<script data-pm-proxy="intercept"></script><?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Diário de um humor imprevisível]]></title><description><![CDATA[textos sobre o caos de existir, com lucidez, ironia e um pouco de desordem emocional organizada]]></description><link>https://rebsoliver.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!w0Tm!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F00d49ef9-9ff2-4ac6-8f86-405b19816cb3_1280x1280.png</url><title>Diário de um humor imprevisível</title><link>https://rebsoliver.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Fri, 04 Sep 2026 13:39:12 GMT</lastBuildDate><atom:link href="/__u/rebsoliver.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><language><![CDATA[pt-br]]></language><webMaster><![CDATA[rebsoliver@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[rebsoliver@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Rebecca]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Rebecca]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[rebsoliver@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[rebsoliver@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Rebecca]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[Queria fugir de tudo para poder parar de fugir de mim]]></title><description><![CDATA[Talvez eu n&#227;o queira uma vida nova. Talvez eu s&#243; queira que a minha hist&#243;ria pese menos.]]></description><link>https://rebsoliver.substack.com/p/queria-fugir-de-tudo-para-poder-parar</link><guid isPermaLink="false">https://rebsoliver.substack.com/p/queria-fugir-de-tudo-para-poder-parar</guid><dc:creator><![CDATA[Rebecca]]></dc:creator><pubDate>Sun, 16 Aug 2026 02:43:06 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Mgpw!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3a8c18f5-6fa5-4ad1-9ae6-73df534a8cb8_4032x3024.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Tenho pensado muito sobre a vontade de desaparecer da pr&#243;pria vida. N&#227;o desaparecer de mim, mas desaparecer de tudo aquilo que me lembra quem eu fui. &#192;s vezes tenho vontade de juntar minhas coisas, sair do emprego, mudar de cidade, apagar as redes sociais, trocar os lugares, as pessoas, a rotina e, se poss&#237;vel, o CPF emocional. Como se fosse poss&#237;vel atravessar uma fronteira e deixar do outro lado todas as vers&#245;es de mim que me cansam. Existe uma fantasia quase infantil de recome&#231;o absoluto, como se fosse poss&#237;vel acordar em algum lugar onde ningu&#233;m soubesse meu nome, ningu&#233;m conhecesse meus erros e ningu&#233;m tivesse um arquivo mental das coisas constrangedoras que eu fiz. Um lugar onde eu pudesse existir sem o peso de ter sido quem fui. O problema &#233; que, aparentemente, eu viria junto. E talvez seja justamente a&#237; que eu perceba que eu queria parar de fugir de mim.</p><p>Tenho me sentido estranhamente fr&#225;gil diante da vida. N&#227;o porque tudo esteja necessariamente desmoronando, mas porque certas coisas parecem encontrar em mim uma profundidade que eu mesma n&#227;o sei explicar. O que para algu&#233;m pode ser apenas um acontecimento pequeno, em mim &#224;s vezes ganha uma produ&#231;&#227;o completa, trilha sonora e tr&#234;s atos. &#201; como se eu n&#227;o tivesse pele suficiente entre o mundo e aquilo que existe dentro de mim. As coisas atravessam. E, pior, n&#227;o parecem ter a menor inten&#231;&#227;o de sair. Tenho pensado nisso como uma esp&#233;cie de imunidade emocional baixa, como se meu organismo n&#227;o soubesse distinguir aquilo que precisa ser combatido daquilo que poderia simplesmente passar por mim e seguir seu caminho. Tudo deixa algum vest&#237;gio. &#192;s vezes eu s&#243; queria que meu c&#233;rebro tivesse a delicadeza de olhar para alguma coisa e dizer: &#8220;isso aqui n&#227;o precisa virar um evento can&#244;nico&#8221;. </p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://rebsoliver.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Di&#225;rio de um humor imprevis&#237;vel! Assine gratuitamente para receber novos posts e apoiar meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Talvez por isso eu tenha passado tanto tempo acreditando que nunca superei nada na vida. Quando olho para tr&#225;s, n&#227;o encontro exatamente uma sucess&#227;o de acontecimentos encerrados, mas uma cole&#231;&#227;o de coisas que ainda parecem ter alguma coisa a dizer, o que &#233; particularmente inconveniente considerando que algumas delas j&#225; deveriam ter perdido o direito &#224; fala. Diversas situa&#231;&#245;es do passado que continuam pagando aluguel dentro da minha cabe&#231;a. &#192;s vezes tenho a impress&#227;o de que a minha vida &#233; uma casa cheia de c&#244;modos onde nunca terminei de arrumar as coisas. Fecho uma porta e sigo vivendo, mas sei que aquilo continua l&#225; dentro, provavelmente acumulando poeira e esperando uma oportunidade de me arruinar emocionalmente numa ter&#231;a-feira qualquer. Ent&#227;o, quando alguma coisa acontece no presente, basta uma fresta para que todo o passado volte a entrar. E com ele vem aquela mistura pouco pr&#225;tica de arrependimento, vergonha, saudade e impot&#234;ncia. </p><p>A impossibilidade de voltar para algumas vers&#245;es de mim me machuca. Tenho vontade de abra&#231;ar vers&#245;es minhas que passei anos tentando esquecer, de explicar para mim mesma que certas escolhas foram feitas com os recursos emocionais que eu tinha naquele momento. &#201; f&#225;cil olhar para tr&#225;s com a intelig&#234;ncia que s&#243; aparece depois que tudo deu errado e perguntar como eu n&#227;o percebi antes. A retrospectiva &#233; uma &#243;tima profissional, embora chegue sempre atrasada. Mas a vida n&#227;o nos oferece a possibilidade de retornar aos acontecimentos depois que amadurecemos. Ela apenas nos entrega a consci&#234;ncia, muitas vezes tarde demais, para que fa&#231;amos alguma coisa com ela daqui para frente. </p><p>E talvez seja por isso que eu queira tanto come&#231;ar do zero. Porque parece mais f&#225;cil do que continuar carregando. H&#225; algo profundamente sedutor na ideia de ser desconhecida. Por alguns instantes, isso parece liberdade. Ningu&#233;m tem uma mem&#243;ria sua para comparar com quem voc&#234; &#233; agora. Ningu&#233;m sabe quais vers&#245;es suas j&#225; existiram. Ningu&#233;m olha para voc&#234; pensando naquela pessoa que voc&#234; foi aos vinte, ou naquela criatura espec&#237;fica que tomou decis&#245;es question&#225;veis numa determinada ter&#231;a-feira de 2019. Sem hist&#243;rico. Sem contexto. Sem precisar explicar.</p><p>Talvez eu n&#227;o queira realmente uma vida nova. Talvez eu queira uma vida em que a minha hist&#243;ria n&#227;o pese tanto.</p><p>Existe uma diferen&#231;a entre apagar o passado e deixar de morar nele. Durante muito tempo, imaginei que superar significava olhar para tr&#225;s e n&#227;o sentir mais nada. Como se a cura verdadeira fosse uma esp&#233;cie de indiferen&#231;a retrospectiva, o momento m&#225;gico em que determinada lembran&#231;a finalmente se tornaria incapaz de nos tocar. Mas talvez essa seja uma defini&#231;&#227;o cruel demais de supera&#231;&#227;o. Talvez algumas coisas nunca deixem de doer completamente. Talvez elas apenas deixem de comandar a nossa vida. E talvez amadurecer n&#227;o seja construir uma pele t&#227;o grossa que nada mais consiga nos atingir, porque isso tamb&#233;m parece uma forma bastante sofisticada de morrer por dentro, mas aprender a reconhecer o que nos atravessa sem transformar cada ferida em identidade. Talvez eu possa lembrar de alguma coisa sem precisar imediatamente concluir que existe algo fundamentalmente errado comigo por ainda sentir.</p><p>Talvez o recome&#231;o que eu procuro n&#227;o esteja em uma cidade onde ningu&#233;m me conhe&#231;a, mas na possibilidade de eu mesma conhecer melhor quem sou agora. Talvez eu n&#227;o precise apagar minha hist&#243;ria, apenas parar de us&#225;-la como prova contra mim. Algumas portas permanecer&#227;o fechadas e algumas vers&#245;es de mim continuar&#227;o existindo apenas na mem&#243;ria. E, ainda assim, a vida continuar&#225; me oferecendo alguma coisa que o passado nunca conseguiu me dar: a possibilidade de escolher o que fa&#231;o com tudo isso agora. &#201; pouco perto da fantasia de apertar um bot&#227;o e reiniciar a exist&#234;ncia, mas talvez seja justamente por ser pouco que seja poss&#237;vel.</p><p>Eu queria fugir de tudo para poder parar de fugir de mim. Hoje percebo que talvez essas duas coisas sejam insepar&#225;veis. Enquanto eu acreditar que preciso escapar de tudo o que me lembra quem fui para conseguir finalmente descansar, continuarei tentando construir uma vida onde eu possa existir sem passado. E uma vida sem passado &#233; uma vida imposs&#237;vel. O passado, infelizmente, n&#227;o respeita mudan&#231;a de cidade, bloqueio no Instagram ou o fato de voc&#234; ter decidido que agora vai ser uma pessoa completamente diferente. Ele vai junto. </p><p></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Mgpw!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3a8c18f5-6fa5-4ad1-9ae6-73df534a8cb8_4032x3024.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Mgpw!, /__u/rebsoliver.substack.com/w_424, /__u/rebsoliver.substack.com/c_limit, /__u/rebsoliver.substack.com/f_webp, /__u/rebsoliver.substack.com/q_auto:good, /__u/rebsoliver.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3a8c18f5-6fa5-4ad1-9ae6-73df534a8cb8_4032x3024.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Mgpw!, /__u/rebsoliver.substack.com/w_848, /__u/rebsoliver.substack.com/c_limit, /__u/rebsoliver.substack.com/f_webp, 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class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://rebsoliver.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Di&#225;rio de um humor imprevis&#237;vel! 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Bastou uma pequena decep&#231;&#227;o para que minha mente constru&#237;sse uma teoria completa sobre o fracasso da exist&#234;ncia. O passado virou uma cole&#231;&#227;o de erros, o futuro um terreno baldio e o presente uma sala de espera sem previs&#227;o de chamada. </p><p>Hoje acordei e a trag&#233;dia evaporou. Nada foi resolvido. Nenhum problema desapareceu. O mundo continua exatamente o mesmo. A &#250;nica diferen&#231;a &#233; que agora ele parece habit&#225;vel. E isso me perturba. Porque se ontem eu estava t&#227;o convencida da minha desgra&#231;a e hoje ela me parece um exagero, qual dessas vers&#245;es merece confian&#231;a?