<script data-pm-proxy="intercept"></script><?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[O animal digiana]]></title><description><![CDATA[Criei esse substack para repartir as anotações de um projeto de livro, "O Animal Digiana".  No núcleo, estava uma insatisfação com o tratamento do conceito de "símbolo". No meio do caminho apareceram pedras, mas também mais gente e mais horizontes.  ]]></description><link>https://ronai.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!xrSU!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fronai.substack.com%2Fimg%2Fsubstack.png</url><title>O animal digiana</title><link>https://ronai.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Tue, 01 Sep 2026 07:52:01 GMT</lastBuildDate><atom:link href="/__u/ronai.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Ronai Pires da Rocha]]></copyright><language><![CDATA[en]]></language><webMaster><![CDATA[ronai@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[ronai@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Ronai Pires da Rocha]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Ronai Pires da Rocha]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[ronai@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[ronai@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Ronai Pires da Rocha]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[# Digiana 74. “Bom” e “mau” são “construções sociais”? ]]></title><description><![CDATA[&#8220;Papi, help me!&#8221; Achei um pedido de ajuda, trinta anos depois. Tarde demais?]]></description><link>https://ronai.substack.com/p/digiana-74-bom-e-mau-sao-construcoes</link><guid isPermaLink="false">https://ronai.substack.com/p/digiana-74-bom-e-mau-sao-construcoes</guid><dc:creator><![CDATA[Ronai Pires da Rocha]]></dc:creator><pubDate>Wed, 26 Aug 2026 00:27:38 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!BVyn!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F67e85fd0-2edd-41a4-8743-a97ebab8064d_2474x3711.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/67e85fd0-2edd-41a4-8743-a97ebab8064d_2474x3711.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/67e85fd0-2edd-41a4-8743-a97ebab8064d_2474x3711.jpeg&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p><em><span data-color="#980000" style="color: rgb(152, 0, 0);">Uma constru&#231;&#227;o social de algum tipo de divertimento de jovens, na primeira quadra da Rua Dr. Bozano, em Santa Maria, RS.</span></em></p><p>1. Um dia desses fui dar uma olhada no meu velho exemplar de <em>A Constru&#231;&#227;o Social da Realidade</em>, do Berger&amp;Luckmann. Estou lendo umas coisas sobre o assunto, queria refrescar a mem&#243;ria. O livro est&#225; todo rabiscado, mas n&#227;o apenas por mim. Na p&#225;gina 116 encontrei, escrito a l&#225;pis na margem, um pedido de socorro da minha filha: &#8220;<em>Papi, help me</em>!&#8221;. Quando ela fez o curso de Comunica&#231;&#227;o Social, um professor pediu que o livro fosse lido. Ela leu e fez anota&#231;&#245;es em quase todas as 247 p&#225;ginas do livro. Algumas s&#227;o de d&#250;vidas e curiosidades, a maioria s&#227;o de perguntas e h&#225;, me pareceu, uma ou outra de indigna&#231;&#227;o. Mais de uma vez ela pediu socorro para mim. Na p&#225;gina 73, onde os autores discorrem sobre natureza humana e sexualidade, ela escreveu &#8220;<em>Conversar c/ pai sobre normalidade e anormalidade sexual</em>.<em> Ex: sociedade l&#233;sbica</em>&#8221;. N&#227;o me lembro de ter conversado com ela sobre a passagem.</p><p>2. Na folha de rosto do livro ela escreveu isso: </p><p>&#8220;<em>Na realidade, n&#227;o existe constru&#231;&#227;o do que &#233; bom ou mau</em>&#8221;.</p><p>Ela sublinhou &#8220;realidade&#8221;, &#8220;n&#227;o&#8221; e &#8220;constru&#231;&#227;o&#8221;. Imagino que ela escreveu isso depois da leitura do livro, como para registrar algum distanciamento daquilo que havia lido. Ou escreveu antes de come&#231;ar a leitura, para mostrar algum ceticismo diante do t&#237;tulo? Fiquei imaginando que ela quis brincar com a palavra &#8220;realidade&#8221;, pois podemos ler a afirma&#231;&#227;o como &#8220;<em>a bem da verdade</em>, n&#227;o existe constru&#231;&#227;o do que &#233; bom ou mau&#8221;, e isso refor&#231;aria o distanciamento diante das teses construcionistas-sociais, se aplicadas &#224; moralidade.</p><p>3. Acho que a anota&#231;&#227;o na folha de rosto foi uma aprecia&#231;&#227;o final, um sinal de aceita&#231;&#227;o reticente e condicional das teses do livro. Fiquei orgulhoso de ver o quanto a leitura dela foi cuidadosa, n&#227;o apenas pelas dezenas de anota&#231;&#245;es e coment&#225;rios, mas pela frase de d&#250;vida sobre se &#8220;bom&#8221; e &#8220;mau&#8221; s&#227;o constru&#231;&#245;es sociais. Afinal, depois de sessenta anos de debates (o livro foi publicado em 1966), a observa&#231;&#227;o dela ainda faz sentido. H&#225; quem diga que &#8220;bom&#8221; e &#8220;mau&#8221; s&#227;o constru&#231;&#245;es sociais, mas, ao longo desses sessenta anos muita &#225;gua passou embaixo dessa ponte. O entusiasmo com essa ideia j&#225; n&#227;o me parece muito grande.</p><p>4. Ma&#237;ra foi apenas uma entre milh&#245;es de leitores e leitoras, e teve uma d&#250;vida maravilhosa diante dele. <em>A Constru&#231;&#227;o Social da Realidade, </em>de Peter Berger &amp; Thomas Luckmann &#233; um dos livros mais citados na &#225;rea de ci&#234;ncias sociais, vendeu milh&#245;es de exemplares, teve mais de vinte tradu&#231;&#245;es. A tese deles &#233; que a realidade social cotidiana &#233; um produto da atividade humana. Dito hoje e assim, a tese &#233; trivial, quase tola. O ponto deles &#233; que isso nem sempre ficaria claro para n&#243;s, a gente do senso comum. Para n&#243;s, pessoas comuns, a sociedade parece ser uma coisa meio independente, dotada de poderes coercitivos. A sociedade parece ser uma &#8220;realidade objetiva&#8221; e, em certo sentido ela &#233;. Essa &#8220;sociedade objetiva&#8221;, no entanto, foi produzida por n&#243;s mesmos, mas viver&#237;amos nela sem nos se dar por conta de que ela foi produzida por n&#243;s mesmos. O culpado, aqui, aos costumes, &#233; o de sempre, <em>o senso comum</em>. Ou seja, para a tese deles funcionar, &#233; preciso que exista essa esp&#233;cie de rela&#231;&#227;o tensa entre o <em>senso comum</em> e a <em>teoria</em> <em>social</em> que mostra que somos um tanto alienados de nossa pr&#243;pria condi&#231;&#227;o.</p><p>5. O primeiro grande argumento do livro tamb&#233;m parece trivial hoje. Berger &amp; Luckmann lan&#231;aram m&#227;o das grandes teses da antropologia filos&#243;fica do come&#231;o do s&#233;culo. Paulo Freire fez a mesma coisa. Eles compararam o ser humano aos outros animais para dizer que, diferentemente deles, somos criaturas biologicamente inacabadas, desprovidas de instintos e n&#227;o dependentes de nichos ambientais restritos, como &#225;guas, florestas ou campos. Vivemos no gelo e no deserto, tanto faz, somos pl&#225;sticos. Assim, temos que construir casas e fazer roupas, plantar sementes, guardar &#225;gua e comida, adquirir h&#225;bitos de sobreviv&#234;ncia. Esses h&#225;bitos se cristalizam e s&#227;o transmitidos de gera&#231;&#227;o para gera&#231;&#227;o. Com o tempo as novas gera&#231;&#245;es esquecem essas origens e come&#231;am a pensar que os h&#225;bitos (e as institui&#231;&#245;es)) que foram estabilizados tem uma realidade pr&#243;pria, externa a n&#243;s. Eles chamam isso de momento de &#8220;objetiva&#231;&#227;o&#8221;. A sociedade come&#231;a a parecer uma coisa &#8220;natural&#8221;. &#201; para sustentar isso que serviriam os mitos explicativos de origem e tudo o mais nessa linha. A gente terminaria pensando que a sociedade &#233; uma esp&#233;cie de fato natural e n&#227;o cultural.</p><p>6. A anota&#231;&#227;o de minha filha na p&#225;gina 73, &#8220;<em>conversar c/ pai sobre normalidade e anormalidade sexual. Ex: sociedade l&#233;sbica&#8221;</em> vai nessa linha. Dizem eles:</p><blockquote><p>... n&#227;o existe natureza humana no sentido de um substrato biologicamente fixo, que determine a variabilidade das forma&#231;&#245;es socio-culturais. H&#225; somente a natureza humana no sentido de constantes antropol&#243;gicas (por exemplo, abertura para o mundo e plasticidade da estrutura dos instintos) (...) ... &#233; mais significativo dizer que o homem constr&#243;i sua pr&#243;pria natureza, ou, mais simplesmente, que o homem se produz a si mesmo. (...) ... a sexualidade humana caracteriza-se por um grau muito alto de flexibilidade. (...) As provas etnol&#243;gicas mostram que em quest&#245;es sexuais o homem &#233; capaz de quase tudo. (...) Se o termo &#8216;normalidade&#8217; tem de referir-se ou ao que &#233; antropologicamente fundamental ou ao que &#233; culturalmente universal ent&#227;o nem esse termo nem o ant&#244;nimo dele pode ser aplicado com sentido &#224;s formas vari&#225;veis da sexualidade humana. (...) Toda cultura tem uma configura&#231;&#227;o sexual distintiva ... (...) sua imensa variedade e exuberante inventividade indicam que (as configura&#231;&#245;es sexuais) s&#227;o produtos das forma&#231;&#245;es s&#243;cio-culturais pr&#243;prias do homem e n&#227;o de uma natureza humana biologicamente fixa.</p></blockquote><p>N&#227;o me lembro de ter conversado com ela sobre essas afirma&#231;&#245;es. O que eu diria, na &#233;poca?</p><p>7. &#8220;<em>Papi, help me!&#8221;</em> est&#225;, bem grande, na p&#225;gina 116. A dificuldade dela era com um exemplo bem intricado sobre o problema da integra&#231;&#227;o dos pap&#233;is sociais. Tive que reler muitas p&#225;ginas do livro para entender onde entrava a tal da &#8220;sociedade l&#233;sbica&#8221;, n&#227;o me lembrava do exemplo dado pelos autores. Eles prop&#245;em uma situa&#231;&#227;o que chamam de um &#8220;picante tri&#226;ngulo&#8221; entre um heterossexual A, uma bissexual B e uma l&#233;sbica C. Os tr&#234;s mant&#233;m uma rela&#231;&#227;o constante. Claro, A e B tem um tipo de rela&#231;&#227;o, B e C tem outro tipo de rela&#231;&#227;o e A e C tem ainda outro tipo de rela&#231;&#227;o. As duas primeiras s&#227;o de natureza sexual e exigem que os parceiros exer&#231;am habilidades e conhecimentos de sedu&#231;&#227;o amorosa. A rela&#231;&#227;o entre A e C consiste no gosto pelo cultivo de flores. A ideia &#233; que esses h&#225;bitos partilhados entre eles correm lado a lado, sem integra&#231;&#227;o; mas eles partilham juntos alguns conhecimentos, por exemplo, como se manter economicamente. Assim, eles t&#234;m algum conhecimento em comum. A forma como esses conhecimentos se distribui acompanha a distribui&#231;&#227;o dos pap&#233;is. A inten&#231;&#227;o do exemplo, se entendi bem, &#233; mostrar que muitos processos institucionais coexistem sem que exista uma integra&#231;&#227;o total. Esse fato faz surgir a pergunta <em>sobre como, ent&#227;o, as institui&#231;&#245;es se mant&#233;m</em>? A resposta que eles d&#227;o, na p&#225;gina 115, &#233; que os indiv&#237;duos s&#227;o dotados de uma consci&#234;ncia reflexiva que imp&#245;e &#8220;certa l&#243;gica &#224; sua experi&#234;ncia das diversas institui&#231;&#245;es.&#8221; &#201; esse o espa&#231;o que seria ocupado pelas narrativas de justifica&#231;&#227;o da ordem social. Toda sociedade precisa prover seus membros de significados integradores, pois a coisa toda &#233; muito fragmentada. Surge assim o tema seguinte, a quest&#227;o da legitima&#231;&#227;o da ordem social. A parte substantiva dessa legitima&#231;&#227;o &#233; fornecida pelos mitos, pelas ci&#234;ncias, pelas religi&#245;es, pela arte.</p><p>8. Depois das explica&#231;&#245;es sobre a forma como a sociedade se institucionaliza como uma realidade objetiva, depois de falar sobre as formas de legitima&#231;&#227;o disso, o tema do livro &#233; a sociedade como uma realidade subjetiva, isto &#233;, de que modo ela entra em n&#243;s, por assim dizer. A anota&#231;&#227;o de minha filha, na p&#225;gina 231, diz assim<em>: &#8220;muito do &#8216;meu eu&#8217; se deve &#224; sociedade, mas a sociedade tb&#233;m tem &#8216;meu eu&#8217;.&#8221;</em> Novamente, a primeira parte da anota&#231;&#227;o dela &#233; intrigante, no contexto do livro. Ao dizer &#8220;<em>muito do &#8216;meu eu&#8217; se deve &#224; sociedade</em>&#8221;, &#233; como se ela dissesse que n&#227;o acredita que <em>todo o nosso eu se deve &#224; sociedade</em>.</p><p>9. Afinal, era para esse lado que as coisas pareciam ir. O livro sustenta, todo o tempo, que a sociedade n&#227;o &#233; algo natural e sim uma constru&#231;&#227;o humana. No resumo da p&#225;gina 87, eles escrevem que &#8220;<em>a sociedade &#233; um produto humano. A sociedade &#233; uma realidade objetiva. O homem &#233; um produto social.&#8221;</em> E o <em>eu</em>? <em>Quanto</em> do meu eu, parece ser essa a pergunta da Ma&#237;ra, devo &#224; sociedade? Parece ser muito. Ser&#225; <em>todo</em>? N&#227;o pode ser assim.</p><p><span>10. O livro, como eu lembrei, foi publicado em 1966; no Brasil, em 1973. O tema da constru&#231;&#227;o social da realidade seguiu sendo discutido. Em 1995, John Searle publicou </span><em><span>A constru&#231;&#227;o da realidade social</span></em><span>. Em 1999 Ian Hacking voltou ao tema, com a publica&#231;&#227;o de </span><em><span>A constru&#231;&#227;o social do qu&#234;? </span></em><span>Em nenhum desses livros e em quase nenhum lugar a gente vai achar alguma cr&#237;tica importante do livro de Berger&amp;Luckmann. Muito menos vamos encontrar neles todos uma discuss&#227;o sobre as d&#250;vidas da Ma&#237;ra, se o bom e o mau s&#227;o constru&#231;&#245;es sociais, se o eu &#233;, todo ele ou em parte, uma constru&#231;&#227;o social. Esses autores pensam as normas morais como aparatos de legitima&#231;&#227;o. N&#227;o vamos encontrar ali diferen&#231;as relevantes entre as normas que usamos na &#233;tica e as que s&#227;o usadas no direito, na religi&#227;o, etc. Assim, </span><em><span>bom</span></em><span> e </span><em><span>mau</span></em><span> seriam, no esp&#237;rito construcionista, apenas rotula&#231;&#245;es de h&#225;bitos sedimentados. E o </span><em><span>eu</span></em><span>, por sua vez, parece ser todo ele social, do cabo ao rabo. Entendo a decep&#231;&#227;o dela com o livro. Por mais poderoso que seja, tem pontos obscuros ou mesmo fracos. A come&#231;ar pelo apelo descarado &#224; met&#225;foras de engenharia para pensar a sociedade. Foi preciso passar muita &#225;gua por baixo da ponte que eles constru&#237;ram para que surgissem cr&#237;ticas importantes. Acho que as notinhas da Ma&#237;ra fazem parte do esp&#237;rito dessas &#225;guas. </span></p><p></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[# Digiana 73. A vida dos animais e as variedades do "não" (VI)]]></title><description><![CDATA["N&#227;o" tem ao menos tr&#234;s significados; um cachorro tem muitos mais.]]></description><link>https://ronai.substack.com/p/digiana-73-a-vida-dos-animais-e-as</link><guid isPermaLink="false">https://ronai.substack.com/p/digiana-73-a-vida-dos-animais-e-as</guid><dc:creator><![CDATA[Ronai Pires da Rocha]]></dc:creator><pubDate>Sun, 09 Aug 2026 14:43:12 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!3ozO!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F892635a1-b92c-43d3-aa92-329a4c92fc3e_2862x4000.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!3ozO!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F892635a1-b92c-43d3-aa92-329a4c92fc3e_2862x4000.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!3ozO!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F892635a1-b92c-43d3-aa92-329a4c92fc3e_2862x4000.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!3ozO!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F892635a1-b92c-43d3-aa92-329a4c92fc3e_2862x4000.jpeg 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!3ozO!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F892635a1-b92c-43d3-aa92-329a4c92fc3e_2862x4000.jpeg 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!3ozO!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F892635a1-b92c-43d3-aa92-329a4c92fc3e_2862x4000.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!3ozO!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F892635a1-b92c-43d3-aa92-329a4c92fc3e_2862x4000.jpeg" width="1456" height="2035" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/892635a1-b92c-43d3-aa92-329a4c92fc3e_2862x4000.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:2035,&quot;width&quot;:1456,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:4126689,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://ronai.substack.com/i/210469130?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F892635a1-b92c-43d3-aa92-329a4c92fc3e_2862x4000.jpeg&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!3ozO!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F892635a1-b92c-43d3-aa92-329a4c92fc3e_2862x4000.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!3ozO!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F892635a1-b92c-43d3-aa92-329a4c92fc3e_2862x4000.jpeg 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!3ozO!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F892635a1-b92c-43d3-aa92-329a4c92fc3e_2862x4000.jpeg 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!3ozO!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F892635a1-b92c-43d3-aa92-329a4c92fc3e_2862x4000.jpeg 1456w" sizes="100vw" fetchpriority="high"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p></p><p>Tenho passado algum tempo com o c&#227;ozinho dos meus netos. Virei tutor dele por duas semanas. Sa&#237;mos de casa, caminhamos sem destino pelo centro da cidade fazendo amigos, me deixo contagiar pelo bom humor que ele provoca. Zorro tem cara de cachorro, se me entendem, h&#225; cachorros que parecem tapetes felpudos, outros eu acho parecido com saguis.<span> </span>Um dia encontramos um senhor que levava dois lobos pretos na corda curta. Ele me disse para seguir, ia segurar bem as feras, &#8220;esses dois s&#227;o danados&#8221;, algo assim. Passamos, Zorro e eu, e as feras se jogaram sobre n&#243;s. N&#227;o deu certo, estavam bem presas. Outro dia, no cachorr&#243;dromo da pracinha do Hospital ele encontrou Carmem L&#250;cia, uma cachorrinha muito simp&#225;tica, cuja dona me ensinou muitas coisas sobre a rede social dos c&#227;es; Zorro e ela ficaram melhores amigos na hora.</p><p>Zorro n&#227;o precisa de muito convite para passear. Basta que eu me dirija para a porta, com a guia na m&#227;o, ele vem e j&#225; se abaixa um pouco para que eu prenda o gancho. Mas &#233; uma briga colocar a peiteira, tenho que dar os comandos de praxe. Quando quer comida, ele aperta um bot&#227;o grande, que fica ao lado do pratinho dele. O bot&#227;o &#233; um dispositivo que tem uma grava&#231;&#227;o feita pela minha neta, &#8220;Quero comida&#8221;. Eu coloco a ra&#231;&#227;o e ele come, desde que eu fique ali por perto, como a fazer companhia nessa hora importante. Fico por ali. Saio, ele vem junto, a ver, <em>vai que mais esse tutor me desapare&#231;a</em>. Quando eu sento para trabalhar no escrit&#243;rio, ele fica fazendo companhia, pertinho, abrindo e fechando os olhos. Depois do almo&#231;o, na hora da minha sesta, ele deita no ch&#227;o ao lado da cama e ali fica.</p><p>O veterin&#225;rio que castrou o Zorro na semana passada - foi uma das raz&#245;es pelas quais ele meio morar uns dias comigo -, pediu que eu desse alguns rem&#233;dios, nos dias seguintes. &#201; um drama, isso de dar rem&#233;dio para cachorro e gato; eles n&#227;o querem tomar rem&#233;dio por nada, a gente tem que enfiar na goela e fechar a boca do bicho por uns trinta segundos, at&#233; que ele engula. Coloquei o comprimido de rilexine na m&#227;o e ofereci para ele, em todo o caso. Ele comeu na hora. Me animei e ofereci o outro. N&#227;o teve jeito. Peguei ele no colo, abri a boca, foi mesmo &#224; for&#231;a. A<span> </span>dipirona foi assim: coloquei a dez gotas em uma colherinha e ofereci. Ele cheirou e recusou, n&#227;o teve jeito. Misturei na &#225;gua e foi a mesma coisa, ele n&#227;o quis beber.</p><p>Zorro &#233; muito expressivo. Eu olho para ele e, n&#227;o sei porqu&#234;, ele me faz lembrar o quadro do Vermeer, &#8220;Mo&#231;a com brinco de p&#233;rola&#8221;. Acho que &#233; porque, por vezes, ele me olha de lado, como ela, e o branco dos olhos dele fica muito evidente. O branco dos olhos da mo&#231;a faz um contraste muito forte com a pele dela, com o azul do turbante e com o fundo escuro da tela. A gente nem sempre se d&#225; conta de que os recursos expressivos da cara de um cachorro s&#227;o muito interessantes. Eles conseguem revirar os olhos, como a gente, por exemplo, e mexer as orelhas de um jeito que n&#227;o conseguimos. Zorro consegue mexer as orelhas para frente e para tr&#225;s, para cima e para baixo, juntas ou alternadamente, e, combinando-as com pequenos movimentos das sobrancelhas, pois ele tamb&#233;m movimenta as sobrancelhas, consegue mostrar v&#225;rios estados. Eu acho que o jogo que ele faz com os olhos, com as orelhas, com as sobrancelhas e, n&#227;o se pode esquecer isso, com o nariz, pois ele mexe, ainda que pouco, o nariz, para todos os lados, consegue, quando ele quer, mostrar surpresa, anima&#231;&#227;o, t&#233;dio, alegria, curiosidade, anima&#231;&#227;o, tristeza. Ele faz aquela famosa cara de cachorro pid&#227;o, por exemplo, e por a&#237; vai. Ele enruga a testa, por exemplo, e combina isso com a eleva&#231;&#227;o das orelhas, e isso significa que se ligou em algo.</p><p>Eu acho que estou projetando coisas nele, claro. N&#227;o sei qual &#233; o animal que me olha, como diria um fil&#243;sofo. Como diria outra fil&#243;sofa, n&#227;o &#233; nada evidente essa ideia de que a gente consegue acessar os estados mentais dos bichos sem que isso seja s&#243; a gente mesmo pensando. Mas o fato &#233; que, de alguma forma ou de outra, a gente se comunica com eles. H&#225; um estudo sobre psicologia de cavalos que li, faz muito tempo, que dizia que os cavalos s&#227;o extremamente h&#225;beis em discriminar as express&#245;es emocionais dos humanos; eles identificam estados emocionais de pessoas espec&#237;ficas. Basta lembrar o caso famoso do Clever Hans, o cavalo que &#8220;sabia&#8221; contar. </p><p>Mas eu estava dizendo que o Zorro n&#227;o quis beber a dipirona. Como &#233; que os animais dizem &#8220;n&#227;o&#8221;? Esse &#233; um cap&#237;tulo fascinante da filosofia e dos animais. H&#225; quem diga que a diferen&#231;a mais importante entre os humanos e os animais &#233; a forma de expressar o &#8220;n&#227;o&#8221;.</p><p>A filosofia tem dessas coisas. Ela pega uma palavrinha qualquer, mesmo uma simples conjun&#231;&#227;o, &#8220;porque&#8221;, &#8220;e&#8221;, ou, nesse caso, &#8220;n&#227;o&#8221;, e mostra uma quantidade enorme de coisas que est&#227;o escondidas nela.</p><p>O meu exemplo favorito &#233; o &#8220;porque&#8221;. Quando a gente se pergunta por que, h&#225; pelo menos tr&#234;s significados diferentes para esse &#8220;porque&#8221;. Tipo assim, <em>porque voc&#234; est&#225; comendo isso</em> (br&#243;colis, por exemplo; ou ainda, <em>porque voc&#234; aderindo a essa religi&#227;o</em>, <em>porque comprou esse modelo de carro, porque escolheu essa profiss&#227;o, porque vai votar no fulano</em>?</p><p>As vezes a explica&#231;&#227;o do porque indica uma <em>raz&#227;o</em>. O sujeito come br&#243;colis porque o nutr&#243;logo disse que seria melhor para o caso dele. Mas ele, que n&#227;o gosta de br&#243;colis, pode ter uma <em>motiva&#231;&#227;o</em>, como a de impressionar um amigo vegetariano. Ou ent&#227;o pode ser simplesmente por causa da cria&#231;&#227;o que teve, sempre comeu br&#243;colis. Assim, h&#225;, em princ&#237;pio, tr&#234;s tipos de caminhos que podem explicar porque fizemos algo como comer br&#243;colis, escolher uma religi&#227;o ou comprar um certo modelo de carro: raz&#245;es, motivos e causas. As raz&#245;es tem uma certa impessoalidade, os motivos s&#227;o de ordem psicol&#243;gica, as causas mostram algum tipo de anteced&#234;ncia biogr&#225;fica, hist&#243;rica, etc. E, claro, as coisas quase sempre acontecem misturadamente.</p><p>A mesma coisa vale para a palavrinha &#8220;n&#227;o&#8221;. Essa palavra t&#227;o curta e simples tem ao menos tr&#234;s significados, como &#8220;porqu&#234;&#8221;.</p><p>O primeiro significado &#233; o <em>n&#227;o</em> da <em>recusa</em> de algo. Zorro n&#227;o gosta de usar a peiteira onde a guia de passeio &#233; presa. Ele me olha com cara de cachorro triste e fica longe, se afasta. Ele tamb&#233;m n&#227;o gosta de entrar no carro. Ou de tomar o comprimido de maxican; ele se recusa, meneia a cabe&#231;a, sai correndo. Um beb&#234; faz a mesma coisa.</p><p>O segundo significado do <em>n&#227;o </em>&#233; o da <em>escolha</em> entre alternativas presentes, que &#233; uma discrimina&#231;&#227;o negativa: quero isso, n&#227;o aquilo. Zorro, diante de tipos de alimentos, escolhe um, rejeita outro. Zorro, como outros mam&#237;feros, tem suas prefer&#234;ncias de comida ou de gente. Ele escolhe, isso ou aquilo. Um beb&#234; faz a mesma coisa.</p><p>Esses dois modos de mostrar ou dizer o &#8220;n&#227;o&#8221; indicam que os animais, e n&#243;s tamb&#233;m, temos a capacidade de fazer classifica&#231;&#245;es; e eles partilham uma mesma condi&#231;&#227;o essencial: o &#8220;n&#227;o&#8221;, seja apenas por meio de gestos, seja dito por um ser humano, &#233; manifestado diante de uma situa&#231;&#227;o dada, concreta, particular; em uma palavra, a nega&#231;&#227;o acontece na presen&#231;a da situa&#231;&#227;o negada.</p><p>O terceiro significado do &#8220;n&#227;o&#8221; &#233; mais complicado. Ele n&#227;o est&#225; ao alcance do Zorro nem dos beb&#234;s. Trata-se que quando usamos o &#8220;n&#227;o&#8221; para falar de alguma situa&#231;&#227;o que n&#227;o est&#225; na nossa presen&#231;a, que n&#227;o foi dada diante de n&#243;s. Por exemplo, de algo que imaginamos para o futuro, de algo que eventualmente aconteceu em um passado distante.</p><p>Os dois primeiros casos est&#227;o condicionados, como eu disse, ao fato que o cachorro, o beb&#234; ou a gente mesmo, estamos percebendo algo; por exemplo, a peiteira, o cheiro da dipirona, e recusamos a coisa. Ou est&#227;o condicionados &#224; mem&#243;ria que temos do gosto da cenoura ou da cebola.</p><p>Os dois primeiros &#8220;n&#227;os&#8221; s&#227;o estritamente condicionais, ligados &#224; percep&#231;&#227;o imediata. O terceiro n&#227;o tem nada a ver com isso. O terceiro significado de &#8220;n&#227;o&#8221; tem a ver com a nossa capacidade de <em>projetar</em> nossas ideias no passado, no futuro, nas possibilidades, na imagina&#231;&#227;o. &#201; um <em>n&#227;o projetivo</em>. </p><p>Por exemplo, &#8220;devolver Zorro aos seus leg&#237;timos donos na semana que vem&#8221;.<span> </span>Diante dessa frase, posso me sentir tentado a dizer &#8220;n&#227;o&#8221;, por exemplo. Ou seja, no terceiro caso do significado de &#8220;n&#227;o&#8221;, a gente imagina um certo estado de coisas: uma viagem, um neg&#243;cio, tomar uma garrafa de vinho, ler um certo livro. Como diria o Tugendhat, a gente &#8220;projeta uma situa&#231;&#227;o&#8221;. E, uma vez projetada, a gente pode afirm&#225;-la ou cancel&#225;-la. Esse &#8220;n&#227;o&#8221; nada tem a ver com os anteriores, porque, para que ele exista, &#233; preciso que exista essa capacidade de proje&#231;&#227;o de algo que n&#227;o est&#225; em nossa presen&#231;a f&#237;sica. </p><p>H&#225; horas em penso em ficar com o Zorro por aqui. Mas &#233; certo que na semana que vem devolveremos Zorro, cap&#227;o, aos seus leg&#237;timos tutores. Meus netos n&#227;o v&#227;o aceitar um &#8220;n&#227;o&#8221; como resposta, eu acho. </p><h2><strong>Duas notas:</strong></h2><blockquote><p><em>Nota 1</em>. N&#227;o h&#225; um caminho f&#225;cil para se entender os detalhes do conceito de &#8220;nega&#231;&#227;o projetiva&#8221;. O &#250;nico que conhe&#231;o &#233; aquele oferecido pelo livro de Ernst Tugendhat, <em>Li&#231;&#245;es Introdut&#243;rias &#224; Filosofia Anal&#237;tica da Linguagem</em>, publicado pela Editora Contraponto. O tema da nega&#231;&#227;o come&#231;a na Li&#231;&#227;o 4, mas s&#243; &#233; conclu&#237;do na 28. </p></blockquote><blockquote><p><em>Nota 2</em>. Um livro fascinante sobre a g&#234;nese do &#8220;n&#227;o&#8221; nos beb&#234;s &#233; o de Ren&#233; A. Spitz, <em>O N&#227;o e o Sim. A g&#234;nese da comunica&#231;&#227;o humana</em>. H&#225; tradu&#231;&#227;o, pela Martins Fontes. Eu mesmo cheguei a esse livro por indica&#231;&#227;o do Tugendhat, em <em>Egocentricidade e M&#237;stica</em>, tamb&#233;m publicado entre n&#243;s pela Martins Fontes. </p></blockquote>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[# Digiana 72 - A vida dos animais (V)]]></title><description><![CDATA[Os bugios e metaf&#237;sica.]]></description><link>https://ronai.substack.com/p/digiana-72-a-vida-dos-animais-iv</link><guid isPermaLink="false">https://ronai.substack.com/p/digiana-72-a-vida-dos-animais-iv</guid><dc:creator><![CDATA[Ronai Pires da Rocha]]></dc:creator><pubDate>Mon, 27 Jul 2026 21:26:07 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A9YQ!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fda609d6c-53ba-4b41-aa8e-2f3252997cc4_2733x3993.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!A9YQ!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fda609d6c-53ba-4b41-aa8e-2f3252997cc4_2733x3993.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!A9YQ!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fda609d6c-53ba-4b41-aa8e-2f3252997cc4_2733x3993.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!A9YQ!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fda609d6c-53ba-4b41-aa8e-2f3252997cc4_2733x3993.jpeg 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!A9YQ!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fda609d6c-53ba-4b41-aa8e-2f3252997cc4_2733x3993.jpeg 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!A9YQ!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fda609d6c-53ba-4b41-aa8e-2f3252997cc4_2733x3993.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!A9YQ!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fda609d6c-53ba-4b41-aa8e-2f3252997cc4_2733x3993.jpeg" width="1456" height="2127" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/da609d6c-53ba-4b41-aa8e-2f3252997cc4_2733x3993.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:2127,&quot;width&quot;:1456,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:7232756,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://ronai.substack.com/i/208747366?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fda609d6c-53ba-4b41-aa8e-2f3252997cc4_2733x3993.jpeg&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!A9YQ!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fda609d6c-53ba-4b41-aa8e-2f3252997cc4_2733x3993.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!A9YQ!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fda609d6c-53ba-4b41-aa8e-2f3252997cc4_2733x3993.jpeg 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!A9YQ!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fda609d6c-53ba-4b41-aa8e-2f3252997cc4_2733x3993.jpeg 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!A9YQ!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fda609d6c-53ba-4b41-aa8e-2f3252997cc4_2733x3993.jpeg 1456w" sizes="100vw" fetchpriority="high"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">Um potro, ainda bastante anal&#243;gico</figcaption></figure></div><p></p><p><em><span>1.</span></em><span> </span><em>Quem entende de bugios entende de metaf&#237;sica.</em> A ideia &#233; do Charles Darwin, que escreveu isso em um di&#225;rio: &#8220;<em>A origem do homem est&#225; agora provada. &#8212; A metaf&#237;sica h&#225; de florescer. &#8212; Quem entende o babu&#237;no faria mais pela metaf&#237;sica do que Locke</em>.&#8221; A frase, de 1838, foi prof&#233;tica. De l&#225; para c&#225; os estudos sobre a intelig&#234;ncia e a linguagem dos animais, babu&#237;nos, chimpanz&#233;s, golfinhos, abelhas, cavalos, polvos, cresceram muito e aos poucos provocam mudan&#231;as na forma dos fil&#243;sofos pensar sobre seus temas.</p><p><em><span>2.</span></em><span> </span>N&#227;o sei bem o que Darwin queria dizer com &#8220;metaf&#237;sica&#8221;, a express&#227;o se presta a muitas compreens&#245;es. Na <em>Folha</em> de hoje, 27 de julho, o Pond&#233; fala sobre a metaf&#237;sica, diz que a metaf&#237;sica &#233; puro luxo, uma reflex&#227;o sobre o que constitui a realidade, sobre aquilo que est&#225; al&#233;m da f&#237;sica ou do material. Seja. O que Darwin queria dizer, acho eu, era que o estudo sobre o comportamento dos bugios ajudaria a gente a compreender a hist&#243;ria natural da mente humana. Darwin chegou &#224; conclus&#227;o que os seres humanos tem uma hist&#243;ria natural, e que ela aconteceu sem interven&#231;&#227;o divina, sem uma cria&#231;&#227;o especial, e em uma certa continuidade. O estudo das formas vivas mais simples do que a nossa poderia ajudar na compreens&#227;o de n&#243;s mesmos, e isso mudaria a nossa &#8220;metaf&#237;sica&#8221;, ou seja, a nossa forma de compreender os grandes tra&#231;os da &#8220;realidade&#8221;. Afinal, nessa perspectiva, ci&#234;ncias como a psicologia e a sociologia teriam que conversar, cada vez mais com a biologia, com a &#8220;hist&#243;ria natural&#8221;. A filosofia n&#227;o ficaria de fora disso, na medida em que procura dar sua contribui&#231;&#227;o para a compreens&#227;o das formas como n&#243;s conhecemos e interagimos com a realidade, com os demais seres humanos e conosco mesmos. O estudo dos babu&#237;nos, pensou ele, vai contribuir para o avan&#231;o da metaf&#237;sica. Acho que algo disso vem acontecendo.</p><p><em><span>3.</span></em><span> </span>A mente humana n&#227;o &#233; nem uma constru&#231;&#227;o (<em>cria&#231;&#227;o</em>) divina, tampouco uma constru&#231;&#227;o social (cultural). Ela tem uma hist&#243;ria natural. Claro, ela tem tamb&#233;m uma hist&#243;ria cultural, social, <em>whatever</em> mas n&#227;o s&#243;: as flores sociais precisam de ch&#227;o para crescer, foi a dica do Darwin. Essas met&#225;foras de engenharia s&#227;o duras demais para ser aplicadas &#224; sociedade e &#224; cultura, est&#227;o fazendo &#225;gua por todos os lados. </p><p><em><span>4.</span></em><span> </span>Surgem muitos problemas aqui. O principal deles &#233; a pergunta sobre como a mente se formou, como ela &#8220;veio-vindo&#8221;?<span> </span>Se temos uma mente poderosa, capaz de criar mentes aparentemente ainda mais poderosas, e se h&#225; seres vivos aparentemente sem mentes, como as plantas, os fungos, as bact&#233;rias, a pergunta sobre a hist&#243;ria da forma&#231;&#227;o da mente &#233; inevit&#225;vel: como &#233; que a mente se formou? Se a gente assume um ponto de vista que diz que a cria&#231;&#227;o da mente foi uma interven&#231;&#227;o divina, o problema n&#227;o existe, claro. Se assumimos o ponto de vista da &#8220;constru&#231;&#227;o social&#8221;, tampouco, pois tudo se resolveria dentro da hist&#243;ria da humanidade <em>apenas humana</em> e as teorias da constru&#231;&#227;o social se revelariam, cognitiva e lamentavelmente, pr&#233;-darwinistas. Darwin, acho eu, pensava em termos mais amplos: a mente emerge gradualmente, n&#227;o h&#225; nenhum problema em se dizer, como o Godfrey-Smith, que a polvarada toda tem mente.</p><p><em><span>5.</span></em><span> </span>O desafio que surge a partir de Darwin &#233; o da formula&#231;&#227;o de uma &#8220;metaf&#237;sica da mente&#8221; (uma filosofia da mente) adequada ao fato dela ter surgido da <em>mat&#233;ria</em> sem <em>mente</em>. Desde Darwin andamos com poucos guias nessa floresta escura. </p><p>Antes dele, o problema era outro. Desde mil&#234;nios h&#225; ideias sobre as rela&#231;&#245;es entre o f&#237;sico e o mental, mas a maioria delas considera que a &#8220;mat&#233;ria&#8221; e &#8220;mente&#8221; s&#227;o duas entidades ou subst&#226;ncias prontas, completas; a quest&#227;o &#233; a de saber como elas se relacionam; por exemplo, quando o &#8220;mental&#8221; &#233; pensado como uma esp&#233;cie de &#8220;alma&#8221;, se ela est&#225; pronta antes do corpo, se nasce com ele, se morre junto; enfim, como uma coisa se relaciona com outra. Isso n&#227;o &#233; assim para certos autores, como Arist&#243;teles, que pensava a rela&#231;&#227;o entre corpo e alma de forma mais harm&#244;nica. Enfim, o problema era saber como o mental e o f&#237;sico se sincronizam. <em>Darwin muda os termos do problema</em>. Ele quer saber como algo como a mente surge a partir de outro algo, como a mat&#233;ria. Isso est&#225; formulado um tanto grosseiramente, pois estou misturando um pouco os conceitos de &#8220;mente&#8221; e &#8220;alma&#8221;, mas &#233; mesmo por a&#237;. A biologia (a antropologia, a psicologia) come&#231;a a estudar a mente de <em>todos</em> os animais, n&#227;o apenas a dos humanos. O plano &#233; o de compreender melhor a bicharada, na esperan&#231;a de que isso ajude a compreender melhor os humanos.</p><p><em><span>6.</span></em><span> </span>Eu disse, no come&#231;o dessa s&#233;rie sobre a vida dos animais, que a express&#227;o &#8220;animal digiana&#8221; seria prefer&#237;vel, <em>para certos fins,</em> &#224; &#8220;animal racional&#8221;. O que se ganha com isso? Uma resposta &#233; essa: ao trocar &#8220;racional&#8221; por &#8220;digiana&#8221;, essa dupla dimens&#227;o da cogni&#231;&#227;o humana, o lado digital e o lado anal&#243;gico, ganha destaque.