<script data-pm-proxy="intercept"></script><?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[TREMELUZENTE]]></title><description><![CDATA[Quase sempre uma crônica. Agora com jazz e De-vindo!]]></description><link>https://tremeluzente.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!HmoM!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Ftremeluzente.substack.com%2Fimg%2Fsubstack.png</url><title>TREMELUZENTE</title><link>https://tremeluzente.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Fri, 04 Sep 2026 08:39:01 GMT</lastBuildDate><atom:link href="/__u/tremeluzente.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[briony]]></copyright><language><![CDATA[pt]]></language><webMaster><![CDATA[tremeluzente@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[tremeluzente@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[briony.]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[briony.]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[tremeluzente@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[tremeluzente@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[briony.]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[DE-VINDO #15]]></title><description><![CDATA[Visibilidade e po&#233;tica l&#233;sbica!]]></description><link>https://tremeluzente.substack.com/p/de-vindo-15</link><guid isPermaLink="false">https://tremeluzente.substack.com/p/de-vindo-15</guid><dc:creator><![CDATA[briony.]]></dc:creator><pubDate>Sat, 29 Aug 2026 21:48:31 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/d02d3331-6989-4e94-bf04-9694e96d1c40_7016x4961.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<h3><strong><span>A poesia &#233; primeira l&#237;ngua l&#233;sbica.</span></strong></h3><p><span>// Por </span><strong><span>Bruna Cabral.</span></strong></p><p><span>O poema &#233; a primeira l&#237;ngua que a l&#233;sbica conhece. Antes de saber escrever, antes mesmo de saber explicar o que acontece, existe o olhar. Existe uma mulher que chama aten&#231;&#227;o de um modo diferente das outras, existe a vontade de permanecer perto dela, de observar sua boca, suas m&#227;os, a maneira como se move. Existe a imagina&#231;&#227;o, que continua formando esse corpo mesmo quando ele est&#225; longe. H&#225; uma experi&#234;ncia do desejo que j&#225; &#233; po&#233;tica antes de encontrar a literatura, quando finalmente escrevemos, n&#227;o come&#231;amos ali. A escrita recolhe uma linguagem que o corpo j&#225; fala fluentemente.</span></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://tremeluzente.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler TREMELUZENTE! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p><span>&#201; nesse sentido que penso em Safo e em Lesbos. Como uma imagem fundadora de algo que ainda reconhecemos: mulheres fazendo do desejo por mulheres uma mat&#233;ria de linguagem. A lira importa porque transforma uma experi&#234;ncia &#237;ntima em canto sem retir&#225;-la de sua dimens&#227;o corporal. O que era sentido pode ser dito, o que era dirigido a uma mulher pode encontrar forma e permanecer. H&#225; uma esp&#233;cie de continuidade nisso: a l&#233;sbica que escreve hoje n&#227;o inventa a possibilidade de desejar uma mulher atrav&#233;s da poesia. Ela encontra, na poesia, uma l&#237;ngua que j&#225; lhe pertence.</span></p><p><span>Mary Oliver torna essa l&#237;ngua particularmente corporal. Em </span><em><span>The Gardens</span></em><span>, ela escreve:</span></p><blockquote><p><strong><span>&#8220;This skin you wear so neatly, / in which you settle / so brightly on the summer grass, how / shall I know it?&#8221;<br></span></strong><em><span>&#8220;Essa pele que voc&#234; veste t&#227;o delicadamente, / na qual voc&#234; repousa / t&#227;o luminosa sobre a grama de ver&#227;o, como / poderei conhec&#234;-la?&#8221;</span></em></p></blockquote><p><span>A pergunta de Oliver &#233; er&#243;tica porque </span><strong><span>conhecer</span></strong><span> a outra n&#227;o significa compreend&#234;-la intelectualmente. &#201; aproximar-se de seu corpo. &#201; olhar para ele at&#233; que olhar j&#225; n&#227;o pare&#231;a suficiente. A mulher est&#225; deitada sobre a grama; sua pele, seu brilho e seu repouso pertencem &#224; paisagem. Em seguida:</span></p><blockquote><p><strong><span>&#8220;You gleam as you lie back / breathing like something / taken from water, / a sea creature&#8230;&#8221;<br></span></strong><em><span>&#8220;Voc&#234; reluz enquanto se deita, / respirando como algo / retirado da &#225;gua, / uma criatura marinha&#8230;&#8221;</span></em></p></blockquote><p><span>E o corpo continua:</span></p><blockquote><p><strong><span>&#8220;which tremble / and open / into the dark country / I keep dreaming of.&#8221;<br></span></strong><em><span>&#8220;que tremem / e se abrem / para o pa&#237;s escuro / que continuo sonhando.&#8221;</span></em></p></blockquote><p><span>H&#225; uma mulher olhando para outra mulher e desejando seu corpo sem que esse desejo precise ser deslocado para fora da natureza. A mulher est&#225; na grama, seu corpo lembra a &#225;gua, suas pernas tremem e se abrem. Oliver n&#227;o escreve a lesbianidade como uma exce&#231;&#227;o ao mundo natural. Ela escreve o desejo dentro dele. Isso me interessa especialmente porque a ideia de que o desejo entre mulheres seria uma esp&#233;cie de desvio do &#8220;natural&#8221; sempre dependeu de separar o corpo l&#233;sbico daquilo que se entende como natureza. Oliver desfaz essa separa&#231;&#227;o de maneira muito simples: </span><strong><span>uma mulher deseja outra mulher e continua sendo corpo, animal, &#225;gua, pele, respira&#231;&#227;o, terra.</span></strong></p><p><span>Por isso, quando ela termina perguntando </span><strong><span>&#8220;How / shall I touch you / unless it is / everywhere?&#8221;</span></strong><span> &#8212; </span><em><span>&#8220;Como / poderei tocar voc&#234; / se n&#227;o for / em toda parte?&#8221;</span></em><span> &#8212;, o erotismo j&#225; n&#227;o cabe em um &#250;nico ponto do corpo. A presen&#231;a da mulher se espalhou pela paisagem. Toc&#225;-la &#233; tamb&#233;m tocar aquilo que a cerca, desej&#225;-la modifica a pr&#243;pria maneira de perceber o mundo. A natureza n&#227;o est&#225; ao lado do erotismo l&#233;sbico, ela &#233; atravessada por ele.</span></p><p><span>E &#233; justamente aqui que a poesia se torna uma primeira l&#237;ngua. O poema n&#227;o apenas conta que Oliver deseja uma mulher. Ele encontra uma maneira de organizar o mundo a partir desse desejo. A mulher que olha &#233; sujeito, a mulher olhada &#233; objeto de desejo, a paisagem inteira se reorganiza ao redor desse encontro. A linguagem deixa de obedecer &#224; gram&#225;tica pela qual o desejo costuma ser organizado. N&#227;o h&#225; homem entre essas duas posi&#231;&#245;es, nenhuma complementaridade masculina necess&#225;ria, nenhuma finalidade que precise justificar aquele encontro. H&#225; duas mulheres e o desejo de uma delas pela outra.</span></p><p><span>Essa ruptura n&#227;o acontece somente na literatura. Em </span><em><span>Ta Reine</span></em><span>, Ang&#232;le come&#231;a exatamente onde come&#231;a a experi&#234;ncia que Oliver transforma em poema: </span><strong><span>no olhar</span></strong><span>.</span></p><blockquote><p><strong><span>&#8220;Si seulement elle savait comment / Comment tu la regardais, elle serait effray&#233;e&#8221;<br></span></strong><em><span>&#8220;Se ela soubesse como / como voc&#234; olhava para ela, ficaria assustada.&#8221;</span></em></p><p><strong><span>&#8220;Si seulement elle savait comment / Comment tu l&#8217;imaginais, elle pourrait t&#8217;ab&#238;mer&#8221;<br></span></strong><em><span>&#8220;Se ela soubesse como / como voc&#234; a imaginava, poderia te ferir.&#8221;</span></em></p></blockquote><p><span>Antes da m&#250;sica existe aquela mulher olhando. Antes da letra existe a imagina&#231;&#227;o. A outra ainda n&#227;o sabe o que est&#225; acontecendo, mas j&#225; foi transformada pelo desejo em presen&#231;a &#237;ntima: &#233; olhada, imaginada, desejada. O que Ang&#232;le faz &#233; dar m&#250;sica a uma experi&#234;ncia que j&#225; existia antes de ser m&#250;sica. E quando canta </span><strong><span>&#8220;M&#234;me si deux reines c&#8217;est pas trop accept&#233;&#8221;</span></strong><span> &#8212; </span><em><span>&#8220;Mesmo que duas rainhas n&#227;o sejam aceitas&#8221;</span></em><span> &#8212;, ela explicita aquilo que a pr&#243;pria forma do desejo j&#225; havia colocado em quest&#227;o: duas mulheres podem ocupar simultaneamente o lugar de quem deseja e de quem &#233; desejada.</span></p><p><span>&#201; por isso que n&#227;o penso a poesia l&#233;sbica apenas como uma literatura que </span><strong><span>representa</span></strong><span> l&#233;sbicas. Ela produz uma outra gram&#225;tica para o desejo. A gram&#225;tica heterossexual nos ensina, desde muito cedo, quem deve olhar, quem deve ser olhada, quem deseja e quem &#233; desej&#225;vel. O poema pode desmontar essa distribui&#231;&#227;o. Quando uma mulher escreve a partir do desejo por outra mulher, ela n&#227;o est&#225; simplesmente preenchendo com um novo personagem uma estrutura que j&#225; existia. Ela altera a pr&#243;pria estrutura. A mulher passa a ser sujeito do erotismo; seu olhar passa a produzir o corpo da outra como objeto de desejo; o mundo deixa de ser organizado pela presen&#231;a necess&#225;ria do homem.</span></p><p><span>Nesse sentido, </span><strong><span>o poema cria o lesbianismo dentro da linguagem</span></strong><span>. N&#227;o porque invente o desejo, que j&#225; existe no corpo, mas porque cria um lugar em que esse desejo pode existir sem precisar ser traduzido para a l&#243;gica heterossexual. &#201; uma diferen&#231;a importante: o poema n&#227;o vem depois da experi&#234;ncia l&#233;sbica, como seu coment&#225;rio. Ele participa da sua possibilidade de exist&#234;ncia. Aquilo que sentimos encontra uma forma que n&#227;o nos obriga a desejar de outro modo para sermos compreendidas.</span></p><p><span>Talvez seja por isso que a poesia permane&#231;a t&#227;o &#237;ntima da viv&#234;ncia l&#233;sbica. Antes de qualquer defini&#231;&#227;o, h&#225; uma mulher que olha para outra e sente alguma coisa acontecer. Antes da palavra &#8220;l&#233;sbica&#8221;, h&#225; a imagem daquela mulher que permanece na cabe&#231;a; antes da can&#231;&#227;o, a fantasia; antes do poema, o corpo. A linguagem art&#237;stica apenas d&#225; dura&#231;&#227;o a essa experi&#234;ncia. Safo a cantou, Mary Oliver a escreveu entre a pele e a grama, Ang&#232;le a transformou em m&#250;sica. S&#227;o formas diferentes de uma mesma opera&#231;&#227;o, </span><strong><span>uma mulher olha para outra mulher e encontra, nesse olhar, uma l&#237;ngua para o pr&#243;prio desejo.</span></strong></p><p><span>A poesia &#233; essa l&#237;ngua porque permite que a experi&#234;ncia n&#227;o seja corrigida antes de ser dita. E talvez a visibilidade l&#233;sbica comece exatamente a&#237;: no direito de existir como sujeito do desejo, de olhar, imaginar, tocar, escrever e cantar sem que seja necess&#225;rio recolocar um homem no centro para que aquilo que sentimos fa&#231;a sentido. A l&#233;sbica n&#227;o entra na poesia para ser representada. </span><strong><span>Ela escreve, e ao escrever altera a pr&#243;pria gram&#225;tica do mundo.</span></strong></p><div><hr></div><h1 style="text-align: justify;"><strong><span>Lesbianidade e o imposs&#237;vel.</span></strong></h1><p style="text-align: justify;"><strong><span>// </span></strong><span>Por </span><strong><span>Victor N. Silva.</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><span> Como pensar a lesbiandade? Como pensar a condi&#231;&#227;o da mulher l&#233;sbica nos tempos contempor&#226;neos? Essas s&#227;o perguntas grandes demais para nossos ensaios pequenos demais, ao inv&#233;s de sobre a condi&#231;&#227;o da l&#233;sbica, vamos pensar com as l&#233;sbicas, deixar o pensamento nos invadir, e apartir disso interpretar, construir juntos significados.</span></p><p style="text-align: justify;"><span> E quem vai nos ajudar a compor esse ato de pensar ser&#225; a Cristina Peri Rossi. Rossi &#233; uma exilada. Pensamos que esse &#233; um bom conceito para pensar a sua condi&#231;&#227;o: o ex&#237;lio. Agora para nos ajudar a tecer algumas linhas, vamos pensar junto tamb&#233;m da Luce Irigaray, uma feminista belga ligada as quest&#245;es da psican&#225;lise. Irigaray argumenta que:</span></p><blockquote><p><span>&#8220;que as mulheres constituem um paradoxo, se n&#227;o uma contradi&#231;&#227;o, no seio do pr&#243;prio discurso da identidade. As mulheres s&#227;o o &#8220;sexo&#8221; que n&#227;o &#233; &#8220;uno&#8221;. Numa linguagem difusamente masculinista, uma linguagem faloc&#234;ntrica, as mulheres constituem o irrepresent&#225;vel.&#8221; (BUTLER, 2018)</span></p></blockquote><p style="text-align: justify;"><span>ou seja &#8220; (...) as mulheres s&#227;o o sexo que n&#227;o &#233; &#8220;uno&#8221;, mas m&#250;ltiplo.&#8221; (BUTLER, 2018). Analisando a linguagem (tamb&#233;m a linguagem psicanal&#237;tica) como faloc&#234;ntrica e heterocentrada, as mulheres, assim, representam um furo, um paradoxo; se, somente o homem &#233; o sujeito do sexo uno, o sujeito universal dono-de-si, as mulheres se tornam assim o pr&#243;prio paradoxo, o multiplo, o escape, ousemos aqui dizer que at&#233; o </span><strong><span>ex&#237;lio. </span></strong><span>S&#227;o aquelas capazes de linguagem, que s&#227;o expulsas de sua pr&#243;pria casa (a linguagem), sem nenhuma capacidade de retorno, essa &#233; a condi&#231;&#227;o da mulher, e da mulher l&#233;sbica mais ainda. Pensar na mulher l&#233;sbica, na sua sexualidade, seria imposs&#237;vel, pois n&#227;o h&#225; linguagem para ela.</span></p><p style="text-align: justify;"><span> Por isso, para pensar na sexualidade da mulher l&#233;sbica, retornemos a Rossi, pois n&#227;o seria outro o trabalho do poeta do que colocar o imposs&#237;vel em palavras. A sua po&#233;tica &#233; precisamente a po&#233;tica do imposs&#237;vel. Todos os temas que lhe atravessam pelo tempo, est&#227;o ligados: o amor, a linguagem, o sexo, o ex&#237;lio. Porque nos parece que, para ela, pensar o amor e o sexo &#233; pensar na linguagem do imposs&#237;vel, no ex&#237;lio da linguagem.</span></p><blockquote><p><span>&#8220;Amar &#233; traduzir <br>&#8211; trair.</span></p><p><span>Nost&#225;lgicos para sempre<br>do para&#237;so antes de Babel.&#8221;<br><br></span></p><p><span>&#8220;Te amo como minha semelhante</span></p><p><span>minha igual minha parecida</span></p><p><span>de escrava a escrava <br>(...)<br>Fazemos amor incestuosamente</span></p><p><span>escandalizando os peixes</span></p><p><span>e os bons cidad&#245;es dete</span></p><p><span>e de todos os partidos&#8221;</span></p><p><span>&#8220;Sem d&#250;vida nossa vingan&#231;a ser&#225; o amor</span></p><p><span>poder amar, ainda</span></p><p><span>pode amar, apesar de tudo&#8221; </span></p><p><span>&#8220;As palavras n&#227;o podem dizer a verdade</span></p><p><span>a verdade n&#227;o &#233; diz&#237;vel</span></p><p><span>a verdade n&#227;o &#233; l&#237;ngua falada</span></p><p><span>a verdade n&#227;o &#233; um ditado</span></p><p><span>a verdade n&#227;o &#233; um relato</span></p><p><span>no div&#227; do psicanalista</span></p><p><span>ou nas p&#225;ginas de um livro.</span></p><p><span>Considere, ent&#227;o, tudo o que falamos voc&#234; e eu<br>em noites sem dormir</span></p><p><span>em tardes apaixonadas em caf&#233;s<br>&#8211; London, Astoria, Arlequ&#237;n &#8211;<br>apenas como sedu&#231;&#227;o</span></p><p><span>no mesmo lugar das meias pretas<br>e da cinta-liga de renda:<br>estrat&#233;gias do desejo.&#8221;<br>(ROSSI, 2025)</span></p></blockquote><p style="text-align: justify;"><span> Observa-se a estrutura&#231;&#227;o do conceito de amor: uma trai&#231;&#227;o, um indiz&#237;vel, uma coisa incenstuosa, imposs&#237;vel, irrepresent&#225;vel, escandalosa. A imagem do incensto aqui n&#227;o &#233; somente para expressar um &#8220;amor entre semelhante&#8221;, mas como tamb&#233;m, a figura do interdito, da proibi&#231;&#227;o, do limite, o incesto &#233; ele mesmo o limite do que entendemos como civiliza&#231;&#227;o, n&#227;o parece existir nada mais escandalizante para n&#243;s ocidentais como a quebra da interdi&#231;&#227;o do incensto.</span></p><p style="text-align: justify;"><span> Assim, podemos ver como Rossi inscreve sua experi&#234;ncia como mulher l&#233;sbica no mundo, atrav&#233;s de sua po&#233;tica, de sua cria&#231;&#227;o. A imagem que ela cria &#233; uma imagem-limite, ela quer pensar o corte radical, ela est&#225; no corte radical, ela vive esse limite, esse ex&#237;lio. </span><em><span>Nossa vingan&#231;a &#233; o amor, </span></em><span>esse amor que </span><em><span>vinga </span></em><span>&#233; exatamente esse amor paradoxal que existe sem existir, esse amor exilado, fora do logocentrismo, fora (e dentro?) dos mercantilismos, que apesar de tudo acontece, no acontecimento mais puro, sem precedente, sem futuro, que furta a todos os tempos, e se envolve num devir, numa multiplicidade, de encontro com outra multiplicidade, povoando uma zona intempestiva: &#8220;amantes l&#233;sbicas invadem literalmente os corpos uma da outra como um ato de amor&#8221;, Wittig, 2003.</span></p><div><hr></div><p style="text-align: justify;"></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://tremeluzente.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler TREMELUZENTE! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Billie Holiday, quando o blues é lilás.]]></title><description><![CDATA[Mapeando as cores de uma das maiores cantoras de jazz de todos os tempos!]]></description><link>https://tremeluzente.substack.com/p/billie-holiday-quando-o-blues-e-lilas</link><guid isPermaLink="false">https://tremeluzente.substack.com/p/billie-holiday-quando-o-blues-e-lilas</guid><dc:creator><![CDATA[briony.]]></dc:creator><pubDate>Wed, 26 Aug 2026 19:40:11 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/12fbd119-9055-49f8-89a7-4e68deeaf813_3508x4961.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>     Conheci Billie Holiday por </span><strong><span>&#8220;Love Me or Leave Me&#8221;</span></strong><span>. N&#227;o foi </span><em><span>Strange Fruit</span></em><span>, n&#227;o foi </span><em><span>God Bless the Child</span></em><span>, n&#227;o foi sequer uma dessas can&#231;&#245;es que parecem j&#225; nascer acompanhadas de uma legenda sobre a import&#226;ncia hist&#243;rica de quem as canta. Foi aquela mulher dizendo, com uma voz que parece ter aprendido a envelhecer antes do tempo, ame-me ou deixe-me. E talvez haja alguma coisa de profundamente Billie Holiday nisso, descobrir sua m&#250;sica pela intimidade. &#201; uma grava&#231;&#227;o curta, pouco mais de dois minutos e meio, mas h&#225; qualquer coisa nela que parece durar muito mais, Billie n&#227;o precisa levantar a voz para transformar a m&#250;sica numa esp&#233;cie de ultimato sentimental. Ela simplesmente deixa a frase cair, e &#233; justamente na queda que a m&#250;sica ganha peso.</span></p><p><span>Foi ali que eu entendi uma coisa sobre Holiday que talvez seja dif&#237;cil explicar por meio de biografias, cronologias, classifica&#231;&#245;es vocais ou hist&#243;rias do jazz: </span><strong><span>Billie Holiday &#233; uma cantora de cores</span></strong><span>. E, entre todas elas, h&#225; uma que sempre me pareceu particularmente sua, </span><strong><span>o lil&#225;s</span></strong><span>. Essa impress&#227;o tamb&#233;m encontra algum eco na pr&#243;pria iconografia de Billie. </span><em><strong><span>Lady Sings the Blues</span></strong></em><span>, lan&#231;ado em 1956, traz uma fotografia em que os tons azulados parecem avan&#231;ar em dire&#231;&#227;o ao violeta, n&#227;o por acaso, o disco re&#250;ne grava&#231;&#245;es de 1954 e 1956 e foi lan&#231;ado no mesmo ano de sua autobiografia de mesmo nome. </span><em><strong><span>Solitude</span></strong></em><span>, tamb&#233;m de 1956, &#233; ainda mais sugestivo, originalmente lan&#231;ado em 1952 como </span><em><span>Billie Holiday Sings</span></em><span>, o &#225;lbum foi reeditado quatro anos depois em LP de 12 polegadas, recebeu outro t&#237;tulo e, sobretudo, uma nova capa fotogr&#225;fica, mais dram&#225;tica, em uma atmosfera que flerta com o azul-violeta. Dois anos depois </span><em><strong><span>Lady in Satin</span></strong></em><strong><span> (1958)</span></strong><span> parece levar essa paleta para dentro da pr&#243;pria imagem de Billie, seu rosto surge contra uma superf&#237;cie escura, atravessada por tons frios e arroxeados, enquanto o t&#237;tulo evoca justamente uma textura, o cetim.</span></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!5SRW!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F198db84c-57ab-405a-9852-8ac2818df738_820x820.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!5SRW!, /__u/tremeluzente.substack.com/w_424, /__u/tremeluzente.substack.com/c_limit, /__u/tremeluzente.substack.com/f_webp, /__u/tremeluzente.substack.com/q_auto:good, 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Mas talvez seja justamente por isso que penso nela como lil&#225;s, porque o lil&#225;s est&#225; no intervalo entre o branco da flor e o azul do blues. &#201; uma cor que n&#227;o resolve inteiramente a pr&#243;pria identidade, mas mescla. N&#227;o &#233; exatamente azul, nem rosa, &#233; uma cor de passagem. O que primeiro distingue Billie Holiday n&#227;o &#233; necessariamente aquilo que sua voz alcan&#231;a, mas aquilo que nenhuma outra voz parece produzir da mesma maneira. Seu timbre &#233; imediatamente reconhec&#237;vel, rouco, ligeiramente soproso, com uma aspereza que n&#227;o elimina a delicadeza. H&#225; algo de profundamente humano em sua sonoridade, como se a voz estivesse sempre pr&#243;xima da fala e, por isso, carregasse as pequenas imperfei&#231;&#245;es das conversas cotidianas.</span></p><p><span>Talvez seja justamente essa proximidade com a fala que faz de Billie uma cantora t&#227;o singularmente rom&#226;ntica. H&#225;, em seu repert&#243;rio, uma quantidade impressionante de can&#231;&#245;es de amor, mas seria pouco dizer que Billie cantava sobre o amor. Ela cantava sobre o amor quando j&#225; se tornou rela&#231;&#227;o, isto &#233;, quando envolve expectativa, desejo, orgulho, ci&#250;me, recusa e negocia&#231;&#227;o. Em sua voz, o romance deixa de ser um estado ideal e passa a ser uma experi&#234;ncia humana, contradit&#243;ria e, por isso mesmo, mais interessante!</span></p><p><strong><span>&#8220;Love Me or Leave Me&#8221;</span></strong><span> &#233; exemplar porque seu romantismo j&#225; nasce dividido, o t&#237;tulo oferece uma alternativa brutalmente simples: amar ou partir. Mas a pr&#243;pria necessidade de formular a exig&#234;ncia revela que a situa&#231;&#227;o n&#227;o &#233; simples, h&#225; desejo na ordem, e h&#225; inseguran&#231;a na exig&#234;ncia, h&#225; orgulho, mas tamb&#233;m a vontade de ser escolhido. Billie n&#227;o elimina nenhuma dessas camadas. Ao contr&#225;rio, sua interpreta&#231;&#227;o parece preservar a contradi&#231;&#227;o como parte essencial da hist&#243;ria, ela n&#227;o canta apenas uma mulher que quer ser amada, canta uma mulher tentando descobrir o que fazer com o fato de querer.</span></p><p><span>Isso acontece tamb&#233;m em outras escolhas de seu repert&#243;rio.</span><strong><span> &#8220;I&#8217;m a Fool to Want You&#8221; </span></strong><span>n&#227;o celebra o amor, reconhece a sua pr&#243;pria falta de razoabilidade.</span><strong><span> &#8220;Don&#8217;t Explain&#8221;</span></strong><span> n&#227;o constr&#243;i a cena rom&#226;ntica a partir da confian&#231;a, mas da decis&#227;o de permanecer dentro de uma intimidade j&#225; atravessada pela desconfian&#231;a.</span><strong><span> &#8220;You&#8217;ve Changed&#8221;</span></strong><span> transforma o romance em percep&#231;&#227;o, aquilo que antes existia entre duas pessoas j&#225; n&#227;o existe da mesma maneira. S&#227;o hist&#243;rias amorosas, mas nenhuma delas precisa ser purificada para se tornar rom&#226;ntica. Billie parece compreender que o romantismo n&#227;o est&#225; na aus&#234;ncia de conflito, pode estar justamente na intensidade com que algu&#233;m se compromete com aquilo que deseja, mesmo quando esse desejo &#233; contradit&#243;rio.</span></p><p><span>E possivelmente esse seja o lugar mais bonito para deixarmos Billie. N&#227;o somente na gard&#234;nia branca, ou no azul do blues, nem sequer na imagem consagrada da grande cantora de jazz, mas nesse intervalo em que uma cor come&#231;a a se tornar outra. O lil&#225;s n&#227;o explica Billie Holiday, ele a acompanha. Porque em sua arte existe uma recusa persistente de escolher entre coisas que em outras m&#227;os, precisariam ser separadas, voz e fala, desejo e lucidez, romantismo e contradi&#231;&#227;o. Billie n&#227;o resolve essas tens&#245;es, faz delas hist&#243;ria. Talvez por isso que, quando a ouvi pela primeira vez dizendo </span><em><span>love me or leave me</span></em><span>,  n&#227;o escutei simplesmente uma mulher pedindo para ser amada. Escutei uma voz habitando o espa&#231;o muito mais dif&#237;cil, e infinitamente mais bonito, entre ser amada, e saber o que fazer com esse amor. </span><strong><span>&#201; nesse espa&#231;o que, para mim, o blues fica lil&#225;s.</span></strong></p><p><span>Como naquele choro contido de </span><em><span>Brief Encounter</span></em><span>, quando Laura permanece na esta&#231;&#227;o e v&#234; o trem levar Alec embora, depois de desistir de partir com ele. Numa esp&#233;cie de leave-me or love-me.</span></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ouP5!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc379d281-580f-4c6c-9f90-39f6a375f3dc_988x720.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ouP5!, /__u/tremeluzente.substack.com/w_424, /__u/tremeluzente.substack.com/c_limit, /__u/tremeluzente.substack.com/f_webp, /__u/tremeluzente.substack.com/q_auto:good, /__u/tremeluzente.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc379d281-580f-4c6c-9f90-39f6a375f3dc_988x720.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ouP5!, /__u/tremeluzente.substack.com/w_848, /__u/tremeluzente.substack.com/c_limit, 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Na newsletter &#8220;<strong>tremeluzente&#8221;</strong>, escreve sobre m&#250;sica a partir de suas imagens, hist&#243;rias e desdobramentos, atravessando a iconografia das <em>ladies of jazz</em> e a obra de nomes como <strong>Quincy Jones, Pharoah Sanders e Thelonious Monk</strong>, entre outros. Atualmente, tamb&#233;m produz conte&#250;do para o <strong>@curtaclave</strong>, da Marcolino Filmes, e divaga sobre filosofia, linguagem e suas viol&#234;ncias no e-jornal <strong>De-Vindo</strong>.</p><p>As <strong>capas do projeto s&#227;o pensadas e projetadas exclusivamente para o </strong><em><strong>Tremeluzente in Jazz</strong></em> por <strong>Gabriel Voltolini</strong>, que assina visualmente cada edi&#231;&#227;o. Nas redes, <strong>@gvgabe</strong>.</p><p>Este foi mais um <strong>Tremeluzente in Jazz</strong>. Obrigada por ler, escutar e permanecer por aqui.</p><p><strong>Inscreva-se para acompanhar os pr&#243;ximos ensaios.</strong></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://tremeluzente.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/tremeluzente.substack.com/subscribe"><span>Subscreva agora</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[DE-VINDO #14]]></title><description><![CDATA[A linguagem do futebol, Pasolini, Drummond, dois carecas (focault e infantino) e gols!]]></description><link>https://tremeluzente.substack.com/p/de-vindo-14</link><guid isPermaLink="false">https://tremeluzente.substack.com/p/de-vindo-14</guid><dc:creator><![CDATA[briony.]]></dc:creator><pubDate>Sat, 01 Aug 2026 18:50:39 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/c1efcb2d-1f7b-4ab1-b03e-31b90a83a10a_7016x4961.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<h1><strong><span>O que um gol significa?</span></strong></h1><p><strong><span>// Por Bruna Cabral.</span></strong></p><p><span>Se nenhum signo possui um significado definitivo, ent&#227;o o gol talvez seja um dos signos mais inst&#225;veis da cultura contempor&#226;nea. Ele nunca termina quando acontece, continua sendo reescrito, e dando espa&#231;o para textos como esse.</span></p><p><span>Pier Paolo Pasolini dizia que &#8220;o futebol &#233; um sistema de signos, isto &#233;, uma linguagem&#8221;. A frase costuma aparecer em textos sobre esporte como uma curiosidade intelectual, quase um adorno para legitimar uma paix&#227;o popular, mas talvez ela devesse ser tomada ao p&#233; da letra. Se o futebol &#233; uma linguagem, ent&#227;o ele tamb&#233;m produz discursos, fabrica identidades, organiza mem&#243;rias e disputa sentidos. Nenhuma linguagem &#233; neutra, e o futebol tamb&#233;m n&#227;o.</span></p><p><span>Escrevo este texto como uma mulher de vinte e tr&#234;s anos que aprendeu a ler o mundo muito antes de descobrir Derrida ou Pasolini. Aprendi essa leitura em arquibancadas improvisadas, &#224; beira de gramados e dentro da fiat uno preta, voltando para casa depois de partidas que pareciam nunca terminar, tomando banho em vesti&#225;rios depois de suar. Meu pai, flamenguista e ex-jogador profissional, passou boa parte da vida vestindo as cores de clubes portugueses como o Elvenses e o Cambres, ou se aventurando pelo restante da Europa. Foi entre suas hist&#243;rias, seus sil&#234;ncios e sua maneira de enxergar uma partida, que o futebol deixou de ser apenas um esporte para mim, e se tornou uma forma de linguagem.</span></p><p><span>&#201; justamente a&#237; que a filosofia da linguagem encontra o futebol. Jacques Derrida argumentava que nenhum signo possui um significado definitivo, todo sentido permanece aberto, se deslocando conforme o contexto, a mem&#243;ria e a interpreta&#231;&#227;o, o futebol parece confirmar essa hip&#243;tese a cada temporada. Uma camisa nunca &#233; apenas um uniforme, um escudo nunca &#233; apenas um desenho. Um n&#250;mero dez nunca pertence exclusivamente ao jogador que o veste, cada um desses signos carrega d&#233;cadas de lembran&#231;as, derrotas, gl&#243;rias, disputas pol&#237;ticas e afetos compartilhados. O jogo termina aos noventa minutos sem seus acr&#233;scimos, mas seus significados, n&#227;o.</span></p><p><span>Carlos Drummond de Andrade compreendeu isso muito antes do futebol se tornar objeto leg&#237;timo das ci&#234;ncias humanas, em suas cr&#244;nicas, o interesse nunca esteve apenas no placar. O futebol aparecia como uma forma de ler o Brasil, um espa&#231;o onde a sociedade revelava aquilo que nem sempre conseguia dizer sobre si mesma. Em um de seus textos, Drummond observa que o futebol n&#227;o melhora nem piora ningu&#233;m, ele revela. Talvez seja essa a fun&#231;&#227;o mais importante do esporte, n&#227;o inventar conflitos, mas torn&#225;-los vis&#237;veis.</span></p><p><span>Se o futebol &#233; uma linguagem, ele tamb&#233;m &#233; capaz de produzir viol&#234;ncia. A linguagem tamb&#233;m fere. Quando Lamine Yamal veste a camisa da sele&#231;&#227;o espanhola, seu corpo passa a significar muito mais do que um jovem talento do futebol europeu. Filho de pai marroquino e m&#227;e da Guin&#233; Equatorial, ele obriga a pr&#243;pria ideia de Espanha a confrontar aquilo que durante muito tempo tentou esconder: nenhuma identidade nacional permanece intacta, nenhuma na&#231;&#227;o existe sem deslocamentos, migra&#231;&#245;es e misturas. Os insultos racistas dirigidos a jogadores como Yamal n&#227;o procuram apenas atingir um indiv&#237;duo. Procuram restaurar, pela viol&#234;ncia da linguagem, uma fronteira imagin&#225;ria entre quem supostamente pertence e quem deveria continuar sendo visto como outro. O ataque verbal funciona como um esfor&#231;o para devolver estabilidade a uma identidade que a pr&#243;pria realidade j&#225; tornou imposs&#237;vel.</span></p><p><span>Mohamed Salah produz uma ruptura semelhante, embora por outro caminho. Sua comemora&#231;&#227;o em </span><em><span>suj&#363;d</span></em><span>, ajoelhando-se em ora&#231;&#227;o ap&#243;s marcar um gol, dura apenas alguns segundos. Ainda assim, o gesto atravessa fronteiras e passa a disputar imagin&#225;rios muito al&#233;m do futebol, em um continente onde a presen&#231;a mu&#231;ulmana continua sendo frequentemente narrada por discursos de medo e suspeita, aquele corpo em ora&#231;&#227;o torna-se alvo de interpreta&#231;&#245;es que n&#227;o dependem apenas de sua inten&#231;&#227;o. A linguagem nunca pertence inteiramente a quem fala ou a quem age, ela tamb&#233;m pertence a quem interpreta. &#201; justamente a&#237; que reside sua pot&#234;ncia e sua viol&#234;ncia. Salah n&#227;o representa apenas um atleta celebrando sua f&#233;, para muitos, seu corpo transforma-se num campo onde se confrontam ideias de Europa, de pertencimento e de alteridade.</span></p><p><span>Talvez seja esse o aspecto mais pol&#237;tico do futebol. N&#227;o porque ele imponha respostas, mas porque obriga as perguntas a aparecerem. Cada insulto vindo das arquibancadas revela mais sobre a sociedade que o produz do que sobre o jogador que o recebe, cada gesto de celebra&#231;&#227;o, cada bandeira erguida, cada camisa vestida passa a integrar uma disputa maior pelos significados da identidade, da mem&#243;ria e da pr&#243;pria linguagem.</span></p><p><span>Essa disputa aparece tamb&#233;m na linguagem utilizada para descrever determinadas equipes. Quando sele&#231;&#245;es historicamente marginalizadas surpreendem em grandes competi&#231;&#245;es, o vocabul&#225;rio costuma recorrer &#224;s mesmas palavras: &#8220;zebra&#8221;, &#8220;milagre&#8221;, &#8220;conto de fadas&#8221;. Raramente se questiona por que essas equipes continuam sendo percebidas como exce&#231;&#245;es. O problema n&#227;o est&#225; apenas no futebol jogado, mas na maneira como aprendemos a narrar o mundo,a linguagem conserva hierarquias muito depois de a realidade come&#231;ar a desmont&#225;-las. Talvez seja essa a principal contribui&#231;&#227;o de Pasolini ao definir o futebol como uma linguagem. Linguagens nunca apenas descrevem o mundo, elas tamb&#233;m o produzem. Um narrador decide quem foi her&#243;i, um jornal escolhe quais imagens ocupar&#227;o a capa. O futebol n&#227;o escapa &#224; linguagem, ele &#233; uma de suas formas mais poderosas.