<script data-pm-proxy="intercept"></script><?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Ricardo Limongi]]></title><description><![CDATA[Professor of Marketing and Artificial Intelligence, Brazil]]></description><link>https://ricardolimongi.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Q6Ya!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fcf66999a-8b28-4e75-bb9d-f827d214c24d_1320x1320.jpeg</url><title>Ricardo Limongi</title><link>https://ricardolimongi.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Fri, 04 Sep 2026 17:14:18 GMT</lastBuildDate><atom:link href="/__u/ricardolimongi.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Ricardo Limongi]]></copyright><language><![CDATA[en]]></language><webMaster><![CDATA[ricardolimongi@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[ricardolimongi@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Ricardo Limongi]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Ricardo Limongi]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[ricardolimongi@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[ricardolimongi@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Ricardo Limongi]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[Trocou o produto, sumiu o especialista?]]></title><description><![CDATA[Ensino IA em pesquisa cient&#237;fica desde 2023. Passei tr&#234;s anos formando pesquisadores para operar ferramentas que j&#225; n&#227;o existem, e a conta est&#225; chegando]]></description><link>https://ricardolimongi.substack.com/p/trocou-o-produto-sumiu-o-especialista</link><guid isPermaLink="false">https://ricardolimongi.substack.com/p/trocou-o-produto-sumiu-o-especialista</guid><dc:creator><![CDATA[Ricardo Limongi]]></dc:creator><pubDate>Sun, 02 Aug 2026 13:00:43 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Q6Ya!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fcf66999a-8b28-4e75-bb9d-f827d214c24d_1320x1320.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Nos &#250;ltimos meses estive conversando com professores na Europa e na &#193;sia. Sa&#237; dessas conversas com uma pergunta que tem me incomodado e tenho compartilhado no meu perfil do <a href="https://www.instagram.com/limongi/">Instagram</a>: quando um modelo/produto de IA &#233; descontinuado, o que sobra do que a gente ensinou?</p><p>Fa&#231;o a pergunta sem ironia porque me inclu&#237;. Ensino IA para pesquisadores desde a oferta de uma disciplina com essa tem&#225;tica no projeto <a href="https://ufgdoutoral.ufg.br">UFG Doutoral</a> desde 2023 em institui&#231;&#245;es nacionais, internacionais, particulares, estaduais e federais, e ainda, diferentes associa&#231;&#245;es. Montava uma aula sobre ferramenta, sobre caso de uso, sobre limites &#233;ticos. E percebo agora que boa parte daquele conte&#250;do tinha prazo de validade impresso na embalagem, s&#243; que ningu&#233;m leu. Com grande velocidaidade, troca o produto no slide e chamamos aquilo de atualiza&#231;&#227;o. N&#227;o &#233;. Atualiza&#231;&#227;o de produto n&#227;o &#233; ac&#250;mulo de compet&#234;ncia; &#233; reposi&#231;&#227;o de estoque.</p><p>Escrevi sobre isso no <em>SciELO em Perspectiva</em> em fevereiro, e na &#233;poca formulei a quest&#227;o assim: <a href="https://blog.scielo.org/blog/2026/02/25/o-dilema-do-professor-na-era-da-ia-ensinamos-o-prompt-ou-o-processo-cientifico/">ensinamos o prompt ou o processo cient&#237;fico?</a> Volto a ela seis meses depois porque a pergunta envelheceu e n&#227;o do jeito que eu esperava. N&#227;o &#233; que a resposta tenha ficado mais clara. &#201; que o prompt, que era a unidade de ensino, deixou de ser a unidade de qualquer coisa neste avan&#231;o desenfreado da IA generativa.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p>Proponho um teste. Pe&#231;a a algu&#233;m que se apresente como especialista em IA que explique, sem citar nenhuma marca e sem abrir nenhuma interface, por que um modelo de linguagem produz uma refer&#234;ncia bibliogr&#225;fica que n&#227;o existe. N&#227;o &#233; pegadinha, e a resposta n&#227;o exige matem&#225;tica: exige entender que o sistema foi treinado para completar sequ&#234;ncias plaus&#237;veis, n&#227;o para recuperar fatos, e que uma cita&#231;&#227;o inventada &#233; o comportamento normal do mecanismo, n&#227;o uma falha dele. Temos especialistas em produtos e n&#227;o especialistas, de fato, em IA para pesquisadores, falta base, falta conhecimento t&#233;cnico.</p><div class="pullquote"><p>Quem entende isso n&#227;o precisa de curso quando a ferramenta muda. Quem n&#227;o entende vai precisar de um curso novo a cada seis meses, para sempre. Essa &#233; a diferen&#231;a entre forma&#231;&#227;o e assinatura.</p></div><p>E &#233; exatamente a diferen&#231;a que os pesquisadores n&#227;o est&#227;o cobrando.</p><h2>A ordem est&#225; invertida</h2><p>N&#227;o &#233; que falte refer&#234;ncia sobre como fazer isso direito. Os quadros conceituais mais citados de letramento em IA dizem a mesma coisa desde antes do ChatGPT: a compet&#234;ncia come&#231;a por compreender e avaliar criticamente o sistema, e o uso instrumental vem depois. <a href="https://doi.org/10.1016/j.caeai.2021.100041">Ng e colegas (2021)</a> organizam isso em quatro dimens&#245;es: conhecer e entender, usar e aplicar, avaliar e criar e &#233;tica. &#8220;Usar&#8221; &#233; uma das quatro. Uma.</p><p>Nossa forma&#231;&#227;o t&#237;pica &#233; feita quase inteiramente na segunda dimens&#227;o, com a quarta espremida no bloco final do dia, quando a sala j&#225; est&#225; pela metade. Invertemos a ordem e chamamos o resultado de letramento em IA.</p><div class="pullquote"><p>O efeito colateral &#233; sutil e &#233; o pior de todos: a estrutura do curso ensina, por si s&#243;, que IA &#233; uma quest&#227;o operacional com um ap&#234;ndice moral. O participante sai com a intui&#231;&#227;o de que o problema &#233; escolher a plataforma certa e declarar o uso no final. Nenhuma dessas duas coisas tem a ver com ci&#234;ncia.</p></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><h2>N&#227;o &#233; m&#225;-f&#233; de ningu&#233;m</h2><p>Vale dizer com todas as letras, porque essa cr&#237;tica costuma degringolar para acusa&#231;&#227;o: n&#227;o h&#225; vil&#227;o nessa hist&#243;ria. H&#225; incentivo.</p><p>Desde fevereiro de 2025, o <a href="http://data.europa.eu/eli/reg/2024/1689/oj">Artigo 4 do AI Act</a> europeu obriga organiza&#231;&#245;es que implantam IA, universidades e institutos de pesquisa inclu&#237;dos a garantir &#8220;n&#237;vel suficiente de letramento em IA&#8221; de quem opera esses sistemas. Obriga&#231;&#227;o legal gera demanda de conformidade, e demanda de conformidade &#233; atendida da forma mais barata que satisfa&#231;a o auditor: treinamento de ocasi&#227;o &#250;nica, certificado, lista de presen&#231;a, pr&#243;xima pauta.</p><p>Ningu&#233;m desenhou isso para ser raso. Ficou raso porque o mecanismo que o financia recompensa cobertura, n&#227;o profundidade. E porque, sejamos honestos, um curso de ferramenta &#233; mais f&#225;cil de vender, mais f&#225;cil de dar e muito mais f&#225;cil de avaliar do que um curso de julgamento cient&#237;fico. Eu dei v&#225;rios e posso afirmar.</p><p>Preciso registrar que h&#225; quem v&#225; bem mais longe do que eu. Em setembro do ano passado, dezoito acad&#234;micos, a maioria em universidades holandesas, publicaram um <a href="https://doi.org/10.5281/zenodo.17065099">posicionamento contra a ado&#231;&#227;o acr&#237;tica de IA na academia</a>, cobrando das universidades o papel de &#8220;contrapor o marketing, o hype e os danos da ind&#250;stria de tecnologia&#8221; em defesa do pensamento cr&#237;tico, da expertise e da integridade cient&#237;fica. N&#227;o assino tudo: minha cr&#237;tica &#233; ao desenho da forma&#231;&#227;o, n&#227;o &#224; ado&#231;&#227;o em si, e acho que d&#225; para usar bem essas ferramentas desde que se saiba o que s&#227;o. Mas eles acertam numa: quando a forma&#231;&#227;o &#233; desenhada em torno de um produto, quem define a agenda de compet&#234;ncia n&#227;o &#233; a universidade, e saem todos perdendo.</p><h2>Enquanto isso, duas camadas abaixo</h2><p>E vale olhar para onde essa agenda est&#225;. Porque o que mais me incomodou nas conversas dos &#250;ltimos meses n&#227;o foi o que se ensina, foi a dist&#226;ncia entre o que se ensina e onde a tecnologia efetivamente chegou.</p><p>Em maio deste ano, a <em><a href="https://doi.org/10.1038/s41586-026-10644-y">Nature</a></em> publicou a valida&#231;&#227;o experimental em tr&#234;s frentes do sistema multiagente de gera&#231;&#227;o de hip&#243;teses do DeepMind. N&#227;o &#233; demonstra&#231;&#227;o de slide: houve reposicionamento de f&#225;rmaco em leucemia mieloide aguda; houve recapitula&#231;&#227;o em dois dias de achados sobre resist&#234;ncia antimicrobiana que ainda n&#227;o tinham sido publicados. Onze especialistas avaliaram as hip&#243;teses geradas com nota 3,64 em 5 para novidade e 3,09 em 5 para impacto, n&#250;meros respeit&#225;veis e nada milagrosos. Vale registrar o detalhe que quase todo mundo omite: todas as valida&#231;&#245;es foram priorizadas por humanos. Algu&#233;m decidiu o que valia a pena testar.</p><p>Agora o contraponto, e &#233; ele que resolve a discuss&#227;o. Em julho, um<a href="https://doi.org/10.48550/arXiv.2607.27191"> grupo de pesquisadores</a> deu a agentes de fronteira seis dias e cerca de tr&#234;s mil d&#243;lares de or&#231;amento computacional para atacar dois problemas de pesquisa in&#233;ditos. Os agentes executaram <em>toda</em> a engenharia sozinhos, sem ajuda humana, e n&#227;o avan&#231;aram nas perguntas de pesquisa. Trabalho preliminar, ainda sem revis&#227;o por pares, e mesmo assim o resultado &#233; o mais forte que li no ano.</p><p>Leia as duas coisas juntas. A camada operacional da pesquisa j&#225; est&#225; automatizada ou est&#225; a poucos meses disso. O que sobrou intacto &#233; a formula&#231;&#227;o do problema, o julgamento sobre o que merece ser testado, a cr&#237;tica de desenho, a decis&#227;o sobre relev&#226;ncia. Ou seja: sobrou exatamente aquilo que nossa forma&#231;&#227;o n&#227;o ensina e n&#243;s continuamos treinando pessoas para a camada que a m&#225;quina j&#225; assumiu.</p><p>&#201; uma invers&#227;o quase c&#244;mica, se n&#227;o fosse cara.</p><p></p><h2>O melhor argumento do outro lado</h2><p>Alguns colegas entendem essa minha posi&#231;&#227;o como branda, e h&#225; quem me ache errado, e essa posi&#231;&#227;o &#233; defendida por gente s&#233;ria, num lugar s&#233;rio. <a href="https://doi.org/10.1126/science.aeh5777">Em abril, um editorial da </a><em><a href="https://doi.org/10.1126/science.aeh5777">Science</a></em> argumentou que o ensino superior precisa entregar &#8220;flu&#234;ncia pr&#225;tica em IA a todos os estudantes, incluindo design de prompt e integra&#231;&#227;o a fluxos de trabalho&#8221;.</p><p>O argumento tem fundamento: n&#227;o se desenvolve julgamento sobre uma tecnologia sem m&#227;o na massa, compet&#234;ncia abstrata sem pr&#225;tica costuma virar opini&#227;o, e h&#225; um custo de exclus&#227;o evidente em formar pessoas que sabem teorizar sobre IA e n&#227;o conseguem us&#225;-la. Concordo com tudo isso.</p><p>Onde entendo que a falha &#233; na suposi&#231;&#227;o de que a flu&#234;ncia pr&#225;tica se transfere. Ela n&#227;o se transfere; foi essa minha li&#231;&#227;o dos &#250;ltimos tr&#234;s anos. Quem aprendeu a operar a gera&#231;&#227;o de 2023 n&#227;o estava melhor preparado para agentes e protocolos aut&#244;nomos em 2026; estava apenas mais confiante, o que &#233; uma coisa bem diferente e &#224;s vezes pior. Pr&#225;tica ancorada em compreens&#227;o conceitual se transfere. Pr&#225;tica sozinha vira h&#225;bito com data de validade.</p><h2>O que estou propondo</h2><div class="pullquote"><p>Um crit&#233;rio, n&#227;o um curr&#237;culo. Uma forma&#231;&#227;o em IA para pesquisa s&#243; se justifica se o que ela ensina continuar verdadeiro depois que o produto sair do ar.</p></div><p>&#201; um teste severo e elimina a maior parte do que anda por a&#237;, inclusive parte consider&#225;vel do que eu mesmo ofereci. Tamb&#233;m &#233; simples de aplicar: pegue a ementa e risque toda linha que s&#243; faz sentido com o nome de uma plataforma dentro. O que resta &#233; a sua forma&#231;&#227;o. Se n&#227;o restar quase nada, voc&#234; n&#227;o tem um curso de IA, tem um manual de instru&#231;&#245;es com prazo.</p><p><a href="https://doi.org/10.1038/s41586-024-07146-0">Messeri e Crockett</a> resumiram o risco de fundo numa frase que ficou comigo desde 2024: a prolifera&#231;&#227;o dessas ferramentas amea&#231;a inaugurar uma fase da investiga&#231;&#227;o cient&#237;fica em que produzimos mais e entendemos menos. Reparem que a frase n&#227;o fala de fraude, de pl&#225;gio, de m&#225; conduta; fala de compreens&#227;o. &#201; um problema de forma&#231;&#227;o, n&#227;o de integridade. E problemas de forma&#231;&#227;o s&#243; se resolvem no lugar onde a forma&#231;&#227;o acontece, que &#233; onde estamos n&#243;s.</p><p>Termino este texto com o pedido para voc&#234;s, que &#233; o motivo de eu ter escrito isto. Se voc&#234; forma pesquisadores, fa&#231;a o exerc&#237;cio da ementa esta semana e me conte o que sobrou. N&#227;o &#233; ret&#243;rica: quero mesmo saber. Estou reescrevendo as minhas e desconfio que vou ter que jogar fora mais do que gostaria.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Exigimos do dado o que não exigimos de quem produz o dado]]></title><description><![CDATA[Recentemente, a plateia de uma palestra que conduzi era formada por quem construiu, ao longo de duas d&#233;cadas, a infraestrutura brasileira de dados abertos de pesquisa.]]></description><link>https://ricardolimongi.substack.com/p/exigimos-do-dado-o-que-nao-exigimos</link><guid isPermaLink="false">https://ricardolimongi.substack.com/p/exigimos-do-dado-o-que-nao-exigimos</guid><dc:creator><![CDATA[Ricardo Limongi]]></dc:creator><pubDate>Mon, 27 Jul 2026 20:04:53 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Q6Ya!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fcf66999a-8b28-4e75-bb9d-f827d214c24d_1320x1320.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Recentemente, a plateia de uma palestra que conduzi era formada por quem construiu, ao longo de duas d&#233;cadas, a infraestrutura brasileira de dados abertos de pesquisa. Pessoal  do IBICT, do SciELO, de reposit&#243;rios institucionais.</p><p>Fui at&#233; l&#225; para dizer que essa infraestrutura funcionou. &#201; que exatamente por isso ela agora tem um problema.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p>Uma explica&#231;&#227;o r&#225;pida para quem n&#227;o convive com a sigla que abordei l&#225;. Os princ&#237;pios FAIR foram publicados em 2016, na Scientific Data, por Wilkinson e um grupo grande de pesquisadores e financiadores. S&#227;o quatro exig&#234;ncias para que dados cient&#237;ficos sirvam a algu&#233;m al&#233;m de quem os produziu: que sejam encontr&#225;veis, acess&#237;veis, interoper&#225;veis e reutiliz&#225;veis. <em>Findable, Accessible, Interoperable, Reusable.</em></p><p>A ideia por tr&#225;s &#233; simples e boa. Um dado que existe apenas no HD de um pesquisador n&#227;o &#233; ci&#234;ncia, &#233; anota&#231;&#227;o. Para virar ci&#234;ncia, precisa ter identificador est&#225;vel, protocolo aberto de acesso, formato que outras m&#225;quinas entendam e licen&#231;a que permita reuso. D&#233;cadas de trabalho t&#233;cnico e pol&#237;tico foram investidas nisso.</p><blockquote><p>O que aconteceu &#233; que os princ&#237;pios foram escritos para o dado. E o dado deixou de ser o &#250;nico objeto que circula.</p></blockquote><p>Entre o dado bruto e a descoberta publicada, hoje existe um instrumento. Um modelo de linguagem que resumiu a literatura, que sugeriu a categoria de an&#225;lise, que reescreveu o par&#225;grafo do m&#233;todo, que apontou a inconsist&#234;ncia na tabela. Esse instrumento entrou na cadeia de produ&#231;&#227;o do conhecimento sem que ningu&#233;m tenha aplicado a ele a r&#233;gua que aplicamos ao dado.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/p/exigimos-do-dado-o-que-nao-exigimos?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Share&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/p/exigimos-do-dado-o-que-nao-exigimos?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Share</span></a></p><div class="callout-block" data-callout="true"><p>Antes de aplicar a r&#233;gua, uma distin&#231;&#227;o que considero central. Intelig&#234;ncia artificial &#233; um campo cient&#237;fico, com d&#233;cadas de pesquisa p&#250;blica, algoritmos verific&#225;veis e literatura revisada. ChatGPT, Gemini, Claude e Perplexity n&#227;o s&#227;o isso. S&#227;o produtos comerciais constru&#237;dos sobre esse campo, com arquitetura fechada, incentivos de mercado e termos de uso propriet&#225;rios.</p></div><p>Quando algu&#233;m escreve &#8220;utilizamos intelig&#234;ncia artificial&#8221; na se&#231;&#227;o de m&#233;todos, qual dos dois est&#225; sendo declarado? A pergunta n&#227;o &#233; ret&#243;rica. Ela decide se o m&#233;todo &#233; audit&#225;vel ou n&#227;o.</p><p>Feita a distin&#231;&#227;o, a r&#233;gua. Peguei os quatro princ&#237;pios e os apliquei ao instrumento em vez de aplic&#225;-los ao dado.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p>Comece pelo F. Encontr&#225;vel exige identificador persistente e metadados ricos. O output de um produto fechado n&#227;o tem nenhum dos dois. Um link de conversa compartilhada n&#227;o &#233; identificador persistente: morre quando a empresa muda a pol&#237;tica de compartilhamento, e o modelo por tr&#225;s dele j&#225; n&#227;o &#233; o mesmo de quando a conversa aconteceu.</p><p>Dizer &#8220;usamos GPT-4&#8221; tamb&#233;m n&#227;o resolve. N&#227;o existe um GPT-4 recuper&#225;vel. Existe uma fam&#237;lia de vers&#245;es que se sucederam em sil&#234;ncio, sem changelog p&#250;blico, sem data de corte declarada, sem qualquer forma de algu&#233;m voltar ao ponto exato onde voc&#234; estava. O identificador que voc&#234; cita n&#227;o aponta para lugar nenhum.</p><p>O A &#233; o que mais me incomoda, porque &#233; o princ&#237;pio mais mal compreendido. Acess&#237;vel n&#227;o significa gratuito. Significa recuper&#225;vel por protocolo aberto e padronizado e, na formula&#231;&#227;o original, significa que os metadados permanecem acess&#237;veis mesmo quando o dado j&#225; n&#227;o est&#225; dispon&#237;vel.</p><p>Esse segundo ponto &#233; o que os produtos fechados destroem. Quando um modelo &#233; descontinuado, n&#227;o sobra metadado. N&#227;o sobra registro do que era, de como respondia, do que mudou entre uma vers&#227;o e outra. Some tudo de uma vez, por decis&#227;o comercial, sem aviso e sem obriga&#231;&#227;o de aviso. O acesso depende de um contrato que pode ser reescrito unilateralmente, e frequentemente &#233;.</p><p>O I exige vocabul&#225;rios formais e refer&#234;ncias qualificadas. O que sai de um produto de IA &#233; prosa. Prosa fluente, mas prosa: sem estrutura formal, sem ontologia, sem qualquer marca&#231;&#227;o que permita &#224; outra m&#225;quina saber o que &#233; afirma&#231;&#227;o, o que &#233; infer&#234;ncia e o que &#233; interpola&#231;&#227;o.</p><p>E n&#227;o h&#225; refer&#234;ncia qualificada, no sentido t&#233;cnico do termo. O modelo n&#227;o declara sobre o que se apoiou. Produz um texto que se parece com um texto apoiado em fontes, o que &#233; uma coisa bastante diferente.</p><p>Sobra o R e &#233; o mais grave. Reutiliz&#225;vel exige licen&#231;a clara e proveni&#234;ncia detalhada. Os dados de treinamento dos principais produtos s&#227;o opacos por decis&#227;o de neg&#243;cio. N&#227;o sabemos o que entrou, sob que licen&#231;a entrou, nem se o material do seu pr&#243;prio grupo de pesquisa est&#225; l&#225; dentro.</p><p>Isso significa que a pergunta sobre reuso &#233;, na pr&#225;tica, indecid&#237;vel. Voc&#234; n&#227;o pode afirmar que o output &#233; reutiliz&#225;vel porque n&#227;o pode afirmar nada sobre a origem do que o produziu. E proveni&#234;ncia detalhada &#233; justamente o que o instrumento n&#227;o oferece.</p><blockquote><p>Quatro princ&#237;pios. Nenhum atendido.</p></blockquote><p>N&#227;o escrevo isso de fora. Uso esses produtos todos os dias, na pesquisa. Me pego aceitando uma sugest&#227;o sem registrar qual modelo estava aberto, em que vers&#227;o, com que instru&#231;&#227;o. Depois n&#227;o consigo reconstruir o caminho, e o que eu n&#227;o consigo reconstruir sobre o meu pr&#243;prio trabalho, um parecerista tamb&#233;m n&#227;o conseguir&#225;.</p><p>Mas h&#225; uma diferen&#231;a entre reconhecer a pr&#243;pria falha e trat&#225;-la como inevit&#225;vel. A aus&#234;ncia de proveni&#234;ncia do instrumento n&#227;o &#233; uma caracter&#237;stica da tecnologia. &#201; uma escolha de quem a vende e uma omiss&#227;o de quem a compra sem exigir nada em troca.</p><p>Existe uma assimetria aqui que vale nomear com todas as letras. Pesquisamos com dinheiro p&#250;blico, sobre problemas p&#250;blicos, com obriga&#231;&#227;o, ao meu ver, de depositar dados em reposit&#243;rios abertos. E rodamos essa pesquisa em instrumentos que n&#227;o devem satisfazer ningu&#233;m.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/p/exigimos-do-dado-o-que-nao-exigimos?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Share&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/p/exigimos-do-dado-o-que-nao-exigimos?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Share</span></a></p><p>Exigimos do dado o que n&#227;o exigimos do que produz o dado.</p><p>Isso n&#227;o se corrige com proibi&#231;&#227;o, e desconfio de quem prop&#245;e proibir. Corrige-se com documenta&#231;&#227;o: nome do produto, vers&#227;o, data, interface, instru&#231;&#227;o usada. O mesmo que j&#225; exigimos de um reagente, de um equipamento de medi&#231;&#227;o, de um software estat&#237;stico. Nada de novo, apenas a extens&#227;o de uma norma que j&#225; existe a um objeto que escapou dela.</p><p>E aqui est&#225; o ponto  que levei &#224; palestra. Quem estava l&#225; n&#227;o usa a infraestrutura de ci&#234;ncia aberta. Escreve as regras dela. Um peri&#243;dico indexado pode transformar a declara&#231;&#227;o de uso em condi&#231;&#227;o de submiss&#227;o amanh&#227;, se decidir. Uma ag&#234;ncia pode transformar a proveni&#234;ncia do instrumento em item de presta&#231;&#227;o de contas.</p><p>A infraestrutura aberta nunca foi uma ferramenta que se usa. &#201; um conjunto de regras que algu&#233;m escreveu, num momento em que ainda dava para escrever. Estamos exatamente nesse momento de novo, e ele n&#227;o vai durar.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Quem pensa quando a IA pensa?]]></title><description><![CDATA[Renato passou na qualifica&#231;&#227;o mas n&#227;o conseguiu responder &#224; pergunta mais simples da banca.]]></description><link>https://ricardolimongi.substack.com/p/quem-pensa-quando-a-ia-pensa</link><guid isPermaLink="false">https://ricardolimongi.substack.com/p/quem-pensa-quando-a-ia-pensa</guid><dc:creator><![CDATA[Ricardo Limongi]]></dc:creator><pubDate>Thu, 21 May 2026 12:03:23 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Q6Ya!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fcf66999a-8b28-4e75-bb9d-f827d214c24d_1320x1320.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">&#201; quase meia-noite de uma ter&#231;a-feira de agosto. Renato tem a qualifica&#231;&#227;o em vinte e um dias. Ele abriu o arquivo de an&#225;lise pela d&#233;cima vez naquela semana. As 23 entrevistas est&#227;o ali, com gestores de unidades b&#225;sicas de sa&#250;de do interior do seu estado, cada uma com uma hora e meia de conversa sobre o que significa tomar uma decis&#227;o sem recurso, sem apoio, sem protocolo. Ele passou tr&#234;s meses em campo. Voltou com algo que sentia ser importante, mas n&#227;o conseguia nomear.</p><p style="text-align: justify;">O problema &#233; que sentir n&#227;o &#233; suficiente para uma qualifica&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Seu orientador pediu o cap&#237;tulo de resultados para a semana seguinte. Renato tem 47 p&#225;ginas de transcri&#231;&#227;o e uma p&#225;gina em branco.</p><p style="text-align: justify;">Ele abre o Claude. Cola a primeira transcri&#231;&#227;o. Digita o prompt com cuidado, metodologia qualitativa, teoria fundamentada, categorias emergentes. Em quatro minutos, a tela se preenche. Temas surgem articulados, com exemplos do texto, com linguagem que soa como ele gostaria de soar. Ele cola a segunda transcri&#231;&#227;o. Depois a terceira. Ajusta os prompts. Refina. &#192;s duas da manh&#227;, tem um esbo&#231;o de an&#225;lise que, relendo, parece melhor do que qualquer coisa que ele teria escrito sozinho.</p><p style="text-align: justify;">Na semana seguinte, o orientador l&#234; e diz que est&#225; bom. Melhor do que esperava.