<script data-pm-proxy="intercept"></script><?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[O Mensageiro]]></title><description><![CDATA["Engano, engano! Onde há nuns alfarrábios nascente milagrosa em que de um sorvo se fartem para sempre as sedes d’alma?" ~ Fausto, Goethe.]]></description><link>https://tlferreira.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Z673!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6ef288ce-7209-4edd-bec8-fc62d45a7f5b_674x674.png</url><title>O Mensageiro</title><link>https://tlferreira.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Thu, 03 Sep 2026 19:45:04 GMT</lastBuildDate><atom:link href="/__u/tlferreira.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[T. L. Ferreira]]></copyright><language><![CDATA[pt]]></language><webMaster><![CDATA[tlferreira@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[tlferreira@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[T. L. Ferreira]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[T. L. Ferreira]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[tlferreira@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[tlferreira@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[T. L. Ferreira]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[O arauto subjacente]]></title><description><![CDATA[Cr&#244;nica #024 | &#8220;O escritor &#233;, portanto, ambivalente, contradit&#243;rio, uma dial&#233;tica humana que perambula com palavras e julgamentos que, em todo caso, corrigem-se constantemente.&#8221;]]></description><link>https://tlferreira.substack.com/p/o-arauto-subjacente</link><guid isPermaLink="false">https://tlferreira.substack.com/p/o-arauto-subjacente</guid><dc:creator><![CDATA[T. L. Ferreira]]></dc:creator><pubDate>Mon, 31 Aug 2026 19:33:53 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/506c8fec-093a-450b-97ce-a94db0528fbd_1271x960.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">&#185;<em> Trata-se de uma convic&#231;&#227;o jovem.</em></p><p style="text-align: justify;">&#178; Certa vez, argumentei que todo o escritor amiuda-se numa esp&#233;cie de turista, expectador por voca&#231;&#227;o, abstra&#237;do do mundo e, sendo neste mesmo mundo que vive, &#233;-lhe circunst&#226;ncia t&#227;o menor em sua vida que nada lhe significaria sen&#227;o teatro.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a> Sua ideias fecundam a partir disso mesmo, que, a ele, s&#227;o alvitres necess&#225;rios de serem ouvidos, aprendidos e, acima de tudo, reverenciados como <em>Palavra</em>. Continuei argumentando que trata-se de um equ&#237;voco: o escritor n&#227;o passa de ningu&#233;m que esteja atravessado pela circunst&#226;ncia &#8220;<em>mundo</em>&#8221;, bem como n&#227;o &#233; ningu&#233;m sen&#227;o sujeito abaixo de toda essa esfera opressora. Mas acho que fui meio infeliz nas minhas proposi&#231;&#245;es, isto &#233;, n&#227;o disse <em>tudo</em>.</p><p style="text-align: justify;">&#179; A qualidade de percebedor &#233; consequ&#234;ncia direta de estar abaixo do mundo. Acima, s&#243; se pudesse regr&#225;-lo &#8212; e esse &#233; um espa&#231;o &#250;nico que somente Deus, n&#227;o s&#243; <em>pode</em> como <em>deve</em>, ocupar. Ent&#227;o, observar e concluir sobre o fen&#244;meno que lhe penetra a alma &#233;, sim, sua voca&#231;&#227;o, seu &#226;mago indubit&#225;vel. Porque &#233; uma sensibilidade particular, consequ&#234;ncia de sua posi&#231;&#227;o oprimida: mesmo envolto no mundo, sua condi&#231;&#227;o de turista subsiste. Em outras palavras, antes considerei que se tratava de um equ&#237;voco o escritor estar absolutamente acima do mundo e, sendo assim, n&#227;o ser observador de nada, mas apenas um homem atravessado pelo plano do percept&#237;vel com inten&#231;&#245;es de comunic&#225;-lo; agora, considero o escritor como um homem que, vocacionado, est&#225; tanto abaixo quanto acima do mundo, e sua necessidade de diz&#234;-lo a partir de suas imperfei&#231;&#245;es &#233; consequ&#234;ncia de tanto ser <em>observador</em> quanto <em>produto</em>. O escritor &#233;, portanto, ambivalente, contradit&#243;rio, uma dial&#233;tica humana que perambula com palavras e julgamentos que, em todo caso, corrigem-se constantemente. Est&#225; tanto acima para interpret&#225;-lo como abaixo para senti-lo.</p><p style="text-align: justify;">&#8308; Com efeito, ser escritor n&#227;o &#233; para qualquer um, n&#227;o. Poucas pessoas merecem essa maldi&#231;&#227;o. E, sim, reservo-me ao luxo de atestar-me um escritor (obviamente por vaidade; porque somos assim: vaidosos). Ah, sim, na minha cabe&#231;a escritor &#233; muito nobre. O melhor tipo de homem que existe. Mas sei que nas cabe&#231;as alheias n&#227;o &#233; assim que funciona. Advogados s&#227;o os melhores, engenheiros s&#227;o os melhores, pol&#237;ticos, jornalistas, radialistas, jogadores de futebol, prostitutas etc. &#8212; e isso s&#243; &#233; verdade nessas cabe&#231;as. Eu, pelo menos, sou um escritor, e todo o resto de mim &#233; subjacente &#224; escrita ou voca&#231;&#245;es menores. E, por pertencer a este grupo, sou vaidoso a ponto de afirmar que <em>isto</em> me torna mais nobre que qualquer pessoa&#8230; Mas assim pensa o advogado, o engenheiro, o pol&#237;tico, o jornalista&#8230; Se n&#227;o me fiz claro, fui ir&#244;nico. &#201; que escritor, &#224;s vezes, &#233; um bicho terr&#237;vel, he-he.</p><p style="text-align: justify;">&#8309; Sigamos. Peguemos, por exemplo, Tolst&#243;i. Vejamos esta foto &#8212; a original:</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!_d0f!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F34ecaa27-c1b1-484a-9060-ae036dd41f23_560x800.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!_d0f!, /__u/tlferreira.substack.com/w_424, /__u/tlferreira.substack.com/c_limit, /__u/tlferreira.substack.com/f_webp, /__u/tlferreira.substack.com/q_auto:good, /__u/tlferreira.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F34ecaa27-c1b1-484a-9060-ae036dd41f23_560x800.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!_d0f!, /__u/tlferreira.substack.com/w_848, /__u/tlferreira.substack.com/c_limit, /__u/tlferreira.substack.com/f_webp, 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V&#234; a magnitude desse homem. H&#225; coisas que s&#243; as fotos podem entegar, entre elas &#233; vislumbrar tamanha pessoa da hist&#243;ria humana. E lembremos que de suas m&#227;os sa&#237;ram &#8220;<em>Anna Kar&#234;nina</em>&#8221; e &#8220;<em>Guerra &amp; Paz</em>.&#8221; Aposto que, em algum momento de sua vida, no mais &#237;ntimo pulsar da alma, Tolst&#243;i se vira um talentoso observador do mundo e, cont&#237;guo &#224; observa&#231;&#227;o, p&#244;de ser o arauto de suas impress&#245;es, porque estivera em algum ponto sobrejacente para comunic&#225;-las. Bom, tendo lutado na Guerra da Crimeia, testemunhado execu&#231;&#245;es p&#250;blicas, ter ficado &#243;rf&#227;o na juventude, abandonado a faculdade e, antes de morrer, distanciado-se da fam&#237;lia, &#233; fato que isso lhe encheria a consci&#234;ncia tur&#237;stica e liter&#225;ria. Mas, insatisfeito, n&#227;o s&#243; bastaria <em>saber</em>: era necess&#225;rio <em>dizer</em>. E disse. &#8220;<em>Contos de Sebastop&#243;l</em>&#8221;, &#8220;<em>A morte de Ivan Ilitch</em>&#8221; etc. Assim, esse homem talentoso mereceu, certamente, toda a magnanimidade que hoje lhe &#233; atribu&#237;da. &#201;, sim, vocacionado, amaldi&#231;oado. &#201;, sim, um <em>escritor</em> &#8212; na maior literalidade da palavra.</p><p style="text-align: justify;">&#8311; Vejo que me adiantei. Falei de arauto, mensageiro. Agora, pois, explico: um escritor s&#243; o &#233; porque cumpre uma fun&#231;&#227;o t&#237;pica, que, em todo caso, define exatamente quem nasceu para ser. Falo de <em>escrever</em>. Ora, escritor &#233; quem escreve, n&#227;o? E s&#243; escreve quem tem algo a dizer. E as coisas ditas s&#243; as s&#227;o porque foram absorvidas adrede &#8212; com a finalidade de serem objetos do arauto.</p><p style="text-align: justify;">&#8312; Pois &#233; o arauto uma qualidade subjacente &#224; do escritor, mas que define, por excel&#234;ncia, sua voca&#231;&#227;o. Eu, ao menos, considero que muitas s&#227;o as conting&#234;ncias que antecedem a mensagem. Como assinalei, Tolst&#243;i serviu, testemunhou, isolou-se, casou-se, fugiu etc. Cada viv&#234;ncia simbolizou fonte para seu labor liter&#225;rio. Porque &#233; o que se percebe na pr&#243;pria subst&#226;ncia da obra tolstoiana. Guerra, trai&#231;&#227;o, morte, fam&#237;lia, cristianismo e anarquismo. Ora, porra, &#233; muito arriscado dizer que a obra &#233; a extens&#227;o de Tolst&#243;i verbalizada? Eu bato o p&#233;: Tolst&#243;i foi &#8212; e &#233; &#8212; tudo o que escreveu. Ou, pelo menos, fizera parte de sua vida todas as coisas que n&#227;o morreram com ele, sendo <em>sua vida</em> a pr&#243;pria pessoa de Tolst&#243;i.</p><p style="text-align: justify;">&#8313; Eu sei que, &#224;s vezes, sou truncado. Soo dif&#237;cil. Minha escrita &#8212; n&#227;o que isso seja de valor &#8212; &#233; quase que, por demasia, intang&#237;vel, abstrata demais. &#201; a minha forma de escrever &#8212; embora n&#227;o seja a &#250;nica. Mas acho que deixei tudo suficientemente claro para, finalmente, falar das causas necess&#225;rias desta Cr&#244;nica.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8304; Engra&#231;ado que todos n&#243;s ocupamos esse espa&#231;o de escritor, n&#227;o? Pertencemos &#224; mesma esp&#233;cie de Tolst&#243;i, Dostoi&#233;vski, Shakespeare, Saramago. Somos desta laia. Lemo-los e inspiramo-nos, fruto desse amor. E esse amor s&#243; existe porque &#233; sequela da voca&#231;&#227;o (maldi&#231;&#227;o) da escrita. Claro, claro!, adianto-me: todos esses magn&#226;nimos escritores s&#243; os s&#227;o porque n&#227;o foram meia-bocas. Tenho tanta certeza de que sou escritor quanto meia-boca. Ou pior que isso. Talvez, em algum dia, eu fa&#231;a alguma coisa digna de nota; que surja-me coragem e talento para observar a vida com os mesmos olhos de Tolst&#243;i e enfeitar minha prosa com a magnanimidade, assim sendo um arauto hom&#233;rico da consci&#234;ncia ao mundo.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#185; Eu tenho f&#233; nisso. Tenho f&#233; na minha ascens&#227;o. Cacete, imagina eu fazendo uma obra do calibre de Saramago, Machado de Assis, Cam&#245;es&#8230; &#201; o que eu mais desejo. Acho que sou suficientemente instru&#237;do para degladiar-me com esta voca&#231;&#227;o &#250;nica &#8212; que todos n&#243;s, escritores, temos &#8212;, com o prop&#243;sito de sangrar a escrita no papel. O que me importa &#233; sangrar mesmo, mas com magnanimidade, delicadeza e eleg&#226;ncia. Vejamos Hemingway: &#8220;<em>Por quem os sinos dobram</em>.&#8221; Puta que pariu, esse t&#237;tulo n&#227;o te deixa de pau duro? <em>S&#243; o t&#237;tulo</em>. Tem coisas que o mero deslumbre apetece mais que o testemunho integral das coisas. Hemingway, assim como Tolst&#243;i &#8212; e Shakespeare, Saramago, Henry Miller, S&#225;ndor M&#225;rai&#8230; &#8212;, tinha, com certeza, um dom de observa&#231;&#227;o que lhe garantira uma posi&#231;&#227;ozinha acima... N&#227;o que ele pudesse oprimir algu&#233;m, n&#227;o materialmente. Mas com o calibre de seus t&#237;tulos, de sua escrita e de seu jeito &#250;nico de observar o mundo, n&#227;o demorou muito para que, com profici&#234;ncia, parisse obras que nenhum mero mortal seria capaz. <em>Sacum&#233;</em>?</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#178; Agora, v&#243;s, vocacionados escritores. Sejai logo os arautos subjacentes de vossa escrita! Fazei de vossos esp&#237;ritos mensageiros verbais da observa&#231;&#227;o! Estamos todos no mesmo bojo que esses homens estiveram, e esse s&#233;culo &#233; nosso para deixarmos uma marca t&#227;o brilhante que seja inconfund&#237;vel diante de ouro e prata. Esperamos pelo qu&#234;, ora?</p><div><hr></div><p style="text-align: justify;">31/ago./2026</p><p style="text-align: justify;">Mogi das Cruzes, S.P.</p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><div class="digest-post-embed" data-attrs="{&quot;nodeId&quot;:&quot;f36cce3d-02c0-40bf-9e87-cde7e8aa5f74&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&#185; Trata-se de um achismo.&quot;,&quot;cta&quot;:null,&quot;showBylines&quot;:true,&quot;showDescription&quot;:true,&quot;showImage&quot;:true,&quot;size&quot;:&quot;lg&quot;,&quot;isEditorNode&quot;:true,&quot;title&quot;:&quot;A &#250;nica e miser&#225;vel Cr&#244;nica que eu gostaria de deixar &#224; pr&#243;pria sorte neste fr&#225;gil e cruel mundo&quot;,&quot;publishedBylines&quot;:[{&quot;id&quot;:429920081,&quot;name&quot;:&quot;T. L. Ferreira&quot;,&quot;bio&quot;:&quot;Apenas um exame constante da consci&#234;ncia art&#237;stica. Um anti-her&#243;i da literatura.&quot;,&quot;photo_url&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/ddba4198-a5cc-4fca-9fc0-8c5cfa5c6d6a_678x878.png&quot;,&quot;is_guest&quot;:false,&quot;bestseller_tier&quot;:null}],&quot;post_date&quot;:&quot;2026-07-11T07:23:42.231Z&quot;,&quot;cover_image&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/82e03812-8ebb-4b3c-a3b9-4bae07d92178_1200x630.jpeg&quot;,&quot;cover_image_alt&quot;:null,&quot;canonical_url&quot;:&quot;https://tlferreira.substack.com/p/a-unica-e-miseravel-cronica-que-eu&quot;,&quot;section_name&quot;:null,&quot;video_upload_id&quot;:null,&quot;id&quot;:206532596,&quot;type&quot;:&quot;newsletter&quot;,&quot;reaction_count&quot;:12,&quot;comment_count&quot;:1,&quot;publication_id&quot;:7421295,&quot;publication_name&quot;:&quot;O Mensageiro&quot;,&quot;publication_logo_url&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Z673!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6ef288ce-7209-4edd-bec8-fc62d45a7f5b_674x674.png&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;youtube_url&quot;:null,&quot;show_links&quot;:null,&quot;feed_url&quot;:null}"></div><p style="text-align: right;"></p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Metafísica da punheta]]></title><description><![CDATA[Cr&#244;nica #023 | "E eu, representante mor dos machos, tenho a ousadia de dedicar esta Cr&#244;nica a ela, nossa velha amiga das madrugadas entediantes: &#224; punheta."]]></description><link>https://tlferreira.substack.com/p/punheta</link><guid isPermaLink="false">https://tlferreira.substack.com/p/punheta</guid><dc:creator><![CDATA[T. L. Ferreira]]></dc:creator><pubDate>Sat, 22 Aug 2026 21:34:06 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/fcb7dab4-a581-4907-a12d-3202c1e0035f_580x309.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>&#185; &#201; para os homens. Chispem, mulheres.</em></p><p style="text-align: justify;">&#178; Aquela gostosa me ganhara no sorriso. Dentes brancos, sorriso grande, l&#225;bios vermelhos e carnudos. Sentia que de l&#225; emanava uma m&#237;stica de simpatia e amor &#8212; coisa que desconhecia na maioria das mulheres. Ela era discreta &#8212; ao menos sorrindo. Era dif&#237;cil de sorrir. Mas sorrira, e isso me cativou singularmente. Um riso de amor, de alegria. Ganhou-me ali, com aquele simples gesto com a boca.</p><p style="text-align: justify;">&#179; Puta, que tes&#227;o em mulher discreta ao mesmo tempo que simp&#225;tica. Eu poderia beij&#225;-la e afundar-me sua alma s&#243; com aquela feiti&#231;o alegre que me jogara. E nela havia tudo de bom: olhos r&#250;tilos, tez branca, sardas nas bochechas, cabelos negros e um corpo af&#225;vel e belo. Mas nada, absolutamente nada, se comparava &#224;quele sorriso brilhante e comprido&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#8308; Mas a contempla&#231;&#227;o durou pouco. Inesperadamente, uma enorme piroca latejante lhe entupiu sua garganta, destruindo a maravilha daquele seu sorriso de mulher. A pica entrava e sa&#237;a, e mais saliva se acumulava naqueles l&#225;bios que outrora me cativaram. E ela beijava, batia contra seu rosto, masturbava e, depois, engolia aquele monstro novamente.</p><p style="text-align: justify;">&#8309; Aquele tit&#227; a despiu por inteira. Arrancou sua calcinha com uma viol&#234;ncia abomin&#225;vel e lhe penetrou sem pudor algum. Socou, socou, e aquela boceta ficava cada vez mais vermelha e violada. A mulher gemia e o homem bramia como um urso selvagem. Seus corpos se emaranhavam em um &#250;nico s&#243; ber&#231;o de lux&#250;ria. Mais aquela rola entrava, menos mulher ela se tornava. Lembrei-me de seu sorriso incompar&#225;vel.</p><p style="text-align: justify;">&#8310; Gozei. Enfiei o pau entre as pernas e soltei meus fluidos na &#225;gua da privada. Encerrei o v&#237;deo, limpei-me, dei descarga, vesti-me e abri a porta de meu banheiro. Jaz tanto pecado naquela privada que s&#243; ali Judas seria santo. Tratava-se de um porn&#244;. Estava batendo uma, pela tarde, num p&#243;s aula. Havia acabado de almo&#231;ar e estava afim de dar uma cagada. Emendei uma bronha e isso me custou uns quarenta minutos, muito f&#244;lego e imagina&#231;&#227;o. Fazia um bom tempo que n&#227;o batia uma punheta, e, quando batia, quase nunca gozava.</p><p style="text-align: justify;">&#8311; Sa&#237; do quarto pra tomar um caf&#233;. Mam&#227;e estava na cozinha.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Oi, filho, t&#225; tudo bem?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; T&#244; sim &#8212; respondi-lhe molenga, manso, castigado.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ficou muito tempo no banheiro&#8230;</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o sei at&#233; onde vai a inoc&#234;ncia de minha m&#227;e. Mas burra ela n&#227;o &#233;.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Caganeira&#8230;</p><p style="text-align: justify;">Enchi a x&#237;cara com o caf&#233; e voltei pro quarto.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Vai estudar?! &#8212; exclamou ela, da cozinha.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Vou!</p><p style="text-align: justify;">&#8312; Fechei a porta. Sentei-me ante meu computador, <em>tablet</em> e caderno. Costumo estudar bastante depois das aulas; isso quando n&#227;o meto o louco e passo tr&#234;s horas degladiando-me com meu pau por uma m&#237;sera gozada. Abri o <em>tablet</em> nas anota&#231;&#245;es da &#250;ltima aula: &#8220;Coisa Julgada, A&#231;&#227;o Recis&#243;ria e Execu&#231;&#227;o Civil.&#8221; Trava-se de Processo Civil. Abri meu caderno dos estudos, o &#8220;Manda Brasa&#8221;, e escrevi o nome da aula: &#8220;Pro. Civil IV: A&#231;&#227;o&#8230;&#8221; Suspirei. L&#225; se come&#231;ava mais uma sess&#227;o de estudos&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ah, quer saber? &#8212; exclamei. &#8212; Foda-se. Acho que eu deveria escrever uma cr&#244;nica.</p><p style="text-align: justify;">Pensei, pensei&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ah, claro, ha-ha-ha! Por que n&#227;o sobre &#8220;punheta&#8221;?</p><p style="text-align: justify;">&#8313; Isso, isso. Genial! Seria sobre isso mesmo. Abri euforicamente minhas notas do <em>tablet</em> e iniciei esta que vos ledes: &#8220;<em>&#201; para os homens. Chispem, mulheres&#8230;</em>&#8221;</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8304; &#201;. Acho que estou prestes a escrever um terceiro <em>best-seller</em>. Os dois primeiros foram &#8220;<em>Mulheres</em>&#8221;. Digo isso porque voc&#234;s, caralho, s&#227;o os maiores f&#227;s de putaria que existem na face deste planeta. Meus contos e poemas n&#227;o valem nada perto de peitos e bundas &#8212; segundo voc&#234;s. Filosofia?, &#8220;nah!&#8221; Literatura, &#8220;sai dessa!&#8221; Catolicismo, Deus e santos?, &#8220;porra nenhuma!&#8221; O qu&#234;, ent&#227;o? &#8220;PUTARIA!&#8221;</p><p style="text-align: justify;">Puta que pariu, viu&#8230;?</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#185; Mas t&#225; tudo bem. Eu tamb&#233;m preferiria peitos e bundas a contos e poemas, putaria &#224; intelectualidade. Porra, quem aqui &#233; bom-samaritano a ponto de rejeitar uma gostosona da porra com o argumento de que ela atrapalharia a <em>elucubra&#231;&#227;o-liter&#225;rio-filos&#243;fico-metaf&#237;sica</em>&#8230;? Nah!, acho que ningu&#233;m. Olha: eu, pelo menos, n&#227;o sou um homem desse tipo. Gosto de literatura, gosto de filosofia, mas tamb&#233;m gosto de mulher. N&#227;o d&#225; pra ser (<s>virgem</s>) escritor a todo o tempo. Deve-se sopesar, n&#227;o?  Acho at&#233; que os maiores escritores dos &#250;ltimos tempos sopesaram &#8212; e sopesaram bem &#8212; literatura com sexo. Henry Miller e Charles Bukowski s&#227;o a prova disso. Eu tento&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#178; Mas eu n&#227;o estou aqui pra falar nem de literatura nem de sexo. P&#244;. <em>Literatura</em>, irm&#227;o? Foda-se literatura! Literatura &#233; isto aqui. N&#227;o preciso escrever sobre a escrita. N&#227;o sou nenhum parnasiano, ensa&#237;sta, escritor de metalingu&#237;stica etc.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a> Eu sou um anti-her&#243;i da literatura &#8212; embora arrisque muito em contos e poemas. Mas a minha especialidade &#233; escrever <em>p-u-t-a-r-i-a</em>. Sacou? Agora, sobre sexo, o motivo &#233; outro: n&#227;o quero me lembrar das enrabadas do meu tio nem das pervers&#245;es do meu ensino m&#233;dio.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#179; Pois a verdade &#233;: quem quer saber de literatura e sexo quando o t&#237;tulo desta Cr&#244;nica &#233; PUNHETA? &#201;, pois &#233;. Punheta. A saga masculina sempre &#233; acompanhada por essa ing&#234;nua e obscura forma de aliviar as vibra&#231;&#245;es do corpo. Uma satisfa&#231;&#227;o islamico-pag&#227; que perpassa por toda a vida do homem e o condena a arder nas chamas do inferno, porque os l&#237;quidos de suas bolas foram pro ralo e n&#227;o para um &#250;tero. Um pecado capital e um poder <em>filhadaputamente</em> gostoso que reside nas m&#227;os masculinas &#8212; geralmente na direita. E, assim sendo, eu, representante <em>mor</em> dos machos, tenho a ousadia de dedicar esta Cr&#244;nica a ela, nossa velha amiga das madrugadas entediantes: &#224; punheta.</p><p style="text-align: justify;">Comecemos.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8308; N&#227;o sei de quem &#233; a autoria desta seguinte m&#225;xima, t&#227;o verdadeira quanto a Palavra Divina, mas devemos concordar que seu autor &#233; um g&#234;nio perdido:</p><div class="pullquote"><p style="text-align: center;">&#8220;Da primeira punheta a gente nunca esquece.&#8221;</p></div><p style="text-align: justify;">&#185;&#8309; Aposto minha castidade anal de que todo o homem se lembra da primeira bronha batida. &#201; como perder a virgindade, tirar a carta de motorista ou tirar a OAB. &#201; um momento de tanta euforia e descobrimento que fica registrado como uma escultura de m&#225;rmore em nossos c&#233;rebros. Ao menos, eu me lembro nitidamente, e admito: foi assustadoramente bom.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8310; A ocasi&#227;o em que descobri aquele v&#237;cio n&#227;o poderia ser outra. Mas antes, devo introduzi-los &#224;s preliminares&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8311; Tinha eu meus nove anos. Um doce garoto prestes a ser corrompido pelo islamismo &#8212; embora j&#225; fosse boca-suja demais e um dos favoritos de Al&#225;. Eu brincava com alguns amigos do pr&#233;dio. O mais velho era um japa (Japa), que tinha, provavelmente, uns doze anos. Em seguida, vinha Pepe, o Grande (o Pequeno era meu irm&#227;o), de seus dez anos &#8212; um alem&#227;ozinho mirradinho e esguio. Depois eu e, por fim, J&#227;ovito &#8212; o filho do s&#237;ndico &#8212;, de oito anos. Esse era o compl&#244; adulto do condom&#237;nio.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8312; Japa viera de uma linhagem tradicional do Jap&#227;o, que desaguou no Cambuci, S.P. Ele era o oriental t&#237;pico: vestia um colete de ex&#233;rcito e camisetas de <em>anime</em>. Usava &#243;culos e n&#227;o costumava a tomar banho. Era meio abobalhado e imbecil, mas, na maioria das vezes, era divertido; ao menos, simpatizava com ele quando me deixava jogar no seu <em>DS</em> azul &#8212; o da bateria infinita.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8313; Numa noite p&#243;s aula, reunimo-nos todos no sal&#227;o de festas do pr&#233;dio. Era nossa base secreta, que nos servia como o melhor lugar para jogar <em>videogame</em>, conversar e brincar de lutinha. (Hoje, l&#225; serviria de boca e puteiro.) Japa estava conosco e, em se tratando do guri mais velho, vi que ele se aproximava de mim com certa mal&#237;cia, portando seu celular <em>iPhone 4</em>. Era, pois, o &#250;nico de n&#243;s a ter um celular.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; A&#237;, &#244; gay, hi-hi-hi &#8212; ele me chamou.</p><p style="text-align: justify;">Olhei. Estava risonho. Pepe, o Grande, tamb&#233;m ria ao seu lado.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Olha isso aqui:</p><p style="text-align: justify;">Virou-me a tela de seu celular. Uma <em>selfie</em> no espelho de uma mulher despida, com os peitos morenos e mamilos escuros.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; &#201; disso aqui que eu gosto, hi-hi-hi &#8212; ele completou. &#8212; Agora, j&#225; voc&#234;&#8230;</p><p style="text-align: justify;">Trocou a foto e foi prum v&#237;deo. Era s&#243; uma rola, sendo masturbada, na praia. Eu encarei aquilo e n&#227;o entendi do que se tratava. Claro, sabia que era uma pica, mas por que o cara fazia aquilo com ela?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Que porra &#233; essa, Japa?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Tu gosta disso&#8230; Da <em>r-o-l-a</em>&#8230;</p><p style="text-align: justify;">Fiquei puto.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Eu gosto &#233; da vagabunda da sua m&#227;e, seu bosta.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Chamou ela do que? &#8212; retrucou irritado.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; De vagabunda! E vai se foder voc&#234; tamb&#233;m, Pepe &#8212; dirigi-me a ele.</p><p style="text-align: justify;">Pepe, o Grande, ficou meio em choque, igual a uma puta que levou uma beliscada na teta. A&#237; o Japa me deu um soco na barriga. Eu cambaleei, quase ca&#237; pra tr&#225;s. Ergui-me e meti-lhe um tap&#227;o seco na orelha. Pepe, o Grande, tentou apartar a briga. Levou uma no queixo. Ent&#227;o, de repente, n&#243;s tr&#234;s ca&#237;mos na porrada. J&#227;ovito, o filho do s&#237;ndico, ficou assistindo. Esse a&#237; era meio baitola.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Parem de brigar! N&#227;o vou mais andar com voc&#234;s.</p><p style="text-align: justify;">N&#243;s tr&#234;s miramos o J&#227;ovito.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Vai se foder, J&#227;o!</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#8304; Aquela briga acabou em instantes, quando papai veio me chamar para subir. Eu fui com ele, mas n&#227;o deixei de dirigir minha &#250;ltima ofensa aos pivetes. Mostrei-lhes o dedo pelas costas e apertei meu saco. Subi.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#185; Papai ordenou-me um banho antes de jantar. Fui. Chegando no banheiro, olhei-me no espelho. Eu sabia que eu era meio imbecil. Sabia das minhas brigas e m&#225;s inclina&#231;&#245;es, e me condenava por isso. Despi-me, dei uma mijada no lixo, entrei no box. Meus banhos costumavam ser apenas esses aforismos infantis &#8212; e nada mais.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#178; Mas, naquele dia, seria diferente: alguma coisa mudaria para sempre na minha vida. Jamais seria o mesmo ap&#243;s aquela chuveirada quente. Porque, naquele momento, a curiosidade tomou conta do espirito puro daquele menininho malcriado e briguento. Lembrei-me do v&#237;deo no celular do Japa e mussitei baixinho: &#8220;que caralho de bagulho aquele cara tava fazendo&#8230;?&#8221; Obviamente, decidi experimentar. Esgueirei-me pra ver se papai me observava do corredor. N&#227;o estava. E ele j&#225; havia visto o homem-sab&#227;o. N&#227;o viria mais me checar, como costumava a fazer. Aproveitando a oportunidade, imaginei aquela mulher dos peitos morenos e isso me deixou de pirulito duro.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Puxa&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#179; Acho que foi uma das minhas primeiras ere&#231;&#245;es premeditadas. Novamente estiquei os olhos ao corredor. Ningu&#233;m. Nem meu irm&#227;o, que assistia &#224; TV na sala, sequer pensando no qu&#234; eu poderia estar fazendo. Olhei pro meu pinto e ele me devolveu o olhar.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; T&#225; legal, &#233; s&#243; pegar aqui e&#8230; MEU DEUS!</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#8308; Toquei o centro da Gal&#225;xia. Senti minha bunda se contrair, minha barriga esfriar, meu pinto formigar. Uma sensa&#231;&#227;o diferente de todas aquelas que j&#225; sentira na vida. Um prazer indescrit&#237;vel e assustadoramente estranho. Uma habilidade nova era-me adquirida pelas m&#227;os&#8230; Fiquei assustado. Foram duas chuchadas na bimba e eu &#8220;gozei.&#8221; Gozada rel&#226;mpago. Aquilo foi estranho.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Meu Deus, meu Deus, meu Deus&#8230;!</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#8309; Terminei o banho. Vesti-me e decidi apagar aquilo da mente. Era estranho, era esquisito. Fiquei com medo de toda aquela sensa&#231;&#227;o nova experimentada no banho. Tinha que me recompor&#8230; Fui pro meu quarto. Peguei meu <em>tablet</em> e abri num videozinho do <em>TazerCraft</em>. Distra&#237;-me e, naquela noite, pude me esquecer daquilo &#8212; por enquanto.</p><p style="text-align: justify;">S&#243; agora percebo que me batizei com uma <em>banheta</em>.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#8310; Alguns anos poderiam ter se passado e aquela coisa estava se tornando comum na vida de muitos meninos, sendo eu mais uma v&#237;tima entre milhares. O papo de &#8220;c&#243;cegas no pinto&#8221; tornou-se recorrente nos grupinhos de amigos, fosse na escola, no condom&#237;nio ou at&#233; nas festinhas da turma. Parece que um traficante m&#225;gico drogou ao mesmo tempo toda a crian&#231;ada, e toda ela ficou viciada na paradinha nova. As meninas sequer entendiam do assunto &#8212; e nem n&#243;s, embora pud&#233;ssemos <em>sentir</em> perfeitamente aquela brisa.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#8311; Foi num recreio. Estava com uns amigos discutindo a novidade. At&#233; que Felip&#227;o, o &#250;nico de n&#243;s que j&#225; tinha bigode, inteirou-se das inquieta&#231;&#245;es pueris e veio espalhar as boas novas. Est&#225;vamos no sexto ano de um col&#233;gio cat&#243;lico da Vila Mariana.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Amigos, n&#227;o temam! &#8212; ele disse alto, dirigindo-se a n&#243;s. &#8212; Voc&#234;s est&#227;o falando de <em>punheta</em>.</p><p style="text-align: justify;">Ningu&#233;m entendeu.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; <em>Punho</em> o qu&#234;?</p><p style="text-align: justify;">Felip&#227;o enfatizou.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Punheta, amigos, punheta. As &#8220;c&#243;cegas no pinto.&#8221;</p><p style="text-align: justify;">Um coro de compreens&#227;o pairou sobre o p&#225;tio. Felip&#227;o continuou.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Eu venho vos avisar de que ontem, batendo uma punheta, eu gozei branquinho!</p><p style="text-align: justify;">Ningu&#233;m entendeu novamente.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Voc&#234; bateu em quem?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; <em>Gozou branquinho</em>? Qu&#234; &#233; isso?</p><p style="text-align: justify;">Felip&#227;o pressionou as t&#234;mporas.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Vossos pintos choram, amigos. Aquele frio na bunda s&#227;o seus pintos chorando. E o choro &#233; branco&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Que nem mijo?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Exatamente. Que nem mijo. S&#243; que branco.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#8312; Outro coro de compreens&#227;o tomou conta do p&#225;tio. Felip&#227;o era um deus para todos n&#243;s, reverenciado pela sua sabedoria e bandeirantismo na adolesc&#234;ncia. Tempos antes, ele sofria <em>bullying</em>, inclusive de mim, e agora estava sendo mamado pela crian&#231;ada. Tem gente que d&#225; a volta por cima de formas totalmente inesperadas.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#8313; O sino tocou e voltamos &#224;s nossas salas. Procurei por Felip&#227;o nas escadas. Eu estava inquieto. Sofria.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ei! &#8212; exclamei.</p><p style="text-align: justify;">Ele se virou e me fitou dos degraus acima.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Preciso te perguntar um neg&#243;cio&#8230; &#8212; complementei, igual a um pateta.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Pois pergunte!</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Olha&#8230;, eu estive reparando que meu pinto&#8230;, sabe?, t&#225; meio esfolado&#8230; Eu bato (bato?) punheta nele e&#8230;, ele t&#225; inchando&#8230;</p><p style="text-align: justify;">Felip&#227;o segurou meu ombro e me sorriu compreensivo. Seus olhos me penetravam a alma.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a></p><p style="text-align: justify;">&#8212; Puxa&#8230; &#8212; ele come&#231;a. &#8212; Isso &#233; s&#233;rio.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; S&#233;rio como?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Seu pinto vai cair.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; O qu&#234;?!</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Voc&#234; pegou <em>AIDS</em>.</p><p style="text-align: justify;">&#179;&#8304; E se mandou. Fiquei parado nas escadas, incr&#233;dulo. Era meu fim. Acabou. Tiago, o Onanista, morreria ali. <em>Fudeu</em> tudo.</p><p style="text-align: justify;">&#179;&#185; Voltei pra casa desesperado, quase chorando. Eu n&#227;o podia acreditar que Felip&#227;o me dissera a verdade. Meu Deus, eu n&#227;o poderia perder meu pinto. N&#227;o poderia morrer de <em>AIDS</em>. Eu s&#243; tinha onze anos. Onze anos e um moleque sem pinto e com <em>AIDS</em>. Decidi fazer o impens&#225;vel, o ousado. Se havia algu&#233;m mais s&#225;bio que Felip&#227;o e que pudesse me ajudar era minha m&#227;e. Ela teria a resposta. E a cura. Eu s&#243; precisava saber <em>como</em> perguntar&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#179;&#178; Peguei o telefone de casa. Disquei seu n&#250;mero. Ela trabalhava num gabinete na Paulista.</p><p style="text-align: justify;">&#8220;<em>Tuuuuu&#8230;, tuuuuu&#8230;</em>&#8221;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Al&#244;? &#8212; ela atendeu.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Oi&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ah! Oi, Tico.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Oi&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Diga, beb&#234;.</p><p style="text-align: justify;"><em>Fudeu</em>. N&#227;o tinha planejado a pergunta. Tive que improvisar.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; M&#227;e&#8230; &#8212; eu come&#231;o &#8212;, hoje eu fui fazer xixi, n&#233;? A&#237;, meio que eu acabei, tipo:&#8230; eu tava com a m&#227;o suja. A&#237;, eu peguei no meu pinto, n&#233;?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Hmm, sei.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; E a&#237;, eu vi que, tipo assim, na pele, ele tava meio que assim, inchado, n&#233;?