<script data-pm-proxy="intercept"></script><?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Victor Azevedo]]></title><description><![CDATA[escrevo para entender o que acontece comigo enquanto acredito. histórias, teologias, molduras e outras tentativas de narrar a vida.]]></description><link>https://victorazevedo10.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!wQia!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F246b68a0-5b6f-46ff-a9bc-16f55691849e_3071x3071.png</url><title>Victor Azevedo</title><link>https://victorazevedo10.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Sat, 05 Sep 2026 08:06:57 GMT</lastBuildDate><atom:link href="/__u/victorazevedo10.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Victor Azevedo]]></copyright><language><![CDATA[en]]></language><webMaster><![CDATA[victorazevedo10@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[victorazevedo10@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[victor azevedo]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[victor azevedo]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[victorazevedo10@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[victorazevedo10@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[victor azevedo]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[voltar a fazer o que amo]]></title><description><![CDATA[ser&#225; que &#233; isso que falta?]]></description><link>https://victorazevedo10.substack.com/p/voltar-a-fazer-o-que-amo</link><guid isPermaLink="false">https://victorazevedo10.substack.com/p/voltar-a-fazer-o-que-amo</guid><dc:creator><![CDATA[victor azevedo]]></dc:creator><pubDate>Thu, 03 Sep 2026 20:06:24 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!wQia!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F246b68a0-5b6f-46ff-a9bc-16f55691849e_3071x3071.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Hoje olhei para um post-it colado no computador:</p><p><strong>&#8220;voltar a fazer o que amo &#8212; 2026.&#8221;</strong></p><p>Me emocionei.</p><p>Escrevi isso no come&#231;o do ano e, se eu lesse essa mesma frase tr&#234;s meses atr&#225;s, talvez n&#227;o tivesse me emocionado tanto.</p><p>Acho que porque &#8220;voltar a fazer o que amo&#8221; &#233; mais complexo do que simplesmente voltar a fazer o que fazia.</p><p>Quando escrevi aquilo, eu estava vivendo um momento em que precisei me adaptar &#224; realidade que tinha diante de mim. E fa&#231;o quest&#227;o do &#8220;precisei&#8221;. N&#227;o olho para aquele per&#237;odo como um erro que agora precisa ser corrigido. &#192;s vezes, adaptar-se &#233; exatamente aquilo que devemos fazer para atravessar a vida.</p><p>Minha rotina tinha se desorganizado. Eu dormia mal, lia pouco, estudava pouco, tinha me afastado dos meus devocionais, n&#227;o estava treinando nem me alimentando como gostaria. Precisei tomar rem&#233;dio para dormir e o quarto do pietro se tornou a &#250;nica cama segura pro meu sono leve. Foi nesse contexto que escrevi aquele lembrete. &#8220;Voltar a fazer o que amo esse ano&#8221; significava, muito concretamente, voltar aos devocionais, treinar direito, comer melhor, dormir bem, estudar, ler e coisas dessa natureza.</p><p>Coisas bastante comuns.</p><p>Mas hoje fiquei pensando: <strong>a gente se distancia dos nossos amores e, por isso, vai se perdendo de si mesmo? Ou primeiro nos perdemos de n&#243;s mesmos e depois come&#231;amos a nos distanciar dos nossos amores?</strong></p><p>Eu particularmente n&#227;o acredito que exista uma resposta pronta para isso. Talvez seja uma dessas perguntas da complexidade humana que n&#227;o cabem na l&#243;gica de descobrir o que veio primeiro, o ovo ou a galinha.</p><p>Penso que as duas coisas acontecem simultaneamente.</p><p>A gente vai se ajustando &#224; vida. Evita conflitos. Aprende a ceder. Percebe o que o ambiente espera e encontra maneiras de continuar existindo dentro dele. &#192;s vezes at&#233; passa a pensar a si mesmo como algu&#233;m flex&#237;vel.</p><p>Tem aquela m&#225;xima:</p><p><strong>&#8220;bem-aventurados os flex&#237;veis, pois eles n&#227;o se quebrar&#227;o.&#8221;</strong></p><p>Pode ser.