</p><p style="text-align: justify;">Vinte e um dias depois, Renato est&#225; na sala de qualifica&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">A banca vai bem nos primeiros quarenta minutos. Depois, uma das examinadoras, professora de uma universidade parceira e especialista na &#225;rea em uma das categorias anal&#237;ticas, pergunta: <em>&#8220;Renato, voc&#234; pode me dizer mais sobre como chegou a essa distin&#231;&#227;o entre autonomia delegada e autonomia negociada? O que nos dados te levou a separar essas duas coisas?&#8221;</em></p><p style="text-align: justify;">Renato olha para a tela. V&#234; a categoria. Lembra de t&#234;-la lido. N&#227;o lembra de t&#234;-la constru&#237;do.</p><p style="text-align: justify;">Ele responde algo. A professora acena, n&#227;o completamente satisfeita. A qualifica&#231;&#227;o continua e termina com a aprova&#231;&#227;o e os ajustes. Ningu&#233;m sabe o que aconteceu naquele segundo de sil&#234;ncio antes da resposta.</p><p style="text-align: justify;">Mas Renato sabe.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/p/quem-pensa-quando-a-ia-pensa?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Share&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/p/quem-pensa-quando-a-ia-pensa?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Share</span></a></p><h2>O problema que n&#227;o aparece no output</h2><p style="text-align: justify;">A hist&#243;ria do Renato &#233; fict&#237;cia :) mas o mecanismo que ela descreve n&#227;o &#233;.</p><p style="text-align: justify;">Em janeiro de 2026, os pesquisadores <a href="https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=6097646">Shaw e Nave</a> publicaram um preprint no SSRN descrevendo o que chamaram de &#8220;<em>cognitive surrender</em> &#8221; &#8212; rendi&#231;&#227;o cognitiva. A defini&#231;&#227;o &#233; precisa: a tend&#234;ncia de adotar outputs de intelig&#234;ncia artificial com escrut&#237;nio m&#237;nimo, contornando o racioc&#237;nio deliberativo que as tarefas intelectuais exigem.</p><div class="pullquote"><p>O conceito n&#227;o descreve fraude. N&#227;o descreve m&#225;-f&#233;. Descreve algo mais sutil e, por isso, mais dif&#237;cil de abordar: o que acontece quando um pesquisador delega &#224; m&#225;quina n&#227;o apenas a execu&#231;&#227;o de uma tarefa, mas tamb&#233;m o processo de pensar por meio dela.</p></div><p style="text-align: justify;">A distin&#231;&#227;o importa porque os resultados externos podem ser indistingu&#237;veis. O cap&#237;tulo do Renato passou pela leitura do orientador. A an&#225;lise estava tecnicamente correta. Os temas eram coerentes com os dados. Nenhum detector de pl&#225;gio teria sinalizado nada. Nenhuma pol&#237;tica de disclosure teria sido violada se ele tivesse declarado o uso da ferramenta.</p><p style="text-align: justify;">O problema n&#227;o estava no output. Estava no que Renato n&#227;o construiu enquanto o output era gerado.</p><h2>O que se perde no processo</h2><p style="text-align: justify;">Para entender o que est&#225; em jogo, &#233; &#250;til pensar no que o processo de an&#225;lise qualitativa deveria produzir, mas n&#227;o produz quando &#233; delegado.</p><p style="text-align: justify;">Quando um pesquisador mergulha em transcri&#231;&#245;es por semanas, algo acontece que vai al&#233;m da mera identifica&#231;&#227;o de temas. Ele come&#231;a a carregar os dados consigo. Acorda pensando em uma frase que n&#227;o encaixou. Percebe conex&#245;es enquanto dirige. Sente a resist&#234;ncia de um caso que contradiz o padr&#227;o emergente e essa resist&#234;ncia o for&#231;a a rever o que pensava saber. &#201; um processo lento, desconfort&#225;vel e, em grande medida, invis&#237;vel para qualquer avalia&#231;&#227;o externa.</p><div class="pullquote"><p style="text-align: justify;">Esse processo tem um nome na literatura qualitativa: reflexividade. &#201; a capacidade do pesquisador de manter consci&#234;ncia de como ele pr&#243;prio est&#225; sendo transformado pelo contato com o material de pesquisa.</p></div><p style="text-align: justify;">Mas h&#225; uma dimens&#227;o que vai al&#233;m da metodologia. Michel Foucault, em seus trabalhos sobre &#233;tica, descreveu algo que chamou de cuidado de si: a pr&#225;tica cont&#237;nua de se formar como sujeito por meio das escolhas que fazemos e dos processos pelos quais passamos. Para Foucault, &#233;tica n&#227;o &#233; um conjunto de regras externas a cumprir. &#201; o trabalho de se tornar o tipo de pessoa que voc&#234; quer ser, por meio de pr&#225;ticas deliberadas e reflexivas.</p><p style="text-align: justify;">Aplicado &#224; pesquisa: o processo de an&#225;lise n&#227;o &#233; apenas o caminho para um resultado. &#201; uma pr&#225;tica de forma&#231;&#227;o do sujeito pesquisador. Cada decis&#227;o sobre como categorizar, cada tens&#227;o entre o dado e a teoria, cada momento em que o pesquisador precisa decidir o que importa e o que descarta: esses momentos n&#227;o s&#227;o obst&#225;culos a superar. &#201; o pr&#243;prio trabalho de se tornar um pesquisador.</p><p style="text-align: justify;">Quando Renato delegou esse processo, ele n&#227;o apenas terceirizou uma tarefa. Ele abriu m&#227;o de uma s&#233;rie de encontros formativos sobre o pr&#243;prio objeto de pesquisa.</p><p style="text-align: justify;">E quando a professora fez a pergunta na banca, o vazio que surgiu n&#227;o era aus&#234;ncia de informa&#231;&#227;o. Era aus&#234;ncia de experi&#234;ncia.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! 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O que torna a IA diferente?</p><p style="text-align: justify;">A diferen&#231;a est&#225; em <em>onde</em> a ferramenta opera.</p><p style="text-align: justify;">Uma calculadora executa as opera&#231;&#245;es matem&#225;ticas especificadas pelo pesquisador. O racioc&#237;nio, a decis&#227;o sobre qual opera&#231;&#227;o realizar, o que o resultado significa e como se relaciona com a quest&#227;o de pesquisa permanecem inteiramente no humano. A ferramenta amplia a capacidade de execu&#231;&#227;o sem tocar o processo de pensamento.</p><p style="text-align: justify;">Um modelo de linguagem que analisa entrevistas e gera categorias tem&#225;ticas opera de forma diferente. Ele n&#227;o executa a opera&#231;&#227;o que o pesquisador especificou. Ele realiza o pr&#243;prio processo de interpreta&#231;&#227;o, o reconhecimento de padr&#245;es, a nomea&#231;&#227;o de conceitos, a constru&#231;&#227;o de rela&#231;&#245;es entre ideias. &#201; exatamente o processo que, quando realizado pelo pesquisador, o forma tal.</p><p style="text-align: justify;">A distin&#231;&#227;o que Shaw e Nave estabelecem &#233; entre usar IA como ferramenta e usar IA como substituto. No primeiro caso, o pesquisador permanece o agente do processo cognitivo; a IA amplia sua capacidade sem substituir seu julgamento. No segundo, o pesquisador torna-se curador de um processo que n&#227;o realizou.</p><p style="text-align: justify;">Renato n&#227;o usou o Claude para transcrever suas entrevistas. Usou para pensar por ele. Essa &#233; a diferen&#231;a que a banca revelou.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/p/quem-pensa-quando-a-ia-pensa?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Share&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/p/quem-pensa-quando-a-ia-pensa?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Share</span></a></p><h2>O sinal que a banca deu</h2><p style="text-align: justify;">H&#225; algo importante no momento em que Renato viveu que merece aten&#231;&#227;o: a pergunta da professora n&#227;o era uma armadilha. Era uma pergunta normal de qualifica&#231;&#227;o do tipo que qualquer pesquisador que realizou sua pr&#243;pria an&#225;lise deveria conseguir responder sem hesitar.</p><p style="text-align: justify;"><em>Como voc&#234; chegou a essa distin&#231;&#227;o?</em></p><p style="text-align: justify;">Para quem construiu a an&#225;lise, essa pergunta abre uma narrativa. Voc&#234; lembra do momento em que os dados resistiram. Lembra do caso que n&#227;o se encaixava na primeira vers&#227;o da categoria. Lembra de ter voltado ao campo mentalmente, de ter revisado uma decis&#227;o, de ter chegado a uma distin&#231;&#227;o que, no in&#237;cio, n&#227;o estava l&#225;.</p><p style="text-align: justify;">Para quem recebeu a an&#225;lise pronta, a pergunta abre um sil&#234;ncio.</p><p style="text-align: justify;">Esse sil&#234;ncio &#233; o sinal mais honesto que o processo produziu. Mais honesto do que o cap&#237;tulo aprovado pelo orientador. Mais honesto do que qualquer detector de IA. Mais honesto do que o pr&#243;prio Renato havia percebido que precisava ouvir.</p><p style="text-align: justify;">O problema n&#227;o &#233; que Renato usou IA. O problema &#233; que ele n&#227;o sabia o que havia perdido ao us&#225;-la daquela forma at&#233; que algu&#233;m fez a pergunta certa.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><h2>O que est&#225; sendo perdido em escala</h2><p style="text-align: justify;">A hist&#243;ria do Renato &#233; individual. Mas o mecanismo que ela ilustra est&#225; acontecendo de forma ampla e silenciosa.</p><p style="text-align: justify;">Em 2026, um estudo publicado na <em><a href="https://doi.org/10.1287/orsc.2026.ed.v37.n3">Organization Science</a></em> analisou quase sete mil submiss&#245;es a um dos principais peri&#243;dicos de ci&#234;ncias organizacionais. O que encontraram n&#227;o foi apenas queda de qualidade nos manuscritos com alto uso de IA; isso j&#225; era esperado. O que surpreendeu foi a natureza espec&#237;fica dessa queda: os textos com mais IA eram mais dif&#237;ceis de ler, mais nominalizados, mais jargonizados. E os editores os rejeitavam sem saber que havia IA envolvida. Simplesmente percebiam que eram piores.</p><p style="text-align: justify;">A pergunta que esse dado levanta n&#227;o &#233; metodol&#243;gica. &#201; sobre o que acontece quando uma comunidade inteira de pesquisadores come&#231;a a delegar o processo de pensar. A qualidade do output diminui, mas a perda mais profunda pode ser outra: a capacidade coletiva de reconhecer o que &#233; uma boa pergunta, o que &#233; uma interpreta&#231;&#227;o original, o que &#233; um argumento que realmente avan&#231;a o campo.</p><p style="text-align: justify;">Essas capacidades n&#227;o existem em abstrato. Elas s&#227;o cultivadas no &#226;mbito da pesquisa. Cada vez que um pesquisador passa horas com dados que resistem, cada vez que uma an&#225;lise exige uma revis&#227;o te&#243;rica, cada vez que um argumento precisa ser constru&#237;do palavra por palavra, essas experi&#234;ncias acumulam uma compet&#234;ncia que n&#227;o est&#225; em nenhum output. Est&#225; em quem realizou o processo.</p><div class="pullquote"><p style="text-align: justify;">Se o processo &#233; sistematicamente delegado, o que acontece com essa compet&#234;ncia ao longo do tempo?</p></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/p/quem-pensa-quando-a-ia-pensa?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Share&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/p/quem-pensa-quando-a-ia-pensa?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Share</span></a></p><h2>Uma pergunta para carregar</h2><p style="text-align: justify;">Renato terminou a qualifica&#231;&#227;o aprovado. Vai ajustar o cap&#237;tulo, vai defender e, provavelmente, vai publicar. A banca n&#227;o saber&#225;. O orientador n&#227;o saber&#225;. A avalia&#231;&#227;o da CAPES n&#227;o saber&#225;.</p><p style="text-align: justify;">Mas h&#225; uma pergunta que ficou no ar daquela sala e que n&#227;o vai embora facilmente: se algu&#233;m fizer de novo a pergunta certa sobre seu pr&#243;ximo paper, sua tese, seu trabalho, voc&#234; vai conseguir responder?</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o h&#225; pergunta sobre o que o texto diz. A pergunta sobre como voc&#234; chegou l&#225;. O que nos dados te levou a essa conclus&#227;o? Que tens&#227;o voc&#234; precisou resolver para chegar a essa interpreta&#231;&#227;o? O que voc&#234; descartou e por qu&#234;?</p><p style="text-align: justify;">Essa pergunta n&#227;o &#233; uma avalia&#231;&#227;o de conformidade com as pol&#237;ticas de uso de IA. &#201; uma pergunta sobre presen&#231;a. Sobre se o pesquisador estava presente no pr&#243;prio processo de pesquisa.</p><p style="text-align: justify;">A discuss&#227;o sobre IA na ci&#234;ncia est&#225; dominada por quest&#245;es de ferramenta: quais usar, como declarar, o que proibir. Essas quest&#245;es importam. Mas enquanto estivermos olhando apenas para o instrumento, vamos perder o que est&#225; acontecendo com quem o usa.</p><p style="text-align: justify;">O desafio n&#227;o &#233; desenvolver melhores detectores. &#201; desenvolver pesquisadores que saibam responder &#224; pergunta da professora n&#227;o porque decoraram a resposta, mas porque estiveram presentes quando a an&#225;lise foi constru&#237;da.</p><div class="pullquote"><p style="text-align: justify;">A IA n&#227;o vai embora. A pergunta tamb&#233;m n&#227;o.</p></div><p style="text-align: justify;">A inspira&#231;&#227;o deste texto veio durante a prepara&#231;&#227;o para a palestra intitulada &#8220;Quem Pesquisa Quando a IA Pesquisa? Dilemas &#201;ticos da Intelig&#234;ncia Artificial na Ci&#234;ncia&#8221; conduzido durante a 4&#170; Edi&#231;&#227;o do Evento de &#201;tica na Pesquisa Cient&#237;fica da Unesp.</p><p style="text-align: justify;"><strong><a href="https://www.youtube.com/live/toc3MpgP_hI?si=0EoezXeevH5Kriia">Palestra no YouTube</a> | <a href="https://files.cercomp.ufg.br/weby/up/1254/o/unesp_slides.pdf.pdf">Slides</a></strong></p><p><strong>Refer&#234;ncias</strong></p><p>Gartenberg, C., Hasan, S., Murray, A. &amp; Pierce, L. (2026). More versus better: Artificial intelligence, incentives, and the emerging crisis in peer review. <em>Organization Science</em>. <a href="https://doi.org/10.1287/orsc.2026.ed.v37.n3">https://doi.org/10.1287/orsc.2026.ed.v37.n3</a></p><p>Lee, K. (2026). Becoming ethical qualitative researchers in the era of artificial intelligence: Michel Foucault&#8217;s ethics of the self. <em>Qualitative Inquiry</em>. <a href="https://doi.org/10.1177/10778004261417661">https://doi.org/10.1177/10778004261417661</a></p><p>Shaw, S. D. &amp; Nave, G. (2026). Thinking-fast, slow, and artificial: How AI is reshaping human reasoning and the rise of cognitive surrender. <em>Preprint</em>. <a href="https://doi.org/10.2139/ssrn.6097646">https://doi.org/10.2139/ssrn.6097646</a></p><p></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Mais, não melhor: o que a IA está fazendo com a ciência que publicamos]]></title><description><![CDATA[Como a intelig&#234;ncia artificial est&#225; aumentando o volume da ci&#234;ncia e diminuindo a sua profundidade]]></description><link>https://ricardolimongi.substack.com/p/mais-nao-melhor-o-que-a-ia-esta-fazendo</link><guid isPermaLink="false">https://ricardolimongi.substack.com/p/mais-nao-melhor-o-que-a-ia-esta-fazendo</guid><dc:creator><![CDATA[Ricardo Limongi]]></dc:creator><pubDate>Mon, 18 May 2026 14:35:53 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Q6Ya!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fcf66999a-8b28-4e75-bb9d-f827d214c24d_1320x1320.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Existe uma doen&#231;a chamada bixonimania.</p><p style="text-align: justify;">Ela n&#227;o aparece em nenhum comp&#234;ndio m&#233;dico porque n&#227;o existe. Foi inventada em mar&#231;o de 2024 por Almira Osmanovic Thunstr&#246;m, pesquisadora da Universidade de Gotemburgo, como experimento: ela publicou dois preprints sobre a condi&#231;&#227;o em uma rede acad&#234;mica, com erros deliberadamente &#243;bvios: o autor era fict&#237;cio, a universidade n&#227;o existia, e os agradecimentos mencionavam o &#8220;Professor Sideshow Bob&#8221; e a &#8220;Universidade da Sociedade do Anel&#8221;.</p><p style="text-align: justify;">Mesmo assim, em semanas, a bixonimania j&#225; era descrita como real pelo ChatGPT, pelo Gemini, pelo Copilot e pelo Perplexity. E, pior: foi citada em um artigo indexado na Cureus, peri&#243;dico da Springer Nature, como &#8220;uma condi&#231;&#227;o ocular emergente associada &#224; exposi&#231;&#227;o &#224; luz azul&#8221;. O artigo foi retratado em mar&#231;o de 2026, ap&#243;s a Nature publicar a hist&#243;ria.</p><p style="text-align: justify;">Conto esse caso n&#227;o para alarmar, mas porque captura, em forma de f&#225;bula, algo que venho observando de perto no meu trabalho como editor-chefe da <a href="http://bar.anpad.org.br/">BAR</a> nos &#250;ltimos dois anos e que tr&#234;s estudos publicados em 2026  documentam com uma clareza que n&#227;o d&#225; para ignorar.</p><div class="pullquote"><p>A IA entrou na academia. N&#227;o est&#225; batendo na porta. J&#225; est&#225; sentada na cadeira do revisor.</p></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><h2>O que os dados mostram</h2><p>O AI Task Force da <em>Organization Science</em> uma das revistas mais respeitadas em ci&#234;ncias organizacionais, passou meses analisando o corpus completo de submiss&#245;es e reviews do peri&#243;dico: quase 7 mil manuscritos e mais de 10 mil pareceres, de 2021 a 2026. O que encontraram &#233; preocupante.</p><p>Desde o lan&#231;amento do ChatGPT em novembro de 2022, o volume de submiss&#245;es cresceu em 42%. Para compara&#231;&#227;o: o pico da pandemia de COVID-19 gerou um salto de 20%, metade disso. E esse crescimento n&#227;o veio de mais pesquisadores nem de mais ci&#234;ncia. Veio, quase inteiramente, do uso de IA na escrita.</p><p>O que me interessa aqui n&#227;o &#233; o n&#250;mero em si, mas o que vem com ele. A qualidade da escrita caiu. Os manuscritos com alto uso de IA s&#227;o mais dif&#237;ceis de ler: mais jarg&#227;o, mais nominaliza&#231;&#227;o, mais palavras multissil&#225;bicas que soam sofisticadas e dizem menos. O &#237;ndice de legibilidade Flesch Reading Ease ficou 1,28 desvios-padr&#227;o abaixo do per&#237;odo pr&#233;-IA. Isso contradiz a intui&#231;&#227;o de quem usa IA com a expectativa de que ela vai melhorar o texto. Em muitos casos, melhora. </p><div class="pullquote"><p>Mas quando o autor delega a escrita, quando o que entra no manuscrito &#233; gerado principalmente pela m&#225;quina, o resultado &#233; pior, n&#227;o melhor.</p></div><p style="text-align: justify;">Os editores percebem. Manuscritos com mais de 70% de conte&#250;do gerado por IA &#8212; tenho minha ressalva quanto &#224; mensura&#231;&#227;o desses dados &#8212; t&#234;m taxa de Revise &amp; Resubmit de apenas 3,2%, em compara&#231;&#227;o com 11,9% dos manuscritos predominantemente humanos. E a parte mais reveladora: os editores n&#227;o est&#227;o rejeitando esses textos porque identificam uso de IA. Est&#227;o rejeitando porque percebem que &#233; de qualidade inferior. A detec&#231;&#227;o &#233; consequ&#234;ncia do julgamento, n&#227;o o contr&#225;rio.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/p/mais-nao-melhor-o-que-a-ia-esta-fazendo?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Share&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/p/mais-nao-melhor-o-que-a-ia-esta-fazendo?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Share</span></a></p><h2>O paradoxo que ningu&#233;m est&#225; discutindo</h2><p style="text-align: justify;">Mas h&#225; uma camada mais profunda, e ela vem de um estudo publicado na <em>Nature</em> em janeiro de 2026, com 41 milh&#245;es de papers analisados em seis disciplinas das ci&#234;ncias naturais, de 1980 a 2025.</p><blockquote><p style="text-align: justify;">Os pesquisadores que usam IA publicam 3,02 vezes mais artigos, recebem 4,84 vezes mais cita&#231;&#245;es e chegam &#224; lideran&#231;a de projetos 1,37 anos antes do que os que n&#227;o usam. Do ponto de vista individual, a IA &#233; uma vantagem competitiva racional e expressiva.</p></blockquote><p style="text-align: justify;">Mas o que acontece no n&#237;vel coletivo &#233; o oposto.</p><p style="text-align: justify;">O escopo tem&#225;tico da ci&#234;ncia e a diversidade de perguntas feitas pelos pesquisadores encolheram em 4,63% com a ado&#231;&#227;o de IA. O engajamento entre papers caiu 22%. A ci&#234;ncia est&#225; convergindo para onde a IA consegue trabalhar: &#225;reas com dados digitais abundantes, problemas bem delimitados, benchmarks estabelecidos. Est&#225; se afastando das perguntas sem dados estruturados, das quest&#245;es de origem, das investiga&#231;&#245;es de longo prazo que n&#227;o produzem resultados r&#225;pidos.</p><p style="text-align: justify;">Isso n&#227;o &#233; abstrato. Para quem edita ou publica em biodiversidade, taxonomia, sistem&#225;tica ou ecologia de campo, o aviso &#233; direto. S&#227;o exatamente essas &#225;reas que correm o risco de serem progressivamente deixadas de lado em favor do que a IA consegue processar com efici&#234;ncia.</p><div class="pullquote"><p style="text-align: justify;">A tens&#227;o &#233; real: o que &#233; racionalmente vantajoso para o pesquisador individual pode ser coletivamente empobrecedor para a ci&#234;ncia.</p></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><h2>O que vejo chegar na BAR</h2><p style="text-align: justify;">Esses dados dialogam com o que observo no meu cotidiano editorial. N&#227;o tenho o mesmo levantamento da <em>Organization Science</em> para a BAR. Ainda n&#227;o fizemos esse levantamento sistem&#225;tico, mas o padr&#227;o qualitativo &#233; reconhec&#237;vel.</p><p style="text-align: justify;">H&#225; mais submiss&#245;es que chegam tecnicamente arrumadas e intelectualmente rasas. Textos que leem bem no abstract e perdem subst&#226;ncia na se&#231;&#227;o de discuss&#227;o. Revis&#245;es de literatura que cobrem muito e aprofundam pouco. Manuscritos cuja contribui&#231;&#227;o te&#243;rica &#233; dif&#237;cil de localizar porque o texto foi constru&#237;do para parecer denso, quando n&#227;o o &#233;.</p><p style="text-align: justify;">H&#225; tamb&#233;m o lado oposto, que n&#227;o posso ignorar: pesquisadores do Brasil e da Am&#233;rica Latina que usam IA para superar uma barreira que n&#227;o deveria existir: a do ingl&#234;s como l&#237;ngua de publica&#231;&#227;o. Para eles, a ferramenta funciona como um equalizador. Penaliz&#225;-los por uso de IA ser&#237;a injusto e contraproducente.</p><blockquote><p style="text-align: justify;">&#201; essa ambival&#234;ncia que torna a quest&#227;o dif&#237;cil. A resposta simples de proibir, detectar, punir n&#227;o resolve e, aplicada de forma cega, amplia desigualdades em vez de reduzi-las.</p></blockquote><h2>Al&#233;m da regula&#231;&#227;o</h2><p style="text-align: justify;">No in&#237;cio de 2026, publiquei um editorial na BAR que prop&#245;e outra forma de enquadrar o problema. O t&#237;tulo &#233; <a href="https://bar.anpad.org.br/index.php/bar/article/view/753">&#8220;Beyond Regulation&#8221;</a> porque acredito que o debate dominante, centrado na proibi&#231;&#227;o e na detec&#231;&#227;o, &#233; necess&#225;rio, mas insuficiente.</p><p style="text-align: justify;">A quest&#227;o central n&#227;o &#233; se os pesquisadores v&#227;o usar IA. V&#227;o. A quest&#227;o &#233; o que fazemos com o sistema de incentivos que est&#225; empurrando a ci&#234;ncia para o equil&#237;brio errado: a pesquisa em geral, n&#227;o a melhor pesquisa.</p><p style="text-align: justify;">No editorial, proponho o framework CRAFT-AI, constru&#237;do em cinco pilares: Credibilidade (accountability humana n&#227;o &#233; negoci&#225;vel), Responsabilidade (os <em>guardrails</em> &#233;ticos s&#227;o institucionais, n&#227;o apenas individuais), Acessibilidade (pol&#237;ticas de IA precisam reconhecer desigualdades estruturais), Equidade (processos de revis&#227;o precisam ser auditados para vieses) e Transpar&#234;ncia (<em>disclosure</em> estruturado sobre como, quando e para qu&#234; a IA foi usada). Atravessando todos: letramento em IA como compet&#234;ncia fundamental.</p><div class="pullquote"><p style="text-align: justify;">Uma das teses centrais &#233; simples, mas frequentemente ignorada: o que resta como contribui&#231;&#227;o humana quando a IA pode escrever revis&#245;es de literatura, identificar lacunas, sintetizar teorias e sugerir proposi&#231;&#245;es.</p></div><p style="text-align: justify;">Minha resposta &#233;: a interpreta&#231;&#227;o do significado dos fen&#244;menos em seus contextos vividos. Isso n&#227;o &#233; sentimentalismo acad&#234;mico. &#201; uma descri&#231;&#227;o precisa do que a IA atual n&#227;o consegue fazer e que qualquer revista cient&#237;fica s&#233;ria precisa proteger.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><h2>O que fazemos agora</h2><p style="text-align: justify;">N&#227;o tenho respostas definitivas e desconfio de quem as tem. Mas tenho algumas convic&#231;&#245;es.</p><p style="text-align: justify;">Pol&#237;ticas de <em>disclosure</em> s&#227;o necess&#225;rias, mas insuficientes. Quem usa IA de forma intensa simplesmente n&#227;o declara. Detec&#231;&#227;o autom&#225;tica cria assimetrias injustas. E banir &#233; realista apenas no papel.