<script data-pm-proxy="intercept"></script><?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Rita Poças]]></title><description><![CDATA[não me levem mesmo nada a sério]]></description><link>https://ritapocasp.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!BXDl!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F73f7d2cc-f593-44b0-8b60-30737e6ea907_1032x1032.png</url><title>Rita Poças</title><link>https://ritapocasp.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Wed, 02 Sep 2026 22:45:00 GMT</lastBuildDate><atom:link href="/__u/ritapocasp.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Rita Poças]]></copyright><language><![CDATA[en]]></language><webMaster><![CDATA[ritapocasp@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[ritapocasp@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Rita Poças]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Rita Poças]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[ritapocasp@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[ritapocasp@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Rita Poças]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[Texto rápido sobre a Grécia - azul]]></title><description><![CDATA[Se fechar os olhos, vejo e cheiro o azul da ilha, como se tivesse acabado de desembarcar em Milos.]]></description><link>https://ritapocasp.substack.com/p/texto-rapido-sobre-a-grecia-azul</link><guid isPermaLink="false">https://ritapocasp.substack.com/p/texto-rapido-sobre-a-grecia-azul</guid><dc:creator><![CDATA[Rita Poças]]></dc:creator><pubDate>Mon, 31 Aug 2026 10:43:07 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!BXDl!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F73f7d2cc-f593-44b0-8b60-30737e6ea907_1032x1032.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Se fechar os olhos, vejo e cheiro o azul da ilha, como se tivesse acabado de desembarcar em Milos. Ainda por cima, o azul &#233; a minha cor preferida e, assim comprovado j&#225; no final da minha adolesc&#234;ncia, o azul &#233; mesmo a cor mais quente.</p><p>Levei a Agustina para ler, mas relembraram-me da viagem Delas j&#225; estava eu na Gr&#233;cia e n&#227;o pude pensar noutra coisa durante umas horas. N&#227;o tinha nenhum livro da Sophia, que falha, pensei eu. <em>Pausa.</em> Sorte a minha, voltei a pensar, Sophia &#233; um anjo na minha cabe&#231;a e aparece-me nos momentos em que mais preciso. <em>Pausa. </em>Desculpe, pensei eu a dobrar, por n&#227;o trazer um livro comigo e por n&#227;o concordar com Ela. Ao contr&#225;rio de mim, as praias n&#227;o a conquistaram e eu at&#233; entendo, para quem se habitua &#224; Granja, uma praia de &#225;guas paradas e quentes parece, no m&#237;nimo, aborrecida. Mas Sophia, pensei eu, estar no meio daquela transpar&#234;ncia toda, t&#227;o salgada que o corpo flutua sem esfor&#231;o, ver o tanto azul a contrastar com o tanto branco da pedra lunar e fazer todos os esfor&#231;os para n&#227;o contaminar a beleza com a minha figura humana e desempenhar a minha &#250;nica fun&#231;&#227;o, ficar a olhar. Nas praias do norte n&#227;o d&#225; para ser espectador dentro de &#225;gua, sen&#227;o afogo-me.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Dor mas é verão]]></title><description><![CDATA[Tenho a dor sentada &#224; minha frente na mesa, &#224; espera que lhe d&#234; comida &#224; boca.]]></description><link>https://ritapocasp.substack.com/p/dor-mas-e-verao</link><guid isPermaLink="false">https://ritapocasp.substack.com/p/dor-mas-e-verao</guid><dc:creator><![CDATA[Rita Poças]]></dc:creator><pubDate>Tue, 30 Jun 2026 11:26:07 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!BXDl!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F73f7d2cc-f593-44b0-8b60-30737e6ea907_1032x1032.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Tenho a dor sentada &#224; minha frente na mesa, &#224; espera que lhe d&#234; comida &#224; boca. Ainda por cima &#233; pregui&#231;osa e recusa-se a aprender a comer sozinha, aparece quando n&#227;o tem mais nada para fazer e ningu&#233;m lhe liga nenhuma. </p><p>Eu aceito, s&#243; n&#227;o venhas para o meu colo, doem-me as pernas e ando cansada, ser feliz tamb&#233;m cansa, principalmente se andas sempre atr&#225;s de mim. J&#225; disse que n&#227;o tenho trocos, n&#227;o te consigo dar nada.</p><p>Olho para o rel&#243;gio e vejo as horas e os minutos iguais e pe&#231;o um desejo, uma vez disseram-me que era magia e quem sou eu para contrariar. Fecho os olhos com muita for&#231;a e tento ser concreta no que pe&#231;o, sempre foi um problema para mim, por isso sou vaga no desejo, mas digo para mim com a voz da minha cabe&#231;a, que sei bem o que quero apesar de n&#227;o estar a dizer. Pelo que sei, os desejos n&#227;o se podem dizer a ningu&#233;m e, assim sendo, opto por n&#227;o dizer nem a mim pr&#243;pria. Quando volto a abrir os olhos &#233; que a vejo ali sentada, a cobi&#231;ar o meu almo&#231;o e os meus desejos. Penso que s&#227;o alucina&#231;&#245;es de luz, costumam acontecer quando se tem os olhos fechados durante algum tempo e depois abrimos e est&#225; muita claridade. </p><p>J&#225; te dou, n&#227;o estou assim com tanta fome, o que sobrar fica para ti. Ou dividimos a sobremesa.</p><p>Fazemos assim: marcamos almo&#231;o semanal aqui, hoje &#233; que me apanhaste de surpresa, a cozinha j&#225; est&#225; a fechar e n&#227;o consigo pedir nada para ti. Em minha casa n&#227;o, a s&#233;rio. Mais para o inverno, sim. Agora est&#225; calor e est&#225; sol, se queres companhia e fazer-me chorar, &#233; muito melhor numa esplanada.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[pequena reflexão graças a Anne Carson]]></title><description><![CDATA[&#8220;Walking home alone was always my favorite part of sex&#8221;.]]></description><link>https://ritapocasp.substack.com/p/pequena-reflexao-gracas-a-anne-carson</link><guid isPermaLink="false">https://ritapocasp.substack.com/p/pequena-reflexao-gracas-a-anne-carson</guid><dc:creator><![CDATA[Rita Poças]]></dc:creator><pubDate>Mon, 11 May 2026 13:24:09 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!BXDl!