</p><p>Mas existe um momento em que aquilo que me ajuda a n&#227;o quebrar come&#231;a tamb&#233;m a me deformar.</p><p>E talvez more a&#237; uma parte do <strong>mal-estar da civiliza&#231;&#227;o (Freud)</strong>: viver junto exige ren&#250;ncias. Alguma coisa de n&#243;s precisa ser negociada para que a vida com os outros seja poss&#237;vel.</p><p><strong>&#201; necess&#225;rio perder muito, mas n&#227;o tudo.</strong></p><p>Winnicott me ajuda a pensar esse &#8220;n&#227;o tudo&#8221;.</p><p>Quando a adapta&#231;&#227;o se torna cont&#237;nua, alguma coisa come&#231;a a acontecer: a refer&#234;ncia para nossas a&#231;&#245;es pode deixar de ser aquilo que sentimos, pensamos ou desejamos e passar a ser aquilo que funciona melhor para o ambiente.</p><p>O falso self n&#227;o &#233; simplesmente uma mentira sobre quem somos. Ele nasce tamb&#233;m como adapta&#231;&#227;o. Como uma maneira de responder ao mundo, sobreviver a ele, continuar pertencendo.</p><p>Por isso, talvez a pergunta n&#227;o seja: <strong>como escapar das adapta&#231;&#245;es?</strong></p><p>N&#227;o d&#225;.</p><p>Ningu&#233;m vive sem se adaptar.</p><p>A pergunta que me interessa &#233; outra: <strong>o que n&#227;o posso negociar o tempo inteiro sem come&#231;ar a perder contato comigo mesmo?</strong></p><p>E esse &#8220;eu mesmo&#8221; tamb&#233;m n&#227;o &#233; uma coisa pronta.</p><p>O pouco que permanece n&#227;o permanece im&#243;vel. Muda tamb&#233;m. Aquilo que preciso preservar hoje talvez n&#227;o seja exatamente aquilo que precisei preservar cinco anos atr&#225;s. N&#227;o existe, em algum lugar dentro de mim, um &#8220;eu original&#8221; esperando ser recuperado intacto.</p><p>Como diz o Eduardo Galeano: &#8220;<em>somos, enfim, o que fazemos para transformar o que somos. A identidade n&#227;o &#233; uma pe&#231;a de museu, quietinha na vitrine, mas a sempre a assombrosa s&#237;ntese das contradi&#231;&#245;es nossas de cada dia&#8221;.&nbsp;</em></p><p>Talvez por isso analisar a si mesmo seja t&#227;o importante.</p><p>N&#227;o para descobrir finalmente &#8220;quem eu sou&#8221;, como se existisse uma resposta escondida no fundo da alma. Mas para continuar percebendo o que est&#225; acontecendo comigo. O que estou desejando. O que estou abandonando. O que precisei abandonar. O que ainda amo. O que j&#225; n&#227;o amo mais. E quais adapta&#231;&#245;es come&#231;aram a me tornar irreconhec&#237;vel para mim mesmo.</p><p>Quando escrevi <strong>&#8220;voltar a fazer o que amo&#8221;</strong>, eu estava pensando em h&#225;bitos.</p><p>Mas existe sempre essa pegadinha: <strong>h&#225; um inconsciente falando tamb&#233;m no n&#227;o dito.</strong></p><p>Talvez eu estivesse escrevendo sobre mais do que devocional, treino, comida, sono, estudo e leitura.</p><p>Talvez n&#227;o fosse exatamente sobre voltar a fazer o que eu fazia.</p><p>Talvez fosse sobre perceber que, enquanto me distanciava de alguns pequenos h&#225;bitos cotidianos, tamb&#233;m perdia contato com coisas que, de alguma maneira, me devolviam a mim mesmo.</p><p>Porque vivemos dentro de um tecido social que o tempo inteiro nos convoca, nos adapta, nos distrai, produz desejos em n&#243;s e nos pede respostas. N&#227;o existe vida fora dele.</p><p>Talvez por isso algumas rotinas sejam mais do que rotinas.</p><p>Ler. Estudar. Cuidar do corpo. Orar<strong>.</strong> Dormir.</p><p>&#192;s vezes s&#227;o pequenos lugares onde conseguimos nos escutar outra vez. manter contato com a gente mesmo. <em><strong>Encontrando nesse contato quem somos - que &#233; o que estamos fazendo do que &#233;ramos.&nbsp;</strong></em></p><p>E talvez crescer tenha menos a ver com finalmente descobrir quem se &#233; e mais com <strong>aprender a bancar a si mesmo em quem estou me tornando.</strong></p><p>Bancar aquilo que escolhi conscientemente, mas tamb&#233;m aprender a responder por aquilo que fa&#231;o sem saber inteiramente por que fa&#231;o. Pelas minhas repeti&#231;&#245;es, pelos meus modos de me defender, pelas adapta&#231;&#245;es que um dia foram necess&#225;rias e que talvez hoje j&#225; n&#227;o sejam.