<script data-pm-proxy="intercept"></script><?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Eu não sou meu assistente.]]></title><description><![CDATA[A vida e as opiniões de Ismar Tirelli Neto, poeta e schlemiel. ]]></description><link>https://tirellineto.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!_r6J!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F93034f7e-34ac-4b0f-b0ff-57aaf960afca_636x636.png</url><title>Eu não sou meu assistente.</title><link>https://tirellineto.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Thu, 03 Sep 2026 17:50:22 GMT</lastBuildDate><atom:link href="/__u/tirellineto.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Isma]]></copyright><language><![CDATA[pt]]></language><webMaster><![CDATA[tirellineto@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[tirellineto@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Ismar Tirelli Neto]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Ismar Tirelli Neto]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[tirellineto@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[tirellineto@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Ismar Tirelli Neto]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[Décimo esboço autobiográfico. ]]></title><description><![CDATA[Em que o autor acorda um belo dia na Europa.]]></description><link>https://tirellineto.substack.com/p/decimo-esboco-autobiografico</link><guid isPermaLink="false">https://tirellineto.substack.com/p/decimo-esboco-autobiografico</guid><dc:creator><![CDATA[Ismar Tirelli Neto]]></dc:creator><pubDate>Fri, 28 Aug 2026 20:43:41 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!_r6J!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F93034f7e-34ac-4b0f-b0ff-57aaf960afca_636x636.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"></p><p style="text-align: right;"><em>Rome. The first day. I made the bed.</em></p><p style="text-align: right;">- Donald Barthelme, &#8220;Rome Diary&#8221;</p><p style="text-align: justify;"></p><p style="text-align: justify;"><span>Certo dia eu acordo e estou na Europa. Ent&#227;o subo at&#233; o segundo andar. O sal&#227;o &#233; vasto, uma esp&#233;cie de s&#243;t&#227;o reformado, e as esponjas s&#227;o muito mais resistentes. Sobre a mesa est&#225; o meu computador e eu estou na Europa para escrever um livro. Tenho 38 anos, venho publicando desde os 22 e nunca me custearam a escrita de um livro, o trabalho de um livro. A mesa &#233; comprida. N&#227;o preciso comer nela, porque h&#225; outra mesa no primeiro andar. </span><em><span>Duas mesas</span></em><span>. A Funda&#231;&#227;o me concedeu </span><em><span>duas mesas.</span></em><span> Uma para comer, outra para trabalhar. A esponja n&#227;o parece </span><em><span>conscientizar </span></em><span>que vem sendo utilizada h&#225; uma semana. No segundo andar, onde h&#225; tamb&#233;m um pequeno banheiro, conto ainda uma poltrona, um sof&#225;, uma cadeira, uma vitrola que n&#227;o funciona e um piano el&#233;trico que n&#227;o sei tocar. H&#225; um nome para este tipo de recinto, naturalmente, talvez mansarda, talvez &#225;gua-furtada, n&#227;o sei ao certo. De todo modo, trata-se de uma palavra livresca, e &#233; numa palavra livresca que como uma tigela de cereais europeus (afogados numa beberagem de soja europeia) e me sento para escrever. E escrevo.</span></p><p style="text-align: center;"><span>*</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ando folheando com grande interesse alguns volumes sobre a </span><em><span>hist&#243;ria da escrita</span></em><span>, da </span><em><span>escrita propriamente dita</span></em><span>. N&#227;o sobre a hist&#243;ria da linguagem, da poesia. A hist&#243;ria dos sistemas de escrita, dos alfabetos, dos paus que fazem a canoa. Do material com que se constr&#243;i uma palavra como &#8220;proverbial&#8221;. Por qu&#234;? Porque &#233; o tipo do conhecimento que nos minora, faz bem, torna os deuses evit&#225;veis. Quero compreender com mais clareza de que barro v&#234;m as minhas bics, para onde eventualmente voltar&#227;o. Acredito que em determinada altura destas escava&#231;&#245;es um homem real surgir&#225;, pegar&#225; na minha vida, sair&#225; cumprindo com meus dias. J&#225; me sinto um pouco mais proporcionado &#8211; quem n&#227;o se sentiria? &#8211; ao encontro de passagens como a seguinte, de </span><em><span>Escrita: Uma breve introdu&#231;&#227;o</span></em><span> (Andrew Robinson em tradu&#231;&#227;o de Camila Werner):</span></p><blockquote><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Portanto, em algum momento no fim do quarto mil&#234;nio antes de Cristo, nas cidades dos sum&#233;rios na Mesopot&#226;mia &#8211; o &#8216;ber&#231;o da civiliza&#231;&#227;o&#8217; entre os rios Tigre e Eufrates &#8211;, uma economia em expans&#227;o impulsionou a cria&#231;&#227;o da escrita&#8221;.</span></p></blockquote><p style="text-align: justify;"><span>Ou ent&#227;o esta, de </span><em><span>Hist&#243;ria da Escrita</span></em><span> (Steven Roger Fischer em tradu&#231;&#227;o de Mirna Pinsky):</span></p><blockquote><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;No Oriente M&#233;dio antigo, cerca de seis mil anos atr&#225;s, a sociedade sum&#233;ria em expans&#227;o tinha de administrar suas riquezas naturais, trabalhadores, impostos, planta&#231;&#245;es, taxas, estoques da coroa e do templo, sal&#225;rios e gastos. As formas mnem&#244;nicas que tinham existido por tanto tempo n&#227;o bastavam mais; algo radicalmente novo seria necess&#225;rio&#8221;.</span></p></blockquote><p style="text-align: justify;"><span>N&#227;o sei se me fa&#231;o entender. O caso s&#227;o as </span><em><span>origens</span></em><span>, compreende? A fonte. A bica. Naquele t&#227;o mesopot&#226;mico ent&#227;o, ningu&#233;m se sentia assim ou assado, n&#227;o por escrito. Pense. Todos estes sinais que vamos aqui e acolando, incans&#225;veis, sem jamais perder a esperan&#231;a de comunicar algo consequente, dur&#225;vel... os elementos constitutivos de uma imagem, de um arrazoado... demore-se um pouco no fato de que vieram &#224; luz, aventura-se, no com&#233;rcio, no cont&#225;bil. No impuro. Na vileza. No impuro? Bom, n&#227;o deixa de ter piada. Abro o bloco de notas quadriculado que acabo de comprar no supermercado da Esta&#231;&#227;o (Banhof) e meto l&#225; um versinho, algo como: &#8220;sou muito penhorado &#224; minha voz por dizer coisas t&#227;o bonitas&#8221;. A borra do gesto, de uma vez que se esvazia o gesto, exprime umas ideias de mercadoria, a quita&#231;&#227;o de uma d&#237;vida, um invent&#225;rio de bens (bois? ovelhas?). </span><em><span>Toda </span></em><span>escrita ser&#225; assombrada por isto? </span><em><span>Toda </span></em><span>escrita ser&#225; assombrada pelo transicional de onde veio? O que me leva a uma outra pergunta: serei mesmo assim t&#227;o crente na filia&#231;&#227;o? Aquele que se encontra em constante fuga dos seus sabe perfeitamente que </span><em><span>fantasmas existem</span></em><span>. &#8220;Teoricamente&#8221;, afirma Robinson, &#8220;a matem&#225;tica poderia ser expressa em palavras, assim como os antigos fil&#243;sofos naturais como Newton fizeram muitas vezes, por&#233;m o inverso n&#227;o &#233; verdadeiro: as palavras n&#227;o poderiam ser escritas em sinais matem&#225;ticos&#8221;. Uma via de m&#227;o &#250;nica. Deve a palavra pagar pela venalidade da letra? Penso nisso, neste caminho que </span><em><span>n&#227;o se refaz</span></em><span>, enquanto caminho &#224;s margens do Limmat. Estamos em Zurique. Minha voz acena em Zurique, sempre risonha, ao cabo de toda e qualquer transa&#231;&#227;o comercial. Produz-se ent&#227;o um pequeno peda&#231;o de papel, uma discrimina&#231;&#227;o, uma </span><em><span>prova</span></em><span>, um impresso com os dados referentes ao com&#233;rcio que acaba de se dar, e que depois vai parar dentro de uma pasta rosa, para futura presta&#231;&#227;o de contas, e a concentra&#231;&#227;o destes pap&#233;is significa igualmente certo ganho em realidade. Agora o tenho por escrito. O qu&#234;? Recibos. Mais e mais realidade.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A voz &#8220;acena&#8221;, dizia eu, acena em vez de articular. Minha voz acaba de completar uma semana aqui e ainda n&#227;o encontrou idioma adequado nem mesmo para as cortesias. Reduz-se a uma l&#237;ngua de alca&#231;uz anelado, requebrada entre o ingl&#234;s, o alem&#227;o, o franc&#234;s, o hindi, o italiano, o portugu&#234;s e o espanhol. Todos surpreendidos &#224;s margens do Limmat, dentro do S11, nas paragens do bonde. Todos os idiomas conceb&#237;veis. Se, por um lado, isto nos d&#225; toda a vastid&#227;o do mundo, por outro, constr&#243;i um curioso cercadinho dentro do qual nos sentimos sempre um bocado sonolentos, sempre um bocado pescando. Mas agora estou acordado. Sei perfeitamente para onde estas palavras est&#227;o rumando. Relembro o rio cruzado de pontes, a express&#227;o inglesa </span><em><span>to burn one&#8217;s bridges. </span></em><span>N&#227;o h&#225; mais para onde voltar, apenas meu corpo, apenas eu. &#201; para l&#225; que as palavras est&#227;o se encaminhando.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Nono esboço autobiográfico.]]></title><description><![CDATA[Em que o autor medita sobre as palavras sob o prisma do &#8220;mist&#233;rio da simpatia&#8221;, rende preito a um (ou dois) exc&#234;ntrico(s) e se debru&#231;a momentaneamente sobre seu &#243;dio &#224;s miniaturas.]]></description><link>https://tirellineto.substack.com/p/nono-esboco-autobiografico</link><guid isPermaLink="false">https://tirellineto.substack.com/p/nono-esboco-autobiografico</guid><dc:creator><![CDATA[Ismar Tirelli Neto]]></dc:creator><pubDate>Wed, 26 Aug 2026 03:19:06 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!_r6J!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F93034f7e-34ac-4b0f-b0ff-57aaf960afca_636x636.