</p><p>Talvez o aspecto mais cruel da instabilidade emocional n&#227;o seja a tristeza, mas a rapidez com que ela se transforma em verdade. Quando estou mal, n&#227;o sinto apenas dor. Tenho a impress&#227;o de que finalmente enxerguei a realidade sem os anest&#233;sicos da esperan&#231;a. Como se o fundo do po&#231;o fosse um lugar privilegiado para observar a exist&#234;ncia. E, quando passa, descubro que a suposta lucidez era apenas mais uma altera&#231;&#227;o clim&#225;tica da alma.</p><p>A mente &#233; uma romancista med&#237;ocre com pretens&#245;es filos&#243;ficas. Um detalhe vira destino. Uma rejei&#231;&#227;o vira profecia. Uma ter&#231;a-feira ruim vira evid&#234;ncia de uma vida ruim.</p><p>Nietzsche escreveu que n&#227;o existem fatos, apenas interpreta&#231;&#245;es. Gostaria de dizer que isso me trouxe sabedoria. Na verdade, s&#243; me deixou cansada. Porque se tudo &#233; interpreta&#231;&#227;o, ent&#227;o cada humor produz um mundo diferente. E eu j&#225; morei em tantos que &#224;s vezes n&#227;o sei qual deles deveria chamar de realidade.</p><p>Talvez seja essa a parte mais melanc&#243;lica de tudo: descobrir que a dist&#226;ncia entre o desespero e a esperan&#231;a n&#227;o &#233; uma grande transforma&#231;&#227;o interior.</p><p>&#192;s vezes &#233; apenas uma ter&#231;a-feira.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O cemitério das expectativas]]></title><description><![CDATA[Nem todo luto nasce de uma aus&#234;ncia concreta]]></description><link>https://rebsoliver.substack.com/p/o-cemiterio-das-expectativas</link><guid isPermaLink="false">https://rebsoliver.substack.com/p/o-cemiterio-das-expectativas</guid><dc:creator><![CDATA[Rebecca]]></dc:creator><pubDate>Tue, 02 Jun 2026 00:36:28 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!j8JR!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff7e6dff3-b056-4279-bfa3-5e4e09c3864e_816x1456.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Quando pensamos em luto, quase sempre pensamos em algo que existiu e deixou de existir. Uma pessoa que morreu, um relacionamento que terminou, uma casa que foi vendida, uma fase da vida que n&#227;o volta mais. O luto costuma pressupor a exist&#234;ncia concreta de um objeto perdido. H&#225; uma fotografia, uma mem&#243;ria, uma aus&#234;ncia claramente identific&#225;vel. No entanto, tenho me perguntado se algumas das dores mais profundas da vida n&#227;o surgem justamente do contr&#225;rio: n&#227;o da perda daquilo que tivemos, mas da perda daquilo que imagin&#225;vamos que ter&#237;amos. Talvez seja por isso que certos sofrimentos sejam t&#227;o dif&#237;ceis de nomear. Eles n&#227;o apontam para o passado, mas para o futuro. N&#227;o dizem respeito a uma realidade interrompida, mas a uma possibilidade que nunca chegou a se realizar.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!j8JR!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff7e6dff3-b056-4279-bfa3-5e4e09c3864e_816x1456.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!j8JR!, /__u/rebsoliver.substack.com/w_424, /__u/rebsoliver.substack.com/c_limit, /__u/rebsoliver.substack.com/f_webp, /__u/rebsoliver.substack.com/q_auto:good, /__u/rebsoliver.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff7e6dff3-b056-4279-bfa3-5e4e09c3864e_816x1456.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!j8JR!, /__u/rebsoliver.substack.com/w_848, 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Faz sentido contar a hist&#243;ria dessa maneira. Existe algo quase sedutor na narrativa da pr&#243;pria decad&#234;ncia. Ela oferece uma explica&#231;&#227;o relativamente simples para o sofrimento: eu era algu&#233;m melhor, algo aconteceu no caminho e agora vivo cercada pelos escombros de uma vers&#227;o mais inteligente, mais espont&#226;nea, mais leve e mais cheia de vida de mim mesma. O problema &#233; que a mem&#243;ria raramente funciona como um arquivo confi&#225;vel. Ela opera mais como um departamento de marketing. Seleciona momentos espec&#237;ficos, elimina contradi&#231;&#245;es, suaviza fracassos e produz uma vers&#227;o editada do passado que dificilmente resistiria a uma auditoria rigorosa. Quanto mais olhamos para tr&#225;s, menos enxergamos quem fomos e mais enxergamos uma narrativa constru&#237;da para explicar quem nos tornamos.</p><p>Talvez por isso eu tenha demorado tanto para perceber que a minha dor n&#227;o estava relacionada apenas &#224; perda de certas caracter&#237;sticas pessoais. O que me fazia sofrer n&#227;o era simplesmente a sensa&#231;&#227;o de ter me tornado diferente. Era algo mais dif&#237;cil de formular. O que eu estava lamentando era a morte de uma determinada rela&#231;&#227;o com o futuro. Houve uma &#233;poca em que eu imaginava a vida como um territ&#243;rio aberto, cheio de caminhos poss&#237;veis, descobertas e transforma&#231;&#245;es. N&#227;o porque eu acreditasse que tudo daria certo, mas porque havia uma confian&#231;a silenciosa de que alguma coisa me aguardava adiante. Hoje me parece que essa &#233; a forma mais profunda da esperan&#231;a. N&#227;o uma expectativa otimista de que o mundo ser&#225; generoso, mas a sensa&#231;&#227;o de que ainda vale a pena caminhar em dire&#231;&#227;o ao que n&#227;o conhecemos.</p><p>A cultura contempor&#226;nea, entretanto, possui uma rela&#231;&#227;o curiosamente superficial com a esperan&#231;a. Ela a trata como uma atitude, uma compet&#234;ncia emocional ou uma decis&#227;o individual. Se voc&#234; perdeu a esperan&#231;a, dizem que precisa mudar sua mentalidade, praticar gratid&#227;o, desenvolver resili&#234;ncia ou assistir a algum influenciador explicando como transformar adversidades em oportunidades. Existe uma ind&#250;stria inteira dedicada a converter sofrimento em aprendizado e fracasso em crescimento pessoal. O problema &#233; que essa l&#243;gica parte da premissa de que toda dor cont&#233;m uma mensagem oculta esperando para ser decifrada. Como se o sofrimento fosse uma esp&#233;cie de investimento emocional cujo retorno vir&#225; inevitavelmente no futuro. N&#227;o consigo deixar de achar essa vis&#227;o profundamente violenta. Nem toda perda produz sabedoria. Nem toda experi&#234;ncia dif&#237;cil nos transforma em pessoas melhores. Algumas coisas simplesmente nos ferem. Algumas experi&#234;ncias apenas diminuem o tamanho do mundo que &#233;ramos capazes de habitar.</p><p>Talvez seja justamente por isso que o luto da esperan&#231;a seja t&#227;o dif&#237;cil de reconhecer. Diferentemente de outras perdas, ele n&#227;o produz uma aus&#234;ncia vis&#237;vel. A vida continua funcionando. Os compromissos permanecem os mesmos. O calend&#225;rio segue avan&#231;ando. Por fora, nada parece ter mudado de maneira significativa. Por dentro, por&#233;m, instala-se uma esp&#233;cie de empobrecimento da imagina&#231;&#227;o. N&#227;o se trata necessariamente de tristeza. Muito menos de falta de vontade. Trata-se da dificuldade crescente de investir afetivamente no futuro. Os planos passam a parecer exerc&#237;cios de fic&#231;&#227;o. Os desejos perdem consist&#234;ncia. As possibilidades deixam de provocar entusiasmo. Aos poucos, a pr&#243;pria ideia de amanh&#227; deixa de carregar qualquer promessa particular.</p><p>O mais inquietante &#233; que raramente percebemos quando isso acontece. N&#227;o existe um momento exato em que a esperan&#231;a vai embora. Ela n&#227;o bate a porta ao sair. Seu desaparecimento &#233; discreto. Primeiro abandonamos um projeto. Depois desistimos de uma ideia. Mais tarde deixamos de fazer uma pergunta. Em seguida paramos de imaginar alternativas. Quando finalmente nos damos conta do que aconteceu, a sensa&#231;&#227;o &#233; menos parecida com uma trag&#233;dia e mais parecida com um longo processo de eros&#227;o. Algo foi sendo retirado de n&#243;s aos poucos, de maneira t&#227;o gradual que s&#243; percebemos a extens&#227;o da perda quando j&#225; n&#227;o conseguimos lembrar exatamente quando ela come&#231;ou.</p><p>Talvez a parte mais dif&#237;cil seja admitir que nem sempre existe uma reconstru&#231;&#227;o esperando do outro lado. Somos educados para acreditar em narrativas de supera&#231;&#227;o porque elas oferecem conforto. Gostamos de hist&#243;rias em que o sofrimento conduz a algum tipo de reden&#231;&#227;o, em que os traumas encontram significado e as perdas s&#227;o compensadas por ganhos futuros. Mas a vida frequentemente se recusa a respeitar a estrutura dessas narrativas. H&#225; dores que permanecem sem explica&#231;&#227;o, perdas que n&#227;o produzem crescimento e perguntas que jamais recebem resposta. Talvez a maturidade tenha menos rela&#231;&#227;o com encontrar sentido e mais rela&#231;&#227;o com aprender a viver sem a garantia de que ele existe.</p><p>&#201; por isso que tenho cada vez mais dificuldade em pensar a esperan&#231;a como uma virtude. Virtudes parecem escolhas. Esperan&#231;a, ao contr&#225;rio, me parece algo muito mais fr&#225;gil e involunt&#225;rio. Talvez ela n&#227;o seja a convic&#231;&#227;o de que tudo ficar&#225; bem, nem a cren&#231;a de que o futuro ser&#225; melhor do que o presente. Talvez esperan&#231;a seja apenas a recusa em encerrar definitivamente a conversa com aquilo que ainda n&#227;o aconteceu. Uma recusa pequena, silenciosa e quase impercept&#237;vel, mas que continua existindo mesmo quando j&#225; n&#227;o temos argumentos para justific&#225;-la.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://rebsoliver.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Di&#225;rio de um humor imprevis&#237;vel! Assine gratuitamente para receber novos posts e apoiar meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Ambivalência ]]></title><description><![CDATA[A vontade de viver e querer sumir no mesmo minuto]]></description><link>https://rebsoliver.substack.com/p/ser-como-voce-me-parece-um-horizonte</link><guid isPermaLink="false">https://rebsoliver.substack.com/p/ser-como-voce-me-parece-um-horizonte</guid><dc:creator><![CDATA[Rebecca]]></dc:creator><pubDate>Sat, 30 May 2026 21:23:24 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/c2533274-6be2-40f2-87a9-a4a41c0dc517_614x446.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Hoje eu acordei com uma pressa de terminar o dia que nem come&#231;ou. Como se eu n&#227;o tivesse energia suficiente pra mais um dia. Tem dias em que eu acordo inspirada. Animada. Quase funcional. Acordo pensando: hoje eu vou viver: sair, sentir o ar fresco, fazer yoga, me hidratar, ligar pra algu&#233;m, escrever um livro, consertar meus traumas, reinventar a minha vida e talvez at&#233; tomar caf&#233; da manh&#227;.