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F73f7d2cc-f593-44b0-8b60-30737e6ea907_1032x1032.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><em>&#8220;Walking home alone was always my favorite part of sex&#8221;. </em>&#201; uma frase de uma hist&#243;ria (como dizem os americanos) chamada &#8220;Missing Sheep&#8221; de Anne Carson, publicada em agosto de 2025 no The New Yorker. Nessa mesma hist&#243;ria tamb&#233;m se l&#234;: &#8220;<em>I hate nostalgia. Perhaps acting in innately nostalgic &#8211; nostalgic for human suffering, which used to be real somewhere else.&#8221;</em> &#201; t&#227;o clara a contradi&#231;&#227;o e, por isso, a beleza do texto: a imagem da primeira frase, caminhar sozinha para casa &#224;s 4 da manh&#227;, n&#227;o depois de fazer sexo, mas o caminho como parte fundamental desse ritual &#233;, para mim, verdadeiramente nost&#225;lgica.</p><p>N&#227;o que seja relevante concordar com alguma coisa, mas ela est&#225; certa sobre o que &#233; <em>to act</em>. (A dificuldade de traduzir este verbo que me parece em cheio, porque n&#227;o &#233; representar, &#233; precisamente agir ou atuar: a a&#231;&#227;o &#233; necess&#225;ria e o verbo representar n&#227;o obriga a esse movimento.) Acrescento, num rasgo de coragem, &#233; por isso que quero ser atriz &#8211; porque a nostalgia devolve-me um sentido e eu preciso de sentir<em> o que j&#225; foi real noutro lugar</em>. N&#227;o &#233; que ame a nostalgia nem que a odeie, como a Anne, mas &#233; nesta confus&#227;o que reside a dificuldade (e, ent&#227;o, o prazer) de atuar &#8211; no palco e de agir &#8211; na vida, a nostalgia faz-nos suspender num tempo vago e, tanto a viver como no teatro, o concreto &#233; a ponte que est&#225; em falta.</p><p>Caminhar para casa de madrugada a sair de uma outra casa de algu&#233;m, &#233; o momento que nos traz de volta a n&#243;s e deciframos se o que aconteceu foi real e se o teatro come&#231;a agora ou acabou de acabar.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Eu? Nunca!]]></title><description><![CDATA[Ando com um peso nas costas e fico com dores.]]></description><link>https://ritapocasp.substack.com/p/eu-nunca</link><guid isPermaLink="false">https://ritapocasp.substack.com/p/eu-nunca</guid><dc:creator><![CDATA[Rita Poças]]></dc:creator><pubDate>Mon, 04 May 2026 10:37:34 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!BXDl!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F73f7d2cc-f593-44b0-8b60-30737e6ea907_1032x1032.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Ando com um peso nas costas e fico com dores. Muita gente pode pensar que &#233; uma coisa ligeira e pouco pesada, mas eu sou sens&#237;vel &#224; dor. <br>At&#233; h&#225; uns anos, gabava-me de que n&#227;o gostava de mexericos e n&#227;o falava da vida das pessoas, mas tudo mudou e eu j&#225; n&#227;o sou assim. Por vezes ainda me gabo, mas estou a mentir. Ultimamente, parece-me que estou sempre a falar mal nas costas das pessoas e quando chego &#224; noite, na cama, demoro a adormecer com o peso na consci&#234;ncia. (Ser&#225; que podia justificar com a pandemia? <em>At&#233; h&#225; uns anos, gabava-me de que n&#227;o gostava de mexericos e n&#227;o falava da vida das pessoas, </em>mas tudo mudou p&#243;s pandemia<em> </em>ou <em>At&#233; h&#225; uns anos, gabava-me de que n&#227;o gostava de mexericos e n&#227;o falava da vida das pessoas, </em>mas a pandemia fez-me p&#244;r tudo em perspectiva.)</p><p>Para os mais distra&#237;dos deixo este recado: as pessoas, frequentemente, baralham-se e pensam que a consci&#234;ncia &#233; na cabe&#231;a, mas est&#227;o enganadas. A consci&#234;ncia &#233; nas costas e, por isso, as express&#245;es &#8220;saiu-me um peso de cima&#8221; &#8211; que associamos &#224;s costas, como referi no in&#237;cio &#8211; e &#8220;peso na consci&#234;ncia&#8221; andam de m&#227;os dadas, ou seja, precisamos de uma massagem relaxante nas costas para tirar os n&#243;s da consci&#234;ncia ou, <em>sometimes</em>, apenas dizer &#8220;fui eu, desculpa&#8221;.</p><p>Sobre as teorias acerca da import&#226;ncia da fofoca, se um homem nos d&#225; um beijo no ombro n&#227;o solicitado em contexto de trabalho, podemos e devemos falar mal dele nas costas, tudo o que n&#227;o tivemos coragem de dizer na cara, porque a &#250;nica coisa que nos saiu foi um ligeiro sorriso &#8211; ou uma gargalhada desmedida resultante de nervos descompensados. N&#227;o &#233; com estas que me sinto mal. Aqui orgulho-me em ser uma sonsa na cara e uma cabra nas costas, faz parte da minha luta para sobreviver.</p><p>N&#227;o gosto de algumas pessoas e, nos &#250;ltimos tempos, j&#225; lhes chamei nomes em conversas com amigos. H&#225; necessidade? Eu sempre quis ser amada por toda a gente, sempre chorei quando falavam mal de mim e agora ando nisto. Pode ser um sinal de que agora j&#225; n&#227;o ligo tanto a <em>estas coisas. </em>Falo mal por falar e podem tamb&#233;m falar de mim.</p><p>Para aliviar a minha dor de costas, preciso de desvendar o limite da m&#225;-l&#237;ngua: at&#233; que ponto posso julgar as a&#231;&#245;es dos outros para n&#227;o se tornar pessoal ou n&#227;o tem mal nenhum tornar-se pessoal? &#201; que eu sou uma putinha quando me deixo ir, entro em territ&#243;rios torcidos, <em>&#201; que ele s&#243; pode ter um problema mental.</em> E depois chamo os meus amigos para me sentir melhor com o que acabei de dizer, <em>N&#227;o acham? </em>Esta frase &#8211; com todos os problemas &#243;bvios que oferece &#8211; &#233; o reflexo da minha sonsice enquanto falo nas costas de algu&#233;m, tento mostrar que quero justificar as atitudes do sujeito visado, uma vez que as considero t&#227;o reprov&#225;veis e, por isso, alego que a pessoa n&#227;o pode estar bem para fazer uma coisa destas. Tudo isto, porque eu seria incapaz de fazer algo desta natureza t&#227;o reprov&#225;vel.</p><p>Eu n&#227;o estou a <em>ligar menos a estas coisas</em>, eu estou &#233; a come&#231;ar a pensar que sou moralmente superior a alguns mortais, s&#243; pode. <em>Op&#225;</em>, &#233; que h&#225; erros que n&#227;o se cometem duas vezes, pelo amor de Deus, desculpem l&#225;, &#233; preciso vergonha na cara. N&#227;o acham?