</p><p><strong>Porque</strong> <strong>a responsabilidade excede a inten&#231;&#227;o.</strong></p><p>Isso n&#227;o significa aceitar tudo em mim como destino. Pelo contr&#225;rio. Talvez eu s&#243; consiga transformar alguma coisa depois que paro de trat&#225;-la como se n&#227;o fosse tamb&#233;m minha.</p><p><strong>Bancar a si mesmo n&#227;o &#233; permanecer o mesmo. &#201; assumir responsabilidade por quem tenho sido enquanto descubro quem ainda posso me tornar.</strong></p><p>Talvez seja tamb&#233;m uma das fun&#231;&#245;es da an&#225;lise: n&#227;o encontrar um &#8220;eu verdadeiro&#8221; escondido em algum lugar, mas ajudar a perceber um pouco melhor aquilo que escolho, aquilo que repito, aquilo que desejo e aquilo que fa&#231;o sem ainda saber muito bem por qu&#234;.</p><p>Hoje olhei novamente para aquele post-it:</p><p><strong>&#8220;voltar a fazer o que amo.&#8221;</strong></p><p>N&#227;o quero voltar a ser quem eu era.</p><p>Tamb&#233;m n&#227;o quero preservar uma vers&#227;o de mim contra a passagem do tempo.</p><p>Talvez eu queira aprender a bancar quem estou me tornando sem abandonar completamente aquilo que amo.</p><p>Porque &#233; necess&#225;rio perder muito.</p><p><strong>Mas n&#227;o tudo.</strong></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[a vergonha de ser feliz sozinho]]></title><description><![CDATA[vc tem?]]></description><link>https://victorazevedo10.substack.com/p/a-vergonha-de-ser-feliz-sozinho</link><guid isPermaLink="false">https://victorazevedo10.substack.com/p/a-vergonha-de-ser-feliz-sozinho</guid><dc:creator><![CDATA[victor azevedo]]></dc:creator><pubDate>Wed, 12 Aug 2026 16:44:31 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!wQia!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F246b68a0-5b6f-46ff-a9bc-16f55691849e_3071x3071.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p></p><p><span>Toda noite meu filho me pede uma hist&#243;ria antes de dormir. De vez em quando, ele aparece com pedidos nada convencionais.</span></p><p><span>Esses dias foi assim:</span></p><p><span>&#8212; papai, conta uma hist&#243;ria com os seus personagens favoritos.</span></p><p><span>Hmmm. &#211;timo pedido.</span></p><p><span>Automaticamente pensei em Jesus. Mas hesitei por um segundo. Ele j&#225; conhece muitas hist&#243;rias de Jesus e eu n&#227;o queria for&#231;ar a barra.</span></p><p><span>Ent&#227;o tive uma ideia.</span></p><p><span>&#8212; filho, estavam num barco, em alto-mar, Albert Camus, Sartre e&#8230; voc&#234; n&#227;o vai acreditar: o Fof&#227;o.</span></p><p><span>N&#227;o me pergunte por que o Fof&#227;o estava no barco. Nem eu sei.</span></p><p><span>Os tr&#234;s navegavam quando apareceu uma besta enorme. Ela n&#227;o era exatamente um monstro mau. Era uma criatura que se alimentava de uma coisa muito espec&#237;fica: o n&#227;o amor das pessoas.</span></p><p><span>Quando a besta se aproximou, o barco come&#231;ou a balan&#231;ar violentamente. No meio da confus&#227;o, Camus caiu e machucou o p&#233;. Percebendo que n&#227;o conseguiria fugir, olhou para os amigos e disse:</span></p><p><span>&#8212; podem ir. Pulem na &#225;gua, nadem para longe. V&#227;o buscar a felicidade de voc&#234;s. Eu fico aqui.</span></p><p><span>Foi ent&#227;o que o Fof&#227;o olhou para ele e disse:</span></p><p><span>&#8212; Camus, n&#227;o d&#225; para ser feliz deixando um amigo para tr&#225;s. N&#227;o se busca a felicidade sozinho.</span></p><blockquote><p><em><span>A hist&#243;ria que contei ao Pietro &#233; uma adapta&#231;&#227;o bastante livre &#8212; bastante mesmo, considerando a presen&#231;a do Fof&#227;o &#8212; de uma passagem de</span></em><span> A Peste, </span><em><span>de Albert Camus. No romance, a quest&#227;o aparece na decis&#227;o de Rambert de permanecer em Or&#227; em vez de partir em busca da pr&#243;pria felicidade.</span></em></p></blockquote><p><span>Sim, na minha hist&#243;ria foi o Fof&#227;o quem disse isso.</span></p><p><span>Os tr&#234;s decidiram ficar juntos. E, quando a besta percebeu que havia amor entre eles, come&#231;ou a desaparecer. Ela conseguia sobreviver ao medo, ao abandono, ao cada-um-por-si. O que ela n&#227;o conseguia suportar era o amor.