</p><p><em><span>7.</span></em><span> </span><em>E o que se ganha com esse destaque</em>, voc&#234; pergunta? Uma resposta &#233; essa: o lado anal&#243;gico deixa de ser inferior e problem&#225;tico, e pede para ser visto a partir de novas premissas. A express&#227;o, &#8220;animal racional&#8221;, usualmente d&#225; a entender que aquilo que nos define s&#227;o conceitos, argumentos, proposi&#231;&#245;es, que s&#227;o poss&#237;veis somente a partir da dimens&#227;o <em>digital da linguagem</em>; e que as sensa&#231;&#245;es, as percep&#231;&#245;es, os sentimentos s&#227;o uma esp&#233;cie de mat&#233;ria <em>anal&#243;gica</em> a ser processada (ou n&#227;o) no &#226;mbito da racionalidade. Isso cria a impress&#227;o de uma hierarquia. Se os conceitos, as ideias, os argumentos s&#227;o mesmo a nossa ess&#234;ncia, o outro lado (as sensa&#231;&#245;es, percep&#231;&#245;es, sentimentos) parece ficar menos digno, como algo que deve ser processado, comandado, como cavalo mal-domado, em algumas met&#225;foras antigas</p><p><em><span>8.</span></em><span> </span>&#8220;Animal digiana&#8221; &#233; uma express&#227;o que se prestaria a dar igualdade &#224;s duas dimens&#245;es, digital e anal&#243;gica. Elas s&#227;o dois modos cognitivos igualmente origin&#225;rios; um n&#227;o &#233; a base ou a mat&#233;ria do outro. Al&#233;m de recusar uma hierarquia, a express&#227;o &#8220;digiana&#8221; procura nomear esse entrela&#231;amento que &#8220;racional&#8221; n&#227;o consegue. Com isso podemos pensar os bugios com menos preconceitos. Acho que faz uma diferen&#231;a dizer que um bugio &#233; uma criatura anal&#243;gica e dizer que um bugio &#233; uma criatura desprovida de raz&#227;o. Se pensamos a dimens&#227;o digital como uma esp&#233;cie de degrau, podemos dizer que falta ao bugio o degrau digital, e n&#227;o que lhe falta a racionalidade.</p><p><em><span>9.</span></em><span> </span>&#201; pouco, mas &#233; o que temos. A express&#227;o &#8220;racionalidade&#8221; nos &#233; trazida por uma larga e boa tradi&#231;&#227;o, que remonta aos gregos. Essa tradi&#231;&#227;o sup&#245;e, na minha ideia, uma certa superioridade do &#8220;digital&#8221; sobre o &#8220;anal&#243;gico&#8221;.</p><p><em><span>10.</span></em><span> </span>Outra vantagem de &#8220;digiana&#8221; &#233; trazer para a cena um vocabul&#225;rio centrado nos temas contempor&#226;neos da teoria da informa&#231;&#227;o, da comunica&#231;&#227;o, da linguagem. &#8220;Racional&#8221; n&#227;o d&#225; conta disso e al&#233;m disso, &#233; uma express&#227;o, como eu j&#225; escrevi aqui, que d&#225; muito trabalho nas aulas de filosofia, pois os estudantes olham para ela com desconfian&#231;a. Eu acho que &#8220;animal digiana&#8221; nos convida a olhar para o piso anal&#243;gico, o piso t&#233;rreo, de uma outra forma. Quando a gente fala em &#8220;animal racional&#8221;, o piso t&#233;rreo parece ser uma sala de espera onde certos aspectos de nossas vidas, sensa&#231;&#245;es, percep&#231;&#245;es, sentimentos, esperam por sua hora de processamento, promo&#231;&#227;o, controle, sublima&#231;&#227;o. H&#225; at&#233; mesmo um <em>por&#227;o</em> nessa met&#225;fora. Nela, os bugios, mesmo que livres na natureza, s&#227;o como humanos eternamente sentados na sala de espera.</p><p><em><span>11.</span></em><span> </span>Eu queria encerrar aqui a s&#233;rie sobre a vida dos animais, mas n&#227;o deu. Faltam duas ou tr&#234;s coisas, voltaremos.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[# Digiana 71. Sobre a vida dos animais (IV)]]></title><description><![CDATA[A mente veio-vindo ou o qu&#234;? Os LLMs s&#227;o mesmo "intelig&#234;ncia artificial"?]]></description><link>https://ronai.substack.com/p/digiana-71-sobre-a-vida-dos-animais</link><guid isPermaLink="false">https://ronai.substack.com/p/digiana-71-sobre-a-vida-dos-animais</guid><dc:creator><![CDATA[Ronai Pires da Rocha]]></dc:creator><pubDate>Sat, 11 Jul 2026 20:37:26 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!AXh3!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1ef468d4-7b57-4f7c-9d09-f89028a1d954_850x850.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!AXh3!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1ef468d4-7b57-4f7c-9d09-f89028a1d954_850x850.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!AXh3!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1ef468d4-7b57-4f7c-9d09-f89028a1d954_850x850.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!AXh3!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1ef468d4-7b57-4f7c-9d09-f89028a1d954_850x850.jpeg 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!AXh3!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1ef468d4-7b57-4f7c-9d09-f89028a1d954_850x850.jpeg 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!AXh3!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1ef468d4-7b57-4f7c-9d09-f89028a1d954_850x850.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!AXh3!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1ef468d4-7b57-4f7c-9d09-f89028a1d954_850x850.jpeg" width="850" height="850" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/1ef468d4-7b57-4f7c-9d09-f89028a1d954_850x850.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:850,&quot;width&quot;:850,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:280155,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://ronai.substack.com/i/206524143?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1ef468d4-7b57-4f7c-9d09-f89028a1d954_850x850.jpeg&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!AXh3!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1ef468d4-7b57-4f7c-9d09-f89028a1d954_850x850.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!AXh3!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1ef468d4-7b57-4f7c-9d09-f89028a1d954_850x850.jpeg 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!AXh3!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1ef468d4-7b57-4f7c-9d09-f89028a1d954_850x850.jpeg 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!AXh3!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1ef468d4-7b57-4f7c-9d09-f89028a1d954_850x850.jpeg 1456w" sizes="100vw" fetchpriority="high"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">Zorro, pronto para derreter uns cora&#231;&#245;es.</figcaption></figure></div><p>1. Zorro tem um ano. Ele aprendeu a apertar uns bot&#245;es sonoros, grandes e coloridos, para conversar. Ele pede tr&#234;s ou quatro coisas, apertando os respectivos bot&#245;es: <em>comida</em>, <em>passear</em>, <em>brincar</em>; e quando meus netos est&#227;o muito ocupados, fazendo outras coisas, h&#225; um quarto bot&#227;o, &#8220;<em>estou exclu&#237;do</em>&#8221;. Minha neta agora incluiu um quinto bot&#227;o, que Zorro aperta quando v&#234; que todo mundo na casa est&#225; entretido com alguma tela: &#8220;<em>Vamos se mexer, pessoal</em>!&#8221; Houve uma &#233;poca na qual ela tentou fazer o cachorrinho dizer frases. Havia um bot&#227;o, &#8220;Zorro quer&#8221;, que ele devia apertar antes de outro, por exemplo, &#8220;comida&#8221;. Mas parece que ela desistiu de ensinar frases. Meus netos n&#227;o tem nenhuma d&#250;vida que Zorro tem intelig&#234;ncia e alguma linguagem. Ele aperta o bot&#227;o <em>brincar</em> e vem at&#233; a gente arrastando um pano velho, para brincar de <em>segura-e-solta</em>. Se damos uma pausa, ele d&#225; uma torcidinha de pesco&#231;o para um lado e o jeito que ele olha <em>diz</em> algo do tipo &#8220;<em>porque parou, parou porqu&#234;?</em>&#8221;</p><p>2. Terminei de ler o livro do Peter Godfrey-Smith, <em>Outras Mentes: o polvo e a origem da consci&#234;ncia</em>. E, por recomenda&#231;&#227;o da Ma&#237;ra, da Monica de Bolle e da Carroar, assisti o document&#225;rio <em>Professor Polvo</em>, na Netflix, sobre os encontros entre um documentarista, Craig Foster, e um polvo, no mar do Cabo da Boa Esperan&#231;a. Godfrey-Smith &#233; fil&#243;sofo e sabe muito de biologia. Um de seus interesses mais persistentes &#233; o estudo das origens da mente, da intelig&#234;ncia, da consci&#234;ncia. Ningu&#233;m duvida que cachorros, cavalos e outros bichos s&#227;o inteligentes, mas pouca gente se comove com os peixes. Alguns s&#227;o chamados de <em>frutos</em>, n&#227;o? A coisa toda muda quando o assunto &#233; o golfinho ou o cavalo. Quando eu li <em>A Vida dos Animais</em>, do J. M. Coetzee, n&#227;o me escapou uma nota de rodap&#233; sobre um livro intitulado <em>A Mente do Cavalo </em>(1965) escrito por R. H. Smythe, para compreender os &#8220;processos mentais dos equinos&#8221;. H&#225; outro ali, <em>Psicologia do Cavalo</em> (1956), de autoria de Moyra Williams. O livro faz parte de uma cole&#231;&#227;o intitulada &#8220;Horse lovers library&#8221; e &#233; uma leitura boa sobre o tema da intelig&#234;ncia dos cavalos. Ambos est&#227;o dispon&#237;veis no <em>Internet Archive</em>. Repito: ningu&#233;m duvida que cavalos tenham mentes, intelig&#234;ncia, consci&#234;ncia. Mas moluscos?</p><p>3. Godfrey-Smith procura mostrar que os polvos s&#227;o criaturas sofisticadas, dotadas de mente, intelig&#234;ncia e consci&#234;ncia, mesmo que em quantidades modestas. Mas isso, quantidades diminutas, &#233; algo que a gente v&#234; em muita gente ao nosso redor, n&#227;o? O intrigante no polvo &#233; que ele seria dotado de algo que devemos chamar de &#8220;c&#233;rebro&#8221;. O polvo apresenta comportamentos inteligentes, coordenados, e ligados a uma forma primitiva de subjetividade. Assim, sugere Godfrey-Smith, essas coisas que valorizamos tanto, a mente, a consci&#234;ncia e alguma forma de linguagem, surgiram j&#225; nas &#225;guas.</p><p>4. H&#225; duas grandes tend&#234;ncias nesse assunto das origens da consci&#234;ncia e da linguagem. Os estudiosos do tema s&#227;o <em>continuistas</em> ou <em>descontinu&#237;stas</em>. O primeiro grupo &#8211; os <em>continuistas</em> - &#233; a turma do <em>veio-vindo</em>. <em>Veio vindo, veio vindo</em>, desde os primeiros organismos, e chegamos at&#233; aqui, evoluindo de pouco em pouco; os organismos se complexificam, mas n&#227;o h&#225; propriamente saltos e sobressaltos qualitativos, al&#233;m das pequenas e crescentes modifica&#231;&#245;es. Godrey-Smith parece ver as coisas assim. Do polvo at&#233; n&#243;s temos uma complexidade crescente, mas n&#227;o haveria algum hiato, fosso, ponto cr&#237;tico de virada. A segunda turma, dos <em>descontinu&#237;stas</em>, aceita a maior parte do <em>veio-vindo</em>, aceita tudo das boas teorias da evolu&#231;&#227;o, mas quando chega no caso humano, v&#234; um salto, um hiato, uma mudan&#231;a qualitativa. Um caso exemplar de descontinuista, que a gente estudava no Curso de Filosofia da UFSM, &#233; o de Pierre Teilhard de Chardin. Eu li o livro dele com algum entusiasmo, eu queria entender o esc&#226;ndalo que ele causava. Afinal, era um padre da Igreja Cat&#243;lica que aceitava os termos gerais do evolucionismo darwiniano. Mais do que isso, era um padre paleont&#243;logo, daqueles que, como Daniel Cargnin, aqui no Rio Grande do Sul, caminhava no campo para descobrir f&#243;sseis.</p><p>5. Teilhard de Chardin era um descontinuista peculiar. A solu&#231;&#227;o dele para conciliar o evolucionismo com o criacionismo, tinha premissas complicadas. Uma delas era sugerir que o universo, como um todo, teria um <em>interior</em> (uma esp&#233;cie de psiquismo) e um <em>exterior</em> (a materialidade). Na dimens&#227;o exterior haveria continuidade, no interior haveria rupturas radicais. Com essa premissa, a continuidade <em>f&#237;sica</em> do universo seria compat&#237;vel com a ocorr&#234;ncia pontual de mudan&#231;as radicais. Ele chama essas rupturas de &#8220;pontos cr&#237;ticos&#8221;, como a passagem da n&#227;o-vida &#224; vida, a passagem da vida animal ao pensamento reflexivo. Alguns estudantes de nossa turma interpretavam esses &#8220;pontos cr&#237;ticos&#8221; como a interven&#231;&#227;o do dedo de Deus. Essa irrever&#234;ncia n&#227;o importava muito, no final das contas. A coisa importante era que est&#225;vamos lendo um padre que aceitava Darwin e propunha uma solu&#231;&#227;o de compromisso.</p><p>6. Godfrey-Smith &#233; um continu&#237;sta sem firulas. Ele pensa a mente como algo que se faz presente j&#225; em organismos mais simples e aqu&#225;ticos; ela <em>vem-vindo</em>, cada vez mais complexa, mas sem saltos categoriais e sem dedos intervencionistas. Os organismos v&#227;o aquirindo mais capacidades de integra&#231;&#227;o e centraliza&#231;&#227;o das experi&#234;ncias; afinal, ter uma consci&#234;ncia com algum grau de subjetividade, &#233;, na linguagem popular, a capacidade de um organismo ter algum controle sobre si mesmo, sobre as rela&#231;&#245;es com os demais organismos, sobre o pr&#243;prio ambiente.</p><p>7. Teilhard de Chardin diz, no <em>O Fen&#244;meno Humano</em>:</p><blockquote><p>&#8220;O psiquismo de um c&#227;o, diga-se o que disser, &#233; positivamente superior ao de uma toupeira ou de um peixe&#8221;. (p. 172) </p></blockquote><p>O psiquismo, a mente, a consci&#234;ncia, parece ser, <em>antes do fen&#244;meno humano</em>, apenas uma quest&#227;o de <em>um pouquinho mais</em>.</p><p>8. Gostei muito do Godfrey-Smith, <em>mas n&#227;o sou um continu&#237;sta</em>. O continu&#237;sta pensa a evolu&#231;&#227;o da consci&#234;ncia em termos de uma subida de rampa: ficamos em posi&#231;&#227;o mais alta, a cada passo, mas n&#227;o h&#225; degraus, vazios, hiatos, furos na caminhada. O descontinu&#237;sta pensa a evolu&#231;&#227;o da consci&#234;ncia em termos de uma subida de rampa que, l&#225; pelas tantas, tem um degrau, um ressalto. Ou seja, para eles, a mente humana n&#227;o &#233; apenas mais do mesmo que h&#225; nos c&#227;es, peixes e toupeiras. Isso n&#227;o quer dizer que os humanos n&#227;o partilhem muitos passos e caminhos com eles. Pisamos o mesmo ch&#227;o durante um bom trecho, come&#231;amos com a mesma rampa, mas os descontinu&#237;stas pensam que h&#225; algum tipo de ruptura radical em um certo ponto. </p><p>9. Essa s&#233;rie sobre a vida dos animais tem como objetivo conversar sobre o conceito de &#8220;animal racional&#8221; para justificar meu uso de &#8220;animal digiana&#8221;. &#201; por isso que tenho abordado aqui as caracter&#237;sticas da linguagem humana, em contraste com a dos animais. Afinal, ela seria uma das &#8220;rupturas radicais&#8221;. N&#227;o quero me afastar muito disso, mas, diante da import&#226;ncia do tema da intelig&#234;ncia artificial, cabe um pequeno desvio para mais uma queixa sobre a <em>mis&#233;ria</em> dessa escolha de nomes, <em>intelig&#234;ncia artificial</em>. <em>Essa nomenclatura &#233; um desastre</em>, por raz&#245;es que j&#225; expus aqui, no Digiana 15. Assim, volto a dizer umas obviedades:</p><p><span>I. </span>Os &#8220;Large Language Models&#8221; (LLMs) deveriam ser chamados pelo que s&#227;o: <em>intelig&#234;ncia algor&#237;tmica, intelig&#234;ncia de m&#225;quinas, whatever.</em></p><p><span>II. </span><em>A &#250;nica intelig&#234;ncia artificial que existe &#233; a dos seres humanos</em>. Os seres humanos, ao longo de s&#233;culos, produziram linguagens muito especiais, que s&#227;o erroneamente chamadas de &#8220;linguagens naturais&#8221;. Algu&#233;m, algum dia, cometeu esse erro categorial de prop&#243;sito, para distinguir a &#8220;lingua natural&#8221; da &#8220;lingua matem&#225;tica&#8221;; fazia sentido, mas deu nessa bobagem. A l&#237;ngua humana &#233; um artefato, um artif&#237;cio, uma pr&#225;tica social ligada ao nosso corpo e ao nosso ambiente, intersubjetiva, hist&#243;rica; a &#8220;intelig&#234;ncia algoritmica&#8221; &#233; um outro tipo de artefato, derivado e parasit&#225;rio; as LLMs alimentam-se das l&#237;nguas humanas, sem o trabalho de elabor&#225;-las e mant&#234;-las vivas; elas s&#227;o treinadas com textos, isto &#233;, em termos freudianos, com os produtos de nossos &#8220;processos secund&#225;rios&#8221;.</p><p><span>III. </span><em>Natural</em> &#233; ter sido gerado em um &#250;tero, natural &#233; chuva, coice de cavalo, cogumelo na bosta, grama. As l&#237;nguas humanas <em>n&#227;o</em> s&#227;o naturais. Elas surgiram na hist&#243;ria, a partir de esfor&#231;os de compreens&#227;o e comunica&#231;&#227;o de grupos humanos;</p><p><span>IV. Falar </span>uma l&#237;ngua humana &#233; o resultado de um lento aprendizado, que n&#227;o termina nunca, pois ela ultrapassa nossa capacidade individual de aprendizagem.</p><p><span>V. </span>Ter capacidades <em>racionais</em> de comportamento &#233; algo intimamente ligado ao dom&#237;nio de processos mentais que s&#227;o dependentes do dom&#237;nio de uma l&#237;ngua humana. A raz&#227;o &#233; uma <em>virtude</em> a ser buscada, a partir de uma vida coletiva, intergeracional, que ultrapassa as compreens&#245;es de qualquer um de n&#243;s, individualmente; h&#225; uma ironia aqui, pois se diz que os LLMs excedem a compreens&#227;o dos engenheiros que os desenham.</p><p><span>VI. </span><em>Ningu&#233;m, nenhum ser humano, &#233; racional pelo simples fato de ter um organismo biologicamente humano. </em>H&#225; uma diferen&#231;a entre ter acesso &#224;s capacidades fundamentais da linguagem, quando somos introduzidos em uma l&#237;ngua materna,  e o desenvolvimento e o exerc&#237;cio dessa capacidade de linguagem. As nossas realiza&#231;&#245;es s&#227;o proporcionais aos nossos esfor&#231;os, coletivos e individuais.  Ningu&#233;m nasce racional.  </p><p><span>VII. </span>Comemos o fruto da &#225;rvore comunit&#225;ria chamada de<em> l&#237;ngua materna</em>; dependendo da forma como isso ocorre em cada um de n&#243;s, adquirimos formas de comportamento que, sob certos pontos de vista, podem ser chamados de &#8220;racionais&#8221;, a saber, pass&#237;veis de justifica&#231;&#245;es (causais, hist&#243;ricas, psicol&#243;gicas). Falar uma l&#237;ngua humana significa entrar em um jogo de dar e pedir raz&#245;es; entramos, como dizem alguns fil&#243;sofos, no "espa&#231;o das raz&#245;es".</p><p><span>VIII. </span>A intelig&#234;ncia humana, a mente humana, a consci&#234;ncia humana, na medida em que depende de conceitos (daquilo que Freud chamaria de &#8220;processos secund&#225;rios&#8221;), <em>&#233; artificial</em>. Essa dimens&#227;o da mente humana &#233; um <em>artif&#237;cio</em>. Para refrescar: Freud diz que o funcionamento mental da gente ocorre mediante dois tipos de processos, os <em>prim&#225;rios</em> e os <em>secund&#225;rios</em>. O primeiro &#233; o mundo do inconsciente, o segundo &#233; o espa&#231;o do pensamento consciente.</p><p>IX. <em>&#201; evidente que a mente humana &#233; mais do que isso</em>, mas n&#227;o vou falar disso agora. O que eu quero destacar aqui &#233; apenas isso: <em>a &#250;nica intelig&#234;ncia artificial leg&#237;tima &#233; a dos seres humanos</em>. Ela &#233; uma arte; se ela est&#225; ou n&#227;o em decad&#234;ncia, porque estamos abrindo m&#227;o da pr&#225;tica dessa arte, em favor do uso de processos <em>terci&#225;rios,</em> de intelig&#234;ncias baseadas em algoritmos que apenas imitam as pr&#225;ticas de justifica&#231;&#227;o., isso temos que discutir. Mas, diferentemente das raz&#245;es que n&#243;s precisamos apresentar uns para os outros, em l&#237;ngua humana, com o respectivo empenho da nossa palavra e da nossa responsabilidade, a imita&#231;&#227;o funcional de racioc&#237;nios, feita pelas LLMs n&#227;o implica em responsabiliza&#231;&#245;es; a LLM n&#227;o assume compromisso, n&#227;o habita o espa&#231;o das raz&#245;es. </p><p>10 . A intelig&#234;ncia algor&#237;tmica representa, como querem alguns, algum tipo de ruptura radical na hist&#243;ria da humanidade? A escrita (e a prensa) possibilitou o surgimento do livro, que armazena nossos pensamentos. Ao que tudo indica, &#233; a primeira vez na hist&#243;ria da humanidade, desde a inven&#231;&#227;o da prensa, que dispomos de um tipo de exterioriza&#231;&#227;o de nossas ideias que funciona <em>sem a gente</em>, ou seja, que dispensa as a&#231;&#245;es comunicativas e de compreens&#227;o que praticamos desde sempre. Podemos agora manter conversas sem que ningu&#233;m nos escute; e s&#227;o conversas sem os riscos, os tateios e as dificuldades de reconhecimento m&#250;tuo t&#237;picas do encontro humano. Isso parece indicar uma ruptura, uma mudan&#231;a radical no tipo  de comunica&#231;&#227;o dispon&#237;vel. Por outro lado, Plat&#227;o acusou a escrita de prejudicar a mem&#243;ria ao exterioriz&#225;-la e, nessa linha, h&#225; quem queira ver nos LLMs, com otimismo, apenas um passo a mais na mesma escada (da escrita e da prensa) de publiciza&#231;&#227;o e disponibilidade de nossos pensamentos.</p><p>11. Eu n&#227;o sei. A conversa cotidiana e na sala de aula e a escrita de um trabalho acad&#234;mico ou de um bilhete est&#227;o ancoradas em nosso corpo, elas dependem da nossa voz, da espinha curvada, das m&#227;os. S&#227;o epis&#243;dios pelos quais respondemos. Os fil&#243;sofos sempre insistiram nisso, que<em> a nossa l&#237;ngua materna &#233; uma esp&#233;cie de casa, piso, moradia</em>. E onde se ancora esse novo mundo dos LLMs? Talvez seja apenas uma casa muito estranha, sem teto, sem piso, sem nada. </p><p>12. Parece surgir, com os LLMs, uma esp&#233;cie de &#8220;processo terci&#225;rio&#8221;. Na vida cotidiana, como observou Freud, os sonhos que temos, em nossos &#8220;processos prim&#225;rios&#8221;, comunicam-se, de alguma forma, com nossos pensamentos, os &#8220;processos secund&#225;rios&#8221;. Parece surgir, com as LLMs, um &#8220;processo terci&#225;rio&#8221;, sem comunica&#231;&#227;o com nossos sonhos e sem nenhum ancoramento em nossa voz, em nossa espinha e m&#227;os. O <em>digital</em> que nos habita, desde o surgimento do fonema,<em> ganha vida pr&#243;pria</em>. Zorro sonha, eu acho, mas seus sonhos est&#227;o mais para o anal&#243;gico puro do que para um sonho <em>digiana</em>. As  LLMs alucinam cada vez menos, mas nunca sonhar&#227;o.</p><p><em>13. Encore un effort</em>, se queremos ser <em>digianas</em>. Temos que bem compreender essas coisas, temos que reorganizar nossa vida com os LLMs sem perder o piso anal&#243;gico. Nas universidades, diante da epidemia de uso indevido dos LLMs, est&#227;o voltando as provas orais e as reda&#231;&#245;es escritas de espinha curvada na mesa, diante do olhar docente. Com poucos alunos, isso funciona. Mas isso me fez lembrar que eu j&#225; tive, no Curso de Filosofia da UFSM, uma turma com 120 alunos, n&#227;o teria como fazer isso. Sei n&#227;o. </p><p></p><p></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[# Digiana 70. "Não sou mais um animal, mana." ]]></title><description><![CDATA[A vida dos animais, III.]]></description><link>https://ronai.substack.com/p/digiana-70-nao-sou-mais-um-animal</link><guid isPermaLink="false">https://ronai.substack.com/p/digiana-70-nao-sou-mais-um-animal</guid><dc:creator><![CDATA[Ronai Pires da Rocha]]></dc:creator><pubDate>Wed, 24 Jun 2026 14:00:34 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!iI6y!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F53be93ed-b3d5-4458-835c-f2c3d72ca6b2_3024x4032.heic" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!iI6y!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F53be93ed-b3d5-4458-835c-f2c3d72ca6b2_3024x4032.heic" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!iI6y!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F53be93ed-b3d5-4458-835c-f2c3d72ca6b2_3024x4032.heic 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!iI6y!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F53be93ed-b3d5-4458-835c-f2c3d72ca6b2_3024x4032.heic 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!iI6y!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F53be93ed-b3d5-4458-835c-f2c3d72ca6b2_3024x4032.heic 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!iI6y!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F53be93ed-b3d5-4458-835c-f2c3d72ca6b2_3024x4032.heic 1456w" sizes="100vw"><img src="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!iI6y!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F53be93ed-b3d5-4458-835c-f2c3d72ca6b2_3024x4032.heic" width="1456" height="1941" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/53be93ed-b3d5-4458-835c-f2c3d72ca6b2_3024x4032.heic&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:1941,&quot;width&quot;:1456,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:3099772,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/heic&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://ronai.substack.com/i/203396465?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F53be93ed-b3d5-4458-835c-f2c3d72ca6b2_3024x4032.heic&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!iI6y!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F53be93ed-b3d5-4458-835c-f2c3d72ca6b2_3024x4032.heic 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!iI6y!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F53be93ed-b3d5-4458-835c-f2c3d72ca6b2_3024x4032.heic 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!iI6y!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F53be93ed-b3d5-4458-835c-f2c3d72ca6b2_3024x4032.heic 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!iI6y!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F53be93ed-b3d5-4458-835c-f2c3d72ca6b2_3024x4032.heic 1456w" sizes="100vw" fetchpriority="high"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">No Jardim das Esculturas, Nova Palma, RS.</figcaption></figure></div><p>1.</p><blockquote><p><em>&#8220;N&#227;o sou mais um animal, mana&#8221;, diz Yeonghye baixinho, passando os olhos pelo quarto vazio, como se estivesse contando um segredo. &#8220;N&#227;o preciso mais comer. Consigo viver assim. S&#243; preciso tomar sol.&#8221;</em></p><p><em>&#8220;Do que voc&#234; est&#225; falando? Acha mesmo que virou uma &#225;rvore? Se voc&#234; fosse uma planta, como poderia falar? Como poderia pensar?</em></p><p><em>Os olhos de Yeonghye brilham. Um sorriso enigm&#225;tico ilumina seu rosto.</em></p><p><em>&#8220;Voc&#234; tem raz&#227;o, mana. N&#227;o vai demorar muito e deixarei de falar, de pensar... Falta pouco...&#8221; diz a irm&#227; mais nova, esbo&#231;ando um sorriso e suspirando com for&#231;a&#8221;</em></p></blockquote><p>Han Kang, <em>A vegetariana</em>. SP, Editora Todavia, 2018, p.145-6.</p><p>2. Sobre o <em>falar</em>: o que h&#225; de <em>comum</em> entre a linguagem dos humanos e a dos demais animais? E quais s&#227;o as principais diferen&#231;as? Charles Hockett, nos anos 1960, indicou dezesseis aspectos da linguagem humana. A <em>maioria</em> deles &#233; partilhada. Veja a lista:</p><blockquote><p><span>1. </span>A altern&#226;ncia de pap&#233;is: os usu&#225;rios da l&#237;ngua podem ser falantes e ouvintes, ativos ou passivos.</p><p><span>2. </span>A l&#237;ngua deve ser aprendida, e o usu&#225;rio de uma delas pode aprender muitas outras.</p><p><span>3. </span>Os significados das palavras s&#227;o geralmente ligados de modo arbitr&#225;rio aos sinais que os veiculam.</p><p><span>4. </span>Os canais de comunica&#231;&#227;o s&#227;o duplos, vocais e auditivos.</p><p><span>5. </span>A l&#237;ngua permite que o passado, o presente e o futuros sejam codificados e compreendidos. Ou seja, os usu&#225;rios podem de deslocar da situa&#231;&#227;o de fala.</p><p><span>6. </span>Cada proferimento &#233; discreto, diferente de todos os demais, por ao menos um tra&#231;o distintivo (gado, gato, galo).</p><p><span>7. </span>As unidades lingu&#237;sticas que n&#227;o tem significado (os fonemas) combinam-se com unidades com significado os (morfemas), e estes s&#227;o combinados em unidades maiores (senten&#231;as). Ou seja, o padr&#227;o &#233; dual.</p><p><span>8. </span>Os sinais lingu&#237;sticos realizam seu trabalho por meio do encaixe deles no sistema perceptivo e cognitivo, e n&#227;o por meio de energia direta (como bater ou morder). Trata-se de uma &#8220;especializa&#231;&#227;o&#8221;.</p><p><span>9. </span>A linguagem permite mentir, prevaricar.</p><p><span>10. </span>Novos procedimentos lingu&#237;sticos podem ser rapidamente produzidos e compreendidos. A linguagem &#233; &#8220;produtiva&#8221;.</p><p><span>11. </span>Os sinais produzidos somem rapidamente. A linguagem se extingue rapidamente.</p><p><span>12. </span>O falante ouve tudo o que diz. H&#225; uma realimenta&#231;&#227;o completa.</p><p><span>13. </span>A linguagem pode ser usada para falar de si mesma; ela &#233; reflexiva.</p><p><span>14. </span>Algumas unidades lingu&#237;sticas, como as palavras, t&#234;m significados espec&#237;ficos.</p><p><span>15. </span>As l&#237;nguas n&#227;o s&#227;o geneticamente codificadas, precisam ser aprendidas. Elas permitem a transmiss&#227;o da cultura.</p><p><span>16. </span>Qualquer ouvinte, no alcance da fala, pode escutar o que &#233; dito; a transmiss&#227;o &#233; aberta.</p></blockquote><p>Nessa lista, os candidatos fortes &#224; exclusividade humana s&#227;o apenas 4: a fonologia combinat&#243;ria (6 e 7), o deslocamento (5), e a reflexividade (13). Quase todos os outros tra&#231;os podem ser identificados, com maior ou menor presen&#231;a, nas linguagens animais em geral. Certo, h&#225; diferen&#231;as importantes entre conversar com cavalos e com peixes.</p><p>3. Yeonghye, a personagem central de <em>A Vegetariana</em>, depois de deixar de comer carne, resolve deixar de ser um animal, abandona a fala e o pensamento.</p><p>Han Kang &#233; coreana, tem 56 anos, foi premio Nobel em 2024. Seu livro &#233; desconcertante. Depois de l&#234;-lo, me peguei pensando em qual poderia ser a met&#225;fora central. Enquanto pensava nisso me lembrei de outra novela, sobre um tema semelhante. &#201; <em>A Vida dos Animais</em>, de J. M. Coetzee. Na cena final do livro, a personagem central, Elizabeth Costelo, se despede do filho, no aeroporto. Ele est&#225; perplexo com as posi&#231;&#245;es radicais que a m&#227;e assume em rela&#231;&#227;o aos animais e ela percebe isso. Ent&#227;o ela diz, em um tom de confiss&#227;o, que as palavras que ela usou foram atrozes, <em>que ela nem deveria contar</em>. Ele fica surpreso, &#8220;N&#227;o estou entendendo&#8221; ele diz. &#8220;O que voc&#234; n&#227;o pode contar?&#8221; A resposta dela come&#231;a assim:</p><blockquote><p>&#8220;Que n&#227;o sei mais onde estou.&#8221;</p></blockquote><p>A radicalidade de <em>A Vegetariana</em>, a met&#225;fora que ainda n&#227;o consigo formular, vai nessa dire&#231;&#227;o: <em>a gente n&#227;o sabe mais onde est&#225;</em>.</p><p>4. Aqui eu estou divagando um pouco. Acontece que a frase do Coetzee, &#8220;que n&#227;o sei mais onde estou&#8221;, me fez lembrar uma outra, de Wittgenstein, sobre a natureza da filosofia. Ele diz:</p><blockquote><p>&#8220;Um problema filos&#243;fico tem a forma: eu n&#227;o sei a quantas ando&#8221;.</p></blockquote><p>A filosofia, nessa linha de pensamento, &#233; uma coisa que a gente procura quando n&#227;o sabemos bem onde estamos, a quantas andamos: um espa&#231;o para a gente tentar explorar de novo as coisas de sempre, a gente mesmo, a vida.</p><p>5. Quando comecei a estudar filosofia, em 1970, um dos primeiros livros que li foi de um fil&#243;sofo ga&#250;cho, Gerd Bornheim, <em>Introdu&#231;&#227;o ao Filosofar</em>. Conheci pessoalmente o Gerd, que veio dar uma palestra na UFSM, em 1971, acho eu. Era um tipo alto, de voz grave, simp&#225;tico ao jeito dele. A ep&#237;grafe do livro era essa, de Eliot:</p><blockquote><p><em>We shall never cease from exploration, and the end of all our exploring, will be to arrive where we started and know the place for the first time</em>.</p></blockquote><p>Na tradu&#231;&#227;o de Ivan Junqueira: <em>n&#227;o cessaremos nunca de explorar e o fim de toda nossa explora&#231;&#227;o ser&#225; chegar ao ponto de partida e o lugar reconhecer ainda como da primeira vez que o vimos</em>.</p><p>N&#227;o aceitei bem a ep&#237;grafe, colocada ali, no come&#231;o de um livro de introdu&#231;&#227;o &#224; filosofia. Acho que, tomado pela insensatez juvenil, eu achava que a filosofia me levaria a outro mundo, muito diferente daquele no qual eu estava metido, e do qual, descobri depois, n&#227;o fazia a menor ideia. Gerd dizia que a gente ia se matar estudando filosofia para finalmente voltar ao <em>mesmo</em> lugar onde est&#225;vamos? Aqui eu estranho um pouco a tradu&#231;&#227;o do Ivan Junqueira. Acho que Eliot disse que voltar&#237;amos ao lugar de onde sa&#237;mos para <em>ent&#227;o, finalmente, conhecer o lugar</em>. Isso &#233; mais parecido com o trabalho da filosofia, a gente se perde dentro da pr&#243;pria casa.</p><p>6. Estou lendo <em>Outras Mentes. O polvo e a origem da consci&#234;ncia</em>, de Peter Godfrey-Smith. O polvo &#233; um fruto do mar muito especial. Ele tem uma intelig&#234;ncia fora do comum. Depois de ler o livro fica imposs&#237;vel comer um. O polvo &#233; um bicho t&#227;o especial que, como diz o t&#237;tulo do livro, seu estudo pode dar pistas sobre a origem da consci&#234;ncia. Eu queria ler esse livro na &#233;poca em que escrevi o <em>Caminhos e equ&#237;vocos da escola brasileira</em> (<a href="https://www.editoracontexto.com.br/pacote-ronai-rocha--4-livros-com-25-de-desconto/p">Ed. Contexto, SP, 2025</a>), para ampliar minhas leituras nos temas da espiritualidade e consci&#234;ncia, mas n&#227;o consegui. Na &#233;poca, e agora mais ainda, o meu interesse era sobre a quest&#227;o das rela&#231;&#245;es entre a &#8220;mat&#233;ria&#8221; e o &#8220;esp&#237;rito&#8221; (alma, consci&#234;ncia). Na &#233;poca eu cheguei a essa passagem do <em>Livro do Desassossego</em>, do Fernando Pessoa. Eu uso a edi&#231;&#227;o do Jer&#244;nimo Pizarro, da Tinta da China. Ela est&#225; na p&#225;gina 459:</p><blockquote><p style="text-align: justify;"><em>N&#227;o comungo, n&#227;o comunguei nunca, n&#227;o poderei, suponho, alguma vez comungar aquele conceito bastardo pelo qual somos, como almas, consequ&#234;ncias de uma coisa material chamada c&#233;rebro, que existe por condi&#231;&#227;o, dentro de outra coisa material chamado cr&#226;nio. N&#227;o posso ser materialista, que &#233; o que, creio, se chama &#224;quele conceito, porque n&#227;o posso estabelecer uma rela&#231;&#227;o n&#237;tida &#8211; uma rela&#231;&#227;o visual, direi &#8211; entre uma massa vis&#237;vel de mat&#233;ria cinzenta, ou de outra cor qualquer, e esta coisa eu que por tr&#225;s do meu olhar v&#234; os c&#233;us e os pensa, e imagina c&#233;us que n&#227;o existem.</em></p></blockquote><p><span>O problema do Fernando Pessoa &#233; um dos mais dif&#237;ceis na filosofia: se as coisas espirituais t&#234;m sua origem em coisas materiais. Ele sugere um esquema em duas colunas. Numa delas est&#225; a &#8220;alma&#8221;, a &#8220;coisa eu&#8221;, &#8220;o esp&#237;rito&#8221;, a &#8220;consci&#234;ncia&#8221;; na outra est&#225; a &#8220;mat&#233;ria cinzenta&#8221;, o &#8220;c&#233;rebro&#8221;.</span></p><ul><li><p><span data-color="#980000" style="color: rgb(152, 0, 0);">Corpo, mat&#233;ria, c&#233;rebro, carne, exterior ...</span></p></li><li><p><span data-color="#980000" style="color: rgb(152, 0, 0);">Alma, coisa-eu, esp&#237;rito, consci&#234;ncia, mente, interior, pensamento, subjetividade </span></p></li></ul><p><span>A gente se pergunta aqui algumas coisas. Como essas duas listas se relacionam? H&#225;, entre elas, causa, consequ&#234;ncia, correla&#231;&#227;o, sincronia, integra&#231;&#227;o, mescla, continuidade, salto, mist&#233;rio? Que tipo de coisa/processo/subst&#226;ncia/evento s&#227;o as &#8220;coisas&#8221; da segunda lista? Que tipo de animal &#233; capaz delas? E ainda: n&#227;o seria poss&#237;vel ver essas duas listas como uma s&#243;?</span></p><p><span>&#8220;</span><em><span>Que n&#227;o sei mais onde estou, mana</span></em><span>&#8221;.</span></p><p><span>7. Fernando Pessoa se recusa a pensar que a &#8220;coisa-que-sou-eu&#8221; seja uma consequ&#234;ncia de algo material, da carne. &#201; um problem&#227;o: </span><em><span>como carne pensa</span></em><span>? (Veja, sobre isso, o </span><em><a href="/__u/ronai.substack.com/p/24-literatura-e-filosofia-os-significados"><span>Digiana 24</span></a></em><span>.) De onde vem a nossa imagina&#231;&#227;o? De onde sai a nossa capacidade de imaginar possibilidades, de ver coisas que n&#227;o existem, de pensar os c&#233;us? </span>O c&#233;rebro, a mat&#233;ria, n&#227;o &#233; a <em>causa</em> da &#8220;coisa eu&#8221;, diz ele. A &#8220;coisa-eu&#8221; n&#227;o &#233; uma <em>consequ&#234;ncia</em> da carne. Pode haver uma rela&#231;&#227;o entre a &#8220;coisa-eu&#8221; e a &#8220;coisa-c&#233;rebro&#8221;, ele concede, mas ela n&#227;o &#233; <em>n&#237;tida</em> e isso n&#227;o nos autoriza a sermos &#8220;materialistas&#8221;.