<script data-pm-proxy="intercept"></script><?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Victória Mantoan]]></title><description><![CDATA[Devaneios, curtos ou longos.]]></description><link>https://victoriamantoan.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!VU-c!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9ddf316a-bb5a-45f8-9cd6-a9afe0fda1f3_1206x1206.png</url><title>Victória Mantoan</title><link>https://victoriamantoan.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Sat, 05 Sep 2026 07:53:17 GMT</lastBuildDate><atom:link href="/__u/victoriamantoan.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Victoria Mantoan]]></copyright><language><![CDATA[pt-br]]></language><webMaster><![CDATA[victoriamantoan@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[victoriamantoan@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Victória Mantoan]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Victória Mantoan]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[victoriamantoan@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[victoriamantoan@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Victória Mantoan]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[Widescreen]]></title><description><![CDATA[fic&#231;&#245;es]]></description><link>https://victoriamantoan.substack.com/p/widescreen</link><guid isPermaLink="false">https://victoriamantoan.substack.com/p/widescreen</guid><dc:creator><![CDATA[Victória Mantoan]]></dc:creator><pubDate>Sun, 30 Aug 2026 12:57:00 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!VU-c!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9ddf316a-bb5a-45f8-9cd6-a9afe0fda1f3_1206x1206.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<h1>Dor</h1><p>(um conto)</p><p><em>A dor &#233; alguma coisa parecida com um prego que vai entrando vagarosamente, mil&#237;metro por mil&#237;metro, s&#243; que, no lugar de fazer nascer espa&#231;o para a ferida no concreto, faz isso com a pele do humano, e com todas as camadas que v&#234;m depois. &#201; a escala que define nossa humanidade a partir de recursos notadamente inumanos. Parece contradit&#243;rio, mas apenas porque n&#227;o &#233; sem ela, a contradi&#231;&#227;o, que podemos fazer registros de nossa pr&#243;pria exist&#234;ncia. A dor, portanto, torna-se o carimbo que permite-nos dizer e atestar: passamos por aqui, afinal.</em></p><p>&#8211; E a&#237;? Quer me contar como foi?</p><p>&#8211; Foi bom. Melhor do que eu esperava. Ela me escutou por mais de uma hora. Expliquei todas as quest&#245;es, contei a saga inteira, na medida do que era fact&#237;vel recuperar dos detalhes no intervalo de sessenta minutos, j&#225; que at&#233; ent&#227;o eu achava que n&#227;o passaria disso. Tentei descrever em detalhes a intensidade das crises. Ali&#225;s, &#233; curioso isso, que a gente busque vocabul&#225;rio que d&#234; conta n&#227;o de um conte&#250;do, mas de uma ordem de intensidade. Enfim, mas ela deve estar acostumada, e entender minimamente do que se trata, n&#227;o deu nenhum sinal de choque, deve ouvir coisa muito pior todos os dias. Voc&#234; n&#227;o pensa em tentar tamb&#233;m?</p><p>&#8211; Penso, &#224;s vezes. Depois penso mais, e da&#237; desisto. Parece que ir &#233; sinal de covardia, mas &#224;s vezes penso que n&#227;o ir &#233; que faz de mim um ser amedrontado. O que foi que ela te passou?</p><p>&#8211; Duas receitas. Um para balizar o dia a dia e outro para os momentos de crise.</p><p>&#8211; E voc&#234; j&#225; consegue distinguir o dia a dia das crises?</p><p>&#8211; Hahaha acho que sim. N&#227;o tenho certeza, mas estou indo com calma. Ainda n&#227;o achei que fosse o caso de apelar para o comprimido das crises. Por ora, tenho apostado no dia a dia, e nos comprimidos b&#225;sicos.</p><p>&#8211; Em que p&#233; est&#225; essa aposta?</p><p>&#8211; N&#227;o percebi diferen&#231;as boas, ainda. S&#243; efeitos colaterais, mas ela me pediu para esperar um tempo.</p><p>&#8211; Hmmm.</p><p>&#8211; Voc&#234; n&#227;o quer mesmo nem tentar? Como voc&#234; anda?</p><p>&#8211; Ah&#8230; n&#227;o sei.</p><p>&#8211; Por que? Eu acho quase absurdo voc&#234; estar passando por tudo isso sem medica&#231;&#227;o.</p><p>&#8211; &#201;, eu tamb&#233;m. S&#243; que eu acho absurdo passar por isso com medica&#231;&#227;o tamb&#233;m. De modo geral, eu diria que vivo de altos e baixos. Um problema &#233; que os baixos s&#227;o muito baixos, e essas s&#227;o as horas e os dias em que eu penso que n&#227;o s&#243; poderia como deveria estar medicado. O outro problema &#233; que os altos tamb&#233;m s&#227;o bastante altos e essas s&#227;o as horas e os dias em que eu temo que a medica&#231;&#227;o tenha o efeito de anestesiar tudo e ainda meu senso de experimenta&#231;&#227;o.</p><p>&#8211; N&#227;o acho que funcione exatamente assim. Eu n&#227;o me sinto anestesiado, ao menos n&#227;o ainda. Me sinto meio enjoado, isso &#233; fato. Transar anda duro tamb&#233;m, com o perd&#227;o da ironia. Mas ela disse que deve melhorar em breve, ou podemos ir ajustando dose e tipo.</p><p>&#8211; N&#227;o conhe&#231;o ningu&#233;m que se sinta anestesiado, ainda assim, tenho medo. Acho que &#233; parte da minha fantasia. &#192;s vezes gasto meu tempo imaginando que passamos boa parte da vida buscando uma linearidade que n&#227;o h&#225;, como se esper&#225;ssemos que nosso trajeto fosse o gr&#225;fico de linha que aparece na frente das oscila&#231;&#245;es, apagando-as por detr&#225;s. Ou como se estiv&#233;ssemos andando pelo mundo como quem trafega uma avenida mirando o lado equivocado, o lado da vista interditada pelos pr&#233;dios, em que parece que tudo tem mais ou menos a mesma cor, a mesma altura, a mesma propor&#231;&#227;o, a mesma coordena&#231;&#227;o de arquitetura, seja ela perfeita ou mal ajambrada, mas sempre buscando um desenho que v&#225; fazer uma escadinha bem feita levando &#224; altura certa do sucesso. Do outro lado (o certo, quero dizer), se prest&#225;ssemos a devida aten&#231;&#227;o, daria para ver colinas subindo e descendo o tempo inteiro, rios ficando mais largos ou mais estreitos a depender de por onde se passa e quando; &#225;rvores altas com as copas cheias ou &#225;reas mais desfalcadas e, at&#233;, com o matagal queimado de sol. Mas penso que essas varia&#231;&#245;es extremadas s&#227;o dolorosas ao olhar, apesar de lindas, &#233; sempre melhor buscar uma harmonia, ou inventar uma, e colocar num comprimido.</p><p>&#8211; Pouco elitista, n&#233;?</p><p>&#8211; &#201;, eu sei. Tenho esse outro medo tamb&#233;m, de estar entregue &#224; sedu&#231;&#227;o da tristeza. E ao privil&#233;gio de poder ser triste. Ao mesmo tempo, temo a crise do widescreen, ou dos filmes modernos nas TVs antigas: uma evolu&#231;&#227;o que, a depender da combina&#231;&#227;o em cada casa, fez alguns de n&#243;s perder peda&#231;os de cenas importantes. N&#227;o duvido de sua efic&#225;cia, acho, mas de mim. N&#227;o deixa de ser ruim tamb&#233;m, &#233; equivocado tamb&#233;m. Acho que essa &#233; a &#250;nica constante.</p><p>&#8211; Qual?</p><p>&#8211; O equ&#237;voco. Para todos os lados que se olha, todos os passos, todas as decis&#245;es, escolhas, todas est&#227;o carimbadas de equ&#237;voco, parece.</p><p>&#8211; Philip Roth disse isso, n&#227;o?</p><p>&#8211; Disse?</p><p>&#8211; Acho que sim.</p><p>&#8211; Hmmm.</p><p>&#8211; Alguma coisa sobre viver ser entender as pessoas errado. Em <em>Pastoral Americana</em> ou <em>A marca humana</em>, n&#227;o lembro. Somos pessoas tamb&#233;m, n&#227;o?</p><p>&#8211; Equivocadas, pelo visto.</p><p>&#8211; Ele tamb&#233;m.</p><p>&#8211; Quem?</p><p>&#8211; O pr&#243;prio. Philip Roth. Um grande equivocado.</p><p>&#8211; &#201; a vida&#8230; Mas &#233; bom.</p><p>&#8211; Philip Roth?</p><p>&#8211; Tamb&#233;m, mas eu falava da vida.</p><div><hr></div><h1>G&#234;nero</h1><p>(um poema)</p><p></p><p>As contradi&#231;&#245;es, viol&#234;ncias,</p><p>as guerras, os segredos,</p><p>sangrentos,</p><p>as vergonhas, os sil&#234;ncios, </p><p>determinadas belezas</p><p>imensas,</p><p>os percal&#231;os, as dissid&#234;ncias, </p><p>as discrep&#226;ncias, incoer&#234;ncias, </p><p>os paradoxos, contrassensos, </p><p>incongru&#234;ncias, equ&#237;vocos;</p><p></p><p>todas as maiores</p><p>atrocidades, e paix&#245;es</p><p>da humanidade, da linguagem</p><p>(uma coisa s&#243;)</p><p>se escondem.</p><p></p><p>Podem ser encontradas em</p><p>palavras </p><p>que n&#227;o</p><p>flexionam</p><p>estrutura, </p><p>especialmente em g&#234;nero, </p><p>fixos, uniformes, </p><p>comuns, sobrecomuns.</p><p></p><p>(H&#225; de tudo, exceto</p><p>inocentes)</p><p></p><p>Cliente, testemunha;</p><p>crian&#231;a, criatura;</p><p>equilibrista, pianista;</p><p>Mas, sobretudo,</p><p>(fixos)</p><p>a monstruosidade &amp;</p><p>o amor.</p><p></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Correspondência]]></title><description><![CDATA[O ant&#244;nimo de claro, que n&#227;o &#233; escuro]]></description><link>https://victoriamantoan.substack.com/p/correspondencia</link><guid isPermaLink="false">https://victoriamantoan.substack.com/p/correspondencia</guid><dc:creator><![CDATA[Victória Mantoan]]></dc:creator><pubDate>Mon, 27 Jul 2026 13:52:57 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!xnU5!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F33d383b8-1d3c-4b9a-9ae5-1e2460b035d4_1200x1600.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" 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Eu ia dizendo naquele dia ao telefone que n&#227;o tenho certeza de reconhecer todos os impulsos que me habitam, o que me constrange muit&#237;ssimo, pois assumo, claro, que os mais inadvertidos s&#227;o tamb&#233;m os mais escandalosos em suas inadequa&#231;&#245;es; s&#227;o os impulsos que ficam &#224; espreita, dissimulados, voando abaixo do radar e se alimentando de ilus&#245;es apenas para engordar sua energia vital e fazer desse processo um preparo para, no momento da irrup&#231;&#227;o, no momento de abertura total do dique, vir &#224; tona numa destrui&#231;&#227;o total de territ&#243;rio.</p><p>Mas, minha querida irm&#227;, eu admito, &#233; rid&#237;culo que me surpreenda isso, que uma platitude dessas cause um estrondo em sua constata&#231;&#227;o, t&#227;o &#243;bvio que seja que homem nenhum, ou mulher, ou animal (n&#227;o &#233; isso que somos? animais arrumados e vestidos), tenha dom&#237;nio, ou sequer conhecimento, sobre seus impulsos. Tenho certeza de que isso nem mesmo me pertence exclusivamente, que n&#227;o chega remotamente perto da categoria das experi&#234;ncias &#250;nicas (inexistentes, sabemos bem).</p><p>Um casal passou hoje pela minha frente e me vi tomada por tamanho assombro que pensei ter at&#233; mexido as m&#227;os em dire&#231;&#227;o aos joelhos em busca da ponta do cobertor que, quando crian&#231;as, puxamos por cima do corpo inteiro, e especialmente da cabe&#231;a, na esperan&#231;a in&#250;til e essencial de que ele v&#225; nos proteger dos perigos do mundo &#8212; acho que essa fic&#231;&#227;o prim&#225;ria se arregimenta nas inf&#226;ncias porque apenas a crian&#231;a sabe e &#233; capaz de saber, ou de intuir, que esses tais perigos do mundo n&#227;o s&#227;o vis&#237;veis a olhos vestidos, apenas aos nus, e que, portanto, as camadas de prote&#231;&#227;o porosas que o cobertor infantil tem condi&#231;&#245;es de formar &#233; que podem realmente algo contra eles, mesmo que t&#227;o pouco, mesmo que seu efeito seja quase irreconhec&#237;vel. </p><p>Enfim, Carmem, me vi buscando esse artif&#237;cio conforme o casal passava. Me deu medo mesmo. Assombro foi a palavra primeira que me veio. Um dos dois ou os dois. E por qu&#234;?, voc&#234; poderia me perguntar. Pensei j&#225; bastante a esse respeito antes de te escrever, pairando em ang&#250;stia nessa interroga&#231;&#227;o. Agora acho que me assombrou tudo aquilo que na cena n&#227;o se pode decifrar. Os movimentos das m&#227;os e seus significados, os olhares e o que eles ditam, as passadas e seus caminhos, abertos ou fechados. De novo, os impulsos desconhecidos dos pr&#243;prios autores.</p><p>.</p><p>A coisa seguiu mais ou menos assim: primeiro eles caminhavam de m&#227;os dadas e eu tentava perceber o quanto de press&#227;o a palma de um exercia sobre a do outro; como posicionavam os polegares um em rela&#231;&#227;o ao outro, pois sabemos que isso diz muito do encaixe poss&#237;vel entre duas pessoas. Tentava conceber se existe uma m&#233;trica para dizer o qu&#227;o forte se est&#225; segurando a m&#227;o de algu&#233;m, em qual salto dessa medida deixamos de dizer que est&#227;o de m&#227;os dadas para dizer que est&#227;o de m&#227;os atadas, ou agarradas, e o quanto da press&#227;o das m&#227;os sinaliza um desejo de estar junto e a partir de qual ponto o sinal passa a estar trocado, sinalizando um medo extremo de ser abandonado ou mesmo um medo de si, de sucumbir ao &#237;mpeto de sair correndo e largar o outro ali, como se diz, de m&#227;os abanando. </p><p>Da&#237; eles sentaram, o casal que eu n&#227;o conhe&#231;o e que me roubou a aten&#231;&#227;o por minutos que est&#227;o durando ainda a eternidade desta carta. Eles sentaram e meus olhos sentaram junto com eles. A m&#227;o esquerda dela atravessou seu tronco e, passeando pelo colo do homem, perseguiu a m&#227;o direita do par, fazendo com que, para corresponder ao avan&#231;ar do encontro, ele precisasse executar o mesmo movimento de atravessar seu pr&#243;prio tronco, s&#243; numa dist&#226;ncia mais curta pois que o arranjo ficou sobre o colo dele. Ficaram como que enla&#231;ados. Mas o olhar dela, que direcionava para o ch&#227;o, fitava o desenho geom&#233;trico que as pequenas pedras formavam na cal&#231;ada. Seu olhar era triste, e teimava com o discurso das m&#227;os. Eu poderia jurar que havia algo de um equ&#237;voco no posicionamento das cadeiras tamb&#233;m. N&#227;o sei explicar, Carmem, mas havia algo errado. Cada por&#231;&#227;o de corpo e objetos sinalizava algo de diferente, montando uma colcha de contradi&#231;&#227;o exaltada.</p><p>Ao lado deles, um segundo casal, t&#227;o estranho para mim quanto para o primeiro, dan&#231;ava forr&#243;, o que adiciona complexidade &#224; minha cabe&#231;a propensa a criar confus&#227;o, porque a dan&#231;a &#233; um idioma de que nem todos t&#234;m dom&#237;nio de fala, de escuta ou de leitura. Ent&#227;o me pergunto se h&#225; coisas que a primeira mulher saberia dizer apenas dan&#231;ando, mas n&#227;o pode, porque seus p&#233;s n&#227;o conhecem os movimentos necess&#225;rios, e se h&#225; coisas que, nesse segundo casal, se dissolvem na flexibilidade extraordin&#225;ria de seus quadris. E me pergunto, ainda mais, quais s&#227;o os dilemas que eu, que n&#227;o sei dan&#231;ar, nem mesmo consigo ler no segundo casal. Deu vontade de me inscrever num curso de dan&#231;a.</p><p>O problema disso tudo, a coisa, como eu disse, de que deriva meu assombro &#233; esse fato de que toda a coreografia de m&#227;os e de movimentos e de caminhada e o lugar onde cada um se senta e a dist&#226;ncia entre as cadeiras e entre os corpos, tudo isso comp&#245;e uma cena. Mas o que &#233;, Carmem, que essa cena diz? O meu medo &#233; que cada um diz uma coisa diferente da mesma cena. Mesmo eles, que vivem a cena, uma s&#243;, a cena, cada um conta uma coisa dela. Uma cena s&#243; (ser&#225; mesmo?).  Uma m&#227;o que atravessa o pr&#243;prio colo para encontrar outra m&#227;o: uma cena de amor; uma cena de despedida; uma cena de desilus&#227;o. As milhares de cenas encenadas numa &#250;nica. </p><p>E eu ali, sentada, olhando despudoradamente para esses casais sem que eles me notassem, fazendo parte das cenas sem aviso. Eles n&#227;o sabem que os olho, mas, acima de tudo, n&#227;o sei se eles sabem mesmo o que h&#225; para se olhar naquilo que fazem. A mo&#231;a sentada: ela sabe o que suas m&#227;os querem dizer, ou os olhos?; ela conhece, pode conhecer, o conte&#250;do do que anuncia?; as m&#250;ltiplas hist&#243;rias que seus dedos hesitantes ou convictos s&#227;o capazes de contar, ela sabe quais s&#227;o? E, caso tentem muito, tentem com for&#231;a, o mo&#231;o tamb&#233;m sentado: ele ser&#225; capaz de ler nas entrelinhas do tato todos os equ&#237;vocos pelos quais ela tenta se desculpar antecipadamente, ou anunciar previamente? O fato de ter um outro casal dan&#231;ando ao lado muda alguma coisa?</p><p>N&#227;o sei se o forr&#243; &#233; alegre ou triste.</p><p>.</p><p>Tudo isso tem me deixado acordada madrugadas a dentro. Meus olhos t&#234;m carregado olheiras t&#227;o fundas e t&#227;o escuras que acho que n&#227;o conseguirei dirigir at&#233; a&#237; como havia prometido, sob risco de cair morta no meio da estrada; morta de sono, no caso, j&#225; que ele volta nas horas indesejadas para sumir novamente t&#227;o logo eu deito &#224; cama. Quem est&#225; vendo e decifrando e narrando e contando e julgando e decidindo e sabendo e se informando e acertando e errando sobre as cenas em que me encontro? Se os casais n&#227;o sabem de si, de mim sabe quem? Eu &#233; que n&#227;o devo ser. Se bem que o casal que dan&#231;a acho que sabe de si, sim. Andei olhando em volta para tentar identificar meu observador furtivo, mas todos parecem caminhar fitando os pr&#243;prios p&#233;s. Rid&#237;cula, eu. Quem, que n&#227;o eu, vai reconhecer meus impulsos escandalosos nas den&#250;ncias que meu corpo decidir fazer por conta pr&#243;pria, &#224; minha completa revelia, Carmem? Espero que ningu&#233;m. Ou que eu possa pelo menos escolher quem. Voc&#234;. A quem posso confiar esse eterna vig&#237;lia? Voc&#234; pode, minha irm&#227;, cuidar de mim mesmo t&#227;o longe? Tor&#231;o muito para que sim. </p><p>Tenho saudades infinitas. Sabemos como ficou melhor nossa camada de prote&#231;&#227;o ao nos enfiarmos juntas debaixo dos cobertores ao p&#233; da cama de nossas inf&#226;ncias. Gosto de pensar que h&#225; um sobre mim agora e que, debaixo dele,  mesmo da&#237;, voc&#234; segura minha m&#227;o com a for&#231;a exata daqueles que verdadeiramente se amam, nem forte a ponto de machucar, nem com um &#237;mpeto mixuruca a ponto de nos deixarmos escapar. </p><p>N&#227;o sei se o amor existe mesmo, mas, se existir, o meu &#233; teu. </p><p>Com ele, ent&#227;o, </p><p>Sua irm&#227;. </p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Apocalipse]]></title><description><![CDATA[um poema]]></description><link>https://victoriamantoan.substack.com/p/apocalipse</link><guid isPermaLink="false">https://victoriamantoan.substack.com/p/apocalipse</guid><dc:creator><![CDATA[Victória Mantoan]]></dc:creator><pubDate>Sat, 04 Jul 2026 02:02:34 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!VU-c!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9ddf316a-bb5a-45f8-9cd6-a9afe0fda1f3_1206x1206.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>A primeira vez que o mundo acabou, </p><p>n&#227;o era dif&#237;cil refaz&#234;-lo;</p><p>as casas eram todas</p><p>de palha, de barro; </p><p>os homens morriam aos 30, </p><p>de modo que era expresso renov&#225;-los.<br><br><br>A segunda vez que o universo desabou, </p><p>levou uma semana adicional;</p><p>com casas de madeira,</p><p>e pessoas vivendo,</p><p>e sofrendo,</p><p>e amando</p><p>um tanto mais.</p><p>Um mundo de mulheres.<br><br><br>A terceira vez que o globo enfim se estatelou,</p><p>n&#227;o faz muito tempo,</p><p>restamos n&#243;s, homens ou mulheres, </p><p>n&#227;o se sabe ao certo,</p><p>mas ainda a refaz&#234;-lo, sem garantia de sucesso, </p><p>entre restos de concreto,</p><p>de ressentimento,</p><p>de dor,</p><p>vislumbrando esperan&#231;a e</p><p>at&#233; amor</p><p>em v&#227;os cada vez mais diminutos.<br><br><br>Ainda n&#227;o se sabe de onde v&#234;m, </p><p>em verdade,</p><p>o cimento, o cal: </p><p>a vida.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Adulto não morre, só sente a dor]]></title><description><![CDATA[Um conto]]></description><link>https://victoriamantoan.substack.com/p/adulto-nao-morre-so-sente-a-dor</link><guid isPermaLink="false">https://victoriamantoan.substack.com/p/adulto-nao-morre-so-sente-a-dor</guid><dc:creator><![CDATA[Victória Mantoan]]></dc:creator><pubDate>Sun, 28 Jun 2026 10:31:27 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!WQ0F!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc26b0246-965d-45d6-9cd4-62354c5ee514_1206x735.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a 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Parecia inofensivo, muito diferente do que se v&#234; nos filmes, onde todos os exemplares da ordem aparecem aumentados, robustos, d&#225; para enxergar a curvatura da cauda e a pontinha do ferr&#227;o, as tonalidades de marrom, ou de preto, alternantes a cada gomo. O que chega a me fazer pensar se existem tonalidades diferentes da cor preto. Ali, n&#227;o. Nessa apari&#231;&#227;o, ele n&#227;o era mais do que um ponto escuro na escada, um bicho esquisito, perigoso sobretudo pelo ambiente, pela rea&#231;&#227;o do entorno, e que eu n&#227;o teria identificado de pronto sozinho e nem se a coisa toda n&#227;o tivesse desenrolado como desenrolou. Naquele fim de mundo em que eu me encontrava, com menos de 10 anos, aquele ponto preto na escada n&#227;o parecia ser mais do que um inseto qualquer.</p><p>Mas mam&#227;e me largou sozinho com ele. Volt&#225;vamos da escola quando ela o notou, e, no susto, trancou para fora de casa o bicho e, sem se dar conta, a mim. Foi um reflexo, ela me disse depois, me abra&#231;ando com um &#237;mpeto um pouco mais forte que o de costume. &#201; pe&#231;onhento, sim, mas &#233; tamb&#233;m bonito, o problema &#233; que n&#227;o d&#225; nem tempo de a gente admirar antes de o cretino atacar. N&#227;o foi o caso aquele dia, n&#227;o me atacou porque eu sou r&#225;pido, ou porque n&#227;o quis. Eu, por minha vez, sa&#237; correndo e gritando. N&#227;o que isso fosse garantir alguma coisa, mas era o recurso que eu tinha. Ao se dar conta do equ&#237;voco, de ter deixado o filho para fora de casa, mam&#227;e abriu uma frestinha da porta e me puxou. Depois pegou o telefone sem fio rec&#233;m adquirido e ligou para algum lugar a fim de solicitar um servi&#231;o que garantisse que eles n&#227;o apareceriam mais, que saberiam seu lugar.</p><p>O fato de que mor&#225;vamos na central brasileira dos bichos a ponto de as telas de nossas janelas e portas serem de uma qualidade surpreendentemente alta me dava ind&#237;cios de que n&#227;o havia nada parecido com um servi&#231;o de dedetiza&#231;&#227;o que pudesse fornecer esse tipo de garantia. Havia tamb&#233;m a quest&#227;o de que parecia, mas n&#227;o era de fato um inseto. Mam&#227;e devia pressentir isso tamb&#233;m, mas, conforme cresci, fui me acostumando ao fato de as pessoas contratarem os servi&#231;os mais improv&#225;veis para n&#227;o parecer que n&#227;o est&#227;o fazendo nada mesmo quando n&#227;o h&#225; nada que se fazer (talvez se mudar, mas n&#243;s realmente gost&#225;vamos da casa). Band-Aid no buraco de bala.</p><p>De pronto, achei que aquele acontecimento n&#227;o seria t&#227;o relevante assim, s&#243; mais um para a colet&#226;nea de encontros fortuitos com animais indesejados fadados a ocorrer com aqueles que compartilham como CEP a floresta. Mas o fato de que minha m&#227;e incorporou o ocorrido para sustentar uma grande culpa acabou dando-lhe mais subst&#226;ncia, uma subst&#226;ncia diferente, outra. Para ela, penso hoje, foi o momento em que, convocada a ter seu instinto materno comprovado pela for&#231;a da espontaneidade, descobriu-se mais submetida ao <em>cada um por si e Deus por todos</em>, o que a deixou arrasada, o que, por sua vez, eu atribuo parcialmente ao fato de que n&#227;o t&#237;nhamos tanta convic&#231;&#227;o assim sobre a parte em que ser&#237;amos integrante desse <em>todo</em> a favor do qual uma entidade superior atua. Da&#237; que foi uma rachadura profunda no espelho de boa m&#227;e que ela acreditava ser e desejava ser, onde via refletida uma imagem muito mais intransigente do que aquela que teria conjurado se me perguntasse o que eu queria ou de fato precisava. Mas claro que eu n&#227;o sou nenhum santo e que, uma vez identificada essa culpa de minha m&#227;e, n&#227;o me fiz de rogado e convoquei o epis&#243;dio a cada briga feia que travamos ao longo da minha adolesc&#234;ncia e at&#233; o in&#237;cio da idade adulta. Depois parei, porque jogar coisa na cara de m&#227;e vai ficando meio juvenil e temos de invariavelmente lan&#231;ar m&#227;o de outros artif&#237;cios para seguir a vida adiante.</p><p>.</p><p>Ao menos nossos bichos pe&#231;onhentos eram limpinhos, eu pensaria anos depois ao me deparar com avisos em elevadores de pr&#233;dios de bairros nobres em grandes metr&#243;poles alertando para infesta&#231;&#245;es do tipo. Os da minha inf&#226;ncia ao menos n&#227;o frequentavam o esgoto. A minha cidade, ali&#225;s, n&#227;o devia nem ter esgoto. Essas sujeiras que se refazem com asfalto: n&#227;o tinha nada disso l&#225; de onde eu vim.</p><p>.</p><p>Tinha muito quintal. Quintal para a mata. E a escada na frente de casa n&#227;o foi meu primeiro encontro com ele, o bicho. Um dia eu estava esplendoroso na grama dos fundos, com a toalha toda aberta e prestes a sair correndo para pular na piscina de pl&#225;stico de mil litros quando meu primo Tadeu gritou. Fiquei paralisado. Depois me ocorreu que deve haver algum sinal melhor do que o grito quando o que se espera do outro &#233; que ele saia correndo e n&#227;o que paralise ao lado da amea&#231;a. Como saber, no fim das contas, se um grito &#233; para agilizar ou para parar quieto? Um aviso ou at&#233; um pedido de socorro? Ou mesmo qual a dire&#231;&#227;o na qual correr, ou do que correr? No meu caso, virei est&#225;tua, assustado que s&#243;, contaminado pelo medo alheio antes mesmo de saber do que era que eu deveria ter tanto medo. Ele apontava sem conseguir pronunciar palavra, mas o quintal era muito grande e eu n&#227;o conseguia acertar a vista no que ele queria tanto que eu mirasse. </p><p>At&#233; que eu vi. Finalmente eu vi. Era t&#227;o pequeno, t&#227;o pretinho, t&#227;o aparentemente, de novo, inofensivo. Nem sei como eu soube o que era &#224;quela dist&#226;ncia, s&#243; sei que eu soube, porque acho que sempre soube. Foi a inaugura&#231;&#227;o daquele saber, da sensa&#231;&#227;o de uma rea&#231;&#227;o um tanto exagerada para um bicho t&#227;o pequeno que eu veria reencenada com minha m&#227;e. E depois, porque o mundo d&#225; voltas, comigo mesmo. D&#225; vontade de rir. </p><p>Mentira, n&#227;o d&#225;. Quando a minha vista alcan&#231;ou o que Tadeu apontava, comecei a gritar tamb&#233;m. Da&#237; ao inv&#233;s de paralisar eu corri, corri muito e me enfiei na piscina com tanta falta de jeito que entrou &#225;gua at&#233; pelo meu nariz. Levantei e, enquanto sentia a narina arder, ficava olhando Tadeu em cima da toalha. Me pareceu veross&#237;mil tamb&#233;m que a toalha fosse um lugar seguro para ele, como se o bicho n&#227;o fosse capaz de ir da grama at&#233; ela para pic&#225;-lo. Me ocorreu tamb&#233;m na hora n&#227;o saber se era um bicho que pula, se apenas corre r&#225;pido, s&#243; sabia que n&#227;o voava, que n&#227;o voa. Se pula ou n&#227;o &#233; algo que at&#233; hoje n&#227;o sei. Tamb&#233;m assumi que n&#227;o gostasse de &#225;gua. A d&#250;vida me ocorreu e foi embora t&#227;o r&#225;pido quanto Tadeu saiu correndo para dentro da casa e fechou a porta de tela.</p><p>Eu fiquei. De novo, fiquei. Ou, melhor seria dizer, fiquei pela primeira vez &#224; merc&#234;, s&#243; que sem saber. Essa parte s&#243; soube na terceira vez, ao fechar a trindade. Fiquei l&#225; parado fitando a minha toalha e vendo o bicho se mexer perto dela, sem saber se ele ia subir ou n&#227;o e me perguntando se o veneno era algo que ficava na pele dele ou se ele expelia s&#243; quando queria provar um ponto ou machucar ou matar algu&#233;m. Se ele subisse na minha toalha, ela ficaria perdida para sempre? <span>Quando eu era crian&#231;a, o bicho era caso de vida ou morte; por isso eu sabia o que era mesmo antes de ver, de conhecer. Se encontrasse um, era preciso fugir, fugir rapidamente, e procurar ajuda e providenciar quem o matasse antes que matasse voc&#234;. Era uma min&#250;scula senten&#231;a de morte.</span></p><p>.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ZGl9!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F335ce0fd-38ab-4dac-a7b9-d67e07f66586_1206x672.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ZGl9!, /__u/victoriamantoan.substack.com/w_424, /__u/victoriamantoan.substack.com/c_limit, /__u/victoriamantoan.substack.com/f_webp, /__u/victoriamantoan.substack.com/q_auto:good, /__u/victoriamantoan.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F335ce0fd-38ab-4dac-a7b9-d67e07f66586_1206x672.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!ZGl9!, /__u/victoriamantoan.substack.com/w_848, 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Mas essas coisas n&#227;o tinham o significado que pode parecer falando assim agora; naquela idade, ou ao menos para mim, n&#227;o era desse jeito. Eu n&#227;o era apaixonado como se a quisesse beijar na boca ou perder a virgindade com ela, n&#227;o tinha nem certeza se gostava mesmo de menina. Era apaixonado como quem se sente a pessoa mais sortuda do mundo de haver encontrado algu&#233;m com quem podia ser quem eu era e deixar aflorar todas as minhas hist&#243;rias, inquieta&#231;&#245;es, medos, del&#237;rios e fantasias. N&#227;o daria um passo para toc&#225;-la que pudesse colocar em risco a possibilidade de lhe oferecer meus di&#225;rios para leitura. E eu dava acesso a todos. Eu sabia que queria contar tudo para ela correndo e que achava a pele e o cabelo dela as coisas mais lindas que existiam, e que gostava de olhar. Mas a prova de amor eram os 300 reais de conta de telefone que me rendiam castigos sempre que ela viajava de f&#233;rias. </p><p><span>S&#243; que essa via aberta tinha &#237;mpetos de viol&#234;ncia sem explica&#231;&#245;es, de lado a lado. </span>Um dia eu acordava com raiva de ter de vestir um uniforme azul para a escola e achava que era tudo culpa dela, porque seu corpo era exageradamente branco, de modo que ela ficava linda com aquela camiseta, com o contraste de cor. E eu ficava meio apagado. Ent&#227;o eu passava um dia inteiro a beliscando ou fazendo provoca&#231;&#245;es certeiras. N&#227;o sei quais as motiva&#231;&#245;es aleat&#243;rias dela, mas eram bastante equilibradas as iniciativas desses rompantes entre n&#243;s. Depois passava e &#237;amos para a casa um do outro como se nada tivesse acontecido. Na idade fantasmag&#243;rica dos 15 anos as brigas n&#227;o precisam ter come&#231;o e nem fim, ou mesmo fundamento, elas se sustentam no ar. A inven&#231;&#227;o adulta do fechamento perfeito e in&#237;cio rastre&#225;vel n&#227;o tinha nos alcan&#231;ado, ainda.</p><p>Naquele dia est&#225;vamos sentados pacificamente supostamente assistindo a um jogo que nem lembro mais de que era, de t&#227;o irrelevante. Handebol possivelmente. N&#227;o passava de mais um pretexto para sair de casa. Est&#225;vamos na arquibancada do clube enquanto outras pessoas da nossa idade com mais traquejo esportivo faziam sua atividade no campo. N&#227;o lembro de estarmos brigando, n&#227;o lembro de estarmos naquele &#237;nterim da viol&#234;ncia, apenas deix&#225;vamos a bola montar uma cena de fundo enquanto fal&#225;vamos da vida, da escola, do futuro, sobre o dia em que sair&#237;amos livremente daquele fim de mundo para conhecer mil outras cidades, mas, sobretudo, sobre como nossa amizade, nosso <em>amor</em>, sobreviveria a tudo; <em>ser&#237;amos amigos para sempre</em>. A conversa era do tipo que costum&#225;vamos ter repetidamente, ora muito investida, olho no olho, ora como se um apenas fizesse companhia ao outro durante a pr&#243;pria argui&#231;&#227;o, podendo nossos olhares passearem pelo campo enquanto um falava e o outro escutava e vice-versa, n&#227;o sem alguma sobreposi&#231;&#227;o.</p><p>De repente o fluxo se quebrou e veio a m&#227;o dela no meu bra&#231;o como se limpasse uma sujeira. Do nada, aquele som de <em>Ecaaaa!. </em></p><p>E ent&#227;o a risada, e ent&#227;o olhar. Ou talvez primeiro o olhar e depois a risada, n&#227;o sei mais. <span>Sei do olhar. Ah, eu nunca vou esquecer daquele olhar, era meio maldoso. Ela tinha feito alguma coisa e eu demorei sete </span>segundos de eternidade para<span> entender o que era. Sei do sorriso, que nasceu um sorriso sorrateiro no rosto dela tamb&#233;m. Foram mais alguns segundos paralisado no rosto dela antes de desviar a aten&#231;&#227;o para o que acontecia com as m&#227;os, para o movimento de passar algo em mim e tentar desvendar o que era esse algo.</span></p><p><span>Eu finalmente olhei para a madeira meio apodrecida da arquibancada e l&#225; estava ele: o bicho. Um restinho de bicho, na verdade. O bicho morto, t&#227;o desfeito que nem sei como eu o reconheci, mas l&#225; restava os escombros de uma amea&#231;a que s&#243; eu vi. Ela tinha esfregado a senten&#231;a de morte em mim. Sem raz&#227;o de ser, como boa parte das viol&#234;ncias entre os adultos. Era isso o que era ent&#227;o, nosso rito de inicia&#231;&#227;o?