<script data-pm-proxy="intercept"></script><?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Dahl de Letrinhas]]></title><description><![CDATA[Fermentando ideias, cozinhando palavras.
Um pedacinho de resistência em tempos de ChatGPT.]]></description><link>https://ruanfelix.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ZcFd!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fruanfelix.substack.com%2Fimg%2Fsubstack.png</url><title>Dahl de Letrinhas</title><link>https://ruanfelix.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Sat, 05 Sep 2026 08:22:28 GMT</lastBuildDate><atom:link href="/__u/ruanfelix.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Ruan Felix]]></copyright><language><![CDATA[pt]]></language><webMaster><![CDATA[ruanfelix@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[ruanfelix@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Ruan Felix]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Ruan Felix]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[ruanfelix@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[ruanfelix@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Ruan Felix]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[Kimchi das ideias]]></title><description><![CDATA[Ainda pouco vi um reel de um amigo cozinheiro onde o roteiro e a legenda do post eram totalmente IA.]]></description><link>https://ruanfelix.substack.com/p/kimchi-das-ideias</link><guid isPermaLink="false">https://ruanfelix.substack.com/p/kimchi-das-ideias</guid><dc:creator><![CDATA[Ruan Felix]]></dc:creator><pubDate>Sat, 18 Apr 2026 19:16:06 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<p>Ainda pouco vi um reel de um amigo cozinheiro onde o roteiro e a legenda do post eram totalmente IA. Era a fa&#237;sca que eu precisava pra escrever de vez esse texto, que j&#225; maturava na minha mente h&#225; um tempo.</p><p>Acho que todo mundo com um m&#237;nimo de bom senso j&#225; t&#225; saturado de textos escritos por intelig&#234;ncia artificial. Todos com a profundidade de um pires. Mas me incomoda um pouco mais ver quanto a urg&#234;ncia por produ&#231;&#227;o de conte&#250;do anda completamente atrelada ao uso de IA. </p><p>Reclamo sobre essa &#8220;press&#227;o&#8221; por novos conte&#250;dos sempre que tenho oportunidade. Acho cansativa essa rela&#231;&#227;o com uma rede social que tecnicamente &#233; gratuita mas te faz trabalhar o tempo inteiro. Que punindo quem n&#227;o a alimenta todos os dias como manda o script dos grandes gurus, acaba gerando uma legi&#227;o de criadores que &#8220;criam&#8221; apenas para preencher seu  insaci&#225;vel apetite algor&#237;tmico. </p><p>Mas quem tem ideias todos os dias?</p><p>O que eu venho observando &#233; apenas um enorme copia e cola de conte&#250;do (que agora chamam de trend), reciclagem de conte&#250;dos antigos (tenho um amigo que t&#225; ensinando hamburguinho de lentilha e peixe vegano tem uma d&#233;cada), e bem recentemente, posts feitos com uso de IA. A prova necess&#225;ria de que a mente humana n&#227;o &#233; capaz de criar na mesma velocidade que as redes sociais exigem.</p><p>Eu at&#233; tentei, mas como j&#225; tenho in&#250;meras quest&#245;es com a minha rela&#231;&#227;o com m&#237;dias sociais, n&#227;o consegui aderir a esse ritmo fren&#233;tico. E c&#225; estou eu novamente com meu novo hiperfoco liter&#225;rio que &#233; falar sobre tempo.</p><p>Sim, tempo. Porque pra esse deus midi&#225;tico qualquer refei&#231;&#227;o serve. </p><p>Tem quem sirva todo dia um arroz e feij&#227;o bem b&#225;sico e bem feito, ou at&#233; mesmo um cozido delicioso feito por horas de panela em fogo baixo.</p><p>Mas tem tamb&#233;m quem na avidez de n&#227;o ser esquecido ou punido, faz um CupNoodles. Algo que tem cara de CupNoodles, cheiro de CupNoodles, mas ainda querem te fazer acreditar que &#233; um r&#225;men feito do zero.</p><p>Eu tenho escolhido fazer parte de um outro grupo: o do kimchi das ideias.</p><p>Quero ser uma <a href="https://www.instagram.com/cebolanamanteiga/">Carol Dini</a> dos pensamentos. Ter uma ideia e deixar ela fermentar na cabe&#231;a. Sem um centavo de pressa. Deixar o sabor apurar, ficar &#225;cido, umamudo. Porque pensamentos, assim como boas comidas, levam tempo. E se o deus algor&#237;tmico quer algo de mim, que ele coma meus kimchis de ideias. Nada de CupNoodles de microondas ou textos de IA todos os dias. &#201; o que t&#244; disposto a oferecer. </p><p>Apenas um pensamento maturado a cada duas semanas e olhe l&#225;, porque &#224;s vezes a fermenta&#231;&#227;o d&#225; errado tamb&#233;m n&#233;? Quem aqui nunca teve uma ideia embolorada?</p><p>Ent&#227;o nesse caldeir&#227;o de textos industrializados pela IA eu prefiro cuidar das minhas bact&#233;rias criativas e aceitar que &#224;s vezes o lote vai mofar e vou ter que jogar tudo fora para recome&#231;ar.</p><p>&#201; isso, pessoal. O banquete t&#225; servido, mas s&#243; quando a fermenta&#231;&#227;o permitir. </p><p>Bom apetite <s>pra quem tiver paci&#234;ncia</s>.</p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[E lá vamos nós de novo...]]></title><description><![CDATA[Ou quem quer ler um chef de cozinha?]]></description><link>https://ruanfelix.substack.com/p/e-la-vamos-nos-de-novo</link><guid isPermaLink="false">https://ruanfelix.substack.com/p/e-la-vamos-nos-de-novo</guid><dc:creator><![CDATA[Ruan Felix]]></dc:creator><pubDate>Wed, 08 Apr 2026 03:12:26 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<p>Nem sei como come&#231;ar a escrever esse texto. T&#244; enferrujado. N&#227;o escrevo tem exatas duas semanas. Fui sugado pelo ciclone gastron&#244;mico da minha vida com um <em>combo encomendas de P&#225;scoa + evento privado </em>e s&#243; consegui me libertar agora. N&#227;o tive tempo nem pra assistir minhas aulas de escrita criativa.</p><p>Ah, &#233; verdade, as aulas.</p><p>N&#227;o sei se voc&#234;s sabem mas eu tava cursando nutri&#231;&#227;o. Tava disposto a abandonar de vez a gastronomia dentro de quatro anos. C&#234;s devem imaginar, aquele lance todo com o restaurante fez um belo estrago num psicol&#243;gico que j&#225; n&#227;o caminhava muito bem.</p><p>Da&#237; cansado dessa vida cretina de ficar em p&#233; por horas numa cozinha beirando cinquenta graus e sob press&#227;o constante, eu decidi que queria algo melhor. Decidi que o Ruan do futuro <strong>merecia </strong>uma vida mais confort&#225;vel. Uma salinha modesta com ar-condicionado e uma poltrona aconchegante dariam conta. Sem falar do &#8220;conforto financeiro&#8221;. Porque mesmo que eu pegue 20 mil, sei l&#225;, com um agiota, e decore minha salinha de atendimento, isso n&#227;o chega perto dos custos pra se ter um restaurante. C&#234;s tem no&#231;&#227;o que s&#243; um forno combinado j&#225; custaria esse montante?</p><p>Reconheci que ter um restaurante no n&#237;vel do Mag&#225; n&#227;o &#233; um sonho pra algu&#233;m da classe trabalhadora como eu e que uma salinha pra atender meus pacientes loucos pra injetar 800 litros de tirzepatida &#233; muito mais poss&#237;vel de sonhar. E pensar nessa nova possibilidade de vida me nutriu de esperan&#231;a.</p><p>Foi dif&#237;cil tomar a iniciativa de me matricular num curso novo. Na minha cabe&#231;a, com 30 anos eu j&#225; t&#244; velho pra come&#231;ar uma nova gradua&#231;&#227;o. Que tolice.</p><p>Ent&#227;o eu pesei as situa&#231;&#245;es. O que eu queria pra vida? <em><strong>Ter as mesmas queixas sobre gastronomia daqui 4 anos ou ter uma nova possibilidade no final desse mesmo per&#237;odo? - </strong></em>Me matriculei.</p><p>Nem quero falar muito sobre a experi&#234;ncia de primeiro semestre. Passei em todas as mat&#233;rias com louvor sim porque sou uma bruaca esfor&#231;ada. Mas a que custo? </p><p>Foi ent&#227;o que no come&#231;o do ano, como falei um pouco <strong><a href="/__u/open.substack.com/pub/ruanfelix/p/verborragica-demais-pra-caber-num?utm_campaign=post-expanded-share&amp;utm_medium=post%20viewer">aqui</a>, </strong>eu decidi que queria mesmo era escrever.</p><p>Tranquei a faculdade de nutri&#231;&#227;o, comprei livros sobre escrita criativa, busquei algumas aulas livres e agora me inscrevi num curso maior. E olha, que diferen&#231;a do Ruan estudante de uma &#225;rea pra outra. Eu me interessei e anotei muito mais coisas em uma aula de escrita do que em um semestre inteiro de anatomia. Seria esse um livramento dos meus poss&#237;veis futuros pacientes? Nunca saberemos.