</p><p style="text-align: justify;">Fa&#231;o uma pausa dram&#225;tica. Sabia que mam&#227;e me ouvia do outro lado da linha; e eu esperava que ela n&#227;o suspeitasse de nada. Pois tomei f&#244;lego e dei a cartada.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ser&#225; que tem risco d&#8217;eu pegar <em>AIDS</em>?</p><p style="text-align: justify;">Dois segundos demorados se passaram depois da pergunta. A&#237; eu ouvi mam&#227;e&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; &#8230; HA-HA-HA-HA-HA! &#8212; um riso agudo e intermin&#225;vel &#8212; &#201; CLARO QUE N&#195;O, BEB&#202;, HA-HA-HA-HA-HA&#8230;!</p><p style="text-align: justify;">Fiquei aliviado, embora silente. Sentia-me um babaca.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ent&#227;o t&#225; tudo bem?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Claro, Tico, t&#225; tudo bem, sim!</p><p style="text-align: justify;">&#8212; E o que voc&#234; acha que pode ser?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; &#201; s&#243; sujeirinha! Tem que lavar com sab&#227;o. Bastante sab&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; T&#225;&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#179;&#179; At&#233; hoje meu pinto n&#227;o caiu. Pelo contr&#225;rio, s&#243; cresceu e ficou bonito. Puta piroca. &#192;s vezes, tenho uma vontade danada de encontrar o veado do Felip&#227;o e dar-lhe a maior das pirocadas na bochecha, por todo o terror que ele me fez passar na inf&#226;ncia. &#8220;T&#225; sentindo, &#244; seu bosta? Hein? N&#227;o caiu, ot&#225;rio&#8221;, e bimbar-lhe-ia. Por essas e outras eu sou a favor do <em>bullying</em>.</p><p style="text-align: justify;">&#179;&#8308; N&#227;o muito tempo depois, voltei da escola euf&#243;rico. Nem subi para meu apartamento; fui direto ao encontro dos amigos do condom&#237;nio. Primeiro, casa do J&#227;ovito, que morava no t&#233;rreo, nos fundos do pr&#233;dio. Toquei a campainha. Nada. Toquei denovo. Uma janela se abriu do meu lado.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Pronto?</p><p style="text-align: justify;">Era a mocr&#233;ia da m&#227;e dele. N&#227;o gostava de mim.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Oi &#8212; eu disse.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Oi.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; J&#227;ovito t&#225;?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; N&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; T&#225; onde?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Fora.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; T&#225;.</p><p style="text-align: justify;">Ela fechou a janela. Sa&#237; em busca de J&#227;ovito. Contornei o p&#225;tio e vi as luzes do sal&#227;o de festas aceso. Entrei pela janela.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; J&#227;o?</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o era o J&#227;ovito.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; &#201; o Pepe! &#8212; respondeu ele, dos fundos.</p><p style="text-align: justify;">Acheguei-me a ele. Estava sozinho, sentado num sof&#225; velho com um <em>notebook</em> nas m&#227;os. Assistia a alguma coisa. Fiquei curioso para saber do que se tratava.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Qu&#234; c&#234; t&#225; vendo a&#237;?</p><p style="text-align: justify;">Riu-me pouco envergonhado e me mostrou, virando seu <em>notebook</em>. Eram duas l&#233;sbicas se dedando. Gemiam e se lambuzavam de saliva e sucos vaginais. Apertavam suas bundas e peitos com viol&#234;ncia.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Eita&#8230;</p><p style="text-align: justify;">Pepe, o Grande, me olhou.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Senta a&#237;.</p><p style="text-align: justify;">Sentei-me.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Esse <em>site</em> &#8212; come&#231;ou &#8212; &#233; demais. Se chama <em>chisv&#237;dios</em>. D&#225; s&#243; uma olhada. Olha s&#243; pr&#8217;essas bundas&#8230;, e pr&#8217;esses peitos. Olha s&#243; o tanto de gostosas. <em>Sacum&#233;</em>?</p><p style="text-align: justify;">Ouvia e concordava abobalhado.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Diz a&#237; &#8212; olhou-me furtivo &#8212;, se uma dessas ca&#237; do teto aqui na nossa frente, voc&#234; n&#227;o faria sexo com ela?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Sexo?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; &#201;. Tipo dedar ela, s&#243; que com o seu pinto.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Hmmm&#8230; &#8212; murmurei. &#8212; &#201;, seria legal.</p><p style="text-align: justify;">&#179;&#8309; Ficamos assistindo ao porn&#244;. Foi o primeiro que assisti na vida (salvo a pica masturbada no celular do Japa). Comecei com as l&#233;sbicas. N&#227;o entendia bem o que estava acontecendo entre aquelas mulheres, mas me excitei. De algum modo, fiquei constrangido. Quis voltar pra casa e me ocupar com qualquer outra coisa. N&#227;o estava gostando daquilo, embora n&#227;o conseguisse parar de assistir. Era realmente muito estranho e sem sentido. Sa&#237;a do &#243;bvio de todas as formas. Notei Pepe vidrado&#8230; &#8220;Caralho, como ele gosta disso?&#8221;, pensei.</p><p style="text-align: justify;">&#179;&#8310; Trocamos de v&#237;deo (continuav&#225;mos nas l&#233;sbicas). Fazia alguns minutos desde que me sentei com Pepe. A&#237;, ouvimos um suspiro agudo vindo do nosso lado. A rea&#231;&#227;o n&#227;o seria outra sen&#227;o fechar o <em>notebook</em> abruptamente, porque poderia ser um de nossos pais. Mas tava tudo bem. Era J&#227;ovito, que pairava silente.  Estava p&#225;lido: tinha visto e ouvido tudo. N&#227;o o vimos chegar. E olha que o guri era moreninho&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; AI, <em>GZENTE</em>, QUE <em>NOJOH</em>! TIRA DISSO, TIRA DISSO!</p><p style="text-align: justify;">Homossexualidades ali me foram certeza.</p><p style="text-align: justify;">&#179;&#8311; O tempo passou. Aos doze, me mudei para Mogi das Cruzes. Passei a morar numa casa, com quintal, piscina e de frente para o clube do condom&#237;nio. Nessa mesma idade, dei meu primeiro lingu&#227;o, numa bonitinha do condom&#237;nio. Uma loirinha pentelha e mimada &#8212; al&#233;m de extremamente disputada pela mo&#231;ada. Depois dela, foram outras garotas, todas concorrentes e concorridas. Dos doze aos dezessete (com exce&#231;&#227;o da &#233;poca trancafiado em casa por conta da pandemia), fui agraciado com ocasi&#245;es de dar um beijo ali, outro aqui, ter um romance com uma e com outra&#8230;; e, obviamente, aprendendo a desejar a mulher de uma forma diferente das que eu costumava na inf&#226;ncia.</p><p style="text-align: justify;">&#179;&#8312; Isso porque, quando crian&#231;a, o desejo feminino era algo semelhante ao materno. Eu queria uma mulher que cuidasse de mim, que me protegesse, que me guardasse com ela para sempre. Por isso, eu era apaixonado pelas musas do ensino m&#233;dio. Mulheres &#8212;  na vis&#227;o da crian&#231;a &#8212; maduras, inteligentes, mais velhas e desenvolvidas. Tinha certeza de que poderiam cuidar de mim na vida como mam&#227;e me cuidava em casa. Elas saberiam me amar justamente porque eram mais velhas.</p><p style="text-align: justify;">&#179;&#8313; No entanto, na adolesc&#234;ncia, o desejo pela mulher mudou. Houve-me o que acredito ser uma ambival&#234;ncia de sensa&#231;&#245;es: de um lado, eu amadurecia de modo que n&#227;o me sentia mais atra&#237;do pelos <em>cuidados</em> femininos; e, de outro, sentia que a inoc&#234;ncia se esvaia na medida que mulher passava a ter um sentido meramente carnal. O desejo, assim, era simples: era o toque sexual &#8212; muito embora eu n&#227;o o soubesse descrever.</p><p style="text-align: justify;">&#8308;&#8304; Com efeito, agitava-me. Agitava-me sexualmente e, com euforia, ap&#243;s beijar uma menina, corria para casa, trancafiava-me no banheiro e descabelava o palha&#231;o. (Claro, n&#227;o era instant&#226;neo. Geralmente, era no final do dia.) Logo, a punheta nasceria como o ref&#250;gio da impropriedade juvenil. Se, de um lado, a mulher n&#227;o poderia me entregar o sexo e, de outro, eu n&#227;o poderia exigi-lo, a punheta era uma excelente alternativa. Essa foi a adolesc&#234;ncia.</p><p style="text-align: justify;">&#8308;&#185; Mas &#233; &#243;bvio que isso n&#227;o foi personal&#237;ssimo. Descascar a banana &#233; uma circunst&#226;ncia absoluta na vida do adolescente:</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Bati duas ontem&#8230; Pensando na Lel&#234; &#8212; disse a um colega.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Nossa, s&#243;? Eu bati dezoito.</p><p style="text-align: justify;">O grupo de espanta.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Guerreiro.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Pau de ferro.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; M&#227;o divina.</p><p style="text-align: justify;">&#8308;&#178; E era certo que o porn&#244; acompanhava tudo. Punheta no modo cl&#225;ssico j&#225; n&#227;o bastava. Era preciso o est&#237;mulo, o apimentado, o absurdo. E a pornografia se apresentava pra essa fun&#231;&#227;o. Se passasse uma gostosona na rua, morena, de bund&#227;o e calcinha marcando, era exatamente isso que influenciaria o porn&#244;. Se a bonitinha do col&#233;gio tinha os peit&#245;es, cabelos escuros e lisos, certamente se procuraria uma atriz porn&#244; parecida com ela. Se a professora de ingl&#234;s era uma rabuda, exigente e meio safada, era &#8220;sexo com professora&#8221; na caixa de pesquisa do <em>XVideos</em>&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Nossa, que gostosa&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; U&#233;, quem?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ela ali.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Porra, ela deve ter uns oitenta anos.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; &#201;&#233;&#233;&#8230; J&#225; sabe, n&#233;?</p><p style="text-align: justify;">E por a&#237; vai.</p><p style="text-align: justify;">&#8308;&#179; Ent&#227;o, a adolesc&#234;ncia passou. Dezoito, dezenove, vinte anos. Mais mulheres, mais gozadas e mais vezes desperdi&#231;ando virilidade. Com isso, novamente, a punheta se esvaia do sentido. O porn&#244; n&#227;o era mais o suficiente e os est&#237;mulos ficavam cada vez mais obsoletos. Todo esse infort&#250;nio assolava a masturba&#231;&#227;o. Gozada rel&#226;mpago? Nem pensar. O neg&#243;cio era lutar contra o pau mole por horas, esperando que, em algum canto do seu c&#233;rebro, se encontrasse um est&#237;mulo absolutamente compat&#237;vel com o tes&#227;o do momento. Era gozar a qualquer custo. E isso &#233; dif&#237;cil. Por&#233;m, precisava-se inovar&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#8308;&#8308; A grande quest&#227;o &#233; que, buscando a inova&#231;&#227;o, a punheta perde seu sentido primeiro. O onanismo puro e simples n&#227;o pode passar de uma m&#227;o e uma pica. Mas o homem gosta de inovar &#8212; e muito. Obviamente, uma bronha &#233; muito sem sal. N&#227;o h&#225; como negar, eu entendo. Por&#233;m, porra, pense que &#233; isso que a faz t&#227;o digna. Um auto-amor cabal como esse lhe proporcionando os maiores regozijos carnais conhecidos na fisiologia humana. N&#227;o vejo o porqu&#234; faz&#234;-la coisa t&#227;o magn&#226;nima &#8212; sendo que j&#225; &#233;. N&#227;o h&#225; necessidade. Acho, contudo, que quem assim faz desrespeita a pr&#243;pria habilidade; subjuga-se a um dependente do prazer artificial e inorg&#226;nico.</p><p style="text-align: justify;">&#8308;&#8309; E o rol das artimanhas sacrossantas de inovar na punheta &#233; exemplificativo&#8230;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a></p><p style="text-align: justify;">&#8212; El&#225;stico de cabelo! &#8212; sugere o cat&#243;lico.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Duas esponjas e uma luva! &#8212; rebate o ortodoxo.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Anel peniano! O que vibra &#8212; proclama o calvinista.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; N&#227;o! O melhor mesmo &#233; a boneca de l&#225;tex "240 FODILHONAMASTERTURBOKU PR&#211;X&#211;TA 5.000", modelo top de linha, com seis velocidades de suc&#231;&#227;o, &#226;nus el&#225;stico, vagina com tr&#234;s n&#237;veis de aperto e gritos de orgasmo realistas <em>dolby</em> <em>surround</em> 7.1.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-4" href="#footnote-4" target="_self">4</a></p><p style="text-align: justify;">&#8308;&#8310; &#201;, mais uma vez o judeu inventando moda. Mas eu n&#227;o posso me eximir. Tamb&#233;m senti que gozar estava dif&#237;cil. Eu tamb&#233;m tentei inventar modar&#8230; </p><p style="text-align: justify;">&#8308;&#8311; Foi numa banheta. Eu estava no meu ap&#234;zinho em S&#227;o Paulo, na Vila Mariana. Sozinho. Despi-me em frente a janelona que dava a toda a cidade e fiz uma mesura &#224; minha terra cinza. Fui ao banheiro &#8212; isto &#233;, o &#250;nico c&#244;modo separado do resto do ap&#234; &#8212;, desejando mais que tudo aquela &#225;gua sobre mim. Abri o registro da quente e fui manejando com a da fria, at&#233; que ficasse na temperatura <em>ideal</em>. Ajeitei o bumbum e as costas na cachoeira morna, inclinei-me de modo que meus bra&#231;os e cabe&#231;a ficassem fora do alcance de se molhar, apoiei-me com o antebra&#231;o esquerdo contra a parede e liguei o celular.</p><p style="text-align: justify;">&#8308;&#8312; N&#227;o estava l&#225; muito no clima pro descabelamento do palha&#231;o. Mas miss&#227;o dada &#233; miss&#227;o cumprida. A oportunidade era aquela e eu devia acat&#225;-la. A&#237; que me lembrei de uma musa, uma deusa, dos peit&#245;es e bund&#227;o; e tamb&#233;m bonita pra cacete. O pau subiu na hora. Ent&#227;o, digitando &#8220;<em>lasirena69</em>&#8221; naquela magn&#237;fica interface do <em>XVideos</em>, ela apareceu. Linda e gostosa: um verdadeiro mulher&#227;o da porra. Desci a tela lentamente, enfeiti&#231;ando-me com a nudez sensual de todas as suas obras pag&#227;s, at&#233; que me deparei com um v&#237;deo que nunca vi. Era aquele mesmo. Apertei.</p><p style="text-align: justify;">&#8220;0%&#8230;, 18%&#8230;, 64%&#8230;, 99%&#8230;, 100%&#8230;; <em>&#201; O BRAZINO, JOGO DA GALERA. VEM JOGAR BRAZINO QUE&#8230;</em>&#8221;</p><p style="text-align: justify;">&#8308;&#8313; Pulei o an&#250;ncio. A&#237; o v&#237;deo come&#231;ou. O cara se deitava numa maca. Estava com cal&#231;as <em>jeans</em> e uma camisa preta. Ela entrou em cena. Achegou-se a ele, pela direita, e o despiou. A musa vestia um <em>lingerie</em> preto e bordado. Cabelos soltos e negros. Sorriu para a c&#226;mera, que ficava na altura dos olhos do homem-do-pau &#8212; no estilo <em>Point of View</em> &#8212;, e despiu-se tamb&#233;m, pondo aquele par m&#225;gico de peitos pra fora. A&#237; come&#231;ou a bater uma no cara.</p><p style="text-align: justify;">&#8309;&#8304; Batia, batia&#8230; O problema era que ela n&#227;o botava a boca, n&#227;o o punha entre os peitos&#8230;, sequer montou nele. Ficou s&#243; ali, punhetando o protagonista, sem parar, ora r&#225;pido, ora devagar. E nem pra apertar as bolas do companheiro ou cuspir na pr&#243;pria m&#227;o...: um porn&#244; bem sem sal.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Porra&#8230; &#8212; mussitei a mim mesmo &#8212;, s&#243; isso?</p><p style="text-align: justify;">Sa&#237; da tela cheia e desci nos recomendados. A&#237; <em>ela</em> come&#231;ou a falar.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ei!</p><p style="text-align: justify;">Subi ao v&#237;deo.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; T&#225; saindo do v&#237;deo porqu&#234;? &#8212; ela perguntou, embravecida. &#8212; Voc&#234; mesmo, caralho.</p><p style="text-align: justify;">Antonella &#8220;<em>LaSirena69</em>&#8221; Alonso se dirigia a mim.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Oi?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Isso mesmo: voc&#234;. T&#225; saindo do v&#237;deo porqu&#234;?</p><p style="text-align: justify;">Fiquei espantado. L&#225; vinha mais um serm&#227;o de atriz porn&#244;.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Bom&#8230; &#8212; tentei contornar &#8212;, &#233; que voc&#234; t&#225; fazendo <em>exatamente</em> o que <em>eu</em> t&#244; fazendo &#8212; enfatizei o &#8220;exatamente&#8221; e o &#8220;eu.&#8221;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Como assim? &#8212; replicou.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Eu t&#244; assistindo a uma punheta, &#244; Antonella.</p><p style="text-align: justify;">Ela esbo&#231;ou um semblante compreensivo.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Bom, pense que sou eu batendo ela em voc&#234;.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; A&#237; que t&#225; &#8212; e pressionei meus olhos com os dedos &#8212;: meu pau t&#225; sentindo minha m&#227;o, e minha m&#227;o t&#225; sentindo meu pau. N&#227;o d&#225; pra pensar que &#233; <em>voc&#234;</em> batendo essa punheta em mim &#8212; acentuei o &#8220;voc&#234;.&#8221;</p><p style="text-align: justify;">Ela n&#227;o disse mais nada. Parecia estar sem argumento algum.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; &#212;&#244;&#244;, &#8216;pera a&#237;! &#8212; disse uma voz.</p><p style="text-align: justify;">O homem-do-pau se levantou. Era um careca branquelo. Tinha certeza de que j&#225; o conhecia. J&#225; o vira em algum lugar&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Eu te entendo, <em>fella</em> &#8212; ele disse para mim.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Me entende? &#8212; ironizei &#8212; Com a Antonella te batendo uma voc&#234; &#8220;<em>me entende</em>&#8221;?</p><p style="text-align: justify;">Ele riu.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Sim, <em>br&#244;</em>. E eu posso te ajudar.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; &#212;, sai fora!</p><p style="text-align: justify;">&#8212; S&#233;rio. Faz o seguinte: sente-se na sua m&#227;o por meia hora. Tua bronha vai ser um neg&#243;cio <em>s-e-n-s-a-c-i-o-n-a-l</em>.</p><p style="text-align: justify;">Comecei a escut&#225;-lo.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Meia hora? &#8212; perguntei.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Isso. E, depois, pegue no teu pau. Vai ver a m&#225;gica&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Hein? Que m&#225;gica?</p><p style="text-align: justify;">Ele deu um sorriso jocoso. Eu juro por Deus que j&#225; vi esse cara antes&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; N&#227;o vai parecer que &#233; voc&#234; batendo uma em si.</p><p style="text-align: justify;">&#8309;&#185;<em> LaSirena69</em> encolheu os ombros e me encarou, fazendo-me uma mesura de &#8220;v&#225; l&#225;&#8221;. Eu fui. Desliguei o chuveiro e me sentei na privada, fora do box (imagina se fosse dentro). A m&#227;o direita foi pra debaixo das ancas e a esquerda puxou um <em>Clash Royale</em>.</p><p style="text-align: justify;">&#8220;<em>TRRRRIIIIMMMM&#8230; P&#195;-P&#195;-N&#195;-N&#195;-N&#195;-N&#195;&#8230;</em>&#8221;</p><p style="text-align: justify;">&#8309;&#178; Fiquei jogando e perdi quase todas. At&#233; que deu meia hora. Minha m&#227;o formigava e eu n&#227;o a sentia mais. Troquei a tela para o pornoz&#227;o e tanto <em>LaSirena69</em> quanto o homem-do-pau me acenavam positivamente, encorajando-me.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Beleza, vam&#8217; bora.</p><p style="text-align: justify;">&#8309;&#179; Alavanquei o pau pra fora da privada e o segurei com for&#231;a. E comecei.</p><p style="text-align: justify;">&#8309;&#8308; Era realmente engra&#231;ado. N&#227;o estava sentindo minha m&#227;o tocando meu pau, embora sentisse meu pau sendo tocado por uma m&#227;o. Pois eu entrei no jogo: aquela bronha era de <em>LaSirena69</em>,<em> </em>enfeiti&#231;ando-me com suas habilidades. E meu bra&#231;o formigava &#8212; e isso fazia formigar toda a minha lateral direita. Estava bom, bom demais, e logo, logo eu iria gozar e, eu j&#225; estava sentindo a porra vir, e&#8230; e&#8230;</p><p style="text-align: justify;"><em>TUM!</em></p><p style="text-align: justify;">&#8309;&#8309; Eu desmaiei batendo punheta. A press&#227;o caiu. Meti a cara no box e fiquei como um imbecil ali encostado. Estava todo peladinho, molhado, de pau duro, desacordado sobre a privada. Alguns minutos poderiam ter se passado quando acordei com o pau roxo, um galo na t&#234;mpora e a m&#227;o adormecida. &#8220;Puta do caralho&#8221;, pensei. O celular havia acabado a bateria e eu fiquei sem o porn&#244;. Aprumei-me igual um retardado injuriado e decidi acabar aquele caralho de banho.</p><p style="text-align: justify;">&#8309;&#8310; Deitei-me na cama, liguei a TV e mandei aquele bosta do homem-do-pau se foder, com toda a for&#231;a do pensamento.</p><p style="text-align: justify;">A&#237; conclu&#237; que nunca mais inovaria na bronha.</p><p style="text-align: justify;">&#8309;&#8311; Depois daquele dia, as coisas mudaram. Eu via todas aquelas mulheres nuas e totalmente abertas, em infinitas posi&#231;&#245;es poss&#237;veis, rastejando ao encontro de um pau ou de uma boceta&#8230; &#8212; sempre com mesmo o pensamento de pertencer &#224;quela vida. A diferen&#231;a &#233; que elas ganhavam dinheiro com tudo aquilo &#8212; sen&#227;o fama &#8212;, enquanto eu perdia meu tempo e, todas as vezes, um pouco mais de mim mesmo.</p><p style="text-align: justify;">&#8309;&#8312; Parecia, ent&#227;o, que o sexo estava cada vez mais acess&#237;vel e, como consequ&#234;ncia direta dessa facilidade, banal. As felicidades pareciam-me estranhas e sempre correndo para mais longe de mim, tendo sua ess&#234;ncia cada vez mais intang&#237;vel e absurda. Um m&#237;nimo de prazer se extraia das que remanesciam, mas isso significava sacrific&#225;-las em troca de um algo mais que, infelizmente, eu jamais alcan&#231;aria. Boceta ficava cada vez mais artificial e, disso para a mulher, constantemente mais empobrecida. E a mulher tamb&#233;m perdeu seu sentido pleno, transfigurando-se, ent&#227;o, numa abstra&#231;&#227;o de satisfa&#231;&#227;o t&#227;o-somente carnal e n&#227;o espiritual. Tanto &#233; que o amor soava constrangedor quando sentido ou imaginado, embora fosse a coisa que mais desejei enquanto livre de toda essa pervers&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">&#8309;&#8313; Pois este foi o grande mal da punheta: nunca uma satisfa&#231;&#227;o plena da alma, mas uma alternativa desnecess&#225;ria e cruel para todos aqueles que buscam um algo mais sem saber o que &#233;. A punheta, portanto, arruinou-me enquanto humano e transformou-me numa criatura completamente ap&#225;tica ao que tanto desejei na vida: o amor de uma mulher. Em troca, o corpo feminino violado &#8212; de todas as formas poss&#237;veis enquanto consensual &#8212; era a m&#225;scara para toda a dor que aceitei sentir&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#8310;&#8304; J&#225; era noite.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; &#8220;<em>Em nome do Pai, do Filho e do Esp&#237;rito Santo&#8230;</em>&#8221; Senhor Deus. Que passa comigo? Por que me assolo neste pecado? Por que insisto em desrespeitar ao Senhor? Por que prefiro Te ignorar a Te ouvir? Por que, meu Deus?</p><p style="text-align: justify;">Nada. Insisti.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Deus, ainda que eu perceba tudo dizendo &#8220;n&#227;o&#8221; para esse caminho, ainda que eu perceba todos os males que fa&#231;o a mim mesmo, ignoro-os. Por qu&#234;? Por qu&#234;, meu Deus?</p><p style="text-align: justify;">Sil&#234;ncio.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ah, Deus&#8230;, diga-me qualquer coisa&#8230; Qualquer coisa&#8230;</p><p style="text-align: justify;">Respirei fundo. Nada.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Obrigado por me ouvir, Senhor. &#8220;<em>Em nome do Pai, do Filho e do Esp&#237;rito Santo: am&#233;m.</em>&#8221;</p><p style="text-align: justify;">&#8310;&#185; Deitei na cama. Ajustei o despertador para &#224;s 04:50 da manh&#227;. Cinco horas e meia de sono. Suspirei e fechei os olhos. Envergonhado. Triste. De pau mole. Senti a vida se encerrar ali, naquela noite, por aquele sil&#234;ncio de Deus. Adormecia lentamente.</p><p style="text-align: justify;">&#8310;&#178; Mas algo estava estranho. N&#227;o consegui me concentrar no sono. Palavras, palavras, muitas delas se acumulando na minha cabe&#231;a e me agitando, querendo se agrupar em ora&#231;&#245;es, frases soltas, sem muito sentido. Gritei por dentro, pedindo por sil&#234;ncio. N&#227;o conseguia me calar. Elas vibravam minha mente com viol&#234;ncia, dizendo coisas, muitas coisas, sem que eu as pudesse distinguir e ouvi-las. &#8220;Droga, cala a boca, Tiago! Sossega e dorme.&#8221;</p><p style="text-align: justify;">&#8310;&#179; Uma grande palavra come&#231;ou a ganhar for&#231;a. Ficava mais alta e mais repetitiva. Seus fonemas pesavam mais que os demais, mais que os das outras palavras. Concentrei-me nela. A palavra era &#8220;amor&#8221;.</p><p style="text-align: justify;">&#8220;AMOR, AMOR, AMOR!&#8221;</p><p style="text-align: justify;">&#8220;Como assim, amor?&#8221;, pensei. Ent&#227;o, ela foi para o plural. &#8220;Amores.&#8221; &#8220;Amores? Por que penso em amores? Que isso quer dizer?&#8221;</p><p style="text-align: justify;">&#8220;AMORES, AMORES, AMORES!&#8221;</p><p style="text-align: justify;">&#8310;&#8308; Fiquei aturdido, assustado. Minha mente dizia coisas sem que eu quisesse. Ela falava essas palavras sem sentido e&#8230;, e&#8230;, e eu entendi. Enrolava-me em travesseiros e cobertores, mexia-me sobre a cama. Algo se esclareceu. Era Deus. Deus me dizia alguma coisa. </p><p style="text-align: justify;">Outra palavra:</p><p style="text-align: justify;">&#8220;VIDA, VIDA, VIDA!&#8221;</p><p style="text-align: justify;">&#8220;Amores e vida. O que isso significa? Deus, o que isso significa?&#8221;</p><p style="text-align: justify;">&#8310;&#8309; Senti minha cabe&#231;a ardendo. N&#227;o parava, n&#227;o sossegava. Eram muitas palavras, sendo &#8220;amores&#8221; e &#8220;vida&#8221; as duas mais altas. At&#233; que Ele disse, muito alto, com toda sua for&#231;a divina, para mim, prostrado impaciente sobre a cama quente:</p><p style="text-align: justify;">&#8220;CRIE AMORES PELA VIDA!&#8221;</p><p style="text-align: justify;">&#8310;&#8310; Abri os olhos. Abruptamente, levantei. Fitei meu ter&#231;o na cabeceira. Fitei Nossa Senhora ali, vigiando-me. Meu cora&#231;&#227;o estava disparado. Suava muito &#8212; e suava frio. Tremia. Minha mente continuava com as mesmas palavras, naquela mesma ordem, repetindo-as continuamente. Sem descanso. A mesma frase. Dita alta. Sem parar.</p><p style="text-align: justify;">&#8220;CRIE AMORES PELA VIDA!&#8221;</p><p style="text-align: justify;">&#8310;&#8311; Senti que Deus gritava com a minha voz. Finalmente pude entender o que quis me dizer. Estava &#243;bvio. Tudo muito l&#250;cido e cognosc&#237;vel.</p><p style="text-align: justify;">&#8310;&#8312; E eu descobri o que fazer.</p><div><hr></div><p style="text-align: justify;">22/ago./2026</p><p style="text-align: justify;">S&#227;o Paulo, S.P.</p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p style="text-align: justify;">Confesso: aqui eu fui infeliz demais. Quando n&#227;o falo de putaria (ou mulher), refugio-me, sempre, em Literatura.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p style="text-align: justify;">Foi tipo assim:</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!POFu!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa0b58a45-f286-45c0-95c9-57b883d6a43a_498x408.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!POFu!, /__u/tlferreira.substack.com/w_424, /__u/tlferreira.substack.com/c_limit, /__u/tlferreira.substack.com/f_webp, /__u/tlferreira.substack.com/q_auto:good, 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style="text-align: justify;">&#8220;Rol exemplificativo&#8221; &#233; um termo jur&#237;dico. Significa que existem outras op&#231;&#245;es al&#233;m das mencionadas no rol original. Ou seja, h&#225; infinitas formas de inovar na punheta.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-4" href="#footnote-anchor-4" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">4</a><div class="footnote-content"><p style="text-align: justify;">&#201; de um meme. Cago de rir, pacas, toda a vez que o leio. Desconhe&#231;o a autoria.</p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Cara, vendi sua alma ao diabo]]></title><description><![CDATA[Conto #006 | "Dois u&#237;sques foram servidos. Cada um pegou o seu. Brindaram e viraram os copos. O bar tocava um jazz fusion, ou algo assim, ligeiramente brasileiro e progressivo."]]></description><link>https://tlferreira.substack.com/p/cara-vendi-sua-alma-ao-diabo</link><guid isPermaLink="false">https://tlferreira.substack.com/p/cara-vendi-sua-alma-ao-diabo</guid><dc:creator><![CDATA[T. L. Ferreira]]></dc:creator><pubDate>Mon, 17 Aug 2026 01:37:58 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/4558341d-2e41-4368-8b0a-6af8c90301c2_1416x800.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span>Dois u&#237;sques foram servidos. Cada um pegou o seu. Brindaram e viraram os copos. O bar tocava um </span><em><span>jazz fusion</span></em><span>, ou algo assim, ligeiramente brasileiro e progressivo. Sal&#227;o escuro, corado em carmesim, esfuma&#231;ado pelo tabaco, e outras coisas, de um turvo azul que lhes cruzava a vista.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Charles apertou os olhos acidamente.</span></p><p style="text-align: justify;">&#8212; Nelson<span>&#8230;, eu n&#227;o te entendo &#8212; ele disse.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8212; Como &#233;?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8212; N&#227;o fuma, mas bebe. N&#227;o sai com nenhuma prostituta, mas fode ocasionalmente. Que porra, n&#227;o? &#8212; e tragou seu oitavo cigarro.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Nelson pouco se importou. Meneou a cabe&#231;a e desviou os olhos &#224; frente. O outro, tomado por certa culpa, suspirou e continuou.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8212; Olha, eu preciso te falar um neg&#243;cio&#8230;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8212; Diz a&#237;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Charles engoliu a seco e pressionou seus dedos com for&#231;a.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8212; Cara&#8230;, eu vendi sua alma ao diabo.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Nelson desdenhou.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8212; &#201;&#233;&#233;?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8212; Pois &#233; &#8212; confirmou Charles.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8212; E o diabo aceitou?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8212; Aceitou.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8212; Mas n&#227;o deveria ser </span><em><span>eu </span></em><span>o vendedor da minha pr&#243;pria alma?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8212; Tamb&#233;m achei estranho&#8230;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8212; E por que ele aceitou?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8212; Bom&#8230;, &#233; o diabo, n&#227;o? N&#227;o acho que tenha tantas regras assim&#8230;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8212; T&#225;, e o que voc&#234; ganhou?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8212; Outro u&#237;sque.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O bartender serviu-lhe um segundo copo. Sa&#237;a fuma&#231;a da bebida. Charles sorveu num s&#243; gole &#225;cido e, instantaneamente, apertou os olhos &#8212; mais que da primeira vez. Nelson o fitava intrigado.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8212; Sa&#250;de&#8230; &#8212; disse Nelson.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8212; &#201;&#233;&#233;&#8230; Sa&#250;de &#8212; Charles devolveu a mesura. &#8212; A gente se v&#234; no inferno.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8212; Hein?</span></p><p style="text-align: justify;">A m&#250;sica arrefeceu lentamente e o bartender mirou Nelson com um sorriso mal&#233;fico. <span>As bitucas e cigarros de Charles se incendiaram por completo. Os copos quebraram e todo o u&#237;sque vazou sobre o balc&#227;o. Nelson silabou alguma coisa, tomado pela incredulidade, mas n&#227;o pode terminar de diz&#234;-la. Logo reparou que, abaixo de sua cadeira, um enorme e incendiado c&#237;rculo vermelho tomou propor&#231;&#245;es o suficiente para m&#227;os sa&#237;ram dali e o agarrarem pelas pernas. N&#227;o podia ver o que o puxava e para onde era puxado &#8212; n&#227;o podia ver o que estava do outro lado. Aquele c&#237;rculo pegava fogo e o vermelho se assemelhava ao do sangue. </span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8212; Que porra &#233; essa?! Charles, que porra &#233; essa?!</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Charles apenas assistia, silencioso. Um qu&#234; de sat&#226;nico se esbo&#231;ava em seus olhos.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8212; CHARLES! ME AJUDA, CARALHO! O QUE &#201; ISSO? &#8212; implorava por ajuda, sendo puxado cada vez mais em dire&#231;&#227;o ao grande c&#237;rculo.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Nelson se agarrou na cadeira que se sentava, mas as m&#227;os puxavam tudo o que se agarrasse. Agarrou-se na  cadeira de Charles, mas este s&#243; assistiu ao amigo sendo arrastado ao inferno. E elas subiam ao seu peito, pesco&#231;o e rosto, penetrando-o violentamente os orif&#237;cios de seus olhos e boca. Sentia seu corpo violado e a alma estuprada pela tirania daquela for&#231;a infernal.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8212; CHARLES! CHARLES! SOCORRO!</span></p><p style="text-align: justify;">Nelson desapareceu. O c&#237;rculo se fechou e tudo voltou ao devido estado. Charles assistia quieto, mas n&#227;o resistiu ao medo e apavorou-se. Mirou o bartender e reclamou outro copo.</p><p style="text-align: justify;"><span>Chegando, virou-o sem piedade.</span></p><div><hr></div><p style="text-align: justify;">16/ago./2026</p><p style="text-align: justify;">Mogi das Cruzes, S.P.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Poemas: coletânea, Vol. 1]]></title><description><![CDATA[Poema #008, Colet&#226;nea, Vol. 1 | N&#227;o s&#227;o todos os que escrevi, mas acho que &#233; o suficiente por agora.]]></description><link>https://tlferreira.substack.com/p/poemas-coletanea-vol-1</link><guid isPermaLink="false">https://tlferreira.substack.com/p/poemas-coletanea-vol-1</guid><dc:creator><![CDATA[T. L. Ferreira]]></dc:creator><pubDate>Fri, 14 Aug 2026 02:59:45 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/187b8c37-4d0b-4bfa-94ad-c9345dc1c07d_736x800.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><strong>1. A vida silenciosa</strong></p><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">A vida se esvai
em plena quietude,
e o homem n&#227;o a percebe
sen&#227;o seu sil&#234;ncio constante.
Quando ent&#227;o sussurra
em seu ouvido
j&#225; &#233; tarde:
o homem aprende
quando ela grita o seu
fim.</pre></div><div><hr></div><p style="text-align: justify;"><strong>2. A Passante</strong></p><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">&#201;-me t&#227;o simples
dizer sobre ti: leitora,
m&#225;gica, m&#237;stica; e
n&#227;o me conheces.