</p><p>8. Fernando Pessoa escreveu o <em>Livro do Desassossego</em> entre 1917 e 1934. Na passagem que citei, ele deu forma liter&#225;ria a um problema que intriga a humanidade desde sempre. N&#227;o h&#225; religi&#227;o ou sabedoria ou pr&#225;tica espiritual, antiga ou nova, que n&#227;o trate desses temas. Plat&#227;o e Arist&#243;teles tinham suas solu&#231;&#245;es. Um era mais dualista, outro era mais integrador. A coisa desandou depois. Primeiro, com Descartes. Ele sugeriu que as coisas da segunda lista seriam, precisamente, <em>coisas</em>, <em>subst&#226;ncias</em>. Nas palavras dele, <em>res</em>, a <em>res cogitans</em>. A outra <em>coisa</em> seria a <em>res extensa</em>, a mat&#233;ria a extens&#227;o. Assim, surge o problema de como essas duas <em>subst&#226;ncias</em> se comunicam. Os antigos, de uma ou de outra forma, n&#227;o ca&#237;ram nessa armadilha. Para resolver o problema que ele mesmo criou, Descartes sugeriu que uma outra subst&#226;ncia, <em>a gl&#226;ndula pineal</em>, teria como papel fazer a liga&#231;&#227;o entre as duas coisas. </p><p>No mundo da mec&#226;nica &#233; f&#225;cil imaginar que um conjunto de engrenagens, o c&#226;mbio, <em>sincroniza-se</em> com o motor e a transmiss&#227;o; uma coisa liga, <em>sincronicamente</em>, uma coisa com outra coisa, diria a crian&#231;a. No <em>Tratado do Homem</em>, de Descartes, ele desenhou pranchas de anatomia mostrando como a coisa funcionaria. Ao que parece, Descartes escolheu a gl&#226;ndula pineal como o lugar da sincronia entre a mente e o corpo porque ela &#233; muito pequena, e tamb&#233;m porque ningu&#233;m sabe muito bem qual seria a fun&#231;&#227;o  dela.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!TtH5!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3cc5c836-7c1d-4f7c-a513-78daf398cbdf_1062x720.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!TtH5!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3cc5c836-7c1d-4f7c-a513-78daf398cbdf_1062x720.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!TtH5!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3cc5c836-7c1d-4f7c-a513-78daf398cbdf_1062x720.png 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!TtH5!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3cc5c836-7c1d-4f7c-a513-78daf398cbdf_1062x720.png 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!TtH5!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3cc5c836-7c1d-4f7c-a513-78daf398cbdf_1062x720.png 1456w" sizes="100vw"><img src="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!TtH5!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3cc5c836-7c1d-4f7c-a513-78daf398cbdf_1062x720.png" width="1062" height="720" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/3cc5c836-7c1d-4f7c-a513-78daf398cbdf_1062x720.png&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:720,&quot;width&quot;:1062,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:684948,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://ronai.substack.com/i/203396465?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3cc5c836-7c1d-4f7c-a513-78daf398cbdf_1062x720.png&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" title="" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!TtH5!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3cc5c836-7c1d-4f7c-a513-78daf398cbdf_1062x720.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!TtH5!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3cc5c836-7c1d-4f7c-a513-78daf398cbdf_1062x720.png 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!TtH5!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3cc5c836-7c1d-4f7c-a513-78daf398cbdf_1062x720.png 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!TtH5!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3cc5c836-7c1d-4f7c-a513-78daf398cbdf_1062x720.png 1456w" sizes="100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p>Foi uma mulher, Elisabeth da Bo&#234;mia, quem sugeriu que tudo isso era uma grande confus&#227;o, na qual a conclus&#227;o &#233; que <em>coisas provocam coisas em coisas.</em> Descartes ficou meio sem saber o que dizer para ela e saiu pela tangente. Ficamos nisso, at&#233; que os termos do problema mudaram. Aqui a filosofia ajuda um pouco. N&#227;o existem apenas <em>coisas</em>. </p><p>Os termos do problema mudaram faz algum tempo. Quando Fernando Pessoa escreveu sobre o tema, a mudan&#231;a estava em curso. A <em>mec&#226;nica</em> das coisas fica em segundo plano. Entra em cena a <em>biologia</em> e a vida dos animais. (Segue)</p><p> </p><div><hr></div><p style="text-align: justify;"></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[# Digiana 69. A vida dos animais (II)]]></title><description><![CDATA[N&#227;o nascemos animais; o neo-existencialismo; Sartre sofria de deleuzi&#227;o?]]></description><link>https://ronai.substack.com/p/digiana-69-a-vida-dos-animais-ii</link><guid isPermaLink="false">https://ronai.substack.com/p/digiana-69-a-vida-dos-animais-ii</guid><dc:creator><![CDATA[Ronai Pires da Rocha]]></dc:creator><pubDate>Fri, 12 Jun 2026 01:48:27 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!efCr!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbe8eafcb-069f-4cde-b66d-c7769be69381_3024x4032.heic" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!efCr!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbe8eafcb-069f-4cde-b66d-c7769be69381_3024x4032.heic" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!efCr!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbe8eafcb-069f-4cde-b66d-c7769be69381_3024x4032.heic 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!efCr!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbe8eafcb-069f-4cde-b66d-c7769be69381_3024x4032.heic 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!efCr!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbe8eafcb-069f-4cde-b66d-c7769be69381_3024x4032.heic 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!efCr!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbe8eafcb-069f-4cde-b66d-c7769be69381_3024x4032.heic 1456w" sizes="100vw"><img src="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!efCr!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbe8eafcb-069f-4cde-b66d-c7769be69381_3024x4032.heic" width="1456" height="1941" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/be8eafcb-069f-4cde-b66d-c7769be69381_3024x4032.heic&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:1941,&quot;width&quot;:1456,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:2714239,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/heic&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://ronai.substack.com/i/201683200?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbe8eafcb-069f-4cde-b66d-c7769be69381_3024x4032.heic&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!efCr!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbe8eafcb-069f-4cde-b66d-c7769be69381_3024x4032.heic 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!efCr!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbe8eafcb-069f-4cde-b66d-c7769be69381_3024x4032.heic 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!efCr!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbe8eafcb-069f-4cde-b66d-c7769be69381_3024x4032.heic 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!efCr!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fbe8eafcb-069f-4cde-b66d-c7769be69381_3024x4032.heic 1456w" sizes="100vw" fetchpriority="high"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p>1.</p><p>Minha neta brincava diariamente com meia d&#250;zia de galinhas no quintal da casa, colhia os ovos delas com cuidado, levava-as no colo, com pouco mais de dois anos de idade. As galinhas n&#227;o eram criadas para o abate, isso estava fora de quest&#227;o na fam&#237;lia. E ela n&#227;o ligava as vidas no quintal com as comidas servidas na mesa. Ao menos era o que a gente pensava, pois a massa ao molho de tomates, com pedacinhos de peito de frango comprados no mercado, desfazia a forma das amigas. At&#233; que um dia.</p><p>Para descrever a express&#227;o dela, eu teria que achar uma palavra que juntasse surpresa, intriga, come&#231;o de susto. Pois chegou o dia em que apareceu na mesa um prato com coxas e sobrecoxas de galinha. As formas pareceram familiares, claro. Tantas vezes ela havia segurado as amigas no colo.</p><p>As amigas seguiam no p&#225;tio da casa, mas aquilo na mesa era uma <em>perna de amiga</em>. Lembro, como se fosse hoje, de seu pequeno gesto de faz-de-conta-que-estou-comendo-isso, enquanto tentava compreender o que estava acontecendo. Alguma amiga das amigas estava servida na mesa. Desde aquele dia ela come&#231;ou a olhar para a comida de um jeito diferente, recusava certos pratos, desconfiava de outros, ficou introspectiva nesse assunto.</p><p>2.</p><p>O segundo tomo de <em>O Segundo Sexo</em>, de Simone de Beauvoir, come&#231;a assim, na tradu&#231;&#227;o brasileira de S&#233;rgio Milliet:</p><blockquote><p>&#8220;Ningu&#233;m nasce mulher: torna-se mulher.&#8221;</p></blockquote><p>Markus Gabriel, em seu livro <em>O ser humano como animal</em> (Vozes, 2023) fez essa adapta&#231;&#227;o: <em>n&#227;o se nasce animal, torna-se animal</em>:</p><blockquote><p>&#8220;Adaptando um ditado da grande fil&#243;sofa existencialista Simone de Beauvoir, poder&#237;amos dizer que o ser humano n&#227;o nasce animal, ele torna-se animal.&#8221; (p. 33)</p></blockquote><p>3.</p><p>Markus Gabriel &#233; um <em>neo-existencialista</em>, ele n&#227;o lembra de Simone por acaso. Existencialistas, como Sartre, usam a frase &#8220;a exist&#234;ncia precede a ess&#234;ncia&#8221; para indicar que, no caso dos seres humanos, n&#227;o temos uma ess&#234;ncia, uma natureza fixa; o ser humano surge no palco do mundo sem um <em>prompt</em>, n&#227;o haveria uma &#8220;natureza humana&#8221; para sugerir o que cada pessoa deve ser ou fazer. O contr&#225;rio (&#8220;a ess&#234;ncia precede a exist&#234;ncia&#8221;) vale para os objetos que criamos, que sempre tem alguma serventia. <em>A gente n&#227;o serve para nada</em>, diria o existencialista, porque n&#227;o fomos feitos por um <em>Algu&#233;m</em>. A gente estamos aqui sem plano pr&#233;vio, temos que nos fazer. Vem da&#237; outra f&#243;rmula do existencialismo: estamos condenados a ser livres; na aus&#234;ncia de <em>prompts</em> sobre o certo e o errado, sobre o bem e o mal, temos que nos escrever, somos respons&#225;veis pelo que nos tornamos sem destino e Deus. Somos o que fazemos de n&#243;s mesmos e n&#227;o h&#225; sinaliza&#231;&#227;o na estrada da vida. N&#227;o h&#225; estrada, pensando bem. Tudo &#233; trilha e travessia.</p><p>4.</p><p>Quando eu comecei a estudar filosofia, no come&#231;o dos anos 1970, o existencialismo j&#225; n&#227;o era <em>da hora</em>. Claro, havia um e outro colega entusiasmado com ele, mas era s&#243;. O apogeu do existencialismo aconteceu nos anos 1940, come&#231;o dos 1950 e mesmo nessa &#233;poca surgiram ou cr&#237;ticas importantes a ele (como a de Heidegger, na <em>Carta sobre o Humanismo</em>) ou tend&#234;ncias que o deixavam de lado, como a dos estruturalistas. Eu mesmo n&#227;o me entusiasmei muito com Sartre, os anos 1960 trouxeram para a linha de frente outros franceses, como L&#233;vi-Strauss e Foucault, rapidamente traduzidos no Brasil, e o pr&#243;prio Sartre mostrou-se mais interessado no marxismo. Foi-se o existencialismo.</p><p>Muitos anos depois eu conheci a obra de Iris Murdoch e me dei por conta que j&#225; nos anos 1950 havia inglesas de olho cr&#237;tico em Sartre. Ela escreveu, em 1953, um livro, <em>Sartre: um racionalista rom&#226;ntico, </em>e abriu uma linha de cr&#237;ticas que manteve durante v&#225;rias d&#233;cadas: Sartre sugere um hero&#237;smo irreal, uma vontade humana solit&#225;ria, dram&#225;tica. &#201; como se, retirando-se Deus da cena, seu lugar fosse ocupado por uma vontade humana inflada, um ego gordo, voluntarioso e caolho.</p><p>A maioria dos meus professores de filosofia eram aristot&#233;licos e tomistas. Eles diziam que essa frase, &#8220;a exist&#234;ncia precede a ess&#234;ncia&#8221; era uma invers&#227;o da f&#243;rmula medieval, &#8220;a ess&#234;ncia precede a exist&#234;ncia&#8221;.</p><p>Sartre n&#227;o sofria de <em>deleusi&#227;o</em>. Ele n&#227;o havia criado nenhum conceito novo, ele fazia uma redistribui&#231;&#227;o de conceitos herdados. A novidade que ele trouxe fazia sentido dentro de uma tradi&#231;&#227;o que ficava suposta, como alguns disseram na &#233;poca. E aos poucos a gente parou de falar em existencialismo.</p><p>5.</p><p>Markus Gabriel declara-se um <em>neo-existencialismo</em>. A tese central parece ser essa, que o trabalho do esp&#237;rito humano consiste em ter de formar uma imagem de si mesmo, sem usar a natureza como desculpa e sem o ref&#250;gio da solu&#231;&#227;o de dois mundos, dos dualismos. Eu cheguei ao livro dele na &#233;poca da escrita do <em>Caminhos e equ&#237;vocos da escola brasileira</em> (Ed. Contexto, SP), levado pelo modo como Gabriel fala do &#8220;esp&#237;rito&#8221; (&#8220;consci&#234;ncia&#8221;, &#8220;mente&#8221;). Ele procura um caminho no qual essas coisas s&#227;o desprovidas de subst&#226;ncia; n&#227;o h&#225; uma refer&#234;ncia objetual para elas; mas isso era muita areia, na &#233;poca, e eu deixei o Gabriel de lado. Voltei agora a ele, meio por acaso e ainda de forma pouco sistem&#225;tica. Ele &#233; um &#8220;neo-existencialista&#8221; porque retoma a ideia de que formamos uma imagem de n&#243;s mesmos. E formamos uma imagem dos animais. A <em>gente</em>, <em>sem deleuzi&#227;o</em>, elabora conceitos, categorias, como a de animal; e passamos a viver de acordo com essas categorias.</p><p>6.</p><p>Lembrei da hist&#243;ria da minha neta e as galinhas. Vivemos em uma &#233;poca na qual cada um de n&#243;s sabe de muitas hist&#243;rias parecidas. Lembro de outras duas. A menina, seis anos de idade, morava com seus pais em uma ch&#225;cara, na qual havia uma pequena cria&#231;&#227;o de ovelhas. Ela amava os cordeirinhos, fazia carinho neles, ajudava a cuidar dos guaxos. E n&#227;o fazia ideia da forma como, eventualmente, algum deles era sacrificado, para a alimenta&#231;&#227;o de todos. Um belo dia, sem ser vista, assistiu seu pai la&#231;ar um deles, pendur&#225;-lo em uma corda, pela perna, e passar uma faca no pesco&#231;o. Ela n&#227;o pode conter o grito, saiu correndo e nunca mais quis comer carne. A outra hist&#243;ria era ainda mais impressionante. Em um natal, no qual se reuniram v&#225;rios irm&#227;os e netos, algu&#233;m teve a ideia de assar um leit&#227;o. Ele foi servido na mesa central, com uma ma&#231;&#227; na boca. O leit&#227;o estava coberto com uma toalha, para prote&#231;&#227;o das moscas. Na hora da festa, todo mundo reunido, a toalha foi retirada e surgiu, brilhando, o leit&#227;o assado. As crian&#231;as nunca tinham visto um leit&#227;o assado e entraram em desespero, havia um bicho morto na mesa, afinal das contas. Um dos familiares, respons&#225;vel pelo assado, teve a brilhante ideia de retirar o porco da mesa; logo depois ele retornou, sem a ma&#231;&#227;, sem a cabe&#231;a. O natal da fam&#237;lia acabou ali. A gente vai se solidarizando com os bichos, n&#227;o, encontrando o bicho na gente.</p><p>7.</p><p>A frase de Simone de Beauvoir sobre ningu&#233;m nascer mulher, tornar-se mulher, segue assim, em <em>O Segundo Sexo</em>:</p><blockquote><p>&#8220;Nenhum destino biol&#243;gico, ps&#237;quico, econ&#244;mico define a forma que a f&#234;mea humana assume no seio da sociedade; &#233; o conjunto da civiliza&#231;&#227;o que elabora esse produto intermedi&#225;rio entre o macho e o castrado que qualificam o feminino.&#8221;</p></blockquote><p>Lembrando dessas novas formas de sensibilidade ao mundo animal que vemos surgir, faz j&#225; algum tempo, pensei em como seria o equivalente da frase de Simone, se segu&#237;ssemos o racioc&#237;nio do Gabriel, sobre essa ideia estranha, que n&#243;s, humanos, <em>n&#227;o nascemos animais, nos tornamos animais.</em></p><p>Poderia ser algo assim:</p><blockquote><p>&#8220;<em>Nenhum destino biol&#243;gico, ps&#237;quico, econ&#244;mico define a forma que o animal assume no seio da sociedade; &#233; o conjunto da civiliza&#231;&#227;o que elabora esse produto intermedi&#225;rio entre o falante e o mudo que qualificamos de  animal</em>.&#8221;</p></blockquote><p>8.</p><p>Afinal, se a gente pensar em um invent&#225;rio das formas que o animal assume na sociedade, a lista inclui o sagrado, o <em>pet</em>, a cobaia, o alimento, o esportivo, o militar, o est&#233;tico e vai por a&#237;. Algumas dessas formas s&#227;o elaboradas pela religi&#227;o, outras pela economia, nenhuma apenas pela biologia. E n&#243;s, os humanos, estamos todo o tempo hesitando sobre onde tra&#231;ar uma linha divis&#243;ria. Minha neta, por exemplo, insiste que seu c&#227;ozinho &#233; meu neto de quatro patas. Eu levo na boa, pensando nas plaquinhas que leio nos pet shops, &#8220;<em>&#233; meu filho, sim</em>&#8221;.</p><ol start="8"><li><p></p></li></ol><p>Com isso chegou no primeiro ponto dessa s&#233;rie. N&#227;o, n&#227;o podemos abrir m&#227;o do animal em nossas vidas, mesmo que seja esse bicho estranho, o <em>digiana</em>.</p><ul><li><p>Uma nota sobre a &#8220;deleusi&#227;o&#8221;: eu encontrei a express&#227;o em um livro do Daniel Dennett, um l&#233;xico irreverente. Ele a define assim:</p></li></ul><div class="callout-block" data-callout="true"><p><strong>Deleuzi&#227;o</strong>, N. Uma cren&#231;a filos&#243;fica falsa e persistente, sem fundamento por evid&#234;ncias ou argumentos. &#8220;Ele sofria da deleusi&#227;o de que Spinoza poderia ser usado para esclarecer a psican&#225;lise lacaniana.&#8221; (Dennett)</p></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[# Digiana 68 - A vida dos animais (I)]]></title><description><![CDATA[Galinha e mandiocas; preconceitos e dificuldades; volta o Granger.]]></description><link>https://ronai.substack.com/p/digiana-68-a-vida-dos-animais-i</link><guid isPermaLink="false">https://ronai.substack.com/p/digiana-68-a-vida-dos-animais-i</guid><dc:creator><![CDATA[Ronai Pires da Rocha]]></dc:creator><pubDate>Wed, 03 Jun 2026 15:49:43 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!nQtg!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F619af2b1-2424-439c-9c20-9bbdeb7fc2fc_2572x2569.heic" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!nQtg!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F619af2b1-2424-439c-9c20-9bbdeb7fc2fc_2572x2569.heic" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!nQtg!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F619af2b1-2424-439c-9c20-9bbdeb7fc2fc_2572x2569.heic 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!nQtg!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F619af2b1-2424-439c-9c20-9bbdeb7fc2fc_2572x2569.heic 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!nQtg!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F619af2b1-2424-439c-9c20-9bbdeb7fc2fc_2572x2569.heic 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!nQtg!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F619af2b1-2424-439c-9c20-9bbdeb7fc2fc_2572x2569.heic 1456w" sizes="100vw"><img src="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!nQtg!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F619af2b1-2424-439c-9c20-9bbdeb7fc2fc_2572x2569.heic" width="1456" height="1454" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/619af2b1-2424-439c-9c20-9bbdeb7fc2fc_2572x2569.heic&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:1454,&quot;width&quot;:1456,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:1648067,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/heic&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://ronai.substack.com/i/200459281?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F619af2b1-2424-439c-9c20-9bbdeb7fc2fc_2572x2569.heic&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!nQtg!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F619af2b1-2424-439c-9c20-9bbdeb7fc2fc_2572x2569.heic 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!nQtg!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F619af2b1-2424-439c-9c20-9bbdeb7fc2fc_2572x2569.heic 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!nQtg!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F619af2b1-2424-439c-9c20-9bbdeb7fc2fc_2572x2569.heic 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!nQtg!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F619af2b1-2424-439c-9c20-9bbdeb7fc2fc_2572x2569.heic 1456w" sizes="100vw" fetchpriority="high"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p>Volta e meia algu&#233;m me pergunta sobre o significado de &#8220;digiana&#8221;. Eu digo que &#233; uma contra&#231;&#227;o entre &#8220;digital&#8221; e &#8220;anal&#243;gico&#8221;, e que a express&#227;o pode ser uma alternativa interessante para &#8220;animal racional&#8221;. A&#237; surge a pergunta: &#8220;Mas o que se ganha com a troca?&#8221; Come&#231;a aqui uma longa conversa.</p><p>A primeira coisa que precisamos levar em conta &#233; que a defini&#231;&#227;o do ser humano como &#8220;animal racional&#8221; usa uma t&#233;cnica definit&#243;ria muito antiga. Ela situa o &#8220;ser humano&#8221; nos galhos de uma &#225;rvore de classifica&#231;&#227;o. Ela diz que somos &#8220;animais&#8221;, isto &#233;, seres que tem corpo, sensibilidade, como urtigas e cavalos, mas que somos dotados de algo mais, de &#8220;raz&#227;o&#8221;. Assim, pertencemos ao g&#234;nero<em> animal</em>, mas temos uma diferen&#231;a espec&#237;fica, que &#233; a <em>racionalidade</em>. Da&#237; o nome desse tipo de t&#233;cnica de defini&#231;&#227;o: por <em>g&#234;nero pr&#243;ximo </em>e <em>diferen&#231;a espec&#237;fica</em>. Ela tem como suposi&#231;&#227;o algo muito simples: que os conceitos s&#227;o <em>classificadores</em>, s&#227;o princ&#237;pios ou regras de classifica&#231;&#227;o.</p><p>Veja o quadro abaixo:</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!m4YR!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc4e37893-4886-49ff-81db-91ed8314ced9_730x438.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!m4YR!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc4e37893-4886-49ff-81db-91ed8314ced9_730x438.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!m4YR!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc4e37893-4886-49ff-81db-91ed8314ced9_730x438.png 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!m4YR!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc4e37893-4886-49ff-81db-91ed8314ced9_730x438.png 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!m4YR!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc4e37893-4886-49ff-81db-91ed8314ced9_730x438.png 1456w" sizes="100vw"><img src="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!m4YR!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc4e37893-4886-49ff-81db-91ed8314ced9_730x438.png" width="730" height="438" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/c4e37893-4886-49ff-81db-91ed8314ced9_730x438.png&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:438,&quot;width&quot;:730,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:60845,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://ronai.substack.com/i/200459281?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc4e37893-4886-49ff-81db-91ed8314ced9_730x438.png&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!m4YR!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc4e37893-4886-49ff-81db-91ed8314ced9_730x438.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!m4YR!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc4e37893-4886-49ff-81db-91ed8314ced9_730x438.png 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!m4YR!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc4e37893-4886-49ff-81db-91ed8314ced9_730x438.png 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!m4YR!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc4e37893-4886-49ff-81db-91ed8314ced9_730x438.png 1456w" sizes="100vw"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p>O quadro que eu desenhei est&#225; inspirado em uma tradi&#231;&#227;o ilustre, que remonta &#224; Arist&#243;teles e &#224; Porf&#237;rio. O desenho seguinte &#233; uma elabora&#231;&#227;o medieval sobre o tema:</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!6g6b!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fab19d482-878b-4b38-92a2-da7464cb6e5f_622x780.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!6g6b!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fab19d482-878b-4b38-92a2-da7464cb6e5f_622x780.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!6g6b!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fab19d482-878b-4b38-92a2-da7464cb6e5f_622x780.png 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!6g6b!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fab19d482-878b-4b38-92a2-da7464cb6e5f_622x780.png 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!6g6b!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fab19d482-878b-4b38-92a2-da7464cb6e5f_622x780.png 1456w" sizes="100vw"><img src="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!6g6b!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fab19d482-878b-4b38-92a2-da7464cb6e5f_622x780.png" width="622" height="780" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/ab19d482-878b-4b38-92a2-da7464cb6e5f_622x780.png&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:780,&quot;width&quot;:622,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:259636,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://ronai.substack.com/i/200459281?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fab19d482-878b-4b38-92a2-da7464cb6e5f_622x780.png&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!6g6b!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fab19d482-878b-4b38-92a2-da7464cb6e5f_622x780.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!6g6b!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fab19d482-878b-4b38-92a2-da7464cb6e5f_622x780.png 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!6g6b!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fab19d482-878b-4b38-92a2-da7464cb6e5f_622x780.png 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!6g6b!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fab19d482-878b-4b38-92a2-da7464cb6e5f_622x780.png 1456w" sizes="100vw"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p>Essa &#233; a &#8220;&#225;rvore de Porf&#237;rio&#8221;, inspirada em Arist&#243;teles. O tronco apresenta o conceito de ser humano como <em>um animal racional dotado de corpo</em>. O diagrama sugere que existem animais racionais sem corpos, imortais&#8221;, os anjos e as almas. Cada nova classe na &#225;rvore especifica um pouco mais o &#8220;algo&#8221; ou a &#8220;subst&#226;ncia&#8221; inicial, at&#233; a &#8220;esp&#233;cie humana&#8221;.</p><p>Essa estrat&#233;gia de defini&#231;&#227;o &#233; uma forma de pensar a realidade por meio de hierarquias de generalidade e de abstra&#231;&#227;o. Nesse desenho o ser humano aparece junto da raiz, a racionalidade &#233; a mandioca do bolo. Se o desenho fosse invertido, a racionalidade seria a mandioca. No desenho invertido, as demais caracter&#237;sticas humanas todas elas ligados &#224; corporalidade, ficam abaixo da &#8220;raz&#227;o&#8221;: os sentimentos, as sensa&#231;&#245;es, os h&#225;bitos, a percep&#231;&#227;o, s&#227;o desenhados como aqueles aspectos da vida humana que a racionalidade deve <em>transcender, controlar, superar, negar.</em></p><p>Os seres que n&#227;o dotados de racionalidade, como as mandiocas, as galinhas e os cavalos, ficam claramente <em>abaixo</em> de n&#243;s, nessa vis&#227;o. A express&#227;o &#8220;animal racional&#8221; indica algo espec&#237;fico aos seres humanos, em rela&#231;&#227;o aos animais e da&#237; at&#233; o surgimento de preconceitos de superioridade, &#233; um pulo.</p><p>Aqui &#233; preciso lembrar que existem v&#225;rios tipos de defini&#231;&#227;o: as <em>lexicais</em>, que est&#227;o nos dicion&#225;rios, e que registram os usos comuns; as defini&#231;&#245;es <em>ostensivas</em>, quando a gente simplesmente aponta para aquilo que queremos explicar; as defini&#231;&#245;es <em>estipulativas</em>, quando convencionamos, deliberadamente, um significado para um termo, e por a&#237; vai.</p><p>Minha pergunta inicial era sobre o que ganhamos ao trocar &#8220;animal racional&#8221; por &#8220;animal digiana&#8221;? A t&#233;cnica classificat&#243;ria n&#227;o muda, surge apenas uma nova palavra?</p><p>Os professores de filosofia sabem bem que, diante da eventual pergunta sobre o que somos n&#243;s, os humanos, n&#227;o adianta nada falar em &#8220;animais racionais&#8221;. A express&#227;o, de t&#227;o batida, caiu em desuso. Mas, ao mesmo tempo n&#227;o podemos fugir da raia, temos que, em algum sentido, defender algum conceito de &#8220;racionalidade&#8221;. Se n&#227;o fazemos isso &#233; melhor pedir demiss&#227;o. E como fazemos para &#8220;defender a racionalidade&#8221;, diante de tanto comportamento que indica o oposto a &#8220;irracionalidade&#8221;?</p><p>A estrat&#233;gia que tem sido usada por n&#243;s, professores de filosofia (ou, ao menos, por alguns de n&#243;s, que n&#227;o sabemos &#8220;criar conceitos&#8221;), consiste em convidar o estudante a <em>espiar o assunto com mais cuidado</em>: mapear, analisar, descobrir as complexidades escondidas na coisa.</p><p>Come&#231;amos, por exemplo, abrindo com eles um bom dicion&#225;rio. L&#225; est&#227;o registrados (no <em>Aur&#233;lio</em>, por exemplo) dezoito significados para &#8220;raz&#227;o&#8221;. Essa provid&#234;ncia did&#225;tica &#233; importante, para que eles se abram um pouco para o tamanho do assunto e tenham alguma paci&#234;ncia. Daqui e dali, uma dessas entradas no dicion&#225;rio vai incomodar a gurizada. &#201; aquela que diz que a raz&#227;o &#233; uma &#8220;faculdade intelectual e lingu&#237;stica que distingue o ser humano dos outros animais&#8221;. O <em>Aur&#233;lio</em> esclarece depois que essa concep&#231;&#227;o, que vem de Arist&#243;teles, perpassa a hist&#243;ria da filosofia e &#8220;foi adotada pela ci&#234;ncia moderna na designa&#231;&#227;o taxon&#244;mica da esp&#233;cie humana (<em>homo sapiens</em>).&#8221;</p><p>Essa defini&#231;&#227;o de dicion&#225;rio d&#225; um bom caldo did&#225;tico; por exemplo, na quest&#227;o da distin&#231;&#227;o entre humanos e animais; outro, na origem aristot&#233;lica do tema. Basta dois dedos de prosa e texto aristot&#233;lico para desmanchar a ideia de que &#8220;raz&#227;o&#8221; seja algum tipo de &#8220;subst&#226;ncia&#8221; ou &#8220;ess&#234;ncia&#8221; que n&#243;s temos e que os cavalos n&#227;o. Arist&#243;teles foi muito claro em dizer que a racionalidade &#233; uma esp&#233;cie de <em>virtude</em>, que precisa ser aprendida e cultivada. De um ponto de vista did&#225;tico, o que fazemos &#233; tentar deslocar o olhar do aluno; ao inv&#233;s de procurar uma <em>coisa</em> que uns tem e outros n&#227;o, como o polegar opositor, ele deve procurar por uma <em>atitude</em>, um <em>processo</em>, um <em>ideal</em>, uma <em>rela&#231;&#227;o</em>. Isso pode mudar o jogo, pois n&#227;o h&#225; mais como olhar para <em>coisas</em>, <em>subst&#226;ncias</em>, <em>ess&#234;ncias</em>.</p><p>Essa abordagem estava dispon&#237;vel para os estudantes de filosofia, no Brasil, nos anos 1970, por meio do Gilles Gaston Granger. Falei dele, no <em>Digiana 66</em>, a prop&#243;sito da obscuridade dos &#8220;criadores de conceitos&#8221;, como Deleuze e Guattari, que n&#227;o gostavam dele. Lembro aqui mais uma raz&#227;o para a import&#226;ncia de Granger, na Fran&#231;a e no Brasil. Na Fran&#231;a, em 1955, e no Brasil, em 1962, ele publicou um livrinho, justamente chamado <em>A Raz&#227;o</em> (SP, Ed. Difel). A gente lia esse livro com entusiasmo, pois ali ele explorava significados da express&#227;o &#8220;raz&#227;o&#8221;: como <em>ideal</em>, como <em>m&#233;todo</em>, como uma <em>virtude</em>, n&#227;o como uma <em>ess&#234;ncia</em> ou faculdade &#250;nica. Isso n&#227;o resolvia o problema da <em>diferen&#231;a</em>; o que temos que as vacas n&#227;o t&#234;m, mas era uma m&#227;o na roda; pelo menos a gente n&#227;o ca&#237;a no conto de uma ess&#234;ncia humana. Mas n&#227;o havia um bom tratamento para essa quest&#227;o, digamos assim, &#8220;da vida dos animais&#8221;.</p><p>Lembrei dessa express&#227;o, &#8220;a vida dos animais&#8221; porque, escrevendo esse texto, reli algumas passagens do <em>A Vida dos Animais</em>, de J. M. Coetzee, um livro que provocou uma onda de reflex&#245;es sobre a quest&#227;o do sofrimento animal. Como devemos trat&#225;-los? O animal tem alguma &#8220;raz&#227;o&#8221;, tem &#8220;consci&#234;ncia&#8221;, ou &#233; um ser de &#8220;segunda classe&#8221;? Afinal, <em>o que &#233; a raz&#227;o</em>, como ela se relaciona com o <em>cora&#231;&#227;o</em>? E por que a filosofia tem dificuldade para pensar o sofrimento animal? Muita &#225;gua correu nesse fio, mas n&#227;o vou segui-lo aqui. Basta isso, acho eu, para se ver que o debate sobre a racionalidade precisa ser continuado em novos termos, ampliado, renovado. Era isso que eu pensava quando comecei essa hist&#243;ria do <em>digiana</em>. (Segue).</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[# Digiana 67 - Sobre lembranças e esquecimentos]]></title><description><![CDATA[Quest&#227;o de sa&#250;de; aviso para a Editora da UFSM; uma pontada de outono, quem sabe.]]></description><link>https://ronai.substack.com/p/digiana-67-sobre-lembrancas-e-esquecimentos</link><guid isPermaLink="false">https://ronai.substack.com/p/digiana-67-sobre-lembrancas-e-esquecimentos</guid><dc:creator><![CDATA[Ronai Pires da Rocha]]></dc:creator><pubDate>Wed, 27 May 2026 22:42:58 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!NsBk!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F74e12cf4-7996-4991-b7d5-81d317a35c76_1564x2044.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!NsBk!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F74e12cf4-7996-4991-b7d5-81d317a35c76_1564x2044.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!NsBk!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F74e12cf4-7996-4991-b7d5-81d317a35c76_1564x2044.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!NsBk!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F74e12cf4-7996-4991-b7d5-81d317a35c76_1564x2044.png 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!NsBk!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F74e12cf4-7996-4991-b7d5-81d317a35c76_1564x2044.png 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!NsBk!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F74e12cf4-7996-4991-b7d5-81d317a35c76_1564x2044.png 1456w" sizes="100vw"><img src="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!NsBk!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F74e12cf4-7996-4991-b7d5-81d317a35c76_1564x2044.png" width="1456" height="1903" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/74e12cf4-7996-4991-b7d5-81d317a35c76_1564x2044.png&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:1903,&quot;width&quot;:1456,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:1215161,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://ronai.substack.com/i/199525368?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F74e12cf4-7996-4991-b7d5-81d317a35c76_1564x2044.png&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!NsBk!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F74e12cf4-7996-4991-b7d5-81d317a35c76_1564x2044.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!NsBk!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F74e12cf4-7996-4991-b7d5-81d317a35c76_1564x2044.png 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!NsBk!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F74e12cf4-7996-4991-b7d5-81d317a35c76_1564x2044.png 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!NsBk!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F74e12cf4-7996-4991-b7d5-81d317a35c76_1564x2044.png 1456w" sizes="100vw" fetchpriority="high"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">A capa da edi&#231;&#227;o kindle da UFSM.</figcaption></figure></div><p>Numa tarde de novembro de 2022, em um encontro no restaurante da Dona Romilda, em Vale V&#234;neto, um ex-colega do Departamento de Filosofia da UFSM me causou um pasmo. Ele disse uma coisa que me deixou sem rea&#231;&#227;o por alguns momentos; eu, j&#225; meio surdo, pedi para ele repetir.</p><p>Disse que ia lecionar uma disciplina, no semestre seguinte, cujo objetivo seria apresentar e discutir meus livros sobre educa&#231;&#227;o. &#8220;Tipo assim, uma disciplina inteira, sobre meus livros?&#8221; &#8220;Sim&#8221;, ele disse, &#8220;vamos ficar um semestre discutindo teus livros. Estou lendo todos&#8221;.</p><p>Eu fiquei constrangido. Ao nosso lado, escutando a conversa, estava o Jo&#227;o Carlos Brum Torres, um de nossos maiores. Quem sou eu, pensei, para merecer uma aten&#231;&#227;o dessas, de &#8220;virar uma disciplina&#8221; na UFSM?</p><p>A coisa ficou assim, uma not&#237;cia embara&#231;osa no Vale V&#234;neto.</p><p>No fevereiro de 2023 o professor me mandou a ementa da disciplina, FAF 1043, <em>Filosofia e Ensino de Filosofia</em>, 60 horas. A ementa era essa: &#8220;Apresenta&#231;&#227;o e discuss&#227;o de textos selecionados de Ronai Pires da Rocha&#8221;. Embatuquei um pouco mais.</p><p>Era <em>vero</em>, eu tinha virado ementa. <em>Da&#237; s&#243; me faltaria morrer!