</p><p>Cinco minutos depois eu t&#244; deitada de novo, encarando o teto como se ele fosse uma pergunta existencial. Ser deprimido &#233; uma coreografia invis&#237;vel entre o vazio e a obriga&#231;&#227;o de funcionar.</p><p>Essa &#233; a minha ambival&#234;ncia: querer profundamente a vida e, ao mesmo tempo, n&#227;o querer fazer absolutamente nada pra viver. Querer mem&#243;rias &#233;picas, mas n&#227;o ter disposi&#231;&#227;o nem pra lavar o cabelo. Querer conhecer gente nova, mas com a energia social de uma samambaia desidratada. Querer sair de casa, mas lembrar que pra isso tem que&#8230; sair de casa. E a&#237; j&#225; cansei.</p><p>Tem uma culpa sutil que mora no fundo desse paradoxo: uma linha entre se respeitar demais e acabar se abandonando. Porque &#233; preciso me acolhe e n&#227;o for&#231;ar. Mas &#224;s vezes esse acolhimento se torna uma forma bonita de omiss&#227;o. Uma esp&#233;cie de autoabandono com discurso de autocuidado. Eu me respeito, mas &#224;s vezes me respeito tanto que viro c&#250;mplice da minha pr&#243;pria fuga. Eu me acolho tanto que quase me embalo a v&#225;cuo.</p><p>Aprendi o conceito de ambival&#234;ncia assistindo uma s&#233;rie chamada M&#233;dicos em colapso. N&#227;o foi lendo Lacan, nem ouvindo um podcast do Karnal com a Monja Coen. Foi na fic&#231;&#227;o. &#192;s vezes, a arte tem uma forma s&#250;til de impactar a vida da gente. No sentido de que nem sempre &#233; preciso passar horas lendo livros de autoajuda ou assistindo palestras sobre desenvolvimento pessoal para entender algo sobre si. N&#227;o que eu seja contra. Eu amo uma boa teoria. Acho lindo entender a mente humana com base em diagramas, neurotransmissores e frases de efeito. Mas a teoria n&#227;o segura minha m&#227;o quando eu t&#244; deitada encarando o teto, debatendo internamente se eu deveria sair de casa ou s&#243; cochilar mais 40 minutos. Nesse quesito, uma s&#233;rie consegue me atravessar com mais precis&#227;o que qualquer TED Talk.</p><p>Em M&#233;dicos em colapso, tem uma cena em que a protagonista descreve seu estado com uma honestidade que me deu um soco emocional disfar&#231;ado de identifica&#231;&#227;o:</p><blockquote><p>&#8220;Tem dias que eu n&#227;o quero fazer nada. Em outros, eu quero fazer tudo. &#192;s vezes, me pego pensando: &#8216;Vamos come&#231;ar a viver, pelo menos um pouco&#8217;. Mas em outros dias, nada parece fazer o menor sentido. [&#8230;] Quando a depress&#227;o ataca, nosso mecanismo de defesa entra em a&#231;&#227;o e o corpo come&#231;a a disparar horm&#244;nios da felicidade &#8212; serotonina, dopamina &#8212; e isso nos faz continuar lutando, criando uma sensa&#231;&#227;o de derrota. Ambival&#234;ncia: a coexist&#234;ncia de duas emo&#231;&#245;es que se contradizem.&#8221;</p></blockquote><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!uTEe!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F631208cd-e9f1-4bae-95b6-c76bfc8be1f4_614x446.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!uTEe!, /__u/rebsoliver.substack.com/w_424, /__u/rebsoliver.substack.com/c_limit, /__u/rebsoliver.substack.com/f_webp, /__u/rebsoliver.substack.com/q_auto:good, /__u/rebsoliver.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F631208cd-e9f1-4bae-95b6-c76bfc8be1f4_614x446.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!uTEe!, /__u/rebsoliver.substack.com/w_848, 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o cansa&#231;o social que vem at&#233; com uma notifica&#231;&#227;o no celular. Lutar contra a vontade de dormir o dia inteiro enquanto sabe, com certa consci&#234;ncia brutal, que deveria levantar, sair, ver gente. S&#243; de pensar nisso, o corpo j&#225; cansa.</p><p>E tem dias em que simplesmente viver hora ap&#243;s hora parece uma tortura existencial. Sylvia Plath descreve isso perfeitamente em A redoma de vidro:</p><blockquote><p>&#8220;Eu via os dias do ano se estendendo diante de mim como uma s&#233;rie de caixas brancas e brilhantes, separadas uma da outra pela sombra escura do sono. S&#243; que agora a longa perspectiva das sombras, que distinguia uma caixa da outra, tinha subitamente desaparecido, e eu via os dias cintilando &#224; minha frente como uma avenida clara, larga e desolada at&#233; o infinito. Eu achava est&#250;pido lavar algo num dia para, no dia seguinte, ter que lavar de novo.&#8221;</p></blockquote><p>O inferno branco da repeti&#231;&#227;o. A claridade insuport&#225;vel das horas que se arrastam uma por uma, te lembrando que, sim, voc&#234; vai precisar comer hoje de novo, tomar banho de novo, responder e-mails de novo, fingir interesse de novo. A vida virou uma sequ&#234;ncia de tarefas que vencem mais r&#225;pido que boleto.</p><p>As horas se arrastam, todas iguais, densas, me pedindo mais do que eu tenho. Tem dia que eu queria viver a vida inteira de uma vez, resolver tudo numa tacada s&#243; e descansar pra sempre. Tem dias em que at&#233; a luz parece cansada. As horas v&#234;m moles, exaustas de serem horas. Como se at&#233; o tempo estivesse de saco cheio de existir. E eu ali, acompanhando, sem &#226;nimo pra ser protagonista de nada, nem da minha pr&#243;pria ang&#250;stia. Uma alma ansiosa por viver, trancada num corpo que s&#243; quer parar.</p><p>A ambival&#234;ncia &#233; esse paradoxo: querer profundamente viver&#8230; e n&#227;o ter energia pra olhar o celular. Hoje eu acordei com uma pressa de terminar o dia que nem come&#231;ou.</p><p>E s&#243; isso j&#225; me consome inteira.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Todas as vidas que não vivi ]]></title><description><![CDATA[Um ensaio ir&#244;nico sobre bibliotecas interdimensionais, figueiras metaf&#243;ricas e v&#237;cio de pensar nas possibilidades]]></description><link>https://rebsoliver.substack.com/p/o-cansaco-de-performar-a-propria</link><guid isPermaLink="false">https://rebsoliver.substack.com/p/o-cansaco-de-performar-a-propria</guid><dc:creator><![CDATA[Rebecca]]></dc:creator><pubDate>Mon, 25 May 2026 23:05:00 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/5283e6e0-4df3-43e6-8f7c-3666f2b6905a_1456x2016.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Como uma autointitulada procrastinadora, estava perdendo tempo no feed quando o algoritmo me coloca em uma recomenda&#231;&#227;o de livro. Eu como a consumista que sou, logo fui convencida a pedir pela Amazon, para fazer parte da minha cole&#231;&#227;o de mais de 70 livros que eu nunca abri (meu monumento pessoal ao fetiche de parecer culta sem esfor&#231;o). Comprei o livro por um motivo extremamente profundo: ele brilhava no escuro e tinha efeito fosforescente. E, ironicamente, ele iluminou partes de mim que eu nem queria acender.</p><p>A primeira vez que li <em><a href="https://www.amazon.com.br/Biblioteca-Meia-Noite-Matt-Haig/dp/6558380544/ref=asc_df_6558380544?mcid=86588004c5d4328191f9aa81dad1d7d7&amp;tag=googleshopp00-20&amp;linkCode=df0&amp;hvadid=709884550039&amp;hvpos=&amp;hvnetw=g&amp;hvrand=5538460228114278994&amp;hvpone=&amp;hvptwo=&amp;hvqmt=&amp;hvdev=c&amp;hvdvcmdl=&amp;hvlocint=&amp;hvlocphy=1001566&amp;hvtargid=pla-1416461779406&amp;psc=1&amp;language=pt_BR&amp;gad_source=1">A Biblioteca da Meia-Noite</a></em>, chorei tanto que tive dor de cabe&#231;a. Dormi para ver se passava. Sonhei com o livro. Acordei chorando. Escolhi uma leitura sobre existencialismo e suic&#237;dio porque era fosforescente. Parece piada, mas &#233; s&#243; minha vida mesmo.</p><p>O livro acompanha a Nora, uma mulher afundada em arrependimentos que, entre a vida e a morte, acessa uma biblioteca onde cada livro &#233; uma vida que ela poderia ter vivido se tivesse feito escolhas diferentes. Cada &#8220;e se&#8221; &#233; uma vers&#227;o melhor (ou pior, porque a vida &#233; ir&#244;nica) do que ela &#233; agora. E eu, jovem adulta nos vinte e poucos anos e uma autodeclarada desistente profissional, me vi tanto nela, que quase chega a ser process&#225;vel por apropria&#231;&#227;o de personagem fict&#237;cia. Ali&#225;s, se eu tivesse uma Biblioteca da Meia-Noite, meu livro dos arrependimentos seria um calhama&#231;o com lombada quebrada. Esse livro, mais que qualquer outro, teve um significado imenso para mim. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!-66G!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2dafa64d-75e6-4caa-9a33-72242959bc79_1456x2016.webp" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!-66G!, /__u/rebsoliver.substack.com/w_424, /__u/rebsoliver.substack.com/c_limit, /__u/rebsoliver.substack.com/f_webp, /__u/rebsoliver.substack.com/q_auto:good, /__u/rebsoliver.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2dafa64d-75e6-4caa-9a33-72242959bc79_1456x2016.webp 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!-66G!, /__u/rebsoliver.substack.com/w_848, /__u/rebsoliver.substack.com/c_limit, 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E sofri bastante ao perceber que, infelizmente, fui contemplada com apenas uma vida. Aparentemente, o universo n&#227;o oferece plano fam&#237;lia para encarar todos os caminhos que eu queria ter seguido.  </p><p>Quando eu penso em possibilidades perdidas, eu sempre me lembro daquele trecho da figueira de A <a href="https://www.amazon.com.br/redoma-vidro-Nova-edi%C3%A7%C3%A3o/dp/8525068462/ref=sr_1_1?crid=GI480L15QDFS&amp;dib=eyJ2IjoiMSJ9.my-StY3hQScj7y2Mrxp5GyrgBIAlqfmTQj0u9E80F9HEu1PzzAm3Q4N6ALMT1PH5sbGAY9UeqdSaI-_ctMN-DGOI3Q8sMyO5Cybs4ZWHgpQZxkNvM9gAUut3ADvdnLr3qKAppwp0srePdC7jjpW4MJDH1XSO2sFtD_lVV1xGJzuTEzzjoCbogSHIKePnl5gCAUayKec_bbjfwgud5WMKMEwhuj-EUzhst_hFHtJkKgA.ikT96N0RupNaPVL_YubWOQoUrpTOvUgyN9rUWWZ6zxY&amp;dib_tag=se&amp;keywords=a+redoma+de+vidro&amp;qid=1749380379&amp;s=books&amp;sprefix=a+redoma+de+%2Cstripbooks%2C275&amp;sr=1-1&amp;ufe=app_do%3Aamzn1.fos.6d798eae-cadf-45de-946a-f477d47705b9">Redoma de Vidro</a>, em que a Esther se v&#234; parada diante da figueira, olhando para todos os frutos da &#225;rvore, cada um representando uma poss&#237;vel vida, mas fica t&#227;o paralisada tentando escolher, que todos apodrecem. Literalmente: todos os sonhos murchando, caindo, enquanto ela segue est&#225;tica igual uma planta mal regada de apartamento.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ljbE!