</span></p><p><span>Ainda assim, reduzir o futebol apenas &#224;s suas viol&#234;ncias seria outro equ&#237;voco. H&#225; uma dimens&#227;o afetiva que tamb&#233;m merece ser pensada politicamente. Amar um clube significa aceitar uma rela&#231;&#227;o sem garantias, ama-se sabendo que haver&#225; derrotas, frustra&#231;&#245;es e temporadas esquec&#237;veis. Poucas experi&#234;ncias contempor&#226;neas exigem uma fidelidade t&#227;o pouco racional, talvez seja justamente por isso que o futebol sobreviva &#224; l&#243;gica do mercado, mesmo sendo profundamente atravessado por ela, nenhum algoritmo consegue explicar por que um est&#225;dio inteiro silencia antes de um p&#234;nalti ou por que um gol continua sendo capaz de reunir desconhecidos em um mesmo abra&#231;o.</span></p><p><span>Drummond talvez dissesse que esse &#233; o instante em que um pa&#237;s se deixa ver. Derrida lembraria que esse instante jamais possui um &#250;nico significado. Talvez os dois estivessem olhando para a mesma cena.</span></p><p><span>No fim, um gol nunca significa apenas um gol. Ele fala de mem&#243;ria, de identidade, de fronteiras, de classe, de amor e de linguagem. O futebol permanece fascinante porque transforma tudo isso em movimento. Enquanto a bola circula, circulam tamb&#233;m os sentidos, e talvez seja justamente essa a sua maior beleza: lembrar que nenhuma sociedade est&#225; pronta, porque nenhuma linguagem jamais termina de dizer aquilo que &#233;.</span></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://tremeluzente.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/tremeluzente.substack.com/subscribe"><span>Subscreva agora</span></a></p><div><hr></div><h1>&#8220;Futebol n&#227;o &#233; pol&#237;tica&#8221;</h1><p>// <strong>Por Victor N. Silva.</strong></p><p>&#8220;Futebol n&#227;o &#233; pol&#237;tica, &#233; uni&#227;o&#8221;, diz, lamentavelmente, Gianni Infantino, dirigente da FIFA. Su&#237;&#231;o e advogado, parece desconhecer profundamente o que a palavra &#8220;pol&#237;tica&#8221; significa e parece seguir o senso comum midi&#225;tico de: pol&#237;tica = politicagem = ruim.</p><p>Mas n&#227;o venho simplesmente dizer: &#8220;Tolo, mal sabe ele que tudo &#233; pol&#237;tica&#8221;, pois a conversa &#233; mais complexa que isso. Porque, quando tudo &#233; pol&#237;tica, nada &#233; pol&#237;tica, mas, mesmo assim, &#233; dif&#237;cil n&#227;o ver pol&#237;tica em tudo, n&#227;o &#233; mesmo? A pol&#237;tica &#233; esta for&#231;a transversal que nos atravessa sempre; ela est&#225; sempre em jogo, seja em intensidades maiores ou menores. Podemos pensar na pol&#237;tica mais ou menos como Foucault imagina o poder: um efeito produzido das rela&#231;&#245;es sociais, as assim chamadas rela&#231;&#245;es de poder.</p><p>O poder (ou a pol&#237;tica) &#233; algo que n&#227;o somente existe, mas persiste; &#233; um efeito gerado, n&#227;o h&#225; como negar. &#201; algo com uma exist&#234;ncia m&#237;nima, um m&#237;nimo-de-ser. Persiste em toda troca social, em toda conversa. Mesmo que possamos desconhecer seus poderes e como afeta as pessoas, a certeza &#233; que somos afetados por ela.</p><p>Talvez sa&#237;sse um debate muito interessante se coloc&#225;ssemos os dois carecas frente um ao outro: Foucault e a sua biopol&#237;tica contra Infantino e suas falas.</p><p>Para tentar resumir esse conceito t&#227;o debatido: &#233; o poder sobre o fazer-viver. &#201; quando a lei deixa de ser apenas restritiva (negativa) e come&#231;a a ser tamb&#233;m produtiva (positiva), produz certos comportamentos e controla como os viventes devem viver. &#201; o controle sobre as t&#233;cnicas de fazer-viver, um regime produtivo da vida, sobre a vida.</p><p>Mas como isso se conectaria com o outro careca? O presidente da FIFA, em suas declara&#231;&#245;es, parece estar interessado precisamente na ger&#234;ncia do bem-estar causado pelos jogos:</p><blockquote><p>&#8220;A todos voc&#234;s que deixaram de ver crian&#231;as, beb&#234;s, av&#243;s e pais se reunirem em torno desse belo esporte, pe&#231;o desculpas por os jogos j&#225; terem acabado e por voc&#234;s terem perdido toda essa alegria e uni&#227;o.&#8221;</p><p>&#8220;(...) n&#243;s, na FIFA, estamos na linha de frente organizando, trabalhando arduamente e entregando o maior espet&#225;culo do mundo.&#8221;</p></blockquote><p>Infantino s&#243; parece ter uma ideia em mente quando se trata de futebol: espet&#225;culo. Nenhuma outra palavra lhe parece familiar ao esporte: paix&#227;o? Garra? Luta? Torcida? Emo&#231;&#227;o?</p><p>Afinal, por qual motivo algumas dessas palavras importariam para ele? Quando foi eleito presidente da FIFA, sua promessa era precisamente essa: aumentar a receita da entidade, e nisso foi vitorioso. Apesar das diversas pol&#234;micas dessa Copa, nenhuma foi devastadora para a sua imagem, e o evento foi bem lucrativo. A &#250;nica coisa que importa para a gest&#227;o de Infantino &#233; a gest&#227;o do fazer-viver, ou melhor, do fazer-sorrir, governar uma boa alegria e uma uni&#227;o geral.</p><p>Mas &#233; claro que podemos vir com os contrapontos dos neofoucaultianos: fazer-viver para quem, afinal de contas? Todas essas t&#233;cnicas de gest&#227;o da vida geram suas zonas de morte, suas exclus&#245;es sistem&#225;ticas, que n&#227;o foram poucas e que foram deixadas de lado o m&#225;ximo poss&#237;vel. &#201; o que nos ensina Mbembe: o fazer-viver &#233; para alguns; para outros, &#233; o fazer-morrer. E dos mortos n&#227;o falam. Embora Mbembe e Foucault estejam falando de t&#233;cnicas estatais, seria dif&#237;cil n&#227;o ver a FIFA como mais um aparelho ideol&#243;gico do Estado, vide a proximidade de Infantino com Trump nessa Copa do Mundo, junto com seus discursos extremamente despolitizantes: &#8220;(...) futebol &#233; sobre paz. N&#227;o &#233; sobre pol&#237;tica&#8221;.</p><p>N&#227;o s&#243; despolitiza, como tamb&#233;m esvazia o esporte de qualquer outro significado e lhe imputa significantes vazios: &#8220;alegria&#8221;, &#8220;uni&#227;o&#8221;, &#8220;paz&#8221;. Como se algu&#233;m que torce pelo gol da sua sele&#231;&#227;o torcesse pela &#8220;paz&#8221;. Claro, sim, o futebol &#233; um grande momento de fraterniza&#231;&#227;o, mas n&#227;o se resume s&#243; a isso.</p><p>Quando dois times entram em campo, entra tamb&#233;m um jogo de for&#231;as pol&#237;ticas, queira voc&#234; ou n&#227;o. Em alguns casos, elas s&#227;o percept&#237;veis, como no caso de Argentina x Inglaterra e a quest&#227;o das Ilhas Malvinas; em outros, s&#227;o quase impercept&#237;veis, possuem uma exist&#234;ncia muito fraca.</p><p>Quando dois times entram em campo, entra uma disputa n&#227;o s&#243; de quem tem o melhor futebol, mas de qual time produz um melhor futebol, isto &#233;, qual desses dois pa&#237;ses produz um melhor futebol, como ele cultiva o futebol e seus jogadores, quais pol&#237;ticas ele gera para isso, ou deixa de gerar. No final, a vit&#243;ria n&#227;o &#233; s&#243; de jogadores, de um t&#233;cnico ou de uma comiss&#227;o t&#233;cnica, mas de uma cultura, de uma certa pr&#225;tica pol&#237;tica adotada.</p><p>Ent&#227;o, a pol&#237;tica n&#227;o &#233; este objeto palp&#225;vel que podemos deixar na entrada do est&#225;dio e ir jogar sem ele, como se o larg&#225;ssemos no ch&#227;o e pud&#233;ssemos apreciar um jogo a partir de uma vis&#227;o &#8220;neutra&#8221;. At&#233; porque a pol&#237;tica pode ser o motivo pelo qual voc&#234; n&#227;o est&#225; no est&#225;dio, pelo qual voc&#234; n&#227;o consegue nem assistir aos jogos dentro do seu pr&#243;prio pa&#237;s, na sua casa, em seguran&#231;a.</p><p>Ent&#227;o, sim, futebol &#233; pol&#237;tica, ao mesmo tempo que &#233; uni&#227;o, alegria, mas tamb&#233;m &#233; tristeza, luta, garra, choro, torcida. &#201; um campo de disputas de significados atravessados, de encontro de for&#231;as que se fazem presentes, mesmo que minimamente, com a menor exist&#234;ncia poss&#237;vel, o m&#237;nimo de ser pol&#237;tico.</p><div><hr></div><blockquote><p><span>O </span><em><strong>&#8220;De-vindo&#8221;</strong></em><span> &#233; um projeto criado pelos amigos Bruna Cabral e Victor Silva, universit&#225;rios nos cursos de letras e sociologia da UFF, que buscam questionar a realidade do mundo atrav&#233;s da l&#237;ngua, dos textos e do discurso. A procura de um espa&#231;o que coubesse uma escrita independente, provocativa e experimental, surge a parceria nos intervalos das aulas de lingu&#237;stica e sociologia econ&#244;mica, em caf&#233;s ao redor do campus.</span></p><p><span>Afinal, Devindo? O ger&#250;ndio do verbo </span><em>devir. </em><span>Portanto, &#8220;devindo&#8221; indica o processo intermin&#225;vel de se tornar ou se transformar em algo. Pensar, agir e transgredir!</span></p><p><em><span>Considere apoiar o projeto com o valor de um caf&#233; no campus da faculdade de letras atrav&#233;s do pix </span><strong>ogatonapoesia@gmail.com &#43612; .</strong></em></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://tremeluzente.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading TREMELUZENTE! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p></p></blockquote>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Sonny Rollins : O Último Homem de Harlem.]]></title><description><![CDATA[O Colosso do saxofone &#233; imortal.]]></description><link>https://tremeluzente.substack.com/p/sonny-rollins-o-ultimo-homem-de-harlem</link><guid isPermaLink="false">https://tremeluzente.substack.com/p/sonny-rollins-o-ultimo-homem-de-harlem</guid><dc:creator><![CDATA[briony.]]></dc:creator><pubDate>Wed, 08 Jul 2026 22:23:58 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/0d008cc6-4baa-464a-80cd-cf5cbe952eae_2080x2700.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>        &#201; dif&#237;cil explicar o sentimento de perdermos, no ano de 2026, o &#250;ltimo m&#250;sico da m&#237;tica fotografia </span><em><strong><span>A Great Day in Harlem</span></strong></em><strong><span>.</span></strong><span> </span></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://tremeluzente.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/tremeluzente.substack.com/subscribe"><span>Subscreva agora</span></a></p><p><span>       Sonny Rollins parte aos noventa e cinco anos, no m&#234;s de maio, o quinto do ano, e eu, dois meses mais tarde, encontro enfim a coragem de prestar meu r&#233;quiem. N&#227;o porque a morte precise de demora para ser compreendida, mas porque h&#225; despedidas que exigem sil&#234;ncio antes de exigirem palavras. Algumas figuras parecem ocupar um lugar t&#227;o est&#225;vel na paisagem do mundo que sua aus&#234;ncia produz um estranhamento dif&#237;cil de nomear, e Rollins era uma delas. Sua presen&#231;a atravessou gera&#231;&#245;es, guerras, mudan&#231;as tecnol&#243;gicas, transforma&#231;&#245;es est&#233;ticas e pol&#237;ticas, permaneceu como uma esp&#233;cie de testemunha viva de quase toda a hist&#243;ria do jazz moderno.</span></p><p><span>Quando Art Kane reuniu, em uma manh&#227; de 1958, cinquenta e sete m&#250;sicos nas escadarias de um pr&#233;dio do Harlem, talvez ningu&#233;m pudesse imaginar que aquela fotografia se tornaria menos um retrato do presente do que uma promessa de mem&#243;ria e eternidade. Ao longo das d&#233;cadas, cada rosto daquela imagem foi se tornando tamb&#233;m uma aus&#234;ncia. Restou Sonny. N&#227;o como um sobrevivente melanc&#243;lico, mas como algu&#233;m que carregava consigo uma continuidade rara, uma linha ainda pulsante entre Louis Armstrong, Charlie Parker, Thelonious Monk, John Coltrane e o nosso pr&#243;prio tempo. Sua morte n&#227;o encerra apenas uma biografia, fecha, de maneira quase simb&#243;lica, uma fotografia inteira.</span></p><p><span>Mas talvez seja justamente a&#237; que a obra de Rollins imponha uma &#250;ltima li&#231;&#227;o. O jazz nunca acreditou verdadeiramente em finais. Desde os spirituals, passando pelo blues e chegando &#224; improvisa&#231;&#227;o moderna, h&#225; sempre a convic&#231;&#227;o de que um tema retorna transformado, de que uma voz permanece ecoando no fraseado de outra, de que nenhuma despedida consegue interromper completamente uma conversa iniciada h&#225; tanto tempo. Rollins compreendia isso como poucos, tocava como quem sabia que a m&#250;sica n&#227;o era um monumento erguido contra a morte, mas uma forma delicada de atravess&#225;-la.</span></p><p><span>Este n&#227;o pretende ser um invent&#225;rio de sua carreira, tampouco uma tentativa de condensar sete d&#233;cadas de inven&#231;&#227;o em algumas p&#225;ginas. &#201;, antes, um gesto de escuta. Um retorno a tr&#234;s discos que, cada um &#224; sua maneira, parecem conter aquilo que Sonny Rollins deixou de mais precioso: a coragem de transformar a improvisa&#231;&#227;o em pensamento, o humor em intelig&#234;ncia musical e a liberdade em m&#233;todo. Se toda elegia carrega consigo a tenta&#231;&#227;o da nostalgia, talvez a melhor maneira de recordar Rollins seja recusando-a. Afinal, sua m&#250;sica nunca olhou para tr&#225;s em busca de um passado ideal, ela olhava para frente, para a pr&#243;xima frase, para a pr&#243;xima possibilidade. Talvez seja esse o legado dos grandes improvisadores: ensinar que continuar tamb&#233;m &#233; uma forma de exist&#234;ncia e mem&#243;ria.</span></p><p><span>H&#225; quem diga que uma obra se conhece pelos seus monumentos. No caso de Sonny Rollins, talvez seja mais justo dizer que ela se revela por suas travessias, j&#225; que cada um de seus grandes &#225;lbuns parecem registrar um momento em que o saxofonista decidiu deslocar as fronteiras da pr&#243;pria linguagem, recusando a repeti&#231;&#227;o confort&#225;vel daquilo que j&#225; dominava. Entre dezenas de grava&#231;&#245;es fundamentais, tr&#234;s delas permanecem como medalh&#245;es de uma trajet&#243;ria que nunca deixou de procurar novos caminhos.</span></p><p><span>Em </span><em><strong><span>Saxophone Colossus</span></strong></em><strong><span> (1956)</span></strong><span>, Rollins alcan&#231;a aquilo que poucos artistas conseguem: gravar um disco que se torna imediatamente um cl&#225;ssico sem jamais soar definitivo. H&#225; uma vitalidade quase inaugural em suas interpreta&#231;&#245;es, como se o jazz ainda estivesse descobrindo suas pr&#243;prias possibilidades.</span><strong><span> &#8220;St. Thomas&#8221;</span></strong><span>, constru&#237;da sobre uma melodia herdada do folclore caribenho de sua fam&#237;lia, talvez seja a s&#237;ntese mais luminosa desse esp&#237;rito. O tema dan&#231;a, sorri, brinca, mas jamais abandona a sofistica&#231;&#227;o de um improvisador capaz de transformar uma estrutura aparentemente simples em um universo inteiro de varia&#231;&#245;es. Em contrapartida,</span><strong><span> &#8220;Blue 7&#8221; </span></strong><span>demonstra outra face de Rollins: a paci&#234;ncia em extrair de um blues tudo aquilo que ele ainda n&#227;o havia dito. &#201; um exerc&#237;cio de desenvolvimento tem&#225;tico que continua sendo estudado d&#233;cadas depois, mas que, acima de tudo, permanece emocionante porque nunca sacrifica a espontaneidade em nome da t&#233;cnica.</span></p><p><span>Um ano mais tarde, </span><em><strong><span>Way Out West</span></strong></em><strong><span> </span></strong><span>parece responder &#224; grandiosidade do &#225;lbum anterior com um gesto de radical simplicidade. Sem piano, apenas saxofone, baixo e bateria, Rollins coloca sua voz diante de um espa&#231;o aberto, onde cada frase precisa sustentar o pr&#243;prio peso. H&#225; algo profundamente cinematogr&#225;fico nesse disco. O repert&#243;rio inspirado pelo imagin&#225;rio do oeste americano poderia facilmente escorregar para a caricatura, mas acontece exatamente o contr&#225;rio:</span><strong><span> &#8220;I&#8217;m an Old Cowhand&#8221;</span></strong><span> transforma uma can&#231;&#227;o quase aned&#243;tica em uma demonstra&#231;&#227;o de liberdade inventiva, enquanto</span><strong><span> &#8220;Solitude&#8221;</span></strong><span>, de Duke Ellington, revela um Rollins surpreendentemente contido, quase meditativo. O sil&#234;ncio deixa de ser um intervalo entre as notas para tornar-se parte da pr&#243;pria narrativa. Poucos discos conseguem fazer a aus&#234;ncia soar t&#227;o expressiva quanto a presen&#231;a.</span></p><p><span>Por fim, </span><em><strong><span>The Bridge</span></strong></em><strong><span> (1962)</span></strong><span> talvez seja o registro mais humano de toda a sua discografia. &#201; imposs&#237;vel escut&#225;-lo sem lembrar do intervalo que lhe deu origem: os anos em que Sonny Rollins se afastou dos palcos para estudar sozinho, tocando diariamente sob a Ponte Williamsburg, convencido de que ainda havia algo a aprender sobre o pr&#243;prio instrumento. Um movimento de sua carreira que particularmente ensina, e produz muitos ru&#237;dos emocionais em mim. O retorno nunca assume a forma de um espet&#225;culo. Pelo contr&#225;rio, a parceria com Jim Hall produz uma m&#250;sica de delicadeza rara, onde cada improvisa&#231;&#227;o parece respirar antes de avan&#231;ar. A faixa-t&#237;tulo e, sobretudo,</span><strong><span> &#8220;Without a Song&#8221; </span></strong><span>condensam esse novo momento, menos interessado em demonstrar virtuosismo do que em explorar o espa&#231;o entre as notas, como se cada frase carregasse a consci&#234;ncia do tempo vivido em sil&#234;ncio. Poucos m&#250;sicos tiveram a coragem de interromper a pr&#243;pria consagra&#231;&#227;o para recome&#231;ar, menos ainda conseguiram transformar esse recome&#231;o em arte. Great Sonny!</span></p><p><span>Jim Hall lembrava que tocar com Rollins era, acima de tudo, aprender a ouvir, porque ele respondia ao menor gesto do outro m&#250;sico como se toda improvisa&#231;&#227;o fosse uma conversa em que ningu&#233;m deveria ter a &#250;ltima palavra. Pat Metheny observou que poucos artistas desenvolveram uma ideia mel&#243;dica com tamanha imagina&#231;&#227;o, enquanto Herbie Hancock dizia que, ao ouvi-lo, tinha a impress&#227;o de acompanhar o pensamento antes mesmo que ele se transformasse em m&#250;sica. N&#227;o eram elogios &#224; t&#233;cnica, embora ela fosse extraordin&#225;ria, mas ao modo como Rollins habitava a pr&#243;pria cria&#231;&#227;o&#8230; sem pressa, sem ansiedade de provar grandeza, sempre disposto a deixar que uma frase encontrasse o seu destino.</span></p><div id="youtube2-lxzuvS29lR8" class="youtube-wrap" data-attrs="{&quot;videoId&quot;:&quot;lxzuvS29lR8&quot;,&quot;startTime&quot;:null,&quot;endTime&quot;:null}" data-component-name="Youtube2ToDOM"><div class="youtube-inner"><iframe src="https://www.youtube-nocookie.com/embed/lxzuvS29lR8?rel=0&amp;autoplay=0&amp;showinfo=0&amp;enablejsapi=0" frameborder="0" loading="lazy" gesture="media" allow="autoplay; fullscreen" allowautoplay="true" allowfullscreen="true" width="728" height="409"></iframe></div></div><p><span>Talvez esse seja o aspecto mais dif&#237;cil de explicar a quem nunca o escutou com aten&#231;&#227;o. Sonny Rollins nunca pareceu interessado em vencer a m&#250;sica, mas a tocava como quem caminhava por ela. Havia humor em seus solos, pequenas cita&#231;&#245;es inesperadas de can&#231;&#245;es populares, melodias infantis ou standards esquecidos, como se lembrasse ao ouvinte que o jazz tamb&#233;m &#233; uma arte da mem&#243;ria e da brincadeira.</span></p><p><span>Talvez seja por isso que esses tr&#234;s &#225;lbuns continuem ocupando um lugar singular n&#227;o apenas na discografia de Sonny Rollins, mas na pr&#243;pria hist&#243;ria do jazz. Eles n&#227;o documentam um artista repetindo uma f&#243;rmula bem-sucedida, documentam um m&#250;sico em permanente estado de transforma&#231;&#227;o, convencido de que improvisar significava, antes de tudo, permanecer disposto a mudar. Se este texto come&#231;ou como um r&#233;quiem, talvez termine como toda boa sess&#227;o de jazz, deixando a sensa&#231;&#227;o de que a &#250;ltima nota nunca foi realmente a &#250;ltima. Porque nunca &#233;. Porque despontamos do passado e do presente para o infinito, como um saxofone colossal na m&#227;o de um homem negro do Harlem.</span></p><p></p><div><hr></div><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://tremeluzente.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigada por ler o TREMELUZENTE, voc&#234; pode se inscrever para ler mais sobre jazz e DE-VINDOS todos os meses. Um abracinho!</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[DE-VINDO #13]]></title><description><![CDATA[Serge Margel, monstruosidade e mulheres-absurdas!]]></description><link>https://tremeluzente.substack.com/p/de-vindo-13</link><guid isPermaLink="false">https://tremeluzente.substack.com/p/de-vindo-13</guid><dc:creator><![CDATA[briony.]]></dc:creator><pubDate>Thu, 02 Jul 2026 17:53:32 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/18f2a396-12c5-42a7-9bfb-94657fd6716b_7016x4961.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong>A Mulher que se torna monstro : <span>espectralidade, transgress&#227;o e o corpo antinatural a partir da leitura de Serge Margel.</span></strong></p><p><strong><span>// </span></strong><span>Por </span><strong><span>Bruna Cabral.</span></strong></p><p><span>H&#225; uma constante que atravessa a hist&#243;ria da cultura ocidental e que parece sobreviver &#224;s transforma&#231;&#245;es religiosas, pol&#237;ticas e sociais: toda mulher que desafia a ordem estabelecida corre o risco de ser convertida em um monstro. N&#227;o se trata de uma monstruosidade que nasce da carne deformada, da viol&#234;ncia ou da maldade em si, mas de uma constru&#231;&#227;o simb&#243;lica que transforma em amea&#231;a aquilo que escapa &#224;s expectativas de uma sociedade. O monstruoso, portanto, n&#227;o constitui uma qualidade intr&#237;nseca do sujeito; constitui uma linguagem produzida para nomear corpos que recusam permanecer dentro das fronteiras daquilo que uma &#233;poca considera natural. A mulher torna-se monstruosa no instante em que deixa de corresponder ao ideal que organiza sua exist&#234;ncia: m&#227;e, esposa, santa, cuidadora, silenciosa, obediente. Quando esse corpo reivindica o poder, o desejo, a autonomia, a viol&#234;ncia ou simplesmente o direito de existir para al&#233;m dessas categorias, ele deixa de ser compreendido como um corpo feminino e passa a ocupar um territ&#243;rio intermedi&#225;rio entre o humano e o inumano, entre o conhecido e o incompreens&#237;vel. O monstro nasce exatamente nesse intervalo.</span></p><p><span>Essa percep&#231;&#227;o permite deslocar o estudo da monstruosidade para al&#233;m das figuras fant&#225;sticas da literatura ou do cinema. Antes de aparecer como criatura sobrenatural, o monstro j&#225; existia como categoria pol&#237;tica e cultural destinada a organizar os limites da conviv&#234;ncia social. Cada sociedade produz seus pr&#243;prios monstros porque cada sociedade necessita determinar aquilo que deve permanecer fora de sua ordem simb&#243;lica. O monstro n&#227;o representa apenas aquilo que amea&#231;a a estabilidade do mundo; ele torna vis&#237;vel a fragilidade dessa pr&#243;pria estabilidade. Sua presen&#231;a revela que as normas nunca s&#227;o naturais, mas continuamente reafirmadas por discursos religiosos, cient&#237;ficos, jur&#237;dicos e morais. Nesse sentido, a mulher monstruosa ocupa um lugar privilegiado na hist&#243;ria do imagin&#225;rio ocidental porque sua exist&#234;ncia evidencia o quanto a ideia de feminilidade depende de uma permanente vigil&#226;ncia sobre o corpo feminino.</span></p><p><span>&#201; justamente nesse ponto que a reflex&#227;o de Serge Margel oferece uma contribui&#231;&#227;o decisiva. Embora seu trabalho n&#227;o esteja voltado especificamente para a monstruosidade feminina, sua investiga&#231;&#227;o acerca da espectralidade permite compreender por que determinadas figuras jamais desaparecem do imagin&#225;rio coletivo. Durante o semin&#225;rio ministrado por Serge Margel, do qual participei em 13 de junho de 2026, chamou particularmente a aten&#231;&#227;o a maneira como o fil&#243;sofo insistia na sobreviv&#234;ncia dos espectros n&#227;o como simples imagens do sobrenatural, mas como formas de perman&#234;ncia daquilo que a cultura procura excluir. O espectro, em sua reflex&#227;o, n&#227;o corresponde apenas ao morto que retorna; corresponde &#224;quilo que nunca consegue ser definitivamente eliminado porque permanece inscrito na mem&#243;ria, na linguagem, nas imagens e nas formas culturais. Essa compreens&#227;o atravessa igualmente </span><em><span>Arqueologias do fantasma</span></em><span>, cuja apresenta&#231;&#227;o afirma que</span><em><span> &#8220;todos estes temas t&#234;m a sua intercess&#227;o no fantasma ou espectro, gravado em uma mem&#243;ria exterior, t&#233;cnica de escrita, rastro, marca, sinal, tra&#231;o grafado em um suporte. Escritas-cripta, criptogramas, a escrita cifra uma morte que vem assombrar a vida dos vivos&#8221; </span></em><span>(PENNA, 2017). A pot&#234;ncia dessa formula&#231;&#227;o reside justamente em compreender o espectro como uma sobreviv&#234;ncia. O fantasma deixa de pertencer exclusivamente ao universo da fic&#231;&#227;o para tornar-se uma forma de exist&#234;ncia que insiste em permanecer mesmo quando uma cultura acredita t&#234;-lo eliminado.</span></p><p><span>Talvez seja exatamente isso que aconte&#231;a com a mulher monstruosa. Ela nunca desaparece. Ao contr&#225;rio, muda continuamente de nome, de apar&#234;ncia e de contexto hist&#243;rico. Em determinados momentos, surge como feiticeira; em outros, como rainha sanguin&#225;ria, mulher fatal, m&#227;e demon&#237;aca, assassina, hist&#233;rica, sedutora ou louca. As imagens variam conforme a &#233;poca, mas a estrutura permanece extraordinariamente semelhante. Em todas elas encontra-se uma mulher que recusou o lugar que lhe havia sido reservado e que, justamente por isso, precisou ser deslocada para fora dos limites da normalidade. A monstruosidade funciona, portanto, como um mecanismo de tradu&#231;&#227;o da diferen&#231;a. Quando a linguagem j&#225; n&#227;o consegue explicar uma mulher por meio das categorias habituais da feminilidade, ela passa a explic&#225;-la mediante o horror.</span></p><p><span>Essa opera&#231;&#227;o revela algo fundamental: a monstruosidade nunca descreve apenas o monstro, ela descreve, sobretudo, a sociedade que o produziu. A mulher monstruosa constitui uma superf&#237;cie sobre a qual uma cultura projeta seus medos mais profundos. Ela torna vis&#237;vel aquilo que o discurso dominante procura incessantemente ocultar: a possibilidade de que o feminino exista independentemente das fun&#231;&#245;es que lhe foram atribu&#237;das. &#201; justamente essa possibilidade que transforma o corpo feminino em objeto privilegiado da imagina&#231;&#227;o monstruosa. N&#227;o porque exista algo naturalmente monstruoso na mulher, mas porque seu corpo sempre ocupou uma posi&#231;&#227;o central na organiza&#231;&#227;o simb&#243;lica da fam&#237;lia, da religi&#227;o e da reprodu&#231;&#227;o social. Alterar esse corpo significa alterar toda a arquitetura que sustenta essas institui&#231;&#245;es.</span></p><p><span>&#201; por essa raz&#227;o que a transgress&#227;o feminina raramente &#233; representada apenas como desobedi&#234;ncia. Ela quase sempre assume contornos ontol&#243;gicos, como se a mulher deixasse de pertencer plenamente ao mundo humano. N&#227;o basta que seja considerada criminosa ou pecadora; torna-se necess&#225;rio conceb&#234;-la como antinatural. O discurso sobre a monstruosidade cumpre exatamente essa fun&#231;&#227;o. Ao transformar a transgress&#227;o em deformidade do ser, desloca-se o problema da esfera pol&#237;tica para a esfera da natureza. Em vez de discutir por que determinada mulher desejou governar, exercer viol&#234;ncia ou recusar a maternidade, a cultura passa a afirmar que sua pr&#243;pria exist&#234;ncia constitui uma aberra&#231;&#227;o. O monstruoso naturaliza aquilo que, na verdade, &#233; profundamente hist&#243;rico.</span></p><p><span>Essa naturaliza&#231;&#227;o pode ser observada em in&#250;meras figuras que atravessam a literatura e o cinema. Lady Macbeth talvez constitua uma das manifesta&#231;&#245;es mais sofisticadas desse processo. Shakespeare n&#227;o constr&#243;i uma mulher monstruosa porque ela mata, in&#250;meros personagens masculinos da trag&#233;dia praticam viol&#234;ncia sem que sua humanidade seja colocada em quest&#227;o. Lady Macbeth torna-se monstruosa porque deseja aquilo que uma mulher n&#227;o deveria desejar segundo a l&#243;gica patriarcal de seu tempo. Seu projeto n&#227;o consiste apenas em alcan&#231;ar o poder; consiste em abandonar a posi&#231;&#227;o simb&#243;lica que definia o feminino. Quando pede aos esp&#237;ritos que retirem dela tudo aquilo que a torna mulher e transformem seu leite em fel, a personagem realiza um gesto de radical ruptura com a ideia de natureza. O leite, tradicionalmente associado ao cuidado, &#224; maternidade e &#224; continuidade da vida, converte-se em veneno. N&#227;o ocorre apenas uma invers&#227;o moral; ocorre uma transforma&#231;&#227;o ontol&#243;gica. A personagem solicita a destrui&#231;&#227;o da pr&#243;pria identidade feminina tal como sua cultura a compreendia. &#201; nesse instante que deixa de ser percebida apenas como ambiciosa para tornar-se monstruosa.</span></p><p><span>Entretanto, Shakespeare realiza um movimento ainda mais complexo. Depois do assassinato, Lady Macbeth passa a ser perseguida por espectros que jamais assumem uma forma plenamente exterior. O sangue que insiste em permanecer sobre suas m&#227;os n&#227;o constitui apenas uma met&#225;fora da culpa; representa a sobreviv&#234;ncia de uma viol&#234;ncia que j&#225; n&#227;o pode ser separada de sua pr&#243;pria exist&#234;ncia. O crime deixa de ser um acontecimento passado e transforma-se em uma presen&#231;a cont&#237;nua. Nesse sentido, Lady Macbeth aproxima-se daquilo que Margel identifica como espectralidade. Sua identidade torna-se habitada por algo que jamais poder&#225; ser completamente eliminado. Ela j&#225; n&#227;o coincide consigo mesma. Vive permanentemente acompanhada por aquilo que sua pr&#243;pria a&#231;&#227;o produziu. A monstruosidade deixa de estar apenas em seus atos e passa a habitar seu modo de existir.</span></p><p><span>&#201; significativo que esse mesmo mecanismo reapare&#231;a, s&#233;culos depois, em </span><em><span>Rosemary&#8217;s Baby</span></em><span>. Tamb&#233;m ali a protagonista experimenta uma ruptura da ordem natural, mas agora inscrita diretamente no corpo. A gravidez, que durante s&#233;culos foi apresentada como s&#237;mbolo m&#225;ximo da feminilidade, converte-se em espa&#231;o de inquieta&#231;&#227;o e de estranhamento. Rosemary continua sendo m&#227;e; contudo, sua maternidade j&#225; n&#227;o corresponde ao imagin&#225;rio que organiza essa experi&#234;ncia. Seu ventre deixa de representar apenas a gera&#231;&#227;o da vida para tornar-se lugar de uma alteridade radical, imposs&#237;vel de controlar ou compreender. O horror do filme n&#227;o reside apenas na exist&#234;ncia do Anticristo, mas na destrui&#231;&#227;o da certeza de que o corpo feminino pertence exclusivamente &#224; natureza. A protagonista percebe, gradualmente, que seu corpo foi apropriado por for&#231;as que escapam completamente &#224; sua vontade. O ventre transforma-se em territ&#243;rio do desconhecido. O corpo deixa de ser &#237;ntimo e torna-se estranho a si mesmo.</span></p><p><span>&#201; justamente a&#237; que o monstruoso revela toda a sua pot&#234;ncia simb&#243;lica. Rosemary n&#227;o &#233; monstruosa porque gera um ser demon&#237;aco; torna-se monstruosa porque sua maternidade rompe a ideia segundo a qual a mulher representaria naturalmente a origem da vida ordenada. O corpo feminino deixa de garantir estabilidade e passa a produzir incerteza. A cultura, ent&#227;o, transforma essa ruptura em horror. O ventre j&#225; n&#227;o simboliza prote&#231;&#227;o, mas amea&#231;a; j&#225; n&#227;o produz continuidade, mas descontinuidade. A mulher torna-se o lugar onde a pr&#243;pria natureza parece falhar. E talvez seja essa a defini&#231;&#227;o mais profunda da monstruosidade feminina: um corpo cuja simples exist&#234;ncia impede que a natureza continue parecendo evidente.</span></p><p><span>Dessa maneira, a mulher monstruosa deixa de constituir apenas uma personagem recorrente da literatura, da hist&#243;ria ou do cinema para revelar-se como uma constru&#231;&#227;o cultural que atravessa s&#233;culos, assumindo novas formas sem jamais perder sua fun&#231;&#227;o simb&#243;lica. O que permanece constante n&#227;o &#233; a figura do monstro em si, mas a necessidade de atribuir &#224; mulher transgressora uma exist&#234;ncia que ultrapasse os limites do humano, como se sua recusa em ocupar os lugares socialmente prescritos exigisse uma explica&#231;&#227;o que excedesse o campo da raz&#227;o. Sob essa perspectiva, o monstruoso n&#227;o representa uma deformidade da natureza, mas um discurso produzido para preservar a pr&#243;pria ideia de natureza diante daquilo que a desafia. A rainha que governa, a mulher que exerce viol&#234;ncia, a m&#227;e que rompe com o ideal da maternidade, a personagem que deseja poder ou que reivindica autonomia sobre o pr&#243;prio corpo tornam-se monstruosas porque exp&#245;em a fragilidade das categorias que sustentam a ordem patriarcal. &#201; justamente nesse ponto que a reflex&#227;o de Serge Margel encontra sua maior pot&#234;ncia interpretativa. Se o espectro corresponde &#224; perman&#234;ncia daquilo que uma cultura tenta incessantemente apagar, a mulher monstruosa constitui uma de suas manifesta&#231;&#245;es mais persistentes: condenada, silenciada ou demonizada, ela nunca desaparece completamente, retornando continuamente sob novas imagens, novos discursos e novos corpos. Sua monstruosidade n&#227;o reside naquilo que ela &#233;, mas na incapacidade da cultura de assimil&#225;-la sem convert&#234;-la em alteridade radical. O monstro feminino, portanto, n&#227;o marca o fim da humanidade da mulher, mas evidencia o limite da pr&#243;pria cultura em reconhecer como plenamente humano um corpo que insiste em existir para al&#233;m das fronteiras do que foi historicamente definido como natural.</span></p><div><hr></div><p><strong><span>Os fantasmas da escrita de Lispector.