</em> De um certo constrangimento, ao menos. As aulas come&#231;ariam em mar&#231;o, iriam at&#233; julho e a bibliografia era constitu&#237;da, de fato e exclusivamente, pelos meus livros! Os alunos discutiriam coisas do <em>Sentimentos de Outono</em> (UFSM, 1997), um livro pelo qual eu tenho um grande carinho, passariam pelo <em>Filosofia Hermen&#234;utica</em> (em conjunto com o Prof. R&#243;bson Reis), pela minha tese de doutorado, <em>Em favor do comum</em>, pelo <em>Ensino de Filosofia e Curr&#237;culo</em>, pelo <em>Quando ningu&#233;m educa: questionando Paulo Freire</em> (SP, Contexto, 2017), pelo <em>Escola Partida</em> (Contexto, 2020), terminando com o <em>Filosofia da Educa&#231;&#227;o</em> (Contexto, SP, 2022).</p><p>Cada aula tinha um t&#237;tulo, eram intrigantes. A aula do 24 de abril tinha como t&#237;tulo &#8220;De volta ao futuro da Filosofia no curr&#237;culo do Ensino M&#233;dio&#8221;. O tema era o conceito de &#8220;transversalidade pedestre&#8221;, que eu apresentei no <em>Ensino de Filosofia e Curr&#237;culo</em>. Eu gostaria de ter assistido a aula do dia 9 de maio: &#8220;Descri&#231;&#227;o de um GPS escangalhado para a educa&#231;&#227;o brasileira&#8221;. Era uma das duas aulas dedicadas ao <em>Quando ningu&#233;m educa</em>. A outra, n&#227;o por acaso, foi intitulada &#8220;<em>The gentle art of making enemies</em>&#8221;. A coisa ia por a&#237;. A &#250;ltima aula - ele havia feito um convite - seria uma palestra minha, &#8220;Pistas do animal digiana&#8221;, pois o bicho estava nascendo naquela &#233;poca.</p><p>Fevereiro veio com outra surpresa para mim. Um exame de rotina trouxe um diagn&#243;stico de c&#226;ncer no intestino. Passei o resto do ano ocupado com isso. N&#227;o pude fazer a palestra final, pois a data coincidiu com a parte mais dif&#237;cil do tratamento. De quando em quando chegavam not&#237;cias sobre as aulas. Iam bem, a turma parecia estar gostando. </p><p>Se o tratamento n&#227;o tivesse dado certo, pensei, se eu tivesse morrido, at&#233; que seria uma bela homenagem. Sobrevivi, mas segui meio constrangido com o fato de ter virado uma disciplina, tentei n&#227;o me impressionar, escrevi mais um livro depois, o <em>Caminhos e equ&#237;vocos da escola brasileira</em> (SP, Contexto, 2025).</p><p>Essa &#233; a lembran&#231;a de que falo no t&#237;tulo. Mas depois de um dia vem o outro, n&#227;o?</p><p>Veio o esquecimento. Por outras cabe&#231;as, certamente. O Departamento de Filosofia n&#227;o &#233; um monobloco.</p><p>Quatro anos depois, em 2026, o Curso de Filosofia aprovou uma reforma curricular que refor&#231;ou a import&#226;ncia das disciplinas especificamente desenhadas para promover a forma&#231;&#227;o do professor. Entre elas est&#227;o &#8220;Organiza&#231;&#227;o curricular&#8221;, &#8220;Introdu&#231;&#227;o ao ensino de filosofia&#8221;, &#8220;Filosofia e ensino de filosofia&#8221;, &#8220;Epistemologia do ensino&#8221;, &#8220;Did&#225;tica em Filosofia&#8221;. Cada uma tem a bibliografia, principal e secund&#225;ria.</p><p><em>Dia de muito, v&#233;spera do nada</em>, dizia minha querida m&#227;e, para incutir algum comedimento nos filhos, quando surgia alguma coisa demasiadamente boa.</p><p>Veio o nada.</p><p>Para minha surpresa, na atual reforma curricular, os livros que escrevi e publiquei sobre ensino de filosofia, curr&#237;culo, did&#225;tica, filosofia da educa&#231;&#227;o e escola, ao longo de quarenta e seis anos de trabalho na UFSM, n&#227;o constam na bibliografia das disciplinas dedicadas a esses temas. </p><p>Fiquei sabendo disso hoje, n&#227;o quis acreditar. Depois fui ver, era verdade. A&#237; eu tive que fazer essa coisa meio constrangedora, embara&#231;osa, quase vergonhosa, de me apegar a lembran&#231;as contra esse esquecimento: lembrar que fui tema de uma disciplina na UFSM; que, segundo a presta&#231;&#227;o de contas da Editora Contexto, eu vendo quase tr&#234;s livros por dia, entre o Oiapoque e a Barra do Chu&#237;; que um dos meus livros &#8211; o <em>Filosofia da Educa&#231;&#227;o</em> - faz parte de uma cole&#231;&#227;o, da Editora Contexto, dedicada aos cursos de forma&#231;&#227;o de professores e vende bem, obrigado; e eu tive que me lembrar de quantas pessoas (quase que eu escrevi <em>milhares</em>!) j&#225; leram meus livros e disseram que <em>vamos l&#225;</em>; e tudo isso me soa constrangedor; <em>vaidade, vaidade, pura vaidade</em>, pensei. Mas eu tive que colocar para fora essas coisas; tenho press&#227;o alta, tenho medo do agosto. Mas, vamos e venhamos, caramba, nem unzinho? Seria isso o tal do &#8220;cancelamento&#8221;, de que tanto se fala? </p><p>Como eu n&#227;o poderia me chatear, me pergunto. A  Editora da UFSM est&#225; preparando, para os pr&#243;ximos meses, uma nova edi&#231;&#227;o, a <em>terceira</em>, do meu <em>Ensino de Filosofia e Curr&#237;culo</em>. Esse livro foi lan&#231;ado pela Editora Vozes, do Rio de Janeiro em 2008, teve uma segunda edi&#231;&#227;o em 2015 na UFSM e deve sair agora a terceira. O livro faz parte da bibliografia de algumas disciplinas semelhantes a essas daqui da UFSM, em outras universidades; o livro est&#225; lista de alguns concursos p&#250;blicos na &#225;rea. Eu n&#227;o poderia deixar de alertar publicamente a Editora sobre isso, que meus livros, entre eles esse, est&#227;o em mar&#233; baixa no meu pr&#243;prio curso.</p><p>Isso foi, &#233; claro, um desabafo. Eu pe&#231;o desculpas por escrever essas coisas, justo agora que estou animado na escrita do <em>Digiana</em>, com novas frentes e autores para comentar. &#201; que eu tenho certeza n&#227;o conseguiria dormir direito se tivesse levado essas lembran&#231;as de esquecimento para a cama, essa noite. &#201; uma quest&#227;o de sa&#250;de. E, por ser uma quest&#227;o de sa&#250;de, fico por aqui, sem dizer nada sobre os autores que constam nas tais bibliografias. Imaginem voc&#234;s que, em uma das disciplinas, que n&#227;o faz parte do grupo de mat&#233;rias que comentei, o Sidartha Gautama, o Buda, que nunca escreveu nada na vida, consta como autor de um livro, publicado pela Martin Claret! Essa aberra&#231;&#227;o bibliogr&#225;fica est&#225; no curr&#237;culo, junto com meu esquecimento. </p><p>N&#227;o, n&#227;o &#233; vaidade. Eu estou chateado por ter sido deixado de lado na minha pr&#243;pria casa, por escrever isso que escrevi, mas n&#227;o &#233; por a&#237;. A coisa vai mais longe. Mas eu fico hoje por aqui, reconhecendo que ainda n&#227;o sei muito bem o que estou sentindo. Uma pontada de outono, medo do agosto, talvez.  </p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[# Digiana 66 - A filosofia e o pantanal (Final)]]></title><description><![CDATA[A filosofia e os conceitos; uma cr&#237;tica aos usos de Deleuze&Guattari no ensino de filosofia.]]></description><link>https://ronai.substack.com/p/digiana-66-a-filosofia-e-o-pantanal</link><guid isPermaLink="false">https://ronai.substack.com/p/digiana-66-a-filosofia-e-o-pantanal</guid><dc:creator><![CDATA[Ronai Pires da Rocha]]></dc:creator><pubDate>Fri, 22 May 2026 18:56:01 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!sRnP!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff76d667f-756b-4399-a60b-b8eed3e19386_1280x960.heic" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!sRnP!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff76d667f-756b-4399-a60b-b8eed3e19386_1280x960.heic" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!sRnP!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff76d667f-756b-4399-a60b-b8eed3e19386_1280x960.heic 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!sRnP!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff76d667f-756b-4399-a60b-b8eed3e19386_1280x960.heic 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!sRnP!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff76d667f-756b-4399-a60b-b8eed3e19386_1280x960.heic 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!sRnP!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff76d667f-756b-4399-a60b-b8eed3e19386_1280x960.heic 1456w" sizes="100vw"><img src="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!sRnP!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff76d667f-756b-4399-a60b-b8eed3e19386_1280x960.heic" width="1280" height="960" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/f76d667f-756b-4399-a60b-b8eed3e19386_1280x960.heic&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:960,&quot;width&quot;:1280,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:174652,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/heic&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://ronai.substack.com/i/198821944?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff76d667f-756b-4399-a60b-b8eed3e19386_1280x960.heic&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!sRnP!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff76d667f-756b-4399-a60b-b8eed3e19386_1280x960.heic 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!sRnP!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff76d667f-756b-4399-a60b-b8eed3e19386_1280x960.heic 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!sRnP!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff76d667f-756b-4399-a60b-b8eed3e19386_1280x960.heic 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!sRnP!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff76d667f-756b-4399-a60b-b8eed3e19386_1280x960.heic 1456w" sizes="100vw" fetchpriority="high"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">&#8220;Mathias&#8221;. Acervo pessoal.</figcaption></figure></div><p>1. O quadro abaixo ilustra as principais respostas que s&#227;o dadas para a pergunta &#8220;o que &#233; a filosofia&#8221;, quando consideramos apenas a rela&#231;&#227;o dela com a linguagem e com os conceitos: <em>an&#225;lise, mapeamento, descri&#231;&#227;o, interpreta&#231;&#227;o e cria&#231;&#227;o de conceitos</em>. H&#225; mais respostas (a filosofia como <em>terapia conceitual</em>, como <em>arqueologia de ideias</em>, como <em>fundamenta&#231;&#227;o</em>) e elas n&#227;o compartilham uma e &#250;nica defini&#231;&#227;o de &#8220;conceito&#8221;; a solu&#231;&#227;o &#233; dizer que h&#225;, entre elas, uma &#8220;semelhan&#231;a de fam&#237;lia&#8221;.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!f65X!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5afed038-fa1e-4e02-bd8b-901e965cf77d_1282x636.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!f65X!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5afed038-fa1e-4e02-bd8b-901e965cf77d_1282x636.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!f65X!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5afed038-fa1e-4e02-bd8b-901e965cf77d_1282x636.png 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!f65X!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5afed038-fa1e-4e02-bd8b-901e965cf77d_1282x636.png 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!f65X!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5afed038-fa1e-4e02-bd8b-901e965cf77d_1282x636.png 1456w" sizes="100vw"><img src="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!f65X!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5afed038-fa1e-4e02-bd8b-901e965cf77d_1282x636.png" width="1282" height="636" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/5afed038-fa1e-4e02-bd8b-901e965cf77d_1282x636.png&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:636,&quot;width&quot;:1282,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:98474,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://ronai.substack.com/i/198821944?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5afed038-fa1e-4e02-bd8b-901e965cf77d_1282x636.png&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!f65X!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5afed038-fa1e-4e02-bd8b-901e965cf77d_1282x636.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!f65X!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5afed038-fa1e-4e02-bd8b-901e965cf77d_1282x636.png 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!f65X!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5afed038-fa1e-4e02-bd8b-901e965cf77d_1282x636.png 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!f65X!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5afed038-fa1e-4e02-bd8b-901e965cf77d_1282x636.png 1456w" sizes="100vw"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p>2. A filosofia, no entanto, n&#227;o se define somente pelas teorias que elabora sobre a linguagem, sobre os conceitos. &#8220;Filosofia&#8221; tamb&#233;m indica o que pensamos sobre a forma como devemos viver. Se, no caso anterior, falamos em &#8220;filosofia te&#243;rica&#8221;, no segundo caso falamos em &#8220;filosofia pr&#225;tica&#8221;: &#233;tica e pol&#237;tica; o que podemos esperar na vida, da vida, ap&#243;s a vida. Nesse segundo caso cabe o tema de &#8220;ter uma filosofia de vida&#8221;, seja na linha da sabedoria dos antigos pensadores romanos, seja algo mais atual. Nesse caso, a defini&#231;&#227;o de filosofia fala das sabedorias que ela pode repartir sobre a arte de viver e morrer.</p><p>3. Aqui estou me concentrando no primeiro caso, sobre a defini&#231;&#227;o de filosofia que usamos quando queremos compreender melhor como funciona nossa mente, nosso pensamento, nossa linguagem, nossos conceitos. H&#225; uma interse&#231;&#227;o importante e essencial entre essas duas dimens&#245;es, mas n&#227;o &#233; disso que me ocupo aqui.</p><p>4. Estive, no final de abril deste ano, em Campo Grande, na UFMS, que possui um Departamento de Filosofia, que faz um excelente trabalho de forma&#231;&#227;o. Participei, entre outras atividades, de uma banca de qualifica&#231;&#227;o do mestrado em ensino de filosofia que l&#225; funciona. O trabalho era muito bom e foi aprovado, em letra e esp&#237;rito. H&#225; uma rede brasileira de mestrados profissionais em ensino de filosofia, e a UFMS participa, com brilho, nela.</p><p>5. A &#225;rea de ensino de filosofia no Brasil &#233; recente. A disciplina foi introduzida, em 2006, nos curr&#237;culos do ensino m&#233;dio, de forma nacional e obrigat&#243;ria. Ela permanece, n&#227;o sem dificuldades e atrapalhos. H&#225; uma boa frente de defesa do ensino de filosofia e h&#225; um trabalho importante que est&#225; sendo feito, por muita gente, para o aperfei&#231;oamento de seu ensino. Um deles, talvez o maior, &#233; a constru&#231;&#227;o de uma rede nacional de mestrados profissionais (que caminha para os doutorados), com amparo p&#250;blico, o PROF FILO. &#201; muito precioso o que vem sendo feito ali. Mais de quatrocentas disserta&#231;&#245;es j&#225; foram defendidas e o sistema vem crescendo.</p><p>6. Ao longo desses vinte anos de ensino de filosofia na escola m&#233;dia brasileira, fixaram-se algumas tend&#234;ncias na bibliografia dedicada ao ensino de filosofia. Elas  est&#227;o materializadas nas disserta&#231;&#245;es de mestrado e doutorado na &#225;rea. Uma dessas gira em torno da resposta para a pergunta que eu discuti nos seis <em>newsletters</em> anteriores, &#8220;o que &#233; a filosofia?&#8221;</p><p>7. No quadro acima indiquei cinco respostas b&#225;sicas: a filosofia como <em>an&#225;lise, mapeamento, descri&#231;&#227;o, interpreta&#231;&#227;o e cria&#231;&#227;o</em> de conceitos. A cada uma dessas palavras podemos associar escolas, autores e met&#225;foras. Cada uma delas corresponde a um <em>mundo</em> na filosofia, com s&#243;is, luas, planetas etc. E n&#227;o &#233; raro que o adepto de uma  escola tenha descaso com outra. &#8220;Descaso&#8221;, aqui, &#233; um eufemismo.</p><p>8. A tend&#234;ncia mais prestigiada no ensino de filosofia no Brasil &#233; aquela centrada na &#8220;cria&#231;&#227;o de conceito, que aparece na quinta coluna, acima. </p><p>9. A express&#227;o, &#8220;a filosofia &#233; cria&#231;&#227;o de conceitos&#8221;, est&#225; no livro <em>O que &#233; a Filosofia</em>, de Gilles Deleuze e F&#233;lix Guattari (SP, Editora 34, 1992). O livro foi publicado na Fran&#231;a em 1991 e traduzido no ano seguinte, por Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Munoz. &#201; um livro, digamos, <em>exigente</em>, pois faz acertos de contas somente compreens&#237;veis se levamos em conta a situa&#231;&#227;o da filosofia francesa nas d&#233;cadas de 1970 e 1980. As tend&#234;ncias ali dominantes no p&#243;s-guerra (fenomenologia, existencialismo, estruturalismo, psican&#225;lise) come&#231;avam a ceder espa&#231;o para o estudo de Bertrand Russell, Gotlob Frege, Wittgenstein, coisas de filosofia da linguagem e l&#243;gica formal.</p><p>10. O principal acerto de contas de Deleuze &#233; com Gilles-Gaston Granger, Frege e Russell. Nos anos 1990 Granger ganhou notoriedade na Fran&#231;a (e at&#233; no Brasil, onde foi traduzido) e virou um alvo, pois ele n&#227;o via problemas nas boas rela&#231;&#245;es entre a filosofia e a ci&#234;ncia. Isso confrontava a tradi&#231;&#227;o fenomenol&#243;gica e p&#243;s-estruturalista de Deleuze. O leitor brasileiro de <em>O que &#233; filosofia? </em>deve lembrar que a teoria do conceito ali apresentada &#233; uma flecha disparada contra Granger e seus aliados.</p><p>11. A f&#243;rmula de Deleuze &amp; Guattari, dirigida contra as demais defini&#231;&#245;es de filosofia que listei no quadro acima, consiste na frase: &#8220;a filosofia &#233; cria&#231;&#227;o de conceitos&#8221;. </p><p>H&#225; controv&#233;rsias. </p><p>Eu discordo dela e n&#227;o fico nisso. Eu digo mais: que o modismo criado em torno dessa tend&#234;ncia n&#227;o &#233; bom para o ensino de filosofia no Brasil. N&#227;o acho interessante basear o planejamento curricular e a did&#225;tica da filosofia, no Brasil do s&#233;culo XXI, em uma f&#243;rmula criada para a guerrilha filos&#243;fica francesa dos anos 1990. Eles, que s&#227;o franceses, que se entendam sobre ela. N&#243;s, que n&#227;o somos franceses, temos que parar de fingir que a entendemos.</p><p>12. O trabalho que eu avaliei em Campo Grande fez uso da f&#243;rmula de Deleuze. O autor repetiu que &#8220;a filosofia &#233; cria&#231;&#227;o de conceitos&#8221;, mas o que ele disse a seguir, que era preciso propor alguma forma de avalia&#231;&#227;o dos passos do aluno em uma caminhada de aprendizado, usando a taxionomia de Bloom, me mostrou que h&#225; professores querendo sair do arm&#225;rio deleuziano no qual o ensino de filosofia foi encerrado.</p><p>13. <em>Resumindo</em>: a recep&#231;&#227;o da ideia da filosofia como &#8220;cria&#231;&#227;o de conceitos&#8221; foi ampla, na &#225;rea de ensino de filosofia para o n&#237;vel m&#233;dio, no Brasil. Centenas de trabalhos foram escritos baseados nessa afirma&#231;&#227;o; assume-se com naturalidade que a filosofia consiste em &#8220;criar conceitos&#8221;. As outras possibilidades que citei no quadro, a saber, an&#225;lise, mapeamento, descri&#231;&#227;o e interpreta&#231;&#227;o de conceitos n&#227;o s&#227;o, no comum, consideradas. Que isso seja feito por fil&#243;sofos que usam coturnos altos, eu compreendo; que isso aconte&#231;a no ensino de filosofia, n&#227;o.</p><p>14. At&#233; aqui eu procurei descrever o estado das coisas, a saber, a predomin&#226;ncia dessa tend&#234;ncia. Daqui em diante, vou adiantar algumas das minhas raz&#245;es para dizer que esse estado de coisas n&#227;o &#233; bom para a presen&#231;a e continuidade do ensino de filosofia.</p><p>16. O m&#234;s de agosto est&#225; chegando; uma pessoa de idade nunca est&#225; certa de ver o setembro. Ent&#227;o, antes que chegue o agosto, tenho de dizer, com todas as letras o resumo da minha &#243;pera: <em>n&#227;o existe isso, cria&#231;&#227;o de conceitos</em>. </p><p>A frase foi uma <em>boutade</em> de D&amp;G. Dizendo em portugu&#234;s, a frase foi uma tirada espirituosa, original e provocativa; ela procurava espica&#231;ar colegas (Granger, por exemplo), com ideias interessantes, originais, mas, nem por isso bem formuladas e verdadeiras. Na Fran&#231;a e para os afrancesados, incomodados com a invas&#227;o anglo-sax&#244;nica, a coisa fazia sentido. No Brasil, para quem quer defender a escola p&#250;blica e o ensino de filosofia, &#233; algo sem sentido, &#233; ideia-fora-do-lugar.</p><p>17. Ent&#227;o, antes que chegue o agosto, tenho que dizer: <em>nenhum fil&#243;sofo, nem mesmo Deleuze, em toda a hist&#243;ria da filosofia, criou um conceito</em>.</p><p>18. Quando Deleuze foi perguntado qual conceito havia criado, ao longo de toda sua obra, ele disse que sim, havia ao menos um, o de <em>ritornelo</em>:</p><blockquote><p><em>Acho que ai&#769; fizemos um bom trabalho, Fe&#769;lix e eu, pois se me perguntassem: &#8220;Que conceito filoso&#769;fico voce&#770; produziu, ja&#769; que voce&#770; fala sobre criar conceitos?&#8221; Criamos ao menos um conceito muito importante: o de ritornelo.</em></p></blockquote><p>19. Quando &#233; &#8220;criar&#8221;? No comum dos dias reservamos esse verbo para os artistas. O escultor, por exemplo, cria a est&#225;tua a partir de uma pedra desprovida de qualquer forma particular. Reservamos o verbo para usar nas situa&#231;&#245;es em que o &#8220;criador&#8221; n&#227;o segue uma f&#243;rmula conhecida. Ele faz surgir algo, por assim dizer, do nada. De onde sa&#237;ram as <em>Varia&#231;&#245;es Goldberg</em> (BMW 988), de Bach? De qual f&#243;rmula? Podemos dizer delas que s&#227;o apenas algum tipo de reorganiza&#231;&#227;o, rearranjo, desconstru&#231;&#227;o, colagem ou bricolagem de alguma coisa que j&#225; existia? Acho que n&#227;o. Elas foram criadas, n&#227;o do nada, claro, pois Bach entendia um tanto de m&#250;sica, mas n&#227;o vemos problemas em dizer que Bach foi um criador, em todo o caso. </p><p>20. Me apresso a dizer que Deleuze levou em conta essa obje&#231;&#227;o, que a cria&#231;&#227;o &#233; um privil&#233;gio dos artistas. Veja, na edi&#231;&#227;o brasileira, o que ele diz na p&#225;gina 13:</p><blockquote><p>&#8220;N&#227;o se pode objetar que a cria&#231;&#227;o se diz antes do sens&#237;vel e das artes, j&#225; que a arte faz existir entidades espirituais, e j&#225; que os conceitos filos&#243;ficos s&#227;o tamb&#233;m sensibilia.&#8221;</p></blockquote><p>Sim, se pode objetar. Na frase acima, ele <em>enfatizou o lado espiritual da arte</em> e <em>deslocou a filosofia para o lado do sens&#237;vel</em>. Ou seja, sugeriu um simetria conveniente mediante <em>ajustes</em> no conceito de arte e de filosofia. Em nenhum momento do livro ele desenvolve a ideia que as  &#8220;entidades espirituais&#8221; da arte de fato s&#227;o semelhantes a um conceito filos&#243;fico.  Ao contr&#225;rio, o livro insiste na diferen&#231;a entre a arte e a filosofia. </p><p>21. Vamos voltar ao tema. Os fil&#243;sofos n&#227;o criam conceitos, eu disse. Eles falam uma l&#237;ngua natural e trabalham a partir dela, mesmo que seja, em algum sentido, contra ela. Eles <em>reorganizam, rearranjam, desconstroem, colam e bricolam, organizam</em>, mas n&#227;o <em>criam</em> conceitos. Nietzsche n&#227;o criou o conceito de &#8220;eterno retorno&#8221;, ao menos de uma forma semelhante &#224; que Michelangelo criou Davi. </p><p>22. &#8220;Criar algo&#8221; pressup&#245;e a exist&#234;ncia de alguma mat&#233;ria ainda sem forma, de algum substrato que pode ser trabalhado pelo criador. O m&#225;rmore no qual Davi foi esculpido n&#227;o tinha, como tem a linguagem humana, significados j&#225; existentes, proposi&#231;&#245;es, estruturas, lugares-comuns. O que eu insisto &#233; que o fil&#243;sofo trabalha com uma l&#237;ngua e com pensamentos j&#225; estruturados. As novidades que surgem na filosofia s&#227;o reorganiza&#231;&#245;es, rearticula&#231;&#245;es, rearranjos de estruturas que, de alguma forma, est&#227;o presentes na tradi&#231;&#227;o lingu&#237;stico-conceitual na qual ele se situa. Isso vale para o conceito de &#8220;eterno retorno&#8221;, que sup&#245;e um arco de autores que parte de Her&#225;clito e vai a Schopenhauer , para o conceito de &#8220;ju&#237;zos sint&#233;ticos a priori&#8221; de Kant e todos os demais. Os meninos e as meninas, pequenos ou grandes, n&#227;o criam conceitos  na aula de filosofia.</p><p>23. A posi&#231;&#227;o que venho expondo aqui nessa s&#233;rie &#233; que a filosofia, seja em grau zero, como aquele m&#237;nimo de reflex&#227;o e metalinguagem que se encontra em qualquer l&#237;ngua natural, seja como uma elabora&#231;&#227;o sofisticada, seja na filosofia budista ou na filosofia anal&#237;tica pesada, sup&#245;e uma vida comum, uma linguagem comum, na qual j&#225; existem conceitos. Ela pode redefinir, ampliar, especializar, at&#233; mesmo recriar, mas n&#227;o, propriamente, criar. O questionamento espont&#226;neo de uma crian&#231;a e a <em>Cr&#237;tica da Raz&#227;o Pura </em>surgem sobre um solo conceitual que n&#227;o foi produzido por elas. H&#225; um recorte do mundo, objetos, propriedades, rela&#231;&#245;es, normas, o comest&#237;vel e o venenoso, o verdadeiro e o falso, o justo e o injusto, o real e o aparente. A filosofia <em>herda</em> essa tralha toda e trabalha com ela, tensionando, elevando, refinando, recusando, substituindo. Mas n&#227;o &#8220;criando&#8221;, como Michelangelo criou Davi.</p><p>24. Atribui-se a Deleuze a &#8220;cria&#231;&#227;o&#8221; do conceito de <em>rizoma</em>. Mas o nome disso &#233;  &#8220;propor uma met&#225;fora&#8221;! Isso consiste em <em>redistribuir</em> elementos que a bot&#226;nica, a lingu&#237;stica, a pol&#237;tica e o senso comum fornecem. O que Deleuze fez foi uma <em>reconfigura&#231;&#227;o</em> engenhosa e filosoficamente <em>frut&#237;fera. </em></p><p><em>Se &#233; isso que se chama cria&#231;&#227;o, nada mais tenho a dizer. </em></p><p>25. O que os fil&#243;sofos tem feito, ao longo da hist&#243;ria, s&#227;o coisas como deflacionar, redefinir, especializar, reconfigurar conceitos, levando em conta, na imensa maioria das vezes, uma heran&#231;a dispon&#237;vel. &#201; evidente que os fil&#243;sofos, de quando em quando, introduzem novos termos, mas o sentido deles depende do estabelecimento de pequenos ou grandes contrastes com o vocabul&#225;rio j&#225; existente. Heidegger come&#231;ou a falar em <em>Dasein</em>, por exemplo, a partir de ajustes com os conceitos de &#8220;sujeito&#8221;, &#8220;consci&#234;ncia&#8221; etc. Isso &#233; &#8220;criar&#8221;? </p><p>26. H&#225; uma dist&#226;ncia entre Deleuze, em seu contexto de origem, e o que ele se tornou no campo do ensino de filosofia, entre n&#243;s. Temos que nos perguntar se essa compreens&#227;o da filosofia  como &#8220;cria&#231;&#227;o de conceitos&#8221; &#233; aquela que precisamos para a escola p&#250;blica brasileira. Deleuze promoveu uma compreens&#227;o da filosofia que a isola das artes e das ci&#234;ncias. Nela n&#227;o h&#225; espa&#231;o para o trabalho escolar interdisciplinar, pois se alguma coisa abunda no livro dele &#233; a cr&#237;tica da ci&#234;ncia, da l&#243;gica e da argumenta&#231;&#227;o.</p><p>27. O distanciamento da filosofia, como disciplina escolar, em rela&#231;&#227;o &#224;s demais disciplinas, &#233; fruto de uma posi&#231;&#227;o que fica clara no come&#231;o do livro. Deleuze&amp;Guattari escrevem (p.15) , que &#8220;toda cria&#231;&#227;o &#233; singular, e o conceito filos&#243;fico &#233; sempre uma singularidade&#8221;. Qual &#233; o problema aqui? Todos os colegas do professor de filosofia, na escola, operam, <em>impl&#237;cita ou explicitamente</em>, com outra defini&#231;&#227;o de &#8220;conceito&#8221;, que n&#227;o tem nada a ver com cria&#231;&#227;o. A tradi&#231;&#227;o filos&#243;fica pensa o conceito como um &#8220;universal&#8221;, desde Plat&#227;o.</p><p>28. Deleuze fala sobre o &#8220;conceito&#8221; sem &#8220;revis&#227;o de literatura&#8221;. Ele tem esse direito, o livro &#233; dele, &#233; um balan&#231;o de sua vida na filosofia, de certa forma. Ele nada diz sobre como &#8220;conceito&#8221; &#233; definido na hist&#243;ria da filosofia e, mais ainda, contra toda ela, adota a met&#225;fora da cria&#231;&#227;o (<em>produ&#231;&#227;o, inven&#231;&#227;o, acontecimento</em>). Ele pode, o livro &#233; dele. Minha contrariedade &#233; com o fato disso ter virado refer&#234;ncia para o ensino de filosofia no Brasil. Imaginem o n&#243; na cabe&#231;a dos colegas da f&#237;sica, da qu&#237;mica, da biologia, da matem&#225;tica, quando ficam sabendo que os conceitos, nas aulas de filosofia, s&#227;o considerados &#8220;singularidades&#8221; e &#8220;acontecimentos&#8221;, que o conceito n&#227;o tem universalidade, n&#227;o &#233; uma regra de classifica&#231;&#227;o. </p><p>29. Em defesa dessa linha de pensamento ouve-se, por vezes, que ela pretende formar o pensamento criativo e cr&#237;tico, evitando que o estudante fique apenas pensando sobre aquilo que foi j&#225; pensado. &#201; por isso que &#233; poss&#237;vel ignorar os conceitos tradicionais sobre o &#8220;conceito&#8221; e abra&#231;ar a defini&#231;&#227;o, &#8220;filosofia &#233; cria&#231;&#227;o de conceitos&#8221;. Sequer uma distin&#231;&#227;o do conceito como um <em>produto</em> e como um <em>processo</em> &#233; feita. Na tradi&#231;&#227;o, o conceito pode ser visto como uma representa&#231;&#227;o, uma defini&#231;&#227;o, um conte&#250;do mental, isto &#233;, <em>como um algo, um produto</em>; a mesma tradi&#231;&#227;o insiste que, de outro lado, o conceito indica um <em>processo</em>, uma <em>opera&#231;&#227;o</em>: a a&#231;&#227;o de classificar, distinguir, delimitar, aplicar, usar. O vi&#233;s deleuziano n&#227;o mostra para os estudantes essa dupla natureza do conceito. &#201; ainda poss&#237;vel que, para surpresa dos professores das demais disciplinas, os estudantes n&#227;o tenham contato com a vener&#225;vel tradi&#231;&#227;o da teoria da defini&#231;&#227;o por g&#234;nero pr&#243;ximo e diferen&#231;a espec&#237;fica, por exemplo; e que n&#227;o fa&#231;am ideia da ainda mais vener&#225;vel tradi&#231;&#227;o do conceito como uma regra, como algo que tem uma fun&#231;&#227;o normativa;  e por a&#237; vai. </p><p>30. A proposta deleuziana  exerce, reconhe&#231;o isso, um papel importante. Ela sinaliza uma dire&#231;&#227;o contr&#225;ria ao ensino chapado de hist&#243;ria da filosofia, &#8220;Plat&#227;o disse isso e Descartes disse aquilo&#8221; Isso &#233; uma virtude, &#233; claro. Mas uma pol&#237;tica p&#250;blica de ensino exige crit&#233;rios de avalia&#231;&#227;o expl&#237;citos, objetivos mensur&#225;veis, e alguma distin&#231;&#227;o entre o desempenho bem-sucedido e o mal-sucedido. O que fui vi, na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, no trabalho apresentado pelo Professor Adalton Jos&#233; Rodrigues, foi uma preocupa&#231;&#227;o genu&#237;na com a avalia&#231;&#227;o no contexto da  &#8220;cria&#231;&#227;o de conceitos&#8221;. O trabalho me pareceu genuinamente preocupado com essa quest&#227;o: e se, como orienta&#231;&#227;o pedag&#243;gica, a tal da &#8220;cria&#231;&#227;o de conceitos&#8221; tiver uma  certa opacidade? De que modo n&#243;s, professores, avaliamos o que acontece na aula de filosofia quando ela &#233; presidida por esse lema? Foi por a&#237; que conversamos, na companhia da orientadora, a &nbsp;Professora Marta Rios Nunes da Costa, da UFMS e do  Professor Victor Hugo de Oliveira Marques, que tamb&#233;m fez parte da banca. </p><p>31. &#201; mais do que hora para uma avalia&#231;&#227;o dessas coisas. Eu mesmo n&#227;o sabia como puxar esse assunto, aproveitei essa oportunidade criada pelo Prof Filo da UFMS. Deixo aqui, para terminar essa s&#233;rie, uma hist&#243;ria, uma lembran&#231;a que me atormenta, faz algum tempo, quando penso nesses assuntos. &#201; sobre a Batalha de Balaclava e a Carga da Brigada Ligeira, que fez do Capit&#227;o Nolan um personagem famoso. Ele foi encarregado por seus superiores de levar uma mensagem para a cavalaria brit&#226;nica avan&#231;ar. A ordem, ao que parece, foi mal redigida; n&#227;o apenas isso, houve falhas de comunica&#231;&#227;o. Ele acabou apontando para a dire&#231;&#227;o errada e a cavalaria seguiu sua instru&#231;&#227;o. Nolan logo percebeu que todos caminhavam para a boca dos canh&#245;es russos e saiu em disparada, para tentar conter o avan&#231;o. N&#227;o conseguiu. Foi o primeiro a morrer. Seguiu-se o massacre dos ingleses, diante da perplexidade dos pr&#243;prios atiradores russos, que n&#227;o entendiam porque a cavalaria galopava &#224; toda para combater uma bateria de canh&#245;es com espadas. </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[# Digiana 65 - O caracol e o pantanal (VI) ]]></title><description><![CDATA[Os carac&#243;is, lentos e visguentos, comem as couves e s&#227;o lembrados pelo rastro de prata que deixam sobre o ch&#227;o.]]></description><link>https://ronai.substack.com/p/digiana-65-o-caracol-e-o-pantanal</link><guid isPermaLink="false">https://ronai.substack.com/p/digiana-65-o-caracol-e-o-pantanal</guid><dc:creator><![CDATA[Ronai Pires da Rocha]]></dc:creator><pubDate>Tue, 12 May 2026 18:28:05 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!rEgD!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe4e4dbab-5c54-4cbe-bad5-8691c9bc2180_799x533.heic" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!rEgD!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe4e4dbab-5c54-4cbe-bad5-8691c9bc2180_799x533.heic" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!rEgD!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe4e4dbab-5c54-4cbe-bad5-8691c9bc2180_799x533.heic 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!rEgD!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe4e4dbab-5c54-4cbe-bad5-8691c9bc2180_799x533.heic 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!rEgD!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe4e4dbab-5c54-4cbe-bad5-8691c9bc2180_799x533.heic 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!rEgD!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe4e4dbab-5c54-4cbe-bad5-8691c9bc2180_799x533.heic 1456w" sizes="100vw"><img src="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!rEgD!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe4e4dbab-5c54-4cbe-bad5-8691c9bc2180_799x533.heic" width="799" height="533" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/e4e4dbab-5c54-4cbe-bad5-8691c9bc2180_799x533.heic&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:533,&quot;width&quot;:799,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:28761,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/heic&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://ronai.substack.com/i/196946991?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe4e4dbab-5c54-4cbe-bad5-8691c9bc2180_799x533.heic&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!rEgD!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe4e4dbab-5c54-4cbe-bad5-8691c9bc2180_799x533.heic 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!rEgD!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe4e4dbab-5c54-4cbe-bad5-8691c9bc2180_799x533.heic 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!rEgD!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe4e4dbab-5c54-4cbe-bad5-8691c9bc2180_799x533.heic 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!rEgD!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe4e4dbab-5c54-4cbe-bad5-8691c9bc2180_799x533.heic 1456w" sizes="100vw" fetchpriority="high"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">No p&#225;tio do edif&#237;cio havia um caracol</figcaption></figure></div><p>1.</p><p>Na filosofia existe <em>temperamento</em>: um certo tipo de prefer&#234;ncia pessoal que &#233; compat&#237;vel com a ocupa&#231;&#227;o. Alguns de n&#243;s somos mais pr&#225;ticos, realistas, materialistas, conservadores; outros somos mais sonhadores, idealistas, progressistas, por a&#237;. Somos, na maior parte das vezes, na filosofia e na vida, uma mistura desses humores de pensamento, dependendo da tempestade.</p><p>2.</p><p>Ainda n&#227;o abordei uma das perguntas que fiz no come&#231;o dessa s&#233;rie, sobre como <em>caminhamos</em> dentro do espa&#231;o da filosofia. Se ela &#233; uma esp&#233;cie de jornada de distanciamento da gente em rela&#231;&#227;o &#224; gente mesmo, cabe a pergunta sobre como nos movemos dentro dela. Essa era a &#250;ltima pergunta, no come&#231;o dessa s&#233;rie: como andamos no meio do redemunho?</p><p>Eu disse, acompanhando Winnicott, que a filosofia tem um p&#233; na &#225;rea transicional. Onde se apoia o outro? A resposta &#233; simples: <em>em coisas objetivas, na realidade, naquilo que &#233; comum, intersubjetivo</em>. A filosofia, ao longo da hist&#243;ria, produziu um estoque de conhecimentos sobre o modo de funcionamento da gente mesmo: nossa linguagem, a l&#243;gica e a argumenta&#231;&#227;o, essas coisas que nos s&#227;o comuns. A filosofia implica o dom&#237;nio de conhecimentos, instrumentos, t&#233;cnicas e habilidades que s&#227;o desligadas de temperamentos. Como nos movemos dentro da filosofia, em quais dire&#231;&#245;es, em qual ritmo, com quais cuidados? Minha resposta, eu temo, ser&#225; desapontadora. </p><p>3.</p><p>Como nos orientamos em um espa&#231;o,  em um quarto escuro ou numa floresta? </p><p>Seja o caso de uma caminhada em um bosque que n&#227;o conhecemos e no qual n&#227;o h&#225; caminhos demarcados. O caminhante pensa em duas coisas; ele n&#227;o quer se perder, ele quer saber, a cada momento da caminhada, onde ele est&#225;, em rela&#231;&#227;o ao seu ponto de partida; outra coisa que ele pensa &#233; como deve caminhar por ali. O bosque esconde riscos, cobras e lagartos; se o caminhante est&#225; de p&#233; no ch&#227;o, vai andar cuidadosamente, olhando bem onde pisa; se usa uma bota de cano alto, fica &#224; vontade. Se a bota &#233; imperme&#225;vel, pisa no barro sem preocupa&#231;&#227;o, cuida apenas a profundidade da lama em rela&#231;&#227;o ao cano da bota; se h&#225; teias nas &#225;rvores e est&#225; de mangas curtas, faz zigue-zagues para n&#227;o perturbar os insetos. A gente n&#227;o anda no meio do mato de qualquer jeito.