</span></p><p><span>Terminei a hist&#243;ria dizendo ao meu filho que, no fim das contas, o verdadeiro her&#243;i n&#227;o era Camus, nem Sartre e, para a surpresa de todos, nem mesmo o Fof&#227;o.</span></p><p><span>Era o amor.</span></p><p><span>Ele dormiu.</span></p><p><span>Eu n&#227;o.</span></p><p><span>Fiquei pensando naquela hist&#243;ria que tinha acabado de inventar. Talvez porque, escondida dentro daquela aventura absurda de tr&#234;s personagens que jamais dividiriam um barco, havia uma frase de Camus que vinha me perseguindo h&#225; algum tempo:</span></p><p><strong><span>h&#225; vergonha em ser feliz sozinho.</span></strong></p><p><span>E talvez essa frase tenha come&#231;ado a desmontar uma das narrativas mais importantes que contei sobre mim mesmo durante boa parte da minha vida:</span></p><p><strong><span>a de que eu era um escolhido.</span></strong></p><p><span>N&#227;o sei ao certo quando come&#231;ou.</span></p><p><span>Mas me lembro de perceber que a narrativa que havia organizado minha vida at&#233; ent&#227;o poderia ser uma daquelas ilus&#245;es que, em vez de ampliar a vida, acabam diminuindo-a.</span></p><p><span>Durante muito tempo contei minha hist&#243;ria como a hist&#243;ria de algu&#233;m escolhido por Deus para um prop&#243;sito espec&#237;fico. N&#227;o era apenas uma cren&#231;a religiosa. Era a narrativa que organizava minha biografia. As portas que se abriram, os lugares aos quais cheguei, as oportunidades que apareceram &#8212; tudo podia ser encaixado numa hist&#243;ria em que Deus havia tra&#231;ado um caminho particular para mim.</span></p><p><span>Nesse primeiro momento, curiosamente, n&#227;o foi a teologia que me salvou.</span></p><p><span>Foi a sociologia.</span></p><p><span>Mais especificamente, o conceito de privil&#233;gio.</span></p><p><span>E uso a palavra &#8220;salvou&#8221; de prop&#243;sito.</span></p><p><span>A ideia de privil&#233;gio me acordou para coisas que sempre estiveram diante dos meus olhos. Comecei a perceber que ser homem, h&#233;tero, branco e de classe m&#233;dia n&#227;o era um detalhe da minha trajet&#243;ria. Isso havia participado dos acessos que tive, das portas que encontrei abertas e at&#233; dos lugares onde pude chegar.</span></p><p><span>E, quando olhei ao redor, outra coisa come&#231;ou a me incomodar.</span></p><p><span>Os ambientes onde eu encontrava pessoas que, como eu, acreditavam terem sido escolhidas por Deus eram majoritariamente brancos, h&#233;teros, masculinos e de classe m&#233;dia.</span></p><p><span>&#201; uma imagem dif&#237;cil de esquecer:</span></p><p><strong><span>um encontro de privilegiados que se autodeclaravam escolhidos.</span></strong></p><p><span>Foi a&#237; que a palavra privil&#233;gio come&#231;ou a disputar espa&#231;o com a palavra escolhido na maneira como eu narrava a mim mesmo.</span></p><p><span>N&#227;o porque esfor&#231;o, trabalho ou voca&#231;&#227;o tenham deixado de existir. Nem porque eu tenha conclu&#237;do que Deus n&#227;o age na hist&#243;ria.</span></p><p><span>A pergunta passou a ser outra:</span></p><p><strong><span>quanto daquilo que eu chamava de elei&#231;&#227;o divina era tamb&#233;m privil&#233;gio que eu ainda n&#227;o tinha aprendido a enxergar?</span></strong></p><p><span>Essa pergunta trouxe consigo um problema moral.</span></p><p><span>Porque, quando algu&#233;m privilegiado como eu diz que Deus o escolheu e passa a narrar sua trajet&#243;ria como um caminho particularmente escrito por Deus, n&#227;o est&#225; dizendo algo apenas sobre si.</span></p><p><span>Est&#225; dizendo alguma coisa sobre Deus.</span></p><p><span>E, inevitavelmente, est&#225; dizendo alguma coisa sobre quem n&#227;o teve a mesma trajet&#243;ria.</span></p><p><span>Se Deus escreveu o caminho que me levou at&#233; aqui, o que digo sobre o caminho de quem nasceu sem os acessos que eu tive?</span></p><p><span>Se minha prosperidade &#233; sinal do cuidado particular de Deus, o que fa&#231;o com a pobreza do outro?</span></p><p><span>Se a porta que se abriu para mim foi Deus, quem estava por tr&#225;s da porta que permaneceu fechada para ele?