</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA["The lunatic is in my head"]]></title><description><![CDATA[Hoje acordei e seguiu-se o triste h&#225;bito de colar o telem&#243;vel &#224; cara para ter a certeza de que come&#231;o o dia de m&#227;os dadas com o mundo.]]></description><link>https://ritapocasp.substack.com/p/the-lunatic-is-in-my-head</link><guid isPermaLink="false">https://ritapocasp.substack.com/p/the-lunatic-is-in-my-head</guid><dc:creator><![CDATA[Rita Poças]]></dc:creator><pubDate>Tue, 07 Apr 2026 10:01:30 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!BXDl!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F73f7d2cc-f593-44b0-8b60-30737e6ea907_1032x1032.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Hoje acordei e seguiu-se o triste h&#225;bito de colar o telem&#243;vel &#224; cara para ter a certeza de que come&#231;o o dia de m&#227;os dadas com o mundo. S&#243; pode ser por isso que o fa&#231;o, pelo medo de desaparecer, para n&#227;o perder pitada, deus me livre de acordar desligada do mundo durante uma hora. Mais um dia deste meu ritual sagrado e descubro que a Artemis II j&#225; chegou ao outro lado e que foram ditas as palavras &#8220;See you on the other side&#8221;. Fiquei fodida.</p><p>N&#227;o tive outra alternativa se n&#227;o ir ouvir o Dark Side Of The Moon todo. Olhei atentamente para aquela capa de &#225;lbum e pensei <em>aqueles astronautas s&#227;o mais velhos do que eu, nunca ouviram o &#225;lbum? N&#227;o era preciso terem ido l&#225; para saber o que &#233;</em>. As pessoas ficam obcecadas com as provas emp&#237;ricas, mas a ci&#234;ncia estraga tudo e n&#227;o resolve os nossos problemas existenciais.</p><p>Vou ficar com um aperto no peito o resto do dia. Escusam de me estar j&#225; a acusar, eu consigo ouvir os vossos murmurinhos, por isso admito antes de me ca&#237;rem em cima, eu estou cheia de inveja, sim. Devia ter 11 anos e tamb&#233;m sa&#237; do meu quarto a correr, fui &#224; sala onde estavam os meus pais e gritei <em>j&#225; sei, vou ser astr&#243;noma. </em>Nem era astronauta, era mesmo astr&#243;noma, eu queria ser a cabe&#231;a daqueles aventureiros e sem mim eles n&#227;o iam a lado nenhum &#8211; ser medricas &#233; uma condi&#231;&#227;o cr&#243;nica, d&#225; para aliviar os sintomas, mas est&#225; sempre connosco; possuir raiva de cientistas corajosos pode ser uma consequ&#234;ncia. O aperto que sinto n&#227;o &#233; sobre os astronautas, mas porque n&#227;o queria chegar &#224; triste conclus&#227;o de que a humanidade vai descobrir todos os desconhecidos, fartou-se de divagar sobre o mist&#233;rio, j&#225; n&#227;o se contenta com isso. Pois, j&#225; eu. A divaga&#231;&#227;o &#233; das coisas mais belas de estar vivo; pensar para n&#227;o chegar a conclus&#227;o nenhuma e, por isso, imaginar. Que tarde perfeita! <em>No que &#233; que est&#225;s a pensar? </em>E ser imposs&#237;vel de responder.</p><p>Eu precisava que me prometessem que a Lua vai continuar a ser dos poetas e dos apaixonados, apesar de sabermos que &#233; seca e as crateras afinal n&#227;o s&#227;o uma cara com um mon&#243;culo e que afinal o lado escuro &#233; muito parecido com o que se v&#234;. Nem a Lua pode ter nada a esconder nos dias que correm. </p><p>A humanidade j&#225; come&#231;ava a sentir que estava a fazer figura de parva, queria desmascarar-te, saber o que andavas a esconder, mas tu continuavas a sussurrar baixinho e ningu&#233;m te ouvia: <em>eu s&#243; sou mentirosa do vosso ponto de vista.</em></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Old Parr de pêssego ou limão]]></title><description><![CDATA[O Av&#244; a abrir o arm&#225;rio do bar.]]></description><link>https://ritapocasp.substack.com/p/old-parr-de-pessego-ou-limao</link><guid isPermaLink="false">https://ritapocasp.substack.com/p/old-parr-de-pessego-ou-limao</guid><dc:creator><![CDATA[Rita Poças]]></dc:creator><pubDate>Wed, 18 Mar 2026 13:30:30 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!BXDl!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F73f7d2cc-f593-44b0-8b60-30737e6ea907_1032x1032.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>O Av&#244; a abrir o arm&#225;rio do bar. Tinha uma porta igual &#224; escrivaninha do meu quarto, rodava-se a chave e abria-se uma prateleira, s&#243; que em vez de estarem os meus livros da escola, estavam os destilados preferidos dele. E eu, com cinco ou seis anos, a observar de olhos brilhantes este homem meu av&#244;, de olhos cinzentos de mais ningu&#233;m e cara de sardas, que herdei quando os anos come&#231;aram a passar mais depressa.</p><p>Decorava-lhe a rotina antes da sesta e implorava sem falar para me incluir nesse ritual. Abrir o arm&#225;rio, tirar o Old Parr, dois copos e os cajus, que s&#227;o colocados numa tacinha verde com fundo branco, ainda antes de irem para a mesa. Assim fic&#225;vamos os dois, frente a frente, com os cajus e o Old Parr a dividirem a mesa. <em>Tamb&#233;m queres? Vou servir na cozinha para n&#227;o sujar, fica a&#237;.</em> E levava os copos e a garrafa para a cozinha, para eu n&#227;o ver o que era servido. <em>Tens de beber devagar, &#233; assim que se bebe estas bebidas. Isso. Gostas? </em>Whisky foi a minha bebida preferida at&#233; aos quinze anos. </p><p>O Av&#244; n&#227;o aguentava muito tempo sentado &#224; mesa. Eu deixava-me l&#225; ficar, para espiar todos os seus movimentos enquanto se recostava no cadeir&#227;o e sacava do jornal. <em>Tens um a&#237; em cima da mesa, tamb&#233;m podes ler</em>. Obedecia e, com a t&#233;cnica do primeiro ano de escola, tentava ler as folhas do tamanho do meu corpo e as letras a parecerem-se com formigas como quando v&#237;amos o ch&#227;o de p&#233;. Demorei muitos anos a perceber o que se dizia nos jornais, escrevia-se de uma maneira diferente, eu juntava as letras e as palavras como tinha aprendido, mas n&#227;o havia maneira de encontrar sentido nas frases. Di&#225;rio de Not&#237;cias e nada se assemelhava aos Di&#225;rios guardados na minha escrivaninha. O mundo sempre encontrou prazer em enganar-me.