</p><p>O que eu sei &#233; que nutri&#231;&#227;o n&#227;o me faz brilhar os olhos tanto quanto escrita. E por que n&#227;o usar das gastronomia pra alcan&#231;ar esse sonho? Confesso que cozinhar agora tem sido at&#233; mais prazeroso sabendo que &#233; um meio que tem me permitido sonhar novos sonhos.</p><p>E como disse Tim Bernardes: &#8220;&#8230;eu vou sonhar mais uma vez, <em><strong>porque se o sonho acabou</strong></em>, n&#227;o &#233; um sonho velho que vai acabar comigo.&#8221;</p><p>Mas sem romantiza&#231;&#227;o, n&#227;o &#233; t&#227;o f&#225;cil assim conciliar as duas profiss&#245;es viu? A semana passada onde eu mais cozinhei que escrevi &#233; uma prova disso.</p><p>Ali&#225;s, que horas que eu posso dizer que sou escritor? </p><p>Semana passada eu vi uma s&#233;rie maravilhosa chamada Juntas &amp; Misturadas, e nela tinha uma personagem que abandonou a carreira de sucesso no direito pra se tornar atriz. E bom, ela n&#227;o era uma das melhores atrizes mas pelo menos teve coragem de enfrentar essa transi&#231;&#227;o de carreira.</p><p>Inclusive teve uma cena bem marcante pra mim, que foi a hora dela preencher um formul&#225;rio com sua profiss&#227;o e no autom&#225;tico ela j&#225; escreveu um A e parou, decidindo se colocava advogada ou atriz.</p><p>Que horas eu tive coragem de me declarar chef em p&#250;blico?</p><p>Fui eu que decidi ou as pessoas decidiram por mim?</p><p>Quantas aulas eu tive que assistir, quantos cursos eu tive que fazer, quantos lugares tive que estagiar pra me sentir pronto pra essa declara&#231;&#227;o?</p><p>Vai ser assim com a escrita tamb&#233;m?<br>Talvez eu n&#227;o seja t&#227;o bom escritor quanto chef de cozinha, mas espero que assim como a personagem da s&#233;rie, tamb&#233;m n&#227;o me falte coragem de ser med&#237;ocre pelo que me faz brilhar os olhos.</p><p>E por mais que seja um recome&#231;o, um reinicio, e que eu tenha a impress&#227;o de que estou enterrando 12 anos dedicados &#224; cozinha, n&#227;o posso deixar de notar as semelhan&#231;as que existem no caminho entre a gastronomia e a literatura.</p><p>Lembro do dia que meu av&#244; faleceu. Eu tinha um evento marcado e n&#227;o podia desmarcar. Precisava da grana. Ningu&#233;m foi. Lembro de chorar escondido num banquinho da cozinha, pelo fracasso, pelo meu av&#244;. Lembro das tantas outras vezes que chorei porque cozinhar <em>n&#227;o estava dando certo</em>.</p><p>E hoje vejam s&#243; se eu n&#227;o loto uma turma online disposta a me escutar falando por 2h sobre constru&#231;&#227;o de sabores. Coisas que eu j&#225; falava h&#225; seis, oito anos mas s&#243; agora modelado e maturado pelo tempo eu tenho mais credibilidade. Uma bel&#237;ssima fermenta&#231;&#227;o selvagem carioca (RAWR!). Foi o tempo e a insist&#234;ncia que me trouxeram reconhecimento. </p><p>E n&#227;o vai ser o mesmo com a escrita?</p><p>Quantos eventos frustrados eu vou ter?</p><p>Quantos likes pingados meus textos v&#227;o receber?</p><p>Tudo &#233; uma quest&#227;o de tempo n&#227;o &#233; mesmo?</p><p>O jovem adventista que habita em mim n&#227;o pode deixar de lembrar de uma das poucas passagens b&#237;blicas que gosto, que diz que <em><strong>tudo tem o seu tempo determinado, e h&#225; tempo para todo o prop&#243;sito debaixo do c&#233;u. </strong></em></p><p>Quantos cortes eu j&#225; n&#227;o fiz na m&#227;o tentando cortar cebola do jeito certo? Quantos travess&#245;es, hifens e crases eu n&#227;o vou errar a cada texto?</p><p>Tolerem meus v&#237;cios de linguagem assim como toleraram a salsinha mal picada que finalizava meus pratos. Elas v&#227;o melhorar. Eu sei que v&#227;o.</p><p>Tolerem minha rigidez e minha falta de fluidez na escrita da mesma maneira que toleravam meu <em>hommus </em>aguado com pouco <em>tahine</em>.</p><p>Eu olho pra qualquer livro de escritores que admiro com o mesmo olhar que costumava ter enquanto via um chef cortando tomates <em>concass&#233; </em>perfeitos. Inclusive tenho o mesmo questionamento: ser&#225; que um dia eu vou conseguir fazer t&#227;o bem quanto ele? - Sobre os textos eu n&#227;o sei, mas meus tomates s&#227;o perfeitos, obrigado.</p><p>J&#225; decidi que t&#244; disposto a bancar esse processo de matura&#231;&#227;o que &#233; a nova vida liter&#225;ria. Cabe a quem me l&#234; decidir se vai sustentar assistir de camarote uma transi&#231;&#227;o de carreira ao vivo assim.</p><p>Quem sabe, assim como quem acompanhou meu falafel de fradinho e meus quiabos grelhados, daqui 12 anos voc&#234; n&#227;o pode dizer que me lia desde que comecei a escrever.</p><p><em>Do seu chef (e futuro escritor) favorito,</em></p><p><em><strong>Ruan Felix</strong></em></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Ensaios para um reencontro]]></title><description><![CDATA[Elisama Santos, voc&#234; n&#227;o tinha esse direito de acabar comigo]]></description><link>https://ruanfelix.substack.com/p/ensaios-para-um-reencontro</link><guid isPermaLink="false">https://ruanfelix.substack.com/p/ensaios-para-um-reencontro</guid><dc:creator><![CDATA[Ruan Felix]]></dc:creator><pubDate>Wed, 25 Mar 2026 13:22:49 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<p>Quarta-feira, 25 de mar&#231;o de 2026</p><p>Foi uma noite at&#237;pica por aqui. Apesar de abafada e pegajosa como tem sido as &#250;ltimas noites, tinha um sil&#234;ncio profundo diferenciado. N&#227;o que a casa onde moro hoje seja rodeada de barulhos. N&#227;o mais. Felizmente. Mas essa noite em espec&#237;fico teve um sil&#234;ncio incomum. Como se o tempo tivesse parado enquanto eu lia. E talvez tivesse parado mesmo.</p><p>Quando eu coloquei Ensaios de Despedida como op&#231;&#227;o pra vota&#231;&#227;o da minha pr&#243;xima leitura n&#227;o imaginei o quanto de mim ela devoraria. E olha que n&#227;o foi por falta de aviso. Fui avisado sim. Coincid&#234;ncia ou n&#227;o, apenas por mulheres.</p><p>Fui sem saber muito al&#233;m do que li nas sinopses de internet e tive dificuldades nas primeiras p&#225;ginas, j&#225; que n&#227;o esperava esse formato de narrativa. Amo escrever, enviar e receber. Principalmente as mais rid&#237;culas, segundo Fernando Pessoa. Mas confesso que ler cartas em livros n&#227;o &#233; muito minha praia.</p><p>Pelo tamanho jurei que leria na metade de um dia.</p><p>N&#227;o podia estar mais enganado.</p><p>Como pode um livro de menos de 250 p&#225;ginas ser t&#227;o denso?</p><p>Interrompi a leitura muitas vezes pra poder respirar, pra poder refletir e pra poder relembrar.</p><p>E relembrar o que se n&#227;o sou mulher, n&#227;o sou m&#227;e? Mas cada pedacinho desse livro me fez pensar na minha. Cada p&#225;gina me embrulhava mais o est&#244;mago e apertava mais o cora&#231;&#227;o.</p><p>Assim como a Cristina, minha m&#227;e tamb&#233;m n&#227;o era dada a expor muito o que sentia ou pensava. Percebi alguns desconfortos n&#227;o verbalizados depois de muita observa&#231;&#227;o da minha inf&#226;ncia at&#233; a adolesc&#234;ncia.</p><p>Escrevi esse texto durante a madrugada, logo ap&#243;s terminar de ler o livro. Achei que precisava da leitura ainda bem fresca na mem&#243;ria pra impulsionar minha escrita. S&#243; que esse livro foi como um daqueles pratos deliciosos que voc&#234; se regozija ao comer mas que durante a madrugada te tira o sono. Demorei a dormir, digerindo cada p&#225;gina.</p><p>No primeiro texto da noite, escrito no meu bloco de notas por pura pregui&#231;a de abrir o notebook, eu disse que minha m&#227;e ensaiou pouco sua despedida. Durante a madrugada, desperto, lembrei que estava enganado. Ela vinha ensaiando sua despedida h&#225; mais tempo. Lembrei de Maric&#225; nos anos 90, de uma primeira separa&#231;&#227;o e depois de um perd&#227;o atravessado, assim como o da Cristina ao ver seu marido na porta ap&#243;s sumir por 2 anos e voltar como se nada tivesse acontecido.</p><p>Existem detalhes que n&#227;o me pertencem, e muito provavelmente existem alguns que me envolvem, e quem sabe eu s&#243; v&#225; descobrir em cartas escritas por elas daqui alguns anos.