</span></p><p><span>Talvez seja por isso que hoje eu tenha tanto cuidado com determinados testemunhos.</span></p><p><span>Posso estar dizendo que Deus me levou a um banquete enquanto algu&#233;m me ouve sem p&#227;o.</span></p><p><span>Posso dizer que Deus me deu um filho como promessa enquanto algu&#233;m que desejou profundamente ser pai ou m&#227;e descobre que n&#227;o poder&#225; s&#234;-lo.</span></p><p><span>Posso contar que Deus me curou enquanto algu&#233;m se levanta depois do enterro do pr&#243;prio filho.</span></p><p><span>Posso dizer que Deus realiza os desejos de seus filhos enquanto mais uma pessoa morre sem atendimento m&#233;dico porque n&#227;o tinha dinheiro para um plano de sa&#250;de.</span></p><p><span>Posso contar que meu filho sofreu um acidente e que a miseric&#243;rdia de Deus o protegeu enquanto uma m&#227;e enterra o filho negro atingido por uma bala que chamamos de perdida &#8212; embora algumas balas pare&#231;am conhecer muito bem os corpos e os endere&#231;os que encontram.</span></p><p><span>N&#227;o estou dizendo que uma pessoa n&#227;o possa agradecer.</span></p><p><span>Nem que Deus n&#227;o cuide.</span></p><p><span>A pergunta &#233; outra.</span></p><p><strong><span>O que estou dizendo sobre Deus quando conto minha hist&#243;ria dessa maneira?</span></strong></p><p><span>Porque toda narrativa sobre a gra&#231;a que me alcan&#231;ou acaba dizendo alguma coisa, mesmo sem querer, sobre aquele que aparentemente n&#227;o foi alcan&#231;ado por ela.</span></p><p><span>Foi a&#237; que comecei a perceber mais claramente a diferen&#231;a entre narrar minha vida a partir do privil&#233;gio e narr&#225;-la a partir da elei&#231;&#227;o.</span></p><p><span>Dizer &#8220;sou privilegiado&#8221; n&#227;o exige que eu negue tudo o que fiz, nem tudo o que recebi, nem mesmo a a&#231;&#227;o de Deus na minha hist&#243;ria.</span></p><p><span>Exige apenas que eu reconhe&#231;a que n&#227;o comecei do mesmo lugar que todo mundo.</span></p><p><strong><span>E essa percep&#231;&#227;o muda moralmente aquilo que fa&#231;o com o lugar onde cheguei.</span></strong></p><p><span>Talvez seja isso que mais tenha mudado em mim.</span></p><p><span>Antes, a pergunta era:</span></p><p><strong><span>por que Deus me escolheu?</span></strong></p><p><span>Hoje, uma pergunta me interessa muito mais:</span></p><p><strong><span>o que fa&#231;o com aquilo que recebi?</span></strong></p><p><span>Porque privil&#233;gio, quando reconhecido, n&#227;o precisa terminar em culpa.</span></p><p><span>Pode come&#231;ar em responsabilidade.</span></p><p><span>E &#233; aqui que aquela hist&#243;ria absurda que contei ao meu filho volta a me encontrar.</span></p><p><span>Camus, Sartre e Fof&#227;o ainda est&#227;o naquele barco.</span></p><p><span>Um deles poderia pular.</span></p><p><span>Poderia nadar.</span></p><p><span>Poderia salvar a pr&#243;pria vida e seguir em busca da pr&#243;pria felicidade.</span></p><p><span>Mas alguma coisa o impede de chamar de felicidade uma vida constru&#237;da deixando o outro para tr&#225;s.</span></p><p><span>Desde ent&#227;o, passei a desconfiar de toda espiritualidade que me permite agradecer pelos meus privil&#233;gios sem que eles se transformem tamb&#233;m em responsabilidade.</span></p><p><span>Talvez exista algo ainda mais s&#233;rio em narrar privil&#233;gio como elei&#231;&#227;o -&#8221;Deus me aben&#231;oou&#8221;. Quando fa&#231;o isso, n&#227;o estou apenas contando uma hist&#243;ria sobre mim. Estou contando uma hist&#243;ria sobre Deus.</span></p><p><span>Se reconhe&#231;o que determinadas estruturas s&#227;o injustas, mas interpreto o lugar privilegiado que elas me concederam como sinal de que Deus me escolheu, acabo colocando Deus e a injusti&#231;a do mesmo lado. A estrutura privilegia alguns e exclui outros; depois, olhamos para aqueles que foram favorecidos e dizemos: &#8220;Deus os escolheu, os aben&#231;oou&#8221;.</span></p><p><span>Nesse tipo de narrativa, Deus deixa de aparecer como aquele que nos liberta da injusti&#231;a e passa, estranhamente, a utiliz&#225;-la como instrumento de sua provid&#234;ncia. A injusti&#231;a produz os privilegiados e, depois, atribu&#237;mos a Deus o privil&#233;gio produzido por ela.