</span></p><p><span>Eu, &#233; claro, comecei um esc&#226;ndalo. Nem sei se estava mais apavorado com a ideia de morrer, de ter de ir correndo ao hospital mais pr&#243;ximo procurar um soro ou com o fato de ter partido dela essa descalabro. Mas&#8230; </span><em><span>n&#227;o deveria estar doendo? Come&#231;a a doer s&#243; depois? Quanto tempo depois? Se n&#227;o tem picada, s&#243; o contato com o veneno d&#243;i tamb&#233;m? O bicho tem de estar vivo e usar o ferr&#227;o ativamente para injetar sua subst&#226;ncia derradeira em voc&#234; para a amea&#231;a ser completa?</span></em><span> Tudo isso me invadia enquanto eu sentia &#243;dio pelo que ela tinha feito. &#211;dio dela. E ela sorrindo, pelo meu desespero e, acho, pela minha inoc&#234;ncia. Eu sabia que ia morrer, s&#243; n&#227;o sabia de qu&#234;.</span></p><p><span>&#8212; Foi uma brincadeira, Gabriel. &#8212; Ela finalmente disse, vendo que meu p&#226;nico n&#227;o dissipava, ou meu &#243;dio, ou os dois, e completou com a frase que me fez odi&#225;-la ainda mais: &#8212; &#201; s&#243; um escorpi&#227;o.</span></p><p><span>&#8212; &#201; venenoso. Mata. &#8212; Retruquei entre dentes, j&#225; sabendo que meu alarmismo estava destinado ao fracasso.</span></p><p><span>&#8212; Isso &#233; mais para idosos e crian&#231;as pequenas. Tamb&#233;m n&#227;o &#233; assim esse desespero todo, ele t&#225; morto, t&#225; vendo? S&#243; &#233; meio nojento. E voc&#234; n&#227;o soube do tio Ronaldo? M&#234;s passado mesmo ele levou uma picada na hora de colocar o sapato e foi at&#233; viajar a trabalho logo depois. S&#243; passou no hospital no dia seguinte, quando j&#225; tava em Bel&#233;m, porque tava meio incomodado, mas n&#227;o deu nada. N&#227;o &#233; t&#227;o grave assim. N&#227;o que seja imposs&#237;vel, mas n&#227;o &#233; para tanto tamb&#233;m&#8230; </span></p><p><span>O p&#226;nico foi dando lugar &#224; ofensa. Agora eu sabia que o &#243;dio era por ela estar aguando a minha raiva, por ter deixado minha senten&#231;a de morte e os ataques e as amea&#231;as com a verossimilhan&#231;a prejudicada, com coisas como </span><em><span>depende da esp&#233;cie</span></em><span> </span><em><span>e da gravidade da picada</span></em><span>. </span><em><span>Depende. Depende. Depende</span></em><span>. Queria bater nela. Sem saber que ainda ia ficar tudo pior:</span></p><p><span>&#8212; Adulto n&#227;o morre disso, Gabriel. S&#243; sente a dor.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Notas sobre Pasolini]]></title><description><![CDATA[(Uma propaganda meio enganosa)]]></description><link>https://victoriamantoan.substack.com/p/notas-sobre-pasolini</link><guid isPermaLink="false">https://victoriamantoan.substack.com/p/notas-sobre-pasolini</guid><dc:creator><![CDATA[Victória Mantoan]]></dc:creator><pubDate>Tue, 23 Jun 2026 14:00:01 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!rBO-!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F249f3f07-ab51-4b47-9c55-773cc2211f62_3023x1836.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!rBO-!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F249f3f07-ab51-4b47-9c55-773cc2211f62_3023x1836.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!rBO-!, /__u/victoriamantoan.substack.com/w_424, /__u/victoriamantoan.substack.com/c_limit, /__u/victoriamantoan.substack.com/f_webp, /__u/victoriamantoan.substack.com/q_auto:good, /__u/victoriamantoan.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F249f3f07-ab51-4b47-9c55-773cc2211f62_3023x1836.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!rBO-!, /__u/victoriamantoan.substack.com/w_848, /__u/victoriamantoan.substack.com/c_limit, /__u/victoriamantoan.substack.com/f_webp, /__u/victoriamantoan.substack.com/q_auto:good, 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verdade, o certo seria dizer <em>Notas sobre o Pasolini que Massimo Recalcati encontrou</em>, mas seria um t&#237;tulo menos direto ao ponto, ainda que infinitamente mais verdadeiro. Porque &#233; isso: estou falando de um Pasolini mediado e o que me encantou aqui talvez tenha sido o Pasolini, porque j&#225; o conhecia e o sabia encantador, mas, bom, estou escrevendo essas notas agora e n&#227;o antes, ou seja: depois de ter me deparado n&#227;o com um Pasolini apaixonante mas sim com um Massimo Recalcati apaixonado com o Pasolini que ajudou a moldar sua vida. Seria injusto dizer que tudo reside no olhar de Recalcati, mas que ele foi uma boa mola propulsora, foi. </p><p>O Pasolini eu conhe&#231;o desde&#8230; sempre? Mas foi ainda neste 2026 que eu conheci o trabalho do Massimo Recalcati, psicanalista italiano, num semin&#225;rio que ele deu em janeiro na minha escola de forma&#231;&#227;o. O tema de sua fala foi &#8220;Cl&#237;nica do vazio e neomelancolia&#8221;. Parecia que ia ser um detalhamento t&#233;cnico e cl&#237;nico, ent&#227;o qual n&#227;o foi a minha surpresa quando ele fez um paralelo bel&#237;ssimo (e bem executado) sobre o momento pol&#237;tico que vivemos (pa&#237;ses fechados sobre si mesmos) e os sofrimentos que chegam &#224; cl&#237;nica? Mas n&#227;o s&#243;: ele avan&#231;ou para a discuss&#227;o das m&#250;ltiplas ades&#245;es a regimes conservadores&#8230;e a&#237; veio a inclus&#227;o do que eu descobriria depois que era uma grande paix&#227;o: ele trouxe Pasolini para a conversa, como o pensador que se ocupou de iluminar as camadas do nosso totalitarismo. &#8220;Nosso&#8221; n&#227;o porque sejamos da mesma gera&#231;&#227;o, claro, mas porque tanto ele quanto Recalcati, e agora n&#243;s, eu e voc&#234;, estavam falando do que ficou depois que os regimes evidentemente totalit&#225;rios (Mussolini e cia.) ca&#237;ram: n&#227;o a reden&#231;&#227;o, como nos dizem Pasolini e Recalcati, mas um outro tipo de totalitarismo, o do objeto, do imperativo do gozo, da oferta ilimitada de produtos e demanda de consumo, tamb&#233;m esta ilimitada. </p><p>Talvez a  formula&#231;&#227;o n&#227;o tenha nada de in&#233;dito agora e nem precisasse de um intelectual morto e de um psicanalista italiano apaixonado para nos lembrar que estamos o tempo todo &#224; merc&#234; do neoliberalismo, por mais que isso pare&#231;a agora algo t&#227;o esvaziado de sentido de tanto que vemos se repetir sem se alterar na l&#243;gica das redes sociais&#8230;</p><p>Enfim. Passados alguns meses, me deparo com o &#8220;<strong>Pasolini - o fantasma da Origem</strong>&#8221;, de Massimo Recalcati, me encarando na livraria ao lado de onde fa&#231;o mestrado. Um texto singelo, curto at&#233;, que eu devorei. E o que acho que h&#225; de bonito aqui &#233; o processo todo de constru&#231;&#227;o das ideias. &#201; bonito, bonito mesmo, bonito &#233; a palavra que mais repetirei, que acessa nossa dimens&#227;o est&#233;tica. O que deixa tamb&#233;m empolgante, acessando a dimens&#227;o da experi&#234;ncia, ainda que no fundo sejam a mesma e uma s&#243; dimens&#227;o. Eu j&#225; disse aonde tudo vai chegar, e, caso n&#227;o tenha feito isso de modo claro: vai chegar na ideia de que estamos vivendo tempos complicad&#237;ssimos, sim, e de que h&#225; uma origem por tr&#225;s dessa complica&#231;&#227;o e que Pasolini a sacou bem. </p><p>Mas o processo para chegar l&#225; passa por alguns pontos. E o final tem sempre um qu&#234; de esperan&#231;a, acho (mas isso talvez seja eu).</p><p>.</p><ul><li><p><strong>O paradoxo: fonte de lucidez</strong></p></li></ul><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!LBWJ!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F119fcb49-a780-4d55-97c4-9784d9ad0050_1600x698.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!LBWJ!, /__u/victoriamantoan.substack.com/w_424, /__u/victoriamantoan.substack.com/c_limit, /__u/victoriamantoan.substack.com/f_webp, /__u/victoriamantoan.substack.com/q_auto:good, /__u/victoriamantoan.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F119fcb49-a780-4d55-97c4-9784d9ad0050_1600x698.jpeg 424w, 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das coisas mais bonitas (olha a&#237;) que Recalcati faz &#233; costurar a obra do Pasolini que lhe interessa tentando construir um caminho oscilante, mas consistente, e n&#227;o fechar uma colcha de sentidos. Os buracos ficam todos l&#225;, escancarados. E voc&#234; pode terminar a leitura identificando contradi&#231;&#245;es, pontas soltas, perguntas sem respostas, mesmo sabendo que isso n&#227;o &#233; fruto de incompet&#234;ncia do autor (muito pelo contr&#225;rio), que apenas significa que tudo isso &#233; capaz de conviver, n&#227;o de maneira pac&#237;fica, mas de modo a n&#227;o varrer para de baixo do tapete as contradi&#231;&#245;es, nem as nossas, nem as dos homens &#8212; aqui falo dos homens como n&#243;s e dos homens espec&#237;ficos tamb&#233;m, Recalcati e Pasolini. </p><p>Porque, se h&#225; algo que se coloca, ele nos diz logo de largada, &#233; o paradoxo. E o paradoxo n&#227;o cessa de existir e nem de gerar pontos criativos. Eu n&#227;o conhe&#231;o tanto da vida de Pasolini para dizer, mas, confiando em Recalcati, o que temos &#233; que isso que Pasolini identifica no homem social, no homem como entidade do mundo l&#225; fora, homem que trabalha, que ganha dinheiro, que compra, que toma decis&#245;es a respeito de como se inserir na sociedade, opera numa l&#243;gica an&#225;loga &#224; do fantasma que lhe assombra no &#237;ntimo: pois, se no social o que est&#225; em jogo &#233; a necessidade desenfreada de um gozo via consumo e ades&#227;o ao imperativo capitalista, uma l&#243;gica que poder&#237;amos chamar de perversa (o gozo toma o lugar da lei), algo parecido acontece na vida &#237;ntima de Pasolini, nos indica Recalcati; ou, ao menos, na vida amorosa de que ele deu testemunho em seus poemas. Para isso, Recalcati traz alguns excertos bel&#237;ssimos do que me pareceu, em bom portugu&#234;s, a tortura mental do religioso Pasolini, que n&#227;o conseguia n&#227;o passar o rodo e tampouco conseguia se conectar afetivamente com os queridos que ele sa&#237;a pegando por a&#237;. Em suma, ele n&#227;o se sentia capaz de amar. </p><p>A aposta de Recalcati &#233; que Pasolini teria sido capaz de ver com tanta clareza, com tanta lucidez e com tanta &#8220;anteced&#234;ncia&#8221; at&#233;, esse modo de funcionamento social justamente porque havia algo dessa l&#243;gica desenfreada, insistente e obsessiva naquilo que eram seus dem&#244;nios internos. N&#227;o &#233; lindo isso? Que a sua vulnerabilidade &#233; que tenha lhe permitido a cr&#237;tica&#8230;? Eu n&#227;o vou entrar aqui nos pormenores psicanal&#237;ticos em que Recalcati mergulha para dar contorno a isso tudo (para surpresa de zero psicanalistas, tem a ver com a m&#227;e e com o pai de Pasolini, ainda que Recalcati mobilize super pouco a biografia do homem), mas vou dizer isso: &#233; poss&#237;vel saber que algu&#233;m &#233; bom no que faz quando consegue exalar simplicidade ao expor seus argumentos. E acrescento que conceder um olhar psicanal&#237;tico para algu&#233;m como Pasolini sem cair na psican&#225;lise selvagem e sem ser reducionista com uma personalidade t&#227;o plural realmente &#233; para poucos.</p><p>Mas, como o esp&#237;rito aqui tamb&#233;m &#233; ir navegando pelo que a leitura suscita, vou dizer que suspeito que n&#227;o foi Recalcati e nem qualquer outro italiano quem melhor compreendeu a dimens&#227;o privada de Pasolini, e sim o brasileir&#237;ssimo cantor e compositor Jo&#227;o Rubinato, tamb&#233;m conhecido como Adoniran Barbosa, nascido, veja s&#243;, na cidade de Valinhos, Regi&#227;o Metropolitana de Campinas. Enquanto lia os poemas selecionados para a reflex&#227;o e as an&#225;lises decorrentes, imaginava um Pasolini cabisbaixo, exausto de mais uma noitada de sexo deliciosa e culposa, caminhando de volta para casa debaixo de garoa fina e vento gelado, tentando se aninhar no pr&#243;prio casaco. Na minha fantasia (bom deixar claro, estamos totalmente no plano da minha imagina&#231;&#227;o), tudo seria diferente se ele pudesse colocar &#8220;Trem Das Onze&#8221; para tocar no seu trajeto. Se sentiria verdadeiramente compreendido e menos s&#243;, talvez at&#233; pudesse tocar o amor (se &#233; que realmente n&#227;o tocou). Ent&#227;o seu retorno seria um pouco mais alegre. S&#243; um pouco: &#233; prov&#225;vel que o vento seguisse gelado, mas gosto de pensar que o samba poderia ao menos produzir uma tr&#233;gua da chuva.</p><p></p><iframe class="spotify-wrap" data-attrs="{&quot;image&quot;:&quot;https://i.scdn.co/image/ab67616d0000b273ae238de2917a9cc997dedd6d&quot;,&quot;title&quot;:&quot;Trem Das Onze&quot;,&quot;subtitle&quot;:&quot;Adoniran Barbosa&quot;,&quot;description&quot;:&quot;&quot;,&quot;url&quot;:&quot;https://open.spotify.com/track/5JSNcb3MwTxkDH4mrYKnHG&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;noScroll&quot;:false}" src="https://open.spotify.com/embed/track/5JSNcb3MwTxkDH4mrYKnHG" frameborder="0" gesture="media" allowfullscreen="true" allow="encrypted-media" loading="lazy" data-component-name="Spotify2ToDOM"></iframe><p></p><p>.</p><p>Leitura boa &#233; assim. E trago para c&#225;, ent&#227;o, as anota&#231;&#245;es que fiz no restinho em branco da ultima p&#225;gina, logo que terminei o livro (&#224; quente, como se diz):</p><p><em>Que leitura linda e simples de um homem extraordin&#225;rio. Um olhar l&#250;cido, mas n&#227;o ass&#233;ptico, sequer neutro, e muito menos totalizante. Apaixonado, at&#233;, eu diria. Vou me repetir, eu sei, mas: est&#225; tudo aqui, s&#243; que numa simplicidade que chega a ser desconcertante, como se ele estivesse dizendo um monte de coisas &#243;bvias e sabidas, mas articuladas desse jeito simples t&#227;o dif&#237;cil de se produzir hoje em dia e, por isso, elegante? Freud, Lacan, Gramsci, o homem e o intelectual Pasolini; o passado, o presente e uma esperan&#231;a de futuro. </em></p><p><em>H&#225; algumas coisas que me fazem saber que amei um livro: n&#227;o conseguir largar a caneta durante a leitura pelo &#237;mpeto de grifar tudo; n&#227;o conseguir largar a caneta depois, fazendo notas compulsivas sobre o que acabei de ver (que me bote para pensar e perguntar uma por&#231;&#227;o de coisas). Mas acho que sobretudo: um desejo constante de mandar diferentes trechos para diferentes pessoas da minha vida por diferentes motivos, o que sempre me deixa mais feliz e otimista porque me faz sentir que, embora ler possa ser uma atividade eminentemente solit&#225;ria, n&#227;o &#233; uma atividade que produz, no seu sentido mais pleno, solid&#227;o. Ao contr&#225;rio, me faz sentir profundamente conectada a pessoas que amo e admiro, quer eu envie os trechos, quer n&#227;o. Neste caso, enviei muitos; cedi ao medo c&#237;nico de ser mal interpretada e recuei em outros; guardei mais um punhado na minha caixinha de saudades.</em> </p><p>.</p><ul><li><p><strong>A experi&#234;ncia religiosa mal compreendida; fonte de otimismo</strong></p></li></ul><p>Embora possa parecer (e talvez tenha sido o caso) que a rela&#231;&#227;o com a religi&#227;o marca de Pasolini deva ter sido fonte generosa de autoflagelo diante dos pr&#243;prios pecados, me parece interessante essa diferencia&#231;&#227;o que ele faz entre o que poder&#237;amos chamar de uma certa burocracia religiosa e a experi&#234;ncia religiosa em si. Eu achei &#243;tima, inclusive, para pensar a nova onde de religiosidade (ou seria um religiosismo?) que nos assola. Eu n&#227;o vou refazer aqui toda a constru&#231;&#227;o, mas, depois de explicar de que modo o conceito de burguesia est&#225; presente nas ideias do Pasolini, e como o homem passou por essa transforma&#231;&#227;o de s&#250;dito de uma autoridade evidente para escravo do consumo, ele faz essa bel&#237;ssima distin&#231;&#227;o entre estar debaixo do guarda-chuva de uma institui&#231;&#227;o religiosa e de fato experimentar o sentimento religioso. </p><p>Isso &#233; feito a partir da leitura que Recalcati faz da obra <strong>&#8220;Teorema&#8221;.</strong> &#201; muito prov&#225;vel que eu tenha achado essa a parte mais genial e empolgante do livro. Ele descreve a constru&#231;&#227;o pasoliniana da fragmenta&#231;&#227;o de uma fam&#237;lia burguesa a partir de chegada de um h&#243;spede que deixa a tudo e todos em polvorosa por sua&#8230; beleza. </p><p>Olha ela a&#237; de novo, tudo muito bonito.</p><blockquote><p><em>&#8220;O que mais interessa a Pasolini &#233; o car&#225;ter prof&#233;tico do encontro, &#233; a experi&#234;ncia do acontecimento que, como tal, desorienta toda ordem constitu&#237;da, sobretudo a da fam&#237;lia burguesa. A partir da chegada deste inef&#225;vel h&#243;spede, a vida can&#244;nica desta fam&#237;lia e dos seus cinco integrantes &#233; radicalmente subvertida. Nada mais ser&#225; como antes. O acontecimento &#233;, na verdade, aquilo que de forma crist&#227; para Pasolini excede a Lei do mundo. Uma outra Lei faz a sua apari&#231;&#227;o no papel da beleza irresist&#237;vel que envolve o h&#243;spede misterioso. Em jogo est&#225; a natureza do sagrado como encontro; possibilidade de convers&#227;o, possibilidade de dar &#224; pr&#243;pria vida uma nova forma. &#201; a figura de Cristo que paira no horizonte, n&#227;o tanto como o profeta de uma nova religi&#227;o, mas como oportunidade para o homem viver um novo in&#237;cio, para fazer a experi&#234;ncia da for&#231;a transformadora do acontecimento. N&#227;o por acaso, para Pasolini o car&#225;ter divino de Cristo n&#227;o consiste na sua emancipa&#231;&#227;o do homem, mas em realizar plenamente a humanidade do homem. &#201; este o centro de </em>O Evangelho segundo S&#227;o Mateus<em>. Mas tamb&#233;m de</em> S&#227;o Paolo<em>, escrito justamente ao longo dos protestos de 68. <br>Aquilo que no adorado Gramsci se resolvia na milit&#226;ncia da raz&#227;o cr&#237;tica e da luta de classes, no enquadramento filos&#243;fico do materialismo hist&#243;rico, em Paulo de Tarso revela-se no milagre da ressurei&#231;&#227;o como possibilidade sempre presente de dar uma forma nova &#224; vida. Bem, em </em>Teorema<em> o h&#243;spede encarna precisamente esse milagre na forma est&#233;tica de uma beleza que irradia uma pot&#234;ncia vital sem precedentes, o excesso de uma transcend&#234;ncia que n&#227;o se deixa integrar &#224; ordem constitu&#237;da da vida burguesa. Em outras palavras, est&#225; em causa o trauma e uma promessa que n&#227;o pode ser administrada pela raz&#227;o instrumental e desmitificadora que governa o esp&#237;rito burgu&#234;s.<br>N&#227;o se trata aqui &#8212; como poderia parecer em uma primeira leitura &#8212; da irrup&#231;&#227;o do car&#225;ter primordial da puls&#227;o sexual, mas da presen&#231;a de um mist&#233;rio &#8212; de um excesso &#8212; que n&#227;o pode ser contabilizado pela raz&#227;o instrumental. O seu efeito, como diria Lacan, &#233; o de uma </em>tyche<em>, de um choque, de um despertar que abala. N&#227;o por acaso o seu car&#225;ter &#171;extraordin&#225;rio&#187; coincide acima de tudo com a sua &#171;beleza&#187;: &#171;Uma beleza t&#227;o excepcional, capaz de um contraste quase escandaloso com todos os outros presentes&#187;&#8221;</em></p></blockquote><p>Vou dar um salto, mas ainda estamos (o Recalcati est&#225;) falando de &#8220;Teorema&#8221;:</p><blockquote><p><em>&#8220;O cristianismo de Pasolini &#233; aqui sintetizado na sua forma mais essencial: o encontro com a verdade pode desconcertar a nossa vida. Nisso, a &#171;extraordin&#225;ria&#187; beleza do h&#243;spede &#233; indicativa da sua rela&#231;&#227;o estreita com o desejo. O evento pelo qual Pasolini est&#225; interessado &#233; exatamente o evento do desejo. N&#227;o &#233; talvez esta a sua leitura de Jesus n&#8217;</em>O Evangelho segundo S&#227;o Mateus<em>? Jesus de Nazar&#233; n&#227;o &#233; talvez uma poderosa encarna&#231;&#227;o da for&#231;a do desejo? Por esta raz&#227;o a entrada do h&#243;spede na casa leva cada um dos membros da fam&#237;lia a uma transforma&#231;&#227;o que tem como eixo justamente a revela&#231;&#227;o do desejo de cada um a si mesmo.&#8221;</em></p></blockquote><p>E a&#237; ele vai seguir explicitando de que modo a burguesia (e ser&#225; fundamental voltar ao momento em que ele explica que n&#227;o se trata aqui de uma camada s&#243;cio-econ&#244;mica, mas de um modo de funcionar e estar no mundo) compreendeu mal a experi&#234;ncia religiosa (onde eu vejo a sacada para entender essa sensa&#231;&#227;o difusa e triste ao parecer que coisas do tipo <em>Caf&#233; com Deus Pai</em> soam mais como um protocolo dogm&#225;tico do que um amanhecer de fato religioso): </p><blockquote><p><em>&#8220;O moralismo da consci&#234;ncia burguesa substituiu assim o excesso do sentimento autenticamente religioso&#8221;. </em></p></blockquote><p>O moralismo da consci&#234;ncia! Como eu entendi: ficam as regras, os ritos, as morais, a assinatura de presen&#231;a na reuni&#227;o de domingo, o post do batizado, as listas de certo e errado sem zonas cinzas; sai a possibilidade do mist&#233;rio. &#201; claro que &#233; muito mais f&#225;cil enxergar o fen&#244;meno no extremo oposto ao que nos encontramos e, para mim, que n&#227;o acredito em Deus e nem sou filiada a qualquer tipo de religiosidade formal, &#233; especialmente reconfortante apontar essa esp&#233;cie de modo utilit&#225;rio de estar e experimentar o mundo na religiosidade e no moralismo dos <em>outros</em>, mas &#233; perturbador tamb&#233;m perceber que a queda da experi&#234;ncia religiosa tal qual Pasolini pareceu a pensar n&#227;o est&#225; apenas nos fan&#225;ticos religiosos de hoje (embora eu deva insistir que a ironia &#233; excelente), mas em todos e cada um de n&#243;s, inclusive naqueles que amamos e em nosso pr&#243;prio reflexo no espelho.</p><p><em>Ok, Vict&#243;ria, e o otimismo, cad&#234;?</em></p><p>De bate e pronto, eu diria: est&#225; na poesia. Se formos levar em conta o que Borges nos ensinou em seu <em>of&#237;cio do verso</em>, seria justo dizer que os poetas s&#227;o talvez o &#250;ltimo reduto da verdadeira experi&#234;ncia religiosa do nosso tempo, ou at&#233; mesmo de todos os tempos. Incluindo nisso, evidentemente, a poesia de Pasolini.</p><p>Mas d&#225; para ir al&#233;m. O livro termina resgatando a cr&#237;tica (que n&#227;o foi fraca, nem pouca) que Pasolini fez aos protestos e aos protestantes de 68. Aqui se amarra a corda bamba que Pasolini enfrentou de fazer um diagn&#243;stico do novo homem servo ao capitalismo sem aderir a um anarquismo anti-institucional. Para algu&#233;m como eu, que continua tendo f&#233; (rs) no processo democr&#225;tico, vai uma das sacadas mais emocionantes: n&#227;o a destrui&#231;&#227;o total, mas a ideia de que se possa pensar em institui&#231;&#245;es menos impessoais e mais <em>comoventes</em>. Nem o conservador cl&#225;ssico, nem o revolucion&#225;rio padr&#227;o, e sim o cr&#237;tico feroz e, acima de tudo, engajado (outra palavra lamentavelmente gasta e cooptada). Ou, nas palavras do pr&#243;prio Recalcati: </p><blockquote><p><em>&#8220;Pode-se morrer por uma institui&#231;&#227;o, pode-se viver por uma institui&#231;&#227;o.&#8221;</em></p><p><em>&#8220;repensar as institui&#231;&#245;es n&#227;o a partir do poder, mas da fraternidade.&#8221;</em></p></blockquote><p>Eu n&#227;o vou transpor para c&#225; o trecho que finaliza o livro, pois espero que voc&#234; compre um exemplar na livraria de rua mais pr&#243;xima e chegue at&#233; ele por conta pr&#243;pria. Mas adianto: &#233; de chorar. </p><ul><li><p><strong>O encontro</strong></p></li></ul><p>N&#227;o h&#225; tanto o que dizer aqui, exceto: n&#227;o &#233; lindo isso de ver registrado em papel esse apaixonamento?</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!9xdj!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1a317867-39f7-494c-b49a-880d6eb37fc2_1759x1414.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!9xdj!, /__u/victoriamantoan.substack.com/w_424, /__u/victoriamantoan.substack.com/c_limit, /__u/victoriamantoan.substack.com/f_webp, /__u/victoriamantoan.substack.com/q_auto:good, 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y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><div><hr></div><p><strong>Extra 1:</strong> apenas Massimo Recalcati</p><p>O que ainda me assombra das reflex&#245;es que Recalcati trouxe em janeiro, n&#227;o apenas a partir de sua leitura de Pasolini, foi o que ele chamou de modos de defesa desse sujeito contempor&#226;neo. Ele (Recalcati) movimenta o conceito de puls&#227;o de seguran&#231;a para falar de quando &#8220;a seguran&#231;a vale mais do que a felicidade&#8221;. E a&#237; o problema que se coloca para pensarmos hoje, ele nos diz, n&#227;o &#233; por que as pessoas &#8220;aceitaram&#8221; (de modo passivo) regimes autorit&#225;rios no passado, mas encarar a perspectiva de que esses regimes tenham sido (ativamente) desejados. Ainda segundo Recalcati, tentar entender por que &#233; poss&#237;vel que as pessoas sintam que &#8220;&#233; melhor a obedi&#234;ncia cega do que a liberdade sem confins&#8221;, seguindo com a ideia de que a dimens&#227;o mais radical da puls&#227;o de autopreserva&#231;&#227;o &#233; a puls&#227;o de morte: &#8220;Quanto mais se defende da vida, mais se trabalha contra a vida&#8221;. N&#227;o lembro com detalhes do argumento, mas ele usa as doen&#231;as autoimunes, bastante em alta nos consult&#243;rios m&#233;dicos de agora, como met&#225;fora para pensar tudo isso, o que eu achei genial. E assim ele vai terminar dizendo que&#8230;</p><p><em><strong>&#8220;N&#227;o existe antifascismo que n&#227;o lute contra o fascista dentro de mim, contra aquele que ama as correntes mais do que a liberdade&#8221;.</strong></em>  </p><p></p><p><strong>Extra 2:</strong> apenas Pasolini</p><blockquote><p><em><strong>Versos finos como tra&#231;os de chuva</strong> </em></p><p><em>&#8220;&#201; preciso condenar <br>severamente quem<br>cr&#234; nos bons sentimentos<br>e na inoc&#234;ncia. </em></p><p><em>&#201; preciso condenar<br>com igual severidade quem<br>ama o subproletariado<br>sem consci&#234;ncia de classe.</em></p><p><em>&#201; preciso condenar<br>com a m&#225;xima severidade<br>quem ouve em si e expressa<br>sentimentos obscuros e escandalosos. </em></p><p><em>Estas palavras de condena&#231;&#227;o<br>come&#231;aram a ressoar<br>no cora&#231;&#227;o dos Anos Cinquenta<br>e continuam at&#233; hoje. </em></p><p><em>Entretanto a inoc&#234;ncia,<br>que efetivamente havia, <br>come&#231;ou a perder-se<br>em abjuras, corrup&#231;&#245;es e neuroses. </em></p><p><em>Entretanto o subproletariado,<br>que efetivamente existia,<br>terminou se transformando<br>em reserva da pequena burguesia.</em></p><p><em>Entretanto os sentimentos<br>que eram por natureza obscuros<br>foram todos investidos<br>no lamento das ocasi&#245;es perdidas. </em></p><p><em>Naturalmente, quem condenava<br>n&#227;o se deu conta de tudo isso:<br>e continua rindo da inoc&#234;ncia, <br>negligenciando o subproletariado</em></p><p><em>e declarando sentimentos reacion&#225;rios. <br>Continua indo da casa<br>pro escrit&#243;rio, do escrit&#243;rio pra casa,<br>ou ensinando literatura:</em></p><p><em>est&#225; feliz com o progressismo<br>que lhe faz parecer sagrado<br>o dever de ensinar aos dom&#233;sticos<br>o alfabeto das escolas burguesas.</em></p><p><em>Est&#225; feliz com o laicismo<br>que considera &#233; mais que natural<br>que os pobres tenham casa, <br>carro e tudo o mais.</em></p><p><em>Est&#225; feliz com a racionalidade<br>que o faz praticar um antifascismo<br>gratificante, elevado<br>e sobretudo muito popular.</em></p><p><em>Que tudo isto seja banal<br>nem lhe passa de longe pela mente:<br>com efeito, que seja assim ou assado<br>n&#227;o lhe d&#225; nenhum proveito. </em></p><p><em>Aqui fala um S&#243;crates m&#237;sero e impotente<br>que sabe pensar e n&#227;o filosofar,<br>mas que no entanto se orgulha<br>n&#227;o s&#243; de ser conhecedor</em></p><p><em>(o mais exposto e esquecido)<br>das mudan&#231;as hist&#243;ricas, mas tamb&#233;m<br>de nelas estar direta e<br>desesperadamente implicado.&#8221;</em></p></blockquote>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Boletim de ocorrência]]></title><description><![CDATA[um conto]]></description><link>https://victoriamantoan.substack.com/p/boletim-de-ocorrencia</link><guid isPermaLink="false">https://victoriamantoan.substack.com/p/boletim-de-ocorrencia</guid><dc:creator><![CDATA[Victória Mantoan]]></dc:creator><pubDate>Sun, 31 May 2026 10:31:01 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!CPDd!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F112e8872-cf79-4a8b-965f-ffb593933536_1112x612.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!CPDd!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F112e8872-cf79-4a8b-965f-ffb593933536_1112x612.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!CPDd!, /__u/victoriamantoan.substack.com/w_424, /__u/victoriamantoan.substack.com/c_limit, /__u/victoriamantoan.substack.com/f_webp, /__u/victoriamantoan.substack.com/q_auto:good, 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Ou porque obrigada n&#227;o passa de uma pontua&#231;&#227;o.</p><p>Sua mente pousou na v&#233;spera dos anos 90, quando seus pais contavam entusiasmados na nova sala de estar da nova casa de madeira, para o que pareciam ser novos amigos, que ela j&#225; sabia falar ingl&#234;s, embora ela mesma ainda n&#227;o tivesse incorporado o conceito de que aquela l&#237;ngua estranha lhe serviria para algo parecido com um di&#225;logo, uma comunica&#231;&#227;o, de modo que, conforme uma m&#250;sica que lhe ensinaram na Wizard da esquina perto daquela mesma casa, ela fazia todos os cumprimentos de uma vez, sem deixar o outro responder. Era tudo pontua&#231;&#227;o.<em> Hello-how-are-you-I-am-fine-thanks</em>, sem respirar, e musicado. Finalmente come&#231;aria a respirar? Por-favor-Obrigada-De-nada.</p><p>O primeiro par de martinis chegou. Tradicionais, com azeitona. Ela n&#227;o tolerava bebidas doces, no entanto, tamb&#233;m n&#227;o era capaz de beber muito mais do que duas doses de um drink t&#227;o forte (era forte?). Quase sempre passava a noite inteira bebericando um mesmo copo, quando muito pedia o segundo.</p><p>Mario, n&#227;o. Mario tomava um martini atr&#225;s do outro quase que sem intervalos, como se um copo n&#227;o fosse mais do que a continua&#231;&#227;o do anterior, fazendo de uma garrafa de gim uma grande dose &#250;nica, sem interrup&#231;&#245;es. Sempre lhe parecera impressionante a capacidade que ele demonstrava de manter a compostura mesmo consumindo doses obscenas de &#225;lcool. Foi o tra&#231;o nele que primeiro a atraiu. </p><p>Se conheceram em um happy hour da empresa, dessa maneira anal&#243;gica, arcaica, improv&#225;vel. Ela o viu tomar seu primeiro martini, depois o segundo, ent&#227;o o terceiro, at&#233; perder a conta e finalmente perd&#234;-lo de vista, apesar do esfor&#231;o para acompanhar sua bebedeira com o olhar curioso. Ficou intrigada. Pelo que poder&#237;amos chamar de sorte, ou destino, a empresa n&#227;o era t&#227;o grande a ponto de ela n&#227;o poder rastrear de onde ele era e nem tinha pol&#237;tica espec&#237;fica contra relacionamentos entre empregados. Logo ela retomou o curso das doses.</p><p>Eles sempre davam esse breve pr&#243;logo sobre sua hist&#243;ria em comum para o desavisado que perguntasse como eles haviam se conhecido sem saber o risco de t&#233;dio que corria. Isto &#233;, falavam da parte do happy hour e da falta de pol&#237;tica sobre casais formados no trabalho. Sara n&#227;o fazia men&#231;&#227;o aos martinis, o detalhe interessante que ela guardava para si, como se fosse um segredo.