E teu nome, que
jaz em mist&#233;rio,
por que te importaria
que eu soubesse?

Que escolha tenho
sen&#227;o te olhar,
quieto, deste lado
distante,

se tu me &#233;s tudo
e nada mais que
a menina que batizo
&#8220;a passante&#8221;?

Rogo por saber
sobre ti e apelo
para o que n&#227;o
conhe&#231;o.

Contigo quero,
no tempo que
me permitem,
um come&#231;o.

E, se fadado estou
&#224; paci&#234;ncia,
t&#234;-la-ei sabendo
do seu mist&#233;rio.

Assim seja, e n&#227;o
s&#243; outro sonho
que tanto me foi
crit&#233;rio.</pre></div><div><hr></div><p style="text-align: justify;"><strong>3. As brasas</strong></p><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">Atenuam as chuvas
como atenuam
as brasas;
e o fogo do sol
decresce na medida
em que triunfa
a lua p&#225;lida.
A noite encobre os
firmamentos
e assim come&#231;a
o novo ciclo.
A Terra, nua sob
as entranhas do
Universo, acena
com o sorriso.</pre></div><div><hr></div><p style="text-align: justify;"><strong>4. Suspiro santo</strong></p><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">Fazei de mim um santo,
mas n&#227;o hoje.

Para isso n&#227;o tenho pressa;
n&#227;o tenho vontade imediata;
n&#227;o tenho orgulho de s&#234;-lo j&#225;.

Tenho &#233; o medo,
de deixar de ser quem sou.

Ora, e quem sou?
N&#227;o sou nada;
e assim quero ser
quando adormecer

&#8212; esta noite.

Mas fazei de mim um santo,
n&#8217;algum dia futuro,
n&#8217;algum dia distante de hoje
e bem pr&#243;ximo da morte. 

Para doer muito
toda a vida que eu fui,
mas me ser muito doce
o primeiro suspiro santo
quando houverdes de
me conceder.</pre></div><div><hr></div><p style="text-align: justify;"><strong>5. C&#225;rcere</strong></p><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">Creio em mentiras.

Fa&#231;o de meu corpo
um c&#225;rcere,
desagrad&#225;vel e maculado.

Depois de tudo,
&#233; um Pai Nosso:

um adeus a mim.</pre></div><div><hr></div><p style="text-align: justify;"><strong>6. Arrependimento</strong></p><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">Dedico minhas epifanias
pecaminosas
&#224;s noites;

e &#224;s madrugadas,
um aperto doloroso
no cora&#231;&#227;o.

Ela me assiste da
cabeceira.
Ele, l&#225; de cima.

Desculpai-me.</pre></div><div><hr></div><p style="text-align: justify;"><strong>7. Porqu&#234;s e prop&#243;sitos</strong></p><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">Vivi e me esgotei.
Cedo ou tarde, a
vida cobrar&#225; o seu
pre&#231;o.

H&#225; de aparecer
em minha porta,
fritando sob o sol,
reclamando os
porqu&#234;s,
sem que eu tivesse
a vivido.

E meus prop&#243;sitos
acabam
aqui.</pre></div><div><hr></div><p><strong>8. Cora&#231;&#227;o santo (&#250;ltimo)</strong></p><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">N&#227;o me esque&#231;ais como sou,
ainda que nada seja,
sen&#227;o um fracasso do homem
que quisestes que eu fosse.

N&#227;o tenho cora&#231;&#227;o santo
e sou muito esclarecido
acerda de meus problemas,
de meus pecados,
e daqueles de que ainda n&#227;o
me arrependi.

Mas, mesmo assim,
perdoai-me por tudo,
ainda que eu n&#227;o possa
ainda me perdoar.