</p><p>Ser velha era tudo o que eu queria. N&#227;o entendia porque &#233; que na escola e em todo o lado nos diziam para tratarmos os <em>idosos</em> com carinho e com muito respeitinho, porque eles precisavam de muitos cuidados. Estar na escola &#233; que era lixado, discutir com as minhas amigas nos intervalos e magoar a Maria, que sempre pensou ser a minha melhor amiga n&#250;mero um, mas eu nunca fui nada boa com tabelas, por isso, n&#227;o sei, desculpa, por mim v&#227;o todas para primeiro; fazer a tabuada tantas tantas vezes e levar com um berro da professora Berta sempre que errava. Ela podia dizer o que quisesse e como quisesse e ningu&#233;m a mandava para o quarto de castigo. Ser velho era f&#225;cil e era livre, o Av&#244; andava a ensinar-me: almo&#231;ar sempre o que se quer, permanecer sentado porque os pais n&#227;o obrigam a levantar a mesa, beber whisky sem autoriza&#231;&#227;o, comer cajus sem ficar com dores de barriga e adormecer com o jornal na m&#227;o, sem testes de interpreta&#231;&#227;o a seguir.</p><p>Hoje acordei e perdi a vontade de ser velha. O mundo gozou comigo outra vez, afinal ter seis anos &#233; que &#233; bom e agora j&#225; n&#227;o tenho uma professora a gritar, para me dizer o que est&#225; certo. Algu&#233;m me desenrasca um whisky com sabor a Iced Tea?</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Punk é DIY]]></title><description><![CDATA[Ando a pensar muito no punk.]]></description><link>https://ritapocasp.substack.com/p/punk-e-diy</link><guid isPermaLink="false">https://ritapocasp.substack.com/p/punk-e-diy</guid><dc:creator><![CDATA[Rita Poças]]></dc:creator><pubDate>Mon, 09 Mar 2026 13:08:08 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!BXDl!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F73f7d2cc-f593-44b0-8b60-30737e6ea907_1032x1032.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Ando a pensar muito no punk. Cresci a contempl&#225;-lo, mas com um est&#244;mago sens&#237;vel que n&#227;o me permitia efetivar &#8211; bem, sim, talvez em pequenos momentos, quando era levada pela insist&#234;ncia dos meus amigos e l&#225; me armava em boa, s&#243; para poder dizer a mim mesma, quando me deitava na cama &#224; noite, <em>aquilo foi punk,</em> e depois sorria, com um sorriso muito inocente, no auge dos meus 15 anos, que a &#250;nica coisa que tinha de <em>punk</em> era ter menos um dente e nunca ningu&#233;m ter dado por isso.</p><p>Todos os dias, procuro por essa transgress&#227;o nos outros. Gosto de estar com pessoas que desafiem a autoridade, porque assim eu j&#225; n&#227;o tenho de o fazer. Acontece apaixonar-me um bocadinho por elas, basta terem o mesmo guarda-roupa no inverno e no ver&#227;o, que eu sei que h&#225; um punk l&#225; dentro e isso &#233; o que atrai mais, quando n&#227;o est&#225; &#224; descarada e a pessoa at&#233; passa por p&#227;ozinho sem sal, mas a mim n&#227;o me escapa: a rebeldia silenciosa &#233; a mais obstinada e, por isso, a mais <em>sexy</em>.</p><p>Ontem, quando dei por mim a pesquisar &#8220;punk&#8221; no Google, a intelig&#234;ncia artificial (ainda n&#227;o aceitei escrever com a primeira letra mai&#250;scula, como se fosse o nome de algu&#233;m) diz que o movimento punk se focava no lema &#8220;fa&#231;a voc&#234; mesmo (DIY)&#8221;, ri-me e, de seguida, apercebi-me de que isto ia completamente ao encontro do que eu tenho vindo a pensar. Punk &#233; bricolage ligeira e portanto, basta ser mulher para ser <em>punk</em>.</p><p>Os peritos da l&#243;gica n&#227;o s&#227;o para aqui chamados, se vierem para desmascarar o meu argumento e dizer que n&#227;o tem qualquer valor de verdade. Eu n&#227;o quero falar em nome de todas as mulheres e do que &#233; que significa ser uma, mas se seguirmos a tese da Simone de Beauvoir de que n&#227;o nascemos, mas tornamo-nos, ent&#227;o o DIY foi mesmo feito para n&#243;s todas e diz respeito tanto &#224;s Marthas Stewart como &#224;s Pattis Smith desta vida. Andamos cheias de truques e este texto n&#227;o serve para desvend&#225;-los, n&#227;o nos ia fazer isso. Antes de mais, tenho de reformular, este texto n&#227;o serve para nada, mas se servisse, era apenas para alertar que atr&#225;s de uma maquilhagem <em>clean girl</em> (que aprendemos a fazer na perfei&#231;&#227;o com um TikTok de 10 segundos) est&#225; tamb&#233;m um <em>smokey eye</em> pronto a entrar, se for preciso.</p><p>Eu sei que h&#225; quem diga que n&#227;o existem truques nenhuns, que nos perseguiram durante s&#233;culos porque achavam que trabalh&#225;vamos com bruxaria e, por isso, este discurso s&#243; contribui para essas teorias, mas para mim, o problema n&#227;o est&#225; em dizer que somos bruxas, at&#233; porque antes de querer ser Punk, o que eu queria mesmo era ser a Flora das Winx.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Primavera is a bitch]]></title><description><![CDATA[Sentir o sol a queimar a cara.]]></description><link>https://ritapocasp.substack.com/p/primavera-is-a-bitch</link><guid isPermaLink="false">https://ritapocasp.substack.com/p/primavera-is-a-bitch</guid><dc:creator><![CDATA[Rita Poças]]></dc:creator><pubDate>Fri, 27 Feb 2026 16:13:26 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!BXDl!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F73f7d2cc-f593-44b0-8b60-30737e6ea907_1032x1032.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Sentir o sol a queimar a cara. Apenas o suficiente para sentir um arrepio que me avisa estar a aquecer o corpo. Esperei tanto por ti, n&#227;o tenho vergonha de admitir, estou mais feliz agora, chamem-me o que quiserem e n&#227;o me liguem a perguntar como &#233; que eu estou depois da semana passada. Como assim? N&#227;o podia estar melhor, do que &#233; que est&#225;s a falar, sinto uma alegria sem fim, a vida vai bem. E nem me preocupo em perguntar de volta, calculo que a tristeza se tenha extinguido do mundo como os mamutes h&#225; milh&#245;es de anos e quando voltarmos a falar sobre ela vai ser com teorias de historiadores e tamb&#233;m os filmes de anima&#231;&#227;o v&#227;o ser sobre isso. A Idade da Tristeza (1, 2 e 3).