</p><p>Mas existem dores nesse livro que compartilho com ela. Que me atravessam tamb&#233;m. Porque diferente da Maria Izabel eu sempre estive ao lado dela. Mesmo quando ainda sequer imaginava a complexidade de um relacionamento.</p><p>Fui eu quem chorou abra&#231;ado com ela numa cama na nossa recente mudan&#231;a ap&#243;s a &#250;ltima e definitiva separa&#231;&#227;o porque mesmo divorciados, a viol&#234;ncia do meu progenitor ainda transbordava e inundava qualquer endere&#231;o que ocup&#225;ssemos. Fui eu que prometi nesse dia que nossa vida seria diferente a partir dali.</p><p>E c&#225; estou eu, 13 anos depois, apreciando que os ensaios de despedida de minha m&#227;e n&#227;o ficaram apenas no papel. Aprecio poder ter estado nos bastidores incentivando o momento que ela diria estar pronta pra ir. Aprecio toda a coragem que teve de poder viver a vida longe da sombra de algu&#233;m que tanto desrespeitava, anulava, violava. Por pintar o cabelo da cor que queria pintar, por falar do jeito que queria falar, comer o que queria comer, viver como gostaria de viver.</p><p>Cristina disse que &#8220;&#224;s vezes a gente esquece que t&#225; viva&#8221;, mas eu t&#244; aqui pra lembrar. Minha m&#227;e n&#227;o sabe, mas amanh&#227; vamos ao teatro ver um musical com m&#250;sicas do Roberto. Foi ela quem me ensinou a gostar. Assim como minha v&#243; ensinou a ela. E cada vez que sa&#237;mos juntos pra fazer algo que &#8220;n&#227;o pertence ao seu mundo&#8221; me lembro de uma mensagem dela  me agradecendo por fazer ela conhecer lugares que nunca sonhou conhecer. Da foto dela na Escadaria Selaron, da foto observando as obras de um museu como uma crian&#231;a deslumbrada com um mundo novo, da foto dela numa praia aqui de Santa Catarina.</p><p>Que bom que essa despedida aconteceu.</p><p>Que bom te ver se reencontrando.</p><p>Que bom te ver vivendo, Cristina. Ou devo dizer, L&#233;ia?</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O mercador de ração]]></title><description><![CDATA[Essa &#233; a hist&#243;ria de Ninurta.]]></description><link>https://ruanfelix.substack.com/p/o-mercador-de-racao</link><guid isPermaLink="false">https://ruanfelix.substack.com/p/o-mercador-de-racao</guid><dc:creator><![CDATA[Ruan Felix]]></dc:creator><pubDate>Wed, 11 Mar 2026 04:06:12 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<p>Essa &#233; a hist&#243;ria de Ninurta. Ou Nino, para os mais chegados. Assim como Raul, nascido h&#225; 10 mil anos atr&#225;s.</p><p>Filho de agricultores, Nino era possuidor de uma vontade de viver que transbordava as fronteiras do Tigre e do Eufrates. Vivia sempre com a cabe&#231;a mais suspensa que os jardins, e frequentemente recebia bronca de seus pais para se concentrar mais na terra que nas nuvens.</p><p>Apesar de ter espichado nos &#250;ltimos dois anos, ainda se sentia mi&#250;do em meio a multid&#227;o euf&#243;rica que se concentrava e acotovelava no caminho da prociss&#227;o, no festival Akitu. Enquanto durante todo o ano, tudo que podiam fazer era ofertar oferendas e ora&#231;&#245;es diariamente, sem nunca poder entrar nos templos, aquele era o &#250;nico momento onde podiam ver mais de perto pelo menos um pedacinho de seus deuses-patronos.</p><p>Por toda parte m&#250;sicos tocando harpas e tambores enchiam o ar enquanto toneladas de incenso eram queimadas, fazendo o corpo juvenil de Nino vibrar com aquela atmosfera m&#237;stica e perfumada que envolvia toda a cidade.</p><p>Seguindo o fluxo da multid&#227;o, no caminho de pedras brancas, t&#227;o diferente das vias de terra batida por onde passara o restante do ano, Nino se espantava com o rosto dos le&#245;es que decoravam as imensas paredes pintadas de um azul que s&#243; podia ver naquelas ocasi&#245;es. Sentia que estava sendo escoltado por aqueles rostos fel&#237;deos pintados de branco e amarelo.</p><p>Enquanto caminhava, tentava acompanhar os passos de seus pais, que assim como o restante da multid&#227;o, se mostravam fascinados com a possibilidade de interagir cara a cara com seu deus. Lembrava que nos dias que antecediam o festival, seu pai sempre contava que era durante aqueles dozes dias que pessoas como ele e a m&#227;e de Nino se sentiam verdadeiramente conectados com o cosmos. Que aquela planta&#231;&#227;o de cebolas e cevadas tinham um prop&#243;sito maior. Era o que dava sentido ao trabalho duro do resto do ano.</p><p>Tamanho era o fasc&#237;nio que em algum momento Nino percebeu que havia se desprendido de seus pais, que imaginou estarem no mesmo transe que as outras milhares de pessoas. Tudo que Nino conseguia ver era um grande t&#250;nicas e mais t&#250;nicas. Uma imensid&#227;o colorida. Sem ceder ao desespero, se afastou para uma das vielas paralelas ao longo da Via Processional. Vielas muito menos movimentadas e com muito menos pompa que a rua principal.</p><p>Ouviu um assovio, que mais se assemelhava a um canto de p&#225;ssaro. Era alto, e tamb&#233;m familiar. Nino olhava ao redor e via que ningu&#233;m mais naquela pouca meia d&#250;zia de pessoas parecia escutar. Todos os olhos e ouvidos estavam direcionados para a passagem de Marduk. Mas n&#227;o os de Nino.</p><p>Seguiu os assovios at&#233; chegar a um pequeno casebre, feito de paredes grossas de barro e sem nenhuma janela, distante de qualquer outra casa, e percebeu que havia se afastado demais do caminho da prociss&#227;o. N&#227;o sabia como havia chegado t&#227;o longe, j&#225; que agora mal podia escutar a m&#250;sica. </p><p>Espiou a escurid&#227;o pelo portal do casebre. N&#227;o havia nada. Nem m&#243;veis nem sequer uma esteira de junco pra mostrar que algu&#233;m habitava aquele lugar. - Foi percorrendo o pequeno espa&#231;o com os olhos que Nino viu. Im&#243;vel em uma das pontas da casa. Com o cora&#231;&#227;o acelerado depois de ter se dado conta que n&#227;o estava t&#227;o sozinho quanto achava, Nino parou pra observar aquela figura. Achava ser um homem, que talvez tenha se perdido em meio a euforia da prociss&#227;o. Seus p&#233;s estavam sujos de barro, mas suas unhas eram bem feitas. Usava um manto de linho ocre e seus bra&#231;os possu&#237;am braceletes de ouro em forma de serpentes e le&#245;es.</p><p>Ouviu novamente o assovio e percebeu que o som sa&#237;a diretamente do bico daquele homem. Mas pera l&#225;&#8230; bico? - o cora&#231;&#227;o de Nino acelerou mais uma vez ao se dar conta de que o homem no canto da sala tinha uma cabe&#231;a de ave. Girou o corpo fazendo men&#231;&#227;o de correr quando escutou:</p><p><em>N&#227;o tenha medo, rapazinho. Eu n&#227;o vou te morder&#8230; ou bicar! - </em>e Nino podia ver a figura balan&#231;ando todo o corpo enquanto ria de sua pr&#243;pria piada.</p><p>Foi colocando na conta da curiosidade, do fasc&#237;nio ou at&#233; mesmo do efeito de transe ocasionado por toda comemora&#231;&#227;o que Nino resolveu entrar no casebre e pasmem-se, conversar com aquela criatura metade homem metade ave. Lembrava das muitas hist&#243;rias sobre <em>apkallu </em>que seu pai contava, mas nunca levou muito a s&#233;rio. Sabia que aquelas hist&#243;rias eram um de seus muitos artif&#237;cios para distra&#237;-lo da exaust&#227;o das planta&#231;&#245;es. At&#233; agora.</p><p><em>Entre, rapazinho, entre. Voc&#234; n&#227;o veio at&#233; mim por acaso. Eu te chamei at&#233; aqui.</em></p><p><em>A gente se conhece? - </em>perguntou Nino.</p><p><em>Bom, voc&#234; n&#227;o me conhece, mas eu conhe&#231;o voc&#234;. Conhe&#231;o seus pais, seus av&#243;s&#8230; - </em>enquanto falava Nino podia sentir um forte aroma de cedro preenchendo todo o espa&#231;o.</p><p><em>Sei o que habita dentro desse cora&#231;&#227;o - </em>disse a criatura, que apesar da apar&#234;ncia incomum e assustadora, tinha uma voz calma e generosa. - <em>Essa vida de plantar cebolas e cevadas n&#227;o cabe em voc&#234; n&#227;o &#233; mesmo? Tudo que voc&#234; deseja est&#225; muito al&#233;m dessas fronteiras. Eu posso te dar isso.</em></p><p><em>Me dar o que? Preciso seguir o caminho dos meus pais. Preciso continuar cultivando alimentos que alimentar&#227;o nosso povo! - </em>disse Nino.