Achai-me em Vossa gra&#231;a
e perdei-me em Vosso seio,

assim como fazei de mim
esse algu&#233;m destru&#237;do,

e, s&#243; assim,
quem eu deveria ser.</pre></div><div><hr></div><p>13/ago./2026 &#224;s 23:57 (data da compila&#231;&#227;o)</p><p>Mogi das Cruzes, S.P.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Inquietações sobre a vida e um eterno irmão]]></title><description><![CDATA[Cr&#244;nica #023 | "Quando &#233;ramos crian&#231;as, n&#227;o nos gost&#225;vamos. Hoje, por&#233;m, as inimizades morreram, e o que nos sobrou foi a mais justa das batalhas."]]></description><link>https://tlferreira.substack.com/p/inquietacoes-sobre-a-vida-e-um-eterno</link><guid isPermaLink="false">https://tlferreira.substack.com/p/inquietacoes-sobre-a-vida-e-um-eterno</guid><dc:creator><![CDATA[T. L. Ferreira]]></dc:creator><pubDate>Sat, 01 Aug 2026 05:23:51 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!B4Zd!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff08057c2-9284-4120-bc98-5f8ef1aee3e8_960x1280.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">&#185; <em>Para o guri mais louco que conheci.</em></p><p style="text-align: justify;">&#178; Meu irm&#227;o corria &#224; minha frente em dire&#231;&#227;o ao mar. Eu andava sobre a areia &#250;mida e as ondas arrefecidas tocavam meus p&#233;s, alguns metros atr&#225;s, enquanto ele pulava as ondas maiores sem dificuldade. O sol crescera sobre n&#243;s havia algumas horas, mas se escondia sobre a espessa nuvem cinza que cobria a praia. Algumas gotas de &#225;gua ca&#237;am do c&#233;u e, todas juntas, davam menos que uma garoa. Estava frio, e eu logo teria enxaquecas. Mas est&#225;vamos na praia prestes a mergulhar.</p><p style="text-align: justify;">&#179; Acho que n&#227;o devo contar qual era minha sensa&#231;&#227;o ao ver meu irm&#227;o porque n&#227;o vale &#224; pena. Seria um misto de &#8220;l&#225; vai ele outra vez&#8221; num tom reprimido com &#8220;olha que exibido&#8221; num tom invejoso &#8212; e n&#227;o vejo sentido em falar sobre isso. Eu s&#243; estava um pouco distante de sua alegria juvenil e andava meio cabisbaixo. N&#227;o sou do tipo que costuma a ir em praias, especialmente no frio. Tamb&#233;m n&#227;o gosto de me sujar com areia e ter o cabelo endurecido pelo sal da &#225;gua do mar. Mas dessa vez eu quis e, estando l&#225;, j&#225; n&#227;o havia sa&#237;da.</p><p style="text-align: justify;">&#8212;  Corre, porra! &#8212;  meu irm&#227;o insistia.</p><p style="text-align: justify;">&#8308; Mirei ele tediosamente. Gesticulei um &#8220;espere&#8221; com a m&#227;o direita e ordenei para que fosse mais devagar. Ele n&#227;o pareceu se importar e seguiu obstinado para mais fundo. Eu continuei o seguindo. A essa altura, a &#225;gua j&#225; batia no joelho.</p><p style="text-align: justify;">&#8309; Acheguei-me a ele e passamos a pular as mesmas ondas com a mesma disposi&#231;&#227;o. Ao nosso lado direito estava a Ilha Porchat e, ao lado esquerdo, a um quil&#244;metro e meio, o Quebra-Mar santista. Diante de n&#243;s s&#243; havia o mar, que se ajuntava em ondas maiores, de um metro e meio a dois metros de altura. N&#243;s pul&#225;vamos as ondas frias. Meu irm&#227;o se jogava na minha frente e eu me desviava. Assim fez algumas vezes at&#233; que se aborreceu com minha quietude.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; T&#225; assim por qu&#234;?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; T&#244; cansado.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Na praia, caralho? Dormiu a manh&#227; inteira.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; T&#244; cansado, porra &#8212; insisti.</p><p style="text-align: justify;">&#8310; A uns oitocentos metros estava a Pedra da Feiticeira: uma grande rocha com uma est&#225;tua em seu topo, acomodada na mar&#233; que subia. Estava pichada: &#8220;<em>SHE</em>&#8221;. Parecia-me interessante.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Por que n&#227;o vamos at&#233; aquela pedra? &#8212; sugeri.</p><p style="text-align: justify;">Ele topou. Sa&#237;mos do mar e come&#231;amos a correr at&#233; ela. </p><p style="text-align: justify;">&#8212; N&#227;o estava cansado?! &#8212; gritou meu irm&#227;o, correndo atr&#225;s de mim.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; N&#227;o mais!</p><p style="text-align: justify;">&#8311; O vento gelado e aquelas gotas colidiam diretamente em meu corpo; a areia fria se entranhava em meus p&#233;s; meu cabelo, embora curto, j&#225; estava todo empapado de sal. Eu estava com frio e sujo. N&#227;o gostava de me sentir daquele jeito. Mas eu n&#227;o precisava me pensar naquele estado. N&#227;o precisava me importar. Se me houvesse a obriga&#231;&#227;o de extrair um m&#237;nimo de prazer, mesmo naquelas condi&#231;&#245;es, eu faria isso. Eis o porqu&#234; de correr &#224;quela pedra. E por que n&#227;o subi-la? O que teria l&#225; em cima?</p><p style="text-align: justify;">&#8312; Chegamos nela. Era alta, mais do que eu pensava. Provavelmente, teria uns cinco metros de altura. Era bem dif&#237;cil de escal&#225;-la, porque estava &#250;mida, escorregadia e sem muitos pontos bons para se segurar. Mas eu n&#227;o sou um homem barrado por pedras altas e escorregadias.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Quer que eu te empurre? &#8212; perguntei para meu irm&#227;o. &#8212; A&#237; voc&#234; me puxa pra cima.</p><p style="text-align: justify;">Ele me olhou decidido.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Beleza.</p><p style="text-align: justify;">&#8313; Ele esticou o p&#233; para uma ligeira fenda. Segurou-se numa outra mais acima e eu empurrei sua bunda pra frente. Ele conseguiu se equilibrar. Girou no pr&#243;prio eixo e ficou face-a-face comigo &#8212; na verdade, um pouco mais acima. Estendeu-me a m&#227;o e me puxou. Tentei por o p&#233; na mesma fenda e n&#227;o consegui. Era muito dif&#237;cil.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Eu acho que vou cair &#8212; eu disse.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; E eu n&#227;o consigo te puxar. </p><p style="text-align: justify;">Eu voltei para a areia. A &#225;gua batia na canela.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Eu vou tentar subir sozinho, ent&#227;o. Pode subir sem mim. S&#243; toma cuidado pra n&#227;o cair e se arrebentar.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; T&#225; &#8212; e se mandou. Puto.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8304; Fiz a mesma coisa. Botei o p&#233; na fenda mais baixa e segurei com as pontas dos dedos a fenda mais alta. Fiz for&#231;a e me puxei at&#233; ficar quase ereto. O outro p&#233; foi na parte mais plana da pedra &#8212; isto &#233;, com uma puta angula&#231;&#227;o de trinta graus. Girei no pr&#243;prio eixo e me sentei na pedra. Mas comecei a escorregar. Ent&#227;o, cravei as m&#227;os na lateral e fui subindo me arrastando, usando o atrito da minha bunda com a rocha. E fui assim at&#233; conseguir chegar numa parte bem acidentada e f&#225;cil de se equilibrar. Na metade do caminho notei que, cuidadosamente acomodado numa fenda, havia um tercinho. Era azul e bem bonitinho. Fiz o sinal de cruz e ergui os olhos aos meu irm&#227;o, que me assistia. Ele fez o mesmo sinal.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Quer ajuda?! &#8212; exclamou ele do alto da pedra.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#185; Sinalizei um &#8220;n&#227;o&#8221; com uma das m&#227;os. J&#225; estava f&#225;cil. Levantei-me e consegui andar tranquilamente. A&#237; subi at&#233; o topo. A pedra parecia dez vezes maior &#224;quela altura. Olhei para as ondas que colidiam com a base e o infinito horizonte a quil&#244;metros e quil&#244;metros da orla. Senti uma ligeira vertigem.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Puta merda&#8230; &#8212; silabei. &#8212; &#201; bonito aqui de cima.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#178; Bem do meu lado, havia algumas frutas e velas. Era macumba. Pensei em chutar pro mar, mas fiquei com medo de isso me dar azar. N&#227;o sou um homem de tanta f&#233; para sair perturbando esp&#237;ritos pag&#227;os. Deixei quieto. Sentei-me e encostei as costas na est&#225;tua, que me era bem estranha. N&#227;o entendi bem o que significava. Ignorei-a e encarei o horizonte. Suspirei fundo. Era realmente muito bonita a vista do mar.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#179; Poucas s&#227;o as vezes que sinto uma epifania danada ao olhar alguma coisa bonita. Naquela pedra, l&#225; no alto, tive a sensa&#231;&#227;o de vislumbrar uma por&#231;&#227;o de meu futuro ao olhar o mar. Minha vida sempre ocorreu de forma inesperada. N&#227;o totalmente, na verdade, mas sempre diferente da forma que eu a especulava. E inesperado seria meu futuro tamb&#233;m, j&#225; que passei a acreditar que alguns planos menores s&#227;o sempre totalmente incertos. Os maiores ficam cada vez mais estranhos na medida que chegam. Isso &#233; tudo o que eu posso dizer da minha vida.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8308; Antes dessas f&#233;rias da faculdade, eu estava seguindo uma rotina um tanto quanto enfadonha, embora isso me colocasse longe de distra&#231;&#245;es. Eu acordava cedo, l&#225; pelas quatro e cinquenta, e pegava um &#244;nibus de Mogi para S&#227;o Paulo. Da rodovi&#225;ria, tomava o metr&#244; at&#233; a faculdade. Quando n&#227;o almo&#231;ava por l&#225;, almo&#231;ava em casa. Fazia o mesmo caminho de volta. Estudava a aula do dia, treinava, tomava banho, jantava e, depois, dormia. Tentava dormir mais que seis horas por noite. Nos espa&#231;os vazios do dia eu lia (ou tentava). Tamb&#233;m escrevia. N&#227;o sou escritor daqueles que se est&#227;o acostumados: sou menos que um amador e pior do que penso.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8309; Em breve essa rotina vai recome&#231;ar. Eu n&#227;o gosto tanto dela, mas n&#227;o experimentei nada melhor que isso. Tamb&#233;m n&#227;o sou muito f&#227; de f&#233;rias. Na verdade, n&#227;o sou f&#227; do que as f&#233;rias me s&#227;o. Um total de nada com porra nenhuma, sem tanta chance de desfrutar dos prazeres que a liberdade me oferece. Ela oferece tudo e eu n&#227;o acolho nada. No entanto, algumas coisas v&#227;o mudar. Ficarei os finais de semana em S&#227;o Paulo. Cursinho para a magistratura e promotoria. Aproveitando, darei cabo da minha banda. Estou ansioso para essas mudan&#231;as. Foram de repente e isso me alegra. Gosto de me ocupar com coisas que me soam progressivas e, futuramente, frut&#237;feras.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8310; Eu sei que sou um estudante dedicado. Eu gosto de estudar. Tive que gostar&#8230;; mas eu preciso de um empurr&#227;ozinho. O cursinho ser&#225; o empurr&#227;o de que preciso. Mais um motivo para estudar. Acho que isso revela uma particularidade minha: n&#227;o estudo para conquistar algo; estudo para compensar alguma coisa. Como assim? Significa que passar num concurso &#233; menos querido quanto estudar uma boa aula. Eu vou pelo <em>antes</em> e n&#227;o pelo <em>depois</em>. Eu gosto de estudar porque assisti a uma aula. E passar num concurso p&#250;blico ou tirar boas notas s&#227;o duas razo&#225;veis consequ&#234;ncias. Por outro lado, sobre a banda, a coisa muda. A minha anima&#231;&#227;o est&#225; na consequ&#234;ncia de t&#234;-la. Uma banda &#233; um acontecimento: &#233; compor, ensaiar e tocar. A consequ&#234;ncia &#233; o p&#250;blico e, se Deus quiser, rentabilidade. Mas, como exce&#231;&#227;o &#224; regra, eu n&#227;o estou ligando tanto pro p&#250;blico e dinheiro. Eu me importo com todo o resto, toda a circunst&#226;ncia de se ter uma banda. E eu sei que o som vai ser foda. A gente quer algo como <em>Jinjer</em>, <em>Gojira</em>, <em>TOOL</em>, <em>Mastodon</em>&#8230;, mas sem abandonar as origens: <em>Iron Maiden</em> e <em>Black Sabbath</em>.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8311; Essa foi a epifania. Um sentimento bom sobre o futuro. Um sentimento que sempre surge em quem est&#225; sentado sobre uma pedra no mar, olhando o horizonte, na companhia do irm&#227;o e pensando na vida. As coisas iriam mudar e eu estava ansioso por isso. Ainda, jurei a mim mesmo que n&#227;o deixaria esse sentimento escapar do cora&#231;&#227;o: enquanto eu sentir falta dessas felicidades, saberei que est&#225; tudo bem. E eu subi aquela pedra, porra, eu sou f&#243;d&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Bora desc&#234;&#8217;? &#8212; disse ao meu irm&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Vam&#8217; bora.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8312; Contornamos a pedra e descemos. Fiz a mesma mesura ao tercinho quando passei ao seu lado. &#192;quela altura poder&#237;amos pular sem problema algum. Dei o salto e ca&#237; na &#225;gua. J&#225; havia cagado pro frio. Meu irm&#227;o quis descer escorregando, sem pular.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Quer fazer o que agora? &#8212; perguntou.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Quer fazer um <em>cilculo </em>e sair na m&#227;o? Quem for finalizado ou ser empurrado pra fora do c&#237;rculo perde.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Fechou.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8313; Eu e ele somos graduados em <em>jiu-jitsu</em>. Come&#231;amos juntos h&#225; quase oito anos. Eu tinha doze e ele oito quando pisamos pela primeira vez num tatame. Ele havia parado um tempo, no in&#237;cio. Eu parei um pouco mais tarde, um ano depois de me graduar azul. S&#243; quando eu entrei na faculdade que decidi voltar. Ent&#227;o meu irm&#227;o quis voltar comigo e, um ano depois, ele pegou a faixa azul &#8212; isto &#233;, no final do ano passado. Eu sou faixa-azul h&#225; quase cinco anos e, no final do ano, se Deus, o mestr&#227;o e eu quisermos, eu serei faixa-roxa&#8230; Acho que depende s&#243; de mim, na realidade.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#8304; Eu n&#227;o penso que sou um bom lutador. H&#225; outros melhores que eu e com muito menos tempo de esporte. Tem gente talentosa pra caralho; e o talento n&#227;o &#233; nada mais que o amor que se tem por algo. Se eu tivesse amor pleno ao <em>jiu-jitsu</em>, talvez eu fosse um lutador bem melhor. Penso isso porque eu apanho pra cacete, desde faixa-branca maluco a faixa-preta aborrecido. Mas eu n&#227;o desisto. N&#227;o entrego. Tenho muito orgulho em dizer que, agora, no <em>jiu</em>, eu sou resiliente. Pelo menos isso.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#185; Fizemos o circulo na areia. Ele quis na areia &#250;mida. Eu quis na fofa. Fomos na fofa.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Melhor de tr&#234;s, t&#225;? &#8212; eu disse. &#8212; Se eu quedar, te empurrar pra fora ou te finalizar, eu ganho.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Tem que sair inteiro do c&#237;rculo ou &#233; s&#243; encostar fora?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Colocou o p&#233;zinho&#8230;: se fodeu.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Porra, a&#237; &#233; muito dif&#237;cil &#8212; ele disse injuriado.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ou &#233; muito f&#225;cil.</p><p style="text-align: justify;">Ele me olhou de baixo pra cima.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ou &#233; corpo inteiro ou eu n&#227;o luto.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ah, puta merda. N&#227;o fode, n&#233;?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Olha que eu t&#244; indo nadar&#8230; &#8212; provocou.</p><p style="text-align: justify;">Eu cedi. Iria arrebentar ele.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Fechou. Corpo inteiro.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#178; Cumprimentamo-nos. Armamos a guarda e nos fitamos. Ele foi o primeiro a investir um golpe. Segurou-me na nuca com uma das m&#227;os, enquanto a outra segurava minha m&#227;o. Eu ousei fazer a mesma coisa: segurei-o na nuca tamb&#233;m, mas busquei estourar a pegada de sua m&#227;o na minha. Ergui o joelho e quebrei a pegada. Investi no seu tr&#237;ceps, ergui-me, desci a m&#227;o da nuca esgrimando seu bra&#231;o e tentei qued&#225;-lo. O safado esquivou e empurrou-me. Novamente separados. Busquei a mesma pegada na nuca, mas ele puxou-me o tr&#237;ceps e buscou me cinturar. Girei e evitei o golpe. Ele me pegou a m&#227;o e, enganchando minha canela com seu p&#233;, levantou-a at&#233; sua outra m&#227;o. Buscou minha nuca e quedou-me. Ele ganhou a primeira.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a></p><p style="text-align: justify;">&#8212; Beleza&#8230; Agora voc&#234; t&#225; fodido.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; He-he, quero ver.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#179; Cumprimentamo-nos a segunda vez. Rapidamente, puxei seu tr&#237;ceps e consegui o cinturar. Desci um dos joelhos ao seu lado, desequilibrei-o e enfiei sua cara na areia. Ganhei.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Porra, cara. Meu joelho. Vai se foder.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ganhei.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; T&#225; doendo.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ah, n&#227;o foi nada&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#8308; N&#227;o foi nada mesmo. Ele se levantou e partiu pra porrada. N&#243;s dois ca&#237;mos na areia e come&#231;amos a lutar. Ele &#233; meio pilhado. Quis me dar um <em>armlock</em>, mas eu defendi e passei sua guarda. Ca&#237; no cem quilos e busquei uma americana. Mas o moleque &#233; esguio. Escapou e se levantou. Pulou em cima de mim querendo me bater. He-he, sempre gostei disso. Tudo resolver&#237;amos na porrada se mam&#227;e ou papai n&#227;o viessem intervir. Mas dessa vez n&#227;o havia nem mam&#227;e nem papai. Era surra atr&#225;s de surra e n&#227;o havia ningu&#233;m que nos parasse&#8230; At&#233; que ouvimos um grito agudo do nosso lado. Era um garotinho moreno, de, talvez, nove anos. Corria em dire&#231;&#227;o &#224; praia. O mais engra&#231;ado era ele pesar uns noventa quilos. A m&#227;e dele o acompanhava de longe.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Meu Deus, olha o tamanho daquela crian&#231;a! &#8212; exclamou meu irm&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Caralho, a m&#227;e dele t&#225; logo atr&#225;s &#8212; silabei furtivo. &#8212; Cala a boca.</p><p style="text-align: justify;">O gordinho pulou na &#225;gua. Meu irm&#227;o n&#227;o se aguentou.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; OLHA AS TETAS DELE, HA-HA-HA-HA!</p><p style="text-align: justify;">Enfiei areia em sua cara. Ainda est&#225;vamos lutando, ca&#237;dos. Ele ficou puto.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; V&#225; se foder, porra.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; V&#225; voc&#234;! Cala a porra da boca. A m&#227;e vai ver que a gente t&#225; rindo dele.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Oshe?! Foda-se. Ningu&#233;m mandou o moleque engolir o pai.</p><p style="text-align: justify;">A&#237; eu comecei a rir pra caralho.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; HA-HA-HA-HA! &#8212; e olhei pro guri. &#8212; Olha ele correndo&#8230;. HA-HA-HA!</p><p style="text-align: justify;">&#8212; AS TETAS BALAN&#199;ANDO!</p><p style="text-align: justify;">&#8212; HA-HA-HA-HA!</p><p style="text-align: justify;">Fiquei sem f&#244;lego.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Vamos parar, isso &#233; errado.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Beleza, vamos vazar daqui.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#8309; O gordinho come&#231;ou a gritar. Talvez fosse autista. Corremos dali antes que fossemos presos. A m&#227;e bem que nos olhou com desgosto. Senti a penit&#234;ncia vindo atr&#225;s de n&#243;s dois. Mas n&#243;s somos r&#225;pidos. Corremos at&#233; a ponta da praia e deixamos o gordinho e sua m&#227;e esvaziarem o mar.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#8310; A essa altura eu j&#225; estava imundo. Totalmente empapado de areia, sal e &#225;gua de mar. Vestia uma camiseta da equipe do <em>jiu </em>que, naquele momento, parecia mais com um mai&#244;. Em outra ocasi&#227;o eu ficaria totalmente desconfort&#225;vel com essa situa&#231;&#227;o, mas estava legal demais para me importar. Eu n&#227;o costumo me divertir tanto. Desde que entre na faculdade, parece que as coisas ficaram mais sem gra&#231;a. N&#227;o que eu n&#227;o me divirta nas aulas. Eu rio pra porra na faculdade. Mas eu sinto falta de umas aventuras. Sinto falta de sair na m&#227;o com algu&#233;m. Sinto falta de jogar bola, basquete, v&#244;lei. Sinto falta de ensaiar com a banda &#8212; que, gra&#231;as a Deus, est&#225; voltando. At&#233; sinto falta de sair com uma gostosona da porra: todas elas est&#227;o namorado e isso &#233; obra do satan&#225;s. Mas n&#227;o d&#225; pra remoer esses sentimentos. Eu tenho meu irm&#227;o que compensa muitas coisas. L&#243;gico: ele n&#227;o &#233; uma gostosona da porra e eu n&#227;o vou comer ele. Isso &#233; errado em todas as culturas e sites porn&#244;. No resto, ele at&#233; que d&#225; pro gasto, he-he. &#201; brincadeira. </p><p style="text-align: justify;">&#178;&#8311; A cada dia que passa sinto que meu irm&#227;o &#233; meu melhor amigo; um algu&#233;m que est&#225; neste mundo para compartilhar de perto todas as minhas dores &#8212; e eu as dele. Quando &#233;ramos crian&#231;as, n&#227;o nos gost&#225;vamos. Hoje, por&#233;m, as inimizades morreram, e o que nos sobrou foi a mais justa das batalhas. Provocamo-nos sempre com amor, porque &#233; o que irm&#227;os fazem. E eu o amo tanto que morreria por ele. E eu n&#227;o minto quando falo isso. N&#227;o sei, contudo, se ele morreria por mim, mas eu, sim. Na realidade, eu n&#227;o deixaria ele morrer por mim.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#8312; Chegamos na ponta da praia. Eu olhei para ele. Estava cansado, e eu tamb&#233;m estava. Notei sua gentileza alegre n&#237;tida em seus olhos. &#201; um moleque de um cora&#231;&#227;o enorme. Fiz uma mesura e o mandei se foder. Ele devolveu o xingamento e nos sentamos. Ficamos admirando o horizonte cinza e as ondas colidindo com a ilha. As pedras n&#227;o deixavam o mar escapar, e s&#243; o mar fazia daquelas pedras uma ilha.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!B4Zd!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff08057c2-9284-4120-bc98-5f8ef1aee3e8_960x1280.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!B4Zd!, /__u/tlferreira.substack.com/w_424, /__u/tlferreira.substack.com/c_limit, /__u/tlferreira.substack.com/f_webp, /__u/tlferreira.substack.com/q_auto:good, /__u/tlferreira.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff08057c2-9284-4120-bc98-5f8ef1aee3e8_960x1280.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!B4Zd!, /__u/tlferreira.substack.com/w_848, 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Foi no seu primeiro treino como faixa-azul. Eu n&#227;o estava esperando pela foto.)</p><div><hr></div><p style="text-align: justify;">01/ago./2026</p><p style="text-align: justify;">Mogi das Cruzes, S.P.</p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p style="text-align: justify;">Esgrimar e quedar (de queda) s&#227;o verbos. O esporte exige esse vocabul&#225;rio.</p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Jovens bêbados e roqueiros]]></title><description><![CDATA[Cr&#244;nica #022 | "Quando come&#231;amos, t&#237;nhamos dezesseis anos. Hoje, temos vinte e continuamos com a mesma maturidade de quando &#233;ramos mais novos."]]></description><link>https://tlferreira.substack.com/p/jovens-bebados-e-roqueiros</link><guid isPermaLink="false">https://tlferreira.substack.com/p/jovens-bebados-e-roqueiros</guid><dc:creator><![CDATA[T. L. Ferreira]]></dc:creator><pubDate>Tue, 28 Jul 2026 02:12:50 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/dbe1acb0-b054-465f-a18b-dcaa794cda15_736x1104.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">&#185; <em>Eu quero morrer como um jovem de cem anos.</em></p><p style="text-align: justify;">&#178; Na v&#233;spera, encontrei-me com meu amigo Gord&#227;o e minha amiga Lua. Sa&#237; de Mogi das Cruzes na minha possante <em>Tucson</em>, l&#225; pelas nove da noite. Cruzei toda a zona leste para chegar no antro da zona sul. Dividir&#237;amos cerveja gelada e, eles, o cigarro. Eu tava louco pelas cervejas &#8212; s&#243;. &#201; porque eu n&#227;o fumo. N&#227;o tenho o h&#225;bito de fumar. J&#225; fumei, sim, cachimbo e charutos. Mas, cigarro, nunca. Com <em>POD</em> foi diferente: eu dei uma tragada, ontem, e foi a coisa mais (<s>gay</s>) broxante que me ocorreu. Sabor de maracuj&#225; (ou manga?). Uma bosta.</p><p style="text-align: justify;">&#179; Havia anos que faz&#237;amos esse mesmo rol&#234;: dividir &#225;lcool e opini&#245;es pela madrugada, rindo muito e ouvindo um sonzinho. Quando come&#231;amos, t&#237;nhamos dezesseis anos. Hoje, temos vinte e continuamos com a mesma maturidade de quando &#233;ramos mais novos.</p><p style="text-align: justify;">&#8308; Cheguei l&#225; pelas dez da noite. Encontrei-os sentados no p&#225;tio do pr&#233;dio que morava Lua &#8212; e minha v&#243;. Lua e vov&#243; s&#227;o vizinhas de porta. Gord&#227;o morava com a v&#243; no pr&#233;dio vizinho. Pois ali que era o <em>point</em> da Vila Mariana, o <em>point</em> paulista. Todo o bom rol&#234; acabava ali. Quando n&#227;o, aquilo j&#225; era o rol&#234;. Acho at&#233; que prefiro este a qualquer outro. Sempre gostei muito de virar um &#225;lcool com esses dois, naquele mesmo lugar, pelas noites. E eu confio neles para todas as minhas opini&#245;es sem valor, assim como, creio, s&#227;o-me confiadas as suas opini&#245;es tamb&#233;m.</p><p style="text-align: justify;">&#8309; Cheguei e eles j&#225; haviam come&#231;ado os trabalhos.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Cad&#234; a cerveja? &#8212; perguntei.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Aqui &#8212; e Gord&#227;o me entregou uma.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; A prop&#243;sito, de boa, Lua? &#8212; viro a ela.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Siiim&#8230; Faz tempo.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; &#212;&#244;&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#8310; Come&#231;amos a beber. Na verdade, eu que comecei.</p><p style="text-align: justify;">&#8311; Eu, Gord&#227;o e Lua somos daqueles que falam de tudo. Mas gostamos de nos provocar. Sempre ca&#237;mos em pol&#237;tica. Eu sou do tipo de cara que se inclina &#224; (extrema) direita. Lua sempre se inclinou &#224; esquerda. Gord&#227;o &#233; do tipo que pouco se fode com pol&#237;tica &#8212; meio anarquista. </p><p style="text-align: justify;">&#8212; Meio nazista, he-he-he &#8212; (&#233; claro que n&#227;o.)<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a></p><p style="text-align: justify;">&#8312; Ironicamente, a gente sempre se entendeu. Nunca entendi o motivo. Talvez porque n&#227;o gostamos do MBL. Enquanto Lua os acha direita demais, eu os acho esquerda demais. Gord&#227;o os acha chatos demais.</p><p style="text-align: justify;">&#8313; Lua gosta do MST, mas com suas ressalvas. Eu n&#227;o tenho ressalva nenhuma para consider&#225;-los filhos da puta. J&#225; Gord&#227;o culpa o capitalismo pela exist&#234;ncia do MST.  Sobre pol&#237;ticos: &#8220;<em>S&#243; tem filho da puta</em>&#8221;, diz Gord&#227;o. &#8220;<em>A maioria &#233; filha da puta</em>&#8221;, eu digo. &#8220;<em>E o Bolsonaro?</em>&#8221;, ele me pergunta. &#8220;<em>N&#227;o fale do mito</em>&#8221;, eu respondo. Pelo incr&#237;vel que pare&#231;a, fazemos disso alvitres muito engra&#231;ados. Falar de pol&#237;tica, afirmo com certeza: com eles &#233; melhor.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8304; Acho que a nossa &#250;nica coisa em comum &#233; o metal. Se n&#227;o fosse por ele, acho que nunca seria amigo desses dois a&#237;. Na verdade, acho que minha vida seria muuuito mais um p&#233; no saco&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#185; Bom, uma trag&#233;dia aconteceu enquanto convers&#225;vamos. A cerveja havia acabado. Tomara tr&#234;s e j&#225; me sentia levemente mamado. Gord&#227;o deveria estar na quinta. Lua bebera duas, se p&#225;. Explico que, na adolesc&#234;ncia, desenvolvemos uma resist&#234;ncia diab&#243;lica ao &#225;lcool; isso significa que precis&#225;vamos de muito mais para nos embebedar. Logo, fomos comprar mais bebida num <em>OXXO</em> da Rodrigues Alves. Subimos a avenida e, quando chegamos l&#225;, estava fechado.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Puta, que caralho &#8212; resmunguei. &#8212; E eu ainda preciso mijar.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Eu tamb&#233;m &#8212; completou Gord&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#178; O <em>OXXO</em> abriria meia noite. Faltava mais meia hora e eu e Gord&#227;o com os sacos apertados. O que n&#243;s fizemos? Bom, Gord&#227;o foi mijar numa rua pr&#243;xima. Eu fui em seguida. Desci a mesma rua que desceu Gord&#227;o e achei um cantinho ajeitado. Saquei o pau pra fora e mijei. Olhei pro lado e vi o Sr. Han dormindo. Grande Sr. Han&#8230; O &#250;nico mendigo japon&#234;s da saudosa Vila Mariana. Saudei-o e guardei o pau.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#179; Mijados todos, voltamos ao <em>OXXO</em>. Reunimo-nos novamente e esperamos. Havia mais pessoas esperando. Dois caras fumando e um casal alternativo se pegando. &#201;. S&#227;o esses a&#237; nossos companheiros da noite.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8308; Voltamos a conversar.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Sabia que existe um anel peniano que, tipo, vibra? &#8212; diz Lua. Ela &#233; daquelas que fala &#8220;tipo&#8221;. &#8212; Voc&#234; o coloca no pau e ele segura teu sangue. Fica mais duro e demora pra gozar. E vibra.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Oh, louco &#8212; eu respondo.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Eu uso el&#225;stico de cabelo e olhe l&#225; &#8212; responde Gord&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Olho pra ele furtivo. Dou aquela risada de &#8220;voc&#234; tamb&#233;m?&#8221; e volto &#224; Lua.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; &#192;s vezes, eu gostaria de ter uma boceta.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; E eu queria ter pau.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Mas a&#237; voc&#234; s&#243; teria a m&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; E qual o problema?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Se quiser algo a mais, vai ter que pagar. E caro.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Tendo pau e dedo, nenhuma boceta me meteria medo.</p><p style="text-align: justify;">Fui refutado. A&#237; o <em>OXXO</em> abriu.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Trouxe a carteira? &#8212; perguntou Gord&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; N&#227;o &#8212; respondi. &#8212; Achei que voc&#234; que traria.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; N&#227;o trouxe tamb&#233;m.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8309; Voltamos ao pr&#233;dio do Gord&#227;o. T&#237;nhamos um plano-B. Subimos ao seu apartamento e ele fez a m&#225;gica. Cop&#227;o do Harry Styles, lim&#227;o, &#225;gua, Pit&#250; e gelo.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; V&#234; a&#237;, pai &#8212; entregou-me.</p><p style="text-align: justify;">Sorvi um golinho t&#237;mido.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Puta que pariu. B&#227;o demais.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Fala que eu n&#227;o nasci com o dom &#8212; desdenhou.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8310; Voltamos ao p&#225;tio do pr&#233;dio de Lua com o cop&#227;o. A&#237;, depois de nos zombar, voltamos &#224;s outras farras de nossas vidas. Falamos dos shows que fomos; dos nossos problemas pessoais; das m&#250;sicas que ora ouv&#237;amos e ora comp&#250;nhamos; das horripilantes ex-namoradas; das mulheres que eu e Gord&#227;o am&#225;vamos; dos homens que Lua odiava; de sexo; de carnaval; de suruba; e de pecado. Falamos de C&#233;u e inferno, Deus e diabo. Falamos, sim, de tudo. Desde as maiores baixezas at&#233; as nossas &#237;ntimas aberturas da alma.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8311; Afinal, tudo nos aperta com for&#231;a. O mundo inteiro se entranha em n&#243;s. Nada possamos fazer contra isso. Por isso, o aceitamos. &#201; o que sabemos fazer &#8212; e fazemos por todas as dores que escolhemos viver. Fal&#225;vamos disso.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8312; A&#237; Gord&#227;o foi cagar. Subiu ao seu apartamento e deixou eu e Lua trocando ideia.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Por que trancou a faculdade? &#8212; perguntei. Ela fazia jornalismo na PUC-pariu.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Nah, a galera n&#227;o foi muito com a minha cara.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Por qu&#234;?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Sou <em>alterna</em> demais. Puxava um cigarro e todo mundo desdenhava.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Caralho, na PUC?!</p><p style="text-align: justify;">&#8212; &#201;&#233;&#233;&#8230; E o Mackenzie? Como t&#225; indo?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Uma bosta, he-he. Por que voc&#234; n&#227;o vem pra concorr&#234;ncia?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Eu passo&#8230;</p><p style="text-align: justify;">Comecei a rir.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Eu gostaria de fazer jornalismo.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; S&#233;rio?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Sim. Na verdade, n&#227;o <em>cursar </em>jornalismo. Mas fazer o qu&#234; os jornalistas fazem.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Tipo escrever sobre as coisas?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Especialmente escrever sobre as coisas. Sobre pessoas. Quero conhecer pessoas e escrever sobre elas. Do pov&#227;o eu fa&#231;o parte, sobre o pov&#227;o eu quero escrever.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Eu gostaria de jornalismo pol&#237;tico.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Isso &#233; legal&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Mas a galera vive de <em>stories</em> no <em>Instagram</em>&#8230; Isso n&#227;o &#233; jornalismo. Perdeu a gra&#231;a. N&#227;o quero me foder para ser quem eu quero.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Faz um jornalismo gonzo, sei l&#225;.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Quem sabe?</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8313; A conversa foi longe. Conversamos muito mais que isso. Ela me ouvia atenciosa. Eu devolvia a aten&#231;&#227;o. Sempre gostei de conversar; e com ela toda a conversa foi boa. Acho que Lua &#233; uma das poucas que tolera as merdas que eu falo. E, mesmo que eu tenha opini&#245;es extremamente contr&#225;rias das dela, o que ela diz sempre me pareceu interessante.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Eu sou complexa &#8212; respondeu.</p><p style="text-align: justify;">E era mesmo.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#8304; T&#225;, eu sei que jovem &#233; um bicho meio estranho e irracional. Eu sou jovem, ando com jovens e afirmo isso. Mas a juventude n&#227;o &#233; de todo o mal. Aprendemos muito na juventude. A gente sofre, matuta, chora, arrepende-se&#8230; Como Lua disse, ela &#233; complexa; e os jovens tamb&#233;m s&#227;o. Por qu&#234;? Porque as coisas s&#227;o mais dif&#237;ceis. &#201; trabalho, relacionamento, faculdade, cursinho, amizade, pais, irm&#227;os, viagens, carros&#8230; A porra toda. E tudo isso &#233; coisa que nos molda: as preocupa&#231;&#245;es s&#227;o outras e, muito mais, violentas.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#185; Veja: existe um mundo que nos espera e nada podemos fazer para n&#227;o atravess&#225;-lo. Eu, confesso, tenho medo desse mundo. Acho que Lua e Gord&#227;o tamb&#233;m t&#234;m. Num dia, t&#237;nhamos dezesseis anos e a maior preocupa&#231;&#227;o era a punheta (ou dedada) do dia. Hoje, por&#233;m, nos falta dinheiro, nos falta trabalho, nos falta amores &#8212; nos falta a vida. Eu, pelo menos, quero viver com a maior das intensidades. Mas tenho medo desse mundo que vem a&#237;. E se n&#227;o me houver a intensidade desejada? E se eu for um fracasso? E se&#8230;?; e se&#8230;?; e se&#8230;?</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#178; He-he, eu sei que eu t&#244; errado em pensar essas coisas. Mas o jovem pensa isso. O que eu posso fazer sen&#227;o pensar? Ah&#8230;: viver. Ou aproveitar com a maior das intensidades tudo isso.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Abre o port&#227;o aqui!</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#179; Olhamos. Gord&#227;o voltou. Trouxe consigo mais &#225;lcool e pediu uma pizza. Lenda. Era digno de ter o port&#227;o aberto. Quando a pizza chegou, comemos e bebemos tudo. Conversamos mais e, enfim, nos cansamos. J&#225; eram quase tr&#234;s da manh&#227;. Precis&#225;vamos dormir. Gord&#227;o, principalmente, que j&#225; estava h&#225; trinta horas de p&#233;.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Te vejo amanh&#227;? &#8212; perguntou Gord&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; A gente v&#234;.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; T&#225;. Manda mensagem quando chegar no ap&#234;.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Suave.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#8308; Despedimo-nos todos e voltamos para nossas casas. Eu fui dormir num ap&#234;zinho dos meus pais na Humberto I. Fui dormir sozinho, he-he. Afinal, j&#225; sou grandinho.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#8309; Cheguei ao ap&#234; e me acomodei na cama. Esqueci de mandar a mensagem pro Gord&#227;o. No lugar disso, estudei o teto escuro. Peidei quente e conclu&#237; algo da noite. Acho que, l&#225; no fundo, eu amo ser jovem. N&#227;o &#233; t&#227;o ruim. Na maioria das vezes, &#233; putaria irracional da nossa parte. Mas &#233; a intensidade jovem que cativa. E eu gosto disso, j&#225; que n&#227;o tenho problemas maiores para lidar. Mas muitos jovens t&#234;m. E que Deus os aben&#231;oe &#8212; mais do que eu. Muitos est&#227;o a&#237; com suas afli&#231;&#245;es, constrangidos pela consci&#234;ncia, amedrontados com o mundo. Deve ser horripilante, eu imagino. Ningu&#233;m disse que seria f&#225;cil mesmo.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#8310; Afinal, somos t&#227;o jovens&#8230;</p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>Calma l&#225;, Minist&#233;rio P&#250;blico. &#201; piadinha.</p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Tez brasileira, rostinho europeu]]></title><description><![CDATA[Cr&#244;nica #021 | "E, pasmem!, &#233; aquela mocinha bela, morena, de rostinho europeu, invocada, dona de cabelos castanhos e de olhos dourados."]]></description><link>https://tlferreira.substack.com/p/tez-brasileira-rostinho-europeu</link><guid isPermaLink="false">https://tlferreira.substack.com/p/tez-brasileira-rostinho-europeu</guid><dc:creator><![CDATA[T. L. Ferreira]]></dc:creator><pubDate>Sun, 19 Jul 2026 08:36:27 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/f36ee43d-1c77-40ec-ac97-7151b2373cfc_1086x1264.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">&#185; Das coisas inexplic&#225;veis da impropriedade humana, esta &#233; uma delas: n&#227;o parte da nossa esfera de escolha aquilo que nos atrai. De tudo, talvez, seja esta a &#250;nica ocasi&#227;o em que a opress&#227;o parte de uma necessidade da alma; coisa quase que fisiol&#243;gica, isto &#233;, uma quer&#234;ncia vital partindo de onde n&#227;o h&#225; corpo. A alma corresponde ao inating&#237;vel da compreens&#227;o humana e, ainda assim, nos apurrinha pedindo coisas que n&#227;o escolhemos querer. N&#227;o escolhemos as coisas que nos atraem &#8212; e c&#225; estamos, degladiando-nos com o mundo a fim de conquist&#225;-las.</p><p style="text-align: justify;">&#178; Eu fui v&#237;tima disso tudo. Fui v&#237;tima de uma personalidade brasileira, rom&#226;ntica e nada bo&#234;mia, daquelas que se encantam pela tez morena, pelo rosto europeu, pelos cabelos castanhos claros, pelo corpo magro etc. Ah, &#233; disso mesmo que pade&#231;o. Que coisa mais infeliz, n&#227;o? E, sofrendo dessa personalidade mais que desdita, houve-me encantar-me pela &#250;nica mulher sem a qual posso viver neste mundo &#8212; aquela em cujo olhar jaz tanto mist&#233;rio, em cujo jeito de andar h&#225; tanta ofensa e em cujo aborrecer-se existe tanta eleg&#226;ncia. E, pasmem!, &#233; aquela mocinha bela, morena, de rostinho europeu, invocada, dona de cabelos castanhos e de olhos dourados. Talvez um pouco mais velha, mas nada que n&#227;o seja um ou dois anos de diferen&#231;a. Se eu aqui tenho meus penosos vinte, ela deve ter seus vinte e um (ou dois?).</p><p style="text-align: justify;">&#179; Quando a conheci, era s&#243; sua pessoa e nada mais. N&#227;o pude acreditar que aquilo n&#227;o terminaria ali. N&#227;o pude acreditar que pensaria nela com uma frequ&#234;ncia assustadora, bem como que me sentiria insuficiente a partir do momento em que ganhou um m&#237;sero espa&#231;o na minha mente &#8212; que logo desceu ao cora&#231;&#227;o. E isso foi r&#225;pido, num &#225;timo inexplic&#225;vel: nem percebi que me apaixonei; quando o notei, j&#225; n&#227;o me permitia olhar para qualquer outra mulher com a mesma ternura. Todas as outras, sen&#227;o com indiferen&#231;a, vejo-as com uma pervers&#227;o passageira. Mas, com ela, a moreninha europeia, n&#227;o ouso um m&#237;nimo de pervers&#227;o ou indiferen&#231;a. Nem um m&#237;nimo disso sequer me &#233; aceit&#225;vel pensar. Nela s&#243; penso com amor e respeito, com do&#231;ura e, tragicamente, com desejos dolorosos e desconfort&#225;veis, que me espantam se penso invadir-lhe a privacidade.</p><p style="text-align: justify;">&#8308; E voc&#234; me pergunta: &#8220;&#8212; Qual o desejo, portanto?&#8221; Meu desejo? Meu desejo &#233; afundar nos seus olhos m&#237;sticos e penetrar na alma inabarc&#225;vel que se esconde entre todo aquele maravilhoso amontoado vivo de carne, ossos e fluidos, bem dispostos entre si, que me constrange de formas particulares toda vez que a vejo, sempre passando sem me notar. Meu desejo &#233; sentir seu calor de amor, abra&#231;ar o brilho r&#250;tilo de seus olhos, aspirar o perfume que lhe gruda &#224; pele todos os dias, conhecer a do&#231;ura de sua boca na minha e, ainda, sentir seus m&#250;sculos contra&#237;dos nos meus bra&#231;os para, enfim, ampar&#225;-la na Terra. Meu desejo &#233; ouvi-la cantar pela manh&#227;, vibrar com sua dan&#231;a durante o dia, consumir sua arte pela noite e repetir isso todos os dias, porque dela nunca ficarei exausto. Meu desejo &#233; absorver tudo o que ela pode me entregar e fazer parte de cada momento, mesmo dos perdidos no tempo, de sua vida. Meu desejo &#233; bramir, como um louco selvagem, todo o meu sentimento e t&#234;-lo recebido e aceito pela estranheza que ela me &#233;. Meu desejo &#233; arruinar tudo o que sou para v&#234;-la acostumada &#224; felicidade e ao amor, porque n&#227;o h&#225; nada em mim que supere qualquer coisinha dela. Meu desejo &#233; saber escrever palavras de amor melhores, s&#243; para lhas encaminhar de forma in&#233;dita. Meu desejo &#233; fazer com que tudo isso seja verdade e alcan&#231;&#225;-la na eternidade quando houvermos de encontrar com a morte, porque, sem ela, n&#227;o creio ser alguma coisa viva inteiramente.</p><p style="text-align: justify;">&#8309; Pois orei a Deus e pedi, pelas poderosas intercess&#245;es de Santa Maria, qualquer al&#237;vio para essa dor. Mas, quando veio, ignorei-o e ainda o ignoro. A morena tem seu homem (ou teve?), mas isso n&#227;o me det&#233;m; meu cora&#231;&#227;o n&#227;o sossega, e meu corpo ainda se agita perto dela. &#192;s vezes, acredito piamente ser ela a dona do meu destino. E, mesmo que n&#227;o seja, arriscaria qualquer coisa minha para ter com ela uma troca in&#250;til de poucas palavras &#8212; e que isso n&#227;o dure apenas uma &#226;nsia de momento. Nunca fui t&#227;o apaixonado. Ela toda &#233; perfeita e real&#231;ada com a melhor das cores. Ela &#233; tudo de que um homem precisa para abobalhar-se e degladiar-se com a insistente paix&#227;o em seu cora&#231;&#227;o. Ela &#233; do tipo de mulher que n&#227;o se experimenta, nem de que se esquece.</p><p style="text-align: justify;">&#8310; Ela &#233; mulher para uma vida inteira &#8212; ou para um momento que vale por toda uma vida.</p><div><hr></div><p style="text-align: justify;">19/jul./2026</p><p style="text-align: justify;">Mogi das Cruzes, S.P.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Geracionais americanos e mais alguns alvitres sobre literatura]]></title><description><![CDATA[Cr&#244;nica #020 | "Em outras palavras, enquanto os primeiros mascaravam a prud&#234;ncia em putaria, estes mascaravam a putaria em prud&#234;ncia."]]></description><link>https://tlferreira.substack.com/p/geracionais-americanos-e-mais-alguns</link><guid isPermaLink="false">https://tlferreira.substack.com/p/geracionais-americanos-e-mais-alguns</guid><dc:creator><![CDATA[T. L. Ferreira]]></dc:creator><pubDate>Fri, 17 Jul 2026 23:51:12 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/25bbbc95-5bc0-4225-9da5-9b6c3182c7f2_724x427.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">&#185; N&#227;o sei a partir de quando as fic&#231;&#245;es perderam espa&#231;o para as semi-biografias. O s&#233;culo passado &#233; recheado destas &#250;ltimas, enquanto os anteriores, n&#227;o. E essas semi-biografias, sem respeitar regras liter&#225;rias, oscilando entre os fracassos da vida comum e a renova&#231;&#227;o espiritual, tomaram grande espa&#231;o na literatura. H&#225; descend&#234;ncia direta dos malditos franceses, mas muitos preferem algo novo, isto &#233;, os <em>beats</em>. Os geracionais do s&#233;culo XX, por&#233;m, t&#234;m pouca &#226;ncora em um &#250;nico movimento: Henry Miller &#233; quase que, por excel&#234;ncia, um maldito, embora compartilhe muito do modernismo; Bukowski &#233; erroneamente considerado um <em>beat</em>, sendo-lhe o <em>dirty realism</em> mais adequado; e Thompson tamb&#233;m, sendo, depois, o pai do jornalismo gonzo. Kerouac &#233; o rosto <em>beat</em>, sem mais nem menos.</p><p style="text-align: justify;">&#178; Embora seja uma putaria danada aloc&#225;-los em movimentos pr&#243;prios &#8212; que, ao meu ver, n&#227;o faz tanto sentido para esta Cr&#244;nica &#8212;, cada um tem um qu&#234; de diferente e excepcional. Nenhum deles &#233; pr&#243;prio de um s&#243; movimento ou g&#234;nero, j&#225; que n&#227;o houve regra nenhuma que se prezasse nas obras. Entretanto, todos sapateiam sobre um mesmo ch&#227;o, que s&#227;o as semi-biografias. &#211;bvio: muitas delas s&#227;o quase que piamente baseadas em fatos reais, mas &#233; com um pequeno toque de fic&#231;&#227;o que eles movimentam a escrita &#8212; apesar de que, para esses cabras, fic&#231;&#227;o &#233; coisa quase que desnecess&#225;ria, j&#225; que as pr&#243;prias vidas lhes foram um verdadeiro caos.</p><p style="text-align: justify;">&#179; A verdade &#233; que a literatura americana do s&#233;culo passado foi a putaria encarnada. Isso porque, com um calend&#225;rio <em>assim</em> de guerras, a cabecinha do escritor americano vira do avesso. E, quando os pirados pegam uma caneta e algumas folhas, sabemos o que vem: hist&#243;rias fodas. (Sim, isso mesmo: sou f&#227; da literatura americana do s&#233;culo XX. Gosto tanto dela que quem me faz a cabe&#231;a s&#227;o Bukowski e Thompson.) Veja, pois, que n&#227;o havia regra nenhuma: se o mundo se degladiava, por que n&#227;o a literatura? Tanto &#233; que, literariamente, era cada um por si. E, quando um ca&#237;a, era atirando. Assim se seguiu da metade do s&#233;culo XX at&#233; o seu fim, do jeito que tinha de ser. Era tudo t&#227;o sem valor que, at&#233; isso, ironicamente, era o seu valor.