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8e6ddd37-1289-4a2c-92eb-6aef2c47b486_1170x943.webp" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ljbE!, /__u/rebsoliver.substack.com/w_424, /__u/rebsoliver.substack.com/c_limit, /__u/rebsoliver.substack.com/f_webp, /__u/rebsoliver.substack.com/q_auto:good, /__u/rebsoliver.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8e6ddd37-1289-4a2c-92eb-6aef2c47b486_1170x943.webp 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ljbE!, 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Me vi sentada embaixo da &#225;rvore, morrendo de fome, simplesmente porque n&#227;o conseguia decidir com qual figo eu ficaria. Eu queria todos eles, mas escolher um significava perder todo o resto, e enquanto eu ficava ali sentada, incapaz de tomar uma decis&#227;o, os figos come&#231;aram a encolher e ficar pretos e, um por um, desabaram no ch&#227;o aos meus p&#233;s. [&#8230;]&#8221; </h5></blockquote><p>Esse trecho do livro sempre me impactou absurdamente. Porque sou eu: parada diante das op&#231;&#245;es, morrendo de fome e incapaz de escolher.</p><p>E ent&#227;o chega Taylor Swift e lan&#231;a &#8220;I Look in People&#8217;s Windows&#8221;. Nos versos em que ela canta:</p><blockquote><h5>&#8220;Uma pena carregada pelo vento&#8230; N&#227;o saber me incomoda, ent&#227;o eu olho pelas janelas das pessoas, hipnotizada pelo brilho dourado-rosado&#8230; Eu sou viciada em pensar nas possibilidades&#8221;</h5></blockquote><p>O eu l&#237;rico se sente t&#227;o perdido, tomada pela d&#250;vida das escolhas e seduzida por vidas que n&#227;o viveu. <strong>Dois minutos de m&#250;sica. Dois livros. Um diagn&#243;stico.</strong></p><p>E &#233; claro que, ap&#243;s ouvir a Taylor confessando que se sente como uma pena levada pelo vento, e me lembrar da Esther encarando a figueira como quem assiste os pr&#243;prios futuros apodrecendo por pura paralisia, me vi pensando: talvez a minha maior voca&#231;&#227;o seja mesmo a de lamentar pelas possibilidades que n&#227;o vivi. Porque, quando a gente tem esse hist&#243;rico de sonhos demais, &#233; como se eles fossem c&#225;psulas do tempo capazes de devolver aquela felicidade genu&#237;na que a nostalgia insiste em valorizar. </p><p>Quando eu era mais nova, por exemplo, amava biologia humana. Decidi, convicta, que seguiria para a &#225;rea da sa&#250;de porque, obviamente, viver estudando o sistema excito-condutor card&#237;aco me faria eternamente realizada, como se transformar minha paix&#227;o em laudos, exames automatizados e pareceres t&#233;cnicos, fosse a rota expressa para a realiza&#231;&#227;o pessoal. Coloquei uma expectativa t&#227;o grande em uma &#250;nica escolha que, inevitavelmente, ela ganhou tamb&#233;m o poder de me frustrar. Porque n&#227;o tem como ser feliz todos os dias exercendo sua profiss&#227;o, por mais po&#233;tico que isso soe em legendas de Instagram. </p><p>E nos dias em que a realiza&#231;&#227;o n&#227;o vem, come&#231;o a cogitar alternativas como quem coleciona vidas paralelas: virar volunt&#225;ria no Nepal, abrir uma confeitaria numa cidadezinha com menos de mil habitantes, virar ghostwriter, plantar lavanda no sul da Fran&#231;a&#8230; qualquer coisa que me prometa de volta aquela sensa&#231;&#227;o de plenitude. Ah! Nada como um brainstorm de del&#237;rios semi-vi&#225;veis para compensar a aus&#234;ncia de sentido pr&#225;tico. </p><p>No fundo, &#233; s&#243; mais um cap&#237;tulo do v&#237;cio de pensar nas possibilidades, fugindo da nossa pr&#243;pria vida, esperando que em alguma estante, em algum universo paralelo exista uma vers&#227;o de n&#243;s que finalmente fa&#231;a sentido.</p><p>E a verdade dolorosa &#233; que a gente nunca vai ser aquela pessoa que planejou ser aos quinze anos, e o espa&#231;o entre engolir isso a contragosto e seguir fingindo que ainda tem esperan&#231;a &#233; s&#243; mais uma forma sofisticada de autoengano. A vida n&#227;o &#233; uma grande realiza&#231;&#227;o. &#201; uma sequ&#234;ncia de pequenas frustra&#231;&#245;es entrecortadas por caf&#233;s frios e boletos em d&#233;bito autom&#225;tico. &#192;s vezes com juros. Quase sempre sem a&#231;&#250;car.</p><p>Se eu fosse citar aqui todos os trechos que marquei de <em>A Biblioteca da Meia-Noite</em>, esse texto viraria um TCC de 80 p&#225;ginas (e, honestamente, acho que nem a Nora aguentaria), ent&#227;o vou citar somente dois.</p><p>Na primeira vez que Nora volta da experi&#234;ncia de uma vida que poderia ter vivido, a Sra. Elm pergunta: </p><blockquote><h5>&#8212; &#201; dif&#237;cil prever, n&#233;? &#8212; perguntou ela, olhando de forma inexpressiva. &#8212; As coisas que v&#227;o nos fazer felizes. </h5><h5>&#8212; &#201; &#8212; admitiu Nora. &#8212; &#201;, sim. Mas o que acontece com ela? Comigo? Como a hist&#243;ria dela termina?</h5><h5> &#8212; Como &#233; que eu vou saber? S&#243; conhe&#231;o o hoje. Sei muito sobre o hoje. Mas n&#227;o sei o que acontece amanh&#227;.</h5></blockquote><p>Os estoicos (esses entusiastas da resigna&#231;&#227;o com pose de sabedoria) acreditavam que a vida tem dois grandes inimigos: o passado e o futuro. O passado, para eles, n&#227;o era algo que <em>ficou l&#225; atr&#225;s</em>, mas sim um presente que insiste em lembrar. J&#225; o futuro? Uma <em>fic&#231;&#227;o ansiosa</em>, uma aposta emocional baseada em absolutamente nada de concreto, tipo planejar o s&#225;bado na ter&#231;a. Pensar demais em qualquer um dos dois, segundo eles, <strong>empobrece a exist&#234;ncia</strong>. E convenhamos, &#224;s vezes parece que a gente t&#225; vivendo exatamente assim: pensando na morte da bezerra quando a bezerra j&#225; virou churrasco.</p><p>Em uma participa&#231;&#227;o de <a href="https://open.spotify.com/episode/4xvYVKaOtcsxlpL1ooPHuk?si=Cnp-VfFNRRqYFpJ-ojzUow">podcast sobre estoicismo</a>, o Cl&#243;vis de Barros <strong>larga uma daquelas frases que a gente at&#233; finge que entendeu de primeira:</strong></p><blockquote><h5>&#8220;A vida &#233; quase uma improbabilidade, quase uma raiz de menos um. Metade da vida depende de voc&#234;, a outra metade, n&#227;o. A vida est&#225; acontecendo, e se est&#225; acontecendo, &#233; da natureza estar de acordo com ela.&#8221;</h5></blockquote><p>passado, veja bem, j&#225; passou e transformar cada decis&#227;o mal tomada em um drama de cinco atos n&#227;o vai fazer da minha vida um &#233;pico, s&#243; um t&#233;dio miser&#225;vel com trilha sonora de arrependimento. O que d&#225; pra fazer, quando muito, &#233; ressignificar. Trocar o &#8220;por que eu fiz isso?&#8221; por um &#8220;foi o que dava pra fazer com o que eu tinha&#8221;. E entender que optou por aquela decis&#227;o com o repert&#243;rio emocional dispon&#237;vel e, provavelmente, com muito menos terapia. Ent&#227;o n&#227;o &#233; quest&#227;o de erro, &#233; de contexto. E contexto, ao contr&#225;rio do arrependimento, a gente n&#227;o pode reescrever.</p><p>Como bem diz <em>A Biblioteca da Meia-Noite</em>:</p><blockquote><h5>&#8220;N&#227;o d&#225; para dizer se qualquer uma dessas outras vers&#245;es teria sido melhor ou pior. Essas vidas est&#227;o acontecendo, &#233; verdade, mas voc&#234; est&#225; acontecendo tamb&#233;m, e &#233; nesse acontecimento que temos de nos concentrar.&#8221;</h5></blockquote><p>Ou seja, parar de viver viciado em pensar nas possibilidades. Ningu&#233;m &#233; capaz de antever todos os diversos trajetos que nossas jornadas poderiam ter seguido. E, em grande parte, isso talvez seja o melhor. H&#225; segredos que devem permanecer ocultos, algo que Pandora com sua caixinha de curiosidade, pode bem confirmar.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Como se sabotar exigindo genialidade de si mesma ]]></title><description><![CDATA[Queria me sentir orgulhosa das minhas conquistas mas s&#243; me sinto aliviada por n&#227;o ter fracassado de novo]]></description><link>https://rebsoliver.substack.com/p/onde-voce-viu-deus-hoje</link><guid isPermaLink="false">https://rebsoliver.substack.com/p/onde-voce-viu-deus-hoje</guid><dc:creator><![CDATA[Rebecca]]></dc:creator><pubDate>Mon, 18 May 2026 22:45:00 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/7c9a4de9-1b5c-4687-a7d4-50cc3f457d08_1200x609.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!JdPa!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F42f35706-7968-4bd4-bdae-a8136fbc6041_1200x609.webp" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!JdPa!, /__u/rebsoliver.substack.com/w_424, /__u/rebsoliver.substack.com/c_limit, /__u/rebsoliver.substack.com/f_webp, /__u/rebsoliver.substack.com/q_auto:good, /__u/rebsoliver.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F42f35706-7968-4bd4-bdae-a8136fbc6041_1200x609.webp 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!JdPa!, /__u/rebsoliver.substack.com/w_848, /__u/rebsoliver.substack.com/c_limit, /__u/rebsoliver.substack.com/f_webp, /__u/rebsoliver.substack.com/q_auto:good, 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great, or nothing&#8221;</p></div><p>Se voc&#234; n&#227;o sentiu essa frase como um soco no est&#244;mago, voc&#234; talvez deva terminar o texto por aqui. O contexto no monologo de Amy, se da em um momento que ela se enxerga como um fracasso, e por mais talentosa que ela seja, e mesmo que se esforce muito isso n&#227;o vai torna-la um g&#234;nio, logo ela prefere n&#227;o ser nada se ela n&#227;o pode ser a melhor. Em destaque, essa senten&#231;a carrega o fardo de uma maldi&#231;&#227;o, e isso aqui nem chega a ser uma hip&#233;rbole, porque ela diz sobre n&#227;o aceitar nada abaixo do extraordin&#225;rio: onde mora o problema. A consequ&#234;ncia da buscar pelo brilhantismo &#233; correr uma maratona sem linha de chegada. Quando voc&#234; percebe, j&#225; n&#227;o est&#225; correndo atr&#225;s de um sonho. Est&#225; fugindo do fracasso.</p><p>E eu me vi nesse mon&#243;logo, sem figurino, sem roteiro, mas muito comprometida com a performance, enquanto minha vida acad&#234;mica e profissional virava um grande reality show de treinos intensivos em busca de ser a melhor em absolutamente qualquer coisa que eu ousasse tocar. Se n&#227;o for para ser brilhante, melhor nem levantar da cama.</p><h4><strong>O v&#237;cio do quase fracasso e os cad&#225;veres de tentativas que abandonei pelo caminho</strong></h4><p>Em 2016, no flor da idade (e da ansiedade), prestei meu primeiro (e &#250;nico) vestibular para medicina. O resultado foi.. educativo, digamos assim.Uma nota que n&#227;o era humilhante, mas suficientemente baixa para me jogar direto no limbo do &#8220;quase acerto&#8221;. O purgat&#243;rio dos med&#237;ocres esfor&#231;ados. E ai a velha voz da autossabotagem (essa s&#237;ndica rabugenta que mora no meu c&#233;rebro) entrou em cena: &#10024; n&#227;o se iluda, para que gastar energia sonhando?