</span></strong></p><p><strong><span>//  </span></strong><span>Por </span><strong><span>Victor N. Silva.</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><span> Nas palestras de Serge Margel acerca da arqueologia do monstruoso aprendemos um pouco sobre acima de tudo a apari&#231;&#227;o do monstro, do funcionamento do corpo do monstruoso. Que o monstro, &#233; aquele de exist&#234;ncia paradoxal, que &#8220;s&#243; aparece desaparecendo&#8221;, que sua apari&#231;&#227;o &#233; sempre uma re-apari&#231;&#227;o. Aquele que quando aparece, desaparece, e quando desaparece: aparece, por isso toda apari&#231;&#227;o &#233; sempre uma re-apari&#231;&#227;o, ele &#233; quase nascido e quase morto, possui uma exist&#234;ncia m&#237;nima, uma quase exist&#234;ncia. Uma exist&#234;ncia fantasmal, &#8220;fant&#244;mica&#8221; para usar suas palavras. Que esse corpo fantomal acima de tudo &#233; algo que eu n&#227;o vejo, mas sei que ele me v&#234;, e &#233; isso que existe de terror existencial no corpo fantomal: &#233; algo que me olha de volta. Ele &#233; o limite da exist&#234;ncia, e olhar para esse corpo, &#233; olhar de volta para os meus limites, ele me mostra como sou. <br>Mas antes de continuar em todas essas digress&#245;es, o que isso a princ&#237;pio tem rela&#231;&#227;o com a Clarice Lispector?<br>Bom, toda a escrita da Lispector &#233;, de certa forma, fantomal, mas seu exagero m&#225;ximo &#233; em &#8220;&#193;gua Viva&#8221; um livro quase-imposs&#237;vel de explicar, mas essa caracter&#237;stica &#233; encontrada aos meandros em outros livros. Como esquecer a frase de Macab&#233;a em</span><em><span> A Hora da Estrela</span></em><span>: &#8220;&#201; que s&#243; sei ser imposs&#237;vel&#8221;. A escrita de Lispector tanto em A Hora da Estrela quanto em &#193;gua Viva s&#227;o assombradas por esse imposs&#237;vel.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Em &#193;gua Viva existe algo que: na medida em que existe, n&#227;o existe, alguma coisa com um ser muito fraco, que sempre quando aparece, desaparece o &#8211; it&#8211; coisa, um acontecimento, um sentimento. Algo a flor da pele, ou melhor, a flor da linguagem , nos pr&#243;prios limites da linguagem e do pensamento: &#233; o pr&#243;prio pensamento vivo, pulsante. &#193;gua Viva.<br><br></span></p><blockquote><p><span>&#8220; Tenho certo medo de mim, n&#227;o sou de confian&#231;a, e desconfio do meu falso poder. <br>Este &#233; a palavra de quem n&#227;o pode.<br>N&#227;o dirijo nada. Nem minhas palavras&#8221; (AV. P. 27)</span></p></blockquote><p style="text-align: justify;"><span> Ela &#233; esse ser fora do espa&#231;o e do tempo. Agora talvez valha a pena olhar n&#227;o s&#243; para a Macab&#233;a, mas para o narrador do livro da Hora da Estrela, aquele que n&#227;o s&#243; olha para a Macab&#233;a, mas tamb&#233;m &#233; olhado, se sente olhado por ela, em que o narrador sempre faz quest&#227;o de cham&#225; la de algum tipo de &#8220;ex&#237;gua criatura&#8221;, esse ser-pequeno monstruoso. Aquele que tem um fasc&#237;nio inexplic&#225;vel por essa criatura que o parece cansar, ser-lhe desinteressante. &#8220;Estou absolutamente cansado de literatura; s&#243; a mudez me faz companhia. [...] Tenho que interromper essa hist&#243;ria por uns tr&#234;s dias&#8221; (AHDE. P.63). Mas mesmo assim continua escrevendo. Porque ao ver Macab&#233;a ele ao mesmo tempo &#233; olhado por ela, se torna outro, tamb&#233;m se torna um monstro, ele se reconhece nos pr&#243;prios limites, isto &#233;, Macab&#233;a. &#201; olhar para esse obsceno e ser olhado de volta. &#8220;Desculpai-me mas vou continuar a falar de mim mesmo que </span><em><span>sou meu desconhecido</span></em><span>&#8221; (AHDE. P. 13).<br><br></span></p><p style="text-align: justify;"><span>E o conceito de &#8220;Irreal n&#227;o-ficcional&#8221;, da &#8220;irrealidade presencial&#8221; apresentado por Margel n&#227;o &#233; cab&#237;vel tanto para Macab&#233;a quanto para a narradora de &#193;gua Viva? A hist&#243;ria de Macab&#233;a &#233; a hist&#243;ria desse ser-pequeno que quase n&#227;o existe, e ao mesmo tempo &#233; muito real, o narrador j&#225; nos d&#225; a letra: &#8220;Existir n&#227;o &#233; l&#243;gico&#8221; (P. 17). Ent&#227;o aqui temos tudo junto: a exist&#234;ncia n&#227;o &#233; l&#243;gica, Macab&#233;a &#233; esse ser irreal e n&#227;o ficcional. O fantomal e o monstruoso s&#227;o essa transgress&#227;o de fronteiras,  entre o real e a fic&#231;&#227;o, esse inomin&#225;vel, como Margel nos disse: &#8220;</span><em><span>surplu identit&#233;</span></em><span>&#8221; , o excesso de identidade, uma sobre-identidade, falta e excesso ao mesmo tempo. <br>&#8220;&#8211; N&#227;o sei como se faz outra cara. Mas &#233; s&#243; na cara que sou triste porque por dentro eu sou at&#233; alegre.&#8221; (AHDE. p.47), Macab&#233;a &#233; essa falta e excesso, triste e alegre: &#8220;</span><em><span>Parab&#243;lica</span></em><span>&#8221; como Lispector diz &#8220;</span><em><span>Parab&#243;lica</span></em><span> &#8211; o que quer que queira dizer essa palavra. </span><em><span>Parab&#243;lica </span></em><span>que sou&#8221; (AV. P.61) essa palavra que nada significa ao mesmo tempo que significa tudo.<br><br>Na literatura de Lispector estamos diante dessa escrita fantasmal (fant&#244;mica), frente a essas mulheres-monstros, em suas sobre-identidades, essa transgress&#227;o, o limite,a palavra viva na nossa frente, essa coisa que nos olha de volta, e nos transforma totalmente. Nos transforma no outro, &#233; uma quest&#227;o de olhar e ser olhado, ser olhado na sua pr&#243;pria alteridade (a alteridade que n&#243;s mesmos somos, e s&#243; percebemos diante do olhar desse outro), e se transformar (devir) no outro, se transmutar (devir) no imposs&#237;vel.</span></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://tremeluzente.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/tremeluzente.substack.com/subscribe"><span>Subscreva agora</span></a></p><div><hr></div><p><strong>LADO B : EDI&#199;&#213;ES DO TEXTO EM FRANC&#202;S.</strong></p><p>traduit en fran&#231;ais par <strong>Bruna Cabral.</strong></p><p><strong><span>La femme qui devient monstre : spectralit&#233;, transgression et corps contre nature &#224; la lumi&#232;re des travaux de Serge Margel.</span></strong></p><p><strong><span>// Bruna Cabral.</span></strong></p><p><span>Une constante traverse l&#8217;histoire de la culture occidentale et semble survivre aux transformations religieuses, politiques et sociales : toute femme qui d&#233;fie l&#8217;ordre &#233;tabli court le risque d&#8217;&#234;tre transform&#233;e en monstre. Il ne s&#8217;agit pas d&#8217;une monstruosit&#233; n&#233;e d&#8217;un corps difforme, de la violence ou de la m&#233;chancet&#233; en elles-m&#234;mes, mais d&#8217;une construction symbolique qui fait de toute alt&#233;rit&#233; une menace d&#232;s lors qu&#8217;elle &#233;chappe aux attentes d&#8217;une soci&#233;t&#233;. Le monstrueux ne constitue donc pas une qualit&#233; intrins&#232;que du sujet ; il rel&#232;ve d&#8217;un langage, d&#8217;un dispositif symbolique destin&#233; &#224; d&#233;signer des corps qui refusent de demeurer dans les limites de ce qu&#8217;une &#233;poque consid&#232;re comme naturel. La femme devient monstrueuse au moment o&#249; elle cesse de correspondre &#224; l&#8217;id&#233;al qui ordonne son existence : m&#232;re, &#233;pouse, sainte, soignante, silencieuse, ob&#233;issante. Lorsque ce corps revendique le pouvoir, le d&#233;sir, l&#8217;autonomie, la violence ou, plus simplement, le droit d&#8217;exister au-del&#224; de ces cat&#233;gories, il cesse d&#8217;&#234;tre per&#231;u comme un corps f&#233;minin et occupe un espace liminaire entre l&#8217;humain et l&#8217;inhumain, entre le connu et l&#8217;incompr&#233;hensible. C&#8217;est pr&#233;cis&#233;ment dans cet entre-deux que surgit le monstre.</span></p><p><span>Une telle perspective permet de d&#233;placer l&#8217;&#233;tude de la monstruosit&#233; au-del&#224; des figures fantastiques de la litt&#233;rature ou du cin&#233;ma. Bien avant d&#8217;appara&#238;tre sous les traits d&#8217;une cr&#233;ature surnaturelle, le monstre existait d&#233;j&#224; comme cat&#233;gorie politique et culturelle, destin&#233;e &#224; fixer les fronti&#232;res de l&#8217;ordre social. Chaque soci&#233;t&#233; produit ses propres monstres parce que chacune &#233;prouve la n&#233;cessit&#233; de d&#233;signer ce qui doit demeurer &#224; l&#8217;ext&#233;rieur de son ordre symbolique. Le monstre ne repr&#233;sente pas seulement ce qui menace la stabilit&#233; du monde ; il en r&#233;v&#232;le &#233;galement la profonde fragilit&#233;. Sa pr&#233;sence montre que les normes ne sont jamais naturelles, mais sans cesse reconduites par des discours religieux, scientifiques, juridiques et moraux. En ce sens, la figure de la femme monstrueuse occupe une place privil&#233;gi&#233;e dans l&#8217;histoire de l&#8217;imaginaire occidental, dans la mesure o&#249; elle met au jour combien la d&#233;finition m&#234;me de la f&#233;minit&#233; repose sur une surveillance permanente des corps f&#233;minins.</span></p><p><span>C&#8217;est pr&#233;cis&#233;ment en ce point que la r&#233;flexion de Serge Margel apporte une contribution d&#233;cisive. Bien que son travail ne porte pas sp&#233;cifiquement sur la monstruosit&#233; f&#233;minine, son enqu&#234;te sur la spectralit&#233; permet de comprendre pourquoi certaines figures ne disparaissent jamais de l&#8217;imaginaire collectif. Lors du s&#233;minaire anim&#233; par Serge Margel, auquel j&#8217;ai assist&#233; le 13 juin 2026, ce qui a particuli&#232;rement retenu mon attention fut la mani&#232;re dont le philosophe insistait sur la survivance des spectres, non comme de simples manifestations du surnaturel, mais comme des formes de persistance de ce que la culture cherche &#224; exclure. Dans sa r&#233;flexion, le spectre ne renvoie pas uniquement au mort qui revient ; il d&#233;signe ce qui ne peut jamais &#234;tre d&#233;finitivement effac&#233; parce qu&#8217;il demeure inscrit dans la m&#233;moire, dans le langage, dans les images et dans les formes culturelles.</span></p><p><span>Cette compr&#233;hension traverse &#233;galement </span><em><span>Arch&#233;ologies du fant&#244;me</span></em><span>, dont la pr&#233;sentation affirme que &#171; tous ces th&#232;mes trouvent leur point d&#8217;intersection dans le fant&#244;me ou le spectre, inscrit dans une m&#233;moire ext&#233;rieure, technique d&#8217;&#233;criture, trace, marque, signe, inscription sur un support. &#201;critures-cryptes, cryptogrammes : l&#8217;&#233;criture chiffre une mort qui vient hanter la vie des vivants &#187; (PENNA, 2017). La force de cette formulation r&#233;side pr&#233;cis&#233;ment dans le fait qu&#8217;elle envisage le spectre comme une forme de survivance. Le fant&#244;me cesse ainsi d&#8217;appartenir exclusivement au registre de la fiction pour devenir un mode d&#8217;existence qui persiste, m&#234;me lorsqu&#8217;une culture croit l&#8217;avoir d&#233;finitivement &#233;limin&#233;.</span></p><p><span>C&#8217;est peut-&#234;tre pr&#233;cis&#233;ment ce qui advient de la femme monstrueuse. Elle ne dispara&#238;t jamais. Au contraire, elle change continuellement de nom, d&#8217;apparence et de contexte historique. Tant&#244;t elle appara&#238;t sous les traits de la sorci&#232;re, tant&#244;t sous ceux de la reine sanguinaire, de la femme fatale, de la m&#232;re d&#233;moniaque, de l&#8217;assassine, de l&#8217;hyst&#233;rique, de la s&#233;ductrice ou de la folle. Les figures se transforment au gr&#233; des &#233;poques, mais leur structure demeure remarquablement stable. Toutes mettent en sc&#232;ne une femme qui a refus&#233; la place qui lui &#233;tait assign&#233;e et qui, pr&#233;cis&#233;ment pour cette raison, a d&#251; &#234;tre rejet&#233;e hors des fronti&#232;res de la normalit&#233;. La monstruosit&#233; fonctionne ainsi comme un dispositif de traduction de la diff&#233;rence. Lorsque le langage ne parvient plus &#224; penser une femme &#224; travers les cat&#233;gories ordinaires de la f&#233;minit&#233;, il en vient &#224; la traduire dans le langage de l&#8217;horreur.</span></p><p><span>Cette op&#233;ration r&#233;v&#232;le un &#233;l&#233;ment fondamental : la monstruosit&#233; ne d&#233;crit jamais uniquement le monstre ; elle d&#233;crit, avant tout, la soci&#233;t&#233; qui l&#8217;a produit. La femme monstrueuse devient la surface sur laquelle une culture projette ses angoisses les plus profondes. Elle rend visible ce que le discours dominant s&#8217;efforce constamment de refouler : la possibilit&#233; que le f&#233;minin existe ind&#233;pendamment des fonctions qui lui ont &#233;t&#233; assign&#233;es. C&#8217;est pr&#233;cis&#233;ment cette possibilit&#233; qui fait du corps f&#233;minin un objet privil&#233;gi&#233; de l&#8217;imaginaire monstrueux. Non parce qu&#8217;il existerait chez la femme une monstruosit&#233; naturelle, mais parce que son corps occupe depuis toujours une place centrale dans l&#8217;organisation symbolique de la famille, de la religion et de la reproduction sociale. Modifier ce corps, ou simplement imaginer qu&#8217;il puisse &#233;chapper aux fonctions qui le d&#233;finissent, revient &#224; &#233;branler toute l&#8217;architecture symbolique sur laquelle reposent ces institutions.</span></p><p><span>C&#8217;est pourquoi la transgression f&#233;minine est rarement repr&#233;sent&#233;e comme une simple d&#233;sob&#233;issance. Elle acquiert presque toujours une dimension ontologique, comme si la femme cessait d&#8217;appartenir pleinement au monde des vivants ou &#224; l&#8217;ordre de l&#8217;humain. Il ne suffit pas qu&#8217;elle soit d&#233;sign&#233;e comme criminelle, p&#233;cheresse ou h&#233;r&#233;tique ; encore faut-il qu&#8217;elle apparaisse comme contre nature. Le discours de la monstruosit&#233; remplit pr&#233;cis&#233;ment cette fonction. En transformant la transgression en alt&#233;ration de l&#8217;&#234;tre, il d&#233;place la question du terrain politique vers celui de la nature. Au lieu de s&#8217;interroger sur les raisons qui conduisent une femme &#224; vouloir gouverner, exercer la violence ou refuser la maternit&#233;, la culture pr&#233;f&#232;re affirmer que son existence m&#234;me constitue une anomalie. Le monstrueux naturalise ainsi ce qui rel&#232;ve, en r&#233;alit&#233;, d&#8217;une construction historique.</span></p><p><span>Cette naturalisation se manifeste dans d&#8217;innombrables figures de la litt&#233;rature et du cin&#233;ma. Lady Macbeth constitue sans doute l&#8217;une des expressions les plus &#233;labor&#233;es de ce processus. Shakespeare ne fait pas d&#8217;elle un monstre parce qu&#8217;elle tue : la trag&#233;die est peupl&#233;e d&#8217;hommes qui commettent des actes de violence sans que leur humanit&#233; soit pour autant remise en cause. Lady Macbeth devient monstrueuse parce qu&#8217;elle d&#233;sire ce qu&#8217;une femme ne devrait pas d&#233;sirer selon l&#8217;ordre patriarcal qui structure son &#233;poque. Son ambition ne consiste pas seulement &#224; conqu&#233;rir le pouvoir ; elle implique l&#8217;abandon de la position symbolique &#224; partir de laquelle la f&#233;minit&#233; &#233;tait d&#233;finie. Lorsqu&#8217;elle invoque les esprits afin qu&#8217;ils la d&#233;pouillent de tout ce qui fait d&#8217;elle une femme et qu&#8217;ils transforment son lait en fiel, elle accomplit un geste de rupture radicale avec l&#8217;id&#233;e m&#234;me de nature. Le lait, traditionnellement associ&#233; au soin, &#224; la maternit&#233; et &#224; la continuit&#233; de la vie, devient poison. Il ne s&#8217;agit pas uniquement d&#8217;un renversement moral, mais d&#8217;une v&#233;ritable m&#233;tamorphose ontologique. Lady Macbeth demande la destruction de l&#8217;identit&#233; f&#233;minine telle que son monde l&#8217;avait institu&#233;e. C&#8217;est &#224; cet instant qu&#8217;elle cesse d&#8217;&#234;tre simplement ambitieuse pour devenir une figure monstrueuse.</span></p><p><span>Shakespeare op&#232;re toutefois un d&#233;placement encore plus subtil. Apr&#232;s le meurtre, Lady Macbeth est hant&#233;e par des spectres qui ne prennent jamais la forme d&#8217;apparitions ext&#233;rieures. Le sang qui refuse de quitter ses mains ne constitue pas seulement la m&#233;taphore de la culpabilit&#233; ; il est la trace persistante d&#8217;une violence devenue ins&#233;parable de son existence. Le crime cesse d&#8217;&#234;tre un &#233;v&#233;nement r&#233;volu pour devenir une pr&#233;sence continue. En ce sens, Lady Macbeth rejoint ce que Serge Margel d&#233;signe comme la spectralit&#233;. Son identit&#233; est d&#233;sormais habit&#233;e par ce qui ne pourra jamais &#234;tre effac&#233;. Elle ne co&#239;ncide plus avec elle-m&#234;me ; elle vit sous le regard incessant de ce que son propre acte a fait advenir. La monstruosit&#233; ne r&#233;side donc plus uniquement dans l&#8217;acte criminel : elle devient une mani&#232;re d&#8217;&#234;tre au monde, une existence hant&#233;e par une pr&#233;sence qui ne cesse de revenir.</span></p><p><span>La figure de Lady Macbeth montre ainsi que le monstre n&#8217;est jamais une identit&#233; stable, mais le r&#233;sultat d&#8217;un processus de transformation. Il na&#238;t au moment o&#249; un sujet franchit une fronti&#232;re que sa culture avait d&#233;clar&#233;e infranchissable. C&#8217;est pr&#233;cis&#233;ment ce franchissement qui int&#233;resse Margel lorsqu&#8217;il interroge les figures spectrales : le spectre n&#8217;est pas une essence, mais une survivance, la persistance de ce qui ne trouve plus de place dans les cat&#233;gories &#233;tablies. De la m&#234;me mani&#232;re, la femme monstrueuse n&#8217;est pas un &#234;tre naturellement anormal ; elle est la survivance d&#8217;une alt&#233;rit&#233; que l&#8217;ordre symbolique ne parvient ni &#224; int&#233;grer ni &#224; faire dispara&#238;tre. C&#8217;est pourquoi elle revient sans cesse, sous des noms diff&#233;rents, dans les r&#233;cits, les images et les repr&#233;sentations culturelles. Chaque &#233;poque croit produire une nouvelle figure du f&#233;minin monstrueux, alors qu&#8217;elle ne fait souvent que r&#233;activer, sous une autre forme, un m&#234;me imaginaire spectral.</span></p><p><span>Il est significatif que ce m&#234;me m&#233;canisme r&#233;apparaisse, des si&#232;cles plus tard, dans </span><em><span>Rosemary&#8217;s Baby</span></em><span>. L&#224; encore, l&#8217;h&#233;ro&#239;ne fait l&#8217;exp&#233;rience d&#8217;une rupture de l&#8217;ordre naturel, mais cette fois-ci inscrite directement dans son corps. La grossesse, pr&#233;sent&#233;e pendant des si&#232;cles comme le symbole par excellence de la f&#233;minit&#233;, devient un espace d&#8217;inqui&#233;tante &#233;tranget&#233;. Rosemary demeure m&#232;re ; pourtant, sa maternit&#233; ne correspond plus &#224; l&#8217;imaginaire qui organise traditionnellement cette exp&#233;rience. Son ventre cesse de repr&#233;senter uniquement le lieu de la g&#233;n&#233;ration de la vie pour devenir celui d&#8217;une alt&#233;rit&#233; radicale, impossible &#224; ma&#238;triser ou &#224; comprendre. L&#8217;horreur du film ne r&#233;side pas seulement dans la naissance de l&#8217;Ant&#233;christ, mais dans l&#8217;effondrement de la certitude selon laquelle le corps f&#233;minin appartiendrait naturellement &#224; l&#8217;ordre du vivant. Peu &#224; peu, Rosemary d&#233;couvre que son corps lui a &#233;t&#233; confisqu&#233; par des forces qui &#233;chappent enti&#232;rement &#224; sa volont&#233;. Le ventre devient le territoire de l&#8217;inconnu ; le corps cesse d&#8217;&#234;tre intime pour devenir &#233;tranger &#224; lui-m&#234;me.</span></p><p><span>C&#8217;est pr&#233;cis&#233;ment l&#224; que le monstrueux r&#233;v&#232;le toute sa puissance symbolique. Rosemary n&#8217;est pas monstrueuse parce qu&#8217;elle porte un &#234;tre d&#233;moniaque ; elle le devient parce que sa maternit&#233; rompt avec l&#8217;id&#233;e selon laquelle la femme incarnerait naturellement l&#8217;origine d&#8217;une vie harmonieuse et ordonn&#233;e. Le corps f&#233;minin cesse d&#8217;&#234;tre le garant de la stabilit&#233; pour devenir le lieu m&#234;me de l&#8217;incertitude. La culture traduit alors cette rupture dans le langage de l&#8217;horreur. Le ventre ne symbolise plus la protection, mais la menace ; il ne produit plus la continuit&#233;, mais la discontinuit&#233;. La femme devient le lieu o&#249; la nature elle-m&#234;me semble vaciller. Peut-&#234;tre est-ce l&#224; la d&#233;finition la plus profonde de la monstruosit&#233; f&#233;minine : un corps dont la seule existence emp&#234;che la nature de continuer &#224; appara&#238;tre comme une &#233;vidence.</span></p><p><span>Ainsi, la femme monstrueuse cesse d&#8217;&#234;tre un simple personnage de la litt&#233;rature, de l&#8217;histoire ou du cin&#233;ma pour appara&#238;tre comme une construction culturelle qui traverse les si&#232;cles, se transformant sans jamais perdre sa fonction symbolique. Ce qui demeure constant n&#8217;est pas la figure du monstre elle-m&#234;me, mais la n&#233;cessit&#233; de conf&#233;rer &#224; la femme transgressive une existence situ&#233;e au-del&#224; des fronti&#232;res de l&#8217;humain, comme si son refus d&#8217;occuper les places qui lui sont assign&#233;es appelait une explication exc&#233;dant le champ du rationnel. Dans cette perspective, le monstrueux ne d&#233;signe pas une anomalie de la nature ; il constitue un discours destin&#233; &#224; pr&#233;server l&#8217;id&#233;e m&#234;me de nature contre ce qui en r&#233;v&#232;le le caract&#232;re historique et construit. La reine qui gouverne, la femme qui exerce la violence, la m&#232;re qui rompt avec l&#8217;id&#233;al de la maternit&#233;, celle qui revendique le pouvoir ou l&#8217;autonomie sur son propre corps deviennent monstrueuses parce qu&#8217;elles rendent visibles les failles des cat&#233;gories qui soutiennent l&#8217;ordre patriarcal.</span></p><p><span>C&#8217;est en ce point que la r&#233;flexion de Serge Margel acquiert toute sa port&#233;e herm&#233;neutique. Si le spectre est la survivance de ce qu&#8217;une culture s&#8217;efforce sans cesse d&#8217;effacer, alors la femme monstrueuse en constitue l&#8217;une des figures les plus persistantes. Condamn&#233;e, r&#233;duite au silence, pathologis&#233;e ou diabolis&#233;e, elle ne dispara&#238;t jamais v&#233;ritablement. Elle revient sous d&#8217;autres noms, d&#8217;autres visages, d&#8217;autres r&#233;cits, comme si chaque &#233;poque &#233;tait condamn&#233;e &#224; r&#233;inventer la figure de celle qu&#8217;elle ne parvient pas &#224; int&#233;grer. La monstruosit&#233; ne r&#233;side donc pas dans l&#8217;&#234;tre de la femme, mais dans le regard qui la constitue comme telle, dans le dispositif symbolique qui transforme sa diff&#233;rence en alt&#233;rit&#233; radicale.</span></p><p><span>Cette lecture rejoint finalement l&#8217;intuition fondamentale d&#233;velopp&#233;e par Margel : le spectre n&#8217;est jamais ce qui appartient au pass&#233;, mais ce qui insiste &#224; demeurer pr&#233;sent parce qu&#8217;aucune op&#233;ration d&#8217;effacement n&#8217;a r&#233;ussi &#224; l&#8217;abolir. De la m&#234;me mani&#232;re, la femme monstrueuse ne marque pas la fin de l&#8217;humanit&#233; de la femme ; elle r&#233;v&#232;le plut&#244;t la limite de la culture elle-m&#234;me, incapable de reconna&#238;tre comme pleinement humain un corps qui refuse de se conformer aux normes qui le d&#233;finissent. Le monstre f&#233;minin appara&#238;t alors comme une figure spectrale de la modernit&#233; : ni enti&#232;rement pr&#233;sente, ni totalement absente; ni pleinement humaine, ni absolument inhumaine. Il occupe cet espace liminaire o&#249; les cat&#233;gories vacillent et o&#249; l&#8217;ordre symbolique laisse entrevoir sa propre fragilit&#233;. En ce sens, la monstruosit&#233; f&#233;minine ne constitue pas l&#8217;exception qui confirme la r&#232;gle, mais le sympt&#244;me de la crise permanente des fronti&#232;res &#224; partir desquelles une culture pr&#233;tend distinguer le naturel du contre-nature, le normal de l&#8217;anormal, l&#8217;humain de son autre.</span></p><div><hr></div><p><strong><span>Les fant&#244;mes de l&#8217;&#233;criture de Lispector.</span></strong></p><p><em><span>&#201;crit par </span><strong><span>Victor Silva.</span></strong><span> TRADUIT EN FRAN&#199;AIS PAR </span><strong><span>BRUNA CABRAL</span></strong><span>.</span></em></p><p><span>Dans les conf&#233;rences de Serge Margel sur l&#8217;arch&#233;ologie du monstrueux, nous apprenons avant tout quelque chose sur l&#8217;apparition du monstre, sur le fonctionnement du corps du monstrueux. Que le monstre est celui dont l&#8217;existence est paradoxale, qui &#171; n&#8217;appara&#238;t qu&#8217;en disparaissant &#187;, et que son apparition est toujours une r&#233;apparition. Celui qui, lorsqu&#8217;il appara&#238;t, dispara&#238;t, et lorsqu&#8217;il dispara&#238;t, appara&#238;t ; c&#8217;est pourquoi toute apparition est toujours une r&#233;apparition, il est presque n&#233; et presque mort, il poss&#232;de une existence minimale, une quasi-existence. Une existence fantomatique, &#171;fantomique&#187; pour reprendre ses termes. Ce corps fantomatique est avant tout quelque chose que je ne vois pas, mais dont je sais qu&#8217;il me voit, et c&#8217;est l&#224; que r&#233;side la terreur existentielle du corps fantomatique : c&#8217;est quelque chose qui me regarde en retour. Il est la limite de l&#8217;existence, et regarder ce corps, c&#8217;est me regarder moi-m&#234;me en face, c&#8217;est me montrer qui je suis. Mais avant de poursuivre dans toutes ces digressions, quel rapport cela a-t-il, au d&#233;part, avec Clarice Lispector?</span></p><p><span>Eh bien, toute l&#8217;&#339;uvre de Lispector est en quelque sorte fantomatique, mais c&#8217;est dans </span><em><span>&#193;gua Viva</span></em><span> qu&#8217;elle atteint son paroxysme: un livre presque impossible &#224; expliquer, mais dont on retrouve les m&#233;andres dans d&#8217;autres ouvrages. Comment oublier cette phrase de Macab&#233;a dans A Hora da Escrita : &#171;C&#8217;est que je ne sais &#234;tre qu&#8217;impossible.&#187; L&#8217;&#233;criture de Lispector, tant dans A Hora da Escrita que dans &#193;gua Viva (pour ne citer que ces deux exemples), est hant&#233;e par cet impossible. Dans &#193;gua Viva, il y a quelque chose qui existe et qui n&#8217;existe pas, quelque chose dont l&#8217;existence est tr&#232;s t&#233;nue, et qui, chaque fois qu&#8217;elle appara&#238;t, dispara&#238;t aussit&#244;t &#8211; cette chose, cet &#233;v&#233;nement, ce sentiment.</span></p><blockquote><p><span>&#8220; Tenho certo medo de mim, n&#227;o sou de confian&#231;a, e desconfio do meu falso poder. <br>Este &#233; a palavra de quem n&#227;o pode.<br>N&#227;o dirijo nada. Nem minhas palavras&#8221; (AV. P. 27)</span></p></blockquote><p><span>Il est cet &#234;tre hors de l&#8217;espace et du temps. Il vaut peut-&#234;tre d&#233;sormais la peine de s&#8217;int&#233;resser non seulement &#224; Macab&#233;a, mais aussi au narrateur de </span><em><span>L&#8217;Heure de l&#8217;&#233;toile</span></em><span>, celui qui non seulement regarde Macab&#233;a, mais qui est &#233;galement regard&#233;, qui se sent regard&#233; par elle et qui tient toujours &#224; l&#8217;appeler une sorte de &#171; minuscule cr&#233;ature &#187;, cet &#234;tre minuscule et monstrueux. Celui qui &#233;prouve une fascination inexplicable pour cette cr&#233;ature qui semble pourtant le lasser et lui para&#238;tre inint&#233;ressante : &#171; Je suis absolument las de la litt&#233;rature ; seul le silence me tient compagnie. [...] Je dois interrompre cette histoire pendant environ trois jours &#187; (AHDE, p. 63). Malgr&#233; tout, il continue d&#8217;&#233;crire. Car, en regardant Macab&#233;a, il est en m&#234;me temps regard&#233; par elle ; il devient un autre, il devient lui aussi un monstre, il se reconna&#238;t dans ses propres limites, c&#8217;est-&#224;-dire en Macab&#233;a. Regarder cet obsc&#232;ne, c&#8217;est &#234;tre regard&#233; en retour. &#171; Excusez-moi, mais je vais continuer &#224; parler de moi-m&#234;me, qui suis mon inconnu &#187; (AHDE, p. 13).</span></p><p><span>Le concept d&#8217;&#171; irr&#233;el non fictionnel &#187;, d&#8217;&#171; irr&#233;alit&#233; pr&#233;sente &#187;, pr&#233;sent&#233; par Margel, ne s&#8217;applique-t-il pas tout autant &#224; Macab&#233;a qu&#8217;&#224; la narratrice d&#8217;</span><em><span>&#193;gua Viva</span></em><span> ? L&#8217;histoire de Macab&#233;a est celle de cet &#234;tre minuscule qui n&#8217;existe presque pas et qui est pourtant profond&#233;ment r&#233;el ; le narrateur nous le dit d&#8217;embl&#233;e : &#171; Exister n&#8217;est pas logique &#187; (AHDE, p. 17). Nous avons donc ici tous les &#233;l&#233;ments de cette r&#233;flexion : l&#8217;existence n&#8217;est pas logique ; Macab&#233;a est cet &#234;tre irr&#233;el et non fictionnel. Le fantomatique et le monstrueux r&#233;sident pr&#233;cis&#233;ment dans cette transgression des fronti&#232;res entre le r&#233;el et la fiction, dans cet innommable qui correspond &#224; ce que Margel d&#233;signe comme un &#171; surplus d&#8217;identit&#233; &#187;, un exc&#232;s d&#8217;identit&#233;, une sur-identit&#233;, manque et exc&#232;s &#224; la fois.</span></p><p><span>&#171; &#8211; Je ne sais pas comment faire un autre visage. Mais ce n&#8217;est que sur mon visage que je suis triste, car, &#224; l&#8217;int&#233;rieur, je suis m&#234;me joyeuse &#187; (AHDE, p. 47). Macab&#233;a incarne ce manque et cet exc&#232;s, cette coexistence paradoxale de la tristesse et de la joie. Elle est &#171; parabolique &#187;, selon le mot de Lispector : &#171; Parabolique &#8211; quoi que ce mot puisse signifier. Parabolique que je suis &#187; (AV, p. 61). Ce terme, qui ne signifie rien de mani&#232;re d&#233;termin&#233;e, en vient pourtant &#224; tout signifier.</span></p><p><span>Dans l&#8217;&#339;uvre de Lispector, nous sommes confront&#233;s &#224; une &#233;criture fantomatique, &#224; ces femmes-monstres, &#224; leurs sur-identit&#233;s, &#224; cette transgression des limites, au mot vivant qui se dresse devant nous, &#224; cette chose qui nous regarde en retour et nous transforme radicalement. Elle nous transforme en l&#8217;autre : il s&#8217;agit d&#8217;un mouvement de regard, de regarder et d&#8217;&#234;tre regard&#233;, d&#8217;&#234;tre regard&#233; dans sa propre alt&#233;rit&#233; &#8212; cette alt&#233;rit&#233; que nous sommes nous-m&#234;mes et que nous ne percevons qu&#8217;&#224; travers le regard de cet autre. C&#8217;est ainsi que s&#8217;op&#232;re la transformation : devenir l&#8217;autre, se transmuer en l&#8217;impossible.</span></p><div><hr></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://tremeluzente.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/tremeluzente.substack.com/subscribe"><span>Subscreva agora</span></a></p><blockquote><p><span>O </span><em><strong>&#8220;De-vindo&#8221;</strong></em><span> &#233; um projeto criado pelos amigos Bruna Cabral e Victor Silva, universit&#225;rios nos cursos de letras e sociologia da UFF, que buscam questionar a realidade do mundo atrav&#233;s da l&#237;ngua, dos textos e do discurso. A procura de um espa&#231;o que coubesse uma escrita independente, provocativa e experimental, surge a parceria nos intervalos das aulas de lingu&#237;stica e sociologia econ&#244;mica, em caf&#233;s ao redor do campus.</span></p><p><span>Afinal, Devindo? O ger&#250;ndio do verbo </span><em>devir. </em><span>Portanto, &#8220;devindo&#8221; indica o processo intermin&#225;vel de se tornar ou se transformar em algo. Pensar, agir e transgredir!</span></p><p><em><span>Considere apoiar o projeto com o valor de um caf&#233; no campus da faculdade de letras atrav&#233;s do pix </span><strong>ogatonapoesia@gmail.com &#43612;</strong></em></p></blockquote>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[DE-VINDO #12]]></title><description><![CDATA[Entre computadores e a liturgia, o cyber e o barroco.]]></description><link>https://tremeluzente.substack.com/p/de-vindo-12</link><guid isPermaLink="false">https://tremeluzente.substack.com/p/de-vindo-12</guid><dc:creator><![CDATA[briony.]]></dc:creator><pubDate>Sat, 30 May 2026 18:53:21 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/b2712977-9b3c-419e-a957-fb4ea27049f5_7016x4961.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong>O PAPA &#201; POP.</strong></p><p>// Por <em><strong>Bruna Cabral</strong></em></p><p>Na internet, uma fotografia renascentista pode aparecer ao lado de um meme, uma imagem religiosa pode ser reconfigurada com refer&#234;ncias da cultura pop, um imperador romano pode virar figurinha de WhatsApp, e uma intelig&#234;ncia artificial pode gerar uma catedral g&#243;tica habitada por personagens de videogame. Tudo passa a coexistir dentro do mesmo espa&#231;o visual, tudo &#233; mentira, ao mesmo passo que se torna reprodutivamente, uma nova verdade.</p><p>Nisso, a fotografia de Papa Le&#227;o XIV vestindo a tradicional batina branca, enquanto um par de t&#234;nis da Nike emerge discretamente sob o tecido lit&#250;rgico n&#227;o produz apenas um contraste visual curioso: ela encena uma fratura temporal. A imagem parece organizada em torno de uma impossibilidade, a impossibilidade contempor&#226;nea de existir em um presente puro, n&#227;o contaminado pelos res&#237;duos simb&#243;licos de outras &#233;pocas. O enquadramento &#233; quase cruel em sua semi&#243;tica. A batina longa, cl&#225;ssica, carregada de s&#233;culos de ritualidade cat&#243;lica, operando como um signo de perman&#234;ncia hist&#243;rica, entretanto, na extremidade inferior da composi&#231;&#227;o, o t&#234;nis d&#225; as caras. Um produto m&#225;ximo da cultura de consumo globalizada, ligado n&#227;o apenas ao vestu&#225;rio urbano, mas &#224; l&#243;gica do <em>branding</em>, do<em> hype</em> e da circula&#231;&#227;o acelerada de imagens digitais. O detalhe do t&#234;nis n&#227;o quebra a tradicionalidade da foto, ele a contamina, &#233; perturbador ao mesmo tempo que absurdo, instigante e belo.</p><p>E &#233; justamente nessa contamina&#231;&#227;o que a fotografia se torna profundamente<em> hantol&#243;gica.