</p><p style="text-align: justify;">&#8308; Bom, n&#227;o &#233; s&#243; de putaria que vive o homem. Dostoi&#233;vski, Tolst&#243;i, Hemingway, Machado de Assis, Alu&#237;sio Azevedo, &#201;rico Ver&#237;ssimo etc.; todos eles s&#227;o o oposto dos americanos (com exce&#231;&#227;o, &#233; claro, de Hemingway &#8212; mas voc&#234;s entender&#227;o por que ele &#233; mencionado aqui, e n&#227;o ali). Enquanto aqueles s&#227;o rudes e baixos, inexplicavelmente simples e honestos, nada dial&#233;ticos, estes s&#227;o psicol&#243;gicos e dram&#225;ticos, investigadores da alma humana e, de alguma forma suficientemente coerente, das quest&#245;es complexas da investiga&#231;&#227;o filos&#243;fica, personificadas na pr&#243;pria cria&#231;&#227;o liter&#225;ria. Em outras palavras, enquanto os primeiros mascaravam a prud&#234;ncia em putaria, estes mascaravam a putaria em prud&#234;ncia. Se, para Tolst&#243;i, a trai&#231;&#227;o era um tabu, Miller pouco se foderia com isso. Se, para Dostoi&#233;vski, a prostitui&#231;&#227;o antecedia a santidade, Bukowski j&#225; a santificava.</p><p style="text-align: justify;">&#8309; Mas nada dessa inconsist&#234;ncia liter&#225;ria deve ser menosprezado. A literatura sempre foi um protesto humano contra tudo &#8212; literalmente tudo &#8212;, e censur&#225;-la &#233; censurar do g&#234;nero humano a pr&#243;pria clave da cria&#231;&#227;o. Toda e qualquer literatura &#233; uma possibilidade da vida humana e um menu referto de consci&#234;ncias oprimidas pela realidade da fic&#231;&#227;o; ainda mais quando semi-biogr&#225;fica: um testemunho real e direto de tudo aquilo que se sofreu, cuidadosamente encaixado numa boa narrativa verbal. Quem disso se nutre, da vida se nutre tamb&#233;m.</p><p style="text-align: justify;">&#8310; De todas as cr&#244;nicas, esta foi mais direta. Costumo sempre seguir em tom de conversa, coisa que n&#227;o prestei muita aten&#231;&#227;o aqui. Eu tinha coisas para falar e falei (ou melhor: escrevi). Pois finalizo com um trecho de <em>Sexus </em>(1949)<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a>, de Henry Miller, j&#225; que &#233; a obra do momento:</p><div class="pullquote"><p style="text-align: justify;">&#8220;[&#8230;] eu devia saber que a &#250;nica mulher no mundo sem a qual n&#227;o posso viver est&#225; marcada pelo mist&#233;rio.&#8221;</p></div><p style="text-align: justify;">&#8311; &#201;, o cabra sofre igual a gente.</p><div><hr></div><p style="text-align: justify;">17/jul./2026</p><p style="text-align: justify;">Mogi das Cruzes, S.P.</p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p style="text-align: justify;"><a href="https://www.estantevirtual.com.br/livro/sexus-a-crucificacao-encarnada-vol-1-P79-3502-000">Sexus, de Henry Miller</a></p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O século argentino]]></title><description><![CDATA[Cr&#244;nica #019 | "Aqui, o afeg&#227;o m&#233;dio brasileiro sofre de muito, sen&#227;o de tudo. N&#227;o seremos nada &#8212; ou n&#227;o voltaremos a ser alguma coisa &#8212; se em n&#243;s continuar a existir inveja e vira-latismo."]]></description><link>https://tlferreira.substack.com/p/o-seculo-argentino</link><guid isPermaLink="false">https://tlferreira.substack.com/p/o-seculo-argentino</guid><dc:creator><![CDATA[T. L. Ferreira]]></dc:creator><pubDate>Thu, 16 Jul 2026 04:41:32 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/a537c8f7-c16f-43fe-b109-02d2e515f3c6_1200x736.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">&#185; Venho a escrever esta Cr&#244;nica com um misto de sensa&#231;&#245;es. &#201; a primeira vez que, em muito tempo, dou import&#226;ncia ao futebol com ardor. A &#250;ltima vez foi na inf&#226;ncia, na Copa de 2014, quando covardemente dei as costas ao meu time, tendo a derrota n&#237;tida. Mas, desta vez, acho que, l&#225; no fundo do cora&#231;&#227;o, senti que essa paix&#227;o ascendente chegou, finalmente, a preencher seu devido espa&#231;o. Brami a vit&#243;ria sobre o Jap&#227;o e, at&#233; isto, orgulhei-me com o Brasil pela derrota ante os <em>vikings</em> noruegueses &#8212; estes sendo uma novidade encantadora em campo. Pois achei, no in&#237;cio, que n&#227;o daria import&#226;ncia a este evento; mas c&#225; estou, carimbando o vazio branco de minha tela com palavras, sentindo-me ousadamente um Nelson Rodrigues, sem nada em que pensar sen&#227;o futebol. &#201; fato: sou um homem inconsistente nas primeiras impress&#245;es e convicto dos sentimentos presentes.</p><p style="text-align: justify;">&#178; Hoje (inicio esta Cr&#244;nica no dia 15), a Argentina torna-se finalista da Copa (termino esta frase no dia 16). Domingo ser&#225; a final contra a Espanha. N&#227;o sei o que esperar. N&#227;o esperei a vit&#243;ria espanhola sobre os franceses e, pasmem!, aconteceu, por dois a zero &#8212; um espet&#225;culo de jogo. Da mesma forma, c&#225; estive incr&#233;dulo com a r&#225;pida virada argentina sobre os ingleses. Afinal, esta Copa acentuou muitas impress&#245;es &#8212; hoje sendo elas um fato incontest&#225;vel &#8212;, como impressionou e proporcionou aos vibrantes torcedores espet&#225;culos inesquec&#237;veis, de vit&#243;rias impens&#225;veis, dribles ousados e um qu&#234; de &#226;nimo para a pr&#243;xima, em 2030.</p><p style="text-align: justify;">&#179; Sendo um evento que grandes m&#227;os tentam manipular, nada se compara ao que os selecionados fazem por seus ber&#231;os e por seus acolhedores irm&#227;os de terra, desafiando, sim, elites que perdem os desejados olhos de seus atos populistas. Copa &#233; coisa do pov&#227;o, essa &#233; a verdade, e nada pode parar o povo.</p><p style="text-align: justify;">&#8308; Veja: sen&#227;o pelo jogo, nada fiz hoje. Foi tempo para matutar &#8212; e escrever. Pois digo, em palavras <em>pixeladas</em>, minha impress&#227;o sobre a Argentina. Serei honesto: eles jogam bola, eles amam o futebol e amam a camisa que vestem. E esse amor deles &#233; bom para mim: quanto mais eles amam, mais eu amo; quanto mais eles celebram, mais eu celebro; e tudo isso &#233; genu&#237;no. Podem acusar-me de falso brasileiro, mas a isso eu respondo (e sempre gostei de responder):</p><p style="text-align: justify;">&#8212; A Argentina n&#227;o &#233; o meu rival!</p><p style="text-align: justify;">&#8309; Isso mesmo. Sou brasileiro e amo a rivalidade entre Brasil e Argentina. Mas contra eles eu n&#227;o tenho nada. E sabem o porqu&#234; disso? Sabem o porqu&#234; de vibrar com a Argentina? Porque &#233; disso que o Brasil precisa!</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Qu&#234;?! &#8212; ou&#231;o-te inconformado. &#8212; O Brasil precisa que a Argentina ven&#231;a?</p><p style="text-align: justify;">&#8310; Exatamente! Vejam-nos e vejamo-nos: enquanto os <em>hermanos</em> gritam, vibram, bramem como cavaleiros vencedores sobre uma ta&#231;a que lhes aguarda o toque suado das m&#227;os &#8212; assim em busca de serem donos deste s&#233;culo &#8212;, n&#243;s aqui rum&#225;vamos enrijecidos, confort&#225;veis na casa chique de nossos pais, servindo como meros funcion&#225;rios do Pa&#237;s, e n&#227;o como her&#243;is &#8212; como fomos um dia e como hoje s&#227;o os argentinos. Salvo Neymar &#8212; o her&#243;i digno de todos os aplausos desta Copa e dos brasileiros &#8212;, n&#227;o houve outro sequer que tenha vestido a camisa amarela sem se enrustir em patroc&#237;nios e movimenta&#231;&#245;es criminosas contra a dignidade dos brasileiros (e falo, aqui, das apostas).</p><p style="text-align: justify;">&#8311; Ao sul, um pa&#237;s inteirinho vibra com homens que santificam o campo e a ta&#231;a, que enchem o peito para cada verso do hino e abra&#231;am-se quando encurralados para, juntos, vencerem o inimigo em campo, balan&#231;ando a rede oposta quantas vezes forem necess&#225;rias. J&#225; aqui, nossos her&#243;is est&#227;o aprisionados ao funcionalismo e &#224; obedi&#234;ncia, quando n&#227;o por evitarem as ojerizas da c&#250;pula esquerdo-lar&#225;pia midi&#225;tica brasileira, que tanto destr&#243;i este Pa&#237;s. Sim, acredito piamente que nossos selecionados s&#227;o v&#237;timas.</p><p style="text-align: justify;">&#8312; Perceberam, pois, a diferen&#231;a? Mas n&#227;o. Aqui, o afeg&#227;o m&#233;dio brasileiro sofre de muito, sen&#227;o de tudo. N&#227;o seremos nada &#8212; ou n&#227;o voltaremos a ser alguma coisa &#8212; se em n&#243;s continuar a existir inveja e vira-latismo. Ah, sim, vira-latismo <em>mesmo</em>! Ora nos sentimos os melhores &#8212; quando n&#227;o o somos; ora nos sentimos os piores &#8212; quando n&#227;o dever&#237;amos s&#234;-lo. Na medida em que o brasileiro p&#245;e seu cora&#231;&#227;o nos lugares errados, mais nos veremos inertes em campo, obedientes e omissos, afastando-nos progressivamente de erguer ao mundo a ta&#231;a com nossa mem&#243;ria campe&#227; &#8212; que sempre ser&#225;.</p><p style="text-align: justify;">&#8313; Dito tudo isso, que os argentinos sirvam de exemplo! Se a vit&#243;ria for deles &#8212; contra a temida Espanha, t&#227;o preparada e digna de vencer tamb&#233;m &#8212;, que a quarta estrela no peito de nosso irm&#227;o latino bem nos incomode. Que a ta&#231;a levantada pelo her&#243;i Messi resplande&#231;a toda a sua luz nos olhos brasileiros, de forma que, em todos n&#243;s &#8212; todos, todos, todos &#8212;, surta o mesmo desejo: &#8220;&#201; disso que precisamos!&#8221;</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8304; Ao menos, &#233; o que eu desejo: sou um homem do mundo como sou um homem com p&#225;tria. Sempre, sempre, sempre encherei o peito de amor e orgulho quando vestir a camisa amarela. Sempre apertarei com for&#231;a o escudo que carrego, porque tanto amo minha terra e minha hist&#243;ria &#8212; e sei que muitos brasileiros amam tamb&#233;m.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#185; Afinal, somos um povo com muito a aprender e muito de que se lembrar.</p><div><hr></div><p style="text-align: justify;">16/jun./2026</p><p style="text-align: justify;">Mogi das Cruzes, S.P.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Olga Nowakowska, Cap. 1]]></title><description><![CDATA[Conto #005, Cap&#237;tulo 1 | "Ela prestava aten&#231;&#227;o aos contornos disformes do rio escuro, passando sob seus olhos, logo &#224; sua frente."]]></description><link>https://tlferreira.substack.com/p/olga-nowakowska-cap-1</link><guid isPermaLink="false">https://tlferreira.substack.com/p/olga-nowakowska-cap-1</guid><dc:creator><![CDATA[T. L. Ferreira]]></dc:creator><pubDate>Tue, 14 Jul 2026 17:08:54 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/bf6091b6-2a94-4868-8a18-592836995226_640x531.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong>I</strong></p><p style="text-align: justify;">Ela prestava aten&#231;&#227;o aos contornos disformes do rio escuro, passando sob seus olhos, logo &#224; sua frente. Apoiava-se sobre os cotovelos, rudemente pressionados sobre o parapeito encravado em pedregulhos, e mirava a &#225;gua em movimento. O rio corria &#224; direita da refer&#234;ncia de seu corpo. O sol tamb&#233;m decrescia &#224; direita, no horizonte, silhuetando os pr&#233;dios baixos com suas janelinhas iluminadas, obl&#237;quo ao rio e a ela; e ia numa velocidade lenta, recostado nas firmes nuvens carregadas sob todo o c&#233;u cinza. Uma nesga de vento frio, vinda da esquerda, balan&#231;ou seus cabelos soltos e deslocando-os dos ombros e seios. Sentiu a brisa gelada, mas n&#227;o se deu ao trabalho de notar a sensa&#231;&#227;o da pele resfriada. Pouco lhe importou.</p><p style="text-align: justify;">Calmamente, como se ensaiasse, ou lhe fosse impercept&#237;vel o movimento, recuou a m&#227;o que segurava um ma&#231;o fino e judiado. Recuou a outra, puxou um cigarro, depois um isqueiro e acendeu o cigarro, apoiando o ma&#231;o no parapeito. Fumara dois outros antes deste de agora, minutos antes, e quis embebedar-se pela manh&#227;. Tragou e aqueceu-se. Olhou de novo para o rio e depois para as casas na margem distante. Silabou qualquer projeto de frase, mas n&#227;o a concluiu. Seria uma ojeriza solta no sil&#234;ncio.</p><p style="text-align: justify;">Ela vestia um simples e bonito vestido preto, que se prendia aos ombros encolhidos e prosseguia por todo o corpo magro, passando dos joelhos. O decote era impercept&#237;vel, mas o vestido era ligeiramente agarrado, entregando aos olhos alheios a fartura de mulher que era. Erguia-se, tamb&#233;m, sobre um par de saltos pretos e caros. Tudo o que vestia era sobremodo caro, bem lhe apessoando. N&#227;o carregava joias no corpo, sen&#227;o um colarzinho dourado que se escondia entre os cabelos bem negros, pouco castanhos. Usava maquiagem escura e s&#243;bria. Era uma mulher muito bonita, farta e magra, de rosto contornado e definido, claramente europeu, e de tez morena. Tinha sobrancelhas definidas, olhos grandes, embora amiudados, e l&#225;bios r&#250;tilos, mas secos pelo cigarro. Tragou novamente. T&#227;o logo a fuma&#231;a turva e azul subia, desaparecia com a for&#231;a da brisa. O sol continuava a decrescer no horizonte.</p><p style="text-align: justify;">Uma mulher mais velha, tamb&#233;m bem vestida, mas n&#227;o t&#227;o s&#243;bria quanto a que mirava o rio, achegou-se por tr&#225;s e firmemente a fitou com ternura.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Olga &#8212; exclamou &#8212;, t&#225; frio demais. Cad&#234; o casaquinho?</p><p style="text-align: justify;">Olga n&#227;o respondeu. Nem moveu a cabe&#231;a. A mulher aproximou-se insucedida e tocou seu bra&#231;o moreno e gelado. Sem espanto, Olga prestou aten&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ah, minha filha. Por favor, venha. Vamos entrar. T&#227;o servindo p&#227;ezinhos...</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Eu vou. Pode ir. Termino o cigarro e vou &#8212; disse Olga, finalmente.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Quer que eu te traga o casaquinho?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; N&#227;o, n&#227;o. Estou bem. V&#225; l&#225;, m&#227;e. Obrigada &#8212; e sorriu friamente.</p><p style="text-align: justify;">A m&#227;e recuou encolhida de frio. Olga n&#227;o esbo&#231;ou sequer uma &#226;nsia de movimento. Tragou o cigarro novamente e mirou o c&#233;u cinza e carregado. Uma grande e intermin&#225;vel nuvem escura cobria aquele fim de tarde. Mirou-a como mirava o rio, de forma impr&#243;pria, silente. N&#227;o guardava as contra&#231;&#245;es do corpo resfriado; apenas se acomodava na obra de luz refletida pelo sol que seus olhos lhe entregavam. Matou o cigarro e atirou a bituca no rio. As cinzas ca&#237;am no parapeito.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Deus do C&#233;u... &#8212; silabou, finalmente, ao sil&#234;ncio.</p><p style="text-align: justify;">Voltou as costas ao rio e caminhou at&#233; o sal&#227;o iluminado, recuado da margem. Olga Nowakowska era seu nome. Mo&#231;a madura, adulta, l&#225; de seus quase trinta anos, jovem e decorada com vida; mas existia nela certa perversidade, n&#227;o pr&#243;pria, mas ocasionada por um passado inexplic&#225;vel. Sua perversidade n&#227;o era inclina&#231;&#227;o a nenhum pecado, tampouco &#224; libertinagem; era, pois, coisa de isolar-se e de deprimir-se, ambiguamente, se se pensasse no corpo alegre que lhe acomodava a alma. Nowakowska andava em passos lentos e perdidos, acentuados pela pouca firmeza que contra&#237;a da cal&#231;ada. Notou sua m&#227;e ainda fora do sal&#227;o, por uma janela cristalina &#224; sua frente.</p><p style="text-align: justify;">O sal&#227;o era de um pr&#233;dio tombado pela prefeitura, bem preservado, erguido no s&#233;culo passado, de arquitetura mista entre a greco-romana e a europeia. Era cinza e enfeitado com janelas coloridas. Iluminava-se tanto por fora quanto por dentro, nas entranhas de concreto e madeira. L&#225; estaria sua m&#227;e, entre outras pessoas bonitas e discretas. Felicitavam-se com conversas agrad&#225;veis e brindes, sobretudo entre altos elogios alegres. Uns dividiam as mesas redondas e brancas, bem dispostas pelo sal&#227;o; j&#225; outros se acomodavam de p&#233; em rodas de conversa, sobretudo perto da porta adjacente &#224; esquina do pr&#233;dio. Cada um tinha um assento reservado, mas alguns preferiam festejar de p&#233;. Gar&#231;ons polidos e educados, vestindo ternos brancos, rodavam entre todos os festeiros, servindo-lhes p&#227;ezinhos e outros aperitivos, juntamente com espumantes caros e elogiados.</p><p style="text-align: justify;">Contornando uns e outros, velhos que a notavam discretamente, Nowakowska mirou sua m&#227;e, acenou-lhe e se aproximou. Esbo&#231;ou um sorriso educado aos que trocavam assuntos com a m&#227;e e pegou seu casaquinho de couro preto, estendido sobre a cadeira. Vestiu-o, pegou a bolsa e aprumou-se.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; M&#227;e &#8212; dirigiu-se a ela &#8212;, vou.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; J&#225;? Mas nem comeu nada...</p><p style="text-align: justify;">&#8212; &#201; hora. N&#227;o quero chegar tarde.</p><p style="text-align: justify;">A m&#227;ezinha inconformou-se, mas nada podia impedi-la.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Quer que chame um t&#225;xi? &#8212; sugeriu aborrecida para a filha.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; N&#227;o precisa...</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ent&#227;o...</p><p style="text-align: justify;">Olga beijou a m&#227;e. N&#227;o deixou que terminasse de falar, fazendo com que engolisse as palavras. Virou-lhe as costas, contornou todos os velhos indiscretos e saiu.</p><p style="text-align: justify;">Na rua, tomou a via adjacente &#224; lateral do pr&#233;dio, seguindo para dentro da cidade e afastando-se do rio. O anoitecer triunfaria em menos de uma hora, j&#225; que o c&#233;u escurecia e os postes brutos e elegantemente desenhados j&#225; incendiavam, com a luz amarela, a superf&#237;cie da cal&#231;ada e as faces dos pr&#233;dios acomodados &#224;s margens da rua asfaltada. Agora, Olga andava ligeira e nada obtusa, penetrando nos caminhos dos transeuntes, que desviavam de sua f&#250;ria encrustada nos passos r&#225;pidos e comprimidos. Sentia, tamb&#233;m, o frio nas canelas desnudadas e no rosto. Fez-se novamente a abrir a bolsa, ca&#231;ar o ma&#231;o, desembrulhar um cigarro e acend&#234;-lo aos l&#225;bios &#250;midos e viciados, ateando-lhe o fogo necess&#225;rio para aquecer-lhe os pulm&#245;es.</p><p style="text-align: justify;">Numa das ancas &#8212; a esquerda &#8212;, ro&#231;ava-lhe a bolsa. Isso lhe incomodava; pois fez-se bruta e pressionou com a polpa do bra&#231;o o acess&#243;rio, erguendo-o &#224; superf&#237;cie da costela e livrando a anca do inc&#244;modo. A outra m&#227;o ainda segurava o cigarro aceso. Levava-o, sempre que poss&#237;vel &#8212; isto &#233;, vezes em quartos de minuto &#8212;, &#224; boca e tragava; e expelia a fuma&#231;a azul bem &#224; frente, cruzando-a e quebrando-lhe os fluidos dispersos no ar.</p><p style="text-align: justify;">Andou por mais duas ou tr&#234;s quadras e tomou &#224; esquerda, numa rua referta de bares. Encolheu-se e atravessou os transeuntes acomodados em seus grupos festivos na cal&#231;ada. Cruzou um, dois, tr&#234;s grupos para, finalmente, chegar ao pr&#233;dio em que morava. Desembolsou a chave gelada e penetrou-a na fechadura da porta. Abriu-a e andou pelo corredor comprimido e iluminado, sobre um carpete vermelho e luxuoso, at&#233; o elevador. Pressionou o bot&#227;o e esperou que chegasse. A essa altura j&#225; tinha matado seu &#250;ltimo cigarro, tendo arremessado a bituca numa viela, a uma quadra de dist&#226;ncia da que abrigava seu pr&#233;dio. O elevador chegou e as grades se abriram. Entrou, apertou o bot&#227;o do quinto e pen&#250;ltimo andar e subiu.</p><p style="text-align: justify;">Olga Nowakowska era ossos, carnes e fluidos bem dispostos entre si, revestidos de sua graciosa apar&#234;ncia e eri&#231;ados com sua inabarc&#225;vel alma. Sua m&#227;e dera-lhe este talento m&#237;stico no ventre, que s&#243; ap&#243;s, com a pr&#243;pria Olga, completou-se. &#201; a bela morena silente, dona do passado complexo e infeliz, e da alma contrastada com todo o seu firmamento na Terra.</p><p style="text-align: justify;">Finalmente, no seu apartamento pequeno e enrustido, adjacente ao final do corredor do andar, voltou a caminhar com mais tranquilidade. Da porta ao fundo, eram tr&#234;s c&#244;modos: uma cozinha misturada com uma &#225;rea de servi&#231;o, &#224; esquerda da porta de entrada; um banheiro, &#224; direita, mais afastado, perpendicular &#224; parede oposta; e uma sala maior, com sua cama cabeceada na mesma parede oposta &#224; do banheiro e adjacente &#224; parede dos fundos, com uma imensa janela. Era tudo bem ajeitado, mas decadente &#8212; n&#227;o por culpa da mulher isolada que o habitava, mas pelos maus cuidados do antigo cond&#244;mino, que partira havia quase um ano. As paredes da sala eram revestidas por um papel de parede bege fosco, s&#243;brio, e todas tinham rodap&#233;s e rodatetos elegantes. Dispunha-se, na sala, junto &#224; parede do banheiro, um imenso arm&#225;rio com prateleiras: guardava l&#225; quase tudo, at&#233; seus livros. Havia, tamb&#233;m, uma mesinha escura na cozinha, com dois bancos estofados e ornados de madeira acabada.</p><p style="text-align: justify;">Anoiteceu rapidamente. Olga despiu-se e arremessou seu vestido escuro no ch&#227;o. Tomou banho quente e foi r&#225;pida. Saiu, vestiu uma camisola, embrulhou-se num cobertor quente e, ainda lhe restando um &#250;ltimo cigarro, mi&#250;do no ma&#231;o judiado, puxou-o e acendeu-o. Abriu a janela e sentou-se na cadeira que pegou da cozinha, esticando os p&#233;s sobre a outra. Mirou o pr&#233;dio iluminado da quadra vizinha e toda a avenida movimentada, cinco andares abaixo de seus olhos. Flagrou homens e mulheres trocando seus corpos em animalescos beijos salivantes. Flagrou b&#234;bados e prostitutas ca&#231;ando-se. Respirou toda aquela vida da cidade, distante em seu apartamento, como um acidente de querer fumar o &#250;ltimo cigarro. Maculada no sil&#234;ncio, prostrada sob a lua p&#225;lida no horizonte e ofendida pela noite, desatou a chorar.</p><div><hr></div><p style="text-align: justify;">14/jul./2026</p><p style="text-align: justify;">Mogi das Cruzes, S.P.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA["Foder com a porra toda" é o título desta Crônica, já que não pensei em nada melhor]]></title><description><![CDATA[Cr&#244;nica #018 | "&#8212; &#201; foda viver em um mundo onde todos est&#227;o numa velocidade diferente da sua. Bom, &#233; dif&#237;cil acompanhar todo mundo, claro, mas quem disse que &#233; isso o que eu quero?"]]></description><link>https://tlferreira.substack.com/p/foder-com-a-porra-toda-e-o-titulo</link><guid isPermaLink="false">https://tlferreira.substack.com/p/foder-com-a-porra-toda-e-o-titulo</guid><dc:creator><![CDATA[T. L. Ferreira]]></dc:creator><pubDate>Mon, 13 Jul 2026 21:46:37 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/7a073673-e156-4765-8199-11d7d85a80d8_828x1080.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">&#185; Em algum momento da vida eu me perdi e fui parar na faculdade.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a></p><p style="text-align: justify;">&#178; Eu fa&#231;o Direito. Estou no terceiro ano da faculdade. Tenho vinte anos e metade de uma faculdade de Direito na ficha. N&#227;o lembro bem o porqu&#234; de ter escolhido o Direito, ou o que tenha me motivado a ser jurista. Sei que foi uma decis&#227;o ligeira no final do ensino m&#233;dio; uma Ave-Maria improvisada e &#8212; <em>bum!</em> &#8212;: jurista. Eu tive outros planos, mas, afeg&#227;o m&#233;dio que sou, decidi pelo mais seguro, que foi o Direito.</p><p style="text-align: justify;">&#179; Mas eu n&#227;o quis que a faculdade me tomasse cinco anos da vida sem encerrar qualquer sentido para mim. Tive de dar raz&#227;o a esse momento da vida. Pois &#8220;quero foder com a porra toda&#8221; foi o que assumi como motivo do meu futuro diploma. Cheguei a essa decis&#227;o no in&#237;cio deste ano, j&#225; no meu quinto semestre. Disse para alguns amigos num almo&#231;o ap&#243;s a aula. Eles deram seus motivos: &#8220;dinheiro&#8221;, &#8220;seguran&#231;a&#8221; e &#8220;evangelizar o r&#233;u&#8221;. Motivos mais do que dignos. Assinaria embaixo se n&#227;o tivesse sido o meu querer foder com a porra toda.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; O que seria a &#8220;porra toda&#8221;, e por que quer foder com ela? &#8212; ouvi do Cachorro Carente, amigo da faculdade, nesse almo&#231;o.</p><p style="text-align: justify;">Dei de ombros.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Longa hist&#243;ria.</p><p style="text-align: justify;">&#8308; &#201;, eu gostaria ter pensado num motivo melhor que esse. Hoje, eu n&#227;o vejo tanto o mesmo sentido nessa escolha. Quando o pensei, acho que foi enquanto tomado por certa afeta&#231;&#227;o ideol&#243;gica, t&#237;pica do jovem adulto inconformado com a ordem ca&#243;tica das coisas. Eu acreditei que teria certo protagonismo no mundo jur&#237;dico, sendo capaz de transform&#225;-lo e de resgatar os bons valores esquecidos, dando &#224;s leis e &#224;s institui&#231;&#245;es deste pa&#237;s uma outra face, livre de corrup&#231;&#227;o, esquerdismo e antipatriotismo. Acreditei que, tendo esses motivos nobres e esse contrassenso revolucion&#225;rio, eu poderia mudar toda a institui&#231;&#227;o jur&#237;dica brasileira. Isso, enfim, seria o &#8220;foder com a porra toda.&#8221; Contudo, ainda afetado ideologicamente, como sentado num p&#234;ndulo de movimento ininterrupto, deixei de acreditar nesse protagonismo messi&#226;nico que imaginei para meu futuro. Por qu&#234;?</p><p style="text-align: justify;">&#8309; A verdade &#233; que, nos &#250;ltimos tempos, venho dando (<s>r&#233; no quibe</s>) alguns passos para tr&#225;s. Deixei de pensar-me como her&#243;i. Agora, s&#243; me penso como um espectador com um mundo inteiro atravessado na alma. Que quero dizer com isso? Quero dizer que quase nada posso fazer contra o caos que &#233; o mundo. N&#227;o posso revigor&#225;-lo totalmente, n&#227;o posso melhor&#225;-lo por completo, sequer faz&#234;-lo inteiramente santo. A <em>decad&#234;ncia humana</em>, a <em>queda do ocidente</em> e a <em>aboli&#231;&#227;o do homem</em> s&#227;o coisas que, mesmo distantes e absurdas, intang&#237;veis para qualquer sensibilidade inocente, s&#227;o-me, agora, lan&#231;as fincadas no peito. E n&#227;o h&#225; nada que eu possa fazer contra elas.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ah, cara, n&#227;o fode &#8212; ou&#231;o do Cachorro Carente. Grandes &#8220;n&#227;o fode&#8217;s&#8221; vieram dele.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; &#8220;N&#227;o fode&#8221; o qu&#234;? &#8212; replico injuriado.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; T&#225; me dizendo que est&#225; tomando as dores de toda a humanidade?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; &#201;&#233;&#233;&#8230;</p><p style="text-align: justify;">Ele mata a cerveja.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Bom, cara, sei l&#225;. Fume uma maconha e bata uma punheta. Quem sabe te resolve a vida?</p><p style="text-align: justify;">&#8310; &#201;. Acho que &#233; demais isso tudo. Vinte anos e ainda ficar puto com o mundo. Que merda. Acho que j&#225; &#233; idade para deixar de querer resolver os problemas do mundo para come&#231;ar a resolver os pr&#243;prios.</p><p style="text-align: justify;">&#8311; Tenho a impress&#227;o de que sofro da crise russa do homem sup&#233;rfluo, de Ivan Turgu&#234;niev; ou a crise de Rask&#243;lnikov, de Dostoi&#233;vski. Ora um Hamlet ineficaz, quando n&#227;o inexpressivo para o mundo, ora um Rask&#243;lnikov desesperado. Sou como um aventureiro do desejo de mudan&#231;a, referto de ambi&#231;&#227;o e for&#231;a de vontade, embora in&#243;cuo na pr&#243;pria alcova relenta, &#224; espera da morte e do fim humano, j&#225; que nada posso fazer para atender &#224; minha falsa voca&#231;&#227;o. N&#227;o quero ser ego&#237;sta, como n&#227;o quero ser injusto. &#192;s vezes, sou como esse Hamlet: mesmo abstra&#237;do do mundo, trato disso como um contorno pessoal que fa&#231;o diante do transcendente. N&#227;o d&#225; para ignorar a podrid&#227;o do mundo, n&#227;o, mas sou incapaz de resolv&#234;-la. Tudo isso para dizer que eu fico chocado com not&#237;cias.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Como assim existe um clube de bilion&#225;rios numa ilha particular cheia de alegorias sat&#226;nicas, comendo criancinhas e estuprando mulheres inocentes?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; N&#227;o &#233; novidade.</p><p style="text-align: justify;">Ou:</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Por que, caralhos, as pessoas est&#227;o acreditando nos extraterrestres divulgados pela Casa Branca?<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a></p><p style="text-align: justify;">&#8212; Agora est&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Quando n&#227;o:</p><p style="text-align: justify;">&#8212; &#201; s&#233;rio que a arbitragem da FIFA favoreceu a sele&#231;&#227;o argentina?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; <em>Hermanos hijos de puta!</em></p><p style="text-align: justify;">&#8312; No fim, Cachorro Carente tem raz&#227;o. &#8220;Foder com a porra toda&#8221;&#8230; virou um objetivo distante. Faculdade de Direito&#8230;, foda-se, cara. Que for&#231;a eu teria contra as elites globais, contra o Foro de S&#227;o Paulo, contra a esquerda internacional, contra o Supremo Tribunal Federal, contra o PT e contra a Sele&#231;&#227;o da Fran&#231;a?<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a> Um golpe meu contra esses filhos de sat&#227; n&#227;o seria mais forte que um peido no banho quente ap&#243;s uma pizza de strogonoff assada no puteiro Casa Blanca, aqui em Mogi das Cruzes.</p><p style="text-align: justify;">&#8313; Acho que at&#233; aqui uma coisa ficou clara: eu n&#227;o sou especial. Eu j&#225; acreditei que tivesse alguma coisa de especial. A&#237; li Bukowski<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-4" href="#footnote-4" target="_self">4</a>, Camus e Dostoi&#233;vski. Parei de acreditar que tinha em mim algo de especial. Mas eu n&#227;o gosto de n&#227;o me sentir especial. Ent&#227;o penso: o que em mim poderia ser especial? A&#237; vejo o que melhor sei fazer, que &#233; escrever. Descubro que n&#227;o h&#225; nada de especial nisso.</p><div class="pullquote"><p style="text-align: justify;">Mas pensei que, de alguma maneira, eu fosse uma exce&#231;&#227;o. Descobri que n&#227;o havia nada de excepcional a meu respeito.</p></div><p style="text-align: justify;">&#185;&#8304; Entretanto, como eu disse, estou sentado sobre um p&#234;ndulo de movimento ininterrupto. Se ora acreditei que tive em mim qualquer coisa de especial, e ora declinei de toda a subst&#226;ncia dessa cren&#231;a, &#233; poss&#237;vel que, com grande intensidade, achar-me-ei num ponto de equil&#237;brio entre o valor e a simplicidade, totalmente vazio de excessos ilus&#243;rios sobre minha voca&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#185; Algumas coisinhas eu acho que posso mudar. Eu aceitei a dor desta vida e quero faz&#234;-las dignas de existirem no meu corpo. Al&#233;m do mais, sentir que estou perdendo cinco anos do meu tempo na Terra, numa faculdade de Direito, n&#227;o me parece razo&#225;vel, ainda mais quando se paga caro na mensalidade. Alguma coisa tem que sair dali. N&#227;o t&#244; na faculdade por acaso. Idiota seria eu em achar que aquilo seria perda de tempo. A vida me colocou isso nas m&#227;os, e o que vou fazer? Enfiar no cu? N&#227;o, porra. Talvez eu possa foder com o resto da porra, mas com ela toda&#8230;, s&#243; a segunda vinda de Cristo mesmo. E, ao que me parece, n&#227;o estou aqui para disputar com Cristo. Se &#233; d&#8217;Ele a miss&#227;o de botar ordem na porra toda, <em>quem sou eu para querer antecip&#225;-lo</em>?</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#178; Lembro-me de uma vez que fui ao Minist&#233;rio P&#250;blico acompanhar um julgamento do J&#250;ri. Foi um show da porra. Estavam l&#225; o Promotor f&#243;d&#227;o e o Defensor veado. Os dois brigando. Coisa de louco.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Afinal &#8212; conclu&#237;a o Defensor veado, dirigindo-se ao J&#250;ri &#8212;, n&#227;o podemos resolver a criminalidade. Ela sempre vai ocorrer&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Excel&#234;ncia! &#8212; exclama o Promotor f&#243;d&#227;o. &#8212; N&#227;o podemos resolver a criminalidade, mas <em>este</em> crime podemos resolver. Voc&#234;s t&#234;m esse poder nas m&#227;os &#8212; dizia ao J&#250;ri.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#179; Foi do caralho. E &#233; verdade. Tem coisas que n&#227;o cabe a mim resolver. Posso me indignar com elas, claro, mas &#8220;a porra toda&#8221; &#233; muita coisa para resolver sozinho. &#201; aquela f&#225;bula do beija-flor, t&#227;o antiga que se perdera a autoria: inc&#234;ndio na floresta; o beija-flor voa, beberica a &#225;gua no rio e volta para arremessar nas chamas; os animais que restaram se unem ao beija-flor, cada um fazendo sua parte; o inc&#234;ndio se encerra.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8308; Ainda no restaurante com Cachorro Carente e os demais amigos da faculdade, mato minha cerveja e afasto o prato sujo.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; &#201; foda viver em um mundo onde todos est&#227;o numa velocidade diferente da sua. Bom, &#233; dif&#237;cil acompanhar todo mundo, claro, mas quem disse que &#233; isso o que eu quero?</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8309; Cachorro Carente fixa os olhos nos meus. N&#227;o fala nada. Pedimos a conta e vamos embora. O resto do grupo tamb&#233;m toma o seu rumo. Acho que, enfim, entendi o porqu&#234; fazer faculdade.</p><div><hr></div><p style="text-align: justify;">13/jul./2026</p><p style="text-align: justify;">Mogi das Cruzes, S.P.</p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p style="text-align: justify;">J&#225; rascunhei um romance biogr&#225;fico da minha &#233;poca (inconclusa) na faculdade. Algo l&#225; meio thompson-bukowskiano. Quem sabe?</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p style="text-align: justify;">Tenho uma cr&#244;nica engavetada sobre isso. Um dia publicarei. Adianto que &#233; tudo cortina de fuma&#231;a. Eles nunca estiveram entre n&#243;s. </p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="#footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p style="text-align: justify;">Entre Fran&#231;a e Argentina, estou com a Argentina. <em>Hermanos, carajo! </em>Eles podem at&#233; ser ***, mas os franceses s&#227;o bem mais filhos da puta. (N&#227;o, pelo amor de Deus: eu n&#227;o sou ***!).</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-4" href="#footnote-anchor-4" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">4</a><div class="footnote-content"><p style="text-align: justify;"><a href="https://www.amazon.com.br/Cartas-na-rua-Charles-Bukowski/dp/8525424498/ref=asc_df_8525424498?mcid=1578c7cc65983f07baa7db07ce4ccf13&amp;tag=googleshopp06-20&amp;linkCode=df0&amp;hvadid=709857070974&amp;hvpos=&amp;hvnetw=g&amp;hvrand=8727763916759123314&amp;hvpone=&amp;hvptwo=&amp;hvqmt=&amp;hvdev=m&amp;hvdvcmdl=&amp;hvlocint=&amp;hvlocphy=9196701&amp;hvtargid=pla-450493611727&amp;psc=1&amp;hvocijid=8727763916759123314-8525424498-&amp;hvexpln=0&amp;language=pt_BR">Cartas na Rua, de Charles Bukowski</a></p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A única e miserável Crônica que eu gostaria de deixar à própria sorte neste frágil e cruel mundo]]></title><description><![CDATA[Cr&#244;nica #017 | "Mas, cara, eu sou um homem amante das obscenidades f&#225;ceis de meu tempo. Eu sou do baixo clero. Eu pouco me fodo com as belezas imaculadas da hist&#243;ria humana."]]></description><link>https://tlferreira.substack.com/p/a-unica-e-miseravel-cronica-que-eu</link><guid isPermaLink="false">https://tlferreira.substack.com/p/a-unica-e-miseravel-cronica-que-eu</guid><dc:creator><![CDATA[T. L. Ferreira]]></dc:creator><pubDate>Sat, 11 Jul 2026 07:23:42 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/82e03812-8ebb-4b3c-a3b9-4bae07d92178_1200x630.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">&#185; <em>Trata-se de um achismo.</em></p><p style="text-align: justify;">&#178; Acredito que todos n&#243;s, escritores &#8212; todos n&#243;s, sem exce&#231;&#227;o &#8212;, roemos uns dos outros uma impercept&#237;vel inveja, bem como, internamente, sentimo-nos orgulhosos das pr&#243;prias ideias. Talvez pensemos que somos dotados de sensibilidades &#250;nicas, valores incorrig&#237;veis e, com isso, tratamo-nos por meros espectadores do mundo, j&#225; sabedores de seus alicerces, pormenores e os efeitos no plano do percept&#237;vel. </p><p style="text-align: justify;">&#179; O problema &#233; que, infelizmente, esquecemos que neste mundo vivemos, deste mundo fazemos parte e neste mundo aprendemos a <em>ser</em>. E, por mais que, muitas vezes, as coisas que ocorrem aqui sejam impar&#225;veis, elas nos atravessam o &#237;ntimo e moldam nossas sensa&#231;&#245;es. Que quero dizer com isso? Quero dizer que nos tratamos, estupidamente, por turistas, terceiros interessados, articuladores do imut&#225;vel etc., sem qualquer poder de transforma&#231;&#227;o ou talento, transmitindo sensa&#231;&#245;es vaidosas a quem quer que seja, porque &#233; a &#250;nica coisa que sabemos fazer; mas evitamos pensar que este senso de abstra&#231;&#227;o j&#225; &#233; um contorno pessoal que elaboramos diante do que nos transcende &#8212; diante do mundo.</p><p style="text-align: justify;">&#8308; Ora, porra, n&#227;o nascemos deuses. N&#227;o somos deuses. Somos, realmente, vaidosos e palpiteiros com coisas a dizer. O mundo nos atravessa e n&#227;o podemos fazer nada contra isso. Choramos, rimos, sentimos as coisas, percebemos, erramos&#8230;; enfim: somos carne e alma com o interesse em escrever, porque gostamos de transmitir nossas alegorias pessoais a algum desocupado &#8212; nada mais que isso. N&#227;o somos sujeitos acima de nada, sen&#227;o abaixo de tudo. Nada em n&#243;s &#233; universal e eterno. A ess&#234;ncia humana e alguns valores, sim, s&#227;o universais, mas, o resto&#8230; <em>Foda-se </em>o resto. O resto &#233; resto. E o que &#233; o resto? O resto &#233; toda a impropriedade humana, sobretudo art&#237;stica.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a> E esse resto n&#227;o importa fora daqui, do mundo.</p><p style="text-align: justify;">&#8309; Bom, fora daqui, n&#227;o. Mas esse resto n&#227;o &#233; de todo o mal. O <em>resto</em> &#8212; digo, o que &#233;, por excel&#234;ncia, pr&#243;prio &#8212; &#233; o que, talvez, nos importe enquanto escritores e leitores. Veja: n&#227;o lemos Tolst&#243;i enquanto ele corresponder ao eterno, ao imut&#225;vel, ao impessoal&#8230; Lemo-lo pelo que ele &#233; enquanto corresponder ao imut&#225;vel com o seu resto. Do contr&#225;rio, que valor teria Tolst&#243;i se ele fosse um mero espelho da Verdade? Precisaria ouvir dele o <em>mesmo do mesmo</em>? Porra nenhuma. Quero conhecer seus podres, suas opini&#245;es, seus alvitres. Quero l&#234;-lo articulando a Verdade, n&#227;o a reproduzindo. &#201; isto que me importa: o novo, o diferente, o estranho. Trata-se do <em>resto</em>.</p><p style="text-align: justify;">&#8310; Acho que quem mais me chamou &#224; aten&#231;&#227;o foi Bukowski &#8212; mais que qualquer outro escritor. Ele &#233; o puro e simples imut&#225;vel disfar&#231;ado no resto. Ah, rapidinho: como eu gostaria de chutar a bunda do intelectualzinho que diz: &#8220;Bukowski n&#227;o tem valor algum.&#8221; &#201; de uma ignor&#226;ncia &#8212; sen&#227;o soberba &#8212; tremenda diz&#234;-lo assim. O velho foi, sim, pervertido, relento, b&#234;bado&#8230;, mas um dos &#250;nicos que, discretamente, defendeu os marginalizados e exclu&#237;dos. Acho que Bukowski f&#234;-los her&#243;is. &#201; bonito ver que <em>isso</em> foi o seu resto. E o imut&#225;vel foi o que? Talvez, a empatia, a gra&#231;a, o humor e a sinceridade. Isso s&#227;o coisas imut&#225;veis, sim, mas foi seu resto que deu vivacidade &#224; sua obra, como daria em qualquer outra de qualquer outro escritor.</p><p style="text-align: justify;">A&#237;, lendo tudo isso, voc&#234; me pergunta:</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Qual &#233; o teu resto?</p><p style="text-align: justify;">E eu te respondo:</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Acho que tudo. Sou burro demais para n&#227;o diz&#234;-lo, ou diz&#234;-lo com alguma coisa a mais.</p><p style="text-align: justify;">&#8311; Penso que todos os bons escritores diziam o imut&#225;vel a partir do resto. Eu sequer sei dizer o imut&#225;vel. Eu s&#243; sei dizer o resto. Minhas ideias, &#224;s vezes, julgo eu, s&#227;o dignas de nota; j&#225; outras, valem-me um apagar de fogo no cu. As que s&#227;o dignas de nota, talvez, <em>acidentalmente</em>, encerram o imut&#225;vel. As que me valem um apagar de fogo no cu, <em>necessariamente</em>, s&#227;o s&#243; o resto.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; E esta Cr&#244;nica? Vale-te o apagar de fogo no cu ou &#233; digna de nota?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Acho que &#233; um misto.</p><p style="text-align: justify;">&#8312; Acidentalmente, imagino ter escrito alguma coisa digna de nota. Os palavr&#245;es, todos, s&#227;o o apagar de fogo no cu. O imut&#225;vel, quando eu o digo, n&#227;o &#233; porque eu o quero &#8212; ele apareceu sem que eu soubesse. J&#225; o resto &#233; algo que eu sabidamente digo.</p><p style="text-align: justify;">&#8313; Perceba: eu gosto de falar palavr&#245;es, gosto de falar sacanagem, de zoar as pessoas, de flertar com escrotices, de promover a pornografia liter&#225;ria etc.; embora tamb&#233;m goste de vida intelectual, literatura cl&#225;ssica e filosofia medieval. Mas, cara, eu sou um homem amante das obscenidades f&#225;ceis de meu tempo. Eu sou do baixo clero. Eu pouco me fodo com as belezas imaculadas da hist&#243;ria humana. N&#227;o que isso n&#227;o me importasse; &#233; porque eu n&#227;o tenho tato nenhum pra elas. Eu gostaria de ter, sim. Mas eu ainda vivo aqui em baixo. E, aqui em baixo, eu acho que eu tenho um certo talento. Gostaria de t&#234;-lo dizendo o imut&#225;vel. Quem sabe um dia?</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8304; Isso me lembra uma passagem de <em>Pulp </em>(1994), de Bukowski:<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a></p><div class="pullquote"><p style="text-align: justify;">&#8220;Eu tinha talento, tenho talento. &#192;s vezes olhava minhas m&#227;os e compreendia que podia ter sido um grande pianista. Mas o que tinham feito minhas m&#227;os? Co&#231;ado o saco, preenchido cheques, amarrado cadar&#231;os, puxado descargas de banheiro etc. Desperdicei minhas m&#227;os. E minha mente.&#8221;</p></div><p style="text-align: justify;">&#185;&#185; T&#225; a&#237; o imut&#225;vel bukowskiano. O cabra sabe das coisas. E &#233; disso o que eu falo. N&#227;o tenho tato nenhum para o imut&#225;vel, mas sei de certa vaidade pr&#243;pria, uma que reconhece meu talento para o resto, que me direciona para o obsceno; um orgulho das pr&#243;prias ideias, sejam necessariamente baixas ou acidentalmente belas. Eu tenho talento pra isto, &#8220;<em>isto</em>&#8221;. N&#227;o quero desperdi&#231;&#225;-lo somente com o resto. Hei de viver para o imut&#225;vel. A m&#227;o que vos escreve j&#225; bateu muita punheta torta pra n&#227;o fazer algo de &#250;til.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#178; Ah, mas eu comentei da inveja. A inveja &#8212; em todos os escritores &#8212; permanece. O qu&#227;o eu invejo Bukowski, Tolst&#243;i, Dostoi&#233;vski, Hemingway, H. S. Thompson etc., satan&#225;s n&#227;o se afogou em orgulho. Posso dizer que invejo esses a&#237;. E a inveja, a contrassenso, &#233; um algo bom. Inveja &#233; coisa da arte, mas nunca do cora&#231;&#227;o. L&#225; s&#243; existe amor e rever&#234;ncia. S&#227;o esses caras que me nutrem enquanto leitor e os invejo enquanto escritor. O resto &#233; coisa do cora&#231;&#227;o, &#233; coisa pr&#243;pria. J&#225; argumentei isso, n&#8217;O Pit&#225;.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a></p><p style="text-align: justify;">&#185;&#179; No fim, o que quis dizer aqui &#233; que o resto &#233; o &#250;nico ve&#237;culo poss&#237;vel para transmitir o imut&#225;vel. Ou o mais cativante. &#201; como diz o santo padroeiro das m&#225;s bundas, Mano Brown:</p><p style="text-align: justify;">&#8212; At&#233; no lix&#227;o nasce fl&#244;&#8217;.</p><p style="text-align: justify;">Isso me faz sentido.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8308; Bom, n&#227;o quis que esta Cr&#244;nica ficasse truncada. &#201; uma Cr&#244;nica, porra, n&#227;o um artigo. Ademais, converso contigo, leitor. Converso porque &#233; a sensa&#231;&#227;o que tenho ao ler qualquer coisa. &#201; a solid&#227;o que move estas letras, mas somente a conversa &#8212; que imagino existir entre n&#243;s &#8212; &#233; que me faz escrev&#234;-las.</p><div><hr></div><p>11/jul./2026</p><p>Mogi das Cruzes, S.P.</p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><div class="digest-post-embed" data-attrs="{&quot;nodeId&quot;:&quot;bd045eea-0dc3-48c4-b7a2-1cf5224945dd&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;N&#227;o existe g&#234;nio sem que a imagina&#231;&#227;o lhe seja trai&#231;oeira. Tanto o romancista quanto o pintor absorvem a realidade do mesmo modo art&#237;stico, embora a contagiem com as sensibilidades pr&#243;prias da imagina&#231;&#227;o. Obviamente, o fruto de cada obra sempre ser&#225; uma fic&#231;&#227;o, isto &#233;, algo que n&#227;o condiz exatamente com a coisa concreta. O que resta &#233; que toda experi&#234;nc&#8230;&quot;,&quot;cta&quot;:null,&quot;showBylines&quot;:true,&quot;showDescription&quot;:true,&quot;showImage&quot;:true,&quot;size&quot;:&quot;lg&quot;,&quot;isEditorNode&quot;:true,&quot;title&quot;:&quot;Impropriedades do artista&quot;,&quot;publishedBylines&quot;:[{&quot;id&quot;:429920081,&quot;name&quot;:&quot;T. L.&quot;,&quot;bio&quot;:&quot;Apenas um exame constante da consci&#234;ncia art&#237;stica. 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E o pior era que n&#227;o era eu e Gord&#227;o os aliciadores ali; pelo contr&#225;rio: n&#243;s &#233;ramos os aliciados &#8212; por crian&#231;as!"]]></description><link>https://tlferreira.substack.com/p/as-criancas-cresceram</link><guid isPermaLink="false">https://tlferreira.substack.com/p/as-criancas-cresceram</guid><dc:creator><![CDATA[T. L. Ferreira]]></dc:creator><pubDate>Tue, 07 Jul 2026 18:23:57 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/d6307ece-380d-4386-9063-e7ea38fded16_736x981.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">&#185; Sexta-feira. J&#225; eram dez da noite. Porra nenhuma pra fazer. Eu e meu amigo Gord&#227;o est&#225;vamos na feira do condom&#237;nio. Ficamos l&#225; por meia-hora. Tempo de comer alguns past&#233;is, beber um chope, fumar um cachimbo alien&#237;gena e, por fim, comer um hamb&#250;rguer. Convers&#225;vamos.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; A&#237;! &#8212; o Gord&#227;o come&#231;a. &#8212; Vamos encontrar o teu irm&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Bora.</p><p style="text-align: justify;">&#178; Pegamos o carro. Sentei-me ao volante e comi o restante do hamb&#250;rguer. N&#227;o sab&#237;amos onde estaria meu irm&#227;o naquela noite.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Liga pra ele &#8212; sugere. &#8212; Descubra onde ele est&#225;.</p><p style="text-align: justify;">Fa&#231;o isso. Ligo para Pepe, meu irm&#227;o. Converso e desligo.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Est&#225; no outro condom&#237;nio &#8212; eu digo &#8212;, perto do lago, ao lado do restaurante. Falou para irmos &#8220;j&#225;, j&#225;&#8221;.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; &#8220;J&#225;, j&#225;&#8221;, o caralho. Vamos agora ver o que ele apronta.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; J&#225; &#233;, bora l&#225;.</p><p style="text-align: justify;">&#179; Dei partida no carro. A boa e velha <em>Tucson</em>. Botamos <em>Jinjer</em> pra tocar no r&#225;dio &#8212; no talo. <em>Wallflower</em>, a m&#250;sica. Gord&#227;o recheou a fila do <em>Spotify</em> com <em>Green Serpent</em>, <em>Du&#233;l</em> e <em>Outlander</em>. Somos apaixonados pela vocalista, Tatiana. A deusa, a musa, que mulher da porra. Gostamos disso, de metal extremo e de belas e talentosas mulheres. Arranquei. Acelerei com a mesma viol&#234;ncia do refr&#227;o: oitenta numa avenida de trinta ao som de &#8220;<em>I never asked to be here</em>; <em>I hated that from the beginning</em>; <em>Turning molehills into mountains; I feel the pressure building</em>.