</p><p style="text-align: justify;">O que pode funcionar &#233; uma combina&#231;&#227;o de coisas: triagem editorial que use sinais de qualidade, n&#227;o detec&#231;&#227;o de IA, como crit&#233;rio; pol&#237;ticas revisadas pelo menos anualmente, &#224; medida que a tecnologia evolui; forma&#231;&#227;o de editores e revisores para navegar esse cen&#225;rio; e, acima de tudo, uma recusa institucional em delegar o julgamento editorial a algoritmos.</p><p style="text-align: justify;">Essa &#250;ltima parte &#233; onde me posiciono com mais clareza. Posso usar IA para otimizar o fluxo editorial, para sinalizar submiss&#245;es que merecem aten&#231;&#227;o, para acelerar processos. Mas a decis&#227;o de aceitar ou rejeitar um manuscrito &#233; um ato de julgamento intelectual. N&#227;o terceirizo isso.</p><h2>Uma nota final</h2><p style="text-align: justify;">A bixonimania ainda existe nos preprints. Osmanovic Thunstr&#246;m n&#227;o sabe o que fazer com os dois arquivos: se os retira, fica mais dif&#237;cil rastrear a desinforma&#231;&#227;o; se os mant&#233;m, continuam sendo indexados e reciclados pelos modelos.</p><p style="text-align: justify;">&#201; uma met&#225;fora precisa do momento em que estamos. N&#227;o h&#225; sa&#237;da limpa. O que h&#225; &#233; a obriga&#231;&#227;o de tomar decis&#245;es conscientes sobre o que protegemos e por qu&#234;.</p><blockquote><p style="text-align: justify;">A ci&#234;ncia que publicamos hoje &#233; a base sobre a qual a pr&#243;xima gera&#231;&#227;o vai construir. Vale a pena perguntar se o que estamos construindo &#233; mais ou melhor.</p></blockquote><div><hr></div><p><strong>Slides da palestra <a href="https://files.cercomp.ufg.br/weby/up/1254/o/aula_biodiversidade_2026.pdf">aqui</a></strong></p><p><strong>Palestra no YouTube <a href="https://www.youtube.com/live/mLRKdpExQ5o">aqui</a></strong></p><div><hr></div><p><em>Ricardo Limongi &#233; Editor-Chefe da BAR &#8211; Brazilian Administration Review, professor associado da UFG/FACE, coordenador do <a href="https://hilab.face.ufg.br">HI-Lab</a>. </em></p><p><em><a href="https://www.instagram.com/limongi/">Instagram</a> | LinkedIN</em></p><div><hr></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/p/mais-nao-melhor-o-que-a-ia-esta-fazendo?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Share&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/p/mais-nao-melhor-o-que-a-ia-esta-fazendo?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Share</span></a></p><p><strong>Refer&#234;ncias</strong></p><p style="text-align: justify;">Gartenberg, C., Hasan, S., Murray, A. &amp; Pierce, L. (2026). More versus better: Artificial intelligence, incentives, and the emerging crisis in peer review. <em>Organization Science</em>. <a href="https://doi.org/10.1287/orsc.2026.ed.v37.n3">https://doi.org/10.1287/orsc.2026.ed.v37.n3</a></p><p style="text-align: justify;">Hao, Q., Xu, F., Li, Y. &amp; Evans, J. (2026). Artificial intelligence tools expand scientists&#8217; impact but contract science&#8217;s focus. <em>Nature</em>, 649, 1237&#8211;1243. <a href="https://doi.org/10.1038/s41586-025-09922-y">https://doi.org/10.1038/s41586-025-09922-y</a></p><p style="text-align: justify;">Limongi, R. (2026). Beyond regulation: How AI reshapes what we write, how we review, and why it matters for Business Administration. <em>BAR &#8211; Brazilian Administration Review</em>, 23(1), e260056. <a href="https://doi.org/10.1590/1807-7692bar2026260056">https://doi.org/10.1590/1807-7692bar2026260056</a></p><p style="text-align: justify;">Stokel-Walker, C. (2026). Scientists invented a fake disease. AI told people it was real. <em>Nature</em>, 652, 559&#8211;561. <a href="https://doi.org/10.1038/d41586-026-01100-y">https://doi.org/10.1038/d41586-026-01100-y</a></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Voltei de Maceió com uma tese: adoção não é inovação]]></title><description><![CDATA[Notas da palestra magna no XVI PROSPECT&I sobre o paradoxo brasileiro da IA e por que o Brasil precisa parar de medir ado&#231;&#227;o e come&#231;ar a medir inven&#231;&#227;o.]]></description><link>https://ricardolimongi.substack.com/p/voltei-de-maceio-com-uma-tese-adocao</link><guid isPermaLink="false">https://ricardolimongi.substack.com/p/voltei-de-maceio-com-uma-tese-adocao</guid><dc:creator><![CDATA[Ricardo Limongi]]></dc:creator><pubDate>Thu, 14 May 2026 22:27:56 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!jvB8!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8e5d91c4-e199-4d7e-9e7c-81525f8e9a07_1320x1136.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Voltei hoje de Macei&#243;, onde tive a honra de proferir a palestra magna do <strong><a href="https://prospecti.com.br">XVI PROSPECT&amp;I e do X Congresso Internacional PROFNIT</a>, </strong>um encontro brasileiro dedicado &#224; Prospec&#231;&#227;o Tecnol&#243;gica, &#224; Propriedade Intelectual, &#224; Transfer&#234;ncia de Tecnologia e &#224; Inova&#231;&#227;o. O tema que abordei foi <em>Evolu&#231;&#227;o dos Modelos de Intelig&#234;ncia Artificial e o Impacto na Inova&#231;&#227;o</em>.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!jvB8!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8e5d91c4-e199-4d7e-9e7c-81525f8e9a07_1320x1136.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!jvB8!, /__u/ricardolimongi.substack.com/w_424, /__u/ricardolimongi.substack.com/c_limit, /__u/ricardolimongi.substack.com/f_webp, /__u/ricardolimongi.substack.com/q_auto:good, /__u/ricardolimongi.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8e5d91c4-e199-4d7e-9e7c-81525f8e9a07_1320x1136.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!jvB8!, 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xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p>Aceitei o convite por um motivo espec&#237;fico: o tema estava fora do que abordava nas palestras, at&#233; ent&#227;o. Minha pesquisa opera mais pr&#243;xima do consumo cognitivo da IA como comportamento, marketing, intelig&#234;ncia h&#237;brida na pesquisa cient&#237;fica. PIs, NITs e transfer&#234;ncia tecnol&#243;gica s&#227;o vizinhos que conhe&#231;o, mas que raramente me pedem para falar como protagonista. E foi exatamente essa dist&#226;ncia que me interessou.</p><p>Durante as semanas de prepara&#231;&#227;o da palestra, descobri algo desconfort&#225;vel: a primeira vers&#227;o do argumento que eu tinha em mente era &#8220;vamos ver o quanto o Brasil avan&#231;ou em IA&#8221;. Os dados me empurraram para o lado oposto. E foi isso que decidi defender em Macei&#243;. Compartilho aqui a tese que levei ao palco.</p><h3>A pergunta-paradoxo</h3><p>Comecei a palestra com quatro n&#250;meros.</p><p><strong>Cinquenta milh&#245;es.</strong> &#201; o n&#250;mero de brasileiros que j&#225; usam IA generativa, segundo a <a href="https://cetic.br/pt/tics/domicilios/2025/domicilios/">TIC Domic&#237;lios 2025</a> do CGI.br, divulgada em dezembro do ano passado. Trinta e dois por cento dos usu&#225;rios de internet do pa&#237;s. &#201; o salto tecnol&#243;gico mais r&#225;pido da hist&#243;ria do Brasil, mais veloz do que a ado&#231;&#227;o do PC, da internet ou do celular.</p><p><strong>Mais cento e quarenta e oito por cento.</strong> &#201; o crescimento da ado&#231;&#227;o de IA pela ind&#250;stria brasileira entre 2022 e 2024, segundo a PINTEC Semestral do IBGE. De 16,9% para 41,9%, o maior salto entre todas as tecnologias avan&#231;adas medidas. Oito em cada dez bancos brasileiros j&#225; incorporaram IA generativa.</p><p><strong>Tr&#234;s por cento.</strong> &#201; a taxa de concess&#227;o de patentes em IA pelo INPI entre 2019 e 2024. Foram depositados 264 pedidos. Oito foram concedidos. No relat&#243;rio global da OMPI sobre IA generativa, que cataloga 54 mil inven&#231;&#245;es no mundo entre 2014 e 2023, o Brasil n&#227;o aparece entre os inventores l&#237;deres.</p><p><strong>Trig&#233;simo.</strong> &#201; a posi&#231;&#227;o do Brasil no <a href="https://www.tortoisemedia.com/2024/09/18/the-global-artificial-intelligence-index-2024">Tortoise Global AI Index 2024</a>, entre os 83 pa&#237;ses avaliados. </p><p>E a pergunta que organizei a palestra inteira para responder: </p><div class="pullquote"><p><em>Como pode um pa&#237;s que adotou a IA na mesma velocidade com que a adotamos <br>produzir t&#227;o pouca inova&#231;&#227;o patente&#225;vel em IA?</em> </p></div><p>Como pode a quinta maior popula&#231;&#227;o do planeta, a nona maior economia, um pa&#237;s com matriz energ&#233;tica 88% renov&#225;vel, com mais de 6 mil publica&#231;&#245;es em IA num quinqu&#234;nio e R$ 23 bilh&#245;es comprometidos no Plano Brasileiro de IA, estar simultaneamente entre os maiores adotantes e entre os menores inovadores?</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><h3>Minha tese: ado&#231;&#227;o n&#227;o &#233; inova&#231;&#227;o</h3><p>A resposta que defendi &#233; que estamos medindo a coisa errada.</p><p>Ado&#231;&#227;o n&#227;o &#233; inova&#231;&#227;o. Efici&#234;ncia n&#227;o &#233; inven&#231;&#227;o. E enquanto n&#227;o entendermos a diferen&#231;a, o Brasil seguir&#225; campe&#227;o na ado&#231;&#227;o e coadjuvante na inven&#231;&#227;o.</p><p>A maior parte da ado&#231;&#227;o brasileira de IA est&#225; num n&#237;vel espec&#237;fico, que chamei de <em>&#8220;IA como ferramenta&#8221;</em>. Chatbots que atendem clientes. Classificadores que detectam fraude. Otimizadores de manuten&#231;&#227;o. RPA com uma camada de LLM por cima. Tudo captura efici&#234;ncia, e efici&#234;ncia importa. Por&#233;m, efici&#234;ncia &#233; fazer melhor o que j&#225; se fazia. N&#227;o &#233; o que produz patentes, ativos transfer&#237;veis, novos modelos de neg&#243;cio, fronteira tecnol&#243;gica.</p><p>Foi aqui que minha leitura do problema mudou durante a prepara&#231;&#227;o da palestra. Eu vinha pensando que a discuss&#227;o sobre IA no Brasil girava em torno da velocidade: quem adota antes, quem adota melhor. Os dados me levaram a perceber que o eixo correto n&#227;o &#233; a velocidade, e sim a natureza. A maior parte do que medimos como &#8220;ado&#231;&#227;o de IA&#8221; n&#227;o diz respeito &#224; inven&#231;&#227;o. Toca a opera&#231;&#227;o.</p><p>O salto real dos modelos de linguagem de grande porte (LLMs), a partir de novembro de 2022, foi qualitativamente diferente. </p><div class="pullquote"><p>Pela primeira vez, uma m&#225;quina passou a operar com flu&#234;ncia na mesma mat&#233;ria-prima do pensamento humano: linguagem, racioc&#237;nio, abstra&#231;&#227;o, gera&#231;&#227;o. </p></div><p>N&#227;o &#233; mais sobre delegar tarefas operacionais. &#201; compartilhar tarefas cognitivas. E isso altera a natureza da colabora&#231;&#227;o poss&#237;vel entre o humano e a m&#225;quina.</p><p>&#201; o que estudamos no <strong><a href="https://hilab.face.ufg.br">HI-Lab, o Hybrid Intelligence Laboratory da UFG</a></strong>. Intelig&#234;ncia h&#237;brida ocorre quando o humano e a IA produzem, juntos, algo que nenhum dos dois produziria sozinho. Esse &#8220;juntos&#8221; &#233; onde mora a inova&#231;&#227;o. E &#233; o que falta no Brasil hoje, em escala.</p><p>Os casos brasileiros que funcionam, e mencionei dois na palestra, t&#234;m em comum exatamente isso. A <strong><a href="https://www.maritaca.ai">Maritaca AI</a>, </strong>por exemplo,<strong> </strong>spin-off da Unicamp, treinou os modelos Sabi&#225; em portugu&#234;s brasileiro, com desempenho compar&#225;vel ao do GPT-4 em exames nacionais. &#201; intelig&#234;ncia h&#237;brida acad&#234;mica: pesquisadores brasileiros, conhecimento em nosso idioma, infraestrutura computacional internacional, resultado que nenhum dos atores produziria isoladamente. O <strong><a href="https://akcit.ufg.br">CEIA-UFG/AKCIT</a></strong> &#233; intelig&#234;ncia h&#237;brida institucional: ICT, empresas, governo, pesquisa e forma&#231;&#227;o no mesmo arranjo, com IA como infraestrutura compartilhada.</p><p>A combina&#231;&#227;o &#233; o que produz inven&#231;&#227;o. A combina&#231;&#227;o &#233; o que falta no Brasil.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Share Ricardo Limongi&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Share Ricardo Limongi</span></a></p><h3>A produ&#231;&#227;o do conhecimento como primeiro territ&#243;rio da transforma&#231;&#227;o</h3><p>H&#225; um lugar espec&#237;fico onde essa transforma&#231;&#227;o est&#225; mais avan&#231;ada e &#233; especialmente importante para quem trabalha com PI, TT e Inova&#231;&#227;o. Esse lugar &#233; a produ&#231;&#227;o cient&#237;fica.</p><p>A ci&#234;ncia foi o primeiro campo em que a IA generativa encontrou ampla ado&#231;&#227;o. Pesquisadores adotaram ChatGPT antes de quase qualquer outro setor profissional. As grandes editoras &#8212; Elsevier, Wiley e Nature &#8212; relatam saltos no uso desde 2023. A ci&#234;ncia &#233; tamb&#233;m o terreno mais regulado em termos de autoria, integridade e atribui&#231;&#227;o: existem normas COPE, pol&#237;ticas editoriais, peer review, ORCID, cita&#231;&#245;es. Se a transforma&#231;&#227;o aparece aqui, aparece em qualquer lugar. E a ci&#234;ncia &#233;, no fim, o insumo bruto de toda inova&#231;&#227;o. Sem produ&#231;&#227;o de conhecimento confi&#225;vel, n&#227;o h&#225; prospec&#231;&#227;o robusta, fundamenta&#231;&#227;o para patentes nem base cient&#237;fica para licenciamento.</p><blockquote><p>O dilema n&#227;o &#233; &#8220;usar ou n&#227;o usar IA na ci&#234;ncia&#8221;. Essa pergunta j&#225; est&#225; respondida pelo comportamento. A pergunta real &#233; como usar de modo que o conhecimento produzido continue sendo verific&#225;vel, atribu&#237;vel, replic&#225;vel e defens&#225;vel. &#201; um problema metodol&#243;gico, n&#227;o moral.</p></blockquote><p>A postura que defendo e venho repetindo nos &#250;ltimos meses cabe numa frase: <em><strong>Science First, AI Later</strong></em><strong>.</strong> A IA &#233; uma parceira cognitiva, n&#227;o uma substituta do m&#233;todo. Primeiro a pergunta cient&#237;fica, depois a IA. Primeiro o crit&#233;rio metodol&#243;gico, depois a ferramenta. Primeiro a responsabilidade autoral, depois a assist&#234;ncia computacional. N&#227;o &#233; resist&#234;ncia &#224; tecnologia; &#233; exig&#234;ncia de m&#233;todo.</p><p>H&#225; uma camada filos&#243;fica desse argumento sobre o que acontece com a autoria, a responsabilidade e a titularidade quando a contribui&#231;&#227;o da m&#225;quina se torna invis&#237;vel, que explorei em outro texto sobre o <a href="https://blog.scielo.org/blog/2026/02/06/o-anel-de-giges-e-a-ia-na-ciencia-quando-a-invisibilidade-desafia-a-integridade/">Anel de Giges</a>. Para o p&#250;blico de PI/TT que ouviu a palestra, as tr&#234;s perguntas t&#234;m peso jur&#237;dico, n&#227;o apenas filos&#243;fico: autoria importa para a integridade cient&#237;fica; responsabilidade importa para a confiabilidade da prospec&#231;&#227;o; titularidade importa para a propriedade intelectual.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><h3>Agenda pr&#225;tica para os quatro eixos do PROFNIT</h3><p>Da tese derivam quatro frentes concretas, uma para cada pilar do Congresso.</p><p><em>Em prospec&#231;&#227;o tecnol&#243;gica,</em> a IA generativa n&#227;o mudou se fazemos prospec&#231;&#227;o. Mudou quanto custa. Mapeamentos antes feitos ao longo de meses agora se concentram em dias. Isso desvaloriza a prospec&#231;&#227;o como produto final e a revaloriza como m&#233;todo. NITs e pesquisadores precisam fazer o salto para a prospec&#231;&#227;o h&#237;brida, com crit&#233;rio, governan&#231;a e auditoria, antes que o trabalho se torne uma commodity.</p><p><em>Em propriedade intelectual,</em> h&#225; tr&#234;s frentes simult&#226;neas e nenhuma delas resolvida no Brasil: a patenteabilidade de inven&#231;&#245;es assistidas por IA (cujas diretrizes do <a href="https://www.gov.br/inpi/pt-br/central-de-conteudo/noticias/inpi-abre-consulta-publica-sobre-patente-em-inteligencia-artificial">INPI</a> est&#227;o em consulta p&#250;blica desde agosto de 2025 e ainda n&#227;o foram publicadas); a autoria de obras geradas por IA (o PL 2338, aprovado no Senado em dezembro de 2024, teve a vota&#231;&#227;o adiada na C&#226;mara, enquanto o <a href="https://artificialintelligenceact.eu">EU AI Act</a> entra em vigor em agosto de 2026); e a prote&#231;&#227;o jur&#237;dica de datasets e modelos, cuja classifica&#231;&#227;o no direito brasileiro ainda &#233; confusa. Essa &#233;, na minha leitura, a agenda mais urgente que o PROFNIT pode pautar.</p><p><em>Na transfer&#234;ncia de tecnologia,</em> a IA rompe com a l&#243;gica cl&#225;ssica do licenciamento em tr&#234;s pontos. O ativo n&#227;o &#233; mais est&#225;tico; um modelo treinado em 2024 n&#227;o &#233; o mesmo em 2026. O ativo depende de dados de infer&#234;ncia permanentes, que exigem um fornecedor respons&#225;vel. E o ativo carrega responsabilidades regulat&#243;rias que se transferem com a licen&#231;a. O FORTEC, na minha vis&#227;o, poderia liderar uma revis&#227;o dos protocolos de licenciamento de tecnologias baseadas em IA.</p><p><em>Em inova&#231;&#227;o,</em> o Brasil tem o que falta a muitos pa&#237;ses. Tem talento, energia limpa, demanda interna, centros maduros, casos de sucesso. O que falta? Orquestra&#231;&#227;o entre essas pe&#231;as. Marco regulat&#243;rio operacional. Cultura de PI em IA nas ICTs. Capital privado em escala, <a href="https://valor.globo.com/empresas/noticia/2026/03/31/inteligencia-artificial-impulsiona-alta-de-185percent-nos-investimentos-em-tecnologia-no-brasil.ghtml">US$ 4,5 bilh&#245;es em VC brasileiro total em 2025</a>, comparados a US$ 285 bilh&#245;es s&#243; em IA nos Estados Unidos no mesmo ano. Falta, no fim, a decis&#227;o do Estado e do capital de apostar.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><h3>Tr&#234;s compromissos</h3><p>Fechei a palestra propondo tr&#234;s compromissos &#224; comunidade do PROFNIT.</p><p><em>Primeiro: rigor metodol&#243;gico no uso de IA na produ&#231;&#227;o cient&#237;fica.</em> Nem proibi&#231;&#227;o, nem permissividade. Crit&#233;rio. A pergunta cient&#237;fica vem antes da ferramenta.</p><p><em>Segundo: pautar as institui&#231;&#245;es.</em> As diretrizes do INPI precisam ser publicadas. O PL 2338 precisa ser votado. Os NITs precisam de protocolos atualizados para licenciamento de IA. O Congresso &#233; o f&#243;rum em que essa press&#227;o se articula com legitimidade t&#233;cnica.</p><p><em>Terceiro: investir em intelig&#234;ncia h&#237;brida real, n&#227;o em IA cosm&#233;tica.</em> Os casos brasileiros que funcionam combinam o humano, a m&#225;quina e a institui&#231;&#227;o. N&#227;o &#233; a IA que produz inova&#231;&#227;o. &#201; a combina&#231;&#227;o.</p><div class="pullquote"><p>Em uma frase: falta menos tecnologia. Falta mais combina&#231;&#227;o.</p></div><p>Agrade&#231;o ao PROSPECT&amp;I e ao PROFNIT pelo convite, e a quem esteve no audit&#243;rio, pela aten&#231;&#227;o. Os slides da palestra est&#227;o dispon&#237;veis <strong><a href="https://files.cercomp.ufg.br/weby/up/1254/o/slides_palestra.pdf">aqui</a></strong> para quem quiser revisitar a argumenta&#231;&#227;o com os dados detalhados.</p><p>Se algum desses pontos ressoa com algo que voc&#234; anda pensando em ci&#234;ncia, em pol&#237;tica de inova&#231;&#227;o ou em estrat&#233;gia de IA na sua organiza&#231;&#227;o, bora conversar. </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Voltando do GT da CAPES: o que aprendi sobre IA na pesquisa científica]]></title><description><![CDATA[Cinco pilares, cinco espa&#231;os e uma sensa&#231;&#227;o de que estamos exatamente no ponto certo da curva.]]></description><link>https://ricardolimongi.substack.com/p/voltando-do-gt-da-capes-o-que-aprendi</link><guid isPermaLink="false">https://ricardolimongi.substack.com/p/voltando-do-gt-da-capes-o-que-aprendi</guid><dc:creator><![CDATA[Ricardo Limongi]]></dc:creator><pubDate>Mon, 11 May 2026 15:39:47 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Q6Ya!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fcf66999a-8b28-4e75-bb9d-f827d214c24d_1320x1320.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Recebi o convite para participar de um Grupo de Trabalho da CAPES sobre Intelig&#234;ncia Artificial h&#225; algumas semanas e, confesso, a primeira rea&#231;&#227;o foi de ansiedade boa daquelas que d&#227;o antes de uma apresenta&#231;&#227;o importante. Ia estar na sala com algumas das principais autoridades do &#243;rg&#227;o. Tive que decidir o que levaria &#224; mesa.</p><p style="text-align: justify;">Decidi levar evid&#234;ncia. E foi essa decis&#227;o que deu origem a este texto.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p style="text-align: justify;">Antes de entrar no que apresentei, um dado que me parou ao come&#231;ar a pesquisa: um estudo cienciom&#233;trico recente mostrou que apenas 28% dos peri&#243;dicos brasileiros classificados como Qualis A4 ou superior na &#225;rea da sa&#250;de t&#234;m diretrizes detalhadas sobre uso de IA. Em Ci&#234;ncia da Informa&#231;&#227;o, o n&#250;mero cai para 12%, tr&#234;s de cada vinte e cinco revistas no estrato A/B1. Isso em um momento em que o CNPq acaba de publicar uma portaria robusta sobre integridade na pesquisa cient&#237;fica, e em que a Europa, os Estados Unidos e a Austr&#225;lia j&#225; consolidaram arquiteturas regulat&#243;rias completas sobre o tema.</p><div class="pullquote"><p style="text-align: justify;">A pergunta que carreguei para o GT e que levo para este texto &#233; simples: o que esse contraste nos diz sobre o lugar do Brasil agora?</p></div><p style="text-align: justify;"><strong>Onde estamos</strong></p><p style="text-align: justify;">A <a href="http://memoria2.cnpq.br/web/guest/view/-/journal_content/56_INSTANCE_0oED/10157/23142775">Portaria CNPq n&#186; 2.664</a>, publicada em mar&#231;o deste ano, &#233; um marco. Estabelece a Pol&#237;tica de Integridade na Atividade Cient&#237;fica em quatro eixos (educa&#231;&#227;o, preven&#231;&#227;o, apura&#231;&#227;o e san&#231;&#227;o) e dedica seu Artigo 9&#186; ao uso de IA generativa. Os pontos s&#227;o claros e est&#227;o alinhados ao que o mundo j&#225; consolidou: declara&#231;&#227;o obrigat&#243;ria de uso em qualquer fase da pesquisa, veda&#231;&#227;o de autoria por IA, responsabiliza&#231;&#227;o integral dos autores, proibi&#231;&#227;o de inserir projetos de terceiros em ferramentas de IAG para a elabora&#231;&#227;o de pareceres e san&#231;&#245;es graduais que v&#227;o da advert&#234;ncia &#224; suspens&#227;o do Curr&#237;culo Lattes.</p><blockquote><p style="text-align: justify;">&#201; um piso &#233;tico s&#243;lido. E &#233; nosso.</p></blockquote><p style="text-align: justify;">Mas o CNPq garante a integridade na atividade cient&#237;fica. O que acontece dentro das institui&#231;&#245;es de p&#243;s-gradua&#231;&#227;o &#8212; o ensino, a orienta&#231;&#227;o, a avalia&#231;&#227;o de programas &#8212; fica em outro territ&#243;rio. E &#233; esse territ&#243;rio, em grande medida, que pertence &#224; CAPES.</p><p style="text-align: justify;">Da&#237; o GT. E da&#237; a import&#226;ncia de olhar com cuidado para o que se consolidou internacionalmente.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/p/voltando-do-gt-da-capes-o-que-aprendi?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Share&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/p/voltando-do-gt-da-capes-o-que-aprendi?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Share</span></a></p><p style="text-align: justify;"><strong>Os cinco pilares de consenso</strong></p><p style="text-align: justify;">Quando mapeei documentos internacionais publicados entre 2023 e 2026, identifiquei mais de quarenta refer&#234;ncias, incluindo regulamenta&#231;&#245;es, declara&#231;&#245;es de associa&#231;&#245;es cient&#237;ficas, pol&#237;ticas editoriais e frameworks acad&#234;micos, o que evidencia uma converg&#234;ncia impressionante em torno de cinco pilares.</p><p style="text-align: justify;"><strong>O primeiro &#233; letramento em IA como obriga&#231;&#227;o institucional.</strong> N&#227;o como exorta&#231;&#227;o moral. Como obriga&#231;&#227;o. O Artigo 4 do AI Act europeu, em vigor desde fevereiro de 2025, transforma isso em lei: provedores e usu&#225;rios de sistemas de IA, incluindo universidades, precisam assegurar um n&#237;vel adequado de letramento para discentes e docentes. Russell Group, Go8 australiano e a UNESCO colocam isso como o primeiro princ&#237;pio em todos os seus documentos. O recado &#233; o mesmo em todos os lugares: capacita&#231;&#227;o n&#227;o pode ser delegada ao esfor&#231;o individual de docentes interessados. &#201; responsabilidade institucional e ponto.</p><p style="text-align: justify;"><strong>O segundo &#233; a transpar&#234;ncia e a declara&#231;&#227;o de uso.</strong> Em qualquer fase da pesquisa. CNPq, ERA Living Guidelines da Comiss&#227;o Europeia, COPE, ICMJE, NSF e as principais editoras convergem. A l&#243;gica &#233; simples: o leitor tem direito de saber. O revisor tem direito de saber. O sistema tem o direito de saber.</p><p style="text-align: justify;"><strong>O terceiro &#233; autoria humana exclusiva.