</p><p>O vazio da rotina cresce em beleza. As pequenas a&#231;&#245;es que me tornam humana encontram novas formas de ser menos cansativas e a repeti&#231;&#227;o torna-se mais <em>sexy</em>. A primavera sabe o que faz, &#233; uma provocadora descontrolada. D&#225;-nos um cheirinho - que a mim faz-me espirrar - daquilo que &#233; bom, ficamos todos excitados e depois mostra-nos de novo o que &#233; viver na merda. Aten&#231;&#227;o, isto n&#227;o &#233; culpa do inverno, que tem fama de <em>attention whore</em> e quer sempre voltar, n&#227;o n&#227;o, isto &#233; tudo obra da outra. Deixa-nos com &#225;gua na boca e quando estamos distra&#237;dos, encharca-nos com uma chuvada daquelas para ficarmos com cara de parvos, todos - os que o s&#227;o realmente n&#227;o percebem este truque e culpam o inverno, coitado. </p><p>Esta manipuladora deixa-nos presos como c&#227;es carentes, ansiosos pelo chavascal de est&#237;mulos que a esta&#231;&#227;o nos tr&#225;s. &#201; que h&#225; de tudo na primavera quando ela est&#225; no seu esplendor e s&#243; nos apetece beijar. Mas eu conhe&#231;o bem a laia dela. No fundo, &#233; a inseguran&#231;a a falar, ela sabe que &#233; s&#243; um caso e que nos passa r&#225;pido, ficamos fartos daquela intensidade toda. Depois &#233; um instantinho e estamos a implorar pelo ver&#227;o, para ressacarmos da pedrada que foi de abril a junho.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Tentativa de poema 1]]></title><description><![CDATA[N&#227;o h&#225; muito por que esperar e nem por isso]]></description><link>https://ritapocasp.substack.com/p/tentativa-de-poema-1</link><guid isPermaLink="false">https://ritapocasp.substack.com/p/tentativa-de-poema-1</guid><dc:creator><![CDATA[Rita Poças]]></dc:creator><pubDate>Tue, 10 Feb 2026 11:28:06 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!BXDl!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F73f7d2cc-f593-44b0-8b60-30737e6ea907_1032x1032.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>N&#227;o h&#225; muito por que esperar e nem por isso</p><p>deixo de ansiar por qualquer coisa</p><p>que se cumpra.</p><p>Ansiar</p><p>Cumprir</p><p>Com esperan&#231;a de que a vida se mostre cumpridora e de que eu me realize.</p><p>Presun&#231;osa e arrogante, repito tantas vezes,</p><p>talvez admitir seja suficiente para me perdoarem o narcisismo</p><p>que s&#243; aumenta ou tende a</p><p>Dentro deste po&#231;o, adorme&#231;o</p><p>j&#225; a sonhar <em>um dia &#233; que vai ser.</em></p><p></p><p>Tudo o que habita em mim e custa</p><p>tanto</p><p>sair&#225; de mim e transformar-se-&#225; naquilo que posso ver de longe</p><p>com a paz de quem sabe</p><p><em>Um dia aquilo foi meu, mas agora fiquei livre.</em></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Carta de Motivação]]></title><description><![CDATA[Se eu morresse agora ficava um bocado desiludida comigo.]]></description><link>https://ritapocasp.substack.com/p/carta-de-motivacao</link><guid isPermaLink="false">https://ritapocasp.substack.com/p/carta-de-motivacao</guid><dc:creator><![CDATA[Rita Poças]]></dc:creator><pubDate>Sun, 08 Feb 2026 17:59:15 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!BXDl!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F73f7d2cc-f593-44b0-8b60-30737e6ea907_1032x1032.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Se eu morresse agora ficava um bocado desiludida comigo. N&#227;o ficava ligeiramente, nem muito, nem um bocadinho, nem ficava <em>simplesmente</em> desiludida, ficava um bocado. A express&#227;o &#8220;um bocado&#8221; &#233; frouxa, sabe a pouco como eu, por isso o uso &#233; oportuno.</p><p>Eu j&#225; disse muitas vezes <em>eu quero fazer um filme</em> e continuo sem saber muito bem o que significa este desejo &#8220;eu quero fazer um filme&#8221;. Ultimamente, sinto-me como aqueles atores que chegam aos 60 e muitos e dizem que se querem afastar das luzes, que preferem estar atr&#225;s das c&#226;meras e n&#227;o querem brilhar mais. Eu ainda n&#227;o tenho 30, ainda n&#227;o brilhei e estive pouco &#224; frente das c&#226;meras, mas talvez pelo desespero de n&#227;o ter tido a aten&#231;&#227;o que queria e, quem sabe, por n&#227;o ser t&#227;o boa atriz como tive esperan&#231;a de ser, penso que o meu lugar possa vir a ser outro. </p><p>A possibilidade de estar sempre em pot&#234;ncia. Estar em pot&#234;ncia j&#225; implica alguma a&#231;&#227;o ou um desempenho qualquer que penso cumprir, mas o potencial n&#227;o se realiza na totalidade. N&#227;o me acusem de arrog&#226;ncia ou presun&#231;&#227;o, tenho de t&#234;-la <em>um bocado,</em> para sofrer tanto por um sonho que ainda n&#227;o foi cumprido. N&#227;o estou com cabe&#231;a para den&#250;ncias de falta de trabalho e dedica&#231;&#227;o a cem por cento. Se n&#227;o fiz isso &#233; porque ent&#227;o n&#227;o sei o que &#233;. O que imagino vezes a mais s&#227;o as pessoas que conhe&#231;o a conclu&#237;rem que n&#227;o tenho interesse, que n&#227;o quero assim tanto.</p><p>J&#225; ouvi de tudo. <em>Tens de sorrir mais</em> e tamb&#233;m <em>tens de sorrir menos</em>, <em>est&#225;s muito educada</em>; <em>&#233;s muito limpinha</em>; <em>est&#225;s no meio termo</em> &#8211; se estou no meio termo, diga-me quais s&#227;o os extremos &#8211;; <em>&#233;s gira</em>, mas h&#225; qualquer coisa. <em>O James Dean tamb&#233;m era estr&#225;bico</em> &#8211; mas era homem. O meu acting &#8211; companheiros atores, perdoem-me o uso desta express&#227;o, estou apenas a citar &#8211; &#233; muito educado, acho que foi isso que quiseram dizer com <em>ser muito limpinha</em> (nunca me viram num domingo &#224; tarde), mas eu j&#225; estou no lodo, por isso metam a rodar e deslumbram-se com a sujidade, por favor, fa&#231;o tudo menos lamber cus.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Mudex]]></title><description><![CDATA[Os nomes das empresas de mudan&#231;as t&#234;m de ser velozes: Mudex, Mude J&#225;, Fast&Serious, Move on.]]