</p><p>Mario nem se dava conta de seu talento, ele falava e gesticulava com precis&#227;o s&#243;bria. O olho n&#227;o ficava vermelho, a voz n&#227;o embargava. Se policiais n&#227;o tivessem baf&#244;metros, ele passaria em qualquer teste do tipo andar em linha reta e fazer poses de yoga com o dedo no nariz. Sara se questionava se isso dizia algo sobre sua capacidade de autocontrole ou sobre suas enzimas hep&#225;ticas, mas de imediato decidiu que aquilo significava algo. Precisava, sempre, significar algo. </p><p>Foi ela quem come&#231;ou a conversa, ela quem sugeriu que dividissem um t&#225;xi para ir embora quando finalmente o reencontrou e tomou coragem para a abordagem, mas, como ela mesma n&#227;o dispunha do mesmo tra&#231;o alco&#243;lico que ele (em outras palavras, j&#225; estava b&#234;bada), n&#227;o sabia precisar quem deu o primeiro passo de fato. O primeiro toque, a m&#227;o que encosta onde deveria n&#227;o dever. Isso ela n&#227;o sabe dizer, e tamb&#233;m nunca a ocorreu perguntar se ele lembrava. Um jeito de n&#227;o precisar o que seria um &#8220;primeiro passo de fato&#8221; e se sua constitui&#231;&#227;o &#233; mesmo o aspecto t&#225;til. </p><p>Agora, alguns anos depois, os mesmo martinis, id&#234;nticos, para os dois, em quantidades desproporcionais para um e para o outro. Continuaria pedindo de dois em dois a cada visita do gar&#231;om, mesmo quando ela n&#227;o fosse mais pegar sua cota. O cen&#225;rio tamb&#233;m mudou. Ainda bem. O pano de fundo agora era um tanto mais barulhento, o suficiente para que ningu&#233;m reparasse no ocorrido, e repleto de desconhecidos. A casa de jazz celebrava mais um s&#225;bado com um trio que homenageava Nina Simone. Muitos se emcionavam, a plateia cantava junto e se embalava para dan&#231;ar, lento ou n&#227;o. Menos ela. </p><p>Mario ainda se deleitava com o presente de anivers&#225;rio, dado meses antes, executado meses depois. Era sua marca registrada, que ela transformou num combinado dos dois: s&#243; se dariam <em>experi&#234;ncias</em> de presente. Jamais camisetas, sapatos, gravatas: nada gen&#233;rico ou feito para se dar para cumprir burocracias (jeito bonito de colocar), muito menos objetos que pudessem ser guardados para sempre ou abarrotar mais uma caixa de rela&#231;&#245;es que n&#227;o existem mais (jeito verdadeiro de dizer). Tinha p&#226;nico de deixar vest&#237;gios de amor, tralhas que jogar fora ou queimar ou, o pior de tudo, coisas que n&#227;o se tem coragem nem de jogar fora e nem de encarar. Por isso os presentes eram sempre shows, viagens, passeios, jantares, fins de semana em hoteis especiais, cursos. Coisas com come&#231;o, meio e fim e sem materialidade. Jamais escrevia cartas. Quando muito, bilhetes ap&#243;crifos. Mas claro que isso n&#227;o era dito assim, <em>n&#227;o vamos deixar vest&#237;gios</em>. Agora tinha essa palavra para colocar no lugar de seu terror e torna-lo palat&#225;vel: <em>experi&#234;ncias, </em>presentes com<em> inten&#231;&#227;o</em>. Dizem que traz mais felicidade que bens. Era assim que ela apresentava sua artimanha e a fazia passar por um tra&#231;o de personalidade fofo. At&#233; era. </p><p>As mesas se esparramavam do meio da parte interna do ambiente at&#233; a cal&#231;ada, de maneira que, ela tinha certeza, o pre&#231;o salgado do martini seria destinado parcialmente para pagar a multa que certamente receberiam ou para repor a j&#225; paga propina necess&#225;ria para fazer a festa mesmo impedindo a passagem de pedestres e produzindo barulho acima de 50 decib&#233;is, talvez apostando que ningu&#233;m naquele bairro seria ranzinza o suficiente para fazer den&#250;ncia contra uma casa de jazz t&#227;o descolada num bairro <em>novo hippie</em> da cidade. Uma aposta alta, ela pensava, j&#225; que gente ranzinza, como ela mesma, se multiplicava pelas metr&#243;poles feito ervas daninhas, especialmente ap&#243;s os anos de isolamento da pandemia, que pareciam ter deixado todos mais afoitos mas tamb&#233;m mais incapazes de pequenos desconfortos sociais em prol da conviv&#234;ncia. Ainda mais por um motivo desses: o prazer alheio.</p><p><em>Baby, you understand me now/<br>If sometimes you see that I'm mad</em></p><p>O trio come&#231;ou. Era um ambiente muito diferente da outra casa de jazz que havia frequentado com seu primeiro marido. O mesmo g&#234;nero musical alimentando personas avessas, mas n&#227;o d&#237;spares. Ela n&#227;o deixava de ficar maravilhada com o n&#237;vel de especializa&#231;&#227;o que as coisas assumiam nessas cidades muito grandes; tudo nichado, como se diz. Achava espantoso o fato de estar agora em uma cidade que tinha n&#227;o apenas uma casa de jazz, mas duas, na verdade mais que isso, e que, assim, tanto a elite engravatada, que depois se reuniria para fazer doa&#231;&#245;es gordas em jantares beneficentes e separar o p&#250;blico entre homens e mulheres, quanto e a elite intelectual da cidade, que provavelmente gastava a mesma quantidade de dinheiro apenas para parecer diametralmente oposta ao primeiro grupo e fazer sua distin&#231;&#227;o em rela&#231;&#227;o ao povo de jeitos mais sutis, n&#227;o precisariam se misturar e poderiam seguir a vida fingindo serem feitas de ess&#234;ncias muito diferentes &#8211; todos escutando as mesmas m&#250;sicas e pendurando os mesmos cartazes nas paredes, emoldurados nas mesmas oficinas, com madeiras apenas envernizadas com t&#233;cnicas diferentes, se tanto. O homem atr&#225;s do balc&#227;o das molduras seria o &#250;nico a saber que prestava o mesmo servi&#231;o, pelo mesmo pre&#231;o, para todas as ideologias.</p><p><em>Don't you know no one alive can always be an angel?/<br>When everything goes wrong you see some bad</em></p><p>A m&#250;sica segue. Tudo n&#227;o passava de divaga&#231;&#245;es, ela sabia. Das mais hip&#243;critas, inclusive, considerando as vidas que ela levava e j&#225; tinha levado. A decis&#227;o estava tomada, ela precisava agora reunir as evid&#234;ncias de que o destino era aquele; era aquilo que a estrada lhe reservava, ou que ela decidia. N&#227;o queria parecer rid&#237;cula, ent&#227;o ao menos precisava se convencer de ser profunda. Embora, convenhamos, n&#227;o fosse. Seu sofrimento era t&#227;o mediano quanto, por defini&#231;&#227;o, &#233; o da maioria das pessoas. Que importam, na verdade, as cal&#231;adas ou quantos tipos de bares de jazz uma cidade &#233; capaz de produzir? Ou se faz parte de uma elite financeira cafona ou de uma elite intelectual blas&#233;? Para uma criatura feliz, nada disso importa; a realmente infeliz, nem mesmo se d&#225; conta do que ocorre na superf&#237;cie de sua depress&#227;o. S&#227;o os sofrimentos de meio de caminho que se det&#234;m nessas besteiras. Essas coisas s&#243; importam para quem precisa de motivos, dar contornos precisos para as decis&#245;es mais idiotas. Em suma, para os med&#237;ocres. &#201; preciso pelo menos <em>soar</em> profundo. Sara precisa ter pelo que suspirar em seu desamparo.</p><p><em>But I'm just a soul whose intentions are good/<br>Oh, Lord, please, don't let me be misunderstood</em></p><p>Suspirou. Como &#233; bom se apaixonar, pensou. Acabara o prazo de duas semanas que ela se dera. Uma estrat&#233;gia idiota tamb&#233;m, mas, depois de reunir todas as evid&#234;ncias a favor da decis&#227;o, ela tinha o h&#225;bito, poder&#237;amos dizer at&#233; mesmo a mania, de definir essas regras t&#227;o pragm&#225;ticas quanto insensatas para dar a cartada final, como quem finge saber que a vida, <em>no fundo</em>, n&#227;o passa de um cara ou coroa. Veio primeiro a ideia et&#233;rea, depois ela foi pensando num plano e por fim se deu esse tempo para decidir. Se ela n&#227;o fosse embora, a ideia, em duas semanas, deveria ser s&#233;ria, e, portanto, levada adiante. Todos os dias se lembrava, o que significa que n&#227;o esquecia, ou, outro modo de dizer: n&#227;o passava. </p><p>Mario estava de olhos fechados e cantava, quase t&#227;o alto quanto a banda, n&#227;o fosse a falta de microfone diante de si. Estava encantado. Ela havia acertado no presente.</p><p>&#8212;<em> </em>Essa &#233; uma das minhas m&#250;sicas favoritas, sabia?&#8212;, ele disse no come&#231;o.</p><p><em>You know sometimes baby I&#8217;m so carefree. </em>Essa estrofe saiu da boca dele antes que da vocalista.<em> </em>Ela se perguntava com frequ&#234;ncia, e novamente agora enquanto o via se deleitar, se ele pensava em casar, e n&#227;o sabia dizer a si mesma se isso era desejo ou temor. Encarava a d&#250;vida enquanto lembrava de algu&#233;m, tamb&#233;m tentando parecer mais profundo do que era, lhe dizendo que eram uma e a mesma coisa: medo e desejo.</p><p>Ela j&#225; tinha quarenta e tr&#234;s e dois casamentos nas costas, muito embora uma mistura de boa gen&#233;tica com idas estrat&#233;gicas ao dermatologista da moda lhe permitisse passar por trinta e sete. Ou, ao menos, foi o que lhe disse o software que analisou sua pele ap&#243;s a sucess&#227;o de procedimentos que sucederam a consulta de mil reais. Mesmo chegando &#224; meia idade, n&#227;o tinha conseguido dar cabo dessa maneira meio obsessiva de lidar com as grandes decis&#245;es, como se elas fossem ao mesmo tempo irremedi&#225;veis e irrelevantes. De novo, o cara ou coroa de regente. </p><p>&#201; isso: s&#225;bado finalmente chegou. Duas semanas e a ideia n&#227;o lhe sa&#237;a da cabe&#231;a.</p><p><em>With a joy that's hard to hide/<br>And then sometimes again it seems that all I have is worry/<br>And then you bound to see my other side</em></p><p>Enquanto Mario seguia absorvido pela m&#250;sica, como se Nina Simone tivesse reencarnado naquele bar de jazz escancaradamente feito para algu&#233;m como ele, ela foi ao banheiro, a princ&#237;pio pensando que essa seria apenas uma primeira ida, para conhecer o terreno. A decis&#227;o estava tomada, mas n&#227;o havia qualquer informa&#231;&#227;o sobre o palco onde a encenaria.</p><p>Era supreendentemente limpo. Apesar da apar&#234;ncia r&#250;stica do lado de fora, era not&#225;vel, pelo banheiro, o quanto os donos tinham investido no local. &#201; poss&#237;vel saber disso pelo assento: confort&#225;vel, de material robusto, do tipo que n&#227;o gela a bunda do usu&#225;rio e que provavelmente n&#227;o fica soltando a tampa com o tempo. Algu&#233;m gastou neur&#244;nios pensando no conforto de quem passa a fazer xixi a cada vinte minutos pelo tempo de dura&#231;&#227;o de um show, considerando o quanto as cervejas s&#227;o diur&#233;ticas. Ela testou. Abaixou a calcinha que usava por baixo do vestido, fez seu xixi. </p><p>N&#227;o estava exatamente nos planos, mas Sara considerou um sinal o fato de o banheiro ser unissex. O efeito que esperava mas n&#227;o queria ficaria melhor dissipado, mais r&#225;pido, menos dram&#225;tico, menos for&#231;ado. N&#227;o gostava de imaginar Mario tendo que entrar num banheiro feminino atr&#225;s dela. Ainda mais sabendo o que ele esperaria encontrar. </p><p><em>But I'm just a soul whose intentions are good/<br>Oh, Lord, please, don't let me be misunderstood</em></p><p>Ele n&#227;o encontraria, vale dizer. O esperado. Ainda assim, se preocupava com como as coisas iam parecer. Ocorre que uma primeira ida ao ambiente de sua escolha acabou sendo a ida derradeira. Custou um pouco at&#233; que ela se desse conta de que n&#227;o ia voltar, e um tanto a mais at&#233; que ele notasse sua aus&#234;ncia. N&#227;o &#233; que fosse normalmente desatento, displicente ou autocentrado. E ela n&#227;o escolhera esse ambiente &#224; toa. </p><p>&#201; que ele tinha por h&#225;bito isso de escutar m&#250;sica de olhos fechados, e ela gostava desse tra&#231;o marcante de sua personalidade, como se um sentido precisasse ser desligado para que o outro come&#231;asse a funcionar. Esse modo curioso, que n&#227;o era um modo de apenas <em>posar</em> poucos segundos, apenas na apar&#234;ncia como algu&#233;m genuinamente interessado, como se v&#234; em shows. N&#227;o, em Mario isso era algo que perdurava. Ele era mesmo capaz de passar longos minutos de olhos fechados e apenas assim parecia conseguir se deixar absorver. Isso acontecia tamb&#233;m em shows, mas principalmente dentro de casa, no que Sara recordava de j&#225; ter ficado incont&#225;veis vezes por intervalos anormalmente altos parada diante da porta do apartamento que dividiam contando divertidamente no rel&#243;gio quanto levaria para ele abrir os olhos e abandonar as rea&#231;&#245;es faciais que transitavam por seu rosto enquanto sustentava um grande fone na cabe&#231;a. </p><p>Mesmo quando ningu&#233;m estava olhando, ou assim ele pensava, era como se ligasse finalmente os ouvidos e desligasse os olhos. Ou, ela j&#225; pensou numa dessas vezes, os mirasse para dentro. Era uma capacidade de introspec&#231;&#227;o que ela admirava, ainda que sentisse &#224;s vezes que, como n&#227;o conseguisse dar conta de tudo, de dentro e de fora, essa capacidade lhe impedisse de aflorar sensibilidades equivalentes para o mundo externo, como se o &#243;rg&#227;o sensorial de Mario pendesse de maneira t&#227;o desproporcional para o lado de dentro que ele n&#227;o fosse capaz de comunicar-se de todo com a sua volta, nem para perceb&#234;-la, nem para trazer &#224;s redondezas not&#237;cias do que se passava no pa&#237;s de dentro. Dito de outro modo: Mario parecia a Sara como se n&#227;o soubesse, boa parte do tempo, compreender e nem narrar, mas apenas sentir. O que ela fez agora foi agarrar essa percep&#231;&#227;o e se aproveitar dela. Por isso a casa de jazz, por isso o presente melanc&#243;lico e rom&#226;ntico, por isso esse banheiro unificado nesse lugar com boa m&#250;sica alta.</p><p><em>If I seem edgy/<br>I want you to know/<br>I never mean to take it out on you/<br>Life has its problems/<br>And I get more than my share/<br>But that's one thing I never mean to do</em></p><p>Quando Mario chegou ao banheiro, e ele finalmente chegou, n&#227;o encontrou sujeira, n&#227;o encontrou sangue esparramado, e nem mesmo corpo. Sara havia cometido outro tipo de ato final. Ela chegou a pensar, sim, em se matar. Mas o suic&#237;dio lhe impunha uma quest&#227;o que ela n&#227;o sabia como resolver: n&#227;o a morte em si, mas o teatro, o que estaria encenando afinal. A morte acaba sendo um efeito colateral, Sara pensava, quando, no fundo, o que o suicida deseja mesmo &#233; desaparecer. Se poss&#237;vel, talvez numa parte escondida de seu ser, mas ainda assim presente, para reaparecer num outro lugar, como uma folha em branco, nova, para fazer uma nova tentativa onde as linhas pareceram entortar de vez. Ent&#227;o o sangue, ou o corpo inerte, o choro, o lamento, a not&#237;cia impronunci&#225;vel, tudo isso lhe pareciam n&#227;o mais que efeitos secund&#225;rios, indesej&#225;veis at&#233;, de um &#237;mpeto outro: o de sumir, sem todos esses rastros, para poder aparecer novamente num outro canto do mundo. </p><p><em>&#8216;Cause I love you<br>Oh, baby<br>I&#8217;m just human<br>Don&#8217;t you know I have faults like anyone?</em></p><p>Ao pensar sobre suas alternativas, ainda antes da ida ao bar, Sara lembrou do tempo que passou dando aulas de matem&#225;tica no Kumon para ajudar a pagar a faculdade. Foi onde pela primeira vez se deu conta de que as crian&#231;as ficavam profundamente perturbadas quando erravam uma grafia ou um desenho a caneta feito nos minutos finais, enquanto aguardavam os pais para busca-las. Sara j&#225; havia testemunhado l&#225;grimas intensas, intercaladas por solu&#231;os, vindas de crian&#231;as a quem foi apresentada a possibilidade de um papel rasurado, riscado por cima, cuja corre&#231;&#227;o deixava exposta a marca de seu erro. Pensava que as crian&#231;as eram muito sensatas de reagir assim. &#201; mesmo perturbador se dar conta de que um erro cometido a canetinha tem algo de irremedi&#225;vel. Os adultos, ao menos aqueles do Kumon, aprenderam, ent&#227;o, a oferecer o l&#225;pis, que permite apagar, ou, no caso de desenhos a canetinha e giz, a oferecer um novo papel em branco. Joga o velho fora, d&#225; um novo. De fato, o choro cessava, mas, enquanto contemplava suas pr&#243;prias possibilidades de adulto, pensava em como ensinar a uma crian&#231;a que h&#225; algo que se pode apagar, ou que temos na vida a possibilidade de fazer algo equivalente a colocar uma folha de lado para come&#231;ar outra em branco, pode levar a toda sorte de equ&#237;vocos. </p><p><em>Sometimes I find myself alone regretting/<br>Some little foolish thing/<br>Some simple thing that I&#8217;ve done</em></p><p><em>&#8216;Cause I&#8217;m just a soul whose intentions are good/<br>Oh, Lord, please don&#8217;t let me be misunderstood</em></p><p>Hm, n&#227;o deixava de ser outra aposta. Tamb&#233;m alta. Uma folha nova, enquanto a m&#250;sica seguia, mas por pouco.</p><p><em>I try so hard/<br>So please, don&#8217;t let me be misunderstood</em></p><p>No lugar do espet&#225;culo, apenas um papel dobrado, diminuto, que j&#225; estava no seu bolso h&#225; dias e cujo conte&#250;do Mario tomou para si n&#227;o por uma indica&#231;&#227;o concreta de destinat&#225;rio ou de remetente, mas pelo reconhecimento de sua caligrafia. Sara sumiu junto com o baixar do tom da m&#250;sica, sem deixar mais que esse pedacinho de celulose pautada, num tamanho que reverberou em Mario o maior dos ressentimentos, como se o tanto de linhas devesse guardar alguma rela&#231;&#227;o de propor&#231;&#227;o com o tempo que passaram juntos ou ao menos com o tanto de sentimento que julgava existir de ambas as partes. </p><p>Ficou como heran&#231;a esse pequeno bilhete n&#227;o assinado, cortante porque singelo, daquilo que foi, sim, tamb&#233;m, mas principalmente das possibilidades perdidas, dos cantos do papel que sequer chegaram a ser preenchidos, nem pelos erros, nem pelos acertos, sendo apenas o registro de seu desaparecimento. A tentativa de Sara de acertar seu desenho, finalmente. Sara se fez poeta de tr&#234;s versos e sumiu:</p><p><em>Despedir-se:</em></p><p><em>Escrever uma carta</em></p><p><em>a algu&#233;m que n&#227;o vai ler</em></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[uma coisa que leva a outra]]></title><description><![CDATA[cr&#244;nica avulsa]]></description><link>https://victoriamantoan.substack.com/p/uma-coisa-que-leva-a-outra</link><guid isPermaLink="false">https://victoriamantoan.substack.com/p/uma-coisa-que-leva-a-outra</guid><dc:creator><![CDATA[Victória Mantoan]]></dc:creator><pubDate>Thu, 21 May 2026 18:48:39 GMT</pubDate><enclosure url="https://i.scdn.co/image/ab67616d0000b273fa57088e1b94a63c470cd039" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Pegar muitas horas de estrada por semana &#233; esse fen&#244;meno d&#250;bio que faz com que tenhamos a oportunidade de se irritar muito, viajar no tempo da pr&#243;pria vida, cansar a lombar, xingar mentalmente todas as pessoas claramente coadjuvantes que s&#243; est&#227;o ali atravancando nosso caminho (rs, perdoa, David Foster Wallace) e divagar bastante.</p><p>Em algum ponto entre gastar tempo pensando no bolsonarismo e ouvir um &#225;udio de uma amiga no contexto de uma conversa em que fal&#225;vamos sobre ir ou n&#227;o tomar caf&#233; com algu&#233;m a respeito de quem se tem ressalvas apenas para matar certa curiosidade (no melhor esp&#237;rito <em>o que essa pessoa quer comigo, afinal?</em>), me peguei lembrando de uma cena em v&#225;rios tempos do segundo volume da trilogia da Rachel Cusk, quando o empreiteiro que est&#225; fazendo a reforma do apartamento da narradora decide atuar como intermediador entre ela e os vizinhos que a odeiam pelo barulho da obra. Para atuar como tal, ele assume esse papel delicad&#237;ssimo de quem est&#225;-dos-dois-lados-sem-estar-em-nenhum, que sempre oscila. Quando ent&#227;o temos&#8230;</p><p></p><blockquote><p><em>&#8220;I had been thinking lately about evil, I went on, and was beginning to realise that it was not a product of will but of its opposite, of surrender. It represented the relinquishing of effort, the abandonment of self-discipline in the face of desire. It was, in a way, a state of passion. I told him about Tony and his visit downstairs. Tony, I felt sure, had been afraid: talking to the trolls he had been unable either to resist or control them; instead he had found himself placating them by mirroring their hatred, and then had given me an account of his behaviour afterwards that attempted to turn that failure into an act of will and even heroism. But part of him, I saw, had retained what the trolls had said about me. It was possible, I had realised, to resist evil, but in doing so you acted alone. You stood or fell as an individual. You risked everything in the attempt: it might even be the case, I said, that evil could only be overturned by the absolute sacrifice of self. The problem was that nothing could give greater pleasure to your enemies.&#8221;</em></p></blockquote><p></p><p>Como psicanalista, e tamb&#233;m com irrita&#231;&#227;o cong&#234;nita e tremenda com discursos que facilmente enveredam para proposi&#231;&#245;es moralizantes (o que parece estar dando em &#225;rvores de todos os espectros pol&#237;ticos ultimamente), eu tenho muitas, infinitas, quest&#245;es com essa ideia de que o <em>bem</em> seria esse algo que resiste e o <em>mal</em> seria esse estado de paix&#227;o, e mais ainda que, para ser <em>bom</em> (<em>o que &#233; que &#233; ser bom, meu pai amado?</em>), seria necess&#225;rio sacrificar a si mesmo, ideia que eu acho que est&#225; a um trope&#231;o de dist&#226;ncia do ideal de m&#227;e abnegada que morre pelos filhos. Mas eu acho essa passagem linda mesmo assim, bel&#237;ssima (o que me fez lembrar aqui que a gente nem precisa achar que algo est&#225; &#8220;correto&#8221; para admirar esteticamente). Acho que o que eu amo especialmente &#233; a ideia do aplacamento do &#243;dio pelo seu espelhamento, e o que significa fazer isso. </p><p>Mas o ponto aqui nem &#233; esse (se &#233; que h&#225; um, se &#233; que chegaremos a ele): enquanto dirigia, pensava &#8220;vou chegar em casa e procurar o meu exemplar de &#8216;Transit&#8217;&#8221; (risos, sim, esse &#233; o nome do livro). Lembrei de como eu conheci a trilogia: numa viagem a NY a trabalho; lembrei de como me apaixonei perdidamente por ela. Lembrei da minha felicidade quando soube que a Todavia ia trazer os tr&#234;s volumes para o Brasil. Lembrei do meu entusiasmo ao indicar para ao menos tr&#234;s amigas e lembrei do meu desconcerto pelo fato de que nenhuma pessoa para quem eu indiquei a Rachel Cusk gostou muito ou compartilhou da minha empolga&#231;&#227;o. E lembrei de uma conversa que tive com uma pessoa envolvida no meio e na divulga&#231;&#227;o do livro em que ela deu a entender que achava que essa era uma obra <em>meio espec&#237;fica, </em>um jeitinho todo pr&#243;prio de dizer que tamb&#233;m n&#227;o gostava l&#225; muito. Essas recep&#231;&#245;es nunca sa&#237;ram de mim. N&#227;o sei o motivo, mas fiquei mais reticente em indicar Rachel Cusk para as pessoas, ao mesmo tempo em que os livros dela me voltam com uma frequ&#234;ncia assustadora, como se fossem refluxo depois de comer uma panela de brigadeiro (quem n&#227;o ama brigadeiro? quem n&#227;o odeia refluxo?); queria indicar para uma por&#231;&#227;o de gente, mas resto calada com meus exemplares na maior parte do tempo.</p><p>Tamb&#233;m n&#227;o &#233; esse o ponto ainda: fato &#233; que cheguei em casa e fui procurar o querido. S&#243; que eu ainda n&#227;o terminei de desencaixotar todos os meus livros da mudan&#231;a, de modo que est&#227;o na estante j&#225; v&#225;rios livros da Rachel Cusk, mas n&#227;o o fat&#237;dico &#8216;Transit&#8217;. Achei o trecho que eu queria para colar aqui no meu hist&#243;rico do Kindle (eu mantenho c&#243;pias das marca&#231;&#245;es de quase todos os meus livros favoritos na vers&#227;o ebook).</p><p>Agora o ponto (a saber: que <em>uma coisa leva a outra</em>&#8230; <em>mas nem t&#227;o outra assim</em>), finalmente: enquanto procurava meu exemplar de &#8220;Transit&#8221;, deparei com um livro de poemas do Primo Levi, &#8220;Mil s&#243;is&#8221;. Nem sei h&#225; quantos anos a colet&#226;nea estava intocada dentre meus t&#237;tulos por ler, mas, no impulso de encontrar um, peguei o outro e sentei para folhear, um poema e depois outro e depois outro e mais um outro.</p><p>O que eu encontrei na ida da briga entre vizinhos para poemas dolorosamente retratando uma experi&#234;ncia de tortura e encarceramento e viol&#234;ncia absoluta e verdadeira morte de si em vida (em suma, de estar frente a frente, agora sim, com o <em>mal</em>) foi uma passagem de volta: de uma decis&#227;o de caf&#233; a pensar posicionamentos flagrantemente fascistas; guardadas as devidas propor&#231;&#245;es, &#233; a perplexidade diante da capacidade humana para a beleza e tamb&#233;m para destrui&#231;&#227;o, para o amor e para a viol&#234;ncia, para a dor e para o prazer, para o desespero e esperan&#231;a. E talvez, ainda mais insuport&#225;vel, a lembran&#231;a de que identificar os extremos &#233; f&#225;cil, j&#225; localizar com precis&#227;o as fronteiras entre uns e outros&#8230;bem, boa sorte.</p><p>Em Primo Levi, um otimismo tristonho ou uma tristeza constitutiva ou constitu&#237;da em meio a espera por dias melhores&#8230;</p><p></p><blockquote><p><em>&#8220;<strong>Chegada</strong> </em></p><p><em>Feliz o homem que alcan&#231;ou o porto, </em></p><p><em>Que deixa atr&#225;s de si mares e tormentas, </em></p><p><em>Cujos sonhos est&#227;o mortos ou jamais nasceram; </em></p><p><em>E se senta e bebe na taberna de Bremen, </em></p><p><em>Perto da lareira, e est&#225; em paz. </em></p><p><em>Feliz o homem como uma chama extinta, </em></p><p><em>Feliz o homem como areia de estu&#225;rio, </em></p><p><em>Que dep&#244;s a carga e limpou a fronte </em></p><p><em>E repousa &#224; beira do caminho. </em></p><p><em>N&#227;o teme nem espera nem aguarda, </em></p><p><em>Mas olha fixo o sol que se p&#245;e.&#8221;</em></p></blockquote><p>.</p><blockquote><p><em>&#8220;<strong>Despedida</strong> </em></p><p><em>Ficou tarde, meus caros; </em></p><p><em>Por isso n&#227;o vou aceitar p&#227;o ou vinho de voc&#234;s, </em></p><p><em>Somente umas horas de sil&#234;ncio, </em></p><p><em>As hist&#243;rias de Pedro, o pescador, </em></p><p><em>O perfume de musgo deste lago, </em></p><p><em>O cheiro antigo dos sarmentos queimados, </em></p><p><em>O grasnido falastr&#227;o das gaivotas, </em></p><p><em>O ouro gr&#225;tis dos l&#237;quens nas telhas </em></p><p><em>E uma cama para dormir sozinho. </em></p><p><em>Em troca, lhes deixarei versos nebbich como estes, </em></p><p><em>Feitos para serem lidos por cinco ou sete leitores: </em></p><p><em>Depois seguiremos, cada um por si, </em></p><p><em>Pois, como eu dizia, ficou tarde.&#8221;</em></p></blockquote><p>.</p><blockquote><p><em><strong>&#8220;Pl&#237;nio</strong> </em></p><p><em>N&#227;o me detenham, amigos, deixem-me zarpar. </em></p><p><em>N&#227;o irei longe: s&#243; at&#233; a outra margem; </em></p><p><em>Quero observar de perto aquela nuvem fosca </em></p><p><em>Que surge sobre o Ves&#250;vio em forma de pinho, </em></p><p><em>Descobrir de onde vem esse claror estranho. </em></p><p><em>N&#227;o quer me seguir, sobrinho? Bem, fique e estude; </em></p><p><em>Recopie as notas que lhe passei ontem. </em></p><p><em>N&#227;o h&#225; que temer as cinzas: cinzas sobre cinzas, </em></p><p><em>Cinzas somos n&#243;s mesmos, n&#227;o se lembram de Epicuro? </em></p><p><em>Vamos, aprontem as naves, que j&#225; se faz noite, </em></p><p><em>Noite ao meio-dia, portento nunca visto. </em></p><p><em>N&#227;o tema, irm&#227;, sou cauteloso e experiente, </em></p><p><em>Os anos que me encurvaram n&#227;o transcorreram em v&#227;o. </em></p><p><em>Voltarei logo, claro, s&#243; me d&#234; o tempo </em></p><p><em>De ir, observar os fen&#244;menos e voltar, </em></p><p><em>Para que eu possa amanh&#227; somar um novo cap&#237;tulo </em></p><p><em>Aos meus livros, que espero ainda viver&#227;o </em></p><p><em>Quando depois de s&#233;culos os &#225;tomos de meu velho corpo </em></p><p><em>Turbilhonarem soltos nos v&#243;rtices do universo </em></p><p><em>Ou reviver&#227;o numa &#225;guia, numa menina, numa flor. </em></p><p><em>Marinheiros, obede&#231;am, empurrem a nave ao mar.&#8221;</em></p></blockquote><p>.</p><blockquote><p><em><strong>&#8220;Poeira</strong> </em></p><p><em>Quanta &#233; a poeira que se deposita </em></p><p><em>Sobre o tecido nervoso de uma vida? </em></p><p><em>A poeira n&#227;o tem peso nem som </em></p><p><em>Nem cor nem escopo: vela e nega, </em></p><p><em>Oblitera, oculta e paralisa; </em></p><p><em>N&#227;o mata mas apaga, </em></p><p><em>N&#227;o est&#225; morta mas dorme. </em></p><p><em>Abriga esporos milenares </em></p><p><em>Prenhes de danos por vir, </em></p><p><em>Cris&#225;lidas min&#250;sculas &#224; espera </em></p><p><em>De cindir, decompor, degradar: </em></p><p><em>Pura emboscada confusa e indefinida </em></p><p><em>Pronta para o assalto futuro, </em></p><p><em>Impot&#234;ncias que se tornar&#227;o pot&#234;ncias </em></p><p><em>Ao estalo de um sinal mudo. </em></p><p><em>Mas tamb&#233;m abriga germes diversos, </em></p><p><em>Sementes dormidas que v&#227;o brotar em ideias, </em></p><p><em>Cada uma densa de um universo </em></p><p><em>Imprevis&#237;vel, novo, belo e estranho. </em></p><p><em>Por isso respeite e tema </em></p><p><em>Esse manto cinzento e sem forma: </em></p><p><em>Cont&#233;m o mal e o bem, </em></p><p><em>O perigo e muitas coisas escritas.&#8221;</em></p></blockquote><p></p><p>Aqui cabe uma digress&#227;o. Mesmo na literatura, e especialmente na poesia, &#233; um problema isso de olhar apenas para o conte&#250;do e esquecer da forma: se n&#227;o forem atr&#225;s de pegar em m&#227;os ou no m&#237;nimo fazer uma busca virtual, voc&#234;s n&#227;o saber&#227;o que &#8220;Outline&#8221;, o primeiro volume da trilogia da Cusk, tem uma capa linda, e que nessa capa tem uma concha, e que eu s&#243; peguei o livro para folhear anos atr&#225;s por conta disso, e que a Todavia acertou assustadoramente ao transpor a capa original para a edi&#231;&#227;o brasileira. Uma das coisas que eu ouvi foi: <em>achei o livro mais ou menos, mas a capa &#233; lind&#237;ssima</em>. De fato. Outro risco ainda mais grave seria, tomando apenas cada unidade de poema do Levi por si, ou, pior ainda, somente as unidades que eu colei aqui, ficar com a impress&#227;o de uma tristeza sem fim. </p><p>N&#227;o s&#227;o s&#243; o bem e o mal que t&#234;m o h&#225;bito de passear de m&#227;os dadas nos espa&#231;os p&#250;blicos e privados.</p><p>Da&#237; vem a arte da composi&#231;&#227;o, da curadoria, da intitula&#231;&#227;o, da est&#233;tica toda. Uns alcan&#231;am o porto, para outro ficou tarde; o sol se p&#245;e, talvez haja despedida, mas h&#225; mil s&#243;is tamb&#233;m depois. &#201; bem poss&#237;vel que eu &#233; que tente entrever otimismo em meio ao sofrimento e &#224; viol&#234;ncia, tentando aplacar alguma coisa (ang&#250;stia, &#233; voc&#234;?) espelhando(?) outra. Ao menos, n&#227;o acho que esteja sozinha nisso: &#8220;Mil s&#243;is&#8221; &#233; fruto da sele&#231;&#227;o, tradu&#231;&#227;o e apresenta&#231;&#227;o de Mauricio Santana Dias, professor brasileiro. S&#227;o poemas escolhidos, de novo, <em>selecionados</em>. E acho mesmo que cada um encontra numa obra aquilo que procura. N&#227;o &#233; trivial, ent&#227;o, e sim bel&#237;ssimo que, ao fazer valer sua leitura, Dias nos d&#234; justamente uma apresenta&#231;&#227;o intitulada &#8220;A poesia de um sobrevivente&#8221;, e que tenha escolhido para nomear a colet&#226;nea que deveria tornar mais conhecida a vers&#227;o de Levi-poeta ao p&#250;blico brasileiro uma trag&#233;dia em verso, mas que tamb&#233;m remete &#224; busca por uma certa claridade. </p><p>Como j&#225; restou comprovado que <em>uma coisa leva mesmo a outra</em>, enquanto terminava meu mergulho por uma tarde (excessivamente) ensolarada, o Spotify que tocava ao fundo me colocou para escutar&#8230;</p><iframe class="spotify-wrap" data-attrs="{&quot;image&quot;:&quot;https://i.scdn.co/image/ab67616d0000b273fa57088e1b94a63c470cd039&quot;,&quot;title&quot;:&quot;Ordinary World - Acoustic&quot;,&quot;subtitle&quot;:&quot;Duran Duran&quot;,&quot;description&quot;:&quot;&quot;,&quot;url&quot;:&quot;https://open.spotify.com/track/0iEIgJHGHLZjo32miuclJL&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;noScroll&quot;:false}" src="https://open.spotify.com/embed/track/0iEIgJHGHLZjo32miuclJL" frameborder="0" gesture="media" allowfullscreen="true" allow="encrypted-media" loading="lazy" data-component-name="Spotify2ToDOM"></iframe><p>E eu deixei tocar repetidamente enquanto escrevia. Outros homens, outro tempo, <em>learning to survive. </em>Todo mundo aprendendo, no fim das contas, a ser marinheiros obedientes, e seguir <em>empurrando a nave ao mar; </em>todos se encontrando na minha sala, com mil s&#243;is. Na vers&#227;o ac&#250;stica, porque nem o algoritmo nem o meu santo de ateu s&#227;o bobos. Mil s&#243;is, afinal. </p><p>A ep&#237;grafe da apresenta&#231;&#227;o de Dias, ali&#225;s, &#233; de uma entrevista concedida por Levi:</p><blockquote><p><em>&#8220;N&#243;s, todos os seres humanos, somos animais que preferem as coisas simples. Mas as coisas n&#227;o s&#227;o simples. S&#227;o sempre complexas&#8221;. </em></p></blockquote><p></p><p></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Breve dicionário de cor]]></title><description><![CDATA[um poema]]></description><link>https://victoriamantoan.substack.com/p/breve-dicionario-de-cor</link><guid isPermaLink="false">https://victoriamantoan.substack.com/p/breve-dicionario-de-cor</guid><dc:creator><![CDATA[Victória Mantoan]]></dc:creator><pubDate>Sat, 02 May 2026 14:38:50 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!xvrb!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc5d26bb9-45c9-4c43-90d6-5f834b6e4acc_1206x1190.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">Colorir as p&#225;ginas do mundo</pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">como quem preenche o antigo</pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">caderno de caligrafia,</pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">trope&#231;ando em erros.

</pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text"></pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">Atribuir a cada cor</pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">uma s&#237;laba, um fonema</pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">um significado, (in)completo.

</pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text"></pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">Saber fazer</pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">legenda, caminho</pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">a giz</pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">aquarela, ou guache</pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">canetinha, ou l&#225;pis</pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">para uma vida, ou duas, ou mais.

</pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text"></pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">A monotonia</pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">e o perigo, e o vigia que n&#227;o se v&#234;</pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">s&#227;o da cor do sol</pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">amarelo;

</pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text"></pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">Desenho de crian&#231;a,</pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">para adulto brincar, fazer ciranda;</pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">arco-&#237;ris da vida,</pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">e a cor favorita de um filho.

</pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text"></pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">O vermelho &#233; apenas</pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">uma parede, <em>ton sur ton</em></pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">de quem pode, e quer, e vai</pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">tentar de novo, fracassar de novo, e cair de novo,</pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">pela d&#233;cima vez;

</pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text"></pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">O prazer &#233; verde,</pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">o pranto tamb&#233;m;</pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">A dor, a saudade, um peito que arde</pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">sin&#244;nimos,</pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">um cora&#231;&#227;o bate,</pre></div><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">azul.
</pre></div><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!xvrb!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc5d26bb9-45c9-4c43-90d6-5f834b6e4acc_1206x1190.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!xvrb!, /__u/victoriamantoan.substack.com/w_424, /__u/victoriamantoan.substack.com/c_limit, /__u/victoriamantoan.substack.com/f_webp, /__u/victoriamantoan.substack.com/q_auto:good, /__u/victoriamantoan.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc5d26bb9-45c9-4c43-90d6-5f834b6e4acc_1206x1190.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!xvrb!, /__u/victoriamantoan.substack.com/w_848, /__u/victoriamantoan.substack.com/c_limit, 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Embora duvidasse desde sempre do mito de que o corpo tem larga capacidade de adapta&#231;&#227;o, a idade de fato fez com que seu hor&#225;rio natural de acordar fosse recuando pouco a pouco at&#233; que antes das 6h da manh&#227; parasse de soar como madrugada ou como tortura e passasse a figurar como um cotidiano aceit&#225;vel. O despertador tocava 6h15, mas ela via de regra abria os olhos sozinha entre 5h53 e 5h57. </p><p>Sempre olhava pela janela com uma calma curiosa &#8211; procurava antecipar se naquele dia o sol entraria imponente ou se precisaria testar a capacidade dos aquecedores do chuveiro por conta do tempo nublado. Aproveitava os poucos minutos entre seu ciclo circadiano particular e o hor&#225;rio cravado no celular para pensar sobre seus sonhos. N&#227;o os metaf&#243;ricos, do tipo onde voc&#234; quer estar daqui a cinco anos ou o que deseja conquistar (verbo que odiava com for&#231;a), mas os concretos: tentava reter o filme surrealista que sua mente teria criado no que pareceriam horas ou minutos ainda que ela soubesse racionalmente que est&#225; sempre mais para a ordem dos minutos. </p><p>Ent&#227;o encarava a parede e refazia mentalmente todas as promessas que fizera desde sua mudan&#231;a para o novo apartamento: preciso colocar os pregos nos lugares, preciso pendurar os quadros, preciso or&#231;ar o pintor que finalmente dar&#225; uma nova cor, uma nova personalidade, uma nova vida para minha vida j&#225; t&#227;o gasta, embora t&#227;o nova, embora renovada. S&#243; d&#225; mesmo para renovar aquilo que j&#225; foi gasto. O que &#233; novo de fato &#233; apenas fresco.</p><p>Ao finalmente levantar da cama, oscilava entre lavar o rosto e fazer xixi; entre escovar os dentes e se pesar; entre tirar o pijama e colocar uma roupa diferente, ainda confort&#225;vel, ainda de ficar em casa, com cara de pijama mas sem ser, e passar o caf&#233;; oscilava, oscilava, oscilava, num concentrado de minutos que daria corpo aos dilemas que enfrentou a vida inteira: caso ou compro uma bicicleta. </p><p>Produzia toda uma r&#225;pida tortura mental di&#225;ria que, apesar dos mais de quarenta anos provando-se infrut&#237;feras, ela repetia com rigor. Infrut&#237;fera porque dever&#237;amos saber, ao menos Fernanda se n&#227;o sempre soube percebeu j&#225; h&#225; um tempo, que o resultado do vai-e-volta &#233; sempre o mesmo, ela terminaria por refazer sempre os mesmos passos, na mesm&#237;ssima ordem: primeiro faria xixi pois seus rins eram diminutos, depois escovaria os dentes e lavaria o rosto, para apenas ent&#227;o tirar o pijama e, nu, se pesar. A&#237; ent&#227;o terminaria de passar os infinitos cremes receitados por sua dermatologista, ainda sem roupas, para finalmente se dirigir ao arm&#225;rio onde selecionaria uma camiseta com cara de velha, de algum antigo amor ou antigo peso, ou antiga loja, pouco importa, desde que tivesse um car&#225;ter antiquado, para, a&#237; sim, seguir para a cozinha e colocar a &#225;gua para ferver. Nessa hora, diariamente pensaria que poderia ter colocado a &#225;gua para ferver antes e usar o tempo necess&#225;rio para isso com os outros passos. Acreditaria poder lembrar disso no dia seguinte. Esqueceria minutos depois.</p><p><em>Eu j&#225; tive uma bicicleta</em>, lembrou, moendo o gr&#227;o.</p><p><strong>Convite</strong>. </p><p>No gira-gira da chave da porta da sala j&#225; deu para perceber que algo ia mal: Eduardo sabia por obsess&#227;o que sempre dava tr&#234;s voltas antes de sair para garantir que ao menos exerceria a fun&#231;&#227;o de uma pedra no sapato do eventual invasor. </p><p>Tr&#234;s passos adiante e tudo j&#225; estava revirado: sof&#225; rasgado, poltronas de pernas para o ar, livros esparramados pelo ch&#227;o, estante desabada, almofadas em localiza&#231;&#245;es improv&#225;veis, como se algu&#233;m ainda achasse que se esconde dinheiro, j&#243;ias ou fotografias comprometedoras nos assentos.</p><p>Na cozinha, geladeira aberta, comida jogada pelo ch&#227;o, lixeira quebrada, lixo cuidadosamente espalhado, inclusive o org&#226;nico, a confundir a boa comida desperdi&#231;ada da comida velha, tamb&#233;m desperdi&#231;ada, mas em outro tempo. De tudo, o principal: o cheiro. Como se ele n&#227;o tivesse deixado o recinto menos de 24 horas antes. </p><p>A cada c&#244;modo, uma ordena&#231;&#227;o para uma mesma bagun&#231;a original; a cada passo, uma forma diferente de dizer a mesma coisa: casa destru&#237;da, bens revirados, intimidade devassada, registros rasgados, sujeira, quebradeira, viol&#234;ncia. O insistente: o mau cheiro.</p><p>De novo, o cheiro. O cheiro ruim deixando Eduardo tonto. N&#227;o conseguia compreender como aquele cheiro tinha invadido sua casa. Ficou ainda mais transtornado com a ideia de que aquele cheiro horrendo pudesse ter sido gerado com mat&#233;ria-prima da sua pr&#243;pria vida; logo ele, que sempre deixou tudo organizado e limpo, que tinha como outra obsess&#227;o levar o lixo para o subsolo ao menos duas vezes por dia, n&#227;o deixar acumular, n&#227;o deixar jamais para o dia seguinte. </p><p>N&#227;o, mas era preciso perseguir a pista olfativa para descobrir um algo a mais. </p><p>Depois da sala e da cozinha, seguiu pelo corredor com o nariz parcialmente coberto. Parcial: n&#227;o perder a pista, mas tamb&#233;m n&#227;o dar conta de lidar com ela inteira. Meia narina. Ver a mesma zona indistinta na biblioteca, no escrit&#243;rio, no quarto, no banheiro social. Chegar finalmente &#224; su&#237;te e ser imediatamente atra&#237;do para a banheira. </p><p>Encontrar ent&#227;o o culpado: o corpo do cheiro ruim estendido na &#225;gua suja. O corpo aparentemente morto, mas na verdade vivo. O corpo fedido que veio destruir tudo. Esse homem esparramado tornando a banheira branca, marrom; tornando o at&#233; pouco tempo atr&#225;s bom ar num ambiente f&#233;tido. </p><p>No presente, ent&#227;o, Eduardo quer fugir, procurar a pol&#237;cia, denunciar, mas fica parado. <em>Por que n&#227;o consigo me mexer e buscar ajuda?</em> </p><p>O est&#244;mago de Eduardo grita para que ele saia correndo, os p&#233;s n&#227;o parecem desgrudar do ch&#227;o. O culpado logo em frente, o culpado tomando banho em sua banheira, o culpado tirando de si toda a sorte de imund&#237;cies e deixando-as pela casa de Eduardo, tornando-as parte de sua casa. O homem esparramado na banheira se senta como se fosse alcan&#231;ar o shampoo, mas para no meio do caminho para fitar Eduardo. Eduardo, que n&#227;o consegue se mover, que n&#227;o consegue nem mesmo manter mais parte da narina fechada. Eduardo petrificado.</p><p>Quando finalmente consegue se mexer, Eduardo entra na banheira. Une-se ao culpado. Alcan&#231;a o shampoo, o condicionador, o sabonete, coloca ao seu lado. Come&#231;a a lavar o corpo do culpado diligentemente; esfrega para limpar, mas sem machucar; faz escorrer tudo. </p><p><em>Eu</em>, ele se d&#225; conta. A porta da frente aberta. </p><p><em>Fui eu que o deixei entrar.</em> </p><div><hr></div><p>(Apenas lembrando que estamos, acima e abaixo, naquela modalidade textual em que &#233; tudo inventado)</p><div><hr></div><p><em><strong>jeitos diferentes de ainda assim inventar.</strong></em></p><p></p><p><strong>Saltburn.</strong> </p><p>Desvendar a raz&#227;o pela qual a vestimenta gen&#233;rica para as mulheres constitui um vestido preto e, para os homens, uma camisa branca enfurnada num terno, que quase sempre estar&#225; a tiracolo ou sendo emprestado. H&#225; um homem transtornado diante do suic&#237;dio de um amigo, uma morte na qual ele teve participa&#231;&#227;o irrevog&#225;vel, e ent&#227;o a pergunta: por que uma camisa branca? Por que n&#227;o preta? Por que n&#227;o marrom? Por que esse homem se enterrando na terra em meio a chuva vestindo uma camisa branca? Por que, quando n&#227;o branca, essa extravag&#226;ncia azul clara, tudo claro, como que uma tela pronta para receber as recrimina&#231;&#245;es da vida em todas as cores poss&#237;veis e imagin&#225;veis? </p><p>Um camisa branca pronta para as manchas. A terra enlameada pela chuva chorando o amigo morto, o batom vermelho da amante, a col&#244;nia do outro amante, depois de um tempo a amarelar o tecido, o manchado do curry a denunciar a comida preferida, a bebida da noite anterior, a pizza no socavo a marcar os dias profundamente calorentos sob uma camisa, a travessia do rio escancarada. O branco, o azul, o transparente. E seus contrastes: vermelho, vinho, marrom. Manchas nas roupas como vest&#237;gios de vida.</p><p><strong>Dispers&#227;o.</strong></p><p>Ler tr&#234;s linhas, voltar duas. Ler mais cinco, levantar a cabe&#231;a para ver o pernilongo passar. <em>Acho que agora ele desceu e pegou meu tornozelo</em>. Ler novamente as duas primeiras at&#233; se dar conta de que voltou ao mesmo trecho de antes, sem reter nada. J&#225; se passaram 15 minutos, mas algo fixou, sim. <em>Onde deixei mesmo o caderno de anota&#231;&#245;es?</em> <em>Talvez seja um bom momento para tomar um caf&#233;</em>. Notas mentais que ser&#225; preciso registrar pois j&#225; se sabe que n&#227;o h&#225; confiabilidade em deix&#225;-las marinando na pr&#243;pria cabe&#231;a. O artigo tinha apenas 10 p&#225;ginas e levou 3 dias para ser lido, ou copiado, pois as folhas de notas se multiplicaram. <em>Talvez eu n&#227;o tenha aprendido a fazer fichamentos direito</em>. <em>Ser&#225; que tem um curso on-line de fazer fichamentos? Era um fichamento isso? </em>A livraria mais pr&#243;xima fica a 13 minutos andando, o caf&#233; fica a 5 minutos sendo feito, medida de dist&#226;ncia pelo tempo que leva para ferver a &#225;gua, moer o gr&#227;o e montar o v60. O artigo j&#225; acabou, o cap&#237;tulo do livro tem seis p&#225;ginas, mas &#233; menos denso. H&#225; tamb&#233;m essa outra escala de medida, da capacidade de dispers&#227;o: a densidade. J&#225; se foram quatro p&#225;ginas e cinco pontos de interroga&#231;&#227;o nas bordas.</p><p>Houve um tempo em que &#8220;<em>?&#8221;</em> significava d&#250;vida, marcava uma pergunta a ser endere&#231;ada ao primeiro s&#225;bio a ser encontrado. Agora, boa parte dos <em>???</em>, &#224;s vezes repetido, sempre &#224; l&#225;pis, para n&#227;o firmar compromisso com as ideias, enfim, boa parte deles agora denota indigna&#231;&#227;o, normalmente com uma vis&#227;o considerada equivocada do que significa estar bem. <em>O que significa mesmo estar bem?</em> <em>Talvez eu devesse tomar um rem&#233;dio para concentra&#231;&#227;o. </em>Ritalina, Venvanse, Atentah. <em>Atentah, meu deus, que nome cafona para uma medica&#231;&#227;o psiqui&#225;trica.</em> </p><p>Da p&#225;gina 123 para a p&#225;gina 124 quase acontece um apaixonamento. O autor diz alguma coisa bel&#237;ssima a ponto de fazer pensar se n&#227;o seria o caso de alterar toda a abordagem cl&#237;nica do sujeito, e ent&#227;o basta virar a esquina de palavras boas para v&#234;-lo sussurrando as ideias de controle e de vida plena, escondendo-as atr&#225;s das frases bonitas. Fim do apaixonamento que n&#227;o foi. Pegar o celular para contar a anedota textual a um interlocutor talvez interessado. Largar o celular. N&#227;o reparar que horas s&#227;o. Sentir raiva. Criar uma categoria de frases e ideias chamadas &#8220;s&#243; um homem poderia ter escrito isso&#8221;. N&#227;o tomar nota. <em>Ainda n&#227;o fui fazer aquele caf&#233;.</em> </p><p>Enquanto a &#225;gua escorre pelo filtro chegando ao fundo do vasilhame improvisado na forma de chaf&#233;, as palavras dan&#231;am na cabe&#231;a. Das coisas mais bonitas da l&#237;ngua: h&#225; palavras que conseguem, sem for&#231;ar a barra, conter, apenas em si, num &#250;nico voc&#225;bulo, seu sentido e tamb&#233;m o seu oposto (o lugar mais perigoso para uma mulher ou uma crian&#231;a &#233; dentro da pr&#243;pria casa). Escolher qual tradu&#231;&#227;o do termo em alem&#227;o usar: aquela que cont&#233;m tudo numa palavra s&#243;. Mais de um m&#234;s sem ler fic&#231;&#227;o. O retorno deveria ser pelo livro daquela autora considerada um grande expoente da literatura latino-americana. N&#227;o &#233; uma palavra s&#243;, mas se chama O bom mal. O bom mal. <em>Qual &#233; o bom mal? </em>O paciente conta com um sistema de controle deliberado, que, se tudo correu bem, deveria funcionar de modo pouco r&#237;gido. <em>Odeio essa express&#227;o &#8220;se tudo correr bem&#8221;. O que diacho seria correr bem? </em>A livraria continua a 13 minutos &#224; p&#233; e est&#225; aberta. Fazer da aposta uma drogra psiqui&#225;trica. Ficar Atentah: mais tr&#234;s p&#225;ginas e d&#225; para ir comprar o livro da Samanta. Ir e torcer para encontrar o livro mesmo sabendo que dava para ter ligado antes e obter garantia. Est&#225; sol. </p><p><em>Quando foi que comecei a gostar de contos?</em> </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Bordas e seus transbordos]]></title><description><![CDATA[[&#233; tudo inven&#231;&#227;o]]]></description><link>https://victoriamantoan.substack.com/p/bordas-e-seus-transbordos</link><guid isPermaLink="false">https://victoriamantoan.substack.com/p/bordas-e-seus-transbordos</guid><dc:creator><![CDATA[Victória Mantoan]]></dc:creator><pubDate>Sun, 29 Mar 2026 11:45:04 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!VU-c!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9ddf316a-bb5a-45f8-9cd6-a9afe0fda1f3_1206x1206.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>I. Noite</p><p>A luz do sol se movimenta, formando um caminho que n&#227;o &#233; poss&#237;vel perceber a olho nu. &#201; dif&#237;cil precisar o que ela encena: uma fuga, um esconder-se de algo ou de algu&#233;m, um adeus, uma tentativa de descanso, um alento, uma persegui&#231;&#227;o sabe-se l&#225; de qual sombra ou assombra&#231;&#227;o. Fato &#233; que ela se vai, se esvai. At&#233; que volte, quando finalmente volta, n&#227;o sem antes parecer que n&#227;o mais voltar&#225;, n&#227;o sem antes ir. Mas seu caminho &#233; sempre mist&#233;rio. Acaba de fazer e amanh&#227; ser&#225; refeito; ainda assim, n&#227;o h&#225; como reter. &#201; necess&#225;rio uma lente, uma c&#226;mera, uma lentid&#227;o, tudo estratagemas da t&#233;cnica que o olho humano, a ang&#250;stia humana, a ansiedade humana n&#227;o s&#227;o capazes de assimilar ou reproduzir. O caminho da luz que se desfaz no ch&#227;o do quarto, ou seria na cama?, fica para sempre perdido, um passinho impercept&#237;vel de cada vez, um arrastar-se pelo ch&#227;o, pela parede, pela porta, fazendo uma trilha sem marcas. Mas &#233; mais do que isso. O que fica depois que a luz se vai &#233; um momentum, &#233; a luz que se dissolve deixando algo de si, e esse algo de si que ela deixa, nos postes, na passagem de bast&#227;o para a lua, no c&#233;u estrelado mais ou menos exibido, tudo isso permite que se respire. Ela volta, &#233; o que esse restinho nos diz. Contra todos os ind&#237;cios, ela voltar&#225;. &#201; noite.</p><p>.</p><p>II. Escuro</p><p>O escuro &#233; de outra ordem. N&#227;o o sol que se vai lento pela janela, mas o fechar abrupto: o blackout que desce em segundos, o cerrar das cortinas, os olhos tampados. &#201; o colorido que impregna na retina que n&#227;o teve tempo de adaptar-se &#224; nova composi&#231;&#227;o de luz. &#201; o bater do p&#233; na quina da cama e perder o caminho para fazer xixi. O escuro &#233; espesso. &#201; a assombra&#231;&#227;o particular de cada um encarnada a menos de um palmo dos olhos, sem que se possa jamais conjurar sua imagem. Est&#225; l&#225;. &#201; poss&#237;vel sentir, dific&#237;limo de n&#227;o temer. N&#227;o tem ousadia que permita esticar a m&#227;o sob risco de encontrar resist&#234;ncia, ou, ainda pior, sob risco de queda livre. Respira &#224; sua frente. Respira quente, ofegante, tem mau cheiro. Leva a solu&#231;&#245;es impens&#225;veis: enfiar-se debaixo das cobertas, proteger-se do escuro com mais escuro. Intensificar a opress&#227;o na esperan&#231;a de que ela nos proteja. </p><p>&#201; dif&#237;cil compreender por que algu&#233;m dormiria de janelas fechadas. </p><p>.</p><p>III. Tempo</p><p>Mas o rel&#243;gio demarca o tempo do jeito errado, sem considerar as sutilezas e as variabilidade infinitas do humor do homem. N&#227;o entende que os segundo &#224; beira da janela assistindo &#224;s crian&#231;as brincarem na rua s&#227;o uma era espec&#237;fica &#8212; <em>ainda h&#225; crian&#231;as que brincam na rua?</em>, ele pensa, saudosista, e sente prazer nessa no&#231;&#227;o de que sua trajet&#243;ria lhe d&#225; consist&#234;ncia suficiente para fazer reflex&#245;es sem destinat&#225;rio, com ares de profundidade. Mas h&#225; uma outra subst&#226;ncia de segundos&#8230;</p><p>O mesmo homem anos antes atracado &#224; mesma janela. A postura t&#227;o ereta quanto a juventude permite, mas sem perceber que h&#225;, sim, crian&#231;as brincando na rua, porque h&#225; sempre crian&#231;as que brincam na rua e h&#225; de haver sempre crian&#231;as que brincam na rua, de modo que a informa&#231;&#227;o pode ser ignorada, at&#233; faltar, porque n&#227;o h&#225; nada mais confort&#225;vel do que a paisagem que, submetida a uma observa&#231;&#227;o minuciosa, muda sempre sem jamais dar ind&#237;cios de que vai mudar, de como vai mudar, ou quando. A cren&#231;a de que tudo ficar&#225; sempre igual rodando em segundo plano para manter a sensa&#231;&#227;o de que o ch&#227;o onde se pisa n&#227;o est&#225; prestes a desabar. Uma defini&#231;&#227;o de juventude: andar pelo mundo sem saber que o ch&#227;o est&#225; sempre prestes desabar. A vida por andaimes. A saber: ele espera uma carta. Sem se perguntar se haver&#225; para sempre essa cena: um homem que espera uma carta. Ele espera pelo qu&#234;, afinal? Um relato de destrui&#231;&#227;o, um convite para uma festa, uma notifica&#231;&#227;o da Secretaria de Patrim&#244;nio da Uni&#227;o decretando sua janela perdida.</p><p>Os espectadores agora do outro lado da moldura. Outra dupla de homens. Na rua, talvez, quem sabe no vizinho. Algu&#233;m que, marcado pela paz que apenas os anos esperando cartas atrasadas, cartas que n&#227;o chegam, cartas que carregam letras inesperadas ou indesejadas, impens&#225;veis, ou at&#233;, raramente, mas acontece, cartas felizes. Apenas o homem que j&#225; recebeu dessas ou que jamais as recebeu experimenta a paz de sentar do outro lado e prestar aten&#231;&#227;o ao jovem que agora encara a espera. </p><p>&#192; frente da janela do jovem que espera h&#225; sempre um senhor que v&#234;. As idades de cada um jamais saberemos. N&#227;o h&#225; certid&#245;es indicando quem nasceu primeiro, o velho ou o jovem. Diante do solu&#231;o do jovem que n&#227;o recebe ou que recebe sua carta, h&#225; sempre o choro silencioso do velho que coleciona selos. </p><p>As cartas a nos encontrarem nos encontram simplesmente. </p><p>.</p><p>IV. Exageros</p><p><em>&#8220;E os hipop&#243;tamos foram cozidos em seus tanques&#8221;, Burroughs</em>  - assassinato <strong>e</strong> sorte</p><p><em>&#8220;A f&#250;ria&#8221;, Silvina Ocampo</em> - sinistro <strong>e</strong> festa</p><p>.</p><p>V. Dor</p><p>O nervo exposto. As m&#225;quinas fazem barulho e desgastam o esmalte numa opera&#231;&#227;o surpreendentemente artesanal, quase medieval. &#201; preciso cavar para tirar do organismo todo o mal, para garantir que ele n&#227;o tenha sobrevida, que n&#227;o se esconda num canto imundo esperando para voltar e se apossar de tudo. Ent&#227;o o aparelho segue destruindo toda a doen&#231;a, levando embora, com ela, todas as camadas de prote&#231;&#227;o. Da prote&#231;&#227;o dura, evidente, da prote&#231;&#227;o mole, sens&#237;vel. At&#233; restar apenas nervo. E o sujeito fica ali parado &#224; merc&#234; da opera&#231;&#227;o, num <em>aaaaaah</em> abobado de quem se entrega e confia. Confia. O sujeito confia que ningu&#233;m far&#225; nada contra seu nervo &#224; mostra, ningu&#233;m desferir&#225; nenhum golpe, n&#227;o com seu ponto de mais absoluta dor despido de todas as camadas que, de novo, protegiam?, escondiam?, sufocavam? Ningu&#233;m vai fazer nada. Apenas um espirro. Vamos espirrar um jato que vai deixar o nervo melhor, um rem&#233;dio, uma analg&#233;sico, anest&#233;sico&#8230; mas, ent&#227;o, o engano. Sim. Era um ataque e o nervo, o nervo, o nervo nunca mais ser&#225; exposto. O sujeito nunca mais dir&#225; ah. Nunca mais abrir&#225; um sorriso porque a dor. A dor. N&#227;o &#233; poss&#237;vel voltar da dor. &#201; imposs&#237;vel o retorno at&#233; que algu&#233;m se encarregue de voltar. At&#233; que se aprenda a distin&#231;&#227;o mais careta que j&#225; se fez entre dor e sofrimento. At&#233; que se experimente na pele e nas entranhas essa distin&#231;&#227;o cretina que se escuta durante os pr&#233;-natais da esquerda festiva. A experimenta&#231;&#227;o nas entranhas: uma m&#227;o que entra de modo consciente, ordenado, no fundo da ferida, que a manipule sem instrumentos, usando apenas as m&#227;os, os dedos, como a crian&#231;a e o cachorro cavam seus buracos na terra. A outra m&#227;o que a segura. Olhos nos olhos. A l&#225;grima que escorre sem jorrar. O gemido. Vai doer, sim. Vai doer muito. Mas tudo bem doer.</p><p>&#201; preciso uma vida, ou duas, para aprender a dor.</p><div><hr></div><p><em>Esta rede social/plataforma &#233;, para mim, um espa&#231;o experimental (e tamb&#233;m dos poucos jeitinhos brasileiros que encontrei de n&#227;o enlouquecer). Em todos os outros ambientes, virtuais e concretos, de minha vida, estou obedecendo, ou ao menos seguindo, a um certo contorno: no papel de analista, na forma&#231;&#227;o continuada, na an&#225;lise pessoal, na parentalidade, no meu of&#237;cio, na minha profiss&#227;o, nos estudos. H&#225; m&#233;todo, h&#225; &#233;tica, h&#225; norma. Aqui, n&#227;o. Ano passado, me propus (eu que escolhi) a falar sobre minhas leituras a cada 15 dias. Foi uma experi&#234;ncia bem feliz. Transformei minhas divers&#245;es com o mundo inventivo da literatura em textinhos que n&#227;o pretendiam ser nada al&#233;m de um et&#233;reo &#8220;puxa, olha isso aqui que eu li&#8221;. Este ano n&#227;o d&#225;. Por muitos motivos, mas o principal e mais limpinho deles: estou me aventurando por outras &#225;guas. Passarei os pr&#243;ximos dois anos perseguindo uma obsess&#227;o bem demarcada no campo liter&#225;rio, dois anos lendo e relendo o mesmo romance, intercalando com textos t&#233;cnicos, para o Mestrado. Isso significa um mergulho delimitado, ainda que profundo. 2026 ser&#225;, ent&#227;o, a temporada aqui dos textos sem sentido, sem norma, todos inventados. Uma temporada inteira de inven&#231;&#245;es. A princ&#237;pio, <strong>mensal, no &#250;ltimo domingo de cada m&#234;s</strong>.</em> <em>Mas, sempre vale a ressalva: posso mudar de ideia a qualquer momento.</em> </p><p></p><p></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O ímpeto de guardar palavras ]]></title><description><![CDATA[mat&#233;ria-prima da vida]]></description><link>https://victoriamantoan.substack.com/p/o-impeto-de-guardar-palavras</link><guid isPermaLink="false">https://victoriamantoan.substack.com/p/o-impeto-de-guardar-palavras</guid><dc:creator><![CDATA[Victória Mantoan]]></dc:creator><pubDate>Sun, 15 Feb 2026 15:45:17 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!VU-c!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9ddf316a-bb5a-45f8-9cd6-a9afe0fda1f3_1206x1206.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Chego ao sof&#225; do meu analista e fico em sil&#234;ncio. &#201; sempre assim, semana ap&#243;s semana. Ele aguarda pacientemente que eu decida por onde come&#231;ar. Tenho a ligeira impress&#227;o de que essa escolha vai definir tudo. Como se a primeira palavra que pronunciamos fosse dar forma, cor e destino a todo o restante da narrativa. Na faculdade de jornalismo, aprendemos a come&#231;ar pelo mais importante: o lide. No marketing digital, somos lembrados de que os primeiros segundos s&#227;o o que determinar&#227;o o sucesso ou a ru&#237;na de um <em>conte&#250;do</em>; mesmo no mundo dos romances, os come&#231;os s&#227;o glorificados: as primeiras frases, as primeiras p&#225;ginas.&nbsp;</p><p>N&#227;o &#233; exatamente simples sugerir a algu&#233;m que persista no in&#237;cio, apesar dele e n&#227;o por ele, quando estamos falando de se contar.&nbsp;</p><p>Ent&#227;o as primeiras palavras: fico quieta, demoro bons minutos para desatar a falar porque tenho essa apreens&#227;o que me persegue desde cedo, de que o que quer que se diga sair&#225; como um monstrinho de repente &#224; solta, sobre o qual perderemos o controle t&#227;o logo abrirmos a porteira. Se o resultado final da primeira palavra for ruim, n&#227;o consigo tom&#225;-la de volta. </p><p>Uma poeta que eu admiro muito falava h&#225; um tempo, durante um evento, da vontade que sente &#224;s vezes de pegar seus livros de volta, recolh&#234;-los, especialmente quando diante de algu&#233;m que eventualmente tenha entendido suas poesias errado. Eu entendi perfeitamente esse sentimento, aparentemente avesso &#224; ideia de que quem escreve quer necessariamente ser lido e muito lido.</p><p>Mas o mais assustador da exposi&#231;&#227;o, eu acho, n&#227;o &#233; tanto ser mal compreendido: &#233; justamente quando entendem o que voc&#234; diz certo, mas antes de voc&#234;.&nbsp;</p><p>J&#225; vi relatos de escritores que encontraram por a&#237;, na boca de terceiros, interpreta&#231;&#245;es assombrosamente leg&#237;timas daquilo que eles mesmos n&#227;o tinham se dado conta de que escapava no que eles colocavam para circular no mundo. Chico Buarque relata em entrevista essa experi&#234;ncia de descobrir anos depois que uma m&#250;sica que n&#227;o era sobre ele era, afinal, sobre ele. Colocar palavras no mundo &#233; sempre colocar um certo mapa de si para jogo. Mapa que sempre pode conter pistas desavisadas de tesouros tortos escondidos em seu mundo interno &#8212; e ent&#227;o expostos, vis&#237;veis a olho nu. &nbsp;</p><p>Esse &#233; o risco maior num div&#227; tamb&#233;m, que voc&#234; diga algo que ainda n&#227;o tolera escutar. E esse outro estranho, que consegue (ou deveria) se colocar de maneira desapaixonada diante do seu discurso, faz o trabalho derradeiro,&nbsp;funciona como um marca-texto a te indicar: pois &#233;, olha s&#243;, percebe isso que voc&#234; mesmo acaba de dizer? N&#227;o. Claro que n&#227;o. N&#227;o percebo nada.&nbsp;</p><p><em>N&#227;o foi isso que eu quis dizer</em>.&nbsp;Talvez n&#227;o, mas foi o que voc&#234; disse.&nbsp;</p><p>E ent&#227;o fico olhando as palavras dan&#231;arem no teto do seu consult&#243;rio, se embaralharem, viajarem no tempo; combina&#231;&#245;es e recombina&#231;&#245;es que se ajustam para falar sobre coisas do presente, do passado ou do futuro. As palavras v&#227;o e voltam sem grandes amarras. &#192;s vezes dan&#231;am &#224; exaust&#227;o at&#233; ca&#237;rem no esquecimento no intervalo de 50 minutos; e eu termino, ap&#243;s tanto rodeio, sem nem lembrar mais por onde foi que afinal eu comecei. &#192;s vezes ocorre o contr&#225;rio, e as palavras s&#227;o sacudidas e tem seu p&#243; espantado para longe, para nunca mais se perderem de n&#243;s, nos agarramos a elas e com elas ficamos por muito tempo at&#233; encontrarmos uma pr&#243;xima com quem nos definir.