</p><p><em>Preciso, preciso, preciso&#8230; n&#227;o seja cabe&#231;a dura, voc&#234; n&#227;o precisa de nada disso, Ninurta! Mas &#233; exatamente por toda essa obstina&#231;&#227;o que te trouxe at&#233; aqui! Nunca tinha sentido tanta persist&#234;ncia em seguir um caminho s&#243; pra honrar seus ancestrais. Voc&#234; pode n&#227;o sentir o peso ainda, mas a cada ano que passar sufocando teu esp&#237;rito livre com medo de decepcionar quem veio antes de voc&#234; s&#243; vai te trazer infelicidade. Mas eu tenho uma proposta.</em></p><p><em>Uma proposta? - </em>perguntou Nino agora num tom mais enraivecido. Odiou ter seus sentimentos mais &#237;ntimos escancarados assim de maneira t&#227;o trivial. - <em>O que te faz pensar que eu vou ouvir a proposta de um homem com cabe&#231;a de passarinho?</em></p><p><em>Voc&#234; j&#225; est&#225; aqui n&#227;o &#233; mesmo? Podia ter ido embora no momento exato que se deparou com essa &#8220;cabe&#231;a de passarinho&#8221;, mas escolheu continuar. No fundo voc&#234; sabe tudo que posso te oferecer, mas me permita uma demonstra&#231;&#227;o.</em></p><p>Pela primeira vez desde que Nino havia chegado ao casebre de barro a criatura se moveu. Nino deu um passo pra tr&#225;s, assustado, mas o movimento do homem com cabe&#231;a de ave foi delicado. O suficiente para conseguir estender seu indicador e tocar a testa de Nino. </p><p>Nino teve vis&#245;es de sua vida. </p><p>Uma vida que segundo o <em>apkallu</em> do casebre seria eterna. </p><p><em>Onye ah&#7883;a, sh&#257;ngr&#233;n, kupec&#8230; </em>receberia muitos nomes em cada lugar que vivesse, mas em todos, seria conhecido principalmente como <em>O Mercador.</em></p><p>Seu &#250;nico dever, como contrapartida a seus anseios atendidos, mas tamb&#233;m como forma de honrar seus antepassados, era o de continuar alimentando seus iguais.</p><p>Viu uma vida buc&#243;lica pr&#243;xima de planta&#231;&#245;es de arroz no Jap&#227;o, onde passaria bons anos de sua exist&#234;ncia com as pernas submersas at&#233; o joelho em lama fria e seu chap&#233;u de palha ajudando a suportar o calor &#250;mido e sufocante do ver&#227;o. A trilha sonora da sua vida seria o coaxar incessante de milhares de r&#227;s e o som da &#225;gua correndo pelos canais de bambu.</p><p>Viajava por todo o territ&#243;rio levando sacas e mais sacas de arroz, al&#233;m de grandes potes de cer&#226;mica carregados de miss&#244;. Era um escambo de d&#250;vidas. Ningu&#233;m das comunidades por onde passava sabia como ele sozinho conseguia levar tanta comida e Nino n&#227;o entendia porqu&#234; daqueles alimentos. Havia apenas algo borbulhante dentro de si, como se cravado em seu DNA para continuar fazendo o que fazia.</p><p>Cansado de uma vida t&#227;o pacata, ap&#243;s mil anos, Nino se mudou para D&#233;lhi. Gostava da nova sensa&#231;&#227;o que todo o caos daquela cidade trazia. Em apenas dez metros quadrados ele podia ver oitenta pessoas transitando, tr&#234;s riquix&#225;s, uma vaca sagrada deitada bem plena no asfalto, uma carro&#231;a puxada por um homem magro carregando 200kg de tecido e um macaco saltando por entre os fios dos postes. Al&#233;m do caos da vis&#227;o, tinha tamb&#233;m o caos arom&#225;tico. Uma mistura densa de fuma&#231;a de incenso, canela e cardamomo vindo do mercado do <em>Khari Baoli</em>, do &#243;leo de fritura quente das pakoras, da urina de vaca que agora tava deitada plena no asfalto&#8230; mas tudo isso s&#243; fazia o cora&#231;&#227;o de Nino bater mais forte.</p><p>Entre kitcharis, dahls com naan e chana masala com arroz basmati, foram toneladas de arroz, gr&#227;o-de-bico e lentilhas dos mais variados tipos, oferecidos por Nino &#224;quela comunidade centenas de anos. Se existiam crian&#231;as correndo pelas vielas aromatizadas de garam masala, fortes, saud&#225;veis e contentes, era pelo destino acordado de Nino.</p><p>Havia uma nova combina&#231;&#227;o e uma nova forma de se alimentar por cada territ&#243;rio onde passava. Por milhares de anos p&#244;de ver povos se alimentando e tendo como o pilar da sobreviv&#234;ncia os ensinamentos transmitidos de forma t&#227;o intr&#237;nseca por Nino. Eram combina&#231;&#245;es poderosas que sustentavam imp&#233;rios! Arroz com gr&#227;o-de-bico durante as poucas centenas de anos que viveu na Espanha. Milho e feij&#245;es pela colorida e fervilhante vida vivida no M&#233;xico. Nino n&#227;o apenas levava informa&#231;&#245;es, como tamb&#233;m absorvia os conhecimentos daqueles que o rodeavam. Seu peito quase explodiu quando descobriu a hist&#243;ria das tr&#234;s irm&#227;s! - <em>Milpa! Fascinante!</em></p><p>Um ritmo de tambores muito grande tomava o ar enquanto a popula&#231;&#227;o ocupava as ruas. Por alguns segundos Nino achou que havia voltado &#224; Via Processional, mas logo se deu conta que estava num novo territ&#243;rio. M&#225;scaras e carros aleg&#243;ricos do tamanho de grandes templos&#8230;</p><p>S&#243; foi preciso alguns meses para que se deparasse com uma situa&#231;&#227;o que em s&#233;culos de vida nunca tinha presenciado. Ningu&#233;m dava ouvidos &#224; Nino! Portas eram batidas em seu nariz, pessoas lhe viravam a cara. Ouvia xingamentos de todos os cantos. </p><p>E pela primeira vez foi chamado de algo al&#233;m de apenas Mercador: <em>Mercador de Ra&#231;&#227;o.</em></p><p><em>Afeminado!</em></p><p><em>Escravo do sistema!</em></p><p><em>Feij&#227;o &#233; veneno!</em></p><p><em>Arroz n&#227;o tem nutriente nenhum!</em></p><p><em>Ra&#231;&#227;o do governo!</em></p><p>Nino abriu os olhos assustado, olhou ao seu redor. Estava de volta ao casebre de barro. O homem com cabe&#231;a de ave o olhava fixamente, mudo, sem entender o que havia acontecido para que Nino retornasse de forma t&#227;o abrupta. Quando resolveu falar:</p><p><em>Nino? O que aconteceu? Perdi o controle sobre o que voc&#234; via em algum momento! O que voc&#234; viu pra te deixar desse jeito? At&#233; onde voc&#234; foi?</em></p><p><em>Eu vivi at&#233; 2026, apkallu. - </em>respondeu Nino com os olhos vermelhos.</p><p><em>Eu estava no Brasil.</em></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O triste fim de Odair Alberto]]></title><description><![CDATA[O desmoronamento da pir&#226;mide de Maslow num belo texto de merda]]></description><link>https://ruanfelix.substack.com/p/o-triste-fim-de-odair-alberto</link><guid isPermaLink="false">https://ruanfelix.substack.com/p/o-triste-fim-de-odair-alberto</guid><dc:creator><![CDATA[Ruan Felix]]></dc:creator><pubDate>Fri, 06 Mar 2026 04:34:22 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<p>Odair Alberto dos Santos, o &#8220;Seu Odair&#8221;, era visto com muito pavor por seus vizinhos daquela pacata rua de paralelep&#237;pedos cercada de amendoeiras nas cal&#231;adas num bairro suburbano qualquer. Em seu caminho de casa para o trabalho todas as manh&#227;s nenhum <em>bom dia </em>era dirigido &#224; ele. Crian&#231;as pequenas choravam s&#243; de olhar pra sua cara, sempre sisuda. Teve at&#233; uma vez que um garotinho de aproximadamente cinco anos borrou toda sua cal&#231;a de moletom s&#243; de ver que seu Odair caminhava em sua dire&#231;&#227;o e de sua m&#227;e, que tentava tolamente o acalmar. Perceber isso s&#243; fez o sexagen&#225;rio dos infernos ficar ainda mais raivoso.</p><p>C&#227;es que normalmente faziam um estardalha&#231;o por tr&#225;s de seus respectivos port&#245;es a cada folha, gato ou estranho que se movesse do lado de fora, colocavam seus rabinhos entre as pernas e corriam pro fundo das casas choramingando ao perceber que o estranho em quest&#227;o era seu Odair.</p><p>Mas nem sempre foi assim.</p><p>Odair era mestre ferramenteiro de uma empresa nacional que fornecia pe&#231;as para grandes montadoras. Trabalhava nessa empresa desde os 22 anos. Apesar da rotina exaustiva onde a jornada de trabalho, que oficialmente era de 44 horas semanais mas por muitas vezes se alongava para 60, seu Odair se orgulhava de seu emprego est&#225;vel e sua rotina estabelecida. Vez ou outra precisava trabalhar aos s&#225;bados, mas nunca deixava o cansa&#231;o entrar em sua casa. Pra ele, domingos eram sagrados e familiares, feitos pra desfrutar da companhia de Eul&#225;lia independente se o plano do dia era uma ida ao zool&#243;gico ou uma manh&#227; inteira de leitura em sil&#234;ncio.