&#10024; E se tem algo que eu fa&#231;o com <em><strong>excel&#234;ncia </strong></em>&#233; me antecipar ao fracasso. </p><p>Ouso dizer, sem medo de errar (porque sarcasmo &#233; uma coisa que eu fa&#231;o bem), que eu nasci com uma disfun&#231;&#227;o neurol&#243;gica rara:</p><p><strong>A incapacidade cr&#244;nica de come&#231;ar qualquer coisa pela primeira vez sem a obriga&#231;&#227;o interna de ser incr&#237;vel.</strong></p><p>Se n&#227;o for para ser genial, nem me dou ao trabalho. Se eu te mostrasse meu curr&#237;culo oculto (aquele que n&#227;o vai pro LinkedIn) teria escancarado o esqueleto de todas as tentativas que eu j&#225; abandonei na metade do caminho. Porque, sejamos sinceros, eu sempre fui uma aluna nota 10 na disciplina <em>Ansiedade Aplicada com &#202;nfase em Cat&#225;strofe Antecipada. </em>Diante do medo da negativa opto por &#10024;desistir antes de tentar (ufa eu n&#227;o fracassei se n&#227;o tentei, escutou universo?) &#10024;</p><p>E a parte mais tr&#225;gica (ou c&#244;mica, dependendo do ponto de vista) &#233; que eu nunca fui um fracasso completo, os meus tiros acertavam a moldura do alvo. O que torna um equ&#237;voco dizer que eu fracassei absurdamente, mas dizer que acertei tamb&#233;m seria exagero de mais.</p><p>E, se voc&#234; acha que isso tudo &#233; s&#243; uma crise existencial minha, sinto informar que sou s&#243; mais um sintoma de um problema coletivo muito bem estruturado e socialmente aceito. Porque essa coisa disfar&#231;ada de &#8220;ambi&#231;&#227;o&#8221; n&#227;o &#233; s&#243; minha. &#201; uma linha de produ&#231;&#227;o moderna que transforma pessoas inteiras em projetos inacabados, permanentemente insatisfeitos, eternamente endividados emocionalmente com uma expectativa que ningu&#233;m sabe exatamente quem colocou ali.</p><p>Ent&#227;o t&#225;, Rebecca, chega de falar de voc&#234;. Vamos, enfim, ao que realmente importa: destrinchar como o perfeccionismo, vestido de ambi&#231;&#227;o, se tornou a nova ferramenta de opress&#227;o, agora muito mais sutil, elegante e, infelizmente, autoimposta.</p><h4><strong>O perfeccionismo fantasiado de ambi&#231;&#227;o: nova ferramenta de opress&#227;o</strong></h4><p>N&#227;o sei exatamente quando a nossa gera&#231;&#227;o assinou o contrato silencioso da excel&#234;ncia, mas a conta parece estar chegando, e a fonte n&#227;o s&#227;o as vozes da minha cabe&#231;a: basta olhar as estat&#237;sticas de ansiedade, depress&#227;o e esgotamento hoje. Um pacto t&#225;cito de nunca ser suficiente, mesmo quando &#8220;tudo parece dar certo&#8221;. Para isso eu trago refer&#234;ncias culturais, atuais ou nem tanto assim:</p><p>N&#227;o &#233; coincid&#234;ncia que personagens como a j&#225; citada Amy March, juntamente com <em>Fleabag</em> nessa insatisfa&#231;&#227;o permanente, aquela voz interna que n&#227;o para, a press&#227;o para ser brilhante numa vida que &#233;, no m&#225;ximo, um improviso. Ou mesmo na performance em <em>Cisne Negro</em> de Nina Sayers, com sua busca obsessiva pela perfei&#231;&#227;o que a leva a perder a cabe&#231;a de forma n&#227;o po&#233;tica (no meu caso metaforicamente &#8212; por enquanto). Aqui eu cito tamb&#233;m Christine em <em>Lady Bird</em>, sempre se sentindo fora do lugar, incapaz de ser a filha perfeita, a aluna exemplar ou a pessoa extraordin&#225;ria que se espera.</p><p>A arte imita a vida? Ou &#233; a vida que imita a arte? Talvez seja irrelevante, o que importa &#233; que essa hist&#243;ria de &#8220;mulher hist&#233;rica&#8221; do s&#233;culo XX, lobotomizada para &#8220;voltar ao normal&#8221;, est&#225; ecoando at&#233; hoje nas nossas ansiedades e nas nossas ambi&#231;&#245;es sufocadas. Ser &#8220;quase perfeita&#8221; &#233; o pior tipo de fracasso, porque a mediocridade virou palavr&#227;o, e o fracasso, um luxo que n&#227;o podemos nos dar. Estar presa nesse limbo &#233; t&#227;o exaustivo quanto invis&#237;vel, uma tortura silenciosa que poucos enxergam e menos ainda conseguem nomear.</p><p>Enquanto escrevo isso, me pergunto: onde foi que perdemos o direito de ser simplesmente &#8220;suficiente&#8221;? Onde o &#8220;bom o bastante&#8221; virou sin&#244;nimo de fracasso iminente? Quem nos convenceu que o contentamento &#233; fraqueza e que a excel&#234;ncia &#233; o m&#237;nimo aceit&#225;vel?</p><p>Como Simone de Beauvoir j&#225; denunciava isso a d&#233;cadas, quando falou que somos socialmente constru&#237;da como &#8220;a categoria do Outro&#8221;, sempre existindo em rela&#231;&#227;o a um ideal, um padr&#227;o imposs&#237;vel que n&#227;o lhe deixa espa&#231;o para falhas, para imperfei&#231;&#245;es, para ser humano.</p><p>S&#248;ren Kierkegaard, no s&#233;culo XIX poderia falar por mim ao definir a ang&#250;stia como o medo da possibilidade infinita do que poder&#237;amos ser. Essa ang&#250;stia n&#227;o &#233; nada po&#233;tica; &#233; uma esp&#233;cie de mar&#233; negra que devora a alegria.</p><p>E aqui eu termino citando Clarice Lispector (obrigada, Clarice, voc&#234; me entende mais que minha terapeuta) que com sua prosa quase sussurrada, e a sensibilidade de quem entendeu a trag&#233;dia de existir, poderia resumir meu dilema com uma frase:</p><div class="pullquote"><p> Eu apenas esperava que tudo corresse bem, embora nunca me tomasse de contentamento se assim sucedia.</p></div><p>No fim das contas, talvez o maior ato de coragem seja admitir que estar &#8220;boa o suficiente&#8221; j&#225; &#233; um protesto contra o manual insano da autossabotagem e da press&#227;o social. E, se for para fracassar, que seja com estilo, porque o brilhantismo a gente deixa paras hist&#243;rias bonitas, enquanto a vida real segue sua linha torta e sem final feliz.</p><p>Que grande hip&#243;crita sou, cagando regras como se eu mesma n&#227;o fosse douta em cair nelas.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Se eu não tivesse enlouquecido no meio do caminho, hoje eu seria brilhante ]]></title><description><![CDATA[Uma aut&#243;psia po&#233;tica sobre o colapso cognitivo de uma ex-adolescente prod&#237;gio]]></description><link>https://rebsoliver.substack.com/p/qual-a-beleza-que-existe-em-ti-que</link><guid isPermaLink="false">https://rebsoliver.substack.com/p/qual-a-beleza-que-existe-em-ti-que</guid><dc:creator><![CDATA[Rebecca]]></dc:creator><pubDate>Mon, 11 May 2026 22:16:00 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/9c8f9958-5801-44bd-9d3f-bba155b6dcd4_1065x1444.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Esse n&#227;o &#233; um texto sobre Taylor Swift, &#233; um relato semi-ir&#244;nico da adolescente promissora que hoje se tornou uma adulta mediana (com sorte). Mas eu vou ilustrar citando Taylor Swift.</p><p>Quando ela escreveu This Is Me Trying, ela sintetizou o que eu demorei 20 anos pra entender:</p><blockquote><p>&#8220;Eu estava t&#227;o &#224; frente na curva, que a curva virou uma esfera. Fiquei pra tr&#225;s de todos os meus colegas de classe e acabei aqui.&#8221;</p></blockquote><iframe class="spotify-wrap" data-attrs="{&quot;image&quot;:&quot;https://i.scdn.co/image/ab67616d0000b27395f754318336a07e85ec59bc&quot;,&quot;title&quot;:&quot;this is me trying&quot;,&quot;subtitle&quot;:&quot;Taylor Swift&quot;,&quot;description&quot;:&quot;&quot;,&quot;url&quot;:&quot;https://open.spotify.com/track/7kt9e9LFSpN1zQtYEl19o1&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;noScroll&quot;:false}" src="https://open.spotify.com/embed/track/7kt9e9LFSpN1zQtYEl19o1" frameborder="0" gesture="media" allowfullscreen="true" allow="encrypted-media" data-component-name="Spotify2ToDOM"></iframe><p>Ela conseguiu colocar em palavras um inc&#244;modo que me acompanha h&#225; anos: a cl&#225;ssica s&#237;ndrome da ex-adolescente prod&#237;gio que n&#227;o virou absolutamente nada do que prometeram que ela seria. Quem prometeu? Ningu&#233;m, s&#243; minha cabe&#231;a mesmo, que adora me sabotar. </p><p>O que me levanta uma constata&#231;&#227;o amarga, e um tanto constrangedora: ser intitulada como adolescente inteligente n&#227;o &#233; garantia de absolutamente nada, exceto, talvez, uma vida adulta temperada com doses generosas de frustra&#231;&#227;o e a constante sensa&#231;&#227;o de que meu c&#233;rebro veio de f&#225;brica com prazo de validade (que claramente j&#225; venceu, e eu continuo usando o tipo aquela maquiagem da capricho de 2009).</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!b-RD!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7176e937-df7b-4952-be73-1cedd9a07e73_1576x2100.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" 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Aquela que sabia n&#227;o apenas falar os nomes dos 196 pa&#237;ses, mas apont&#225;-los no mapa. Aos quinze, casualmente, destrinchava o ciclo de Krebs, e recitava a tabela peri&#243;dica inteira, incluindo as utilidades dos gases nobres que, ironicamente, hoje compartilham a mesma fun&#231;&#227;o que meu c&#233;rebro: inerte, est&#225;vel, sem vontade de reagir. </p><p>Eu lia livros que n&#227;o entendia, aprendia coisas que n&#227;o me serviam pra absolutamente nada, e dava respostas que adultos achavam engra&#231;adinhas, mas no fundo eram s&#243; ind&#237;cios precoces de ansiedade generalizada disfar&#231;ada de genialidade (spoiler: nunca foi genialidade, era s&#243; transtorno mesmo).</p><p>J&#225; fui apelidada de Hermione e perdi a conta de quantas vezes recebi o gif do Rony Weasley olhando pra ela e dizendo: &#8220;Voc&#234; me d&#225; medo as vezes sabia?. &#201; brilhante, mas d&#225; medo.&#8221; E, ironicamente, meu bicho-pap&#227;o era (e ainda &#233;) exatamente o mesmo que o dela: o medo do fracasso. Aquela criatura amorfa, disfar&#231;ada de boletim vermelho, de projeto abandonado, de aba do Google com 83 guias abertas que nunca ser&#227;o lidas.