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"></p><p style="text-align: justify;"><span>Assim vou me alargando deles. Se n&#227;o s&#227;o </span><em><span>desconhecidos</span></em><span>, se n&#227;o s&#227;o </span><em><span>estranhos</span></em><span>, como categoriz&#225;-los? Qual seria exatamente a natureza de nossas (em tudo sobrenaturais) rela&#231;&#245;es? Parece que se inclinam para </span><em><span>personagens</span></em><span>, embora os saiba de carne, osso e caso pensado. Existem estes seres das f&#237;mbrias, nas f&#237;mbrias. As pessoas nas f&#237;mbrias das pessoas ao nosso redor. As pessoas que t&#234;m la&#231;os long&#237;nquos com os nossos. As pessoas que s&#243; vemos nas bocas dos outros. Pessoas de ouvir falar. Pessoas de segunda m&#227;o, de que conhecemos apenas particularidades, pref&#225;cios, biografemas, blocos de t&#227;o curioso formato.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Meu amigo entabula uma curiosa correspond&#234;ncia com um seu ex-vizinho nonagen&#225;rio. A cada dia, meu amigo recebe de seu correspondente uma lista de cinquenta a sessenta palavras, s&#227;o as palavras do dia. N&#227;o h&#225; nenhuma ordem, nenhum princ&#237;pio organizador consp&#237;cuo, o gosto campeando em total liberdade. Certa feita, Felisberto Hern&#225;ndez disse algumas palavras sobre a amizade das palavras. &#8220;</span><em><span>Pero hay palabras que nunca podr&#225;n ser amigas m&#237;as: las que no me parecen naturales o las que no entran en el misterio de la simpatia</span></em><span>&#8221;. De fato, &#233; misteriosa a simpatia que nos liga a certas palavras, a certos </span><em><span>tipos </span></em><span>de palavras. Eu pr&#243;prio me recuso obstinadamente a tratar com palavras que me s&#227;o antip&#225;ticas, muita vez em preju&#237;zo da inteligibilidade. Nunca alcan&#231;arei os motivos. Julgo trata-se de um mist&#233;rio a ser </span><em><span>protegido enquanto tal</span></em><span>, nunca solucionado, nunca barateado com explica&#231;&#245;es.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>As palavras que lhe s&#227;o simp&#225;ticas, ele as convoca e envia para o meu amigo, que logo em seguida as rebate para mim, que ao longo dos dias as vou resolvendo numa esp&#233;cie de retrato, numa esp&#233;cie de familiaridade. H&#225; dias venho </span><em><span>compulsando </span></em><span>as listas de palavras enviadas pelo amigo nonagen&#225;rio do meu jovem amigo. Nunca, nunca uma ordem. Existem padr&#245;es, &#233; poss&#237;vel detectar certos padr&#245;es. &#8220;Bulbo&#8221; e &#8220;calcinha&#8221; figuraram j&#225; em mais de uma lista. Encontros consonantais que se repetem, um vi&#233;s precioso, uns dedos de joalheiro. As predile&#231;&#245;es sugerem cenas. Como n&#227;o sugeririam? As cenas dessas palavras, o que elas fariam a l&#225;bios, ao formato de uma boca, a cadeia de circunst&#226;ncias que propiciaria o seu uso. Algumas me arrancam verdadeiros gritos de j&#250;bilo a meio do expediente, como &#8220;passamanaria&#8221;, &#8220;discricion&#225;rio&#8221;, &#8220;pegmatito&#8221;. Outras tantas me fazem suspirar, como &#8220;campan&#225;rio&#8221; ou &#8220;paquera&#8221;. Percebo que seu peso muda se as isolo do grupo. Percebo as rela&#231;&#245;es. Como a palavra &#8220;tronco&#8221;, por exemplo, que nunca chamou a minha aten&#231;&#227;o, beneficia das palavras que limitam com ela na lista, a saber, &#8220;dentifr&#237;cio&#8221; e &#8220;trombone&#8221;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>As palavras do dia come&#231;am a se escrever no meu dia, numa tinta que imagino prateada, lunar. Meu dia toma de empr&#233;stimo qualquer coisa de seu brilho. Deixo inclusive que fa&#231;am de or&#225;culo. Indago das palavras se Fulaninho gosta de mim, se Beltraninho vai me pagar. &#8220;Haver&#225; mesmo um amanh&#227;?&#8221;, pergunto, e elas respondem: &#8220;t&#237;lburi&#8221;, &#8220;trincar&#8221;, &#8220;epinefrina&#8221;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Hoje meu amigo recebeu tamb&#233;m uma frase de Guimar&#227;es Rosa e um convite para o Duolingo, onde nosso improv&#225;vel amigo nonagen&#225;rio j&#225; est&#225; com 1925 dias de ofensiva. Isto &#233; um presente. Acolho estas informa&#231;&#245;es sabendo, no meu mais &#237;ntimo, que isto &#233; um presente, que eu tenho </span><em><span>sorte</span></em><span>. Somos tr&#234;s pessoas t&#227;o diferentes, t&#227;o improv&#225;veis, e no entanto, compartilhamos de uma &#243;rbita. Cada qual no seu canto, tocando sua vida, mas estranhamente alinhados a certos momentos do dia.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>H&#225; poucos dias, ao topar com a palavra </span><em><span>miniatura</span></em><span> abrindo uma das listas, tive a nebulosa compreens&#227;o de que havia ali uma mensagem, de que havia ali um empuxo tem&#225;tico. Acho que devo escrever sobre miniaturas. Meu amigo me pergunta se me refiro ao g&#234;nero liter&#225;rio ou a miniaturas de fato (&#8220;miniaturas miniaturas?&#8221;). H&#225; algo curioso aqui. A ideia de uma miniatura liter&#225;ria me &#233; infinitamente fascinante, mas miniaturas de fato me desconcertam. Eu as odeio, irracionalmente. Salmos em gr&#227;os de arroz, unhas reproduzindo Pollocks. Tenho vontade de espatifar todas as garrafas com barcos que encontro. Havia uma dessas na estante da sala da casa onde cresci. Lembro de passar muito tempo olhando para aquela garrafinha com aquele barco dentro, aquele barco </span><em><span>infinitamente intricado</span></em><span>, ele pr&#243;prio parecendo de vidro, um arranjo intricad&#237;ssimo de tubos e esferas de vidro, lembro de passar muito tempo, muito tempo da minha inf&#226;ncia, olhando para este objeto e sentindo o que s&#243; agora consigo reconhecer como </span><em><span>f&#250;ria.</span></em></p><p style="text-align: center;">*</p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Eis o que eu n&#227;o disse ao homem que, numa pra&#231;a numa grande metr&#243;pole, se prop&#244;s a escrever o meu nome num b&#250;zio&#8221;, come&#231;aria o conto. Seria um longo e desvairado mon&#243;logo contra as artes da miniaturiza&#231;&#227;o. Uma apoteose. Uma desancada definitiva das ambi&#231;&#245;es ol&#237;mpicas, da per&#237;cia levada ao </span><em><span>absurdo</span></em><span>, do vazio infernal da t&#233;cnica. O mundo est&#225; do jeito que est&#225; em parte por conta de gente como voc&#234;s, em parte por conta dos que v&#227;o pela dire&#231;&#227;o contr&#225;ria, dos que </span><em><span>agigantam</span></em><span>. No limite, trata-se de quebrar recordes, uma pr&#225;tica que deveria ser desencorajada </span><em><span>sempre</span></em><span>.</span></p><p style="text-align: center;">*</p><p style="text-align: justify;"><span>Tenho pudor de pedir para ver as palavras com as quais meu amigo responde. Sinto que estaria cometendo uma indiscri&#231;&#227;o, me metendo na correspond&#234;ncia dos outros. Al&#233;m do mais, acho extremamente divertido estar no mais extremo de uma certa comunica&#231;&#227;o, </span><em><span>n&#227;o poder responder</span></em><span>. Sinto como se estivesse a meio de um telefone-sem-fio, como se pudesse apenas passar &#224; frente a informa&#231;&#227;o, sabendo perfeitamente que ela chegar&#225; irreconhec&#237;vel.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Por outro lado, algo em mim precisa fazer chegar ao amigo nonagen&#225;rio a palavra &#8220;diatribe&#8221;. Contemplo fazer a sugest&#227;o. Pergunto-me se tenho o </span><em><span>direito de intervir.</span></em></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Oitavo esboço autobiográfico.]]></title><description><![CDATA[Em que o autor busca elaborar sua sensa&#231;&#227;o de estar preso o tempo inteiro numa pe&#231;a de c&#226;mara.]]></description><link>https://tirellineto.substack.com/p/oitava-esboco-autobiografico</link><guid isPermaLink="false">https://tirellineto.substack.com/p/oitava-esboco-autobiografico</guid><dc:creator><![CDATA[Ismar Tirelli Neto]]></dc:creator><pubDate>Sun, 23 Aug 2026 03:02:49 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!_r6J!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F93034f7e-34ac-4b0f-b0ff-57aaf960afca_636x636.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span>O verbete correspondente a </span><em><span>Teatro de C&#226;mara </span></em><span>no &#8220;Dicion&#225;rio de Teatro&#8221; de Patrice Pavis (tradu&#231;&#227;o coordenada por J. Guinsburg e Maria L&#250;cia Pereira) diz-nos o seguinte: &#8220;Este tipo de apresenta&#231;&#227;o teatral &#8211; dentre as quais o </span><em><span>teatro &#237;ntimo </span></em><span>de STRINDBERG (e suas </span><em><span>Kammerspiel</span></em><span>, pe&#231;as de c&#226;mara), fundado em 1907, &#233; o melhor exemplo &#8211; desenvolve-se como rea&#231;&#227;o a uma dramaturgia &#8216;pesada&#8217;, baseada na abund&#226;ncia do pessoal art&#237;stico e t&#233;cnico, na riqueza e na multiplicidade dos cen&#225;rios, na desmesurada import&#226;ncia do p&#250;blico no teatro &#224; italiana, no palco central ou no teatro de massa, nas frequentes interrup&#231;&#245;es dos entreatos e no aparato grandioso do teatro burgu&#234;s. A escritura dram&#225;tica tamb&#233;m &#233; depurada, reduzida aos conflitos essenciais e unificada pelo emprego de regras simples, regras que STRINDBERG assim descrever&#225;: &#8216;Se me perguntarem o que pretende o Teatro &#205;ntimo, qual sua finalidade, responderei: desenvolver, no drama, um assunto carregado de significado, por&#233;m limitado. Evitamos expedientes, efeitos f&#225;ceis, tiradas brilhantes, os n&#250;meros para estrelas. O autor n&#227;o deve estar previamente amarrado por nenhuma regra, o assunto &#233; que condiciona a forma. Portanto, liberdade completa para a maneira de tratar o assunto, contanto que seja respeitada a unidade de concep&#231;&#227;o e do estilo&#8217; (</span><em><span>Carta Aberta do Teatro &#205;ntimo</span></em><span>, 1908)&#8221;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>No ver&#227;o de 1907, August Strindberg e o ator August Falck alugam um im&#243;vel sito ao n&#250;mero 20 da Barnhusgatan (&#8220;Rua do Orfanato&#8221;), em Estocolmo. Originalmente uma loja, o espa&#231;o &#233; reformado e passa a abrigar o </span><em><span>Intima Teater</span></em><span>, capacidade para 161 espectadores. Tamanho &#233; o entusiasmo de Strindberg ante a ideia de estar &#224; frente de um teatro, tamanho o seu embevecimento diante das </span><em><span>possibilidades</span></em><span>, que ele escreve quatro pe&#231;as num brev&#237;ssimo intervalo de tempo. Enquanto trabalha na primeira, vai sonh&#225;-la numa carta ao amigo Adolf Paul, sonhar com uma pe&#231;a &#8220;&#237;ntima na forma; um tema simples tratado com min&#250;cia; poucas personagens; perspectivas vastas; irrestritamente imaginativa, mas erguida sobre observa&#231;&#245;es, experi&#234;ncias cuidadosamente estudadas; simples, mas n&#227;o muito simples; nada de aparatos enormes; nenhum coadjuvante sup&#233;rfluo; nada daquelas &#8216;velhas m&#225;quinas&#8217; ou pe&#231;as de cinco atos constru&#237;das segundo regras; nada daquelas pe&#231;as arrastadas que duram a noite toda. </span><em><span>Senhorita J&#250;lia </span></em><span>(sem intervalo) j&#225; passou por seu batismo de fogo e demonstrou ser o tipo do drama que o homem impaciente de hoje em dia pede: minucioso, mas breve&#8221;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A carta &#233; citada no pref&#225;cio de Evert Sprinchorn ao volume </span><em><span>The Chamber Plays. </span></em><span>Suponho que a tradu&#231;&#227;o seja de sua autoria. Traduzo do referido volume. </span></p><p style="text-align: justify;"></p><p style="text-align: center;">*</p><p style="text-align: justify;"></p><p style="text-align: justify;"><span>Percebo que &#233; com uma perspectiva de </span><em><span>Kammerspiel </span></em><span>que passo pela vida. Uma sucess&#227;o de interiores. Personagens em espa&#231;os fechados, tensamente relacionados. A angustiosa consci&#234;ncia de se ser uma vari&#225;vel numa dada situa&#231;&#227;o. Na generalidade das situa&#231;&#245;es. Saber os nossos bra&#231;os e m&#227;os sempre t&#227;o pr&#243;ximos da desordem. T&#227;o lindando com alguma reformula&#231;&#227;o no quadro. A menor altera&#231;&#227;o surgir&#225; sempre dr&#225;stica e irrevers&#237;vel sob essa luz. Saber que estamos sempre t&#227;o pr&#243;ximos a intervir. Saber que &#233; </span><em><span>seu</span></em><span> o resf&#244;lego sob o fen&#244;meno. Todas as possibilidades de interven&#231;&#227;o se reunindo num tremeluz nervoso. Com frequ&#234;ncia me pergunto como as pessoas conseguem viver normalmente sabendo que a interven&#231;&#227;o &#233; t&#227;o poss&#237;vel.</span></p><p style="text-align: justify;"></p><p style="text-align: justify;"><em><span>E eu ousaria</span></em></p><p style="text-align: justify;"><em><span>Perturbar o universo?</span></em></p><p style="text-align: justify;"></p><p style="text-align: justify;"><span>pergunta-se, na tradu&#231;&#227;o de Caetano Galindo, o santo do Prufrock de Eliot</span><em><span>. </span></em><span>E depois:</span></p><p style="text-align: justify;"></p><p style="text-align: justify;"><em><span>Num minuto cabe o tempo</span></em></p><p style="text-align: justify;"><em><span>De decis&#245;es e revis&#245;es que num minuto s&#227;o o inverso.</span></em></p><p style="text-align: justify;"></p><p style="text-align: justify;"><span>Est&#225; em todos os sinais que emitimos, premeditadamente ou n&#227;o. O meter a colher. O meter o bedelho, entre as mol&#233;culas, na cena at&#244;mica. O alterar. O redistribuir. Constitu&#237;mos um grosseiro impedimento ao quedo das coisas. Estamos vivos, emitimos sinais, intervimos. N&#227;o &#233; preciso intencionar coisa alguma. N&#227;o h&#225; recolhimento suficientemente acabado. Nada &#233; herm&#233;tico. Somos um embara&#231;o &#224; imobilidade. Nada inerte. Continuamente pomos abaixo estruturas invis&#237;veis a olho nu com a nossa pr&#243;pria respira&#231;&#227;o. </span><em><span>Nada </span></em><span>ser&#225; deixado em paz. N&#227;o enquanto estivermos aqui. Pressup&#245;e-se contato. A maior parte de n&#243;s sabe exatamente quantas facadas daria e anda pelo mundo conhecendo isso. H&#225; quem acabe desenvolvendo certa sensibilidade doentia para os limites. Vendo limites em tudo, adoecendo disso. Afinal, n&#227;o h&#225; momento que n&#227;o nos crave nalgum limiar. E para alguns de n&#243;s, repito-me, sucede um desconjuntamento grave entre o </span><em><span>tique </span></em><span>e o </span><em><span>taque.</span></em></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Sétimo esboço autobiográfico. ]]></title><description><![CDATA[Em que o autor relembra a piada mais engra&#231;ada que j&#225; ouviu e envereda por considera&#231;&#245;es bastante pomposas sobre a pr&#225;tica memorial&#237;stica.]]></description><link>https://tirellineto.substack.com/p/setimo-esboco-autobiografico</link><guid isPermaLink="false">https://tirellineto.substack.com/p/setimo-esboco-autobiografico</guid><dc:creator><![CDATA[Ismar Tirelli Neto]]></dc:creator><pubDate>Sun, 16 Aug 2026 01:25:13 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!_r6J!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F93034f7e-34ac-4b0f-b0ff-57aaf960afca_636x636.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span>O embaixador est&#225; prestes a contar uma piada. Acabo de voltar do banheiro. Reparara, lavando as m&#227;os, que a camisa que levava posta estava do avesso. Minhas m&#227;os ralentavam no sab&#227;o. &#8220;Eles j&#225; viram. Se voc&#234; voltar do banheiro com a camisa vestida do lado certo, vai chamar ainda mais aten&#231;&#227;o&#8221;. Estudei a mim mesmo impiedosamente. Decidi que faria melhor se n&#227;o fizesse nada. Agora o embaixador est&#225; na minha frente. Ele est&#225; embicando para uma piada. O embaixador conta que esteve recentemente em S&#227;o Tom&#233; e Pr&#237;ncipe. &#8220;As pessoas acham que as ilhas s&#227;o pr&#243;ximas, a Ilha do Pr&#237;ncipe e a Ilha de S&#227;o Tome, </span><em><span>mas n&#227;o</span></em><span>&#8221;. &#201; como se o &#8220;e&#8221; acelerasse o translado de uma ilha at&#233; a outra. Eu me abismo momentaneamente com o poder dos conectivos. Eu estou perigosamente entregue. O embaixador prossegue. &#8220;A meu ver, a gente n&#227;o devia falar S&#227;o Tom&#233; e Pr&#237;ncipe, assim, como se fosse tudo junto. A gente devia falar </span><em><span>S&#227;o Tom&#233; e...&#8221; &#8211; </span></em><span>o embaixador se interrompeu e ficou inteiramente im&#243;vel por alguns segundos &#8211; &#8220;... </span><em><span>Pr&#237;ncipe.&#8221; </span></em><span>Meus ombros come&#231;am a se agitar. Da minha boca, explode uma gargalhada fragorosa. N&#227;o consigo me controlar. Meu torso se angula todo para frente. Contra&#231;&#245;es, expans&#245;es. O rosto em brasa. Os demais convidados postados do outro lado das l&#225;grimas. Dois homens de terno e gravata parecid&#237;ssimos entre si balan&#231;am as cabe&#231;as afirmativamente. Sorriem com discreta beatitude. A surpresa na express&#227;o do rosto do embaixador come&#231;a a se tingir de alarme. Estou diante dele como uma &#225;rvore atingida por um raio. Avan&#231;o a m&#227;o espalmada, come&#231;o a gesticular. Ocorre-me que, se eu pular da sacada, conseguirei colocar um fim nesta cena. Este pensamento agrava ainda mais a situa&#231;&#227;o. Adoto o ponto de vista de um dos presentes e vejo-me, todo retorcido, batalhando f&#244;lego, a meio da sacada coberta. A meio de um frouxo de riso intermin&#225;vel, subitamente tomo impulso, abro os bra&#231;os, salto o guarda-corpo. A imagem me atira a um novo pico. &#8220;Se um dia eu escrever um conto a partir desta cena&#8221;, digo para mim mesmo anos mais tarde, &#8220;vou fazer o personagem se jogar. Vou abandon&#225;-lo em meio &#224; queda&#8221;. Por mais que me esforce, n&#227;o consigo me lembrar com exatid&#227;o da vista da sacada. Posto melhor, tenho a forte impress&#227;o de que se podia ver a Ba&#237;a de Luanda de onde est&#225;vamos, mas n&#227;o estou </span><em><span>absolutamente</span></em><span> certo. Uma componente de d&#250;vida se coloca. Falta um pouco de preenchimento a esta mem&#243;ria. Mas sei que estive l&#225;. Eu acabara de sair do banheiro. Caminhei na dire&#231;&#227;o da roda e a ela me reintegrei. &#201; poss&#237;vel que no caminho eu tenha ro&#231;ado os olhos num acidente geogr&#225;fico chamado Ba&#237;a de Luanda. O embaixador tomou a palavra e contou a piada mais engra&#231;ada que eu j&#225; ouvira. &#201; poss&#237;vel que ela se encontrasse &#224; minha esquerda, a quatrocentos metros, talvez. Talvez eu tenha visto um biciclet&#225;rio. Angola n&#227;o foi ainda mapeada pelo Google Street View. De modo que n&#227;o consigo verificar. A Ba&#237;a, ou melhor, </span><em><span>aquela vista </span></em><span>da Ba&#237;a pode bem estar, neste exato momento, em algum escaninho da mem&#243;ria. Se ela de fato estava l&#225;, como quer me parecer, l&#225; &#224; minha esquerda, por algum motivo n&#227;o me foi poss&#237;vel classific&#225;-lo junto &#224;s certezas taxativas. Eu penso em tudo que devo ter visto ao longo da vida. Cisnes. Tentativas de homic&#237;dio. Problemas deste tipo, problemas relacionados &#224; comprova&#231;&#227;o, &#224; exatid&#227;o, &#224; justeza descritiva, v&#234;m se colocando para mim com marcada regularidade desde que comecei a p&#244;r no papel estas lembran&#231;as. O pacto que subjaz &#224; codifica&#231;&#227;o po&#233;tica de uma determinada experi&#234;ncia &#233; </span><em><span>completamente diferente </span></em><span>das presid&#234;ncias da narrativa. Estar diante dessa </span><em><span>separa&#231;&#227;o </span></em><span>&#233; uma coisa bastante instrutiva. Penso que existe aqui alguma ingenuidade que devo superar. &#201; muito evidente que me&#231;o as duas inst&#226;ncias com r&#233;guas diferentes. O compromisso com uma certa realidade do fen&#244;meno que a escrita memorial&#237;stica implica n&#227;o se parece em nada com o compromisso da poesia. Em poesia, eu estou inteiramente &#224; vontade diante de uma Ba&#237;a de Luanda inteiramente imagin&#225;ria. No poema, a Ba&#237;a &#233; uma dispers&#227;o de part&#237;culas, uma pulveriza&#231;&#227;o. J&#225; na memorial&#237;stica, pare&#231;o escrever como se eu de fato existisse.