</span></p><p><span>E talvez seja a&#237; que alguma coisa muito preciosa do Evangelho se perca.</span></p><p><span>Porque, se Deus se utiliza da injusti&#231;a para realizar seus prop&#243;sitos particulares para mim, como posso continuar esperando nele para libertar o mundo dessa mesma injusti&#231;a?</span></p><p><span>Os fins justificariam os meios?</span></p><p><span>Talvez seja isso que mais tenha mudado na maneira como conto minha pr&#243;pria hist&#243;ria.</span></p><p><span>Hoje me interessa menos perguntar por que Deus me escolheu, se &#233; que isso aconteceu, e mais perguntar o que fa&#231;o com aquilo que recebi. E reconhecer o privil&#233;gio pode gerar responsabilidade, inc&#244;modo e, por que n&#227;o, culpa. Talvez existam culpas das quais n&#227;o devamos nos livrar r&#225;pido demais. Talvez algumas delas sejam justamente o sinal de que ainda conseguimos nos incomodar com a dist&#226;ncia entre o mundo que existe e o mundo que deveria existir.</span></p><p><span>E talvez aquela frase de Camus tenha ficado comigo tempo suficiente para, anos depois, acabar na boca do Fof&#227;o numa hist&#243;ria antes de dormir:</span></p><p><strong><span>h&#225; vergonha em ser feliz sozinho.</span></strong></p><p><span>Meu filho dormiu.</span></p><p><span>Eu continuei pensando.</span></p><p><span>Talvez algumas das hist&#243;rias que contamos sobre sermos escolhidos sirvam justamente para nos livrar dessa vergonha.</span></p><p><span>E &#233; preciso certa aliena&#231;&#227;o para acreditar que &#233; poss&#237;vel ser feliz sozinho.</span></p><p><span>Aqui, &#8220;sozinho&#8221; n&#227;o significa necessariamente sem ningu&#233;m por perto. &#201; poss&#237;vel ser feliz com os meus e ainda assim ser feliz sozinho. Com minha fam&#237;lia, meus amigos, minha igreja, minha classe, minha bolha. Cercado de gente e, ainda assim, separado do mundo. Feliz enquanto aprendo a n&#227;o enxergar quem precisou ficar de fora para que a vida que chamo de b&#234;n&#231;&#227;o pudesse existir exatamente como existe.</span></p><p><span>Eu quero uma f&#233; que fa&#231;a o contr&#225;rio.</span></p><p><span>Quero uma f&#233; que me incomode.</span></p><p><span>&#192;s vezes, que me irrite.</span></p><p><span>Que produza perguntas, d&#250;vidas e at&#233; culpas que eu n&#227;o consiga resolver com uma frase religiosa qualquer.</span></p><p><span>Quero uma f&#233; que n&#227;o tranquilize minha consci&#234;ncia cedo demais, mas que transforme esse inc&#244;modo em movimento, responsabilidade e a&#231;&#227;o na dire&#231;&#227;o de um mundo mais justo.</span></p><p><span>Porque, se ainda espero alguma coisa do Evangelho, &#233; que Deus n&#227;o seja a explica&#231;&#227;o religiosa para a injusti&#231;a que me favorece.</span></p><p><strong><span>Mas a esperan&#231;a de que ela n&#227;o ter&#225; a &#250;ltima palavra.</span></strong></p><p><strong><span>Depois do ponto final:</span></strong></p><p><em><span>Cidade Desceu &#8212; Alessandro Vilas Boas</span></em></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[dentro de todo ser humano tem um buraco do tamanho de deus? ]]></title><description><![CDATA[ser&#225;?]]></description><link>https://victorazevedo10.substack.com/p/dentro-de-todo-ser-humano-tem-um</link><guid isPermaLink="false">https://victorazevedo10.substack.com/p/dentro-de-todo-ser-humano-tem-um</guid><dc:creator><![CDATA[victor azevedo]]></dc:creator><pubDate>Thu, 06 Aug 2026 20:26:18 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!wQia!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F246b68a0-5b6f-46ff-a9bc-16f55691849e_3071x3071.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p></p><p><span>Eu estava no avi&#227;o voltando do Rio para S&#227;o Paulo. Fones nos ouvidos, di&#225;rio aberto, um caf&#233; na m&#227;o e um inc&#244;modo existencial fazendo companhia.</span></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://victorazevedo10.