&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a></p><p style="text-align: justify;">&#8308; Devo ser meio perturbado. Dirijo sem seguran&#231;a alguma.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a> Detestaria saber que passei por cima d'um gato. &#201; um bicho muito filho da puta, sim, mas continua sendo bicho. E eu gosto de bichos. N&#227;o mato nem mosca, imagina um gato. Sou amigo dos animais. N&#227;o me perdoaria se matasse um atropelado.</p><p style="text-align: justify;">&#8309; Chegamos no outro condom&#237;nio. Descemos uma avenida cheia de lombadas, isto &#233;, n&#227;o dava para acelerar. Ao final da avenida, tomamos &#224; direita numa rua de terra e bem escura. Contornamos o lago. Lago escuro, imenso, referto de til&#225;pia, sapos, patos e capivaras. Toda aquela por&#231;&#227;o de &#225;gua estava envolta em grandes &#225;rvores; e as casas iluminadas, capeadas entre as colinas. Ningu&#233;m nos veria naquele lago sen&#227;o quem estivesse por l&#225;.</p><p style="text-align: justify;">&#8310; L&#225; estava o restaurante. Descemos o carro. Tchau, <em>Jinjer</em>!</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Cad&#234; esse moleque? &#8212; silaba Gord&#227;o. Veio dormindo no caminho.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Disse que estaria aqui. Vam&#8217; procur&#225;-lo.</p><p style="text-align: justify;">&#8311; Come&#231;amos a andar. Havia uma churrasqueira iluminada ali perto. Havia o lago, o restaurante, um campo de futebol, a churrasqueira, um sal&#227;o de festas e um grande espa&#231;o verde. Tudo escondido na escurid&#227;o da noite e refugiado entre as &#225;rvores. Pelo o que notamos, tinham dois grupos: um dos adolescentes, espalhados em todos os cantos; e outro, da macacada mais velha, na churrasqueira. Chuto que este &#250;ltimo girava em torno de vinte a vinte e cinco anos. Gord&#227;o pareceu n&#227;o gostar da m&#250;sica do grupo mais velho.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Oh, louco. Essa m&#250;sica me persegue.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Que m&#250;sica &#233; essa?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Sei l&#225;, mas sempre toca perto de mim. &#201; o Pepe ali?</p><p style="text-align: justify;">&#8312; Olho. Um pequeno bra&#231;o do grupo adolescente andava na rua de terra. Meu irm&#227;o estava l&#225;. Havia um outro moleque com ele e duas meninas.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Pepe!</p><p style="text-align: justify;">Pepe olha. Notei ele meio enrustido.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; E a&#237;? De boa? &#8212; e cumprimentei meu irm&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; De boa, sim &#8212; ele responde. &#8212; &#201; o Gord&#227;o ali?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; <em>El Pepe</em>! &#8212; grita Gord&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Gord&#227;o! &#8212; Grita Pepe.</p><p style="text-align: justify;">Ambos trocaram um caloroso abra&#231;o. Dois loucos se trombando d&#225; nisso.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; O que voc&#234;s vieram fazer aqui? &#8212; pergunta Pepe.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Te encontrar. N&#227;o t&#237;nhamos o que fazer &#8212; Gord&#227;o responde. &#8212; T&#225; aprontando o qu&#234;?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Nada&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; T&#225; bebendo, n&#233;? &#8212; Gord&#227;o pergunta com mal&#237;cia.</p><p style="text-align: justify;">A molecada ficou desconfort&#225;vel com a pergunta.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; &#201;&#8230;, ent&#227;o&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Relaxa &#8212; eu digo. &#8212; Tamb&#233;m viemos atr&#225;s de bebida.</p><p style="text-align: justify;">Meu irm&#227;o ri. A molecada parece ter se tranquilizado.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Vamos abrir o jogo, ent&#227;o: aqui t&#225; todo mundo bebendo.</p><p style="text-align: justify;">Uma das meninas nos revela um cop&#227;o de <em>vodka</em>, energ&#233;tico <em>Baly</em> e gelo. Entregou-nos.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Oh, louco! A&#237; sim!</p><p style="text-align: justify;">Foi o cop&#227;o mais broxante que nos foi entregue, mas aceitamos de bom grado. Reivindicamos e come&#231;amos a tomar.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Querem vir com a gente? &#8212; pergunta Pepe.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Tem mais bebida?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Porra, tem mais cinco garrafas de <em>vodka</em> com a gente.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Com certeza.</p><p style="text-align: justify;">&#8313; Acompanhamos Pepe. O grupo de adolescentes se concentrou perto do grupo adulto, que estava sentado &#224; uma grande mesa de madeira. Belas mulheres rindo e bebendo. Acho que erramos em ficar com os adolescentes.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8304; Cumprimentamos toda a molecada. Reconheci alguns rostinhos. O mais engra&#231;ado de tudo aquilo era que eu vi a maioria daquelas crian&#231;as crescer. Todas elas estavam fumando, bebendo e ouvindo funk. Algumas trocavam beijos sebosos atr&#225;s das &#225;rvores.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#185; Meu Deus. Eu conheci o baixo clero juvenil. Era <em>pod</em>, <em>askov</em>, <em>baly</em>, funk&#8230; Caralho. Catorze a dezesseis anos. E &#233; isto o que &#233; todos os finais de semana dessa mo&#231;ada: uma mistura sat&#226;nica de tudo o que &#233; proibido para menores de dezoito anos. Cad&#234; o joguinho na casa do amigo? Cad&#234; o futebol da tchurminha? Porra nenhuma. Aninha, de quinze anos, tinha sua boca violentamente invadida pela l&#237;ngua salivante de um marmanjo de dezesseis. Jo&#227;ozinho, de catorze, fumava <em>pod</em> com ess&#234;ncia de melancia. Gael, de dezesseis, andava de <em>BYD</em> <em>Dolphin</em> <em>Mini</em>, ouvindo funk no talo. Que porra &#233; essa? Puteiro infantil? &#201; a zona <em>kids</em>?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; E a&#237;, Tiago! Quer dar um trago?</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#178; Olho. Era um amigo do meu irm&#227;o. J&#225; lhe dei carona para casa algumas vezes. Tratava-se do g&#234;meo doido &#8212; o outro era um pouco mais. O guri media um e noventa de altura e tinha dezesseis anos.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; &#201; do que esse <em>vape</em>?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Morango.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; T&#244; tranquilo.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Certeza?</p><p style="text-align: justify;">Desembolsei o cachimbo do bolso. Gord&#227;o desembolsou o tabaco <em>Amsterdam</em>.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; A gente fuma isso aqui.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#179; G&#234;meo Doido ficou impressionado. Nunca vira, em toda a vida, um cachimbo e um tabaco. N&#227;o viveu o suficiente para tamanho <em>roots</em>. Achegaram-se mais crian&#231;as.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; &#201; um alien&#237;gena nesse cachimbo? &#8212; pergunta uma menininha.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; &#201; sim.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Segurando uma pedra? &#8212; pergunta outro pivete.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Uma pedra m&#225;gica!</p><p style="text-align: justify;">&#8212; E isso &#233; tabaco? &#8212; G&#234;meo Doido aponta para o <em>Amsterdam</em>.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; &#201;&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Quer dar um trago? &#8212; Gord&#227;o interrompe.</p><p style="text-align: justify;">Olho furtivo para Gord&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; T&#225; maluco, porra? &#8212; silabo. &#8212; Quer dar o tabaco pra crian&#231;a?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Olha s&#243; o tamanho desse guri, caralho. N&#227;o vai dar nada.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ainda &#233; crian&#231;a&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8308; G&#234;meo doido pegou o cachimbo da minha m&#227;o. Puta do caralho. Deu um trago. N&#227;o sabia tragar. Gord&#227;o ascendeu o tabaco. G&#234;meo Doido tragou outra vez. Vaporou e passou para uma menina. Vaporou. A menina passou para Pepe. Vaporou. Passou para um outro, que passou para um, dois, tr&#234;s&#8230; No fim, acho que mais de quinze crian&#231;as deram um trago no cachimbo antes de peg&#225;-lo novamente.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Qual o nome desse E.T.? &#8212; pergunta a menina.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Etevaldo &#8212; respondo.</p><p style="text-align: justify;">A menina olha para todo mundo.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; FUMAMOS O ETEVALDO!</p><p style="text-align: justify;">Todos comemoram. Olhei para Gord&#227;o. Divertia-se.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Se bater uns coxinhas aqui, estamos <em>fodidos</em>.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; U&#233;, por qu&#234;?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Caralho&#8230;, como assim &#8220;por qu&#234;&#8221;? &#8212; miro no fundo de seus olhos. &#8212; Somos os &#250;nicos adultos entre uma nesga infantil totalmente mamada.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Relaxa, cara. Essa molecada sabe o que faz. J&#225; tem idade pra isso &#8212; (olho espantado, quase desatando de rir). &#8212; E, outra: faz&#237;amos as mesmas coisas nessa idade, sen&#227;o pior.</p><p style="text-align: justify;">Fico pensativo.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; &#201; verdade.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8309; Infelizmente, verdade mesmo. H&#225; anos que ando com Gord&#227;o nos metendo nas piores frias. Acho que, sem exce&#231;&#227;o, minhas experi&#234;ncias quase-morte foram todas com ele: quase fomos sequestrados andando na Vila Mariana de madrugada; quase morremos atropelados na volta do show do <em>Iron Maiden</em>; j&#225; bebemos tanto que n&#227;o sab&#237;amos voltar para casa, e isso quase custou nossos cus&#8230;. Lembro de t&#234;-lo carregado para a minha casa quando fumou maconha pela primeira vez, mas isso fica pra outra hist&#243;ria.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8310; Na verdade, eu acho que n&#227;o tive tanto senso de consequ&#234;ncia na adolesc&#234;ncia. Aos quinze, fiquei b&#234;bado pela primeira vez, numa festa de uma amiga estupidamente rica. N&#227;o lembro de mais nada. A partir dessa idade comecei a beber &#8212; e muito. Toda a vez que encontrava-me com Gord&#227;o &#8212; isto &#233;, todos os finais de semana &#8212;, vir&#225;vamos, cada um, uma garrafa de <em>vodka</em> <em>Askov </em>inteira, geralmente com sabor de maracuj&#225;, quando n&#227;o pura misturada com <em>Coca-Cola</em>. Aos dezesseis anos, fiz minha primeira tatuagem: tr&#234;s caveiras na perna direita. Tatuagem imensa. Aos dezessete, fiz minha segunda: um ceifador na costela esquerda. Furei minhas orelhas algumas vezes, tamb&#233;m. J&#225; fui em v&#225;rios shows de metal, j&#225; andei perdido pela madrugada em tudo o que &#233; canto de S&#227;o Paulo, j&#225; fiquei preso na esta&#231;&#227;o de metr&#244; Para&#237;so, j&#225; dirigi sem carta, j&#225; tive frustra&#231;&#245;es com bocetas, j&#225; comi um cookie de maconha<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a>&#8230; &#201;, tenho vinte anos e um horroroso hist&#243;rico juvenil.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8311; Enfim, Pepe, b&#234;bado pra caralho, andou com o grupo at&#233; umas mesas com banquinhos. Todos se sentaram. Sentei com Gord&#227;o atr&#225;s da mesa principal. Pepe e seus amigos estavam fazendo cop&#245;es de <em>vodka</em> com energ&#233;tico.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Olha o gole pro santo!</p><p style="text-align: justify;">Derrubou a vodka no ch&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Olha o outro gole!</p><p style="text-align: justify;">Derrubou&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Os santos somos n&#243;s, caralho! &#8212; gritou Gord&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">De quatro garrafas de <em>vodka</em>, tr&#234;s foram pro santo.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Estamos fazendo a de voc&#234;s! &#8212; gritou um dos pivetes na mesa. &#8212; Enquanto isso, podem ir bebendo esta aqui.</p><p style="text-align: justify;">Nos entregou uma garrafa lacrada de <em>vodka</em>.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Oh, louco&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8312; Viramos aquela garrafa. Desenvolvemos uma resist&#234;ncia diab&#243;lica com &#225;lcool. A molecada nos viu virando aquela garrafa sem d&#243; nem piedade. N&#227;o acreditaram. Acendemos o Etevaldo e come&#231;amos a fumar. Notei que aquela crian&#231;ada estava nitidamente admirada com n&#243;s dois.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Querem quanto de energ&#233;tico?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Dois quintos&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Gelo?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Por favor.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Tomem aqui!</p><p style="text-align: justify;">A&#237;, sim! O cop&#227;o veio <em>perfeito</em>. Isso, sim, era cop&#227;o. Viramos.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Nossa, o teu irm&#227;o e o amigo dele viraram numa s&#243;!</p><p style="text-align: justify;">&#8212; &#201;&#8230;, os caras s&#227;o foda &#8212; respondeu Pepe.</p><p style="text-align: justify;">Alguns se levantaram.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Vou sentar na mesa dos adultos!</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Eu tamb&#233;m!</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8313; Estava tudo de errado naquele rol&#234;. E o pior era que n&#227;o era eu e Gord&#227;o os aliciadores ali; pelo contr&#225;rio: n&#243;s &#233;ramos os aliciados &#8212; por crian&#231;as! Uma nesga de crian&#231;a se acomodou conosco. Todos j&#225; mamados demais. Ent&#227;o, come&#231;aram a puxar o nosso saco.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ent&#227;o voc&#234;s tocam guitarra?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Isso a&#237; &#8212; confirma Gord&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; E tem uma banda&#8230;?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; <em>Yes, sir! </em>&#8212; eu respondo.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Sempre quis aprender viol&#227;o &#8212; intercala um garoto. Traga o <em>vape</em> de melancia. &#8212; Acho legal pra caramba&#8230;, tocar num grupinho, ao ar livre&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; &#201; legal demais, guri.</p><p style="text-align: justify;">O G&#234;meo Doido chegou com seu irm&#227;o, o G&#234;meo Mais Doido.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Eu jamais sairia na m&#227;o com voc&#234;! &#8212; disse o Doido, apontando pra mim.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Bom saber.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Voc&#234; luta <em>jiu-jitsu</em> muito bem! &#8212; intercala o Mais Doido. &#8212; O Pepe sempre chega arrebentado na aula.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; &#201; o esporte.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#8304; Eu e Pepe montamos um tatame na garagem de nossa casa. Sa&#237;mos na m&#227;o sempre que poss&#237;vel, isto &#233;, todo o dia. Antes, era s&#243; <em>jiu-jitsu</em>; o problema &#233; que deixou de s&#234;-lo quando passou a valer soco e chute. Ent&#227;o, come&#231;amos a sair esfolados de cada luta, ainda mais porque aquilo evolu&#237;a para briga de rua. Rolavamos entre socos e sangue para o asfalto da rua. Divertiamo-nos.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#185; Algumas horas poderiam ter se passado desde que chegamos l&#225;. J&#225; era uma da manh&#227; e eu j&#225; estava cansado. A partir da&#237;, fiquei meio monosil&#225;bico. Gord&#227;o ainda conversava com Pepe e  com uma parte do grupo que n&#227;o estava zanzando por a&#237;. Prestei aten&#231;&#227;o na conversa de Gord&#227;o com Pepe. Era sobre namoradas e ex-namoradas. N&#227;o sabia que meu irm&#227;o namorava.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Namorada &#233; foda &#8212; Pepe diz. &#8212; Temos v&#225;rios v&#237;deos juntos&#8230;</p><p style="text-align: justify;">Olhei intrigado.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Fodendo? &#8212; pergunta Gord&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Fodendo &#8212; ele confirma.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#178; Caralho, meu irm&#227;ozinho transa. O moleque t&#225; perdido. N&#227;o sei porqu&#234; aquilo me apavorou.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; E ela &#233; cat&#243;lica&#8230; &#8212; continua Pepe.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Crente do cu quente &#8212; desata de rir Gord&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Cat&#243;lica porra nenhuma &#8212; eu digo.</p><p style="text-align: justify;">Pepe ri.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#179; Um amigo dele se sentou ao seu lado. Come&#231;ou a cantar funk. Pepe se emendou na m&#250;sica. Quando acabaram, ambos se abra&#231;aram.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Voc&#234; &#233; meu irm&#227;o. Eu te amo &#8212; disse pro amigo.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Eu te amo.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#8308; S&#243; faltou se comerem. Pepe falava de um jeito muito diferente daquele que eu conhecia. N&#227;o parecia ele. Isso me incomodou um pouco porque, desde que eu o conhe&#231;o, ele nunca agiu daquele jeito. Falava como se soubesse de tudo, como se n&#227;o gostasse de n&#227;o saber de nada. Ria das coisas que n&#227;o entendia, perguntava do que n&#227;o lhe importava. E, o pior, era que tratava os amigos como irm&#227;os. Eu sou o irm&#227;o dele, caralho, pensei, e ele n&#227;o me trata assim (ainda bem). Ele cantava funk, quase chorando, pensando viver um momento m&#225;gico. Puxava o saco de todo mundo, parabenizava todo mundo. Era estranho porque nada daquilo parecia real. E, conhecendo Pepe, ele n&#227;o sabia o que fazia ali. Naquele momento, vislumbrei uma por&#231;&#227;o de nossas inf&#226;ncias. Fiquei calado enquanto era tratado como deus daquelas crian&#231;as.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Eu vi coisas demais &#8212; Pepe diz. &#8212; Eu evolu&#237;.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Acho que voc&#234; s&#243; deu um passo ao lado.</p><p style="text-align: justify;">Gord&#227;o olhou pra mim.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; T&#244; virado, mano. Vamos pra casa?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Bora &#8212; e olhei pra Pepe. &#8212; Estamos indo pra casa. Vamos?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Vamos. Consegue dar carona pra esses dois aqui? &#8212; disse apontando para dois amigos, mais loucos do que nunca.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Fechou&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#8309; Entramos todos no carro. Gord&#227;o ligou o r&#225;dio. <em>Outlander</em> estava tocando. Gord&#227;o aumentou no m&#225;ximo. Funk &#233; o caralho. Agora a molecada conheceria as drogas mais pesadas. Acelerei ao som de &#8220;<em>Am I floating down the river of insanity; Or becoming just another part of you?; I'll return, I'll come home where they wait for me; Where the nature reins the life but not you.</em>&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-4" href="#footnote-4" target="_self">4</a></p><p style="text-align: justify;">&#178;&#8310; Deixei os dois nas pr&#243;prias casas. Voltamos para meu condom&#237;nio, eu, Gord&#227;o e Pepe. Eu j&#225; estava virado. No dia seguinte, eu e Gord&#227;o descer&#237;amos a um est&#250;dio em C&#233;sar de Souza (um bairro em Mogi das Cruzes), para gravarmos algumas m&#250;sicas autorais. Dever&#237;amos compor naquela v&#233;spera, mas decidimos fazer o &#8220;total de nada com porra nenhuma.&#8221; Olha a merda que nos enfiamos. Ter&#237;amos cinco horas de sono.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#8311; Entramos em casa. Gord&#227;o apagou na minha cama. Puta do caralho. Fui tomar banho. Quando sa&#237;, fui dormir na sala. Sentia-me melhor com o banho. As coisas de Pepe estavam l&#225;, no bra&#231;o do sof&#225;, mas ele n&#227;o estava l&#225;. Ouvi um barulho vindo do lavabo.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Pepe? &#8212; digo, detr&#225;s da porta.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Oi&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#8312; Entro no lavabo. Pepe estava vomitando, e muito. Estava horr&#237;vel. Enfiava a m&#227;o na goela e vomitava. N&#227;o poderia sentir pena dele, mas senti um pouco. Oh, moleque burro. Na verdade, oh, fase burra. A adolesc&#234;ncia &#233; uma merda.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; &#201; ruim, n&#227;o &#233;? &#8212; digo.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; &#201;&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#8313; Voltei para o sof&#225;. Deitei-me e, instantaneamente, dormi. Queria esquecer-me daquela noite.</p><p style="text-align: justify;">&#179;&#8304; Amanheceu. Quando acordei, Gord&#227;o ainda dormia na minha cama. Acordei-o. Ele se levantou.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Que horas s&#227;o?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Dez.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Foda.</p><p style="text-align: justify;">&#179;&#185; Fomos tomar caf&#233; da manh&#227;. P&#227;o com ovo e suco de laranja. Meus pais estavam saindo de casa enquanto com&#237;amos. Despedi-me de minha m&#227;e.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; M&#227;e, vou pegar a <em>Tucson</em>, beleza? Vou com Gord&#227;o num est&#250;dio l&#225; na puta que pariu para gravar nossas m&#250;sicas. N&#227;o garanto que n&#227;o haver&#225; drogas. Beijo!</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Beijo, filho.</p><p style="text-align: justify;">&#179;&#178; Meus pais sa&#237;ram de casa. Pepe continuava dormindo. Mirei Gord&#227;o. Queria falar com ele da noite passada.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; N&#227;o gostei do que vi &#8212; come&#231;o.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; O que?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ontem, meu irm&#227;o, aquela galera.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Por qu&#234;?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Eu n&#227;o reconheci o Pepe. N&#227;o era ele.</p><p style="text-align: justify;">Ele matou o lanche. Mastigou olhando ao ch&#227;o. Tornou os olhos aos meus.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ele &#233; um s&#243; moleque entre oito bilh&#245;es de pessoas&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Oi?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ele &#233; uma pessoa! Ele pensa e faz. &#201; um indiv&#237;duo, como qualquer outro. Ele n&#227;o est&#225; preso a ningu&#233;m. Faz o que ele quiser.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; N&#227;o t&#244; falando da bebida, porra, nem do <em>vape</em>. Acho que era outra a coisa errada ali.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Tipo o qu&#234;?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Sei l&#225;&#8230;, s&#243; n&#227;o me pareceu natural...</p><p style="text-align: justify;">Gord&#227;o deu uma risada.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; N&#227;o viaja. &#201; perfeitamente <em>natural</em> um moleque de dezesseis anos se foder um pouco. &#201; a melhor fase da vida dele.</p><p style="text-align: justify;">&#179;&#179; N&#227;o gosto de ser calado. Fico puto. Mas me calei. N&#227;o achei argumenta&#231;&#227;o melhor para continuar. Mesmo assim, n&#227;o senti que Gord&#227;o entendeu o que quis dizer. E n&#243;s n&#227;o faz&#237;amos igual. Quando bebia com Gord&#227;o, era porque <em>eu</em> queria. Pepe parecia beber porque era o necess&#225;rio para ele estar ali. Seu jeito, sua atitude&#8230;: quem era ele? Eu n&#227;o conhecia aquele moleque.</p><p style="text-align: justify;">&#179;&#8308; Matei meu lanche e  bebi o resto do suco. N&#227;o olhei para Gord&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; As crian&#231;as cresceram.</p><p style="text-align: justify;">&#179;&#8309; Ele confirmou com a cabe&#231;a. Foi tudo o que eu consegui dizer.</p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p style="text-align: justify;"><a href="https://open.spotify.com/track/4LPGdROQexHAeBNxQHaTgO?si=7c7VqkvDQuqNYeCGQV6nTw">Wallflower, de Jinjer</a></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><div class="digest-post-embed" data-attrs="{&quot;nodeId&quot;:&quot;65f893b0-e90b-476f-850e-76273b65b70d&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&#185; Um dos meus passatempos favoritos &#233; pegar o carro &#224; noite e dirigir sozinho pela estrada, ouvindo um som e flertando com as ideias. Claro: n&#227;o &#233; um passatempo t&#227;o acess&#237;vel quanto parece. Eu precisaria de alguma raz&#227;o que me tirasse de casa e me colocasse na estrada. N&#227;o sou f&#227; de gastar gasosa &#224; toa, ainda mais num pa&#237;s onde o petez&#227;o consegue deixar&#8230;&quot;,&quot;cta&quot;:null,&quot;showBylines&quot;:true,&quot;showDescription&quot;:true,&quot;showImage&quot;:true,&quot;size&quot;:&quot;lg&quot;,&quot;isEditorNode&quot;:true,&quot;title&quot;:&quot;D&#234;-me um carro e eu falarei da vida&quot;,&quot;publishedBylines&quot;:[{&quot;id&quot;:429920081,&quot;name&quot;:&quot;T. L.&quot;,&quot;bio&quot;:&quot;Apenas um exame constante da consci&#234;ncia art&#237;stica. Um anti-her&#243;i da literatura.&quot;,&quot;photo_url&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/ddba4198-a5cc-4fca-9fc0-8c5cfa5c6d6a_678x878.png&quot;,&quot;is_guest&quot;:false,&quot;bestseller_tier&quot;:null}],&quot;post_date&quot;:&quot;2026-06-10T06:01:25.324Z&quot;,&quot;cover_image&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/774cf98d-af55-4091-bbee-2049046f38b0_734x431.jpeg&quot;,&quot;cover_image_alt&quot;:null,&quot;canonical_url&quot;:&quot;https://tlferreira.substack.com/p/de-me-um-carro-e-eu-falarei-da-vida&quot;,&quot;section_name&quot;:null,&quot;video_upload_id&quot;:null,&quot;id&quot;:201405180,&quot;type&quot;:&quot;newsletter&quot;,&quot;reaction_count&quot;:3,&quot;comment_count&quot;:0,&quot;publication_id&quot;:7421295,&quot;publication_name&quot;:&quot;O Mensageiro&quot;,&quot;publication_logo_url&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Z673!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6ef288ce-7209-4edd-bec8-fc62d45a7f5b_674x674.png&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;youtube_url&quot;:null,&quot;show_links&quot;:null,&quot;feed_url&quot;:null}"></div></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="#footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><div class="digest-post-embed" data-attrs="{&quot;nodeId&quot;:&quot;ba208c3b-b874-49eb-95cc-b80264b396e9&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&#185; Eu n&#227;o sei de onde, caralhos, esses dois moleques surgiram. Acho que um foi no ensino m&#233;dio; o outro eu n&#227;o fa&#231;o ideia. Esacu (i/za/c&#250;) estava sentado no banco da frente. Ele n&#227;o parava quieto. Sua eloquente manifesta&#231;&#227;o de ser agitava tudo, e eu nem conseguia ouvir a m&#250;sica. Descemos para abastecer o carro. Era uma sexta-feira &#224; noite um pouco agitad&#8230;&quot;,&quot;cta&quot;:null,&quot;showBylines&quot;:true,&quot;showDescription&quot;:true,&quot;showImage&quot;:true,&quot;size&quot;:&quot;lg&quot;,&quot;isEditorNode&quot;:true,&quot;title&quot;:&quot;Alien-do-caralho&quot;,&quot;publishedBylines&quot;:[{&quot;id&quot;:429920081,&quot;name&quot;:&quot;T. L.&quot;,&quot;bio&quot;:&quot;Apenas um exame constante da consci&#234;ncia art&#237;stica. 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N&#227;o deve saber a diferen&#231;a entre uma ma&#231;&#227; e uma boceta. Mas tava l&#225;, vivendo a vida. O gordo deve estar acostumado. Eu odiraria saber que me acostumei."]]></description><link>https://tlferreira.substack.com/p/mulheres-vol-2</link><guid isPermaLink="false">https://tlferreira.substack.com/p/mulheres-vol-2</guid><dc:creator><![CDATA[T. L. Ferreira]]></dc:creator><pubDate>Thu, 02 Jul 2026 20:27:06 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/07abd535-5039-440d-8139-08b860780a51_1536x2496.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">&#185; <em>Toda a proximidade pressup&#245;e certa dist&#226;ncia.</em></p><p style="text-align: justify;">&#178; N&#227;o &#233; segredo para meus fi&#233;is leitores a minha paix&#227;o irremedi&#225;vel pelo sexo feminino. Ou pelo g&#234;nero feminino. Ah, eu n&#227;o sei a diferen&#231;a. Nunca li um qu&#234; de sexologia ou papel de g&#234;nero, tampouco me &#233; familiar Simone de Beauvoir, Sartre e outros <em>put&#243;logos</em>. Ent&#227;o, n&#227;o vou palpitar sobre se gosto mais do <em>sexo feminino</em> que do <em>g&#234;nero feminino</em>, ou vice-versa. J&#225; &#233; certo que minha forma&#231;&#227;o intelectual decorre do baixo clero liter&#225;rio e de algumas verdades populares que ou&#231;o diariamente. N&#227;o precisamos de alvitres desnecess&#225;rios &#8212; n&#227;o hoje.</p><p style="text-align: justify;">&#179; O que quero dizer &#233; que gosto de <em>mulher</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a> &#8212; aquela que n&#227;o tem pinto. Sou apaixonado por mulher. Passei pro time boceta e me alegro muito em sentir menos tes&#227;o em <em>putaria</em> do que em <em>amar</em>. Isso quer dizer que, entre peito e bunda, eu prefiro o car&#225;ter.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Porra nenhuma! &#8212; ou&#231;o me dizer.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; &#201; s&#233;rio, agora eu sou crente.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; N&#227;o, n&#227;o &#233;. &#201; s&#243; um metido a bom samaritano.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ah, n&#227;o f&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Peito ou bunda? &#8212; interrompe-me.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; J&#225; disse que&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; PEITO OU BUNDA?!</p><p style="text-align: justify;">&#8212; BUNDA &#201; REGRA, PEITO &#201; BRINDE! E QUE SE FODA VOC&#202;!</p><p style="text-align: justify;">&#8308; &#201; assim mesmo. Pois bem, sempre me pego pensando em proclamar, com a for&#231;a do peito jovem, meu amor incorrig&#237;vel &#224; qualquer mulher que vier a me satisfazer as sedes da alma. Disporia a higidez de meu corpo apenas para t&#234;-la alegre e satisfeita neste mundo, sem que meus interesses viessem antecedendo os dela. E prov&#234;-la na ess&#234;ncia, am&#225;-la mais do que a pr&#243;pria vida, &#233; a miss&#227;o dada pelo Senhor que eu, alegremente, aceitei.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Gado! &#8212; ou&#231;o a ojeriza.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Corno manso!</p><p style="text-align: justify;">&#8212; T&#244; cagando &#8212; digo. &#8212; Sou amante de minha fausta ideia de amor.</p><p style="text-align: justify;">&#8309; Mas isso n&#227;o &#233; in&#233;dito. J&#225; disse tudo no primeiro volume. Por isso, conduzo esta cr&#244;nica com o novo, com a soturnidade masculina. E, apesar de ser o <em>Vol. 2</em>, acho que esta Cr&#244;nica &#233; mais sobre mim que sobre as mulheres. Comecemos.</p><p style="text-align: justify;">&#8310; L<span>embro-me de ter lido, certa vez, nalguma p&#225;gina solta pela imensid&#227;o do mundo liter&#225;rio, esta seguinte frase de Carl Jung (nunca li, tamb&#233;m, um m&#237;nimo a respeito de Carl Jung):</span><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a></p><div class="pullquote"><p style="text-align: justify;">&#8220;Se voc&#234; prestar aten&#231;&#227;o, ver&#225; que o homem mais masculino tem uma alma feminina, e a mulher mais feminina tem uma alma masculina.&#8221;</p></div><p style="text-align: justify;">&#8311; Se o sentido que eu lhe atribuo estiver correto, eu concordo com os dizeres. E, mesmo que o sentido atribu&#237;do esteja equivocado, isto &#233;, n&#227;o corresponda ao de Jung, foda-se. Sou um homem muito convencido das pr&#243;prias ideias.</p><p style="text-align: justify;">&#8312; Veja: eu gosto de me sentar com as pernas cruzadas e com o troco inclinado ao lado. Um jeito bem (<s>gay)</s> feminino de se sentar. Mas &#233; bom. &#201; libertador. Nenhum homem deveria ter vergonha de se sentar assim, cruzando as pernas. Vergonha &#233; coisa de (<s>afrescalhado)</s> macho rude. No mais, fa&#231;o <em>jiu-jitsu</em>. Faixa azul, quatro graus. &#201; uma putaria danada: &#8220;vamos rolar&#8221;, &#8220;fa&#231;a a pegada&#8221;, &#8220;saia da montada&#8221;, &#8220;fique de quatro apoios&#8221; etc. (aviso: a veadagem est&#225; na pessoa, n&#227;o no esporte). Tamb&#233;m gosto de <em>O Diabo Veste Prada</em>; sou f&#227; da Anne Hathaway e Emily Blunt. Eu, assistindo ao filme, n&#227;o penso &#8220;que bons exemplos de empodeiramento feminino&#8221;, mas sim &#8220;que mulher&#245;es da porra&#8221;. Trata-se do complexo feminino de minha alma, j&#225; que o homem mais masculino (eu, macho pra cacete) tem a alma feminina.</p><p style="text-align: justify;">&#8313; Nada disso &#233; mentira, mas &#233; claro que disse zombando. O sentido que eu atribuo &#224; frase de Carl Jung gira, em parte, em torno deste amor indiscreto e poderoso que tenho pelas mulheres. &#201; uma qualidade da alma feminina, sim, a melancolia, a paix&#227;o, mas que se percebe na personalidade masculina. Nem sempre o homem &#233; bruto; quando n&#227;o &#233;, &#233; porque sua animosidade feminina toma o controle. S&#227;o sensibilidades que h&#225; tanto femininas no homem quanto masculinas na mulher.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8304; No mais, &#233; a partir dessa melancolia tipicamente feminina que ouso me apaixonar por uma mulher. A paix&#227;o &#233; isso. &#201; feminina. E Deus sabe desse sentimento. Ele o fez, e o que Ele faz &#233; bom, e Ele fez os homens precisarem das mulheres como fez as mulheres precisarem dos homens. Ora, querendo ou n&#227;o, Deus nos criou incompletos. Por isso que temos essa paix&#227;o. &#201; a reciprocidade sexual que move o mundo; do contr&#225;rio, n&#227;o haveria sentido em haver pau e boceta. At&#233; onde eu sei, punheta e dedada n&#227;o reproduz. </p><p style="text-align: justify;">&#185;&#185; &#201; como se a alma masculina precisasse se encaixar noutra, numa diferente, estranha &#8212; a feminina. Como se ela precisasse de algo de que nunca esperou precisar, mas &#233; o mais necess&#225;rio para se continuar vivendo nesta Terra e, qui&#231;&#225;, na eternidade. O incompleto &#233; falho e terr&#237;vel. Agora, quando se chega l&#225;, na uni&#227;o humana, do homem com a mulher, e converge a alma nessa estranheza que &#233; o amor, jamais se desejaria novamente a incompletude. Eis o &#234;xito da cria&#231;&#227;o, talvez, que &#233; o acabado para sempre. Nunca deixarei de amar se um dia aprendi a amar. E, se na eternidade houver-me de reunir-me com Deus e com todos os que estiverem no Para&#237;so, se puder amar mais do que amo aqui, procurarei por isso com toda a for&#231;a do meu esp&#237;rito indom&#225;vel.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#178; Veja Nelson Rodrigues:<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a></p><div class="pullquote"><p style="text-align: justify;">&#8220;Mas, como ia dizendo, continuou o meu romance com L&#250;cia. Pouco a pouco, fui dizendo as coisas que s&#227;o tudo para mim: &#8212; &#8216;Todo amor &#233; eterno e, se acaba, n&#227;o era amor&#8217;. E dizia: &#8212; &#8216;Quem nunca desejou morrer com o ser amado n&#227;o amou, nem sabe o que &#233; amar&#8217;. As nossas conversas eram tristes, porque o amor nada tem a ver com a alegria e nada tem a ver com a felicidade. Quando nos casamos, eu lhe disse: &#8212; &#8216;Nem a morte &#233; a separa&#231;&#227;o&#8217;. Ela concordou que nada &#233; a separa&#231;&#227;o.&#8221;</p></div><p style="text-align: justify;">&#185;&#179; &#8220;<em>Nem a morte &#233; a separa&#231;&#227;o</em>&#8221;, e isso est&#225; correto. Aqui &#233; tudo um ensaio. Tudo &#233;, sen&#227;o artificial, uma realidade incompat&#237;vel ou insuficiente &#224;s nossas almas projetadas para a eternidade. Caralho, e se amar for, sim, artificial aqui &#8212; que j&#225; &#233; bom &#8212;, imagina &#8212; <em>imagina!</em> &#8212; como seria amar l&#225;! Pensemos, tamb&#233;m, na alma da mulher, onde somente l&#225; poderemos abocanh&#225;-las com amor pleno e felicidade ilimitada. &#201; de explodir o cora&#231;&#227;o de tes&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8308; Contudo, n&#227;o me houve, ainda, esse amor eterno, isto &#233;, o puro e simples amor. Comigo, tudo acabou e isso n&#227;o era amor. Era paix&#227;o, coisa passageira, coisa que acaba e morre. O contato com a alma da mulher aconteceu. Isso &#233; um fato consumado, sim, mas, creio eu, que foi ineficaz e, em parte, um desperd&#237;cio de virilidade. E, embora acreditei que enfim viveria esse amor, n&#227;o passou dessa expectativa. A &#250;ltima vez que isso me ocorreu, foi bem bosta.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; T&#225; assim por qu&#234;? &#8212; pergunta-me Violet Myers do meu celular. Desta vez &#233; Violet Myers.</p><p style="text-align: justify;">Batia punheta no banheiro. Caganheta (cagada com punheta).</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ah, sei l&#225; &#8212; digo-lhe &#8212;, hoje t&#225; meio sem gra&#231;a.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Oh, n&#227;o&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Por qu&#234;? Vai me dar serm&#227;o?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; N&#227;o, nada disso. &#201; outra mulher?</p><p style="text-align: justify;">Fixo meus olhos nos olhos dela. Nos olhos&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Acho que &#233;&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; &#201;&#8230; &#8212; Violet fica pensativa. &#8212; Isso &#233; paix&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Paix&#227;o?!</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Pois &#233;.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8309; N&#227;o acabei aquela punheta. Aprumei-me e limpei o bogas emaranhado em pentelhos e churilhos &amp; granfanhes. Violet Myers estava certa. Eu estava apaixonado por uma mulher. O problema &#233; que, infelizmente, nada pude fazer para que me amasse. &#192;s vezes, o acaso sorteia uns fodidos para que se apaixonem por um algu&#233;m que jamais corresponder&#225; ao sentimento. Eu sou um desses fodidos.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8310; Lembro-me de quando a vi pela primeira vez. Uma morena, cacheada e de cara invocada. Era madrugada, prestes a amanhecer. Esper&#225;vamos pelo &#244;nibus para S&#227;o Paulo. Ela parecia j&#225; fazer aquilo h&#225; muito mais tempo do que eu, de tomar aquele &#244;nibus pela manh&#227;. Para um mero pangu&#227;o que jamais pisara numa faculdade, v&#234;-la acostumada a esta minha futura realidade estranha, senti-me envergonhado. Era como se ela j&#225; corresse pelo mundo com total seguran&#231;a, enquanto eu s&#243; podia engatinhar. E, at&#233; aquele in&#237;cio de &#233;poca nova, ela nada me era sen&#227;o uma estranha passante com o mesmo destino que o meu. Pouco me importava o que faria no dia, o que pensava no momento ou seus planos para a vida. Ela estava t&#227;o aborrecida que me envergonhava de not&#225;-la mais que um breve olhar de soslaio: &#8220;Ah, &#233; ela&#8221;, e morria ali meus pensamentos sobre a estranha criatura que se achegava no ponto.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8311; Mas a ordem natural das coisas sempre agiu com bizarria, sobretudo a quem se atenta aos seus efeitos sobre o pr&#243;prio horizonte de consci&#234;ncia. Pois eu notei que, quanto mais eu a via, mais a particularizava. Sem que eu quisesse, ela me tomava espa&#231;os na mente que nem sequer lhe pertencia: o que antes eu a notava com indiferen&#231;a, passei a matut&#225;-la nas vezes em que estivesse fora do meu alcance sensorial. O que quero dizer &#233; que ela come&#231;ou a significar mais do que todos que aguardavam o &#244;nibus; depois, mais do que todos que cruzavam nosso mesmo caminho; e, por fim, mais do que qualquer um que cruzasse o meu somente.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8312; &#201; aquilo de Tolst&#243;i:<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-4" href="#footnote-4" target="_self">4</a></p><div class="pullquote"><p style="text-align: justify;">&#8220;Stepan Ark&#225;ditch sorriu. Conhecia tanto esse sentimento de Li&#243;vin, sabia que, para ele, todas as mo&#231;as do mundo se dividiam em duas categorias: uma categoria abrangia todas as mo&#231;as do mundo, salvo ela [Kitty], e eram mo&#231;as bem ordin&#225;rias e providas de todas as fraquezas humanas; a outra categoria inclu&#237;a apenas uma mo&#231;a, ela mesma, que n&#227;o tinha nenhum ponto fraco e estava acima de tudo quanto fosse humano.&#8221;</p></div><p style="text-align: justify;">&#185;&#8313; Aquela morena estava numa categoria t&#227;o acima de qualquer outra que, para mim, era at&#233; rude pensar que isso n&#227;o fosse um menosprezo contra todas as outras mulheres. Pois acho que minha queda &#233; por morenas. Tudo bem, tudo bem. Loira &#233; do caralho. Ruiva &#233; do caralho. Tem cada japa a&#237; que&#8230;, meu Deus. Mas todas as minhas paix&#245;es anteriores foram com morenas. N&#227;o sei porqu&#234;. Vai ver elas s&#227;o mais f&#225;ceis (v&#225; l&#225;, feminista, processe-me). Acho que a raz&#227;o disso &#233; meu brasileirismo rom&#226;ntico, que me move atr&#225;s de morenas (a tez brasileira!). Claro, &#233; obra da alma feminina, sim, as paixonites, mas s&#243; o brasileirismo rom&#226;ntico que me joga pra esses lados morenos da mulherada.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#8304; Ademais, o time boceta pressup&#245;e que n&#227;o h&#225; nada melhor do que a mulher, mas n&#227;o diz nada sobre certas prefer&#234;ncias. Quando eu me deparo com a <em>mademoiselle</em> daquele rostinho europeu, carinha de invocada, cabelos escuros, quando n&#227;o acastanhados pelo sol, e moreninha&#8230; <em>Ca-ra-lho</em>. Derreto-me todo. Fico completamente jururu.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#185; Pois bem: quando a paix&#227;o vem forte, n&#227;o h&#225; racionalidade que a segure. Foi na faculdade:</p><p style="text-align: justify;">&#8212; N&#227;o faz cara de bunda que hoje eu t&#244; cara de pau &#8212; diz-me um cachorro carente, amigo da faculdade.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; V&#225; se foder.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; T&#225; pensando no qu&#234;? &#8212; insiste ele &#8212; T&#225; quiet&#227;o a&#237;&#8230;</p><p style="text-align: justify;">Eu pensava nela.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Acho que t&#244; fodido no curso &#8212; respondo. Parecia-me menos vergonhoso.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Todos n&#243;s estamos.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#178; N&#227;o muito mais tarde, acidentalmente, descobri seu nome. Depois, para onde ia. Faz faculdade onde eu fa&#231;o. Nunca procurei saber dessas coisas; elas apenas me vieram. Mas, em se tratando daquela estranha, que dela nada eu queria, nada me importava, sequer me valesse mais que um peido no banho, eu acatei e guardei no cora&#231;&#227;o. Por qu&#234;? Bom, porque era dela que se tratava. Dela que fazia parte tudo isso. Comecei a colecionar na mem&#243;ria tudo aquilo que lhe correspondesse, sem que fosse atr&#225;s. Eu deixava as informa&#231;&#245;es virem. N&#227;o as esquecia. Esse passou a ser meu talento: virei um colecionador.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#179; Se tivesse, por&#233;m, esse talento para estudar, acho que seria um algu&#233;m com um futuro bem mais promissor.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#8308; Mas toda a boa hist&#243;ria tem seus momentos broxantes. Descer&#237;amos do &#244;nibus em instantes (&#224;s vezes, pegamos o mesmo bus&#227;o na volta). Est&#225;vamos de p&#233;; ela na minha frente. T&#227;o pr&#243;ximos est&#225;vamos, mesmo que entre a gente houvesse uma dist&#226;ncia imensa. Vejo que se segurava num dos assentos. Ent&#227;o, eu olhei &#224; sua m&#227;o direita, colorida com o mesmo vigor de seu rosto moreno. Vi uma alian&#231;a. Puta que pariu, caralho, pensei. Meu cora&#231;&#227;o se encheu de pavor e quase o vomitei pra fora.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#8309; Eis a&#237; o motivo do meu impedimento. A criatura namora. Como pode o amor da minha vida namorar? Puta merda. Eu cheguei atrasado demais? At&#233; tinha rezado a Deus pedindo que me unisse a ela. Pedi pro Santo Anjo tamb&#233;m. S&#243; n&#227;o fiz macumba porque essa porra n&#227;o funciona. Fazer o qu&#234;? Por um tempo, eu vim escondendo do mundo esse sentimento que h&#225; muito tempo tomara espa&#231;o no meu cora&#231;&#227;o. Escondi-o por vergonha, talvez; porque me sentia impotente diante dele. E agora isso j&#225; era certo.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#8310; A vida te coloca uma bomba no teu colo que, ou voc&#234; a enfia no cu e explode junto, ou a joga longe e que se foda o resto. Quase que eu explodi. </p><p style="text-align: justify;">Fui para a faculdade no dia seguinte.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; T&#225; borocox&#244; porqu&#234;, veado? &#8212; irrompe minha quietude obl&#237;qua o cachorro carente.</p><p style="text-align: justify;">Olho todo murcho pra ele.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; T&#244; manso, t&#244; castigado. T&#244; jururu.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Qu&#234;?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; A guria namora&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Que guria, caralho?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; N&#227;o vai me amar nunca&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Do qu&#234; que voc&#234; t&#225; falando?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; T&#225; acabado&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ah, foda-se.</p><p style="text-align: justify;">Cachorro carente toma seu rumo. Eu continuo l&#225;, todo mole. Senti-me sacaneado pelo acaso.</p><p style="text-align: justify;">Ainda ali, olhei para tr&#225;s. Vi um gordo suado e de barba malfeita. Que terr&#237;vel. Senti-me igual ao gordo: rejeitado antes mesmo de tentar qualquer coisa.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; &#201; isso a&#237;, gord&#227;o&#8230; &#8212; dirijo-me a ele. &#8212; Perdi dessa vez.</p><p style="text-align: justify;">Ele me olha com um olhar consolador e tristonho. Vi sua alma recheada de decep&#231;&#245;es e fandangos.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Eu nunca ganhei.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#8311; Coitado. N&#227;o deve saber a diferen&#231;a entre uma ma&#231;&#227; e uma boceta. Mas tava l&#225;, vivendo a vida. O gordo deve estar acostumado. Eu odiraria saber que me acostumei. Gosto do frio na barriga ao deparar-me com um mulher&#227;o da porra. &#201; engra&#231;ado. &#201; como sentir-se fora de si. Antes eu tinha medo, agora tenho vontade de rir. Por qu&#234;? Sabe-se l&#225; o porqu&#234;. Perdi dessa vez. A morena tem um macho pra ela. Fiquei sem a morena. Oh, cu. Mas, como eu a amo e sei que certos finalmentes n&#227;o terei com ela, desejo-lhe toda a felicidade do mundo. Pro cara, quero que ele se foda. N&#227;o, minto. Brincadeira. A ele apenas digo parab&#233;ns. Conseguiu. N&#227;o perca ela, jamais. Ela &#233; a santa no puteiro, o ouro na merda, o belo no feio&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#8312; <em>Ok!