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Sexto esboço autobiográfico.]]></title><description><![CDATA[Em que o autor escuta, fala, escuta de novo e depois escreve.]]></description><link>https://tirellineto.substack.com/p/sexto-esboco-autobiografico</link><guid isPermaLink="false">https://tirellineto.substack.com/p/sexto-esboco-autobiografico</guid><dc:creator><![CDATA[Ismar Tirelli Neto]]></dc:creator><pubDate>Wed, 12 Aug 2026 15:25:48 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!_r6J!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F93034f7e-34ac-4b0f-b0ff-57aaf960afca_636x636.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"></p><p style="text-align: justify;"><span>A hist&#243;ria &#233; confusa, e contada aos berros. &#201; tamb&#233;m a primeira coisa que ou&#231;o t&#227;o logo l&#225; ponho os p&#233;s. O volume neutraliza qualquer possibilidade de uma conversa vicinal. Para trocar os cumprimentos do costume, precisamos, os outros, arquear por sobre a voz, espichar um bocadinho. Conclu&#237;da esta etapa, procuro me ater (ato de voli&#231;&#227;o) ao que pode haver de significado naquela estrid&#234;ncia toda. Sento-me. Voam fragmentos afiados, referindo uma sua colega de trabalho, portanto, uma professora, pois ela trabalha numa escola de crian&#231;as bem pequenas. A colega, professora portanto, pelo que posso entender, p&#244;s-se &#224; frente de uma classe de crian&#231;as bem pequenas e anunciou que ia tirar a pr&#243;pria vida. Sim, pelo que posso entender, &#233; isso. Mas os bra&#231;os da mulher que conta a hist&#243;ria se erguem dramaticamente no ar pesado de fumos de churrasqueira, congelam-se, esgalhados. Suas m&#227;os se recortam contra a parede de tijolos expostos. &#8220;Pesado&#8221;, ela repete, calcando bem as s&#237;labas. N&#227;o consigo estar com os dois p&#233;s nessa frequ&#234;ncia, portanto, perco muitos detalhes. Que idade exatamente tinham as crian&#231;as para quem ela fez o an&#250;ncio. Se levou a coisa a cabo nas pr&#243;prias depend&#234;ncias da escola, se se atirou na frente de um carro em movimento &#224; sa&#237;da do edif&#237;cio, se aguardou at&#233; chegar em casa. Estou certo de que todos estes detalhes foram fornecidos, mas desta vez n&#227;o me foi poss&#237;vel alcan&#231;&#225;-los e assimil&#225;-los. Tenho a impress&#227;o de que </span><em><span>todos </span></em><span>podem ver como estou cansado. </span><em><span>A wild ride</span></em><span>. Ela organiza todas as narrativas em cl&#237;max, e s&#227;o sempre, invariavelmente, m&#243;rbidas. Ela parece n&#227;o conhecer ningu&#233;m que n&#227;o esteja neste exato momento em situa&#231;&#227;o de hip&#233;rbole. &#201; uma proseadora </span><em><span>extraordinariamente </span></em><span>violenta. Uma pessoa se sente mo&#237;da. Acabo de dar-lhe dois beijinhos e perguntar se fez boa viagem. &#201; ela que parece liderar o bando que mais tarde me acossa perto da cozinha e me pergunta a diferen&#231;a entre </span><em><span>vol&#225;til </span></em><span>e </span><em><span>vol&#250;vel. </span></em><span>Eu explico para o bando a diferen&#231;a entre </span><em><span>vol&#225;til </span></em><span>e </span><em><span>vol&#250;vel</span></em><span>. Zombam (nada &#8220;pesado&#8221;, naturalmente) porque eu sei a diferen&#231;a entre </span><em><span>vol&#225;til </span></em><span>e </span><em><span>vol&#250;vel. </span></em><span>Meu amigo diz: &#8220;voc&#234; tamb&#233;m n&#227;o se ajuda&#8221;.</span></p><p style="text-align: center;">*</p><p style="text-align: justify;"><span>Creio que n&#227;o posso, em s&#227; consci&#234;ncia, reivindicar sen&#227;o uma fra&#231;&#227;o </span><em><span>p&#237;fia </span></em><span>daquilo que j&#225; deveria saber um homem aos quarenta anos de idade. Simplesmente n&#227;o h&#225; fim para o tanto de ritmos que devemos aprender. Pensamos com frequ&#234;ncia que a coisa n&#227;o pode se estender muito al&#233;m da rumba, mas estamos </span><em><span>equivocados</span></em><span>. Pouso a m&#227;o direita sobre o ombro de um cunhado cuja paci&#234;ncia &#233; &#224; prova de bala e suspiro alto. Minha ignor&#226;ncia &#233; </span><em><span>gal&#225;tica. </span></em><span>Truques vocais, maneiras de temperar, nomes de m&#250;sculos, leis. O que eu tenho s&#227;o estas pequenas diferen&#231;as entre as palavras. &#192;s quais atribuo uma import&#226;ncia, reconhe&#231;o, desproporcionada. A ponto de acreditar que alguma esp&#233;cie de reden&#231;&#227;o &#233; de fato poss&#237;vel por meio das palavras, destas palavras com suas pequenas diferen&#231;as. Justo por conta de suas pequenas diferen&#231;as. Numa idade em que, bem sei, eu j&#225; deveria ter perdido todas as esperan&#231;as. Excelsos senhores! Agora o brilho niquelado no olhar deles me faz emudecer, e em bom tempo. Tem aipim frito. Decido adotar dali em diante uma certa canastrice, uns ares de larga desmunhecada. A noite ainda vai a meio. Vem-me &#224; mem&#243;ria a frase desfechada por Silvia Pinal, no papel do Diabo, ao final de &#8220;Sim&#227;o do Deserto&#8221;: &#8220;</span><em><span>tendr&#225;s que aguantar hasta el fin!</span></em><span>&#8221;. Mais uma vez, penso que estou fazendo isso, creio que estou </span><em><span>enfatizando a mim mesmo</span></em><span> dessa maneira com o &#250;nico prop&#243;sito de resistir ao cansa&#231;o, de me manter </span><em><span>desperto</span></em><span>. Quanto mais espa&#231;o se ocupa, mais alertas nos tornamos. Quanto maior o espa&#231;o que se ocupa, mais o espa&#231;o </span><em><span>co&#231;a</span></em><span>, mais o espa&#231;o </span><em><span>arranha</span></em><span>, </span><em><span>pinica</span></em><span>, exige de n&#243;s uma postura vigilante. Funciona, por um tempo. Mas um gesto assim n&#227;o se sustenta, acaba desabando, deixando-nos fatalmente &#224;s voltas com a amarga sensa&#231;&#227;o de nos termos parodiado a n&#243;s mesmos em p&#250;blico, de termos dobrado uma aposta no vazio.</span></p><p style="text-align: center;">*</p><p style="text-align: justify;"><span>Sim, quanto mais voc&#234; mente, mais atento se torna, deve se tornar. Quanto mais voc&#234; sonega, quanto mais se artificializa, mais refinada sua aten&#231;&#227;o. Tem muita coisa no ar e conv&#233;m dar conta de tudo. Podemos atingir extremos de tens&#227;o bastante singulares nestas circunst&#226;ncias. </span><em><span>Ride it out.</span></em><span> Sinto-me vagamente culpado diante dessas pessoas por estar cultivando uma dimens&#227;o privada. Isto &#233; uma novidade. Eu nunca me havia percebido como algu&#233;m </span><em><span>cheio de segredos</span></em><span>. O que tamb&#233;m prova que, se voc&#234; tratar algu&#233;m como espi&#227;o por tempo suficiente, esta pessoa </span><em><span>vai</span></em><span> come&#231;ar a espionar.</span></p><p style="text-align: center;">*</p><p style="text-align: justify;"><span>E para quem voc&#234; trabalha, para quem entrega as informa&#231;&#245;es que vem coletando? Com quem est&#225; a sua lealdade? A literatura?</span></p><p style="text-align: center;">*</p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Escrever porque uma certa janela de boa-vontade se fechou&#8221;. A frase me ocorre e abalo para registr&#225;-la, ignorante, a princ&#237;pio, de suas reais implica&#231;&#245;es. Ela se precipita do tumultuado pano de fundo de uma cont&#237;nua tourada cerebral com a autoridade de um verso. Talvez </span><em><span>seja </span></em><span>um verso. Como distinguir? Afinal, pode igualmente se tratar de uma daquelas raras ocasi&#245;es, n&#227;o mais que duas ou tr&#234;s por ano, em que eu produzo um </span><em><span>pensamento.</span></em></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Quinto esboço autobiográfico.]]></title><description><![CDATA[Em que o autor rememora a autoexegese de Umberto Saba, "Storia e Cronistoria del Canzoniere", e se censura pelo &#243;bvio gosto com que se lan&#231;a &#224; tarefa de assinar o pr&#243;prio nome.]]></description><link>https://tirellineto.substack.com/p/quinto-esboco-autobiografico</link><guid isPermaLink="false">https://tirellineto.substack.com/p/quinto-esboco-autobiografico</guid><dc:creator><![CDATA[Ismar Tirelli Neto]]></dc:creator><pubDate>Sun, 09 Aug 2026 18:39:47 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!_r6J!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F93034f7e-34ac-4b0f-b0ff-57aaf960afca_636x636.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"></p><p style="text-align: justify;"><span>O pseud&#244;nimo era uma &#8220;formalidade diplom&#225;tica&#8221;. Ningu&#233;m ignorava a real identidade de Giuseppe Carimandrei. &#201; assim que se assina o autor da primeira edi&#231;&#227;o de </span><em><span>Storia e Cronistoria del Canzoniere</span></em><span>, Mondadori, 1948. Sendo Carimandrei como que uma conven&#231;&#227;o do pr&#243;prio Umberto Saba, poeta triestino que, j&#225; entrado em anos, conclu&#237;ra que a idade o havia distanciado de sua pr&#243;pria obra ao ponto da imparcialidade. Se n&#227;o estou muito enganado, o arrazoado aqui &#233; de que a idade, a passagem do tempo, teria mesmo o poder de nos tornar perfeitos cr&#237;ticos de n&#243;s mesmos. Cr&#237;ticos cabais. Saba escreveu um texto cr&#237;tico sobre o pr&#243;prio trabalho, na terceira pessoa, falando como esta conven&#231;&#227;o, a partir desta conven&#231;&#227;o, de resto, transparente, Giuseppe Carimandrei. Pouqu&#237;ssimo tempo se perde at&#233; a declara&#231;&#227;o aberta de que estamos prestes a nos lan&#231;ar a uma minuciosa investiga&#231;&#227;o das causas por tr&#225;s da incompreens&#227;o do p&#250;blico e da cr&#237;tica em rela&#231;&#227;o &#224; obra de Saba. Carimandrei procede a uma esp&#233;cie de mapeamento da faltosa fortuna cr&#237;tica de Saba, salienta algumas linhas de for&#231;a. Uma delas, o autobiografismo de Saba. </span><em><span>&#200; il cosidetto &#171;autobiografismo di Saba&#187;</span></em><span>&#184; l&#234;-se. Praticamente metade da obra foi escrita enquanto Saba vivia na clandestinidade, em Floren&#231;a, em fuga do terror nazi. Um momento descrito por Stephen Sartarelli, tradutor da </span><em><span>Storia e Cronistoria</span></em><span>... para o ingl&#234;s, como sendo de m&#225;xima desilus&#227;o para Saba; momento em que sua f&#233; na fraternidade dos homens e na fraternidade da It&#225;lia havia atingido seu ponto mais baixo. &#201; neste contexto, nesta espessura, que Saba se prop&#245;e aplicar um corretivo numa comunidade liter&#225;ria que nunca lhe dera o devido valor.