</p><p>O primeiro pensamento, de n&#227;o se perder, &#233; intuitivo. Queremos <em>saber como voltar ao ponto inicial</em>. A quest&#227;o aqui &#233; de orienta&#231;&#227;o. O segundo, o <em>como caminhar</em>, acrescenta um novo elemento, a saber, o jeito, a <em>t&#233;cnica</em> de caminhar.</p><p>A distin&#231;&#227;o &#233; simples, entre a <em>orienta&#231;&#227;o</em> (saber onde estamos) e a <em>t&#233;cnica</em> de caminhada (saber como andar no mato). At&#233; aqui eu n&#227;o disse nada que a leitora n&#227;o saiba. &#201; assim na vida comum. Pense em como voc&#234; caminha dentro do quarto, &#224; noite, quando falta luz. Voc&#234; estende a m&#227;o para encontrar um objeto familiar, caminha devagarinho, tateando com m&#227;os e p&#233;s, para n&#227;o trope&#231;ar em uma banqueta fora do lugar. &#201; assim que fazemos na vida comum, &#233; parecido com isso na filosofia.</p><p>Esse tema de como nos movimentamos em um lugar &#233; um cl&#225;ssico na filosofia. Kant escreveu, em 1786, um texto famoso sobre isso, com o t&#237;tulo: &#8220;<em>Que significa orientar-se no pensamento?</em>&#8221;</p><p>O tema tamb&#233;m existe na m&#250;sica popular. Gilberto Gil escreveu uma can&#231;&#227;o, <em>Oriente</em>, na qual ele d&#225; conselhos para um rapaz: &#8220;<em>se oriente, rapaz, pela constata&#231;&#227;o de que a aranha vive do que tece</em>&#8221;; &#8220;<em>se oriente, rapaz, pela constela&#231;&#227;o do Cruzeiro do Sul</em>&#8221;, &#8220;<em>na vida tudo merece considera&#231;&#227;o</em>&#8221;, &#8220;<em>tudo depende de determina&#231;&#227;o</em>&#8221;. Veja que ele usa a orienta&#231;&#227;o pelas estrelas para falar sobre <em>orienta&#231;&#227;o moral</em>. Uma pessoa &#8220;orientada&#8221;, dizemos n&#243;s no comum, &#233; aquela a quem atribuimos sa&#250;de moral e intelectual, diferentemente do que dizemos de pessoas desorientadas.</p><p>4.</p><p>Onde entra o <em>temperamento</em> nessa hist&#243;ria de bosques e quartos? &#201; ele que nos inspira aonde ir: campos abertos ou centros urbanos? Florestas fechadas ou desertos? Pantanais ou montanhas? Quais paisagens mais nos atraem? Quais perigos procuramos? Ningu&#233;m caminha apenas com o temperamento, pois queremos encontrar o caminho de volta e isso depende de algumas t&#233;cnicas bem objetivas. Podemos fazer sinais nas &#225;rvores, deixar migalhas de p&#227;o no ch&#227;o, fotografar as esquinas no celular. Ningu&#233;m quer se perder, na vida real no comum.</p><p>Assim &#233; na vida, assim deveria ser na filosofia.</p><p>5.</p><p>Aquilo que eu venho chamando de &#8220;a parte t&#233;cnica da filosofia&#8221; (l&#243;gica, argumenta&#231;&#227;o, ret&#243;rica, metaf&#237;sica, an&#225;lise metodol&#243;gica e conceitual) &#233; o equivalente de botas, luvas, camisa de manga comprida, mapas, b&#250;ssolas, bast&#227;o de apoio. Essas coisas s&#227;o preciosas para a caminhada ir em frente, para n&#227;o afundar na lama, para n&#227;o cair ou caminhar em c&#237;rculos dentro do mato: <em>orienta&#231;&#227;o </em>e<em> t&#233;cnica</em>.</p><p>O exemplo de Kant foi o da orienta&#231;&#227;o em um quarto escuro. Procuramos um objeto familiar. Depois temos que usar um sentido pessoal, subjetivo, que consiste em distinguir nosso lado direito e nosso lado esquerdo, com o mapa do quarto em mente. Tocamos a ma&#231;aneta da porta, sabemos que ela se abre para o lado direito; confiamos em nosso sentido de &#8220;estar &#224; nossa direita&#8221; e &#8220;estar &#224; nossa esquerda&#8221;. E vamos indo.</p><p>O que acontece no pensamento? Os objetos que tocamos, no pensamento, muitas vezes s&#227;o abstratos, excessivos, est&#227;o al&#233;m de nossas capacidades usuais de compreens&#227;o. Nessas horas n&#227;o estamos lavando mandiocas e pesando ab&#243;boras. Nessas horas ficamos diante da perda de um ente querido, de uma trag&#233;dia, do desconhecido, do arrebatamento do sagrado e do sublime. Eles extravasam nossas formas comuns de entendimento. Ficamos sem saber o que dizer, o que pensar. Travamos. Mas temos que caminhar. Como fazemos? N&#227;o temos escolha quanto &#224; entrar e caminhar nesses lugares nos quais nos faltam as palavras e sobram os sentimentos. O recurso consiste em come&#231;ar com aquilo que temos, lan&#231;ar m&#227;o daquilo que conhecemos: fazemos met&#225;foras, compara&#231;&#245;es. N&#227;o podemos explorar o desconhecido sem lan&#231;ar m&#227;o do que conhecemos. </p><p>Tenho falado aqui em <em>experi&#234;ncias de excesso</em>; s&#227;o aqueles acontecimentos complicados na vida da gente, nos quais s&#227;o sabemos bem o que fazer, o que pensar. Travamos, choramos, secamos. <em>E da&#237;</em>? Diz a sabedoria comum, <em>da&#237; &#233; preciso aguentar</em>, dar um tempo. S&#227;o esses os ant&#237;dotos que temos contra a tenta&#231;&#227;o do abandono puro e simples, do ref&#250;gio em esconderijos suspeitos, <em>da bobagem sem retorno</em>.</p><p>Eu me pergunto agora se esses movimentos, <em>travar</em>-se, <em>dar um tempo</em>, <em>aguentar</em>, n&#227;o s&#227;o partes de um sentido intuitivo de <em>orienta&#231;&#227;o</em>. Pois <em>travar-se</em> &#233; um tipo de movimento, um movimento parado. Se temos um pouco de tempo e um tanto de sorte, surge em n&#243;s um sentimento que, aos poucos, predomina sobre o tumulto: <em>que devemos, que queremos seguir</em>. Aos poucos. Devagar.</p><p>6.</p><p>Uma das coisas que mais fiz aqui no <em>Animal Digiana</em> foi repetir que uma grande parte dos nossos pensamentos depende de imagens. N&#227;o pensamos apenas com palavras. Somos dependentes das frases que carregam imagens, que fazem compara&#231;&#245;es com situa&#231;&#245;es concretas. S&#227;o as met&#225;foras. Sem elas somos apenas umas ab&#243;boras falantes. As met&#225;foras s&#227;o os nossos instrumentos de navega&#231;&#227;o na &#225;rea dif&#237;cil dos excessos.</p><p>7.</p><p>A dimens&#227;o instrumental da filosofia de que falo aqui foi elaborada, ao longo dos s&#233;culos, para compreender como n&#243;s, seres humanos, somos, pensamos, agimos. N&#227;o h&#225; nada na filosofia dita &#8220;profissional&#8221; que n&#227;o seja uma elabora&#231;&#227;o sobre as capacidades humanas comuns. Veja, por exemplo, essa lista de coisas que qualquer pessoa consegue fazer: entender uma indireta; identificar uma suposi&#231;&#227;o, suspeitar de um argumento mal enjambrado, perceber quando algu&#233;m est&#225; ampliando demasiadamente a aplica&#231;&#227;o de um conceito, ou usando uma mesma palavra em dois sentidos diferentes, no mesmo argumento. Essas coisas, que fazemos todos os dias, s&#227;o examinadas em detalhe na filosofia dos acad&#234;micos. Winnicott pensa que a filosofia tem um lado de &#8220;&#225;rea de transi&#231;&#227;o&#8221;, onde o <em>temperamento</em> e a <em>vis&#227;o</em> contam muito. Mas a filosofia tem tamb&#233;m essa dimens&#227;o de <em>exig&#234;ncia de objetividade</em>, que &#233; elaborada na tradi&#231;&#227;o que cultiva os instrumentos expl&#237;citos e p&#250;blicos de argumenta&#231;&#227;o e linguagem.</p><p>A coisa desanda quando um desses lados &#233; desprezado. </p><p>7.</p><p>Eu venho de uma fam&#237;lia grande. Somos cinco irm&#227;os, minha m&#227;e teve sete irm&#227;os, meu av&#244; teve onze. &#201; muita gente. Alguns deles ficaram conhecidos entre n&#243;s pelo jeito calmo de levar as coisas, que ficava evidente em qualquer conversa cotidiana. O ritmo sempre era lento, a conversa era sempre um ritual, no qual os sil&#234;ncios faziam parte, os longos intervalos n&#227;o incomodavam, e o assunto da conversa era sempre uma esp&#233;cie de eixo bem lubrificado em torno do qual se girava, com pequenas varia&#231;&#245;es. J&#225; outros parentes eram mais el&#233;tricos, pontuais. Um primo meu, de temperamento impetuoso, morreu como guerrilheiro na Bol&#237;via. Fico me perguntando pela consequ&#234;ncia desses humores, dos calmos e dos el&#233;tricos, quando estamos na filosofia. Costumamos associar a filosofia com uma certa paci&#234;ncia contemplativa, com a capacidade de ouvir e ficar e em sil&#234;ncio, por algum tempo. S&#243;crates era um tipo que gostava de ir a pra&#231;a e ouvir os outros, para, s&#243; ent&#227;o, <em>socratear</em> o povo.</p><p>8.</p><p>Estou de novo divagando. Para encaminhar o assunto dessa <em>Digiana</em>, sobre como caminhar na filosofia, volto &#224; Iris Murdoch. Ela tem um texto, no <em>Existencialistas e M&#237;sticos</em>, no qual atribui a um S&#243;crates imagin&#225;rio a seguinte frase:</p><blockquote><p>&#8220;Vamos devagar. Em filosofia, se voc&#234; n&#227;o se move em ritmo de caracol, voc&#234; n&#227;o est&#225; se movendo.&#8221;</p></blockquote><p>O contexto da frase &#233; um debate sobre religi&#227;o, sobre se os deuses existem, e se a virtude depende de acreditar neles. Como se v&#234;, o tema &#233; atual. Uma pessoa que n&#227;o acredita na exist&#234;ncia de Deus &#233; uma candidata natural a ter menos compaix&#227;o, menos virtudes do que os crentes? Nesse tipo de debate n&#227;o &#233; raro que surjam afirma&#231;&#245;es el&#233;tricas e pomposas. Naquela altura do texto ela faz S&#243;crates segurar o freio da conversa e dizer essa frase estranha: <em>em filosofia, se voc&#234; n&#227;o se move no ritmo do caracol, n&#227;o est&#225; se movendo</em>. A lentid&#227;o faz parte da coisa. A conversa precisa ser calma, precisa girar devagar em torno dos eixos do assunto. </p><p>Devemos nos apressar devagar. <em>Orientar-se</em> &#233; uma coisa, <em>caminhar</em> &#233; outra. </p><p>Kierkegaard, nas <em>Migalhas</em>, se lembro bem, escreveu que n&#227;o adianta correr se n&#227;o sabemos bem para onde ir:</p><p><em>&#8220;&#201; certo que quem anda devagar &#224;s vezes n&#227;o alcan&#231;a a meta, mas quem corre demais muitas vezes tamb&#233;m pode passar por ela sem parar.&#8221;</em></p><p>Acho que agora, depois de seis textos, estou pronto para encerrar a s&#233;rie. Essas seis tentativas tinham como objetivo contar um pouco do que eu tentei fazer l&#225; em Campo Grande; mas eu me desviei muito, sai pela lateral, divaguei. Est&#225; na hora de voltar a Campo Grande. Voltarei.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[# Digiana 64 - A filosofia e o pantanal (V)]]></title><description><![CDATA[Um resumo, mais esclarecimentos e um exemplo, rumo ao final.]]></description><link>https://ronai.substack.com/p/digiana-64-a-filosofia-e-o-pantanal</link><guid isPermaLink="false">https://ronai.substack.com/p/digiana-64-a-filosofia-e-o-pantanal</guid><dc:creator><![CDATA[Ronai Pires da Rocha]]></dc:creator><pubDate>Sun, 10 May 2026 21:15:23 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!efz5!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc280fcec-3513-4684-ba4a-50bc8f652161_799x533.heic" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!efz5!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc280fcec-3513-4684-ba4a-50bc8f652161_799x533.heic" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!efz5!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc280fcec-3513-4684-ba4a-50bc8f652161_799x533.heic 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!efz5!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc280fcec-3513-4684-ba4a-50bc8f652161_799x533.heic 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!efz5!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc280fcec-3513-4684-ba4a-50bc8f652161_799x533.heic 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!efz5!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc280fcec-3513-4684-ba4a-50bc8f652161_799x533.heic 1456w" sizes="100vw"><img src="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!efz5!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc280fcec-3513-4684-ba4a-50bc8f652161_799x533.heic" width="799" height="533" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/c280fcec-3513-4684-ba4a-50bc8f652161_799x533.heic&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:533,&quot;width&quot;:799,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:131229,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/heic&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://ronai.substack.com/i/197144209?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc280fcec-3513-4684-ba4a-50bc8f652161_799x533.heic&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!efz5!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc280fcec-3513-4684-ba4a-50bc8f652161_799x533.heic 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!efz5!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc280fcec-3513-4684-ba4a-50bc8f652161_799x533.heic 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!efz5!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc280fcec-3513-4684-ba4a-50bc8f652161_799x533.heic 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!efz5!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc280fcec-3513-4684-ba4a-50bc8f652161_799x533.heic 1456w" sizes="100vw" fetchpriority="high"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">Olimpia, a jacorutu do Rinc&#227;o Gaia, em 2014</figcaption></figure></div><p>Esse &#233; o quinto texto da s&#233;rie &#8220;A filosofia e o pantanal&#8221;, que est&#225; caminhando para o final. Aqui fa&#231;o um resumo, tento mais uns esclarecimentos e ofere&#231;o um exemplo do trabalho do lado n&#227;o-transicional da filosofia.</p><p>Comecei comparando a filosofia com um espa&#231;o tridimensional: a filosofia tem <em>largura</em> (a variedade de seus temas), tem <em>altura</em> (uma hist&#243;ria registrada) e tem <em>profundidade</em> (&#233; um lugar onde cada um caminha com suas perguntas). Ningu&#233;m fica de fora, pois a vida nos apronta muitas &#8220;experi&#234;ncias de excesso&#8221;, coisas como a <em>morte</em>, o <em>outro</em>, o <em>sublime</em>, o <em>sagrado</em>; s&#227;o viv&#234;ncias que, quase sempre, est&#227;o al&#233;m das nossas capacidades de compreens&#227;o. Eu disse ent&#227;o que a linguagem cotidiana, com a qual damos <em>bom dia</em> e conversamos sobre nossas contas, tem, instalada dentro, uma esp&#233;cie de <em>aplicativo</em> para cuidar dela mesma. Todo mundo pensa, n&#227;o apenas sobre se o dia est&#225;, <em>de fato</em>, <em>bom</em>, mas se o pre&#231;o que estamos pagando pela ab&#243;bora est&#225; justo. Da&#237;, um feio dia, a gente se pergunta, <em>bondade</em>, <em>justi&#231;a</em>, que s&#227;o essas coisas? E se somos cabe&#231;a-dura e nunca nos perguntamos sobre essas coisas, sempre h&#225; o risco de que algu&#233;m nos pergunte sobre elas, se o que estamos fazendo &#233; o <em>certo</em>, &#233; o <em>bem</em>, se o pre&#231;o das ab&#243;boras &#233; aquele mesmo. &#201; nessa dire&#231;&#227;o que eu disse que h&#225; uma esp&#233;cie de <em>grau zero da reflex&#227;o</em> <em>humana</em>, um <em>grau zero da filosofia</em>, que est&#225; presente em todas as culturas dos <em>sapiens</em>.</p><p>No <em>Digiana 61</em> eu falei sobre a distin&#231;&#227;o entre a oralidade e a escrita. Eu disse que existe &#8220;filosofia&#8221; nas culturas orais; ela se cristaliza nos mitos, nos rituais, nos prov&#233;rbios e depende da mem&#243;ria da comunidade; a escrita &#8220;domestica o pensamento&#8221;, no sentido que ela permite que nossa alma compare as coisas com calma (talvez com uma planilha Excel) o que fizemos e registramos, que foi cristalizado nos textos; a escrita cria um novo patamar de possibilidades para a gente refletir sobre os pensamentos que foram acumulados pela comunidade. Comecei a questionar uma f&#243;rmula famosa na filosofia, que diz que &#8220;uma vida n&#227;o examinada n&#227;o &#233; digna de ser vivida&#8221;. Explorei tamb&#233;m uma frase da Marilena Chau&#237;, que diz que, na filosofia, a gente fica longe da gente mesmo. Pois bem, onde estamos, quando estamos distantes de n&#243;s mesmos&#8221;? A filosofia seria uma jornada de distanciamento?</p><p>No <em>Digiana 62 </em>eu segui discutindo essa ideia da indignidade da vida n&#227;o examinada. A frase (de S&#243;crates, na <em>Apologia</em>) era autobiogr&#225;fica e circunstancial, mas nas m&#227;os de alguns int&#233;rpretes ela foi usada para separar a humanidade em <em>examinados dignos</em> e <em>n&#227;o-examinados indignos</em>. Iris Murdoch me forneceu o argumento para dizer isso, que uma vida n&#227;o examinada pode ser plenamente virtuosa, pois <em>a virtude n&#227;o &#233; um discurso</em>, &#233; uma aten&#231;&#227;o justa &#224; realidade do outro. Encerrei com uma ideia de Winnicott: a cultura, ou, ao menos uma parte substantiva dela, as artes, a religi&#227;o, a filosofia, as brincadeiras, funciona como o paninho do beb&#234;, como um &#8220;objeto transicional&#8221;, como uma &#8220;&#225;rea de transi&#231;&#227;o&#8221; entre o subjetivo e o objetivo, onde ningu&#233;m precisa provar nada. Acho que ningu&#233;m antes dele tinha pensado nisso: que uma parte importante da cultura &#233; uma &#225;rea de repouso, sen&#227;o a gente rebenta. &#201; nessa parte relevante da cultura que as nossas tens&#245;es com a realidade encontram um pouco de al&#237;vio. Winnicott vai al&#233;m de Freud, nesse sentido. A religi&#227;o n&#227;o pode ser vista apenas como aliena&#231;&#227;o, nem tudo nessas &#225;reas consiste em sublima&#231;&#227;o! O final do <em>Digiana 62</em> foi estranho, pois eu perguntei ali o seguinte: se religi&#227;o n&#227;o se discute, em que sentido a filosofia poderia ser uma &#225;rea de descanso? A pergunta ficou no ar.</p><p>2.</p><p>A resposta que eu dei, no <em>Digiana 63,</em> n&#227;o resolveu o problema. A lebre que eu levantei &#233; muito ligeira, tentei apenas dar uma cara para ela. Terminei dizendo que a filosofia &#233; um <em>redemunho entre a ilus&#227;o e a verdade</em>, uma frase de efeito duvidoso, reconhe&#231;o.</p><p>3.</p><p>Sobre a hist&#243;ria do Adeodato: ela me foi contada pelo Lu&#237;s Carlos Pist&#243;ia. Eu lembrei dela para ilustrar a discuss&#227;o sobre quem decide, afinal, o que &#233; a filosofia. Me pareceu que o Adeodato, ao se retirar xingando, usou o grau zero da filosofia: <em>xingar algu&#233;m pode ser filosofia</em>, dependendo das circunst&#226;ncias.</p><p>4.</p><p>Com os versinhos de Winnicott e a hist&#243;ria das minhas aulas na Psicologia quis mostrar que pode existir algo que poderia ser chamado de &#8220;temperamento filos&#243;fico&#8221;. Lembrei, mas n&#227;o usei, o famoso quadro de Rafael, &#8220;Escola de Atenas&#8221;. Nela, Plat&#227;o aponta o dedo indicador para cima, o que simbolizaria seu apre&#231;o a um certo tipo de <em>idealismo</em>; Arist&#243;teles aponta a palma da m&#227;o para baixo, o que simbolizaria suas convic&#231;&#245;es opostas, seu <em>realismo</em>. Ambos argumentam. Estaria a&#237; um bom exemplo da dualidade da <em>temperamento</em> (idealista ou realista) e <em>argumento</em>. Isso n&#227;o &#233; um defeito da filosofia, &#233; uma condi&#231;&#227;o, pois h&#225; algo nela que n&#227;o depende de argumentos; depende de seio, de leite, de abra&#231;o suficientemente bom, como diria Winnicott. A resposta que eu pude dar para o problema (<em>filosofia &#233; apenas transi&#231;&#227;o?</em>) foi dizer que n&#227;o, <em>a filosofia n&#227;o &#233; apenas transi&#231;&#227;o</em>. A filosofia pode ser pensada como uma combina&#231;&#227;o entre vis&#227;o e argumentos, imagina&#231;&#227;o e l&#243;gica. H&#225; um componente transicional nela, <em>mas h&#225; mais</em>. Ela tem um p&#233; na &#225;rea transicional e outro na exig&#234;ncia de verdade e objetividade. Isso precisaria ser mais desenvolvido. Procurei fazer desenvolver esse ponto no meu <em>Ensino de Filosofia e Curr&#237;culo,</em> n&#227;o h&#225; espa&#231;o para retomar isso aqui.</p><p>5.</p><p>H&#225; coisas que ficaram extraviadas ou mal explicada nessa s&#233;rie. Uma delas &#233; sobre a no&#231;&#227;o de filosofia nas culturas orais, dos povos ind&#237;genas, ancestrais. Costuma-se ler nos manuais que ali &#233; o mundo da mitologia, das tradi&#231;&#245;es congeladas; e que a filosofia &#233; o mundo fervente da raz&#227;o, que derrota o mito.</p><p>Essas hist&#243;rias, a do mito e a da raz&#227;o, est&#227;o mal contadas. Eu sugeri que a filosofia, nas culturas sem escrita, funciona por meio de hist&#243;rias que abordam as experi&#234;ncias de excesso das comunidades. Ou seja, as pessoas n&#227;o ficam <em>socratizando-se</em> umas &#224;s outras. Elas passam e repassam hist&#243;rias e, com elas, renovam a reflex&#227;o est&#225;, por assim dizer, contida nas mitologias. O mito n&#227;o &#233; apenas uma hist&#243;ria contada uma vez. Ele &#233; um arquivo precioso daquilo que &#233; preciso levar em conta nas horas dif&#237;ceis da vida. Veja que aqui estou sugerindo uma dualidade importante: a primeira &#233; o epis&#243;dio do <em>contar</em> o mito; a outra &#233; que o mito &#233; uma <em>hist&#243;ria</em>, uma trag&#233;dia, um drama, com estrutura, partes, personagens, a&#231;&#245;es, rea&#231;&#245;es.</p><p>As culturas da escrita n&#227;o inventaram a filosofia, a reflex&#227;o. O que elas fizeram foi separar o <em>contar</em> e a <em>hist&#243;ria</em>. <em>Contar &#233; uma coisa, a hist&#243;ria contada &#233; outra coisa</em>. Contar &#233; um evento; a gente senta num canto, numa certa hora do dia e conta uma coisa para algu&#233;m, por exemplo. A hist&#243;ria que a gente contou &#233; outra coisa. &#201; por meio dessa esp&#233;cie de <em>esquartejamento</em> que a cultura escrita pode nos oferecer, por exemplo, estudos sobre o que &#233; uma hist&#243;ria. Por exemplo, quando acontece uma trag&#233;dia? E uma com&#233;dia? Quando &#233; que alguma coisa na vida da gente vira uma trag&#233;dia? Pois, no comum, a gente planta mandioca, colhe mandioca, cozinha mandioca, come mandioca, sem trag&#233;dia e com&#233;dia. No m&#225;ximo, um <em>draminha</em>: v&#227;o cozinhar bem? Trag&#233;dias e com&#233;dias n&#227;o acontecem a toda hora na vida de cada um.</p><p>A essa altura voc&#234; aciona o desconfi&#244;metro e pensa, &#8220;mas as vezes a vida toda &#233; uma trag&#233;dia...&#8221;. Bem, nessa hora a gente precisa perguntar, ent&#227;o: afinal, o que &#233; mesmo uma trag&#233;dia? <em>Por que um certo acontecimento na vida da gente pode ser chamado de trag&#233;dia?</em> Bem, a gente pode escrever um livro tentando esmiu&#231;ar qual &#233; a estrutura da trag&#233;dia. J&#225; assistimos muitas, na vida e no teatro, n&#227;o &#233; mesmo? Esse tipo de passo reflexivo n&#227;o &#233; t&#237;pico das culturas orais. Elas n&#227;o gastam energia debatendo o tema, <em>de forma expl&#237;cita</em>, mas isso n&#227;o impede que as trag&#233;dias contadas nas culturas orais (ou nelas n&#227;o acontecem trag&#233;dias?) deixem de ser o que s&#227;o: uma certa reflex&#227;o sobre as coisas excessivas na vida.</p><p>Assim, nas culturas orais h&#225; reflex&#227;o, h&#225; pensamentos sobre pensamentos. Essa &#8220;metalinguagem&#8221; est&#225; condensada nos prov&#233;rbios, nos mito, nos rituais. A filosofia escrita procura tornar essa reflex&#227;o expl&#237;cita.</p><p>5.</p><p>Deixei a bola picando no tema da trag&#233;dia, volto a ela, para oferecer um exemplo das coisas que se espera que o lado n&#227;o-transacional da filosofia fa&#231;a. N&#227;o, n&#227;o &#233; um exemplo, &#233; s&#243; um nadica de nada de um gesto que aponta para um exemplo.</p><p> Lembro de Dolores Duran cantando esses versos, em <em>Castigo</em>:</p><blockquote><p>&#8220;Se eu soubesse, naquele dia, o que eu sei agora, eu n&#227;o seria esse ser que chora, eu n&#227;o teria perdido voc&#234;.&#8221;</p></blockquote><p>A letra da m&#250;sica brinca com a f&#243;rmula da trag&#233;dia: <em>transpar&#234;ncia na a&#231;&#227;o</em>, <em>opacidade no pensamento.</em></p><p>Nas minhas aulas eu usava o pouco afinamento que tenho para cantar esses versos para meus alunos. Era a deixa para a discuss&#227;o sobre a estrutura da trag&#233;dia. Depois de cant&#225;-los, eu lembrava a hist&#243;ria do <em>Edipo Rei</em>. Como era mesmo a hist&#243;ria?</p><p>A) Aquela na qual ele <em>mata</em> um velho chato em uma encruzilhada e depois <em>casava</em> com a rainha de Tebas.</p><p>B) A hist&#243;ria na qual ele <em>mata</em> seu pai e depois <em>casa</em> com sua m&#227;e?</p><p>Mas &#201;dipo <em>n&#227;o sabia</em> que o velho chato, na encruzilhada era seu pai... &#201;dipo <em>n&#227;o sabia</em> que a rainha de Tebas era sua m&#227;e. Se &#201;dipo soubesse, no dia em que matou <em>velhopai</em>, o que soube depois, n&#227;o seria o ser que fura os pr&#243;prios olhos, tamanha dor e sofrimento.</p><p>A a&#231;&#227;o de &#201;dipo &#233; transparente para ele mesmo; mas o conhecimento que tinha no momento da a&#231;&#227;o era opaco, limitado, restrito. Ele n&#227;o sabia um monte de coisas, mesmo assim fez o fez: matou algu&#233;m, casou-se com algu&#233;m. <em>Mas seu conhecimento era opaco, como o de cada um de n&#243;s. Ele n&#227;o sabia que </em>... A f&#243;rmula da trag&#233;dia n&#227;o &#233; t&#227;o complicada assim: <em>transpar&#234;ncia na a&#231;&#227;o, opacidade no conhecimento</em>.</p><p>Na vida como ela &#233;, a trag&#233;dia pode estar na geladeira, na esquina, <em>whatever.</em> Algu&#233;m trocou as garrafinhas de lugar, o pedal falha na hora da ultrapassagem, <em>whatever</em>. &#8220;Se eu soubesse ...&#8221; Mas a vida, como ela &#233;, s&#243; tem gra&#231;a porque ela &#233; assim.</p><p>Arist&#243;teles discutiu esse assunto no livro chamado &#8220;Po&#233;tica&#8221;. Foi s&#243; o come&#231;o de um debate que vem at&#233; hoje. As vezes a filosofia &#233; como a vida como ela &#233;, uma coisa que s&#243; termina quando termina. Ainda bem, n&#227;o &#233;?</p><p><em>Voltaremos</em>.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[# Digiana 63 - Winnicott no pantanal (IV)]]></title><description><![CDATA[Aquilo que, na filosofia, depende do seio e do abra&#231;o]]></description><link>https://ronai.substack.com/p/digiana-63-winnicott-no-pantanal</link><guid isPermaLink="false">https://ronai.substack.com/p/digiana-63-winnicott-no-pantanal</guid><dc:creator><![CDATA[Ronai Pires da Rocha]]></dc:creator><pubDate>Fri, 08 May 2026 13:17:18 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ufGQ!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc6a01808-74aa-4dc0-9ae3-dbf8095e2c3f_3825x3222.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ufGQ!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc6a01808-74aa-4dc0-9ae3-dbf8095e2c3f_3825x3222.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ufGQ!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc6a01808-74aa-4dc0-9ae3-dbf8095e2c3f_3825x3222.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ufGQ!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc6a01808-74aa-4dc0-9ae3-dbf8095e2c3f_3825x3222.jpeg 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ufGQ!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc6a01808-74aa-4dc0-9ae3-dbf8095e2c3f_3825x3222.jpeg 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ufGQ!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc6a01808-74aa-4dc0-9ae3-dbf8095e2c3f_3825x3222.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ufGQ!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc6a01808-74aa-4dc0-9ae3-dbf8095e2c3f_3825x3222.jpeg" width="3825" height="3222" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/c6a01808-74aa-4dc0-9ae3-dbf8095e2c3f_3825x3222.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:3222,&quot;width&quot;:3825,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:2382039,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://ronai.substack.com/i/196897601?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fff227d17-ca22-41cd-9340-64103ccc4cf2_4608x3456.jpeg&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ufGQ!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc6a01808-74aa-4dc0-9ae3-dbf8095e2c3f_3825x3222.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ufGQ!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc6a01808-74aa-4dc0-9ae3-dbf8095e2c3f_3825x3222.jpeg 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ufGQ!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc6a01808-74aa-4dc0-9ae3-dbf8095e2c3f_3825x3222.jpeg 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ufGQ!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc6a01808-74aa-4dc0-9ae3-dbf8095e2c3f_3825x3222.jpeg 1456w" sizes="100vw" fetchpriority="high"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">Tanto bate </figcaption></figure></div><p></p><p>1.</p><p>Eu conclu&#237; o Digiana 62 dizendo que &#233; poss&#237;vel ver a filosofia, com a ajuda de Winnicott, como uma &#8220;&#225;rea de experi&#234;ncia intermedi&#225;ria&#8221;, nem objetiva, nem subjetiva. Ela tem algo em comum com as brincadeiras, a religi&#227;o, a m&#250;sica, os esportes. Para quem pegou o bonde andando, elas s&#227;o chamadas por Winnicott de &#8220;&#225;reas transicionais&#8221;, pois ele acredita que os conceitos de &#8220;subjetividade&#8221; e &#8220;objetividade&#8221;, de &#8220;mundo interno&#8221; e &#8220;mundo externo&#8221; n&#227;o d&#227;o conta de uma explica&#231;&#227;o razo&#225;vel para o desenvolvimento da vida humana. H&#225; uma terceira &#225;rea, diz ele, na qual negociamos as rela&#231;&#245;es entre o &#8220;subjetivo&#8221; e o &#8220;objetivo&#8221;. &#201; uma &#225;rea <em>neutra</em>, na qual podemos descansar, pois o que fazemos e dizemos ali n&#227;o se presta para contesta&#231;&#227;o.</p><p>Para quem quiser aprofundar o assunto, recomendo o livro dele, <em>O Brincar e a Realidade</em> (Imago, Rio, 1975). Os exemplos favoritos de Winnicott s&#227;o os paninhos dos beb&#234;s, as artes e a religi&#227;o. Com esses exemplos ele est&#225; dizendo algo muito importante sobre certas caracter&#237;sticas da cultura, a saber, o fato de que nela, essas &#225;reas de transi&#231;&#227;o tem um papel central.</p><p>Ficou assim um desafio, o de explicar em que sentido a filosofia, como a religi&#227;o, &#233; uma coisa que n&#227;o se discute? Em que sentido a filosofia &#233; uma &#8220;&#225;rea de experi&#234;ncia intermedi&#225;ria&#8221;, nem objetiva, nem subjetiva? Em que sentido a filosofia &#233; compar&#225;vel a uma brincadeira?</p><p>2.</p><p>Todo mundo j&#225; ouviu ditados como &#8220;<em>religi&#227;o n&#227;o se discute</em>&#8221;, &#8220;<em>arte &#233; uma quest&#227;o de gosto</em>&#8221; e &#8220;<em>filosofia, cada um tem a sua</em>&#8221;. A palavra &#8220;filosofia&#8221;, nessa frase, quer dizer algo como &#8220;minha forma de pensar sobre isso e aquilo&#8221;. Por exemplo: eu digo que sou &#8220;materialista&#8221; e voc&#234; me diz que &#233; &#8220;espiritualista&#8221;, e fica bem, nos respeitamos. &#201; o jeit&#227;o de cada um encarar as coisas.</p><p>Algu&#233;m vai dizer: <em>mas isso n&#227;o &#233; filosofia!</em></p><p>Adeodato foi um santa-mariense que costumava frequentava as rodas de conversa na primeira quadra da Rua Dr. Bozano, em Santa Maria. Nas manh&#227;s de s&#225;bado, Monsenhor Didonet, que era uma das refer&#234;ncias intelectuais da cidade, ia at&#233; l&#225;, nas proximidades do Caf&#233; Cristal, para conversar com os amigos. Ele tinha um interlocutor preferido, o Sr, Trevisan, com quem gostava de falar sobre filosofia. Certa manh&#227; o Sr. Trevisan n&#227;o apareceu e o Monsenhor Didonet ficou sem parceiro de conversa. Adeodato, que acompanhava em sil&#234;ncio aquelas tert&#250;lias filos&#243;ficas, arriscou algumas considera&#231;&#245;es, que acreditava ser de natureza filos&#243;fica. Assim que terminou de falar Monsenhor Didonet lhe diz:</p><p>- <em>Mas isso n&#227;o &#233; filosofia, seu Adeodato</em>!</p><p>Adeodato, perplexo, come&#231;a a se retirar da roda, e retruca:</p><p>- <em>N&#227;o &#233; filosofia? Ent&#227;o o senhor v&#225; &#224; m*****!</em></p><p>3.</p><p>&#201; poss&#237;vel que a leitora ou o leitor tenha um filho adolescente. N&#227;o &#233; verdade que &#224;s vezes eles chegam at&#233; n&#243;s com &#8220;pequenas loucuras&#8221;? A express&#227;o &#233; de Winnicott. O adolescente &#233; useiro em fazer especula&#231;&#245;es e pequenas filosofias. Desde crian&#231;as temos que achar um rumo na floresta das ideias. Quem existe, por exemplo? <em>Fadas, bruxas, Papai Noel?</em> A lista s&#243; aumenta com o tempo. <em>Esperan&#231;a, amizade, amor</em>? Aprendemos palavras, exploramos conceitos. </p><p>Eis aqui, ent&#227;o, uma ideia singela da filosofia, como a navega&#231;&#227;o que fazemos, desde crian&#231;a, no espa&#231;o dos conceitos que herdamos. &#8220;Deus&#8221; e &#8220;religi&#227;o&#8221; s&#227;o apenas os temas mais lembrados, entre tantos outros. Um dia a gente compara nosso nariz, que parece mais um chafariz, com o nariz de nossos pais e desconfia de algo, olhando para os irm&#227;os esborrachados: de onde veio meu chafariz? Essa pergunta surge enquanto a crian&#231;a aprende, aos barrancos, coisas sobre descend&#234;ncia, causalidade, rela&#231;&#245;es, hereditariedade.</p><p>Talvez isso n&#227;o deva ser chamado de filosofia. O que eu sei &#233; que as crian&#231;as, desde que come&#231;am a navegar na linguagem, por volta dos quatro anos, come&#231;am a fazer perguntas e chegam at&#233; os temas de filosofia. O mais &#243;bvio deles &#233; quando querem saber &#8220;de onde eu vim&#8221;. Elas querem tirar todas as consequ&#234;ncias do aprendizado que est&#227;o fazendo da no&#231;&#227;o de &#8220;causa&#8221;. Tudo o que existe tem uma causa, veio de algum lugar. &#8220;De onde veio Deus?&#8221;, pergunta um dia a menina. E as m&#227;es que se virem.</p><p>Acho que faz sentido pensar que a filosofia &#233;, entre outras coisas, na vida comum, esse espa&#231;o de explora&#231;&#227;o informal de nossos esquemas e conceitos, um espa&#231;o onde brincamos seriamente com conceitos que s&#227;o fundamentais para nossa vida. Essas ideias de Winnicott podem ajudar para se entender melhor aquilo que lembrei faz pouco: os lugares-comuns, &#8220;religi&#227;o n&#227;o se discute&#8221;, &#8220;arte &#233; uma quest&#227;o de gosto&#8221;, &#8220;filosofia cada um tem a sua&#8221;. Eu me cansei de ver a gurizada, no primeiro semestre do Curso de Filosofia, chegar com alguma filosofia embaixo do bra&#231;o, mesmo com pouca leitura. Alguns se diziam <em>materialistas,</em> outros se diziam <em>idealistas.</em> Havia sempre algum c&#233;tico radical, que duvidava de tudo. Quase ningu&#233;m chegava inocente, para aprender filosofia do nada.</p><p>4.</p><p>Seja, ent&#227;o, o caso dos <em>idealistas</em> contra os <em>realistas</em>.</p><p>Winnicott foi longe nesse tema. Em seu livro <em>Natureza Humana</em> (p. 134), ele escreveu:</p><blockquote><p>&#8220;Os fil&#243;sofos sempre se preocuparam com o significado da palavra &#8216;real&#8217;, e houve diversas escolas de pensamento fundadas sobre a cren&#231;a de que</p><p>&#8220;Pedra, &#225;rvore, ou o que quer mais que seja, s&#243; ter&#227;o exist&#234;ncia se houver quem as veja...&#8221;</p><p>com a alternativa</p><p>&#8220;A pedra, a &#225;rvore, seja l&#225; o que for, estar&#227;o bem a&#237;, mesmo sem espectador...&#8221;</p></blockquote><p></p><p><em>Pergunto ao leitor: com qual dos versinhos voc&#234; se identifica mais?</em></p><p></p><p>Os versinhos, segundo ele, apresentam um &#8220;problema que aflige todo ser humano&#8221;. Ele consiste, por exemplo, nas d&#250;vidas sobre a objetividade de nosso conhecimento da realidade e dos outros; se podemos ou n&#227;o, de fato, saber como s&#227;o as coisas, elas mesmas? At&#233; onde pode ir nosso conhecimento das coisas? Como &#233; mesmo nosso contato com a realidade?</p><p>Fui professor no Curso de Psicologia na UFSM por muitos anos. Uma das atividades did&#225;ticas inclu&#237;a distribuir esses versinhos para leitura de uma turma de quarenta estudantes. Eles tinham que, depois de ler e conversar sobre o sentido desses versos, escolher aqueles de simpatia. Invariavelmente, turma ap&#243;s turma, ano ap&#243;s ano, a turma se dividia em grupos mais ou menos iguais. Alguns expressavam um temperamento mais &#8220;idealista&#8221;: se n&#227;o h&#225; algu&#233;m para conhecer algo, n&#227;o se pode falar desse algo, diziam. Outros eram de temperamento mais realista: &#8220;... mas o mundo existe independentemente da gente...&#8221;.</p><p>Na filosofia parece haver isso, uma presen&#231;a de humor, temperamento, clima. Uns se sentem mais subjetivistas, idealistas; outros mais objetivistas, realistas. Voc&#234; pode obrigar algu&#233;m a ter um <em>temperamento?</em></p><p>Winnicott dizia que esse problema <em>aflige todo ser humano</em>, a come&#231;ar pelos beb&#234;s. O beb&#234; pode ter a sorte de ter uma m&#227;e que se adapta bem a ele, de modo suficientemente bom. Ele tem a sorte de realmente encontrar aquilo que pensa. Ele vai precisar de um tempo para reconhecer que a gente, na real, est&#225; sozinho, que o seio do mundo pode n&#227;o chegar quando queremos. O beb&#234; pode ter azar, a conex&#227;o pode falhar. E pode pesar sobre ele uma amea&#231;a cont&#237;nua de falhas na conex&#227;o com a realidade. Alguns beb&#234;s podem ter ainda mais azar; o mundo se lhes apresenta de modo muito confuso e eles &#8220;crescem sem qualquer capacidade de ilus&#227;o de contato com a realidade externa&#8221;. Esses eventos, da sorte at&#233; o azar, ajudam a constituir a forma como pensamos as nossas rela&#231;&#245;es com o mundo, uns mais materialistas, outros mais idealistas.