</em></p><p>A hantologia &#233; um conceito desenvolvido por Jacques Derrida, que parte da ideia de que o presente nunca est&#225; completamente livre do passado, vivemos cercados por &#8220;fantasmas&#8221; hist&#243;ricos, restos simb&#243;licos, futuros que n&#227;o aconteceram, tradi&#231;&#245;es que continuam existindo mesmo dentro da modernidade. Em vez de um tempo linear, a <em>hantologia </em>descreve um mundo onde diferentes &#233;pocas coexistem ao mesmo tempo, assombrando umas &#224;s outras. O que vemos n&#227;o &#233; uma simples atualiza&#231;&#227;o est&#233;tica da figura papal, mas a coexist&#234;ncia de regimes hist&#243;ricos incompat&#237;veis. A hist&#243;ria se confunde na linha do tempo e nos prova que nada &#233; linear.</p><p>Baudrillard radicaliza essa percep&#231;&#227;o ao argumentar que a contemporaneidade j&#225; n&#227;o opera atrav&#233;s da experi&#234;ncia direta do real, mas atrav&#233;s da circula&#231;&#227;o incessante de signos aut&#244;nomos. A quest&#227;o deixa de ser apenas a sobreviv&#234;ncia espectral do passado, e passa a envolver o progressivo esvaziamento simb&#243;lico das pr&#243;prias estruturas de significado. Os signos permanecem ativos, por&#233;m cada vez mais dissociados de profundidade hist&#243;rica, experi&#234;ncia concreta ou transcend&#234;ncia est&#225;vel. A crise est&#233;tica contempor&#226;nea vem precisamente dessa dissocia&#231;&#227;o. Em uma sociedade marcada pela reprodu&#231;&#227;o t&#233;cnica infinita, pela media&#231;&#227;o digital e pela satura&#231;&#227;o imag&#233;tica, os s&#237;mbolos deixam de remeter a uma origem s&#243;lida e passam a existir prioritariamente como superf&#237;cies circul&#225;veis. Baudrillard compreende esse fen&#244;meno como a substitui&#231;&#227;o do real pela hiper-realidade: uma condi&#231;&#227;o em que representa&#231;&#227;o e experi&#234;ncia tornam-se indistingu&#237;veis, dissolvendo a diferen&#231;a entre o vivido e sua simula&#231;&#227;o. Entretanto, quando articulada &#224; hantologia derridiana, essa hiper-realidade adquire um car&#225;ter profundamente melanc&#243;lico.</p><p>A gera&#231;&#227;o da internet talvez seja a primeira a habitar plenamente esse universo. Seu imagin&#225;rio &#233; constru&#237;do menos por tradi&#231;&#245;es lineares e mais por bancos infinitos de imagens. Ela n&#227;o herda s&#237;mbolos de forma organizada, ela os encontra em circula&#231;&#227;o, seu repert&#243;rio visual nasce de um remix, de montagens recombina&#231;&#245;es constantes.</p><p>Os signos contempor&#226;neos continuam carregando vest&#237;gios de sentidos antigos, mas agora em estado espectral, fragmentado e descontextualizado. A tradi&#231;&#227;o nunca desaparece, ela sobrevive como ru&#237;na est&#233;tica.  &#201; precisamente nesse cen&#225;rio que o cyberbarroco pode ser entendido como a est&#233;tica pr&#243;pria da perda contempor&#226;nea, assim como o barroco cl&#225;ssico emergiu em meio a crise espiritual e pol&#237;tica da modernidade inicial, o cyberbarroco manifesta a instabilidade simb&#243;lica do capitalismo em sua fase mais avan&#231;ada at&#233; aqui. E ainda dentro desse bojo, o cyberbarroco n&#227;o &#233; apenas um estilo est&#233;tico, mas uma forma de percep&#231;&#227;o, uma maneira de experimentar o mundo quando tudo se torna simultaneamente : imagem, arquivo, mem&#243;ria, espet&#225;culo e fantasma.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://tremeluzente.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/tremeluzente.substack.com/subscribe"><span>Subscreva agora</span></a></p><div><hr></div><p><em><strong>Cyberbarroco </strong></em><strong>e a produ&#231;&#227;o de realidade.</strong></p><p><strong>// </strong>Por <em><strong>Victor N. Silva</strong></em></p><p style="text-align: justify;"> Eu vivo no Barroco. N&#227;o de forma meton&#237;mica, e/ou metaf&#243;rica. Eu literalmente habito no barroco. &#201; o nome do bairro onde moro. Certamente, existe uma certa ironia em morar no &#8220;barroco&#8221;, em viver o barroco. A etimologia da palavra &#8220;barroco&#8221; n&#227;o &#233; ci&#234;ncia exata, a origem da palavra &#8220;barroco&#8221; devem de uma p&#233;rola com formato irregular para joias no s&#233;culo 16 e 17, vindo do nosso portugu&#234;s mesmo: &#8220;p&#233;rola barroca&#8221;. Mas, academicamente &#8220;barroco&#8221; ficou associado a um tipo de cr&#237;tica, e virando sin&#244;nimo de um &#8220;artif&#237;cio intelectual&#8221; , sendo associado a sofismos e bizantismo. Em termos arquitet&#244;nicos e art&#237;sticos, &#8220;barroco&#8221; foi usado de forma pejorativa para significar o rid&#237;culo, o excesso, falta de necessidade e indulg&#234;ncia at&#233; meados dos anos 1800, depois se tornou sinonimo de um per&#237;odo est&#233;tico hist&#243;rico.</p><p style="text-align: justify;"> Enquanto o termo <em>Cyber</em> &#8211; para encurtar &#8211; significa &#8220;governar&#8221; por meio do controle, da navega&#231;&#227;o. E por isso a cibern&#233;tica &#233; &#8220;teoria ou estudo da comunica&#231;&#227;o e do controle&#8221; como foi cunhado pelo matem&#225;tico Norbert Weiner.&#185;</p><p style="text-align: justify;"> Sendo assim, <em>cyberbarroco</em> seria uma alegoria que se refere ao controle ou governan&#231;a atrav&#233;s do sofismo. Assim como os sofistas &#233; algu&#233;m que usa de um argumento chique para te enganar (ou mostrar que &#233; mais inteligente), aqui usaremos sofismo, assim como o projeto &#8220;<em>everyone is a girl</em>&#8221; pensa, como denotativo de do ato de enganar as pessoas a pensar que algo &#233; melhor do que realmente &#233;. O que tamb&#233;m pode ser associado aos usos recentes do termo &#8220;<em><strong>Larp</strong></em>&#8221; &#8211; Live-Action Role-Playing &#8211; que seria, basicamente, fingir uma imagem do que n&#227;o se &#233;. E n&#227;o melhor exemplo de <em>cyberbarroco </em>do que a &#233;poca em que vivemos, em que essa &#233; a regra b&#225;sica dos influenciadores e dos anunciantes.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!IFit!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fad430eca-3d77-45d1-8544-089f10203440_1600x1200.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!IFit!, /__u/tremeluzente.substack.com/w_424, /__u/tremeluzente.substack.com/c_limit, /__u/tremeluzente.substack.com/f_webp, /__u/tremeluzente.substack.com/q_auto:good, /__u/tremeluzente.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fad430eca-3d77-45d1-8544-089f10203440_1600x1200.png 424w, 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Uma est&#233;tica de teatralidade como pot&#234;ncia. Ao inv&#233;s de meramente assinalar uma poss&#237;vel falta de &#8220;valores de verdade&#8221;, de decadadencia de tradi&#231;&#227;o, as autoras do projeto <em>EISA </em>advogam por um uso cr&#237;tico da est&#233;tica do <em>cyberbarroco, </em>que seria, como elas afirmam:</p><blockquote><p>&#8220;n&#227;o para se referir a uma verdade do mundo real nem para afirmar valores comuns como justi&#231;a, felicidade ou individualidade. Pelo contr&#225;rio, atuamos apenas por atuar: a performance se refere apenas a outras performances e aos seus tropos&#8221; &#178;</p></blockquote><p style="text-align: justify;">Ent&#227;o seria mais ou menos a ideia que eu j&#225; remeti aqui antes: &#233; a imagem sem semelhan&#231;a. N&#227;o h&#225; mais nada a remeter. N&#227;o se trata de c&#243;pias degradadas, mas uma pot&#234;ncia que encerra tanta a c&#243;pia quanto o original. &#201; o fim dos pontos de vista privilegiados. &#8220;N&#227;o h&#225; mais hierarquia poss&#237;vel; nem segundo, nem terceiro&#8230;&#8221;.(p.268) &#201; o triunfo da pot&#234;ncia do falso. &#201; o caos que se afirma enquanto pot&#234;ncia do caos. &#8220;<em><strong>caosmos</strong></em>&#8221; (p.270). &#179;</p><p style="text-align: justify;"> A estrat&#233;gia aqui &#233; exatamente criar o m&#225;ximo de ambival&#234;ncia poss&#237;vel. A ambival&#234;ncia n&#227;o &#233; s&#243; uma arma de engajamento estrat&#233;gico, mas tamb&#233;m pode ser uma arma de <em>cr&#237;tica</em>, pois afirmar a ambival&#234;ncia, o caos, &#233; cessar de querer dar ordem, cessar de ditar o certo e o errado, mas engendrar o pensamento, engendrar os possiveis. Num projeto Sontagueano (desculpa pelo neologismo, Sontag) de ir contra toda a interpreta&#231;&#227;o. Uma est&#233;tica ativa, ambival&#234;nte, sedutora e desafiadora. Ent&#227;o se trata n&#227;o s&#243; de um &#8220;larp&#8221;, mas talvez de &#8220;larpar&#8221; t&#227;o fundo que ningu&#233;m sabe realmente quem &#8220;voc&#234;&#8221; &#8220;&#233;&#8221;. Porque a pr&#243;pria ideia do sujeito <em>uno </em>&#233; uma fic&#231;&#227;o. Ou talvez seja &#8220;real&#8221;, t&#227;o &#8220;real&#8221; quanto qualquer fic&#231;&#227;o possa ser.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Sxc2!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F362ac953-d288-47e1-a7e0-c3dee757cade_400x397.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Sxc2!, /__u/tremeluzente.substack.com/w_424, /__u/tremeluzente.substack.com/c_limit, /__u/tremeluzente.substack.com/f_webp, /__u/tremeluzente.substack.com/q_auto:good, /__u/tremeluzente.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F362ac953-d288-47e1-a7e0-c3dee757cade_400x397.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Sxc2!, /__u/tremeluzente.substack.com/w_848, 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E a descri&#231;&#227;o que o site nos fornece &#233; fortuita: &#233; uma mistura de m&#250;sica barroca, que &#233; geralmente m&#250;sicas com &#8220;um flow ritmico, uma &#250;nica ideia mel&#243;dica que se desenvolve ao longo da obra, e contraponto&#8221;,&#8308; seria ent&#227;o m&#250;sica pop com elementos orquestrais ao mesmo tempo que n&#227;o exclui elementos de m&#250;sica moderna, como guitarra, e sons e instrumentos eletr&#244;nicos.</p><p style="text-align: justify;">Os bons exemplos da &#233;poca s&#227;o: Pet Sounds dos Beach Boys, Elanor Rigby dos Beatles,</p><p style="text-align: justify;">Care Of Cell 44 dos Zombies. Entre outros exemplos mais fora de &#233;poca como Kate Bush e Weyes Blood. Mas somente por essa descri&#231;&#227;o, poder&#237;amos pensar numa diversa gama de artistas, como o DJ Jap&#244;nes Nujabes, que remixava jazz/m&#250;sica cl&#225;ssica com letras e rap. Ou o DJ Takuya Nakamura que mistura jazz e jungle, instrumentos mais barrocos como trompete ao vivo e mixes de piano, com batidas eletr&#244;nicas.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!gX-R!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc6199ab6-456c-4f6b-917c-9e09e3c7a978_700x700.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!gX-R!, /__u/tremeluzente.substack.com/w_424, /__u/tremeluzente.substack.com/c_limit, /__u/tremeluzente.substack.com/f_webp, /__u/tremeluzente.substack.com/q_auto:good, /__u/tremeluzente.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc6199ab6-456c-4f6b-917c-9e09e3c7a978_700x700.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!gX-R!, 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sens&#237;vel, uma regulamenta&#231;&#227;o social e a pol&#237;tica dos sentidos: o recorte do sens&#237;vel e do suprassens&#237;vel, os supranaturais. Um mundo sensorial compartilhado, e tamb&#233;m uma consci&#234;ncia subjetiva que &#233; capaz de decodific&#225;lo e entend&#234;-lo.&#8311;</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Jhwi!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2fc73a52-4464-494a-8bc3-2e263fa04671_240x240.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Jhwi!, /__u/tremeluzente.substack.com/w_424, /__u/tremeluzente.substack.com/c_limit, /__u/tremeluzente.substack.com/f_webp, /__u/tremeluzente.substack.com/q_auto:good, /__u/tremeluzente.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2fc73a52-4464-494a-8bc3-2e263fa04671_240x240.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Jhwi!, /__u/tremeluzente.substack.com/w_848, /__u/tremeluzente.substack.com/c_limit, /__u/tremeluzente.substack.com/f_webp, /__u/tremeluzente.substack.com/q_auto:good, /__u/tremeluzente.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2fc73a52-4464-494a-8bc3-2e263fa04671_240x240.png 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Jhwi!, /__u/tremeluzente.substack.com/w_1272, /__u/tremeluzente.substack.com/c_limit, /__u/tremeluzente.substack.com/f_webp, /__u/tremeluzente.substack.com/q_auto:good, /__u/tremeluzente.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2fc73a52-4464-494a-8bc3-2e263fa04671_240x240.png 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Jhwi!, /__u/tremeluzente.substack.com/w_1456, /__u/tremeluzente.substack.com/c_limit, /__u/tremeluzente.substack.com/f_webp, /__u/tremeluzente.substack.com/q_auto:good, /__u/tremeluzente.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2fc73a52-4464-494a-8bc3-2e263fa04671_240x240.png 1456w" sizes="100vw"><img src="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Jhwi!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2fc73a52-4464-494a-8bc3-2e263fa04671_240x240.png" width="240" height="240" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/2fc73a52-4464-494a-8bc3-2e263fa04671_240x240.png&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:240,&quot;width&quot;:240,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:null,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:null,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Jhwi!, /__u/tremeluzente.substack.com/w_424, /__u/tremeluzente.substack.com/c_limit, /__u/tremeluzente.substack.com/f_auto, /__u/tremeluzente.substack.com/q_auto:good, /__u/tremeluzente.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2fc73a52-4464-494a-8bc3-2e263fa04671_240x240.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Jhwi!, /__u/tremeluzente.substack.com/w_848, /__u/tremeluzente.substack.com/c_limit, /__u/tremeluzente.substack.com/f_auto, /__u/tremeluzente.substack.com/q_auto:good, /__u/tremeluzente.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2fc73a52-4464-494a-8bc3-2e263fa04671_240x240.png 848w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Jhwi!, /__u/tremeluzente.substack.com/w_1272, /__u/tremeluzente.substack.com/c_limit, /__u/tremeluzente.substack.com/f_auto, /__u/tremeluzente.substack.com/q_auto:good, /__u/tremeluzente.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2fc73a52-4464-494a-8bc3-2e263fa04671_240x240.png 1272w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Jhwi!, /__u/tremeluzente.substack.com/w_1456, /__u/tremeluzente.substack.com/c_limit, /__u/tremeluzente.substack.com/f_auto, /__u/tremeluzente.substack.com/q_auto:good, /__u/tremeluzente.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2fc73a52-4464-494a-8bc3-2e263fa04671_240x240.png 1456w" sizes="100vw" loading="lazy"></picture><div></div></div></a></figure></div><p style="text-align: justify;"> Mas o que &#8220;God Only Knows&#8221; dos Beach Boys tem de rela&#231;&#227;o com uma foto do Papa de Nike ? S&#227;o um desabamento.&#8309; &#201; destacar algo da modernidade, o que Nietzsche destaca como o intempestivo, &#8220;que pertence &#224; modernidade, mas tamb&#233;m que deve ser voltada contra ela&#8221; (p.270)&#8310;. A figura do papa seria uma figura barroca <em>par excellence</em>, ele &#233; a encarna&#231;&#227;o f&#237;sica da tradi&#231;&#227;o. Ele &#233; mais do que um simples chefe de estado, ele &#233; a incorpora&#231;&#227;o viva da religi&#227;o, do dogma. A imagem que ele carrega &#233; a imagem do sagrado, por isso tem toda uma vestimenta, tem uma s&#233;rie de fazeres e n&#227;o fazeres, que est&#227;o incorporados no seu dever. Quer dizer, ele &#233; a imagem perform&#225;tica barroca de tradi&#231;&#227;o. Quando o Papa usa Nike, um encontro ocorre, a tradi&#231;&#227;o, e a modernidade, &#233; o mesmo que o pop barroco, uma sobreposi&#231;&#227;o de elementos orquestrais, e elementos modernos, criando uma imagem intempestiva, quase irreal.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!7TVK!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F38945f95-56cb-4487-a2c2-3254a8139e92_860x573.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!7TVK!, /__u/tremeluzente.substack.com/w_424, /__u/tremeluzente.substack.com/c_limit, /__u/tremeluzente.substack.com/f_webp, /__u/tremeluzente.substack.com/q_auto:good, 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Criando uma clivagem no pr&#243;prio espa&#231;o-tempo, entre o &#8220;moderno&#8221; e o &#8220;antigo&#8221;, entre a &#8220;c&#243;pia&#8221; e o &#8220;original&#8221;, &#8220;artificial&#8221; e &#8220;natural&#8221;.</p><p style="text-align: justify;"> Porque a est&#233;tica barroca &#233; acima de tudo uma est&#233;tica da &#8220;super-realidade&#8221; e da &#8220;super-naturalidade&#8221;, porque como j&#225; explicamos antes, barroquismo e sofismo s&#227;o sin&#244;nimos, ent&#227;o o barroco &#233; uma coisa mais que natural, &#233; performaticamente natural, &#233; uma coisa que &#233; ao mesmo tempo, realista, teatral e sensual. O <em>cyberbarroco </em>seria a era dos influencers, e suas personas e suas vidas perfomaticamentes irrealistas, rotinas impossiveis. Enquanto exibem o que parece ser a &#8220;vida real&#8221;, sabemos que por tr&#225;s das c&#226;meras existe toda uma preocupa&#231;&#227;o, com ilumina&#231;&#227;o, maquiagem, &#226;ngulo, cores etc, tudo para dar um efeito de &#8220;realidade&#8221;.</p><p style="text-align: justify;"> Mas o nosso uso cr&#237;tico do <em>cyberbarroco </em>seria exatamente o uso das personas, da performance mas sem nenhum remetente, a imagem sem semelhan&#231;a, pura teatralidade.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!1tHB!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb2b4cd15-18a2-41a0-bfe8-22e209af596c_860x860.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!1tHB!, /__u/tremeluzente.substack.com/w_424, 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href="/__u/donotresearch.substack.com/p/i-lost-track-of-what-is-real?utm_source=substack&amp;utm_campaign=post_embed&amp;utm_medium=web"><div class="embedded-post-header"><img class="embedded-post-publication-logo" src="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!iiV-!,w_56,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5054dc27-79c0-4b83-b460-34bd3b167d35_1280x1280.png" loading="lazy"><span class="embedded-post-publication-name">Do Not Research</span></div><div class="embedded-post-title-wrapper"><div class="embedded-post-title">I Lost Track of What is Real</div></div><div class="embedded-post-body">Ester Freider is a writer and digital curator based in London.It&#8217;s real folks&#8230;</div><div class="embedded-post-cta-wrapper"><span class="embedded-post-cta">Read more</span></div><div class="embedded-post-meta">4 months ago &#183; 118 likes &#183; 3 comments &#183; Do Not Research, ester freider, and everyone is a girl</div></a></div><p style="text-align: justify;">&#179; &#8309; &#8310; DELEUZE, Gilles. L&#243;gica do Sentido. S&#227;o Paulo: Perspectiva, 2015.</p><p style="text-align: justify;">&#8308; <a href="https://rateyourmusic.com/genre/baroque-pop/">https://rateyourmusic.com/genre/baroque-pop/</a></p><p style="text-align: justify;">&#8311; aqui eu estou citando as p&#225;ginas 43 e 44 de Dysphoria Mundi do Paul Preciado. 1 edi&#231;&#227;o, Rio de Janeiro: Zahar, 2023.</p><div><hr></div><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://tremeluzente.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigada por nos ler, se inscreva abaixo!</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><blockquote><p>O <em><strong>&#8220;De-vindo&#8221;</strong></em> &#233; um projeto criado pelos amigos Bruna Cabral e Victor Silva, universit&#225;rios nos cursos de letras e sociologia da UFF, que buscam questionar a realidade do mundo atrav&#233;s da l&#237;ngua, dos textos e do discurso. A procura de um espa&#231;o que coubesse uma escrita independente, provocativa e experimental, surge a parceria nos intervalos das aulas de lingu&#237;stica e sociologia econ&#244;mica, em caf&#233;s ao redor do campus.</p><p>Afinal, Devindo? O ger&#250;ndio do verbo <em>devir. </em>Portanto, &#8220;devindo&#8221; indica o processo intermin&#225;vel de se tornar ou se transformar em algo. Pensar, agir e transgredir!</p><p><em>Considere apoiar o projeto com o valor de um caf&#233; no campus da faculdade de letras atrav&#233;s do pix <strong>ogatonapoesia@gmail.com &#43612;</strong></em></p></blockquote>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Friends to lovers, primeiro pé na bunda e latas de energético.]]></title><description><![CDATA[Um resumo &#225;cido e chocante sobre os meus &#250;ltimos meses!]]></description><link>https://tremeluzente.substack.com/p/friends-to-lovers-primeiro-pe-na</link><guid isPermaLink="false">https://tremeluzente.substack.com/p/friends-to-lovers-primeiro-pe-na</guid><dc:creator><![CDATA[briony.]]></dc:creator><pubDate>Mon, 13 Apr 2026 17:08:47 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<p>Eu tenho sido a pessoa mais chata de todos os tempos para os meus amigos que ouvem, l&#234;em e sentem a minha energia incans&#225;vel de uma pessoa apaixonada. A verdade &#233; que, mesmo antes da Charli XCX idealizar &#8220;fall in love again and again&#8221;, eu j&#225; encontrava uma forma de me apaixonar visceralmente quase sempre por um novo algu&#233;m! Essa paix&#227;o se alastra e sempre cria novas formas, ela pode ser realmente rom&#226;ntica e avassaladora, ou plat&#244;nica e inalcan&#231;&#225;vel, mas a escolha para mim &#233; quase sempre a mesma, o sil&#234;ncio. Esse ano assumi que sempre que me encantasse por algu&#233;m de modo especial, diria, e lidaria com isso, bancando pela primeira vez de modo corajoso os meus desejos, assumir essa parcela bonita que devolve borboletas ao est&#244;mago. </p><p>E como meu pr&#243;prio t&#237;tulo sugere, &#233;, talvez essa nao tenha sido a escolha mais bem acertada, porque aos vinte e tr&#234;s anos eu levei o meu primeiro fora! N&#227;o por ser irresistivelmente apaixonante, mas por silenciar em todas as outras vezes pelo medo da rejei&#231;&#227;o. A rejei&#231;&#227;o &#233; absurda, ela mexe com todos os seus sentimentos, ela mexe com a sua cabe&#231;a e te faz ser deslocado para um espa&#231;o estranho de esp&#237;rito. Eu demorei exatas vinte e quatro horas ainda mais apaixonada por algu&#233;m que claramente n&#227;o estava nem a&#237; pra mim, pensando que tudo em comum que havia tido uma magia para mim, n&#227;o passava de uma simples coincid&#234;ncia para a outra parte. E sim, talvez sim, agora mesmo existem mais de um milh&#227;o de eus sentados numa mesa de bar enquanto flertam e n&#227;o recebem o mesmo olhar! </p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://tremeluzente.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler TREMELUZENTE! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Essa &#233; a deixa, o olhar, ele &#233; sempre a parte mais interessante dessas din&#226;micas, o modo no qual os olhos se curvam, sorriem, desviam t&#237;midos, transmitem uma esp&#233;cie de luz ou corrente el&#233;trica. Os olhos s&#227;o t&#227;o &#237;ntimos&#8230; apesar de estarem escancarados, eles s&#227;o a primeira parte expressiva dos rostos e est&#227;o acelerando todos os sentimentos ao mesmo tempo. Tenho pena dos olhos, eles quase n&#227;o podem se esconder, os dentes est&#227;o sempre acobertados pelos l&#225;bios, mas os olhos&#8230; solit&#225;rios, ainda que em par, eles est&#227;o <em>sempre</em> gritando algo. </p><p>Isso me leva a um limbo. A magia s&#243; &#233; verdadeira quando m&#250;tua? Eu s&#243; sinto com o olhar do outro? N&#227;o, claramente, n&#227;o! Eu sei que n&#227;o, mas a minha falta de cordialidade sentimental quis me convencer de que sim, se a magia vem sozinha, n&#227;o &#233; real (gente, ela &#233;!)</p><p>Encontrei no espa&#231;o das minhas paix&#245;es silenciadas uma coisa muito bonita sobre mim, que &#233; uma esp&#233;cie de amor admirado, d&#243;cil e curioso, que est&#225; sempre atento ao outro, n&#227;o por necessariamente esperar algo em retorno, j&#225; que quando me apaixono, s&#243; a presen&#231;a basta. Notei que ainda posso passar horas a fio conversando sobre toda e qualquer coisa sem me cansar. Sou uma plat&#244;nica incur&#225;vel, irritante para os amigos que ouvem meus discursos melosos. </p><p>Tudo isso no fundo &#233; t&#227;o tosco, vergonhoso e vertiginoso, &#233; quase como ler chats antigos, onde uma sensa&#231;&#227;o inteira faz seu est&#244;mago murchar de dentro pra fora.   </p><p>Mas numa &#233;poca onde a solid&#227;o, o medo e outros v&#237;cios sentimentais se tornaram as nossas paix&#245;es, eu ainda quero poder assumir o risco de me encantar (quase) sempre por outas pessoas. Ainda que a magia possa ser s&#243; minha.</p><p>&#175;\_(&#12484;)_/&#175;</p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://tremeluzente.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler TREMELUZENTE! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[DE-VINDO #11]]></title><description><![CDATA[Mar&#231;o, mulheres, o que est&#225; dentro ou fora? Nossa edi&#231;&#227;o n&#250;mero 11!]]></description><link>https://tremeluzente.substack.com/p/de-vindo-11</link><guid isPermaLink="false">https://tremeluzente.substack.com/p/de-vindo-11</guid><dc:creator><![CDATA[briony.]]></dc:creator><pubDate>Sat, 28 Mar 2026 17:57:41 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/7327b7af-6dd8-40e9-9a98-87f16a8c1dc8_7016x4961.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong>A forma e a fissura da Mulher.</strong></p><p><em><strong>// </strong>Por <strong>Bruna Cabral.</strong></em></p><p>A mulher n&#227;o existe como um ponto fixo no mapa da biologia ou como uma ess&#234;ncia. O que chamamos de feminino &#233; um movimento incessante de tornar-se, um devir que n&#227;o encontra repouso em nenhuma defini&#231;&#227;o est&#225;tica, e que desafia qualquer tentativa de fechamento identit&#225;rio. O que costumamos imaginar estar dentro dela talvez n&#227;o seja um interior pr&#243;prio, essencial, mas algo que veio de fora e foi sendo incorporado pouco a pouco. S&#227;o normas, expectativas, imagens que se infiltram quase silenciosamente at&#233; parecerem totalmente naturais. Quando deslocamos o olhar para o que estaria &#8220;fora&#8221;, essa separa&#231;&#227;o tamb&#233;m come&#231;a a se desfazer, a fronteira entre o eu e o mundo n&#227;o &#233; fixa nem neutra, mas uma esp&#233;cie de constru&#231;&#227;o pol&#237;tica, que tenta organizar e conter aquilo que, por natureza, escapa. Porque essa exist&#234;ncia n&#227;o se define simplesmente como o oposto de um masculino tomado como centro, nem como algo em falta, ao contr&#225;rio, ela se apresenta como m&#250;ltipla e m&#243;vel, capaz de variar e se reinventar em vez de caber em categorias r&#237;gidas. Ela tensiona essas pr&#243;prias categorias, abrindo espa&#231;o para outras formas de ser que n&#227;o dependem da ideia de incompletude, mas afirmam uma pot&#234;ncia cont&#237;nua de transforma&#231;&#227;o.</p><p>E &#233; justamente nesse mergulho que algo come&#231;a a se deslocar de forma irrevers&#237;vel, porque ao abandonar a seguran&#231;a de um nome fixo, ela tamb&#233;m abandona a necessidade de corresponder a ele. J&#225; n&#227;o se trata de responder &#224; pergunta &#8220;o que &#233; uma mulher&#8221;, mas de desfaz&#234;-la por dentro, de corroer sua estrutura at&#233; que reste apenas o movimento. H&#225; nesse gesto uma recusa que n&#227;o &#233; negativa, mas produtiva, quase criadora, como se ao negar a forma imposta ela abrisse espa&#231;o para muitas outras formas poss&#237;veis, ainda n&#227;o inteiramente leg&#237;veis.</p><p>O corpo ent&#227;o, deixa de ser aquilo que se explica, e passa a ser aquilo que se escreve. Escrever aqui, n&#227;o &#233; representar, mas produzir, fazer surgir algo que antes n&#227;o estava dado. E talvez por isso essa escrita incomode, porque ela n&#227;o se submete &#224; l&#243;gica da clareza, da linearidade, da conten&#231;&#227;o : ela pulsa, hesita, se expande, como se recusasse a disciplina que historicamente tenta a enquadrar.</p><p><em>&#8220;Quando ela escreve a si mesma, ela n&#227;o est&#225; apenas preenchendo um vazio ou decorando uma aus&#234;ncia, mas sim inventando um novo sol que brilha sobre a Medusa, revelando que o riso feminino &#233; a for&#231;a capaz de petrificar a pr&#243;pria estrutura que tentou transform&#225;-la em pedra.&#8221;<a href="https://dummy-citation.com/citation?d=W3sid29yayI6eyJwdWJsaXNoZXJJbmZvIjp7Im5hbWUiOiJVbml2ZXJzaXR5IG9mIENoaWNhZ28gUHJlc3MifSwidHlwZSI6OCwiaXNzdWVkRGF0ZSI6IjE5NzYtMDctMDEiLCJjb250cmlidXRvcnMiOlt7InJvbGUiOjAsIm5hbWUiOnsiZ2l2ZW4iOiJIw6lsw6huZSIsImZhbWlseSI6IkNpeG91cyJ9fSx7InJvbGUiOjAsIm5hbWUiOnsiZ2l2ZW4iOiJLZWl0aCIsImZhbWlseSI6IkNvaGVuIn19LHsibmFtZSI6eyJnaXZlbiI6IlBhdWxhIE1hcmFudHoiLCJmYW1pbHkiOiJDb2hlbiJ9LCJyb2xlIjowfV0sInRpdGxlIjoiVGhlIExhdWdoIG9mIHRoZSBNZWR1c2EiLCJzdWJ0eXBlIjp7ImFydGljbGVUeXBlIjoxLCJvbmVvZktpbmQiOiJhcnRpY2xlVHlwZSJ9LCJ0YWxseSI6eyJyZWZlcmVuY2VkV29ya3NDb3VudCI6MCwiY2l0ZWRCeUNvdW50IjoyMTMwfSwiaWRzIjp7ImlzYm4iOltdLCJtYWciOiIyMDMyNzU1NjA4Iiwib3BlbmFsZXgiOiJXMjAzMjc1NTYwOCIsImRvaSI6IjEwLjEwODYvNDkzMzA2IiwiaXNzbiI6WyIwMDk3LTk3NDAiLCIxNTQ1LTY5NDMiXSwiZXhhIjoiaHR0cHM6Ly93d3cyLmNzdWRoLmVkdS9jY2F1dGhlbi81NzZGMTAvY2l4b3VzLnBkZiJ9LCJ1cmwiOiJodHRwczovL2RvaS5vcmcvMTAuMTA4Ni80OTMzMDYiLCJhY2Nlc3NlZERhdGUiOiIyMDI2LTAyIiwiY29udGFpbmVyTG9jYXRvciI6eyJwYWdlUmFuZ2UiOnsibGFzdFBhZ2UiOjg5MywiZmlyc3RQYWdlIjo4NzV9fSwiY29udGFpbmVySW5mbyI6eyJpc3N1ZSI6NCwiYXV0aG9ycyI6W10sInZvbHVtZSI6MSwidGl0bGUiOiJTaWducyIsImltcGFjdEZhY3RvciI6IjAuMzMifX0sIm9yaWdpbiI6NX1d"> (Cixous et al., 1976)</a>.</em></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://tremeluzente.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/tremeluzente.substack.com/subscribe"><span>Subscreva agora</span></a></p><p>Porque escrever esse corpo &#233; tamb&#233;m aceitar sua instabilidade, permitir que ele se diga mesmo quando n&#227;o h&#225; forma pronta para o acolher. &#201; sustentar o excesso, o que transborda, o que escapa a nomea&#231;&#227;o. E talvez seja justamente a&#237; que reside sua for&#231;a, n&#227;o em se tornar leg&#237;vel dentro de um sistema j&#225; dado, mas em tensionar esse sistema at&#233; que ele revele suas pr&#243;prias limita&#231;&#245;es. O sentido, ent&#227;o, n&#227;o desaparece, mas se multiplica, se fragmenta, se espalha em dire&#231;&#245;es imprevis&#237;veis. H&#225; algo de profundamente pol&#237;tico nesse movimento, porque ao recusar fronteiras fixas, esse corpo tamb&#233;m recusa os dispositivos que o organizam e o controlam. Ele n&#227;o se deixa reduzir a uma fun&#231;&#227;o, a um papel, a um lugar previamente designado. Ele se move, e ao se mover, desestabiliza aquilo que parecia s&#243;lido. Portanto, n&#227;o h&#225; centro, n&#227;o h&#225; margem, apenas um campo em expans&#227;o onde cada gesto, cada palavra, reabre a possibilidade de existir de outro modo.</p><p>E assim, o corpo escrito continua, n&#227;o como algo que se encerra em si mesmo, mas como um processo que insiste, que retorna, que se transforma. Uma escrita que n&#227;o teme perder-se, porque &#233; justamente nesse perder-se que encontra novas formas de continuar.</p><div><hr></div><p><strong>&#8220;A revolu&#231;&#227;o sexual no Brasil&#8221; </strong></p><p>// Por <em><strong>Victor N Silva.</strong></em></p><p><strong>O paradigma no Brasil</strong></p><p>Vemos dia ap&#243;s dia, o aumento de casos e da brutalidade do feminic&#237;dio no Brasil. Aumento dos movimentos masculinistas, movimento &#8220;RedPill&#8221;, movimento dos incels, e at&#233; mesmo de mulheres anti-feministas. Isso tudo ao mesmo tempo que criamos a Lei Maria da Penha, e j&#225; existe um longo hist&#243;rico de batalha das mulheres pela inser&#231;&#227;o no mercado de trabalho(entre diversos direitos ex: lobby do batom). Parece que estamos vivendo um certo paradigma: ao mesmo tempo que as mulheres conseguem mais e mais espa&#231;os &#8220;p&#250;blicos&#8221;, conseguem entrar em cargos mais altos, e reivindicam direitos b&#225;sicos como de sal&#225;rios iguais, Lei Maria da Penha etc; aumenta em propor&#231;&#227;o as mulheres anti-feministas, os movimentos redpill, uma brutalidade de casos de feminic&#237;dio. Como essas duas coisas possivelmente se conectam ?</p><p><strong>Revolu&#231;&#245;es Vindas de Cima</strong></p><p>Quero aqui falar de uma teia de conceitos n&#227;o necessariamente ligados &#224; &#225;rea dos estudos de g&#234;nero, mas que pode ser muito bem utilizado aqui que &#233;: A moderniza&#231;&#227;o conservadora, que &#233; imbricado no conceito de revolu&#231;&#227;o burguesa e colonialidade do poder, mas que podemos chamar tamb&#233;m das &#8220;Revolu&#231;&#245;es Vindas de Cima&#8221; pois: tiveram como caracter&#237;stica o fato de a burguesia nascida da revolu&#231;&#227;o capitalista n&#227;o ter for&#231;as suficientes para romper com a classe dos propriet&#225;rios rurais, resultando em um pacto pol&#237;tico entre a classe dos terratenentes e a burguesia. Tal pacto se deu com o objetivo de manter um projeto conjunto de constru&#231;&#227;o de uma sociedade capitalista, contudo arraigada em uma estrutura de domina&#231;&#227;o, em cujo centro de decis&#227;o pol&#237;tica do Estado, os interesses da classe dos propriet&#225;rios rurais se mantivessem enraizados. [1]</p><p>Para dizer aqui em algumas poucas palavras esses conceitos que atravessam diversos autores: s&#227;o processos de moderniza&#231;&#245;es/revolu&#231;&#245;es feitas num determinado pa&#237;s/regi&#227;o sem abalar as estruturas de poder simb&#243;licas patriarcais/coloniais, como estruturas de sexo, de g&#234;nero, de classe etc. Ou seja, uma revolu&#231;&#227;o sem rupturas com o passado. Casos como Alemanha e Jap&#227;o na segunda guerra, mas outros casos como o Brasil. Que tem um conturbado, ou n&#227;o conturbado processo de independ&#234;ncia de Portugal, que se declarou um pa&#237;s independente mesmo n&#227;o tendo rompido totalmente com a monarquia portuguesa. Assim, diversos estudos jur&#237;dicos podem revelar como as primeiras Leis e a primeira constitui&#231;&#227;o do Brasil foram extremamente arraigadas nos poderes coloniais e patriarcais da &#233;poca. Um dos maiores exemplos era o estado legal das mulheres, na qual eram entendidas como propriedade do Marido, e precisavam da permiss&#227;o dele para todo tipo de tarefa &#8220;p&#250;blica&#8221;.