</p><p>Acordava sempre &#224;s 5 pra poder contemplar sua manh&#227; com calma, ouvindo as not&#237;cias daquele dia que estava se iniciando no jornal matinal que passava na pequena TV numa das bancadas da cozinha. Terminava seu caf&#233;zinho previamente preparado por dona Eul&#225;lia, tomava seu banho de &#225;gua fria e &#224;s 6:10 se encaminhava para o ponto de &#244;nibus que ficava na esquina da sua rua. Nesse curto caminho seu Odair amava escutar o canto dos passarinhos rasgando o sil&#234;ncio em cima das amendoeiras. Amava tamb&#233;m a troca&#231;&#227;o de &#8220;bons dias&#8221; infinda com seus vizinhos. Sentia que aquilo era um grande diferencial de se viver naquele bairro.</p><p>Num dia, ao chegar pontualmente &#224;s 7:50 como todos os dias, seu Odair deu de cara com os port&#245;es acorrentados e um papel mal colado com fita adesiva com um comunicado oficial de fechamento. Sim, a empresa pra qual ele dedicou 38 anos de sua vida declarou fal&#234;ncia. Um homem calvo, barrigudo e com um terno dois n&#250;meros maior que seu manequim abordava funcion&#225;rio por funcion&#225;rio acabara de chegar pra dar algumas explica&#231;&#245;es.</p><p>Em casa, seu Odair ainda conseguia escutar a frase que tirou seu ch&#227;o: <em>O senhor &#233; o primeiro da fila, seu Odair. Mas essa fila t&#225; em cima de um deserto. N&#227;o tem um parafuso para leiloar! A empresa n&#227;o era dona nem das cadeiras do escrit&#243;rio! - </em>Lembrou dos pensamentos imediatos que teve ao descobrir que quem assumiria o comando da empresa ap&#243;s a morte de seu Aristides eram seus filhos, que s&#243; apareciam na fornecedora atr&#225;s do dinheiro do pai pra gastar sabe-se deus com qu&#234;.</p><p>M&#234;s ap&#243;s m&#234;s as economias de seu Odair diminu&#237;am, diferentemente de suas frustra&#231;&#245;es e seus medos, que aumentavam diariamente. N&#227;o sabia se pela sua idade, mas n&#227;o conseguia ser contratado pra nenhuma das vagas que se candidatou. Ainda sim, tentava se manter o homem gentil e amoroso que sempre foi dentro de casa. Sua maior preocupa&#231;&#227;o era Eul&#225;lia, que se dedicou &#224; manter aquela casa em ordem por todos esses anos. Na sua cabe&#231;a ele podia morar numa caixa de papel&#227;o, mas Eul&#225;lia n&#227;o! Eul&#225;lia merecia toda a vida confort&#225;vel que ele prometera durantes seus primeiros anos de namoro.</p><p>Numa determinada manh&#227;, descendo para comprar p&#227;o na rua principal, Odair viu um panfleto ca&#237;do no ch&#227;o. Um n&#227;o, v&#225;rios! As pessoas pisoteavam os pap&#233;is totalmente alheias, focadas em seus compromissos matinais, em n&#227;o perder o hor&#225;rio de trabalho, e seu Odair sentiu um misto de nostalgia e inveja, de quando ele fazia parte daqueles grandes grupos que se dirigiam aos pontos de &#244;nibus. - Voltou sua aten&#231;&#227;o pro panfleto: COMPRAMOS SEU COC&#212;! Maiores informa&#231;&#245;es pelo n&#250;mero&#8230;</p><p>&#8220;Compramos seu coc&#244;. Compramos seu coc&#244;. Que raio de proposta &#233; essa?&#8221; - exclamou seu Odair consigo mesmo.</p><p>Voltou com o p&#227;o pra casa, fez o mesmo tudo e o nada que passava os dias fazendo desde o fechamento da empresa, mas o an&#250;ncio do panfleto n&#227;o sa&#237;a da sua cabe&#231;a. A grana andava cada vez mais curta, dona Eul&#225;lia, mesmo que de forma suscinta, j&#225; demonstrava preocupa&#231;&#227;o com algumas faltas dentro de casa. - E foi pensando nisso que foi s&#243; dona Eul&#225;lia sair pra falar com a vizinha e melhor amiga Mirtes que seu Odair tomou coragem e ligou. Pegou um bloquinho de anota&#231;&#245;es amarelo que ficava na mesinha de mogno ao lado do sof&#225; e escreveu todas as informa&#231;&#245;es que a atendente lhe passava. &#8220;S&#233;rio? Tudo isso pelas minhas fezes?&#8221; perguntou Odair surpreso.</p><p>Pra surpresa de Eul&#225;lia, no dia seguinte &#224;s 6 da manh&#227; seu Odair j&#225; estava vestindo sua melhor roupa social, reservada para casamentos, funerais e idas espor&#225;dicas &#224; igreja, cheirava a naftalina misturada com o perfume amadeirado favorito de seu Odair. - Comunicou &#224; esposa que come&#231;aria em um novo emprego, numa nova &#225;rea, mas sem dar muitos detalhes e partiu pro ponto. N&#227;o queria assustar a mulher.</p><p>O primeiro dia foi mais te&#243;rico. Uma mulher com um rosto um pouco ap&#225;tico, cabelo lambido e conjuntinho social rosa beb&#234; cafona explicava pra seu Odair e mais meia d&#250;zia de novos contratados o que e por qu&#234; eles iriam fazer aquilo. Com um piso ep&#243;xi cinza claro e luzes LED fortes, a empresa mais parecia um laborat&#243;rio, e seu Odair olhava deslumbrando pra cada peda&#231;o daquele lugar t&#227;o diferente da f&#225;brica que trabalhou a vida inteira. Colocava o rosto colado nos vidros de algumas salas pra ver se conseguia bisbilhotar alguma coisa, mas nada. Se algo estava acontecendo ali, as pessoas respons&#225;veis por tudo aquilo queriam se certificar de que haveria um m&#237;nimo de privacidade.</p><p>A mulher do conjuntinho cafona pausou o que estava falando e pigarreou. Foi s&#243; assim que seu Odair percebeu que havia ficado um pouco pra tr&#225;s dela e do grupo. Deu uma pequena corrida pra encurtar a dist&#226;ncia, quase escorrendo no piso t&#227;o cirurgicamente limpo, e s&#243; quando parou pr&#243;ximo dos outros novos funcion&#225;rios que a mulher retomou sua fala. </p><p>O dia se passou e o que a mulher tinha de antip&#225;tica tinha de verborr&#225;gica. Dentre as explica&#231;&#245;es muitas envolviam termos que seu Odair n&#227;o entendia muito bem. Quem &#233; M&#233;slou? E por que ele tem uma pir&#226;mide? Ser&#225; que &#233; do Egito? E o que nossa bosta tem a ver com isso? - Perguntas que ele s&#243; se fazia mentalmente, por vergonha do que poderiam pensar sobre ele.</p><p>Odair voltou pra casa com a cabe&#231;a cheia. Assim que chegou foi bombardeado de perguntas por dona Eul&#225;lia. Ela queria saber mais do novo emprego misterioso do marido. Tinha preparado seu prato favorito, frango a cabidela, pra comemorar a oportunidade, mas seu Odair novamente se esquivou das muitas perguntas com respostas vagas e j&#225; se encaminhou pro banho.</p><p>Dona Eul&#225;lia percebendo que o marido n&#227;o estava se sentindo muito &#224; vontade pra compartilhar mais do novo trabalho tamb&#233;m n&#227;o for&#231;ou muito mais e o &#250;nico som do jantar foram os talheres nos pratos e alguns sons abafados de prazer vindos de Odair a cada garfada de galinha.</p><p>No dia seguinte, dona Eul&#225;lia se espantou. Eram 6 da manh&#227; e Odair ainda n&#227;o estava pronto. - <em>N&#227;o vai trabalhar, Odair? - </em>No que o marido explicou que agora n&#227;o necessitava mais de ir todos os dias a empresa, s&#243; uma vez por semana. Algo que Eul&#225;lia n&#227;o entendeu muito bem, mas soava como &#8220;romi&#243;fis&#8221;. </p><p>Odair come&#231;ou seu dia n&#227;o apenas com sua x&#237;cara de caf&#233; de todo dia, mas com oito x&#237;caras bem servidas! N&#227;o deu dez minutos ap&#243;s ter tomado essa quantidade e j&#225; correu pro banheiro. - Eul&#225;lia ouviu o barulho da descarga e viu o marido saindo com um caderninho na m&#227;o. Parecia estar ticando algo. Odair, percebendo a curiosidade da mulher, soltou um longo suspiro e esfregou os olhos com os dedos. Sabia que n&#227;o ia conseguir esconder as fun&#231;&#245;es do seu novo trabalho da esposa por muito tempo, ent&#227;o lhe explicou : <em>eu preciso ir ao banheiro 10 vezes por dia. - </em>J&#225; engatou em mais explica&#231;&#245;es sem sequer dar tempo de dona Eul&#225;lia perguntar mais </p><p>S<em>e n&#227;o for por comidas pesadas, gordurosas, eu recebi umas ampolas pra botar na &#225;gua e tomar. Isso vai estimular as idas ao banheiro. Sim, eu preciso coletar. Sim, v&#227;o ficar guardadas at&#233; sexta-feira, quando devo levar pra empresa. N&#227;o, eu ainda n&#227;o entendi o que eles fazem com todo esse coc&#244;. Sim, Eul&#225;lia, um monte de bosta enlatada na nossa casa.</em></p><p>A primeira semana passou e seu Odair cumpriu todo o cronograma fecal da sua nova contratante. Levou todas as latinhas para a empresa e j&#225; recebeu seu primeiro pagamento. N&#227;o era uma grana muito alta, mas somando todos os pagamentos do m&#234;s daria pra reestabelecer a rotina da casa.