</p><p>H&#225; algo na filosofia que n&#227;o depende de argumentos; depende do seio, do leite. Do abra&#231;o.</p><p>5.</p><p>Em resumo: &#8220;Objetivo x subjetivo&#8221;, &#8220;interno x externo&#8221;, isso n&#227;o pode ser tudo. A frase, mais uma vez, &#233; do Winnicott: &#8220;<em>isso n&#227;o pode ser tudo</em>&#8221;.</p><p>Transcrevo um trecho que &#233; representativo do que eu estou dizendo at&#233; aqui:</p><blockquote><p>&#8220;O que estamos fazendo quando ouvimos uma sinfonia de Beethoven, ao visitar uma galeria de pintura, lendo <em>Troilo e Cressida</em> na cama, ou jogando t&#234;nis? Que est&#225; fazendo uma crian&#231;a, quando fica sentada no ch&#227;o e brinca sob a guarda de sua m&#227;e? Que est&#225; fazendo um grupo de adolescentes, quando participa de uma reuni&#227;o de m&#250;sica popular? N&#227;o &#233; apenas: o que estamos fazendo? &#201; necess&#225;rio tamb&#233;m formular a pergunta: <em>onde estamos (se &#233; que estamos em algum lugar)?</em> J&#225; utilizamos os conceitos de <em>interno</em> e <em>externo</em> e desejamos um terceiro conceito. <em>Onde estamos, quando fazemos o que, na verdade, fazemos grande parte de nosso tempo, a saber, divertindo-nos?</em> O conceito de sublima&#231;&#227;o abrange realmente todo o padr&#227;o? Podemos auferir algum proveito do exame desse tempo que se refere &#224; poss&#237;vel exist&#234;ncia de um lugar para viver, e que n&#227;o pode ser apropriadamente descrito quer pelo termo &#8216;interno&#8217; quer pelo termo &#8216;externo&#8217;? [...]&#8221;</p></blockquote><p>Da&#237; a minha pergunta, no primeiro <em>Digiana</em> dessa s&#233;rie, o 60: <em>onde estamos, quando estamos na filosofia</em>? Estamos com um dos nossos p&#233;s em uma &#225;rea neutra, de descanso. Se voc&#234; diz que &#233; espiritualista, a gente se interessa por conhecer as ideias que levaram voc&#234; a essa posi&#231;&#227;o. Esse p&#233; &#233; seu, de direito.</p><p>Eu poderia dizer agora que filosofia tem um p&#233; no mundo subjetivo, no interior, e outro no mundo objetivo, exterior, mas essa met&#225;fora de p&#233;s n&#227;o me parece boa. Prefiro pensar a filosofia como <em>duas em uma</em>: uma combina&#231;&#227;o rara entre <em>vis&#227;o</em> e <em>argumentos</em>, entre <em>imagina&#231;&#227;o</em> e <em>l&#243;gica</em>.</p><p>O lado da vis&#227;o e da imagina&#231;&#227;o tem a ver com nosso temperamento, com nosso humor, com nosso jeito de estar no mundo, mais &#224; vontade ou n&#227;o. Esse &#233; o lado da filosofia que corresponde &#224; dimens&#227;o subjetiva, interior. O abra&#231;o. Mas isso n&#227;o pode ser tudo. Pois nesse caso filosofia n&#227;o se discute, n&#227;o &#233;? &#201; preciso que a gente, na academia, apresente evid&#234;ncias, que mostre os argumentos e as infer&#234;ncias que d&#227;o conta da exig&#234;ncia de objetividade e de verdade que s&#227;o inerente &#224; filosofia, nessa sua dimens&#227;o escolar.</p><p>A filosofia &#233; um redemunho entre a ilus&#227;o e a verdade.</p><p><em>Voltaremos.</em></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[# Digiana 62 - A filosofia e o pantanal (III)]]></title><description><![CDATA[A academia e a vida, examinada ou n&#227;o; o paninho dos beb&#234;s e a filosofia]]></description><link>https://ronai.substack.com/p/digiana-62-a-filosofia-e-o-pantanal</link><guid isPermaLink="false">https://ronai.substack.com/p/digiana-62-a-filosofia-e-o-pantanal</guid><dc:creator><![CDATA[Ronai Pires da Rocha]]></dc:creator><pubDate>Wed, 06 May 2026 13:53:38 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!m516!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4047c976-5c9b-4034-8d3a-3d7f2f83753e_2311x2249.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!m516!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4047c976-5c9b-4034-8d3a-3d7f2f83753e_2311x2249.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!m516!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4047c976-5c9b-4034-8d3a-3d7f2f83753e_2311x2249.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!m516!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4047c976-5c9b-4034-8d3a-3d7f2f83753e_2311x2249.jpeg 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!m516!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4047c976-5c9b-4034-8d3a-3d7f2f83753e_2311x2249.jpeg 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!m516!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4047c976-5c9b-4034-8d3a-3d7f2f83753e_2311x2249.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!m516!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4047c976-5c9b-4034-8d3a-3d7f2f83753e_2311x2249.jpeg" width="2311" height="2249" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/4047c976-5c9b-4034-8d3a-3d7f2f83753e_2311x2249.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:2249,&quot;width&quot;:2311,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:1267388,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://ronai.substack.com/i/196651324?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F27e4a732-7235-4315-8f6b-3fc472ced223_2448x2448.jpeg&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!m516!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4047c976-5c9b-4034-8d3a-3d7f2f83753e_2311x2249.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!m516!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4047c976-5c9b-4034-8d3a-3d7f2f83753e_2311x2249.jpeg 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!m516!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4047c976-5c9b-4034-8d3a-3d7f2f83753e_2311x2249.jpeg 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!m516!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4047c976-5c9b-4034-8d3a-3d7f2f83753e_2311x2249.jpeg 1456w" sizes="100vw" fetchpriority="high"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">Winnicott em a&#231;&#227;o</figcaption></figure></div><p>1.</p><p>H&#225; um senso comum na academia que diz que a vida n&#227;o examinada n&#227;o &#233; digna de ser vivida. A frase de Plat&#227;o, no livro <em>Apologia de S&#243;crates</em>, &#233; essa:</p><p><em>&#8220;... o maior bem &#233; justamente esse, falar todos os dias sobre a virtude e os outros argumentos sobre os quais me ouvistes raciocinar, examinando a mim mesmo e aos outros, e, que uma vida sem esse exame n&#227;o &#233; digna de ser vivida&#8221;.</em></p><p>S&#243;crates diz isso durante seu julgamento, na imin&#234;ncia de sua morte. Ele fala de sua vida, daquilo que costumava fazer em Atenas. Dessa frase extraiu-se uma recomenda&#231;&#227;o para todas as vidas. A frase, autobiogr&#225;fica e circunstancial, foi transformada em um ideal de vida. Mais do que isso, o que era uma resist&#234;ncia diante dos ju&#237;zes passou a ser um instrumento de legitima&#231;&#227;o acad&#234;mica, que divide a humanidade em duas: aqueles de vida digna, que se examinam para manter a virtude, e os demais, que vivem vidas indignas. </p><p>&#201; um caso curioso do uso de um enunciado filos&#243;fico como crit&#233;rio de distin&#231;&#227;o social.</p><p>N&#227;o consigo encontrar na <em>Apologia de S&#243;crates</em> alguma sugest&#227;o que diga que a vida n&#227;o-examinada dos outros n&#227;o &#233; digna. Ele diz que a vida n&#227;o examinada, na forma como ele a imagina, n&#227;o valeria a pena ser vivida <em>por ele</em>.</p><p>Aquilo que era uma confiss&#227;o pessoal virou uma condena&#231;&#227;o dos outros.</p><p><strong>2.</strong></p><p>H&#225; fil&#243;sofas, como Iris Murdoch (em <em>A Soberania do Bem</em>, Editora Unesp, 2013) que contestam essa ladainha sobre a indignidade da vida n&#227;o examinada. Ela escreve:</p><blockquote><p>&#8220;... os exemplos fatuais, como os chamarei com ousadia, que me interessam e que parecem ter sido esquecidos ou &#8216;afastados&#8217; s&#227;o o fato de uma vida n&#227;o examinada poder ser virtuosa e o fato de que o amor &#233; um conceito central na filosofia moral. (p. 10).</p></blockquote><p>N&#227;o &#233; por acaso que ela liga &#8220;amor&#8221;, &#8220;virtude&#8221; e &#8220;vida n&#227;o examinada&#8221;.</p><p>O <em>amor</em>, na perspectiva da Iris, &#233; uma &#8220;aten&#231;&#227;o justa &#224; realidade do outro&#8221;, coisa dif&#237;cil de prestar, dado o nosso ego gordo.</p><p>Ter uma <em>vida digna, virtuosa</em>, n&#227;o depende de grandes habilidades discursivas; ser uma boa pessoa depende muito mais de prestar aten&#231;&#227;o, de forma justa, &#224; realidade das outras pessoas. Assim, para que uma pessoa seja boa, virtuosa, digna, ela n&#227;o precisa se examinar a cada dia e falar a toda hora sobre a virtude. A virtude n&#227;o depende de uma articula&#231;&#227;o reflexiva di&#225;ria. Uma vida que n&#227;o se examina pode ser uma vida virtuosa exatamente porque <em>a virtude n&#227;o &#233; um discurso</em>. A virtude n&#227;o &#233; um discurso sobre si mesmo, a virtude n&#227;o &#233; um discurso sobre os outros. A virtude amorosa &#233; uma quest&#227;o de prestar aten&#231;&#227;o na realidade.</p><p>Depois que a gente l&#234; essas coisas na Iris Murdoch, n&#227;o precisaria mais nada. Mas ela n&#227;o est&#225; sozinha nisso. H&#225; uma tradi&#231;&#227;o na filosofia que diz que a sabedoria para as coisas da vida pr&#225;tica depende mais da percep&#231;&#227;o correta das situa&#231;&#245;es, e isso se adquire exatamente pela pr&#225;tica. Essa sabedoria &#233; mais uma coisa da <em>vis&#227;o</em> do que da articula&#231;&#227;o lingu&#237;stica; se todo comportamento virtuoso dependesse de alguma justificativa baseada em princ&#237;pios expl&#237;citos, a virtude n&#227;o existiria. Essa tradi&#231;&#227;o, que come&#231;a na filosofia antiga, vem at&#233; os dias de hoje, como se v&#234;, por exemplo, em Wittgenstein e Cavell. Mas n&#227;o quero seguir nessa linha agora.</p><p>Talvez seja o caso de acrescentar aqui um paralelo, antes de ir adiante; assim como n&#227;o h&#225; uma linha de fronteira simples entre esses dois tipos de vida &#8211; examinada, n&#227;o examinada -, n&#227;o h&#225; uma linha de fronteira simples entre as compet&#234;ncias cognitivas comuns das pessoas e as habilidades cr&#237;ticas dos fil&#243;sofos, que conseguiriam, com seus poderes cr&#237;ticos, superar as ingenuidades do povo.</p><p><strong>3.</strong></p><p>Uma pessoa que n&#227;o costuma ler filosofia acad&#234;mica, mas vive numa cultura escrita, est&#225; imersa em um ambiente onde abundam pequenas reflex&#245;es, acumuladas em coisas como bulas de rem&#233;dio (h&#225; um ditado que diz que n&#227;o se deve ler bula de rem&#233;dio, quem l&#234; n&#227;o toma!), contratos de compra e venda, letras de m&#250;sica etc.  O contato di&#225;rio com essas coisas faz com que a gente acione habilidades reflexivas, mesmo que n&#227;o tenhamos conhecimento profissional de l&#243;gica, ret&#243;rica, argumenta&#231;&#227;o.  Em muitos momentos de nossas viv&#234;ncias cotidianas estamos expostos a alguma <em>reflex&#227;o preservada, acumulada</em> &#8211; sobre o que se deve comer, sobre o que se deve fazer com o lixo, com os autom&#243;veis, com o exerc&#237;cio, com os rem&#233;dios. N&#227;o precisamos de habilidades profissionais para fazer os pequenos exames de nossa vida. </p><p>Precisamos de um outro conceito para &#8220;vida n&#227;o examinada&#8221; dentro das culturas escritas. Seria aquela na qual contratamos um profissional para nos ajudar nisso? Na qual os recursos da cultura s&#227;o usados por n&#243;s, de certa forma, <em>contra n&#243;s mesmos</em>? Quais s&#227;o mesmo os recursos da cultura? <em>Sabemos, com alguma sabedoria, o que &#233; isso, a cultura?</em> Vou tentar uma linha sobre isso, mais abaixo.</p><p>A filosofia acad&#234;mica n&#227;o me parece ser apenas <em>mais</em> reflex&#227;o. A filosofia acad&#234;mica, aquela que entra no or&#231;amento p&#250;blico, precisa ser feita com a ajuda de instrumentos expl&#237;citos, que permitam que qualquer pessoa letrada possa compreender o que est&#225; sendo feito. O fil&#243;sofo acad&#234;mico tem boas no&#231;&#245;es sobre como funciona a linguagem, a argumenta&#231;&#227;o, as infer&#234;ncias, os conceitos, as suposi&#231;&#245;es. Ou seja, ele &#233; capaz de fazer revis&#245;es profissionamente controladas daquilo que dizemos.</p><p><strong>4.</strong></p><p>David Winnicott deixou uma obra importante sobre o desenvolvimento infantil. Ele fez observa&#231;&#245;es originais sobre o processo de amadurecimento e de crescimento humano saud&#225;vel. Uma das coisas que mais chama a aten&#231;&#227;o &#233; o que ele diz sobre as nossas experi&#234;ncias culturais, jogos, brincadeiras, m&#250;sica, artes pl&#225;sticas etc.</p><p>&#201; nesse ponto que eu retomo a pergunta que fiz acima: o que &#233; <em>mesmo</em> isso, <em>a cultura? </em>Eu acho fascinante a contribui&#231;&#227;o dele para o debate sobre esse tema. A coisa come&#231;a com o problema de como os beb&#234;s elaboram o sentido de &#8220;eu&#8221; e de &#8220;realidade&#8221;. Winnicott recusa as explica&#231;&#245;es que falam apenas de &#8220;vida interior&#8221; e &#8220;realidade externa&#8221;, em &#8220;subjetivo&#8221; e &#8220;objetivo&#8221;. Essa dupla de conceitos n&#227;o d&#225; conta do processo, segundo ele. Ele procura mostrar que h&#225;, entre o <em>subjetivo</em> e o <em>objetivo,</em> um terceiro elemento, uma &#8220;&#225;rea de transi&#231;&#227;o&#8221;, que tem algo do subjetivo, tem algo do objetivo, mas n&#227;o &#233; nenhum dos dois. &#201; uma &#225;rea de negocia&#231;&#227;o, digamos.</p><p>Essa &#8220;&#225;rea intermedi&#225;ria de experimenta&#231;&#227;o&#8221; surge em nossa vida de crian&#231;a e nos acompanha no processo de desenvolvimento (e isso inclui aqueles que est&#227;o com o p&#233; na cova). Essa &#225;rea &#233; uma esp&#233;cie de combina&#231;&#227;o do &#8220;interior&#8221; e do &#8220;exterior&#8221;. O exemplo mais conhecido desses fen&#244;menos transicionais &#233; o paninho do beb&#234; (uma fraldinha, um cobertorzinho, uma boneca, o ursinho de pel&#250;cia). S&#227;o objetos materiais que incorporam, pelo uso, os cheiros e os sebinhos do beb&#234;. N&#227;o &#233; preciso que seja um objeto desse tipo, ele diz: palavras, maneirismos, tiques; e eu acrescento coisas como  jaquetas de motociclismo, you name it.  O importante n&#227;o &#233; o objeto em si, mas a fun&#231;&#227;o que ele cumpre em nossa vida.</p><p>A ideia dele &#233; simplesmente genial: todos n&#243;s precisamos de uma &#225;rea de descanso na vida, ningu&#233;m vive saudavelmente sem ter a chance de refugiar-se em uma &#225;rea de experi&#234;ncias neutras. &#8220;Experi&#234;ncia neutra&#8221; quer dizer apenas experi&#234;ncia que n&#227;o &#233; contestada, que n&#227;o precisa passar por uma prova de realidade, como a redondeza da terra. A &#8220;&#225;rea de transi&#231;&#227;o&#8221; &#233; uma &#225;rea de repouso, na qual conseguimos ficar um pouco livres das demandas de nosso ego gordo e das press&#245;es da realidade. A realidade, fico tentado a dizer, &#233; ela mesma a nossa grande viv&#234;ncia de excessos. </p><p>O fascinante aqui &#233; a gente se dar conta que Winnicott n&#227;o estava falando somente dos beb&#234;s, das crian&#231;as, dos adolescentes. Todos n&#243;s somos usu&#225;rios dessa &#225;rea de transi&#231;&#227;o, n&#227;o importa a idade. Elaboramos essa &#225;rea de transi&#231;&#227;o desde crian&#231;a, n&#227;o paramos com ela at&#233; morrer. E isso &#233; assim porque nunca terminamos de aceitar a realidade, a negocia&#231;&#227;o com ela s&#243; termina quando a gente termina. A realidade &#233; sempre <em>demais</em> <em>da conta. </em></p><p>N&#227;o resisto &#224; tenta&#231;&#227;o de mostrar um trechinho da obra dele:</p><blockquote><p>Presume-se aqui que a tarefa de aceita&#231;&#227;o da realidade nunca &#233; completada, que nenhum ser humano est&#225; livre da tens&#227;o de relacionar a realidade interna e externa, e que o al&#237;vio dessa tens&#227;o &#233; proporcionado por uma &#225;rea intermedi&#225;ria de experi&#234;ncia que n&#227;o &#233; contestada (artes, religi&#227;o etc). Essa &#225;rea intermedi&#225;ria est&#225; em continuidade direta com a &#225;rea do brincar da crian&#231;a pequena que se &#8216;perde&#8217; no brincar.</p></blockquote><p>Nesse trecho de <em>O Brincar e a Realidade</em> (Imago, Rio, 1975), Winnicott escreve que as artes e a religi&#227;o s&#227;o &#8220;&#225;reas intermedi&#225;rias de experi&#234;ncia n&#227;o contestadas&#8221;. Ou seja, que, nesse sentido, elas podem ser vistas como os paninhos da gente grande. &#201; por isso que ele n&#227;o fala apenas fen&#244;menos ou objetos transicionais, mas tamb&#233;m em <em>&#225;reas transicionais</em>. S&#227;o aqueles espa&#231;os na <em>cultura</em> &#8211; o imenso espa&#231;o ocupado pelas artes e pelas religi&#245;es, por exemplo &#8211; que relacionam o tal do &#8220;subjetivo&#8221; e o &#8220;objetivo&#8221;. Veja isso aqui:</p><blockquote><p>Se um adulto nos reivindicar a aceita&#231;&#227;o da objetividade de seus fen&#244;menos subjetivos, discerniremos ou diagnosticaremos nele loucura. Se, contudo, o adulto consegue extrair prazer da &#225;rea pessoal intermedi&#225;ria sem fazer reivindica&#231;&#245;es, podemos ent&#227;o reconhecer nossas pr&#243;prias e correspondentes &#225;reas intermedi&#225;rias, sendo que nos apraz descobrir certo grau de sobreposi&#231;&#227;o, isto &#233;, de<em> experi&#234;ncia comum entre membros de um grupo na arte, na religi&#227;o, ou na filosofia</em>.</p></blockquote><p>O destaque em it&#225;lico &#233; meu. Fica claro ent&#227;o porque dizemos que certas escolhas que fazemos nessa &#225;rea transicional <em>n&#227;o se discutem</em>. A religi&#227;o e os times de futebol podem ser lembrados aqui. Em certo sentido, at&#233; uma certa dimens&#227;o da pol&#237;tica. Me apresso a frisar: uma certa dimens&#227;o dela, aquela que se fixa em certas palavras e maneirismos.</p><p>No trecho que citei acima ele fala em arte, religi&#227;o, <em>filosofia</em>.</p><p>A maioria das pessoas, acho eu, est&#225; disposta a aceitar que &#8220;religi&#227;o n&#227;o se discute&#8221;, que isso &#233; uma quest&#227;o de escolha, que n&#227;o faz muito sentido se dizer que uma religi&#227;o &#233; melhor do que a outra. </p><p>Pouca gente, no entanto, diria que a filosofia &#233; uma coisa que n&#227;o se discute. Parece um contrassenso, pois a filosofia &#233;, exatamente, o lugar da discuss&#227;o. </p><p>Ser&#225; essa toda a verdade? </p><p>Em que sentido a filosofia pode ser vista como uma &#8220;&#225;rea de experi&#234;ncia intermedi&#225;ria&#8221;, nem objetiva, nem subjetiva? Em que sentido a filosofia tem algo em comum com as brincadeiras, a religi&#227;o, a m&#250;sica, os esportes?</p><p>Como diria o Anonymous, <em>voltaremos</em>. </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[# Digiana 61 - A filosofia e o pantanal (II)]]></title><description><![CDATA[A vida como ela &#233;, a academia no meio disso]]></description><link>https://ronai.substack.com/p/digiana-61-a-filosofia-e-o-pantanal</link><guid isPermaLink="false">https://ronai.substack.com/p/digiana-61-a-filosofia-e-o-pantanal</guid><dc:creator><![CDATA[Ronai Pires da Rocha]]></dc:creator><pubDate>Sun, 03 May 2026 19:45:57 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!4nqV!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8ed4b221-f45a-4413-b925-74cd7581344f_4720x3147.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!4nqV!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8ed4b221-f45a-4413-b925-74cd7581344f_4720x3147.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!4nqV!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8ed4b221-f45a-4413-b925-74cd7581344f_4720x3147.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!4nqV!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8ed4b221-f45a-4413-b925-74cd7581344f_4720x3147.jpeg 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!4nqV!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8ed4b221-f45a-4413-b925-74cd7581344f_4720x3147.jpeg 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!4nqV!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8ed4b221-f45a-4413-b925-74cd7581344f_4720x3147.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!4nqV!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8ed4b221-f45a-4413-b925-74cd7581344f_4720x3147.jpeg" width="4720" height="3147" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/8ed4b221-f45a-4413-b925-74cd7581344f_4720x3147.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:3147,&quot;width&quot;:4720,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:3571526,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://ronai.substack.com/i/196343233?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff88d3b5a-a408-4105-9233-75defbc8a4cb_4720x3147.jpeg&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!4nqV!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8ed4b221-f45a-4413-b925-74cd7581344f_4720x3147.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!4nqV!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8ed4b221-f45a-4413-b925-74cd7581344f_4720x3147.jpeg 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!4nqV!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8ed4b221-f45a-4413-b925-74cd7581344f_4720x3147.jpeg 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!4nqV!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8ed4b221-f45a-4413-b925-74cd7581344f_4720x3147.jpeg 1456w" sizes="100vw" fetchpriority="high"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">Muito anal&#243;gico, pouco digital. As vezes &#233; de invejar.</figcaption></figure></div><p></p><p>&#201; dif&#237;cil chegar a um acordo, na academia e fora dela, sobre<em> o que &#233; isso, a filosofia</em>. Nesse ponto, vale mais pensar que cada um sabe onde aperta seu sapato existencial.  A academia tem um por&#233;m aqui; ela depende de verbas p&#250;blicas, e &#233; bom que ofere&#231;a alguma descri&#231;&#227;o financi&#225;vel de nosso trabalho. Eu sugeri, na postagem anterior (<em>Digiana 60</em>) uma met&#225;fora: que a filosofia fosse vista como um objeto ou espa&#231;o; passados alguns dias, quero insistir mais na imagem de <em>espa&#231;o</em>, de <em>lugar</em>. Ent&#227;o digo assim: experimente pensar com essa imagem, da filosofia como um espa&#231;o, no qual h&#225; <em>largura</em> (h&#225; recantos nela, nos quais tratamos uma variedade de temas); esse espa&#231;o tem <em>altura</em>, nele cabe uma longa hist&#243;ria; e h&#225; tamb&#233;m <em>profundidade</em>, podemos caminhar ali. Feito isso, fiz perguntas: <em>&#233; poss&#237;vel n&#227;o entrar para dentro desse espa&#231;o</em>? Que tipo de espa&#231;o &#233; esse, o que acontece com a gente quanto entramos nele? <em>Onde &#233; mesmo que estamos, quando estamos dentro dele</em>? E como podemos nos movimentar, no meio de tantos temas e de prateleiras e prateleiras de hist&#243;rias? Eu tentei encaminhar algumas respostas para as duas primeiras perguntas, mas n&#227;o fiquei satisfeito.</p><p>Eu disse, por exemplo, que a gente, toda gente, precisa filosofar porque somos essa criatura que, por vezes, fica sem saber o que fazer e para que lado ir; isso n&#227;o acontece todos os dias, &#233; claro, mas h&#225; momentos em que a gente se sente meio perdida; o exemplo que eu dei foi o dos <em>momentos de excesso</em>, aquelas ocasi&#245;es da vida que nos colocam dentro de viv&#234;ncias (e com viventes) que ultrapassam as nossas capacidades de lidar com elas; os exemplos cl&#225;ssicos que a gente d&#225; para isso s&#227;o coisas como a morte e o mal, por exemplo. N&#227;o por acaso algu&#233;m se p&#245;e a pensar diante de coisas terr&#237;veis, como um grande desastre natural ou a morte de crian&#231;as; a gente se sente desprovido de meios de compreens&#227;o. A mesma coisa vale diante de coisas muito belas, que nos tiram o f&#244;lego. S&#227;o, como eu disse, situa&#231;&#245;es nas quais sentimos os limites do que podemos dizer; sentimos algo, esse algo sobe at&#233; a nossa garganta, mas n&#227;o h&#225; palavras para isso; e n&#227;o &#233; que falte leitura, n&#227;o &#233; que falte cultura; a coisa est&#225; al&#233;m ou aqu&#233;m das palavras, seja na morte, na vida, no amor ou no rancor. Assim, esse espa&#231;o da filosofia &#233; aquele lugar no qual nos ocupamos, quando e como podemos, com essas experi&#234;ncias de limites e excessos, com esses temas que v&#227;o al&#233;m das ocupa&#231;&#245;es da vida cotidiana.</p><p>Ainda sobre isso, eu disse que as formas de ocupa&#231;&#227;o desse espa&#231;o s&#227;o muito variadas, que podemos fazer isso de uma forma mais e menos consciente, deliberada. Por enquanto, deixo isso assim.</p><p>J&#225; que estou usando essa met&#225;fora da filosofia como uma esp&#233;cie de lugar, vou seguir com ela. Imagine que esse espa&#231;o tem um portal, com uma soleira, aquela pe&#231;a de acabamento que h&#225; na base das portas; ela faz a transi&#231;&#227;o de pisos, demarca os ambientes. Essa soleira &#233; larga, ampla, podemos ficar conversando e fazendo coisas nela, de t&#227;o grande que &#233;. Ela consiste na linguagem. A linguagem &#233; uma esp&#233;cie de portal. Eu descrevi esse portal no meu <em>Filosofia da Educa&#231;&#227;o</em> (Editora Contexto, SP, 2022) dizendo que a linguagem simb&#243;lica &#233; o portal da humanidade.</p><p>O que eu quero dizer aqui &#233; a linguagem que falamos todos os dias sempre tem, <em>embutida</em> dentro dela, uma esp&#233;cie de mecanismo de monitoramento, de reflex&#227;o. Esse dispositivo de acompanhamento &#233; algo inerente ao funcionamento de qualquer l&#237;ngua. A reflex&#227;o acompanha a linguagem. N&#227;o &#233; verdade que quando a gente diz uma bobagem e se arrepende, logo trata de dizer que &#8220;falei sem pensar&#8221;?</p><p>Esse ponto precisa ser mais desenvolvido. Por enquanto eu quero apenas seguir em frente no tema do &#8220;entrar no espa&#231;o da filosofia&#8221;. Pois h&#225; quem diga que uma vida sem filosofia &#233; de menor valor: &#8220;uma vida n&#227;o examinada n&#227;o vale a pena ser vivida&#8221;, repete-se, por vezes. Assim, h&#225; quem imagine que h&#225; uma linha de fronteira bem tra&#231;ada, que separa as pessoas que examinam as suas vidas, os fil&#243;sofos, os &#8220;cr&#237;ticos&#8221; e os &#8220;ing&#234;nuos&#8221;, que vivem numa esp&#233;cie de aliena&#231;&#227;o.</p><p>Uma outra forma de lidar com essa linha de fronteira consiste separar a filosofia que seria t&#237;pica dos povos de culturas orais, e a filosofia nas culturas escritas. A filosofia dos povos da oralidade, ind&#237;genas, culturas ancestrais etc, n&#227;o passaria de um repert&#243;rio de mitos; h&#225; pouca coisa mais banal nas aulas de filosofia do que a intriga entre a mitologia e o surgimento da racionalidade, da filosofia e da ci&#234;ncia. A filosofia, nas culturas escritas, estaria emancipada das mitologias.</p><p>Dizer que h&#225; filosofia nas culturas sem escrita nos obriga a oferecer um conceito bem amplo de filosofia, e isso cria uma dificuldade: qual seria a diferen&#231;a, o que mudaria com o surgimento da cultura escrita? Seria apenas uma mudan&#231;a quantitativa, de grau, ou haveria alguma altera&#231;&#227;o estrutural na cultura? A resposta mais conhecida vai pela trilha das altera&#231;&#245;es estruturais. Ela consiste em dizer que a inven&#231;&#227;o da escrita <em>domesticou</em> o pensamento. Quando a cultura &#233; preservada pela escrita, podemos montar (e desmontar) nela a qualquer hora, ir para a frente, para tr&#225;s, ler de novo, comparar, analisar. A escrita revoluciona a nossa capacidade de refletir sobre a cultura.</p><p>No meu ponto de vista, quando pisamos no portal da linguagem, quando adquirimos uma linguagem qualquer, seja o portugu&#234;s, seja o guarani, adquirimos algumas habilidades m&#237;nimas de reflex&#227;o. Ou seja, eu quero dizer que nas culturas orais h&#225;, sim, reflex&#227;o. O <em>homo sapiens</em> nunca viveu no Jardim do &#201;den. Essa reflexividade tem um alcance menor, pois ela depende da mem&#243;ria das pessoas.</p><p>O certo aqui seria fazer uma distin&#231;&#227;o entre dois tipos de reflexividade; <em>na escrita,</em> trabalhamos com planilhas, arquivos, revis&#245;es, an&#225;lises que se fixam na pedra, no papel, no sil&#237;cio; <em>na oralidade</em>, trabalhamos com a mem&#243;ria e as capacidades individuais, ef&#234;meras. Nas culturas orais a reflexividade que surge nos mitos, nos rituais, nos prov&#233;rbios populares, pouco se cristaliza fora dos comportamentos individuais. A domestica&#231;&#227;o do pensamento, na cultura escrita, inclui essa coisa estranha que &#233; refletir sobre a reflex&#227;o, pensar sobre o pensamento, compreender a compreens&#227;o, com a ajuda de microsc&#243;pios e telesc&#243;pios metaf&#243;ricos, embutidos nos livros.</p><p>Sobre esse tema eu recomendo a leitura do Jack Goody, <em>A domestica&#231;&#227;o da mente selvagem</em> (Vozes, 2012), <em>A l&#243;gica da escrita e a organiza&#231;&#227;o da sociedade</em> (Edi&#231;&#245;es 70, 2022) e <em>As consequ&#234;ncias do letramento</em> (Paulistana, 2006). No meu <em>Caminhos e equ&#237;vocos da escola brasileira</em> (Editora Contexto, SP, 2025) fiz um breve levantamento que inclui Goody na hist&#243;ria do conceito de &#8216;tecnologias do intelecto&#8217;.</p><p><strong>Onde estamos, quando estamos na filosofia</strong></p><p>Vamos voltar &#224; met&#225;fora da filosofia como um lugar, um espa&#231;o. Que tipo de lugar &#233; esse o que &#233; que fazemos l&#225;? At&#233; aqui o resumo &#233; esse: desde que pisamos no portal da linguagem, j&#225; estamos em um lugar de reflex&#227;o (veja o <em>Digiana 60</em>); esse seria o grau zero da filosofia, que &#233; inerente ao modo de funcionamento da nossa linguagem. Agora vamos dar um passo adiante, vamos sair da soleira, entrar nesse lugar chamado &#8220;filosofia&#8221;.</p><p>H&#225; quem diga que ele &#233; o lugar dos grandes nomes, dos gregos e dos romanos etc. Mas isso &#233; apenas hist&#243;ria. Tem mais do que isso. Segundo a maioria dos manuais de filosofia, quando caminhamos nesse espa&#231;o fazemos uma esp&#233;cie de <em>jornada de distanciamento.</em></p><p>O que &#233; uma <em>jornada de distanciamento</em>? De onde sa&#237;mos, para onde vamos nessa jornada?</p><p>A forma como os manuais de filosofia descreve essa jornada &#233; bem simples e clara, os exemplos s&#227;o mais claros ainda. A crian&#231;a ouve o pai dizer que a ama, mas logo depois o sujeito, por uma coisinha de nada, d&#225; um berro e xinga a pobre criatura. Veja a equa&#231;&#227;o:</p><p>&#8220;Eu te amo&#8221; = amor inclui berrar e xingar.</p><p>A mesma coisa vale para outras coisas, como a justi&#231;a, o valor, a liberdade. A filosofia seria o lugar onde a gente faz <em>perguntas </em>do tipo &#8220;o que &#233; a justi&#231;a&#8221;, que nos obrigam a nos distanciar &#8220;da vida cotidiana e de si mesmo.&#8221; Veja, por exemplo, o cap&#237;tulo inicial do <em>Convite &#224; Filosofia</em> (&#193;tica, 2000), de Marilena Chau&#237;. Essa &#8220;tomada de dist&#226;ncia&#8221; seria o gatilho da atitude filos&#243;fica, de exame de nossas cren&#231;as comuns, silenciosas, cotidianas. A filosofia seria uma &#8220;atitude cr&#237;tica&#8221;, ou seja, de nega&#231;&#227;o do &#8220;senso comum&#8221;, do &#8220;estabelecido&#8221;. A filosofia seria uma esp&#233;cie de segundo nascimento, &#8220;como se estiv&#233;ssemos acabando de nascer para o mundo e para n&#243;s mesmos&#8221;, acrescenta o manual.</p><p>Eu acho que essa descri&#231;&#227;o n&#227;o est&#225; mal. Como todo rem&#233;dio, no entanto, precisa ser usada com cautela. A descri&#231;&#227;o &#233; boa exatamente porque capta essa ideia do movimento do &#8220;pensar sobre o pensamento&#8221; como algo que nos acontece na vida cotidiana, a depender dela mesma. A reflex&#227;o filos&#243;fica, dizem os manuais, &#233; o pensamento voltando-se para si mesmo, abandonando as cren&#231;as cotidianas, quando isso &#233; o caso. Mas temos que nos perguntar umas duas ou tr&#234;s coisas aqui. </p><p>Uma delas &#233; essa: <em>onde estamos quando estamos distantes de n&#243;s mesmos? </em></p><p>A outra &#233; sobre o que h&#225; de errado em n&#227;o se fazer isso. Uma vida sem filosofia &#233; menos valiosa?</p><p>Eu disse acima que h&#225; um &#8220;senso comum filos&#243;fico&#8221;, que diz que uma vida n&#227;o examinada n&#227;o &#233; digna de ser vivida. O lugar de origem disso &#233; Plat&#227;o, na <em>Apologia de S&#243;crates</em>, no encerramento da defesa de S&#243;crates. Ele afirma, no contexto de uma reflex&#227;o sobre as penas que pode sofrer, como a do ex&#237;lio, que</p><blockquote><p>&#8220;(...) o maior bem para um homem &#233; justamente este, falar todos os dias sobre a virtude e os outros argumentos sobre os quais me ouvistes raciocinar, examinando a mim mesmo e aos outros, <em>e, que uma vida sem esse exame n&#227;o &#233; digna de ser vivida</em>, (...)&#8221;.</p></blockquote><p>Ser&#225;? Tem dias que eu n&#227;o sei o que me passa, nem sempre quero ficar falando sobre a virtude, logo eu. Vou ficar por aqui hoje. O domingo est&#225; bonito, tem um finzinho de tarde bom para uma caminhada. Voltarei ao tema logo.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[# Digiana 60 - A filosofia e o pantanal (I)]]></title><description><![CDATA[Dimens&#245;es da filosofia; onde estamos, quando na filosofia?]]></description><link>https://ronai.substack.com/p/digiana-60-a-filosofia-e-o-pantanal</link><guid isPermaLink="false">https://ronai.substack.com/p/digiana-60-a-filosofia-e-o-pantanal</guid><dc:creator><![CDATA[Ronai Pires da Rocha]]></dc:creator><pubDate>Tue, 28 Apr 2026 20:53:47 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!lsqk!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F286fa1c3-1b97-431d-89e1-868e87144846_2400x1600.heic" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!lsqk!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F286fa1c3-1b97-431d-89e1-868e87144846_2400x1600.heic" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!lsqk!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F286fa1c3-1b97-431d-89e1-868e87144846_2400x1600.heic 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!lsqk!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F286fa1c3-1b97-431d-89e1-868e87144846_2400x1600.heic 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!lsqk!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F286fa1c3-1b97-431d-89e1-868e87144846_2400x1600.heic 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!lsqk!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F286fa1c3-1b97-431d-89e1-868e87144846_2400x1600.heic 1456w" sizes="100vw"><img src="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!lsqk!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F286fa1c3-1b97-431d-89e1-868e87144846_2400x1600.heic" width="1456" height="971" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/286fa1c3-1b97-431d-89e1-868e87144846_2400x1600.heic&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:971,&quot;width&quot;:1456,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:271330,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/heic&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://ronai.substack.com/i/195782494?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F286fa1c3-1b97-431d-89e1-868e87144846_2400x1600.heic&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!lsqk!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F286fa1c3-1b97-431d-89e1-868e87144846_2400x1600.heic 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!lsqk!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F286fa1c3-1b97-431d-89e1-868e87144846_2400x1600.heic 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!lsqk!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F286fa1c3-1b97-431d-89e1-868e87144846_2400x1600.heic 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!lsqk!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F286fa1c3-1b97-431d-89e1-868e87144846_2400x1600.heic 1456w" sizes="100vw" fetchpriority="high"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p>Passei alguns dias trabalhando em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, a convite da UFMS. Entre as atividades estava uma palestra, na qual falei sobre a presen&#231;a da filosofia na vida nossa de cada dia. Comecei contando uma hist&#243;ria sobre observa&#231;&#227;o de aves, de quando eu acompanhei professores e estudantes de biologia em uma viagem de observa&#231;&#227;o de aves, em busca de um beija-flor meio raro. Depois de uma tarde caminhando no campo, depois de feita a foto do beija-flor, agradecemos a acolhida e nos despedimos do propriet&#225;rio do campo. Ele aproveitou o momento para perguntar para a gente, com uma pontinha de curiosidade e ironia: &#8220;Para que <em>mesmo</em> serve isso que voc&#234;s est&#227;o fazendo?