</span></p><p style="text-align: center;"><span>*</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Nada como a proximidade de um bloco de rascunho, destes que ficam largados sobre os balc&#245;es das papelarias, blocos onde as pessoas testam as canetas antes de compr&#225;-las, nada como a proximidade de um bloco destes para me fazer ver, e da maneira mais clara, o qu&#227;o </span><em><span>pr&#243;ximo</span></em><span> estou da minha pr&#243;pria assinatura o tempo inteiro. Pr&#243;ximo ao extremo da n&#225;usea. Fico escandalizado com a </span><em><span>facilidade </span></em><span>com que saio pondo meu nome nas coisas, o desembara&#231;o com que minha m&#227;o, meus dedos, lan&#231;am-se &#224; tarefa de assinar. Minha m&#227;o subitamente adquire improv&#225;vel gra&#231;a de decis&#227;o. Uma sucess&#227;o de floreios cumpridos com precis&#227;o e casualidade, como se de fato a m&#227;o fosse feita precisamente para isso, para assinar, para significar o seu portador em contratos, cheques, formul&#225;rios, cartas, frontisp&#237;cios de livros. Como se a m&#227;o fosse um peixe na &#225;gua do nome. A assinatura est&#225; na ponta dos dedos, uma imin&#234;ncia, ela espera ansiosamente por um sinal para saltar, por uma oportunidade. E o pior &#233; que eu me </span><em><span>treinei </span></em><span>para atingir isto. Minha inf&#226;ncia &#233; marcada pela </span><em><span>inveja </span></em><span>&#224;s intricadas, bel&#237;ssimas assinaturas que se desenhavam &#224; minha volta. Eu estudava &#8211; como pode uma crian&#231;a ser ao mesmo tempo avoada e t&#227;o cheia de c&#225;lculo? &#8211; a assinatura do meu av&#244; no seu exemplar de </span><em><span>O Livro do Desassossego. </span></em><span>Ela evocava um friso muito antigo. Eu passava horas aproximando mentalmente aquela massa labir&#237;ntica de sinais &#224; realidade do nome do meu av&#244;, procurando decodificar a primeira &#224; luz da segunda. Em seguida, o segundo impasse, topado, como j&#225; dei a entender, com um entusiasmo inteiramente doentio. O impasse de </span><em><span>criar a minha pr&#243;pria assinatura</span></em><span>. O per&#237;odo de estudos. As repeti&#231;&#245;es. V&#234;-se. A assinatura est&#225; na ponta dos dedos porque fui </span><em><span>eu que a coloquei l&#225;</span></em><span>, j&#225; l&#225; v&#227;o muitos anos. E eu fiz for&#231;a.</span></p><p style="text-align: center;"><span>*</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Acres&#231;a a isso o fato de que, por esta &#233;poca, com onze ou doze anos, comecei a colecionar aut&#243;grafos por correspond&#234;ncia. A contempla&#231;&#227;o detida de assinaturas passou, portanto, a ter um vulto e um peso bastante improv&#225;veis na vida interior de um rapaz mal sa&#237;do da inf&#226;ncia. O h&#225;bito de colecionar aut&#243;grafos &#8211; sobre o qual sempre quis escrever, sobre o qual nunca escrevi longamente &#8211; acabou tamb&#233;m por firmar, em mim, uma associa&#231;&#227;o entre o ato de assinar e demonstra&#231;&#245;es de estima: associa&#231;&#227;o t&#227;o </span><em><span>falsa </span></em><span>quanto </span><em><span>dif&#237;cil de desfazer</span></em><span>. Enquanto testo uma caneta na papelaria, enquanto assino meu nome repetidas vezes no bloco sobre a bancada da papelaria, de meio a tantos rabiscos de Twombly, sei que estou obscuramente </span><em><span>dedicando </span></em><span>alguma coisa a algu&#233;m, sei que estou fazendo uma </span><em><span>baixeza</span></em><span>, sei que estou dando vaz&#227;o ao que de pior existe em mim &#224; vista de todos.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A papelaria chama-se </span><em><span>Bazar Sensa&#231;&#227;o.</span></em><span> O que, convenhamos, n&#227;o ajuda em nada. </span></p><p style="text-align: justify;"></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Quarto esboço autobiográfico.]]></title><description><![CDATA[Em que o autor fantasia fugir de uma situa&#231;&#227;o desconcertante com um grupo de "hell's angels".]]></description><link>https://tirellineto.substack.com/p/quarto-esboco-autobiografico</link><guid isPermaLink="false">https://tirellineto.substack.com/p/quarto-esboco-autobiografico</guid><dc:creator><![CDATA[Ismar Tirelli Neto]]></dc:creator><pubDate>Thu, 06 Aug 2026 13:30:08 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!_r6J!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F93034f7e-34ac-4b0f-b0ff-57aaf960afca_636x636.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"></p><p style="text-align: justify;">A espa&#231;os o vento chibata meu ouvido esquerdo. Por tr&#225;s das bumbas, uma guitarra obscenamente viril sola h&#225; talvez meia hora; por tr&#225;s do solo de guitarra, a voz dele: &#8220;<em>as cinquenta gotinhas de Dipirona est&#227;o batendo&#8221;. </em><span>No retrovisor, meu rosto, o rosto todo amarfanhado de um astronauta numa centrifugadora gigante. Cansado e dolorido do passatempo, passo a observ&#225;-lo agora, de canto de olho. Flagro-o fazendo o sinal da cruz pouco antes de metermos pela rodovia. Naturalmente, </span><em>todos os desastres</em><span> que ele busca afugentar com este gesto v&#234;m passar diante dos meus olhos, como nos filmes que as pessoas nos filmes costumam assistir quando v&#227;o tirar a carteira de motorista. O utilit&#225;rio entra com tudo na traseira de um caminh&#227;o de gasolina. Um cervo sa&#237;do daquelas placas que advertem da poss&#237;vel presen&#231;a de animais na estrada atravessa o para-brisa do ve&#237;culo; seus olhos, cada vez mais perto, cacos foscos. Ou desviamos do cervo e colidimos com uma cabine de ped&#225;gio, dentro da qual uma mulher com um crach&#225; escrito</span><em> Luara</em><span> encomprida os olhos e para de sorrir.</span></p><p style="text-align: justify;"></p><p style="text-align: center;">*</p><p style="text-align: justify;"></p><p style="text-align: justify;">Eu e o homem a meu lado estamos num impasse. Ele n&#227;o me ama, nem eu o amo tampouco. No entanto, como somos constitutivamente incapazes de tratar desse tipo de coisa de maneira objetiva, como somos incapazes de simplesmente<em> arcar</em> um com o outro &#8211; procedimento padr&#227;o, pude j&#225; ver, em tantas fam&#237;lias &#8211; sem que isso acarrete em tomar todo tipo de liberdade, a atmosfera entre n&#243;s &#233; de engui&#231;o. Durante a maior parte do trajeto, consigo fazer frente &#224; minha pr&#243;pria<em> torpe </em>tend&#234;ncia &#224; conversa mi&#250;da. Por outro lado, um sil&#234;ncio cultivado com demasiada intencionalidade acabaria por levantar suspeitas. De modo que, quando os eucaliptos come&#231;am a aparecer, rigorosamente enfileirados de ambos os lados da estrada, comento minha surpresa diante do fato de estarem todos de p&#233;, dada a viol&#234;ncia da tempestade que se abatera sobre a regi&#227;o no dia anterior. O que lhe d&#225; ensejo de compartilhar algum dado, alguma curiosidade, alguma anedota, prontamente esquecida, sobre a f&#225;brica de papel, assentada numa eleva&#231;&#227;o distante &#224; nossa direita. Uma grossa tripa de fuma&#231;a branca se eleva da constru&#231;&#227;o. Contra o azul do c&#233;u<em> intermin&#225;vel</em>, a fuma&#231;a produz um efeito pl&#225;stico bastante interessante. Para que cenas e ocasi&#245;es venho guardando, unhaca, o adjetivo &#8220;bonito&#8221;?<em> Golden retrievers</em> brincam num parquinho gramado ao entardecer; rapazes sem camisa tocam viol&#227;o. A idade da inoc&#234;ncia <em>acabou</em>. Tudo isto d&#225;-se muito longe. Agora estamos na estrada, agora descemos, neste monstruoso utilit&#225;rio, a met&#225;fora mais gasta do mundo.</p><p style="text-align: justify;"></p><p style="text-align: center;">*</p><p style="text-align: justify;"></p><p style="text-align: justify;">Met&#225;foras. N&#227;o me sinto tocado pela imagem dos eucaliptos porque ela me fala de for&#231;a, tenacidade, adaptabilidade, qualquer que seja o termo em voga. A pequena e met&#225;lica como&#231;&#227;o que sinto diz respeito a uma certa imagem da escrita que vem se formando. Os eucaliptos est&#227;o dispostos a intervalos regulares n&#227;o muito extensos, t&#234;m todos o mesmo tamanho, sua composi&#231;&#227;o &#233; cerrada e compacta, o prazer que suscitam &#233; quase id&#234;ntico ao de ouvir um bom orador. O que fala &#233; uma coisa feita pelo homem, sem nenhuma pretens&#227;o ao natural. A vit&#243;ria do artif&#237;cio. A deliciosa estranheza do m&#233;todo que se anuncia como tal, sem escamotea&#231;&#227;o. Na casa dele predominam os tons terrosos, m&#243;veis de vime, badulaques indianos. Por vezes, p&#225;ssaros balofos e coloridos ao extremo da<em> chanchada </em>v&#234;m pousar no jardim. Ele interrompe uma conversa para mostrar-nos, no seu celular, um v&#237;deo tomado quando de sua &#250;ltima visita a D., a pequena cidade cercada de cachoeiras onde, depois de muito esfor&#231;o, muita priva&#231;&#227;o, conseguiu comprar em sociedade com alguns parentes uma esp&#233;cie de casinha de veraneio. Um tamandu&#225; cruza o quadro. &#8220;Olha o tamandu&#225;!&#8221;. Eu olho o tamandu&#225;.</p><p style="text-align: justify;"></p><p style="text-align: center;">*</p><p style="text-align: justify;"></p><p style="text-align: justify;">Acatar ou desacatar, obedecer ou desobedecer. Ambas as posturas produzem consequ&#234;ncias desvantajosas, quando n&#227;o desastres.