></description><link>https://ritapocasp.substack.com/p/mudex</link><guid isPermaLink="false">https://ritapocasp.substack.com/p/mudex</guid><dc:creator><![CDATA[Rita Poças]]></dc:creator><pubDate>Wed, 28 Jan 2026 22:54:23 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!BXDl!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F73f7d2cc-f593-44b0-8b60-30737e6ea907_1032x1032.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Os nomes das empresas de mudan&#231;as t&#234;m de ser velozes: Mudex, Mude J&#225;, Fast&amp;Serious, Move on. Uma mudan&#231;a tende a ser dolorosa, por isso, &#233; preciso lidar com ela com uma t&#233;cnica que nos &#233; familiar, quanto mais r&#225;pido melhor (menos dor). A minha m&#227;e dizia-me isso sobre os pensos r&#225;pidos, que eram r&#225;pidos porque curavam a alta velocidade, mas tamb&#233;m porque era preciso arranc&#225;-los num segundo sem hesitar.</p><p>O processo da mudan&#231;a n&#227;o podia ser mais custoso, desarruma-me (e eu demoro tanto a arrumar) e meto em causa a raz&#227;o da minha exist&#234;ncia. Mas j&#225; mudei de casa mais vezes do que os dedos de uma m&#227;o, por isso tamb&#233;m j&#225; sei onde encontrar consolo.</p><p>Desta vez, deu-me na cabe&#231;a p&#244;r tudo em caixas, para quando chegar o momento penoso de arrumar tudo na nova casa, eu seja movida pela for&#231;a da esperan&#231;a de encontrar mem&#243;rias escondidas do passado, de algo que me escapou enquanto empacotava. Talvez seja esta a minha maior fantasia, deparar-me com algo que julguei ter esquecido dentro de mim e sentir uma ternura t&#227;o grande, quase como saudades de mim mesma, <em>de mim</em> naquele momento presente da mem&#243;ria. Um recado de um namorado da adolesc&#234;ncia, que me lembra de j&#225; ter amado tanto que pensei que ia morrer e c&#225; estou eu. Um di&#225;rio partilhado com a minha melhor amiga, com segredos que pens&#225;vamos que diziam tudo sobre n&#243;s. Ou um dos primeiros ma&#231;os de tabaco que fumei, <em>il fumo uccide</em>, podia ler-se em italiano gra&#231;as ao contrabando do snack-bar, que aceitava vender-me cigarros aos 15 anos.</p><p>S&#243; n&#227;o me obriguem a fazer mudan&#231;as com sacos de hipermercados e superf&#237;cies comerciais, justificando que &#233; muito mais pr&#225;tico. Pois &#233;, mas &#233; muito menos rom&#226;ntico. A casa fica feia com esses sacos espalhados pelo ch&#227;o, cada um com o seu padr&#227;o, e depois ainda nos cabe a miss&#227;o de reutiliz&#225;-los para ir &#224;s compras, quando a rotina voltar ao normal. N&#227;o preciso de li&#231;&#245;es de ambientalismos, consigo compreender facilmente a ecologia do processo, mas gosto que estas caixas de cart&#227;o sirvam apenas para levar as minhas mem&#243;rias de um s&#237;tio para o outro e que, agora, elas tenham toda a liberdade para se transformarem noutra coisa. N&#227;o quero associar o saco do Pingo Doce aos livros que comprei em 2016, nas primeiras f&#233;rias de ver&#227;o depois de entrar para a faculdade.</p><p>Vai ser dif&#237;cil acreditar no que estou prestes a dizer, depois de estar para aqui a falar sobre estas coisas, mas eu n&#227;o podia gostar menos de tralha. Basta um ligeiro esfor&#231;o para entender: as pessoas que guardam tudo, fazem com que as mem&#243;rias fiquem vazias de significado. Eu s&#243; sei que este concerto foi importante passados 15 anos, porque n&#227;o guardei todos os bilhetes de todos concertos a que fui. </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Não fui eu quem disse que isto tinha de ser piroso - ridículo]]></title><description><![CDATA[Como foi a viagem? Foi &#243;tima, tivemos imensa sorte com o tempo, s&#243; chuviscou duas vezes depois do jantar e durante o dia, apesar de estar muito frio, fez quase sempre sol.]]></description><link>https://ritapocasp.substack.com/p/nao-fui-eu-quem-disse-que-isto-tinha</link><guid isPermaLink="false">https://ritapocasp.substack.com/p/nao-fui-eu-quem-disse-que-isto-tinha</guid><dc:creator><![CDATA[Rita Poças]]></dc:creator><pubDate>Wed, 21 Jan 2026 12:40:42 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!BXDl!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F73f7d2cc-f593-44b0-8b60-30737e6ea907_1032x1032.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><em>Como foi a viagem?</em> Foi &#243;tima, tivemos imensa sorte com o tempo, s&#243; chuviscou duas vezes depois do jantar e durante o dia, apesar de estar muito frio, fez quase sempre sol.</p><p>A pergunta n&#227;o foi <em>Como &#233; que estava o tempo? </em>Ou <em>Choveu?</em> A pergunta foi <em>Como foi a viagem?</em> Ora bem, penso como &#233; que se pode responder honestamente a isto. As viagens n&#227;o s&#227;o sobre a meteorologia nem sequer sobre o que se visita, na maior parte das vezes.</p><p>Interessa pouco o que se viu, os quadros do museu, os monumentos que fazem daquela cidade aquela cidade. Por&#233;m, responder com verdade e em voz alta &#224; pergunta <em>como foi a viagem</em> &#233; insuport&#225;vel, para qualquer uma das partes. Para mim, sei que &#233;, encho-me de vergonha, como quando era crian&#231;a e a professora chamava o meu nome e eu corava, porque pensava que ela tinha descoberto o que &#233; que eu estava a pensar. Os meus pensamentos sobre a viagem, uma esp&#233;cie de mem&#243;rias do &#237;ntimo, s&#227;o grandes segredos que guardei e espalhei em v&#225;rios s&#237;tios do corpo. Assim, calhe algu&#233;m descobrir um, n&#227;o encontra os outros todos.</p><p>A viagem esfregou-se em magia, olha, n&#227;o h&#225; outra maneira de te dizer isto. Talvez tenha chovido e durante o dia o sol tenha sa&#237;do, mas n&#227;o me lembro bem e sim, pass&#225;mos por a&#237; e &#233; tal e qual o que dizem, mas tenho imagens muito breves desse momento. Mas algures pelo segundo dia, ao fim da tarde, ele p&#244;s o bra&#231;o &#224; volta dos meus ombros e suspirou, claro, a luz estava perfeita e fiquei com vontade de lhe tirar uma fotografia, record&#225;-lo naquele instante cheio de vida. Os nossos olhos cruzaram-se por vontade deles e acho que fomos para outro s&#237;tio, n&#227;o, n&#227;o volt&#225;mos logo a casa, fomos para longe, fiquei com a ideia de que j&#225; l&#225; tinha estado. Podia ser qualquer lugar.