&#8221;</p><p>Esse &#233; o tipo de pergunta que um estudante de biologia n&#227;o costuma ouvir, mas n&#243;s, da filosofia, estamos habituados a ela. Os artistas tamb&#233;m.</p><p>Um dos estudantes disse para ele que a presen&#231;a de certas aves, em certos ambientes, &#233; uma esp&#233;cie de atestado de sa&#250;de daquele lugar.</p><p>Os artistas nem sempre se incomodam com esse tipo de pergunta, eles seguem fazendo o trabalho que fazem.</p><p>J&#225; n&#243;s, povo da filosofia, temos alguma dificuldade diante desse tipo de pergunta, &#8220;<em>o que &#233; mesmo isso que voc&#234;s fazem</em>&#8221;. Tenho amigos e amigas, fora do meu ambiente profissional, que gostam das coisas da Nova Acr&#243;pole, assistem seus v&#237;deos e cursos; uma delas &#233; f&#227; do Cortella; ela me conta com entusiasmo, quando eu digo que sou professor de filosofia; outro gosta de Augusto Cury, &#8220;&#233; fil&#243;sofo, n&#227;o?&#8221;. O normal &#233; a gente, povo da filosofia, dizer que h&#225; um certo abismo entre n&#243;s e eles, n&#227;o? A academia torce o nariz para esse lado, esse lado torce o nariz para a academia e vamos indo. </p><p>Para onde?</p><p>A academia filos&#243;fica depende de dinheiro p&#250;blico. Temos no Brasil aproximadamente 1.000 professores de filosofia inclu&#237;dos no or&#231;amento da Uni&#227;o e de estados. A despesa p&#250;blica anual com eles, nas universidades federais e estaduais, pode ser estimada em cerca de 250 milh&#245;es de reais ao ano. Esse valor deixa de fora as despesas de infraestrutura: salas, secretarias, bibliotecas, t&#233;cnicos. Se somamos a isso as bolsas de gradua&#231;&#227;o, p&#243;s-gradua&#231;&#227;o, bolsas de pesquisa etc, o valor aumenta um tanto mais. Fiz essas contas bem por baixo, pelo m&#237;nimo.</p><p>N&#227;o &#233; muita coisa, mas &#233; um bom dinheiro, que sustentaria, quem sabe, dois hospitais universit&#225;rios de m&#233;dio porte. &#201; um ecossistema de excelente tamanho, n&#227;o h&#225; nada parecido com isso ao sul do Texas. Arrisco dizer que, se for somado tudo o que a Am&#233;rica Central e a Am&#233;rica do Sul gastam com filosofia, ainda sobra muito troco. Depois dos EUA, o Brasil tem um dos maiores sistemas p&#250;blicos de apoio para essa &#225;rea.</p><p>Esse ecossistema come&#231;ou a ser erguido faz pouco mais de 50 anos, na metade dos anos 1970, quando foram criados os primeiros mestrados; foi nessa &#233;poca que o regime de trabalho de quarenta horas e dedica&#231;&#227;o exclusiva come&#231;ou a ser implantado nas universidades federais.</p><p>A filosofia, aqui entre n&#243;s, tem essa dimens&#227;o de atividade p&#250;blica e financiada; e assim, a forma como ela &#233; praticada e defendida nos departamentos de filosofia &#233; decisiva para a sa&#250;de institucional desse ecossistema. Esse ecossistema n&#227;o compete com a Nova Acr&#243;pole, com os Portellas e Curys da vida; mas, na medida em que todos invocam o nome da filosofia, &#233; preciso que aquilo que &#233; comum e que &#233; diferente, a uns e outros, seja explicitado. O problema fica ainda mais interessante na medida em que outros nomes, formados na academia, tornam-se estrelas em jornais nacionais e na internet.</p><p>O principal risco &#233; o de se pensar a filosofia como uma &#225;rea da cultura (ou uma disciplina) na qual a escolha pessoal e subjetiva de autores e temas &#233; a regra. Se e quando a filosofia &#233; vista e defendida como sendo uma quest&#227;o de decis&#245;es subjetivas, ela corre riscos desnecess&#225;rios.</p><p>&#201; por essa raz&#227;o que eu procuro mostrar o &#8220;grau zero da filosofia&#8221;, uma esp&#233;cie de m&#237;nimo dos m&#237;nimos de reflex&#227;o que h&#225; em todas as culturas, quer sejam orais ou dotadas de escrita.</p><h2></h2><p>Vou distinguir, para come&#231;ar essa conversa, ao menos tr&#234;s aspectos da filosofia: ela tem <em>largura, altura e profundidade</em>. Ela &#233; um objeto ou espa&#231;o tridimensional.</p><p>A filosofia tem amplitude, <em>largura</em>, pois ela abarca uma enorme variedade de temas.</p><p>A filosofia tem hist&#243;ria, a dimens&#227;o da <em>altura</em>. Problemas filos&#243;ficos foram formulados, debatidos e transformados ao longo de s&#233;culos, e isso faz de n&#243;s herdeiros e transformadores das tradi&#231;&#245;es do pensamento.</p><p>A filosofia tem <em>profundidade</em>. Ela &#233; uma esp&#233;cie de lugar onde entramos. N&#227;o nos basta saber quais s&#227;o os temas da filosofia; n&#227;o nos basta conhecer a hist&#243;ria da filosofia; temos que entrar nela, com as perguntas e as preocupa&#231;&#245;es que temos. Se vamos fazer isso lendo livros da academia ou assistindo v&#237;deos da Nova Acr&#243;pole, n&#227;o faz muita diferen&#231;a.</p><p>A filosofia &#233;, portanto, uma esp&#233;cie <em>sui-generis</em> de objeto cultural; talvez seja melhor falar em <em>espa&#231;o cultural</em>. Quando entramos nele, trazemos nossas perguntas e nossas experi&#234;ncias e, portanto, sempre h&#225; algo de <em>pessoal</em> na filosofia.</p><p>Isso n&#227;o quer dizer que a filosofia &#233; uma atividade subjetiva. N&#227;o devemos confundir o momento de retomada pessoal (em primeira pessoa), com &#8220;subjetividade&#8221;. Isso porque a filosofia tem <em>temas</em> (assuntos, problemas, quest&#245;es), que ultrapassam cada um de n&#243;s; esse arco tem&#225;tico n&#227;o est&#225; definido desde sempre, ele muda; assuntos que eram considerados como pertencentes &#224; filosofia deixam de ser, outros novos s&#227;o agregados. A filosofia tem uma <em>hist&#243;ria</em> que, da mesma forma, nos ultrapassa; autores s&#227;o esquecidos, outros s&#227;o lembrados; h&#225; figuras centrais que passam para a periferia, h&#225; figuras menores que s&#227;o promovidas a lugares importantes. A filosofia tem uma <em>profundidade</em>; ao entrar nela somos envolvidos por algo que nos transcende, as &#8220;experi&#234;ncias de excesso&#8221;.  Surgem aqui tr&#234;s quest&#245;es:</p><p><em>1. Podemos n&#227;o entrar na filosofia?</em></p><p><em>2. Onde entramos, quando entramos na filosofia?</em></p><p><em>3. Como nos movimentamos dentro dela?</em></p><p>Come&#231;o por 1. N&#227;o temos escolha. <em>Sapiens</em> tem que entrar na filosofia, por conta de algo chamado &#8220;experi&#234;ncias de limites&#8221;. O sapiens passa pela experi&#234;ncia da <em>morte</em>, e por outras: o <em>tempo, o outro, o sagrado, o sublime</em>. Esses temas <em>excedem</em> as nossas capacidades de compreens&#227;o e linguagem; s&#227;o <em>experi&#234;ncias de limites,</em> que excedem as nossas capacidades de linguagem e de pensamento. Diante deles dizemos que as palavras nos faltam. Cora Diamond disse algo sobre isso, quando escreveu sobre os momentos e as situa&#231;&#245;es de vida nas quais n&#227;o somos capazes de dar conta de algo; o exemplo dela &#233; sobre como devemos tratar os animais, com&#234;-los ou dar direitos a eles? Com&#234;-los com direitos? Nossos departamentos de filosofia, diz ela, devem ser o ambiente adequado para que a gente aprenda a discutir esses temas dif&#237;ceis. Assim, sapiens <em>n&#227;o tem escolha</em>. Ele precisa filosofar; o encaminhamento desses temas n&#227;o est&#225; dispon&#237;vel em nosso c&#243;digo gen&#233;tico; viver de esperan&#231;as, trabalhar e morrer n&#227;o s&#227;o coisas compreens&#237;veis por si s&#243;. Sapiens precisa aceitar aquilo que outras pessoas j&#225; pensaram sobre o sentido da vida, do trabalho e da morte ou procura pensar, com maior ou menor ajuda, sobre essas coisas. A verdade est&#225; quase sempre em um meio termo. Ningu&#233;m pensa a partir do nada sobre quase nada. Todos herdamos uma l&#237;ngua comum, algum pensamento comum e &#233; com base nele que come&#231;amos. Eis uma das raz&#245;es pelas quais a filosofia &#233; uma parte indissoci&#225;vel da vida humana.</p><p>2. Onde entramos, quando entramos na filosofia? A resposta j&#225; foi encaminhada acima. Entramos em uma &#225;rea de problemas dif&#237;ceis, as experi&#234;ncias de excessos. Mas essa &#225;rea j&#225; sempre tem algo de reflexivo. J&#225; sempre h&#225; algo na linguagem que nos prepara para ela. Desde que nascemos, desde que come&#231;amos a falar, temos viv&#234;ncias de reflex&#245;es; beb&#234;s filosofam, aqui e em todo lugar e tempo. As conversas do beb&#234; com sua m&#227;e incluem cuidados fon&#233;ticos, sint&#225;ticos, sem&#226;nticos e pragm&#225;ticos, desde o ber&#231;o. Qualquer coisa que a gente diz para algu&#233;m est&#225; sempre sujeita a todo tipo de extravio. Se dizemos a uma crian&#231;a que a amamos, e, ao mesmo tempo, a sufocamos, ela aprende que amar &#233; um sufoco; se dizemos a uma crian&#231;a que somos justos, mas ao mesmo tempo mantemos privil&#233;gios indevidos, ela aprende que a justi&#231;a n&#227;o &#233; cega; se dizemos a uma crian&#231;a que viver ao telefone &#233; ruim, mas ao mesmo tempo vivemos ao telefone, ela aprende que somos um tanto incoerentes. As nossas afirma&#231;&#245;es comuns sobre essas coisas n&#227;o fazem o menor sentido se n&#227;o existirem os conceitos que elas implicam: amor, justi&#231;a etc. Ningu&#233;m vive sem conceitos. Sapiens, portanto, navega nos conceitos, desde que o mundo &#233; mundo. Assim, h&#225; algo que podemos chamar, em sentido amplo, de &#8220;filosofia&#8221;, que se encontra tamb&#233;m nos povos sem escrita; &#233; esse exerc&#237;cio b&#225;sico de explora&#231;&#227;o daquilo que dizemos; &#233; um exerc&#237;cio de navega&#231;&#227;o nos conceitos de que dispomos na experi&#234;ncia cotidiana; e isso se faz necess&#225;rio para Sapiens pensar sobre aquelas situa&#231;&#245;es nas quais, em algum sentido, se sente extraviado, nas viv&#234;ncias de excesso.</p><p>Resta agora o tema sobre como nos movimentamos dentro dela. (Continua)</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[# Digiana 59 - Filosofia, metáforas e aves]]></title><description><![CDATA[E o caso da gata cega]]></description><link>https://ronai.substack.com/p/digiana-59-filosofia-metaforas-e</link><guid isPermaLink="false">https://ronai.substack.com/p/digiana-59-filosofia-metaforas-e</guid><dc:creator><![CDATA[Ronai Pires da Rocha]]></dc:creator><pubDate>Tue, 14 Apr 2026 22:53:22 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!0Ksp!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0f2c2080-f6be-4da5-9a78-bcdc902a5d76_1620x1080.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!0Ksp!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0f2c2080-f6be-4da5-9a78-bcdc902a5d76_1620x1080.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!0Ksp!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0f2c2080-f6be-4da5-9a78-bcdc902a5d76_1620x1080.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!0Ksp!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0f2c2080-f6be-4da5-9a78-bcdc902a5d76_1620x1080.jpeg 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!0Ksp!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0f2c2080-f6be-4da5-9a78-bcdc902a5d76_1620x1080.jpeg 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!0Ksp!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0f2c2080-f6be-4da5-9a78-bcdc902a5d76_1620x1080.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!0Ksp!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0f2c2080-f6be-4da5-9a78-bcdc902a5d76_1620x1080.jpeg" width="1456" height="971" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/0f2c2080-f6be-4da5-9a78-bcdc902a5d76_1620x1080.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:971,&quot;width&quot;:1456,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:141334,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://ronai.substack.com/i/194241231?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0f2c2080-f6be-4da5-9a78-bcdc902a5d76_1620x1080.jpeg&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!0Ksp!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0f2c2080-f6be-4da5-9a78-bcdc902a5d76_1620x1080.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!0Ksp!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0f2c2080-f6be-4da5-9a78-bcdc902a5d76_1620x1080.jpeg 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!0Ksp!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0f2c2080-f6be-4da5-9a78-bcdc902a5d76_1620x1080.jpeg 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!0Ksp!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0f2c2080-f6be-4da5-9a78-bcdc902a5d76_1620x1080.jpeg 1456w" sizes="100vw" fetchpriority="high"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">Do meu Flickr.</figcaption></figure></div><p></p><p>A convite da Professora Helga Correa dei uma aula no Curso de Artes Visuais da UFSM, dias atr&#225;s. Uma das tarefas dos estudantes, ela me disse, &#233; fazer xilogravuras com o tema de aves; o convite veio na esteira das fotos que fa&#231;o desses bichinhos. Meu objetivo foi o de propor uma reflex&#227;o sobre filosofia, met&#225;foras e aves.</p><p>Comecei explorando uma pequena lista de met&#225;foras com aves, usadas por fil&#243;sofos famosos. Comecei com Hegel e a coruja, tema que est&#225; no pref&#225;cio da <em>Filosofia do Direito</em>, uma met&#225;fora melanc&#243;lica, talvez, sobre as capacidades da filosofia; depois veio a pomba de Kant, que est&#225; na introdu&#231;&#227;o da <em>Cr&#237;tica da Raz&#227;o Pura</em>. Kant fala de uma pomba que, ao voar, sente a resist&#234;ncia do ar e come&#231;a a imaginar que voaria muito melhor no v&#225;cuo. Ela esquece, por um momento, que a resist&#234;ncia que a incomoda &#233; a pr&#243;pria condi&#231;&#227;o de seu v&#244;o. Passei, a seguir, para Nietzsche e a hist&#243;ria do pobre p&#225;ssaro que, saindo da estreita gaiola onde estava preso, sentiu-se livre, claro; mas logo percebeu que estava dentro de uma nova gaiola, o infinito:</p><blockquote><p>&#8220;Deixamos a terra firma e embarcamos! Queimamos a ponte - ainda mais, cortamos todo la&#231;o com a terra que ficou para tr&#225;s! Agora, tenha cautela, pequeno barco! Junto a voc&#234; est&#225; o oceano... Oh, pobre p&#225;ssaro que se sentiu livre e agora se bate nas paredes dessa gaiola!&#8221;</p></blockquote><p>Essa &#233; a famosa &#8220;gaiola da infinitude&#8221;, a hist&#243;ria do p&#225;ssaro que descobre que o pr&#243;prio infinito pode ser uma gaiola, que n&#227;o existe uma liberdade absoluta e sem condi&#231;&#245;es. Senti, na hora em que expus a &#8220;gaiola da infinitude&#8221;, que estava conseguindo ganhar dos smartphones.</p><p>Em time ganhador n&#227;o se mexe, segui com Nietzsche, a &#225;guia e a serpente, do pr&#243;logo do <em>Assim Falou Zaratustra, </em>no qual ele usa a &#225;guia como met&#225;fora de um esp&#237;rito elevado, da vis&#227;o de conjunto, de um distanciamento; ela leva no pesco&#231;o uma serpente, que simboliza a alian&#231;a da sabedoria com a eleva&#231;&#227;o. Encerrei com Iris Murdoch e o avistamento do falc&#227;o, em <em>A Soberania do Bem</em>:</p><blockquote><p>&#8220;Eu estou olhando para fora, pela minha janela, em um estado mental ansiado e rancoroso, alheio ao meu entorno, meditando, talvez, sobre algum estrago feito ao meu prest&#237;gio. Ent&#227;o, subitamente, come&#231;o a observar um falc&#227;o que plana. Em um momento tudo muda. O eu pensativo, com sua vaidade ferida, desaparece. N&#227;o h&#225; nada agora al&#233;m do falc&#227;o. E quando eu volto a pensar sobre o outro assunto, ele me parece menos importante. E, naturalmente, isso &#233; algo que tamb&#233;m podemos fazer deliberadamente; prestar aten&#231;&#227;o na natureza para liberar nossas mentes do cuidado ego&#237;sta&#8221;.</p></blockquote><p>Encerrada essa parte, tocava ent&#227;o explicar um pouco sobre a import&#226;ncia das met&#225;foras. Como sempre, convoquei Hannah Arendt para explicar que n&#227;o podemos pensar sem met&#225;foras; n&#227;o &#233; poss&#237;vel a n&#243;s pensar em coisas abstratas sem alguma rela&#231;&#227;o, mesmo que muito distante, com coisas muito pr&#243;ximas, devido &#224; natureza brutalmente abstrata de certos temas.</p><p>Eu estava diante de estudantes de artes, e era hora de entrar no tema da arte. Depois de explicar que a met&#225;fora, em termos simples consiste em compreender uma coisa em termos de outra, que ela &#233; uma transfer&#234;ncia, insisti que ela somente &#233; poss&#237;vel porque existe a literalidade. A literalidade est&#225; ligada ao nosso corpo, aos nossos sentidos, a coisas como acima, abaixo, costas, frente, pegar, largar, ver, socar. Foi nesse momento que insisti com uma pergunta meio estranha, que j&#225; explorei aqui, no <em>Digiana 30</em>:</p><p><em>Podemos pensar com palavras?</em></p><p>Essa pergunta &#233; sugerida por Rudolf Arnheim (1904-2007). Uma de suas ideias &#233; que o pensamento humano baseia-se em imagens. Ele trata do tema no cap&#237;tulo 13 do livro, &#8220;As palavras em seu lugar&#8221;, e a resposta que d&#225; para essa pergunta, &#8220;podemos pensar com palavras?&#8221; &#233; provocadora, pois tendemos a responder automaticamente, <em>sim</em>, e estranhamos a pr&#243;pria pergunta. O ponto dele &#233; que a coisa n&#227;o &#233; t&#227;o simples assim. As palavras, de fato, <em>ajudam muito</em>, mas n&#227;o s&#227;o tudo. Imagens s&#227;o fundamentais para n&#243;s.</p><p>Foi nesse momento que eu sugeri que n&#243;s somos uns animais estranhos, constitu&#237;dos mais por pontes e travessias do que por lugares. Era a deixa do <em>digiana</em>, mas evitei o tema, para n&#227;o poluir a palestra. Eu disse isso apenas para refor&#231;ar as rela&#231;&#245;es substantivas da arte com a met&#225;fora, da seguinte forma: as met&#225;foras lingu&#237;sticas tem limites, o &#8220;digital&#8221;; elas s&#227;o, precisamente, lingu&#237;sticas, e assim o trabalho de aproxima&#231;&#227;o que elas permitem vai at&#233; um certo ponto; a arte seria uma esp&#233;cie de <em>radicaliza&#231;&#227;o da met&#225;fora</em>; as artes s&#227;o &#8220;met&#225;foras vivas&#8221;; as artes operam no registro do anal&#243;gico, e fazem uma esp&#233;cie de redescobrimento da realidade.</p><p>Isso n&#227;o significa que as artes se subordinam &#224; met&#225;fora, e sim que se emaranham nela. Se as met&#225;foras dependem do meio linguistico, as artes tem uma independ&#234;ncia relativa, mas emaranhada. E um dos alvos desse emaranhamento s&#227;o exatamente aquelas experi&#234;ncias humanas que parecem exceder nossas capacidades lingu&#237;sticas e mesmo metaf&#243;ricas: os momentos de excesso, as experi&#234;ncias de gaiolas, de limites, as &#8220;experi&#234;ncias de franjas&#8221;: <em>o morrer, a passagem do tempo, o outro, o sagrado.</em></p><p><em>Pois h&#225; experi&#234;ncias humanas que n&#227;o s&#227;o pass&#237;veis de digitaliza&#231;&#227;o.</em></p><p>E vamos para as perguntas.</p><p>Uma das estudantes presentes, curiosa com o tema dos limites da linguagem, lembrou a quest&#227;o das capacidades conceituais das pessoas surdas e cegas. Ali eu lembrei do exemplo paradigm&#225;tico da Hellen Keller e sugeri que talvez o nosso vocabul&#225;rio sobre linguagens e conceitos precisa ser reaprendido: Hellen Keller n&#227;o partilhava com a gente a experi&#234;ncia de &#8220;vermelho&#8221; e &#8220;trov&#227;o&#8221; mas falava e escrevia sobre essas coisas com naturalidade, n&#227;o &#233; mesmo? Ent&#227;o, como fica? Eu insisti que, antes de falar em &#8220;ter conceitos disso e daquilo&#8221;, seria interessante pensar em um patamar cognitivo mais b&#225;sico, o da nossa capacidade de rastreamento de coisas. Se ela consegue, de algum modo, rastrear o vermelho, com as capacidades dela, n&#227;o precisamos partilhar um conceito igual. Bom, a coisa estava assim, meio abstrata, quando veio o caso da gata cega.</p><p>Uma estudante abriu um sorriso e disse que queria fazer uma contribui&#231;&#227;o. Que ela havia adotado uma gata, que a gata havia sofrido um acidente e que estava cega; mas a gata ia para a sacada, todos os dias, e ficava &#8220;observando&#8221; os passarinhos que se arriscavam por ali, ouvindo-os, e tentando, claro, peg&#225;-los. Que a gata ouvia a unha da dona batendo no pratinho de comida e se encaminhava para l&#225;, que ela &#8220;via&#8221; com os ouvidos. Sugeri ent&#227;o que a melhor express&#227;o seria, como sugerido por Ruth Millikan, &#8220;rastreamento&#8221;; e que a gente, em alguma medida, &#233; assim mesmo; podemos ver com os ouvidos, ouvir com as m&#227;os, por exemplo. A mo&#231;a sorriu de novo, como se tivesse compreendido melhor muita coisa que eu nem imagino. &#8220;Rastreamento&#8221;, ela repetiu. </p><p>E foi assim. Mostrei algumas das minhas fotos, a tarde j&#225; ia longe. Encerrei com Iris Murdoch, para dizer que as artes</p><blockquote><p>&#8220;mostram-nos o sentido peculiar no qual o conceito de virtude est&#225; ligado &#224; condi&#231;&#227;o humana&#8221;</p></blockquote><p>que</p><blockquote><p>&#8220;o desfrutar da arte &#233; um treinamento no amor da virtude. A falta de prop&#243;sito da arte n&#227;o &#233; falta de prop&#243;sito de um jogo; &#233; a falta de prop&#243;sito da pr&#243;pria vida humana, e a forma, na arte &#233; propriamente a simula&#231;&#227;o da falta de prop&#243;sito auto-contida do universo&#8221;</p></blockquote><p>e que</p><blockquote><p>&#8220;a arte transcende o ego&#237;smo e as limita&#231;&#245;es obsessivas da personalidade e podem ampliar a sensibilidade de seu consumidor. &#201; uma esp&#233;cie de bondade por procura&#231;&#227;o.&#8221;</p></blockquote><p>Mal posso esperar para ver as xilogravuras da turma.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[# Digiana 58 - Sobre a importância do ato de ler Paulo Freire]]></title><description><![CDATA[Sobre uma frase que passa por boa]]></description><link>https://ronai.substack.com/p/digiana-58-sobre-a-importancia-do</link><guid isPermaLink="false">https://ronai.substack.com/p/digiana-58-sobre-a-importancia-do</guid><dc:creator><![CDATA[Ronai Pires da Rocha]]></dc:creator><pubDate>Sat, 21 Mar 2026 17:26:40 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!jqYC!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffb7a25dc-0c19-4be0-bfff-b463de5a440f_2973x2946.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!jqYC!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffb7a25dc-0c19-4be0-bfff-b463de5a440f_2973x2946.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!jqYC!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffb7a25dc-0c19-4be0-bfff-b463de5a440f_2973x2946.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!jqYC!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffb7a25dc-0c19-4be0-bfff-b463de5a440f_2973x2946.jpeg 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!jqYC!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffb7a25dc-0c19-4be0-bfff-b463de5a440f_2973x2946.jpeg 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!jqYC!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffb7a25dc-0c19-4be0-bfff-b463de5a440f_2973x2946.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!jqYC!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffb7a25dc-0c19-4be0-bfff-b463de5a440f_2973x2946.jpeg" width="1456" height="1443" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/fb7a25dc-0c19-4be0-bfff-b463de5a440f_2973x2946.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:1443,&quot;width&quot;:1456,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:3299322,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://ronai.substack.com/i/191689049?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffb7a25dc-0c19-4be0-bfff-b463de5a440f_2973x2946.jpeg&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!jqYC!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffb7a25dc-0c19-4be0-bfff-b463de5a440f_2973x2946.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!jqYC!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffb7a25dc-0c19-4be0-bfff-b463de5a440f_2973x2946.jpeg 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!jqYC!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffb7a25dc-0c19-4be0-bfff-b463de5a440f_2973x2946.jpeg 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!jqYC!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffb7a25dc-0c19-4be0-bfff-b463de5a440f_2973x2946.jpeg 1456w" sizes="100vw" fetchpriority="high"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">Uma mede-palmos se lan&#231;a sobre o vazio</figcaption></figure></div><p></p><p>Em 2019 a Editora Contexto publicou meu <em>Quando ningu&#233;m educa &#8211; questionando Paulo Freire</em>. Algumas pessoas se incomodaram com o t&#237;tulo e com as cr&#237;ticas que fiz a certas maneiras de se ler Paulo Freire. Ocasionalmente elas me sugerem que eu reconsidere minhas opini&#245;es. Por exemplo, dias atr&#225;s, um ex-colega me mandou um desses <em>cards</em> populares sobre Paulo Freire, que reproduzem uma frase famosa, &#8220;A leitura do mundo precede a leitura da palavra&#8221;. A sugest&#227;o, acho eu, era que Freire tem, afinal das contas, algumas ideias que vale a pena manter em circula&#231;&#227;o.</p><p>A frase dele, &#8220;a leitura do mundo precede a leitura da palavra&#8221; est&#225; na confer&#234;ncia de abertura do 3&#186; Congresso de Leitura do Brasil, em 1981. A confer&#234;ncia virou um pequeno livro, dispon&#237;vel na internet, <em>A import&#226;ncia do ato de ler</em>. &#201; uma fala de ocasi&#227;o, a frase aparece logo no in&#237;cio para introduzir uma narrativa autobiogr&#225;fica sobre a casa dele no Recife, as &#225;rvores, os p&#225;ssaros. A estrutura do texto, ent&#227;o, &#233; essa: a afirma&#231;&#227;o sobre a leitura do mundo, algumas mem&#243;rias afetivas e pois uma aplica&#231;&#227;o pedag&#243;gica.</p><p>Vou deixar de lado isso, que Freire, em nenhum momento, esclarece em que sentido uma coisa <em>precede</em> a outra. Como conhecedor de Piaget, ele poderia fazer isso (ontogeneticamente, logicamente etc?). Mas ele n&#227;o faz isso. Meu ponto, aqui, &#233; que n&#243;s, leitores tardios e com algum tempo dispon&#237;vel para reflex&#227;o, devemos, antes de ficar repetindo esse jarg&#227;o, examin&#225;-lo melhor.</p><p>Vamos l&#225;, ent&#227;o. Se, por &#8220;leitura do mundo&#8221;, entendemos, nos termos que tenho usado aqui, ao longo dessa meia centena de postagens, que a pessoa est&#225; na posse de estados informacionais anal&#243;gicos, pr&#233;-reflexivos e corporalmente ancorados, desligados da &#8220;superf&#237;cie digital da linguagem&#8221;, aquilo que Paulo Freire diz &#233; verdadeiro. Afinal, desde que nascemos h&#225; um contato perceptual, pr&#233;-lingu&#237;stico, com o ambiente; mas nesse caso, se &#233; isso que ele quer dizer, <em>chocolate pela not&#237;cia</em>, ela &#233; trivialmente verdadeira e &#233; compat&#237;vel com qualquer teoria naturalista sobre a linguagem. N&#227;o h&#225; nada de freiriano nela, &#233; seria apenas a dilui&#231;&#227;o de uma trivialidade.</p><p>Vamos ver outra possiblidade. &#201; poss&#237;vel que a &#8220;leitura do mundo&#8221; signifique algum tipo de interpreta&#231;&#227;o, mais ou menos organizada, da realidade, alguma percep&#231;&#227;o que est&#225; conformada, de forma mais ou menos consciente, por categorias culturais e pol&#237;ticas. Nessa segunda alternativa, a afirma&#231;&#227;o &#233; simplesmente falsa. Afinal, qualquer tipo de interpreta&#231;&#227;o mais ou menos organizada j&#225; sempre depende de alguma conceitua&#231;&#227;o, j&#225; sempre &#233; linguisticamente mediada; nos temos que tenho usado aqui, j&#225; &#233; sempre estruturada pela &#8220;superf&#237;cie digital da linguagem&#8221;. Nessa segunda possibilidade, mesmo que os conceitos sejam impl&#237;citos e orais, haveria linguagem categorial na &#8220;leitura do mundo&#8221;. Ou seja, n&#227;o haveria &#8220;leitura do mundo&#8221; de tipo pr&#233;-verbal.</p><p>A frase, portanto, ou &#233; trivialmente verdadeira ou &#233; tendenciosamente falsa, na medida em que flerta com a ideia de uma percep&#231;&#227;o pr&#233;-letrada como via de acesso mais direto ao real.</p><p>Tudo ficaria mais ou menos nisso, em um n&#237;vel de motiva&#231;&#227;o que poderia ser compreendido e aceito. Mas tem mais. O &#250;nico fil&#243;sofo que Freire cita na confer&#234;ncia &#233; Gramsci. Ele, como &#233; sabido, teoriza, entre outras coisas, sobre o conceito de hegemonia e sobre o intelectual org&#226;nico. Nessa vis&#227;o, a percep&#231;&#227;o que as pessoas t&#234;m da vida &#233; j&#225; sempre formada por uma ideologia dominante; o papel do intelectual &#233; oferecer ao povo categorias alternativas - e libertadoras - de autocompreens&#227;o.</p><p>Para Gramsci, se entendo bem, o mundo da gente, os de baixo, j&#225; sempre &#233; lido atrav&#233;s de palavras alheias; a ideia &#233; fazer com que as palavras da gente sejam, por assim dizer, da gente mesmo, e n&#227;o dos outros, da classe dominante. Como ficaria, nesse caso, a &#8220;leitura do mundo&#8221;? Como ela poderia ser mais aut&#234;ntica do que a das palavras?</p><p>Tenho que lembrar aqui que a invoca&#231;&#227;o que Freire faz de Gramsci no final do texto surge sem qualquer media&#231;&#227;o argumentativa; ou Freire n&#227;o deu bola para a tens&#227;o conceitual que criou ou bem apenas usou Gramsci como um ornamento de autoridade.</p><p>Nos termos que tenho usado aqui no <em>Animal Digiana</em>, esse epis&#243;dio d&#225; um exemplo interessante de como algumas palavras podem funcionar como &#8220;quase-conceitos&#8221;, por assim dizer: quase-vazios. A frase &#8220;a leitura do mundo precede a leitura da palavra&#8221; adquiriu vida institucional pr&#243;pria, &#233; citada e usada como fundamento de pol&#237;ticas pedag&#243;gicas, sem que, em nenhum lugar da internet e da academia, algu&#233;m se pergunte sobre o que ela quer dizer.</p><p>Nos conceitos da Ruth Millikan, seria um caso de deslizamento sem&#226;ntico: uma express&#227;o que circula na superf&#237;cie digital da linguagem sem que a gente fa&#231;a um rastreamento dos conte&#250;dos correspondentes.</p><p>N&#227;o deixa de ser uma ironia que o texto &#8220;A import&#226;ncia do ato de ler&#8221; seja uma ilustra&#231;&#227;o do oposto dito por Freire. Ele n&#227;o &#8220;l&#234; o mundo&#8221; antes de escrever &#8212; ele escreveu uma confer&#234;ncia, selecionou mem&#243;rias que confirmam a tese que ele j&#225; tem e cita Gramsci como autoridade. A coisa &#233;, de ponta a ponta, uma opera&#231;&#227;o na superf&#237;cie digital da linguagem pedag&#243;gico-pol&#237;tica, apresentada como acesso privilegiado ao real pr&#233;-verbal.</p><p>Ainda mais: &#233; preciso lembrar tamb&#233;m que a express&#227;o &#8220;leitura do mundo precede a leitura da palavra&#8221; &#233;, na pr&#225;tica, um aforismo tardio &#8212; ele apareceu pela primeira vez em 1981, na confer&#234;ncia que deu origem a &#8220;A import&#226;ncia do ato de ler&#8221;. Freire tinha ent&#227;o sessenta anos e suas obras mais importantes j&#225; eram conhecidas. Esse jarg&#227;o n&#227;o aparece nelas. A preocupa&#231;&#227;o com o &#8220;universo vocabular&#8221; do alfabetizando, com as &#8220;palavras geradoras&#8221;, com a decodifica&#231;&#227;o de &#8220;situa&#231;&#245;es existenciais&#8221; &#8212; tudo isso est&#225; presente, mas sem a f&#243;rmula. O que est&#225; l&#225; &#233; a estrutura do m&#233;todo: partir do mundo vivido do aluno para chegar &#224; palavra escrita. Foi apenas depois de 1981 que o aforismo migrou para outros textos.</p><p>Um deles &#233; o livro dele com Donaldo Macedo - <em>Letramento: Leitura da palavra e do mundo </em>(1987). Eles apresentam ali uma teoria do letramento e an&#225;lises hist&#243;ricas concretas de campanhas de alfabetiza&#231;&#227;o em regi&#245;es como Cabo Verde, S&#227;o Tom&#233; e Pr&#237;ncipe, e Guin&#233;-Bissau. Ali, no entanto, a &#8220;leitura do mundo&#8221; &#233; sin&#244;nimo de consci&#234;ncia de classe e an&#225;lise das rela&#231;&#245;es de poder. Freire faz afirma&#231;&#245;es de antropologia que s&#227;o espantosas: que os seres que foram se fazendo humanos escreveram o mundo muito mais do que falaram sobre ele; <em>que tocaram e afetaram o mundo diretamente</em> <em>antes de falarem sobre ele</em>. Ele apenas afirma essa esp&#233;cie de arqueologia especulativa da consci&#234;ncia, n&#227;o h&#225; argumenta&#231;&#227;o de apoio. </p><p>A f&#243;rmula, como se v&#234; nos <em>cards</em> que circulam na internet, entrou no vocabul&#225;rio dos comentadores e passou a ser usada para a compreens&#227;o da obra dele que &#233; <em>anterior </em>&#224; ela. Isso ilustra o mecanismo do deslizamento sem&#226;ntico, operando na escala de uma tradi&#231;&#227;o pedag&#243;gica inteira: a frase circula, &#233; citada como fundamento, e ningu&#233;m parece dar bola para o fato que ela foi cunhada em 1981, numa confer&#234;ncia sobre leitura.</p><p>Em 1981, a &#8220;leitura do mundo&#8221; poderia ser interpretada benevolentemente como um caso de percep&#231;&#227;o pr&#233;-lingu&#237;stica &#8212; e seria ent&#227;o trivialmente verdadeira mas filosoficamente irrelevante para todo o projeto de Paulo Freire.</p><p>Na vers&#227;o de 1987, com Macedo, a &#8220;leitura do mundo&#8221; significa consci&#234;ncia cr&#237;tica politicamente informada. Nesse caso h&#225; um problema de circularidade. A &#8220;leitura do mundo&#8221; pressup&#245;e que j&#225; existe a consci&#234;ncia que o m&#233;todo deveria produzir. Nos dois casos, a frase n&#227;o aguenta o peso te&#243;rico que lhe &#233; atribu&#237;da. Ou melhor: n&#227;o h&#225; teoria alguma nela, apenas uma express&#227;o que tem apar&#234;ncia de teoria. O sucesso da frase &#233; ele pr&#243;prio um exemplo interessante sobre como a <em>superf&#237;cie digital da linguagem pedag&#243;gica</em> circula e se institucionaliza independentemente de qualquer conte&#250;do &#8220;anal&#243;gico&#8221; est&#225;vel.</p><p>Se a &#8220;leitura do mundo&#8221; significa a experi&#234;ncia pr&#233;-reflexiva, corporal, pr&#233;-lingu&#237;stica, ela n&#227;o pode ser o fundamento da &#8220;consci&#234;ncia cr&#237;tica&#8221;; a consci&#234;ncia cr&#237;tica &#233;, por defini&#231;&#227;o, reflexiva, conceitual, linguisticamente articulada. Ningu&#233;m toma consci&#234;ncia da estrutura de classes <em>antes</em> de ter categorias para isso. A &#8220;leitura cr&#237;tica do mundo&#8221; que o m&#233;todo freireano quer produzir &#233; uma leitura altamente sofisticada, teoricamente carregada, que pressup&#245;e todo o vocabul&#225;rio de oprimido, opressor, conscientiza&#231;&#227;o, aliena&#231;&#227;o, que ningu&#233;m traz de ber&#231;o.</p><p>O que Freire chama de &#8220;leitura do mundo&#8221; na pr&#225;tica pedag&#243;gica concreta n&#227;o &#233; a percep&#231;&#227;o anal&#243;gica pr&#233;-reflexiva: &#233; a experi&#234;ncia j&#225; interpretada do trabalhador, j&#225; mediada pela linguagem oral da sua comunidade, pelos seus valores, cren&#231;as e categoriza&#231;&#245;es impl&#237;citas. Esse vocabul&#225;rio &#233; substitu&#237;do por outro. A frase &#8220;a leitura do mundo precede a leitura da palavra&#8221; serve para legitimar isso como se fosse um desdobramento natural do que o alfabetizando j&#225; sabia &#8212; quando &#233;, na pr&#225;tica, uma interven&#231;&#227;o. </p><p>Freire, vamos e venhamos (<em>Marilena Chau&#237; e Vanilde Paiva j&#225; disseram isso</em>), a rigor, n&#227;o parte do mundo do oprimido: ele chega l&#225; com o mapa j&#225; esquematizado.</p><p>Eu quero apenas trocar ideias com meus amigos freirianos, mas insisto que &#233;  preciso mais esfor&#231;os. O primeiro deles &#233; sobre a import&#226;ncia do ato de ler Paulo Freire. O outro &#233; deixar de fazer <em>cards</em> sobre ele, filosofia dificilmente cabe neles.  </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[# Digiana 57 - A superfície digital da linguagem (v)]]></title><description><![CDATA[Tartarugas at&#233; o fim?]]></description><link>https://ronai.substack.com/p/digiana-57-a-superficie-digital-da</link><guid isPermaLink="false">https://ronai.substack.com/p/digiana-57-a-superficie-digital-da</guid><dc:creator><![CDATA[Ronai Pires da Rocha]]></dc:creator><pubDate>Wed, 11 Mar 2026 22:12:35 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!fe8o!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc9753762-a411-4f50-bfd5-5b5ee135692a_4720x3147.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/c9753762-a411-4f50-bfd5-5b5ee135692a_4720x3147.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;Dois e apenas dois &quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/c9753762-a411-4f50-bfd5-5b5ee135692a_4720x3147.jpeg&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p></p><ol><li><p>Cesar Schirmer fez um coment&#225;rio sobre algo que eu disse no <em>Digiana 56</em>. Escrevi ali que <em>a superf&#237;cie </em>(da linguagem)<em> &#233; digital e aquilo que est&#225; abaixo dela &#233;, por defini&#231;&#227;o, n&#227;o-digital &#8212; ou pelo menos n&#227;o apenas digital</em>. &#201; poss&#237;vel, disse ele, que, &#8220;se futricarmos sob a superf&#237;cie da linguagem (para ficarmos na met&#225;fora), o que se encontre debaixo seja, de novo, digital.