<em> Simplesmente n&#227;o h&#225; uma maneira correta de tocar a vida</em>. Os servis tabulam cada pequena humilha&#231;&#227;o que lhes &#233; feita, desfazem-se em fantasias de Pirata Jenny, sua capacidade para o remordimento desconhece limites. Os individualistas, os<em> arrojados</em>, os que abandonam a mesa de negocia&#231;&#227;o e saem da sala pisando grosso, os que n&#227;o ceder&#227;o sob hip&#243;tese alguma, recostam as cabecinhas contra a vidra&#231;a &#224; noite, contemplam ruelas vazias e suspiram, sem compreender muito bem por que ficaram sozinhos, por que a mesa de negocia&#231;&#227;o os abandonou a eles. A &#250;nica constante verific&#225;vel &#233; o pre&#231;o que se paga ser alto demais. Ningu&#233;m consegue ser uma coisa at&#233; o fim. As alegrias da solidez n&#227;o s&#227;o para n&#243;s.</p><p style="text-align: justify;"></p><p style="text-align: center;">*</p><p style="text-align: justify;"></p><p style="text-align: justify;">Fazemos uma parada. Enquanto o espero voltar do banheiro, concentro minha aten&#231;&#227;o num grupo sentado a uma mesa na varanda do restaurante. Tr&#234;s <em>hell&#8217;s angels</em><span>, dois homens e uma mulher, todos de idade mais para avan&#231;ada, travam uma elegante, visivelmente amistosa conversa, cujo teor exato n&#227;o alcan&#231;o por estar no outro extremo da &#225;rea alpendrada. Acendo o cigarro e sigo observando seus gestos. Gestos medidos, mas calorosos. O homem de bandana vermelha cofia a longa barba branca enquanto escuta, atento, a exposi&#231;&#227;o da camarada. Atento &#224;s express&#245;es idiom&#225;ticas, os </span><em>dizeres</em><span> que a sabedoria popular nos legou para informar que &#233; imposs&#237;vel, </span><em>absolutamente imposs&#237;vel</em><span>, viver segundo um projeto, viver um desenho coerente.</span><em> Fodido, fodido e meio.</em><span> </span><em>Tanto faz como tanto fez. </em><span>O final de &#8220;Alfie&#8221;, quando Michael Caine olha para a c&#226;mera e diz: &#8220;se n&#227;o te pegam de um jeito, te pegam de outro&#8221;. Michael Jackson em &#8220;The Wiz&#8221; cantando: &#8220;</span><em>you can&#8217;t win, child; you can&#8217;t break even, you can&#8217;t get out of the game</em><span>&#8221;. Cofio minha pr&#243;pria barba, rec&#233;m-aparada, agrisalhando. De repente, a vontade, quase irresist&#237;vel, de</span><em> ir com eles</em><span>, de</span><em> ir com os hell&#8217;s angels</em><span>, de come&#231;ar, na companhia deles, na vizinhan&#231;a deles, um novo e interessante cap&#237;tulo da minha vida.</span></p><p style="text-align: justify;">&#201; com alguma dificuldade que me lembro que n&#227;o sou uma crian&#231;a, e que eles n&#227;o s&#227;o o circo.</p><p style="text-align: justify;"></p><p style="text-align: center;">*</p><p style="text-align: justify;"></p><p style="text-align: justify;"><span>Quando finalmente chegamos ao hospital, a realidade da tempestade do dia anterior se coloca. A guarita do posto policial foi destelhada, e os escombros ainda n&#227;o foram recolhidos. H&#225; uma c&#243;pia de &#225;rvores ca&#237;das pelo trajeto que conduz aos ambulat&#243;rios, ra&#237;zes expostas, desordem e imund&#237;cie por toda a parte. Como estou h&#225; muito tempo em sil&#234;ncio, lamento em voz alta n&#227;o ter trazido a minha c&#226;mera. O coment&#225;rio me ocorre com tanta naturalidade que nem parece que j&#225; faz quase uma </span><em>d&#233;cada </em><span>que n&#227;o tenho uma c&#226;mera fotogr&#225;fica. Eu falo como se n&#227;o tivesse desistido de fotografar h&#225; uns oito ou nove anos, e ele responde como se eu ainda fotografasse; como se, de fato, eu tivesse</span><em> esquecido uma c&#226;mera</em><span> em casa, dentro de uma gaveta, sobre a mesa da sala, sobre o bra&#231;o do pequeno sof&#225; marrom. Por um breve instante, um homem que eu n&#227;o sou mais veio &#224; tona e se pronunciou, e foi</span><em> recebido</em><span> como se nunca tivesse deixado de existir, como se em nada diferisse de mim. &#8220;Pena mesmo&#8221;, diz ele, conduzindo o autom&#243;vel at&#233; o estacionamento. &#8220;Talvez voc&#234; j&#225; queira ir pegando seu lugar na fila, estamos bem em cima da hora&#8221;. N&#227;o t&#237;nhamos como prever que minha consulta atrasaria </span><em>quatro horas</em><span>, e que ter&#237;amos de sofrer a companhia um do outro por toda a tarde de inverno. Ser&#225; inapelavelmente noite quando pegarmos a estrada de volta. Ele reclamar&#225; por longo tempo que j&#225; n&#227;o enxerga </span><em>nada</em><span>, que n&#227;o tem mais condi&#231;&#245;es de pegar estrada &#224; noite, que &#233; uma</span><em> imprud&#234;ncia</em><span>, isto que estamos fazendo. Eu me dirigirei a ele como um pai exausto se dirigiria a uma crian&#231;a col&#233;rica. &#8220;Calma, daqui a pouquinho chegamos&#8221;. Mas trata-se de uma voz que n&#227;o corresponde a nada que eu j&#225; tenha sido, ou que, desconfio, em algum momento serei.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Terceiro esboço autobiográfico.]]></title><description><![CDATA[Em que o autor discorre nervosamente sobre sua rela&#231;&#227;o conflituosa com "os olhos".]]></description><link>https://tirellineto.substack.com/p/terceiro-esboco-autobiografico</link><guid isPermaLink="false">https://tirellineto.substack.com/p/terceiro-esboco-autobiografico</guid><dc:creator><![CDATA[Ismar Tirelli Neto]]></dc:creator><pubDate>Sat, 01 Aug 2026 03:20:34 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!_r6J!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F93034f7e-34ac-4b0f-b0ff-57aaf960afca_636x636.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span>Quando ainda n&#227;o tinha idade suficiente para tomar parte nas &#8220;noites musicais&#8221; organizadas por seus pais no casar&#227;o em Roseau, ela costumava ir sentar-se &#224; escadaria, de onde fitava, atrav&#233;s do corrim&#227;o, a passagem </span><em><span>entenebrada </span></em><span>al&#233;m da qual se encontrava o sal&#227;o. Certa feita, estava assim, os olhos cravados no escuro, quando algu&#233;m l&#225; dentro come&#231;ou a entoar uma cantiga de idos Eduardianos, &#8220;</span><em><span>Night has a thousand eyes</span></em><span>&#8221;. De repente, relata ela, j&#225; n&#227;o queria mais ficar ali ouvindo m&#250;sica. Levantou-se e tocou apressadamente para o quarto. O trecho de &#8220;</span><em><span>Smile Please</span></em><span>&#8221; &#8211; autobiografia que Jean Rhys deixou incompleta ao morrer &#8211; onde lemos esta cena prossegue da seguinte maneira:</span></p><p style="text-align: justify;"><em><span>&#8216;Mil olhos tem a noite&#8217;, pois sim, tudo tem olhos. Aranhas t&#234;m olhos, parece que uma boa quantidade deles quando se olha uma aranha atrav&#233;s de um microsc&#243;pio. Mariposas t&#234;m olhos, besouros t&#234;m olhos, suponho que o mesmo valha para centopeias. Detest&#225;veis baratas voadoras t&#234;m olhos.</span></em></p><p style="text-align: justify;"><em><span>A janela estava escancarada. Fazia tanto calor, tanto calor. De modo que poderia entrar uma barata. As frias estrelas me olham. &#8216;Mil olhos tem a noite&#8217;; mais para um milh&#227;o, penso eu.</span></em></p><p style="text-align: center;"><span>*</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Procuro deliberadamente uma literatura de olhares hostis. Oriento-me para isto, n&#227;o s&#243; como leitor. Pressinto certo perigo em diz&#234;-lo, embora, a princ&#237;pio, n&#227;o consiga identificar este perigo muito bem. Sei que, mal o pensamento me ocorre, uma esp&#233;cie de enojo me adverte de que devo acompanhar esta linha de racioc&#237;nio com cuidado. Pergunto-me a que risco, exatamente, me exponho. Minha respira&#231;&#227;o quebra-se de encontro ao contar o olho. Meus l&#225;bios se tesam, os pelos do antebra&#231;o assumem posi&#231;&#227;o de sentido. Verifico um estreitamento do meu corpo inteiro, como se estivesse prestes a demonstrar uma proposi&#231;&#227;o que n&#227;o deveria ser, em hip&#243;tese alguma, demonstrada, ou mesmo </span><em><span>reconhecida publicamente</span></em><span>: eles existem, os olhos existem. Portanto, como o que me falta de f&#233; verdadeira, sobra em supersti&#231;&#227;o, comporto-me como se o ato de escrever fosse tornar estes orbes, estes corpos que n&#227;o se conformaram nem &#225;gua nem carne, irremediavelmente </span><em><span>reais</span></em><span>. Pois &#233; apenas de ouvir falar que sei que os olhos n&#227;o s&#227;o abstratos. Vivo como se n&#227;o estivesse inteiramente convicto de sua presen&#231;a no meu rosto, </span><em><span>ignoro-os </span></em><span>de maneira t&#227;o met&#243;dica quanto ignoro as outras </span><em><span>marcas </span></em><span>do meu corpo, e sei que este interdito, ou melhor, este </span><em><span>c&#225;lculo de indetermina&#231;&#227;o</span></em><span>, me protege de alguma coisa t&#227;o </span><em><span>mortificante</span></em><span> que minha imagina&#231;&#227;o n&#227;o a alcan&#231;a. N&#227;o sei por que repilo t&#227;o instintivamente a realidade f&#237;sica dos olhos quando </span><em><span>o olhar</span></em><span> ocupa tamanho espa&#231;o na minha vida. Percebo agora que me relaciono com eles como certas pessoas se relacionam com a pr&#243;pria genit&#225;lia: persigo ativamente os prazeres que eles me podem proporcionar, e preciso vencer todo tipo de resist&#234;ncia interna para pensar com alguma profundidade no que eles </span><em><span>s&#227;o</span></em><span>. Por raz&#245;es que, julgo, jamais serei capaz de desvendar de todo, n&#227;o aceito totalmente o fato de serem os olhos o art&#237;fice do visual. &#201; como se apenas a imagem tivesse o direito de existir, e n&#227;o o equipamento respons&#225;vel por sua capta&#231;&#227;o e ordena&#231;&#227;o. Fico repugnado ao extremo da vertigem diante de qualquer representa&#231;&#227;o &#8211; liter&#225;ria, cinematogr&#225;fica, pl&#225;stica &#8211; de viol&#234;ncia ocular. N&#227;o consigo estar em paz diante do fato de que existem profissionais m&#233;dicos que dedicam a vida inteira &#224; futuca&#231;&#227;o do olho. S&#227;o, para mim, quase t&#227;o indecentes quanto dentistas.