</p><p>O jantar do primeiro dia, n&#227;o sei, tenho uma ideia. Queijo, acho eu, l&#225; come-se queijo. Era numa esquina pouco iluminada, com aquele ch&#227;o de cal&#231;ada medieval e fic&#225;mos na mesa mais escura, encostada &#224; parede. Se nos inclin&#225;ssemos muito para a esquerda, direita dele, as nossas cabe&#231;as tocavam nas plantas a crescer da parede. Olhei muito para ele, pisei-o algumas vezes, <em>Foi sem querer</em>, ainda por cima os sapatos eram novos. A m&#227;o dele na minha perna, apertou-a e n&#227;o disse nada. Fal&#225;mos muito de uma maneira que s&#243; eu e ele falamos, temos a nossa l&#237;ngua e temos as nossas l&#237;nguas quando n&#227;o nos apetece conversar. Sim, a cidade &#233; a cidade mais bonita do mundo quando estamos l&#225; e quando eu vejo as coisas com os olhos que ele tem.</p><p>Claro, n&#227;o te prendo mais, obrigada por teres ligado. Sim, vale a pena ir no inverno se tiveres sorte com o tempo, como n&#243;s.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Sobre os mortos e também sobre os vivos]]></title><description><![CDATA[Eu nunca tinha visto ningu&#233;m a olhar para outra pessoa daquela maneira, como a Av&#243; olhou para o Av&#244; quando ela estava a morrer de cancro.]]></description><link>https://ritapocasp.substack.com/p/sobre-os-mortos-e-tambem-sobre-os</link><guid isPermaLink="false">https://ritapocasp.substack.com/p/sobre-os-mortos-e-tambem-sobre-os</guid><dc:creator><![CDATA[Rita Poças]]></dc:creator><pubDate>Mon, 12 Jan 2026 14:13:50 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!BXDl!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F73f7d2cc-f593-44b0-8b60-30737e6ea907_1032x1032.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Eu nunca tinha visto ningu&#233;m a olhar para outra pessoa daquela maneira, como a Av&#243; olhou para o Av&#244; quando ela estava a morrer de cancro. Odiar o homem que est&#225; connosco at&#233; morrermos, n&#227;o sei o que &#233; que isso diz sobre n&#243;s, as mulheres. Quando me apaixonei pela primeira vez, lembrei os Av&#243;s como um exemplo para mim, <em>t&#227;o diferentes um do outro e ainda juntos</em>, pensava tantas vezes, t&#227;o cega e a achar que via tudo.</p><p>A Av&#243; acreditava que o Av&#244; n&#227;o sobreviveria quando ela se fosse. Fala-se muito disso, parece-me, sobre os homens morrerem pouco tempo depois das mulheres e eu acreditei nisso tamb&#233;m, sobre o Av&#244;. <em>Talvez se mate</em>, pensei v&#225;rias vezes antes de adormecer e um dia tamb&#233;m ele me disse <em>talvez me mate</em>. </p><p>O Av&#244; era um mau marido e ela ali ficou para, quase no fim, o encarar com o olhar mais cruel que j&#225; vi, enquanto ele lhe tenta dar a sopa e ela diz <em>tu n&#227;o, tu n&#227;o sabes fazer nada</em>. (Que imagens estas, que habitam na nossa cabe&#231;a e aparecem quando desempenhamos uma tarefa de todos os dias). As mudan&#231;as que a cara da minha av&#243; sofreu, desde que desconfi&#225;vamos do diagn&#243;stico at&#233; morrer, fazem pouco do tempo e, esta resto-mulher n&#227;o passava de uma boneca nas m&#227;os do cancro e do amargo. N&#227;o era a minha av&#243;. Ou ent&#227;o era mesmo, por fim, a Av&#243;.</p><p>A Av&#243; nasce &#224;s 3 da manh&#227;, do dia 2 de janeiro de 1937, na freguesia de Santa Isabel, em Lisboa. A 2 de janeiro de 2020, aos 83 anos, diz-me <em>a minha vida dava um livro.</em> Hoje, moro na freguesia de Santa Isabel, em Lisboa. Nunca soube nada acerca da sua vida; tanta coisa que n&#227;o podia ser falada e eu com t&#227;o pouca coragem para perguntar. Licenciou-se em Literatura na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Quando fiz 12 anos, ofereceu-me &#8220;As Mulherzinhas&#8221;.</p><p>O Av&#244; nasce a 17 de abril de 1937. Organiza todos os espet&#225;culos do col&#233;gio interno que frequentava e &#233; expulso uma vez, no entanto, a grande pedido da sua m&#227;e - que n&#227;o o conseguia ter em casa -, volta a entrar. Demorei uns anos para conquistar o Av&#244;; acabou por relevar-se uma dificuldade de se olhar ao espelho, porque tornou-se evidente as parecen&#231;as que temos.</p><p>Os Av&#243;s conheceram-se em Lisboa, nos bailes da Cooperativa Militar &#8211; os meus pais casaram aqui. O Av&#244; n&#227;o tinha dinheiro para entrar, era a Av&#243; que lhe atirava as moedas pela janela para poderem passar a noite juntos. Casaram a 25 de dezembro de 1961, na freguesia de S&#227;o Sebasti&#227;o da Pedreira, em Lisboa. T&#234;m o primeiro filho, a 9 de mar&#231;o de 1963, o segundo, o Pai, a 28 de setembro de 1966 e a 9 de outubro de 1970, uma filha. O Av&#244; esteve longos per&#237;odos em &#193;frica durante este tempo.</p><p>&#192;s 17h e 48 minutos do dia 25 de dezembro de 1978, dia de Natal e dia do 17&#186; anivers&#225;rio de casamento dos Av&#243;s, morre o primeiro filho, aos 15 anos. A Av&#243; n&#227;o vai ao funeral. Entre 1978 e 1995, a luz deixa de funcionar no apartamento da Pontinha, os Av&#243;s nunca mais celebram o Natal e escondem-se todas as fotografias que possam levantar a mais pequena suspeita de que a felicidade morou naquela casa.</p><p>Numa tarde do ver&#227;o de 2004, num daqueles almo&#231;os de fam&#237;lia em que quando somos pequenos, um homem alto qualquer, alegadamente nosso tio, nos diz <em>tu j&#225; n&#227;o te lembras de mim mas eu andei contigo ao colo </em>e, logo ali, prometo a mim mesma que nunca vou ser assim quando for do mesmo tamanho. Nessa tarde quente e cheia de gente, o Pai descobre que a sua av&#243; materna n&#227;o &#233; a sua av&#243; materna e n&#227;o fala disso com a m&#227;e. Nestas situa&#231;&#245;es, o que podemos fazer &#8211; se n&#227;o seguirmos o impulso de nos atirarmos de joelhos para o ch&#227;o, come&#231;armos a chorar desconsoladamente, darmos um estalo a quem merece e sairmos a correr &#8211;, &#233; esbo&#231;armos um pequeno sorriso e montar um teatrinho em que dizemos frases como <em>sim, a s&#233;rio, realmente s&#243; na nossa fam&#237;lia.