</strong> IA n&#227;o pode ser autora. Isso parece &#243;bvio hoje, mas h&#225; dois anos algumas pessoas defendiam que sim. COPE, WAME, ICMJE, Nature, Science, Cell, Elsevier, Wiley, CNPq convergiram. A raz&#227;o &#233; t&#233;cnica e filos&#243;fica ao mesmo tempo: a autoria implica responsabilidade, e a IA n&#227;o pode ser responsabilizada.</p><p style="text-align: justify;"><strong>O quarto &#233; accountability humana integral.</strong> Em qualquer cen&#225;rio &#8212; seja para pesquisa, para escrita ou para an&#225;lise de dados &#8212;, a responsabilidade pelo resultado &#233; dos autores. Sem exce&#231;&#227;o. Sem terceiriza&#231;&#227;o. &#201; o autor humano quem responde por alucina&#231;&#245;es, pl&#225;gios, imprecis&#245;es. A formula&#231;&#227;o aparece nos documentos que li, com varia&#231;&#245;es m&#237;nimas.</p><p style="text-align: justify;"><strong>O quinto &#233; a restri&#231;&#227;o &#224; revis&#227;o por pares.</strong> Esse foi o que mais me chamou a aten&#231;&#227;o. NIH, NSF e NEH nos Estados Unidos; ARC na Austr&#225;lia; Science, The Lancet e agora o CNPq vedam ou restringem fortemente o uso de IA generativa na peer review. A justificativa &#233; un&#226;nime: confidencialidade. Voc&#234; n&#227;o pode submeter um manuscrito em revis&#227;o a uma ferramenta de IA p&#250;blica, pois exp&#245;e o trabalho intelectual de terceiros antes da publica&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Esses cinco pilares n&#227;o s&#227;o teoria. Est&#227;o escritos em documentos vigentes, com for&#231;a regulat&#243;ria, em v&#225;rios pa&#237;ses. E a melhor not&#237;cia da minha pesquisa foi descobrir que a Portaria CNPq 2.664 j&#225; incorpora os cinco. N&#227;o somos retardat&#225;rios nesse eixo. Estamos alinhados.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p style="text-align: justify;"><strong>O paradoxo brasileiro</strong></p><p style="text-align: justify;">A hist&#243;ria fica mais interessante quando sa&#237;mos do CNPq e olhamos para o ecossistema mais amplo.</p><p style="text-align: justify;">Em pesquisa, temos uma portaria robusta e bem estruturada. Na comunica&#231;&#227;o cient&#237;fica, temos a SciELO, com um guia consolidado desde 2023, e a ABEC Brasil organizando pain&#233;is dedicados em seus encontros anuais, com cursos pr&#243;prios no Moodle e m&#243;dulos de IA na certifica&#231;&#227;o de editor cient&#237;fico. Em produ&#231;&#227;o doutrin&#225;ria, temos um livro escrito com os parceiros Sampaio e Sabbatini que serve de refer&#234;ncia pr&#225;tica</p><p style="text-align: justify;">Mas quando olhamos para o n&#237;vel institucional, para as universidades, encontramos um mosaico em forma&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">USP, Unicamp e Unesp s&#243; come&#231;aram a estruturar diretrizes formais em 2026. A USP firmou parceria com o Minist&#233;rio da Justi&#231;a para um guia nacional; a Unicamp tem um protocolo em discuss&#227;o no Conselho Universit&#225;rio; a Unesp criou um Instituto de Inova&#231;&#227;o em IA. A UFMG &#233; uma exce&#231;&#227;o: mant&#233;m uma Comiss&#227;o de Pol&#237;tica de IA desde novembro de 2023, com governan&#231;a participativa e escuta da comunidade. Outras federais t&#234;m laborat&#243;rios e produ&#231;&#227;o (UFG, UFPR, UFPE), mas sem uma pol&#237;tica formal consolidada.</p><p style="text-align: justify;"><strong>A maioria das IES brasileiras ainda n&#227;o possui pol&#237;tica institucional de IA na p&#243;s-gradua&#231;&#227;o.</strong></p><p style="text-align: justify;">Isso n&#227;o &#233; falha. &#201; o ponto da curva em que estamos. E a CAPES, por sua vez, vem promovendo a chamada InovaEDUCA&#199;&#195;O, semin&#225;rios internos da DAV, treinamentos do Portal de Peri&#243;dicos, previs&#227;o no PDTIC 2025-2028, mas ainda n&#227;o emitiu uma portaria espec&#237;fica sobre IA na p&#243;s-gradua&#231;&#227;o avaliada. E &#233; exatamente nesse ponto da curva que o GT foi convocado.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Cinco espa&#231;os de oportunidade</strong></p><p style="text-align: justify;">Ao preparar a apresenta&#231;&#227;o, fui me convencendo de que o caminho mais produtivo era n&#227;o falar em obriga&#231;&#245;es, e sim em espa&#231;os de oportunidade. Para institui&#231;&#245;es que est&#227;o come&#231;ando ou aprimorando e, eventualmente, para a pr&#243;pria CAPES. Cinco deles me pareceram especialmente relevantes.</p><p style="text-align: justify;"><strong>O primeiro &#233; letramento sistem&#225;tico</strong>, docente e discente. NTU Singapura, por exemplo, articulou uma certifica&#231;&#227;o conjunta com a Singapore Computer Society, uma universidade e uma associa&#231;&#227;o profissional, caminhando juntas. No Brasil, a ABEC j&#225; tem essa estrutura via Moodle, em opera&#231;&#227;o. A oportunidade &#243;bvia &#233; a articula&#231;&#227;o entre a CAPES, a ABEC e a SciELO para a escalada. N&#227;o precisamos construir do zero.</p><p style="text-align: justify;"><strong>O segundo &#233; uma carta de princ&#237;pios institucionais n&#227;o prescriptiva</strong>. O modelo Russell Group, no Reino Unido, &#233; exemplar: cinco princ&#237;pios curtos, escritos em uma p&#225;gina, n&#227;o prescritivos, mas politicamente vinculantes. Cada universidade contextualiza, mas todas se comprometem com o mesmo conjunto. O Go8 australiano adotou uma estrutura quase id&#234;ntica. No Brasil, a obra Intercom de 2024 j&#225; oferece, em portugu&#234;s, princ&#237;pios pr&#225;ticos por etapa de pesquisa, prontos para servir de base. Um documento curto, no esp&#237;rito dessas cartas, que respeitasse a autonomia universit&#225;ria, mas estabelecesse compromissos compartilhados, seria &#250;til.</p><p style="text-align: justify;"><strong>O terceiro &#233; a ado&#231;&#227;o de frameworks graduados para uso na avalia&#231;&#227;o</strong>. O melhor exemplo &#233; a AI Assessment Scale de Perkins, Furze, Roe e MacVaugh, lan&#231;ada em 2023 e revisada em 2024. S&#227;o cinco n&#237;veis graduados: de &#8220;no AI&#8221; (avalia&#231;&#227;o sem qualquer assist&#234;ncia) a &#8220;full AI&#8221; (uso amplo, declarado), passando por est&#225;gios intermedi&#225;rios como &#8220;planning&#8221; e &#8220;edit&#8221;. J&#225; est&#225; presente em mais de 350 institui&#231;&#245;es, em 30 idiomas. Em vez da decis&#227;o bin&#225;ria permite/n&#227;o permite, cada docente, cada disciplina, cada programa escolhem o n&#237;vel adequado ao objetivo de aprendizagem. Traduzir e adaptar oficialmente para o portugu&#234;s do Brasil seria um ganho substancial.</p><p style="text-align: justify;"><strong>O quarto &#233; destinado a TCCs, disserta&#231;&#245;es e teses</strong>. Aqui est&#225; a maior lacuna nacional. NTU Singapura tem um <em>Statement of Originality</em> obrigat&#243;rio em todas as teses, no qual o autor declara como usou a IA. &#201; um modelo elegante de transpar&#234;ncia sem ser punitivo. No Brasil, praticamente ausente nas universidades. Pensar em um padr&#227;o de declara&#231;&#227;o para programas de p&#243;s-gradua&#231;&#227;o avaliados n&#227;o como obriga&#231;&#227;o prescrita, mas como refer&#234;ncia para quem quiser adotar, abriria uma porta importante.</p><p style="text-align: justify;"><strong>O quinto talvez seja o mais espec&#237;fico, e que s&#243; a CAPES pode abordar: governan&#231;a em IA na revis&#227;o por pares.</strong> Toda a infraestrutura de avalia&#231;&#227;o da CAPES &#8212; Sucupira, comit&#234;s de &#225;rea &#8212; opera por revis&#227;o por pares. E aqui h&#225; forte converg&#234;ncia internacional, como mencionei: NIH, NSF, NEH e ARC vedam IA generativa no peer review por confidencialidade. O CNPq j&#225; incorporou parcialmente. Um movimento poss&#237;vel, e foi o que sugeri no GT, seria seguir o modelo TEQSA da Austr&#225;lia: antes de regulamentar, consultar as pr&#243;prias institui&#231;&#245;es sobre como operam. Gerar dado. Gerar aprendizado coletivo. Respeitar a diversidade do sistema.</p><p style="text-align: justify;">Em junho de 2024, o TEQSA fez um <em>Request for Information</em> a todos os 203 provedores de educa&#231;&#227;o superior australianos, solicitando um plano institucional sobre IA. Cem por cento responderam. Dos 203 planos, a ag&#234;ncia produziu dois toolkits p&#250;blicos, um para educa&#231;&#227;o superior em geral e outro para forma&#231;&#227;o em pesquisa, baseados em evid&#234;ncias emp&#237;ricas das pr&#243;prias institui&#231;&#245;es. &#201; um m&#233;todo que respeita a autonomia e gera uma pol&#237;tica p&#250;blica fundamentada. E &#233; diretamente operacionaliz&#225;vel pela Plataforma Sucupira.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/p/voltando-do-gt-da-capes-o-que-aprendi?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Share&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/p/voltando-do-gt-da-capes-o-que-aprendi?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Share</span></a></p><p style="text-align: justify;"><strong>O que ficou comigo</strong></p><p style="text-align: justify;">Sa&#237; do GT com tr&#234;s provoca&#231;&#245;es finais que gostaria de apresentar.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Primeiro: o eixo &#233;tico est&#225; estabilizado.</strong> N&#227;o precisamos inventar princ&#237;pios. Eles existem, est&#227;o escritos e a Portaria do CNPq j&#225; incorpora o consenso internacional. O debate agora n&#227;o &#233; mais sobre o que defender, mas sobre como operacionalizar institucionalmente, pedagogicamente, avaliativamente.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Segundo: a velocidade da tecnologia &#233; incompat&#237;vel com regula&#231;&#227;o tradicional.</strong> Da&#237; o formato &#8220;living guidelines&#8221; adotado pela Comiss&#227;o Europeia: documentos vivos, atualizados anualmente, com revis&#227;o t&#233;cnica programada. Talvez seja hora de pensarmos em formatos similares no Brasil: documentos com data de validade expl&#237;cita e ciclo de revis&#227;o definido.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Terceiro: h&#225; uma tens&#227;o real entre a detec&#231;&#227;o tecnol&#243;gica e a forma&#231;&#227;o &#233;tica.</strong> Detectores de IA produzem consistentemente falsos positivos. Criminalizar o uso &#233; um caminho que tende ao fracasso e ao ressentimento. O caminho mais sustent&#225;vel, e o que os documentos europeus e ingleses defendem com mais for&#231;a, &#233; redesenhar as avalia&#231;&#245;es: propor tarefas em que o uso ou n&#227;o uso de IA fica expl&#237;cito, em que a pergunta certa j&#225; existe antes do prompt. &#201; uma mudan&#231;a cultural mais profunda do que uma regulat&#243;ria.</p><p style="text-align: justify;">Termino o texto, como terminei a fala no GT, sem recomenda&#231;&#245;es. Com perguntas.</p><p style="text-align: justify;">Em que escala faz sentido um piso comum de letramento em IA na p&#243;s-gradua&#231;&#227;o brasileira? Vale um documento curto, no modelo Russell Group, complementar ao que o CNPq j&#225; fez? Como traduzir o m&#233;todo TEQSA, utilizado antes da regulamenta&#231;&#227;o, para a realidade da Plataforma Sucupira? Qual &#233; o papel da CAPES em articular o ecossistema editorial brasileiro (SciELO + ABEC) para alinhar diretrizes? E talvez a mais delicada: como pensar diretrizes para TCC, disserta&#231;&#245;es e teses sem ferir a autonomia dos programas?</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o tenho respostas fechadas. Tenho a sensa&#231;&#227;o, depois desse mergulho, de que estamos exatamente no ponto da curva em que essas perguntas precisam ser feitas. N&#227;o por atraso nem por urg&#234;ncia tecnol&#243;gica, mas pela maturidade do debate.</p><p style="text-align: justify;">Se voc&#234; tiver alguma opini&#227;o sobre alguma delas, escreva para mim. Pensando junto, esse tipo de discuss&#227;o avan&#231;a.</p><h2>Para quem quiser ir mais fundo</h2><p><strong>Documentos brasileiros</strong></p><ul><li><p><a href="https://www.gov.br/cnpq/pt-br/assuntos/noticias/cnpq-em-acao/cnpq-publica-portaria-que-institui-politica-de-integridade-na-atividade-cientifica">Portaria CNPq n&#186; 2.664/2026 &#8212; Pol&#237;tica de Integridade na Atividade Cient&#237;fica</a> (GOV.BR &#8212; comunicado oficial)</p></li><li><p><a href="https://wp.scielo.org/wp-content/uploads/Guia-de-uso-de-ferramentas-e-recursos-de-IA-20230914.pdf">Guia de uso de ferramentas e recursos de IA na comunica&#231;&#227;o de pesquisas na Rede SciELO</a> (SciELO, 2023)</p></li><li><p><a href="https://www.portcom.intercom.org.br/ebooks/detalheEbook.php?id=57203">Diretrizes para o uso &#233;tico e respons&#225;vel da Intelig&#234;ncia Artificial Generativa: um guia pr&#225;tico para pesquisadores</a>&#8212; Sampaio, Sabbatini e Limongi (Intercom, 2024)</p></li></ul><p><strong>Documentos internacionais</strong></p><ul><li><p><a href="https://www.euaiact.com/article/4">EU AI Act &#8212; Artigo 4: AI Literacy</a> (em vigor desde 02/02/2025)</p></li><li><p><a href="https://research-and-innovation.ec.europa.eu/research-area/industrial-research-and-innovation/artificial-intelligence-ai-science_en">ERA Living Guidelines on the Responsible Use of Generative AI in Research</a> &#8212; Comiss&#227;o Europeia</p></li><li><p><a href="https://www.russellgroup.ac.uk/policy/policy-briefings/principles-use-generative-ai-tools-education">Russell Group Principles on the Use of Generative AI Tools in Education</a> (Reino Unido, 2023)</p></li><li><p><a href="https://www.unesco.org/en/articles/guidance-generative-ai-education-and-research">UNESCO &#8212; Guidance for Generative AI in Education and Research</a></p></li><li><p><a href="https://www.teqsa.gov.au/guides-resources/resources/corporate-publications/gen-ai-strategies-australian-higher-education-emerging-practice">TEQSA &#8212; Gen AI strategies for Australian higher education: Emerging practice</a> (toolkit baseado em 203 planos institucionais)</p></li><li><p><a href="https://www.teqsa.gov.au/about-us/news-and-events/latest-news/gen-ai-strategies-research-training">TEQSA &#8212; Gen AI strategies for research training: Emerging practice</a> (toolkit complementar para forma&#231;&#227;o em pesquisa)</p></li><li><p><a href="https://grants.nih.gov/grants/guide/notice-files/NOT-OD-23-149.html">NIH &#8212; NOT-OD-23-149: Prohibition of Generative AI in Peer Review</a></p></li></ul><p><strong>Frameworks pedag&#243;gicos</strong></p><ul><li><p><a href="https://aiassessmentscale.com/">AI Assessment Scale (AIAS)</a> &#8212; Perkins, Furze, Roe e MacVaugh</p></li></ul><p></p><p>Clique <a href="https://files.cercomp.ufg.br/weby/up/1254/o/GT_CAPES_IA_Limongi.pdf">aqui</a> para acessar a apresenta&#231;&#227;o que usei.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A lacuna não está no resumos]]></title><description><![CDATA[H&#225; uma economia oculta na delega&#231;&#227;o da leitura e ela cobra no futuro o que parece ganho no presente]]></description><link>https://ricardolimongi.substack.com/p/a-lacuna-nao-esta-no-resumos</link><guid isPermaLink="false">https://ricardolimongi.substack.com/p/a-lacuna-nao-esta-no-resumos</guid><dc:creator><![CDATA[Ricardo Limongi]]></dc:creator><pubDate>Thu, 07 May 2026 22:52:09 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Q6Ya!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fcf66999a-8b28-4e75-bb9d-f827d214c24d_1320x1320.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Um pesquisador abre o ChatGPT e cola cinco resumos. Pede um resumo dos achados. Em segundos, recebe um texto limpo, articulado, &#250;til. Parece ganho de produtividade. Em alguns sentidos, &#233;.</p><p>Mas algo se perdeu nesse gesto. E o que se perdeu n&#227;o &#233; trivial.</p><p>Um estudo publicado em 2025 na Royal Society Open Science analisou quase cinco mil resumos cient&#237;ficos gerados por dez modelos de linguagem, entre eles ChatGPT-4o, Claude 3.7 Sonnet, DeepSeek e LLaMA 3.3. Os pesquisadores compararam os resumos aos textos originais, em busca de um padr&#227;o espec&#237;fico: a generaliza&#231;&#227;o indevida. Quando o modelo transforma uma conclus&#227;o restrita em uma afirma&#231;&#227;o mais ampla do que os autores originalmente fizeram.</p><p>O achado preocupa. A maior parte dos modelos testados generaliza al&#233;m do que o texto original permite. Em alguns casos, at&#233; 73% das vezes. Modelos mais novos, como o ChatGPT-4o e o LLaMA 3.3 70B, s&#227;o piores nisso do que as vers&#245;es anteriores. E quando os pesquisadores pediram explicitamente aos modelos que &#8220;n&#227;o introduzissem imprecis&#245;es&#8221;, a taxa de generaliza&#231;&#227;o indevida dobrou.</p><div class="pullquote"><p>Mas o ponto que mais me interessa n&#227;o &#233; estat&#237;stico. &#201; o tipo de erro que esses sistemas cometem.</p></div><p>Os autores identificam tr&#234;s transi&#231;&#245;es recorrentes. A primeira &#233; a passagem de uma generaliza&#231;&#227;o quantificada para uma generaliza&#231;&#227;o gen&#233;rica: o estudo dizia que &#8220;pacientes com diabetes tipo 2 que tomaram dulaglutida em doses de 0,75 ou 1,5 mg apresentaram melhora glic&#234;mica&#8221;; o resumo afirma que &#8220;dulaglutida &#233; eficaz e segura para jovens com diabetes tipo 2&#8221;. A segunda &#233; a transi&#231;&#227;o do passado para o presente, o que aconteceu no estudo vira o que acontece no mundo. A terceira &#233; a transi&#231;&#227;o do descritivo para o prescritivo; o resultado vira uma recomenda&#231;&#227;o.</p><p>Essas tr&#234;s transi&#231;&#245;es n&#227;o s&#227;o aleat&#243;rias. Elas apagam, em sequ&#234;ncia, exatamente o que torna um achado cient&#237;fico um achado cient&#237;fico: o contexto da amostra, a temporalidade do experimento, a dist&#226;ncia entre a evid&#234;ncia e a prescri&#231;&#227;o.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/p/a-lacuna-nao-esta-no-resumos?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Share&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/p/a-lacuna-nao-esta-no-resumos?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Share</span></a></p><p></p><p>E &#233; aqui que a quest&#227;o deixa de ser t&#233;cnica.</p><p>Quando terceirizamos a leitura &#224; IA, n&#227;o estamos apenas economizando tempo. Estamos abdicando do espa&#231;o em que o pensamento cient&#237;fico se forma. A lacuna de pesquisa, aquilo que ainda n&#227;o foi feito, aquilo que merece ser estudado, n&#227;o est&#225; no resumo. Est&#225; na fric&#231;&#227;o entre o leitor e o abstract. Est&#225; no gesto de notar um qualificador estranho, de sentir que uma generaliza&#231;&#227;o foi longe demais, de desconfiar da ponte entre o dado e a recomenda&#231;&#227;o.</p><p>O sum&#225;rio apagou exatamente esse material. Ele apresenta o que o estudo encontrou. N&#227;o entrega o que o estudo deixou em aberto.</p><p>Um ano depois do trabalho de Peters e Chin-Yee, um segundo estudo estendeu a evid&#234;ncia para outro lado da delega&#231;&#227;o. Pesquisadores da Microsoft Research publicaram, em 2026, o DELEGATE-52, um experimento com dezenove modelos de linguagem em cinquenta e dois dom&#237;nios profissionais, de codifica&#231;&#227;o a cristalografia, de partituras musicais a documentos cont&#225;beis. A pergunta deles era distinta da anterior. N&#227;o era sobre resumir. Era sobre o que acontece quando um pesquisador delega ao modelo uma sequ&#234;ncia de tarefas sobre um mesmo documento. Edi&#231;&#245;es, reorganiza&#231;&#245;es, convers&#245;es de formato.</p><p>O resultado segue a mesma l&#243;gica. Ap&#243;s vinte intera&#231;&#245;es, mesmo os modelos de fronteira, como Gemini 3.1 Pro, Claude 4.6 Opus, GPT-5.4, corrompem, em m&#233;dia, 25% do conte&#250;do original. Modelos menos capazes degradam em at&#233; 50% ou mais. E o ponto sens&#237;vel &#233; o car&#225;ter dessas falhas. Elas n&#227;o s&#227;o graduais. S&#227;o raras e severas. O documento parece preservado por v&#225;rias rodadas, at&#233; que uma &#250;nica intera&#231;&#227;o introduz uma distor&#231;&#227;o de dez, vinte ou trinta pontos de uma s&#243; vez. Os autores chamam isso de falha cr&#237;tica silenciosa. O usu&#225;rio n&#227;o percebe quando ela acontece.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Share Ricardo Limongi&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Share Ricardo Limongi</span></a></p><p>Os dois estudos, lidos juntos, desenham um padr&#227;o. Peters e Chin-Yee mostram que a distor&#231;&#227;o aparece j&#225; no ato isolado; um &#250;nico resumo j&#225; carrega uma generaliza&#231;&#227;o indevida. O DELEGATE-52 mostra que a distor&#231;&#227;o se acumula quando a delega&#231;&#227;o se repete. Um captura o erro pontual; o outro, o erro que comp&#245;e. Entre eles, um ano. E o problema n&#227;o diminuiu; se sofisticou.</p><p>H&#225; uma camada adicional nesses achados que merece aten&#231;&#227;o. O fato de pedir mais precis&#227;o piora o resultado. No estudo de Peters e Chin-Yee, isso mostra que n&#227;o estamos diante de uma falha que se resolve com um prompt melhor. N&#227;o &#233; falta de habilidade do usu&#225;rio. &#201; uma propriedade do sistema. Os autores levantam a hip&#243;tese de que o ajuste por feedback humano (RLHF) treinou os modelos para parecerem confiantes e amplamente aplic&#225;veis, em vez de cautelosos e espec&#237;ficos. A confian&#231;a vende. A nuance custa.</p><p>O DELEGATE-52 refor&#231;a essa leitura por outro caminho. Os pesquisadores testaram se o uso de ferramentas e ambientes ag&#234;nticos, com leitura, escrita e execu&#231;&#227;o de c&#243;digo, reduzia a degrada&#231;&#227;o. O resultado: piora. Os modelos apresentaram desempenho pior com ferramentas do que sem elas. A sofistica&#231;&#227;o do andaime n&#227;o compensa a fragilidade do gesto.</p><p>Isso significa que o problema n&#227;o &#233; resolv&#237;vel com letramento instrumental. Saber escrever um prompt elegante ou montar um pipeline ag&#234;ntico n&#227;o impede o modelo de generalizar nem de se corromper. O que impede &#233; outra coisa: voltar ao texto. Desconfiar do resumo. Manter o gesto da leitura como parte irredut&#237;vel da forma&#231;&#227;o cient&#237;fica.</p><p>N&#227;o estou propondo que abandonemos essas ferramentas. Eu mesmo as uso. Voc&#234;s as usam. Elas t&#234;m lugar na varredura ampla, no mapeamento inicial, na navega&#231;&#227;o por volumes que nenhuma vida acad&#234;mica daria conta de ler. O ponto &#233; outro. &#201; reconhecer que existe um momento, no trabalho de pesquisa, em que delegar a leitura &#233; delegar o pensamento. &#201; que esse momento chega mais cedo do que imaginamos.</p><div class="pullquote"><p>H&#225; uma economia oculta na delega&#231;&#227;o da leitura. Ganhamos tempo no presente, &#224; custa das perguntas que n&#227;o saberemos formular no futuro.</p></div><p>Os achados de Peters e Chin-Yee, somados aos do DELEGATE-52, n&#227;o constituem um argumento contra o uso da IA. &#201; um argumento contra o uso desatento dela. Contra a suposi&#231;&#227;o de que ler e ser informado s&#227;o a mesma coisa.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p></p><p>A lacuna de pesquisa n&#227;o aparece no resumo. Aparece quando o leitor desconfia do resumo.</p><p><strong>Refer&#234;ncias</strong></p><p><strong>Laban, P., Schnabel, T., &amp; Neville, J.</strong> (2026). LLMs corrupt your documents when you delegate. <em>arXiv preprint</em>arXiv:2604.15597. <a href="https://arxiv.org/abs/2604.15597">https://arxiv.org/abs/2604.15597</a></p><p><strong>Peters, U., &amp; Chin-Yee, B.</strong> (2025). Generalization bias in large language model summarization of scientific research. <em>Royal Society Open Science</em>, <em>12</em>(4), 241776. <a href="https://doi.org/10.1098/rsos.241776">https://doi.org/10.1098/rsos.241776</a></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Os humanos estão cansados]]></title><description><![CDATA[Tr&#234;s estudos recentes mostram que a IA est&#225; enchendo o sistema cient&#237;fico com mais artigos, n&#227;o melhores. E a conta est&#225; sendo paga por quem menos aparece nessa hist&#243;ria.]]></description><link>https://ricardolimongi.substack.com/p/os-humanos-estao-cansados</link><guid isPermaLink="false">https://ricardolimongi.substack.com/p/os-humanos-estao-cansados</guid><dc:creator><![CDATA[Ricardo Limongi]]></dc:creator><pubDate>Mon, 04 May 2026 14:31:09 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!mSs8!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa17317a9-c7a1-47ee-bc46-f739b6997ca8_895x841.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Em abril deste ano, a <em>Organization Science</em> publicou um relat&#243;rio que provavelmente se tornar&#225; uma refer&#234;ncia. N&#227;o &#233; um artigo sobre IA. &#201; a primeira auditoria interna que uma revista cient&#237;fica de alto impacto realizou sobre o pr&#243;prio pipeline editorial desde o surgimento do ChatGPT.</p><p>Os n&#250;meros s&#227;o duros. Submiss&#245;es cresceram 42% desde novembro de 2022. A revista precisou quase dobrar o corpo de editores s&#234;niores, de cerca de 30 para 60. Os deputy editors saltaram de seis para onze. Alguns processam mais de 250 manuscritos por ano.