</p><p>Em linhas gerais, podemos dizer que todos os &#8220;avan&#231;os&#8221; nos direitos da mulher foram moderniza&#231;&#245;es conservadoras, pois n&#227;o tocaram num aspecto: a liberdade sexual. Pode-se dizer que fizemos muitos &#8216;progressos&#8217; na Lei: direitos humanos, Maria da Penha, criminaliza&#231;&#227;o do racismo etc. mulheres desde ent&#227;o vem ganhando algumas conquistas sociais, vem conquistando o assim chamado &#8220;espa&#231;o p&#250;blico&#8221;(eu n&#227;o gosto desse termo mas isso &#233; outra conversa), s&#243; que ao mesmo tempo, parece que mais do que nunca o feminic&#237;dio vem crescendo, e muitas das vezes s&#227;o crimes &#8220;dom&#233;sticos&#8221;: quer dizer, causados por companheiros, colegas, ex companheiros. Ou seja, n&#227;o &#233; que s&#243; (como se n&#227;o fosse ruim o suficiente) aumentou a viol&#234;ncia contra a mulher, mais do que nunca aumentou a subjuga&#231;&#227;o da mulher, a natureza desses tipos de crime precisa ser salientada: n&#227;o s&#227;o homens atacando mulheres aleatoriamente na rua (n&#227;o em todos os casos), s&#227;o homens atacando mulheres na qual eles sentem que t&#234;m uma rela&#231;&#227;o de domina&#231;&#227;o.</p><p>Quer dizer, a mulher vem ganhando mais espa&#231;o &#8220;p&#250;blico&#8221; mas o seu espa&#231;o &#8220;privado&#8221; parece inquestion&#225;vel, a ideia de fam&#237;lia tradicional burguesa ainda nos assombra. Ou seja, ao mesmo tempo que temos &#8220;avan&#231;os sociais&#8221;, estamos enfrentando uma &#8220;estagna&#231;&#227;o cultural&#8221;.</p><p>Ent&#227;o apesar das conquistas &#8220;sociais&#8221; por assim dizer, culturalmente as estruturas machistas e patriarcais ainda permeiam a nossa sociedade, pois um ponto ainda n&#227;o foi tocado: A Revolu&#231;&#227;o Sexual. Eu n&#227;o quero dizer que nunca houve uma revolu&#231;&#227;o sexual no Brasil, pelo contr&#225;rio existiu a Rose Marie Muraro, que foi uma importante pensadora brasileira nessa causa. S&#243; que mais do que nunca ela precisa ser (re)pensada nos nossos horizontes de volta. Porque o que vemos &#233; cada vez mais uma alian&#231;a dos movimentos feministas com for&#231;as de direita e conservadoras. Uma coisa que precisa ser sempre a quest&#227;o &#233; a categoria de &#8220;mulher&#8221;, essa categoria n&#227;o pode nunca deixar de ser questionada, pois parece que quando ela se solidifica abre espa&#231;o para falas como : &#8220;as feias inventaram o feminismo&#8221; (frase de verdade dita por Pietra Bertolazzi). O texto mais cl&#225;ssico do feminismo continua sendo o de Simone de Beauvoir, o segundo sexo, no qual ela diz &#8220;n&#227;o se nasce mulher,tornase mulher&#8221;, precisa ser sempre resgatado.</p><p>O que me parece &#233; que pensar em pautas como &#8220;pode a mulher trabalhar ?&#8221; sem junto pensar &#8220;o que &#233; uma mulher ?&#8221;, &#8220;a puta &#233; uma mulher ?&#8221;, &#8220;pode uma mulher n&#227;o ter filhos ?&#8221;, &#8220;qual o direito das putas ?&#8221; &#233; uma moderniza&#231;&#227;o conservadora, pois ao mesmo tempo que se d&#225; sim alguns direitos &#224; mulher, n&#227;o se questiona as tecnologias de g&#234;nero que criam essa &#8220;mulher&#8221;. N&#227;o se cria uma ruptura revolucion&#225;ria com o passado. Ou seja, sim, agora as mulheres tem direitos, mas apenas aquelas h&#233;tero, cis, cat&#243;licas, com 2 filhos em casa e de prefer&#234;ncia brancas. Quer dizer, dar direitos a elas, somente enquanto esses direitos permitir n&#227;o ferir tanto o status quo da fam&#237;lia burguesa, na verdade, n&#227;o ferir em nada.</p><div><hr></div><p>Vamos para um caso emblem&#225;tico, a jogadora de futebol feminino Marta. Uma das melhores jogadoras do mundo, e com conquistas que nem jogadores masculinos conseguiram alcan&#231;ar, como ela n&#227;o virou um &#237;cone do Brasil ? como ela n&#227;o tem o rosto estampado em todas as capas de jornais, revistas, manchetes, bares etc? digo-lhes: Ela &#233; l&#233;sbica. N&#227;o s&#243; &#233; l&#233;sbica mas como joga um esporte predominante no campo &#8220;masculino&#8221; e &#233; melhor que muitos jogadores. Neymar Jr. n&#227;o foi chamado para a copa do mundo, e parece que vira not&#237;cia nacional, mesmo ele n&#227;o possuindo nem metades dos pr&#234;mios internacionais que a Marta obteve. N&#227;o &#233; s&#243; porque a Marta &#233; mulher, mas ela foge totalmente do ideal burgu&#234;s familiar de mulher: &#233; fisicamente forte, e &#233; casada com outra mulher, ou seja; n&#227;o reproduz nenhuma das performances do g&#234;nero-mulher.</p><p>Parece que quando se trata de pessoas h&#233;tero (principalmente homens) a vida &#8220;p&#250;blica&#8221; deve ser separada da vida &#8220;privada&#8221;, mas quando se trata de mulheres l&#233;sbicas parece que a vida &#8220;privada&#8221; se torna mais importante que a vida &#8220;p&#250;blica&#8221;. Essa separa&#231;&#227;o da vida &#8220;p&#250;blica&#8221; e &#8220;privada&#8221; parece ser muito mais vantajosa para homens h&#233;teros, para que eles possam ser estrelas do esporte, enquanto fora do est&#225;dio sejam abusadores, traiam suas mulheres, batam nelas e as matem.</p><p>O patriarcado n&#227;o acaba quando mulheres acessarem o poder. Porque o patriarcado e a coloniza&#231;&#227;o precisam das categorias de g&#234;nero masculino quanto do feminino. Precisam das categorias de &#8220;fam&#237;lia&#8221; para legitimar os lugares &#8220;naturais&#8221; do homem e da mulher, por isso a Marta foge totalmente a todo tipo de publicidade. A estrutura da domina&#231;&#227;o masculina n&#227;o vai acabar enquanto n&#227;o abolirmos os conceitos de g&#234;neros e de fam&#237;lia (como conhecemos hoje), ou quando pelo menos, eles se apresentarem em categorias mais abertas. Quando a Dilma foi presidente, um dos apelidos mais famosos dela era &#8220;Dilm&#227;e&#8221;, ou seja, mesmo sendo uma mulher numa posi&#231;&#227;o de poder, ainda era vista nesse lugar &#8220;feminino&#8221; de cuidado, acaba que a Dilma n&#227;o era vista como uma &#8220;administradora&#8221; do Brasil, e sim uma cuidadora dos seus filhos, o assim projetado como lugar ideal da mulher.</p><p><strong>Para um olhar, como saber olhar.</strong></p><p>Eu n&#227;o quero culpar ningu&#233;m, falar que &#233; culpa de tal e tal atores e entidades pol&#237;ticas, eu s&#243; quero enfatizar qual precisa ser o nosso horizonte de batalhas. Dar uma nova perspectiva, porque parece que enquanto olharmos para os problemas atuais de viol&#234;ncia e pensar que solu&#231;&#227;o &#233; &#8220;que aumente a pena de pris&#227;o!&#8221; ou &#8220;criem mais leis!&#8221;, quer dizer mais puni&#231;&#227;o, mais viol&#234;ncia, mais vigil&#226;ncia, n&#227;o vamos chegar a lugar nenhum. Mais do que tudo, precisamos saber olhar para os problemas, ver quais as suas causas, e n&#227;o s&#243; seus efeitos.</p><p>Precisamos saber olhar com prud&#234;ncia: n&#227;o olhar somente para o que falta na sociedade, mas para o positivo, n&#227;o o que tem de bom, mas o que podemos fazer agora, o menor que seja para que isso n&#227;o continue acontecendo. Na sociologia aprendemos uma li&#231;&#227;o fundamental: a sociedade &#233; mais do que a soma dos indiv&#237;duos. N&#227;o adianta culpar X ou Y pessoas por problemas na sociedade, embora sim, essas pessoas precisam ser responsabilizadas , mas enquanto mais ainda criarmos uma guerra entre homens x mulheres, quanto mais positivarmos essa diferen&#231;a, maior ser&#225; o problema, e mais dif&#237;cil ser&#225;, precisamos mais do que nunca dissolver as diferen&#231;as entre homem e mulher: &#8220;Homulhomem e Mulhomulher&#8221; segunda a proposta contracultural da Muraro [2].</p><p>Entender que enquanto o movimento feminista for algo como &#8220;luta de mulheres pelas mulheres&#8221; e n&#227;o uma luta contracultural como a proposta por Rosie Marie Muraro &#8220;Homulhomem e Mulhomulher&#8221;. O que precisa ser entendido &#233; que n&#227;o se trata somente de um problema de disparidade de sal&#225;rios, de direitos, mas de uma luta contra toda uma cultura/estrutura bin&#225;ria de g&#234;nero e racista. &#201; preciso entender que a mesma estrutura que subjuga as mulheres &#233; a mesma que subjuga os negros. Que n&#227;o se trata de aumentar as penas contra o feminic&#237;dio, &#233; preciso que acabe com a fam&#237;lia, liberem o aborto, os direitos sexuais, os direitos das putas, das bixas, das trans de toda a categoria de dissidentes no capitalismo.</p><p>E acima de tudo entender o que podemos fazer no nosso dia-a-dia para mudar isso. Estamos passando por problemas de &#233;tica, de rela&#231;&#245;es com n&#243;s mesmos, e com o outro, principalmente os homens, mas n&#227;o somente. Precisamos ter &#233;tica com o outro, que &#233; acima de tudo, ter &#233;tica consigo mesmo. N&#227;o se trata de uma crise de &#8220;homens&#8221;, se trata de uma crise de sujeitos, da sujei&#231;&#227;o moderna, que n&#227;o foram ensinados a lidar consigo mesmos e com seus sentimentos, e logo n&#227;o sabem como lidar com o Outro. A crise &#233; acima de tudo ps&#237;quica e social.</p><p>Ent&#227;o precisamos aprender a lidar com esse outro, diferente de mim. E nos posicionar frente a esses acontecimentos, e aprender a criar novos afetos, novos espa&#231;os de afetos, porque n&#227;o ser&#225; mudan&#231;as de cima para baixo que v&#227;o acabar com as culturas do machismo.</p><div><hr></div><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://tremeluzente.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigada por nos ler! 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O ger&#250;ndio do verbo <em>devir. </em>Portanto, &#8220;devindo&#8221; indica o processo intermin&#225;vel de se tornar ou se transformar em algo. Pensar, agir e transgredir!</p><p><em>Considere apoiar o projeto com o valor de um caf&#233; no campus da faculdade de letras atrav&#233;s do pix <strong>ogatonapoesia@gmail.com &#43612; .</strong></em></p></blockquote>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Há mais coisas feias do que bonitas (e devíamos aceitar isso) <3]]></title><description><![CDATA[&#201;, eu n&#227;o pensei num t&#237;tulo menor, foi mal.]]></description><link>https://tremeluzente.substack.com/p/ha-mais-coisas-feias-do-que-bonitas</link><guid isPermaLink="false">https://tremeluzente.substack.com/p/ha-mais-coisas-feias-do-que-bonitas</guid><dc:creator><![CDATA[briony.]]></dc:creator><pubDate>Thu, 05 Mar 2026 16:18:17 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<p>When i don&#8217;t know what to write and all words become indifferent in the face of the weight of my feelings, if that sentence is in english, it sounds more beautiful.</p><p>Tenho passado por um per&#237;odo estranho de conhecer mais a fundo as minhas pr&#243;prias &#8220;mesquinharias&#8221;, e n&#227;o lembro de qualquer outro per&#237;odo onde reconheci mais o meu pr&#243;prio pessimismo, ego&#237;smo, narcisismo, ou qualquer outra sensa&#231;&#227;o que caiba dentro desses termos feiosos, os que buscamos nunca nomear. Sinto que estive a vida inteira em busca da melhor vers&#227;o de mim, abafando o que havia de pior, sem nem encarar para ver se era t&#227;o esquisito assim. Sim, a parte mais leve, altru&#237;sta e floral, ainda &#233; a parte que eu mais valorizo, mas o que eu fa&#231;o com todo resto debaixo do tapete? &#201; batido, &#233; datado, circunstancial, mas para n&#243;s, mulheres, resta o silenciamento total das nossas mesquinharias. Simplesmente n&#227;o podemos, em nenhuma hip&#243;tese, sentir todas as coisas, devemos reprimir, saltar, pensar em todo restante. &#201; um pecado anormal ser uma mulher que assume seu lado mesquinho, sua inveja, seu fracasso, suas dores, ah, e esse cansa&#231;o. O in&#237;cio desse texto em ingl&#234;s veio em tom de s&#225;tira, e acho que vou recorrer a ele todas as vezes que estiver too tired to make it beautiful.</p><p>Para mim, valentia &#233; assumir que nem todas as coisas v&#227;o sair bonitas. Ali&#225;s, quase nada vai sair bonito sem ser lapidado em diversos processos! <em>The shape of beauty comes from a constant process. </em></p><p>Mas a feiura sai assim, em palavras desencontradas, ela nasce naturalmente, de um molde torto, buscando fazer algum sentido em meio a uma competi&#231;&#227;o injusta. Estamos T-O-D-O-S obcecados pela beleza, enquanto a feiura est&#225; em todos os cantos, apenas esperando o momento de aparecer sem julgamentos ou press&#227;o. Less things are beautiful than ugly things. </p><p>Mas como nem tudo se trata de perda ou ganho, estive pensando em todas as outras hip&#243;teses de tornar esse cen&#225;rio melhor, e lembrei de todas as vezes que a minha feiura encontrou a minha beleza, e juntas elas foram quase invenc&#237;veis. Lembro de todas as decis&#245;es p&#233;ssimas que eu estive a beira de tomar quando a beleza colidiu, e n&#227;o deixou que fosse exatamente daquele jeito, me dando novas hip&#243;teses. Acho que a grande coisa &#233; deixar a fei&#250;ra colidir na beleza, e a beleza na fei&#250;ra, porque juntas elas funcionam infinitamente melhor do que separadas.</p><p><code>(&#12389;&#3665;&#8226;&#7447;&#8226;&#3665;)&#12389;&#9825; &lt;(&#11805;&#11805;&#7509;&#7447;&#7509;&#11805;&#11805;&lt;)      </code></p><p>E esse &#233; provavelmente o &#250;ltimo dos finais que eu pensaria para um pequeno texto reflexivo, mas&#8230; &#201; o fim.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://tremeluzente.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/tremeluzente.substack.com/subscribe"><span>Subscreva agora</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[DE-VINDO #10]]></title><description><![CDATA[Para al&#233;m da folia e das cinzas.]]></description><link>https://tremeluzente.substack.com/p/de-vindo-10</link><guid isPermaLink="false">https://tremeluzente.substack.com/p/de-vindo-10</guid><dc:creator><![CDATA[briony.]]></dc:creator><pubDate>Sat, 28 Feb 2026 21:15:57 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/5324d85a-c421-4118-8f87-2c8de6f8bfed_7016x4961.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong>Carnaval como proto-pol&#237;tica Queer.</strong></p><p>// Por <strong>Victor N Silva.</strong></p><p>Carnaval &#233; tocar o imposs&#237;vel, o fim da linguagem. Carnaval &#233; o bordel a c&#233;u aberto, onde Deus v&#234; tudo e libera tudo.</p><p>Carnaval &#233; a verdadeira pervers&#227;o, &#233; a revers&#227;o, trazer o alto para baixo, e o baixo como mais alto. &#201; o jogo do baixo materialismo de Bataille, de tratar o que &#233; mais baixo, como o mais alto, o mais importante.</p><p>Mas o que seria esse baixo materialismo do Bataille? em poucas palavras seria um materialismo com: mijo, porra e merda. O que fez de Bataille um marxista t&#227;o heterodoxo, &#233; que ele levava em considera&#231;&#227;o as baixas necessidades materiais, aquelas diferentes de conceitos t&#227;o elevados da economia, como as comodidades, as mat&#233;rias primas. Bataille falava das baixas necessidades, aquilo de mais vil e ainda assim t&#227;o necess&#225;rio para o desejo. Essa era a sua revers&#227;o, tratar o &#8220;baixo&#8221;, o que existia de mais baixo como algo &#8220;alto&#8221;, elevado. Dar &#8220;alta&#8221; import&#226;ncia a um assunto vil. Pois um de seus objetivos te&#243;ricos era dar continuidade a obra de Sade. Ent&#227;o uma an&#225;lise do carnaval pode ser realizada por uma lente batailliana. Visto que o que est&#225; em jogo ali, al&#233;m de muitas coisas, &#233; a &#8220;baixaria&#8221;, o jogo da mentira, as salivas, a porra, o mijo na rua, a merda, e tudo mais. </p><p>No carnaval, o jogo de m&#225;scaras e fantasias, deixa de ser um baile de m&#225;scaras tipicamente burgu&#234;s (e aristocrata), e torna-se ent&#227;o o mais baixo jogo. <br>Na qual, at&#233; o anonimato &#233; de faz de contas. </p><p>&#201; fingir que estar fingindo se fantasiar, &#233; a fantasia de fantasia. &#201; mentir a mentira. &#201; transformar o pr&#243;prio nome em pseud&#244;nimo. <br>&#201; desmascarar as fic&#231;&#245;es do dia-a-dia em prol de uma nova. &#201; revelar que toda identidade &#233; fic&#231;&#227;o. No carnaval, pelo menos por aqui, onde eu moro, existe o assim chamado: bloco das piranhas, na qual &#233; conhecido por homens se fantasiarem de mulheres. O que mostra a tens&#227;o dos jogos das identidades, das performances. </p><p>No carnaval, criou-se o costume recente de se fantasiar de qualquer coisa, simplesmente colocar uns apetrechos e uma placa escrita, para indexar ao que essa fantasia signfica. Mostrando que qualquer situa&#231;&#227;o &#233; um tipo de fic&#231;&#227;o, que reiterada torna-se verdade, apenas enquanto performance, itera&#231;&#227;o como verdade. <br>L&#225; tudas as identidades tornam-se farsa: policial, enfermeiro, mulher, entregador de ifood, meme na internet, etnias ind&#237;genas. O que geralmente causa problema &#233; quando n&#227;o se reconhece fic&#231;&#227;o de um grupo, quanto de outro. &#8220;Fic&#231;&#227;o&#8221; aqui n&#227;o carrega nenhum ju&#237;zo de valor, fic&#231;&#227;o refere-se ao fato de que </p><p>&#201; maior pol&#237;tica queer a c&#233;u aberto, sem mesmo falar de identidades queer. <em>Queer </em>do original em ingl&#234;s quer dizer &#8220;estranho&#8221;, &#8220;peculiar&#8221;. Ent&#227;o sim, o Carnaval &#233; um dia (ou uma s&#233;rie de dias) queer, onde tudo &#233; estranho, tudo &#233; estranhado. </p><div><hr></div><p><em><strong>Depois do Carnaval, o mundo em cinzas.</strong></em></p><p>// Por <strong>Bruna Cabral.</strong></p><p>Depois do carnaval, o mundo em cinzas n&#227;o &#233; apenas uma imagem exagerada para um tempo dram&#225;tico, &#233; a sensa&#231;&#227;o verdadeira de acordar e perceber que todo brilho era falso. Leio as not&#237;cias sobre a escalada entre Israel, Estados Unidos e Gaza, ou Ir&#227;, como quem espera um palito de f&#243;sforo incendiar num planeta em combust&#227;o. O que me atravessa nessa altura do campeonato n&#227;o se trata exatamente de desespero, mas uma esp&#233;cie de &#8220;apatia-revoltada&#8221;, um cansa&#231;o moral diante da previsibilidade da viol&#234;ncia, como se o horror tivesse se tornado rotina, mas sem deixar de me provocar internamente.</p><p>Eu sei, &#233; paradoxal, como eu posso me sentir ap&#225;tica e nervosa diante de tudo? Eu n&#227;o sei, mas &#233; honestamente como eu me sinto agora.</p><p>Penso em Virginia Woolf e na sua percep&#231;&#227;o afiada de que os grandes abalos hist&#243;ricos n&#227;o existem apenas nos campos de batalha, mas nas vibra&#231;&#245;es da nossa consci&#234;ncia. A guerra para ela era tamb&#233;m uma fissura interna, um ru&#237;do que atravessava o cotidiano e alterava a textura dos nossos pensamentos, h&#225; algo de profundamente<em> woolfiano</em> nessa incapacidade de sentir de maneira linear. A mente n&#227;o suporta a continuidade do choque e cria zonas de n&#233;voa, n&#227;o &#233; indiferen&#231;a, &#233; uma forma de sobreviv&#234;ncia ps&#237;quica, onde tamb&#233;m pode residir a raiva e a inconformidade. Continuamos com as nossas vidas independente das not&#237;cias mortificantes, cumprindo todas as tarefas banais enquanto cidades s&#227;o amea&#231;adas e vidas s&#227;o convertidas em n&#250;meros. Essa simultaneidade &#233; perturbadora.</p><p>Simone Weil ajuda a nomear esse peso. Ela fala da for&#231;a como aquilo que transforma pessoas em coisas, que rebaixa o humano &#224; condi&#231;&#227;o de objeto manipul&#225;vel. Quando observo a linguagem oficial dos conflitos, percebo essa opera&#231;&#227;o em curso, a for&#231;a n&#227;o se limita ao m&#237;ssil ou ao bombardeio, ela est&#225; na gram&#225;tica que dilui a morte em termos jornal&#237;sticos ou estrat&#233;gicos, a for&#231;a produz n&#250;meros e chama isso de equil&#237;brio. A apatia talvez seja o sinal de que a alma est&#225; sendo pressionada por essa massa invis&#237;vel, n&#227;o reagir com intensidade constante pode ser o &#250;nico modo de n&#227;o ser completamente esmagada.</p><p>No entanto, Weil tamb&#233;m fala de gra&#231;a, e &#233; nessa palavra que encontro uma outra  fissura. A Gra&#231;a n&#227;o como consolo f&#225;cil, mas como interrup&#231;&#227;o da necessidade cega, estar vivo enquanto o mundo parece caminhar para a autodestrui&#231;&#227;o &#233; uma experi&#234;ncia amb&#237;gua. H&#225; culpa, h&#225; perplexidade, mas h&#225; tamb&#233;m uma insist&#234;ncia vital que n&#227;o se deixa reduzir ao cen&#225;rio geopol&#237;tico. Woolf compreendia essa cintila&#231;&#227;o m&#237;nima da exist&#234;ncia, o valor de um instante de percep&#231;&#227;o que escapa ao ru&#237;do coletivo, a vida n&#227;o se justifica pela estabilidade do mundo, ela persiste apesar de sua instabilidade.</p><p>Minha apatia, ent&#227;o, n&#227;o &#233; aus&#234;ncia. &#201; um estado limite entre o excesso de informa&#231;&#227;o e a incapacidade de metabolizar. O que resta para quem observa &#233; a tarefa dif&#237;cil da aten&#231;&#227;o, essa forma radical de respeito que Weil prop&#245;e. N&#227;o transformar o sofrimento em espet&#225;culo, n&#227;o consumir a trag&#233;dia como mais um epis&#243;dio, mas sustentar um olhar que reconhe&#231;a a dignidade do que foi perdido.</p><p>Em Sartre a liberdade n&#227;o &#233; privil&#233;gio, mas condena&#231;&#227;o. Estar vivo &#233; estar entregue a responsabilidade de significar o que acontece, ainda que o que aconte&#231;a seja intoler&#225;vel, a apatia n&#227;o suspende essa condi&#231;&#227;o, ela mesma &#233; um modo de exerc&#234;-la. Escrever, ent&#227;o, n&#227;o &#233; tentar vencer a narrativa dos poderosos nem transformar a trag&#233;dia em algo bonito com palavras bem escolhidas. Se o mundo parece caminhar para a morte e para o colapso, a consci&#234;ncia n&#227;o nos salva magicamente, ela nos obriga a olhar, e estar atento, mesmo exausto, significa reconhecer que n&#227;o existe uma inst&#226;ncia superior que v&#225; nos absolver da responsabilidade de existir neste tempo.</p><p>O que sobra n&#227;o &#233; uma esperan&#231;a, mas algo mais s&#243;brio: a responsabilidade de n&#227;o deixar que a viol&#234;ncia se torne normal dentro de n&#243;s.</p><div><hr></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://tremeluzente.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/tremeluzente.substack.com/subscribe"><span>Subscreva agora</span></a></p><pre><code><code>O &#8220;De-vindo&#8221; &#233; um projeto criado pelos amigos Bruna Cabral e Victor Silva, universit&#225;rios nos cursos de letras e sociologia da UFF, que buscam questionar a realidade do mundo atrav&#233;s da l&#237;ngua, dos textos e do discurso. A procura de um espa&#231;o que coubesse uma escrita independente, provocativa e experimental, surge a parceria nos intervalos das aulas de lingu&#237;stica e sociologia econ&#244;mica, em caf&#233;s ao redor do campus.

Afinal, Devindo? O ger&#250;ndio do verbo devir. Portanto, &#8220;devindo&#8221; indica o processo intermin&#225;vel de se tornar ou se transformar em algo. Pensar, agir e transgredir!

Considere apoiar o projeto com o valor de um caf&#233; no campus da faculdade de letras atrav&#233;s do pix ogatonapoesia@gmail.com &#43612; .&#5151;</code></code></pre>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[DE-VINDO #9]]></title><description><![CDATA[O novo e o velho, primeira edi&#231;&#227;o do ano!]]></description><link>https://tremeluzente.substack.com/p/de-vindo-9</link><guid isPermaLink="false">https://tremeluzente.substack.com/p/de-vindo-9</guid><dc:creator><![CDATA[briony.]]></dc:creator><pubDate>Sat, 31 Jan 2026 19:40:26 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/cb9a5ee7-a212-4d5b-af4d-94c2da7da59d_7016x4961.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nikolas Ferreira e a corrida pelo &#8220;novo&#8221;. </strong><em>Fake, noveau, technofeudal!</em></p><p>// Por <strong>Bruna Cabral.</strong></p><p>Ap&#243;s a Guerra Fria, a direita abandonou a luta pelas ideias e pelos ideais. Com o fim da Uni&#227;o Sovi&#233;tica se consolidou uma sensa&#231;&#227;o de vit&#243;ria definitiva do capitalismo, onde a direita passou a agir como quem j&#225; havia vencido a hist&#243;ria, portanto n&#227;o era preciso convencer ou disputar valores para imaginar futuros: bastava administrar esse novo presente. Melhor dito para essa an&#225;lise, a direita n&#227;o perdeu a cultura, mas desistiu dela.</p><p>Esse vazio deixado pela direita no campo das ideias n&#227;o permaneceu desocupado, ele foi preenchido de maneira prec&#225;ria por uma profunda depend&#234;ncia das redes sociais. &#201; nesse ponto que a caminhada de figuras como Nikolas Ferreira se torna simb&#243;lica, como produto desse deslocamento hist&#243;rico, o que eles tomam como atos her&#243;icos n&#227;o passam de truques, de mais um falseamento da realidade, tudo dentro deste campo &#233; pautado em um estrangeirismo, o famoso <em>&#8220;fake&#8221;</em>, derivado do ingl&#234;s t&#227;o exaltado por eles mesmos. Trata-se de uma direita que n&#227;o retorna &#224; cultura para disput&#225;-la, mas para dissolv&#234;-la, ao inv&#233;s de elaborar ideias, produz engajamento, ao inv&#233;s de formular projetos, fabrica indigna&#231;&#227;o cont&#237;nua para uma raiva sem luta. O discurso n&#227;o se constr&#243;i, circula. N&#227;o convence, viraliza. A pol&#237;tica deixa de ser media&#231;&#227;o entre conflito e realidade social para se tornar<em> performance permanente </em>diante de uma c&#226;mera ou de um palco espec&#237;fico.</p><p>O politicamente incorreto entra como atalho simb&#243;lico, n&#227;o para dizer algo novo, mas para parecer ousado sem correr o risco de transformar algo. Ofender passa a ocupar o lugar de propor, sem custo e sem responsabilidade. O resultado &#233; a fantasia de um mundo sem leis nem direitos, onde a frieza da l&#243;gica individual substitui qualquer ideia de rede, cuidado ou apoio m&#250;tuo. <strong>&#201; precisamente por isso que a esquerda n&#227;o pode ter medo de dizer seu nome</strong> <em>(refer&#234;ncia &#243;bvia ao texto de Safatle).</em></p><p>Historicamente a esquerda nunca teve medo do que foi, do que &#233;, e do que pode vir a ser, isso sim &#233; o esp&#237;rito &#8220;noveau&#8221; e tecnol&#243;gico que a direita reivindica para si, mas n&#227;o tem a genialidade ou a sensibilidade necess&#225;ria para executar em nenhum dos mundos. J&#225; a direita, com vergonha ou medo de se assumir, se fragmenta, e se disp&#245;e entre  &#8220;liberais&#8221;, &#8220;libert&#225;rios&#8221;, &#8220;conservadores&#8221;, &#8220;neoconservadores&#8221;, &#8220;paleoconservadores&#8221;, &#8220;anarcocapitalistas&#8221;, etc. Descontinuidade e fragmentos. &#201; ir&#244;nico, portanto, que a direita reivindique para si a linguagem do &#8220;novo&#8221; e da tecnologia. O que ela chama de inova&#231;&#227;o costuma ser apenas atualiza&#231;&#227;o t&#233;cnica de velhos medos, a falta justamente aquilo que o novo exige, sensibilidade hist&#243;rica e imagina&#231;&#227;o pol&#237;tica. Sem essas duas coisas, n&#227;o h&#225; cria&#231;&#227;o, apenas repeti&#231;&#227;o acelerada e esgotamento dos recursos naturais que n&#227;o s&#227;o sequer citados em suas pautas!</p><p>Para Jacques Derrida, o novo n&#227;o &#233; aquilo que chega como produto acabado ou como solu&#231;&#227;o previs&#237;vel. O <em>nouveau</em>, ou melhor, o <em>&#224;-venir</em>, o que est&#225; por vir, &#233; o que n&#227;o pode ser totalmente antecipado, o que interrompe a ordem existente e exige responsabilidade. O novo verdadeiro n&#227;o confirma o mundo tal como ele &#233;, ele o desestabiliza.</p><p>Talvez seja por isso que a esquerda nunca tenha precisado ter medo do futuro. Porque, para ela, o novo n&#227;o &#233; amea&#231;a, mas tarefa.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://tremeluzente.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/tremeluzente.substack.com/subscribe"><span>Subscreva agora</span></a></p><div><hr></div><p><strong>Imagem sem semelhan&#231;a.</strong></p><p>// Por <strong>Victor Silva.</strong></p><p>&#8220;Ano que vem eu vou ser diferente&#8221;, esse &#233; um desejo que muita gente carrega para si em final de ano. Mas vamos chegar no final de janeiro, in&#237;cio de fevereiro, e a frustra&#231;&#227;o pode come&#231;ar a chegar.</p><p>Enquanto um amante da lingu&#237;stica e da filosofia da diferen&#231;a de Deleuze, e de Derrida j&#225; podemos apontar o erro: &#8220;ser diferente&#8221;.  H&#225; dois erros nessa frase, &#8220;ser&#8221; e &#8220;ser diferente&#8221;. Como diria <em>Jack, O Estripador</em>, vamos por partes. Pensar em &#8220;ser&#8221; &#233; pensar nas identidades fixas, &#233; pensar sempre em &#8220;ser algo&#8221;, &#8220;ser algu&#233;m&#8221;, &#8220;ser alguma coisa&#8221;, fixar em se tornar algo est&#225;tico e l&#237;mpido, como uma transforma&#231;&#227;o direta, como moldar um bloco de m&#225;rmore em uma escultura.</p><p> Ao inv&#233;s disso, deve-se pensar no devir, na transforma&#231;&#227;o em si. Pensar a diferen&#231;a radical, a priori da identidade, da semelhan&#231;a. Dizendo em outras palavras, o erro est&#225; em pensar a semelhan&#231;a primeiro e a diferen&#231;a depois. E n&#227;o pensar na diferen&#231;a primeiro, a diferen&#231;a radical. N&#227;o pensar o humano como o vira-ser que ele &#233;, n&#227;o se encharcar no mar do devir. Esse &#233; o erro.</p><p>Quem nunca escutou (ou j&#225; disse): &#8220;N&#227;o era eu nesse momento, eu juro!&#8221;, bom, talvez exista um pouco de verdade nisso, todos n&#243;s temos esses momentos em que nos sentimos fora de si, agimos totalmente diferente. Isso porque a experi&#234;ncia viva, consciente, &#233; desconexa. Como viu muito bem Bergson. N&#227;o somos esse bloco concreto de identidade, uno, sempre coerente ao mesmo tempo. Somos v&#225;rios, ao longo da vida, ao longo dos dias e ao longo do tempo. A experi&#234;ncia viva, &#233; fragmentada, moment&#226;nea. Somos povoados por in&#250;meros desejos e vontades, incessantemente. Pensar no humano e no desejo &#233; pensar devir.</p><p>Mas eu n&#227;o quero dizer que, assim, n&#227;o temos responsabilidades pelo que fazemos, pelo contr&#225;rio, temos que tomar sim, por&#233;m, precisamos dessa consci&#234;ncia individual e coletiva que n&#243;s somos v&#225;rios, somos possu&#237;dos pelos nossos desejos e pelos desejos dos outros <em>(que talvez seja a mesma coisa?).</em> Somos m&#225;quinas-desejantes. Funcionamos mais parecidos com os rizomas, com batatas e fungos, do que com &#225;rvores, com seu tronco r&#237;gido e seus desdobramentos, somos seres de conex&#245;es. Temos que nos pensar mais ou menos como uma colcha de retalhos. Pensar no humano como seres de identidades &#250;nicas e coerentes &#233; um erro, contra si, e contra o outro. N&#227;o quero dizer que as pessoas n&#227;o devem ser punidas pelos seus erros, mas n&#227;o devem ser definidas por isso. Cometemos erros, mas eles n&#227;o nos dizem a respeito para o resto da nossa vida. <strong>Somos o que fazemos. Somos o que escolhemos ser.</strong></p><p>Isso n&#227;o &#233; papo de coach de transforma&#231;&#227;o de vida, eu n&#227;o quero que voc&#234; seja assim ou assado. Isso &#233; muito pelo contr&#225;rio, quero que voc&#234; desfa&#231;a o que j&#225; foi, e dispense o que j&#225; pensou. O problema fundamental, ontol&#243;gico, dos coachs da vida, &#233; querer que voc&#234; se torne outra coisa, para algum fim. S&#243; que essa vis&#227;o do mundo &#233; extremamente prejudicial para voc&#234;, e para os outros. O problema consciente em entender as identidades como blocos concretos e uno de identifica&#231;&#227;o, e que seja poss&#237;vel descart&#225;-los ou alter&#225;-los como um peda&#231;o de pl&#225;stico. Devir, a diferen&#231;a n&#227;o &#233; deletar o passado, mas reconhecer que a sua identidade &#233; um jogo constante de sombras e rastros. A mudan&#231;a n&#227;o &#233; um interruptor que voc&#234; liga no dia 1&#186; de janeiro, &#233; um processo de reescrita e reinterpreta&#231;&#227;o cont&#237;nua.</p><p>Trata-se de abra&#231;ar a multiplicidade. Estamos aqui de processos positivadores, e n&#227;o negativos. Muita gente quer &#8220;ser diferente&#8221; imitando o estilo de vida de outra pessoa. Deleuze diria que isso &#233; apenas criar um simulacro. A verdadeira diferen&#231;a &#233; aquela que nasce da sua pr&#243;pria singularidade, n&#227;o da compara&#231;&#227;o. Seria, at&#233; como afirma o autor, afirmar a pot&#234;ncia dos simulacros, aceitar que somos essas colchas de retalhos, formados do desejos dos outros. E n&#227;o tentar nos fixar, criar uma fic&#231;&#227;o da identidade, do sujeito uno, coeso em si mesmo. Somos c&#243;pias de c&#243;pias, s&#243; que sem uma original. Somos a c&#243;pia sem o original. A ideia de &#8216;original&#8217; &#233; a ideia da &#225;rvore, com seu tronco r&#237;gido, suas ra&#237;zes e suas ramifica&#231;&#245;es. E ao inv&#233;s de pensar em &#225;rvores, devemos pensar em batatas, em rizomas.</p><p>N&#227;o devemos pensar em &#8220;imagem&#8221; e &#8220;semelhan&#231;a&#8221;, mas em imagens sem semelhan&#231;a. Porque essa &#233; a diferen&#231;a radical. Pensar na diferen&#231;a como g&#234;nese, princ&#237;pio; pensar que, a priori, tudo &#233; diferente. Por isso c&#243;pias de c&#243;pias sem imagem, n&#227;o existe uma imagem original, n&#227;o existe nenhuma originalidade primitiva. </p><p>E a pot&#234;ncia de viver est&#225; nisso, em aceitar os fluxos, estar aberto aos acontecimentos, as multiplicidades, n&#227;o ter nenhum &#8220;original&#8221; para responder por.</p><div><hr></div><pre><code>O &#8220;De-vindo&#8221; &#233; um projeto criado pelos amigos Bruna Cabral e Victor Silva, universit&#225;rios nos cursos de letras e sociologia da UFF, que buscam questionar a realidade do mundo atrav&#233;s da l&#237;ngua, dos textos e do discurso. A procura de um espa&#231;o que coubesse uma escrita independente, provocativa e experimental, surge a parceria nos intervalos das aulas de lingu&#237;stica e sociologia econ&#244;mica, em caf&#233;s ao redor do campus.

Afinal, Devindo? O ger&#250;ndio do verbo devir. Portanto, &#8220;devindo&#8221; indica o processo intermin&#225;vel de se tornar ou se transformar em algo. Pensar, agir e transgredir!