</em></p><p>A 14 de agosto de 2020, a Av&#243; morre e eu n&#227;o vou ao funeral.</p><p>Descobri centenas de fotografias e invado a privacidade de um morto. Questiono-me se ver todas aquelas fotografias do passado da Av&#243;, que ela escondeu com tanto cuidado, era a mesma coisa como quando publicam os di&#225;rios de um escritor, que decidiu n&#227;o os publicar em vida. Pergunto-me se ela queria que eu visse aquilo. Mas os velhos sabem, n&#227;o &#233;? Que, se n&#227;o se desfazem das coisas, os que ficam v&#227;o l&#225; cheirar tudo e <em>ver o que vale a pena ficar ou se &#233; para deitar fora.</em> Ela queria ser vista, mas tudo come&#231;aria a verter sem parar se ainda estivesse viva e n&#243;s pud&#233;ssemos ver como foi feliz, antes de deixar de ser.</p><p>O Pai diz que ela s&#243; voltou a sorrir quando a minha irm&#227; nasceu, &#233; mais velha do que eu dois anos e meio. Nasceu a 30 de abril de 1995 e fez a Av&#243; rir pela primeira vez desde 1978. T&#234;m o mesmo nome. Tornou-se a sina da minha irm&#227;, fazer sorrir os que n&#227;o conseguem.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Sobre o tempo da espera e depois o aborrecimento ]]></title><description><![CDATA[Quando era pequena de tamanho e de idade, esperar era semelhante ao fim do mundo - e o fim do mundo era uma coisa que me fazia acordar a meio da noite, seguido de &#8220;posso vir dormir para a vossa cama?&#8221; (toda a gente sabe que o fim do mundo n&#227;o consegue entrar no quarto dos pais).]]></description><link>https://ritapocasp.substack.com/p/sobre-o-tempo-da-espera-e-depois</link><guid isPermaLink="false">https://ritapocasp.substack.com/p/sobre-o-tempo-da-espera-e-depois</guid><dc:creator><![CDATA[Rita Poças]]></dc:creator><pubDate>Fri, 09 Jan 2026 11:27:06 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!BXDl!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F73f7d2cc-f593-44b0-8b60-30737e6ea907_1032x1032.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Quando era pequena de tamanho e de idade, esperar era semelhante ao fim do mundo - e o fim do mundo era uma coisa que me fazia acordar a meio da noite, seguido de &#8220;posso vir dormir para a vossa cama?&#8221; (toda a gente sabe que o fim do mundo n&#227;o consegue entrar no quarto dos pais). O mundo acabar dava medo, porque imaginava que seria lento: ter&#237;amos de esperar pelo fim do fim do mundo. Os momentos finais do mundo seriam longas horas na sala de espera do terror.</p><p>Depois comecei a ter medo de andar de avi&#227;o. Morrer num avi&#227;o &#233; saber que se vai morrer e esperar que se morra. Que longos segundos seriam aqueles em que penso na minha morte j&#225; a acontecer; ter a consci&#234;ncia absoluta de que se vai morrer j&#225; num c&#233;u e ainda tenho de estar com cinto de seguran&#231;a. Deus goza mesmo com quem n&#227;o acredita nele.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ritapocasp.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! 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Eu conseguia ter um vislumbre do que ia acontecer depois deste per&#237;odo de vida em pausa em que j&#225; n&#227;o dava para estar sentada, era um mundo que me dava aquilo que eu queria.</p><p>Hoje vivo em lista de espera e ningu&#233;m no balc&#227;o de atendimento me diz em que lugar estou nessa lista para a Concretiza&#231;&#227;o de Sonhos de Crian&#231;a e Realiza&#231;&#227;o Pessoal. Aguardo pacientemente, embalada pela m&#250;sica que devia servir para fintar o tempo. Estou aborrecida e aborre&#231;o os outros com lam&#250;rias de t&#233;dio.</p><p>No entanto ou, ainda assim, encontrei aquilo de que ouvi tanto falar e duvidei que fosse tanga, a beleza da paisagem. Continuo a desconfiar da vista da sala de espera, se &#233; mesmo uma janela ou &#233; apenas um desenho, mas quando confio na luz que entra de vez em quando, come&#231;o a perceber o tempo da espera. O grande sorriso da vida l&#225; ao fundo que via em crian&#231;a podia ser uma gargalhada mal&#233;fica, de algu&#233;m que sempre esteve ao meu lado e eu n&#227;o reparei e agora faz pouco de mim. Rio tamb&#233;m, a fingir que percebi a piada e &#224;s tantas estou a rir com vontade.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ritapocasp.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! 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Paro e penso ter encontrado um sentido: o meio-termo entre o quente de casa e a possibilidade de tornar-me noutra sem que ningu&#233;m repare.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ritapocasp.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! 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Menti muitas vezes para escapar ao aborrecimento, como quando se faz bola dentro da boca quando n&#227;o gostamos da comida: fica maior e maior e s&#243; queremos arranjar uma maneira de deit&#225;-la fora.</p><p>Mentia para o mundo ser mais e para toda a gente pensar que eu tamb&#233;m era mais. Mentia para gostar do mundo e para o mundo gostar de mim e, lamentavelmente, a burrice infantil n&#227;o percebe isto &#224; partida, mas s&#243; fez com que o mundo se afastasse mais. N&#227;o sei o que se passa nos c&#233;rebros das crian&#231;as ou o que havia com a minha cabe&#231;a sempre a pensar que o mundo c&#225; dentro era o verdadeiro mundo e tudo corria mal c&#225; fora, porque as coisas n&#227;o estavam feitas para as minhas medidas.</p><p>Ver-me do outro lado da estrada, depois de passar a rua cheia de pressa para ver se eu n&#227;o me via, no meu primeiro encontro com Lisboa, fez-me corar. Que vergonha saber que estamos a ser observados a engatar algu&#233;m, ainda mais quando eu queria tanto que Lisboa gostasse de mim. Estava, pela primeira vez, a olhar para fora, dispon&#237;vel para sair de mim para passar a ser eu e eu ali, a ver aquilo tudo.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://ritapocasp.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! 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