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Boa parte de minhas </span><em><span>dificuldades</span></em><span> deriva do fato de que sou vis&#237;vel. Vou al&#233;m e avan&#231;o a hip&#243;tese </span><em><span>extremamente vexat&#243;ria</span></em><span> de jamais ter ultrapassado de todo certo </span><em><span>asco </span></em><span>diante do fato de que os indiv&#237;duos devem apreender-se uns aos outros mediante os </span><em><span>sentidos.</span></em><span> Em alguma parte de mim parece existir um pequeno anjo de metal que n&#227;o se reconciliou de todo com a crueza de certos processos. Penso que jamais conseguiria descrever de forma convincente um par de olhos </span><em><span>doces</span></em><span> ou </span><em><span>amorosos. </span></em><span>Sei que j&#225; fui olhado com do&#231;ura, talvez at&#233; mesmo com amor. Mas eu n&#227;o vi, n&#227;o passou de um encontr&#227;o, eu tinha os olhos postos em algum outro elemento da cena, algo que n&#227;o me devolvesse o olhar. Penso que s&#243; houve uma pessoa na minha vida em cujos olhos me detive com meus olhos, o homem com quem fui casado por cinco anos. Penso que foi o &#250;nico par de olhos que consegui de fato </span><em><span>focalizar</span></em><span> na minha vida. Todos os outros diligenciei de evitar. Mesmo assim, sem recorrer a uma fotografia, n&#227;o conseguiria dizer com certeza, de bate-pronto, de que cor s&#227;o os olhos do meu ex-marido. Tropicaria em algum matiz entre amendoado, cinzento e dourado. Engasgaria num entretom, discorreria acerca da ilumina&#231;&#227;o ambiente, solucionaria o impasse tirando da cartola algum adjetivo </span><em><span>distingu&#233; </span></em><span>como &#8220;cambiante&#8221;. &#201; o que as pessoas passaram a esperar de mim. Gagueira e adjetivos antiquados. Trato de comparecer com estas coisas mesmo quando estou me sentindo </span><em><span>moderno </span></em><span>e </span><em><span>fluente</span></em><span>, pela boa manuten&#231;&#227;o das rela&#231;&#245;es.</span></p><p style="text-align: center;"><span>*</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Suponhamos ent&#227;o que eu me veja um dia &#224;s voltas com a descri&#231;&#227;o de uns olhos doces. Eu me cingiria a dizer &#8220;doces&#8221;, os olhos s&#227;o &#8220;doces&#8221;, e a fic&#231;&#227;o o acataria, pois a fic&#231;&#227;o e eu somos de naturezas diversas. </span><em><span>Eu </span></em><span>sou r&#237;gido e intransigente, </span><em><span>eu </span></em><span>sou o pequeno querubim de tit&#226;nio. A fic&#231;&#227;o &#233; muito mais aberta e se maleia por todos os recantos do rosto, do corpo, da situa&#231;&#227;o. &#201; </span><em><span>absurdo</span></em><span>, o tanto de que ela &#233; capaz. A fic&#231;&#227;o andou desde sempre cheia, </span><em><span>positivamente </span></em><span>cheia de criaturas que se olham nos olhos e atingem com isso entendimentos. Entendimentos secretos, misteriosos. Com os </span><em><span>olhos</span></em><span>. A fic&#231;&#227;o &#233; inverossimilmente generosa. A fic&#231;&#227;o &#233; um </span><em><span>anjo de verdade. </span></em><span>N&#227;o sei dizer se estas categorias de fato existem.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Segundo esboço autobiográfico.]]></title><description><![CDATA[Em que o autor revisita um de seus primeiros momentos de "total separa&#231;&#227;o" e relembra o medo p&#226;nico que seu av&#244; nutria pelo filme "Trinta Anos Esta Noite", de Louis Malle.]]></description><link>https://tirellineto.substack.com/p/segundo-esboco-autobiografico</link><guid isPermaLink="false">https://tirellineto.substack.com/p/segundo-esboco-autobiografico</guid><dc:creator><![CDATA[Ismar Tirelli Neto]]></dc:creator><pubDate>Wed, 29 Jul 2026 02:22:34 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!_r6J!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F93034f7e-34ac-4b0f-b0ff-57aaf960afca_636x636.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span>Existem filmes muito bons dos quais n&#227;o quero apanhar nunca mais. </span><em><span>News from Home</span></em><span>, da Chantal Akerman, &#233; um dos que v&#234;m &#224; mente primeiro. </span><em><span>O Sil&#234;ncio </span></em><span>e </span><em><span>Gritos e Sussurros</span></em><span>, do Bergman. Penso tamb&#233;m num filme de 1937 chamado </span><em><span>Night Must Fall</span></em><span>, talvez um dos filmes mais inc&#244;modos que j&#225; vi. &#201; muito mais v&#237;vida do que eu gostaria de admitir, minha lembran&#231;a de Robert Montgomery desvairado, aos berros:</span></p><p style="text-align: justify;">&#8211; <span>Posso v&#234;-lo chegando &#8211; o dia em que nasci! </span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#201; um filme mal&#233;fico, cheio de malef&#237;cio.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Meu av&#244; parecia achar </span><em><span>Trinta Anos Esta Noite</span></em><span> mal&#233;fico. Quando comecei a me interessar por cinema, eu era muito mo&#231;o, uma crian&#231;a, e mal podia sair de casa desacompanhado. Tinha de contar, o mais dos casos, com a boa-vontade do meu av&#244;. Certo dia, vi no jornal que um cinema no centro da cidade levaria aquela tarde um filme franc&#234;s de 1963, e fui sugerir o programa.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Meu av&#244; </span><em><span>suportou muito mal </span></em><span>a men&#231;&#227;o a </span><em><span>Trinta Anos Esta Noite</span></em><span>. Um homem de temperamento brando, s&#243;lido de express&#227;o, meu av&#244; se descomp&#244;s </span><em><span>completamente </span></em><span>por um breve, apenas percept&#237;vel instante. Depois se refez e disse:</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8211; Eu n&#227;o posso ver esse filme.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>E nessas palavras havia</span><em><span> medo. </span></em><span>&#201; uma lembran&#231;a que me marcou porque foi um instante de total </span><em><span>separa&#231;&#227;o. </span></em><span>Eu me vi inteiramente apartado daquele homem com quem, para bem ou para mal, eu dividia um </span><em><span>nome</span></em><span>, talvez pela primeira vez na minha vida. Foi como se uma parti&#231;&#227;o de vidro se erguesse entre n&#243;s, e vinham rebater em mim, os tremores daquele pequeno abalo que eu tinha involuntariamente causado. Posso estar exagerando, mas penso que a partir da&#237; as nossas rela&#231;&#245;es mudaram. Eu tivera, pela primeira vez, uma intui&#231;&#227;o muito forte de que &#233;ramos </span><em><span>dois indiv&#237;duos distintos</span></em><span>. Eu teria que passar uma vida inteira provando isso, para mim mesmo e para os outros. Mas j&#225; pod&#237;amos come&#231;ar de algum lugar. Daquele momento em diante, a separa&#231;&#227;o, o desv&#237;nculo, come&#231;ou a se afigurar como uma possibilidade.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Naturalmente, eu era uma crian&#231;a, ent&#227;o, e n&#227;o teria conseguido articular nestes termos aquela estranheza e aquele recuo e aquela discreta reconfigura&#231;&#227;o. Eu estou falando por ela, por ele, aquela crian&#231;a. Aquele selvagem. Eu o conhe&#231;o. Eu estou chegando tarde demais com as palavras, mas c&#225; est&#227;o.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Passaram-se anos at&#233; que vi finalmente o </span><em><span>Trinta Anos Esta Noite. </span></em><span>Tornou-se um dos meus filmes favoritos. &#201; ainda um dos meus filmes favoritos. Reconhe&#231;o que me comporto de forma cerimoniosa com ele, que talvez o respeite em excesso. Eu me percebo inteiramente cego &#224; afeta&#231;&#227;o e ao amaneiramento que alguns lhe atribuem. N&#227;o consigo conceber que algu&#233;m n&#227;o veja o qu&#227;o sem subterf&#250;gio &#233; o sofrimento no rosto de Maurice Ronet. Seu entendimento e sua habita&#231;&#227;o daquele personagem s&#227;o t&#227;o completos que o termo </span><em><span>atua&#231;&#227;o </span></em><span>soa um pouco aqu&#233;m. N&#227;o existe terminologia adequada para o trabalho de Gena Rowlands nos filmes do Cassavetes.</span></p><p style="text-align: justify;"><em><span>Trinta Anos Esta Noite </span></em><span>&#233; um filme ao qual costumo retornar, n&#227;o de forma irrefletida, como dei a entender, mas n&#227;o se trata absolutamente de um filme mal&#233;fico para mim. &#201; um filme que espero ter ocasi&#227;o de rever muitas vezes. J&#225; com </span><em><span>News from Home</span></em><span>, uma vez s&#243; foi o suficiente. O filme &#233; brilhante. Mas &#233; uma esp&#233;cie de buraco negro. Ele </span><em><span>suga toda a vitalidade de quem o assiste</span></em><span>. &#201; um feito, &#233; &#243;bvio que &#233; um feito. Mas me falta a robustez.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Eu me pergunto, hoje, se foi isto que meu av&#244; me admitiu mau grado seu naquele dia. Que lhe faltava alguma coisa, uma certa robustez. Que ele era fraco, que ele era </span><em><span>na verdade</span></em><span> t&#227;o fraco que um filme poderia aniquil&#225;-lo. E eu, agora, posso fazer a crian&#231;a sorrir diante disso.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Primeiro esboço autobiográfico.]]></title><description><![CDATA[Em que o autor investiga suas lidas com os brilhantes, suas dificuldades em acertar com o caminho para a hora seguinte e os reais motivos pelos quais decidiu tentar aprender algumas dan&#231;as do momento.]]></description><link>https://tirellineto.substack.com/p/primeiro-esboco-autobiografico</link><guid isPermaLink="false">https://tirellineto.substack.com/p/primeiro-esboco-autobiografico</guid><dc:creator><![CDATA[Ismar Tirelli Neto]]></dc:creator><pubDate>Sat, 25 Jul 2026 15:31:09 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!_r6J!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F93034f7e-34ac-4b0f-b0ff-57aaf960afca_636x636.