Considere apoiar o projeto com o valor de um caf&#233; no campus da faculdade de letras atrav&#233;s do pix ogatonapoesia@gmail.com &#43612; .&#5151;</code></pre>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[DE-VINDO #8]]></title><description><![CDATA[O que fazer com a pol&#237;tica no ano que vem? Sald&#227;o de 2025!]]></description><link>https://tremeluzente.substack.com/p/de-vindo-8</link><guid isPermaLink="false">https://tremeluzente.substack.com/p/de-vindo-8</guid><dc:creator><![CDATA[briony.]]></dc:creator><pubDate>Mon, 29 Dec 2025 20:38:40 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!SkhN!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F499aa4a1-cd63-491d-a962-73cca20024f8_7016x4961.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!SkhN!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F499aa4a1-cd63-491d-a962-73cca20024f8_7016x4961.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" 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significam muitissimo, eles carregam significados e est&#227;o por todas as partes! Quando observamos os campos a serem disputados dentro da pol&#237;tica nacional, evidenciamos o modo no qual estamos dispostos a tudo. Testemunhando na &#250;ltima semana o alvoro&#231;o causado ao redor da popular sand&#225;lia de borracha que sempre esteve nos p&#233;s de todos, vendidas pirateadamente nas bancas mais comuns do pa&#237;s, e que agora sobrevive atrav&#233;s do jarg&#227;o pol&#237;tico de boicotes e da reivindica&#231;&#227;o por parte da esquerda&#8230; Para entendermos o motivo disso, precisamos esclarecer o peso dos s&#237;mbolos socialmente, e para qu&#234; eles servem, ou est&#227;o em constante disputa.</p><p>Um exemplo claro disso s&#227;o as cores da bandeira do Brasil. Amarelo, verde e azul sempre estiveram a&#237;, espalhados em festas, jogos de futebol e marquises p&#250;blicas. Mas nos &#250;ltimos anos, essas cores foram sendo puxadas para um lado espec&#237;fico do jogo pol&#237;tico, a extrema-direita se apropriou delas em campanhas de massa, transformando o que era s&#237;mbolo de &#8220;pa&#237;s&#8221; em marca de grupo. O resultado foi simples e violento: muita gente passou a evitar a bandeira para n&#227;o ser confundida com a extrema-direita, como se o amor ao Brasil agora tivesse dono e cara espec&#237;fica. &#201; aqui que a reflex&#227;o do linguista franc&#234;s Jean-Claude Milner ajuda a entender o nosso fen&#244;meno, em <em>O amor da l&#237;ngua</em>, ele mostra que as pessoas n&#227;o se ligam as palavras s&#243; pelo sentido racional, mas pelo afeto que elas trazem. Certos jarg&#245;es pol&#237;ticos funcionam porque soam familiares, f&#225;ceis, quase carinhosos, s&#227;o palavras que d&#227;o sensa&#231;&#227;o de pertencimento, de estar &#8220;do lado certo&#8221;, mesmo quando escondem ideias duras e excludentes. A linguagem popularista se aproveita desse amor pela l&#237;ngua simples, direta, repet&#237;vel, para capturar sentimentos e organizar alian&#231;as. No fim das contas, disputar s&#237;mbolos &#233; disputar a forma como falamos, e principalmente a forma como nos reconhecemos uns nos outros.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://tremeluzente.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/tremeluzente.substack.com/subscribe"><span>Subscreva agora</span></a></p><p> Vasculhando nosso dicion&#225;rio de conceitos popularescos em 2025, me deparei com o <em><strong>contatinho</strong>.</em> Palavra pequena, quase inofensiva, dita em tom de piada, mas carregada de uma &#233;tica inteira. O contatinho n&#227;o &#233; s&#243; algu&#233;m que resolve, &#233; a prova di&#225;ria de que muita coisa n&#227;o funciona como deveria. Ele aparece quando o Estado some, quando a fila n&#227;o anda, quando a regra pesa mais para uns do que para outros. Ter um contatinho virou sin&#244;nimo de se virar, de n&#227;o ficar para tr&#225;s. Quando algu&#233;m diz <em>&#8220;tenho um contatinho&#8221;,</em> est&#225; dizendo tamb&#233;m que confiar s&#243; na regra geral n&#227;o d&#225;.</p><p>Logo ao lado aparece o<em> <strong>tigrinho</strong></em>, talvez o s&#237;mbolo mais cruel, e ao mesmo tempo, mais revelador do Brasil recente. Roland Barthes diria que aqui o mito est&#225; completo: o jogo deixa de ser jogo e vira narrativa de salva&#231;&#227;o individual. O tigrinho n&#227;o promete riqueza, promete sa&#237;da. Ele conversa diretamente com o desespero e se apresenta com a linguagem da leveza, da divers&#227;o, do &#8220;vai que d&#225;&#8221;. Em 2025, milh&#245;es giraram a roleta n&#227;o por ignor&#226;ncia, mas por falta de horizonte. O mito funciona porque transforma precariedade em escolha, e fracasso em responsabilidade pessoal, uma l&#243;gica que inverte os sentidos e d&#225; uma no&#231;&#227;o de poder absoluto para quem se envolve na din&#226;mica.</p><p>Nesse sentido, o <em><strong>tigrinho</strong></em> n&#227;o aparece isolado no imagin&#225;rio de 2025, ele dialoga diretamente com outros s&#237;mbolos que ajudam a explicar o funcionamento &#237;ntimo do pa&#237;s. Essa engrenagem simb&#243;lica s&#243; funciona porque caminha de m&#227;os dadas com o <em><strong>pix</strong></em>, que em 2025 j&#225; n&#227;o &#233; apenas meio de pagamento, mas infraestrutura emocional do cotidiano. O pix resolve, acelera, apaga dist&#226;ncias, cria a ilus&#227;o de que tudo pode ser imediato, inclusive o dinheiro que falta. No universo do tigrinho, o pix n&#227;o &#233; detalhe t&#233;cnico, &#233; parte da promessa: ganhou, cai na hora, perdeu, tamb&#233;m. A velocidade elimina o tempo da reflex&#227;o, dissolve o constrangimento e normaliza a repeti&#231;&#227;o compulsiva do consumo. Tudo acontece r&#225;pido demais para que a culpa encontre a consci&#234;ncia. Esse regime da urg&#234;ncia se espalha para al&#233;m do jogo. Ele organiza a informalidade generalizada, a vida resolvida no improviso, a pol&#237;tica consumida em fragmentos. Em 2025, consolidou-se a ideia de que tudo pode, e deve, ser resolvido rapidamente: o pagamento, o esc&#226;ndalo, a indigna&#231;&#227;o, o esquecimento.</p><p>Nesse cen&#225;rio, o tigrinho se torna mais do que um v&#237;cio ou um esc&#226;ndalo moral. Ele vira met&#225;fora central de um pa&#237;s que foi convencido de que precisa apostar para sobreviver. Apostar dinheiro, apostar s&#237;mbolos, apostar palavras. Esse ano o Brasil apostou alto na linguagem f&#225;cil, na ilus&#227;o port&#225;til, que est&#225; sempre na ponta dos dedos e parece fugir dos olhos. E como toda aposta feita sem rede de prote&#231;&#227;o, quem perde &#233; sempre o mesmo lado, enquanto a banca, invis&#237;vel e distante, segue acumulando vit&#243;rias em cima do povo.</p><div><hr></div><p><strong>O que aprender com a pol&#237;tica de 2025?</strong></p><p><em>// Por <strong>Victor N. Silva.</strong></em></p><p>O ano de 2025 foi provavelmente, um dos anos com mais acontecimentos pol&#237;ticos condensados dos &#250;ltimos tempos. N&#227;o s&#243; na esfera nacional, como na internacional, n&#227;o s&#243; por conta das in&#250;meras guerras acontecendo na R&#250;ssia e na Ucr&#226;nia, Israel e Palestina (e outros pa&#237;ses &#225;rabes), as guerras acontecendo tamb&#233;m em diversas partes da &#193;frica, mas problemas de pol&#237;ticas dom&#233;sticas, tanto na administra&#231;&#227;o do Trump, com os arquivos de Epstein sendo liberados paulatinamente, quanto aos problemas dom&#233;sticos no Brasil: opera&#231;&#227;o carbono oculto, o julgamento da trama golpista, caso do Banco Master, e a assim chamada &#8220;megaopera&#231;&#227;o&#8221; do Rio de Janeiro.</p><p>Esse ano parece que foi um ano interessante para repensar todas aquelas teorias de conspira&#231;&#227;o nas quais existam um certo culto das elites: que todos s&#227;o uns ped&#243;filos sat&#226;nicos e etc. Tal qual o filme de Kubrick &#8216;<em>De olhos bem fechados&#8217;</em>. Pois talvez ele seja realidade, o fato &#233; que com a exposi&#231;&#227;o dos arquivos do Epstein, podemos ver como v&#225;rias pessoas poderosas e famosas se conhecem, v&#227;o &#224;s mesmas festas, mesmos lugares, e fazem coisas muito, mas muito estranhas juntas. Entretanto isso h&#225; de ter um prop&#243;sito, &#233; chantagem. O &#250;nico jeito de dessa elite se manter unida e poder confiar uns nos outros, &#233; atrav&#233;s de todos estarem ligados juntos de alguma forma: por meio de chantagem. Todos tinham liga&#231;&#227;o, ent&#227;o ningu&#233;m iria dedurar ningu&#233;m. Era uma grande rede de chantagem. Ademais, no Brasil n&#227;o h&#225; de ser muito diferente. Como vimos no caso do Banco Master, todos esses ricos e pol&#237;ticos brasileiros eram conhecidos, frequentavam as mesmas festas nas mesmas casas, e quando cai um, logo logo come&#231;am a cair os outros.</p><p>Talvez isso tudo seja mais um combust&#237;vel para aquelas pessoas isentas que dizem que todos os pol&#237;ticos s&#227;o todos farinha do mesmo saco&#8230; H&#225; de ter alguma verdade nisso&#8230; (?)</p><p>Mas existe outro lado para os acontecimentos pol&#237;ticos desses anos, <strong>tudo isso foi falado</strong>. Em quase qualquer jornal que voc&#234; lia por ai, se falava da pris&#227;o do ex-presidente Bolsonaro, e da pris&#227;o dos outros da trama golpista. Se falou dos casos do TH Joias, do Banco Master. E pelo lado da pol&#237;tica presidencial, se foi discutido sobre a CNH, sobre a isen&#231;&#227;o de impostos para quem ganha menos de cinco mil, o 6x1 chegou a debate p&#250;blico. No geral, a esquerda conseguiu comandar um pouco das pautas. Foi um ano em que n&#227;o se teve notici&#225;rios falando de &#8220;<em>mamadeira de piroca</em>&#8220; nem nada do tipo. Esse ano foi uma verdadeira derrocada da direita, em termos discursivos. E um sinal simb&#243;lico disso foi a est&#225;tua da Havan caindo numa ventania no sul. Talvez no Brasil outros ventos fortes estejam por vir. E eu n&#227;o quero soar otimista, eu s&#243; quero pontuar como existe algo de positivo desse ano, e ele n&#227;o veio da pol&#237;tica institucional, n&#227;o veio dos parlamentos, nem dos congressos, muito pelo contr&#225;rio, tudo de ruim saiu de l&#225;. Onde conseguimos realmente ter um saldo positivo esse ano foi nas discuss&#245;es, essa &#233; a minha aposta. E esse &#233; um sinal que n&#227;o devemos esperar nada de bom do Estado, para nos ajudar. N&#227;o devemos esperar que ele venha salvar todos os nossos problemas, de boa vontade. O que podemos fazer &#233; discutir, fazer protestos, &#233; conversar e mudar de ideia. Embora isso pare&#231;a muito pouco, a verdade &#233; que isso &#233; o extremamente necess&#225;rio, as mudan&#231;as que mais importam s&#227;o as micro-pol&#237;ticas. S&#227;o as quest&#245;es que se falam por ai, o que anda comandando o desejo das pessoas.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://tremeluzente.substack.com/p/de-vindo-8?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Partilhar&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/tremeluzente.substack.com/p/de-vindo-8?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Partilhar</span></a></p><p>Se existiram &#8220;vit&#243;rias&#8221; esse ano, todas elas foram micropol&#237;ticas. Isso pode servir de exemplo, e mostrar como as teorias que levam em conta o desejo, a subjetividade, o corpo, todos os menores devires, podem vingar. Alguns podem at&#233; olhar e dizer que foi uma vit&#243;ria da democracia brasileira o julgamento da trama golpista, como foi o caso da revista <em>The Economist</em> com a capa &#8220;<em><strong>What Brazil Can Teach America</strong></em>&#8220;, com a foto do Bolsonaro. Entretanto, discordo que essa h&#225; de ser a grande vit&#243;ria brasileira. Embora ainda exista uma grande massa de bolsonaristas &#8212; sem o Bolsonaro &#8212; eles n&#227;o t&#234;m mais conduzido os rumos dos debates como antes. Um exemplo recente &#233; o caso da <em>Havaianas</em>, desse suposto &#8220;boycott&#8221; &#8212; que na realidade aumentou as vendas da marca. Que rendeu muitos videos pela internet, <em>s&#243; que ficou por isso</em>. A enxurrada de noticias de <em>casos de corrup&#231;&#227;o</em> dos pol&#237;ticos que essas pessoas <em>pensam que defendem</em> <strong>est&#225; abafando o assunto</strong>.</p><p>E mais uma vez, para reiterar, eu n&#227;o estou dizendo que eu acredito no poder m&#225;gico do jornalismo, que uma vez que desvendarmos todos os casos de corrup&#231;&#227;o, expormos cada podre, assim, subitamente, a pol&#237;tica brasileira mudar&#225;. Na verdade, sempre se falou da corrup&#231;&#227;o da c&#250;pula pol&#237;tica; o que estamos a ver agora &#233; apenas uma confirma&#231;&#227;o disso. A quest&#227;o agora &#233;: <strong>o que fazer</strong>, <em>com tudo isso</em> ?</p><p>Eu tamb&#233;m n&#227;o quero soar como alguns intelectuais, at&#233; muito bem intencionados, para vir dizer que &#233; o &#8220;fim do imp&#233;rio norte-americano&#8221; ou algo do tipo. Embora sim, estamos vendo claros casos de uma direita que est&#225; sangrando, tanto nos EUA, quanto no Brasil. Est&#225; na hora de perguntar a est&#225;tua de liberdade, &#8220;voc&#234; sangra? vai sangrar&#8221;, porque a da Havan j&#225; caiu, talvez ela seja a pr&#243;xima. O que vivemos &#233; um momento de incerteza, em que, na verdade, a esquerda globalmente tem conseguido avan&#231;ar com diversas pautas, e a prova disso &#233; a cada vez mais severa e escancarada resposta reacion&#225;ria dos Estados.</p><p>Na qual esse tweet dele &#233; um claro exemplo. O que explicaria que o presidente dos EUA em pleno natal, estaria a gastar seu tempo e suas palavras para criticar a esquerda e principalmente os transg&#234;neros ?</p><p>Judith Butler, em uma entrevista para a <strong>Boitempo</strong> chamada <em>&#8220;quem tem medo de falar sobre g&#234;nero&#8221;</em> (refer&#234;ncia ao seu livro de nome parecido), j&#225; nos anuncia sobre esse medo da direita conservadora cada vez mais crescente: eles t&#234;m medo porque sabem que v&#227;o perder. O mundo LGBTQI est&#225; cada vez mais aceito, e quanto mais aceito, mais raiva a direita fica. Por isso, vemos cada vez mais pol&#237;ticas reacion&#225;rias de g&#234;nero, mas a autora nos parece um tanto quanto categ&#243;rica, afirma que eles sabem que v&#227;o perder, porque:</p><p><em><strong>&#8220;We have freedom and joy on our side and that is why we will eventually win&#8221;</strong></em></p><p>Enfim, para concluir, esse ano foi um ano de acontecimentos pol&#237;ticos importantes, e ano que vem ser&#225; tamb&#233;m, n&#227;o s&#243; pela continua&#231;&#227;o dos esc&#226;ndalos desse ano, mas por ser ano de elei&#231;&#227;o dos deputados e do governador. O que podemos tirar desse ano, apesar dos in&#250;meros esc&#226;ndalos, da situa&#231;&#227;o das guerras, do paradigma clim&#225;tico que estamos a enfrentar &#233; que devemos (re-)aprender aonde investir as nossas for&#231;as, para qual &#226;ngulo devemos olhar. Se voc&#234; for olhar pelo lado da burocracia, dos representantes governamentais, talvez voc&#234; v&#225; se frustar, bastante. Mas, se por um acaso, voc&#234; for olhar pelas ruas, pelos protestos, esse ano foi interessante, houve alguns protestos semi-fracassados da direita, e alguns protestos bem numerosos da esquerda. Pode-se dizer que os protestos sozinhos, n&#227;o mudam o mundo, mas eles e seus n&#250;meros, podem-ser uma especie de <em>term&#244;metro</em> para medir quais ventos v&#227;o ventar nesse Brasil nos anos seguintes, medir quais pautas estamos discutindo, pelas quais as pessoas querem ir nas ruas levar os seus corpos para lutar.</p><p>A verdade &#233; que isso me parece confirmar os press&#225;gios de Paul B. Preciado no Dysphoria Mundi, estamos vivendo numa certa transi&#231;&#227;o, uma transi&#231;&#227;o epistemol&#243;gica, uma transi&#231;&#227;o de pensamento, na qual as velhas formas de pensamento n&#227;o est&#227;o mais de acordos com o nosso mundo. Talvez seja verdade. Precisamos fazer uma grande transi&#231;&#227;o, transicionar para aonde vamos atentar nossos olhos, e nossas energias, pois como j&#225; disse Nietzsche em Genealogia da Moral &#8220;&#8230;n&#227;o existe &#8220;ser&#8221; por tr&#225;s do fazer, do atuar, do devir; &#8220;o agente&#8221; &#233; uma fic&#231;&#227;o acrescentada &#224; a&#231;&#227;o &#8212; <strong>a a&#231;&#227;o &#233; tudo</strong>&#8220; (Grifo nosso, trad. de <em>Paulo C&#233;sar de Souza</em>). Precisamos mudar a nossa a&#231;&#227;o, porque a a&#231;&#227;o &#233; tudo, no decurso da a&#231;&#227;o, criamos o que agimos, nos criamos por meio dela, este &#233; a for&#231;a do devir, torna-se a a&#231;&#227;o que se faz. <em>De-vindo</em> o que cria.</p><div><hr></div><pre><code><code>O &#8220;De-vindo&#8221; &#233; um projeto criado pelos amigos Bruna Cabral e Victor Silva, universit&#225;rios nos cursos de letras e sociologia da UFF, que buscam questionar a realidade do mundo atrav&#233;s da l&#237;ngua, dos textos e do discurso. A procura de um espa&#231;o que coubesse uma escrita independente, provocativa e experimental, surge a parceria nos intervalos das aulas de lingu&#237;stica e sociologia econ&#244;mica, em caf&#233;s ao redor do campus.

Afinal, Devindo? O ger&#250;ndio do verbo devir. Portanto, &#8220;devindo&#8221; indica o processo intermin&#225;vel de se tornar ou se transformar em algo. Pensar, agir e transgredir!

Considere apoiar o projeto com o valor de um caf&#233; no campus da faculdade de letras atrav&#233;s do pix ogatonapoesia@gmail.com &#43612; .&#5151;</code></code></pre>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Como deixar de ser triste?]]></title><description><![CDATA[Ressaca de fim de ano.]]></description><link>https://tremeluzente.substack.com/p/como-deixar-de-ser-triste</link><guid isPermaLink="false">https://tremeluzente.substack.com/p/como-deixar-de-ser-triste</guid><dc:creator><![CDATA[briony.]]></dc:creator><pubDate>Wed, 24 Dec 2025 16:18:13 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!7vsD!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F01d3f221-954a-4741-aaff-c3a4bd7cf184_3024x2213.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Eu nunca me acostumo com essa sensa&#231;&#227;o, desde a inf&#226;ncia &#233; sempre uma novidade como vou me sentir nos natais, &#233; sempre irregular, mas por ser uma data que todos combinam de estarem felizes, me sinto um pouco intrusa se fico triste. E &#233; isso que me leva a quest&#227;o apontada no t&#237;tulo desse texto, afinal, <em>como deixar de estar triste? </em>Eu tampouco tenho essa resposta. Acho que a parte secreta &#233; aceitar os nossos pr&#243;prios sentimentos, quando parei de lutar contra tudo que sentia, comecei a entender <em>o que</em> sentia, e ainda que n&#227;o haja um nome para a maioria das minhas sensa&#231;&#245;es, elas s&#227;o minhas&#8230; ent&#227;o as peguei para mim. Numa esp&#233;cie de ado&#231;&#227;o, ficamos aqui dentro, eu e todas essas sensa&#231;&#245;es ainda sem nome, e percebi que raramente estou sozinha. </p><p>Tamb&#233;m percebi que &#233; imposs&#237;vel permanecer triste quando lembro do som da harpa espanhola ao vivo no centro cultural. Ou da risada aguda da minha m&#227;e &#224;s duas da manh&#227;, quando j&#225; &#233; terminantemente proibido rir alto na vizinhan&#231;a. Dos meus alunos disputando quem vai ficar com o &#250;ltimo salgadinho de queijo, os t&#234;nis friccionando contra o ch&#227;o. Do barulho do port&#227;o quando meus av&#243;s v&#234;m visitar sem avisar. Da Mariana fazendo &#8220;neuneuneu&#8221; para negar algo. Da Sofia totalmente s&#233;ria numa sess&#227;o de cinema onde est&#225;vamos todos rindo. Da Andressa confundindo todas as palavras numa frase simples. De quando chamo o Raphy de Raphael e ele me corrige. Quando sinto a m&#227;o da Amanda acariciando uma das minhas t&#234;mporas depois de suar. Quando assisto o mesmo filme pela d&#233;cima vez com a J&#250;lia. Quando pego o papel das cartas da H&#233;lia entre os dedos, e tor&#231;o um pouco para retirar a cola e abrir. Da chuva cinco horas da tarde depois de um dia de quarenta graus. Do riscar da agulha da vitrola no LP do Quincy Jones anunciando o in&#237;cio de <em>&#8220;Ai No Corrida&#8221;. </em>Do pavio novo da vela queimando enquanto eu escrevo. Quando lembro daquele mico escalando uma &#225;rvore do Parque Lage pertinho de mim. Ou quando o Corinthians, meu time, &#233; campe&#227;o da Copa do Brasil. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!7vsD!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F01d3f221-954a-4741-aaff-c3a4bd7cf184_3024x2213.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!7vsD!, /__u/tremeluzente.substack.com/w_424, /__u/tremeluzente.substack.com/c_limit, /__u/tremeluzente.substack.com/f_webp, /__u/tremeluzente.substack.com/q_auto:good, /__u/tremeluzente.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F01d3f221-954a-4741-aaff-c3a4bd7cf184_3024x2213.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!7vsD!, /__u/tremeluzente.substack.com/w_848, 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emaranhado, como essa teia de palavras constru&#237;das tentando chegar a algo.</p><p>Um grande tremor, e quando olho para fora as luzes est&#227;o quentes: as l&#226;mpadas azuis, quase mortas, parecem ter sido substitu&#237;das por l&#226;mpadas antigas, como as de fogo flamejante.</p><p>Feliz natal!</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://tremeluzente.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler TREMELUZENTE!</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[QUINA + TREMELUZENTE in Jazz!]]></title><description><![CDATA[Quando John Coltrane e Ella Fitzgerald se encontram...]]></description><link>https://tremeluzente.substack.com/p/quina-tremeluzente-in-jazz</link><guid isPermaLink="false">https://tremeluzente.substack.com/p/quina-tremeluzente-in-jazz</guid><dc:creator><![CDATA[briony.]]></dc:creator><pubDate>Sat, 06 Dec 2025 19:28:52 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!X1_a!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa278d9f2-4df2-42d5-b0f6-2184c30a08a9_1001x385.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><em>&#8220;I&#8217;m all for you&#8230; <strong>body and soul.</strong>&#8221;</em></p><p>// Por<strong> Bruna Cabral.</strong></p><p><em>&#8220;Love does not begin and end the way we seem to think it does.&#8221; <strong>James Baldwin.</strong></em></p><p>        Body and Soul &#233; uma das m&#250;sicas mais conhecidas e regravadas da hist&#243;ria mundial da cena de jazz, e ainda assim, segue sendo uma das minhas coisas preferidas! Aprendo diariamente a valorizar essas sonoridades que j&#225; est&#227;o no imagin&#225;rio coletivo, principalmente por vers&#245;es com diferentes arranjos, que as tornam m&#250;sicas qu&#226;nticas, porque sobrevivem em diversos registros e adquirem uma magia intensamente &#250;nica, como se fossem realmente trilhas sonoras incans&#225;veis. Como em <em><strong>A Cor P&#250;rpura</strong></em> (1985), do Spielberg, onde a m&#250;sica aparece na trilha sonora, numa vers&#227;o da <strong>Coleman Hawkins Orchestra.</strong></p><p>        O que me interessa mais sempre esteve nos desdobramentos da parte instrumental, que guarda infinitamente mais segredos e artimanhas para al&#233;m da letra. Por exemplo, a <em>Body and Soul</em> de Coltrane se ergue sobre quatro pilares : tenor, piano, baixo e bateria, mas n&#227;o como uma banda qualquer faria, nessa vers&#227;o os eixos s&#227;o t&#227;o pr&#243;ximos e entrosados, que soam como un&#237;ssono aos ouvidos. &#201; uma confiss&#227;o, quase um devocional, com texturas deixadas n&#227;o apenas pelo saxofone, mas pelo piano intenso e pela bateria que n&#227;o s&#243; marca, mas persegue a melodia sorrateiramente!<em> <strong>&#8220;I&#8217;m all for you, body and soul&#8221;</strong></em> e<em> <strong>&#8220;my life a wreck you&#8217;re making&#8221;</strong></em> nos recordam que estamos falando sobre uma entrega incalcul&#225;vel a quem, ou ao que, se ama.</p><p>            Mas o mais impressionante &#233; como Coltrane toma essas palavras t&#227;o humanas, e as redesenha no campo do indiz&#237;vel. Porque n&#227;o me parece uma tarefa f&#225;cil transmutar a linguagem e verter palavras em melodias puras. E, talvez, todo o meu encantamento por esta vers&#227;o esteja justamente nisso, na constata&#231;&#227;o de que a linguagem sonora produz sentido onde a linguagem verbal se retira. Jazz! Mas o jazz n&#227;o est&#225;, em toda sua melodia, fora do texto. Porque tudo &#233; escritura, tudo &#233; tra&#231;o, tudo &#233; gesto que inscreve sentido. A m&#250;sica n&#227;o est&#225; fora da linguagem, ela &#233; uma outra forma de escrita, uma que se opera no sopro e na defasagem do timbre. <em>Body and Soul</em> se converte justamente nisso, uma escrita que n&#227;o precisa da palavra para inscrever o desejo. No fim, o que vibra aqui n&#227;o &#233; a palavra &#8216;body&#8217;, nem a palavra &#8216;soul&#8217;, o que vibra &#233; o intervalo de coisas entre elas, esse espa&#231;o onde a linguagem acontece mesmo quando n&#227;o h&#225; nada, mas tudo sendo dito.</p><p>Se Coltrane retira a palavra para fazer o som falar o que n&#227;o pode ser dito, Ella faz o contr&#225;rio: ela pega o que poderia ser indiz&#237;vel e o encapsula em dic&#231;&#227;o, como se tivesse plena consci&#234;ncia de que a voz humana &#233; o primeiro instrumento e a primeira forma de escrita. O timbre quente de Ella n&#227;o desmancha a can&#231;&#227;o, ele a organiza, d&#225; a ela uma hierarquia afetiva clara: primeiro a palavra, depois o corpo da voz, depois a m&#250;sica que a sustenta. E, assim, sua vers&#227;o caminha numa dire&#231;&#227;o oposta &#224; de Coltrane, enquanto ele expande o jazz para o limite da forma, ela o condensa para dentro de um gesto humano reconhec&#237;vel, um gesto que diz &#8220;escute o que est&#225; sendo dito, porque o que sinto s&#243; pode existir nessa palavra agora&#8221;.</p><p>Aqui o texto n&#227;o se esconde, o desejo n&#227;o precisa ser subentendido, o corpo n&#227;o &#233; insinuado, ele &#233; cantado. Ella devolve ao jazz a pot&#234;ncia de algo que pode ser compreendido sem precisar ser decifrado. E &#233; nessa transpar&#234;ncia que sua interpreta&#231;&#227;o se torna tamb&#233;m monumental, n&#227;o por esvaziar o mist&#233;rio, mas por lembrar que o mist&#233;rio tamb&#233;m pode caber numa frase perfeitamente dita, num final de verso que se desfaz como se o sentimento, por um instante, tivesse aprendido a usar a l&#237;ngua.</p><div><hr></div><p> &#8220;Ev&#8217;ry time we say goodbye.&#8221;      </p><p>// Por <strong>Daniel Borges.</strong></p><p>     Sinto que envelheci mais do que esperava quando me pego sendo nost&#225;lgico por alguma coisa. Nost&#225;lgico n&#227;o no sentido de querer voltar ao passado, mas de lembrar dele num misto de melancolia e ternura que o futuro n&#227;o pode, de certa forma, oferecer. O campo sem&#226;ntico extenso de que nos valemos para aludir ao passado &#233; prova de que o nosso apre&#231;o pelo que n&#227;o volta mais nos marca fortemente. D&#233;j&#224; vu. Algo n&#227;o visto, mas que nos d&#225; a sensa&#231;&#227;o de j&#225; o ter em algum lugar no passado. Saudade. Sentir falta de algo que j&#225; ocorreu. A pr&#243;pria nostalgia. Melancolia causada pelo desejo de sentir ou experienciar novamente alguma coisa.</p><p>&#9;Cole Porter oferece ao mundo algo parecido em 1944, com &#8220;Ev&#8217;ry Time We Say Goodbye&#8221;. Tr&#234;s estrofes simples, de um jazz que, mesmo nas mais longas interpreta&#231;&#245;es, n&#227;o chega nem aos 5 minutos de dura&#231;&#227;o. Com um eu-l&#237;rico que sofre ao deixar o objeto amado, a m&#250;sica brinca com a dualidade entre os momentos antes e ap&#243;s essa despedida. Para quem escuta com aten&#231;&#227;o, a metalinguagem grita do &#237;nicio ao fim da faixa. Uma m&#250;sica que se utiliza de termos musicais para falar sobre despedidas. O pulo do gato aqui est&#225; no que a m&#250;sica representa nos momentos com e sem o que se ama, ou seja, antes e depois do adeus.</p><blockquote><p><strong>When you&#8217;re near, there&#8217;s such an air of spring about it</strong></p><p><em>Quando voc&#234; est&#225; por perto, h&#225; um ar de primavera ao redor</em></p><p><strong>I can hear a lark somewhere, begin to sing about it</strong></p><p><em>Eu consigo ouvir uma cotovia em algum lugar, come&#231;ar a cantar sobre isso</em></p></blockquote><p>&#9;Na presen&#231;a do objeto amado, a cotovia canta durante a primavera. N&#227;o consigo ler e deixar de imaginar cenas da Branca de Neve, ainda l&#225; nas primeiras vers&#245;es da anima&#231;&#227;o, com os passarinhos e demais animais interagindo em sincronia com a protagonista. Tipo de nostalgia inevit&#225;vel para quem cresceu assistindo desenhos. Os animais aparecem nos momentos rom&#226;nticos, m&#225;gicos e felizes. Dan&#231;am as m&#250;sicas tema com a protagonista e, ao menor sinal de vilania, fogem para o meio da floresta. Dif&#237;cilmente interagem com qualquer antagonista, e no final do filme, retornam para comemorar felizes a derrota do mal que assola a hist&#243;ria inteira. A presen&#231;a do cantar animal &#233; uma met&#225;fora para o amor e, talvez at&#233; seja poss&#237;vel dizer que, para a seguran&#231;a de poder amar, j&#225; que a presen&#231;a do canto s&#243; pode ocorrer em cen&#225;rios primaveris e longe das garras antagonistas da hist&#243;ria. Acho que Cole Porter pensa nisso e v&#234; os animais com medo correndo para a floresta assim que comp&#245;e os pr&#243;ximos versos.</p><blockquote><p><strong>There&#8217;s no love song finer, but how strange the change</strong></p><p><em>N&#227;o h&#225; can&#231;&#227;o de amor mais linda, mas que estranha a mudan&#231;a</em></p><p><strong>From major to minor, everytime we say goodbye</strong></p><p><em>De maior para menor, toda vez que nos despedimos</em></p></blockquote><p>N&#227;o h&#225; mais cotovias: os acordes agora s&#227;o menores e a m&#250;sica muda de car&#225;ter. Uma met&#225;fora musical para indicar a acentua&#231;&#227;o da melancolia j&#225; existente que fica apenas no campo imagin&#225;rio: se analisarmos a partitura, entendemos que n&#227;o h&#225; altera&#231;&#227;o de armadura ao longo da m&#250;sica, ou seja, mesmo que a letra d&#234; a entender certa mudan&#231;a, o tom n&#227;o se altera.&#185; Com uma faixa executada em Mi bemol Maior, o ouvinte experiencia uma melodia com potencial para ser melanc&#243;lica, mas que n&#227;o se rende completamente e se contenta em ficar somente nesse espa&#231;o de uma <em>quase</em> melancolia. Afinal de contas, escutamos uma hist&#243;ria que se ambienta em duas partes contrastantes. O ouvinte compra apenas meia melancolia.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!X1_a!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa278d9f2-4df2-42d5-b0f6-2184c30a08a9_1001x385.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!X1_a!, /__u/tremeluzente.substack.com/w_424, /__u/tremeluzente.substack.com/c_limit, /__u/tremeluzente.substack.com/f_webp, /__u/tremeluzente.substack.com/q_auto:good, /__u/tremeluzente.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa278d9f2-4df2-42d5-b0f6-2184c30a08a9_1001x385.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!X1_a!, /__u/tremeluzente.substack.com/w_848, /__u/tremeluzente.substack.com/c_limit, 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Como quem lembra de algo que se desmanchou na mem&#243;ria e n&#227;o volta mais, independentemente do desejo. Como quem tenta agarrar e enjaular a cotovia com medo de que ela pare de cantar em algum momento. Uma hist&#243;ria de perda costurada no mesmo tom em que Chopin comp&#245;e (por volta de 1832) seu famoso Nocturne in E-Flat Major, Op. 9, n2. &#201; um exerc&#237;cio f&#225;cil, inclusive, escutar uma enquanto pensa na letra da outra. Ambas possuem um fraseado muito potente no que se refere &#224; evoca&#231;&#227;o de sentimentos como a melancolia.</p><p>Duas interpreta&#231;&#245;es de &#8220;Every Time We Say Goodbye&#8221; me chamam aten&#231;&#227;o. A primeira &#233; na voz de Ella Fitzgerald, da vers&#227;o gravada em 1956 do SongBook de Cole Porter. De um jeito doce, mas imponente, a grava&#231;&#227;o come&#231;a com as cordas em tr&#234;mulo dando lugar a uma Ella pesarosa. N&#227;o &#233; o estilo de m&#250;sica que aceita exageros, e ela canta como quem sabe disso. Comedida, por&#233;m se ocupando do lugar que esperamos quando se trata de um eu-l&#237;rico saudosista, a faixa &#233; conduzida como que num fundo musical de filme antigo; o que faz com que o passado se torne ainda mais especial: a saudade deixa de ser s&#243; tristeza e ganha certa magia acentuada pelo baixo em pizzicato e um solo de flauta transversa que conversam com o ouvinte como quem diz que existe beleza na percep&#231;&#227;o da aus&#234;ncia. Os violinos em certo momento trazem um agudo de quem conta uma hist&#243;ria dram&#225;tica, mas logo voltam pro conhecido, como um sentimento que em alguns momentos aperta, mas logo volta &#224; const&#226;ncia at&#233; apertar de novo. Ella termina com um Si bemol grave, ao contr&#225;rio da vers&#227;o da qual tenho a partitura, que termina num Mi bemol agudo. Escolha acertada n&#227;o s&#243; pelo contraste com os agudos nas cordas ao longo da m&#250;sica, mas tamb&#233;m para mostrar que &#233; assim mesmo: o lamento volta sempre para onde estava, num ciclo de repeti&#231;&#227;o com o qual nos acostumamos a lidar. A saudade &#233; assim. O luto tamb&#233;m.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!XwCb!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8a86be43-401d-4eb0-be07-ed7428b7cca7_998x340.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!XwCb!, /__u/tremeluzente.substack.com/w_424, /__u/tremeluzente.substack.com/c_limit, /__u/tremeluzente.substack.com/f_webp, /__u/tremeluzente.substack.com/q_auto:good, /__u/tremeluzente.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8a86be43-401d-4eb0-be07-ed7428b7cca7_998x340.png 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!XwCb!, /__u/tremeluzente.substack.com/w_848, /__u/tremeluzente.substack.com/c_limit, /__u/tremeluzente.substack.com/f_webp, 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sizes="100vw"><img src="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!XwCb!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8a86be43-401d-4eb0-be07-ed7428b7cca7_998x340.png" width="998" height="340" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/8a86be43-401d-4eb0-be07-ed7428b7cca7_998x340.png&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:340,&quot;width&quot;:998,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:null,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:null,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!XwCb!, /__u/tremeluzente.substack.com/w_424, 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A escolha de manter o piano ao fundo mostra uma das coisas que, pra mim, tornam o jazz t&#227;o especial. Essa versatilidade de instrumentos e combina&#231;&#245;es que, apesar de estarem no mesmo g&#234;nero, diferenciam tanto as grava&#231;&#245;es de uma mesma m&#250;sica muito me animam e me lembram que existe beleza no interpretar. &#201; justamente essa escolha de instrumentos que d&#225; ao ouvinte uma vers&#227;o completamente diferente do que &#233; sentir saudades. Aqui, para quem escuta, ela mora nos detalhes: na mesma nota repetida diversas vezes no sopro, na bateria t&#237;mida, no piano que em momento nenhum se deixa levar e relembra a todo momento o fardo que carrega todo saudosismo. Em algum momento, mais para o meio da m&#250;sica, o ouvinte se depara novamente com essa n&#227;o linearidade do sentimento: o que antes era uma saudade mais comedida d&#225; lugar a um aumento de andamento, seguido por um curto solo de baixo.</p><p>No final, resta o sentimento de que vivemos o inescap&#225;vel: &#233; caracter&#237;stica do ser humano olhar o passado com um ar nost&#225;lgico. Seja &#224; la Coltrane ou &#224; la Fitzgerald, a melancolia &#233; imperiosa: n&#227;o existe negocia&#231;&#227;o com o que j&#225; se decorreu. &#201; o mesmo sentimento que vivemos todos os anos quando chega dezembro. Quando ligamos para um amigo depois de muito tempo. Quando lembramos de algu&#233;m que perdemos. Quando pensamos em nos despedir. &#201; o plano de fundo que atormenta nossas decis&#245;es de final de ano. &#201; o que d&#225; ao dia 31/12 um ar de esperan&#231;a. &#201; o que faz com que tenhamos novas expectativas sobre o futuro, ao mesmo tempo em que somos lembrados da nossa pr&#243;pria e inescap&#225;vel melancolia, t&#237;pica de despedidas.