</em>, mas &#8220;<em>n&#243;is &#233; n&#243;is e o resto &#233; bosta</em>&#8221;, n&#227;o? N&#227;o d&#225; pra ficar jururu. &#201; partir pra outra. Vida que segue. O gordo suado que viva eternamente derrotado &#8212; eu, n&#227;o. N&#227;o nasci para ficar injuriado na cama. N&#227;o nasci para bater punheta &#224;s tardes porque, desta vez, a mui&#233; n&#227;o correspondia ao meu amor. Afinal, se eu decidi viver no <em>hardcore</em>, tendo pau e dedo, nenhuma boceta me mete medo (<em>Saulo, 15:16)</em>.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#8313; Um breve corte, apenas para aproveitar o <em>hype</em> do momento: tanto &#233; que tenho pau e dedo e nenhuma boceta me mete medo que, se fosse eu o protagonista de <em>Obsession</em> (2026), nada daquilo teria acontecido. Era madeira na Nikki e, se n&#227;o fosse nela, seria na Sarah. Porra, se fosse comigo, aquilo n&#227;o seria um filme de terror; seria uma com&#233;dia rom&#226;ntica. E, mesmo que, eventualmente, desse merda &#8212; como no caso do filme &#8212;, irm&#227;o&#8230; Aqui &#233; <em>jiu-jitsu</em>, faixa azul, quatro graus. Pode vir at&#233; o capeta que &#233; baiana nele.</p><p style="text-align: justify;">Ah&#8230;, se eu tivesse um &#8220;salgueiro dos desejos&#8221;, eu desejaria certos atributos&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ded&#233;! Ded&#233;! &#8212; grito &#224; porta de sua casa.</p><p style="text-align: justify;">Adianto: Ded&#233; &#233; um amigo do ensino m&#233;dio. &#201; um polaco meio nazista. &#201; f&#227; de mulheres tamb&#233;m, e de F&#243;rmula 1. Grandes cagadas foram confessadas a ele. Por isso que ele est&#225; aqui.</p><p style="text-align: justify;">Ded&#233; abre a porta.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Que merda, cara? O que deu em voc&#234;?</p><p style="text-align: justify;">Eu, puto da vida, segurando uma caixa de sapatos, adentro bruscamente a casa. Coloco a caixa na mesinha mais pr&#243;xima.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ded&#233;, me escuta! &#8212; come&#231;o, ofegante. Ando de um lado para o outro na sala. &#8212; Eu comprei uma coisa chamada "salgueiro dos desejos"..., e essa merda funciona, cara &#8212; finalizo em tom baixo e melanc&#243;lico.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Qu&#234;? Que porra de "salgueiro dos..."</p><p style="text-align: justify;">Irrompo Ded&#233;, segurando seus bra&#231;os com as m&#227;os suadas e tr&#234;mulas e fitando-o nos olhos, sem me desviar. Tiro o salgueiro quebrado do bolso.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Presta aten&#231;&#227;o: &#201; um artefato m&#237;stico. Veja &#8212; entrego-lhe o salgueiro &#8212;: se voc&#234; faz um desejo e o quebra, ele se realiza...</p><p style="text-align: justify;">&#8212; N&#227;o fode, Tiago...</p><p style="text-align: justify;">&#8212; N&#227;o fode voc&#234;! &#8212; grito. &#8212; O problema dessa coisa &#233; que ela &#233; absolutamente literal. E eu fiz merda, cara. Vacilei.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; T&#225;..., e o que voc&#234; desejou?</p><p style="text-align: justify;">Ded&#233; ainda n&#227;o parecia convencido. Pego a caixa.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Olha a&#237;.</p><p style="text-align: justify;">Empurro-lhe a caixa na mesa. Ele me olha, aborrecido. Abre a caixa.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Qu&#234; &#233; isso?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Um pintinho, caralho. O que mais seria?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; E o que isso tem a ver com o desejo?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ele mede quarenta cent&#237;metros.</p><p style="text-align: justify;">Ded&#233; me encara por alguns segundos, tentando escolher as palavras. N&#227;o precisou dizer nada.</p><p style="text-align: justify;">&#179;&#8304; Em certo momento da vida eu at&#233; pensei em escrever um poema, &#8220;<em>Ode a todas as mulheres pelas quais me apaixonei</em>&#8221;. Talvez um dia ele saia, porque &#233; impressionante a quantidade de vezes que me apaixonei na vida. Nem sempre &#233; correspondido. &#192;s vezes, rola um lingu&#227;o. O foda &#233; que nunca &#233; pra durar. Em algum momento acaba. As ideias n&#227;o batem. Acho que, por isso, de n&#227;o ser para sempre, que acabei n&#227;o me apaixonando tanto nos &#250;ltimos tempos. E, quando me apaixono, &#233; aquela coisa assustadora, como no caso da morena. Foi a &#250;ltima vez.</p><p style="text-align: justify;">&#179;&#185; Teve at&#233; uma garota da faculdade, uma (n&#227;o t&#227;o) g&#243;tica. J&#225; vi ela lendo Kafka. Tamb&#233;m tem cara de invocada. Ela parece muito comigo: meio emputecida com o mundo, meio discreta, rebelde&#8230; N&#227;o que eu seja, de fato, assim, mas eu parei com a s&#237;ndrome do bom menino. Gosto &#233; de coisa simples: ler, estudar (nem tanto), tocar guitarra, ouvir metal extremo, falar palavr&#227;o e, eventualmente, escrever alguma coisa. Enfim, eu parei de v&#234;-la com frequ&#234;ncia a partir de certo semestre. &#192;s vezes nos esbarramos. Ela me olha, eu olho ela, mas fica nisso. Um dia a&#237; eu puxo ela de canto e troco uma ideia. At&#233; l&#225;, vou vagando pelo mundo e pelo baixo clero liter&#225;rio, lendo e escrevendo sobre a vida.</p><p style="text-align: justify;">&#179;&#178; Talvez eu d&#234; uma recheada com outras mulheres, mas, como dito na &#250;ltima Cr&#244;nica, e, creio eu, fortalecido aqui, gosto de <em>amar</em>, gosto de deixar a alma de pau duro. Sair e dar uns beijos para quem pensa como eu &#233; sem gra&#231;a. Essa &#233;poca j&#225; foi. &#201; como querer apagar um fogo com um porrete. Acho at&#233; que isso objetifica a mulher. Ela foi feita pra ser amada, n&#227;o pra ser descartada ap&#243;s uma noite de sexo. Mulher n&#227;o &#233; consolo, porra.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ah &#8212; ou&#231;o me dizer &#8212;, mas voc&#234; colocou uma foto de uma atriz porn&#244; na capa desse <em>post</em>. Isso n&#227;o &#233; objetifica&#231;&#227;o da mulher?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; &#201;, mas eu sou meio incoerente. &#192;s vezes, inconsequente. Foda-se.</p><p style="text-align: justify;">&#179;&#179; A verdade &#233; que eu me cansei de coisa passageira. Cansei de ficar sendo consolado. Cansei das chorosas gozadas. Quero o para sempre. Quero o amor eterno dito por Nelson Rodrigues&#8230; Quero dar o regozijo &#224; minha alma feminina. Do contr&#225;rio, acho que n&#227;o fui feito para nada, sen&#227;o, especialmente, para este insuficiente e imperfeito mundo.</p><div><hr></div><p style="text-align: justify;">02/jul./2026</p><p style="text-align: justify;">Mogi das Cruzes, S.P.</p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><div class="digest-post-embed" data-attrs="{&quot;nodeId&quot;:&quot;6ba16e32-8bb1-4182-af32-e172214c12a6&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&#185; Estava sentado no trono dando uma cagada. Era no banheiro da faculdade. Mirei a porta da cabine: \&quot;bunda\&quot; estava liderando as vota&#231;&#245;es, com oito votos; \&quot;peito\&quot; perdia para \&quot;bunda\&quot; por uma ligeira diferen&#231;a de dois votos. \&quot;Car&#225;ter\&quot; nunca saiu da base com seu voto solit&#225;rio. Eu precisava me decidir e votar. A democracia exigia minha decis&#227;o.&quot;,&quot;cta&quot;:null,&quot;showBylines&quot;:true,&quot;showDescription&quot;:true,&quot;showImage&quot;:true,&quot;size&quot;:&quot;lg&quot;,&quot;isEditorNode&quot;:true,&quot;title&quot;:&quot;Mulheres&quot;,&quot;publishedBylines&quot;:[{&quot;id&quot;:429920081,&quot;name&quot;:&quot;T. L.&quot;,&quot;bio&quot;:&quot;Apenas um exame constante da consci&#234;ncia art&#237;stica. Um anti-her&#243;i da literatura.&quot;,&quot;photo_url&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/ddba4198-a5cc-4fca-9fc0-8c5cfa5c6d6a_678x878.png&quot;,&quot;is_guest&quot;:false,&quot;bestseller_tier&quot;:null}],&quot;post_date&quot;:&quot;2026-05-14T17:44:40.908Z&quot;,&quot;cover_image&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/c7fe7f00-abe0-4756-97a9-c95a619c9e8a_719x426.jpeg&quot;,&quot;cover_image_alt&quot;:null,&quot;canonical_url&quot;:&quot;https://tlferreira.substack.com/p/mulheres&quot;,&quot;section_name&quot;:null,&quot;video_upload_id&quot;:null,&quot;id&quot;:197710168,&quot;type&quot;:&quot;newsletter&quot;,&quot;reaction_count&quot;:27,&quot;comment_count&quot;:9,&quot;publication_id&quot;:7421295,&quot;publication_name&quot;:&quot;O Mensageiro&quot;,&quot;publication_logo_url&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Z673!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6ef288ce-7209-4edd-bec8-fc62d45a7f5b_674x674.png&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;youtube_url&quot;:null,&quot;show_links&quot;:null,&quot;feed_url&quot;:null}"></div></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p style="text-align: justify;"><a href="https://www.amazon.com.br/Livro-vermelho-Liber-C-G-Jung/dp/8532639755">O Livro Vermelho (Liber Novus), de Carl Jun</a>g</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="#footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p style="text-align: justify;"><a href="https://teatroemescala.com/wp-content/uploads/2021/06/a-menina-sem-estrela-nelson-rodrigues.pdf">Mem&#243;rias: A Menina sem Estrela, de Nelson Rodrigues</a></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-4" href="#footnote-anchor-4" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">4</a><div class="footnote-content"><p><a href="https://www.amazon.com.br/Anna-Kar%C3%AAnina-romance-oito-partes-ebook/dp/B08563YBXX">Anna Kar&#234;nina, de Leon Tolst&#243;i</a></p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O Pitá]]></title><description><![CDATA[Conto #004 | Conto em ep&#237;stolas.]]></description><link>https://tlferreira.substack.com/p/o-pita</link><guid isPermaLink="false">https://tlferreira.substack.com/p/o-pita</guid><dc:creator><![CDATA[T. L. Ferreira]]></dc:creator><pubDate>Mon, 22 Jun 2026 04:29:25 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/fa25cbe9-d241-419d-b1c2-4a65e2407818_735x818.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong>PREF&#193;CIO</strong></p><p></p><p style="text-align: justify;">Bl&#225;, bl&#225;, bl&#225;! N&#227;o sei escrever pref&#225;cios. Preferiria delegar esta fun&#231;&#227;o, se pudesse, mas n&#227;o h&#225; a quem eu possa deleg&#225;-la. Portanto, assim escrevo, assim fa&#231;o. Se n&#227;o quiser perder teu precioso tempo lendo um pref&#225;cio improvisado como este, pule logo ao conto.</p><p style="text-align: justify;">Trata-se de um conto em ep&#237;stolas ("cartas", aos desconhecidos do sin&#244;nimo). Naturalmente, escrevo uma porrada de merda, mas creio que, desta vez, n&#227;o ficou t&#227;o merda assim.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o, n&#227;o &#233; um <em>autopuxa-saquismo</em>. Sou puxa-saco, sim, mas n&#227;o de mim mesmo. Bom, veja: este conto, que, diferentemente dos outros e das cr&#244;nicas, merece um pref&#225;cio, est&#225; alegre e espiritual &#8212; e caracter&#237;stico de uma forma como eu costumo escrever: imitando.</p><p style="text-align: justify;">E ele surgiu a partir de duas coisas: inveja e n&#227;o-acontecimentos. Sou um invejoso, da pior esp&#233;cie, mas tento disfar&#231;ar. Ent&#227;o explorei a inveja (que n&#227;o &#233; nada mais do que a admira&#231;&#227;o dita com m&#225;s palavras), j&#225; que &#233; um sentimento recorrente no meu cora&#231;&#227;o e coisa que n&#227;o &#233; frequentemente dita com a for&#231;a do peito.</p><p style="text-align: justify;">Os n&#227;o-acontecimentos, por&#233;m, tratam de um apenas, que faria qualquer literato afetado (eu) se mijar de emo&#231;&#227;o caso tivesse ocorrido: um encontro de Tolst&#243;i com Dostoi&#233;vski. Apesar de os gigantes russos terem estado em um mesmo evento &#8212; a aula p&#250;blica do fil&#243;sofo Vlad&#237;mir Solovi&#243;v, em 1878 &#8212;, nunca se encontraram. Algumas farpas eram trocadas, sim, em jornais e depoimentos n&#227;o t&#227;o importantes, mas jamais diretamente. Por&#233;m, maior que todas as ozerijas somadas, maior que toda a apar&#234;ncia invejosa e rec&#237;proca, havia um amor simult&#226;neo, uma admira&#231;&#227;o inigual&#225;vel, entre dois homens que, oprimidos pelo mesmo mundo e pr&#243;ximos de qualquer outro ser b&#237;pede e falante, mantiveram-na (n&#227;o t&#227;o) escondida entre si.</p><p style="text-align: justify;">Tanto um precisava do outro que foi um dos acasos mais tristes e, consequentemente, mais po&#233;ticos n&#227;o termos uma hist&#243;ria em que ambos os autores apertassem as m&#227;os. Certamente, seria fascinante. Mas os acasos nos reservam coisas assim, e certas expectativas jamais se concretizar&#227;o &#8212; ao menos, n&#227;o nesta Terra.</p><p style="text-align: justify;">Com a morte de Dostoi&#233;vski, em 1881, &#233; claro que seu amado concorrente n&#227;o poderia se omitir. Uma carta<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a>, que deixo aqui para voc&#234;s lerem, foi escrita ao cr&#237;tico e correspondente de longa data de Tolst&#243;i, Nikolai Str&#225;khov; e todo aquele amor que mencionei p&#244;de ser contido na subst&#226;ncia da mensagem. E ela, sim, &#233; a raz&#227;o do meu conto, porque, &#224;s vezes, &#233; com a morte que conhecemos e damos valor a esse fen&#244;meno estranho que chamamos de vida.</p><p style="text-align: justify;">Bom, tenho a n&#237;tida certeza de que, hoje, sentados sobre os mantos que erguem o Para&#237;so, ambos trocam as t&#227;o desejadas palavras que deixaram de trocar aqui.</p><p style="text-align: justify;">Fiquem com a carta e, em seguida, o conto!</p><div class="callout-block" data-callout="true"><p style="text-align: right;"><em>"I&#225;snaia Poliana, 5-10(?) de fevereiro de 1881.</em></p><p style="text-align: justify;"></p><p style="text-align: justify;"><em>Recebi agora sua carta, caro Nikolai Nikol&#225;itch, e apressei-me em respond&#234;-la.</em></p><p style="text-align: justify;"><em>Naturalmente, refere-se &#224; minha carta.</em></p><p style="text-align: justify;"><em>Como eu gostaria de poder dizer tudo o que sinto a respeito de Dostoi&#233;vski. O senhor, ao descrever seu sentimento, expressou parte do meu. Eu nunca encontrei esse homem e nunca tive rela&#231;&#227;o direta com ele e, de repente, quando ele morreu, percebi que ele mesmo era a pessoa mais pr&#243;xima, querida e necess&#225;ria para mim. Eu era um escritor e os escritores s&#227;o todos vaidosos, invejosos, ao menos eu sou um escritor deste tipo. E nunca me veio &#224; mente comparar-me com ele, nunca. Tudo o que ele fez (&#233; bom, &#233; genu&#237;no o que ele fez), era de tal modo que, quanto mais ele fizesse, melhor era para mim. A arte causa-me inveja, a intelig&#234;ncia tamb&#233;m, mas o assunto do cora&#231;&#227;o causa-me apenas alegria. Eu o considerava tanto como meu amigo, e n&#227;o pensava outra coisa sen&#227;o que nos encontrar&#237;amos, e que agora apenas n&#227;o aconteceu, mas que isso era algo meu. E subitamente, na hora do jantar, eu jantava sozinho, atrasei-me, leio que ele morreu. De alguma forma o ponto de apoio foi arrancado de mim. Fiquei confuso, e depois se tornou claro como ele me era querido, at&#233; chorei e estou chorando agora.</em></p><p style="text-align: justify;"><em>Nos dias anteriores &#224; sua morte, li &#8216;Humilhados e ofendidos&#8217; e fiquei comovido.</em></p><p style="text-align: justify;"><em>No funeral, por intui&#231;&#227;o, eu sabia que, por mais que os jornais criticassem tudo isso, era um sentimento genu&#237;no.</em></p><p style="text-align: justify;"><em>O que acha da carta da esposa? Neste momento n&#227;o preciso de livros. Sou muito grato ao senhor. Abra&#231;o-o e amo o senhor de todo o cora&#231;&#227;o.</em></p><p style="text-align: right;"><em>Seu L. Tolst&#243;i.</em></p><p style="text-align: justify;"><em>Vass&#237;li Iv&#225;nitch sempre pede para transmitir-lhe seu amor e respeito."</em></p></div><div><hr></div><p style="text-align: center;"><strong>O PIT&#193;</strong></p><p style="text-align: center;"><strong>I</strong></p><p style="text-align: center;"><strong>Carta ao sr. Rodrigues</strong></p><p></p><p style="text-align: right;"><em>Setembro, S&#227;o Paulo.</em></p><p style="text-align: justify;">&#185; Corro com esta carta. Escrevo-a sobremaneira ligeiramente. Sabes que, quando se trata de coisas como essa, n&#227;o me valho de paci&#234;ncia; isto &#233;, perdoa-me a leviandade.</p><p style="text-align: justify;">&#178; Soube hoje, pela madrugada, da morte de Oscar. A not&#237;cia surpreendeu-me em meio &#224;s folias que venho tendo pelas noites, j&#225; que aproveito esta emenda de feriado descansando do jornalismo da <em>Gazeta</em>. Acompanhava-me Geni naquela rua onde havia <em>O Corcel</em>, que hoje n&#227;o tem mais esse nome &#8212; n&#227;o o lembro. Foi sarau de poesias. J&#225; ao final, encontra-nos R&#244;mulo, no seu conhecido estado afoito e infantil. Disse estar sem ar antes de nos cumprimentarmos. Antes que pudesse perguntar qualquer coisa, R&#244;mulo mirou e falou com aqueles poetas da Vila Mariana que, particularmente, vejo como a esp&#233;cie mais pern&#243;stica desta nossa fase da Literatura. Ap&#243;s isso, correu adentro do sarau e l&#225; sumiu por alguns minutos.</p><p style="text-align: justify;">&#179; &#201; claro que Geni me implorava para voltarmos para casa; sabes que, de todas as putas, essa mais me surpreende: medrosa &#233; quando se defronta com a madrugada. Deixei &#224;s favas! Interessava-me o assunto que empalidecia R&#244;mulo. Conheces-me: sou um curioso homem, um fen&#244;meno de interesse e intromiss&#227;o. Deixei que isso vencesse e entrei no sarau &#224; procura de R&#244;mulo. Puxei Geni comigo. &#201; f&#225;cil achar um gordo desses; ele estaria prestes a se afogar na bebida, mas intervi antes. Quando implorei que contasse, n&#227;o hesitou e desembuchou tudo: Oscar morreu nos teus bra&#231;os, na tua casa, rogando pela esposa ao lado. Disse que fora v&#237;tima de infarto, mas n&#227;o acreditei. Perguntei por que R&#244;mulo estivera na tua casa, e sua resposta apenas contradisse a premissa: n&#227;o estivera e soubera da morte por meios que n&#227;o me quis contar. N&#227;o insisti e parti do sarau para meu apartamento, aqui em Higien&#243;polis, com Geni. Estou dormindo com ela nos &#250;ltimos tempos.</p><p style="text-align: justify;">&#8308; A verdade &#233; que a morte de Oscar ainda me simula o sobrenatural, e prefiro mant&#234;-la nessas condi&#231;&#245;es. Como R&#244;mulo soube, n&#227;o sei, mas o mero maligno testemunho j&#225; me fora suficiente para endere&#231;ar-te a carta. Estranho &#233; ter morrido jovem, t&#227;o jovem.</p><p style="text-align: justify;">&#8309; Quero que saibas que nunca compadeci com Oscar: um verdadeiro canalha, palpiteiro e intrometido; embora saiba que ele te fora amigo, amigo do peito. Contudo, entendo que deva ser-te um sofrimento danado a perda de um amigo, em especial Oscar. Assim que receberes a carta, retorna a mim. Hei, ainda, de dar minhas condol&#234;ncias &#224; esposa: nem posso imaginar o que est&#225; sendo para a vi&#250;va. Sei que Oscar era um bom homem, sobretudo um bom marido, pois tanto amou que at&#233; me empalide&#231;o de tamanho cora&#231;&#227;o que carregava no peito. Olga deve estar sofrendo, e muito; eu sei disso.</p><p style="text-align: justify;">&#8310; Bom, n&#227;o quero ser injusto. Apesar de minhas impress&#245;es serem negativas contra o <em>de cujus</em>, trato de dizer que &#233; coisa minha e nada m&#250;tua. Comigo, Oscar sempre foi um bom homem e grande entusiasta de quaisquer esfor&#231;os meus, fossem liter&#225;rios, fossem profissionais etc. Sua canalhice &#233; pr&#243;pria da minha sensibilidade, que nota baixeza em tudo que lhe acomete.</p><p style="text-align: justify;">&#8311; &#201; isso, meu amigo. Sinto muito pela perda. Que Deus te aben&#231;oe e recepcione com muito amor a alma de Oscar no Para&#237;so.</p><p style="text-align: right;"><em>Seu amigo Venceslau.</em></p><div><hr></div><p style="text-align: center;"><strong>II</strong></p><p style="text-align: center;"><strong>Carta &#224; sra. K&#243;znycheva</strong></p><p></p><p style="text-align: right;"><em>Setembro, S&#227;o Paulo.</em></p><p style="text-align: justify;">&#185; Minha cara Olga.</p><p style="text-align: justify;">&#178; Preciso dizer que, antes de tudo, ofere&#231;o minhas condol&#234;ncias. N&#227;o posso imaginar a perda que te est&#225; sendo Oscar. Soube, nesta semana, por R&#244;mulo, no sarau, e empalideci com a not&#237;cia.</p><p style="text-align: justify;">&#179; Desde que conhe&#231;o Oscar, invejo sua intelig&#234;ncia art&#237;stica, sobretudo liter&#225;ria. &#201; demasiado perfeito no que faz e escreve, e n&#227;o tenho d&#250;vidas de que a ele confiaria quaisquer sugest&#245;es e conselhos sobre as minhas poesias e meus frustrados romances. Tenho a certeza de que fora um dos maridos mais amorosos e amados, e por ele preservo verdadeira admira&#231;&#227;o e amizade.</p><p style="text-align: justify;">&#8308; Um talento como esse n&#227;o s&#243; nos far&#225; falta, como tamb&#233;m deixar&#225; uma solid&#227;o que n&#227;o se calar&#225; nesta vida. Anseio, de cora&#231;&#227;o pesado, por uma pista de sua estadia na eternidade, e n&#227;o me censuro em dizer que tamb&#233;m sinto dolorosas saudades.</p><p style="text-align: justify;">&#8309; Desejo que descanses, Olga. Quando puderes, retorna esta carta. Abra&#231;os.</p><p style="text-align: right;"><em>Com amor, Venceslau.</em></p><div><hr></div><p style="text-align: center;"><strong>III</strong></p><p style="text-align: center;"><strong>Carta ao sr. Rodrigues</strong></p><p style="text-align: center;"><strong>(c&#243;pia da carta &#224; sra. K&#243;znycheva anexada)</strong></p><p></p><p style="text-align: right;"><em>Outubro, S&#227;o Paulo</em>.</p><div class="callout-block" data-callout="true"><p style="text-align: center;"><strong>II</strong></p><p style="text-align: center;"><strong>Carta &#224; sra. K&#243;znycheva</strong></p><p style="text-align: justify;"></p><p style="text-align: right;"><em>Setembro, S&#227;o Paulo.</em></p><p style="text-align: justify;">&#185; Minha cara Olga.</p><p style="text-align: justify;">&#178; Preciso dizer que, antes de tudo, ofere&#231;o minhas condol&#234;ncias. N&#227;o posso imaginar a perda que te est&#225; sendo Oscar. Soube, nesta semana, por R&#244;mulo, no sarau, e empalideci com a not&#237;cia.</p><p style="text-align: justify;">[&#8230;]</p></div><p style="text-align: justify;">&#185; Porra nenhuma! Ah, que indec&#234;ncia a minha; apenas v&#234; como sou prudente&#8230;: mal sabe Olga deste meu lado. Contigo, meu amigo, n&#227;o escondo minha honestidade: n&#227;o gosto, nunca gostei, qui&#231;&#225; venha a consider&#225;-lo importante; Oscar &#233; um vigarista conselheiro que jamais me far&#225; falta. Preciso, obviamente, manter minha postura ajuizada e discreta sobre sua morte, sobretudo quando diante da vi&#250;va. Contigo, n&#227;o. Um dia, por&#233;m, se for de teu interesse, hei de revelar os motivos simples da minha avers&#227;o a Oscar; n&#227;o hoje.</p><p style="text-align: justify;">&#178; Ademais, surpreendeu-me uma not&#237;cia um tanto mais curiosa, apenas para evitar meus desabafos sobre Oscar: Geni renunciou &#224; vida de prostituta, e o fez desde que come&#231;amos a nos encontrar. Disse-me que se cansara de trabalhar de madrugada e esteve oscilando entre a vida liter&#225;ria e a acad&#234;mica. Pensa em cursar Direito e, apenas por isso, j&#225; desembuchou seus alvitres sobre minha personalidade irreverente, a qual n&#227;o evito em momento algum. &#212;, puta chata, mas nem por isso deixa de ser a mulher mais linda que j&#225; vi. &#201; coisa, tamb&#233;m, que posso ignorar; claro, &#233; sua infantilidade.</p><p style="text-align: justify;">&#179; Contudo, esquece tu desta minha ojeriza e inimizade para com Oscar. &#201; algo que n&#227;o escapa ao meu particular. S&#243; digo isso ao senhor porque em ti confio esta minha apar&#234;ncia. Sei que sou bruto com as palavras, e sei que isso pode ser-te desgostoso, mas me conheces.</p><p style="text-align: justify;">&#8308; Encontra-me, tu, Rodrigues, n&#8217;<em>O</em> <em>Pit&#225;</em> (lembrei-me: o novo nome d&#8217;<em>O Corcel</em>), amanh&#227;, &#224;s vinte e duas.</p><p>&#8309; Abra&#231;os.</p><p style="text-align: right;"><em>Seu amigo, Venceslau.</em></p><div><hr></div><p style="text-align: center;"><strong>IV</strong></p><p style="text-align: center;"><strong>Carta ao sr. Rodrigues</strong></p><p></p><p style="text-align: right;"><em>Outubro, S&#227;o Paulo.</em></p><p style="text-align: justify;">&#185; Ponderei nossa conversa n&#8217;<em>O Pit&#225;</em>. Acho v&#225;lido expor minhas conclus&#245;es nesta carta, ainda mais quando estou empachado pela calma e prud&#234;ncia argumentativa. Quero dizer com isso que Geni dormiu, finalmente. A madrugada &#233; minha para conduzir nosso "debate".</p><p style="text-align: justify;">&#178; No alvorecer deste s&#233;culo, presumo que n&#227;o haja mais o que se possa explorar na nossa t&#227;o amada Literatura. Somos como os cientistas, que esgotaram do imagin&#225;rio humano as respostas metaf&#237;sicas e irracionais da nossa exist&#234;ncia. A Literatura &#233; como um Cristo, mas morto pelos pr&#243;prios crist&#227;os, por n&#227;o satisfazer &#8212; ou contrariar, melhor dizendo &#8212; o que a ci&#234;ncia lhe impugna. Acho eu que estamos num limite inultrapass&#225;vel, reflexo da nossa demasiada sede por originalidade; e o medo do fracasso j&#225; n&#227;o &#233; mais o nosso fantasma, j&#225; que nada mais pode ser original.</p><p style="text-align: justify;">&#179; Outrora, questionei-me do porqu&#234; de insistirmos em agradar a uma m&#227;e morta, seja ela a nossa Literatura. A resposta que elaborei foi-me l&#243;gica e, em toda parte, prudente: insistimos na Literatura porque ainda n&#227;o nos satisfizemos com o horizonte da consci&#234;ncia destes &#250;ltimos s&#233;culos, e os que vir&#227;o poder&#227;o ter homens que se esquecer&#227;o da nossa gl&#243;ria aqui.</p><p style="text-align: justify;">&#8308; Quero dizer que, onde quer que se olhe, encontramos algu&#233;m confiado no sucesso de seu ineditismo, e que se esquece de onde veio a fonte de suas ideias. Esse confiado, portanto, re&#250;ne coisas c&#225; e acol&#225;, espanta-se com a originalidade e...<em>!</em>, melindra-se com a cr&#237;tica. Mas &#233; aqui que est&#225; a chave!</p><p style="text-align: justify;">&#8309; Esse nosso cordeiro mune-se das "artes liberais", suscita o esp&#237;rito do escritor, vale-se da filosofia, cria sua obra, parteja e assassina suas personagens, faz tudo ocorrer como antes; enfim, tudo isso porque n&#227;o se alegra com o nosso horizonte de consci&#234;ncia.</p><p style="text-align: justify;">&#8310; Veja tu! Basta aten&#231;&#227;o e nada mais! Toda a nossa Literatura acabou no s&#233;culo passado. N&#243;s somente a remoemos e lhe damos outra perspectiva para se mostrar &#8212; nada que n&#227;o fosse um novo rosto. Tornamo-la uma fran&#231;a, e t&#227;o somente uma. E os s&#233;culos que vir&#227;o ser&#227;o somente isto: escritores afetados que jamais atingir&#227;o a originalidade, remoendo a Literatura e suscitando os cl&#225;ssicos para faz&#234;-los ecoar por mais tempo.</p><p style="text-align: justify;">&#8311; Em resumo, caro amigo, apenas escrevemos porque somos como esses afetados; e, mesmo que saibamos disso, n&#227;o queremos enterrar, nesta gera&#231;&#227;o, nossa m&#227;e Literatura. Sabes que fui como um desses cordeiros, em especial um que se achou capaz de ser como Tolst&#243;i ou Balzac,  Baudelaire ou Cam&#245;es. A &#250;nica coisa de que me alegro &#233; poder ter sabido disso tudo. N&#227;o acredito que tu discordes.</p><p style="text-align: justify;">&#8312; Ainda, v&#234;: Oscar entendeu mal a Literatura. (Perdoa-me dizer-te sobre Oscar outra vez, mas julgo necess&#225;rio). A verdade &#233; que ele morreu achando-se capaz de ser como Dostoi&#233;vski... &#8212; ou melhor, como Hemingway. Ele sabotou sua felicidade at&#233; a morte. N&#227;o h&#225; o que ele pudesse ter feito para desviar-se desse mal contempor&#226;neo. P&#244;de, talvez, n&#227;o prestar aten&#231;&#227;o nisso, j&#225; que &#233; um homem sobremaneira ing&#234;nuo para crer no fracasso de sua gera&#231;&#227;o. E n&#243;s &#8212; <em>ah!</em>, que coitadice a minha &#8212; compartilhamos dessa mesma gera&#231;&#227;o acabada &#8212; ainda mais n&#243;s dois: dois jornalistas e amantes da linguagem.</p><p style="text-align: justify;">&#8313; Para n&#227;o ser totalmente injusto, lembro uma vez que apresentara um conto meu a ele. Est&#225;vamos (<s>n'O Corcel</s>) n'<em>O Pit&#225;</em>. Era noite de s&#225;bado, fim de sarau. Ele veio a mim, alegre, e perguntou-me o que escrevia. N&#227;o respondi nada e simplesmente mirei &#224;s folhas na mesa. Ele logo as notou e pediu licen&#231;a para l&#234;-las. Sentou-se &#224; mesa comigo e, a cada ora&#231;&#227;o, cada palavra,  cada v&#237;rgula, percebia uma altera&#231;&#227;o. Eu me emputeci, claro: nunca gostei de palpiteiro; mas havia naquilo que dizia tantas verdades que meu aborrecimento passou a ser curiosidade. A fim de esclarecimento, o conto se tratava de um poeta b&#234;bado e detest&#225;vel, sem amigo algum, mas dono de um talento irremedi&#225;vel. Oscar deu-lhe a voz que lhe faltava, j&#225; que o percebeu monosil&#225;bico demais para um poeta. N&#227;o somente, fez-me amar a personagem, coisa que poucas vezes me ocorre quando escrevo. Ah, eu sei, eu sei&#8230;: tudo o que ele me orientou, eu acatei. Ele era bom no que fazia. Na verdade, nunca conheci ningu&#233;m melhor que ele. &#201; dif&#237;cil admitir isso quando o pr&#243;prio esp&#237;rito &#233; um fluxo intermin&#225;vel de inveja. Mas, ultimamente, venho tendo esses esclarecimentos.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8304; No fundo, acho que sempre senti pena dele. Ele era talentoso demais para uma gera&#231;&#227;o pobre e vazia. Ningu&#233;m o reconheceria, sen&#227;o eu, silenciosamente.</p><p style="text-align: right;"><em>Com amor, seu amigo Venceslau.</em></p><div><hr></div><p style="text-align: center;"><strong>V</strong></p><p style="text-align: center;"><strong>Carta &#224; sra. K&#243;znycheva</strong></p><p></p><p style="text-align: right;"><em>Dezembro, S&#227;o Paulo.</em></p><p style="text-align: justify;">&#185; Cara Olga.</p><p style="text-align: justify;">&#178; Lamento que tenha descoberto minhas obje&#231;&#245;es contra teu falecido marido. A inveja &#233; coisa de literatos, sim, e n&#227;o passa dessa posi&#231;&#227;o. Mas creio, tamb&#233;m, que teu marido tenha tido disposi&#231;&#227;o equivalente para comigo; decerto, em vida, preservou not&#225;vel prud&#234;ncia em escond&#234;-la &#8212; inclusive de ti. N&#227;o quero que pessoalizes este mal: contra ti nada oponho.</p><p style="text-align: justify;">&#179; Presumi, certamente, que n&#227;o passasse de uma impress&#227;o tua silenciosa, at&#233; Geni te encontrar b&#234;bada, &#224; porta de meu apartamento, na madrugada de hoje. Nem sei como o porteiro te deixou passar&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#8308; Eu estava dormindo, desfalecido na cama ao lado de Geni, ap&#243;s um herc&#250;leo dia: acompanhei-a no vestibular para a faculdade de Direito, escrevi alguns poemas e adiantei algumas mat&#233;rias para <em>Gazeta</em>, enquanto esperava que terminasse a prova, l&#225; n&#8217;<em>O Pit&#225;</em>, e, quando chegamos em casa, decidi reorganizar toda a biblioteca. Foi-me sacro o descanso, e ca&#237; como pedra. N&#227;o notei que vieste aqui &#8212; e n&#227;o notaria nesse hor&#225;rio, de qualquer forma.</p><p style="text-align: justify;">&#8309; Foi ent&#227;o que Geni me acordou, um pouco antes do amanhecer. Disse que te ouviu chorando &#224; porta da minha casa, silabando coisas como: &#8220;<em>Maldito, verme</em>&#8221;; &#8220;<em>onfende a mim e &#224; mem&#243;ria de meu marido.</em>&#8221; Tu parecias embriagada, como me foi dito, at&#233; porque carregavas contigo, na bolsa, uma garrafa de <em>vodka</em>, como Geni percebeu. Notou ela, tamb&#233;m, o forte cheiro de tabaco que te acompanhava. Diz Geni que tentou acalmar-te, mas que foi surpreendida de repente. Tu investiste contra ela, gritando: "<em>Vou mat&#225;-lo</em>"; "<em>N&#227;o pode desrespeitar a honra do meu marido, como anda fazendo!</em>"; "<em>Queim&#225;-lo-ei vivo enquanto dorme!</em>". Ora, at&#233; duvidei disso: estive t&#227;o aborrecido na v&#233;spera que nem mesmo pude notar a algazarra.</p><p style="text-align: justify;">&#8310; Mas eis que Geni convenceu-te, de algum modo que n&#227;o quis me contar, a desistir da investida contra mim. Entregou-te um ch&#225; que preparou e conversou contigo &#8212; tudo enquanto eu dormia! Espero que tenha tido &#234;xito, porque Geni descobriu que investiste contra R&#244;mulo tamb&#233;m, pelos mesmos motivos de inimizades. V&#234;: surpreende-me que R&#244;mulo tivesse problemas convosco (tu e Oscar), ainda mais devendo-vos, ao menos, uma inconveniente quantia emprestada. Mas isso n&#227;o entra no caso e n&#227;o quero me inteirar.</p><p style="text-align: justify;">&#8311; Geni disse que te acompanhou at&#233; o ponto de t&#225;xi, aqui na esquina, n&#227;o muito depois de teres acabado o ch&#225;. Despedistes-te, e Geni voltou para c&#225;.</p><p style="text-align: justify;">&#8312; Eu lamento que eu tenha feito com que a senhora chegasse neste ponto. Eu n&#227;o posso dizer que imagino ou sinto a mesma dor que a senhora, porque, de fato, n&#227;o imagino nem sinto. Eu sei que a morte &#233; um fen&#244;meno inexplic&#225;vel; ainda mais quando abrupta e sem sentido. Oscar foi, sim, magn&#226;nimo, perfeito em muitos sentidos; e eu, sim, fui infeliz demais em trat&#225;-lo com desrespeito, sobretudo ap&#243;s sua morte. N&#227;o deveria t&#234;-lo menosprezado; n&#227;o quis que isso chegasse &#224; senhora.</p><p style="text-align: justify;">&#8313; Eu sinto muito que tenha descoberto. Pe&#231;o, genuinamente, o seu perd&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8304; Feliz Ano-Novo, cara Olga.</p><p style="text-align: right;"><em>Venceslau.</em></p><div><hr></div><p style="text-align: center;"><strong>VI</strong></p><p style="text-align: center;"><strong>Carta ao sr. Rodrigues</strong></p><p></p><p style="text-align: right;"><em>Janeiro, S&#227;o Paulo</em></p><p style="text-align: justify;">&#185; Ah, ah! Hoje te trago novidades! &#201; sobre Geni. Ah, meu Deus: estou t&#227;o empachado de orgulho e amor que nem sei como conduzir esta carta. Perdoa-me a pressa, caso a notes; ou a divaga&#231;&#227;o, se a sentires.</p><p style="text-align: justify;">&#178; Est&#225;vamos tomando caf&#233; da manh&#227;, na varanda, enquanto o sol nos banhava com seu calor <em>veranil-veranesco</em>. A leve brisa da noite decrescia em intensidade, abrindo espa&#231;o para o quente dia que fez hoje. Sem nuvens, sem ventanias. Um dia alegre, sobremodo confort&#225;vel e claro, ainda mais porque hoje &#233; uma bendita sexta-feira.</p><p style="text-align: justify;">&#179; De repente, a campainha toca. Geni imediatamente corre para a porta, dizendo: "<em>Eu vou!</em>" Ah, que mo&#231;a ador&#225;vel. Acompanhei-a com os olhos. &#201; tanto amor que sinto por Geni que at&#233; me esque&#231;o de seu passado putanhesco. N&#227;o faz muito que assumi meu amor por ela. Geni &#233; feminina, alegre, extrovertida, intrigante e apaixonada. Dei sorte de t&#234;-la apaixonada por mim &#8212; um raso homem com sua v&#227; filosofia e seu empreguinho de jornalista nas horas vagas.</p><p style="text-align: justify;">&#8308; N&#227;o demorou muito para que voltasse com uma carta nas m&#227;os, entregue pelo porteiro. Era da faculdade onde prestou o vestibular. Estava ansiosa, pesarosa, naturalmente invocada pelo receio de n&#227;o lhe ser a hora ou, como bem sabes, de ser-lhe a hora e, com um qu&#234; de anima&#231;&#227;o involunt&#225;ria da alma, aquela que mexe o corpo sem que este pe&#231;a por mover-se, ter de ir e acatar, determinada, a sua escolha.</p><p style="text-align: justify;">&#8309; Pois foi o que ela me disse, assim que abriu a carta: "<em>Venceslau! Eu te amo, te amo, te amo!</em>" Rapidamente, fui tomado pela sua mesma agita&#231;&#227;o. Estive apavorado. Qu&#234; passa com Geni?! Ela veio ao meu abra&#231;o. Sentou-se no meu colo e beijou-me, alegre. Notei sua n&#237;tida express&#227;o de gratid&#227;o, ao que quer que seja, estampada nos olhos r&#250;tilos, coloridos com a melhor das luzes. Seu sorriso belo e esbranqui&#231;ado, de orelha a orelha, comunicava-me o inevit&#225;vel amor de sua alma. Nunca estive t&#227;o apaixonado por Geni quanto naquele momento, e n&#227;o deslumbro futuro menor que aquele sorriso que, t&#227;o pr&#243;ximo dos meus l&#225;bios, professava, com a for&#231;a do peito feminino: "<em>Eu te amo.</em>"</p><p style="text-align: justify;">&#8310; Geni foi aprovada no vestibular, meu amigo! Ah, que felicidade dizer-te essa novidade, porque &#233;-me t&#227;o alegre comunic&#225;-la quanto foi ouvi-la de Geni. Orgulhoso estou dela. Em breve ser&#225; jurista; uma das melhores, tenho certeza, j&#225; que sua sensibilidade contagiante ganha tudo o que toca.</p><p style="text-align: justify;">&#8311; V&#234;, pois: trata-se de uma qualidade curiosa de Geni: &#224;s vezes, pequenas inclina&#231;&#245;es lhe surgem, discretamente, e, n&#227;o muito tempo depois, notamos que ela as abra&#231;ou com muito amor. &#201; o caso do Direito, como tamb&#233;m o da religi&#227;o. Anda pra l&#225; e pra c&#225;, orando, contando-me dos santos, da missa (pois v&#234; que Geni se meteu em missa!), de seu anseio pelas respostas divinas... Bom, religi&#227;o n&#227;o &#233; coisa para agora. Quero que saibas disto, meu amigo: da novidade de Geni.</p><p style="text-align: justify;">&#8312; Encontra-me amanh&#227;, &#224;s vinte, n'<em>O Pit&#225;</em>. Hei de perguntar-te muitas coisas, assim como quero compartilhar contigo outras tantas. Nem te conto de Olga K&#243;znycheva e do incidente da semana passada!</p><p style="text-align: justify;">&#8313; Amanh&#227;, amanh&#227;!</p><p style="text-align: right;"><em>Com amor, seu amigo Venceslau.</em></p><div><hr></div><p style="text-align: center;"><strong>VII</strong></p><p style="text-align: center;"><strong>Carta ao sr. Rodrigues</strong></p><p></p><p style="text-align: right;"><em>Janeiro, S&#227;o Paulo.</em></p><p style="text-align: justify;">&#185; Trata-se, naturalmente, da nossa conversa na v&#233;spera, n'<em>O Pit&#225;</em>. Intriga-me o senhor posicionar-se a favor de Olga. Eu tamb&#233;m me posiciono e compartilho dessa mesma opini&#227;o tua. Veja: como convencer-me da inconveni&#234;ncia que fora o incidente? Eu j&#225; o aceitei como uma consequ&#234;ncia direta da minha boca aberta. Ainda, sei que por ela o senhor nutre inigual&#225;vel respeito e n&#227;o sei como teria esclarecido o incidente de forma menos prudente: <em>ela insinuou me matar!</em>, foi o que eu disse, que, agora, discordo e arrependo-me dessa considera&#231;&#227;o. Ainda assim, o senhor perdoou-me e insistiu que devo desculpas a ela por <em>todas</em> as obje&#231;&#245;es particulares e p&#250;blicas que direcionei, indiretamente, a Oscar ao longo da vida, sobretudo ap&#243;s sua morte. Eu entendo que pedir-lhe perd&#227;o resolveria quaisquer inimizades (eu o pedi, mas n&#227;o imaginei que fosse t&#227;o chulo e pobre); sei que Oscar era profundamente cat&#243;lico, e Olga tamb&#233;m; e, com isso, meu pedido seria atendido. Mas estou receoso. Desde que Oscar partiu, tenho tido momentos estranhos e confusos, e tive sentimentos que n&#227;o imaginei ter. Sensibilizo-me, sim, e estou de acordo com a ordem misteriosa das coisas, mas venho escondendo, sobretudo do senhor, uma inclina&#231;&#227;o que, at&#233; mesmo para mim, &#233; intrigante e, desconfortavelmente, pesarosa.</p><p style="text-align: justify;">&#178; A verdade, caro amigo, &#233; que estou mais do que arrependido. Nunca disse isso a ningu&#233;m sen&#227;o a Geni, hoje, pela tarde. Ela lia (continua lendo) no sof&#225;. (Se posso vislumbrar o livro, &#233; da minha biblioteca. Acabei de v&#234;-lo: <em>Anna Kar&#234;nina</em>. Ah, que livro. Sempre amei Tolst&#243;i e tenho raz&#245;es maiores para am&#225;-lo. N&#227;o &#233; sempre que um g&#234;nio desembarca neste mundo.) Bom: ela lia. Acheguei-me a ela. Notei que Geni esbo&#231;ou um sorriso singelo, daqueles que n&#227;o se quer mostrar. Mas eu n&#227;o compartilhei o sorriso. Fiquei confuso, sobremodo irritado comigo mesmo, de cora&#231;&#227;o pesado. Ela sentava-se num dos lados do sof&#225;; sentei-me n&#8217;outro. Ela esticava as pernas sobre o estofado; eu me recuei e desviei os olhos, j&#225; chorosos, para a varanda vazia. Eu tinha tudo o que mais desejei, mesmo sem esperar t&#234;-lo. Mas faltava algo, e do&#237;a-me saber o que faltava. Era Oscar. Ah, Deus.</p><p style="text-align: justify;">&#179; Geni &#233; sens&#237;vel de um jeito pr&#243;prio. "<em>Que te passa</em>?", perguntou-me. Tornei aos seus olhos. Belos olhos: espelhavam uma alma inabarc&#225;vel, &#224; qual eu pudesse confiar minhas m&#225;goas. Tenho certeza de que ela reza por mim, porque &#233; minha intercessora neste mundo. Ela insistiu: "<em>Diga, o que te passa?</em>" Menosprezei a primeira inquiri&#231;&#227;o, mas acolhi a segunda. Ent&#227;o, meu amado amigo, desembuchei. Disse tudo: palavras que nunca imaginei dizer e que vou, insatisfatoriamente, com certeza, escrev&#234;-las aqui.</p><p style="text-align: justify;">&#8308; Eu nunca demonstrei apre&#231;o por Oscar, apesar de ele t&#234;-lo demonstrado por mim. N&#227;o foi rec&#237;proco, como se percebeu. De um lado, Oscar precisava de um amigo &#8212; eu &#8212;, enquanto eu me reservava cada vez mais &#224;s minhas pr&#243;prias ideias e n&#227;o lhe abria espa&#231;o em minha vida. Como bem sabes, sempre fui &#8212; e continuo sendo &#8212; este convencido. N&#227;o seria hoje, se n&#227;o fosse por Geni, que me voltaria contra minhas inclina&#231;&#245;es. Pois renunciei a este esp&#237;rito invejoso, embora tarde, tarde demais. O que nunca disse e que percebi escondido, soterrado por muitas mentiras que jurei a mim mesmo, l&#225; no cora&#231;&#227;o, era o amor que nutri por Oscar desde que o conheci, anos atr&#225;s. Ele sempre foi aquilo que desejei ser por toda a vida: sua escrita era intang&#237;vel, imposs&#237;vel de imitar, t&#227;o pr&#243;pria dele que eu, um invejoso, passei a odi&#225;-la por fora, embora chorasse e visse todos os meus desejos nela contidos. Lembra, tamb&#233;m, que, outrora, disse que vivemos num s&#233;culo limite para a Literatura: tudo j&#225; fora explorado e desenvolvido, e n&#227;o h&#225; mais originalidade. Eu menti, meu amigo. Disse porque Oscar contrariou tudo isso antes que eu pudesse desenvolver. Ele, sim, foi original; n&#227;o eu, que acabei por me entregar &#224; inveja.</p><p style="text-align: justify;">&#8309; O que quero dizer &#233; que ele estava t&#227;o pr&#243;ximo de mim, conhecia-me mais que qualquer outra pessoa, e eu (motivo de me aborrecer comigo mesmo) escondia-me em ofensas, ataques e menosprezos. Nunca transpareci esse amor guardado porque era orgulhoso demais para proferi-lo.</p><p style="text-align: justify;">&#8310; E agora que morreu, tudo o que consigo fazer &#233; elogi&#225;-lo. N&#227;o porque transpare&#231;a o que quer que seja transparecido, n&#227;o! Cristo, n&#227;o! Eu o elogio porque &#233; o que sempre tive medo de fazer. Eu o amo; sempre o amei! Essa &#233; a verdade. Ele foi o melhor amigo que escolhi desprezar. E hoje isso me machuca; ele me faz falta. &#201; aquela frase de Machado, n'<em>O Empr&#233;stimo</em>: &#8220;<em>Est&#225; morto: podemos elogi&#225;-lo &#224; vontade.</em>&#8221; N&#227;o &#233; nesse sentido que elogio-o; n&#227;o, e bem pelo contr&#225;rio, j&#225; que o que digo &#233; genu&#237;no, sincero (coisa que pouca habilidade tenho para dizer).</p><p style="text-align: justify;">&#8311; Tudo isso que disse aqui disse-o &#224; Geni. A diferen&#231;a, por&#233;m, &#233; que a ela chorei (choro agora) e com ela disse muito mais. Ela chorou tamb&#233;m. Abra&#231;ou-me, no final de tudo. Achei que acabara ali, mas Geni, subitamente, levou as m&#227;os ao meu rosto e aproximou os l&#225;bios dos meus. Desatou a chorar. N&#227;o entendi o que quis transparecer, at&#233; que falou, sobriamente: "<em>Quando acompanhei Olga ao ponto de t&#225;xi, ela me contou algo que eu deveria te dizer; e, agora, vendo que esta &#233; a melhor hora, digo-te: Olga me revelou que Oscar mencionou teu nome antes de morrer, e disse que te amava, que te perdoaria e que, do Para&#237;so, acenar-te-ia, caso Deus o permita.</em>"</p><p style="text-align: justify;">&#8312; Silabei imperceptivelmente; ent&#227;o chorei. Chorei como h&#225; muito n&#227;o chorava. Abracei Geni. A&#237; entendi, mais que qualquer outra coisa, porqu&#234; Olga investiu contra mim. Como me sinto mal. Sinto-me destru&#237;do, desamparado. Por que, Deus, permitiste que isso acontecesse? Farei uma ora&#231;&#227;o hoje. Pedirei perd&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">&#8313; Hoje estou muito cansado, mas escreverei &#224; Olga amanh&#227;. Ela me mandou uma carta, dizendo, em s&#237;ntese: &#8220;<em>Perdoe-me aquela noite. Estive embriagada. N&#227;o imaginei que eu sa&#237;sse do controle. Eu sinto muito e sinto por ter frustrado o sono de Geni. A ela sou muito grata, tamb&#233;m.</em>&#8221; Al&#233;m, eu disse, inicialmente, estar receoso de pedir-lhe perd&#227;o. Quero pedir de tudo o que fiz. O perd&#227;o, sim, &#233; coisa que precisa ser pedida, mas estou t&#227;o envergonhado... pelos motivos que j&#225; te disse. No mais, falarei com Geni. Ela me entendeu, e fico feliz com isso. Ainda, incentivou-me a falar com Olga.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8304; Obrigado por ouvir-me na v&#233;spera e por ler esta carta, meu amigo. &#201;s meu confidente.</p><p style="text-align: right;"><em>Com amor, seu amigo Venceslau.</em></p><div><hr></div><p style="text-align: center;"><strong>VIII</strong></p><p style="text-align: center;"><strong>Carta &#224; sra. K&#243;znycheva</strong></p><p></p><p style="text-align: right;"><em>Janeiro, S&#227;o Paulo.</em></p><p style="text-align: justify;">&#185; Cara Olga.</p><p style="text-align: justify;">&#178; Eu recebi sua carta. N&#227;o h&#225; o que eu tenha de perdoar. Quero come&#231;ar assim. Nunca fizeste nada contra mim ou contra Geni. Aquilo jamais aconteceu. Ademais, soube por Geni daquela madrugada, e, sabes, Geni n&#227;o parecia aborrecida, tampouco assustada, mas emp&#225;tica. &#201; empatia, portanto, o que sinto. Garanto: &#233; genu&#237;na, porque, minha cara, eu sei da minha culpa e covardia.</p><p style="text-align: justify;">&#179; Desculpe-me, desculpe-me. &#192;s vezes, sinto que come&#231;o truncado. Mas h&#225; raz&#227;o para isso, e diz&#234;-la &#233; um finalmente para minhas m&#225;goas, em especial dizer a ti. Estou envergonhado e arrependido, eis a verdade &#8212; e motivo de minha impropriedade. Bom, sabes disso.</p><p style="text-align: justify;">&#8308; No mais, serei simples: desculpe-me por tudo. Fui injusto contra ti e contra Oscar desde que os conhe&#231;o. Eu n&#227;o consigo me perdoar e n&#227;o esperaria que Oscar me perdoasse, mas como soube por Geni, ele me perdoou. Pe&#231;o o teu perd&#227;o; afinal, foste tu quem sofreu com minhas palavras chulas e posicionamento rid&#237;culo, infelizmente.</p><p style="text-align: justify;">&#8309; Que Deus me permita ser digno da amizade que Oscar me ofereceu.</p><p style="text-align: right;"><em>Com amor, Venceslau.</em></p><div><hr></div><p style="text-align: justify;">22/jun./2026</p><p style="text-align: justify;">Mogi das Cruzes, S.P.</p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p style="text-align: justify;"><a href="https://pt.linkedin.com/pulse/carta-de-tolst%C3%B3i-str%C3%A1khov-sobre-morte-dostoi%C3%A9vski-robson-ortlibas">Carta de Liev Tolst&#243;i a Nikolai Str&#225;khov, mencionando a morte de Fi&#243;dor Dostoi&#233;vski</a></p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Coração de santo]]></title><description><![CDATA[Poema #007]]></description><link>https://tlferreira.substack.com/p/coracao-de-santo</link><guid isPermaLink="false">https://tlferreira.substack.com/p/coracao-de-santo</guid><dc:creator><![CDATA[T. L. Ferreira]]></dc:creator><pubDate>Thu, 11 Jun 2026 04:15:45 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/5a71cded-b0f5-494d-b9f8-cd4335abbcf5_1805x871.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">&#8212; &#201; uma fatalidade! &#8212;
exclamou a mo&#231;a da
<em>trottoir</em>, que vira
tamanha maldade.