</p><p>Hoje eu olho pra isso tudo como quem observa um bilhete de loteria n&#227;o premiado. Tipo: parab&#233;ns, voc&#234; ganhou&#8230; nada. S&#243; expectativas quebradas e gastrite nervosa. </p><p>O que me intriga e angustia, &#233; perceber como esse potencial que um dia me definiu parece ter evaporado silenciosamente, entre a inf&#226;ncia e a vida adulta, sequestrado por um combo letal chamado <strong>ansiedade, exaust&#227;o e hiperestimula&#231;&#227;o cognitiva. </strong></p><p>E existe, sim, uma culpa cr&#244;nica embutida. Porque eu sinto, com toda a arrog&#226;ncia honesta que me cabe, que eu conseguiria fazer absolutamente qualquer coisa que eu propusesse a fazer&#8230; se eu n&#227;o fosse t&#227;o pregui&#231;osa, procrastinadora, e engolida pelas pr&#243;prias espirais mentais. Porque, <strong>tecnicamente</strong>, eu sei que poderia escrever 12 livros, fazer 472 cursos, 38 projetos paralelos, pintar, ler, dominar seis idiomas e talvez at&#233; tentar descobrir um elemento qu&#237;mico (<strong>tecnicamente</strong>, na pr&#225;tica, prefiro um cochilo).</p><p>Mas ser&#225; uma decad&#234;ncia a burrice? Ou s&#243; uma rea&#231;&#227;o natural de quem exige de si pr&#243;pria um n&#237;vel de genialidade <a href="https://www.crqxx.gov.br/crqxx/acesso_noticias/marie-curie">Marie Curie</a>, como se eu tivesse a obriga&#231;&#227;o moral de descobrir o pr&#243;ximo elemento da tabela peri&#243;dica, ou decodificar, os mist&#233;rios do DNA como <a href="https://www.biography.com/scientists/rosalind-franklin">Rosalind Franklin</a>? </p><p>Funfact: meu elemento seria o desesperatium, n&#250;mero  at&#244;mico 404, s&#237;mbolo Dp,  elemento inst&#225;vel, altamente vol&#225;til, desaparecido da pr&#243;pria vida.</p><p>O que me faz considerar uma hip&#243;tese talvez dolorosa: talvez eu nunca tenha sido, de fato, genial. Talvez eu tenha sido s&#243; uma crian&#231;a neur&#243;tica, movida a hiperfoco, press&#227;o interna, aprova&#231;&#227;o externa e terror existencial. </p><h4><strong>A maldi&#231;&#227;o da mente exausta</strong></h4><p>O colapso n&#227;o &#233; um evento isolado. &#201; um processo. E eu? Virei estat&#237;stica. E antes que me sugiram terapia (que sim, j&#225; fa&#231;o, obrigada), aviso que isso n&#227;o &#233; um pedido de socorro. &#201; apenas um laudo preliminar dessa aut&#243;psia cognitiva que eu venho conduzindo comigo mesma h&#225; alguns anos.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!QCmd!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F20ff6428-9757-454b-88e6-d9cb17e04a5b_3000x2327.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!QCmd!, /__u/rebsoliver.substack.com/w_424, /__u/rebsoliver.substack.com/c_limit, /__u/rebsoliver.substack.com/f_webp, /__u/rebsoliver.substack.com/q_auto:good, 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A partir daqui foi s&#243; ladeira abaixo</h6><p>A psicologia cognitiva j&#225; bateu o martelo: <a href="https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/2470547016689472">transtornos como ansiedade, depress&#227;o e estresse cr&#244;nico</a> t&#234;m impacto direto na nossa capacidade de racioc&#237;nio, concentra&#231;&#227;o, memoriza&#231;&#227;o e tomada de decis&#245;es. Quando a ansiedade te sequestra e o cortisol faz morada no teu sistema nervoso, a cogni&#231;&#227;o come&#231;a a falhar. </p><p>Porque&#8230;pasmem, a <a href="https://doi.org/10.1038/nrn2648">ansiedade reduz o volume do c&#243;rtex pr&#233;-frontal</a>, justamente a regi&#227;o respons&#225;vel por fun&#231;&#245;es executivas, racioc&#237;nio l&#243;gico, planejamento e regula&#231;&#227;o emocional.</p><p>Ou seja: n&#227;o &#233; que fiquei burra, como o curioso caso do Benjamin Button da intelig&#234;ncia, que passou por um processo de &#8220;emburramento&#8221; (posso n&#227;o ter inventado um elemento qu&#237;mico, mas uma palavra me dou licen&#231;a po&#233;tica de inventar). Meu c&#233;rebro s&#243; est&#225; ocupado demais tentando me proteger de perigos invis&#237;veis, o pr&#243;prio fracasso e aquele leve p&#226;nico existencial de estar viva em 2026.</p><p>Quando eu penso em decad&#234;ncia mental, figuras famosas por seu brilhantismo me veem a cabe&#231;a. <a href="https://www.biography.com/inventors/nikola-tesla">Nikola Tesla</a>, <a href="https://www.metmuseum.org/toah/hd/gogh/hd_gogh.htm">Van Gogh</a>. E para mim, a mais tr&#225;gica de todas, <a href="https://www.biography.com/authors-writers/virginia-woolf">Virginia Woolf</a>, que escrevia como se conseguisse arrancar as palavras do tecido do tempo. Mas nem ela conseguiu escapar da pr&#243;pria mente.</p><p>Deixou cartas falando do esgotamento mental:</p><blockquote><p>&#8220;Sinto que estou enlouquecendo novamente. E n&#227;o posso passar por aqueles tempos terr&#237;veis de novo.&#8221;</p></blockquote><h4><strong>A sociedade do cansa&#231;o (ou: o crime cognitivo do s&#233;culo)</strong></h4><p>E, como se n&#227;o bastasse meu pr&#243;prio sistema nervoso jogando contra mim, ainda tem o fator externo: viver no maior experimento cognitivo fracassado da hist&#243;ria, a era da hiperconectividade. (N&#227;o sou eu que t&#244; dizendo, &#233; <a href="https://mittechreview.com.br/a-sociedade-do-cansaco-e-os-impactos-tambem-positivos-da-tecnologia/#:~:text=Uma%20sociedade%20que%20se%20demonstra,auto%20contempla%C3%A7%C3%A3o%20individual%20%C3%A9%20reafirmada.">Byung-Chul Han</a>).</p><p>Cen&#225;rio que funciona como gasolina nesse inc&#234;ndio mental, na era da informa&#231;&#227;o sem contexto: onde tudo chega mastigado, recortado, transformado em p&#237;lulas cognitivas de 15 segundos. A internet democratizou o acesso, mas matou o processo. </p><p>Se antes a intelig&#234;ncia vinha do esfor&#231;o, da constru&#231;&#227;o e da conex&#227;o de ideias, hoje qualquer pergunta &#233; respondida instantaneamente por uma IA, um TikTok ou um carrossel de Instagram. <a href="https://newsroom.ucla.edu/releases/is-technology-producing-a-decline-79127">A capacidade pensar criticamente e desenvolver racioc&#237;nio complexo morre lentamente,</a> como uma samambaia esquecida na sacada. </p><p>Se antes minha mente colapsava tentando administrar expectativas, hoje ela tamb&#233;m colapsa tentando processar 500 est&#237;mulos simult&#226;neos, 24 horas por dia. </p><p>E o meu c&#233;rebro, que j&#225; estava no modo &#8220;falha cr&#237;tica&#8221; h&#225; uns bons anos, agora opera com a mesma efici&#234;ncia de um computador de lan house de 2003: rodando 27 v&#237;rus, MSN travado, tentando abrir o Orkut e o Habbo Hotel ao mesmo tempo (ah como eu sinto falta dos anos 2000).</p><p>A essa altura, eu j&#225; nem sei se &#8220;brilhante&#8221; significa alguma coisa al&#233;m de ser s&#243; um adesivo cafona que colam na sua testa quando voc&#234; tem dez anos e sabe responder qual &#233; a capital do Zimb&#225;bue (&#233; Harare, caso algu&#233;m ainda se importe).</p><p>Talvez, se eu n&#227;o tivesse enlouquecido no meio do caminho, hoje eu seria brilhante. Uma vers&#227;o burnout da Marie Curie, vivendo &#224; base de ansiol&#237;tico, omeprazol e memes.</p><p>Mas, honestamente? Estou cansada demais pra isso. No momento, n&#227;o quero ser mais nada al&#233;m de um ser biol&#243;gico b&#225;sico, que respira, come carboidrato. E olhe l&#225;, porque at&#233; lembrar de beber &#225;gua &#224;s vezes parece avan&#231;ado demais pra minha atual configura&#231;&#227;o de sistema.</p><p>Talvez o fim de toda mente brilhante seja esse mesmo: sucumbir ao pr&#243;prio excesso de lucidez e aceitar, com certa dignidade c&#237;nica, (e um meio sorriso sarc&#225;stico), que &#224;s vezes existir j&#225; d&#225; trabalho de mais. </p><blockquote><p>Causa da morte: expectativas irreais, ansiedade cr&#244;nica e vida adulta. Fim da aut&#243;psia.</p></blockquote>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Então somos adultos? Como isso aconteceu? Como podemos parar?]]></title><description><![CDATA[Vida adulta como farsa coletiva, a sensa&#231;&#227;o de fracasso aos vinte e poucos, e o absurdo de continuar cavando]]></description><link>https://rebsoliver.substack.com/p/o-poder-que-flui-do-lugar-secreto</link><guid isPermaLink="false">https://rebsoliver.substack.com/p/o-poder-que-flui-do-lugar-secreto</guid><dc:creator><![CDATA[Rebecca]]></dc:creator><pubDate>Mon, 04 May 2026 23:13:00 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/ab0ad4fa-d432-4d3b-a5d4-2bf7f5641c1d_1170x756.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Esse ano eu completei 27 anos.</p><p>Cada idade tem sua cita&#231;&#227;o emblem&#225;tica: a Taylor tem uma m&#250;sica inteira sobre fazer 22, outra sobre os 20. A Olivia Rodrigo est&#225; exausta de ter 17. O ABBA achava 17 &#8220;young and sweet&#8221;. Aos 25, voc&#234; j&#225; t&#225; velha demais pro Leonardo DiCaprio. Aos 24, segundo o Sundial, voc&#234; &#233; s&#243; mais uma alma em crise existencial. Mas 27&#8230;&#201; a idade em que voc&#234; pode, com toda dignidade c&#237;nica, dizer: &#8220;Tenho 27 anos. N&#227;o tenho dinheiro, nem perspectivas. J&#225; sou um fardo para os meus pais. E estou com medo.&#8221;</p><p>Essa frase, dita pela personagem Charlotte em Orgulho e Preconceito (e eternizada por Fleabag com uma dose extra de desespero moderno), escancara um medo que eu carrego em sil&#234;ncio: o de estar envelhecendo sem estar avan&#231;ando, olhar para a vida e sentir que nada est&#225; resolvido e os sonhos de uma vers&#227;o mais jovem minha foi vencida pela realidade.</p><p>Aos 27, esperavaj&#225; ter uma carreira em ascens&#227;o, alguma seguran&#231;a financeira, talvez um relacionamento est&#225;vel, ou, no m&#237;nimo uma clareza sobre o que eu quero. Mas a vida adulta chegou confusa, cheia de lacunas pr&#225;ticas (como n&#227;o saber lidar com impostos) e abismos existenciais.</p><p>Existe certa sensa&#231;&#227;o de fracasso de um estar perto dos trintas e lutar contra a press&#227;o social de ainda estar morando com os pais, preso em uma rotina sufocante, enquanto os amigos parecem prosperar, casando, comprando im&#243;veis, sendo promovidos. A compara&#231;&#227;o constante com os &#8220;vencedores&#8221; da pr&#243;pria gera&#231;&#227;o mina qualquer senso de autoestima. Surge a sensa&#231;&#227;o de estagna&#231;&#227;o: como se todo mundo estivesse seguindo um mapa que voc&#234; nunca recebeu.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!0S7B!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff38492bf-e158-44d4-aab7-5c44413c36c6_1280x624.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!0S7B!, /__u/rebsoliver.substack.com/w_424, /__u/rebsoliver.substack.com/c_limit, /__u/rebsoliver.substack.com/f_webp, /__u/rebsoliver.substack.com/q_auto:good, /__u/rebsoliver.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff38492bf-e158-44d4-aab7-5c44413c36c6_1280x624.