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"></p><p style="text-align: justify;"><span>Quando deito sobre minha vida um olhar retrospectivo, vejo-me metido com uma s&#233;rie de atividades comumente associadas a pessoas inteligentes. Declino educadamente de um passeio &#224;s ilhas para terminar de ler um ensaio sobre C&#233;zanne; transcrevo pacientemente passagens de grossos volumes em fichas pautadas; leio para uma plateia de jovens antrop&#243;logos e lideran&#231;as ind&#237;genas; imagens de atrizes suecas me ateiam p&#225;lidos clar&#245;es nas fundas madrugadas. &#201; de surpreender, portanto, que eu n&#227;o tenha me tornado, apesar destas const&#226;ncias, um homem particularmente inteligente.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Eu </span><em><span>consigo </span></em><span>travar uma conversa&#231;&#227;o com pessoas inteligentes; eu </span><em><span>consigo</span></em><span>, mediante franzir de cenho, assentidas de cabe&#231;a, exclama&#231;&#245;es entusi&#225;sticas e perguntas que provam, para al&#233;m de qualquer d&#250;vida, que estive prestando aten&#231;&#227;o no que ia dizendo meu interlocutor, eu </span><em><span>consigo </span></em><span>transmitir a impress&#227;o de que sou um sujeito de esp&#237;rito suficientemente penetrante. Em muitos sentidos, sou como que a </span><em><span>presa ideal</span></em><span> das pessoas verdadeiramente inteligentes. Porque o brilhantismo me interessa, me interessa honestamente, me interessa &#8211; por assim dizer &#8211; honesta e entranhadamente, e sempre tive ocasi&#227;o de constatar que as pessoas brilhantes costumam se relacionar quase que exclusivamente com pessoas, sen&#227;o brilhantes, pelo menos promissoras e esfor&#231;adas. Promissor eu sei que sou. Tenho sido promissor desde que me entendo por gente. Tenho sido </span><em><span>consistentemente </span></em><span>promissor h&#225; quarenta anos. Ademais, as posturas pelas quais me vejo repartido na mem&#243;ria, as imagens de mim mesmo que acorrem mais prontamente quando olho para tr&#225;s, s&#227;o posturas e imagens de </span><em><span>esfor&#231;o</span></em><span>, de </span><em><span>grande esfor&#231;o intelectual. </span></em><span>Mas n&#227;o me tornei um intelectual. Tornei-me, isto sim, algo como uma </span><em><span>v&#237;tima</span></em><span> exemplar, o </span><em><span>pre&#225; perfeito </span></em><span>para a rapina do verdadeiro intelectual.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Frequentar pessoas excepcionais foi a maneira que encontrei de me cultivar sem ter de passar pelo gigantesco inc&#244;modo de uma </span><em><span>educa&#231;&#227;o formal. </span></em><span>Muito cedo compreendi que &#8220;meu caminho&#8221; passaria ao largo dos saberes institucionais. Embora eu n&#227;o fizesse ideias muito claras quanto a onde este caminho iria dar, a ele me lancei com otimismo marcial e uma confian&#231;a no futuro inteiramente infundada. Um bom trecho deste percurso passei empenhado em aprimorar o meu </span><em><span>faro </span></em><span>para a genialidade. Atualmente, penso, e &#224; for&#231;a de algumas decep&#231;&#245;es fundantes, consigo enxergar um g&#234;nio a umas boas bra&#231;as de dist&#226;ncia em condi&#231;&#245;es de visibilidade as mais desfavor&#225;veis.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Hoje em dia, j&#225; n&#227;o frequento mais quase ningu&#233;m.</span></p><p style="text-align: center;">*</p><p style="text-align: justify;"><span>Tenho tentado me regrar. Com isto, quero dizer que tenho movido batalha contra a amorfia dos dias, tenho tentado decomp&#244;-los em atividades e posturas facilmente repet&#237;veis, tenho tentado </span><em><span>trancar os gestos no corpo</span></em><span>, o corpo em </span><em><span>hor&#225;rios</span></em><span>, tenho tentado perimetrar o que deve ser feito e adquirir outras consist&#234;ncias que n&#227;o a da promessa. Ora, em que p&#233; estamos com isso? &#201; dif&#237;cil estimar. Se, por um lado, vejo progressos, por outro, devo reconhecer minha pr&#243;pria impot&#234;ncia diante de certos h&#225;bitos e inclina&#231;&#245;es. Posso passar horas andando de um canto a outro do apartamento torcendo as m&#227;os e falando comigo mesmo em idiomas que n&#227;o domino muito bem. Continuo interrompendo tarefas importantes para cantar para os mesmos milh&#245;es que costumavam frequentar meu quarto de menino. Com frequ&#234;ncia, certas cenas do passado v&#234;m se abater sobre mim a meio do expediente, e gasto uma enormidade de tempo e &#233;lan vital </span><em><span>acomodando </span></em><span>estas mem&#243;rias insidiosas e violentas. &#201; frequente alguma antiga nudez ressurgir &#224; minha frente sem ser chamada e impedir a chegada do momento seguinte, demandando </span><em><span>total</span></em><span> aten&#231;&#227;o. Isto, tive j&#225; ocasi&#227;o de constatar, e sempre para meu grande embara&#231;o, n&#227;o &#233; de forma alguma comum. As pessoas &#224; minha volta &#8211; porquanto ainda h&#225; pessoas &#224; minha volta, embora sejam poucas, embora a cada ano escasseiem mais e mais &#8211; n&#227;o parecem, por assim dizer, </span><em><span>confinadas </span></em><span>a rela&#231;&#245;es de sujei&#231;&#227;o no tocante a seus pr&#243;prios passados. Elas n&#227;o est&#227;o </span><em><span>petrificadas</span></em><span>. Elas est&#227;o em movimento, elas </span><em><span>parecem </span></em><span>estar em movimento, mesmo que este movimentar-se se manifeste apenas em atos de linguagem. Eu me pergunto se estas pessoas conseguiram alcan&#231;ar um tal estado atrav&#233;s de um empenho consciente, um empenho consciente no sentido de tornar suas experi&#234;ncias pregressas leg&#237;veis para si pr&#243;prias. Eu me pergunto se foi, enfim, a linguagem, ou posto melhor, a linguagem </span><em><span>enquanto compromisso com o intelig&#237;vel</span></em><span>, o que lhes conduziu, em &#250;ltima an&#225;lise, a uma posi&#231;&#227;o de relativa vantagem com rela&#231;&#227;o ao passado; se foi, em suma, uma certa disposi&#231;&#227;o, ou </span><em><span>talento</span></em><span>, para o cristalino, o que lhes conferiu tanto poder de barganha com rela&#231;&#227;o ao que viveram e ao que j&#225; foram.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Acontece-me, portanto, e isto &#233; o mais das vezes, alcan&#231;ar o momento seguinte com algumas horas de atraso, n&#227;o raro envelhecido de alguns anos. E isto &#233; o futuro.</span></p><p style="text-align: justify;"><em><span>Isto</span></em><span>.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Isto depois de horas. Horas sem tom. Horas sem t&#244;nus. Ou horas por demais retesadas, horas duras, sem limiar, redondamente inabit&#225;veis. Horas de hora em hora sucedendo-se como aros em chamas atrav&#233;s dos quais tiv&#233;ssemos de saltar. O futuro e seu cheiro a pelo chamuscado. Sim, tentemos entrar em acordo com ele. Reconhecer a feitoria abandonada do corpo. Passear pelo fantasma que nele vai se aprontando. Voltar do fantasma e dizer a verdade.</span></p><p style="text-align: center;">*</p><p style="text-align: justify;"><span>Partamos, ent&#227;o, da seguinte hip&#243;tese de trabalho: dizer </span><em><span>a verdade </span></em><span>&#233; </span><em><span>descrever com a m&#225;xima exatid&#227;o o que se viu no fantasma. </span></em><span>Dizer </span><em><span>a verdade</span></em><span> &#233; relatar em que p&#233; anda a nossa sobrevida. N&#227;o a nossa vida, n&#227;o a nossa morte, mas o que vem depois disso; em que est&#225;gio vai a toalete do que vem depois disso. Dizer a verdade &#233; morrer, com todas as nada desprez&#237;veis vantagens de se permanecer em vida. Uma morte p&#250;blica. Suculenta, se encaminhada bem. O sonho do autoelogio f&#250;nebre ao alcance de todos. Mas h&#225; tamb&#233;m uma outra hip&#243;tese, muito menos po&#233;tica (sou poeta): a de que o esp&#237;rito do tempo esteja de alguma forma influindo no meu pr&#243;prio esp&#237;rito. A mim me parece que o atual panorama liter&#225;rio est&#225; cheio de mortos dizendo a verdade. Tenho acompanhado, ao longo dos &#250;ltimos quinze ou vinte anos, o que a </span><em><span>comunidade liter&#225;ria </span></em><span>tem feito com quem n&#227;o entrega a pr&#243;pria hist&#243;ria. &#201; poss&#237;vel, portanto, que esta vontade, irracional e s&#250;bita, de me deter </span><em><span>em prosa </span></em><span>e </span><em><span>publicamente </span></em><span>sobre min&#250;cias da minha pr&#243;pria vida origine, na verdade, do </span><em><span>medo</span></em><span>. Porque tenho tido ocasi&#227;o, repetidas vezes, ao longo dos &#250;ltimos quinze ou vinte anos, de ver o que a </span><em><span>comunidade liter&#225;ria </span></em><span>vem fazendo com quem n&#227;o entrega a pr&#243;pria hist&#243;ria, com quem n&#227;o </span><em><span>rende </span></em><span>a pr&#243;pria hist&#243;ria. Ou talvez eu s&#243; esteja interessado em ampliar um pouco meu leque de possibilidades expressivas para a perda, o que n&#227;o me parece um impulso inteiramente imoral. Lembro-me aqui que a cr&#244;nica e a escrita memorial&#237;stica </span><em><span>sempre </span></em><span>me interessaram vivamente; que muitos autores que me s&#227;o caros as praticaram, ou sobre elas </span><em><span>variaram </span></em><span>de maneira consequente e original; que muitos destes autores tiveram, por exemplo, colunas em jornais onde comprometiam-se a </span><em><span>exercitar o mundo</span></em><span>, e que este exerc&#237;cio de mundo, levado a efeito com periodicidade regular e em conformidade com as limita&#231;&#245;es inerentes ao formato de uma coluna de jornal, transcorria numa estreita rela&#231;&#227;o com certa ideia de </span><em><span>p&#250;blico leitor</span></em><span>.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Perdi tanto o passeio &#224;s ilhas quanto o ensaio sobre C&#233;zanne. Perderam-se tamb&#233;m as fichas pautadas preenchidas de alto a baixo. A plateia, de meio &#224; qual poderia ter estado algu&#233;m com o poder de alterar bruscamente os rumos da minha vida, dispersou-se. As atrizes suecas s&#227;o encantadoras e falam sueco. </span><em><span>Ingeting.</span></em></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://tirellineto.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Eu n&#227;o sou meu assistente.! 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