&#8221; Ele lembrou a met&#225;fora da tartaruga, aquela que diz que a terra, seja redonda ou plana, apoia-se sobre uma tartaruga, e essa, sob outra e mais outra, &#8220;<em>all the way down</em>&#8221;. Sob a superf&#237;cie digital da linguagem haveria outra digitalidade e assim por diante. Cada uma delas seria uma interpreta&#231;&#227;o do c&#243;digo bin&#225;rio do digital. Ou seja, n&#227;o haveria algum processo cognitivo anal&#243;gico. &#8220;&#201; uma quest&#227;o emp&#237;rica se as coisas s&#227;o assim&#8221;, ele conclui, mas n&#227;o &#233; poss&#237;vel afastar a possibilidade, &#8220;pode ser que o fundamento da tartaruga digital seja outra tartaruga, e assim infinitamente.&#8221;</p></li></ol><p>2. &#201; <em>poss&#237;vel</em> que, por baixo da superf&#237;cie digital da linguagem, exista algo tamb&#233;m digital, em alguma outra vers&#227;o. &#201; poss&#237;vel imaginar um certo tipo de &#8220;atomiza&#231;&#227;o&#8221; de toda a realidade. Isso validaria a regress&#227;o, &#8220;tartarugas at&#233; o fim&#8221;. Agrade&#231;o ao Cesar a provoca&#231;&#227;o. Ela me obriga a esclarecer algumas coisas, mas n&#227;o estou seguro de saber ao certo quais s&#227;o elas e, tampouco, se consigo.</p><p>3. A distin&#231;&#227;o entre &#8220;digital&#8221; e &#8220;anal&#243;gico&#8221; me parece pertencer ao grupo de conceitos que apontam tanto para a realidade quanto para a forma como ela nos &#233; dada e acess&#237;vel. Esses conceitos se aplicam tanto &#224; realidade quanto ao modo de acesso a ela, eles t&#234;m uma esp&#233;cie de dupla cidadania. A essa fam&#237;lia de conceitos corresponde, por exemplo, uma velha distin&#231;&#227;o filos&#243;fica, aquela que distingue os termos que designam indiv&#237;duos que podemos contar nos dedos, como os gatos, e os termos que designam coisas que somente podemos contar se institu&#237;mos, adicionalmente, alguma unidade de medida: um <em>litro</em> de &#225;gua, um <em>metro</em> de lenha, uma <em>grama</em> de ouro.</p><ol start="4"><li><p>Em 1982 saiu no Brasil uma tradu&#231;&#227;o de &#8220;A institui&#231;&#227;o imagin&#225;ria da sociedade&#8221;, do fil&#243;sofo Cornelius Castoriadis. Uma das coisas mais interessantes que achei ali foi a forma como ele deixava claro que, de um lado, &#8220;institu&#237;mos&#8221; a sociedade e, em alguma medida, a realidade, mas que precisamos sempre ter clara a exist&#234;ncia de limitadores para essas &#8220;institui&#231;&#245;es&#8221;. Era o tema do &#8220;primeiro estrato natural&#8221;, que ele aborda no quinto cap&#237;tulo do livro. Os seres humanos criam mundos, mas essa cria&#231;&#227;o leva em conta uma dimens&#227;o no qual as coisas simplesmente <em>s&#227;o o que s&#227;o,</em> ponto final.</p></li><li><p>Em &#8220;<em>A institui&#231;&#227;o imagin&#225;ria da sociedade</em>&#8220;, Castoriadis escreveu, ainda que vagamente, sobre algo parecido a esses temas do digital e do anal&#243;gico. ( Ele escreveu tamb&#233;m sobre o fonema, vou deixar o tema para outra oportunidade). &#201; certo que uma por&#231;&#227;o do mundo humano &#233; &#8220;institu&#237;do&#8221;, mas essa institui&#231;&#227;o leva em conta o &#8220;estrato natural&#8221; da realidade. O &#8220;natural&#8221; &#233; uma esp&#233;cie de limitador de nossa capacidade de imaginar e <em>fabricar</em> distin&#231;&#245;es. Se &#233; certo que as sociedades criam seus mundos pr&#243;prios, isso acontece dentro do que ele chama de &#8220;primeiro estrato natural&#8221;, que cont&#233;m aspectos que resistem definitivamente &#224; nossa imagina&#231;&#227;o e &#224;s nossas capacidades instituintes. Gatos e gatas n&#227;o geram cachorros, duas cabras e dois cabritos ser&#227;o sempre quatro animais, <em>crian&#231;as</em> n&#227;o s&#227;o <em>adultos</em>. H&#225;, por assim dizer, na natureza, conjuntos e identidades. Ele chama isso de &#8220;dimens&#227;o conjuntista-identit&#225;ria&#8221;, que ser&#225; sempre objeto de nossas cria&#231;&#245;es e recria&#231;&#245;es imagin&#225;rias. As sociedades humanas, por mais imaginativas que sejam, para sobreviver, precisam ter presente esse &#8220;primeiro estrato natural&#8221;, uma esp&#233;cie de ch&#227;o onde pisamos. Coisas como gatos e cabras s&#227;o pensadas por n&#243;s como tendo uma identidade determinada, podem ser distinguidas (umas das outras) e contadas. Mas isso n&#227;o &#233; tudo. Se a identidade social tem esse lado &#8220;conjuntista&#8221;, como ele diz, tem tamb&#233;m um lado mais aberto, uma esp&#233;cie de fundo de indetermina&#231;&#227;o e continuidade, que ele chama de &#8220;magma&#8221;. E a vida humana se passa nessa tens&#227;o entre identidades determinadas e uma esp&#233;cie de &#8220;magma&#8221; de significa&#231;&#245;es que nos ultrapassa. Os nossos esfor&#231;os de &#8220;digitalizar&#8221; (nomear, etc) d&#227;o sempre com as letras na &#225;gua. &#201; mais ou menos por a&#237;, faz algumas d&#233;cadas que n&#227;o estudo Castoriadis.</p></li></ol><ol start="5"><li><p>A conex&#227;o do Castoriadis com meus temas &#233; fraca. O &#8220;digital&#8221; e o &#8220;discreto&#8221; s&#227;o compar&#225;veis, de alguma forma, aos &#8220;conjuntos naturais&#8221;; o &#8220;anal&#243;gico&#8221; e o &#8220;cont&#237;nuo&#8221; s&#227;o compar&#225;veis ao tal &#8220;magma de significa&#231;&#245;es&#8221;, por exemplo. E o &#8220;primeiro estrato natural&#8221; mostraria os limites que existem para a &#8220;digitaliza&#231;&#227;o&#8221; da realidade. O modelo do Castoriadis n&#227;o aceita &#8220;tartarugas at&#233; o fim&#8221;, na medida em que n&#227;o abre m&#227;o dessa esp&#233;cie de dualismo entre um &#8220;primeiro estrato natural&#8221; e um &#8220;magma anal&#243;gico subjacente que nunca ser&#225; completamente capturado por qualquer logica de conjuntos e de identidades.</p></li><li><p>No <em>Digiana 56</em> eu disse que, quanto ao tema da rela&#231;&#227;o entre linguagem e pensamento, predominou essa tese: aquilo que chamamos de <em>ideias</em>, <em>pensamentos</em>, <em>percep&#231;&#245;es</em>, <em>representa&#231;&#245;es</em>, <em>conceitos</em>, tem uma rela&#231;&#227;o fraca (externa, artificial) com as palavras. Segundo essa vis&#227;o, haveria, no come&#231;o dessa hist&#243;ria, uma cadeia de pensamentos, um discurso mental, que ganharia vida p&#250;blica por meio das palavras. As palavras seriam uma esp&#233;cie de roupagem que veste as ideias. Essa suposi&#231;&#227;o atravessou s&#233;culos, de Thomas Hobbes a Ferdinand de Saussure. Como eu disse l&#225; no <em>56</em>, h&#225; uma boa exposi&#231;&#227;o sobre esse ponto no primeiro cap&#237;tulo do livro de Gordon Baker e Peter Hacker, <em>Language, Sense and Nonsense: a critical investigation into modern theories of language</em> (Blackwell, 1984). Esse modelo tradicional, em certa medida, ainda faz as nossas cabe&#231;as. Nelas, predomina a convic&#231;&#227;o de que as palavras, por mais que existam, nem sempre s&#227;o capazes de dizer o que queremos. Esse argumento &#233; fraco, pois o problema pode residir na mis&#233;ria do vocabul&#225;rio de algu&#233;m. Assim, o que interessa aqui &#233; lembrar o argumento mais forte, que &#233; o da superioridade expressiva da arte (literatura, em todas as suas varia&#231;&#245;es, dan&#231;a, m&#250;sica, artes pl&#225;sticas, cinema, fotografia etc) sobre as descri&#231;&#245;es da ci&#234;ncia e do senso comum. Ou seja, o argumento que diz que pensamos e sentimos muito mais do que somos capazes de expressar nas palavras comuns da tribo. N&#227;o vou entrar aqui no tema, quero apenas relembrar que esse lugar comum sobre as rela&#231;&#245;es entre &#8220;ideias&#8221; e &#8220;sentimentos&#8221; vai na dire&#231;&#227;o da separa&#231;&#227;o entre o &#8220;digital&#8221; e o &#8220;anal&#243;gico&#8221;.</p></li><li><p>Peter Strawson, em <em>Indiv&#237;duos</em> (tradu&#231;&#227;o de Pl&#237;nio Junqueira Smith, Editora Unesp) saiu em busca de &#8220;velhas verdades a serem redescobertas&#8221;, o que &#233; muito. Seu livro procura descrever categorias e conceitos que s&#227;o os &#8220;lugares-comuns&#8221; do pensamento humano, desde que o mundo &#233; mundo. Entre eles est&#225; exatamente a no&#231;&#227;o de algo &#8220;particular&#8221;, identific&#225;vel, localiz&#225;vel no espa&#231;o e no tempo, cont&#225;vel, <em>individualiz&#225;vel</em>. No mundo humano h&#225; coisas assim, mas n&#227;o s&#243;. H&#225; coisas que n&#227;o conseguimos contar. Para facilitar o trabalho, ele prefere examinar, veja s&#243;, a &#8220;superf&#237;cie&#8221; da linguagem, e fala de palavras ou &#8220;termos&#8221;. Temos termos cont&#225;veis, como &#8220;gatos&#8221;, e termos &#8220;n&#227;o cont&#225;veis&#8221;, como &#8220;&#225;gua&#8221;, &#8220;ouro&#8221;, &#8220;madeira&#8221;, &#8220;areia&#8221;. Essas palavras indicam subst&#226;ncias que n&#227;o cont&#233;m, nelas mesmas, independente de outros meios, alguma forma de individualiza&#231;&#227;o. Ao contr&#225;rio, os termos cont&#225;veis cont&#233;m crit&#233;rios ou princ&#237;pios de identidade e individua&#231;&#227;o, como o dos gatos. Esses termos cont&#225;veis &#8211; que a literatura filos&#243;fica chama de &#8220;sortais&#8221; &#8211; fazem parte de nosso equipamento conceitual de base, do &#8220;n&#250;cleo central maci&#231;o do pensamento humano&#8221;, como ele escreve na p&#225;gina 15.</p></li><li><p>O meu interesse nessa distin&#231;&#227;o de Strawson diz respeito &#224; rela&#231;&#227;o dela com a distin&#231;&#227;o entre &#8220;digital&#8221; e &#8220;anal&#243;gico&#8221;. Os conceitos de Strawson dizem respeito &#224; realidade e, ao mesmo tempo, ao nosso equipamento cognitivo b&#225;sico. Os conceitos de &#8220;digital&#8221; e &#8220;anal&#243;gico&#8221; tendem mais para o campo da epistemologia, mas n&#227;o deixam de ter uma dimens&#227;o ontol&#243;gica. O anal&#243;gico, como tenho insistido aqui, diz respeito a um cont&#237;nuo, a coisas que tem uma varia&#231;&#227;o gradual, sem fronteiras naturais ou que se imponham de forma irresist&#237;vel, como nas cores e nos sons. O &#8220;digital&#8221; &#233; uma opera&#231;&#227;o sobre esses cont&#237;nuos, na maior parte das vezes; &#233; a discretiza&#231;&#227;o de algum cont&#237;nuo &#8212; a imposi&#231;&#227;o de unidades, categorias, limites n&#237;tidos. Os termos cont&#225;veis (os sortais) s&#227;o, por assim dizer, nossos instrumentos para a digitaliza&#231;&#227;o desses cont&#237;nuos, para que possamos lidar com eles, de uma forma pragm&#225;tica. Institu&#237;mos assim cortes na linha sonora para produzir fonemas; h&#225; um &#8220;estrato natural sonoro&#8221; que nos limita. O n&#250;mero total de fonemas que n&#243;s, humanos, conseguimos produzir n&#227;o chega a duzentos, mas nenhuma l&#237;ngua particular &#8220;institui&#8221; mais do que quarenta e poucos.</p></li><li><p>Assim, na forma como eu vejo, o uso desses dois termos, &#8220;digital&#8221; e &#8220;anal&#243;gico&#8221;, na filosofia contempor&#226;nea, para usar a express&#227;o de Strawson, n&#227;o pretende mais do que reapresentar algumas velhas verdades. Eles enfatizam, quem sabe, a dimens&#227;o funcional, pragm&#225;tica, dessas velhas verdades sobre como a informa&#231;&#227;o cotidiana &#233; codificada, processada, transmitida, sobre como fazemos as nossas representa&#231;&#245;es e a nossa lida com aquilo que h&#225;, que, feliz ou infelizmente, n&#227;o cessa nunca de se renovar; h&#225; sempre sobra.</p><p>Aqui &#233; preciso enfatizar o que eu chamei de &#8220;dimens&#227;o funcional, pragm&#225;tica&#8221;. Pois eu disse que, em certo sentido Cesar Schirmer tinha raz&#227;o, pode haver tartarugas at&#233; o fim. Basta que a gente, por raz&#245;es especiais, de tipo funcional ou pragm&#225;tico, queira trabalhar com uma metaf&#237;sica revisionista, criativa (e n&#227;o com aquela de Strawson, descritiva). Da&#237; poder&#237;amos chegar a uma vis&#227;o como aquela dos f&#237;sicos do come&#231;o do s&#233;culo passado, segundo a qual &#233; um milagre que uma t&#225;bua sustente algo, pois ela toda nada mais &#233; do que um turbilh&#227;o de &#225;tomos! O tema &#233; fascinante, tratei dele no meu trabalho de doutoramento, que pode ser encontrado na biblioteca da UFRGS e no meu Academia.</p></li><li><p>N&#227;o podemos deixar de admirar os grandes revisionistas, como Descartes, Leibniz, Berkeley. Mas, com Arist&#243;teles, Kant e Strawson, eu, de forma conservadora, admito, acho que as tartarugas n&#227;o se empilham at&#233; o fim. Forte abra&#231;o, Cesar, obrigado pela linda provoca&#231;&#227;o.</p></li></ol>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[# Digiana 56 - A superfície digital da linguagem (IV)]]></title><description><![CDATA[O que h&#225; por baixo; met&#225;foras do mist&#233;rio]]></description><link>https://ronai.substack.com/p/digiana-56-a-superficie-digital-da</link><guid isPermaLink="false">https://ronai.substack.com/p/digiana-56-a-superficie-digital-da</guid><dc:creator><![CDATA[Ronai Pires da Rocha]]></dc:creator><pubDate>Wed, 11 Feb 2026 12:33:05 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!gEEl!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9d3488c7-c673-4655-b218-c86e2641f3e4_6000x4000.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!gEEl!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9d3488c7-c673-4655-b218-c86e2641f3e4_6000x4000.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!gEEl!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9d3488c7-c673-4655-b218-c86e2641f3e4_6000x4000.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!gEEl!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9d3488c7-c673-4655-b218-c86e2641f3e4_6000x4000.jpeg 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!gEEl!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9d3488c7-c673-4655-b218-c86e2641f3e4_6000x4000.jpeg 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!gEEl!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9d3488c7-c673-4655-b218-c86e2641f3e4_6000x4000.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!gEEl!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9d3488c7-c673-4655-b218-c86e2641f3e4_6000x4000.jpeg" width="6000" height="4000" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/9d3488c7-c673-4655-b218-c86e2641f3e4_6000x4000.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:4000,&quot;width&quot;:6000,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:9258344,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://ronai.substack.com/i/187622559?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb77a6dc6-ef47-4c98-b285-0c08744e0c65_6000x4000.jpeg&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!gEEl!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9d3488c7-c673-4655-b218-c86e2641f3e4_6000x4000.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!gEEl!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9d3488c7-c673-4655-b218-c86e2641f3e4_6000x4000.jpeg 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!gEEl!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9d3488c7-c673-4655-b218-c86e2641f3e4_6000x4000.jpeg 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!gEEl!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9d3488c7-c673-4655-b218-c86e2641f3e4_6000x4000.jpeg 1456w" sizes="100vw" fetchpriority="high"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">Um naturalista em a&#231;&#227;o</figcaption></figure></div><p></p><p>Depois de tr&#234;s <em>digianas</em> nas quais ficou evidente que eu olho com simpatia para a ideia de uma &#8220;superf&#237;cie digital da linguagem&#8221;, n&#227;o posso mais adiar uma quest&#227;o que ter&#225; surgido ao leitor: <em>o que h&#225; debaixo dessa superf&#237;cie</em>? Esse &#233; o ponto em que me encontro. A compra dessa met&#225;fora da &#8220;superf&#237;cie da linguagem&#8221; nos obriga a comprar outras, para poder falar daquilo que est&#225; abaixo dessa camada. O que h&#225; por baixo?</p><p>Como &#233; de esperar na filosofia, h&#225; v&#225;rias dire&#231;&#245;es de respostas a essa pergunta.</p><p>2.</p><p>A met&#225;fora da superf&#237;cie digital implica, como procurei mostrar , que uma l&#237;ngua natural, como o portugu&#234;s, opera com unidades discretas, recombin&#225;veis e categoriz&#225;veis &#8212; fonemas, morfemas, palavras, constru&#231;&#245;es sint&#225;ticas. Assim, qualquer frase que usemos &#233; sempre, em certo sentido, uma<em> interface digital</em> entre dois falantes. Relembro aqui: essa palavra, &#8220;digital&#8221;, est&#225; sendo usada no seu sentido t&#233;cnico, que indica um sinal discreto (discretizado), no qual as varia&#231;&#245;es poss&#237;veis s&#227;o sempre descartadas pelo ouvinte em favor de categorias que tem fronteiras n&#237;tidas. Quando estamos ouvindo algu&#233;m, nas situa&#231;&#245;es de fala cotidiana, descartamos as varia&#231;&#245;es ac&#250;sticas cont&#237;nuas e ficamos apenas com uma esp&#233;cie de modelo do fonema. A pessoa gripada altera a pronuncia de certos fonemas, mas isso n&#227;o nos atrapalha nesse trabalho, n&#227;o? &#201; isso o que permite a comunica&#231;&#227;o p&#250;blica: a superf&#237;cie digital &#233; o meio compartilh&#225;vel. Se voc&#234; pensar aqui nas pessoas que v&#227;o ficando surdas, isso fica ainda mais claro. Eu, por exemplo, tenho uma certa perda auditiva. Isso me obriga a ouvir com mais cuidado, e, n&#227;o raramente, tenho que tentar dizer para mim mesmo os sons que acabei de ouvir, para <em>entender</em> o que me disseram...</p><p>A no&#231;&#227;o de &#8220;superf&#237;cie digital da linguagem&#8221; &#233; constrangedoramente simples, escandalosamente simples. Mas ela escorre entre nossos dedos filos&#243;ficos, que, por vezes, n&#227;o sabem lidar com ela.</p><p>3.</p><p>Se a superf&#237;cie &#233; digital, o que est&#225; abaixo dela &#233;, por defini&#231;&#227;o, n&#227;o-digital &#8212; ou pelo menos n&#227;o <em>apenas</em> digital. Como me lembrou o Professor Frank Sautter, quando comentei com ele esse tema: &#8220;o que est&#225; abaixo &#233; o anal&#243;gico, n&#227;o?&#8221; Sim. Mas o problema n&#227;o se resume em descrever o que est&#225; abaixo da camada digital; ainda mais complicado &#233; o problema de como o <em>abaixo</em> se relaciona com o <em>acima.</em>.. Um curso de filosofia, algu&#233;m j&#225; disse, gira em torno de tr&#234;s ou quatro grandes temas, sobre onde estamos, o que devemos fazer, o que podemos esperar, o que somos, o que podemos conhecer. Essa quest&#227;o sobre as rela&#231;&#245;es entre a <em>superf&#237;cie</em> e o <em>abaixo</em> da linguagem, &#233; um dos detalhes do tema sobre <em>o que podemos conhecer</em>.</p><p>4.</p><p>H&#225; uma sabedoria que diz que sabemos muito mais do que aquilo que conseguimos colocar em palavras. H&#225; quem diga que aquilo que est&#225; abaixo da superf&#237;cie digital da linguagem &#233; algo t&#227;o complexo, rico e denso, que, para usar a f&#243;rmula popular, n&#227;o cabe (totalmente) em palavras, ou, em outras palavras, n&#227;o conseguimos trazer para a superf&#237;cie da linguagem. H&#225; quem diga que essa esp&#233;cie de <em>subsolo</em> pode ser apenas <em>mostrado</em>, h&#225; quem diga que nem isso.</p><p>Parece surgir aqui uma dificuldade inerente ao emprego da met&#225;fora da superf&#237;cie. Uma &#8220;superf&#237;cie&#8221; n&#227;o &#233;, necessariamente, um &#225;pice, um ponto culminante. Se &#233; verdade que debaixo dela h&#225; uma riqueza (quase) inexprim&#237;vel, a superf&#237;cie n&#227;o &#233; o ponto alto da cogni&#231;&#227;o. A linguagem (digital) mais pareceria ser uma esp&#233;cie de <em>redu&#231;&#227;o funcional</em>, necess&#225;ria para a comunica&#231;&#227;o p&#250;blica, que apenas consegue cumprir essa fun&#231;&#227;o na medida em que simplifica (ou empobrece) os conte&#250;dos da experi&#234;ncia de vida, para obter ganhos de comunica&#231;&#227;o. Haveria algo de nobre e produtivo no entanto, nessa simplifica&#231;&#227;o ou empobrecimento do subsolo da linguagem; sem ela n&#227;o haveria o ve&#237;culo para o conhecimento p&#250;blico, comum.</p><p>Por vezes dizemos que, <em>em certo sentido</em>, a literatura pode ser mais expressiva, pode estar mais perto da vida do que a filosofia. Essa percep&#231;&#227;o parece nascer da consci&#234;ncia que a linguagem comum, e, dentro dela, a linguagem filos&#243;fica, &#233; um <em>empobrecimento produtivo</em> da cogni&#231;&#227;o. Sem essa artimanha n&#227;o &#233; poss&#237;vel pensar sobre certas coisas que est&#227;o muito al&#233;m da riqueza do subsolo lingu&#237;stico: a nossa capacidade de refer&#234;ncia ao que n&#227;o existe, ao nada, ao ausente, ao futuro, ao passado, parece sugerir que alguns poderes cognitivos do ser humano dependem de condi&#231;&#245;es que est&#227;o al&#233;m da materialidade da percep&#231;&#227;o, do corpo e da presen&#231;a. Sem o surgimento da capacidade simb&#243;lica, o <em>nada</em> n&#227;o d&#225; as caras. E sem a &#8220;superf&#237;cie digital da linguagem&#8221;, n&#227;o h&#225; linguagem simb&#243;lica.</p><p>5.</p><p>Isso parece complicar a met&#225;fora da &#8220;superf&#237;cie&#8221;. A superf&#237;cie est&#225; integrada com o <em>embaixo</em>, e assim &#233; necess&#225;ria uma boa met&#225;fora para o &#8220;abaixo da superf&#237;cie&#8221;.</p><p>A tenta&#231;&#227;o de seguir pensando em termos geol&#243;gicos &#233; grande. Saussure, no <em>Curso de Lingu&#237;stica Geral</em>, valeu-se de met&#225;foras como a do jogo de xadrez mas tamb&#233;m de met&#225;foras da economia e da geologia. N&#227;o &#233; estranho, portanto, esse vocabul&#225;rio de &#8220;superf&#237;cie&#8221;, &#8220;camadas&#8221;, &#8220;estratos&#8221;, &#8220;subsolo&#8221;. Mas n&#227;o podemos pensar em camadas bem sedimentadas e definidas que se superp&#245;em. Quando viajamos por uma estrada rec&#233;m-aberta, cuja execu&#231;&#227;o exigiu o corte de montes e colinas, conseguimos ver as camadas de terreno que se sedimentaram ali no curso de s&#233;culos. Esse modelo n&#227;o serve para pensar a cogni&#231;&#227;o humana, pois nela as camadas parecem se mover, penetrar umas nas outras; dobram-se, se rompem, surgem novas configura&#231;&#245;es. A analogia vai para o lado das <em>mudan&#231;as tect&#244;nicas</em>: o que acontece na crosta da linguagem tem tudo a ver com os movimentos da coisa toda. A superf&#237;cie da linguagem n&#227;o &#233; inerte, &#233; formada e reformada continuamente por for&#231;as que operam sobre ela, vindas de todos os lados.</p><p>6.</p><p>Saussure escreveu que o pensamento humano, tomado em si mesmo, mais se compara a uma massa ca&#243;tica, amorfa, indistinta, flutuante, &#8220;uma nebulosa onde nada est&#225; necessariamente delimitado&#8221;. E o surgimento das &#8220;unidades da l&#237;ngua&#8221; &#233; algo &#8220;de certo modo misterioso&#8221;. H&#225;, de um lado, &#8220;a massa amorfa e indistinta&#8221;, &#8220;confusa&#8221;, das experi&#234;ncias de pensamentos ca&#243;ticos. De outro, uma mat&#233;ria f&#244;nica, uma subst&#226;ncia f&#244;nica: de que modo essas duas realidades confusas se unem? A met&#225;fora que ele usa &#233; essa:</p><blockquote><p>&#8220;Imaginemos o ar em contato com uma capa de &#225;gua: se muda a press&#227;o atmosf&#233;rica, a superf&#237;cie da &#225;gua se decomp&#245;e numa s&#233;rie de divis&#245;es, vale dizer, de vagas; s&#227;o essas ondula&#231;&#245;es que dar&#227;o uma ideia da uni&#227;o e, por assim dizer, do acoplamento do <em>pensamento</em> com a <em>mat&#233;ria f&#244;nica</em>&#8221;. (<em>CLG</em>, 131).</p></blockquote><p>Na origem de nossas l&#237;nguas h&#225; sempre, esse &#8220;<em>fato, de certo modo misterioso</em>&#8221;: as unidades da l&#237;ngua surgem a partir das rela&#231;&#245;es entre duas massas amorfas, os &#8220;pensamentos confusos&#8221; e a &#8220;mat&#233;ria f&#244;nica&#8221;.</p><p>&#8220;Uma l&#237;ngua&#8221;, ele insistia, &#8220;n&#227;o &#233; um <em>mecanismo</em> criado e ordenado com vistas a conceitos a exprimir.&#8221; Uma l&#237;ngua est&#225; muito mais para o lado de ser um sistema, talvez um organismo? Quero apenas lembrar que ele usava, alternadamente, palavras como &#8220;pensamento&#8221;, &#8220;ideia&#8221;, &#8220;conceito&#8221;, &#8220;significado&#8221;, &#8220;sentido&#8221;, e essas coisas n&#227;o existiriam previamente ao meio f&#244;nico.</p><p>7.</p><p>Uma desvantagem da met&#225;fora da &#8220;superf&#237;cie digital da linguagem&#8221; &#233; que, se ela for tomada literalmente, pode sugerir algo est&#225;tico, como uma membrana ou uma interface pronta, na qual grudamos, de algum modo, conceitos, ideias, pensamentos, significa&#231;&#245;es, ou algo como uma tela de computador, com os pixels prontos para receber os conte&#250;dos. Afinal, se algo &#233; digital, esse algo precisa ter uma forma discreta, cont&#225;vel, est&#225;vel. Isso &#233; correto, mas n&#227;o &#233; incompat&#237;vel com uma vis&#227;o panor&#226;mica da tal superf&#237;cie: ela n&#227;o &#233; uma coisa inerte.</p><p>Na tradi&#231;&#227;o filos&#243;fica que predominou, at&#233; o final do s&#233;culo XIX, foi essa vis&#227;o que predominou: de um lado estariam ideias, pensamentos, percep&#231;&#245;es, representa&#231;&#245;es, conceitos; e, de outro, a roupa deles, as palavras; h&#225;, de um lado, uma cadeia de pensamentos, um discurso mental, que &#233; transformado, por meio da inven&#231;&#227;o da linguagem, em uma cadeia de palavras. De Hobbes a Saussure, a solu&#231;&#227;o foi essa: pensar a linguagem como uma <em>inven&#231;&#227;o</em>, um <em>mecanismo</em>, uma <em>roupagem</em> que veste as ideias: mais met&#225;foras! Hobbes, Locke, os l&#243;gicos de Port-Royal, fixaram essa descri&#231;&#227;o que atravessou s&#233;culos.</p><p>Uma boa descri&#231;&#227;o dessa hist&#243;ria est&#225; no livro de Gordon Baker &amp; Peter Hacker, <em>Linguagem, sentido e absurdo: uma investiga&#231;&#227;o cr&#237;tica das teorias modernas da linguagem</em>. H&#225; uma tradu&#231;&#227;o do primeiro cap&#237;tulo, no meu Academia.edu.</p><p>Voltarei &#224; superf&#237;cie, espero.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[# Digiana 55 - Sobre a superfície digital da linguagem (III)]]></title><description><![CDATA[Desacoplamento, desengate, desfus&#227;o: sobre os la&#231;os entre o gume e o sentido das palavras.]]></description><link>https://ronai.substack.com/p/digiana-55-sobre-a-superficie-digital</link><guid isPermaLink="false">https://ronai.substack.com/p/digiana-55-sobre-a-superficie-digital</guid><dc:creator><![CDATA[Ronai Pires da Rocha]]></dc:creator><pubDate>Mon, 26 Jan 2026 13:10:49 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!YGql!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff648bb24-09ab-4628-ad35-34f8129f1427_2818x3798.heic" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!YGql!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff648bb24-09ab-4628-ad35-34f8129f1427_2818x3798.heic" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!YGql!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff648bb24-09ab-4628-ad35-34f8129f1427_2818x3798.heic 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!YGql!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff648bb24-09ab-4628-ad35-34f8129f1427_2818x3798.heic 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!YGql!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff648bb24-09ab-4628-ad35-34f8129f1427_2818x3798.heic 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!YGql!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_webp, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff648bb24-09ab-4628-ad35-34f8129f1427_2818x3798.heic 1456w" sizes="100vw"><img src="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!YGql!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff648bb24-09ab-4628-ad35-34f8129f1427_2818x3798.heic" width="1456" height="1962" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/f648bb24-09ab-4628-ad35-34f8129f1427_2818x3798.heic&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:1962,&quot;width&quot;:1456,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:561530,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/heic&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://ronai.substack.com/i/185836142?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff648bb24-09ab-4628-ad35-34f8129f1427_2818x3798.heic&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!YGql!, /__u/ronai.substack.com/w_424, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff648bb24-09ab-4628-ad35-34f8129f1427_2818x3798.heic 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!YGql!, /__u/ronai.substack.com/w_848, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff648bb24-09ab-4628-ad35-34f8129f1427_2818x3798.heic 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!YGql!, /__u/ronai.substack.com/w_1272, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff648bb24-09ab-4628-ad35-34f8129f1427_2818x3798.heic 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!YGql!, /__u/ronai.substack.com/w_1456, /__u/ronai.substack.com/c_limit, /__u/ronai.substack.com/f_auto, /__u/ronai.substack.com/q_auto:good, /__u/ronai.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff648bb24-09ab-4628-ad35-34f8129f1427_2818x3798.heic 1456w" sizes="100vw" fetchpriority="high"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p></p><p>1.</p><p>No <em>Digiana 54 </em>dei exemplos da &#8220;camada digital da linguagem&#8221;. Citei, por exemplo, um trecho de Edgar Allan Poe, no qual o personagem descreve como ficava absorto e contemplativo, por vezes observando, toda uma noite, as brasas da lareira, ou ainda, a<em> &#8220;repetir monotonamente alguma palavra banal, at&#233; que o som, devido &#224; frequente repeti&#231;&#227;o, impedisse a transmiss&#227;o de qualquer ideia ao esp&#237;rito.&#8221;</em></p><p>As crian&#231;as sabem como isso funciona: repetimos uma palavra continuamente, e, em poucos segundos ela parece perder o sentido, &#8220;n&#227;o transmite qualquer ideia ao esp&#237;rito&#8221;. O que acontece &#233; uma esp&#233;cie de desacoplamento entre o som e o sentido, entre o <em>f&#244;nico</em> e o <em>sem&#226;ntico</em>.</p><p>2.</p><p>H&#225; uma tradi&#231;&#227;o de terapia que usa procedimentos inspirados nessa ideia. Remeto o leitor aqui a um livro dispon&#237;vel nas boas casas do ramo (tem na <em>Cesma</em>, por exemplo), o <em>Terapia cognitivo-comportamental baseada em processos</em>, organizado por Steven C. Hayes e Stefan G. Hofmann. O cap&#237;tulo 23 &#233; dedicado a esse tema, com o nome de &#8220;desfus&#227;o cognitiva&#8221;. O autor, J. T. Blackledge, psic&#243;logo, esclarece que a</p><blockquote><p>&#8220;desfus&#227;o cognitiva se refere ao processo de redu&#231;&#227;o das fun&#231;&#245;es emocionais e comportamentais autom&#225;ticas dos pensamentos pelo aumento da consci&#234;ncia sobre o processo de pensar para al&#233;m do conte&#250;do ou significado literal do pensamento&#8221;.</p></blockquote><p>O que fica suposto aqui &#233; que, por vezes, e pelas mais variadas <em>causas, raz&#245;es e motivos</em>, temos pensamentos que s&#227;o acompanhados por vastas emo&#231;&#245;es, muitas vezes ruins. A coisa &#233; meio autom&#225;tica; vem um certo pensamento, <em>pimba</em>, vem junto uma certa emo&#231;&#227;o e a coisa &#233; ruim. E, &#233; claro, uma coisa &#233; o pensamento, outra coisa &#233; a emo&#231;&#227;o; gostar&#237;amos de desconectar do pensamento aquelas situa&#231;&#245;es emocionais e comportamentais que est&#227;o automaticamente ligados a ele. Uma compara&#231;&#227;o ajuda aqui, basta lembrar que nos autom&#243;veis h&#225; um sistema que nos permite desacoplar o motor da transmiss&#227;o, a embreagem. Ela desacopla a energia transmitida pelo motor das rodas, por assim dizer. Alguns psic&#243;logos chamam isso de &#8220;desfus&#227;o&#8221;.</p><p>3.</p><p>Essa palavra, &#8220;desfus&#227;o&#8221;, entrou em voga no come&#231;o deste s&#233;culo; ela indica a mesma dire&#231;&#227;o das demais: &#8220;desliteraliza&#231;&#227;o&#8221;, &#8220;distanciamento&#8221;, &#8220;descentraliza&#231;&#227;o&#8221;. A ideia, desenvolvida no contexto das terapias cognitivo-comportamentais, &#233; levar o paciente a interpretar menos literalmente seus pensamentos problem&#225;ticos. Em pedagogia isso pode indicar uma estrat&#233;gia para o professor lidar com os estudantes mais ansiosos, que precisam, antes de tudo, <em>ter paci&#234;ncia com eles mesmos</em>.</p><p>Temos ent&#227;o esse ros&#225;rio de express&#245;es, desfus&#227;o (<em>defusion</em>), desliteraliza&#231;&#227;o, distanciamento, descentraliza&#231;&#227;o, desacoplamento, debreagem, que apontam para o mesmo alvo: algum tipo de <em>corte</em> entre a pessoa e seus pr&#243;prios pensamentos. Nas terapias comportamentais &#233; comum o paciente ter pensamentos negativos sobre si mesmo. Ele repete frases sobre seu fracasso. A terapia procura criar algum distanciamento entre o paciente e esses pensamentos. A estrat&#233;gia sup&#245;e o reconhecimento de que h&#225; um n&#237;vel, <em>superficial</em>, no qual a linguagem opera e outro n&#237;vel, <em>subjacente</em>, no qual ela est&#225;, por assim dizer,<em> fundida, colada. </em>Os autores falam ent&#227;o em &#8220;desfundir&#8221; os dois n&#237;veis. Um deles, o superficial, &#233;, por assim dizer, automatizado, e pode estar, pelas mais variadas <em>causas, motivos e raz&#245;es</em>, fundido ao outro (que &#233; emocional, comportamental, brutalmente pessoal.</p><p>4.</p><p>A desfus&#227;o, nas palavras que estou usando aqui, a partir de Ruth Millikan, consiste em <em>tornar expl&#237;cita a distin&#231;&#227;o entre a superf&#237;cie digital e os processos subjacentes</em>. Aquela frase que a gente repete automaticamente (&#8220;sou um fracassado&#8221;), precisa ser colocada &#224; dist&#226;ncia da gente mesmo, pois ela n&#227;o &#233; uma descri&#231;&#227;o do mundo, como &#8220;o gato est&#225; no tapete&#8221;.</p><p>Penso que, pelo lado de Freud, as coisas v&#227;o na mesma dire&#231;&#227;o. As descri&#231;&#245;es dele sobre o modo de funcionamento do inconsciente colocam no centro processos de associa&#231;&#227;o de ideias, condensa&#231;&#227;o, deslocamentos, met&#225;foras, meton&#237;mias, que s&#227;o de natureza anal&#243;gica. Freud tamb&#233;m trabalha com algum tipo de distin&#231;&#227;o entre a superf&#237;cie da linguagem e n&#237;veis subjacentes. E, se o inconsciente &#233; estruturado como uma linguagem, como se diz, parece evidente que tal linguagem funciona por deslizamentos, deslocamentos, condensa&#231;&#245;es; n&#227;o &#233; uma linguagem digital, em sua superf&#237;cie. Nesse sentido, as terapias freudianas e as cognitivo-comportamentais partilham algo, a saber, que h&#225; uma teia complexa entre os processos afetivos e comportamentais e a superf&#237;cie digital da linguagem (as coisas que dizemos sobre n&#243;s mesmos, as nossas cren&#231;as explicitas, os memes que repetimos sobre n&#243;s mesmos). Dentro da gente h&#225; um iceberg de analogias, que n&#227;o &#233; descongelado pela simples substitui&#231;&#227;o de uma frase por outra. Se estou convencido sobre falta de reconhecimento ou persegui&#231;&#227;o, n&#227;o basta que me mostrem alguma evid&#234;ncia. Esses buracos, como se diz, s&#227;o fundos. O terapeuta n&#227;o &#233; um corretor de cren&#231;as, <em>n&#227;o basta mexer na superf&#237;cie da linguagem</em>, trocar de pensamentos.</p><p>5.</p><p>O conceito de desfus&#227;o implica que os pensamentos t&#234;m, ao menos, duas dimens&#245;es: um conte&#250;do, que &#233; uma esp&#233;cie de significado literal, que pode ser ou verdadeiro ou falso, como no exemplo simples do gato no tapete. Esse conte&#250;do proposicional &#233; materializado em formato digital, na forma de uma frase como &#8220;o gato est&#225; no tapete&#8221;, &#8220;sou um fracasso&#8221; e outra que est&#225; mais para uma fun&#231;&#227;o comportamental, emocional. O pensamento pode disparar sentimentos e respostas.</p><p><em>A desfus&#227;o focaliza a fun&#231;&#227;o comportamental. </em>&#201; claro que podemos nos perguntar se a frase representa corretamente as coisas, se o gato de fato est&#225; no tapete ou se sou, de fato, um fracassado, mas a situa&#231;&#227;o terap&#234;utica est&#225; focada n<em>o papel, na fun&#231;&#227;o, na utilidade </em>dessa frase no nosso sistema cognitivo-comportamental.</p><p>6.</p><p>Os procedimentos que conduzem &#224; desfus&#227;o, sejam as brincadeiras infantis, os procedimentos dos terapeutas, parecem evidenciar uma distin&#231;&#227;o entre a <em>superf&#237;cie digital da linguagem</em> e os <em>processos anal&#243;gicos subjacentes</em>.</p><p>7.</p><p>A coisa n&#227;o fica nisso. H&#225; um equivalente na dimens&#227;o social e pol&#237;tica de usos da linguagem. A repeti&#231;&#227;o exagerada de express&#245;es pode tamb&#233;m contribuir para <em>de</em>grad&#225;-las. Qualquer cr&#237;tica genu&#237;na a qualquer coisa tem a ver mais com a aten&#231;&#227;o genu&#237;na que prestamos &#224; realidade do que com a repeti&#231;&#227;o de uma frase ou f&#243;rmula. Como diria Bourdieu, o capital simb&#243;lico pode ser inflacionado e degradado. Pode haver uma esp&#233;cie de satura&#231;&#227;o sem&#226;ntica no n&#237;vel social, envolvendo as ideias mais cr&#237;ticas que podemos imaginar. Isso fica para outra vez.</p>]]></content:encoded></item></channel></rss>