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!0S7B!, 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H&#225; o medo de ter fracassado antes mesmo de come&#231;ar. A ansiedade do tempo passando. A tristeza silenciosa de n&#227;o se reconhecer no ideal de sucesso que um dia se sonhou. E cada dia parece uma tentativa cega de descobrir como se vive sem saber o que est&#225; fazendo.</p><p>Eu me sinto um fracasso completo. Com todas as letras. F-R-A-C-A-S-S-O. Quando foi que ficou estabelecido que crescer &#233; isso? Que o c&#233;rebro ia parar de se desenvolver, e o que restaria seria uma tentativa c&#237;nica de parecer funcional. Eu n&#227;o sei quando aceitei que eu sou um fracasso. Nem sei se aceitei na verdade.</p><p>Envelhecer &#233; solit&#225;rio. Eu n&#227;o posso mais bater na porta da minha m&#227;e &#224;s tr&#234;s da manh&#227; e dizer: &#8220;Posso dormir com voc&#234;? T&#244; com medo de ter feito todas as escolhas erradas e estar longe de quem eu deveria ser&#8221;. E a parte mais dif&#237;cil de crescer &#233; perceber que ningu&#233;m vai resolver nada por voc&#234;. E que mesmo cercada de amor, a jornada &#233; s&#243; sua.</p><p>&#201; muito triste perceber que n&#227;o tem ningu&#233;m mais segurando sua m&#227;o. Que voc&#234; cresceu e agora &#233; voc&#234; quem tem que lembrar de colocar o frango pra descongelar. Quem dirige, abastece, preenche formul&#225;rios, monta m&#243;veis, troca l&#226;mpada, paga conta e lembra do bendito imposto de renda. E voc&#234; ainda nem sabe montar um curr&#237;culo decente.</p><p>Queria que tivessem me contado sobre a solid&#227;o dos vinte e poucos. Que eu ia me sentir cada vez mais distante do que imaginei ser. Que nada sairia como o planejado e eu teria que tomar decis&#245;es enormes me sentindo completamente impotente. Porque vivemos num tempo em que h&#225; uma quantidade inacredit&#225;vel de coisas com que todos n&#243;s devemos ser capazes de lidar.</p><p>Ter emprego, moradia, fam&#237;lia, pagar imposto, lembrar senha do Wi-Fi, usar roupas limpas, passar fio dental. E fingir que tudo isso faz sentido. Fingimos que somos adultos funcionais que sabemos declarar o imposto de renda, que entendemos o que &#233; taxa Selic, amortiza&#231;&#227;o, infla&#231;&#227;o. Mas na pr&#225;tica, a gente s&#243; sobrevive ao dia. Porque amanh&#227; vem outro. E com ele, uma nova lista de &#8220;n&#227;o se esque&#231;a&#8221;. E o pior &#233; olhar a sua voltar e perceber que o mundo parece saber o que est&#225; fazendo. Os outros parecem dar conta de pagar as contas, adquirir coisas e lidar com a inda mais coisas. E os outros, possuem contadores pra declarar a merda do imposto de renda.</p><p>Da&#237; a pergunta crua, repetida quase como s&#250;plica: algu&#233;m pode me dizer o que diabos eu perdi? Essa pergunta ecoa o mon&#243;logo mais honesto de Fleabag, quando ela diz:</p><blockquote><p>Quero algu&#233;m que me diga o que vestir de manh&#227;. Toda manh&#227;. Quero algu&#233;m que me diga o que comer. Do que gostar, odiar e ter raiva. O que escutar, qual banda gostar, do que comprar ingressos. Com o que fazer ou n&#227;o fazer piada. Quero que me digam no que acreditar. Em quem votar. Quem amar e como dizer.</p></blockquote><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!zaod!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb225c74b-ec62-4195-972c-dce615046adf_1170x756.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!zaod!, /__u/rebsoliver.substack.com/w_424, /__u/rebsoliver.substack.com/c_limit, /__u/rebsoliver.substack.com/f_webp, /__u/rebsoliver.substack.com/q_auto:good, /__u/rebsoliver.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb225c74b-ec62-4195-972c-dce615046adf_1170x756.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!zaod!, /__u/rebsoliver.substack.com/w_848, /__u/rebsoliver.substack.com/c_limit, /__u/rebsoliver.substack.com/f_webp, 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antes mesmo de Fleabag existir, Clarice Lispector j&#225; havia escrito, em alguma madrugada de lucidez dilacerada:</p><blockquote><p>Meu desejo mais obscuro era dar minha cabe&#231;a para algu&#233;m dirigir. que algu&#233;m me dissesse todos os dias: hoje fa&#231;a isso, hoje corte isso, isso est&#225; bom, isso est&#225; ruim. uma pessoa que quisesse tomar minha dire&#231;&#227;o seria bem-vinda.</p></blockquote><p>Ningu&#233;m imagina o quanto eu sou infantil nisso. A exaust&#227;o de ter que decidir tudo o tempo todo. De ser a &#250;nica respons&#225;vel por desenterrar o pr&#243;prio entulho. De viver numa &#233;poca em que todas as possibilidades est&#227;o abertas e nenhuma parece suficiente. A vida adulta, prometida como liberdade, entrega apenas uma autonomia sufocante, onde ningu&#233;m mais te guia e todos esperam que voc&#234; j&#225; saiba fazer tudo.</p><p>Sou totalmente desqualificada para tudo isso. N&#227;o apenas declarar o imposto de renda e saber escolher verdura no mercado, mas para fingir ser uma adulta funcional com tudo sobre controle. E &#224;s vezes eu s&#243; queria entregar minha cabe&#231;a pra algu&#233;m dirigir. Ou pelo menos escolher por mim entre frango ou carne mo&#237;da.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A felicidade mora no improviso]]></title><description><![CDATA[e &#224;s vezes num bilhete de sorveteria]]></description><link>https://rebsoliver.substack.com/p/a-vida-moderna-e-o-velho-habito-de</link><guid isPermaLink="false">https://rebsoliver.substack.com/p/a-vida-moderna-e-o-velho-habito-de</guid><dc:creator><![CDATA[Rebecca]]></dc:creator><pubDate>Mon, 27 Apr 2026 23:31:00 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/0bbc000e-1bca-43c3-8c5b-b9c85e999f9a_1272x950.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Esses dias eu estava viajando para uma cidade vizinha quando, no meio da estrada, me deparei com um an&#250;ncio, no m&#237;nimo&#8230; curioso: <em><a href="https://maps.app.goo.gl/TECXh8pchWUdFbVK8?g_st=com.google.maps.preview.copy">&#8220;Sorveteria Paquistanesa</a>&#8221;</em>. Naturalmente, minha mente interpretou como uma oportunidade antropol&#243;gica e fiz um pequeno desvio para conhecer.</p><p>Al&#233;m de sabores absolutamente inesquec&#237;veis e levemente question&#225;veis (uma ode ao sorvete de lavanda, que segue imbat&#237;vel na minha lista de melhores experi&#234;ncias gastron&#244;micas), eles possu&#237;am um detalhe peculiar: no final do pagamento, entregavam um bilhetinho embrulhado, tipo biscoito da sorte, vers&#227;o papelaria artesanal.</p><p>Obviamente, meu ceticismo inveterado, que alimento desde os 12 anos, fez quest&#227;o de ignorar o bilhete com toda a classe de quem n&#227;o tem tempo para esse tipo de entretenimento c&#243;smico. A senhora, absolutamente imune ao meu colapso de grosseria passiva, gritou para o caixa: <em>&#8220;Entrega o recado pra ela, menino.&#8221;</em></p><p>Ele colocou o papel na minha m&#227;o. Eu, completamente comprometida com a performance de quem n&#227;o liga, enfiei no bolso e segui para a mesa, onde imediatamente retomei minha atividade preferida: administrar mentalmente minha planilha imagin&#225;ria de tarefas e cobran&#231;as autoimpostas.</p><p>O destino, como se debochasse dizendo &#8220;que tola voc&#234;&#8221;, me fez esbarrar no papel horas depois enquanto guardava algo no bolso. Abri. Li. E quase ri.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!TtJe!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1326d297-0272-4cdf-a1ee-64e0f12c5738_1272x2262.webp" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!TtJe!, /__u/rebsoliver.substack.com/w_424, /__u/rebsoliver.substack.com/c_limit, /__u/rebsoliver.substack.com/f_webp, /__u/rebsoliver.substack.com/q_auto:good, /__u/rebsoliver.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1326d297-0272-4cdf-a1ee-64e0f12c5738_1272x2262.webp 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!TtJe!, /__u/rebsoliver.substack.com/w_848, /__u/rebsoliver.substack.com/c_limit, /__u/rebsoliver.substack.com/f_webp, 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eu.&#8221;</em></p><p>Embora permane&#231;a c&#233;tica e 90% do tempo emocionalmente comprometida com a racionalidade, eu guardei aquele bilhete como quem guarda um prov&#233;rbio. Chega ser ir&#244;nico pensar que a lembran&#231;a mais marcante desse dia, seja o bilhete e a viagem escorreu como uma fina camada de cores na minha mem&#243;ria.</p><p>Ali&#225;s, se voc&#234; parar para pensar (eu sugiro que n&#227;o, porque &#233; gatilho), &#233; at&#233; meio ofensivo a forma com que a vida joga a real o tempo inteiro, na forma de bilhetes, crises, boletos, panes existenciais, planos fracassados e cafezinhos frios, e mesmo assim a gente insiste em acreditar que existe uma vers&#227;o futura de n&#243;s onde, finalmente, tudo se encaixa.</p><p>Por muito tempo eu vivi esperando minha vida come&#231;ar, como se houvesse uma cerim&#244;nia simb&#243;lica em meu roteiro pessoal, como em um livro em que tudo antes disso &#233; apenas o pr&#243;logo. Somos socialmente condicionados a acreditar em uma linha de chegada e que, ao cruz&#225;-la, finalmente vem aquele combo: paz interior, prop&#243;sito, plenitude e metabolismo acelerado.</p><p>Quando eu tento entender o sentido da vida e da felicidade, eu penso no <a href="https://www.amazon.com.br/Mito-S%C3%ADsifo-Albert-Camus/dp/8501111643">S&#237;sifo</a>, porque, ao reconhecer que o universo n&#227;o oferece um sentido pronto, <strong>somos livres para criar nosso pr&#243;prio sentido.</strong> Quando voc&#234; aceita que a vida &#233; feita de ciclos, tarefas repetitivas, desafios constantes, voc&#234; para de sofrer tentando encontrar um sentido externo.</p><p>Em uma <a href="https://www.youtube.com/watch?v=VASben3f4GM&amp;t=2s">entrevista de Ant&#244;nio Abujamra com o escritor Rubem Alves</a>, gravada em 2011 e que, Abujamra pergunta:<strong> &#8220;</strong><em><strong>A vida &#233; uma causa perdida?&#8221;</strong>,</em></p><p>Rubem Alves, na resposta, aponta exatamente para o mesmo lugar onde chegamos com S&#237;sifo, mas com menos trag&#233;dia e mais lirismo:</p><blockquote><p><strong>A vida &#233; uma causa perdida no sentido que vamos morrer. As cosias essenciais da vida a gente encontra a cada momento se a gente souber prestar aten&#231;&#227;o.&#8221;</strong></p></blockquote><p>E completa, citando<a href="https://www.amazon.com.br/Grande-Sert%C3%A3o-Veredas-Guimar%C3%A3es-Rosa/dp/8535932218"> </a><strong><a href="https://www.amazon.com.br/Grande-sert%C3%A3o-Veredas-Guimar%C3%A3es-Rosa/dp/8535931988">Guimar&#227;es Rosa</a></strong>:</p><blockquote><p><strong>&#8220;A felicidade se acha &#233; em horinhas de descuido.