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p></p><p>A frase que encerra a abertura do relat&#243;rio &#233; direta: <em>&#8220;the humans are getting tired&#8221;</em>. Os humanos est&#227;o cansados.</p><p>N&#227;o &#233; met&#225;fora. &#201; descri&#231;&#227;o operacional.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!mSs8!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa17317a9-c7a1-47ee-bc46-f739b6997ca8_895x841.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!mSs8!, /__u/ricardolimongi.substack.com/w_424, /__u/ricardolimongi.substack.com/c_limit, /__u/ricardolimongi.substack.com/f_webp, /__u/ricardolimongi.substack.com/q_auto:good, /__u/ricardolimongi.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa17317a9-c7a1-47ee-bc46-f739b6997ca8_895x841.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!mSs8!, 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y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p>Poder&#237;amos argumentar que se trata de uma anedota de uma &#250;nica revista. Por&#233;m, dois outros estudos publicados em revistas de alt&#237;ssimo prest&#237;gio nos &#250;ltimos meses sugerem que n&#227;o.</p><p>Em dezembro de 2025, Kusumegi e colegas publicaram na <em>Science</em> uma an&#225;lise de 2,1 milh&#245;es de preprints e de 28 mil pareceres de revis&#227;o. Pesquisadores que adotaram modelos de linguagem aumentaram sua produ&#231;&#227;o entre 23,7% e 89,3%, dependendo da &#225;rea. Em agosto, Liang e colegas haviam publicado na <em>Nature Human Behaviour </em>uma an&#225;lise de mais de 1,1 milh&#227;o de artigos e preprints, na qual encontraram que at&#233; 22% dos artigos de ci&#234;ncia da computa&#231;&#227;o apresentavam modifica&#231;&#245;es detect&#225;veis por IA.</p><p>Tr&#234;s metodologias diferentes. Tr&#234;s bases de dados gigantescas. Um &#250;nico padr&#227;o.</p><blockquote><p>A IA chegou &#224; ci&#234;ncia com for&#231;a e vem produzindo cada vez <em>mais</em>. N&#227;o necessariamente <em>melhor</em>.</p></blockquote><p>Aqui est&#225; o achado mais perturbador e o menos comentado em portugu&#234;s.</p><p>Por d&#233;cadas, a prosa elaborada foi um sinal imperfeito, mas funcional de rigor intelectual. Frases mais complexas, vocabul&#225;rio mais t&#233;cnico, articula&#231;&#227;o mais densa: tudo isso era uma proxy do esfor&#231;o cognitivo investido. Pareceristas e editores liam com flu&#234;ncia como ind&#237;cio de profundidade. <strong>A IA quebrou esse sinal.</strong></p><p>Kusumegi e colegas mostram, com dados, que a rela&#231;&#227;o hist&#243;rica entre a complexidade lingu&#237;stica e a qualidade cient&#237;fica se inverteu. Hoje, prosa muito polida pode indicar terceiriza&#231;&#227;o da escrita, n&#227;o rigor. E o estudo da <em>Organization Science </em>confirma: manuscritos com mais de 30% de IA detectada t&#234;m &#237;ndice de legibilidade de Flesch 1,28 desvios-padr&#227;o abaixo da m&#233;dia hist&#243;rica. S&#227;o textos mais dif&#237;ceis de ler, com mais nominaliza&#231;&#245;es, mais jarg&#227;o, mais subordina&#231;&#227;o.</p><blockquote><p>Mais sofisticados na superf&#237;cie. Mais opacos no fundo.</p></blockquote><p><a href="/__u/diogocortiz.substack.com/">Diogo Cortiz</a> tem escrito h&#225; tempos sobre como modelos de linguagem produzem flu&#234;ncia sem necessariamente produzir entendimento. Aqui temos uma vers&#227;o sist&#234;mica desse argumento: o campo cient&#237;fico vinha usando o sintoma da flu&#234;ncia como atalho para inferir sobre o processo de racioc&#237;nio. A IA tornou esse atalho n&#227;o confi&#225;vel.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p>Avaliadores est&#227;o lendo manuscritos com proxies que n&#227;o funcionam mais. E ainda n&#227;o sabemos por quais proxies substituir.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!_r3r!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F268eddf3-004a-42e9-a90b-538beaa797b9_1788x1180.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!_r3r!, /__u/ricardolimongi.substack.com/w_424, /__u/ricardolimongi.substack.com/c_limit, /__u/ricardolimongi.substack.com/f_webp, /__u/ricardolimongi.substack.com/q_auto:good, /__u/ricardolimongi.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F268eddf3-004a-42e9-a90b-538beaa797b9_1788x1180.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!_r3r!, /__u/ricardolimongi.substack.com/w_848, 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ponto mais importante que quero sublinhar, contudo, &#233; outro.</p><div class="pullquote"><p>A IA n&#227;o criou a crise do peer review. Apenas a acelerou.</p></div><p>Antes do ChatGPT, editores de revistas cient&#237;ficas j&#225; enviavam dezenas de convites para obter dois pareceres. Em um relato publicado na <em>Cureus</em> em 2025, editores de Springer Nature, Frontiers e Wiley relatam ter precisado enviar at&#233; 35 convites para obter dois pareceristas para um &#250;nico manuscrito. Em ci&#234;ncias biom&#233;dicas, estima-se que 20% dos pesquisadores ativos respondam por 90% das revis&#245;es.</p><p>O sistema j&#225; estava no limite.</p><p>Quando 42% a mais de submiss&#245;es batem &#224; porta e uma parte significativa delas vem com qualidade duvidosa porque foi escrita por IA sem revis&#227;o humana real, o que ocorre? N&#227;o &#233; colapso vis&#237;vel. &#201; sobrecarga absorvida silenciosamente por meio de trabalho volunt&#225;rio n&#227;o remunerado.</p><p>A <em>Organization Science</em> melhorou seu corpo editorial. Outras revistas far&#227;o o mesmo ou simplesmente ver&#227;o o tempo de revis&#227;o se estender, a qualidade dos pareceres cair e os pareceristas mais experientes se afastarem. O custo da IA na ci&#234;ncia n&#227;o est&#225; sendo cobrado dos autores. Est&#225; aparecendo no tempo n&#227;o remunerado de quem segura o filtro.</p><p>E aqui chegamos ao ponto em que o pesquisador brasileiro precisa parar para pensar.</p><p>A <em>Organization Science </em>mostra que equipes de institui&#231;&#245;es n&#227;o angl&#243;fonas usam IA de forma mais intensiva. Faz sentido. A barreira do ingl&#234;s &#233; real, e a IA &#233; uma ferramenta evidente para suaviz&#225;-la.</p><p>Mas o estudo aponta algo desconfort&#225;vel: o uso de IA n&#227;o compensa a lacuna. A intera&#231;&#227;o estat&#237;stica entre o uso de IA e a origem n&#227;o angl&#243;fona &#233; praticamente nula nas decis&#245;es editoriais. O pesquisador n&#227;o-nativo submete mais, com ajuda de IA, e &#233; desk-rejected na mesma propor&#231;&#227;o aproximada.</p><p>Aqui &#233; onde o achado de Kusumegi entra em tens&#227;o com o de Gartenberg. Kusumegi sugere que LLMs reduzem as barreiras &#224; produ&#231;&#227;o para n&#227;o-nativos. Gartenberg sugere que essa redu&#231;&#227;o n&#227;o se traduz em sucesso editorial. Os dois podem estar corretos ao mesmo tempo: o pesquisador n&#227;o-nativo produz mais, mas n&#227;o publica mais. Submete mais. &#201; rejeitado mais.</p><p>Adicione a esse retrato um achado de Paul Sebo, publicado em 2024 no <em>JMIR</em>. An&#225;lise de 291 pareceres em revistas m&#233;dicas de alto impacto: artigos de autores da Am&#233;rica Latina, da &#193;frica e do Oriente M&#233;dio recebem pareceres com tom significativamente menos cordial e mais negativo do que os de autores da Am&#233;rica do Norte e da Europa. Score de cordialidade de 43,5 contra 65 a 67. N&#227;o &#233; margem de erro. &#201; padr&#227;o.</p><p>Junte tudo.</p><p>O pesquisador brasileiro est&#225; sob press&#227;o crescente para publicar um sistema que conta artigos em revistas, financia bolsas por produtividade e premia o volume mais do que a profundidade. Recorre &#224; IA porque a barreira do ingl&#234;s &#233; cara e o tempo &#233; curto. N&#227;o obt&#233;m o benef&#237;cio esperado nas decis&#245;es editoriais. Quando atua como parecerista volunt&#225;rio, absorve o dil&#250;vio decorrente da mesma l&#243;gica que o levou a usar IA. E ainda recebe pareceres mais &#225;speros devido &#224; origem geogr&#225;fica.</p><p>Isso n&#227;o &#233; desigualdade futura. &#201; a desigualdade atual sendo amplificada por uma tecnologia que muitos celebram como niveladora.</p><p>A <em>Organization Science</em> fez algo raro. Olhou para o pr&#243;prio pipeline e publicou o que viu sem prescri&#231;&#227;o f&#225;cil, sem moralismo, com dados.</p><div class="pullquote"><p>A pergunta que fica n&#227;o &#233; se a IA vai ficar. Ela ficou. A pergunta &#233; quem vai sustentar o sistema de avalia&#231;&#227;o enquanto ela fica, em que termos, e a que custo distribu&#237;do.</p></div><p>Por enquanto, a resposta &#233;: editores e pareceristas volunt&#225;rios, fora do hor&#225;rio comercial, sem remunera&#231;&#227;o, com cada vez menos tempo.</p><p>Os humanos est&#227;o cansados. E a conta ainda n&#227;o chegou.</p><div><hr></div><h2>Refer&#234;ncias</h2><p>Emanuele, E., &amp; Minoretti, P. (2025). The Peer Review Crisis Demands Radical Reform. <em>Cureus</em>. https://doi.org/10.7759/cureus.87817</p><p>Gartenberg, C., Hasan, S., Murray, A., &amp; Pierce, L. (2026). More Versus Better: Artificial Intelligence, Incentives, and the Emerging Crisis in Peer Review. <em>Organization Science</em>. https://doi.org/10.1287/orsc.2026.ed.v37.n3</p><p>Kusumegi, K., Yang, X., Ginsparg, P., de Vaan, M., Stuart, T., &amp; Yin, Y. (2025). Scientific production in the era of large language models. <em>Science</em>, 390(6779), 1240-1243. https://doi.org/10.1126/science.adw3000</p><p>Liang, W., Zhang, Y., Wu, Z., et al. (2025). Quantifying large language model usage in scientific papers. <em>Nature Human Behaviour</em>, 9, 2599-2609. https://doi.org/10.1038/s41562-025-02273-8</p><p>Sebo, P. (2024). Use of ChatGPT to Explore Gender and Geographic Disparities in Scientific Peer Review. <em>JMIR</em>. https://doi.org/10.2196/57667</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Responsabilizar sem formar é só metade do trabalho]]></title><description><![CDATA[A nova pol&#237;tica de integridade cient&#237;fica recusou os detectores de IA. O campo ainda n&#227;o entendeu o recado.]]></description><link>https://ricardolimongi.substack.com/p/o-cnpq-nao-quer-ser-um-orgao-de-policiamento</link><guid isPermaLink="false">https://ricardolimongi.substack.com/p/o-cnpq-nao-quer-ser-um-orgao-de-policiamento</guid><dc:creator><![CDATA[Ricardo Limongi]]></dc:creator><pubDate>Sat, 04 Apr 2026 02:23:06 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Q6Ya!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fcf66999a-8b28-4e75-bb9d-f827d214c24d_1320x1320.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>O CNPq publicou em mar&#231;o de 2026 a Portaria n&#186; 2.664 &#8212; a pol&#237;tica de integridade cient&#237;fica mais abrangente j&#225; produzida por uma ag&#234;ncia de fomento brasileira. Quarenta artigos. Oito cap&#237;tulos. Um sistema que vai da advert&#234;ncia formal &#224; suspens&#227;o do Curr&#237;culo Lattes.</p><p><strong>Vale a leitura.</strong></p><blockquote><p>Mas o que me interessa aqui n&#227;o &#233; o que a portaria pro&#237;be. <strong>&#201; o que ela escolheu n&#227;o fazer.</strong></p></blockquote><p>Em nenhum momento o texto menciona ferramentas de detec&#231;&#227;o de IA. Nenhuma refer&#234;ncia a Turnitin, GPTZero ou qualquer mecanismo de rastreamento tecnol&#243;gico. A IA generativa aparece no Art. 9 como um item dentro de uma pol&#237;tica mais ampla de conduta &#8212; n&#227;o como o problema central.</p><blockquote><p>Essa escolha n&#227;o &#233; omiss&#227;o. &#201; posi&#231;&#227;o.</p><p>E &#233; a posi&#231;&#227;o correta.</p></blockquote><p>UKRI, DFG e ALLEA &#8212; as principais ag&#234;ncias de fomento do Reino Unido, Alemanha e Uni&#227;o Europeia &#8212; chegaram ao mesmo lugar por caminhos diferentes. Nenhuma delas aposta em detec&#231;&#227;o. Todas exigem transpar&#234;ncia, declara&#231;&#227;o de uso e responsabilidade integral do pesquisador pelo conte&#250;do produzido. O padr&#227;o internacional convergiu para uma ideia simples: <em>o problema n&#227;o &#233; a ferramenta. &#201; a postura de quem a usa.</em></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p>Os n&#250;meros explicam por qu&#234;.</p><p>Um estudo de pesquisadores de Stanford mostrou que detectores de IA classificaram erroneamente 61% dos textos escritos por falantes n&#227;o nativos de ingl&#234;s como gerados por m&#225;quina. O mecanismo &#233; estrutural: esses algoritmos usam previsibilidade lingu&#237;stica como m&#233;trica, e pesquisadores que escrevem em uma segunda l&#237;ngua tendem a usar vocabul&#225;rio mais direto, mais regular, mais parecido com o que a IA produziria.</p><p>Para o pesquisador brasileiro que publica em ingl&#234;s, isso n&#227;o &#233; abstrato. &#201; um risco real de acusa&#231;&#227;o falsa.</p><p>E o problema vai al&#233;m. Estudos publicados entre 2023 e 2025 demonstraram que t&#233;cnicas simples de par&#225;frase reduzem a acur&#225;cia dos detectores em at&#233; 95%. Mais de trinta universidades internacionais &#8212; MIT, Berkeley, Cornell, NYU &#8212; j&#225; desativaram essas ferramentas por consider&#225;-las imprecisas demais para qualquer uso disciplinar.</p><p>A corrida armamentista entre geradores e detectores de IA n&#227;o tem vencedor. Tem, isso sim, um efeito colateral consistente: punir quem escreve de forma honesta e deixar passar quem sabe como burlar o sistema.</p><blockquote><p>A portaria do CNPq recusou esse jogo. E fez bem.</p><p>Mas aqui come&#231;a a parte inc&#244;moda.</p></blockquote><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Share Ricardo Limongi&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Share Ricardo Limongi</span></a></p><p></p><p>A diretora cient&#237;fica do CNPq, Monica Felts, disse em entrevista ao lan&#231;ar a portaria: &#8220;Se n&#227;o tivermos uma a&#231;&#227;o de forma&#231;&#227;o em integridade cient&#237;fica, principalmente voltada aos jovens pesquisadores, vamos nos tornar um &#243;rg&#227;o de policiamento.&#8221;</p><p>Ela tem raz&#227;o. E o problema &#233; que o campo ainda n&#227;o entendeu isso.</p><p>A conversa dominante nos programas de p&#243;s-gradua&#231;&#227;o ainda gira em torno da detec&#231;&#227;o. Como identificar IA no texto do aluno. Como calibrar o Turnitin. Como provar que aquele par&#225;grafo n&#227;o foi escrito por uma pessoa. Enquanto isso, a pergunta que importa fica sem resposta: como formar pesquisadores que n&#227;o precisem ser detectados?</p><p>O Brasil tem um hist&#243;rico que torna essa forma&#231;&#227;o urgente. Casos emblem&#225;ticos de m&#225; conduta, fabrica&#231;&#227;o de dados, autopl&#225;gio sistem&#225;tico, manipula&#231;&#227;o de imagens em publica&#231;&#245;es cient&#237;ficas, n&#227;o foram produtos da IA generativa. Eram pesquisadores, com press&#227;o para publicar, com sistemas de incentivo que recompensam volume e n&#227;o qualidade, com institui&#231;&#245;es que por d&#233;cadas n&#227;o souberam ou n&#227;o quiseram investigar.</p><p>A portaria endere&#231;a parte disso. O sistema sancionat&#243;rio &#233; claro, escalonado e numa inova&#231;&#227;o importante, cego para prest&#237;gio. O Art. 36 estabelece que grau acad&#234;mico, premia&#231;&#245;es e cargos de relevo &#8220;n&#227;o ser&#227;o considerados&#8221; na dosimetria da san&#231;&#227;o. &#201; uma frase pequena com implica&#231;&#245;es grandes para quem acompanhou casos em que a reputa&#231;&#227;o funcionou como escudo.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p>Mas a portaria n&#227;o resolve o que est&#225; antes dela.</p><p>Nenhuma pol&#237;tica de integridade resolve sozinha um ambiente em que a l&#243;gica de sobreviv&#234;ncia acad&#234;mica empurra pesquisadores para comportamentos que a mesma pol&#237;tica quer punir. O at&#233; ent&#227;o sistema Qualis, as m&#233;tricas de produtividade, a press&#227;o sobre orientadores e orientandos, tudo isso continua operando no mesmo ecossistema.</p><p>O foco da portaria est&#225; correto. A responsabilidade &#233; do pesquisador, n&#227;o do algoritmo de detec&#231;&#227;o. Mas responsabilizar sem formar &#233; s&#243; metade do trabalho.</p><p>A outra metade come&#231;a nas salas de aula dos programas de p&#243;s-gradua&#231;&#227;o. No momento em que um orientador decide se vai ensinar &#233;tica como um m&#243;dulo isolado no primeiro semestre, ou como uma pr&#225;tica cont&#237;nua que atravessa cada decis&#227;o metodol&#243;gica, cada escolha de autoria, cada declara&#231;&#227;o de uso de ferramenta.</p><p>A portaria abriu uma porta. O que fazemos do outro lado &#233; nossa responsabilidade.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/p/o-cnpq-nao-quer-ser-um-orgao-de-policiamento?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Share&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/p/o-cnpq-nao-quer-ser-um-orgao-de-policiamento?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Share</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[IA não substitui o que você ainda não construiu]]></title><description><![CDATA[O que ensinar intelig&#234;ncia artificial me ensinou sobre pesquisa]]></description><link>https://ricardolimongi.substack.com/p/ia-nao-substitui-o-que-voce-ainda</link><guid isPermaLink="false">https://ricardolimongi.substack.com/p/ia-nao-substitui-o-que-voce-ainda</guid><dc:creator><![CDATA[Ricardo Limongi]]></dc:creator><pubDate>Mon, 16 Mar 2026 12:30:37 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Q6Ya!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fcf66999a-8b28-4e75-bb9d-f827d214c24d_1320x1320.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div><hr></div><p>Depois de alguns anos ensinando IA aplicada &#224; pesquisa, uma impress&#227;o tem se tornado dif&#237;cil de ignorar: </p><div class="pullquote"><p>muita gente quer usar IA melhor, mas pouca gente quer estudar melhor.</p></div><p>Essa frase costuma gerar desconforto quando digo em voz alta numa palestra. J&#225; vi pesquisadores franzir o rosto. Alguns concordam em sil&#234;ncio. Outros discordam na hora. Mas quase ningu&#233;m fica indiferente e isso me diz que talvez o ponto esteja certo.</p><p>O ponto n&#227;o &#233; uma postura contra a tecnologia. Vivo dentro dela. O ponto &#233; a forma como o interesse em IA tem se organizado dentro da academia. Em muitos contextos, esse interesse vem acompanhado de uma busca intensa por prompts prontos, listas de ferramentas, f&#243;rmulas de aplica&#231;&#227;o, comparativos r&#225;pidos. Nada disso &#233; ileg&#237;timo. O problema come&#231;a quando esse repert&#243;rio ocupa o lugar da forma&#231;&#227;o intelectual que deveria sustent&#225;-lo.</p><p>Porque pesquisa nunca foi apenas uma quest&#227;o de executar tarefas. Pesquisa exige compreender problemas, sustentar argumentos, escolher m&#233;todos, interpretar evid&#234;ncias, escrever com precis&#227;o. A IA pode apoiar tudo isso. Mas n&#227;o pode construir o que ainda n&#227;o existe.</p><div class="pullquote"><p>Prompt n&#227;o substitui repert&#243;rio. Ferramenta n&#227;o substitui m&#233;todo. E resposta bem formulada n&#227;o substitui julgamento.</p></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/p/ia-nao-substitui-o-que-voce-ainda?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Share&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/p/ia-nao-substitui-o-que-voce-ainda?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Share</span></a></p><p>O que come&#231;o a ver com mais frequ&#234;ncia &#233; algo diferente da ado&#231;&#227;o entusiasmada que costumamos celebrar. &#201; uma tentativa de pular etapas. De usar a ferramenta antes de ter o que &#233; necess&#225;rio para us&#225;-la bem. A pressa por encontrar o prompt &#8220;certo&#8221; antes de compreender o problema. A expectativa de que a IA entregue uma boa formula&#231;&#227;o te&#243;rica sem que o pesquisador tenha lido o suficiente. A tentativa de acelerar escrita antes de amadurecer argumento.</p><div class="pullquote"><p>&#201; nesse ponto que o uso da IA deixa de ser uma estrat&#233;gia de produtividade e come&#231;a a se tornar uma forma de terceiriza&#231;&#227;o precoce do racioc&#237;nio.</p></div><p>Esse, para mim, &#233; o risco mais s&#233;rio da discuss&#227;o atual. N&#227;o &#233; errar uma resposta ou aceitar uma imprecis&#227;o. &#201; formar uma rela&#231;&#227;o com a ferramenta em que ela entra cedo demais no lugar de opera&#231;&#245;es intelectuais que ainda precisavam ser constru&#237;das pelo pesquisador.</p><p>Isso &#233; especialmente delicado na forma&#231;&#227;o de novos pesquisadores. H&#225; uma diferen&#231;a importante entre usar IA para expandir uma base j&#225; existente e us&#225;-la para preencher uma base que ainda n&#227;o foi constru&#237;da. No primeiro caso, a ferramenta &#233; poderosa. No segundo, ela gera uma sensa&#231;&#227;o enganosa de dom&#237;nio.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p>E talvez seja justamente por isso que ensinar IA me levou a uma conclus&#227;o que parece paradoxal: </p><div class="pullquote"><p>quanto mais a ferramenta avan&#231;a, mais importante se torna a forma&#231;&#227;o cr&#237;tica.</p></div><p>N&#227;o precisamos apenas de usu&#225;rios eficientes. Precisamos de pesquisadores capazes de formular boas perguntas, reconhecer limites, avaliar respostas e sustentar argumentos pr&#243;prios. A IA n&#227;o reduz a necessidade de forma&#231;&#227;o intelectual. Ela torna essa forma&#231;&#227;o ainda mais indispens&#225;vel.</p><p>No fim, talvez a quest&#227;o mais importante n&#227;o seja &#8220;como usar IA melhor?&#8221;. Talvez seja outra: que tipo de pesquisador estamos nos tornando quando passamos a pensar com essas ferramentas?</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Share Ricardo Limongi&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Share Ricardo Limongi</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O que eu aprendi rejeitando bons manuscritos]]></title><description><![CDATA[Uma leitura editorial sobre por que artigos promissores n&#227;o avan&#231;am]]></description><link>https://ricardolimongi.substack.com/p/o-que-eu-aprendi-rejeitando-bons</link><guid isPermaLink="false">https://ricardolimongi.substack.com/p/o-que-eu-aprendi-rejeitando-bons</guid><dc:creator><![CDATA[Ricardo Limongi]]></dc:creator><pubDate>Sat, 14 Mar 2026 16:49:23 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Q6Ya!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fcf66999a-8b28-4e75-bb9d-f827d214c24d_1320x1320.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>J&#225; rejeitei artigos que n&#227;o eram ruins, e isso acontece com mais frequ&#234;ncia do que os autores imaginam.</p><p>Muitos dos manuscritos que n&#227;o avan&#231;am no processo editorial da <a href="https://bar.anpad.org.br/index.php/bar">BAR</a> tratam de temas relevantes, atuais, socialmente urgentes. &#192;s vezes trazem dados interessantes, um contexto emp&#237;rico promissor, uma motiva&#231;&#227;o pr&#225;tica convincente. Ainda assim, n&#227;o passam. E quase nunca o motivo &#233; o tema. O que falta, em geral, &#233; outra coisa: contribui&#231;&#227;o.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Essa distin&#231;&#227;o merece ser feita com clareza. A relev&#226;ncia do tema n&#227;o &#233; sin&#244;nimo de contribui&#231;&#227;o cient&#237;fica. Um artigo pode tratar de intelig&#234;ncia artificial, governan&#231;a, diversidade ou sustentabilidade &#8212; todos temas urgentes &#8212; e, ainda assim, n&#227;o oferecer um avan&#231;o te&#243;rico suficientemente claro para um peri&#243;dico de alto impacto. O ponto n&#227;o &#233; o assunto em si. &#201; o modo como o manuscrito transforma esse assunto em um problema de pesquisa, em um enquadramento te&#243;rico e em implica&#231;&#245;es para o campo.</p><p>Ao longo de muitas decis&#245;es editoriais, aprendi a identificar onde essa ruptura costuma ocorrer. E ela quase sempre pode ser antecipada por cinco perguntas que os autores raramente fazem ao pr&#243;prio manuscrito antes de submeter.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/p/o-que-eu-aprendi-rejeitando-bons?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Share&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/p/o-que-eu-aprendi-rejeitando-bons?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Share</span></a></p><blockquote><p><strong>O artigo identifica um problema te&#243;rico ou apenas um tema importante?</strong></p></blockquote><p>H&#225; uma diferen&#231;a decisiva entre afirmar &#8220;h&#225; escassez de estudos sobre X&#8221; e demonstrar &#8220;h&#225; uma tens&#227;o conceitual em aberto sobre X e este artigo ajuda a resolv&#234;-la&#8221;. A primeira formula&#231;&#227;o aponta aus&#234;ncia. A segunda aponta necessidade intelectual. A primeira abre espa&#231;o para mais um estudo. A segunda raz&#227;o para ler aquele estudo.</p><p>Muitos autores aprenderam a construir introdu&#231;&#245;es que enfatizam a relev&#226;ncia pr&#225;tica e o crescente interesse. Mas poucos param para formular, com rigor, a natureza do problema te&#243;rico. O resultado &#233; uma introdu&#231;&#227;o funcional, por&#233;m fraca: o leitor entende que o tema importa, mas n&#227;o entende por que aquele artigo precisa existir.