</p><p>Cagou por mais uma semana.</p><p>E mais uma.</p><p>E mais uma.</p><p>Numa outra semana pediram a seu Odair pra cagar duas vezes a mais que o combinado a fim de uma nova possibilidade de experimento.</p><p>Um m&#234;s se esvaindo em bosta.</p><p>E o que no come&#231;o era uma atividade comum (ok, n&#227;o t&#227;o comum assim) come&#231;ou a se tornar insuport&#225;vel.</p><p>Nos seus dias de folga, aos s&#225;bados e domingos, Seu Odair n&#227;o queria mais chegar nem perto do banheiro, quanto mais ver um vaso sanit&#225;rio na sua frente. Por conta disso, deixou tamb&#233;m de tomar banho, e se escovava os dentes s&#243; fazia por muita press&#227;o de dona Eul&#225;lia, e na pia da cozinha!</p><p>Dona Eul&#225;lia a cada semana se mostrava mais preocupada com o marido, al&#233;m de ficar sem ir ao banheiro por quase tr&#234;s dias e ficar sem tomar banho aos fins de semana s&#243; pra evitar o banheiro, seu Odair tamb&#233;m come&#231;ou a ser grosseiro com ela. Respondia suas perguntas de forma r&#237;spida, falava palavr&#245;es que em 30 anos de casados nunca tinha ouvido ele falar antes. Era um Odair totalmente diferente daquele homem meigo e de bem com a vida que ela conhecia. Sua rabugice se espalhava inclusive pra al&#233;m de sua casa. Os passarinhos que antes amava ouvir hoje n&#227;o passam de barulhos insuport&#225;veis. O mesmo das folhas idiotas das amendoeiras que sujam toda a cal&#231;ada. Olha que crian&#231;a imbecil. Que cachorro barulhento, merece uma bica.</p><p>Numa de suas visitas a dona Mirtes, Eul&#225;lia foi questionada se tinha acontecido algo grave com seu Odair. A vizinha contou que numa das manh&#227;s, quando deu bom dia ao marido de Eul&#225;lia, que estava indo comprar p&#227;o, seu Odair lhe deu o dedo do meio e ela n&#227;o tem certeza, mas acha que escutou ele resmungando algo como &#8220;velha fofoqueira arrombada&#8221;.</p><p>Eul&#225;lia estava at&#244;nita, afinal, como explicaria que o marido agora caga incessantemente e existe um arm&#225;rio na casa destinado a estocar 48 latas de merda por semana? - Pegou sua bolsa e se despediu de Mirtes &#224;s pressas, j&#225; se direcionando &#224; porta, ignorando toda e qualquer pergunta da amiga.</p><p>Foram 3 meses de muita bosta e a situa&#231;&#227;o ficava cada vez pior. Seu Odair, um homem t&#227;o asseado, que sempre prezava pela sua educa&#231;&#227;o e boa apar&#234;ncia, estava completamente mudado. Agora at&#233; mesmo durante a semana, tirando os momentos onde precisava trabalhar, escolhia n&#227;o mais entrar no banheiro. Pra nada. Aquele era o c&#244;modo proibido da casa. At&#233; mesmo Eul&#225;lia estava sofrendo os impactos dessa nova neurose do marido. S&#243; o barulho da descarga era suficiente pra desencadear uma grande discuss&#227;o.</p><p>Al&#233;m de toda a mudan&#231;a nos comportamentos fisiol&#243;gicos, Odair tamb&#233;m foi percebendo que seu corpo estava reagindo aquela rotina profissional de excre&#231;&#227;o t&#227;o intensa e tamb&#233;m &#224; sua falta de asseio. Dificuldade em reter o esf&#237;ncter, perda brutal de peso, cracas no couro cabeludo, mau cheiro na pele. Seu Odair era uma carca&#231;a daquilo que um dia j&#225; foi.</p><p>Foi num domingo que o telefone tocou. Eul&#225;lia estava lendo no quarto e seu Odair na sala. Ela n&#227;o suportava mais dividir o mesmo c&#244;modo que o marido por conta de seu cheiro. Ele atendeu o telefone.</p><p>Depois de desligar, Odair bateu de leve na porta do quarto, que estava aberta, mas ele decidiu bater como uma tr&#233;gua pro momento. Dona Eul&#225;lia olhou pra ele, na mesma posi&#231;&#227;o que estava, com um livro apoiado no peito, quando o marido lhe contou: um amigo de inf&#226;ncia havia morrido. </p><p>O funeral aconteceu no dia seguinte. A fam&#237;lia de Te&#243;filo ligou pra ele porque apesar de n&#227;o se falarem h&#225; alguns bons anos, o homem vivia falando de seus feitos com Odair quando jovens, sobre o quanto ele tinha apre&#231;o por essa amizade, sobre o quanto lamentava o distanciamento, mesmo que tivesse ocorrido por circunst&#226;ncias da vida.</p><p>Odair n&#227;o queria ser indelicado perguntando do que seu amigo morreu. A causa n&#227;o ficou muito clara durante a liga&#231;&#227;o da vi&#250;va. Ent&#227;o chamou Eul&#225;lia pra ficar junto de si e resolveu pescar as informa&#231;&#245;es picotadas por entre as conversas sussurradas dos enlutados.</p><p>Uma idosa que aparentava ter uns 80 anos, amiga da fam&#237;lia, percebendo a curiosidade do casal, e sentindo-se na obriga&#231;&#227;o de zelar por sua conhecida fama de fofoqueira do bairro, se aproximou deles e falou:</p><p><em>Triste n&#233;? Ele era t&#227;o jovem&#8230;</em></p><p><em>Disseram que foi trabalho.</em></p><p><em>Come&#231;ou fazendo algo que considerava comum por oito, dez, doze horas seguidas. Quando se deu conta n&#227;o conseguia nem mais entrar no c&#244;modo onde mais trabalhava. Imagina, no seu dia de folga voltar pro mesmo espa&#231;o que tem sugado toda sua energia.</em></p><p>Eul&#225;lia olhou de soslaio pra Odair, que j&#225; estava arregalando os olhos em sua dire&#231;&#227;o.</p><p><em>As formas que usou pra contornar a situa&#231;&#227;o s&#243; pioraram as coisas. Seu corpo mudou, seu humor mudou, Helena disse que ele estava irreconhec&#237;vel. </em></p><p>Ser&#225; poss&#237;vel que Te&#243;filo estava trabalhando pra mesma empresa que eu? - pensou Odair. E pela cara da esposa imaginou que ela tamb&#233;m estivesse se questionando a mesma coisa quando disse, mais pra Odair que pra idosa: <em>&#233; preciso um esfor&#231;o muito grande pra desatar esse n&#243; do que &#233; uma necessidade humana e o que &#233; trabalho. As coisas ficam muito cinzas quando as duas linhas se misturam. </em></p><p>A velha assentiu e disse: <em>e eu n&#227;o sei, minha filha? Helena disse que tinha um elemento naquele c&#244;modo que Te&#243;filo sentia n&#225;usea s&#243; de se imaginar chegando perto.</em> <em>Que todo dia ela precisava convencer ele que o caminho que ele tava tomando n&#227;o ia ser bom no fim das contas. E bom, ela tava certa.</em></p><p>Odair e Eul&#225;lia se desvencilharam da velha a medida que Helena foi se aproximando.</p><p><em>Sinto muito pela sua perda, Helena. Eu n&#227;o queria te perguntar pra n&#227;o soar indelicado demais, mas pelo que t&#244; percebendo aqui Te&#243;filo e eu compartilhamos da mesma profiss&#227;o&#8230; - </em>Uma confus&#227;o passou pelo olhar de Helena mas Odair continuou - <em>ver meu amigo partindo t&#227;o cedo por conta de algo que eu tamb&#233;m estou vivendo mexeu profundamente comigo. &#201; muito dif&#237;cil mesmo trabalhar com aquilo que pra outras pessoas &#233; uma atividade t&#227;o banal do dia-a-dia. </em>- E ent&#227;o Helena respondeu:</p><p><em>Obrigada, Odair. Te&#243;filo realmente tinha muito apre&#231;o pela amizade de voc&#234;s. Mas&#8230; n&#227;o sei se entendi muito bem, pelo que o T&#233;o contava eu achava que voc&#234; trabalhava numa montadora ou algo assim&#8230; N&#227;o sabia que voc&#234; tamb&#233;m era chef de cozinha!</em></p><p></p><p></p><p></p><p></p><p></p><p></p><p></p><p></p><p></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Verborrágica demais pra caber num reel]]></title><description><![CDATA[Poderias me conceder mais do que um minuto da sua aten&#231;&#227;o?]]></description><link>https://ruanfelix.substack.com/p/verborragica-demais-pra-caber-num</link><guid isPermaLink="false">https://ruanfelix.substack.com/p/verborragica-demais-pra-caber-num</guid><dc:creator><![CDATA[Ruan Felix]]></dc:creator><pubDate>Fri, 27 Feb 2026 23:09:11 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<p>2026 mal chegou e j&#225; chegou me bombardeando de reflex&#245;es. Boatos de que pode ser influ&#234;ncia do meu arcano anual: a lua.</p><p>Entendo alguma caralha disso? N&#227;o. Mas fui buscar na internet e vi uma coisinha ou outra sobre esse arcano.</p><p>Resolvi ignorar completamente o lado negativo dele e focar na parte positiva, principalmente na &#8220;intui&#231;&#227;o aflorada&#8221;, a &#8220;criatividade&#8221; e a &#8220;compreens&#227;o dos ciclos da vida&#8221;. Esse &#250;ltimo inclusive me faz sentir um grande senhor Miyagi de Magalh&#227;es Bastos.