&#8221;</strong></p></blockquote><p>Uma felicidade que<strong> </strong>n&#227;o faz barulho e mora nos pequenos atos gratuitos, escondidos no intervalo entre um compromisso e outro.</p><p>Foi lendo <em><a href="https://www.amazon.com.br/Aprendendo-viver-CAPA-Clarice-Lispector/dp/6555321199/ref=sr_1_3?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&amp;crid=1DPQHNIBQ920T&amp;dib=eyJ2IjoiMSJ9.H2ZmLW-b1uINZs5J3NZ7aeVddld2ug9KJzKj1SfRcUOzowdETnLve1rjzhQcmBCHzzCb6B9HNIagqVfZHiUmwJZRhV9H45DoTlYOtD58pvlMLBWxw81BFt2YAsl44-8vMABYR7mPVla4ae4m3O0AEOr_hLGVTBZ2QPaKcaspmSalzlSHlQiSUJvQLRNZXTS_tmYtefUBuEdVxnVg9cjsLyItmzpTYS1cJbbZUO5xNIs.jVrtnE0Dp7mlcXvcsymCBC8xrJ7g08NXRzJimdIVoSY&amp;dib_tag=se&amp;keywords=aprendendo+a+viver&amp;qid=1749219988&amp;s=books&amp;sprefix=aprendendo+a+vive%2Cstripbooks%2C268&amp;sr=1-3&amp;ufe=app_do%3Aamzn1.fos.6d798eae-cadf-45de-946a-f477d47705b9">Aprendendo a Viver</a></em>, da Clarice Lispector, que eu aprendi o conceito de <strong>&#8220;ato gratuito&#8221;</strong>, um gesto que n&#227;o tem fun&#231;&#227;o pr&#225;tica no capitalismo emocional que a gente chama de exist&#234;ncia.</p><p>&#10024;Tipo parar no meio da estrada pra tomar um sorvete. &#10024;</p><p>Coisas que n&#227;o geram produtividade e muito menos um resultado. E olhando ent&#227;o para esses pequenos <em>atos</em>, e imaginando como seria a vida sem eles, a gente percebe que, na verdade, a felicidade acontece ao contr&#225;rio, onde as coisas grandes se tornam pequenas e as pequenas coisas se tornam grandes.</p><p>E talvez,<em><strong> apenas talvez </strong></em>(n&#227;o tenha tanta expectativa) se a gente parar de olhar para dentro como quem olha para uma vitrine quebrada, come&#231;ar a olhar para o mundo e servir a algo que n&#227;o seja s&#243; esse ego faminto por resultado&#8230; a gente consiga, no meio desse surto coletivo chamado exist&#234;ncia, ouvir aquele barulho bem baixinho da tal <strong>felicidade fant&#225;stica</strong> que Rubem descreveu. N&#227;o porque nos tornamos funcionais, espiritualmente equilibrados e com a lombar em dia. Mas, nos permitimos o luxo escandaloso de fazer uns atos gratuitos de vez em quando.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Burnout não é falha do sistema. É o sistema funcionando perfeitamente]]></title><description><![CDATA[Uma reflex&#227;o amarga sobre o culto &#224; produtividade, a moral do cansa&#231;o e a performance do sofrimento como moeda de valor profissional.]]></description><link>https://rebsoliver.substack.com/p/imagina-se-o-evangelho-fosse-pregado</link><guid isPermaLink="false">https://rebsoliver.substack.com/p/imagina-se-o-evangelho-fosse-pregado</guid><dc:creator><![CDATA[Rebecca]]></dc:creator><pubDate>Mon, 20 Apr 2026 23:43:00 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/0c91e57c-4680-4ecc-a15b-35b31d115ee4_685x385.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>Estamos &#8220;fazendo carreira&#8221; ou s&#243; orbitando em torno do pr&#243;prio esgotamento?</p></blockquote><p>Come&#231;o esse texto com uma pergunta ret&#243;rica que, na pr&#225;tica, &#233; uma resposta disfar&#231;ada de indigna&#231;&#227;o existencial. E com raz&#227;o, ningu&#233;m quer admitir que virou engrenagem emocional da nova linha de montagem: metas, entregas e fingir que ama tudo isso. Mas a &#250;nica coisa que produzimos &#233; cortisol. Sorria! Voc&#234; est&#225; sendo explorado com gentileza.</p><p><strong>E meu novo mantra &#233;: n&#227;o compro essa pira.</strong></p><p>Nem no Mercado Livre, nem na Shopee, nem nos cursos de &#8220;produtividade qu&#226;ntica para alcan&#231;ar o sucesso em 7 passos&#8221; e uma palestra motivacional com um cara branco de blazer colorido.</p><p>A produtividade virou autoflagelo com login corporativo. E o crach&#225; agora &#233; s&#237;mbolo de obedi&#234;ncia perform&#225;tica: sorria, produza, finja que est&#225; feliz. Afinal, se voc&#234; ousar dizer que detesta seu trabalho, vai parecer ingrato. Ou pior: <em>inst&#225;vel</em>. O trabalho deixou de ser um meio de sustento e virou um teste moral. Ali, o fracasso &#233; proibido. E o cansa&#231;o? Um detalhe que voc&#234; supera com mindset positivo e caf&#233; coado no suor da pr&#243;pria testa.</p><p>A nova medida de sucesso n&#227;o &#233; o que voc&#234; conquista, &#233; o quanto voc&#234; aguenta sem surtar. Quanto mais esgotado, mais &#8220;engajado&#8221;. Se voc&#234; ainda dorme oito horas por noite, algo est&#225; errado com seu comprometimento. A produtividade virou um teste de fidelidade: voc&#234; precisa provar todos os dias que merece continuar ali. N&#227;o por compet&#234;ncia, mas por desgaste. Porque o trabalho virou um ringue. E quem sangra mais, ganha.</p><p>Todo mundo sorrindo no Zoom, mandando e-mail com &#8220;atenciosamente&#8221;. A exaust&#227;o &#233; s&#243; mais uma etapa da jornada heroica de algu&#233;m que, obviamente, n&#227;o faz terapia porque prefere um workshop de &#8220;intelig&#234;ncia emocional aplicada a times de alta performance&#8221;. Se voc&#234; ousa dizer que est&#225; cansado, o RH te manda um link pro &#8220;Programa de Sa&#250;de Mental Corporativa&#8221; que &#233; basicamente uma palestra do tio da firma dizendo que &#8220;a gente precisa aprender a se organizar melhor&#8221;. Sutil. Quase po&#233;tico.</p><p><strong>LinkedIn: O </strong>purgat&#243;rio neoliberal corporativo</p><p>Um lugar onde as almas penadas &#8220;compartilham aprendizados&#8221; com emojis de foguinho e foto com fundo desfocado. E todo mundo aplaude. Reage com &#8220;insight&#8221;, &#8220;admira&#231;&#227;o&#8221;, &#8220;gratid&#227;o pela troca&#8221;. (emoji de palmas, foguete e &#128188; com brilho).</p><p>L&#225;, todo mundo &#233; CEO de si mesmo. Fundador de alguma ideia que ningu&#233;m pediu. Autor de frases de efeito recicladas da Deep Web da autoajuda. E, nas horas vagas, mentor de algo que nunca praticou na vida. E se voc&#234; n&#227;o estiver fazendo curso gratuito da FGV, agradecendo feedbacks gen&#233;ricos ou postando uma selfie no coworking com a legenda &#8220;mais um dia vencido&#8221;. Meus parab&#233;ns, voc&#234; est&#225; sendo apagado pelo algoritmo do sucesso. Nada me d&#225; mais enjoo do que abrir o LinkedIn e ver mais uma sequ&#234;ncia de del&#237;rios meritocr&#225;ticos disfar&#231;ados de supera&#231;&#227;o. Meu maior desejo? Que o Elon Musk compre o LinkedIn. Que ele suma com a mesma velocidade que o MSN. E que a gente volte pro Orkut, crie uma comunidade chamada &#8220;odeio alinhamento &#224;s 9 da manh&#227;&#8221; e passe o resto da vida mandando depoimentos ir&#244;nicos.</p><p>O corporativ&#234;s (meu inferno pessoal) virou o novo <em>latim eclesi&#225;stico</em>: ningu&#233;m entende, mas todo mundo finge que sim. Uma distopia lingu&#237;stica onde tudo &#233; vazio e nada diz coisa alguma. Um dialeto criado exclusivamente para parecer que algo est&#225; sendo feito. Frequentemente tenho pesadelos com palavras como &#8220;brainstorming&#8221;, &#8220;alinhamento&#8221;, &#8220;insight&#8221;, &#8220;mindset&#8221; (emoji de v&#244;mito) e &#8220;feedback&#8221;.</p><p>O mercado de trabalho exige tudo: experi&#234;ncia, flu&#234;ncia, especializa&#231;&#227;o, resili&#234;ncia, carisma, equil&#237;brio emocional, perfil din&#226;mico, entrega sob press&#227;o e ingl&#234;s com sotaque brit&#226;nico. Em troca, oferece um VR que mal paga uma coxinha, sal&#225;rio de estagi&#225;rio para cargo pleno e a promessa de &#8220;oportunidade de crescimento&#8221; que nunca chega. Me poupe. Nem todo mundo quer virar keynote speaker sobre &#8220;como superei o cansa&#231;o com prop&#243;sito&#8221;. &#192;s vezes, a pessoa s&#243; quer fazer um trabalho honesto, fechar o computador e ter tempo de fazer janta. Ou assistir reality ruim sem culpa. Ou apenas existir.</p><p>A linha de montagem, como retratada em &#8220;Tempos Modernos&#8221; de Chaplin, ilustra como o trabalho pode se tornar repetitivo e desumanizante, resultando na perda de sentido e autonomia do trabalhador. A necessidade de adapta&#231;&#227;o a um ritmo acelerado e a exig&#234;ncia de flexibilidade podem ter impactos negativos na sa&#250;de mental e no bem-estar dos trabalhadores.</p><p>Apesar de ter sido lan&#231;ado em 1936, os problemas de aliena&#231;&#227;o, precariza&#231;&#227;o e desumaniza&#231;&#227;o do trabalho continuam a ser quest&#245;es relevantes e urgentes em nossa sociedade. A tecnologia avan&#231;ou, o RH mudou o nome pra &#8220;People &amp; Culture&#8221;, mas o script &#233; o mesmo: fa&#231;a mais, entregue mais, aceite tudo com um sorriso de startup e jamais, jamais, admita que odeia aquilo tudo.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!qE4c!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4e7cb8f7-0f3f-4e7c-ae66-49a0e8a4b358_685x385.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!qE4c!, /__u/rebsoliver.substack.com/w_424, /__u/rebsoliver.substack.com/c_limit, /__u/rebsoliver.substack.com/f_webp, /__u/rebsoliver.substack.com/q_auto:good, 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A tal sociedade, transformou o esgotamento em status. Se voc&#234; n&#227;o est&#225; exausto, voc&#234; n&#227;o est&#225; fazendo o suficiente.</p><p>Assine e acompanhe o di&#225;rio de uma burnout &#224; beira do colapso</p><p>Trabalho n&#227;o precisa ser &#8220;autorrealiza&#231;&#227;o&#8221;. Se der pra gostar, &#243;timo. Mas n&#227;o precisa transformar em epifania. &#192;s vezes, trabalho &#233; s&#243; trabalho. Um contrato de 44 horas semanais, pra fazer algo repetitivo, com pessoas que voc&#234; tolera, em troca de dinheiro que mal d&#225; pra pagar o streaming que voc&#234; assiste pra esquecer que tem que trabalhar de novo amanh&#227;.</p><p>Essa hist&#243;ria de que &#8220;trabalho &#233; prop&#243;sito&#8221; &#233; bonita na palestra do TED. No mundo real, ele serve pra pagar a terapia que o pr&#243;prio trabalho exigiu. Trabalhar &#233; um meio de vida. N&#227;o &#233; identidade. Nem miss&#227;o de alma. A menos que voc&#234; esteja salvando vidas ou construindo pontes reais, n&#227;o precisa fingir que PowerPoint &#233; realiza&#231;&#227;o pessoal.</p><p>As 8 horas di&#225;rias que voc&#234; vende servem para pagar suas contas. Essa &#233; a vida adulta. No geral, dispenso o discurso de romantiza&#231;&#227;o do trabalho.</p>]]></content:encoded></item></channel></rss>