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p><span>Uma m&#227;e entrou com sua filha. Deviam estar atrasadas. Quando a menina foi se sentar, derrubou tudo o que carregava. Eu me abaixei para ajud&#225;-la a juntar as coisas. Ela agradeceu, sentou e, alguns segundos depois, percebeu que um chaveiro havia ficado para tr&#225;s.</span></p><p><span>Ent&#227;o ela come&#231;ou a chorar.</span></p><p><span>Mas n&#227;o era um choro qualquer. Era aquele tipo de choro em que a l&#225;grima parece carregar junto um peda&#231;o da alma.</span></p><p><span>Entre solu&#231;os, repetia a mesma frase:</span></p><p><span>&#8212; eu n&#227;o consigo viver sem aquele chaveiro.</span></p><p><span>Quem olhava de fora sabia que ela conseguiria. A vida dela n&#227;o dependia daquele objeto. Mas, para ela, naquele instante, dependia. O chaveiro e a pr&#243;pria vida pareciam insepar&#225;veis.</span></p><p><span>Enquanto assistia &#224;quela cena, lembrei de uma frase que li h&#225; algum tempo e nunca mais me deixou: </span><em><span>a vida adulta &#233; descobrir que n&#227;o existem adultos.</span></em><span> Talvez seja isso. Continuamos carregando nossos chaveiros. A diferen&#231;a &#233; que eles deixam de caber no bolso e passam a organizar a vida inteira.</span></p><p><span>Dinheiro.</span></p><p><span>Reconhecimento.</span></p><p><span>Amor.</span></p><p><span>Casamento.</span></p><p><span>Filhos.</span></p><p><span>Um minist&#233;rio.</span></p><p><span>Uma carreira.</span></p><p><span>Um sonho.</span></p><p><span>At&#233; Deus entra nessa lista.</span></p><p><span>Foi imposs&#237;vel n&#227;o lembrar de uma frase que ouvi incont&#225;veis vezes ao longo da vida:</span></p><blockquote><p><span>&#8220;h&#225; no cora&#231;&#227;o humano um vazio do tamanho de Deus.&#8221;</span></p></blockquote><p><span>Eu mesmo j&#225; a repeti.</span></p><p><span>E talvez ela tenha consolado muita gente. Talvez continue consolando. N&#227;o escrevo isso para ridicularizar a frase nem para desrespeitar quem a diz. Comecei apenas a suspeitar que, &#224;s vezes, ela responde r&#225;pido demais a uma pergunta que ainda precisava permanecer aberta: que vazio &#233; esse dentro da condi&#231;&#227;o humana?</span></p><p><span>Porque sobreviver exige algum ch&#227;o. Todos n&#243;s precisamos de narrativas que tornem poss&#237;vel levantar da cama amanh&#227;. O problema come&#231;a quando essas narrativas deixam de nos sustentar e passam a nos impedir de perguntar.</span></p><p><span>Talvez crescer seja justamente adquirir coragem para permanecer diante de algumas perguntas sem sentir a obriga&#231;&#227;o de respond&#234;-las imediatamente.</span></p><p><span>O que &#233; a vida?</span></p><p><span>Por que eu existo?</span></p><p><span>Existe um prop&#243;sito dado ou somos n&#243;s que o constru&#237;mos?</span></p><p><span>Albert Camus dizia que existe apenas uma quest&#227;o filos&#243;fica realmente s&#233;ria: por que n&#227;o cometer suic&#237;dio?</span></p><p><span>N&#227;o era um convite &#224; morte. Era uma tentativa radical de perguntar o que torna a vida digna de ser vivida.</span></p><p><span>O que faz voc&#234; levantar da cama amanh&#227;?</span></p><p><span>O que faz voc&#234; insistir em continuar?</span></p><p><span>Lacan responderia que a condi&#231;&#227;o humana &#233; marcada pela falta. Vivemos desejando. E o desejo nunca permanece no mesmo lugar.</span></p><p><span>Durante um tempo acreditamos que a felicidade est&#225; no casamento. Depois, na casa pr&#243;pria. Depois, naquele sal&#225;rio. Na viagem. No reconhecimento. Na publica&#231;&#227;o. Na aprova&#231;&#227;o de algu&#233;m.</span></p><p><span>E quando finalmente chegamos l&#225;...</span></p><p><span>tchurum.</span></p><p><span>O desejo j&#225; mudou de endere&#231;o.</span></p><p><span>O objeto muda.</span></p><p><span>A estrutura permanece.</span></p><p><span>Talvez seja por isso que perguntas desse tamanho produzam tanta ang&#250;stia. E talvez seja exatamente por isso que sejamos t&#227;o r&#225;pidos em fabricar respostas.</span></p><p><span>Uma delas diz:</span></p><blockquote><p><span>&#8220;esse vazio &#233; Deus.&#8221;</span></p></blockquote><p><span>Hoje j&#225; n&#227;o tenho tanta certeza.