&nbsp;</p><p>Comecei a ler <strong>&#8220;A vida material&#8221;</strong>, da Marguerite Duras, faz algumas semanas. Depois de me aventurar por um punhado de p&#225;ginas, comecei a me perguntar de onde veio esse t&#237;tulo. N&#227;o conseguia entender como um livro todo tomado de sentimento, de falar de sentimentos, de discutir sentimentos, poderia estar intitulado com tamanha concretude. Como uma escritora que nos faz navegar por sua vida sem sequer se dar o trabalho de ser perfeitamente clara, que esparrama as palavras como quem nos convida a navegar pela desordem intensa de sua mente, pode falar em vida material? Comecei a inverter a l&#243;gica: talvez seja esse mesmo o material da vida.&nbsp;</p><p>Um dos cap&#237;tulos se chama &#8220;A casa&#8221;. Tenho algumas informa&#231;&#245;es concretas das casas de que ela fala, uma delas sendo um apartamento, tantas outras sendo as casas de sua m&#227;e, mas n&#227;o &#233; a&#237; que mora o cerne do relato: n&#227;o sei exatamente como era <strong>A</strong> casa. Quantos quartos tinha, quais c&#244;modos a conformavam. Mas agora sei o que &#233;, para Marguerite Duras, uma casa. O que foi uma casa. Como ela se relacionou com a ideia de casa. De novo e de novo a palavra: casa. Me parece realmente muito mais concreto do que um amontoado de c&#244;modos separados por paredes.&nbsp;</p><p>E talvez por isso eu hesite tanto em escolher as minhas palavras. &#201; mais f&#225;cil derrubar um pr&#233;dio, implodir uma constru&#231;&#227;o, refazer uma planta, derrubar cimento a marretadas, do que desfazer a palavra casa. Do que mudar o modo como Duras tinha impregnado debaixo de sua pele esse termo, esse sentido: a casa que lhe constituiu e que lhe dava corpo. </p><p>A casa que, para refazer, n&#227;o basta contratar um servi&#231;o de demoli&#231;&#227;o: s&#227;o necess&#225;rios anos de rearranjos de palavras... para, ainda assim, de repente, descobrir uma parede que se julgava extinta, mas ainda estava l&#225;, abrigando voc&#225;bulos de uma vida inteira.&nbsp;</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Amar mudar, detestar a mudança]]></title><description><![CDATA[den&#250;ncia de venda casada]]></description><link>https://victoriamantoan.substack.com/p/amar-mudar-detestar-a-mudanca</link><guid isPermaLink="false">https://victoriamantoan.substack.com/p/amar-mudar-detestar-a-mudanca</guid><dc:creator><![CDATA[Victória Mantoan]]></dc:creator><pubDate>Fri, 30 Jan 2026 20:42:55 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Gtcp!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F561c8881-086e-4000-88b4-3e6f35b62148_4283x1682.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Gtcp!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F561c8881-086e-4000-88b4-3e6f35b62148_4283x1682.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Gtcp!, /__u/victoriamantoan.substack.com/w_424, /__u/victoriamantoan.substack.com/c_limit, /__u/victoriamantoan.substack.com/f_webp, /__u/victoriamantoan.substack.com/q_auto:good, 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xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" 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Ela deixa seu exoesqueleto para tr&#225;s, muito comumente agarrado a &#225;rvores, e segue seu curso. </p><p>.</p><p>Um dos rituais favoritos do meu filho mais novo &#233; coletar esp&#233;cimes de suas explora&#231;&#245;es pela rua e pela natureza e guarda-los para me dar de presente. Tenho d&#250;vidas se s&#227;o presentes para mim ou se sou apenas a desculpa de que ele precisa para que o deixem levar o que ele escolhe para casa: flores, com frequ&#234;ncia, mas tamb&#233;m pedras de tamanhos diversos, conchas, frutas secas, folhas amareladas etc. O engra&#231;ado &#233; que, se ele n&#227;o v&#234; em mim o recept&#225;culo &#224; altura de sua coleta, n&#227;o se faz de rogado e pega de volta o &#8220;presente&#8221; sob o pretexto de que vai guardar &#8220;para mim&#8221;, j&#225; que, claro, far&#225; isso melhor do que eu. </p><p>Nas f&#233;rias que agora terminam, que finalmente terminam, a minha (minha?) cole&#231;&#227;o de presentes tomou uma nova consist&#234;ncia: meu filho trouxe as peles largadas e endurecidas de duas cigarras, foi um presente de Natal. Era para mim, ele dizia, mas n&#227;o queria soltar por nada, e eu tampouco fiz muita cara de quem estava com vontade de pegar. </p><p>Penso que vivi um apaixonamento tardio, que preencheu o lugar da grande apreens&#227;o imediata que eu senti quando ele perguntou se podia levar para casa os bichinhos e eu queria responder que n&#227;o, mas n&#227;o tinha nenhum bom motivo para dar assim, &#224; queima-roupa. Processando o car&#225;ter de rel&#237;quia do animal (a pele do animal &#233; o animal?): o encantamento foi gradual, conforme pensava que, t&#227;o novo, meu filho ainda &#233; mais aberto que n&#243;s (que eu) &#224; natureza. Ningu&#233;m ainda disse para ele que &#233; para ter nojo de insetos, mesmo que n&#227;o piquem e nem mordam. Para ele, os exoesqueletos eram esse grande tesouro encontrado e comecei a pensar que talvez fossem a marca de uma maior abertura tamb&#233;m &#224;s mudan&#231;as da vida, que vejo nele.</p><p>.</p><p>H&#225; toda uma tradi&#231;&#227;o de livros de relatos cl&#237;nicos, tanto na psican&#225;lise em particular quanto na psicologia em geral. O <strong>&#8220;Talvez voc&#234; deva conversar com algu&#233;m&#8221;</strong>, um que deu o salto de adicionar o relato da terapeuta sobre a pr&#243;pria terapia aos casos que ela atende, virou febre por aqui. Eu tenho hoje uma rela&#231;&#227;o d&#250;bia com essa tradi&#231;&#227;o: porquanto o g&#234;nero me deu inspira&#231;&#227;o para fazer a transi&#231;&#227;o que fiz nos &#250;ltimos anos, ele me lembra que o que dizemos que deve ser feito, o que fazemos e o que dizemos do que fizemos s&#227;o tr&#234;s inst&#226;ncias cada uma mais diferente da outra, em especial se tratando de coisas que ocorrem entre quatro paredes com pouqu&#237;ssimo testemunho. Mas, bem, tudo isso &#233; para falar que um dos meus favoritos do g&#234;nero, ainda na fase em que eu pulava de um a outro, &#233; o <strong>&#8220;Vida em an&#225;lise&#8221;</strong>, do psicanalista brit&#226;nico Stephen Grosz. </p><p>(Um outro que me arrebatou nessa &#233;poca foi o <strong>&#8220;Seu paciente favorito: 17 historias extraordin&#225;rias de psicanalistas&#8221;</strong>, pelo qual at&#233; hoje tenho um carinho especial, em parte porque ele foi feito por uma jornalista que entrevistou uma s&#233;rie de psicanalistas para que estes lhe contassem sobre um paciente emblem&#225;tico que tivessem tratado, em parte porque, fugindo &#224; norma de fazer espet&#225;culo do que o psicanalista, enquanto quase m&#225;gico, promove na vida de algu&#233;m, ele foca no impacto que as pessoas que entraram para serem &#8220;ajudadas&#8221; tiveram na vida daqueles que estavam l&#225; para escut&#225;-las. Mas o foco desse texto &#233; outro, isso aqui &#233; apenas uma digress&#227;o). </p><p>Voltando ao <strong>&#8220;Vida em an&#225;lise&#8221;</strong>&#8230;</p><p>Esse eu guardo na estante e tamb&#233;m na mem&#243;ria menos pelos relatos, dos quais tenho quase nenhuma lembran&#231;a, e mais pelo que seu autor nos d&#225; de indica&#231;&#227;o sobre o que &#233; que faz uma psican&#225;lise&#8230;</p><blockquote><p><em>&#8220;Uma vez ou outra, quase todos n&#243;s nos sentimos aprisionados por coisas que pensamos ou fazemos, enredados por nossos impulsos ou escolhas idiotas; presos em alguma infelicidade ou medo, atolados em nossa pr&#243;pria hist&#243;ria. Sentimo-nos incapazes de seguir adiante, mas apesar disso acreditamos que deve haver uma maneira. &#8220;Quero mudar, mas n&#227;o se isso significar mudan&#231;a&#8221;, disse-me certa vez um paciente em completa inoc&#234;ncia. Como meu trabalho consiste em ajudar pessoas a mudar, este livro &#233; sobre mudan&#231;a. E como mudan&#231;a e perda est&#227;o profundamente conectadas &#8211; n&#227;o pode haver mudan&#231;a sem perda &#8211;, a perda assombra este livro.&#8221;</em></p></blockquote><p>. </p><p>Eu nunca me achei propriamente afeita a novidades e mudan&#231;as em geral. Assisto aos mesmos filmes e s&#233;ries in&#250;meras vezes, como a mesma coisa de caf&#233; da manh&#227; todos os dias, escuto uma m&#250;sica &#224; exaust&#227;o por meses a fio, volto aos mesmos restaurantes para repetir os mesmos pratos. Foi sempre com muito custo que adicionei novidades &#224; rotina. </p><p>Uma delas: comecei a correr depois dos 30. </p><p>N&#227;o &#233; uma mudan&#231;a radical para quase ningu&#233;m, mas, al&#233;m de tudo, eu sou pregui&#231;osa (e n&#227;o &#233; pouco). O bom de ter topado experimentar &#233; que eu descobri que eu gosto. Que eu adoro. Como me &#233; de praxe desde sempre, fui ler a respeito e meu livro favorito sobre o tema &#233; o <strong>&#8220;Correr&#8221;</strong>, do Drauzio Varella. </p><p>A coisa que mais me marcou n&#227;o foi a defesa simplificada da corrida (que n&#227;o precisa de tanta parafern&#225;lia quanto o mundo da internet faz parecer), n&#227;o foram os bel&#237;ssimos relatos de lugares que ele nos oferece, nem mesmo os vislumbres das belas rela&#231;&#245;es que a corrida tamb&#233;m lhe proporcionou (embora, leia por isso tamb&#233;m, &#233; tudo bonito). </p><p>O que eu mais amei nesse livro foi o <em>porqu&#234;</em> e o <em>como</em> de ele ter come&#231;ado: o que fez Drauzio se lan&#231;ar numa nova atividade &#224;s v&#233;speras dos 50 anos. </p><p>Caminhando no centro de S&#227;o Paulo, ele esbarra num antigo conhecido da escola, que n&#227;o via h&#225; anos. E coloco aqui o que sucede do encontro:</p><blockquote><p><em>&#8220;A conversa foi um mon&#243;logo arrastado em que ele falou sobretudo do passado, dos filhos e contou as gracinhas dos cinco netos, a alegria de sua vida de funcion&#225;rio p&#250;blico aposentado aos 52 anos. Aguardei mudo a primeira chance para fugir daquele astral deprimente. Quando consegui, ele quis saber minha idade, curiosidade &#250;nica a meu respeito. Respondi que estava com 49 e apertei sua m&#227;o em despedida. Sem largar dela, meu ex-colega do Liceu adquiriu ar solene: &#8220;Ano que vem, cinquenta, idade em que tem in&#237;cio a decad&#234;ncia do homem&#8221;. </em></p><p><em>Retomei o caminho, com a hist&#243;ria da decad&#234;ncia na cabe&#231;a. Atolado em trabalho, cheio de ideias e desejos para realizar, eu vivia numa efervesc&#234;ncia intelectual oposta &#224; do amigo aposentado. N&#227;o sentia no corpo o peso da idade; ao contr&#225;rio, estava sem fumar havia treze anos, abstin&#234;ncia que me devolvera o f&#244;lego e a aten&#231;&#227;o aos reclamos do corpo. Tinha at&#233; come&#231;ado a correr num ou noutro fim de semana, pr&#225;tica ocasional que todos consideravam desaconselh&#225;vel. </em></p><p><em>Quando cheguei ao largo, o carrilh&#227;o da igreja de S&#227;o Bento anunciou a hora, melodia que trouxe &#224; lembran&#231;a as missas f&#250;nebres de parentes e amigos de meus av&#243;s, &#224;s quais eu assistia fascinado pela est&#233;tica da liturgia e pela harmonia sonora do latim: &#8220;Dominus vobiscum et cum spiritu tuo&#8221;,* o c&#225;lice de prata que o padre levantava, o dourado do manto, a vibra&#231;&#227;o do sino do coroinha, a pose constrita dos fi&#233;is ao voltar para seus lugares depois de receber a h&#243;stia, meus joelhos magros no flagelo do genuflex&#243;rio de madeira, a choradeira das mulheres de v&#233;u e as l&#225;grimas que cintilavam no rosto dos homens com fitas pretas costuradas na lapela do palet&#243;. &#201;ramos expostos mais cedo ao mist&#233;rio da morte, naquele tempo. </em></p><p><em>Ao som dos sinos, nasceu a ideia de me propor um desafio para provar que a decad&#234;ncia n&#227;o come&#231;aria aos cinquenta, no meu caso. Decidi correr a Maratona de Nova York, em novembro do ano seguinte. Quem consegue correr 42 quil&#244;metros deve ser capaz de enfrentar o futuro com mais otimismo e sabedoria, pensei.&#8221;</em></p></blockquote><p>Eu espero que sim. </p><p>Aos 79, Drauzio ganhou uma medalha por completar as seis maiores maratonas do mundo.</p><p>. </p><p>50 &#233; uma idade emblem&#225;tica, ao que parece. </p><p><em>Para n&#243;s, que vivemos pelo menos umas quatro vezes mais que as cigarras, quantas vezes ser&#225; necess&#225;rio trocar de pele?</em></p><p>.</p><p>Eu sou, como j&#225; disse, da repeti&#231;&#227;o, mas, lembrava outro dia, tamb&#233;m sou algu&#233;m que j&#225; morou em 7 cidades diferentes e mudou de casa mais de quinze. Tenho chegado &#224; conclus&#227;o, portanto, de que gosto do resultado, mas detesto o processo. Eu chamava isso de &#8220;ser avessa a mudar&#8221;, e recentemente comecei a colocar &#224; prova a ideia que eu fazia de mim mesma: de que n&#227;o gosto mesmo de mudar. Talvez eu s&#243; sofra com as mudan&#231;as.</p><p>Os &#250;ltimos dois anos foram especialmente cheios delas, de consolidar a vida numa nova cidade, de gostar dela mesmo gostando tamb&#233;m da antiga e sonhar com outras tantas, de come&#231;ar a atender&#8230; de (re)come&#231;ar uma por&#231;&#227;o de coisas. Fiquei emocionada que por uma conting&#234;ncia, bem nessa fase, por indica&#231;&#227;o de uma amiga, tamb&#233;m essa &#8220;nova&#8221;, quando j&#225; estamos naquela idade em que os chatos dizem que n&#227;o se faz mais amigos (mais essa tamb&#233;m), comecei 2026 com a Deborah Levy. </p><p>Mais especificamente, <strong>&#8220;O custo de vida&#8221;</strong> da Deborah Levy. Amei tamb&#233;m rs. E amei porque eu me vi pensando, em retrospecto, justamente que mudar tem o custo da mudan&#231;a (h&#225;), que muitas vezes &#233; car&#237;ssima, mas que suportar as perdas que elas acarretam n&#227;o significa arredar p&#233; de que sejam importantes (quando n&#227;o absolutamente necess&#225;rias para a manuten&#231;&#227;o da vida). </p><p>A pele que a cigarra deixa n&#227;o mente: para ter uma nova, algo fica para tr&#225;s. </p><p>Mas que bom que, no fim das contas, com mais ou menos pesar, seguimos mudando&#8230;</p><blockquote><p>&#8220;<em>Tudo estava calmo. O sol brilhava. Eu nadava no fundo. E ent&#227;o, quando voltei &#224; superf&#237;cie, vinte anos depois, descobri que havia uma tempestade, um redemoinho, um vendaval jogando as ondas por cima da minha cabe&#231;a. A princ&#237;pio, n&#227;o sabia ao certo se conseguiria voltar para o barco, e ent&#227;o me dei conta de que n&#227;o queria conseguir. O caos &#233;, em tese, o que mais tememos, mas cheguei &#224; conclus&#227;o de que talvez seja o que mais queremos. Se n&#227;o acreditamos no futuro que estamos planejando, na casa cujas presta&#231;&#245;es temos que pagar, na pessoa que dorme ao nosso lado, &#233; poss&#237;vel que uma tempestade (&#224; espreita faz muito tempo nas nuvens) nos traga mais para perto de como queremos estar no mundo. A vida desmorona. Tentamos nos reestruturar e segurar as pontas. E ent&#227;o nos damos conta de que n&#227;o queremos segurar as pontas.</em></p><p><em>Quando eu tinha meus cinquenta anos e minha vida deveria estar desacelerando, se tornando mais est&#225;vel e previs&#237;vel, ela se tornou mais veloz, inst&#225;vel e imprevis&#237;vel.</em>&#8221;</p></blockquote><blockquote><p><em>&#8220;Era in&#250;til tentar fazer caber uma vida antiga numa vida nova. A velha geladeira era grande demais para a nova cozinha; o sof&#225;, grande demais para a sala; as camas tinham o formato errado para os quartos. A maior parte dos meus livros estava em caixas na garagem, com o resto da casa da fam&#237;lia.&#8221;</em></p></blockquote><blockquote><p><em>&#8220;A liberdade nunca &#233; de gra&#231;a. Quem quer que tenha lutado para ser livre sabe o quanto custa.&#8221;</em></p></blockquote><p>.</p><p>&#201; apenas na &#250;ltima troca de pele, depois que deixaram para tr&#225;s cascas que remontam a toda a dimens&#227;o do corpo que tinham at&#233; ent&#227;o n&#227;o uma, nem duas e nem tr&#234;s vezes, mas quatro ou cinco, &#233; apenas depois da &#250;ltima troca que as cigarras passam a ter asas. </p><p>As que n&#227;o conseguem romper a pele antiga para sair voando invariavelmente morrem.</p><p>. </p><p>Veja bem, continuo achando que as mudan&#231;as (n&#227;o o mudar) s&#227;o um porre. As de casa e as da vida tamb&#233;m. Mas talvez d&#234; para seguir&#8230; </p><p>reclamando mesmo, porque ningu&#233;m &#233; de ferro.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!-LS-!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fcf426259-16dd-4d8c-86a0-e3fdf710fdc1_1206x1352.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!-LS-!, /__u/victoriamantoan.substack.com/w_424, /__u/victoriamantoan.substack.com/c_limit, /__u/victoriamantoan.substack.com/f_webp, /__u/victoriamantoan.substack.com/q_auto:good, /__u/victoriamantoan.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fcf426259-16dd-4d8c-86a0-e3fdf710fdc1_1206x1352.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!-LS-!, 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y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p></p><div><hr></div><p>Ainda sobre o tema mudar: recomendo fortemente <a href="/__u/substack.com/home/post/p-182816792">a newsletter do fim do ano da Thais Farage</a>, que fala lindamente sobre a chatice de empacotar e desempacotar toda uma vida seguida da del&#237;cia de descobrir novas padarias para frequentar. Um spoiler: ela d&#225; um lembrete important&#237;ssimo de que n&#227;o h&#225; ind&#237;cios confi&#225;veis de que ficar parado garanta ser esquecido pelas trag&#233;dias. </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Um passeio por anteontem]]></title><description><![CDATA[um ano em livros, claro]]></description><link>https://victoriamantoan.substack.com/p/um-passeio-por-anteontem</link><guid isPermaLink="false">https://victoriamantoan.substack.com/p/um-passeio-por-anteontem</guid><dc:creator><![CDATA[Victória Mantoan]]></dc:creator><pubDate>Fri, 02 Jan 2026 21:02:53 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Nz3F!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F958fc782-bac0-419a-b107-2d8440ab6f60_3072x2973.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>&#201; t&#227;o simples quanto o t&#237;tulo e o subt&#237;tulo denunciam: tem quem fale que &#233; retrospectiva, mas t&#244; tentando deixar mais charmosa a proposta. Eu estava entre n&#227;o fazer nada que n&#227;o envolvesse vinho e bolo de abacaxi com coco esta semana (f&#233;rias que chama) e fazer esse texto singelo, embora talvez longo&#8230; ent&#227;o, se voc&#234; est&#225; lendo isso agora, significa que vamos desse n&#227;o t&#227;o breve passeio. </p><p>(ainda cogito voltar apenas dia 30/1 depois de hoje: f&#233;rias)</p><p>Revendo meu rolo de c&#226;mera, que &#233; o principal reposit&#243;rio que tenho de minhas pr&#243;prias leituras e trechos preferidos, me dei conta de que meu grande m&#233;rito ano passado (anteontem) foi ter conseguido: i) escolher melhor e ii) largar m&#227;o do que j&#225; sei que n&#227;o vai engatar. De modo que o que est&#225; aqui &#233; quase tudo o que eu li no ano fora da etiqueta psican&#225;lise &#8212; h&#225; exce&#231;&#245;es, claro.</p><p>(Perceber logo que n&#227;o vai engatar n&#227;o significa necessariamente n&#227;o gostar ou dizer que seja ruim. Continuo acreditando que achar livro &#233; um tro&#231;o t&#227;o fortuito quanto encontrar gente: timing &#233; <s>quase</s> tudo nessa vida. A depender do humor, rola ou n&#227;o rola. E d&#225; para voltar a alguns depois de uma tentativa de mergulho malsucedida.)</p><p>Eu n&#227;o lembrava mais, mas a tecnologia n&#227;o mente: entrei em 2025 lendo <strong>&#8220;Terra estranha&#8221;</strong>. Esse livro me pegou t&#227;o forte que eu acho at&#233; dif&#237;cil de acreditar que eu tivesse uma exist&#234;ncia emocional antes dele. Faz s&#243; uma ano que ele chegou pra mim? Inacredit&#225;vel. <em>O que eu citava para o Mario antes?</em> Da&#237; lembrei que o Mario [meu analista] tamb&#233;m entrou na minha vida em 2025. Que ano doido que foi 2025. Deve ter durado pelo menos uns 10 e ainda tenho d&#250;vidas se n&#227;o permanece se estendendo de diversos modos, incluindo pelos ecos das p&#225;ginas que menciono abaixo.</p><p>Mas, bom, sobre livros&#8230; o passeio n&#227;o est&#225; em ordem de prefer&#234;ncia e nem mesmo cronol&#243;gica, mas sensorial. N&#227;o h&#225; um padr&#227;o. Falo mais ou menos sobre cada um deles, retomo coment&#225;rios largados em outros cantos mais ou menos virtuais, e &#224;s vezes apenas ilustro meu pr&#243;prio apaixonamento pelas cita&#231;&#245;es.</p><p>Bom voo!</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Nz3F!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F958fc782-bac0-419a-b107-2d8440ab6f60_3072x2973.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!Nz3F!, /__u/victoriamantoan.substack.com/w_424, /__u/victoriamantoan.substack.com/c_limit, /__u/victoriamantoan.substack.com/f_webp, /__u/victoriamantoan.substack.com/q_auto:good, 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y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p>[nota: <em>eu amei!</em> vai ser a express&#227;o mais repetida adiante. Perdoa desde j&#225;.]</p><p>. </p><ul><li><p><strong>&#8220;Terra estranha&#8221;, James Baldwin</strong></p></li></ul><p>&#201; um livro completo, um livro da vida e para a vida, um livro perfeito, correndo o risco de soar exagerada, mas sabendo que n&#227;o &#233; o caso, porque n&#227;o h&#225; exagero algum em apontar essa perfei&#231;&#227;o escancarada. Um livro para indicar para todo mundo, para dar de presente para todo mundo. Para se acabar de chorar, para ficar emputecida com diversos personagens, para lembrar que a arte dos bons di&#225;logos &#233; um neg&#243;cio realmente de fazer nosso est&#244;mago dar pirueta. Uma montanha-russa emocional. &#201; livro de ir dormir de madrugada n&#227;o querendo parar de ler, de sentir na pele as tristezas, os prazeres e as alegrias. No livro que estou lendo agora, mas de que n&#227;o falarei aqui, pois no come&#231;o, a narradora descreve o pai como um &#8220;ninho inacredit&#225;vel de incoer&#234;ncias&#8221;. Bom, James Baldwin faz desse ninho a mat&#233;ria-prima de suas hist&#243;rias. E, como n&#243;s n&#227;o passamos mesmo de um bando de gente incoerente tentando se fazer entender&#8230; &#8220;Terra estranha&#8221; &#233; simplesmente divino. Tem texto s&#243; sobre ele <a href="/__u/victoriamantoan.substack.com/p/o-de-dificil-cultivo-apetite-pela">aqui</a>. </p><p>. </p><ul><li><p><strong>&#8220;Nenhuma poesia&#8221;,  Roger de Andrade</strong></p></li></ul><blockquote><p><em>&#8220;A palavra faz o desenho</em></p><p><em>que a vis&#227;o n&#227;o descreve</em></p><p><em>que a audi&#231;&#227;o n&#227;o reteve</em></p><p><em>atrav&#233;s do poema ferrenho.</em></p><p><em>A viga mestra da palavra</em></p><p><em>aquele espa&#231;o ousado</em></p><p><em>deduz seus termos calmos</em></p><p><em>e secos da lama que a grava</em></p><p><em>Desfigura cubos</em></p><p><em>expressa sentidos</em></p><p><em>opera sob jugo</em></p><p><em>de corte infinito&#8221;</em></p></blockquote><p>2025 tamb&#233;m foi o ano da palavra como desenho.</p><p>. </p><ul><li><p><strong>&#8220;Quero estar acordado quando morrer&#8221;, Atef Abu Saif</strong></p></li></ul><p>&#201; preciso ter est&#244;mago para encarar esse. Muito est&#244;mago. Mas, como n&#227;o d&#225; para fugir do nosso tempo e o que est&#225; acontecendo n&#227;o vai sumir se n&#243;s fecharmos os olhos, vale a pena o exerc&#237;cio de coragem. Atef Abu Saif foi ministro da Cultura da Palestina e esse &#233; um relato de quase tr&#234;s meses em que ele esteve em Gaza. Parece um sacril&#233;gio dizer isso diante da tem&#225;tica, mas, al&#233;m de tudo, o cara escreve muito bem. A descri&#231;&#227;o da editora &#233; perfeita: um di&#225;rio do genoc&#237;dio. &#201; tenso assim mesmo, &#233; pesado assim. O mote que d&#225; nome ao livro &#233; desesperador porque nos lembra o que deveria ser &#243;bvio: que n&#227;o h&#225; absolutamente nada de normal em n&#227;o estar a salvo durante o sono. V&#225; em frente.</p><p>. </p><ul><li><p><strong>&#8220;Desonra&#8221;, J. M. Coetzee</strong></p></li></ul><p>O que Coetzee faz aqui &#233; contar uma hist&#243;ria complexa sem abrir m&#227;o das nuances. Uma hist&#243;ria completa, cheia, de novo, de personagens incoerentes, paradoxais. A cada passo, lembrando que viver e fazer escolhas n&#227;o tem nada de simples, embora n&#243;s fa&#231;amos isso o melhor que podemos mesmo assim. As reflex&#245;es sobre culpa e desejo s&#227;o extraordin&#225;rias. Um lembrete de que n&#227;o ser&#225; poss&#237;vel viver num mundo de concursos de minorias ou ficar na superf&#237;cie das quest&#245;es, se quisermos nos fazer compreender minimamente. Este ano, ainda teve a belezinha de &#8220;O polon&#234;s&#8221; do autor. N&#227;o teve o mesmo impacto em mim, embora seja injusto comparar os dois. S&#227;o hist&#243;rias bem contadas e isso &#233; tanta (tanta!) coisa. Tem texto apenas sobre ele (Desonra) <a href="/__u/victoriamantoan.substack.com/p/perguntas-impronunciaveis">aqui</a>. </p><p>. </p><ul><li><p><strong>&#8220;O amante&#8221;, Marguerite Duras</strong></p></li></ul><p>Transcrevo o que anotei na &#250;ltima p&#225;gina, ao fim da leitura: <em>Acabou comigo. O que mais me impactou, acho, foi a sensa&#231;&#227;o de estar diante de algu&#233;m que via a tristeza como destino inevit&#225;vel. N&#227;o como sina, n&#227;o como castigo, n&#227;o como uma esp&#233;cie de moral crist&#227;, apenas como destino inequ&#237;voco, contra o qual n&#227;o cabe rebeli&#227;o. N&#227;o h&#225; luta contra a dor indiz&#237;vel (que ela diz); ao contr&#225;rio, parece que ela a tira para dan&#231;ar, se apaixona pela pr&#243;pria dor. &#201; de uma paz com a pr&#243;pria tristeza aterradora. </em></p><p>. </p><ul><li><p><strong>&#8220;Cadelas de aluguel&#8221;, Dahlia de la Cerda</strong></p></li></ul><p><em>N&#227;o &#233; uma leitura, eu achei, de passagens propriamente bonitas. Quase n&#227;o sublinhei nada. Mas &#233; impressionante o que a mexicana Dahlia de la Cerda faz com esses treze contos. Cada mulher protagonista &#233; completamente diferente da outra. Mas tamb&#233;m n&#227;o &#233;. Elas se encostam &#224;s vezes, se cruzam. No texto da contracapa t&#225; escrito que a viol&#234;ncia atravessa todas elas, ainda que n&#227;o sejam de maneira alguma passivas (n&#227;o s&#227;o mesmo). Mas foi ali no quarto conto que me ocorreu alguma coisa que as une tamb&#233;m: Constanza diz assim &#8220;moldei minha personalidade a partir de um poema!&#8221;. Talvez essa seja a chave da viol&#234;ncia que serve de fio condutor das hist&#243;rias. Por desejo, necessidade, sobreviv&#234;ncia, elas v&#227;o, ainda que n&#227;o passivamente, se moldando. N&#227;o &#233; um mundo feito para mulheres, afinal, ent&#227;o vamos dando jeitos de caber. Muitas coisas v&#227;o mudando, ainda bem, nesse dar diferentes jeitos. Mas n&#227;o deixa de ser, ainda assim, violento.</em></p><p><em>Eu amei.</em></p><p>. </p><ul><li><p><strong>&#8220;Da pr&#243;xima vez, o fogo&#8221;, James Baldwin</strong></p></li></ul><p>O que eu mais amo no James Baldwin &#233; o que eu considero uma mistura sem igual de delicadeza e f&#250;ria. A maior parte do tempo o cara est&#225;, ou parece estar, simplesmente puto. Mas, no lugar de apenas denunciar os absurdos do mundo e da vida (e vamos combinar que a vida de um homem negro gay nascido em 1924 nos Estados Unidos certamente foi um festival de absurdos), ele decide falar de amor, sobre o que acontece com algu&#233;m que tem medo de amar e ser amado; ele tenta entender as quest&#245;es de seu tempo e de seu pa&#237;s (como o faz nos dois ensaios desse livro). Ele decide criar personagens que tem as conversas mais dif&#237;ceis e as sustentam. Sou apaixonada, caso n&#227;o tenha ficado claro. E recomendo a vers&#227;o ensa&#237;sta tanto quanto a ficcionista. Um deles, neste caso, &#233; uma carta bel&#237;ssima para o sobrinho adolescente.</p><p>. </p><ul><li><p><strong>&#8220;Nudez&#8221;, Giorgio Agamben</strong></p></li></ul><p>Mais especificamente, eu falo &#233; do ensaio &#8220;O que &#233; o contempor&#226;neo?&#8221;, o segundo dessa cole&#231;&#227;o da Aut&#234;ntica, que eu grifei inteiro, e que resume o que eu mais amo nos autores que mais amei em 2025 (de novo, com o perd&#227;o da repeti&#231;&#227;o) (e chutaria que em outros tempos tamb&#233;m): </p><blockquote><p><em>&#8220;Pertence verdadeiramente ao seu tempo, &#233; verdadeiramente contempor&#226;neo aquele que n&#227;o coincide perfeitamente com ele nem se adequa &#224;s suas exig&#234;ncias e &#233;, por isso, nesse sentido, inatual; mas, precisamente por isso, exatamente atrav&#233;s dessa separa&#231;&#227;o e desse anacronismo, ele &#233; capaz, mais que os outros, de perceber e de apreender o seu tempo. </em></p><p><em>Essa n&#227;o coincid&#234;ncia, essa discronia, n&#227;o significa, naturalmente, que contempor&#226;neo seja aquele que vive num outro tempo, um nost&#225;lgico que se sente em casa mais na Atenas de P&#233;ricles ou na Paris de Robespierre e do Marqu&#234;s de Sade que na cidade e no tempo em que lhe foi dado viver. Um homem inteligente pode odiar o seu tempo, mas sabe, em todo caso, que lhe pertence irrevogavelmente, sabe que n&#227;o pode fugir do seu tempo. </em></p><p><em>A contemporaneidade &#233;, assim, uma rela&#231;&#227;o singular com o pr&#243;prio tempo, que adere a ele e, ao mesmo tempo, toma dist&#226;ncia dele; mais precisamente, essa &#233; a rela&#231;&#227;o com o tempo que adere a ele atrav&#233;s de uma dissocia&#231;&#227;o e de um anacronismo. Aqueles que coincidem muito plenamente com a &#233;poca, que se ligam em todos os pontos perfeitamente com ela, n&#227;o s&#227;o contempor&#226;neos porque, exatamente por isso, n&#227;o conseguem v&#234;-la, n&#227;o podem manter fixo o olhar sobre ela.&#8221;</em></p></blockquote><p>Quando falo nas incoer&#234;ncias dos bons livros, nessa mescla de delizadeza e f&#250;ria, se trata desse leve desencaixe com o pr&#243;prio tempo que eu considero de uma beleza ofuscante. Um pessimismo propositivo ou um otimismo desconfiado, seja o que for, n&#227;o &#233; o saudosismo puro e chato, al&#233;m de in&#250;til, mas tamb&#233;m n&#227;o &#233; um conformismo com o estado atual das coisas, &#233; esse estranhamento que nos faz seguir adiante. </p><p>O que eu espero que sejamos capazes de cultivar para este e para os pr&#243;ximos anos: n&#227;o ser boc&#243;, mas tamb&#233;m n&#227;o ser blas&#233;; n&#227;o a ingenuidade, mas tampouco o ressentimento. Como veremos mais adiante, a solu&#231;&#227;o de uma mulher: </p><p>talvez o amor como vingan&#231;a.