aula, que est&#225; liberada gratuitamente. E se voc&#234;, leitor da </em>newsletter<em>, quiser comprar o curso, pode usar um desconto de 24%. &#201; s&#243; digitar SEBASTIAO no campo para cupom. <strong>E &#233; v&#225;lido s&#243; at&#233; o dia de S&#227;o Jo&#227;o</strong>.</em></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://oricardodecarvalho.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Cartas da Ilha Grande! 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