</p><p>Nunca me considerei uma pessoa m&#237;stica. Na verdade tenho at&#233; um pouco de preconceito com pessoas m&#237;sticas demais, n&#237;vel &#8220;na floresta encantada&#8221;. Mas parece que esse ano t&#244; um pouco mais disposto a enxergar as coisas de uma maneira mais esot&#233;rica.</p><p>&#201; um sentimento que vem crescendo dentro de mim desde o fim do ano passado. Fiquei brincando com algumas pessoas de que eu tava sentindo na minha teta direita que 2026 ia ser um ano incr&#237;vel. J&#225; vamos entrar em mar&#231;o e at&#233; agora n&#227;o tive nenhuma prova do contr&#225;rio. <em>E que o universo n&#227;o entenda isso como um desafio, por favor. Est&#225; &#243;timo do jeito que est&#225;!</em></p><p>Foram algumas boas mudan&#231;as desde o come&#231;o do ano, coisas que n&#227;o costumo compartilhar no meu perfil do Instagram mas que pretendo abrir mais por aqui em breve. E dentre essas mudan&#231;as tive tamb&#233;m novos pensamentos sobre que rumos eu queria continuar seguindo, e inevitavelmente ca&#237; na parte profissional.</p><p>Minha insatisfa&#231;&#227;o com o Instagram n&#227;o &#233; de agora, mas s&#243; vai se intensificando a cada dia. E s&#227;o TANTOS motivos pra isso. &#201; saber que deixou de ser uma rede social focada em nossos amigos e passou a ser uma plataforma de vendas, &#233; ser uma ferramenta de compara&#231;&#227;o que s&#243; tr&#225;s infelicidade, mas tamb&#233;m (e aqui me pega demais ser aquariano) &#233; porque eu me vejo sendo <strong>OBRIGADO</strong> a trabalhar pra ele.</p><p>E como sempre tem um z&#233;-xereca sabich&#227;o em qualquer texto por a&#237;, n&#227;o, n&#227;o tem uma arma na minha cabe&#231;a e n&#227;o estou correndo riscos caso n&#227;o poste naquela rede. Mas esse assunto &#233; constantemente abordado entre criadores de conte&#250;do. Sobre o quanto a plataforma te &#8220;pune&#8221; se voc&#234; n&#227;o tiver uma frequ&#234;ncia X estabelecida por eles.</p><p>N&#227;o &#224; toa tem milhares de gurus da internet por a&#237; vendendo seus cursos sobre &#8220;como dominar o algoritmo&#8221;. </p><p><em>Plot: a gente n&#227;o vai dominar nada porque j&#225; estamos totalmente dominados.</em></p><p>Claro que tenho ci&#234;ncia de que muito do que conquistei foi atrav&#233;s de uma exposi&#231;&#227;o que s&#243; existiu por conta daquela rede social. Ser&#225; mesmo que uma bichinha suburbana iria conseguir mudar tanto de vida assim cozinhando vegetais? Existe uma probabilidade, mas o Instagram conseguiu ampliar essas chances fazendo com que olhos de outros lugares que nunca tive a chance de alcan&#231;ar pudessem enxergar meu trabalho.</p><p>Ent&#227;o nisso eu n&#227;o posso negar, a rede seu Zuckerberg &#8220;democratizou&#8221; as chances de pessoas em qualquer canto do mundo poderem mostrar aquilo que elas fazem de melhor. Mas para por a&#237;.</p><p>Antes eram as fotos. Percebi que fotos profissionais de pratos tinham mais engajamento que uma foto simples tirada de um celular barato. Fiz meus corres, peguei c&#226;mera emprestada, rolei carretel industrial pelos becos da favela pra servir de fundo porque na minha casa n&#227;o tinha nem mesa e nem janelas com boa ilumina&#231;&#227;o pra fotografar.  </p><p>Com o tempo consegui pagar fot&#243;grafos pra registrarem meus pratos. E quando eu consegui &#8220;nivelar&#8221; o jogo, chegarem os v&#237;deos.</p><p>No come&#231;o n&#227;o dei muita import&#226;ncia pra isso porque achei que fotos ainda seriam importantes. <em>Plot: n&#227;o eram.</em></p><p>Agora o rol&#234; &#233; fazer v&#237;deos. De prefer&#234;ncia curtos. Mas novamente, se tratando de gastronomia (n&#227;o posso opinar sobre outras &#225;reas que n&#227;o conhe&#231;o), quanto mais xerecudo o seu celular, melhor v&#227;o ficar seus v&#237;deos, melhor engajamento voc&#234; vai ter, mais visibilidade pro seu trabalho. E monas, com todo respeito, eu <em>ainda</em> n&#227;o tenho 11k pra dar num celular n&#227;o. D&#225; pra fazer com um Nokia 3310? D&#225;. Vai ter o mesmo impacto? Certeza que n&#227;o.</p><p>Pra al&#233;m desse detalhe financeiro, que foi recentemente superado por mim j&#225; que comecei a gravar alguns v&#237;deos de receitas e pasmem-se, at&#233; publis, tem o detalhe mais importante. O detalhe que mais me atravessa: <strong>eu n&#227;o sou uma pessoa do audiovisual. </strong></p><p>Acho lindo quem tem um olhar mais apurado pra isso e desenvolve suas habilidades na &#225;rea, mas n&#227;o &#233; meu caso. </p><p>E eu tenho esse sentimento constante de que, al&#233;m de seguir o que dizem os gurus do algoritmo, eu tamb&#233;m <em>preciso</em> APRENDER a gravar v&#237;deos, roteirizar, editar&#8230; e olha, que coisa chata do caralho. N&#227;o vim com essas aspira&#231;&#245;es, n&#227;o tenho um pingo de desejo de aprender sobre isso, mas, nesse sentimento de que se eu n&#227;o fizer isso &#8220;serei passado pra tr&#225;s&#8221; eu acabo cedendo. </p><p>Comecei 2026 gravando uma coisa ou outra, e olha, n&#227;o vou negar que fiquei orgulhoso do que entreguei, porque sou uma bruaca deveras meticulosa. N&#227;o boto a m&#227;o em nada pra fazer merda. - Mas de qualquer forma, esse sentimento da obrigatoriedade de servir ao deus algoritmo me incomoda profundamente.</p><p>Poucas pessoas no Instagram sabem, mas no Tiktok eu tenho uma conta pra falar dos livros que leio. Nunca falei sobre isso porque fico constrangido. Sabe quando voc&#234; faz anivers&#225;rio e convida n&#250;cleos de amizades diferentes? Tem o grupo da faculdade, os amigos de inf&#226;ncia, os amigos do trabalho e pra cada um desses grupos voc&#234; &#233; um voc&#234; diferente e estar junto de todos eles ao mesmo tempo &#233; aflitivo? Pois &#233;, &#233; o sentimento mais pr&#243;ximo que tenho quando penso nos meus seguidores do Instagram vendo meus v&#237;deos revoltado com livros ruins que li.</p><p>Confesso que acho muito mais f&#225;cil fazer v&#237;deos sobre resenha de livros do que fazer v&#237;deos de receita. Meus dois principais motivos s&#227;o:</p><p>O primeiro &#233; que num v&#237;deo de resenha eu s&#243; preciso sentar na frente da minha estante e ficar falando sobre o que li num mesmo &#226;ngulo. Um trip&#233; e um celular bastam. - J&#225; num v&#237;deo de receita eu preciso de ingredientes, preciso de t&#225;bua, faca, talheres, panelas, g&#225;s, preciso pegar &#226;ngulos diferentes pro v&#237;deo n&#227;o ficar &#8220;enfadonho&#8221;, se for receita narrada preciso fazer o voiceover depois, preciso editar cores, fazer muitos cortes e NO FIM DE TUDO AINDA LAVAR A LOU&#199;A. N&#227;o compensa.</p><p>O segundo motivo &#233;: como &#233; chato postar receita na internet hoje n&#233;? Puta que pariu. &#201; gente que n&#227;o come isso, que faria diferente, que a gente fez errado, que no estado delas &#233; melhor, que falta prote&#237;na, que tem muita gordura, gente chata pra todo canto.</p><p>E com v&#237;deos de resenha n&#227;o tem gente chata? Tem, mas poucas.</p><p>O grande diferencial de comida pra livros &#233; que pra qualquer pessoa criticar algo sobre o que voc&#234; falou na resenha do livro basicamente ELA PRECISA TER LIDO O LIVRO. E nossa, meus amigos, s&#243; nisso a&#237; j&#225; filtra centenas de z&#233;-xerecas.</p><p>S&#243; que mesmo sendo mais f&#225;cil, eu gosto mesmo &#233; de escrever. Cada vez que vou postar um v&#237;deo de resenha adivinhem s&#243;? Eu ESCREVO. Qual seria a dificuldade de pessoas que j&#225; est&#227;o acostumadas a ler uma resenha no lugar de assistir um v&#237;deo de 1 minuto?</p><p><strong>E onde eu t&#244; querendo chegar com esse texto gigantesco e prolixo?</strong></p><p>Pode ser meu arcano m&#237;stico da intui&#231;&#227;o ou minha teta direita, mas tamb&#233;m pode ser os rec&#233;m completados 33 que t&#227;o me fazendo olhar pra todo esse cen&#225;rio que me tr&#225;s infelicidade e me apontando pra querer algo diferente. Algo que me fa&#231;a feliz. </p><p>&#8220;N&#227;o tem como voc&#234; se tornar nada at&#233; que exista uma <em><strong>aceita&#231;&#227;o</strong></em> radical da <em><strong>sua verdade</strong></em>.&#8221;</p><p>E com essa frase, que vem martelando minha cabe&#231;a h&#225; algumas semanas, eu tomei algumas decis&#245;es.