</p><blockquote><p><strong>A contribui&#231;&#227;o &#233; realmente anal&#237;tica ou est&#225; mais pr&#243;xima de descri&#231;&#227;o, aplica&#231;&#227;o ou sistematiza&#231;&#227;o?</strong></p></blockquote><p>Esse &#233;, talvez, o equ&#237;voco mais recorrente que encontro. O artigo apresenta um estudo localizado, uma revis&#227;o descritiva ou uma aplica&#231;&#227;o contextual de teoria j&#225; consolidada e, ao final, afirma ter &#8220;ampliado as fronteiras te&#243;ricas&#8221; do campo. Em geral, essa promessa &#233; maior do que a evid&#234;ncia permite sustentar.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p>Aplicar uma teoria em um novo contexto pode ser &#250;til. Organizar a literatura dispersa pode ser valioso. Testar uma rela&#231;&#227;o em um ambiente pouco estudado pode gerar conhecimento incremental relevante. Mas nada disso deve ser automaticamente traduzido como um grande avan&#231;o te&#243;rico. O artigo fica mais forte quando o autor nomeia, com honestidade, o tipo de contribui&#231;&#227;o que realmente oferece.</p><div class="pullquote"><p>H&#225;, inclusive, uma eleg&#226;ncia intelectual nessa honestidade. Um manuscrito maduro n&#227;o tenta parecer maior do que &#233;. E, por isso mesmo, torna-se mais convincente.</p></div><blockquote><p><strong>O desenho emp&#237;rico sustenta o tamanho da ambi&#231;&#227;o declarada?</strong></p></blockquote><p>Quando o texto adota linguagem causal sem que o desenho a sustente, o problema n&#227;o &#233; apenas t&#233;cnico. &#201; argumentativo. Associa&#231;&#245;es estatisticamente significativas n&#227;o autorizam falar em &#8220;impacto&#8221;, &#8220;efeito determinante&#8221; ou &#8220;influ&#234;ncia direta&#8221; sem qualifica&#231;&#227;o. A linguagem da contribui&#231;&#227;o precisa respeitar o alcance do que foi feito. Quando isso n&#227;o acontece, a credibilidade do artigo diminui &#8212; independentemente da qualidade dos dados.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Share Ricardo Limongi&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Share Ricardo Limongi</span></a></p><blockquote><p><strong>A literatura usada representa de fato o estado da arte?</strong></p></blockquote><p>Um referencial te&#243;rico desatualizado, seletivo demais ou baseado em fontes perif&#233;ricas fragiliza rapidamente a originalidade alegada. J&#225; li manuscritos que abordavam temas novos com uma base bibliogr&#225;fica que parecia ter parado no tempo. O recado editorial, nesses casos, &#233; quase imediato.</p><p>Atualizar refer&#234;ncias n&#227;o significa apenas acrescentar estudos recentes. Significa demonstrar dom&#237;nio da conversa contempor&#226;nea. Saber quem est&#225; moldando o debate hoje, quais tens&#245;es permanecem abertas, quais conceitos est&#227;o sendo refinados. Sem isso, o artigo corre o risco de parecer intelectualmente atrasado, mesmo ao abordar um tema novo.</p><blockquote><p><strong>O que exatamente muda na compreens&#227;o do leitor depois que ele termina o artigo?</strong></p></blockquote><p>Essa &#233; a pergunta mais simples e a mais exigente. Porque ela obriga o autor a ir al&#233;m da justificativa tem&#225;tica e enfrentar o n&#250;cleo do manuscrito. E &#233; quase sempre no n&#250;cleo &#8212; n&#227;o na superf&#237;cie &#8212; que as decis&#245;es editoriais se definem.</p><div class="pullquote"><p>Muitas rejei&#231;&#245;es n&#227;o ocorrem por falta de trabalho. Acontecem por falta de foco. O manuscrito quer fazer muitas coisas ao mesmo tempo: demonstrar relev&#226;ncia pr&#225;tica, revisar a literatura, aplicar a teoria, testar as rela&#231;&#245;es, reivindicar originalidade ampla. Ao tentar entregar tudo, acaba por deixar claro o essencial.</p></div><p>Os artigos mais fortes costumam ser mais precisos e mais modestos na apar&#234;ncia. N&#227;o prometem revolucionar o campo. Fazem algo mais dif&#237;cil: constroem, com clareza, uma pe&#231;a de avan&#231;o intelectual proporcional &#224; evid&#234;ncia que possuem.</p><p>Escrever para um peri&#243;dico como a <a href="https://bar.anpad.org.br/index.php/bar">BAR</a> n&#227;o exige prometer tudo. Exige saber, com precis&#227;o, o que se est&#225; entregando.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A IA não nivelaou o jogo. Ela acelerou quem já estava na frente.]]></title><description><![CDATA[Uma reflex&#227;o sobre usar ferramentas que n&#227;o foram feitas para n&#243;s]]></description><link>https://ricardolimongi.substack.com/p/a-ia-nao-nivelaou-o-jogo-ela-acelerou</link><guid isPermaLink="false">https://ricardolimongi.substack.com/p/a-ia-nao-nivelaou-o-jogo-ela-acelerou</guid><dc:creator><![CDATA[Ricardo Limongi]]></dc:creator><pubDate>Thu, 12 Mar 2026 12:03:41 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Q6Ya!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fcf66999a-8b28-4e75-bb9d-f827d214c24d_1320x1320.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>A intelig&#234;ncia artificial chegou a 1,2 bilh&#227;o de usu&#225;rios em apenas tr&#234;s anos. Parece democratiza&#231;&#227;o. </p><blockquote><p>Por&#233;m, esconde uma assimetria brutal.</p></blockquote><p>Em pa&#237;ses de alta renda, 2 em cada 3 pessoas j&#225; usam ferramentas de IA. Em pa&#237;ses de baixa renda, esse n&#250;mero fica pr&#243;ximo de 5%. E quando olhamos especificamente para pesquisadores, o padr&#227;o se repete: pa&#237;ses de renda m&#233;dia usam IA quatro vezes menos do que pa&#237;ses ricos.</p><p>N&#227;o &#233; uma quest&#227;o de disposi&#231;&#227;o. &#201; uma quest&#227;o de acesso.</p><div class="pullquote"><p>As melhores ferramentas custam em d&#243;lares. Os modelos mais avan&#231;ados exigem infraestrutura que muitas universidades brasileiras e latino-americanas simplesmente n&#227;o disp&#245;em. Os datasets que treinam esses sistemas foram majoritariamente constru&#237;dos em ingl&#234;s, com problemas e contextos do Norte Global.</p></div><p>O pesquisador de Harvard e o da UFG t&#234;m acesso &#224; mesma ferramenta. Mas n&#227;o ao mesmo resultado.</p><p>Enquanto isso, 118 pa&#237;ses &#8212; a maioria do Sul Global &#8212; est&#227;o completamente ausentes das discuss&#245;es que decidem como a IA na ci&#234;ncia vai funcionar. Quem define os crit&#233;rios de qualidade, as pol&#237;ticas de uso, os limites &#233;ticos? N&#227;o somos nem convidados para a conversa.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p></p><p>O PNUD chama esse cen&#225;rio de &#8220;A Pr&#243;xima Grande Diverg&#234;ncia&#8221;. A ideia &#233; direta: a IA pode reverter d&#233;cadas de converg&#234;ncia entre pa&#237;ses ricos e pobres. N&#227;o porque a tecnologia seja intrinsecamente excludente. Mas por que  amplifica o que j&#225; existe? Infraestrutura, talento, financiamento, poder computacional, tudo concentrado nos mesmos lugares de sempre.</p><blockquote><p>E aqui mora o paradoxo que me incomoda como pesquisador.</p></blockquote><p>A IA &#233; apresentada como solu&#231;&#227;o para a sobrecarga do cientista. Revis&#227;o de literatura mais r&#225;pida. An&#225;lise de dados mais eficiente. Escrita mais fluida. E &#233; verdade para quem tem acesso pleno &#224;s ferramentas: o ganho de produtividade &#233; real.</p><p>Mas se essa produtividade &#233; quatro vezes maior nos pa&#237;ses que j&#225; publicam mais, j&#225; t&#234;m mais recursos, j&#225; dominam os peri&#243;dicos de maior impacto, o que a IA est&#225; fazendo, na pr&#225;tica, &#233; aumentar a dist&#226;ncia.</p><blockquote><p>N&#227;o estou dizendo que n&#227;o devemos usar IA. Uso. E recomendo.</p></blockquote><p>Estou dizendo que precisamos parar de tratar ado&#231;&#227;o como sin&#244;nimo de equidade. Ter acesso a uma ferramenta n&#227;o significa competir em igualdade de condi&#231;&#245;es com quem a desenvolveu, que fala a l&#237;ngua nativa do modelo e que disp&#245;e de poder computacional para rodar vers&#245;es que nem chegaram ao plano gratuito.</p><p>A pergunta que a pesquisa latino-americana precisa fazer n&#227;o &#233; &#8220;como usar melhor a IA&#8221;. &#201; &#8220;para quem essa IA foi feita &#8212; e o que fazemos com isso&#8221;.</p><div class="captioned-button-wrap" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/p/a-ia-nao-nivelaou-o-jogo-ela-acelerou?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Share&quot;}" data-component-name="CaptionedButtonToDOM"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado pela leitura. Convide outros pesquisadores para a conversa.</p></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/p/a-ia-nao-nivelaou-o-jogo-ela-acelerou?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Share&quot;}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/p/a-ia-nao-nivelaou-o-jogo-ela-acelerou?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Share</span></a></p></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Seu orientador nunca aprendeu a orientar]]></title><description><![CDATA[E a academia nunca quis admitir isso]]></description><link>https://ricardolimongi.substack.com/p/seu-orientador-nunca-aprendeu-a-orientar</link><guid isPermaLink="false">https://ricardolimongi.substack.com/p/seu-orientador-nunca-aprendeu-a-orientar</guid><dc:creator><![CDATA[Ricardo Limongi]]></dc:creator><pubDate>Thu, 19 Feb 2026 00:37:49 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Q6Ya!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fcf66999a-8b28-4e75-bb9d-f827d214c24d_1320x1320.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="pullquote"><p><strong>Seu orientador nunca foi preparado para ser orientador. E isso muda tudo.</strong></p></div><p>H&#225; um crit&#233;rio claro para se tornar orientador em um programa de p&#243;s-gradua&#231;&#227;o. Publica&#231;&#245;es suficientes. &#205;ndice H adequado. Projetos aprovados. Bolsas captadas.</p><blockquote><p>Nenhum desses crit&#233;rios exige que a pessoa saiba orientar.</p></blockquote><p>E isso raramente &#233; dito em voz alta.</p><p>O orientador n&#227;o passou por nenhuma forma&#231;&#227;o sistem&#225;tica sobre como conduzir uma rela&#231;&#227;o de orienta&#231;&#227;o. N&#227;o aprendeu sobre feedback construtivo, sobre escuta ativa, sobre como acompanhar algu&#233;m em colapso criativo &#224;s tr&#234;s da tarde de uma quarta-feira de doutorado.</p><p>Ele aprendeu a pesquisar. E assumiu que isso era suficiente para ensinar outros a pesquisar.</p><p>N&#227;o &#233;. Existe algo mais silencioso acontecendo nessa equa&#231;&#227;o.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/p/seu-orientador-nunca-aprendeu-a-orientar?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Share&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/p/seu-orientador-nunca-aprendeu-a-orientar?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Share</span></a></p><p>O orientador n&#227;o herda apenas o conhecimento da sua &#225;rea. Ele herda o modelo de orienta&#231;&#227;o em que viveu. A l&#243;gica, o ritmo, as expectativas impl&#237;citas, a forma como o sofrimento foi tratado &#8212; ou ignorado &#8212; durante a sua pr&#243;pria forma&#231;&#227;o.</p><p>Se o doutorado foi dif&#237;cil para ele, ser&#225; dif&#237;cil para os orientandos. N&#227;o porque ele quer isso. Mas porque &#233; o &#250;nico modelo que conhece internamente.</p><p>Se o orientador foi formado na cren&#231;a de que press&#227;o gera excel&#234;ncia, ele vai pressionar. Se aprendeu que dist&#226;ncia &#233; profissionalismo, vai se distanciar. Se nunca teve espa&#231;o para questionar a abordagem metodol&#243;gica, vai tratar o m&#233;todo como dogma. E aqui chegamos num ponto que poucos querem nomear.</p><blockquote><p>O orientador quanti vai querer um orientando quanti.</p></blockquote><p>N&#227;o necessariamente por convic&#231;&#227;o epistemol&#243;gica. &#192;s vezes por conforto. Por familiaridade. Porque &#233; o que sabe avaliar, o que sabe defender em banca, o que sabe encaixar na literatura que domina.</p><p>O aluno que chega com uma quest&#227;o de pesquisa que requer outra abordagem enfrenta uma escolha n&#227;o anunciada: adaptar a pergunta ao m&#233;todo do orientador ou enfrentar resist&#234;ncia.</p><div class="pullquote"><p>Isso n&#227;o &#233; forma&#231;&#227;o. &#201; reprodu&#231;&#227;o.</p></div><p>A pergunta de pesquisa deveria orientar a escolha metodol&#243;gica. Na pr&#225;tica, muitas vezes &#233; o contr&#225;rio &#8212; o m&#233;todo dispon&#237;vel molda a pergunta poss&#237;vel. E o aluno perde algo que nunca vai conseguir nomear direito: a experi&#234;ncia de escolher o caminho com base no problema que quer resolver.</p><blockquote><p>Eu me vejo nessa armadilha.</p></blockquote><p>Tenho minhas prefer&#234;ncias. Minha zona de conforto anal&#237;tica. E sei que isso inevitavelmente aparece nas conversas com orientandos, nas perguntas que fa&#231;o, nas lacunas que enxergo antes das que n&#227;o enxergo.</p><p>Nenhum orientador &#233; neutro. O problema &#233; quando ele acredita que &#233;.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/p/seu-orientador-nunca-aprendeu-a-orientar?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Share&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/p/seu-orientador-nunca-aprendeu-a-orientar?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Share</span></a></p><p>A cultura da p&#243;s-gradua&#231;&#227;o precisa ser revisada em um n&#237;vel que v&#225; al&#233;m das normas e dos regulamentos. Ela precisa criar espa&#231;os para que o orientador se pergunte: o que eu estou transmitindo que n&#227;o escolhi?</p><p>N&#227;o estou falando de terapia. Estou falando de forma&#231;&#227;o. De programas que preparem orientadores n&#227;o apenas para conduzir pesquisa, mas tamb&#233;m para conduzir pessoas que est&#227;o aprendendo a conduzir pesquisa.</p><p>A diferen&#231;a &#233; enorme.</p><p>Um pesquisador competente e um orientador competente s&#227;o duas coisas distintas. A academia trata como se fossem a mesma. E enquanto isso n&#227;o mudar, vamos continuar formando orientadores pelo &#250;nico m&#233;todo que conhecemos.</p><p>A repeti&#231;&#227;o do que foi feito com a gente.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Seu aluno quer o prompt. Você deveria ensinar outra coisa.]]></title><description><![CDATA[Entre o atalho que engaja e o processo que forma]]></description><link>https://ricardolimongi.substack.com/p/seu-aluno-quer-o-prompt-voce-deveria</link><guid isPermaLink="false">https://ricardolimongi.substack.com/p/seu-aluno-quer-o-prompt-voce-deveria</guid><dc:creator><![CDATA[Ricardo Limongi]]></dc:creator><pubDate>Thu, 12 Feb 2026 20:28:36 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Q6Ya!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fcf66999a-8b28-4e75-bb9d-f827d214c24d_1320x1320.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Recentemente, numa forma&#231;&#227;o sobre IA para pesquisadores, fiz uma pausa e observei a sala.</p><p>Trinta pessoas. Cadernos abertos. Celulares filmando a tela.</p><p>Eu estava explicando como um modelo de linguagem processa informa&#231;&#227;o. Como a l&#243;gica probabil&#237;stica gera texto. Por que o output precisa ser verificado.</p><blockquote><p>Ningu&#233;m anotou nada.</p></blockquote><p>Cinco minutos depois, mostrei um prompt para revisar par&#225;grafos acad&#234;micos.</p><blockquote><p>Todo mundo anotou.</p></blockquote><p>N&#227;o &#233; a primeira vez que isso acontece. E n&#227;o vai ser a &#250;ltima.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p>O padr&#227;o &#233; sempre o mesmo. Quando a explica&#231;&#227;o &#233; conceitual, o olhar se dispersa. Quando o conte&#250;do vira receita, o engajamento explode.</p><p>&#201; compreens&#237;vel. Ningu&#233;m acorda de manh&#227; querendo entender arquitetura de redes neurais. As pessoas querem resolver problemas. Querem o atalho.</p><p>O problema &#233; que o professor sabe &#8212; ou deveria saber &#8212; que o atalho sem fundamento &#233; um caminho curto para lugar nenhum.</p><p>Recebi uma mensagem de um colega h&#225; algumas semanas. Professor experiente, orientador ativo.</p><p>Ele me contou que pediu ao ChatGPT que indicasse um artigo cient&#237;fico a um orientando. Recebeu t&#237;tulo, autores, revista, ano. Tudo impec&#225;vel.</p><p>O artigo n&#227;o existia.</p><p>A pergunta dele foi direta: &#8220;Se a IA alucina, em que momento posso confiar nela?&#8221;</p><p>A resposta &#233; simples: em nenhum momento, sem verifica&#231;&#227;o. Mas a pergunta revela algo maior. Um pesquisador com d&#233;cadas de experi&#234;ncia tratou um modelo generativo como um banco de dados. N&#227;o por ignor&#226;ncia. Por falta de letramento sobre o que aquela ferramenta &#233; &#8212; e, principalmente, sobre o que ela n&#227;o &#233;.</p><blockquote><p>Esse &#233; o dilema real de quem est&#225; em sala de aula hoje.</p></blockquote><div class="pullquote"><p>N&#227;o &#233; sobre ser contra ou a favor da IA. Essa dicotomia j&#225; caducou. O dilema &#233; sobre o que ensinamos quando ensinamos IA.</p></div><p>Porque h&#225; uma diferen&#231;a enorme entre letramento instrumental e letramento cr&#237;tico. Walter (2024), num estudo publicado no International Journal of Educational Technology in Higher Education, argumenta que a integra&#231;&#227;o de IA na educa&#231;&#227;o exige n&#227;o apenas habilidades t&#233;cnicas, mas tamb&#233;m pensamento cr&#237;tico sobre o funcionamento e os impactos dessas tecnologias. Ou seja: saber usar n&#227;o &#233; o mesmo que compreender.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/p/seu-aluno-quer-o-prompt-voce-deveria?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Share&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/p/seu-aluno-quer-o-prompt-voce-deveria?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Share</span></a></p><p>Letramento instrumental &#233; ensinar o prompt. &#201; mostrar a ferramenta, o passo a passo, o atalho. Tem valor? Tem. Resolve o problema imediato? Resolve.</p><p>Letramento cr&#237;tico &#233; outra coisa. &#201; entender por que o modelo gera o que gera. &#201; saber que &#8220;alucina&#231;&#227;o&#8221; n&#227;o &#233; um bug &#8212; &#233; uma caracter&#237;stica de um sistema probabil&#237;stico que n&#227;o foi projetado para produzir verdade, mas para produzir texto estatisticamente plaus&#237;vel. &#201; reconhecer que, no contexto cient&#237;fico, essa distin&#231;&#227;o n&#227;o &#233; um detalhe. &#201; fundamento.</p><p>E aqui entra a parte que me incomoda como professor.</p><p>Eu tamb&#233;m sinto a tenta&#231;&#227;o de ensinar s&#243; o atalho.</p><p>D&#225; resultado imediato. O feedback &#233; positivo. O engajamento &#233; vis&#237;vel. As pessoas saem da forma&#231;&#227;o com a sensa&#231;&#227;o de terem aprendido algo &#250;til.</p><div class="pullquote"><p>Ensinar o processo &#233; mais lento. Menos &#8220;instagram&#225;vel&#8221;. Menos compartilh&#225;vel. O aluno nem sempre reconhece o valor no curto prazo. &#192;s vezes sai da aula achando que foi te&#243;rico demais.</p></div><p>Mas &#233; justamente a&#237; que mora a diferen&#231;a entre formar um operador de ferramenta e formar algu&#233;m que pensa com a ferramenta.</p><p>Uma pesquisa publicada por Knoth e colegas mostrou que estudantes com maior letramento em IA &#8212; n&#227;o apenas compet&#234;ncia t&#233;cnica, mas tamb&#233;m compreens&#227;o conceitual &#8212; conseguem formular prompts de melhor qualidade e avaliar criticamente os resultados. Em outras palavras: quem entende o que est&#225; fazendo usa a ferramenta melhor do que quem s&#243; sabe onde apertar.</p><blockquote><p>Agora, a pergunta mais inc&#244;moda.</p><p>Os novos pesquisadores v&#227;o se interessar por isso?</p><p>A resposta honesta: muitos n&#227;o v&#227;o. Pelo menos n&#227;o de imediato.</p></blockquote><p>E &#233; compreens&#237;vel. O ecossistema inteiro empurra na dire&#231;&#227;o contr&#225;ria. As redes sociais premiam o hack r&#225;pido. Cursos vendem prompts milagrosos. Threads viralizam com listas de &#8220;10 comandos que v&#227;o mudar sua escrita acad&#234;mica.&#8221;</p><p>Tudo isso cria uma ilus&#227;o: a de que saber usar a ferramenta &#233; suficiente.</p><p>Mas j&#225; passamos por isso antes. Ningu&#233;m achava metodologia de pesquisa empolgante na gradua&#231;&#227;o. Estat&#237;stica era o pesadelo coletivo. E, no entanto, quem teve uma boa forma&#231;&#227;o metodol&#243;gica se diferenciou depois. N&#227;o porque sabia rodar um teste, mas porque entendia o que significava.</p><div class="pullquote"><p>O letramento em IA pode seguir exatamente o mesmo caminho. Quem entende o funcionamento hoje vai estar preparado para o que vier amanh&#227; &#8212; inclusive para quando os prompts, como os conhecemos, deixarem de existir.</p></div><p>E esse ponto &#233; fundamental.</p><p>A velocidade com que os modelos evoluem torna qualquer prompt espec&#237;fico perec&#237;vel. O que voc&#234; ensinou ontem pode ser irrelevante amanh&#227;. Mas a capacidade de compreender o que est&#225; acontecendo entre a pergunta e a resposta &#8212; isso n&#227;o perece.</p><p>Ensinar s&#243; o prompt &#233; como ensinar algu&#233;m a dirigir um carro espec&#237;fico. Ensinar o letramento &#233; ensinar a compreender o tr&#226;nsito.</p><p>N&#227;o estou dizendo que devemos abandonar o ensino de prompts. Prompts s&#227;o ferramentas. E ferramentas importam.</p><p>Mas ferramenta sem compreens&#227;o &#233; automatismo. E, na ci&#234;ncia, o automatismo &#233; o oposto do que queremos.</p><p>O professor que ensina apenas o atalho est&#225; formando operadores, n&#227;o pesquisadores.</p><div class="pullquote"><p>Se a &#250;nica coisa que seu aluno aprendeu sobre IA foi um prompt, ele n&#227;o aprendeu sobre IA.</p><p>Aprendeu a digitar.</p></div><p><strong>Refer&#234;ncias mencionadas:</strong></p><p>Knoth, N., Tolzin, A., Janson, A., &amp; Leimeister, J. M. (2024). AI literacy and its implications for prompt engineering strategies. Computers and Education: Artificial Intelligence, 6, 100225.</p><p>Walter, Y. (2024). Embracing the future of Artificial Intelligence in the classroom: the relevance of AI literacy, prompt engineering, and critical thinking in modern education. <em>International Journal of Educational Technology in Higher Education</em>, 21(1), 15.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Qual ferramenta você usa?]]></title><description><![CDATA[A pergunta que revela o que estamos deixando de aprender]]></description><link>https://ricardolimongi.substack.com/p/qual-ferramenta-voce-usa</link><guid isPermaLink="false">https://ricardolimongi.substack.com/p/qual-ferramenta-voce-usa</guid><dc:creator><![CDATA[Ricardo Limongi]]></dc:creator><pubDate>Tue, 27 Jan 2026 21:01:53 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Q6Ya!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fcf66999a-8b28-4e75-bb9d-f827d214c24d_1320x1320.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<blockquote><p><strong>A pergunta que ningu&#233;m faz</strong></p></blockquote><p>Recebo com frequ&#234;ncia a seguinte pergunta: </p><div class="pullquote"><p>&#8220;Qual ferramenta voc&#234; usa para fazer isso?&#8221;</p></div><p>Respondo. Sempre tento ajudar. Por&#233;m, confesso que, cada vez mais, a pergunta tem me feito refletir bastante. N&#227;o pela pergunta em si. Pelo que revela.</p><p>Ocupo diferentes lugares nesse ecossistema acad&#234;mico. Sou professor, orientador, editor, autor, revisor. Cada papel me oferece uma janela diferente sobre o mesmo fen&#244;meno. <strong>E nelas todas, vejo o mesmo sintoma.</strong></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/p/qual-ferramenta-voce-usa?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Share&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/p/qual-ferramenta-voce-usa?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Share</span></a></p><p>Na sala de aula, os alunos chegam com respostas prontas. Mas quando a pergunta muda, travam. Reproduzem bem. Compreendem pouco.</p><p>Na orienta&#231;&#227;o, recebo textos &#8220;redondos demais&#8221;. Bem escritos, bem estruturados. Mas quando pergunto por que escolheram aquele caminho, o sil&#234;ncio responde.</p><p>Como editor, leio submiss&#245;es tecnicamente corretas. Cumprem o protocolo. Mas n&#227;o dizem nada novo. N&#227;o arriscam.</p><p>Como revisor, percebo a costura. Par&#225;grafos que n&#227;o conversam. Ideias que foram montadas, n&#227;o pensadas.</p><p>E como autor? Sinto a mesma tenta&#231;&#227;o. A press&#227;o por produzir empurra todo mundo pro atalho.</p><div class="pullquote"><p>Vivemos a era do acesso infinito.</p></div><p>Templates, prompts, tutoriais, automa&#231;&#245;es. Tudo a um clique. Tudo pronto pra usar.</p><div class="pullquote"><p>O problema n&#227;o &#233; a exist&#234;ncia dessas ferramentas.</p><p>O problema &#233; o que fazemos com elas.</p></div><p>Tem uma frase que tenho usado bastante: aprendemos onde apertar, mas n&#227;o o que estamos fazendo.