</p><p>&#201; mesmo a &#233;poca de um Mi bemol Maior: tom com o qual aprendemos a dizer adeus e, como quem peca, a sentir saudades.</p><p>1 Todos os coment&#225;rios referentes &#224; partitura seguem a vers&#227;o contida em &#8220;The Cole Porter Songbook/ The Complete Words and Music of Forty of Cole Porters Best-Loved Songs&#8221; (Simon and Schuster, New York, 1959): Ev&#8217;ry Time We Say Goodbye [from Seven Lively Arts].</p><div><hr></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://tremeluzente.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/tremeluzente.substack.com/subscribe"><span>Subscreva agora</span></a></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://tremeluzente.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigada por ler o TREMELUZENTE. 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Como em todo sul global, repetimos a palavra sustentabilidade como quem tenta estancar um rompimento de barragem com fita adesiva. Falamos de canudos biodegrad&#225;veis e talheres compost&#225;veis como se fossem capazes de segurar uma crise clim&#225;tica que j&#225; caminha para a irreversibilidade&#8230; Enquanto isso, os n&#250;meros mostram que esse consumo consciente t&#227;o celebrado n&#227;o arranha o modelo extrativista que organiza nossa economia h&#225; s&#233;culos. </p><p>O pa&#237;s responde por cerca de 3% das emiss&#245;es globais de gases de efeito estufa, segundo o SEEG. E quando olhamos para a contribui&#231;&#227;o hist&#243;rica, aquela que realmente acumulou calor na atmosfera, a estimativa do Observat&#243;rio do Clima aponta para cerca de <em>4,9% </em>do aumento da temperatura global desde meados do s&#233;culo 20. Quer dizer que uma fra&#231;&#227;o expressiva do di&#243;xido de carbono que cobre o planeta como um vidro quente saiu daqui, n&#227;o ocupamos o papel confort&#225;vel de espectadores, somos parte viva e ativa da engrenagem que aquece o mundo. E &#233; justamente nesse ponto que o agro entra como fio condutor dessa contradi&#231;&#227;o, enquanto discutimos canudos reutiliz&#225;veis, o agroneg&#243;cio segue operando como o verdadeiro motor das emiss&#245;es brasileiras. Segundo os dados recentes do Observat&#243;rio do Clima, a soma da agropecu&#225;ria com a mudan&#231;a de uso da terra chega a cerca de 74% das emiss&#245;es totais do pa&#237;s. Metade vem da derrubada de floresta e da transforma&#231;&#227;o do solo em pasto. A outra parte est&#225; no rebanho bovino que cresce ano ap&#243;s ano, liberando metano em escala industrial, sem contar o pacote silencioso de fertilizantes nitrogenados, queimadas, drenagens de solo e expans&#227;o de fronteira que nunca se encerra. </p><p>&#201; assim que o agro, t&#227;o frequentemente exaltado como salva&#231;&#227;o econ&#244;mica, segue encarecendo n&#227;o s&#243; o pre&#231;o dos alimentos, mas o pr&#243;prio ambiente. Avan&#231;a onde antes havia floresta, empurra popula&#231;&#245;es para fora de seus territ&#243;rios, reduz rios a filetes, e se vale de brechas legais, flexibiliza&#231;&#245;es e fiscaliza&#231;&#245;es capengas para manter seu ritmo. A fome brasileira &#233;, em grande medida, uma consequ&#234;ncia dessa l&#243;gica que organiza o agro. Concentrar terra e degradar solo, precarizar os verdadeiros trabalhadores e transformar alimento em <em><strong>commodity</strong> (produtos padronizados vendidos em grandes quantidades para o mercado global, como soja, milho e carne, cujo pre&#231;o &#233; definido l&#225; fora e n&#227;o leva em conta a nossa realidade local)</em>. E se existe um s&#237;mbolo dessa expans&#227;o destruidora, se chama <strong>MATOPIBA</strong>, essa fronteira agr&#237;cola que une Maranh&#227;o, Tocantins, Piau&#237; e Bahia em um mesmo territ&#243;rio de avan&#231;o da monocultura, sobretudo de soja. </p><p><strong>MATOPIBA</strong> funciona como uma esp&#233;cie de laborat&#243;rio do extrativismo contempor&#226;neo, onde a convers&#227;o de cerrado em campo agr&#237;cola acontece numa velocidade que deixa o solo mais vulner&#225;vel e as popula&#231;&#245;es mais expostas a deslocamentos, viol&#234;ncia e inseguran&#231;a h&#237;drica. &#201; ali que se v&#234;, de modo concentrado, a promessa vazia de moderniza&#231;&#227;o que chega em forma de veneno a&#233;reo, estradas que rasgam territ&#243;rios e gr&#227;os que deixam o pa&#237;s enquanto a comida falta na mesa das fam&#237;lias da pr&#243;pria regi&#227;o. A cada temporada de colheita, renova-se tamb&#233;m o ciclo de emiss&#245;es que empilha calor na atmosfera.</p><p>S&#243; que h&#225; um outro ponto que raramente aparece nesse debate: quando falamos de &#8220;clima&#8221;, de forma t&#233;cnica e quase cient&#237;fica, afastamos justamente a base da popula&#231;&#227;o que mais deveria estar interessada nesse assunto. O termo clima parece abstrato, algo distante, algo que &#8220;os especialistas resolvem&#8221;, quando na verdade o que est&#225; em jogo &#233; muito concreto. O calor que sentimos hoje &#233; apenas a porta de entrada do problema, o efeito mais vis&#237;vel, o que vem logo adiante &#233; a quebra de safra, e a&#237; a crise deixa de ser uma ideia e vira prato vazio. Sem comida.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://tremeluzente.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/tremeluzente.substack.com/subscribe"><span>Subscreva agora</span></a></p><p><em><strong>Contudo, somos p&#243;s-humanos, j&#225; que vivemos em um planeta esgotado?</strong></em></p><p>A sensa&#231;&#227;o de que vivemos como <em><strong>p&#243;s-humanos</strong></em><strong> </strong>em um <em><strong>p&#243;s-mundo</strong></em> nasce dessa combina&#231;&#227;o: a Terra mudou mais r&#225;pido do que nossa imagina&#231;&#227;o consegue acompanhar, e o sistema que produz essa mudan&#231;a continua funcionando como se nada estivesse acontecendo. &#201; como se estiv&#233;ssemos vivos dentro de um planeta que j&#225; n&#227;o &#233; exatamente o mesmo, mas seguimos agindo como se fosse. O sistema atual j&#225; n&#227;o produz futuro, s&#243; manuten&#231;&#227;o do colapso. Fisher chama isso por <em><strong>realismo capitalista</strong></em>, a ideia de que n&#227;o existe alternativa. &#201; por isso que o &#8220;p&#243;s-mundo&#8221; n&#227;o chega como explos&#227;o, mas como rotina que quer e fazer comum, sentir o calor extremo dos dias, enchentes, ansiedade clim&#225;tica, precariza&#231;&#227;o. Vivemos num mundo onde o sistema &#233; incapaz de resolver as crises que ele mesmo cria, e por isso produz um estado permanente de desgaste. &#201; a sensa&#231;&#227;o de que o futuro foi cancelado para n&#243;s. Um planeta que continua existindo, mas sem horizonte narrativo, onde tudo volta para a linguagem.</p><p>Malcolm X falava algo crucial: <em>&#8220;O futuro pertence &#224;queles que se preparam hoje para ele.&#8221;</em> E, embora sua luta central esteja centrada no racismo estrutural, existe uma costura nesse pensamento que atravessa o debate clim&#225;tico, preparar o futuro &#233; um ato de alegria insistente, quase teimoso, &#233; recusar a morte simb&#243;lica que o sistema oferece. Essa alegria n&#227;o &#233; ing&#234;nua, mas uma forma de recusar a condi&#231;&#227;o sint&#233;tica que o capitalismo imp&#245;e, essa vida onde tudo &#233; acelerado e descart&#225;vel, como lixo. &#201; uma alegria que se torna resist&#234;ncia porque devolve &#224;s pessoas a sensa&#231;&#227;o de que ainda existe um <em><strong>eu vivo</strong></em>, um corpo poss&#237;vel, um mundo toc&#225;vel, algo que Mark Fisher chamaria de reabertura do horizonte, mesmo quando o futuro parece fechado. E essa pequena fresta, quase invis&#237;vel, &#233; pol&#237;tica! &#201; preciso desacelerar o metabolismo do capital: devolver tempo, e tentar construir a partir da destrui&#231;&#227;o j&#225; feita.</p><div><hr></div><p><em><strong>&#8220;Porque permanecer vivo num mundo morto?&#8221;</strong></em></p><p>// Por <strong>Victor N. Silva.</strong></p><p>O discurso j&#225; nos parece como fato inquestion&#225;vel: <em>crise clim&#225;tica</em>, n&#227;o como um futuro admiravelmente pr&#243;ximo e apocal&#237;ptico, mas como na verdade, um paradigma &#8220;civilizat&#243;rio&#8221;, um problema de &#250;ltima quest&#227;o a ser resolvido. A assim chamada crise clim&#225;tica nos parece algo discursivamente paradoxal, algo que ainda est&#225; para acontecer (as suas consequ&#234;ncias inalter&#225;veis para com o planeta), &#233; algo ao mesmo tempo que j&#225; aconteceu faz muito tempo. A era assim chamada do antropoceno, uma era quasi-geol&#243;gica em que se pode dizer que a a&#231;&#227;o humana realizou a&#231;&#245;es significativas no Globo Terrestre.</p><p>  Eu n&#227;o quero discutir sobre a realidade biol&#243;gica desse fato, o que me mais me parece curioso &#233; todo o discurso &#8220;civilizat&#243;rio&#8221; e &#8220;humanit&#225;rio&#8221; que essa discuss&#227;o carrega para si. Um dispositivo gramatical para redistribuir a culpa para toda a humanidade, para cada uma das pessoas vivas no planeta. Como se cada um dos viventes da terra tivesse seu peda&#231;o de culpa. O que n&#227;o &#233; verdade. Sabemos muito bem que um milion&#225;rio com seus voos de jatinho particulares, e seus estilos de vida dispendiosos s&#227;o muito mais negativos para o ambiente do que uma pessoa que pega &#244;nibus todo dia e reutiliza as pr&#243;prias roupas como pano de ch&#227;o.</p><p> Mas ent&#227;o essa pergunta me aparece sempre: <em>porque permanecer vivo num mundo morto</em>, at&#233; ent&#227;o? Bom, como diz <em>James Baldwin (escritor negro)</em> no document&#225;rio gravado com ele em Paris(1975) <strong>&#8220;Porque algu&#233;m desesperado n&#227;o escreve.&#8221;</strong>. O pessimismo &#233; uma categoria totalizante, e tamb&#233;m, paralisante. Se voc&#234; est&#225; t&#227;o certo assim sobre o fim, por que continuas a escrever e viver? existe algo de errado. N&#227;o que eu queira vir aqui falar que vai dar tudo certo e todos vamos ficar bem no final do dia, n&#227;o &#233; bem assim. Nem o pessimismo nem o otimismo me parecem boas categorias porque elas s&#227;o simplificadoras, elas tentam colocar um mundo numa &#250;nica teleologia, num &#250;nico fim. Elas depauperaram o mundo, reduzem a uma coisa achatada. E n&#243;s sabemos que n&#227;o &#233; bem assim. Mesmo se o assim dito fim de mundo nos acomete, que mundo realmente vai acabar? Existem pessoas que vivem nas situa&#231;&#245;es mais adversas, vivem no topo de montanhas, vivem nas mais pacatas ilhas, habitam a beira mar da assim chamada &#8220;civiliza&#231;&#227;o&#8221; e possivelmente sejam eles que sobreviveriam &#224; pr&#243;pria civiliza&#231;&#227;o e suas causas.</p><p> Ent&#227;o eu quero tratar aqui uma quest&#227;o de hist&#243;ria, que me parece muito importante: as necessidades hist&#243;ricas n&#227;o existem a priori, elas s&#243; existem a partir do momento em que &#225;s realizarmos. Realmente prever algo, nos parece incorreto do ponto de vista cient&#237;fico e &#233;tico. O m&#225;ximo que se existe &#233; a ci&#234;ncia das proje&#231;&#245;es estat&#237;sticas.</p><p> O necess&#225;rio s&#243; existe depois do <strong>poss&#237;vel</strong> sair de sua situa&#231;&#227;o de contingente, a partir de um dado capturado e transformado em fato, se torna uma necessidade hist&#243;rica em retrospectiva. Mamdani absolutamente n&#227;o era uma certeza hist&#243;rica nas elei&#231;&#245;es de NY, mas agora, a partir do momento em que ele se elegeu, vai se tornar um fato absolutamente necess&#225;rio para a explica&#231;&#227;o da hist&#243;ria daqui pra frente.</p><p>O poss&#237;vel pode ser entendido como aquilo que &#233; contingente, mas parece realiz&#225;vel atrav&#233;s da a&#231;&#227;o humana. Ou seja, o poss&#237;vel &#233; o campo pol&#237;tico, do realiz&#225;vel.</p><p><em><strong>As necessidades s&#227;o sempre escritas em retrospectiva.</strong></em></p><p> Ent&#227;o precisamos estar abertos &#224;s conting&#234;ncias, otimismo e pessimismo s&#227;o categorias totalizantes, porque reduzem o mundo a certezas, tanto positivas quanto negativas, e o mundo &#233; grande demais para isso.</p><p>N&#227;o precisamos pensar sobre o mundo, precisamos <strong>pensar com o mundo</strong>, pensar <strong>a partir das ru&#237;nas</strong> pensar junto com o problema, vivendo o problema, sem. Sem nenhuma categoria totalizante. Talvez o mundo realmente precise acabar. Enquanto entendermos &#8220;o mundo&#8221; como um s&#243; e mesmo, e n&#227;o em suas diversas experi&#234;ncias e pluralidades. Em suas infinitas descontinuidades e molecularidades, em todas as coisas que fogem o ser poss&#237;vel de ser dito, e o que ainda est&#225; para ser dito.</p><p>Precisamos ainda experimentar o mundo como v&#225;rios mundos, em suas diferen&#231;as est&#233;ticas, &#233;ticas e abstratas.</p><p>Ent&#227;o quando algu&#233;m lhe falar que o mundo vai acabar em breve, pense em retrucar: &#8220;que mundo?&#8221;, talvez sim, algum mundo precise acabar, o mundo em que exista pessoas ganhando trilh&#245;es, enquanto milh&#245;es passam fome ? talvez esse mundo precise realmente acabar. O que precisa acabar &#233; o mundo bin&#225;rio, de categorias totalizantes, enquanto acharmos que os termos &#8220;humanidade&#8221; e &#8220;civiliza&#231;&#227;o&#8221; falam por todos os terrestres, tem algum problema.</p><p>Preciado no seu &#250;ltimo livro chamado &#8220;Dysphoria Mundi&#8221; diz que estamos vivendo em uma transi&#231;&#227;o epistemol&#243;gica na terra, ou seja, estamos numa transi&#231;&#227;o dos velhos modos de pensar, para outros, ainda n&#227;o registrados, ainda sempre por vir. Modos de pensar que n&#227;o v&#227;o ser encontrados em nenhum manual, em nenhuma lei. Aonde os velhos binarismos n&#227;o funcionam mais: seguro, t&#243;xico, dentro, fora, nacional, estrangeiro, vivo, morto, real, virtual, branco, negro, homem, mulher.</p><p>E acima de tudo, precisamos de uma certa &#233;tica uns com os outros, porque como James Baldwin nos lembra: &#8220;Quando voc&#234; olha para a rua, voc&#234; tamb&#233;m est&#225; olhando para voc&#234;&#8221;, ent&#227;o agir desesperadamente &#233; espalhar mais desespero, como agimos e como pensamos afeta os outros ao nosso redor, precisamos pensar que temos certos deveres &#233;ticos uns com os outros.</p><p>Ent&#227;o para concluir, essas 3 coisas me parecem ligadas: o problema discursivo da &#8220;crise clim&#225;tica&#8221;, o problema do pessimismo e do otimismo e o reino do poss&#237;vel, e a &#233;tica que temos uns com os outros. Mas ent&#227;o estamos sempre num problema filos&#243;fico cl&#225;ssico que &#233;: como colocar as quest&#245;es de nosso tempo? Pois as quest&#245;es parecem sempre mal postas, e saber colocar qual exatamente &#233; o problema que estamos passando, me parece um primeiro passo importante.</p><div><hr></div><pre><code>O &#8220;De-vindo&#8221; &#233; um projeto criado pelos amigos Bruna Cabral e Victor Silva, universit&#225;rios nos cursos de letras e sociologia da UFF, que buscam questionar a realidade do mundo atrav&#233;s da l&#237;ngua, dos textos e do discurso. A procura de um espa&#231;o que coubesse uma escrita independente, provocativa e experimental, surge a parceria nos intervalos das aulas de lingu&#237;stica e sociologia econ&#244;mica, em caf&#233;s ao redor do campus.

Afinal, Devindo? O ger&#250;ndio do verbo devir. Portanto, &#8220;devindo&#8221; indica o processo intermin&#225;vel de se tornar ou se transformar em algo. Pensar, agir e transgredir!

Considere apoiar o projeto com o valor de um caf&#233; no campus da faculdade de letras atrav&#233;s do pix ogatonapoesia@gmail.com &#43612; .&#5151;

</code></pre><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://tremeluzente.substack.com/p/de-vindo-7?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Partilhar&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/tremeluzente.substack.com/p/de-vindo-7?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Partilhar</span></a></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://tremeluzente.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/tremeluzente.substack.com/subscribe"><span>Subscreva agora</span></a></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Quincy Jones é o cara : Uma análise do "The Dude"]]></title><description><![CDATA[&#8220;My brother, take me home&#8230; It had an attitude like I&#8217;d never seen before.&#8221;]]></description><link>https://tremeluzente.substack.com/p/quincy-jones-e-o-cara-uma-analise</link><guid isPermaLink="false">https://tremeluzente.substack.com/p/quincy-jones-e-o-cara-uma-analise</guid><pubDate>Sun, 23 Nov 2025 20:02:45 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/4523f8f0-03b5-4870-b306-b2af152a8df7_2500x3333.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Com a obra emblem&#225;tica de Fanizani Akuda, pertencente ao movimento de escultura Shona, conhecida por suas esculturas em pedra, ou ao movimento de resist&#234;ncia e revolta do Zimb&#225;bue contra a coloniza&#231;&#227;o brit&#226;nica, &#8220;The Dude&#8221; retrata um homem de p&#233;, ereto, com o queixo apontado para frente como uma de suas coxas, encarando sem medo o futuro que est&#225; diante. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!24Mm!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5b5a25dd-d568-41a8-89a4-2340f34a33f5_828x844.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!24Mm!, /__u/tremeluzente.substack.com/w_424, /__u/tremeluzente.substack.com/c_limit, /__u/tremeluzente.substack.com/f_webp, /__u/tremeluzente.substack.com/q_auto:good, /__u/tremeluzente.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5b5a25dd-d568-41a8-89a4-2340f34a33f5_828x844.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!24Mm!, /__u/tremeluzente.substack.com/w_848, /__u/tremeluzente.substack.com/c_limit, /__u/tremeluzente.substack.com/f_webp, 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sizes="100vw"><img src="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!24Mm!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5b5a25dd-d568-41a8-89a4-2340f34a33f5_828x844.jpeg" width="322" height="328.22222222222223" 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pr&#243;prio, que exp&#245;e inova&#231;&#245;es de ponta a ponta e est&#225; preocupado com a constru&#231;&#227;o do que est&#225; por vir. Como uma esp&#233;cie de esp&#237;rito filos&#243;fico, a arte revoluciona atrav&#233;s do olhar, e a todo tempo essa parece ser a inten&#231;&#227;o que investe toda essa m&#250;sica.</p><p>Escrever sobre o meu artista preferido sempre ser&#225; uma tarefa &#225;rdua, por n&#227;o saber como come&#231;ar, ou como abordar os in&#250;meros fatos que o tornam imensuravelmente especial e &#250;nico. Quando falo de Quincy Jones, trago na mem&#243;ria a infinita contribui&#231;&#227;o art&#237;stica, e n&#227;o s&#243; musical, que ele traz na pr&#243;pria hist&#243;ria. Mas para desmembrar o<em> The Dude </em>atrav&#233;s de sua espinha dorsal, &#233; preciso entender as refer&#234;ncias que tornam Quincy Jones quem se &#233;. No seu DNA est&#227;o, o jeito sofisticado de montar harmonias vindo do jazz, a disciplina quase cl&#225;ssica junto de uma energia extremamente r&#225;pida, com swing e groove, extra&#237;dos do bebop que marcou sua juventude, juntamente as refer&#234;ncias africanas que est&#227;o explicitadas em cada background negro de suas composi&#231;&#245;es mais bem sucedidas. </p><p>Ele &#233;, antes de tudo, um orquestrador de intelig&#234;ncias alheias, e <em>The Dude</em> &#233; o laborat&#243;rio onde essa habilidade atinge uma precis&#227;o quase matem&#225;tica. Ele pr&#243;prio descreveu o processo como <em>&#8220;criar uma mini cidade musical&#8221;</em>, onde cada m&#250;sico possui um papel e um territ&#243;rio emocional. N&#227;o &#224; toa, nas entrevistas, ele disse que seu trabalho era gerenciar emo&#231;&#245;es e organizar o caos<strong>,</strong> j&#225; que o &#225;lbum inteiro respira essa filosofia. Tecnicamente, Quincy produz em camadas, como se estivesse esculpindo em esbo&#231;os, primeiro criando a espinha dorsal r&#237;tmica, depois sobrepondo essas harmonias, injetando os tons mel&#243;dicos, e por fim, quando necess&#225;rio, permitindo que a voz assuma a forma final deste corpo. </p><iframe class="spotify-wrap" data-attrs="{&quot;image&quot;:&quot;https://i.scdn.co/image/ab67616d0000b27394c75a1bf1c69bb2af35d937&quot;,&quot;title&quot;:&quot;Ai No Corrida&quot;,&quot;subtitle&quot;:&quot;Quincy Jones, Charles May&quot;,&quot;description&quot;:&quot;&quot;,&quot;url&quot;:&quot;https://open.spotify.com/track/0SzAKZYTUvDLqlPgllEb3N&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;noScroll&quot;:false}" src="https://open.spotify.com/embed/track/0SzAKZYTUvDLqlPgllEb3N" frameborder="0" gesture="media" allowfullscreen="true" allow="encrypted-media" data-component-name="Spotify2ToDOM"></iframe><p><em><strong>&#8220;Ai no Corrida&#8221; </strong></em>tem uma naturalidade ic&#244;nica que s&#243; existe por ele antes de ser produtor, maestro, arranjador, mentor ou arquiteto de discos, ser um m&#250;sico de sopro. Isso muda tudo, &#233; um treino para n&#227;o ocupar o centro, mas servir ao conjunto. Em um groove inesquec&#237;vel, a faixa avan&#231;a e recua na propor&#231;&#227;o correta, em uma repeti&#231;&#227;o dan&#231;ante e espirituosa! &#201; uma das minhas coisas preferidas feitas para c&#225;.</p><p>Em <em><strong>&#8220;One Hundred Ways&#8221;</strong></em>, com a voz de James Ingram, percebe-se a m&#227;o de Quincy na condu&#231;&#227;o da din&#226;mica, a entrada tardia de um baixo el&#233;trico que avan&#231;a conforme a letra junto da bateria eletr&#244;nica, e a harmonia aqui &#233; t&#237;pica do vocabul&#225;rio jazz&#237;stico, com progress&#245;es suavizadas por outros acordes, criando um embrulho sentimental&#8230; Ele pr&#243;prio disse que a m&#250;sica precisava soar <em>&#8220;como um abra&#231;o que voc&#234; n&#227;o esquece&#8221;</em>.</p><p><em><strong>&#8220;Just Once&#8221;</strong></em> &#233; outro exemplo do seu perfeccionismo, Quincy regravou a faixa diversas vezes porque &#8220;faltava uma verdade&#8221;, nas palavras dele. A est&#233;tica vocal &#233; guiada por respira&#231;&#245;es longas, e o arranjo se move como um rio cont&#237;nuo, lotado de uma inten&#231;&#227;o emocional que n&#227;o &#233; facilmente esquecida. A constru&#231;&#227;o das pontes prolongadas e a prepara&#231;&#227;o do &#250;ltimo refr&#227;o com um semi sil&#234;ncio, seguidos por um ataque completo da banda, s&#227;o uma marca registrada, ele pensa em <strong>resolu&#231;&#227;o emocional, n&#227;o apenas musical</strong>.</p><p>Quincy j&#225; disse in&#250;meras vezes que &#8220;funk &#233; matem&#225;tica com alma&#8221;, e essa frase nunca fez tanto sentido quanto nesse arranjo, em<strong> </strong><em><strong>&#8220;Razzamatazz&#8221;</strong></em>, o vocabul&#225;rio de Quincy mergulha em um funk charmoso! A guitarra faz aqueles toques curtinhos e r&#225;pidos, quase como belisc&#245;es nas cordas, e os metais entram curtos e bem marcados. Quincy usa esses sons n&#227;o para encher a m&#250;sica, mas para abrir espa&#231;o para respira&#231;&#227;o, &#233; como se ele abrisse as janelas de um quarto abafado para o ar circular, e funciona perfeitamente!</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!U4_Z!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8c59853c-2722-4b2a-a2ee-04d249bd8b3d_4032x2927.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!U4_Z!, /__u/tremeluzente.substack.com/w_424, /__u/tremeluzente.substack.com/c_limit, /__u/tremeluzente.substack.com/f_webp, /__u/tremeluzente.substack.com/q_auto:good, 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O homem da capa, aquela figura de Fanizani Akuda, est&#225; andando, inclinado para a frente, como quem mira o amanh&#227; sem esquecer do que o trouxe at&#233; aqui. E &#233; exatamente isso que o &#225;lbum faz, ele caminha com o p&#233; firme no jazz, no sopro, no ritmo que formou Quincy como m&#250;sico, mas avan&#231;a para um som moderno, limpo, ousado, cheio de eletricidade nova! </p><p>O homem de madeira anda porque Quincy anda.<br>As faixas se movem porque Quincy move o tempo.<br>&#201; como se a escultura fosse o retrato perfeito do que o &#225;lbum realmente &#233;,<br>um corpo que segue em frente, guiado pela mem&#243;ria, impulsionado pela inven&#231;&#227;o, vivo o bastante para criar seus pr&#243;prios caminhos.</p><p>No fim, <em><strong>The Dude</strong></em> &#233; isso, um futuro que n&#227;o rompe com o passado, mas o leva pela m&#227;o. E Quincy Jones, como sempre, &#233; quem abre a marcha.</p><div><hr></div><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://tremeluzente.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigada por ler! Pense em se inscrever para receber Jazz, De-Vindo e cr&#244;nicas.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p><em>Considere apoiar o projeto com o valor de um caf&#233; no campus da faculdade de letras atrav&#233;s do pix <strong>ogatonapoesia@gmail.com &#43612; .&#5151;</strong></em></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[É preciso respirar com as palavras.]]></title><description><![CDATA[Uma s&#233;rie de afli&#231;&#245;es, medita&#231;&#245;es e constrangimentos!]]></description><link>https://tremeluzente.substack.com/p/e-preciso-respirar-com-as-palavras</link><guid isPermaLink="false">https://tremeluzente.substack.com/p/e-preciso-respirar-com-as-palavras</guid><dc:creator><![CDATA[briony.]]></dc:creator><pubDate>Thu, 06 Nov 2025 16:40:20 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!osom!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8c7d21af-4af8-453a-ac5c-b3017f04e1c9_3954x2669.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Oi leitor, voc&#234; provavelmente conhece o tremeluzente gra&#231;as a vers&#227;o mais recente e empombada, com textos sobre filosofia, linguagem e sociologia, ou porque viu algo relacionado ao jazz que eu e meus amigos divulgamos. &#201; verdade, sim, este &#233; um espa&#231;o para todas essas coisas, filosofia, linguagem, jazz e pol&#237;tica, mas esse lugar nasce, sobretudo, do esfor&#231;o inenarr&#225;vel de conquistar algum tipo de autoria para os gostos que sempre transbordaram em mim - Bruna, Briony, quase nunca Bru, por algum motivo, meus mais chegados nunca me chamaram assim, o que para um nome comum chega a ser ir&#244;nico, n&#227;o? Tanto faz.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://tremeluzente.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/tremeluzente.substack.com/subscribe"><span>Subscreva agora</span></a></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!osom!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8c7d21af-4af8-453a-ac5c-b3017f04e1c9_3954x2669.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!osom!, /__u/tremeluzente.substack.com/w_424, /__u/tremeluzente.substack.com/c_limit, /__u/tremeluzente.substack.com/f_webp, /__u/tremeluzente.substack.com/q_auto:good, 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Ou melhor, eu n&#227;o tenho querido entrar em contato com toda profundidade dos meus sentimentos mais leg&#237;timos em rela&#231;&#227;o a mim mesma, o que abre um abismo nessa intimidade, ou na proposta que a princ&#237;pio enrolava pessoas estranhas e trazia para perto de mim. Talvez n&#227;o de mim, mas do narrador que se apropria das minhas hist&#243;rias e as ilustra para se tornarem textos. Acho que todos n&#243;s guardamos dentro um ilustrador, de qualquer idade, que est&#225; pronto para colorir e animar os fatos mais aleat&#243;rios da pr&#243;pria rotina. Afinal, as coisas n&#227;o s&#227;o t&#227;o encantadoras quanto parecem, a n&#227;o ser as extraordin&#225;rias, e essas ocorrem com intervalos gostosos de assimila&#231;&#227;o. Mas o ilustrador dentro de n&#243;s consegue dar cor a qualquer ocorrido, e a&#237;, a datil&#243;grafa dita, e torna esse emaranhado de palavras desencontradas da emo&#231;&#227;o, um texto, uma cr&#244;nica, um poema, ou um hibrisdismo&#8230; tremeluzente!</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://tremeluzente.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler TREMELUZENTE! 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Meu corpo sente mais quando escrevo, assim como ou&#231;o e agu&#231;o todos os meus outros sentidos apagados, porque para mim escrever &#233; convocar os sentidos. Estive numa luta di&#225;ria sobre como afogar uma desilus&#227;o amorosa (maior besteira poss&#237;vel) e sobre como anestesiar as dores de conviver com o c&#226;ncer de algu&#233;m t&#227;o, mas t&#227;o pr&#243;ximo a mim. Aprendi mais uma vez, como num dil&#250;vio que machuca a carne quando desprende do c&#233;u, que n&#227;o h&#225; maneira de fugir de nada! A apatia n&#227;o &#233; uma op&#231;&#227;o, n&#227;o s&#243; por ser covarde, mas por cansar apostar maratonas injustas contra si pr&#243;prio. &#201; desvantagem, a gente j&#225; queima a largada perdendo, sem aquele oxig&#234;nio todo nos pulm&#245;es, porque estamos asfixiando nossa pr&#243;pria mem&#243;ria, linguagem e todo resto.</p><p>Se trair &#233; horr&#237;vel.</p><p>&#201; o &#243;bvio, mas tem que deixar tudo acontecer! </p><p>Sa&#237; correndo da casa da minha amiga Mariana com apenas um guarda-chuva quebrado, debaixo dele est&#225;vamos eu e Sofia, correndo pro uber depois de uma ladeira, nenhuma das duas a salvo dos pingos grossos. Nas canelas? Lama at&#233; o in&#237;cio das minhas meias, os t&#234;nis escorregadios, o risco de abrir algumas feridas nos joelhos descobertos, a burrice dos bra&#231;os entrela&#231;ados, mas &#233; assim&#8230; a corrida continuava, a chuva tamb&#233;m, o aparelho acima de n&#243;s servia apenas de conforto para qualquer outra pessoa que nos visse na chuva e n&#227;o risse pensando &#8220;essas a&#237;, t&#227;o fodidas, sem guarda-chuva&#8230; na chuva.&#8221; </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!oS2S!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F67f3c73f-c1fc-43a4-8247-5a8e80e6425a_3024x2758.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!oS2S!, /__u/tremeluzente.substack.com/w_424, 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Com ou sem o guarda-chuva aqueles pingos estavam na nossa pele, e depois disso, tive uma crise de tosse de uma gripe mal curada. Tive febre. Me fodi. </p><p>Ainda bem que as palavras escritas tamb&#233;m n&#227;o saem fanhas, imagina s&#243; um texto gribado, nuba newsletter imbortante, saindo assim, buito bal? (Atchim!)</p><p>Acho que est&#225; na hora de me despedir de voc&#234;s, o balan&#231;o geral da semana inteirinha foi pessimista. Ent&#227;o me sinto uma esp&#233;cie diferente de hip&#243;crita quando venho escrever todo esse quebra-cabe&#231;as otimista. Cada amigo que encontrei partilhou de um momento de desgra&#231;a diferente, sabe? Fui pegar meu t&#234;nis 40, e veio um 39 na caixa de encomenda, da&#237; o maior processo de troca, chato,  mais dor de cabe&#231;a. Esqueci que tinha prova de libras depois do meu est&#225;gio e a &#250;nica coisa que eu sabia dizer com as minhas m&#227;os era o meu nome, muito malzinho, mesmo. Pedi um caf&#233; e me cobraram a menos, minha amiga nada mesquinha quis pagar a conta exata, l&#225; se foram setenta paus! E por fim, peguei mais um temporal na sa&#237;da do meu campus, desta vez, sem nem ter o maldito guarda-chuva. Lembrei dessa tese a&#237;, de que talvez ele nem funcionasse tanto assim, e parti rua adentro.</p><p>Sigo na gribe, mas feliz por existir a chuva.</p><div><hr></div><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://tremeluzente.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler TREMELUZENTE! 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Pensando a Bruxa &#224; brasileira.]]></description><link>https://tremeluzente.substack.com/p/de-vindo-6</link><guid isPermaLink="false">https://tremeluzente.substack.com/p/de-vindo-6</guid><dc:creator><![CDATA[briony.]]></dc:creator><pubDate>Wed, 29 Oct 2025 20:23:15 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/1bfb79fc-3c8e-4899-912e-ba8219320777_1456x1048.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong>A bruxa como signo : Entre feiti&#231;o e fetichismo do capital.</strong></p><p>// Por <strong>Bruna Cabral.</strong></p><p>A imagem da bruxa, tal como cristalizada nos s&#233;culos de ca&#231;a e fogo, n&#227;o &#233; apenas um fantasma religioso ou um del&#237;rio da supersti&#231;&#227;o patriarcal, ela &#233;, sobretudo, uma categoria pol&#237;tica. Sob a apar&#234;ncia do irracional, do monstruoso e do demon&#237;aco, a bruxa esconde, ou melhor, revela as tens&#245;es materiais que marcam o nascimento do capitalismo. &#8220;Ca&#231;a &#224;s bruxas&#8221;, &#8220;a bruxa est&#225; solta&#8221;, &#8220;parece uma bruxa&#8221;, s&#227;o apenas alguns dos exemplos conhecidos no campo sem&#226;ntico-lingu&#237;stico do portugu&#234;s que provam que a bruxa sempre esteve solta. A bruxa sempre esteve tamb&#233;m ao nosso redor, desde a inf&#226;ncia, brincando e criando express&#245;es atrav&#233;s da transgress&#227;o, j&#225; que &#233; no espa&#231;o sem vergonhas ou amarras que mora a bruxa coletiva!</p><p>Ainda analisando &#8220;a bruxa est&#225; solta&#8221; soa como alerta, mas tamb&#233;m como press&#225;gio de movimento. A palavra vibra entre o perigo e a liberta&#231;&#227;o. &#201; isso que a torna t&#227;o potente, n&#227;o &#233; apenas um r&#243;tulo, mas uma opera&#231;&#227;o simb&#243;lica, uma ferramenta de controle e, paradoxalmente, um instrumento de cria&#231;&#227;o.</p><p>Para Zaffaroni, jurista e crimin&#243;logo argentino, a sociedade moderna mant&#233;m viva a mesma l&#243;gica da fogueira: precisa identificar inimigos, fabricar culpados e manter viva a fantasia da pureza social. A bruxa, nesse sentido, &#233; a figura inaugural daquilo que o direito penal depois p&#244;s em discursos de ordem e moralidade. Onde h&#225; medo, h&#225; puni&#231;&#227;o. Na Idade M&#233;dia a fogueira n&#227;o queimava o mal em si, mas a proje&#231;&#227;o do medo social. Em cita&#231;&#227;o direta &#224; Mark Fisher, tratando da l&#243;gica do realismo capitalista (2009), compreendemos como essa figura foi, posteriormente, recodificada e esvaziada em narrativas que domesticam sua amea&#231;a. O sistema, como Fisher denuncia, n&#227;o apenas reprime o passado revolucion&#225;rio, mas o captura, estetiza e o converte em mercadoria cultural. Assim, a bruxa se torna mero personagem de fantasia, cosplay em feiras geeks ou fetiche, integrada &#224; l&#243;gica de consumo que apaga seu poder hist&#243;rico. A feiti&#231;aria vira nicho de mercado, e os s&#237;mbolos, como pentagrama, um emoji para bigtechs. A aura de desobedi&#234;ncia quase permanece, mas desconectada da luta de classes, como se fosse poss&#237;vel celebrar a bruxa sem enfrentar o fogo que sempre a queimou.</p><p>Em Shakespeare, h&#225; uma figura que habita esse intervalo com uma for&#231;a quase esquecida: <strong>Sycorax</strong>, a bruxa ausente de <em>A Tempestade</em>. Ela nunca aparece em cena, mas a sua sombra governa a ilha mais do que o pr&#243;prio Pr&#243;spero. &#201; descrita como &#8220;a bruxa argelina&#8221;, banida por seus saberes e confinada a margem da narrativa, no entanto, tudo ali ainda acontece com o vest&#237;gio do seu poder. Shakespeare,sem saber plenamente, inscreveu nela uma gram&#225;tica de resist&#234;ncia. Tanto pela nacionalidade quanto pelo papel designado, Sycorax, entre ninfas e escravos, reside no texto shakespeariano com uma conduta de desvio, livre para ter seu pr&#243;prio excurso dentro da gram&#225;tica comum. Ela seria o que H&#233;l&#232;ne Cixous e Judith Butler chamariam, cada uma a sua pr&#243;pria maneira, de <em><strong>corpo dissidente da linguagem</strong>.</em> Em Cixous, Sycorax encarna a<strong> </strong><em><strong>&#233;criture f&#233;minine</strong></em>: uma escrita que emerge do corpo, pulsante, fragment&#225;ria, que desafia a linearidade masculina da fala e da lei. Em Butler, a mesma for&#231;a assume a forma de uma <strong>p</strong><em><strong>erformatividade subversiva</strong></em>, o gesto que desmonta as categorias de g&#234;nero, ra&#231;a e poder pela repeti&#231;&#227;o desviada dos signos. Sycorax n&#227;o conjura feiti&#231;os, ela encarna a pr&#243;pria feiti&#231;aria lingu&#237;stica: o poder de criar realidades fora do discurso permitido.