</p><p>. </p><ul><li><p><strong>[poemas], Wis&#322;awa Szymborska</strong></p><p></p></li></ul><blockquote><p><em>&#8220;A vida na hora. </em></p><p><em>Cena sem ensaio. </em></p><p><em>Corpo sem medida. </em></p><p><em>Cabe&#231;a sem reflex&#227;o. </em></p><p></p><p><em>N&#227;o sei o papel que desempenho. </em></p><p><em>S&#243; sei que &#233; meu, impermut&#225;vel. </em></p><p></p><p><em>De que trata a pe&#231;a </em></p><p><em>devo adivinhar j&#225; em cena. </em></p><p></p><p><em>Despreparada para a honra de viver, </em></p><p><em>mal posso manter o ritmo que a pe&#231;a imp&#245;e. </em></p><p><em>Improviso embora me repugne a improvisa&#231;&#227;o. </em></p><p><em>Trope&#231;o a cada passo no desconhecimento das coisas. </em></p><p><em>Meu jeito de ser cheira a prov&#237;ncia. </em></p><p><em>Meus instintos s&#227;o amadorismo. </em></p><p><em>O pavor do palco, me explicando, &#233; tanto mais humilhante. </em></p><p><em>As circunst&#226;ncias atenuantes me parecem cru&#233;is. </em></p><p></p><p><em>N&#227;o d&#225; para retirar as palavras e os reflexos, </em></p><p><em>inacabada a contagem das estrelas, </em></p><p><em>o car&#225;ter como o casaco &#224;s pressas abotoado &#8212; </em></p><p><em>eis os efeitos deplor&#225;veis desta urg&#234;ncia. </em></p><p></p><p><em>Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira antes </em></p><p><em>ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez! </em></p><p><em>Mas j&#225; se avizinha a sexta com um roteiro que n&#227;o </em></p><p><em>[conhe&#231;o. </em></p><p></p><p><em>Isso &#233; justo &#8212; pergunto </em></p><p><em>(com a voz rouca </em></p><p><em>porque nem sequer me foi dado pigarrear nos bastidores). </em></p><p></p><p><em>&#201; ilus&#243;rio pensar que esta &#233; s&#243; uma prova r&#225;pida </em></p><p><em>feita em acomoda&#231;&#245;es provis&#243;rias. N&#227;o. </em></p><p><em>De p&#233; em meio &#224; cena vejo como &#233; s&#243;lida. </em></p><p><em>Me impressiona a precis&#227;o de cada acess&#243;rio. </em></p><p><em>O palco girat&#243;rio j&#225; opera h&#225; muito tempo. </em></p><p><em>Acenderam-se at&#233; as mais long&#237;nquas nebulosas. </em></p><p><em>Ah, n&#227;o tenho d&#250;vida de que &#233; uma estreia. </em></p><p><em>E o que quer que eu fa&#231;a, </em></p><p><em>vai se transformar para sempre naquilo que fiz.&#8221;</em></p></blockquote><p>.</p><ul><li><p><strong>&#8220;Conversas com Mario Levrero&#8221; / &#8220;Esse of&#237;cio do verso&#8221;, Jorge Luis Borges / &#8220;Modos de ver", John Berger</strong></p></li></ul><p>O combo das paix&#245;es: tr&#234;s livros de gente apaixonada pelos pr&#243;prios of&#237;cios e falando dos pr&#243;prios of&#237;cios, ou objetos de estudo, se formos mais rigorosos. N&#227;o tem muito coment&#225;rio a ser feito sobre cada um deles. N&#227;o acho que seja sequer estritamente necess&#225;rio ter os temas de que os livros tratam como paix&#227;o em comum. Acho mesmo que ler gente falando de maneira interessada sobre a vida (e o que s&#227;o nossas paix&#245;es sen&#227;o a vida?) &#233; das coisas mais lindas que se pode experimentar em mat&#233;ria de livros. N&#227;o preciso achar que escrever seja exatamente o que Mario Levrero acha que &#233;. &#192;s vezes acho, &#224;s vezes n&#227;o acho, o que importa &#233; que, embora nada disso tenha v&#237;deo anexado, eu posso dizer com toda a certeza do mundo que seus olhos brilhavam entanto ele respondia a cada pergunta transcrita nesse livro. N&#227;o preciso saber tanto sobre poesia quanto Borges (e, se precisasse, eu estaria ferrada) para achar que, ao falar de versos, rimas e met&#225;foras, ele est&#225; falando na verdade sobre estar no mundo e ser capaz de amar. N&#227;o preciso ser entendida e nem mesmo interessada de maneira proeminente em artes visuais para achar impressionante o que significa estar atento &#224; maneira como vemos o mundo e o impacto que esse ato t&#227;o singelo (olhar) tem sobre o mundo e as pessoas &#224; nossa volta.</p><p>Enfim: as paix&#245;es.</p><p>. </p><ul><li><p><strong>&#8220;Fim de poema&#8221;, Juan Tall&#243;n</strong></p></li></ul><p>Um retrato do poder imaginativo, simplesmente. Acho extraordin&#225;rio que Tall&#243;n tenha se dedicado a pensar como deve ter sido os &#250;ltimos dias de grandes poetas e feito disso um livro bel&#237;ssimo. Me emocionou um tant&#227;o. Acho que disse em algum lugar que esses s&#227;o alguns dos meus livro favoritos: os que claramente existem porque sim. Tem motivo melhor que esse?</p><p>. </p><ul><li><p><strong>&#8220;A humilha&#231;&#227;o&#8221;, Philip Roth </strong></p></li></ul><p>A arte de tratar de temas universais por meio de personagens quase pat&#233;ticos, meio odiosos, at&#233;. Talvez porque Roth tenha a coragem (ou a falta de no&#231;&#227;o) de tornar hist&#243;ricas as mesquinharias que nos s&#227;o comuns. Todo mundo sabe o que &#233; o medo de fracassar. Mais sobre ele aqui:</p><div class="digest-post-embed" data-attrs="{&quot;nodeId&quot;:&quot;8449ee22-d8b8-41b3-bd82-b29b3eff1bff&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;Ningu&#233;m poder&#225; dizer que ele transparece, nos seus romances, ser \&quot;o homem ideal\&quot;, muito menos para l&#225; de desconstru&#237;do. Ao contr&#225;rio, eu diria que, se n&#227;o est&#225; tudo l&#225;, h&#225; ao menos muita coisa: os preconceitos, a sempre apenas parcialmente formulada perplexidade, indigna&#231;&#227;o e at&#233; falta de tato diante do feminino. Tudo meio escancarado (e por ser meio si&#8230;&quot;,&quot;cta&quot;:&quot;Read full story&quot;,&quot;showBylines&quot;:true,&quot;showDescription&quot;:true,&quot;showImage&quot;:true,&quot;size&quot;:&quot;lg&quot;,&quot;isEditorNode&quot;:true,&quot;title&quot;:&quot;\&quot;N&#227;o tem x&#237;cara nenhuma\&quot; &quot;,&quot;publishedBylines&quot;:[{&quot;id&quot;:17547280,&quot;name&quot;:&quot;Vict&#243;ria Mantoan&quot;,&quot;bio&quot;:&quot;Leitora lenta. Psicanalista. Atendimento de adultos e adolescentes on-line.&quot;,&quot;photo_url&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/975507ae-54dc-4fd5-ad1b-8fc7f222c96d_2089x2089.jpeg&quot;,&quot;is_guest&quot;:false,&quot;bestseller_tier&quot;:null}],&quot;post_date&quot;:&quot;2025-05-09T22:19:03.930Z&quot;,&quot;cover_image&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!kqGD!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5addbb57-4c1c-44ad-b964-8c15f7855a3b_1600x834.jpeg&quot;,&quot;cover_image_alt&quot;:null,&quot;canonical_url&quot;:&quot;https://victoriamantoan.substack.com/p/nao-tem-xicara-nenhuma&quot;,&quot;section_name&quot;:null,&quot;video_upload_id&quot;:null,&quot;id&quot;:163238803,&quot;type&quot;:&quot;newsletter&quot;,&quot;reaction_count&quot;:3,&quot;comment_count&quot;:0,&quot;publication_id&quot;:1526716,&quot;publication_name&quot;:&quot;Victoria&quot;,&quot;publication_logo_url&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!5K1L!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F37e7cbd0-4f84-4130-805d-1bb77392b272_1280x1280.png&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;youtube_url&quot;:null,&quot;show_links&quot;:null,&quot;feed_url&quot;:null}"></div><p> . </p><ul><li><p><strong>Cristina Peri Rossi</strong> </p></li></ul><p>Mais um combo: a melhor maneira de definir Cristina &#233; usando uma express&#227;o que ela mesma utiliza em uma entrevista: uma artista total. Que n&#227;o estava interessada em ser reconhecida num dado c&#237;rculo sofisticado como escritora de poesia ou de fic&#231;&#227;o apenas, mas estava, sim, interessada em colocar sua express&#227;o no mundo. &#201; um acontecimento essa mulher. Eu comecei encantada com a sele&#231;&#227;o de poemas que a Editora 34 colocou de p&#233; sob o &#8220;A nossa vingan&#231;a &#233; o amor". S&#243; o t&#237;tulo do poema que d&#225; nome a colet&#226;nea j&#225; &#233; um evento, mas cada p&#225;gina sustenta esse chamariz e vai al&#233;m. Nesse fluxo, esperei ansiosa por dias pela chegada da edi&#231;&#227;o espanhola de sua poesia completa. Valeu cada dia de espera. Valeu cada mergulho em pr&#243;logos e na maneira como ela mesma pensou em organizar sua obra a cada tempo. Para arrematar, temos seu livro de mem&#243;rias, &#8220;A insubmissa&#8221;. &#201; como olhar uma mesma trajet&#243;ria por um prisma diferente. Tudo j&#225; estava na poesia, mas v&#234;-la se contando &#233; ainda mais um encanto. </p><p>Talvez tenha um padr&#227;o aqui, j&#225; que, como Baldwin, Cristina tamb&#233;m me arrebata por essa mescla de delicadeza e f&#250;ria. Claramente com raiva, claramente lidando com isso com amor. </p><p>. </p><ul><li><p><strong>&#8220;Noite devorada&#8221;, Mar Becker</strong></p></li></ul><blockquote><p><em>&#8220;porque o amor torna fr&#225;gil tudo o que toca</em></p><p><em>e porque eu mesma n&#227;o evitei que</em></p><p><em>tocasse meu corpo</em></p><p><em>meus ossos</em></p><p><em>minha respira&#231;&#227;o</em></p><p><em>meu sono</em></p><p><em>por isso temo por mim &#8212;</em></p><p><em>pelo risco de desabar a um</em></p><p><em>tremor de p&#225;lpebras&#8221;</em></p></blockquote><p></p><p>Ouvir essa mulher declamar seus poemas mais de uma vez foram pontos altos do meu 2025 liter&#225;rio.</p><p>. </p><ul><li><p><strong>&#8220;Biograf&#237;a para encontrarme&#8221;, Mario Benedetti</strong></p></li></ul><p></p><blockquote><p><em>&#8220;Cuando contemplo el mar desde mi arena </em></p><p><em>y llegan olas con el infinito </em></p><p><em>no tengo m&#225;s remedio que quedarme perplejo &nbsp; </em></p><p></p><p><em>hablo conmigo mismo y con las cosas </em></p><p><em>me siento m&#237;nimo / insignificante </em></p><p><em>recurro a mi energ&#237;a y no la encuentro </em></p><p><em>la habr&#233; dejado en casa &nbsp; </em></p><p></p><p><em>en el mar caben todos los enigmas </em></p><p><em>cuando el viento lo peina </em></p><p><em>es una maravilla </em></p><p><em>los p&#225;jaros se acercan y lo besan </em></p><p><em>porque saben que el mar es universo &nbsp; </em></p><p></p><p><em>mirarlo es a veces suficiente </em></p><p><em>por eso lo contemplo hasta el cansancio </em></p><p><em>pi&#233;lago a pi&#233;lago y acantilados &nbsp; </em></p><p></p><p><em>aqu&#237; est&#225; el mar / all&#225; est&#225; el mar </em></p><p><em>la historia universal nos lo regala </em></p><p><em>y yo me ahogo s&#243;lo de mirarlo&#8221;</em></p></blockquote><p></p><p>Um amor da (e pra) vida toda.</p><p>. </p><ul><li><p><strong>&#8220;O beijo da mulher-aranha&#8221;, Manuel Puig</strong></p></li></ul><p>O livro favorito de uma das minhas melhores amigas. Um passeio bel&#237;ssimo pelo cinema. Eu sa&#237; dessa leitura com uma lista infinita de filmes para assistir, com um encantamento enorme e renovado pela arte dos di&#225;logos. Renovado e, vale dizer, intensificado, pois se trata de uma hist&#243;ria quase que inteiramente constru&#237;da em cima de um di&#225;logo. Sob risco de soar (ainda mais) repetitiva: eu amei. </p><p>. </p><ul><li><p><strong>Susan Sontag</strong> </p></li></ul><p>A del&#237;cia de ler e amar pessoas com as quais n&#227;o estamos sempre necessariamente de acordo. Tudo o que a Susan Sontag tem a dizer sobre a pr&#243;pria vida, sobre arte, sobre fotografia, sobre sua experi&#234;ncia com o c&#226;ncer, me bota para pensar por dias e dias. &#192;s vezes tenho a sensa&#231;&#227;o de que ela vai para uma esp&#233;cie de positivismo em que nos afastamos um tanto. Como se ela acreditasse num futuro estritamente cient&#237;fico a respeito do qual n&#227;o nutro muita f&#233;. Quando ela fala em grau zero da escritura, por exemplo, n&#227;o consigo pensar sen&#227;o numa higieniza&#231;&#227;o do texto que n&#227;o me atrai. Mas, ao mesmo tempo, ela me manda desconfiar sempre das met&#225;foras&#8230; e eu obede&#231;o. Uma mulher extraordin&#225;ria com quem &#233; poss&#237;vel conversar por meio das leituras e seguir conversando mentalmente por muito tempo. Amei a edi&#231;&#227;o em livro da entrevista completa para a Rolling Stone e tamb&#233;m &#8220;Diante da dor dos outros&#8221;. </p><p>. </p><ul><li><p><strong>&#8220;Velar por ela&#8221;, Jean-Baptiste Andrea</strong></p></li></ul><p>Acho que uma das poucas coisas que eu ainda n&#227;o disse sobre esse livro &#233; que n&#227;o consigo parar de pensar nele como se o narrador de &#8220;O colibri&#8221;, depois de contar a hist&#243;ria de Marco Carrera, tivesse decidido contar sua pr&#243;pria hist&#243;ria. N&#227;o se trata do mesmo autor, claro, mas me impressiona que dois escritores diferentes tenham conseguido construir narradores com personalidades t&#227;o parecidas ao acaso. Duas obras-primas, inclusive. Tem texto apenas sobre ele (&#8220;Velar por ela&#8221;) <a href="/__u/victoriamantoan.substack.com/p/eu-como-tamaras">aqui</a>. E um trecho que amo aqui: </p><div class="instagram-embed-wrap" data-attrs="{&quot;instagram_id&quot;:&quot;DSvJ7hJETX1&quot;,&quot;title&quot;:&quot;Vict&#243;ria Mantoan on Instagram: \&quot;Fazia tempo que um livro n&#227;o me&#8230;&quot;,&quot;author_name&quot;:&quot;@_victoriamantoan&quot;,&quot;thumbnail_url&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/__ss-rehost__IG-meta-DSvJ7hJETX1.jpg&quot;,&quot;like_count&quot;:null,&quot;comment_count&quot;:null,&quot;profile_pic_url&quot;:null,&quot;follower_count&quot;:null,&quot;timestamp&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true}" data-component-name="InstagramToDOM"></div><p></p><p>Vou ainda adicionar um segundo porque, meu deus, como eu grifei esse livro: </p><blockquote><p><em>&#8220;Em vez de um reino unido, ainda &#233;ramos uma miscel&#226;nea de pequenos chefes, mandachuvas, bandidos, figur&#245;es. Em 28 de outubro daquele ano, os mais poderosos entre eles, fascistas, squadristi, antigos resistentes, tentaram a sorte. Uma tropa heterog&#234;nea marchou sobre Roma, determinada a intimidar o governo vigente. Apesar do sucesso em reprimir os tumultos socialistas, dos quais fui testemunha, estavam mal armados, hesitantes e, acima de tudo, inseguros. T&#227;o inseguros que seu corajoso l&#237;der, Mussolini, tremendo em suas cal&#231;as bufantes de antigo socialista e futuro ditador, preferiu ficar em Mil&#227;o. Ele julgou mais prudente n&#227;o se juntar &#224; marcha, para poder fugir para a Su&#237;&#231;a se as coisas dessem errado. A &#233;poca era de covardia. E porque a &#233;poca era de covardia, o governo e o rei decidiram deixar as coisas acontecerem, em vez de enviar o ex&#233;rcito, que no entanto estava pronto para agir. O covarde de Mil&#227;o se viu, da noite para o dia, &#224; frente do governo, coisa de que foi o primeiro a ficar surpreso. Por todo o pa&#237;s, todos os tiranetes de p&#225;tio de escola, de fundo de quintal, de fim de linha, descobriram que sempre estiveram certos.&#8221;</em></p></blockquote><p>A arte tamb&#233;m nos lembrando como &#233; viver as &#233;pocas em que a covardia vira norma.</p><div><hr></div><p>[b&#244;nus] <strong>&#8220;O parque das irm&#227;s magn&#237;ficas&#8221; / &#8220;As malditas&#8221;, Camila Sosa Villada</strong></p><p>N&#227;o se trata de uma leitura nova, in&#233;dita, mas de muitas releituras. Para fins de formaliza&#231;&#227;o, daria para dizer que h&#225; o aspecto intelectual e h&#225; o aspecto sens&#237;vel que me puxam de volta e de volta para esse livro, mas na verdade eles s&#227;o indissoci&#225;veis. Eu devo ter (re)lido &#8220;O parque das irm&#227;s magn&#237;ficas&#8221; (a edi&#231;&#227;o da Tusquets) e &#8220;As malditas&#8221; (tradu&#231;&#227;o nova na edi&#231;&#227;o da Companhia das Letras) uma quatro vezes. Eu passei o ano de 2025 inteiro tentando fugir da autofic&#231;&#227;o, tentando me aventurar por gente que tem como prazer inventar hist&#243;rias. N&#227;o porque tenha alguma pretensa superioridade moral nisso, mas porque eu estava um pouco cansada, saturada. Como eu passo boa parte do tempo num of&#237;cio que est&#225; &#224;s voltas com discursos de si, estar &#224;s voltas com inventividades &#233; tamb&#233;m uma v&#225;lvula de escape. Mas, de novo, o discurso de si &#233; parte essencial do meu of&#237;cio. O que Camila Sosa Villada faz aqui &#233;, para mim, a mescla absoluta desses dois movimentos, um discurso de si que atinge um pico por meio da fantasia. A possibilidade de colocar sonhos no mundo na primeira pessoa, explodindo os limites concretos da realidade. &#201; por isso que, enquanto fugi da moda, mergulhei na moda da Camila. Entrei num programa de mestrado de psican&#225;lise com a proposta de fazer dessa narrativa meu objeto de estudo. Se tudo der certo, passarei os pr&#243;ximos dois anos de m&#227;os dadas com as irm&#227;s magn&#237;ficas. (Ninho de incoer&#234;ncias: ser&#225;?) Sugiro que voc&#234; as leia tamb&#233;m. </p><div><hr></div><p>Que ano bonito de leituras foi esse que passou, sem passar. </p><p>O melhor sinal &#233; que n&#227;o paro de pensar nelas.</p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA["Eu como tâmaras"]]></title><description><![CDATA[(Ou, Eu leio livros)]]></description><link>https://victoriamantoan.substack.com/p/eu-como-tamaras</link><guid isPermaLink="false">https://victoriamantoan.substack.com/p/eu-como-tamaras</guid><dc:creator><![CDATA[Victória Mantoan]]></dc:creator><pubDate>Fri, 19 Dec 2025 19:16:33 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!cFJs!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fda42f00d-064d-409e-9263-b92a5c328447_1122x1257.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<blockquote><p><em>&#8220;Ela n&#227;o podia, ou n&#227;o queria, o que para mim era quase a mesma coisa&#8221;</em></p></blockquote><p>A minha av&#243; dizia que &#8220;quem quer d&#225; seu jeito&#8221;, e n&#227;o &#233; novidade para quem frequenta o div&#227; de um psicanalista que consideramos que o verbo <em>querer</em> e <em>poder</em> podem at&#233; n&#227;o ser o mesmo mas se trocam um pelo outro que &#233; uma beleza. Mas o que me deixa realmente impressionada aqui &#233; que essa &#233; apenas uma frasezinha no meio do livro, irrelevante, desimportante, descart&#225;vel quase. N&#227;o tem continua&#231;&#227;o, n&#227;o tem explica&#231;&#227;o, n&#227;o &#233; um tratado sobre os usos inadvertidos desses verbos como artif&#237;cio inconsciente para n&#227;o se apropriar das pr&#243;prias escolhas. &#201; apenas um cantinho da escultura, perfeitamente polido. </p><p>Diz muito, n&#227;o explica nada. Explicamos n&#243;s, leitores, nas nossas cabe&#231;as, fazendo digress&#245;es mil a partir de cada pequeno presente. Esse &#233; apenas um exemplo.</p><p>.</p><p>Para cada p&#225;gina desse livro, &#233; poss&#237;vel fazer um tratado desdobrando reflex&#245;es do que significa viver a vida, viver bem a vida, o que realmente importa na vida e uma s&#233;rie de outras coisas, mais ou menos edificantes. Para cada p&#225;gina, d&#225; para fazer um post bonito de Instagram. O surpreendente &#233; que esse livro consiga esse efeito, tamb&#233;m a cada p&#225;gina, justamente desviando de clich&#234;s. </p><p>Ou, como disse o professor que me levou a essa leitura, um livro que &#8220;arrisca ser convencional e se torna uma daquelas leituras essenciais&#8221;: </p><div class="instagram-embed-wrap" data-attrs="{&quot;instagram_id&quot;:&quot;DRGP1egjMKW&quot;,&quot;title&quot;:&quot;J&#250;lio Pimentel Pinto on Instagram: \&quot;Quem l&#234; muito, e esta &#233; min&#8230;&quot;,&quot;author_name&quot;:&quot;@juliopimentelpinto&quot;,&quot;thumbnail_url&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/__ss-rehost__IG-meta-DRGP1egjMKW.webp&quot;,&quot;like_count&quot;:null,&quot;comment_count&quot;:null,&quot;profile_pic_url&quot;:null,&quot;follower_count&quot;:null,&quot;timestamp&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false}" data-component-name="InstagramToDOM"></div><p>. </p><p>&#8220;Foi a melhor leitura do seu ano?&#8221;, me perguntou o colega para quem eu havia feito a sugest&#227;o entusiasmada. </p><p>Precisei parar um pouco para pensar. Dif&#237;cil dizer algo assim de um ano que come&#231;ou com &#8220;Desonra&#8221;, teve &#8220;O amante&#8221; l&#225; pelo meio, mais uma j&#243;ia do James Baldwin no caminho e ainda a poesia completa de Cristina Peri Rossi. Foi um ano excepcional; mod&#233;stia &#224; parte, acho que estou ficando cada vez melhor em escolher e, acima de tudo, em largar m&#227;o do que acho chato, somente porque sim.</p><p>Mas n&#227;o poderia ter escolhido leitura melhor para o momento. </p><p>E o momento &#233;: estou de f&#233;rias, num descanso meio compromissado da cabe&#231;a; digo assim, compromissado, porque passou a ser t&#227;o pouco natural que &#233; preciso um certo esfor&#231;o, um compromisso consciente, para desconectar um pouquinho que seja, mesmo que n&#227;o completamente, do eterno discurso de si (seja por esfor&#231;o de ret&#243;rica, seja por esfor&#231;o de reflex&#227;o; seja por excesso de an&#225;lise, ou de redes sociais). Fato &#233; que vivemos numa &#233;poca (ser&#227;o todas? talvez) em que o &#8220;eu&#8221; est&#225; muito em evid&#234;ncia. N&#227;o &#233; uma reclama&#231;&#227;o ou cr&#237;tica mordaz aqui, &#233; bom dizer, j&#225; que est&#225; na moda desdenhar da moda, e eu mesma escolhi estar num ambiente e me dedicar a um of&#237;cio em que o &#8220;eu&#8221; &#233; um conceito para l&#225; de fundamental, o que quer que decidamos fazer com ele, e escolhi ainda mergulhar pelos pr&#243;ximos dois anos num livro de car&#225;ter autobiogr&#225;fico em que as fronteiras entre autor, narrador e personagem s&#227;o bastante nebulosas, ainda que a gente se esforce para fazer de conta que n&#227;o se importa com o autor. </p><p>Mas n&#227;o agora, n&#227;o nas f&#233;rias. O mergulho agora &#233; outro. &#201; bom variar.</p><p>.</p><p>Pois bem, esse que meu colega pergunta se foi minha melhor leitura do ano &#233; um desses livros em que o autor &#233; praticamente invis&#237;vel a olho nu. A n&#227;o ser que voc&#234; queira matar uma singela curiosidade fofoqueira (ser&#225; bonito? ser&#225; mais velho ou bem novo? quantos livros ele tem publicado?) e usar as lentes microsc&#243;picas da internet para averiguar aspectos biogr&#225;ficos. &#201; um descanso para a mente. Eu n&#227;o vou entrar no papo blas&#233; de dizer que isso sim &#233; que &#233; literatura porque, pra ser honesta, essa conversa n&#227;o me interessa muito. Mas &#233;, de novo, um descanso. Um descanso de estar pensando em si e no aqui e no agora, e em temas <em>urgentes</em>, ao mesmo tempo em que n&#227;o &#233;: porque essas hist&#243;rias que aparentemente n&#227;o s&#227;o sobre n&#243;s tamb&#233;m nos interessam porque s&#227;o um pouco sobre n&#243;s, sim. De maneira menos evidente, mas n&#227;o. Porque s&#227;o, no fim das contas, hist&#243;rias sobre ambi&#231;&#245;es e fracassos, sobre voca&#231;&#227;o, sobre amor, sobre sexo, sobre capacidade para a viol&#234;ncia e para a ternura, sobre homens e mulheres e opress&#245;es e preconceitos e atrocidades e ironia e beleza. Mesmo quando n&#227;o parece, constr&#243;i-se uma ponte chamada identifica&#231;&#227;o. </p><p>N&#227;o passa pela minha cabe&#231;a, nem jamais passou, ser escultora. Ou aprender a voar. Ou trabalhar num circo. Ou viajar no tempo. Mas c&#225; estou embasbacada com a universalidade tamb&#233;m de tudo isso. Enfim, a vida.</p><p>Al&#233;m dos temas universais que a sensibilidade do autor e a boa constru&#231;&#227;o de um narrador permitem tocar, h&#225; um ponto de aprecia&#231;&#227;o que eu n&#227;o sei bem distinguir (se &#233; que h&#225; distin&#231;&#227;o completa poss&#237;vel), mas &#233; um misto de est&#233;tica e sensibilidade: </p><p>a hist&#243;ria &#233; bem contada e por isso emociona. Simples assim.</p><p>.</p><p>Mimo &#233; nosso narrador e ele foi batizado como Michelangelo Vitaliani, em homenagem, r&#225;, a Michelangelo. Mimo &#233; um escultor que reconta seus dias no leito de morte. Mas nada disso d&#225; a dimens&#227;o do que preenche o livro.</p><p>O grande m&#233;rito de livros como esse &#233; nos obrigar a viver o clich&#234; de curtir o processo sem jamais pronunciar um clich&#234; em voz alta. &#201; papo de coach e de redes sociais, &#233; fato, mas dific&#237;limo de experimentar em cotidianos t&#227;o orientados para o resultado. </p><p>De repente, estamos vivendo dias de ver&#227;o num lugar para a maioria de n&#243;s desconhecido, no interior da It&#225;lia, com pessoas estranhas: Mimo, Viola, Al&#237;nea, Anna, Emmanuele. Estou lendo as p&#225;ginas desses dias de calor com mergulhos na &#225;gua e projetos adolescentes e horm&#244;nios a flor da pele e quest&#245;es sociais estranhas ao meu tempo mas que guardam alguma semelhan&#231;a, como sempre: seja como for, o neg&#243;cio &#233; que de repente me dou conta de que n&#227;o quero me apressar, n&#227;o estou ansiosa pelas pr&#243;ximas p&#225;ginas tanto quanto estou curtindo a p&#225;gina atual &#8211; ave rara esse fen&#244;meno. N&#227;o preciso saber o que vem depois porque cada dia que preenche um punhado de par&#225;grafos &#233; um deleite. </p><p>Dito de outro modo: n&#227;o se trata de ter &#226;nsia para saber onde v&#227;o dar esses destinos, como v&#227;o terminar essas vidas, se v&#227;o ter seus fins relatados dentro das 413 p&#225;ginas de <strong>&#8220;Velar por ela&#8221;</strong>. O de que se trata ent&#227;o &#233;: o prazer. </p><p>Ele, de novo. Prazer de passar dias na companhia de gente completamente inventada, que, desconhecida que sou do contexto, n&#227;o ouso nem arriscar dizer se &#233; inspirada em gente de carne e osso. Prazer de testemunhar, de sentir&#8230; o prazer. Prazer de ser leitor.</p><p>.</p><p>Mimo (o narrador) nos ensina que a fase de polimento &#233; a mais importante em escultura. N&#227;o sei se Jean-Baptiste Andrea (o autor) &#233; versado nessa arte, mas se houver algo parecido com o polimento na escrita&#8230; &#233; isso. Algumas reviravoltas, pequenas grandes ironias, trocas de palavras ou o que, como algu&#233;m disse aqui nesta rede, desvios constru&#237;dos a base de palavras que n&#227;o geram um grande furor, apenas fazem um encadeamento surpreendente, e que t&#234;m como resultado uma frase perfeita.</p><p>T&#227;o dif&#237;cil construir uma frase perfeita. </p><blockquote><p><em>&#8220;Viola n&#227;o tinha seios, &#233; verdade, mas se despedia da adolesc&#234;ncia e de seus &#226;ngulos. Era a fase de polimento, a mais importante em escultura. Seus cotovelos e joelhos n&#227;o se destacavam mais quando ela se sentava para pensar. Seus gestos adquiriam a poesia das curvas. Seus humores, por outro lado, tinham a aspereza das montanhas. Ela era exigente, impaciente, persuasiva, furiosa, suplicante. Ela era cansativa.&#8221;</em></p></blockquote><p>N&#227;o &#233; uma declara&#231;&#227;o de amor das mais prov&#225;veis, mas ningu&#233;m vai ler e dizer que nosso narrador n&#227;o a ama. </p><p>Diz nada de original, como um <em>eu te amo</em>, de um jeito &#250;nico. </p><p>.</p><p>Inclusive, Andrea (o autor) faz uma coisa que sempre me deixa meio puta (no melhor sentido), que &#233; antecipar fatos da hist&#243;ria quase como quem esfrega na cara do leitor que os fatos mesmo n&#227;o importam, que o destino, de novo, importa pouco ou quase nada. Ele joga na sua cara que n&#227;o importa saber, na largada, que algo deu certo ou n&#227;o deu, que algu&#233;m vai morrer ou sobreviver, porque importa mesmo o como, as palavras que v&#227;o rechear e nomear o acontecido, lhe dar estofo. N&#227;o &#233; in&#233;dito: qualquer pessoa que j&#225; tenha lido &#8220;Cr&#244;nicas de uma morte anunciada&#8221; sabe como funciona ter a desimport&#226;ncia do spoiler na literatura jogado na pr&#243;pria cara. Mas &#233; bonito de viver.</p><p>. </p><p>Os paralelos entre a escultura e a escrita tamb&#233;m s&#227;o lindos e espalhados. Poderia ter sido um livro sobre um escritor, mas n&#227;o &#233;, o que deixa tudo ainda mais especial. Embora haja muito de literatura. Talvez por ser arte tamb&#233;m. &#201;, no fim das contas, uma obra de arte o que Andrea bota no mundo com esse livro:</p><blockquote><p><em>&#8220;Devo tudo a meu pai, a nosso breve conv&#237;vio nessa bola de magma. Fui suspeito de indiferen&#231;a porque pouco falava sobre ele. Me acusaram de t&#234;-lo esquecido. Esquecido? Meu pai viveu em cada um dos meus gestos. At&#233; minha &#250;ltima obra, at&#233; meu &#250;ltimo gesto. Devo a ele minha ousadia com o cinzel. Ele me ensinou a levar em conta a posi&#231;&#227;o final de uma obra, j&#225; que suas propor&#231;&#245;es dependem do olhar direcionado a ela, de frente ou de cima, e de que altura. E a luz. Michelangelo Buonarroti tinha lixado sua </em>Piet&#224;<em> incansavelmente para capturar o menor brilho, sabendo que ela seria exposta em um local escuro. Por fim, devo a meu pai um dos melhores conselhos que j&#225; recebi:</em></p><p><em>&#8212; Imagine sua obra terminada ganhando vida. O que ela faria? Voc&#234; precisa imaginar o que aconteceria no segundo seguinte ao momento que voc&#234; eternizou, e sugerir isso. Uma escultura &#233; uma anuncia&#231;&#227;o.&#8221;</em></p></blockquote><p>Me pego pensando de onde Andrea imaginou que estar&#237;amos lendo seu livro (de frente ou de cima, e de que altura) e se ele pensou e pensa ainda no que aconteceria no segundo seguinte ao intervalo de tempo que ele eternizou. </p><p>Me pego pensando no que ele quis sugerir, ou anunciar.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!cFJs!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fda42f00d-064d-409e-9263-b92a5c328447_1122x1257.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!cFJs!, /__u/victoriamantoan.substack.com/w_424, /__u/victoriamantoan.substack.com/c_limit, /__u/victoriamantoan.substack.com/f_webp, 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Sarah sacudiu a cabe&#231;a, mordeu a metade da sua e a deixou derreter na boca, com um prazer sensual que me fez corar. Olhei para o lado. Na minha frente, havia um baralho sobre uma pequena mesa quadrada onde queimava um incenso. </em></p><p><em>Quando me virei, a t&#226;mara tinha desaparecido. Sarah me encarava com aquele olhar que me deixava desconfort&#225;vel. </em></p><p><em>&#8212; O tar&#244; intriga voc&#234;. Me fa&#231;a uma pergunta. </em></p><p><em>&#8212; Est&#225; bem. Voc&#234; realmente acredita nessas bobagens?</em></p><p><em>Ela pareceu surpresa, depois balan&#231;ou a cabe&#231;a. </em></p><p><em>&#8212; Desde que nascemos, s&#243; fazemos uma coisa: morrer. Ou tentar adiar, da melhor maneira poss&#237;vel, o momento fat&#237;dico. Todos os meus clientes v&#234;m pelo mesmo motivo, Mimo. Porque est&#227;o aterrorizados, n&#227;o importa a maneira como expressam isso. Eu tiro as cartas e invento palavras que os consolam. Todos saem com a cabe&#231;a um pouco mais erguida e, por um curto per&#237;odo, com um pouco menos de medo. Eles acreditam, e isso &#233; o que importa. </em></p><p><em>&#8212; Visto assim, claro&#8230;</em></p><p><em>&#8212; Pois &#233;. Visto assim. </em></p><p><em>&#8212; E voc&#234;, como lida com o medo da morte, j&#225; que n&#227;o pode mentir para si mesma?</em></p><p><em>&#8212; Eu como t&#226;maras.&#8221;</em></p></blockquote><p>Eu me apaixono por gente que n&#227;o existe. Eu leio.