</span></p><p><span>N&#227;o porque eu tenha perdido a f&#233;.</span></p><p><span>Mas porque a f&#233; deixou de precisar responder todas as perguntas para continuar sendo f&#233;.</span></p><p><span>Ali&#225;s, aconteceu justamente o contr&#225;rio.</span></p><p><span>Percebi que, quando parei de proteger Deus com respostas prontas, minha f&#233; come&#231;ou a respirar. Algumas certezas que durante anos pareciam sustent&#225;-la acabaram se revelando pequenas demais para o tamanho da experi&#234;ncia humana.</span></p><p><span>O Evangelho deixou de ser, para mim, a not&#237;cia de que Deus veio eliminar toda falta. Tornou-se a boa not&#237;cia de que Deus escolheu habitar a nossa falta. N&#227;o veio apagar o mist&#233;rio da exist&#234;ncia, mas atravess&#225;-lo com a gente.</span></p><p><span>E isso muda tudo.</span></p><p><span>Porque, se Deus n&#227;o &#233; apenas a pe&#231;a que faltava no quebra-cabe&#231;a da exist&#234;ncia, mas a presen&#231;a que nos acompanha enquanto tentamos mont&#225;-lo, ent&#227;o a f&#233; deixa de ser fuga da realidade e passa a ser uma forma de habit&#225;-la.</span></p><p><span>Talvez seja por isso que essa mudan&#231;a alterou tamb&#233;m meu jeito de olhar para as pessoas.</span></p><p><span>Quem acredita possuir todas as respostas costuma julgar com facilidade.</span></p><p><span>Quem conhece a pr&#243;pria falta aprende, pouco a pouco, outra linguagem. Uma linguagem mais paciente, mais delicada, mais gentil. Primeiro consigo mesmo. Depois com os outros.</span></p><p><span>Quando o avi&#227;o decolou, aquela menina provavelmente ainda acreditava que n&#227;o conseguiria viver sem o chaveiro.</span></p><p><span>Eu fiquei pensando que ela conseguiria.</span></p><p><span>Mas tamb&#233;m pensei que, mais cedo ou mais tarde, outro objeto ocuparia aquele lugar.</span></p><p><span>Talvez essa seja uma das formas mais discretas da ang&#250;stia humana: estamos sempre procurando alguma coisa &#224; qual possamos dizer:</span></p><p><em><span>&#8220;eu n&#227;o consigo viver sem voc&#234;.&#8221;</span></em></p><p><span>Durante muito tempo imaginei que Deus tivesse vindo para ocupar esse lugar.</span></p><p><span>Hoje j&#225; n&#227;o penso assim.</span></p><p><span>&#192;s vezes me pergunto se essa imagem faz justi&#231;a ao pr&#243;prio Deus.</span></p><p><span>Um Deus que cria uma necessidade apenas para depois ocupar o lugar dela me parece mais pr&#243;ximo de uma rela&#231;&#227;o de depend&#234;ncia emocional narc&#237;sica do que do amor.</span></p><p><span>Gosto mais de imagin&#225;-lo naquele corredor do avi&#227;o.</span></p><p><span>N&#227;o como mais um chaveiro para segurar nas m&#227;os.</span></p><p><span>Mas como presen&#231;a acolhedora.</span></p><p><span>Como quem se abaixa ao nosso lado enquanto procuramos desesperadamente aquilo que caiu no ch&#227;o e que n&#227;o julga a cena que parece exagerada mas participa amorosamente.</span></p><p><span>Talvez a f&#233; n&#227;o seja encontrar, enfim, o objeto certo.</span></p><p><span>Talvez seja descobrir que nunca estivemos sozinhos nas nossas procuras.</span></p><p><span>Porque continuaremos carregando chaveiros.</span></p><p><span>A quest&#227;o nunca foi deixar de carreg&#225;-los.</span></p><p><span>A quest&#227;o &#233; que nenhum deles suporta o peso de ser absoluto.</span></p><p><span>Talvez a f&#233; seja justamente isso.</span></p><p><span>Aprender a amar profundamente as coisas sem exigir delas aquilo que elas nunca poderiam oferecer.</span></p><p><span>E, quem sabe, perceber que Deus nunca desejou ocupar o lugar dos nossos amores. Deus n&#227;o precisa ser um chaveiro.</span></p><p><span>Hoje me parece que o Evangelho se tornou, para mim, a boa not&#237;cia de que, nas buscas e procuras da condi&#231;&#227;o humana, Deus &#233; companhia acolhedora. N&#227;o a &#250;ltima pe&#231;a que faltava no quebra-cabe&#231;a da exist&#234;ncia, mas a presen&#231;a que permanece enquanto aprendemos a habitar a falta.</span></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://victorazevedo10.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! 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