</p><p>E se ainda hoje dizemos com certo receio que &#8220;a bruxa est&#225; solta&#8221;, talvez o que realmente estejamos dizendo, sem saber, &#233; que a linguagem, enfim, come&#231;ou a escapar do controle. Ra-tim-bum!</p><div><hr></div><p><strong>Por que as bruxas em Harry Potter n&#227;o foram queimadas?</strong></p><p>// Por <strong>Victor Silva.</strong></p><p>&#201; uma pergunta que todo Halloween me retorna. Parece existir um abismo entre as representa&#231;&#245;es de bruxas em Harry Potter e das bruxas pag&#227;s, as que foram perseguidas pela ca&#231;as &#224;s bruxas. E podemos trabalhar em diversas diferen&#231;as, e diversos motivos para qual essa diferen&#231;a existe.</p><p>Poder&#237;amos come&#231;ar analisando a estrutura da obra de Harry Potter, ou pelo o que conhecemos das pr&#225;ticas das bruxas. Se fossemos come&#231;ar olhando por <em>Harry Potter</em>, j&#225; ver&#237;amos uma diferen&#231;a <strong>clara. </strong>A escola, sim. Uma escola para bruxos, com salas de aula, turmas gradativas, diretor e tudo mais. Todo um sistema hier&#225;rquico de aprendizagem assim como vemos no nosso mundo &#8211; capitalista. Na verdade, olhando por esse aspecto, o mundo de HP n&#227;o parece t&#227;o m&#225;gico, a pr&#225;tica de magia &#233; estritamente controlada, guardada a sete chaves, e isolada do mundo. Literalmente encastelada. Na verdade, o mundo m&#225;gico de Harry Potter parece um espelho m&#225;gico do nosso mundo, n&#227;o como o que poder&#237;amos chamar de realismo m&#225;gico, mas pelo contr&#225;rio, um magicismo realista. As estruturas de poder do nosso mundo parecem reproduzidas numa escala de 1x1 para o mundo de HP.</p><p>E se fossemos falar do mundo das bruxas pag&#227;s, ou neopag&#227;s, come&#231;amos nos situando nesse pensamento. Usando algumas autoras como <em>Carolina Scartezini (Ritual para corporreativa&#231;&#227;o. 2019)</em>, <em>Isabelle Stengers (Reativar o animismo. 2017)</em>, <em>Silvia Federici (Calib&#227; e a Bruxa. 2017). </em>Autoras essas plurais n&#227;o s&#243; geograficamente, mas como bibliograficamente. O que podemos dizer atrav&#233;s desse atravessamento bibliogr&#225;fico &#233; o que podemos chamar de &#8216;bruxas&#8217;, &#8216;pag&#227;s&#8217;, &#8216;animistas&#8217; na real possuem um conjunto de pr&#225;ticas e cren&#231;as nas palavras e nas coisas muito parecidas. S&#227;o pr&#225;ticas de reativa&#231;&#227;o, pr&#225;ticas de cura, pr&#225;ticas de mem&#243;ria, fazer pontes, no geral: produzir rizomas que em si s&#227;o pass&#237;veis de produzir outras pr&#225;ticas e conex&#245;es.</p><blockquote><p><em>E tanto na poesia, quanto na bruxaria, o mundo n&#227;o &#233; uma abstra&#231;&#227;o &#8211;</em></p><p><em>muito pelo contr&#225;rio! O mundo &#233; feito de muitos seres e palavras, muitos corpos que pulsam, vibram, respiram, desejam, fluem, permanecem, se desfazem, ficam e passam na dan&#231;a c&#243;smica do encanto (MEIRELES, 1982). </em><strong>(SCARTEZINI, 2019).</strong></p></blockquote><p>Na verdade &#233; exatamente esse mundo animado, acredit&#225;vel, vivido, compartilhado que fez as pr&#225;ticas feministas &#8211; as assim chamadas bruxas &#8211; serem perseguidas:</p><blockquote><p><em>Ainda que a acusa&#231;&#227;o de bruxaria fosse dirigida a uma grande variedade de pr&#225;ticas femininas, foi especialmente contra as curandeiras, parteiras, feiticeiras e adivinhas que ela agia (tamb&#233;m eram acusadas as &#8220;esposas desobedientes&#8221; e as mulheres de vida sexual livre). As pr&#225;ticas de magia eram uma fonte de poder e por isso fragilizavam o poder das autoridades. A feiti&#231;aria e as experi&#234;ncias de cura tamb&#233;m infundiam confian&#231;a sobre a capacidade dos mais pobres de manipular a natureza e fortalecer seus v&#237;nculos. As fogueiras e torturas pretendiam queimar todo um modo de vida.</em></p><p><em>(<a href="https://quatrocincoum.com.br/resenhas/historia/a-caca-as-bruxas/">https://quatrocincoum.com.br/resenhas/historia/a-caca-as-bruxas/</a>)</em></p></blockquote><p>Isso nos parece exatamente o contr&#225;rio do universo de Harry Potter, um universo em que a magia &#233; hier&#225;rquica, como uma &#225;rvore, e n&#227;o como rizomas. Talvez isso explique o sucesso comercial de Harry Potter: ele n&#227;o amea&#231;a nosso estilo de vida, muito pelo contr&#225;rio, se parece um mundo muito plaus&#237;vel e desej&#225;vel. Um mundo m&#225;gico; mas com regras, restri&#231;&#245;es, professores e diretores. O universo de Harry Potter n&#227;o conversa nem um pouco com as pr&#225;ticas pag&#227;s e animistas. Pr&#225;ticas que foram perseguidas, e ainda s&#227;o, ao redor do mundo por desafiarem o poder, e os modos de reprodu&#231;&#227;o de poder. Porque em um mundo de pr&#225;ticas de cura, pr&#225;ticas coletivas de rituais e mem&#243;rias n&#227;o abre espa&#231;o para o individualismo, para o atomismo, para a propriedade privada, para um racionalismo que beira o solipsismo.</p><blockquote><p><em>Reativar significa recuperar e, neste caso, recuperar a capacidade de honrar a experi&#234;ncia, toda experi&#234;ncia que nos importa, n&#227;o como &#8220;nossa&#8221;, mas sim como experi&#234;ncia que nos &#8220;anima&#8221;, que nos faz testemunhar o que n&#227;o somos n&#243;s. Ainda que reativar n&#227;o possa ser reduzido &#224; frui&#231;&#227;o de uma ideia, certas ideias podem aprofundar esse processo &#8211; e proteg&#234;-lo de uma &#8220;desmistifica&#231;&#227;o&#8221; sob a forma de uma ilus&#227;o fetichista. </em><strong>(STENGERS. 2017)</strong></p></blockquote><p>O que precisamos &#233; reativar nossas pr&#225;ticas para com o mundo, com o nosso meio. Fazer pontes, para Stengers, &#233; uma atividade de localiza&#231;&#227;o, porque ao fazer uma ponte, eu localizo onde eu estou e fa&#231;o um caminho para onde voc&#234; est&#225;. Se trata assim, dos agenciamentos:</p><blockquote><p><em>N&#227;o se trata de eu existir primeiro e depois adentrar os agenciamentos. Pelo contr&#225;rio, minha exist&#234;ncia &#233; minha pr&#243;pria participa&#231;&#227;o nos agenciamentos, pois n&#227;o sou a mesma pessoa quando escrevo e quando me pergunto sobre a efic&#225;cia de um texto depois de ele ser escrito. N&#227;o sou dotada de ag&#234;ncia ou inten&#231;&#227;o. Em vez disso, a ag&#234;ncia &#8211; ou o que Deleuze e Guattari chamam de &#8220;desejo&#8221; &#8211; pertence ao agenciamento em si, incluindo aqueles agenciamentos muito particulares, chamados de &#8220;agenciamentos reflexivos&#8221;, que produzem uma experi&#234;ncia de desapego, o prazer de criticamente colocar &#224; prova experi&#234;ncias anteriores para identificar o que &#8220;realmente&#8221; &#233; respons&#225;vel pelo qu&#234;. Outra palavra para designar esse tipo de ag&#234;ncia que n&#227;o nos pertence &#233; anima&#231;&#227;o. </em><strong>(ibid).</strong></p></blockquote><p>Mas se trata acima de tudo de prud&#234;ncia e responsabilidade, n&#227;o &#233; s&#243; porque se tira a ag&#234;ncia do sujeito, que se tire o sujeito da jogada, ou melhor, que n&#227;o se tenha algu&#233;m para que se possa responsabilizar. Se trata de simplesmente voltar a ter rela&#231;&#245;es com o meio, com os desejos que nos moldam, reconhecer esses afetos da nossa vida, e da singularidade dos acontecimentos. Pensar com o meio, com o mundo. Essa &#233; a bruxaria.</p><div><hr></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://tremeluzente.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/tremeluzente.substack.com/subscribe"><span>Subscreva agora</span></a></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://tremeluzente.substack.com/p/de-vindo-6?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Partilhar&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/tremeluzente.substack.com/p/de-vindo-6?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Partilhar</span></a></p><blockquote><p>O <em><strong>&#8220;De-vindo&#8221;</strong></em> &#233; um projeto criado pelos amigos Bruna Cabral e Victor Silva, universit&#225;rios nos cursos de letras e sociologia da UFF, que buscam questionar a realidade do mundo atrav&#233;s da l&#237;ngua, dos textos e do discurso. A procura de um espa&#231;o que coubesse uma escrita independente, provocativa e experimental, surge a parceria nos intervalos das aulas de lingu&#237;stica e sociologia econ&#244;mica, em caf&#233;s ao redor do campus.</p><p>Afinal, Devindo? O ger&#250;ndio do verbo <em>devir. </em>Portanto, &#8220;devindo&#8221; indica o processo intermin&#225;vel de se tornar ou se transformar em algo. Pensar, agir e transgredir!</p><p><em>Considere apoiar o projeto com o valor de um caf&#233; no campus da faculdade de letras atrav&#233;s do pix <strong>ogatonapoesia@gmail.com &#43612; .&#5151;</strong></em></p></blockquote>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[ A linguagem de Thelonius Monk.]]></title><description><![CDATA[Entre pe&#231;as derrubadas e empilhadas se abriga o melhor pianista de jazz!]]></description><link>https://tremeluzente.substack.com/p/a-linguagem-de-thelonius-monk</link><guid isPermaLink="false">https://tremeluzente.substack.com/p/a-linguagem-de-thelonius-monk</guid><dc:creator><![CDATA[briony.]]></dc:creator><pubDate>Thu, 16 Oct 2025 21:01:05 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/13463274-262a-4c12-81de-700c02d14ec6_2493x3320.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Monk tem uma caracter&#237;stica un&#226;nime, que significa romper com as obviedades para atravess&#225;-las, sua m&#250;sica n&#227;o &#233; apenas transgressora, mas realmente inovadora, ela n&#227;o nasce da ruptura pelo esc&#226;ndalo, mas da paci&#234;ncia em desmontar o &#243;bvio at&#233; que se torne outra coisa. Quando comp&#244;s<em> <strong>&#8220;Round Midnight&#8221;</strong> </em>(1944), ainda antes da consagra&#231;&#227;o do bebop, ningu&#233;m estava preparado para aquele tipo de melancolia angulosa, uma balada de harmonias quebradas e intervalos que pareciam desafiar o pr&#243;prio ouvido. Ou quando lan&#231;ou <em><strong>&#8220;Epistrophy&#8221;</strong> </em>e<em> <strong>&#8220;Off Minor&#8221;</strong></em>, no &#225;lbum <em>Genius of Modern Music</em> (1947), onde as estruturas tradicionais do jazz pareciam se dissolver em blocos dissonantes e cubistas, Monk n&#227;o improvisava sobre acordes, pense numa constru&#231;&#227;o de legos, ele gostava mesmo era de desmontar a coisa toda! Boom.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://tremeluzente.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/tremeluzente.substack.com/subscribe"><span>Subscreva agora</span></a></p><p>Ao chegar &#224; fase de <em>Solo Monk</em> (1965) e <em>Underground</em> (1968), Monk j&#225; havia solidificado sua linguagem, e passado por mil e um aparatos de composi&#231;&#227;o, mas o jogo de empilhar acordes, deslocar acentos e desmontar melodias continuava l&#225;, agora mais consciente, mais arquitet&#244;nico. Nosso construtor sai das pe&#231;as l&#250;dicas e trabalha com materiais que seriam referenciais para todos os que viriam depois. &#201; sempre interessante para mim, graduanda em letras, e infinitamente interessada por lingu&#237;stica, pensar a linguagem dentro da arte de algu&#233;m! Quando ou&#231;o os &#225;lbuns mais maduros de Monk, enxergo o que <em>Jacques Derrida </em>diria ser <em><strong>&#8220;une &#233;criture qui s&#8217;invente &#224; mesure qu&#8217;elle s&#8217;&#233;crit&#8221;</strong></em>, ou uma escrita que se inventa enquanto se faz, j&#225; que Monk n&#227;o parte de um idioma dado&#8230; Ele o reconstruia artesanalmente, dobrando o som sobre si mesmo, e desfazendo fronteiras antes estabelecidas.</p><p>O Jazz &#233; uma linguagem autogerada, ele nasce do atrito, do gesto de rasurar a pr&#243;pria tradi&#231;&#227;o. Enquanto os pianistas brancos do p&#243;s-guerra, como Bill Evans, exploravam a harmonia impressionista de Debussy ou Ravel, buscando uma est&#233;tica et&#233;rea, esterilizada e recortada, Monk fazia o gesto inverso! Reintroduzindo o corpo e a hist&#243;ria no piano: a batida seca, suas pausas, os intervalos abertos e os acordes vinham de outras ra&#237;zes&#8230; como as ra&#237;zes do blues e da percussividade africana que o jazz sempre tentou domesticar para ser aceito nos sal&#245;es brancos.</p><p>A faixa<em> <strong>&#8220;Ruby, My Dear&#8221;</strong></em><strong> </strong>do &#8220;Solo Monk&#8221; (1964) &#233; t&#227;o instigante e inebriante como a popular&#237;ssima<em> <strong>&#8220;I Surrender, Dear&#8221; </strong></em>mais conhecida na vers&#227;o de Bing Crosby, que a gravou em 1931, pouco depois de a m&#250;sica ser composta por Harry Barris, que est&#225; duas posi&#231;&#245;es acima no mesmo &#225;lbum. Aqui elas s&#227;o conduzidas por uma esp&#233;cie de fio dourado que une suas melodias numa sinestesia especial, Thelonius se apropria do popular para dar sua pr&#243;pria cartada, e faz dos dedos r&#237;gidos e compridos a formaliza&#231;&#227;o de uma cascata para essas teclas. Em &#8220;<em><strong>Ruby&#8221;</strong></em> a melodia &#233; contida, e quase afetiva, apesar de n&#227;o demorar para sermos inseridos naquelas disson&#226;ncias que s&#243; ele sabia fazer parecerem comuns. &#201; uma m&#250;sica envolta na melodia de um amor sem idealiza&#231;&#227;o, uma ternura que range, onde o amor se torna atrito. A m&#227;o esquerda, pesada, insiste num pulso que quase se desfaz, enquanto a direita flutua entre as oitavas, criando espa&#231;os de sil&#234;ncio que valem tanto quanto o som! A partir do minuto <em>3:35</em> as teclas mais graves soam mais pesadas em contram&#227;o do in&#237;cio, ele parece saber exatamente o que diz. &#201; genial! Me emociona todas as vezes que ou&#231;o, n&#227;o passa despercebido, assim como a acelera&#231;&#227;o que infesta a melodia pouco tempo depois, a desdobrando no minuto <em>5:00</em>, onde estamos indo para a reta final&#8230; dourado e tamborilante.</p><iframe class="spotify-wrap" data-attrs="{&quot;image&quot;:&quot;https://i.scdn.co/image/ab67616d0000b273bd7d4673627a7674f0103c1d&quot;,&quot;title&quot;:&quot;Ruby, My Dear&quot;,&quot;subtitle&quot;:&quot;Thelonious Monk&quot;,&quot;description&quot;:&quot;&quot;,&quot;url&quot;:&quot;https://open.spotify.com/track/1So7aONfuUZ8PPbhG97hPo&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;noScroll&quot;:false}" src="https://open.spotify.com/embed/track/1So7aONfuUZ8PPbhG97hPo" frameborder="0" gesture="media" allowfullscreen="true" allow="encrypted-media" data-component-name="Spotify2ToDOM"></iframe><p>Agora pulamos para alguns anos depois, estamos no &#225;lbum de capa mais emblem&#225;tica de Monk, o <em><strong>&#8220;Underground&#8221; </strong></em>(1968) o define como um dos maiores m&#250;sicos de todos os tempos. <em>&#8220;Green Chimneys&#8221;</em> (chamin&#233;s verdes) &#233; uma das faixas que melhor sintetizam o Monk maduro, um tema aparentemente simples que se revela complexo e imprevis&#237;vel! Jazzing. O quarteto &#233; formado por Thelonious Monk no piano, Charlie Rouse no saxofone, Larry Gales no contrabaixo e Ben Riley na bateria, e cada instrumento contribui para a arquitetura sonora da pe&#231;a. Desde o primeiro ataque de piano, o ouvinte percebe a tens&#227;o entre regularidade e ruptura, &#233; eletrizante e noir! Como poderia ser a narrativa cativante de um filme do Billy Wilder, como <em><strong>Double Indemnity</strong></em><strong> </strong>ou <em><strong>Sunset Boulevard. </strong></em>&#201; como me sinto perseguindo o contrabaixo localizado do lado esquerdo do meu ouvido, gradualmente separado da homogeneidade que o piano leva com a percuss&#227;o da bateria, e um saxofone grilado, bonito, que contorna esses instantes de reviravoltas. &#201; uma das minhas m&#250;sicas preferidas daqui, porque traz tudo, e o fim &#233; espirituoso, alegre, mas contrabalanceia as emo&#231;&#245;es dos nove minutos&#8230;</p><p>E os dedos tamborilam, preludiando o fim que chega em tr&#234;s segundos divinos.</p><div id="youtube2-10cYHU9j31Q" class="youtube-wrap" data-attrs="{&quot;videoId&quot;:&quot;10cYHU9j31Q&quot;,&quot;startTime&quot;:null,&quot;endTime&quot;:null}" data-component-name="Youtube2ToDOM"><div class="youtube-inner"><iframe src="https://www.youtube-nocookie.com/embed/10cYHU9j31Q?rel=0&amp;autoplay=0&amp;showinfo=0&amp;enablejsapi=0" frameborder="0" loading="lazy" gesture="media" allow="autoplay; fullscreen" allowautoplay="true" allowfullscreen="true" width="728" height="409"></iframe></div></div><p></p><div><hr></div><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://tremeluzente.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigada por ler! Pense em se inscrever para receber Jazz, De-Vindo e cr&#244;nicas.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://tremeluzente.substack.com/p/a-linguagem-de-thelonius-monk?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Partilhar&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/tremeluzente.substack.com/p/a-linguagem-de-thelonius-monk?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Partilhar</span></a></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://tremeluzente.substack.com/p/a-linguagem-de-thelonius-monk/comments&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Deixe um coment&#225;rio&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/tremeluzente.substack.com/p/a-linguagem-de-thelonius-monk/comments"><span>Deixe um coment&#225;rio</span></a></p><p><em>Considere apoiar o projeto com o valor de um caf&#233; no campus da faculdade de letras atrav&#233;s do pix <strong>ogatonapoesia@gmail.com &#43612; .&#5151;</strong></em></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[De-vindo #5]]></title><description><![CDATA[Brasil, ver&#225;s que um filho teu nao foge &#224; luta!]]></description><link>https://tremeluzente.substack.com/p/de-vindo-5</link><guid isPermaLink="false">https://tremeluzente.substack.com/p/de-vindo-5</guid><dc:creator><![CDATA[briony.]]></dc:creator><pubDate>Mon, 29 Sep 2025 21:46:39 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/725b3b87-9026-420a-89ab-a8be6c944d0c_1456x1048.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong>O Brasil entre Brasis </strong><em><strong>against Brazil.</strong></em></p><p>// Por <strong>Bruna Cabral.</strong></p><p>Esse texto n&#227;o visa se encarregar de todas as feridas hist&#243;ricas desse mulato inconfidente e inzoneiro, como diz a <em>Aquarela do Brasil, </em>ainda mais estridente na voz de Gal. Nossa biografia coletiva insiste no otimismo, quase supersticioso, de que &#8220;vai melhorar&#8221;: entre 2018 e 2023, pesquisas do Datafolha mostram que uma maioria consistente dos brasileiros manteve expectativas positivas para o ano seguinte, variando entre 60% e 68%. Esse otimismo repetitivo &#233; sintoma, e n&#227;o virtude, ele prova que a democracia brasileira vive paralisada num transe de espera que nunca chega. Enquanto isso, congressistas e senadores, animais pol&#237;ticos engravatados, lambuzam a boca no sangue de um Brasil est&#225;tico. Em <em>&#8220;Como as Democracias Caem&#8221; </em>Levitsky e Ziblatt observam um comportamento parecido com &#8220;<em>O Queijo e os Vermes&#8221;</em> de Carlo Ginzburg. Unindo os dois ingredientes, com uma crescente de extrema-direita, alimentada pelo fundamentalismo religioso no panorama nacional, temos uma esp&#233;cie de<em> Queda da Bastilha</em> ao rev&#233;s. Aqui, no Brasil, s&#227;o os engravatados que roem o tecido pol&#237;tico-democr&#225;tico dessa constru&#231;&#227;o, fisiologicamente, n&#227;o os mortos pela fome.</p><p>O mito de cria&#231;&#227;o de uma <em>na&#231;&#227;o macuna&#237;ma </em>j&#225; previa os conflitos que seriam arrastados em mais s&#233;culos de explora&#231;&#227;o, um protagonista que personifica a nega&#231;&#227;o do her&#243;i, sem car&#225;ter fixo, talhado diante dos retalhos mesti&#231;os, contradit&#243;rios e inst&#225;veis, mas conservando algum ritmo e cor. S&#233;rgio Buarque de Holanda reitera o espelho deformado, o brasileiro n&#227;o copia as europas, mas transmuta em algo nitidamente <em>seu. </em>Neste caso, <em>nosso.</em></p><p>Navegamos a pol&#237;tica brasileira atual num quadro de emerg&#234;ncias agravado desde a pandemia, onde o senso imediatista se instaurava para uma infeliz perman&#234;ncia. O t&#227;o aclamado apocalipse ganha finalmente uma tangibilidade para al&#233;m do imaginativo-coletivo espiritual. At&#233; o final de 2023 n&#243;s t&#237;nhamos registradas aproximadamente <strong>708.491 </strong>mortes por <em>COVID-19</em>, conforme dados do Conselho Nacional de Secret&#225;rios de Sa&#250;de (conass). Esse n&#250;mero representa o total acumulado desde o in&#237;cio da pandemia, em fevereiro de 2020, e segue alarmante at&#233; hoje! Dentro dos mecanismos operantes nessa pol&#237;tica imediatista os termos s&#227;o expl&#237;citos, baseados no p&#226;nico geral da na&#231;&#227;o, como nas vias de regra das muito bem projetadas <em>fake-news</em>, baseadas em expurgar o &#243;dio entranhado na humanidade mais s&#243;rdida de seus eleitores. &#201; ent&#227;o, que eles destroem mais do tecido democr&#225;tico, como citado por Ginzburg <em><strong>&#8220;...os anjos e os homens nasceram como os vermes no queijo&#8221;.</strong></em></p><p>Bolsonaro teve uma margem de 70% dos votos evang&#233;licos nas duas elei&#231;&#245;es que disputou, e assim como os ratos roem o queijo de Menocchio, corroendo silenciosamente a massa de dentro para fora, os homens roeram o tecido democr&#225;tico brasileiro, arrancando normas e institui&#231;&#245;es como se fossem mi&#250;dos vulner&#225;veis, descart&#225;veis. O v&#233;u que se rasga no Evangelho de <em>Mateus (27:51) </em>simboliza a ruptura das barreiras e a revela&#231;&#227;o do que estava oculto. No contexto pol&#237;tico brasileiro, esse rasgar se manifesta na emerg&#234;ncia do fundamentalismo religioso como for&#231;a que mobiliza, e legitima pr&#225;ticas autorit&#225;rias e fascistas. Segundo Raymond Williams, a cultura &#233; um <em>terreno de luta </em>incessante<em>, </em>uma luta de signos e significados, nesse campo, o choque e a segrega&#231;&#227;o s&#227;o usados como <em><strong>estrat&#233;gias de domina&#231;&#227;o</strong></em>: certos grupos s&#227;o definidos pela classe dominante para  manter sua respectiva marginaliza&#231;&#227;o. Aqui n&#227;o falamos apenas de uma exclus&#227;o econ&#244;mica, mas tamb&#233;m dos <em><strong>processos simb&#243;licos </strong></em>que est&#227;o dentro disso; rotula&#231;&#227;o, estigmatiza&#231;&#227;o, e primordialmente, naturalizar as diferen&#231;as como barreiras, ao inv&#233;s de trocas.</p><p>Na ret&#243;rica do <em>terror</em> e da <em>manipula&#231;&#227;o</em> na narrativa cultural, podemos enxergar os &#8220;vermes&#8221; corroendo o queijo da democracia, refor&#231;ando as imagens polarizadas, como se n&#227;o tiv&#233;ssemos sa&#237;da para al&#233;m do desespero&#8230; Exatamente como &#381;i&#382;ek descreve em sua teoria: o medo e a inseguran&#231;a s&#227;o utilizados para definir o pertencimento social, eles criam um consenso autorit&#225;rio e fragilizam ainda mais a popula&#231;&#227;o ref&#233;m. Essa corros&#227;o interna aparece quando pol&#237;ticas, elei&#231;&#245;es e a liberdade de imprensa est&#227;o encurraladas, enquanto os mais vulner&#225;veis sofrem mais com problemas incontorn&#225;veis, como a pandemia e toda carga da desigualdade p&#243;s colonial. A met&#225;fora resgatada a todo tempo com Menocchio mostra que o perigo n&#227;o vem de fora, mas de dentro. E a democracia brasileira se um dia pareceu s&#243;lida, agora fermenta a olho nu, encontrada com ideologias autorit&#225;rias e uso desproporcional do p&#226;nico, <em><strong>se tornando um queijo cada vez mais corro&#237;do pelos vermes do poder.</strong></em></p><p><strong>&#201; preciso atualizar : etimologias, sequestros e senten&#231;as.</strong></p><p>No cap&#237;tulo brasileiro mais recente, tivemos Jair Messias Bolsonaro julgado e condenado a vinte e sete anos e tr&#234;s meses de pena por crimes ligados &#224; tentativa de golpear o Estado. Em paralelo a autodefesa democr&#225;tica, erguemos uma nova sombra no congresso, senadores e deputados que defendem uma ampla anistia. Anistia, do grego <em><strong>amnest&#237;a</strong></em>, formada pelo prefixo de nega&#231;&#227;o<em> <strong>a-</strong> </em>e pelo radical <em><strong>mn&#234;stis</strong> </em>(lembran&#231;a), significando literalmente, esquecimento. No campo jur&#237;dico, sequestrada, passa a significar perd&#227;o. Esse deslocamento n&#227;o se trata apenas de uma quest&#227;o de dicion&#225;rio, &#233; uma manobra de poder. Quando dizemos &#8220;esquecimento&#8221;, estamos diante da mem&#243;ria coletiva e da hist&#243;ria, quando dizemos &#8220;perd&#227;o&#8221;, nos deslocamos para um terreno moral-crist&#227;o, individualizado. A direita brasileira sabe usar esse truque muito bem, falar em perd&#227;o soa mais nobre, crist&#227;o, e infinitamente conciliador. J&#225; o esquecimento cru, remete a apagar crimes contra seu pr&#243;prio povo, o que revelaria sua verdadeira fun&#231;&#227;o pol&#237;tica. Jacques Derrida chamaria de <em>iterabilidade</em> a possibilidade de repetir o mesmo signo em contextos diferentes, com efeitos distintos.</p><p>Esse sequestro sem&#226;ntico n&#227;o acontece s&#243; com a palavra <em>anistia</em>. Palavras se tornam slogans ao longo de campanhas pol&#237;ticas e passam a circular como armas de guerra durante toda historicidade mundial. No Brasil, a direita tamb&#233;m fala em &#8220;liberdade&#8221;, e quando em pr&#225;tica, defende o privil&#233;gio de poucos contra os direitos coletivos, a liberdade de explorar, e discriminar, criminosamente. Tamb&#233;m fala em &#8220;fam&#237;lia&#8221; como um valor universal, mas na realidade restringe o conceito &#224; norma heteropatriarcal, excluindo todas as outras formas de afeto e conviv&#234;ncia. Invoca a &#8220;p&#225;tria&#8221; e a &#8220;soberania&#8221; para justificar autoritarismo e seus in&#250;meros golpes, enquanto entrega riquezas nacionais ao capital estrangeiro, estirando a bandeira dos Estados Unidos da Am&#233;rica na Avenida Paulista. Essas palavras pedem por socorro, est&#227;o como a democracia, e como o Brasil, sequestradas. Estampam e disseminam significa&#231;&#245;es fora de seus valores de origem&#8230; Talvez reste pouco desse queijo esburacado que chamamos por democracia. Entre vermes e anjos, slogans e mem&#243;rias, o Brasil precisa se decidir entre aceitar o esquecimento imposto pelo Brazil, ou reinventar sua pr&#243;pria mem&#243;ria em busca de si.</p><div><hr></div><p><strong>Brasil em Devir.</strong></p><p>// Por <strong>Victor Silva.</strong></p><p>Inspirado talvez pelo &#250;ltimo livro de Preciado, <em>Dysphoria Mundi, </em>quero convidar a uma s&#233;rie de perguntas sobre esse velho mundo novo. Que &#233; se perguntar, o que seria esse mundo disf&#243;rico? Mais do que discutir sobre a condi&#231;&#227;o disf&#243;rica, e como ela coloca em jogo as quest&#245;es de binarismos, Preciado vai al&#233;m, e retoma Hamlet na frase dif&#237;cil de traduzir: <em><strong>&#8220;Time is out of Joint&#8221;</strong></em>. O tempo est&#225; fora dos eixos, o tempo foi para as cucuias, o tempo se escafedeu. Uma frase que ele constantemente repete como um tipo de mantra &#233;<em> &#8216;Wuhan est&#225; por toda parte&#8217;</em>, o que seria a pandemia se n&#227;o a generaliza&#231;&#227;o, a globaliza&#231;&#227;o de um estado do mundo para todos os outros. <em>Wuhan se espalhou, tirou todos dos Eixos.</em> O Tempo e o Espa&#231;o se desconfiguraram. E desde os tempos de pandemia, parece que nada nunca realmente voltou ao normal. Parece que o trabalho tornou-se cada vez mais prec&#225;rio, cada vez mais trabalho informal, e mesmo quem tem trabalho formal, usa trabalho informal como complementa&#231;&#227;o de renda, isso sem contar quem torna-se pedinte para al&#233;m do trabalho formal. Isso com a situa&#231;&#227;o das drogas dos Estados Unidos, com a crise de Fentanil e outras drogas LEGAIS que causam as pessoas a andarem como zumbis pelas ruas. N&#227;o que a situa&#231;&#227;o no Brasil esteja muito melhor, o &#237;ndice de pessoas em situa&#231;&#227;o de rua no pa&#237;s s&#243; tem aumentado. E enquanto se passam todos esses problemas nas ruas, na internet se discute problemas como o crescimento das IAs, e quais empregos v&#227;o ser substitu&#237;dos. Parece haver uma desconex&#227;o. Na real, se v&#234; uma precariza&#231;&#227;o at&#233; nos empregos da &#225;rea de dados, parece que as pessoas t&#234;m trabalhado muito mais, mesmo com a promessa que a IA vai resolver todos os trabalhos. Mas a real &#233; que, a IA nunca vai substituir a m&#227;o de obra humana, at&#233; porque, ela precisa da m&#227;o de obra humana para funcionar. O que parece que acontece &#233; o velho paradoxo do carv&#227;o. Mais conhecido tamb&#233;m como o Paradoxo da Efici&#234;ncia, ou o Paradoxo de Jevons, autor do livro <em><strong>The Coal Question </strong></em>(A Quest&#227;o do Carv&#227;o, que n&#227;o tem tradu&#231;&#227;o para o Brasil), levanta a quest&#227;o de como novas tecnologias que s&#227;o mais eficientes, e consomem menos recursos, acabam, na real, gastando mais recursos, pois como elas s&#227;o mais eficientes, acabam sendo mais usadas por que a l&#243;gica &#233; sempre do maior lucro no menor tempo, ent&#227;o mesmo que uma tecnologia seja mais eficiente, mais r&#225;pida, esse &#8220;tempo livre&#8221; nunca vai ser &#8220;livre&#8221; e sim substitu&#237;do por mais trabalho, por mais novas tecnologias&#8230;</p><p><em>O ano de 2020 foi aquele em que os dias, como p&#233;rolas quebradas,</em></p><p><em>sa&#237;ram do colar do tempo</em></p><p><em>(PRECIADO. 2023. pp. 99)</em></p><p>Nesse livro ele comenta como em 2020 foi o ano decisivo para as tecnologias digitais, em que &#8220;Ou voc&#234; digitalizou, ou j&#225; era&#8221;, referindo-se &#224;s necessidades pandemicas, mas desde aquele tempo essa frase continua provando a sua atualidade. Desde uns tempos para c&#225;, j&#225; vimos as digitaliza&#231;&#227;o do mundo f&#237;sico, mas em 2020 foi o filtro final, que filtrou toda a nossa realidade em literais &#8216;filtros de instagram&#8217;, mas em todos os tipos de filtros, j&#225; que n&#227;o somos n&#243;s que controlamos a internet, tudo que escrevemos, postamos, assistimos, est&#225; submetido a diversos tipos de controles e tratamentos por empresas que absolutamente n&#227;o ligam para n&#243;s. &#8220;As ruas, antigos trilhos do capitalismo, ficaram vazias de vida social e converteram-se em corredores log&#237;sticos para o com&#233;rcio eletr&#244;nico. Em 2020, todas as cidades se transformaram em Google City e todas as ruas em Amazon Street.&#8221;. Podemos ir al&#233;m, agora todas as motos s&#227;o delivery, e todas as bikes s&#227;o iFood bikes. Todas as frases s&#227;o tweets. Todas as fotos s&#227;o Stories.</p><p>Por que agora n&#227;o tenha moto rodando na rua que n&#227;o seja uma entrega, e n&#227;o tem bicicleta que seja um lanche. N&#227;o tenha uma linguagem que n&#227;o tenha sido transformada em digital. A constante digitaliza&#231;&#227;o da vida segue o problema de que a internet n&#227;o &#233; um campo neutro, &#233; um espa&#231;o totalmente controlado por companhias e algoritmos fora da nossa compreens&#227;o. Ou seja, estamos empreendendo nosso tempo, nossas vidas para empresas que querem exatamente isso, nosso tempo e nossa aten&#231;&#227;o. E o tempo de tela m&#233;dio da pessoa no Brasil &#233; de 9h e 32min, o segundo maior no mundo. S&#227;o 9 horas do dia que as empresas t&#234;m do nosso tempo, do nosso c&#233;rebro, da nossa capacidade cognitiva. Ent&#227;o existe um tempo da nossa vida que n&#227;o &#233; nosso, &#233; fora do nosso eixo de percep&#231;&#227;o de tempo-vida, est&#225; fora dos eixos.</p><p>Enquanto trabalham exaustivamente nas ruas em empregos prec&#225;rios, passando pelo calor das metr&#243;poles, pelo aperto dos espa&#231;os, ainda precisam se vender, vender seus corpos, num espa&#231;o digital que n&#227;o lhes pertence.</p><p>Mas esse livro de Preciado, n&#227;o &#233; nada mais que um convite &#224;s novas formas de pensamento, porque o que precisamos agora &#233; &#8220;pensar com o problema&#8221;, pois as antigas formas de pensamento, os antigos universais, n&#227;o s&#227;o suficientes para pensar os novos problemas. Pois, eles colocam em xeque as formas de pensar. Como o v&#237;rus, que n&#227;o &#233; nem um organismo vivo nem morto. Como foi a <em>Aids </em>que n&#227;o era nem uma doen&#231;a, mas uma s&#237;ndrome de imunodefici&#234;ncia. O v&#237;rus coloca em quest&#227;o o infectado e o est&#233;ril, o dentro e o fora. Assim como f&#237;sica qu&#226;ntica coloca em qu&#226;ntica coloca em quest&#227;o a posi&#231;&#227;o, a exist&#234;ncia, o estar e o n&#227;o estar, a posi&#231;&#227;o infinitesimalmente pequena, indeterminada.Vemos isso com o trabalho informal, que &#233; nem emprego, nem desemprego, mas uma modalidade prec&#225;ria de exist&#234;ncia servil. Um mundo que vive em guerra constante, ao mesmo tempo que se diz viver em tempos de &#8220;Paz&#8221; (n&#227;o tem como falar de Terceira Guerra Mundial, se j&#225; estamos vivendo provavelmente na S&#233;tima Guerra). O tempo que &#233; nosso e n&#227;o nos pertence.Vivemos nessa part&#237;cula qu&#226;ntica sem posi&#231;&#227;o, disf&#243;rica, sempre numa transi&#231;&#227;o de espa&#231;os, sem um eixo nosso.</p><p>Como j&#225; diria uma antiga profecia:</p><ol><li><p>Deus est&#225; morto </p></li></ol><ol start="2"><li><p>O Homem tamb&#233;m est&#225; morto</p></li><li><p>Novas for&#231;as tomam o prosc&#234;nio</p></li></ol><p>J&#225; foram abolidas todas as medidas, todas as dist&#226;ncias, tudo que era fora, e tudo que era dentro. O seguro e o inseguro. A Paz e a Guerra. O est&#233;ril e o contaminado. Presente e ausente. O ser e o nada. A ess&#234;ncia e a imagem. Da vida real e da vida virtual. Do masculino e do feminino.</p><p>Vivemos agora uma zona cinzenta entre vida real e vida virtual, uma disjun&#231;&#227;o do espa&#231;o e do tempo, uma prolifera&#231;&#227;o de um espa&#231;o por todo o tempo. A irrup&#231;&#227;o da ess&#234;ncia de ser homem, e de ser mulher. Da paz e da guerra, a guerra civil constante. Do est&#233;ril e do infectado, mas um espectro de organismos vivos. Do trabalho formal, e informal, precariza&#231;&#227;o geral das formas de trabalho. Vivemos na transi&#231;&#227;o epistemol&#243;gica, no devir puro do mundo para outra coisa. </p><p>A dysphoria mundi.</p><p>Quais ser&#227;o as for&#231;as que tomaram o prosc&#234;nio?</p><div><hr></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://tremeluzente.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/tremeluzente.substack.com/subscribe"><span>Subscreva agora</span></a></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://tremeluzente.substack.com/p/de-vindo-5?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Partilhar&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="/__u/tremeluzente.substack.com/p/de-vindo-5?utm_source=substack&amp;utm_medium=email&amp;utm_content=share&amp;action=share"><span>Partilhar</span></a></p><blockquote><p>O <em><strong>&#8220;De-vindo&#8221;</strong></em> &#233; um projeto criado pelos amigos Bruna Cabral e Victor Silva, universit&#225;rios nos cursos de letras e sociologia da UFF, que buscam questionar a realidade do mundo atrav&#233;s da l&#237;ngua, dos textos e do discurso. A procura de um espa&#231;o que coubesse uma escrita independente, provocativa e experimental, surge a parceria nos intervalos das aulas de lingu&#237;stica e sociologia econ&#244;mica, em caf&#233;s ao redor do campus.</p><p>Afinal, Devindo? O ger&#250;ndio do verbo <em>devir. </em>Portanto, &#8220;devindo&#8221; indica o processo intermin&#225;vel de se tornar ou se transformar em algo. Pensar, agir e transgredir!</p><p><em>Considere apoiar o projeto com o valor de um caf&#233; no campus da faculdade de letras atrav&#233;s do pix <strong>ogatonapoesia@gmail.com &#43612; .&#5151;</strong></em></p></blockquote>]]></content:encoded></item></channel></rss>