</p><p></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Um nada muito espesso ]]></title><description><![CDATA[da grossura de uns bons livros]]></description><link>https://victoriamantoan.substack.com/p/um-nada-muito-espesso</link><guid isPermaLink="false">https://victoriamantoan.substack.com/p/um-nada-muito-espesso</guid><dc:creator><![CDATA[Victória Mantoan]]></dc:creator><pubDate>Fri, 05 Dec 2025 18:25:53 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!7Ql-!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F57184891-d0c6-40d4-960b-79979c309e37_1420x1600.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Eu ainda n&#227;o desisti de &#8220;Solenoide", o catatau de Mircea C&#259;rt&#259;rescu que me <s>assombra</s> acompanha h&#225; um ano. </p><p>Acabo de passar por um cap&#237;tulo em que nosso narrador fracassado rememora um acontecimento de quando tinha tr&#234;s anos, mesma idade de meu filho mais novo. Logo na largada, ele j&#225; nos lembra (n&#243;s, adultos-leitores):</p><blockquote><p><em>&#8220;Para uma crian&#231;a, nada &#233; estranho, pois ela vive na estranheza, por isso os sonhos e as lembran&#231;as antigas parecem feitas da mesma subst&#226;ncia. A estranheza, naquela altura, era simplesmente a banalidade do mundo&#8221;</em>.</p></blockquote><p>A vida da crian&#231;a &#233; esse universo de confus&#227;o entre o que se lembra, o que se conta, o que se refaz na tentativa de resgate pela lembran&#231;a, o que se pergunta a um outro, o quanto se confia nas respostas desse outro que nos narra, o que se obt&#233;m para montar esse quebra-cabe&#231;a completamente m&#243;vel que chamamos de passado, e tamb&#233;m presente ou futuro. E &#233; a&#237; que est&#225; a beleza dessa passagem de C&#259;rt&#259;rescu. O passado e o futuro s&#227;o lugares onde inventamos, criamos, sonhamos (isso quem est&#225; dizendo sou eu). De outro modo, ter&#237;amos o seguinte (e isso nos diz ele):</p><blockquote><p>&#8220;<em>n&#227;o se seguiu nada. Assim como tamb&#233;m antes fora um nada muito espesso&#8221;</em>. </p></blockquote><p><em>Um nada muito espesso.</em> </p><p>.</p><p>O que &#233; que d&#225; a espessura? </p><p>Um nada t&#227;o espesso quanto 783 p&#225;ginas de um romance.</p><p>N&#243;s &#233; que vamos dando recheio ao inv&#243;lucro, fazendo sua subst&#226;ncia com as m&#227;os: conte&#250;dos, met&#225;foras, grandes ou pequenas inven&#231;&#245;es, hist&#243;rias cujos detalhes se alteram de tempos em tempos, sonhos, mentiras sinceras, pequenas cria&#231;&#245;es, verdades particulares. Fic&#231;&#245;es, em suma.</p><p>As pessoas chegam aos montes na an&#225;lise pensando que v&#227;o descobrir alguma coisa, ou uma por&#231;&#227;o delas, sobre si mesmas (autoconhecimento que chama, e t&#225; na moda), como se a tarefa a ser desempenhada no div&#227; fosse algo parecido com o of&#237;cio de um detetive privado, a tirar da obscuridade uma grande revela&#231;&#227;o &#8212; &#233; parte dessa m&#237;stica que faz alguns acharem que o analista &#233; sempre um ser sens&#237;vel que farejar&#225; algum grande segredo de quem estiver por perto. </p><p>Mesmo quando se ocupa do passado, a an&#225;lise n&#227;o pretende descobrir algo tanto quanto (re)inventar, criar: mesmo o passado est&#225; sempre &#224; merc&#234; de nossos &#237;mpetos criativos. Isso &#233; verdade para a hist&#243;ria coletiva, que se reescreve nos livros did&#225;ticos distribu&#237;dos nas escolas a cada ano, &#233; verdade para os mapas que ilustram as inven&#231;&#245;es modernas que chamamos de pa&#237;ses e &#233; verdade tamb&#233;m para as fic&#231;&#245;es que vamos fazendo ao longo da vida sobre n&#243;s mesmos, sobre nosso mundo interno, sobre os pr&#243;prios limites territoriais dos nossos corpos. </p><p>Vale para &#8220;autoconhecimento&#8221; o mesmo que para a ideia de interpreta&#231;&#227;o, que eu amo:</p><blockquote><p><em>&#8220;A verdade &#233;, sempre e j&#225;, interpreta&#231;&#227;o. E interpretar n&#227;o quer dizer, neste caso, comparar um determinado texto com um crit&#233;rio externo, com uma medida extra-textual, mas sim-plesmente criar, inventar, fabricar. A interpreta&#231;&#227;o &#233; uma atividade produtiva. A interpre-ta&#231;&#227;o &#233; uma inven&#231;&#227;o. Quem interpreta n&#227;o descobre a &#8220;verdade&#8221;; quem interpreta a produz.&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a></em></p></blockquote><p>S&#227;o assim tamb&#233;m nossas verdade privadas. Por sorte, podemos refaz&#234;-las ao longo de uma vida.</p><p>Vamos de um pouco de Lacan: <em>&#8220;o fato de que o sujeito revive, rememora, no sentido intuitivo da palavra, os eventos formadores de sua exist&#234;ncia, n&#227;o &#233;, em si mesmo, t&#227;o importante. O que conta &#233; o que ele disso reconstr&#243;i. H&#225; sobre esse ponto f&#243;rmulas surpreendentes. Afinal, escreve Freud, os sonhos s&#227;o ainda uma maneira de se lembrar.&#8221;</em></p><p>Quem disse que o homem n&#227;o conseguia ser fofo?</p><p><em>&#8220;o de que se trata &#233; menos lembrar do que reescrever a hist&#243;ria&#8221;.</em> </p><p>.</p><p>Se juntar todas as sociedades psicanal&#237;ticas da Am&#233;rica Latina, n&#227;o d&#227;o as aulas que meus filhos distribuem gratuitamente para o p&#250;blico cativo (eu). Esses dias, eu os levava para ficarem num parque enquanto eu ia a um compromisso e o mais novo prop&#244;s que todos dentro do carro entr&#225;ssemos na seguinte brincadeira: nuvem-parece. Ele disse exatamente assim <em>que tal a gente brincar de</em> <em>nuvem-parece</em>? </p><p>Veja, dos seus tr&#234;s anos, meu filho n&#227;o est&#225; nem um pouco interessado no que a nuvem <em><strong>&#233;, </strong></em>esse &#8220;conjunto vis&#237;vel de min&#250;sculas part&#237;culas de &#225;gua l&#237;quida ou cristais de gelo suspensos na atmosfera, formados quando o vapor d&#8217;&#225;gua sobe, esfria e se condensa em torno de part&#237;culas como poeira e fuligem&#8221;; ele tampouco est&#225; interessado no que a nuvem <em>representa</em>, no que ela <em>exp&#245;e</em> visualmente, na sua &#8220;ess&#234;ncia&#8221; ou no seu visual &#243;bvio. Ele est&#225; interessado no que ela <em>parece</em>. </p><p>E vou al&#233;m: acho que, neste caso, o verbo parecer &#233; bem el&#225;stico, quase trocado; ele est&#225; mesmo interessado &#233; no que ele imagina olhando pro c&#233;u, no que ele &#233; capaz de ver brincando com as nuvens. </p><p>Duvida? Eis a lista do que as nuvens pareciam esta semana: uma casa com piscina de chocolate; outra casa, mas com ratos sem p&#233;s; um tubar&#227;o com pernas, mas que n&#227;o morde; uma ratazana-godzilla boazinha; um crocodilo com rabo de macaco; e um monstro brincalh&#227;o. </p><p>Eu, por minha vez, mal consegui ver a boca mal ajambrada do crocodilo. </p><p>Fazer o que, n&#233;, adulto &#233; fogo.</p><p>.</p><p>Se f&#244;ssemos empreender uma pesquisa objetiva sobre a biografia do eventual narrador de <strong>&#8220;Velar por ela&#8221; </strong>(livro que acabo de come&#231;ar<strong>)</strong>, se f&#244;ssemos dar uma qualidade para a vida de Michelangelo, ser&#237;amos obrigados a dizer dele que foi um pobre infeliz. Mas, se voc&#234; chegou at&#233; aqui, ainda lembra do aviso que nos deu C&#259;rt&#259;rescu, de que a inf&#226;ncia &#233; esse campo da estranheza, e, agora, j&#225; sabemos tamb&#233;m que o passado est&#225; sempre em aberto para redesenhos, ou, para ficarmos na atividade de nosso narrador, para ser &#8220;talhado&#8221;, tanto quanto o futuro:</p><blockquote><p><em>&#8220;Eu estava feliz. Tinha perdido meu pai, n&#227;o sabia quando voltaria a ver minha m&#227;e, mas sim, eu estava feliz e inebriado com tudo que ainda tinha pela frente, uma massa de futuro a ser escalada, a ser talhada &#224; minha medida&#8221;</em></p></blockquote><p><em>talhada &#224; minha medida</em>. &#192; medida de quem talha, sempre.</p><blockquote><p><em>&#8220;Quando penso nessa &#233;poca, &#233; estranho: eu n&#227;o era infeliz. Eu estava sozinho, n&#227;o tinha nada nem ningu&#233;m, as florestas do norte da Europa eram reviradas e semeadas com carnes cravejadas de tiros e bombas que explodiriam anos depois na cara de passantes inocentes, criava-se uma desola&#231;&#227;o capaz de fazer empalidecer um Mercalli, que s&#243; tinha dado doze graus &#224; sua pobre escala. Mas eu n&#227;o era infeliz, constatava isso todas as noites ao rezar para meu pante&#227;o pessoal de &#237;dolos, que mudaria ao longo da vida e que, mais tarde, incluiria at&#233; cantores de &#243;pera e jogadores de futebol. Talvez porque eu fosse jovem, meus dias eram bonitos. S&#243; hoje percebo quanto a beleza do dia deve &#224; certeza da noite.&#8221;</em></p></blockquote><p>As nuvens de Michelangelo pareciam bonitas.</p><p>. </p><p>&#201; nesse espa&#231;o, terreno f&#233;rtil para a imagina&#231;&#227;o, que florescem as hist&#243;rias in&#250;teis e por isso mesmo genuinamente interessantes. Um g&#234;nero liter&#225;rio de nada. N&#227;o servem a um prop&#243;sito, n&#227;o edificam, n&#227;o ensinam, n&#227;o educam&#8230; </p><p>O nada muito espesso aqui &#233; preenchido por uma mulher de quarenta anos que descobriu alguma coisa no amor de um m&#250;sico por ela. </p><p>O que ela descobriu talvez tenha sido amor tamb&#233;m, talvez n&#227;o. Talvez tenha sido sexo, talvez n&#227;o. Talvez tenha sido o mero prazer de ser objeto de amor e desejo de outro homem, talvez nem isso. Mas, ao longo das 144  p&#225;ginas de <strong>&#8220;O polon&#234;s&#8221;</strong>, somos testemunha desse algo que Beatriz descobre e insiste em tecer e que n&#243;s, por n&#227;o podermos batizar, acompanhamos. </p><p>E, Coetzee, por tampouco poder definir, inventa, e nos narra:</p><blockquote><p><em>&#8220;H&#225; um momento na segunda noite em que ressurge do passado a deliciosa sensa&#231;&#227;o de queda. Ela pensara que tinha desaparecido para sempre, que pertencia apenas &#224; juventude ou mesmo &#224; inf&#226;ncia: o terror e o prazer de escorregar por um tobo&#225;gua, quando se abdica do controle e a pessoa &#233;, por um breve instante, pura experi&#234;ncia.&#8221;</em></p></blockquote><p>. </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!7Ql-!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F57184891-d0c6-40d4-960b-79979c309e37_1420x1600.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!7Ql-!, /__u/victoriamantoan.substack.com/w_424, /__u/victoriamantoan.substack.com/c_limit, /__u/victoriamantoan.substack.com/f_webp, /__u/victoriamantoan.substack.com/q_auto:good, 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Era um cartaz que l&#225; estava dez anos atr&#225;s. Pelas minhas pesquisas, &#233; parte de <a href="https://doceru.com/doc/v1vv5">um trabalho bel&#237;ssimo do professor Tomaz Tadeu da Silva</a>. </p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Notas sobre o azul]]></title><description><![CDATA[e sobre perder-se]]></description><link>https://victoriamantoan.substack.com/p/notas-sobre-o-azul</link><guid isPermaLink="false">https://victoriamantoan.substack.com/p/notas-sobre-o-azul</guid><dc:creator><![CDATA[Victória Mantoan]]></dc:creator><pubDate>Fri, 21 Nov 2025 20:42:26 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!64XJ!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F51ead11e-02f2-478a-8a60-c03b3afc52ac_1600x900.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>2025 est&#225; prestes a terminar e come&#231;o a ouvir &#224; minha volta discuss&#245;es sobre a cor da roupa para a passagem do ano (especialmente entre adolescentes). Lembro que nunca fui muito adepta da pr&#225;tica. Na minha adolesc&#234;ncia, passei de preto boa parte dos anos; quando cansei de ser inutilmente rebelde, aderi sistematicamente &#224; norma social: branco, vai. At&#233; que isso finalmente deixou de ser por completo um tema de processamento mental e a tomada de decis&#227;o virou pragm&#225;tica ao extremo: quero usar essa roupa hoje? ok. Do alto da minha superioridade c&#233;tica, achava rid&#237;culo quem achava que encontraria um grande amor se usasse calcinha vermelha (ou &#233; rosa?), ou que ganharia um aumento se vestisse uma camiseta amarela. A cor n&#227;o tem significado algum, <em>n&#227;o importa,</em> eu pensava desdenhosamente. </p><p>S&#243; que importa.</p><p>(N&#227;o, isso n&#227;o &#233; uma ode a gastar minutos da sua preciosa vida escolhendo com que cor voc&#234; vai entrar em 2026 para ter qualquer coisa que voc&#234; deseje)</p><p>O neg&#243;cio &#233; que, dentre as muitas camadas que a volta a ler poesia me abriu ano passado, veio essa: uma certa sensibilidade adicional para a est&#233;tica. Veja bem, eu n&#227;o virei boa decoradora, ou designer, n&#227;o &#233; que meu senso de combina&#231;&#227;o e propor&#231;&#245;es tenha exatamente melhorado ou afinado, mas t&#227;o somente que me dei conta de que: o que vemos nos faz sentir. Como vemos tamb&#233;m. &#201; nessa medida que a cor importa.</p><p>H&#225; alguns livros, que ainda ser&#227;o tema por aqui, que configuram uma categoria que eu chamo de <em>livros de cabeceira</em>. Eles n&#227;o ficam, literalmente, ao lado da minha cama, mas s&#227;o aquelas leituras &#224;s quais me sinto impelida a retornar de tempos em tempos, de maneira mais ou menos linear. Uma delas, para mim, foi um presente de uma grande amiga, que recebi h&#225; uma d&#233;cada: &#8220;<strong>A field guide to getting lost</strong>&#8221;, da Rebecca Solnit. </p><p>O nome &#233; bastante descritivo e trata-se realmente de um grande ensaio sobre perder-se; ou, eu diria at&#233;, sobre a del&#237;cia e a import&#226;ncia de estar perdido tantas e tantas vezes ao longo da vida. Mas eu nunca tinha entendido muito bem por que &#233; que havia todo um cap&#237;tulo dedicado &#224; cor azul, embora alguns dos meus trechos favoritos l&#225; estivessem localizados: </p><blockquote><p>&#8220;We treat desire as a problem to be solved, address what desire is for and focus on that something and how to acquire it rather than on the nature and the sensation of desire, though often it is the distance between us and the object of desire that fills the space in between with the blue of longing. I wonder sometimes whether with a slight adjustment of perspective it could be cherished as a sensation on its own terms, since it is as inherent to the human condition as blue is to distance?&#8221;</p></blockquote><p>Eu me apaixonei e voltei mil vezes a tudo o que girava em torno do que, para ela, o azul suscitava; no entanto, fazia isso sem jamais conseguir entender como a cor o fazia propriamente. Eu n&#227;o alcan&#231;ava. </p><p>At&#233; que alcancei. E a ponte foi uma poeta. Antes do meu trecho preferido, a parte encantadora que eu simplesmente pulava. Pulei sistematicamente por anos para o que &#8220;importava mais&#8221;. O que ficava para tr&#225;s no meu equ&#237;voco, o essencial:</p><blockquote><p>&#8220;The world is blue at its edges and in its depths. This blue is the light that got lost. Light at the blue end of the spectrum does not travel the whole distance from the sun to us. It disperses among the molecules of the air, it scatters in water. Water is colorless, shallow water appears to be the color of whatever lies underneath it, but deep water is full of this scattered light, the purer the water the deeper the blue. The sky is blue for the same reason, but the blue at the horizon, the blue of land that seems to be dissolving into the sky, is a deeper, dreamier, melancholy blue, the blue at the farthest reaches of the places where you see for miles, the blue of distance. This light that does not touch us, does not travel the whole distance, the light that gets lost, gives us the beauty of the world, so much of which is in the color blue. </p><p>For many years, I have been moved by the blue at the far edge of what can be seen, that color of horizons, of remote mountain ranges, of anything far away. The color of that distance is the color of an emotion, the color of solitude and of desire, the color of there seen from here, the color of where you are not. And the color of where you can never go. For the blue is not in the place those miles away at the horizon, but in the atmospheric distance between you and the mountains. &#8220;Longing,&#8221; says the poet Robert Hass, &#8220;because desire is full of endless distances.&#8221; Blue is the color of longing for the distances you never arrive in, for the blue world.&#8217;</p></blockquote><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!64XJ!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F51ead11e-02f2-478a-8a60-c03b3afc52ac_1600x900.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!64XJ!, /__u/victoriamantoan.substack.com/w_424, /__u/victoriamantoan.substack.com/c_limit, /__u/victoriamantoan.substack.com/f_webp, /__u/victoriamantoan.substack.com/q_auto:good, 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a Cristina Peri Rossi, ao falar de Barcelona, que me lembrou que, mesmo ignorando Solnit, no mesmo 2016 em que conheci meu guia de bolso para me perder, fiz o primeiro registro do meu pr&#243;prio <em>blue world</em>, aquele que se pintava a minha frente.</p><p>&#201; claro que eu n&#227;o passei inc&#243;lume pelo meu tempo at&#233; aqui, de modo que eu tamb&#233;m estava l&#225; quando Abdellatif Kechiche nos lembrou que azul &#233; a cor mais quente. Nem ignorei o significado de blues. Mas n&#227;o sei se eu escutei como deveria na &#233;poca. Acho que n&#227;o. Agora eu sei. Talvez seja a &#250;nica cor na qual realmente se possa mergulhar.</p><blockquote><p> &#8220;Tinha olhos azul-celeste. Os olhos azul-celeste s&#227;o olhos cegos, s&#227;o olhos que n&#227;o deixam olhar para dentro nem parecem olhar para fora.</p><p>[&#8230;]</p><p>&#192;s vezes, pensava que a cor azul-celeste dos seus olhos era devido ao mar. A tanta &#225;gua que havia acumulado nas p&#225;lpebras. &#8220;Os homens do mar cheiram de outra maneira&#8221;, escutei uma vizinha dizer, mas eu n&#227;o sabia como cheiravam nem sequer os homens que nunca tinham sa&#237;do ao mar. Se esse homem levava o mar nos olhos, ent&#227;o tamb&#233;m levava sua tristeza.&#8221;</p><p>&#8220;<strong>A Insubmissa</strong>&#8221;, Cristina Peri Rossi</p></blockquote><p>Decido ver o que se tem por a&#237; sobre o azul. A internet me diz: &#8220;O azul costuma estar associado &#224; frieza, depress&#227;o, monotonia. Por isso mesmo, tamb&#233;m &#224; paz, &#224; ordem, &#224; harmonia. Entre os matizes, &#233; o menos expansivo e forte aos olhos, sendo a cor mais fria. Sin&#244;nimos: cer&#250;leo, celeste, azulado, safira. Tamb&#233;m h&#225; rela&#231;&#227;o &#224; estimula&#231;&#227;o da criatividade e tranquilidade. &#201; a cor favorita de 45% das pessoas do mundo&#8221;</p><p>Dentre elas, meu filho mais velho.</p><p>Achei especialmente curioso o uso do conectivo &#8220;por isso mesmo&#8221; para falar de frieza e paz, depress&#227;o e ordem, monotonia e harmonia. Talvez seja a cor das ambiguidades.</p><p>O que a Rebecca faz &#233; costurar seu azul como a cor da dist&#226;ncia e tamb&#233;m do desejo, de uma complexidade que se conquista com mais e mais vida: </p><blockquote><p>&#8220;There is no distance in childhood: for a baby, a mother in the other room is gone forever, for a child the time until a birthday is endless. Whatever is absent is impossible, irretrievable, unreachable. Their mental landscape is like that of medieval paintings: a foreground full of vivid things and then a wall. The blue of distance comes with time, with the discovery of melancholy, of loss, the texture of longing, of the complexity of the terrain we traverse, and with the years of travel. If sorrow and beauty are all tied up together, then perhaps maturity brings with it not what Nabhan calls abstraction, but an aesthetic sense that partially redeems the losses time brings and finds beauty in the faraway.&#8221;</p></blockquote><p>Termina assim o seu cap&#237;tulo sobre azul:</p><blockquote><p>&#8220;Some things we have only as long as they remain lost, some things are not lost only so long as they are distant.&#8221;</p></blockquote><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!yFuW!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F55fac1c4-cb79-43c4-900b-1749823614a0_1062x939.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!yFuW!, /__u/victoriamantoan.substack.com/w_424, 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y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p>J&#225; diria um psicanalista que eu admiro muito (o Christian Dunker), <em>estar perdido e estar encontrado nem sempre s&#227;o opostos perfeitos.</em> Talvez sejam tonalidades diferentes de uma mesma cor.</p><p>.</p><p>Enquanto terminava este texto, uma amiga me escrevia perguntando se eu j&#225; havia estado em La Chascona, casa que Pablo Neruda (uma paix&#227;o liter&#225;ria altamente mal resolvida no meu curr&#237;culo de leitora) construiu para um grande amor, Matilde Urrutia, que seria sua terceira e &#250;ltima esposa. </p><p>&#8220;Lembrei muito de voc&#234;&#8221;, ela me disse. E mandou fotos&#8230;</p><p>A casa &#233; azul.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Dos traços (in)visíveis ]]></title><description><![CDATA[meio poesia, meio cr&#244;nica.]]></description><link>https://victoriamantoan.substack.com/p/dos-tracos-invisiveis</link><guid isPermaLink="false">https://victoriamantoan.substack.com/p/dos-tracos-invisiveis</guid><dc:creator><![CDATA[Victória Mantoan]]></dc:creator><pubDate>Fri, 07 Nov 2025 21:20:31 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!V8bg!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0ae97216-f4ce-4474-9f63-9f23d3e365c0_4030x2017.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>&#8220;<strong>15.</strong></p><p></p><p>talvez a palavra</p><p>seja um tra&#231;o</p><p>vis&#237;vel </p><p>do sentimento&#8221;</p></blockquote><p></p><p>O nome do livro de poesia da Cristina Rioto que cont&#233;m essa preciosidade &#233; <strong>&#8220;Guardar um corpo com palavras&#8221;</strong>. Vou come&#231;ar do come&#231;o porque funciona para mim, j&#225; que este ser&#225; um emaranhado sem sentido de palavras, poesia, escrita e corpo. E o come&#231;o, no caso, &#233; uma ep&#237;grafe de Roland Barthes que diz: </p><p><strong>&#8220;O prazer do texto &#233; esse momento em que meu corpo vai seguir suas pr&#243;prias ideias &#8212; pois meu corpo n&#227;o tem as mesmas ideias que eu&#8221;</strong>. </p><p>O sentido principal disso tudo &#233; que voc&#234; deveria ler tamb&#233;m essa Cristina. </p><p>(j&#225; se sabe que esta newsletter &#233; apaixonada pela hom&#244;nima, a Peri Rossi, mas n&#227;o &#233; dela que estamos falando aqui, embora sempre seja um pouco tamb&#233;m)</p><p>*</p><p>Eu n&#227;o sou uma pessoa religiosa, e passar por uma gradua&#231;&#227;o de humanas que escarafunchou os motivos pelos quais o monote&#237;smo, em especial o crist&#227;o, se instalou no Ocidente da maneira como se instalou tornou muito dif&#237;cil para mim nutrir qualquer simpatia tanto pelas institui&#231;&#245;es religiosas quanto pela ideia da entidade em si &#8212; essa de que exista um ser ou o que quer que ele seja, chamado &#8220;Deus&#8221;. Tenho tanta insubordina&#231;&#227;o a esse respeito que passei muito tempo evitando de maneira consciente (me policiando mesmo para n&#227;o dizer) a express&#227;o &#8220;meu deus&#8221;. Depois de reconhecer o rid&#237;culo dessa patrulha de mim mesma, decidi enveredar por outro caminho e tentar me apropriar dela rs, proclamar que se trata de uma express&#227;o lingu&#237;stica t&#227;o incorporada em nossas vidas que daria para cham&#225;-la de laica. Mas como indicar o sentido laico de deus? Assim mesmo, eu decidi comigo, escrevendo a palavra com a letra min&#250;scula. Da&#237; passei a me incomodar a cada vez que vou escrever a express&#227;o, que considero at&#233; meio ateia (sim, meu deus!), e o corretor corrige o meu &#8220;deus&#8221; para &#8220;Deus&#8221;, conferindo-lhe uma solenidade que me recuso a passar adiante. Me sinto ofendida, como se submetida a uma tentativa de convers&#227;o. Volto atr&#225;s e troco, na esperan&#231;a de que a mudan&#231;a da letra mai&#250;scula para a min&#250;scula deixe claro que acredito nas express&#245;es lingu&#237;sticas, mas n&#227;o na entidade religiosa. Transmito toda a minha incredulidade por meio de uma letrinha. Ou, ao menos, acredito transmitir. O que n&#227;o deixa de ser um ato de f&#233;. </p><p>* </p><p>Pois &#233;, eu acredito em algumas coisas, sim, por exemplo, em m&#225;gica. Acredito que o corpo &#233; essa entidade meio concreta, meio m&#237;stica, meio m&#225;gica (que tr&#234;s meios d&#227;o um inteiro), capaz de dizer coisas que diz e coisas que n&#227;o diz, mas diz, que conversa conosco, em suma, talvez num alfabeto pr&#243;prio; que as palavras, da maneira como as conhecemos, s&#227;o uma outra forma m&#225;gica de fazer dizer alguma coisa sobre a vida e sobre o corpo. Que a mesma palavra, digitada ou escrita a m&#227;o, dizem coisas diferentes. Sempre que viajo para um pa&#237;s de l&#237;ngua estrangeira, volto com um livro em idioma local &#8212; n&#227;o importa se sei ler o idioma ou n&#227;o. </p><p>*</p><p>As marcas que o corpo diz: minha av&#243; tinha veias evidentes. As veias de boa parte do corpo dela eram t&#227;o proeminentes que pareciam t&#250;neis por onde corriam um sangue azul o tornavam, aquele corpo que se debilitava ano ap&#243;s ano, um mapa a perseguir com paradas em marquinhas cujas hist&#243;rias ela sabia contar ou inventar com gosto. Seus olhos eram castanhos, mas, n&#227;o sei se pelo avan&#231;ar da catarata ou de alguma outra condi&#231;&#227;o ocular, alguns dias ele se exibia como um azul acinzentado, ou um cinza azulado (parece a mesma coisa, mas, veja, a disposi&#231;&#227;o das palavras &#233; outra porque a cor tamb&#233;m era &#8212; era bem outra, uma o avesso da outra). Minha av&#243; viveu num tempo em que cuidar da caligrafia era obrigat&#243;rio e ela tinha a letra mais bonita que eu j&#225; vi. &#201; por causa dela e por causa disso que eu insisto em escrever minhas cartas &#224; m&#227;o. Guardamos as suas anota&#231;&#245;es como se fossem rel&#237;quias, embora boa parte delas sejam: registros de jogos a dinheiro, apostas que ela fazia consigo mesma (uma delas, sempre me faz rir: ela apostou que eu, sua neta, cresceria mais do que os 1,50m que os m&#233;dicos que meus pais consultaram me deram de previs&#227;o &#8212; a fiz ganhar essa aposta por 10 cm) e resultados da TeleSena. N&#227;o importa que seja quase tudo essas besteiras, a letra dela est&#225; l&#225;; sua hist&#243;ria tamb&#233;m. </p><p>* </p><blockquote><p>&#8220;<strong>1.</strong></p><p></p><p>o poema nasce de uma fissura&#8221;</p></blockquote><p>Ainda estamos com a Cristina (a Rioto). </p><p>Depois de abrir o queixo e precisar de uma costura de cinco pontos no rosto, por sugest&#227;o da plantonista, vou a uma dermatologista. A m&#233;dica especialista em pele me diz que tenho um corpo &#8220;propenso a marcas&#8221;. Me explica que, no abrir-se de um corte, a recupera&#231;&#227;o se d&#225; por meio de uma concentra&#231;&#227;o de vasos sangu&#237;neos na regi&#227;o afetada. &#201; assim que ocorre a repara&#231;&#227;o e &#233; a raz&#227;o pela qual a pele ao redor fica avermelhada. At&#233; seis meses depois, boa parte das pessoas tem esses vasos dissolvidos e a recupera&#231;&#227;o est&#225; dada; pele restaurada. Essas s&#227;o as pessoas que n&#227;o t&#234;m tend&#234;ncia a cicatrizes. Mas, descubro nessa consulta, eu n&#227;o sou uma dessas pessoas. &#8220;Veja aqui&#8221;, ela me diz, mostrando com uma lupa uma por&#231;&#227;o de marcas que eu jamais havia reparado que estavam ali, espalhadas pela minha perna, p&#233;s, bra&#231;os etc. </p><p>Me comovi.</p><p>Num outro dia n&#227;o muito longe, a dentista me diz que meus dentes s&#227;o propensos a manchas (tamb&#233;m eles). H&#225; a tend&#234;ncia, sim, e a h&#225; o comportamento: que as doses industriais de caf&#233; que eu tomo todos os dias v&#227;o servindo de tintura para escurecer esse &#243;rg&#227;o que, pela moda atual, precisa estar t&#227;o branco quanto os do Ross no epis&#243;dio em que sua boca brilha no escuro. Eu tomo uma variedade de caf&#233; de baixa cafe&#237;na, que eu fa&#231;o coado, fraquinho, tudo para que eu possa manter a quantidade ingerida vagarosamente ao longo de uma manh&#227;, que varia entre 1,2L e 1,5L (n&#227;o estou exagerando). Esses j&#225; s&#227;o os ajustes que fa&#231;o para n&#227;o morrer de taquicardia ao longo do dia, de modo que passar a ingerir n&#227;o mais que uma x&#237;cara n&#227;o est&#225; e jamais esteve em quest&#227;o. Passo, ent&#227;o, a fazer limpeza a cada dois meses para amenizar as manchas sem mexer na minha dose de felicidade matinal. </p><p>Sou propensa a marcas.</p><p>Numa perspectiva est&#233;tica, entendo que meu corpo imp&#245;e algumas dificuldades. Mas, numa perspectiva po&#233;tica, gosto de pensar que meu corpo fica produzindo hist&#243;rias o tempo todo. Saio dessas consultas com a minha av&#243; na cabe&#231;a: lembro do quanto gostava de passar os dedos pelas veias saltadas dela, admirar o formato das suas unhas e tentar chegar bem perto para saber que cor seus olhos estariam naquele dia.  </p><p>Aos 34, pela primeira vez na vida, tenho vontade de fazer uma tatuagem, colocar deliberadamente um tra&#231;o vis&#237;vel na pele (embora o medo de agulha ainda n&#227;o tenha me permitido ir adiante e n&#227;o sei se um dia vai). O que gostaria de registrar, &#233;, claro, uma poesia (ou melhor, um fragmento dela): </p><p><strong>&#8220;e o livro dos eventos/ est&#225; sempre aberto no meio&#8221;</strong>. </p><p>(aqui demos um salto para a Wislawa Szymborska, da colet&#226;nea <strong>&#8220;[poemas]&#8221;</strong>)</p><p>* </p><p>Podemos considerar esta uma terceira edi&#231;&#227;o (&#233; a terceira?) dedicada a poesia. &#201; isso o que este texto &#233;, ou se pretende. A poesia: essa maneira doida de deixar o corpo, incontorn&#225;vel, incontrol&#225;vel e incomunic&#225;vel, colocar suas ideias no papel, concordemos com elas ou n&#227;o&#8230;</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!V8bg!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0ae97216-f4ce-4474-9f63-9f23d3e365c0_4030x2017.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!V8bg!, /__u/victoriamantoan.substack.com/w_424, /__u/victoriamantoan.substack.com/c_limit, /__u/victoriamantoan.substack.com/f_webp, /__u/victoriamantoan.substack.com/q_auto:good, /__u/victoriamantoan.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0ae97216-f4ce-4474-9f63-9f23d3e365c0_4030x2017.jpeg 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receita:<br>mofo musgo cobertor<br>pra carne do rancor<br>eu &#233; que n&#227;o vou fazer um monumento&#8221;; </p></blockquote><p></p><p><strong>&#8220;O fato e a coisa&#8221;</strong>, do Torquato Neto</p><blockquote><p>&#8220;&#201; preciso que haja alguma coisa<br>alimentando o meu povo:<br>uma vontade<br>uma certeza<br>uma qualquer esperan&#231;a.