</p><p>Vou me dedicar menos &#224; devo&#231;&#227;o do deus algoritmo, mesmo que isso impacte de alguma maneira no meu trabalho atual em gastronomia, indo na contram&#227;o das oferendas ofertadas &#224; ele em forma de v&#237;deos e escrevendo mais textos. Porque eu precisei aceitar que n&#227;o &#233; s&#243; ler que me faz feliz, como tamb&#233;m escrever.</p><p>Foi depois de alguns bons v&#237;deos de resenha de livro e de receitas, onde eu precisava editar muito pra ficar menor, que me dei conta: eu sou prolixo, eu sou verborr&#225;gico. E pensando nesse per&#237;odo bizarro que a gente t&#225; vivendo onde as pessoas n&#227;o conseguem nem mais parabenizar algu&#233;m por seu anivers&#225;rio ou postar uma legenda tosca de Instagram sem usar IA, eu t&#244; muito contente de ser uma pessoa que me saltam as palavras.</p><p>S&#243; que esse tanto de palavras n&#227;o cabem nos moldes das nossas atuais redes sociais, que deterioram nosso c&#233;rebro a cada dia, que esfarela nossa aten&#231;&#227;o tal qual um monte de gr&#227;o-de-bico num moedor pra fazer falafel.</p><p>Ent&#227;o se voc&#234; quer me acompanhar um pouco mais de mim, do meu trabalho, do que leio, do que escuto, do que recomendo, sugiro que me siga por aqui. Porque &#233; atrav&#233;s das palavras que eu consigo ser mais pr&#243;ximo da pessoa que sou de verdade, sem os muitos filtros e edi&#231;&#245;es.</p><p>Eu n&#227;o caibo em v&#237;deos de 1 minuto.</p><p></p><p><strong>Caralho, como eu escrevi hein? T&#225; mais do que explicado esse t&#237;tulo.</strong></p><p></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Vende-se sacolé de proteína de ervilha]]></title><description><![CDATA[Saio da cozinha.]]></description><link>https://ruanfelix.substack.com/p/vende-se-sacole-de-proteina-de-ervilha</link><guid isPermaLink="false">https://ruanfelix.substack.com/p/vende-se-sacole-de-proteina-de-ervilha</guid><dc:creator><![CDATA[Ruan Felix]]></dc:creator><pubDate>Thu, 26 Feb 2026 02:42:47 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/3649470d-85c1-48ee-bd65-5f12f4aca41b_1200x630.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Saio da cozinha. Penduro meu avental e jogo fora a touca descart&#225;vel que apertou minhas ideias durante o dia inteiro.</p><p>Tem feito um calor desgra&#231;ado nesses &#250;ltimos dias. Estar paramentado com mais pe&#231;as do que gostaria pra poder trabalhar &#233; meu pequeno castigo di&#225;rio. Vez ou outra penso que se tivesse continuado com publicidade as coisas seriam diferentes.</p><p>Mas acho que n&#227;o, talvez fosse s&#243; um inferno menos quente, mas ainda um inferno.</p><p>Lembrete mental: cortar o cabelo</p><p>Isso deve ajudar um pouco com o calor por debaixo da touca.</p><p>Hoje &#233; sexta-feira. &#218;ltimo dia de cozinhar e tamb&#233;m dia de definir o menu da pr&#243;xima semana.</p><p>Vamos ver o que tem no estoque pra arejar as ideias.</p><p>O primeiro confere &#233; nos arm&#225;rios.</p><p>Feij&#227;o-vermelho: check</p><p>Lentilha: check</p><p>Gr&#227;o-de-bico: check</p><p>Meu celular apita com uma notifica&#231;&#227;o.</p><p>Uma mensagem no WhatsApp. Mas n&#227;o conhe&#231;o o n&#250;mero.</p><p>Abro.</p><p>&#8220;Lentilha n&#227;o d&#225;. Me d&#225; muito estufamento.&#8221;</p><p>Mal tenho tempo de processar a informa&#231;&#227;o e uma nova mensagem aparece na tela.</p><p>&#8220;Gr&#227;o-de-bico me inflama s&#243; de olhar.&#8221;</p><p>O que que t&#225; acontec&#8230; - uma nova mensagem aparece na barra de notifica&#231;&#245;es. Agora de um outro n&#250;mero desconhecido.</p><p>&#8220;Feij&#227;o &#233; ra&#231;&#227;o do governo. T&#225; cheio de antinutriente! S&amp;LV@&#8221;</p><p>N&#227;o reconhe&#231;o nenhum dos n&#250;meros. Confiro ambos pra ver se o DDD entrega alguma pista, mas nada. Meus clientes s&#227;o sempre salvos com o &#8220;seu nome + cliente&#8221;. Ser&#225; que essas mensagens foram enviadas erradas coincidentemente pra um cozinheiro? Ser&#225; que essa segunda mensagem foi enviada direto do paleol&#237;tico? S&#227;o tantas perguntas&#8230;</p><p>Largo o celular de volta na mesa e volto pra minha tarefa.</p><p>Ainda no arm&#225;rio avisto meus pacotes de farinha de gl&#250;ten e j&#225; consigo imaginar o picadinho de seitan que vou preparar na pr&#243;xima semana.</p><p>Meu delicioso pensamento &#233; cortado por mais um apito no celular.</p><p>Olho pela tela de bloqueio.</p><p>&#8220;GL&#218;TEN &#201; VENENO!&#8221;</p><p>Um novo n&#250;mero desconhecido.</p><p>Olho pros cantos da minha cozinha procurando alguma c&#226;mera. Nada.</p><p>Dou uma conferida em cima da geladeira e nos nichos dos arm&#225;rios. Nada.</p><p>Isso s&#243; pode ser uma pegadinha.</p><p>Resolvo entrar na brincadeira. N&#227;o fa&#231;o ideia de quem seja mas digito: e voc&#234; por acaso tem alergia?</p><p>A resposta chega quase que instantaneamente: &#8220;n&#227;o, mas todo mundo sabe que isso faz parte de uma estrat&#233;gia dos Estados Unidos pra que a popula&#231;&#227;o morra de inflama&#231;&#227;o&#8221;</p><p>N&#227;o &#233; poss&#237;vel uma coisa dessas.</p><p>Paro e olho fixamente pra um ponto aleat&#243;rio. Talvez um Ivo Holanda vestido de br&#243;colis entre na cozinha anunciando que foi tudo uma pegadinha.</p><p>Nada.</p><p>Fecho os arm&#225;rios ainda pensando nas mensagens aleat&#243;rias. Melhor ir pra geladeira.</p><p>Maravilha! Ainda tenho duas pe&#231;as de tofu e uma por&#231;&#227;o de cogumelos fresquinhos!</p><p>O celular apita.</p><p>Ser&#225;?</p><p>A curiosidade &#233; grande.</p><p>Fecho a geladeira e j&#225; pego o celular na mesa tentando imaginar o que vai ser dessa vez.</p><p>&#8220;Cogumelos? E AS PROTE&#205;NAS?&#8221;</p><p><em>Uma nova mensagem</em></p><p>&#8220;Que clich&#234;! Cogumelos est&#227;o pra pratos vegetarianos assim como uva-passas est&#227;o pra comida de Natal&#8221;</p><p><em>Uma nova mensagem</em></p><p>&#8220;Soja &#233; o motor do agroneg&#243;cio!&#8221;</p><p><em>Uma nova mensagem</em></p><p>&#8220;Quer diminuir nossa testosterona?&#8221;</p><p><em>Uma nova mensagem</em></p><p>&#8220;PEITINHO DE SOJA&#8221;</p><p>Largo o celular na mesa. N&#227;o sei o que t&#225; acontecendo mas tamb&#233;m n&#227;o sei se quero descobrir.</p><p>O celular n&#227;o para de apitar.</p><p>Nunca recebi tantas notifica&#231;&#245;es de uma vez.</p><p>Minha cabe&#231;a t&#225; girando. N&#227;o consigo parar de pensar nessas mensagens.</p><p>Parece que a cada novo prato que penso dez novas notifica&#231;&#245;es apitam no celular.</p><p>CHEGA!</p><p>Tento esvaziar a mente. Pensar em algo que caiba no novo menu.</p><p>&#201; como tentar fazer uma omelete sem quebrar ovos.</p><p>Nesse caso sem ovos, sem gr&#227;o-de-bico, sem soja, sem fungos&#8230;</p><p>O celular parou de apitar.</p><p>O suor escorre pela minha testa. N&#227;o sei se do calor excessivo ou se pelo bombardeio de notifica&#231;&#245;es. Mas isso me d&#225; uma ideia.</p><p>Abro o arm&#225;rio novamente e l&#225; est&#225; ela.</p><p>Escondida no fundo do arm&#225;rio. Lembran&#231;as de um passado fit.</p><p>Pego o pacote e abro esperando que n&#227;o tenha nenhuma tra&#231;a.</p><p>Nada. Intacta.</p><p>Exatamente como deixei quando n&#227;o fiz nenhum dos exerc&#237;cios que me propus a fazer.</p><p>Vou pro escrit&#243;rio pra fazer a arte de divulga&#231;&#227;o no Canva. Coisa simples.</p><p>Fundo chapado e uma &#250;nica frase:</p><p>VENDE-SE SACOL&#201; DE PROTE&#205;NA DE ERVILHA.</p><p>Olho pra minha cria&#231;&#227;o com um sorrisinho de canto de boca. Orgulhoso do caminho que tomei.</p><p>De quebra ainda vou poder passar menos calor.</p><p>Quando t&#244; prestes a exportar a arte pra postar nas minhas redes sociais, um novo apito no celular.</p><p>Minha coluna gela. Ser&#225; que &#233; mais uma daquelas mensagens?</p><p>N&#227;o, acho que n&#227;o.</p><p>Deve ser algum cliente, ou a chata da minha madrinha com uma nova ideia de um novo curso.</p><p>Ent&#227;o eu pego ele na mesa e j&#225; abro direto por reconhecimento facial sem olhar a barra na tela de bloqueio.</p><p><em>N&#250;mero desconhecido</em></p><p>&#8220;E AS TARTARUGAS?!?&#8221;</p>]]></content:encoded></item></channel></rss>