</p><p>Salvamos posts. Colecionamos recursos. Acumulamos pastas de &#8220;ler depois&#8221;.</p><p>E na hora de fazer, percebemos que n&#227;o sabemos nada.</p><blockquote><p>Porque ter acesso n&#227;o &#233; ter dom&#237;nio.</p></blockquote><p>A intelig&#234;ncia artificial intensificou isso.</p><p>O &#8220;efeito Google&#8221; descrevia nossa tend&#234;ncia de n&#227;o reter o que sabemos que podemos buscar, por&#233;m, o fen&#244;meno &#233; outro. N&#227;o &#233; s&#243; n&#227;o reter. &#201; n&#227;o processar.</p><p><strong>A IA entrega o produto final. Sem exigir o percurso.</strong></p><p></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p>Recebemos a resposta, mas n&#227;o constru&#237;mos a pergunta.</p><div class="pullquote"><p>E a&#237; voltamos &#224;quela mensagem. &#8220;Qual ferramenta voc&#234; usa?&#8221;</p><p>&#201; uma pergunta de consumidor.</p><p>A pergunta do pesquisador seria outra: &#8220;Como isso funciona?&#8221;</p></div><p>Parece sutil. Mas a diferen&#231;a &#233; fundamental.</p><p>Uma busca solu&#231;&#227;o. A outra busca compreens&#227;o.</p><p>A curiosidade &#8212; aquilo que deveria definir quem faz ci&#234;ncia &#8212; vem sendo terceirizada.</p><p>Estamos formando uma gera&#231;&#227;o que sabe operar, mas n&#227;o investigar. Que produz muito, mas contribui pouco.</p><p>Alta produtividade. Baixa profundidade.</p><p>Eu acredito no poder transformador do conhecimento. Da ci&#234;ncia. Da pesquisa feita com rigor e inten&#231;&#227;o.</p><p>Mas o conhecimento que transforma n&#227;o nasce da execu&#231;&#227;o eficiente de templates.</p><p>Nasce de perguntas que incomodam. De processos que demoram. De erros que ensinam.</p><p>N&#227;o estou dizendo para abandonar as ferramentas. Estou dizendo que a ferramenta &#233; meio, n&#227;o fim.</p><p>E que talvez, antes de perguntar qual apertar, valha a pena perguntar: o que exatamente eu quero aprender?</p><p>A resposta pode demorar mais. <strong>Mas vai ser sua.</strong></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A pós-graduação tem ensinado o segundo andar antes de construir o térreo]]></title><description><![CDATA[Metodologia cient&#237;fica &#233; importante, por&#233;m, o aluno precisa saber ler um artigo antes de discutir Popper.]]></description><link>https://ricardolimongi.substack.com/p/a-pos-graduacao-tem-ensinado-o-segundo</link><guid isPermaLink="false">https://ricardolimongi.substack.com/p/a-pos-graduacao-tem-ensinado-o-segundo</guid><dc:creator><![CDATA[Ricardo Limongi]]></dc:creator><pubDate>Thu, 15 Jan 2026 00:06:49 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Q6Ya!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fcf66999a-8b28-4e75-bb9d-f827d214c24d_1320x1320.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>A p&#243;s-gradua&#231;&#227;o brasileira tem uma disciplina chamada Metodologia Cient&#237;fica. Nela, o aluno aprende sobre Popper, Kuhn, paradigmas, validade, debates epistemol&#243;gicos.</p><blockquote><p>Isso &#233; importante. O problema &#233; que vem antes do b&#225;sico.</p></blockquote><p>Um estudo da Unicamp revelou que apenas 13% dos ingressantes de p&#243;s-gradua&#231;&#227;o sabem o que &#233; pl&#225;gio. A maioria considera o pl&#225;gio n&#227;o-intencional &#8212; resultado de falta de tempo, dificuldade de escrita, desconhecimento das regras. N&#227;o &#233; m&#225;-f&#233;. &#201; uma lacuna de forma&#231;&#227;o.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p>A disciplina de metodologia assume que o aluno j&#225; sabe ler um artigo cient&#237;fico, j&#225; sabe escrever um argumento, j&#225; sabe buscar literatura, j&#225; sabe citar corretamente. Assume que o t&#233;rreo est&#225; pronto. Raramente est&#225;.</p><div class="pullquote"><p>Estamos formando pesquisadores como form&#225;vamos h&#225; 30 anos. S&#243; que os atuais jovens pesquisadores t&#234;m hist&#243;ricos e perfis bem diferentes.</p></div><p>O perfil mudou. As trajet&#243;rias s&#227;o menos lineares. Muitos chegam ao mestrado vindos do mercado, de outras &#225;reas, sem passagem por inicia&#231;&#227;o cient&#237;fica (IC). A rela&#231;&#227;o com a leitura &#233; diferente &#8212; uma gera&#231;&#227;o que consome informa&#231;&#227;o em fragmentos enfrenta artigos de vinte p&#225;ginas em ingl&#234;s acad&#234;mico como um obst&#225;culo, n&#227;o como rotina.</p><p>E a inicia&#231;&#227;o cient&#237;fica (IC), que deveria preparar esse aluno, alcan&#231;a menos de 3% dos graduandos. O sistema depende de uma IC que a maioria nunca teve.</p><p>O resultado aparece nos n&#250;meros. A taxa m&#233;dia de evas&#227;o na p&#243;s-gradua&#231;&#227;o &#233; de 12%, atingindo 26% nas Engenharias. Entre 2019 e 2022, o n&#250;mero de ingressantes caiu 12%. Pesquisa da Fiocruz encontrou 45% dos p&#243;s-graduandos com ansiedade generalizada &#8212; seis vezes mais do que a popula&#231;&#227;o geral.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Share Ricardo Limongi&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Share Ricardo Limongi</span></a></p><p>N&#227;o s&#227;o falhas individuais. S&#227;o sintomas de um sistema que oferece reflex&#227;o epistemol&#243;gica a quem ainda n&#227;o domina a pr&#225;tica.</p><p>A quest&#227;o regional agrava. Os programas de excel&#234;ncia est&#227;o concentrados no Sudeste. Um aluno que entra num programa nota 3 no interior do Norte ou do Nordeste enfrenta desafios diferentes: menos infraestrutura, mais dificuldade na composi&#231;&#227;o do quadro de professores, menos acesso a redes nacionais e internacionais. A forma&#231;&#227;o b&#225;sica que falta nos grandes centros falta ainda mais na periferia do sistema.</p><div class="pullquote"><p>E agora chegou a intelig&#234;ncia artificial.</p></div><p>Sem compet&#234;ncias b&#225;sicas, a IA vira um problema, n&#227;o uma solu&#231;&#227;o. O aluno que n&#227;o sabe ler criticamente n&#227;o consegue avaliar se o texto gerado faz sentido. O aluno que n&#227;o entende integridade acad&#234;mica n&#227;o sabe onde est&#225; a linha entre o uso leg&#237;timo e o pl&#225;gio sofisticado. A IA amplifica o que o pesquisador j&#225; &#233;. Se ele tem base s&#243;lida, acelera. Se tem lacunas, mascara &#8212; e o problema aparece depois, na banca, na revis&#227;o, na retrata&#231;&#227;o.</p><blockquote><p>Formar o b&#225;sico n&#227;o &#233; resist&#234;ncia &#224; tecnologia. &#201; pr&#233;-requisito para us&#225;-la de forma consciente.</p></blockquote><p>A proposta n&#227;o &#233; abandonar a metodologia cient&#237;fica. &#201; criar uma etapa anterior. Disciplinas pr&#225;ticas: leitura estrat&#233;gica, escrita cient&#237;fica, busca em bases de dados e normas de cita&#231;&#227;o. Um nivelamento que reconhe&#231;a a heterogeneidade real dos ingressantes e os trate como iguais &#233; uma fic&#231;&#227;o.</p><p>Discutir Popper faz sentido. Mas faz mais sentido quando o aluno j&#225; sabe ler um artigo inteiro.</p><p>A p&#243;s-gradua&#231;&#227;o brasileira desenvolveu uma excelente capacidade cient&#237;fica. Preservar esse legado exige reconhecer que o perfil do pesquisador mudou &#8212; e que a forma&#231;&#227;o precisa mudar junto.</p><p>N&#227;o &#233; sobre ensinar menos. &#201; sobre ensinar na ordem certa.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/p/a-pos-graduacao-tem-ensinado-o-segundo?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Share&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/p/a-pos-graduacao-tem-ensinado-o-segundo?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Share</span></a></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O perfil do pesquisador mudou? Uma reportagem de 1997 diz que não.]]></title><description><![CDATA[Em 1997, a Revista Pesquisa FAPESP publicou uma carta do editor com uma pergunta provocativa: qual &#233; o perfil desej&#225;vel do pesquisador contempor&#226;neo?]]></description><link>https://ricardolimongi.substack.com/p/o-perfil-do-pesquisador-mudou-uma</link><guid isPermaLink="false">https://ricardolimongi.substack.com/p/o-perfil-do-pesquisador-mudou-uma</guid><dc:creator><![CDATA[Ricardo Limongi]]></dc:creator><pubDate>Tue, 06 Jan 2026 22:18:08 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Q6Ya!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fcf66999a-8b28-4e75-bb9d-f827d214c24d_1320x1320.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Em 1997, a Revista Pesquisa FAPESP publicou uma carta do editor com uma pergunta provocativa: qual &#233; o perfil desej&#225;vel do pesquisador contempor&#226;neo?</p><p>A resposta, na &#233;poca, foi clara. O pesquisador ideal deveria ter:</p><ul><li><p>Capacidade administrativa</p></li><li><p>Aptid&#227;o para lideran&#231;a</p></li><li><p>Esp&#237;rito empreendedor</p></li><li><p>Saber trabalhar em grupo e se comunicar</p></li><li><p>Voca&#231;&#227;o para formar disc&#237;pulos</p></li><li><p>Sensibilidade social e pol&#237;tica</p></li><li><p>Percep&#231;&#227;o das mudan&#231;as da economia</p></li><li><p>Capacidade de dialogar com empresas</p></li></ul><blockquote><p>Leu a lista? Agora me diz: o que mudou?</p></blockquote><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p><strong>Quase 30 anos depois</strong></p><p>Estamos em 2026. ChatGPT tem tr&#234;s anos. Claude, Gemini, ferramentas de IA para pesquisa pipocam todo m&#234;s. A gente fala em &#8220;revolu&#231;&#227;o&#8221; na ci&#234;ncia.</p><p>Por&#233;m, quando olho para os editais de fomento, para os crit&#233;rios de sele&#231;&#227;o de programas de p&#243;s-gradua&#231;&#227;o, para o que se espera de um pesquisador &#8220;competitivo&#8221; &#8212; vejo a mesma lista de 1997.</p><p>Trabalho em grupo? Check.<br>Lideran&#231;a? Check.<br>Comunica&#231;&#227;o? Check.<br>Capta&#231;&#227;o de recursos? Check.<br>Di&#225;logo com empresas? Check.</p><p>A &#250;nica diferen&#231;a &#233; que agora adicionamos &#8220;saber usar IA&#8221; como se fosse mais uma ferramenta no toolkit. Como se fosse equivalente a &#8220;saber usar Excel&#8221; ou &#8220;saber fazer an&#225;lise estat&#237;stica&#8221;.</p><blockquote><p>E aqui est&#225; o problema.</p></blockquote><p><strong>IA n&#227;o &#233; uma ferramenta. &#201; uma mudan&#231;a epistemol&#243;gica.</strong></p><p>Quando voc&#234; usa IA para fazer revis&#227;o de literatura, voc&#234; n&#227;o est&#225; apenas &#8220;acelerando&#8221; um processo. Voc&#234; est&#225; mudando a natureza do processo.</p><p>Antes: ler 50 artigos, um por um, fazer fichamentos manuais, identificar padr&#245;es pela sua pr&#243;pria cogni&#231;&#227;o.</p><p>Depois: processar 500 artigos em minutos, ter s&#237;nteses autom&#225;ticas, identificar conex&#245;es que voc&#234; jamais veria sozinho.</p><p>Isso n&#227;o &#233; &#8220;fazer a mesma coisa mais r&#225;pido&#8221;. &#201; fazer uma coisa diferente.</p><p>O pesquisador que entende isso opera em outro n&#237;vel. </p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/p/o-perfil-do-pesquisador-mudou-uma?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Share&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/p/o-perfil-do-pesquisador-mudou-uma?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Share</span></a></p><p><strong>O que deveria ter mudado (e n&#227;o mudou)</strong></p><p>Se eu fosse reescrever aquela carta da FAPESP para 2026, o perfil do pesquisador contempor&#226;neo incluiria:</p><p><strong>1. Letramento em IA aplicada &#224; pesquisa</strong></p><p>N&#227;o &#8220;saber usar ChatGPT&#8221;. Entender como modelos de linguagem funcionam, quais s&#227;o seus limites, quando confiar e quando duvidar. Saber formular prompts que extraem valor real. Entender vieses algor&#237;tmicos.</p><p><strong>2. Curadoria cr&#237;tica em escala</strong></p><p>A IA permite processar volumes de informa&#231;&#227;o antes imposs&#237;veis. Por&#233;m, processar n&#227;o &#233; entender. O pesquisador de 2026 precisa ser um curador: algu&#233;m que sabe o que perguntar, como filtrar e quando a s&#237;ntese autom&#225;tica est&#225; errada.</p><p><strong>3. Pensamento de sistemas, n&#227;o de tarefas</strong></p><p>A maioria dos pesquisadores usa IA para tarefas isoladas: resumir um artigo, corrigir um texto, traduzir uma se&#231;&#227;o. Poucos pensam em sistemas: como integrar IA no workflow inteiro de pesquisa, da formula&#231;&#227;o do problema &#224; dissemina&#231;&#227;o.</p><p><strong>4. &#201;tica algor&#237;tmica aplicada</strong></p><p>Quem treinou os modelos que voc&#234; usa? Com que dados? Que vieses est&#227;o embutidos? Se voc&#234; usa IA para analisar dados qualitativos, voc&#234; sabe quais pressupostos est&#227;o codificados nas respostas?</p><p><strong>5. Comunica&#231;&#227;o h&#237;brida</strong></p><p>Escrever para humanos E para algoritmos. Entender como SEO acad&#234;mico funciona. Saber que a dissemina&#231;&#227;o cient&#237;fica agora passa por plataformas que t&#234;m suas pr&#243;prias l&#243;gicas de distribui&#231;&#227;o.</p><p><strong>Por que nada disso est&#225; na forma&#231;&#227;o de pesquisadores?</strong></p><p>Porque quem forma pesquisadores &#8212; orientadores, programas de p&#243;s, ag&#234;ncias de fomento &#8212; ainda opera no paradigma de 1997.</p><p>N&#227;o &#233; m&#225; vontade. &#201; in&#233;rcia institucional.</p><p>Os orientadores de hoje foram formados num mundo sem IA. Eles ensinam o que sabem. O problema &#233; que o que sabem j&#225; n&#227;o &#233; suficiente.</p><p>Os programas de p&#243;s-gradua&#231;&#227;o s&#227;o avaliados por m&#233;tricas que premiam volume de publica&#231;&#227;o, n&#227;o inova&#231;&#227;o metodol&#243;gica. Ningu&#233;m ganha ponto na CAPES por &#8220;formar pesquisadores com letramento em IA&#8221;.</p><p>As ag&#234;ncias de fomento pedem &#8220;metodologia inovadora&#8221; nos projetos, mas os pareceristas muitas vezes n&#227;o sabem avaliar o que &#233; uso adequado de IA versus uso superficial.</p><p>Resultado: formamos pesquisadores de 1997 com acesso a ferramentas de 2026.</p><p><strong>O que fazer?</strong></p><p>Se voc&#234; &#233; pesquisador em forma&#231;&#227;o, a responsabilidade &#233; sua. N&#227;o espere que seu orientador te ensine a usar IA &#8212; provavelmente ele est&#225; aprendendo junto com voc&#234; (ou resistindo).</p><p>Algumas sugest&#245;es pr&#225;ticas:</p><ol><li><p><strong>Dedique tempo para entender IA, n&#227;o s&#243; usar.</strong> Leia sobre como LLMs funcionam. Entenda os limites. Isso vai te diferenciar de 90% dos pesquisadores que s&#243; copiam e colam prompts.</p></li><li><p><strong>Documente seus workflows.</strong> Como voc&#234; integra IA na sua pesquisa? Isso j&#225; &#233; contribui&#231;&#227;o metodol&#243;gica. Escreva. Compartilhe.</p></li><li><p><strong>Questione s&#237;nteses autom&#225;ticas.</strong> Sempre. A IA &#233; confiante mesmo quando est&#225; errada. Voc&#234; precisa ser o filtro cr&#237;tico.</p></li><li><p><strong>Experimente al&#233;m do &#243;bvio.</strong> Todo mundo usa IA para &#8220;melhorar texto&#8221;. Poucos usam para gerar hip&#243;teses, identificar lacunas, simular contra-argumentos. Explore.</p></li></ol><p>Se voc&#234; &#233; orientador, a responsabilidade &#233; ainda maior. Voc&#234; est&#225; formando pesquisadores para um mundo que voc&#234; n&#227;o viveu. Humildade &#233; pr&#233;-requisito.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Share Ricardo Limongi&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Share Ricardo Limongi</span></a></p><p><strong>A verdadeira pergunta</strong></p><p>O perfil do pesquisador mudou na era da IA?</p><p>A resposta honesta: deveria ter mudado, mas ainda n&#227;o mudou.</p><p>Estamos usando tecnologia de 2026 com mentalidade de 1997. A lista de habilidades desej&#225;veis permanece a mesma. O que mudou foi o contexto &#8212; e o contexto mudou radicalmente.</p><p>A IA n&#227;o veio para tornar pesquisadores mais eficientes fazendo as mesmas coisas. Veio para permitir que fa&#231;amos coisas diferentes.</p><p>Mas s&#243; vai fazer diferen&#231;a se mudarmos a forma como pensamos pesquisa, como formamos pesquisadores e como avaliamos compet&#234;ncia.</p><p>Enquanto isso n&#227;o acontecer, vamos continuar publicando reportagens sobre &#8220;o perfil do pesquisador contempor&#226;neo&#8221; que poderiam ter sido escritas h&#225; 30 anos.</p><p><strong>Fonte:</strong><br><a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/perfil-desejavel-do-pesquisador/">Revista Pesquisa FAPESP, Edi&#231;&#227;o 23, 1997. &#8220;Perfil desej&#225;vel do pesquisador&#8221; (Carta do Editor).</a></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A ciência está produzindo mais do que nunca. E isso pode não ser um bom sinal.]]></title><description><![CDATA[O que um estudo com 2 milh&#245;es de papers revela sobre o futuro da publica&#231;&#227;o cient&#237;fica]]></description><link>https://ricardolimongi.substack.com/p/a-ciencia-esta-produzindo-mais-do</link><guid isPermaLink="false">https://ricardolimongi.substack.com/p/a-ciencia-esta-produzindo-mais-do</guid><dc:creator><![CDATA[Ricardo Limongi]]></dc:creator><pubDate>Sun, 04 Jan 2026 22:37:35 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Q6Ya!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fcf66999a-8b28-4e75-bb9d-f827d214c24d_1320x1320.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Um estudo publicado na <em>Science</em> em dezembro trouxe um dado que parece &#243;timo &#224; primeira vista: pesquisadores que usam ferramentas de IA, como o ChatGPT, est&#227;o publicando entre 30% e 50% mais artigos do que antes (Kusumegi et al., 2025).</p><p>O ganho &#233; ainda maior para quem n&#227;o fala ingl&#234;s como l&#237;ngua nativa. Pesquisadores asi&#225;ticos, por exemplo, aumentaram sua produ&#231;&#227;o em at&#233; 89% ap&#243;s adotarem essas ferramentas.</p><blockquote><p>Parece democratiza&#231;&#227;o. Parece progresso.</p><p>O problema est&#225; no que vem depois.</p></blockquote><p>Esses mesmos artigos &#8212; bem escritos, fluentes e estruturados &#8212; est&#227;o sendo rejeitados em taxas maiores do que os escritos sem IA. Mesmo quando a escrita &#233; impec&#225;vel, os revisores percebem algo de errado. N&#227;o sabem nomear exatamente o qu&#234;, mas rejeitam (Kusumegi et al., 2025).</p><p>O estudo, conduzido por pesquisadores da Cornell e da Berkeley, analisou mais de 2 milh&#245;es de artigos publicados entre 2018 e 2024. A conclus&#227;o &#233; inc&#244;moda: a IA turbinou a produ&#231;&#227;o, mas n&#227;o a ci&#234;ncia.</p><div class="pullquote"><p>Isso n&#227;o deveria surpreender ningu&#233;m.</p></div><p>O sistema de publica&#231;&#227;o cient&#237;fica foi constru&#237;do sobre uma premissa que funcionou por d&#233;cadas: escrever bem era dif&#237;cil. Exigia anos de pr&#225;tica, dom&#237;nio do idioma, familiaridade com as conven&#231;&#245;es do campo. Revisores sobrecarregados podiam usar a qualidade da escrita como filtro inicial. N&#227;o era perfeito, mas servia.</p><p>A IA acabou com essa premissa.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p>Agora qualquer pessoa pode produzir texto fluente, vocabul&#225;rio sofisticado, estrutura l&#243;gica &#8212; independentemente da qualidade da pesquisa por tr&#225;s. O sinal que antes indicava compet&#234;ncia virou ru&#237;do.</p><p>E os revisores n&#227;o t&#234;m ferramentas para lidar com isso.</p><p>O sistema de revis&#227;o por pares j&#225; estava em colapso antes do ChatGPT. Horta e Jung (2024) descrevem uma crise de sustentabilidade: o volume de submiss&#245;es cresceu 6,1% ao ano entre 2013 e 2016, enquanto o n&#250;mero de artigos publicados subiu apenas 2,6%. Editores relatam precisar convidar entre 10 e 12 revisores para garantir que dois aceitem avaliar um manuscrito.tru</p><p>Os n&#250;meros s&#227;o ainda piores em outros relatos. Emanuele et al. (2025) documentam casos em que editores enviam at&#233; 35 convites para conseguir dois revisores. O tempo m&#233;dio de avalia&#231;&#227;o ultrapassa 100 dias, com manuscritos demorando quase um ano entre a submiss&#227;o e a publica&#231;&#227;o. No Brasil&#8230;ainda mais dif&#237;cil.</p><p>Globalmente, pesquisadores dedicam mais de 100 milh&#245;es de horas por ano &#224; revis&#227;o &#8212; trabalho avaliado em mais de 200 bilh&#245;es de d&#243;lares, mas realizado de gra&#231;a (Aczel et al., 2021). As mesmas editoras que lucram 35-40% de margem dependem de volunt&#225;rios exaustos.</p><blockquote><p>O que acontece quando voc&#234; joga 50% mais submiss&#245;es nesse sistema?</p></blockquote><p>Tr&#234;s cen&#225;rios, todos ruins: revis&#245;es mais superficiais, prazos ainda maiores ou rejei&#231;&#245;es sum&#225;rias em massa. Nenhum resolve o problema. Apenas redistribui o dano.</p><p>A ironia &#233; que quem mais se beneficiaria da tecnologia &#233; quem mais sofre com o sistema.</p><p>Pesquisadores do Sul Global enfrentam barreiras brutais. Precisam de mais tempo para escrever em ingl&#234;s, t&#234;m frequ&#234;ncia 2-3 vezes maior de rejei&#231;&#227;o por quest&#245;es de linguagem e 12 vezes mais pedidos de revis&#227;o relacionados ao idioma (Herd et al., 2025). Um estudo de Chowdhury et al. (2025) com 908 cientistas ambientais revelou que mulheres, n&#227;o-nativos e pesquisadores de pa&#237;ses de baixa renda publicam 70% menos do que seus pares privilegiados.</p><p>A IA poderia nivelar esse campo. Por&#233;m, o que o estudo da <em>Science</em> sugere &#233; diferente: mais submiss&#245;es, sim &#8212; mas com taxas de aceita&#231;&#227;o menores.</p><p>Porque o vi&#233;s n&#227;o est&#225; s&#243; na l&#237;ngua. Est&#225; nos conselhos editoriais, nos crit&#233;rios de avalia&#231;&#227;o, nas suposi&#231;&#245;es sobre o que constitui &#8220;rigor&#8221;. Pesquisadores do Sul Global enfrentam taxas de rejei&#231;&#227;o mais altas e tempos de revis&#227;o mais longos devido a vieses culturais e sub-representa&#231;&#227;o em boards editoriais (Bertram et al., 2025). A IA resolve a escrita. N&#227;o resolve a estrutura.</p><p>Peter Higgs, o f&#237;sico do b&#243;son, disse em 2013 que n&#227;o conseguiria emprego acad&#234;mico hoje &#8212; n&#227;o seria considerado &#8220;produtivo o suficiente&#8221; (Aitkenhead, 2013). Einstein alertou que for&#231;ar cientistas a produzir em grande quantidade cria &#8220;o perigo da superficialidade intelectual&#8221;.</p><blockquote><p>Isso era antes da IA.</p></blockquote><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Share Ricardo Limongi&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Share Ricardo Limongi</span></a></p><p>Agora temos um sistema que premia quantidade porque &#233; f&#225;cil medir, mas n&#227;o consegue avaliar qualidade porque custa tempo e penaliza justamente quem a tecnologia deveria ajudar. Aczel et al. (2025) argumentam que o modelo tradicional de publica&#231;&#227;o entrela&#231;a o avan&#231;o de carreira aos objetivos cient&#237;ficos, o que distorce a integridade da pesquisa.</p><p>Publicar mais n&#227;o &#233; o mesmo que fazer mais ci&#234;ncia.</p><p>A pergunta que ningu&#233;m quer responder &#233;: se a contagem de artigos n&#227;o mede produtividade cient&#237;fica, o que mede?</p><p>Enquanto n&#227;o tivermos resposta, a IA vai continuar turbinando um incentivo que j&#225; era perverso.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! 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Ioannidis, The present and future of peer review: Ideas, interventions, and evidence, Proc. Natl. Acad. Sci. U.S.A. 122 (5) e2401232121, <a href="https://doi.org/10.1073/pnas.2401232121 (2025)">https://doi.org/10.1073/pnas.2401232121 (2025)</a>.</p><p>Aitkenhead, D. (2013, December 6). Peter Higgs: I wouldn&#8217;t be productive enough for today&#8217;s academic system. <em>The Guardian</em>. <a href="https://www.theguardian.com/science/2013/dec/06/peter-higgs-boson-academic-system">https://www.theguardian.com/science/2013/dec/06/peter-higgs-boson-academic-system</a></p><p>Bertram, M. G., et al. (2025). Global North-South science inequalities due to language and funding barriers. <em>Zenodo</em>. <a href="https://doi.org/10.5281/zenodo.14902147">https://doi.org/10.5281/zenodo.14902147</a></p><p>Chowdhury, S., et al. (2025). Global study reveals hidden inequities in research productivity. <em>Monash University</em>. <a href="https://www.monash.edu/science/news-events/news/2025/global-study-reveals-hidden-inequities-in-research-productivity">https://www.monash.edu/science/news-events/news/2025/global-study-reveals-hidden-inequities-in-research-productivity</a></p><p>Emanuele E, Minoretti P. The Peer Review Crisis Demands Radical Reform: Why Reviewers Should Become Paid Professional Referees. Cureus. 