Atiraram num senhor,
homem bom, que
reagiu ao mal
de outro sem pudor.

A mo&#231;a, atordoada,
choramingou. Afinal,
tem ela <em>cora&#231;&#227;o de santo</em>:
a trag&#233;dia n&#227;o aguentou.

Pobre mo&#231;a, Senhor.
Fazei-a esquecer-se deste
dia e dessa dor.

Pobre mo&#231;a, Senhor.
Fazei-a esquecer-se
de quem amou.</pre></div><div><hr></div><p>11/jun./2026</p><p>Mogi das Cruzes, S.P.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Dê-me um carro e eu falarei da vida]]></title><description><![CDATA[Cr&#244;nica #014 | "Fodam-se os 'issos' e 'aquilos'. Eu estou aqui. Pode doer o que for, pode ser lastim&#225;vel ou at&#233; aterrorizante, mas eu aceitei. Eu fa&#231;o isso por toda a dor que escolhi viver."]]></description><link>https://tlferreira.substack.com/p/de-me-um-carro-e-eu-falarei-da-vida</link><guid isPermaLink="false">https://tlferreira.substack.com/p/de-me-um-carro-e-eu-falarei-da-vida</guid><dc:creator><![CDATA[T. L. Ferreira]]></dc:creator><pubDate>Wed, 10 Jun 2026 06:01:25 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/774cf98d-af55-4091-bbee-2049046f38b0_734x431.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">&#185; Um dos meus passatempos favoritos &#233; pegar o carro &#224; noite e dirigir sozinho pela estrada, ouvindo um som e flertando com as ideias. Claro: n&#227;o &#233; um passatempo t&#227;o acess&#237;vel quanto parece. Eu precisaria de alguma raz&#227;o que me tirasse de casa e me colocasse na estrada. N&#227;o sou f&#227; de gastar gasosa &#224; toa, ainda mais num pa&#237;s onde o petez&#227;o consegue deixar quinze litros da comum a cem pilas. Mas, quando me surge essa raz&#227;o, de ter de estar sozinho na estrada, a quil&#244;metros por hora, curtindo um som e refletindo sobre as coisas, entrego-me ao momento como se o amanh&#227; n&#227;o existisse.</p><p style="text-align: justify;">&#178; Bom, estar na estrada me lembra Hunter S. Thompson (n&#227;o me refiro &#224;s toneladas de mescalina, maconha e outras drogas enfiadas no porta-malas, a um advogado samoano t&#227;o louco quanto o autor e a um destino certo como <em>Las Vegas</em>; refiro-me a Thompson s&#243;brio, sabido da vida e incerto sobre seus desdobramentos em <em>The Rum Diary</em>). Lembra-me porque, em poucas linhas, ele traduziu essa minha sensa&#231;&#227;o e a escreveu esperando que eu a lesse:</p><div class="pullquote"><p style="text-align: justify;">&#8220;Vendo as palmeiras passarem e olhando para o sol imenso queimando a estrada, tive um vislumbre de algo que n&#227;o sentira desde meus primeiros meses na Europa &#8212; uma mistura de ignor&#226;ncia com uma certa confian&#231;a incerta e despreocupada, do tipo que costuma surgir em um homem quando o vento volta a soprar e ele come&#231;a a se mover em linha reta na dire&#231;&#227;o de um horizonte desconhecido.&#8221;</p></div><p style="text-align: justify;">&#179; Veja: os melhores momentos na estrada s&#227;o aqueles em que volto de Sampa para minha terrinha, no cu da Zona Leste &#8212; Mogi. &#201; madrugada. Nessas horas, a estrada &#233; vazia. Piso fundo e fa&#231;o o famoso &#8220;cinquenta em cinco&#8221; (j&#225; deu para perceber que eu n&#227;o sou exemplo de prud&#234;ncia no tr&#226;nsito). Cento e oitenta na esquerda, <em>Iron Maiden</em> torando no r&#225;dio, mato para tudo quanto &#233; lado. Uma cama quente e bons livros me esperam em casa.</p><p style="text-align: justify;">&#8308; Porra, como isso &#233; bom. &#201; como se o dia, chato pra cacete, se compensasse naquela noite escura na estrada. Porque tudo se ordena, toda a vida se simplifica e todo o absurdo se torna tang&#237;vel e familiar. Eu devaneio nas ideias e nos planos para a vida, pois &#233; o momento em que deixo de escutar todas as vozes estranhas do mundo e me concentro naquela &#224; qual mais resisti em dar aten&#231;&#227;o: a minha pr&#243;pria.</p><p style="text-align: justify;">&#8309; Digo isso porque n&#227;o tenho mais medo de ficar s&#243;. &#211;bvio, n&#227;o gosto da solid&#227;o, e j&#225; deixei isso bem claro em <em>Manifesto &#224;s palavras<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a></em>. Quero ouvir, conhecer, tornar-me diferente a partir do outro, expandir meu horizonte de consci&#234;ncia...; porque sei que, quanto mais convencido da pr&#243;pria ignor&#226;ncia, mais ressinto a intelig&#234;ncia. Mas ter-se consigo, isto &#233;, ouvir a pr&#243;pria voz em pequenos lapsos do dia, &#233; indiscut&#237;vel para que a vida flua.</p><p style="text-align: justify;">&#8310; E ela, a vida, est&#225; a&#237;, correndo, sem esperar que eu a acompanhe. Bom, eu n&#227;o posso deixar de abra&#231;&#225;-la e guard&#225;-la no peito com amor e paix&#227;o. &#201; como se eu lhe dissesse: &#8220;Vida, leve-me contigo para onde for. Eu posso n&#227;o estar preparado, mas aceito o que vier&#8221;.</p><p style="text-align: justify;">&#8311; &#192;s vezes gosto de pensar que um outro eu me acompanha na viagem. Tudo o que eu sei, ele sabe; tudo o que eu penso, ele pensa. N&#243;s dois conversar&#237;amos a uma velocidade criminosa.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Sabe o que &#233; a Vida?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Uma bela mulher.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Oh, se &#233;.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Sabe o que nos atrai nela?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Diga voc&#234;.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Sua imprevisibilidade. Nunca sei o que ela vai fazer, o que vai dizer...</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Mas ela sempre faz ou diz alguma coisa.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Sempre.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Sabe o que tamb&#233;m nos atrai nela?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Fala a&#237;.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Sua intransig&#234;ncia. Ela tem cabelos bagun&#231;ados, tatuagem, brincos...</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Linda!</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Enfim, ela &#233; uma rebelde. Contesta tudo e todos e n&#227;o d&#225; ouvidos a nada. N&#227;o espera por ningu&#233;m, nem por n&#243;s.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Mas, tendo pau e dedo, nenhuma boceta nos mete medo.</p><p style="text-align: justify;">Rimos um pouco.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Mas veja que engra&#231;ado: no fundo do cora&#231;&#227;o, um lugar que ela n&#227;o sabe onde &#233;, existe um sentimento discreto que ela tenta ignorar, mas que cresce cada vez mais e sempre mais forte. Ela tenta se desvencilhar dele, mas n&#227;o consegue, porque, sem que saiba, ama senti-lo. &#201; um sentimento que a faz querer se aprumar e declinar de sua rebeldia, de forma que n&#227;o se desfa&#231;a de quem &#233;.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Como a esperan&#231;a surgindo da incerteza?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Exatamente.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; E o que ela faria se fosse tomada por esse sentimento?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; N&#227;o teria medo de errar. Pediria por chances e arriscaria tudo.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Imaginei.</p><p style="text-align: justify;">Sil&#234;ncio.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ela acredita em Deus?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Claro.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; E como ela acha que Ele &#233;?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Um mist&#233;rio.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Eu queria ser como a Vida.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Bom..., viva-a.</p><p style="text-align: justify;">&#8312; A madrugrada crescia. Passei pela USP Leste &#8212; metade do caminho. Eu estava entre duas grandes merdas: o Tiet&#234; e a Universidade. Passei, tamb&#233;m, por um radar. Acho que era de cem. Enfim, j&#225; o esperava. Baixei a oitenta e o cruzei. Radar agora s&#243; na puta que pariu. Volto: a verdade &#233; que eu n&#227;o sei o que &#233; a <em>Vida</em>. Se me perguntassem, eu n&#227;o saberia dizer. Inventaria qualquer coisa po&#233;tica e milagrosa para responder, justamente porque acharia rid&#237;culo dizer isso a algu&#233;m que me perguntasse com seriedade.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; O que &#233; a vida? &#8212; pergunta-me Abujamra.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Uma bela mulher &#8212; eu respondo.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; O que <em>&#233;</em> a <em>vida</em>? &#8212; ele insiste, com sua pausa dram&#225;tica.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Uma bela mulher rebelde.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Tiago &#8212; olhando-me por tr&#225;s de seus &#243;culos questi&#250;nculos e indecifr&#225;veis &#8212;, o que &#233; a vida?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Uma gostosona da porra!</p><p style="text-align: justify;">&#8313; Tudo bem. Seria melhor se eu dissesse &#8220;n&#227;o sei&#8221;. Cagar muita regra enseja infantilidade &#8212; e isso eu quero deixar de ser. Mas quer saber de uma coisa? Acho que a vida pode ser, sim, uma gostosona da porra, mesmo que continue sendo um verdadeiro mist&#233;rio, um indecifr&#225;vel fen&#244;meno na realidade. E eu escolhi viv&#234;-la mesmo assim, sempre com a maior das intensidades. Fodam-se os &#8220;issos&#8221; e &#8220;aquilos&#8221;. Eu estou aqui. Pode doer o que for, pode ser lastim&#225;vel ou at&#233; aterrorizante, mas eu aceitei. Eu fa&#231;o isso por toda a dor que escolhi viver.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8304; A&#237; voc&#234; me pergunta: &#233; poss&#237;vel escolher <em>n&#227;o</em> viver? Talvez. Em <em>N&#243;s, os escritores!</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a>, escrevi que n&#227;o h&#225; vida para quem apenas est&#225;. Tem gente que escolhe abster-se da vida e viver numa in&#233;rcia fria e desagrad&#225;vel. O desfecho disso seria o suic&#237;dio. Weber diria que &#233; ego&#237;smo. N&#227;o entendo por qual raz&#227;o. Eu argumentei que suic&#237;dio &#233; um ato de covardia, porque <em>viver</em> que &#233; o dif&#237;cil. Mas eu n&#227;o quero ser injusto. Quem se mata deve ter tido suas raz&#245;es. S&#243; Deus sabe o inferno que &#233; a exist&#234;ncia para essas pessoas. E eu sinto por elas.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#185; Eu s&#243; n&#227;o sentiria pelo arrombado que est&#225; com esse farol alto atr&#225;s de mim. Oh, que filho da puta, viu? Eu detesto o nego que vem com farol alto na esquerda. D&#225; seta, sinaliza, mas n&#227;o enfia essa porra em mim, n&#227;o. Acho que esse, sim, n&#227;o vive a vida. &#201; um bosta frustrado que se sente superior s&#243; porque est&#225; com o farol alto. A gente sabe que gente assim quer compensar o que n&#227;o tem: tamanho de pica. E ele &#233; dono de um <em>Chevrolet Silverado </em>&#8212; carro de corno.</p><p style="text-align: justify;">Dei passagem e acelerei.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; V&#225; l&#225;. Passa, oh, arrombado.</p><p style="text-align: justify;">Vi ele frustrado tentando me ultrapassar.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Filho da puta, he, he, he.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#178; Uma vez que a <em>Tucson</em> pega no tranco, nada passa ela. &#201; um carr&#227;o da porra: tu pisava ele voava; tu freiava, ele ancorava (s&#225;bias as palavras dos Raimundos). Eu, de fato, n&#227;o sou exemplo de prud&#234;ncia no tr&#226;nsito. O que meu Santo Anjo trabalha, Erika Hilton n&#227;o bateu de punheta.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#179; Eu desacelerei. Deixei que me passasse. Dei seta e entrei atr&#225;s dele, na esquerda. Dist&#226;ncia (n&#227;o t&#227;o) segura. Segui. Afinal, a vida t&#225; cheia dessas imprud&#234;ncias. Assumi que deveria viv&#234;-la com intensidade, sim, mas com certa cautela. </p><p style="text-align: justify;">&#8212; Voc&#234; &#233; um bosta igual ao cara daquele carro &#8212; ou&#231;o voc&#234; me dizer.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Sou.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Quer se matar? Que exemplo voc&#234; &#233;, n&#227;o?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; N&#227;o quero me matar e nunca disse que sou exemplo&#8230; Filho da puta! &#8212; grito ao cara do carro.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8308; Ele freiou no radar. O radar da puta que pariu chegou. Quase que bato o carro; quase que perco a carteira. Cento e sessenta num radar de cento e vinte. Caralho. Quase me fodi. E o arrombado sabia do radar. Freiou e nem ligou o pisca-alerta. Bom, eu deveria saber. Conhe&#231;o o radar. Juro vingan&#231;a ao cara do carro. Seguimos.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8309; Alguns minutos se passaram. Est&#225;vamos diante do ped&#225;gio. Tomei &#224; direita e o cara &#224; esquerda. Ele parou numa das cabines. Ot&#225;rio, pensei, eu tenho <em>Sem Parar</em>. Eu fui e ele ficou para tr&#225;s. Acelerei e voltei &#224; minha liberdade isolada e reflexiva. Puta do caralho. Minha vida &#233; muito mais alegre quando vejo um banana se fodendo. Eu poderia ser esse cara, mas para certas coisas eu sou moderado. Se me houvesse um cara na frente, eu sinalizaria com a seta. Farol alto &#233; escrotisse. Se o cara n&#227;o me desse passagem, eu cortaria pela direita. Nem sempre tenho saco pra arranjar briga, ainda mais na estrada, j&#225; que nela ocorre meus bons momentos de felicidade.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8310; Pego o retorno de casa. Tudo escuro. Entro numa estradinha. Mato aqui e ali. Pessoas foram sequestradas nesta estradinha. &#201; o &#244;nus de morar longe da cidade grande. Se qualquer suspeito aparecesse na frente do carro, eu n&#227;o faria diferente: passaria por cima.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a></p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8311; Finalmente chego em casa. Abro a porta, beijo meus cachorros, beijo minha fam&#237;lia. Agrade&#231;o a Deus por estar de volta. Afinal, mesmo que discreto, sou grato por tudo o que existe em minha vida, inclusive pelas dores que sinto no cora&#231;&#227;o, pelas l&#225;grimas que escorrem dos meus olhos, pelos tempos que mudam, pelas saudades&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8312; Quais li&#231;&#245;es eu deveria tirar daqui? N&#227;o sei. Talvez seja o amadurecimento, a devo&#231;&#227;o a Deus, amar, sentir-se humano, fazer o bem&#8230; Eu n&#227;o sei. Mas estamos aqui, n&#227;o estamos? O que nos resta sen&#227;o abra&#231;ar essa realidade? Eu escolhi viver, n&#227;o escolhi? E escolhi viver com intensidade, como j&#225; vos disse. N&#227;o sei o que h&#225; depois daqui, mas uma coisa &#233; certa: tem mais vida, com certeza. Aqui, na Terra, n&#243;s s&#243; estamos come&#231;ando.</p><div><hr></div><p style="text-align: justify;">10/jun./2026</p><p style="text-align: justify;">Mogi das Cruzes, S.P.</p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><div class="digest-post-embed" data-attrs="{&quot;nodeId&quot;:&quot;b4f1c478-534d-4fb6-8a85-704f5c9182aa&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&#185; Acho que, se eu pudesse, costuraria meus &#250;midos e viciados l&#225;bios e calaria minha voz apenas para ouvir boas palavras, sem que minha desesperada impress&#227;o de mundo interviesse nas articula&#231;&#245;es do mensageiro. Como constru&#231;&#227;o da pr&#243;pria personalidade, ouvir mais do que dizer &#233; indiscut&#237;vel. N&#227;o porque s&#243; isso baste, mas porque o amor que tenho pelas out&#8230;&quot;,&quot;cta&quot;:null,&quot;showBylines&quot;:true,&quot;showDescription&quot;:true,&quot;showImage&quot;:true,&quot;size&quot;:&quot;lg&quot;,&quot;isEditorNode&quot;:true,&quot;title&quot;:&quot;Manifesto &#224;s palavras&quot;,&quot;publishedBylines&quot;:[{&quot;id&quot;:429920081,&quot;name&quot;:&quot;T. L.&quot;,&quot;bio&quot;:&quot;Apenas um exame constante da consci&#234;ncia art&#237;stica. 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Escreveu uma carta de suic&#237;dio, pegou a arma e, bang!, deu um tiro na cabe&#231;a &#8212; pasmem! &#8212; com a esposa na linha. E vejam s&#243; o que ele escreveu antes de se matar:&quot;,&quot;cta&quot;:null,&quot;showBylines&quot;:true,&quot;showDescription&quot;:true,&quot;showImage&quot;:true,&quot;size&quot;:&quot;lg&quot;,&quot;isEditorNode&quot;:true,&quot;title&quot;:&quot;N&#243;s, os escritores!&quot;,&quot;publishedBylines&quot;:[{&quot;id&quot;:429920081,&quot;name&quot;:&quot;T. L.&quot;,&quot;bio&quot;:&quot;Apenas um exame constante da consci&#234;ncia art&#237;stica. 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Para quem n&#227;o &#233; jurista, &#233; bom pesquisar. N&#227;o sou professor de Penal, n&#227;o.</p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Manifesto às palavras]]></title><description><![CDATA[Cr&#244;nica #013 | "Este &#233; o sentido que dou ao desejar ouvir palavras que n&#227;o s&#227;o minhas: uni&#227;o de fluidos, de corpos e de suor num &#250;nico recept&#225;culo da vida [...]"]]></description><link>https://tlferreira.substack.com/p/manifesto-as-palavras</link><guid isPermaLink="false">https://tlferreira.substack.com/p/manifesto-as-palavras</guid><dc:creator><![CDATA[T. L. Ferreira]]></dc:creator><pubDate>Sun, 07 Jun 2026 05:12:43 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/9f979a36-dde7-41b7-bbde-000151a687eb_736x736.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">&#185; Acho que, se eu pudesse, costuraria meus &#250;midos e viciados l&#225;bios e calaria minha voz apenas para ouvir boas palavras, sem que minha desesperada impress&#227;o de mundo interviesse nas articula&#231;&#245;es do mensageiro. Como constru&#231;&#227;o da pr&#243;pria personalidade, ouvir mais do que dizer &#233; indiscut&#237;vel. N&#227;o porque s&#243; isso baste, mas porque o amor que tenho pelas outras consci&#234;ncias, contaminando-me com suas raz&#245;es de pensar, supera qualquer outro j&#225; experimentado.</p><p style="text-align: justify;">&#178; Sinto-me um doente, l&#237;vido, se me nutro das pr&#243;prias ideias. Valho-me, sim, e com frequ&#234;ncia, da autof&#225;gica consci&#234;ncia &#8212; e isso &#233; terr&#237;vel. Porque sinto-me s&#243;, permeado pela pr&#243;pria pessoa, em que minhas sensibilidades tomam espa&#231;os que n&#227;o lhes deveriam pertencer.</p><p style="text-align: justify;">&#179; Se me permitem dizer de outra forma, percebo-me como o onanista cansado do onanismo e desejoso do sexo. E digo: o sexo amoroso, a uni&#227;o de dois corpos num s&#243;, somente. Este &#233; o sentido que dou ao desejar ouvir palavras que n&#227;o s&#227;o minhas: uni&#227;o de fluidos, de corpos e de suor num &#250;nico recept&#225;culo da vida, como o cont&#225;gio pelos dizeres alheios, pelas consci&#234;ncias desconhecidas, pelas hist&#243;rias e suas novidades.</p><p style="text-align: justify;">&#8308; Veja: eu fico de cara quando conhe&#231;o algu&#233;m que fala bem. &#201; um fasc&#237;nio interagir com algu&#233;m que chamo de "<em>guerreiro das palavras</em>", "<em>domador da l&#237;ngua</em>", porque &#233; dessa forma que se conhece verdadeiramente uma pessoa. Quem tem essa habilidade, de se expressar corretamente pela linguagem, sabe dizer ao mundo exatamente aquilo que deseja dizer. E ouvir, ent&#227;o, &#233; perceber outra bela consci&#234;ncia &#224; deriva no tecido opressor da realidade.</p><p style="text-align: justify;">&#8309; Isso esclarece aquilo que julgo ser o mais belo dom humano: um esp&#237;rito animalesco e revoltado, oprimido e opressor, que, diante da signific&#226;ncia do mundo, recusa-se a entregar-se &#224; impot&#234;ncia da cogni&#231;&#227;o instintiva e, por amor, fortalece aquilo que de mais divino tem em si, isto &#233;, a <em>intelig&#234;ncia</em>. Intelig&#234;ncia esta que compreende o mundo em sua verdadeira forma e o maquia com as imperfei&#231;&#245;es de suas sensa&#231;&#245;es, tornando-o uma fic&#231;&#227;o, ironicamente e inesperadamente, fiel &#224; realidade.</p><p style="text-align: justify;">&#8310; Suas articula&#231;&#245;es da linguagem levam aos ouvintes ideias desnecess&#225;rias, mas t&#227;o importantes para aqueles que, como eu, desejam conhecer a verdade. Porque a linguagem tem essa finalidade, bem como corresponde &#224; nossa maior distin&#231;&#227;o dentre os animais: a <em>express&#227;o</em>. N&#227;o &#233; &#224; toa que os argumentos mais convincentes partem dos que melhor manuseiam a linguagem, e os mais convencidos s&#227;o aqueles que menos articulam essa habilidade.</p><p style="text-align: justify;">&#8311; Olha, eu confesso: eu amaria perder as palavras no tempo com algu&#233;m articulado. Que as mensagens n&#227;o valham o m&#237;nimo, mas troc&#225;-las com outro seria suficiente para o regozijo da alma. Ou ent&#227;o, de sobretarde, rodeado pela escassa natureza deste mundo, ouvir impressionantes hist&#243;rias, verdadeiras ou n&#227;o, apenas para povoar a imagina&#231;&#227;o. Coisas assim me levam ao del&#237;rio.</p><p style="text-align: justify;">&#8312; Lembro-me das aulas de Hist&#243;ria do ensino m&#233;dio. Minha professora, carinhosa e irreverente, contagiava cada aluno com o mais espont&#226;neo discurso de sabedoria. Sim: uma mulher que viveu tudo o que p&#244;de para que o manto de professora se confundisse com o de pessoa. Ouvi-la era o melhor que me ocorria na semana. E tanto fazia o que nos dissesse: o que me importavam eram suas palavras m&#237;sticas e sua espiritualidade marcante.</p><p style="text-align: justify;">&#8313; Outrossim, meu av&#244;. O homem mais engra&#231;ado que conheci. Tantas s&#227;o as hist&#243;rias e os discursos inigual&#225;veis que n&#227;o posso deixar de rir ao memor&#225;-los. E, apesar de quedar-me diante dele, continuar com meus males da introspec&#231;&#227;o, agrade&#231;o meu pr&#243;prio sil&#234;ncio, que d&#225; espa&#231;o &#224;s suas enf&#225;ticas palavras emanadas de seu esp&#237;rito selvagem e livre.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8304; Mas o melhor mesmo s&#227;o as intransig&#234;ncias na questi&#250;ncula roda da faculdade, em que ou&#231;o das mais engra&#231;adas baixarias &#224;s mais admir&#225;veis pondera&#231;&#245;es jur&#237;dicas. Obviamente, somos jovens demais para um universo como o do Direito, mas, como portadores de esp&#237;ritos maculados pela rebeldia, contestar o tecido normativo &#233; discursar contra toda a realidade opressora. E ouvir essas palavras de guerra &#233;, para mim, uma das mais c&#244;micas express&#245;es do ser.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#185; &#201; por isso que venho, por meio destas linhas, composi&#231;&#227;o do infinito alfarr&#225;bio de minha alma, manifestar meu desejo inesgot&#225;vel de ouvir. Como o sol quente que toca os p&#233;s descal&#231;os e os leva a aquecer o corpo, boas palavras ditas, poucas ou muitas, fascinam-me porque entram em meus ouvidos e esquentam a alma. Gosto de escutar como gosto de ler. E, quando digo, j&#225; emaranhado em novos verbos e adjetivos, falo com mais de uma voz. Falo ricamente, como porta-voz de todas as outras almas que cruzaram minha vida.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#178; Devo ouvir com mais frequ&#234;ncia. Afinal, estou cansado da solid&#227;o. Tudo isso para dizer que amo uma boa conversa.</p><div><hr></div><p style="text-align: justify;">07/jun./2026</p><p style="text-align: justify;">Mogi das Cruzes, S.P.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Puxa-sacos do regime [CENSURADO]]]></title><description><![CDATA[Cr&#244;nica #012 | "Uma vez que a intelig&#234;ncia nacional tem o *** arrombado pelas *** marxistas, nenhum ato ou esfor&#231;o pol&#237;tico ser&#225; capaz de revert&#234;-la &#224; sua ess&#234;ncia divina."]]></description><link>https://tlferreira.substack.com/p/puxa-sacos-do-regime</link><guid isPermaLink="false">https://tlferreira.substack.com/p/puxa-sacos-do-regime</guid><dc:creator><![CDATA[T. L. Ferreira]]></dc:creator><pubDate>Tue, 02 Jun 2026 20:04:06 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/dcb59db3-e54f-48f5-8eb5-6402267d7111_736x1105.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">&#185; A primeira vez que me senti instigado a pensar sobre as coisas externas a mim, eu ainda era movido pelos instintos da tenra idade. Sempre que me sujeitava a este primitivo experimento mental, de imaginar-me impotente e oprimido pelas circunst&#226;ncias maiores que a pessoa da quest&#227;o, sentia-me inundado por um calafrio e temor incontrol&#225;veis.</p><p style="text-align: justify;">&#178; Para isso, s&#243; havia uma solu&#231;&#227;o eficaz: abstrair-me com qualquer futilidade infantil e desnecess&#225;ria, comprimindo aquele medo a uma insinuosa sensa&#231;&#227;o de que aquilo se resolveria em momento futuro, isto &#233;, quando adulto. Resolver com meus pais era outra forma de fuga, mas, ainda assim, havia outros medos com os quais eu deveria degladiar.</p><p style="text-align: justify;">&#179; O primeiro deles seria a espiritualidade quase motriz de minha m&#227;e, que via sentido divino em tudo o que acontecesse. Como eu poderia respond&#234;-la sen&#227;o com obje&#231;&#245;es in&#243;cuas, desarmado de mediunidade, cren&#231;a ou f&#233;?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; M&#227;e &#8212; eu a provoco enquanto crian&#231;a &#8212;, de onde v&#234;m os beb&#234;s?</p><p style="text-align: justify;">Ela me olha intrigada.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Filho, eles v&#234;m da barriga. Assim como um dia voc&#234; veio.</p><p style="text-align: justify;">Vejo seu sorriso referto de sua inevit&#225;vel do&#231;ura.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Por qu&#234;?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ah, meu filho, porque &#233; da&#237; que eles devem vir.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Por qu&#234;?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Porque n&#227;o poderia ser de outro lugar...</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Por qu&#234;?</p><p style="text-align: justify;">Ela fecha o sorriso.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Porque Deus quis!</p><p style="text-align: justify;">&#8308; Sentia-me apavorado porque n&#227;o via esse sentido e, apesar de belo, ele ainda era desconhecido e estranho &#224;s sensa&#231;&#245;es infantis.</p><p style="text-align: justify;">&#8309; Mas o segundo medo era diferente: tangenciava o absurdo, o imposs&#237;vel, o distante &#8212; e vinha do meu pai. Enquanto conversar com minha m&#227;e me fazia emergir cada vez mais no sentido espiritual, a sensa&#231;&#227;o da mesma conversa com meu pai era outra, em sentido divergente: foi com ele que me questionei sobre os primeiros porqu&#234;s cient&#237;ficos, fossem eles f&#237;sicos, qu&#237;micos ou matem&#225;ticos.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Pai!</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Diga, filh&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; De onde v&#234;m os beb&#234;s?</p><p style="text-align: justify;">Ele pensa.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Da boceta.</p><p style="text-align: justify;">&#8310; Nesse sentido, todo o opressor Universo poderia ser descrito ou pelas eloquentes sensa&#231;&#245;es maternas ante o plano espiritual ou pelo p&#233; no ch&#227;o cient&#237;fico e materialista paterno, sem haver razo&#225;vel sopesar dessas duas ilustra&#231;&#245;es da realidade &#8212; tudo para aquela ing&#234;nua e instigada crian&#231;a.</p><p style="text-align: justify;">&#8311; E eu sabia que inexistia, no meu arcabou&#231;o mental, clave que expressasse exatamente o mundo. Eu s&#243; podia delegar as d&#250;vidas aos meus pais &#8212; os &#250;nicos que poderiam me dizer a verdade.</p><p style="text-align: justify;">&#8312; Mas o insucesso era-me frustra&#231;&#227;o. Mesmo inundado pelas opini&#245;es ascendentes, n&#227;o notava sentido nas express&#245;es do mundo. N&#227;o o notava porque n&#227;o sabia not&#225;-lo. N&#227;o me havia habilidade, apesar de sentir um amor indiscreto pelo que se contemplava no plano da realidade. Mas imagine eu querer dizer ao mundo essas sensa&#231;&#245;es. Com que cautela as diria?</p><p style="text-align: justify;">&#8313; Mas eu fui crescendo e amadurecendo (ressalvo que n&#227;o sou o melhor exemplo de amadurecimento: se nem maconha eu sirvo pra fumar, quem diria para o resto?), e aceitei que eu n&#227;o poderia saber tudo. Ningu&#233;m sabe tudo sen&#227;o <em>Deus</em>. &#211;bvio: o fato de nenhum homem ser capaz de saber tudo n&#227;o deve ser motivo para n&#227;o querer saber de nada. Se fomos coroados com faculdades mentais que nos movem com amor &#224; verdade, por que ignor&#225;-las e caminhar na ignor&#226;ncia?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Por que n&#227;o fazemos um acordo? &#8212; sugere Mefist&#243;feles.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; N&#227;o, obrigado &#8212; eu lhe respondo.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Tens certeza, humano? N&#227;o queres saber tudo?</p><p style="text-align: justify;">Eu bocejo.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Pra qu&#234;? Eu estou seguindo o caminho do Senhor, agora.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; &#8220;Caminho do Senhor&#8221;... Meu cacete santo &#8212; ele diz.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8304; Ent&#227;o Mefist&#243;feles desaparece em chamas e desce ao inferno. Era madrugada. Eu estava marolando o <em>PornHub</em> com o peru de fora. &#201;, eu acredito que ainda n&#227;o estou condenado.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#185; Mas tem gente que se acha sabida de tudo. Isso me causa uma azia inigual&#225;vel, uma dor diferente de qualquer outra. E, sempre que algu&#233;m acha que sabe tudo, d&#225;-se uma de duas: ou esse algu&#233;m se contenta com o que sabe e vive na ignor&#226;ncia luxuosa (o pobre vagabundo com dinheiro), ou &#233; um puxa-saco da opini&#227;o gritante e pol&#237;tica, aquele que fez o acordo com Mefist&#243;feles. Quem menos intelig&#234;ncia tem menos se ressente da falta dela. &#201; desse &#250;ltimo que vou falar hoje.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#178; Bom, da mesma forma que subo pelas paredes quando vejo um <em>funkeiro</em> num <em>Jeep</em> com o som alto, enche-me de pavor ver um &#8220;intelectual&#8221; brasileiro, tendo lido meia d&#250;zia de livros de teatro neo-burlesco e marxismo, proclamando-se amante da loucura, das artes e das estranhezas deste s&#233;culo e passado. O problema n&#227;o existiria se isso n&#227;o o convencesse de ser a vanguarda cognitiva da gera&#231;&#227;o; o pai dos jovens dissidentes e oprimidos que choram com um m&#237;sero tapa na bunda.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#179; &#201; como se seu esp&#237;rito repousasse num patamar acima daquele em que est&#225; toda a humanidade, porque suas sensibilidades de cheirar ***<strong> </strong>e ***<strong> </strong>*** lhe s&#227;o &#250;nicas na esp&#233;cie. E o pior &#233; ele, indiscretamente e &#8220;sem querer&#8221;, sentir-se o her&#243;i da filosofia, orientando tantos outros para sua infeliz ideia de extraordinariedade.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Estou aqui e voc&#234;s a&#237;, e assim ficaremos &#8212; proclama o &#8220;intelectual&#8221;, vestindo *** e peruca. &#8212; Porque, vejam: minhas inclina&#231;&#245;es me permitem direcion&#225;-los, e voc&#234;s precisam de dire&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Se eu pudesse, ao menos, responder-lhe, diria:</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Que caralho de fonte milagrosa &#233; essa que, de um sorvo, lhe fartou para sempre as sedes d'alma? &#8212; (amo Goethe) &#8212; Como pode voc&#234; ser o messias intelectual deste s&#233;culo e n&#227;o de qualquer outro?</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8308; Ele sabiamente me acusaria de fascista.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8309; N&#227;o pense, entretanto, que me refiro aos homens que dedicaram a vida toda &#224; forma&#231;&#227;o intelectual, que correram riscos e corrigiram-se quando se percebiam errados, que, em momento passado, fizeram-se devotos da verdade, como quer que ela lhes parecesse, e juraram-lhe obedi&#234;ncia, e que o relativismo moral nunca os tenha orientado porque, h&#225; muito tempo, perceberam seus perigos. Esses, sim, s&#227;o homens que dispuseram suas vidas ao bem, ao imut&#225;vel e &#224;s inclina&#231;&#245;es ao conhecimento que suas faculdades mentais lhes deram.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8310; Estou me referindo ao seu contr&#225;rio: homens que n&#227;o juraram amor &#224; verdade, mas &#224; sua modera&#231;&#227;o; homens que aceitam o relativismo &#233;tico e, como mercen&#225;rios do puxa-saquismo, modulam a verdade conforme o soberano que se senta ao trono do Pa&#237;s, ainda mais onde a intelectualidade que resta &#233; ca&#231;ada, enquanto a que subsiste lambe os bagos dos comuno-lar&#225;pios internacionais que mandam na porra toda.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Sabe qual &#233; a nossa diferen&#231;a? &#8212; eu diria. &#8212; Eu n&#227;o quero que ningu&#233;m suba a certo n&#237;vel de poder que lhe garanta enfiar o dedinho no *** dos outros. Voc&#234; tamb&#233;m n&#227;o quer ningu&#233;m enfiando o dedinho no seu *** (eu acho), embora queira enfi&#225;-lo no *** de algu&#233;m; e esse *** pode ser o meu.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Olha, garoto &#8212; ele responde &#8212;, eu gosto que enfiem o dedo no meu ***. Todos devem ter esse prazer. Se voc&#234; n&#227;o quer o dedinho a&#237;, voc&#234; faz um desservi&#231;o &#224; humanidade. Retr&#243;grado, fascista!</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8311; Mas o mais curioso &#233; que esses ungidos tenham lido diversas obras com mensagens universais, de autores atemporais, e que lhes tenha surtido o efeito inverso. Como, caralhos, com a intelig&#234;ncia que t&#234;m, quererem seguir exatamente no sentido contr&#225;rio? E como, ainda, podem justificar suas ideias perversas t&#227;o semelhantes &#224;quelas que fracassam nas obras que leem?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Puxa vida, eu sinto muito &#8212; diz o ungido ao terminar de ler seu livrinho. &#8212; N&#227;o foi desta vez, garoto, mas acredite: eu farei melhor; eu sinto que posso.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8312; Ent&#227;o ele se apruma, beija o livro e o guarda com os demais na prateleira, dando-lhe um destaque especial. C<em>rime e Castigo</em> nunca lhe soara t&#227;o particular.</p><p style="text-align: justify;">&#185;&#8313; Ent&#227;o eu questiono: n&#227;o pode haver burrice nisso. Dostoi&#233;vski n&#227;o &#233; autor f&#225;cil de se ler. H&#225;, por&#233;m, o que acredito ser <em>filha da putice</em>. &#201; um tremendo arrombado aquele que, ciente da maldade, inclina-se a ela porque, munido de uma por&#231;&#227;o cruel de sabedoria, aceita sua autoproclamada condi&#231;&#227;o de messias e opera para arruinar a gera&#231;&#227;o que com tanto carinho o criou.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; J&#225; vai come&#231;ar! J&#225; vai come&#231;ar! &#8212; diz ele, no seu jeito bem ***, animado.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#8304; Ent&#227;o o teatro come&#231;a. As luzes se apagam, as cortinas s&#227;o recolhidas e todos ficam em sil&#234;ncio. Um homem corpulento e trajado em vestes *** sai ao palco em passos lentos e altos e anuncia o in&#237;cio da pe&#231;a:</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Boa noite a todos, todas e <em>todes</em> &#8212; um leve murm&#250;rio de aprova&#231;&#227;o paira entre os espectadores. &#8212; O desejo do ser humano nunca foi outro sen&#227;o amar a natureza. Porque ela liberta, ela transforma, ela ama de volta. Ent&#227;o vos convido a ingressar nesta jornada natural... Libertai-vos!</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#185; A plateia aplaude. Ent&#227;o sons de vento e p&#225;ssaros acentuam a pe&#231;a. As luzes se acendem. Um, dois, tr&#234;s... Uma d&#250;zia de atores completamente nus entra pelas portas dos fundos. Eles correm em dire&#231;&#227;o ao palco, pulando sobre os espectadores. Jebas cabeludas socando as nucas e as testas de toda a plateia.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Aqui, aqui! Deixe-me senti-las &#8212; brame o intelectual karnaleano.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Sim, querido! &#8212; diz um ator *** que passava pela fileira de tr&#225;s.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#178; O ***, ent&#227;o, d&#225; uma *** na sua bochecha. Ele corre para o palco, por cima da plateia, como todas as outras gazelas, uivando o aflorar de seu amor rousseauniano.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#179; Todos os atores sobem ao palco, nus, mexendo os corpos como nunca, todos em &#234;xtase. A euforia vibra em seus corpos e lhes d&#225; a amada raz&#227;o de ser.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#8308; Ent&#227;o a m&#250;sica dos p&#225;ssaros diminui. As luzes se concentram nos atores no palco. Eles param de se mover euforicamente e se acalmam. Todos fazem um c&#237;rculo, cada um enfiando o dedinho no cu do outro; ent&#227;o giram.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Eis Ouroboros! &#8212; anuncia o *** corpulento, que se desnuda e integra a roda.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#8309; &#201; a cobra que come o pr&#243;prio rabo. Se pudessem, eles tamb&#233;m comeriam. Eu sei que esquerdista &#233; afetado, mas, tendo pau e dedo, todo cu tem jeito.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#8310; Acontece que se fosse s&#243; isso n&#227;o haveria problema. Pouco me importa o que eles fazem com os rabos. Mas &#233; nas m&#227;os desses caras que respiram as faculdades. S&#227;o putos assim que verborreiam esquerdismo e materialismo em salas de aula, assassinando talentos porque, como antes mencionei, eles orientam quem nasceu para ser orientado. Olavo de Carvalho chamaria isso de <em>intelligenzia</em>. Eu n&#227;o descarto o termo, mas chamaria isso por outro nome: <em>putaria</em>.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#8311; Essa putaria "forma" pessoas, d&#225;-lhes instru&#231;&#245;es de comportamento, afirma-lhes o que &#233; a verdade e, como mercen&#225;ria ideol&#243;gica, assassina qualquer dissidente que ouse question&#225;-la. E isso, certamente, &#233; acentuado num pa&#237;s onde se percebe uma disson&#226;ncia gritante entre o povo e a verdadeira vida intelectual.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#8312; Claro que o petismo se justifica. T&#234;-lo no poder por quase duas d&#233;cadas n&#227;o &#233; sucesso exclusivamente pol&#237;tico. &#201; efeito de anos de dissemina&#231;&#227;o das narrativas comunistas nas faculdades e de repress&#227;o a ideias divergentes. E o que eu digo n&#227;o &#233; pr&#243;prio: Olavo de Carvalho morreu denunciando esses crimes.</p><p style="text-align: justify;">&#178;&#8313; Uma vez que a intelig&#234;ncia nacional tem o *** arrombado pelas *** marxistas, nenhum ato ou esfor&#231;o pol&#237;tico ser&#225; capaz de revert&#234;-la &#224; sua ess&#234;ncia divina.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Veja, veja! &#8212; brame o intelectual karnaleano. &#8212; &#201; o Lula! L&#225; vem ele.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Puxa vida, ele &#233; meu her&#243;i! &#8212; responde o outro, um devoto de Foucault.</p><p style="text-align: justify;">Lula sobe ao palanque. Parecia b&#234;bado. Ele zanza de um lado ao outro, observando atentamente as mocreias petistas que o acompanhariam no discurso.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Cad&#234; as mulheres de grelo duro do nosso partido?<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a></p><p style="text-align: justify;">Aplausos.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ele est&#225; insinuando que as mulheres devem ser mais empoderadas! &#8212; diz o primeiro intelectual.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Isso! Ele &#233; a favor do feminismo &#8212; concorda o segundo.</p><p style="text-align: justify;">Lula volta a falar.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; N&#243;s temos uma profunda gratid&#227;o ao continente africano por tudo o que foi produzido durante trezentos e cinquenta anos de escravid&#227;o no nosso Pa&#237;s.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a></p><p style="text-align: justify;">Ele &#233; ovacionado.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ele quis dizer que o Brasil n&#227;o seria nada sem o bravo esfor&#231;o dos negros escravizados.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Isso mesmo!</p><p style="text-align: justify;">O Presidente beberica sua 51. D&#225; um tapinha no bos&#243; da primeira-dama.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Hoje tem &#8212; ela silaba. &#8212; Fale sobre o aborto!</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Sim, sim... &#8212; diz a ela. &#8212; Sobre uma menininha gr&#225;vida em raz&#227;o de estupro &#8212; dirige-se ao p&#250;blico &#8212;, que monstro vai sair do ventre dessa menina?<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a></p><p style="text-align: justify;">Novamente, o palanque &#233; rodeado de aplausos e sentimento de aprova&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Sim! Feto n&#227;o &#233; gente!</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ele &#233; a favor do aborto!</p><p style="text-align: justify;">O Presidente se despede.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Obrigado, Pelotas, polo exportador de veados!<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-4" href="#footnote-4" target="_self">4</a></p><p style="text-align: justify;">Os intelectuais deliram.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Eu sou de Pelotas! Eu sou de Pelotas!</p><p style="text-align: justify;">&#179;&#8304; Ap&#243;s o show do inquestion&#225;vel Chefe do Executivo Federal, os intelectuais <em>cheira-***-da-Presid&#234;ncia</em> voltam &#224;s universidades munidos de respaldo pol&#237;tico para ministrar suas aulas. Como numa autofagia, novas v&#237;timas s&#227;o entregues ao mundo, todas diplomadas e castradas intelectualmente, com poder de voto e inclina&#231;&#245;es petistas.</p><p style="text-align: justify;">&#179;&#185; Um n&#227;o prescinde do outro: os intelectuais precisam do aval pol&#237;tico para justificar seus crimes com "<em>pluripartidarismo</em>", enquanto o governo precisa dos intelectuais para acrescer-lhe novos eleitores. O dildo das consequ&#234;ncias raramente vem lubrificado.</p><p style="text-align: justify;">&#179;&#178; Mas tudo isso n&#227;o veio por acaso. A partir do momento em que a cultura &#233; dominada pelas narrativas criminosas da esquerda, toda a domina&#231;&#227;o comunista se sustenta. Pode-se dizer que Gramsci entendeu isso. Percebendo a inefetividade da revolu&#231;&#227;o por cima, era necess&#225;rio faz&#234;-la por baixo. Com pequenas fa&#237;scas, ent&#227;o, o comunismo tomaria conta da religi&#227;o, da linguagem, das universidades etc., de forma que toda a esfera de compreens&#227;o do indiv&#237;duo fosse totalmente dominada.</p><p style="text-align: justify;">&#179;&#179; E, mesmo que o sujeito se recusasse a obedecer &#224;s condutas impostas pelo governo, aquilo que ele pensa j&#225; estaria em conson&#226;ncia com as exig&#234;ncias impl&#237;citas do regime. Onde ele se refugiaria sen&#227;o na pr&#243;pria cultura envenenada? Gramsci e os socialistas da Sociedade Fabiana entenderam isso cedo. Olha a merda que deu.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Muito trabalho, senhor Gramsci?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ah, sim. Muito. &#8212; Gramsci olha de soslaio para o dono da voz. Estava escrevendo em seu di&#225;rio, no improvisado gabinete da cela. &#8212; A prop&#243;sito, boa noite, senhor Mefist&#243;feles.</p><p style="text-align: justify;">Mefist&#243;feles se aproxima de Gramsci.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Vejo que est&#225; frustrado.</p><p style="text-align: justify;">O escritor se mostra desconfort&#225;vel.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Sim, sim. N&#227;o consigo pensar numa solu&#231;&#227;o para a revolu&#231;&#227;o. Acho que acabou para n&#243;s...</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ah, n&#227;o! &#8212; interp&#245;e Mefist&#243;feles. &#8212; Claro que n&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; N&#227;o?</p><p style="text-align: justify;">O diabo sorri.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; E se fizermos um acordo? Eu lhe digo a solu&#231;&#227;o e, em troca, voc&#234; faz um favorzinho para mim... O que acha?</p><p style="text-align: justify;">Gramsci aceita. Mefist&#243;feles lhe cochicha o segredo.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Puxa vida! Ent&#227;o &#233; isso!</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Sim, exatamente isso.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; T&#225;, e qual &#233; o favor?</p><p style="text-align: justify;">Mefist&#243;feles se senta ao p&#233; da cama.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Esta &#233; a melhor parte &#8212; diz ele, mostrando o piroc&#227;o do inferno. &#8212; Voc&#234; soube: "toda revolu&#231;&#227;o come&#231;a por baixo".</p><p style="text-align: justify;">&#179;&#8308; Mesmo que eu n&#227;o tenha amadurecido um m&#237;nimo sequer, fiz um voto de amor tanto &#224; verdade quanto ao bem &#8212; e por isso n&#227;o sentaria no colo do capeta. Se grande parte da crise humana que percebemos hoje &#233; resultado de uma inquisi&#231;&#227;o contra a intelectualidade e a religiosidade, creio que tenho o dever de me opor a ela.</p><p style="text-align: justify;">&#179;&#8309; &#201; dar raz&#227;o a todo o sacrif&#237;cio de in&#250;meros homens e mulheres em nome do bem. &#201; viver a vida intelectual, proposta por A.-D. Sertillanges, n&#227;o como um <em>hobby</em>, mas como voca&#231;&#227;o. &#201; honrar Santa Catarina de Alexandria, dar voz a S&#227;o Tom&#225;s de Aquino, Santo Alberto Magno, Santo Agostinho, Santo Anselmo. &#201; salvar a intelig&#234;ncia nacional desse comunismo ressonante.</p><p style="text-align: justify;">&#179;&#8310; Porque Deus nos instruiu a isso, e Ele santificou nossos *** para que n&#227;o troquemos sua *** por inclina&#231;&#245;es perversas. &#201; saber n&#227;o dar ouvidos a Mefist&#243;feles e n&#227;o deixar que ele nos arrombe o bogas. &#201; comprometer-se com a verdade, como quer que ela se apresente, por amor e obedi&#234;ncia, assim tamb&#233;m para com os nossos cus.</p><p style="text-align: justify;">&#179;&#8311; Essa &#233; a verdadeira vida intelectual. &#201; o que salvar&#225; a nossa amada Rep&#250;blica das Bananas.</p><div><hr></div><p style="text-align: justify;">02/jun./2026</p><p style="text-align: justify;">Mogi das Cruzes, S.P.</p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>https://oglobo.globo.com/politica/lula-chama-feministas-do-pt-de-mulheres-do-grelo-duro-internautas-reagem-18897183</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>https://www.google.com/amp/s/noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2023/07/19/lula-agradece-a-africa-por-tudo-o-que-foi-produzido-durante-350-anos-de-escravidao.amp.htm</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="#footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p>https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/lula-chama-monstros-bebesue-nascem-apos-estupro/</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-4" href="#footnote-anchor-4" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">4</a><div class="footnote-content"><p>https://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u50232.shtml</p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Nós, os escritores!]]></title><description><![CDATA[Cr&#244;nica #011 | "Mas h&#225; quem diga, tamb&#233;m, que voc&#234; n&#227;o vive; voc&#234; s&#243; est&#225; aqui. Veio a existir, veio a nascer e ficou. Ficou porque &#233; o que se faz: fica. N&#227;o h&#225; vida para quem apenas est&#225;."]]></description><link>https://tlferreira.substack.com/p/nos-os-escritores</link><guid isPermaLink="false">https://tlferreira.substack.com/p/nos-os-escritores</guid><dc:creator><![CDATA[T. L. Ferreira]]></dc:creator><pubDate>Thu, 21 May 2026 17:31:26 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/943363bf-a1a7-49ca-a03c-e5612e0791c1_736x737.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><strong>&#185; </strong>Inacredit&#225;vel: o cara se matou! Escreveu uma carta de suic&#237;dio, pegou a arma e, <em>bang!</em>, deu um tiro na cabe&#231;a &#8212; pasmem! &#8212; com a esposa na linha. E vejam s&#243; o que ele escreveu antes de se matar:</p><div class="pullquote"><p style="text-align: justify;">&#8220;No More Games. No More Bombs. No More Walking. No More Fun. No More Swimming. 67. That is 17 years past 50. 17 more than I needed or wanted. Boring. I am always bitchy. No Fun &#8212; for anybody. 67. You are getting Greedy. Act your old age. Relax &#8212; This won&#8217;t hurt.&#8221;</p></div><p style="text-align: justify;"><strong>&#178; </strong>Pra quem adorava Hemingway, ouvi dizer, seu final foi po&#233;tico. Liter&#225;rio, at&#233;, com uma carta de suic&#237;dio... Pra qu&#234; fazer isso, meu Deus?</p><p style="text-align: justify;"><strong>&#179; </strong>Bom, afinal, o cara foi covarde. Dar cabo da pr&#243;pria vida &#233; isso mesmo &#8212; covardia. H&#225; quem diga que foi coragem, mas eu discordo. Coragem mesmo &#233; <em>viver</em>. Isso, sim, mostra o qu&#227;o macho voc&#234; &#233;. Mas h&#225; quem diga, tamb&#233;m, que voc&#234; n&#227;o vive; voc&#234; s&#243; est&#225; aqui. Veio a existir, veio a nascer e ficou. Ficou porque &#233; o que se faz: fica. N&#227;o h&#225; <em>vida</em> para quem apenas <em>est&#225;</em>. O que mais se pode fazer, tamb&#233;m? Levar-se &#224; cova? Bom, ele fez isso. Ele conseguiu.</p><p style="text-align: justify;"><strong>&#8308; </strong>T&#244; falando de Hunter S. Thompson, o pai do jornalismo gonzo, como o conhecem. N&#227;o exijo que saibam disso [do suic&#237;dio]. Eu n&#227;o sabia at&#233; pouco tempo atr&#225;s. Imaginava qualquer outro desfecho, mas n&#227;o esse. Quem diria... Quem diria que esse foi o final que Thompson quis para si. &#8220;17 a mais do que preciso ou quero.&#8221; A vida se esgotara, talvez cedo..., cedo demais.</p><p style="text-align: justify;"><strong>&#8309; </strong>Fico pensando: o quanto ele achou que viveu o suficiente? Morreu feliz com o que escreveu? Morreu feliz com o que fez? Cinquenta foi o limite, mas, mesmo assim, chutou cachorro morto por mais dezessete anos? Caralho: ele, sim, pode ter tentado; dezessete anos tentando. Ele tentou, Ernest Hemingway tentou, S&#225;ndor M&#225;rai tentou. Todos eles tentaram, mas desistiram em algum momento. Isso me clareia um ponto: escritores est&#227;o mais pr&#243;ximos de n&#243;s do que das ideias que temos deles. S&#227;o gente como a gente. Ironicamente, fico feliz com essa proximidade.</p><p style="text-align: justify;"><strong>&#8310; </strong>Mas veja que proximidade ainda pressup&#245;e certa dist&#226;ncia: enquanto n&#243;s nos degladiamos com a vida para termos o que dizer e escrever, esses a&#237; j&#225; se sentiam satisfeitos. Escreveram o que queriam: miss&#227;o cumprida! N&#227;o precisaram esperar que Deus os levasse.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Eu fa&#231;o isso, pode deixar &#8212; Thompson diz enquanto sacava sua arma.</p><p style="text-align: justify;">Do outro lado da linha, Anita, sua esposa, pergunta:</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Isso o qu&#234;? Disse alguma coisa?</p><p style="text-align: justify;">Thompson n&#227;o diz nada. Tudo o que se ouve &#233; aquele chiado telef&#244;nico e, rapidamente, um &#8220;<em>click</em>&#8221;. Anita achou que foi sua m&#225;quina de escrever... <em>Bang!<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a></em></p><p style="text-align: justify;"><strong>&#8311;</strong>Quando escrevi a cr&#244;nica &#8220;<em>Mulheres</em>&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a>, conversei com um amigo no dia seguinte. Est&#225;vamos sob o frio sol de Sampa, na nossa acolhedora universidade. Disse-me que o inspirei de alguma forma, assim como viu no meu texto certa semelhan&#231;a com Hemingway e Thompson. Eu n&#227;o sabia onde enfiar a cara: tanto um quanto o outro fecharam-se &#224; vida do mesmo modo &#8212; com um tiro! Sei que ele n&#227;o quis falar nesse sentido; pelo contr&#225;rio: acho que nem procurou saber o desfecho de Thompson. Apesar disso, ambos s&#227;o a nata da literatura americana, cada um um bandeirante em seu pr&#243;prio estilo. Fico feliz que esse tenha sido o valor de sua impress&#227;o. Engra&#231;ado, por&#233;m, eu n&#227;o saber receber elogios: tudo o que lhe respondi foi um lastim&#225;vel e sorridente &#8220;obrigado&#8221;.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Escritores s&#227;o estranhos &#8212; ele diz.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Oh, se s&#227;o. Cada coisa que vivem &#8212; respondo.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Pois &#233;. Ou eles s&#227;o drogados, ou s&#227;o loucos, ou viveram o inferno.</p><p style="text-align: justify;"><strong>&#8312; </strong>&#8220;Viveram o inferno&#8221;, pensei em Fi&#243;dor Dostoi&#233;vski. Ele participara de um grupo de intelectuais dissidentes, o C&#237;rculo Petrachevski. Em 1849, foi preso e acusado de conspirar para o assassinato do czar Nicolau I da R&#250;ssia. Este, ent&#227;o, como pena, orquestrou uma falsa execu&#231;&#227;o: Dostoi&#233;vski e outros seriam enfileirados e mortos por fuzilamento. No &#250;ltimo segundo, por&#233;m, isso n&#227;o aconteceu. A execu&#231;&#227;o foi interrompida. Todos, inclusive o escritor, foram mandados para trabalhos for&#231;ados na Sib&#233;ria. Ele escapou da morte por um segundo e por um &#8220;susto&#8221; intencional. Na verdade, acho que ele nunca esteve pr&#243;ximo da morte &#8212; n&#227;o nesse caso. N&#227;o havia morte para Dostoi&#233;vski naquele dia. Mas, vejam: Dostoi&#233;vski acreditou que morreria.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; 10! &#8212; exclama o oficial.</p><p style="text-align: justify;">&#8220;Ai, caralho! Eu t&#244; fodido...&#8221; &#8212; pensa Dostoi&#233;vski.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; 9...</p><p style="text-align: justify;">&#8220;Nah! Foda-se. Eu aceito.&#8221;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; 8...</p><p style="text-align: justify;">&#8220;Deus nem existe mesmo, n&#227;o tem como &#8216;Ele&#8217; me tirar daqui.&#8221;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; 7..., 6..., 5...</p><p style="text-align: justify;">&#8220;Conv&#233;m &#8216;Ele&#8217; existir...&#8221;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; 4...</p><p style="text-align: justify;">&#8220;Ai, meu Deus...&#8221;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; 3...</p><p style="text-align: justify;">&#8220;Puta que pariu! Deus, ajude-me!&#8221;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; 2...</p><p style="text-align: justify;">&#8220;Deus! Perdoa-me! Eu acredito no Senhor!&#8221;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Brincadeira!</p><p style="text-align: justify;"><strong>&#8313; </strong>O pior: anos depois, <em>Escritos da Casa Morta</em>. Em seguida, entre uns e outros, <em>Crime e Castigo</em>, <em>Os Dem&#244;nios</em> e, antes de morrer, <em>Os Irm&#227;os Karam&#225;zov</em>. Dostoi&#233;vski precisou presumir que morreria daquele jeito b&#225;rbaro para ser Dostoi&#233;vski? Muitos desistiriam de viver apenas pelo susto, apenas por acreditarem na morte. Dostoi&#233;vski, n&#227;o. Al&#233;m do mais, passou a nutrir admira&#231;&#227;o pelo czar e se converteu ao cristianismo ortodoxo. Depois de trancar o cu naquele dia, por que n&#227;o virar puxa-saco do regime?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ser&#225; que devo me drogar, enlouquecer ou viver o inferno para ser um bom escritor? &#8212; pergunto ap&#243;s refletir um pouco.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Acho que voc&#234; s&#243; precisa viver, mesmo.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Viver o qu&#234;?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Sei l&#225; &#8212; ele d&#225; de ombros. &#8212; A vida?</p><p style="text-align: justify;"><strong>&#185;&#8304; </strong>A &#8220;<em>vida</em>&#8221;. Que porra de vida? &#192;s vezes acredito naquilo que gosto de declinar: &#8220;n&#227;o se vive; apenas estamos aqui&#8221; ou &#8220;vida &#233; para alguns, n&#227;o para n&#243;s&#8221;. &#201;, veja: o que preenche minha vida? Faculdade, provas, alguns livros e punheta? N&#227;o h&#225; nada de especial a&#237;. &#192;s vezes me apaixono, &#224;s vezes odeio algu&#233;m..., mas s&#227;o coisas discretas. Bom, vejo-me enquadrado por excel&#234;ncia naquilo que Charles Bukowski dizia:</p><div class="pullquote"><p style="text-align: justify;">&#8220;Que tempos penosos foram aqueles anos &#8212; ter o desejo e a necessidade de viver, mas n&#227;o a habilidade.&#8221;</p></div><p style="text-align: justify;"><strong>&#185;&#185; </strong>&#201;, n&#227;o tenho habilidade para muita coisa. Nem para amar, apesar de querer. Escrever, ent&#227;o..., <em>puf!</em>, nem sei o que fa&#231;o aqui. Tenho esse anseio de viver, de criar, de amar algu&#233;m, de sentir-me humano. Pouco experimentei tudo isso, e muitas vezes me percebi apenas estando aqui. <em>Estar</em> &#233; o <em>n&#227;o viver</em>...: n&#243;s j&#225; vimos esse desfecho. N&#227;o que eu insinue um suic&#237;dio, n&#227;o; pelo contr&#225;rio: quero viver antes que isso possa surgir como cogita&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;"><strong>&#185;&#178; </strong>Ali&#225;s, como consequ&#234;ncia dessa quer&#234;ncia por viver, quero escrever. Hei de dizer ao mundo tantas verdades que me perco em diz&#234;-las. Perco-me porque n&#227;o as sei proclamar; n&#227;o vivi para diz&#234;-las com a for&#231;a do peito; n&#227;o ousei, sequer, defend&#234;-las diante de qualquer um. O que espero da minha escrita se n&#227;o sei viver? &#201; aquela frase de Jos&#233; Saramago:</p><div class="pullquote"><p style="text-align: justify;">&#8220;Escrever &#233; um modo de viver, mas pressup&#245;e ter vivido.&#8221;</p></div><p style="text-align: justify;"><strong>&#185;&#179; </strong>S&#227;o dizeres inesgot&#225;veis: hei, mesmo, de viver para escrever, assim como hei de escrever para viver. Um n&#227;o prescinde do outro. A quest&#227;o seria: onde posso viver? E, quando viver &#8212; se viver &#8212;, como poderia diz&#234;-lo?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Puta que pariu! &#8212; brame um homem que se levanta bruscamente da cama.</p><p style="text-align: justify;">A enfermeira entra em choque. Imediatamente se apruma e corre &#224; porta.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ele acordou, ele acordou! &#8212; grita ao sair do quarto.</p><p style="text-align: justify;">Logo em seguida, um m&#233;dico entra e examina o homem assustado.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Voc&#234; sabe onde est&#225;? Sabe quem &#233;? Sabia que estava em coma?</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o responde.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Senhor, por favor...</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Senhor Rodrigues &#8212; exclama o homem.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Certo... &#8212; silaba o m&#233;dico. Ele olha para a enfermeira com um semblante despreocupado e acena positivamente. Mira novamente o Senhor Rodrigues:</p><p style="text-align: justify;">&#8212; O senhor...</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Que bela besta &#233; o Marx!</p><p style="text-align: justify;">O m&#233;dico n&#227;o entendeu, tampouco a enfermeira. Anos depois, diria isso a outro sujeito &#8212; um chamado Otto Lara Resende. T&#244; falando do &#8220;anjo pornogr&#225;fico&#8221;, Nelson Rodrigues.</p><p style="text-align: justify;"><strong>&#185;&#8308; </strong>Ap&#243;s o coma, <em>O &#211;bvio Ululante</em>, <em>A Vida Como Ela &#201;</em> e <em>O Reacion&#225;rio</em>. Num &#225;timo, Nelson Rodrigues reinventa-se ainda mais original, ainda mais espirituoso, ainda mais criativo. &#192; luz de toda a sua obra passada, Rodrigues faz-se um dos maiores, sen&#227;o o maior, cronistas e dramaturgos deste pa&#237;s. V&#225; entender como isso ocorre. Acontece que, enquanto vivia no limite de seu corpo, Nelson absorveu tudo o que lhe acometia. Enxergou sentido atemporal em tudo isso e, com a mesma maestria costureira, fez de sua vida a mais espont&#226;nea e necess&#225;ria literatura. Mas eu&#8230;, eu vivo o &#234;xtase da vida e&#8230;, n&#227;o sei dizer nada.</p><p style="text-align: justify;"><strong>&#185;&#8309; </strong>Volto para casa, amargo. Pego o carro e vou. Estrada vazia, sossego, consci&#234;ncia para todas as dire&#231;&#245;es.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Voc&#234; precisa foder e beber.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; O que?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Voc&#234; ouviu bem: foder e beber.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ah, oi, senhor Bukowski &#8212; ele estava no banco de tr&#225;s, inclinado para frente entre os bancos frontais. Segurava um copo de <em>whisky</em>.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; N&#227;o se acanhe &#8212; ele continua &#8212;, isso vai te dar muito o que escrever&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; N&#227;o &#8212; outra voz exclama. &#8212; N&#227;o ou&#231;as ele.</p><p style="text-align: justify;">Era Dostoi&#233;vski no banco do passageiro.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Dostoi&#233;vski? &#8212; eu e Bukowski o fitamos surpresos.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Sim, eu mesmo. Ou&#231;a: n&#227;o &#233; o limite da vida que te dar&#225; raz&#245;es para o <em>dizer</em>. Conhe&#231;a tua pr&#243;pria pessoa, teus pr&#243;prios dem&#244;nios. &#201; a tua consci&#234;ncia que te importa&#8230;</p><p style="text-align: justify;">Eu ou&#231;o atento. Bukowski parecia n&#227;o se importar.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Mas, senhor Dostoi&#233;vski, eu sinto essa dor, esse desconforto. Eu anseio tudo isso. Conhe&#231;o minha consci&#234;ncia, mas&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Mas falta-te o trabalho intelectual. L&#234;, escreve, estuda. Precisa disso.</p><p style="text-align: justify;"><strong>&#185;&#8310; </strong>Reflito. O que ler, o que escrever? Logo, logo: concursos, servi&#231;os p&#250;blicos, sal&#225;rios&#8230; N&#227;o vejo felicidade intelectual nisso. Vou virar um agente burocrata: preencher papelada, fazer despachos&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Pare com isso! &#8212; outra voz replica.</p><p style="text-align: justify;">N&#243;s tr&#234;s olhamos assustados. Ele estava sentado atr&#225;s do banco do motorista.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Nossa, n&#227;o achei que voc&#234; estaria aqui &#8212; eu digo, surpreso. &#8212; Como vai, senhor Kafka?</p><p style="text-align: justify;">&#8212; &#211;timo, obrigado &#8212; ele diz. &#8212; Voc&#234; insinuou &#8220;servi&#231;os p&#250;blicos&#8221;? Isso me cheira a burocracia&#8230; Bem! Voc&#234;s sabem &#8212; (Dostoi&#233;vski n&#227;o fazia ideia) &#8212;, eu tive anos penosos degladiando com a burocracia. Minha realidade n&#227;o foi t&#227;o alegre ou agitada. Foi totalmente o contr&#225;rio.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Voc&#234; tem raz&#227;o&#8230;; mas tinha, tamb&#233;m, essa consci&#234;ncia art&#237;stica. Voc&#234;s todos. Eu n&#227;o tenho nem isso&#8230;</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Se o camarada aqui tem isso, &#8220;consci&#234;ncia art&#237;stica&#8221; &#8212; Kafka mirou Bukowski &#8212;, voc&#234; tamb&#233;m tem. S&#243; precisa desenvolv&#234;-la.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ah, n&#227;o fode! &#8212; replica Bukowski.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; T&#225; bom, t&#225; bom! &#8212; eu digo alto &#8212; Tenham paci&#234;ncia. Eu agrade&#231;o pelo que dizem, mas voc&#234;s s&#227;o <em>voc&#234;s</em>. Eu n&#227;o vivi as suas vidas, n&#227;o conhe&#231;o seus dem&#244;nios, nada!</p><p style="text-align: justify;"><strong>&#185;&#8311; </strong>Ficamos quietos. Sei que disse isso apoiado em certas inverdades. Sabia que estava errado, dizia o errado, e tentava convencer-me do errado. Eu performo algu&#233;m que tento n&#227;o ser, por birra ou infantilidade. &#201; meu g&#234;nio ign&#243;bil.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Ainda n&#227;o percebeu? &#8212; mais uma voz. Vinha do banco de tr&#225;s do banco dos passageiros. &#8212; N&#227;o percebeu que est&#225; errado, e de muitas coisas?</p><p style="text-align: justify;">Reconhe&#231;o quem diz. Uma certa felicidade toma conta de mim.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Quem foi David Bowman para voc&#234;? &#8212;pergunta-me.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Eu n&#227;o&#8230;, n&#227;o sei dizer&#8230; &#8212; tento dizer algo.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; O que David Bowman fez? &#8212; insistia a voz. &#8212; Voc&#234; sabe, sim: leu A Odisseia.</p><p style="text-align: justify;">Fico em sil&#234;ncio. Todos ouviam Arthur Clarke com cautela.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; David Bowman &#8212; ele continua &#8212; arriscou tudo. Foi at&#233; o fim e, sabe-se l&#225; o que aconteceu. Ele abra&#231;ou o seu destino. Escolheu e arriscou. Voc&#234; precisa fazer isso, assim como todos n&#243;s. Veja: o que voc&#234; vai <em>dizer</em> se n&#227;o aceitar <em>viver</em>? N&#227;o &#233; a vida dos senhores aqui que te importa (talvez, para conhecimento e inspira&#231;&#227;o), mas o que te importa &#233; a <em>sua </em>vida e a forma que voc&#234; vai diz&#234;-la ao mundo. Bukowski viveu suas baixarias, Kafka viveu o Estado, Dostoi&#233;vski viveu a introspec&#231;&#227;o do ser&#8230;; e eu posso dizer que vivi a ci&#234;ncia. Todos n&#243;s vivemos intensamente aquilo que nos foi reservado; n&#227;o porque fomos agraciados com todas essas circunst&#226;ncias e um g&#234;nio criativo, pelo contr&#225;rio: porque escolhemos viver intensamente tudo isso. Todos podem escolher viver intensamente. Basta, somente, coragem.</p><p style="text-align: justify;">Escorria-me l&#225;grimas dos olhos. De todos, inclusive. Nunca vi Bukowski emocionado &#8212; at&#233; aquele dia.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; Mas voc&#234;s souberam transmitir essa vida. <em>Como</em>? &#8212; pergunto aflito.</p><p style="text-align: justify;">&#8212; A&#237; que est&#225; a quest&#227;o: n&#227;o &#233; <em>como</em> a dizemos; &#233; <em>porqu&#234;</em> a dizemos. Afinal, antes de sermos escritores, algum dia fomos leitores. Ou, melhor dizendo: s&#243; somos escritores porque somos leitores. Como quer ter uma &#8220;consci&#234;ncia art&#237;stica&#8221; se n&#227;o se nutre de arte? Esse &#233; o nosso papel, porque nutrimos as pessoas com possibilidades de consci&#234;ncia, possibilidades de compreender a pr&#243;pria vida, e damos a elas um arcabou&#231;o diferente daquele que elas j&#225; t&#234;m. E, voc&#234; mesmo disse: &#8220;estamos mais pr&#243;ximos de voc&#234;s do que das suas ideias sobre n&#243;s&#8221;.</p><p style="text-align: justify;"><strong>&#185;&#8312;</strong> Chego em casa. Descal&#231;o, ando e perco os passos no tempo, esfriando os p&#233;s. Carrego um esp&#237;rito aborrecido, atormentado. Sinto que a alma clama ao corpo por tr&#233;gua, porque ela sabe que por ele eu a sacrifico. Entro no quarto e vejo livros alinhados nas prateleiras. Reflito, empachado de certo orgulho, ao v&#234;-los ali, quietos, silentes atr&#225;s do vidro: uns que j&#225; contaram suas hist&#243;rias e outros que ainda anseiam por diz&#234;-las.</p><p style="text-align: justify;"><strong>&#185;&#8313; </strong>Performo a queda de C&#233;sar quando me jogo na cama e me embrulho nos cobertores e travesseiros, deixando que o corpo, imolado pelo dia, inicie seu sacro descanso. Estiro-me por todo o colch&#227;o apoiado sobre as flex&#237;veis fasquias e n&#227;o deixo que ele me empedre as esc&#225;pulas. Advers&#225;rio de toda dor, transpare&#231;o um regozijo silente, breve naquele frio da tarde, porque conhe&#231;o o remanso intermin&#225;vel e o frio derrotado.</p><p style="text-align: justify;"><strong>&#178;&#8304; </strong>Resta-me dar espa&#231;o &#224; consci&#234;ncia, que tanto clama por dizer. Ou&#231;o-a. Liberto-a. Fa&#231;o-a profeta dos meus tempos. Vejo que Thompson espera na minha cabeceira. Vejo que muitos me esperam na cabeceira. &#201; saber ouvi-los, apenas.</p><div><hr></div><p style="text-align: justify;">21/mai./2026</p><p style="text-align: justify;">Mogi das Cruzes, S.P.</p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>N&#227;o sei se foi assim. Nunca saberei. Tentei ilustrar como imagino a cena. A verdade, por&#233;m, &#233; sempre mais estranha. Deixemos que a fic&#231;&#227;o esclare&#231;a sua morte.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>https://open.substack.com/pub/tlferreira/p/mulheres?utm_source=share&amp;utm_medium=android&amp;r=73yogh</p></div></div>]]></content:encoded></item></channel></rss>