2025 Jul 13;17(7):e87817. doi: <a href="https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40799859/10.7759/cureus.87817">https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40799859/10.7759/cureus.87817</a></p><p>Herd, C., et al. (2025). Building research capacity in the Global South: Insights from a scientific writing workshop. <em>Research Square</em>. https://doi.org/10.21203/rs.3.rs-7310084/v1</p><p>Horta, H., &amp; Jung, J. (2024). The crisis of peer review: Part of the evolution of science. <em>Higher Education Quarterly</em>, 78(2), 511-527. <a href="https://doi.org/10.1111/hequ.12511">https://doi.org/10.1111/hequ.12511</a></p><p>Kusumegi, K., Yang, X., Ginsparg, P., de Vaan, M., Stuart, T., &amp; Yin, Y. (2025). Scientific production in the era of large language models. <em>Science</em>, 390(6779), 1240-1243. <a href="https://doi.org/10.1126/science.adw3000">https://doi.org/10.1126/science.adw3000</a></p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! 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E chama isso de política]]></title><description><![CDATA[Sobre APCs, acordos transformativos e o que o Brasil poderia fazer diferente]]></description><link>https://ricardolimongi.substack.com/p/o-brasil-paga-duas-vezes-pela-mesma</link><guid isPermaLink="false">https://ricardolimongi.substack.com/p/o-brasil-paga-duas-vezes-pela-mesma</guid><dc:creator><![CDATA[Ricardo Limongi]]></dc:creator><pubDate>Fri, 02 Jan 2026 21:07:17 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Q6Ya!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fcf66999a-8b28-4e75-bb9d-f827d214c24d_1320x1320.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>A CAPES anunciou com entusiasmo seus &#8220;acordos transformativos&#8221; com grandes editoras cient&#237;ficas. Agora pesquisadores brasileiros podem publicar em acesso aberto na Wiley, Springer Nature, Elsevier e IEEE sem pagar do pr&#243;prio bolso.</p><div class="pullquote"><p>A inten&#231;&#227;o &#233; boa. O problema est&#225; no que n&#227;o se discute.</p></div><p>Para entender a quest&#227;o, &#233; preciso saber como funciona esse mercado. Quando voc&#234; publica um artigo cient&#237;fico, existem basicamente tr&#234;s caminhos. No modelo tradicional, a editora cobra assinaturas de bibliotecas e universidades para que outros possam ler seu trabalho &#8212; voc&#234; n&#227;o paga nada, mas seu artigo fica atr&#225;s de um paywall.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><p>No modelo de acesso aberto &#8220;dourado&#8221;, voc&#234; paga uma taxa de processamento (a famosa APC, Article Processing Charge) para que o artigo fique dispon&#237;vel gratuitamente para todos. Essa taxa varia de US$ 3.000 a US$ 11.000 dependendo do prest&#237;gio do peri&#243;dico.</p><p>E existe um terceiro caminho, menos conhecido no Brasil mas dominante na Am&#233;rica Latina: o acesso aberto &#8220;diamante&#8221;. Nele, ningu&#233;m paga &#8212; nem autor, nem leitor. O financiamento vem de institui&#231;&#245;es p&#250;blicas, universidades e ag&#234;ncias de fomento. O SciELO opera assim h&#225; 27 anos.</p><p>Os acordos da CAPES s&#227;o uma tentativa de combinar os dois primeiros modelos. O Brasil continua pagando as assinaturas do Portal de Peri&#243;dicos e agora paga tamb&#233;m as APCs. A promessa &#233; que isso &#8220;democratiza&#8221; o acesso &#224; produ&#231;&#227;o cient&#237;fica brasileira.</p><p>Mas h&#225; um detalhe inc&#244;modo.</p><p>Um estudo publicado na <em>Scientometrics</em> analisou mais de mil peri&#243;dicos h&#237;bridos da Wiley e concluiu que o aumento de artigos em acesso aberto n&#227;o resultou em redu&#231;&#227;o nos pre&#231;os das assinaturas. Os pesquisadores foram diretos: &#8220;n&#227;o h&#225; como negar que o double dipping ocorre&#8221; (Shu &amp; Larivi&#232;re, 2023).</p><div class="pullquote"><p>Double dipping &#233; quando a editora cobra duas vezes pelo mesmo conte&#250;do &#8212; uma vez para ler, outra para publicar em aberto. &#201; exatamente o que o Brasil est&#225; fazendo agora em escala nacional.</p></div><p>Os n&#250;meros ajudam a dimensionar o problema. A CAPES investiu mais de US$ 43 milh&#245;es em acordos transformativos em 2024 (CAPES, 2024). Esse dinheiro vai para empresas que operam com margens de lucro entre 27% e 38% &#8212; superiores &#224;s da Apple e do Google (Larivi&#232;re et al., 2015). A Elsevier, sozinha, lucrou &#163;3,2 bilh&#245;es em 2024 (Research Professional News, 2025).</p><p>Enquanto isso, o SciELO publica artigos com custo m&#233;dio de US$ 300 a US$ 400 cada (Packer, 2022). &#201; uma fra&#231;&#227;o do que as editoras comerciais cobram.</p><p>A quest&#227;o n&#227;o &#233; se os acordos ajudam pesquisadores individualmente. Ajudam. Um doutorando sem recursos agora pode publicar na Nature Communications sem desembolsar &#8364;5.990. Isso importa.</p><p>A quest&#227;o &#233; se faz sentido transformar esse arranjo em pol&#237;tica de Estado permanente.</p><p>Outros pa&#237;ses fizeram escolhas diferentes. O MIT cancelou seu contrato com a Elsevier em 2020 e permanece sem acordo at&#233; hoje, economizando cerca de US$ 2 milh&#245;es por ano. A diretora de bibliotecas, Chris Bourg, foi clara: &#8220;Esta &#233; tanto a coisa certa a fazer em termos de nossos valores quanto do ponto de vista econ&#244;mico&#8221; (MIT Libraries, 2020).</p><p>A Universidade da Calif&#243;rnia seguiu caminho parecido. Cancelou o contrato em 2019, ficou dois anos sem acesso, e s&#243; voltou a negociar quando conseguiu termos mais favor&#225;veis (University of California, 2021).</p><p>O caso mais emblem&#225;tico &#233; o da Fran&#231;a. O CNRS, maior organiza&#231;&#227;o de pesquisa do pa&#237;s, cancelou a assinatura do Scopus em 2024 e anunciou o fim do acesso ao Web of Science a partir de janeiro de 2026. A economia de &#8364;1,4 milh&#227;o anuais ser&#225; redirecionada para bases de dados abertas como o OpenAlex (CNRS, 2025).</p><p>O vice-diretor cient&#237;fico do CNRS, Alain Schuhl, explicou a decis&#227;o de forma contundente: &#8220;Trabalhamos de gra&#231;a para nos prender coletivamente em um sistema pago, quando todos sabemos de seus vieses e incompletude&#8221; (CNRS, 2025).</p><p>&#201; uma frase que deveria estar pendurada em todas as pr&#243;-reitorias de pesquisa do Brasil.</p><p>A Am&#233;rica Latina, ali&#225;s, j&#225; tinha a resposta antes de a pergunta ser feita. O SciELO foi criado em 1997 &#8212; antes do movimento global de acesso aberto ganhar for&#231;a. Hoje re&#250;ne mais de 1.600 peri&#243;dicos em 13 pa&#237;ses, todos em acesso aberto sem cobrar APCs (Packer, 2022).</p><p>O Redalyc e a AmeliCA complementam esse ecossistema. Juntos, representam a maior infraestrutura de acesso aberto n&#227;o-comercial do mundo. Um estudo da revista <em>Science</em> mostrou que 95% dos peri&#243;dicos latino-americanos s&#227;o de acesso aberto sem taxas para autores (Rodr&#237;guez, 2024).</p><p>O Brasil &#233; l&#237;der global nesse modelo. E est&#225; canalizando recursos p&#250;blicos para o modelo oposto.</p><p>Existe uma explica&#231;&#227;o para isso, e ela passa pela avalia&#231;&#227;o. O sistema Qualis da CAPES ainda privilegia publica&#231;&#245;es em peri&#243;dicos internacionais de alto fator de impacto. E os peri&#243;dicos de alto impacto, em sua maioria, pertencem &#224;s grandes editoras comerciais.</p><p>Isso cria um ciclo vicioso. Pesquisadores precisam publicar em revistas de alto impacto para progredir na carreira. Essas revistas cobram APCs elevadas. O governo paga as APCs. As editoras aumentam suas margens. E a infraestrutura nacional de publica&#231;&#227;o cient&#237;fica continua subfinanciada.</p><p>A Declara&#231;&#227;o de S&#227;o Francisco sobre Avalia&#231;&#227;o de Pesquisa (DORA), assinada por mais de 22 mil pesquisadores e institui&#231;&#245;es em 159 pa&#237;ses, recomenda explicitamente que n&#227;o se use o fator de impacto como proxy de qualidade (DORA, 2012). O CNRS franc&#234;s assinou a DORA em 2019 e reformou seu sistema de avalia&#231;&#227;o. A CAPES brasileira n&#227;o assinou.</p><p>O pr&#243;prio Grupo de Trabalho de Acesso Aberto da CAPES reconheceu, em relat&#243;rio de 2024, &#8220;a comercializa&#231;&#227;o do Acesso Aberto por editoras, que imp&#245;e altos custos de APCs&#8221; e &#8220;a insustentabilidade de um modelo financeiro baseado exclusivamente em APCs&#8221; (CAPES, 2024). Mesmo assim, concluiu que os acordos transformativos s&#227;o &#8220;o caminho mais adequado&#8221; no momento.</p><div class="pullquote"><p>&#201; um diagn&#243;stico correto seguido de uma prescri&#231;&#227;o question&#225;vel.</p></div><p>A cOAlition S, grupo de ag&#234;ncias de fomento europeias que criou o Plan S para acelerar o acesso aberto, anunciou em 2023 o fim do suporte a acordos transformativos ap&#243;s 2024. A justificativa foi direta: &#8220;n&#227;o est&#227;o aumentando a transi&#231;&#227;o para acesso aberto r&#225;pido o suficiente&#8221; (cOAlition S, 2023).</p><p>Um estudo do JISC brit&#226;nico calculou que, no ritmo atual, seriam necess&#225;rios pelo menos 70 anos para que as cinco grandes editoras convertessem seus peri&#243;dicos para acesso aberto completo (Scholarly Kitchen, 2024). &#201; uma transi&#231;&#227;o que n&#227;o transforma nada.</p><p>O Brasil tem uma oportunidade que poucos pa&#237;ses t&#234;m. Possui infraestrutura pr&#243;pria consolidada, expertise acumulada em quase tr&#234;s d&#233;cadas de SciELO, e uma tradi&#231;&#227;o de publica&#231;&#227;o acad&#234;mica n&#227;o-comercial que &#233; refer&#234;ncia mundial.</p><p>A escolha n&#227;o precisa ser bin&#225;ria. &#201; poss&#237;vel manter acordos transformativos como ferramenta de curto prazo enquanto se investe seriamente na infraestrutura nacional. Mas isso exige tr&#234;s movimentos simult&#226;neos.</p><p>Primeiro, estabelecer prazo de validade para os acordos. Eles s&#227;o ponte, n&#227;o destino. A pr&#243;pria cOAlition S j&#225; reconheceu isso.</p><p>Segundo, reformar o sistema de avalia&#231;&#227;o. Enquanto o Qualis premiar publica&#231;&#227;o em peri&#243;dicos de alto impacto sem considerar o modelo de acesso, pesquisadores continuar&#227;o pressionados a alimentar o sistema que os explora. A ades&#227;o formal &#224; DORA seria um sinal importante.</p><p>Terceiro, redirecionar parte dos recursos hoje destinados a APCs para fortalecer o SciELO, os reposit&#243;rios institucionais e os peri&#243;dicos nacionais de qualidade. Se US$ 43 milh&#245;es por ano v&#227;o para editoras com margens de 38%, uma fra&#231;&#227;o desse valor multiplicaria a capacidade de publica&#231;&#227;o brasileira em acesso aberto diamante.</p><p>Abel Packer, diretor do SciELO, colocou a quest&#227;o de forma precisa: &#8220;Se o SciELO pode produzir edi&#231;&#227;o de &#250;ltima gera&#231;&#227;o por US$ 300-400 por artigo, por que acad&#234;micos est&#227;o pagando muito mais para editoras comerciais?&#8221; (Packer, 2022).</p><p>A resposta envolve prest&#237;gio, avalia&#231;&#227;o, incentivos desalinhados e uma certa in&#233;rcia institucional. Mas tamb&#233;m envolve escolhas pol&#237;ticas que podem ser revistas.</p><p>A pol&#237;tica atual resolve um problema real para pesquisadores individuais. Mas ao se consolidar como permanente, transfere bilh&#245;es de reais em recursos p&#250;blicos para um oligop&#243;lio editorial que acad&#234;micos, bibliotec&#225;rios e financiadores ao redor do mundo j&#225; identificaram como insustent&#225;vel.</p><p>O Brasil sabe fazer ci&#234;ncia aberta. Faz isso h&#225; quase 30 anos. A quest&#227;o &#233; se vai continuar liderando ou se vai pagar para que outros liderem por n&#243;s.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Share Ricardo Limongi&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Share Ricardo Limongi</span></a></p><p><strong>O que voc&#234; acha?</strong> A pol&#237;tica de APCs da CAPES deveria ter prazo de validade? Os crit&#233;rios de avalia&#231;&#227;o deveriam mudar para valorizar publica&#231;&#245;es em acesso aberto diamante?</p><p><strong>Refer&#234;ncias</strong></p><p>CAPES. (2024). <em>Portal de Peri&#243;dicos - Acordos Transformativos e Pagamentos de APC</em>. <a href="https://www.periodicos.capes.gov.br/index.php/acessoaberto/acordos-transformativos.html">https://www.periodicos.capes.gov.br/index.php/acessoaberto/acordos-transformativos.html</a></p><p>CNRS. (2025, 1 de dezembro). <em>The CNRS is breaking free from the Web of Science</em>. <a href="https://www.cnrs.fr/en/update/cnrs-breaking-free-web-science">https://www.cnrs.fr/en/update/cnrs-breaking-free-web-science</a></p><p>cOAlition S. (2023). <em>Transformative Agreements - Statement on support beyond 2024</em>. <a href="https://www.coalition-s.org/">https://www.coalition-s.org/</a></p><p>DORA. (2012). <em>San Francisco Declaration on Research Assessment</em>. <a href="https://sfdora.org/read/">https://sfdora.org/read/</a></p><p>Larivi&#232;re, V., Haustein, S., &amp; Mongeon, P. (2015). The oligopoly of academic publishers in the digital era. <em>PLOS ONE</em>, <em>10</em>(6), e0127502. <a href="https://doi.org/10.1371/journal.pone.0127502">https://doi.org/10.1371/journal.pone.0127502</a></p><p>MIT Libraries. (2020). <em>MIT, guided by open access principles, ends Elsevier negotiations</em>. <a href="https://libraries.mit.edu/news/">https://libraries.mit.edu/news/</a></p><p>Research Professional News. (2025, fevereiro). Elsevier parent company reports 10% rise in profit, to &#163;3.2bn. <em>Research Professional News</em>. <a href="https://www.researchprofessionalnews.com/rr-news-world-2025-2-elsevier-parent-company-reports-10-rise-in-profit-to-3-2bn/">https://www.researchprofessionalnews.com/rr-news-world-2025-2-elsevier-parent-company-reports-10-rise-in-profit-to-3-2bn/</a></p><p>Rodr&#237;guez, L. (2024). Latin American journals are open-access pioneers. Now, they need an audience. <em>Science</em>. <a href="https://www.science.org/content/article/latin-american-journals-are-open-access-pioneers-now-they-need-audience">https://www.science.org/content/article/latin-american-journals-are-open-access-pioneers-now-they-need-audience</a></p><p>Scholarly Kitchen. (2024, 4 de abril). Transitional agreements aren&#8217;t working: What comes next? <em>The Scholarly Kitchen</em>. <a href="https://scholarlykitchen.sspnet.org/2024/04/04/transitional-agreements-arent-working-what-comes-next/">https://scholarlykitchen.sspnet.org/2024/04/04/transitional-agreements-arent-working-what-comes-next/</a></p><p>Shu, F., &amp; Larivi&#232;re, V. (2023). Does double dipping occur? The case of Wiley&#8217;s hybrid journals. <em>Scientometrics</em>, <em>128</em>, 4151&#8211;4168. <a href="https://doi.org/10.1007/s11192-023-04800-8">https://doi.org/10.1007/s11192-023-04800-8</a></p><p>University of California. (2021). <em>UC and Elsevier: FAQs</em>. Office of Scholarly Communication. <a href="https://osc.universityofcalifornia.edu/uc-publisher-relationships/uc-and-elsevier/">https://osc.universityofcalifornia.edu/uc-publisher-relationships/uc-and-elsevier/</a></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Ainda precisamos de Guias de Uso de IA na Pesquisa Científica? ]]></title><description><![CDATA[Durante uma palestra, um professor me fez uma pergunta que, talvez, mostre que errando na discuss&#227;o sobre IA na pesquisa:]]></description><link>https://ricardolimongi.substack.com/p/ainda-precisamos-de-guias-de-uso</link><guid isPermaLink="false">https://ricardolimongi.substack.com/p/ainda-precisamos-de-guias-de-uso</guid><dc:creator><![CDATA[Ricardo Limongi]]></dc:creator><pubDate>Tue, 30 Dec 2025 19:30:37 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ltJu!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Feb624b03-0b7b-4115-b0d2-10184d3438f9_1410x602.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Durante uma palestra, um professor me fez uma pergunta que, talvez, mostre que errando na discuss&#227;o sobre IA na pesquisa:</p><blockquote><p>&#8220;Pedi ao ChatGPT para indicar um artigo para meu orientando. Descobri depois que o artigo n&#227;o existia. A IA alucinava. </p></blockquote><p>Minha resposta foi: <em>&#8220;Em que momento podemos confiar na m&#225;quina?&#8221;</em> A resposta: &#8220;<em>Em nenhum momento somos pesquisadores; verificar informa&#231;&#245;es &#233; literalmente o nosso trabalho.&#8221;</em></p><p>Por&#233;m, essa pergunta revela algo mais profundo. Tr&#234;s anos depois do lan&#231;amento de ChatGPT, temos dezenas de guias, diretrizes e pol&#237;ticas editoriais sobre uso de IA. Voc&#234; certamente j&#225; leu alguns. E mesmo assim, a pergunta persiste.</p><p><strong>O problema n&#227;o &#233; falta de guia. O problema &#233; que os guias n&#227;o est&#227;o resolvendo o que precisam resolver. No primeiro momento, foi fundamental; agora, precisamos ir al&#233;m.</strong></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe now&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/subscribe"><span>Subscribe now</span></a></p><div><hr></div><h2>O consenso que j&#225; temos</h2><p>Fui coautor de um guia sobre IA na pesquisa. Dei palestras em diversos cursos e institui&#231;&#245;es sobre o tema. Conhe&#231;o bem essa literatura. Posso afirmar: chegamos a um consenso. Olhe as pol&#237;ticas das principais editoras e organiza&#231;&#245;es internacionais:</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ltJu!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Feb624b03-0b7b-4115-b0d2-10184d3438f9_1410x602.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ltJu!, /__u/ricardolimongi.substack.com/w_424, /__u/ricardolimongi.substack.com/c_limit, /__u/ricardolimongi.substack.com/f_webp, /__u/ricardolimongi.substack.com/q_auto:good, /__u/ricardolimongi.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Feb624b03-0b7b-4115-b0d2-10184d3438f9_1410x602.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ltJu!, /__u/ricardolimongi.substack.com/w_848, 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data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/eb624b03-0b7b-4115-b0d2-10184d3438f9_1410x602.png&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:602,&quot;width&quot;:1410,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:89780,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/i/182978822?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Feb624b03-0b7b-4115-b0d2-10184d3438f9_1410x602.png&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ltJu!, /__u/ricardolimongi.substack.com/w_424, /__u/ricardolimongi.substack.com/c_limit, /__u/ricardolimongi.substack.com/f_auto, 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xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p><em>Fontes: COPE Position Statement (2024); ICMJE Recommendations (2024); Pol&#237;ticas editoriais atualizadas em 2025.</em></p><p>Os guias fizeram seu trabalho. Estabeleceram um piso &#233;tico. Criaram regras claras sobre autoria, transpar&#234;ncia e responsabilidade. Isso era necess&#225;rio&#8212;e foi feito. Por&#233;m, como coloquei na tabela, est&#227;o dizendo, essencialmente, o mesmo. Um pesquisador que leu um guia leu todos.</p><p><strong>E &#233; a&#237; que mora o problema: os novos guias n&#227;o est&#227;o trazendo novidades. Est&#227;o apenas reorganizando o que j&#225; sabemos.</strong></p><div><hr></div><h2>O que os guias n&#227;o resolvem</h2><p>Nas minhas palestras, percebo algo recorrente: professores e alunos est&#227;o conduzindo as discuss&#245;es e implementando as pol&#237;ticas. Mas o receio quanto ao preju&#237;zo na forma&#231;&#227;o e na avalia&#231;&#227;o de trabalhos n&#227;o diminuiu.</p><p>Por qu&#234;? Porque os guias respondem &#8220;o que fazer&#8221;, mas n&#227;o ensinam &#8220;como pensar&#8221;.</p><p>Veja o caso do professor que abriu este texto. Ele conhece as regras. Sabe que n&#227;o pode listar IA como autora, que precisa declarar uso, que &#233; respons&#225;vel pelo conte&#250;do. Mesmo assim, usou o ChatGPT para buscar refer&#234;ncias&#8212;uma tarefa que a ferramenta faz mal&#8212;e n&#227;o verificou o resultado.</p><p>O problema n&#227;o era ignor&#226;ncia das regras. Era falta de um modo diferente de raciocinar sobre quando, como e para que usar a ferramenta.</p><div><hr></div><h2>O que dever&#237;amos estar discutindo</h2><p>A literatura acad&#234;mica j&#225; est&#225; apontando para quest&#245;es que os guias nem tocam:</p><p><strong>1. A mudan&#231;a epistemol&#243;gica</strong></p><p>Um artigo recente na revista <em>AI &amp; Society</em> argumenta que a IA n&#227;o &#233; apenas uma nova ferramenta metodol&#243;gica&#8212;&#233; uma transforma&#231;&#227;o na pr&#243;pria estrutura do conhecimento cient&#237;fico. A IA desafia paradigmas cl&#225;ssicos como o falsificacionismo, proposto por Karl Popper, e a observa&#231;&#227;o carregada de teoria.</p><p>Traduzindo: os guias falam de transpar&#234;ncia no uso. Mas ningu&#233;m est&#225; perguntando se a IA muda o que conta como &#8220;descoberta&#8221; ou &#8220;evid&#234;ncia&#8221;.</p><p><strong>2. A invers&#227;o do processo</strong></p><p>Pesquisadores est&#227;o propondo o conceito de &#8220;epistemologia adaptativa&#8221;: antes, o pesquisador coletava dados e conclu&#237;a. Agora, a atividade cr&#237;tica est&#225; na formula&#231;&#227;o de perguntas&#8212;o que alguns chamam de &#8220;l&#243;gica de constru&#231;&#227;o de prompts&#8221;.</p><p>Traduzindo: os guias ensinam a declarar o uso. Mas n&#227;o ensinam a formular boas perguntas para sistemas de IA.</p><p><strong>3. O quinto paradigma</strong></p><p>H&#225; quem defenda que, depois do emp&#237;rico, do te&#243;rico, do computacional e do data-driven, estamos entrando num quinto paradigma cient&#237;fico: a pesquisa inteligente (<a href="https://arxiv.org/abs/2507.01903">AI4R</a>), em que a IA &#233; parte constitutiva do processo.</p><p>Traduzindo: os guias tratam a IA como uma ferramenta auxiliar. Por&#233;m, e se ela for um novo modo de fazer ci&#234;ncia?</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Share Ricardo Limongi&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/ricardolimongi.substack.com/?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Share Ricardo Limongi</span></a></p><div><hr></div><h2>O que precisamos agora</h2><p>N&#227;o estou dizendo que os guias n&#227;o s&#227;o mais &#250;teis. Eles criaram o vocabul&#225;rio b&#225;sico, as regras m&#237;nimas, o terreno comum. Isso era necess&#225;rio.</p><p>Por&#233;m, tr&#234;s anos depois, precisamos avan&#231;ar. Algumas perguntas que dever&#237;amos estar discutindo:</p><ul><li><p><strong>Literacia algor&#237;tmica:</strong> Como formar pesquisadores que saibam n&#227;o apenas <em>usar</em> IA, mas <em>pensar criticamente</em> sobre ela?</p></li><li><p><strong>Epistemologia da IA:</strong> Quando um resultado &#233; &#8220;descoberto&#8221; por voc&#234; ou pelo algoritmo? Isso muda a natureza da contribui&#231;&#227;o?</p></li><li><p><strong>Pr&#225;ticas situadas:</strong> Em vez de regras universais, como desenvolver um julgamento contextual sobre quando e como usar IA em diferentes etapas da pesquisa?</p></li><li><p><strong>Forma&#231;&#227;o de orientadores:</strong> Como preparar professores para avaliar trabalhos que usaram IA sem cair no p&#226;nico ou na ingenuidade?</p></li></ul><div><hr></div><h2>Um convite para voc&#234;</h2><p>Estou come&#231;ando esta newsletter porque acredito que a discuss&#227;o sobre IA e pesquisa precisa ir al&#233;m dos guias. N&#227;o contra eles&#8212;al&#233;m deles.</p><p>Se voc&#234; &#233; pesquisador, orientador, gestor ou estudante que sente que as diretrizes existentes n&#227;o est&#227;o dando conta da realidade, esta conversa &#233; para voc&#234;.</p><p>Nas pr&#243;ximas edi&#231;&#245;es, vou explorar essas quest&#245;es trazendo pesquisas recentes, casos pr&#225;ticos e, principalmente, perguntas que ainda n&#227;o t&#234;m resposta.</p><p><strong>O que voc&#234; acha? Os guias ainda s&#227;o suficientes para a sua realidade? O que falta na discuss&#227;o?</strong></p><p>Comente aqui ou me manda uma mensagem. Quero construir isso com voc&#234;.<br><br><br><strong>Refer&#234;ncias citadas:</strong></p><ul><li><p>COPE Council. (2024). <em>COPE Position Statement: Authorship and AI</em>. <a href="https://publicationethics.org/cope-position-statements/ai-author">https://publicationethics.org/cope-position-statements/ai-author</a></p></li><li><p>ICMJE. (2024). <em>Recommendations for the Conduct, Reporting, Editing, and Publication of Scholarly Work in Medical Journals</em>.  https://www.icmje.org</p></li><li><p>Cruz-Aguilar, M. A. (2025). The epistemic revolution of AI: reconfiguring the foundations of scientific knowledge. <em>AI &amp; Society</em>. https://doi.org/10.1007/s00146-025-02658-3</p></li><li><p>Elsevier. (2025). <em>Generative AI policies for journals</em>. <a href="https://www.elsevier.com/about/policies-and-standards/generative-ai-policies-for-journals">https://www.elsevier.com/about/policies-and-standards/generative-ai-policies-for-journals</a></p></li><li><p>Springer Nature. (2025). <em>Editorial Policies: Artificial Intelligence</em>.</p></li><li><p>Wiley. (2025). <em>AI Guidelines for Authors</em>.</p></li><li><p>SAGE. (2025). <em>Artificial Intelligence Policy</em>.</p></li></ul><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ricardolimongi.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p></p>]]></content:encoded></item></channel></rss>