</p><p></p><p>&#201; preciso que alguma coisa atraia<br>a vida ou a morte:<br>ou tudo ser&#225; posto de lado<br>e na procura da vida<br>a morte vir&#225; na frente<br>e abrir&#225; caminhos. </p><p></p><p>&#201; preciso que haja algum respeito,<br>ao menos um esbo&#231;o:<br>ou a dignidade humana se afirmar&#225; <br>a machadadas.&#8221;</p></blockquote><p>(n&#227;o sei por que, mas esse poema me lembrou o fim do <strong>&#8220;Da pr&#243;xima vez, o fogo&#8221;</strong>, do James Baldwin. Um, um poema; outro, um ensaio; ainda assim, nos dois: o mesmo arrepio, como se dissessem, de jeitos diferentes, uma mesma coisa: n&#227;o vamos esperar nada menos que o imposs&#237;vel, e o imposs&#237;vel (apenas) assim acontecer&#225;);</p><p></p><p><strong>&#8220;Panapan&#225;&#8221;</strong>, de Guilherme Gontijo Flores</p><blockquote><p>&#8220;Saliva &#233; onde fala a nossa lava imensa: <br>ali se encontra a vala das ess&#234;ncias m&#237;nimas<br>do dia a dia, a carnadura tesa destas brigas<br>e reconc&#237;lios; ali se lava a roupa, a mala,<br>a alma, quando a saliva toca p&#225;lpebras,<br>cangotes e mamilos, quando tudo se alivia<br>num s&#243; espasmo e pasma a terra treme o &#233;ter<br>e a lava eleva ao solo tudo que cia por ali.&#8221;</p></blockquote><p>Ganhei esse de anivers&#225;rio (o livro) e fiquei apaixonada, passei na frente de tudo e todos. E, al&#233;m dos poemas, incr&#237;veis, tem talvez essa explica&#231;&#227;o bel&#237;ssima do Caetano Galindo de por que Panapan&#225; &#233; esse estrondo: <strong>&#8220;E como (e h&#225; quanto tempo) me fazia falta encontrar uma obra de arte que viesse desse lugar de maturidade, de controle total de seus meios e optasse por descer at&#233; o fundo do Po&#231;o do Inferno e voltar relatando ter visto o que viu e podia mostrar, revelar: guano, vida, mau-cheiro, brilho e escurid&#227;o. Uma obra de arte que, do abismo, mirasse as estrelas, sem tergiversar, quisesse o c&#233;u e tivesse tudo, abarcasse o mais dif&#237;cil e o mais doce, o mais duro e o mais gr&#225;cil. Uma obra de arte que se ancorasse, sim, no passado (Drummond, Pound, Eliot, Haroldo de Campos, Gil, Scholem.. </strong><em><strong>muitos deuses, muitas vozes</strong></em><strong>), mas que nele encontrasse n&#227;o apenas os cacos com que escorar suas ru&#237;nas, mas a vontade-coragem, </strong><em><strong>hybris</strong></em><strong>, pretens&#227;o de querer dizer seu tempo a seu tempo em seu tempo&#8221;</strong>. Eu arrepio. </p><p>*</p><p>Mario Levrero, um dos meus autores preferidos diz coisas que me deixaram ainda mais apaixonada numa colet&#226;nea de entrevistas que saiu por aqui sob a alcunha autoexplicativa &#8220;<strong>Conversas com Mario Levrero</strong>&#8221;. Embora de t&#237;tulo descritivo, eu amo suas declara&#231;&#245;es porque me identifico com essa maneira n&#227;o c&#233;tica de falar de literatura, de fazer da literatura uma esp&#233;cie de religi&#227;o particular que compartilhamos com outros leitores. Aqui, fora de ordem, como sempre: </p><blockquote><p>&#8220;A intui&#231;&#227;o po&#233;tica &#233; outro nome para a percep&#231;&#227;o aguda, seja extranormal ou paranormal. N&#227;o esque&#231;a que toda arte &#233; hipnose, e &#233; nos estados de transe que acontecem esses fen&#244;menos&#8221;. </p></blockquote><blockquote><p>&#8220;eu acredito que os textos preexistem &#224; escrita (e, certamente, tamb&#233;m &#224; sua formula&#231;&#227;o mental); est&#227;o dentro dele e j&#225; na sua forma definitiva, e &#233; por isso que tenho certeza de que o final vir&#225; sozinho, vai cair de maduro, at&#233; quando h&#225; algum enigma&#8221;. </p></blockquote><p>Um jeito, para mim, de dizer: a poesia j&#225; est&#225; no corpo, inteira, desde antes.</p><p>Antes do qu&#234;?</p><p>*</p><blockquote><p>&#8220;<strong>14. motiva&#231;&#245;es da l&#237;ngua</strong></p><p></p><p>responder &#224; sede</p><p>perceber os taninos</p><p>engolir o medo</p><p>falar seu nome&#8221;</p></blockquote><p></p><p>Qual l&#237;ngua? </p><p>No fim das contas &#233; isso: a gente <em>guarda o corpo com palavras</em>.</p><p><em>Dizer seu tempo a seu tempo em seu tempo</em>.</p><p></p><p></p><p></p><p></p><p></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[perguntas impronunciáveis]]></title><description><![CDATA[[+ a concilia&#231;&#227;o poss&#237;vel que nos leva a ler]]]></description><link>https://victoriamantoan.substack.com/p/perguntas-impronunciaveis</link><guid isPermaLink="false">https://victoriamantoan.substack.com/p/perguntas-impronunciaveis</guid><dc:creator><![CDATA[Victória Mantoan]]></dc:creator><pubDate>Fri, 24 Oct 2025 21:21:53 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!9aj_!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe490d9e8-6a4a-41f2-b6e1-8e332a559511_1600x556.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><em>&#8220;Ele se ancora em uma pergunta velada. <br>Essa pergunta nunca &#233; feita, formulada assim.&#8221;</em></p><p>Foi desse jeitinho que a <a href="/__u/substack.com/@renatabelmonte?r=ag3kg&amp;utm_medium=ios&amp;utm_source=profile">Renata Belmonte</a>, uma escritora que eu admiro muito, tanto pela sua produ&#231;&#227;o quanto pela sua maneira de olhar o mundo, reconhecendo sempre sua profundidade, me revelou ter lido um dos seus livros favoritos no come&#231;o deste ano &#8211; livro que ela havia me convencido a ler tamb&#233;m algumas semanas antes, apenas demonstrando todo o seu apaixonamento.</p><p>(<s>o corretor do Substack quer trocar meu </s><em><strong><s>apaixonamento</s></strong></em><s> por </s><em><strong><s>aprisionamento</s></strong></em><s>; vou ter que levar isso pra an&#225;lise</s>).</p><p><strong>&#8220;Desonra&#8221;</strong>, do J. M. Coetzee, passou na frente de um monte de outros lan&#231;amentos mais ou menos badalados em fevereiro e foi parar na minha cabeceira por conta de provoca&#231;&#245;es que ela me colocou: ela, a leitora que veio antes de mim. O que ela fez na nossa conversa foi responder a uma outra pergunta, que, vou defender mais adiante, suspeito que seja a pergunta que mais nos leva a ler os livros que lemos. </p><p>Eu escutei, sim, a pergunta velada que sustenta a narrativa do sul-africano. Embora tenhamos, no privado, eu e minha interlocutora, discutido-a abertamente, n&#227;o vou transpor essa pergunta para c&#225;, n&#227;o vou colocar luz sobre ela, muito menos desenvolver o debate. Ela &#233;, sim, bastante indigesta. Mas n&#227;o &#233; por isso que n&#227;o vou lan&#231;&#225;-la aqui: &#233; porque tenho a esperan&#231;a de que cada leitor possa identific&#225;-la por conta pr&#243;pria, construindo-a, inclusive, de uma maneira muito pr&#243;pria, refazendo-a a seu modo, e de que a experi&#234;ncia talvez fique ainda melhor se assim for.  </p><p>O que eu posso dizer com alguma seguran&#231;a &#233; que a pergunta de que se trata, mesmo e talvez porque embutindo tantas outras, &#233; indigesta por n&#227;o permitir uma resposta simples; qualquer um que tentar, n&#227;o vai encontrar, n&#227;o vai caber. Ali&#225;s, talvez seja o caso de reconhecer que n&#227;o h&#225; resposta alguma para ela, que sejamos apenas obrigados a fazer o que o livro de fato nos leva a fazer e o que faz dele uma narrativa t&#227;o incr&#237;vel: ele sequer tenta respond&#234;-la, mas t&#227;o somente nos faz olhar para ela. S&#227;o 246 p&#225;ginas de uma suspens&#227;o obrigat&#243;ria dos pr&#243;prios pressupostos, dos mais arraigados, seja para quais sentidos forem.  </p><p>* </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!9aj_!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe490d9e8-6a4a-41f2-b6e1-8e332a559511_1600x556.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!9aj_!, /__u/victoriamantoan.substack.com/w_424, /__u/victoriamantoan.substack.com/c_limit, /__u/victoriamantoan.substack.com/f_webp, /__u/victoriamantoan.substack.com/q_auto:good, /__u/victoriamantoan.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe490d9e8-6a4a-41f2-b6e1-8e332a559511_1600x556.jpeg 424w, 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y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p></p><blockquote><p>&#8220;&#8220;Meu caso tem por base os direitos do desejo&#8221;, ele diz. &#8220;Aquele deus que faz at&#233; os passarinhos estremecerem.&#8221; </p><p>Ele se v&#234; no apartamento da menina, no quarto dela, com a chuva caindo l&#225; fora e o aquecedor no canto soltando cheiro de parafina, ele ajoelhado em cima dela, tirando sua roupa, ela com os bra&#231;os ca&#237;dos como uma morta. <em>Fui um servo de Eros</em>: &#233; isso que ele quer dizer, mas ser&#225; que tem coragem? <em>Era um deus que agia em mim</em>. Quanta vaidade! E, no entanto, n&#227;o era mentira, n&#227;o inteiramente. Nessa droga de hist&#243;ria toda havia algo generoso que estava fazendo o poss&#237;vel para florescer. Se ao menos soubesse que o tempo ia ser t&#227;o curto! </p><p>Ele tenta de novo, mais devagar: &#8220;Quando voc&#234; era pequena e a gente ainda morava em Kenilworth, os vizinhos tinham um cachorro, um golden retriever. N&#227;o sei se voc&#234; lembra&#8221;. </p><p>&#8220;Vagamente.&#8221; </p><p>&#8220;Era um macho. Sempre que aparecia alguma cadela pela vizinhan&#231;a, ele ficava excitado, incontrol&#225;vel, e com regularidade pavloviana os donos batiam nele. A coisa continuou assim at&#233; o pobre do cachorro n&#227;o saber mais o que fazer. Quando sentia o cheiro da cadela, corria pelo jardim com as orelhas baixas e o rabo entre as pernas, ganindo, tentando se esconder.&#8221; </p><p>Ele faz uma pausa. &#8220;N&#227;o entendo&#8221;, Lucy diz. E de fato, o que ele est&#225; querendo dizer?</p><p>&#8220;Era uma coisa t&#227;o ign&#243;bil que eu ficava desesperado. Acredito que se possa castigar um cachorro por uma coisa como roer um chinelo. O cachorro aceita a justi&#231;a de uma coisa dessas: uma surra por um chinelo ro&#237;do. Mas desejo &#233; outra hist&#243;ria. Nenhum animal aceita uma justi&#231;a que castiga porque voc&#234; obedeceu seus instintos.&#8221; </p><p>&#8220;Ent&#227;o os machos devem ter o direito de obedecer seus instintos livremente? &#201; essa a moral da hist&#243;ria?&#8221; </p><p>&#8220;N&#227;o, n&#227;o &#233; essa a moral. O que era ign&#243;bil nesse caso de Kenilworth era que o cachorro come&#231;ou a odiar a pr&#243;pria natureza. Ele nem precisava mais apanhar. Ele mesmo j&#225; se castigava. Chegou a um ponto que era melhor matar logo o coitado.&#8221; </p><p>&#8220;Ou corrigir.&#8221; </p><p>&#8220;Talvez. Mas no fundo acredito que ele ia preferir ser morto. Ele talvez preferisse isso &#224;s op&#231;&#245;es que tinha: de um lado, negar a pr&#243;pria natureza; de outro, passar o resto da vida andando pela sala, suspirando, farejando o gato e engordando.&#8221; </p><p>&#8220;Voc&#234; sempre pensou assim, David?&#8221; </p><p>&#8220;N&#227;o, nem sempre. &#192;s vezes senti exatamente o contr&#225;rio. Que o desejo &#233; uma cruz que se podia muito bem viver sem.&#8221; </p><p>&#8220;Eu diria&#8221;, diz Lucy, &#8220;que tamb&#233;m tendo para essa posi&#231;&#227;o.&#8221; </p><p>Ele espera que continue, mas ela n&#227;o continua. &#8220;De qualquer forma&#8221;, ela diz, &#8220;voltando ao assunto, voc&#234; foi expulso em prol da seguran&#231;a. Seus colegas podem voltar a respirar em paz, enquanto o bode expiat&#243;rio vaga no deserto.&#8221; </p><p>Uma afirma&#231;&#227;o? Uma pergunta? Ser&#225; que ela acredita que ele &#233; um bode expiat&#243;rio?</p><p>&#8220;Acho que bode expiat&#243;rio n&#227;o &#233; a melhor imagem&#8221;, ele diz, cauteloso. &#8220;O uso do bode expiat&#243;rio funcionou na pr&#225;tica enquanto ainda havia poder religioso por tr&#225;s da pr&#225;tica. Voc&#234; jogava os pecados da cidade nas costas do bode e levava o bode embora; pronto, a cidade estava limpa. Funcionava porque todo mundo entendia o ritual, inclusive os deuses. Depois, os deuses morreram, e de repente era preciso limpar a cidade sem a ajuda divina. Passou-se a exigir a&#231;&#227;o real no lugar do simbolismo. Nasceu o censor, no sentido romano. Vigil&#226;ncia passou a ser a palavra-chave: a vigil&#226;ncia de todos por todos. Expurgo no lugar da purga&#231;&#227;o.&#8221; </p><p>Est&#225; se deixando levar; fazendo um serm&#227;o. &#8220;Ent&#227;o&#8221;, conclui, &#8220;depois de dizer adeus &#224; cidade, o que &#233; que eu estou fazendo no meio do nada? Cuidando de cachorros. Brincando de bra&#231;o direito de uma mulher especializada em esteriliza&#231;&#227;o e eutan&#225;sia.&#8221;&#8221;</p></blockquote><p>*</p><p>Nem todo livro se estrutura dessa maneira. H&#225; outros caminhos, outras f&#243;rmulas; para nossa sorte, eu diria, os caminhos da literatura s&#227;o infinitos e fico pensando de que maneiras ainda seremos surpreendidos com ainda novas formas de inscrever o indiz&#237;vel no mundo por meio dela, a famigerada. Eu tenho essa f&#233; meio religiosa na fic&#231;&#227;o, e tamb&#233;m na poesia.</p><p>Um caminho que eu amo &#233; chafurdar na lama do ordin&#225;rio de maneira magistral. Sem conflitos t&#227;o escancarados, sem levantar quest&#245;es pol&#234;micas, apenas expondo beleza, crueza, ou at&#233; crueldade, cansa&#231;o e banalidade, paix&#227;o e t&#233;dio, no cotidiano. H&#225; livros not&#225;veis que n&#227;o se ancoram em perguntas veladas que, se pronunciadas, podem gerar e muitas vezes geram uma hecatombe, inclusive para os autores que ousaram endere&#231;&#225;-las. Exemplos de livros que, a meu ver, tamb&#233;m s&#227;o extraordin&#225;rios, mas nos levando a outros tipos de mergulhos: &#8220;<strong>A mais rec&#244;ndita mem&#243;ria dos homens&#8221;</strong>, &#8220;<strong>Solenoide&#8221;</strong>, &#8220;<strong>O romance luminoso&#8221;</strong>. </p><p>Mas h&#225;, sim, essa categoria de livros que colocam o dedo em alguma ferida a partir de uma perspectiva n&#227;o moralizante. </p><p>(Par&#234;ntesis: os que levantam quest&#245;es pol&#234;micas a partir de uma proposta panflet&#225;ria fazem ainda uma outra categoria de livros que deixam a n&#243;s, leitores autodeclarados progressistas, bem mais confort&#225;veis. N&#227;o os estou menosprezando, sua leitura pode ser importante e prazerosa, estou apenas destacando que &#233; uma outra categoria de leitura. Uma que, muitas vezes, nos ajuda a deitar a cabe&#231;a no travesseiro &#224; noite e dormir melhor porque uma mensagem com a qual concordamos foi colocada no mundo. Ufa! &#201; bom muitas vezes, pode ser bom, mas &#233; outra subst&#226;ncia).</p><p>O &#8220;sem ser moralizante&#8221;, aqui, &#233; um salto de grandiosidade. Nos nossos tempos, &#233; especialmente dif&#237;cil falar de um tema de interesse social sem o ser. Outros livros que fazem isso lindamente, mas que vou listar aqui desse jeito mais displicente porque tenho certeza que quem convive comigo n&#227;o aguenta mais esse repeteco: &#8220;<strong>O quarto de Giovanni&#8221;</strong> e &#8220;<strong>Terra estranha&#8221;</strong> (chutaria que qualquer livro do James Baldwin entra nessa categoria, um escritor do irreconcili&#225;vel); e &#8220;<strong>Judas&#8221;</strong>, do Am&#243;s Oz. </p><p>*</p><p>A minha leitura atual tamb&#233;m entra nesse bolo, acho: <strong>&#8220;O beijo da mulher-aranha&#8221;</strong>, do argentino Manuel Puig. Na minha cabe&#231;a, eu j&#225; desenhei ao menos uma pergunta velada que estrutura a narrativa desse cl&#225;ssico da literatura latino-americana em minhas j&#225; semanas de aproveitamento lento&#8230; estou na metade, mas tenho a intui&#231;&#227;o de que uma nova pergunta vai se revelar em breve. A ver. De todo modo, n&#227;o &#233; um livro que, at&#233; agora, oferece respostas, simples ou complexas, para a pergunta que colocou. De novo: somos obrigados a ficar com as quest&#245;es em suspenso dentro de n&#243;s. </p><p>Que bom! </p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!M83w!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa475373b-a452-4460-b9de-1b82b08dfe15_1600x1200.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!M83w!, /__u/victoriamantoan.substack.com/w_424, /__u/victoriamantoan.substack.com/c_limit, /__u/victoriamantoan.substack.com/f_webp, /__u/victoriamantoan.substack.com/q_auto:good, /__u/victoriamantoan.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa475373b-a452-4460-b9de-1b82b08dfe15_1600x1200.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!M83w!, 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xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p></p><blockquote><p>&#8220;&#8212; Certo, mas n&#227;o perde tempo. Conta o filme. </p><p>&#8212; E quando o n&#250;mero termina, o palco fica todo escuro, at&#233; que l&#225; no alto come&#231;a a subir uma luz como se fosse uma n&#233;voa e vai se desenhando uma silhueta de mulher divina, alta, perfeita, mas muito esfumada, que cada vez vai se perfilando melhor, porque ao avan&#231;ar vai atravessando faixas de tule, e, claro, a cada passo d&#225; pra distinguir melhor sua figura, envolta num vestido de lam&#234; prateado que se ajusta ao seu corpo como uma luva. A mulher mais divina que voc&#234; pode imaginar. E ela canta uma can&#231;&#227;o primeiro em franc&#234;s e depois em alem&#227;o. E est&#225; no alto do palco, e de repente aos p&#233;s dela, como um raio, se acende uma linha reta de luz, e ela vai dando passos para baixo, e a cada passo, p&#225;!, mais uma linha reta de luz, e no fim todo o palco fica atravessado por aquelas linhas, e na realidade cada linha era a borda de um degrau, e a&#237; voc&#234; de repente v&#234; que se formou uma escada toda de luzes. E num dos camarotes tem um jovem oficial alem&#227;o, n&#227;o t&#227;o jovem como aquele tenente do come&#231;o, mas tamb&#233;m muito boa-pinta. </p><p>&#8212; Loiro. </p><p>&#8212; Sim, e ela &#233; morena, muito branca, mas de cabelo retinto. </p><p>&#8212; E como &#233; de corpo? Magra ou bem torneada? </p><p>&#8212; N&#227;o, &#233; alta mas bem torneada, s&#243; que sem peit&#227;o, porque naquele tempo se usava a silhueta chapada. E ao cumprimentar o p&#250;blico, ela cruza o olhar com o oficial alem&#227;o. E quando vai pro camarim, encontra um lindo buqu&#234; de flores, sem cart&#227;o. E nisso bate &#224; porta uma das coristas loiras, bem francesinha. Bom, o que eu n&#227;o te contei &#233; que o que ela cantou foi muito estranho, me d&#225; medo toda vez que me lembro dessa m&#250;sica, porque, na hora que ela canta, fita o nada, n&#227;o pense que &#233; um olhar de felicidade, ela est&#225; &#233; assustada, mas ao mesmo tempo n&#227;o faz nada pra se defender, est&#225; como que entregue pro que acontecer. </p><p>&#8212; E o que ela canta? </p><p>&#8212; N&#227;o fa&#231;o ideia, mas deve ser uma can&#231;&#227;o de amor.&#8221;</p></blockquote><p></p><blockquote><p>&#8220;&#8212; Acha que vou con&#8230; seguir dormir? </p><p>&#8212; Claro. E se perder o sono, pensa no caso do Gabriel. </p><p>&#8212; Quem &#233; Gabriel? </p><p>&#8212; O gar&#231;om, escapou. </p><p>&#8212; Bom, ent&#227;o at&#233; amanh&#227;. </p><p>&#8212; At&#233; amanh&#227;. </p><p>&#8212; Olha como a vida &#233; doida, vou ficar acordado pensando no teu namorado.&#8221;</p></blockquote><p></p><p>* </p><h4><strong>[pergunta pronunciada, mas nem por isso pronunci&#225;vel:] <br>&#8220;alguma vez &#233; s&#243; sexo?&#8221;</strong></h4><p>Darian Leader &#233; um psicanalista americano que tentou levantar reflex&#245;es a partir de estudos te&#243;ricos e tamb&#233;m relatos de casos sobre o que leva as pessoas em geral a fazerem sexo. A pergunta que ele pronuncia (&#233; o t&#237;tulo do livro a pergunta) se desdobra em cascata e nenhuma delas desemboca no cl&#225;ssico debate (de novo, moralizante) de rebater a declara&#231;&#227;o de que um sexo n&#227;o significou nada, <em>foi s&#243; sexo</em>, dizendo que significou necessariamente algo cristalizado (no sentido de lhe atribuir amor obrigatoriamente, para ficar num lugar-comum). Ali&#225;s, se tem uma coisa que sai de cena aqui &#233; o termo <em>necessariamente</em>. &#201; disso que eu gosto.</p><p>O que ele est&#225; tentando dizer &#233; que sempre significa <em>algo. </em>Ponto. O qu&#234;? Depende de quem conta, depende de como conta, depende de onde conta. Isso fica claro logo na largada, no primeiro relato: ficamos diante de um assessor de investimentos que se coloca, a cada m&#234;s, uma meta acima daquela que seu chefe lhe atribu&#237;a. Quando n&#227;o conseguia bater a pr&#243;pria meta inchada, entrava em um aplicativo e arrumava um encontro com alguma desconhecida para transar de modo mec&#226;nico, sem olh&#225;-la nos olhos. H&#225; mais pormenores interessantes no livro, mas o que Leader se pergunta &#233; qual o sentido do sexo nesse fluxo, no fluxo dessa pessoa especificamente. O que ele quer dizer &#233; que h&#225; um sentido. E tamb&#233;m que h&#225;, sempre, v&#225;rios sentidos poss&#237;veis.</p><p> A parte que interessa aqui e que torna a pergunta verdadeiramente interessante, para mim ao menos, &#233; que encarar significa&#231;&#245;es eventualmente complexas ou pol&#234;micas, o que envolve lidar com quest&#245;es para as quais n&#227;o h&#225; resposta ou para as quais n&#227;o h&#225; respostas simples, passa por reconhecer que: desculpe o transtorno, mas a vida n&#227;o acontece em 2D. </p><p>Um fen&#244;meno que diversos colegas j&#225; relataram de suas cl&#237;nicas &#233; o de se depararem com pessoas &#8220;progressistas&#8221; (as aspas aqui s&#227;o porque quem &#233; que d&#225; essa carteirinha para algu&#233;m, n&#227;o &#233; mesmo?) cujos desejos sexuais n&#227;o coincidem com a fantasia que elas querem vestir para seu p&#250;blico, e, muitas vezes, com efeito ainda mais delet&#233;rio, nem mesmo com as fantasias que elas fazem delas mesmas. E, puxa, se j&#225; &#233; dif&#237;cil lidar com o absurdo do mundo externo, imagina dar de cara com o que nos parece absurdo no nosso universo particular. </p><p>S&#227;o mulheres feministas &#224;s voltas com fantasias de submiss&#227;o na cama, por exemplo; ou, como vi recentemente rodar aqui nesta rede, mulheres desse mesmo nicho (vou chamar assim rs) que sonham em ser pedidas em casamento com direito a homem ajoelhando e pai levando para entregar no altar da igreja e n&#227;o lidam bem com essa contradi&#231;&#227;o; ou, ainda, homens h&#233;teros para quem &#233; importante performar virilidade, mas que s&#243; conseguem sentir tes&#227;o sendo alvo de algum tipo de viol&#234;ncia f&#237;sica, ou que curtem posi&#231;&#245;es consideradas homossexuais, digamos; h&#225; mulheres independentes, empoderadas para todos os efeitos (fazendo de conta que n&#227;o acho esse termo terr&#237;vel) que se animam com a fantasia de uma cena de estupro, para ficar num outro exemplo, e morrem de vergonha disso. Nem estou entrando aqui em quest&#245;es ainda mais delicadas, mas &#233; fato que a sexualidade &#233; um palco fart&#237;ssimo de nuances.</p><p>O neg&#243;cio &#233; que, feliz ou infelizmente (eu vou dizer feliz), nem a psicologia, nem a psican&#225;lise (longe disso) e nem a sociologia acharam ainda a cura pro desejo. </p><p>&#201; desconcertante, mas, ainda bem&#8230; </p><p>temos a literatura. </p><p>(Sim, era aqui que eu queria chegar). </p><p>O que isso tem a ver com os outros livros de que eu falava? (precisa ter a ver?) A ideia de ter a arte em geral e a literatura em particular como caminho n&#227;o para apazigu&#225;-lo (o desejo), nem aprision&#225;-lo, nem para deix&#225;-lo mais palat&#225;vel e bonitinho, mas, no exato oposto disso tudo: para dar espa&#231;o para que ele exista. Eu amo. Dar-lhe mais e mais express&#245;es. Infinitas possibilidades de existir. As mais belas met&#225;foras pro absurdo da vida.</p><p>&#201; por isso tamb&#233;m que eu amo Philip Roth, vale dizer.</p><p>Suspeito que uma formula&#231;&#227;o poss&#237;vel seja pensar o desejo tamb&#233;m como uma dessas perguntas impronunci&#225;veis. Que a gente vai dando jeitos, e jeitinhos, de pronunciar, velando-as ou n&#227;o.</p><p><em>Olha como a vida &#233; doida.</em></p><p>Viva o respiro liter&#225;rio contra o achatamento do mundo.</p><div><hr></div><h4><strong>[B&#212;NUS] </strong><em><strong>amor &amp; paix&#227;o: a pergunta conciliadora</strong></em></h4><p></p><p>Um adendo para finalizar sem pol&#234;mica&#8230;</p><p>Numa perspectiva mais particular, privada, da minha vida pessoal mesmo, um ponto em comum entre &#8220;<strong>Desonra</strong>&#8221; e &#8220;<strong>O beijo da mulher-aranha</strong>&#8221; foi como cheguei at&#233; eles; ou, ainda melhor, como eles chegaram at&#233; mim. E foi por meio de uma pergunta tamb&#233;m, essa pronunci&#225;vel e pronunciada e respondida em alto e bom som; foi isso o que me levou a coloc&#225;-los na minha lista de leituras. E, vou defender agora de maneira quase partid&#225;ria, absolutamente panflet&#225;ria: acho que &#233; a pergunta que, respondida com verdade (cafona isso, n&#233;? eu sei, mas perdoa), &#233; a que mais tem poder de fazer algu&#233;m pegar um livro para ler. </p><p><a href="/__u/alabia.substack.com/">A Ana Lima Cecilio tem uma newsletter</a> que, eu chutaria, se estrutura a partir dessa mesm&#237;ssima pergunta. Que talvez n&#227;o seja uma pergunta propriamente e eu esteja dando uma roubadinha para colocar esse argumento aqui&#8230; talvez seja um ensejo, uma cena. </p><p>Eis, ent&#227;o, o ensejo, a cena:</p><p><em>Por que eu amei essa leitura&#8230; e por que acho que voc&#234; tamb&#233;m pode amar.</em></p><p>Para furtar uma outra ideia dela (que j&#225; n&#227;o lembro mais se foi lida ou ouvida na Flip!), o neg&#243;cio &#233; que leitor gosta de gostar. O jeito mais f&#225;cil de fazer uma pessoa ler &#233; olhar bem nos olhos dela e fazer a indica&#231;&#227;o derradeira, apaixonada. </p><p>E o bicho pega porque paix&#227;o n&#227;o &#233; algo que se consiga simular com facilidade, mas que transborda assim que aparece. Ouvir algu&#233;m falar de um livro com os olhos brilhando &#233; das coisas mais bonitas e mais convincentes que tem. Ainda vamos salvar a figura do livreiro assim. <em>Boca a boca</em> que chama.</p><p>A Antof&#225;gica, editora dedicada a publicar cl&#225;ssicos de um jeito que eu amo, sacou isso t&#227;o bem que eu diria que ela fez disso uma f&#243;rmula para as introdu&#231;&#245;es de seus livros. Dos t&#237;tulos deles que eu j&#225; li, que n&#227;o foram todos, claro, mas tamb&#233;m n&#227;o foram poucos, n&#227;o lembro de ter me sentido lendo um tratado acad&#234;mico nem uma &#250;nica vez (nada contra academia, gente, tenho at&#233; amigos que s&#227;o). Lembro apenas de ter come&#231;ado cada empreitada conversando com um outro leitor basicamente me dizendo: <em>foi por isso que eu amei este livro, foi aqui que ele me tocou, foi deste jeito que ele fez de mim outra pessoa e por isso eu acho que voc&#234; pode amar tamb&#233;m.</em>  </p><p>De novo: a gente gosta mesmo &#233; de gostar. </p><p>Foi uma pessoa apaixonada por &#8220;<strong>Desonra&#8221;</strong> que me convenceu a pass&#225;-lo na frente. Foram as tardes voltando da faculdade ao lado de uma amiga-irm&#227; com olhos vidrados falando sobre seu livro favorito, que ela havia descoberto nesse outro lugar m&#225;gico chamado biblioteca, que me levaram a passar a nova edi&#231;&#227;o de &#8220;<strong>O beijo da mulher-aranha&#8221;</strong> na frente de tantos outros t&#237;tulos. </p><p>E digo mais: se &#8220;<strong>A morte de Ivan Ilitch&#8221;</strong> virou um dos meus livros favoritos da vida, eu n&#227;o sei dizer se isso &#233; apenas m&#233;rito do Tolst&#243;i ou tamb&#233;m da apresenta&#231;&#227;o apaixonad&#237;ssima do <a href="https://www.instagram.com/bloglivrada/">Yuri Al&#8217;Hanati</a> na edi&#231;&#227;o (da pr&#243;pria Antof&#225;gica, no caso). O que me levou a ser tamb&#233;m uma consumidora em s&#233;rie de todos os seus conte&#250;dos sobre livros: ele &#233; t&#227;o empenhado em suas avalia&#231;&#245;es que eu gosto at&#233; quando ele fala mal daqueles que eu amo, o que &#233; bem frequente. (Acho que voc&#234; pode gostar tamb&#233;m rs)</p><p>Claramente literatura &#233; um grande esquema de pir&#226;mide. Dos bons.</p><p>Mesmo porque, pra encerrar no auge da cafonice: indicar livros ainda &#233; a melhor linguagem do amor que eu conhe&#231;o.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Abaixar o volume para ver melhor?]]></title><description><![CDATA[Sinestesias entre sil&#234;ncio e som]]></description><link>https://victoriamantoan.substack.com/p/abaixar-o-volume-para-ver-melhor</link><guid isPermaLink="false">https://victoriamantoan.substack.com/p/abaixar-o-volume-para-ver-melhor</guid><dc:creator><![CDATA[Victória Mantoan]]></dc:creator><pubDate>Fri, 10 Oct 2025 21:20:52 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/youtube/w_728,c_limit/EtN1jBk0ZQg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Est&#225;vamos, eu e uma amiga, num Clio vermelho de duas portas, era meu primeiro carro. Eu sempre fui uma motorista cuidadosa, embora n&#227;o necessariamente habilidosa (o que segue sendo verdadeiro ap&#243;s 16 anos de, r&#225;, habilita&#231;&#227;o &#8211; e uma verdade tamb&#233;m para uma por&#231;&#227;o de outras coisas que me proponho a fazer). N&#227;o lembro precisamente se era sexta ou s&#225;bado &#224; noite, mas era fim de semana e &#237;amos a uma dessas casas meio bar, meio balada de m&#250;sica brasileira bem <em>esquerda festiva</em> (Pau Brasil?) na Vila Madalena. </p><p>Bom, eu chegava por uma daquelas ruas n&#227;o t&#227;o largas, que n&#227;o deveriam ser de m&#227;o dupla mas s&#227;o, e, putz, estava escuro, pois j&#225; era noite e&#8230; passei do n&#250;mero. Pessoa <s>pregui&#231;osa</s> pr&#225;tica que sou, n&#227;o me dispus a dar uma volta na quadra. Decidi fazer o famoso retorno na pr&#243;pria rua embicando o carro em dire&#231;&#227;o a uma garagem para dar meia volta. A m&#250;sica no r&#225;dio estava no patamar usual no que me diz respeito: m&#225;ximo. O que estava no r&#225;dio era <a href="https://www.youtube.com/watch?v=8UVNT4wvIGY">isto aqui</a>. </p><p>Na hora de dar a r&#233;, no escurinho da rua, havia um caminh&#227;o estacionado. Um caminh&#227;o que eu n&#227;o vi. E tampouco ouvi. De modo que cometi o ato singelo de enfiar a traseira do meu carro na quina da carroceria.. sem me dar conta do ocorrido. Diante desse desconhecimento do que havia feito, nos segundos em que eu deveria ter come&#231;ado a sair do carro, segui acelerando, me perguntando, na mais pura ignor&#226;ncia, o que estava fazendo resist&#234;ncia ao meu movimento. Nesse intervalo min&#250;sculo e enorme entre n&#227;o saber o que estava acontecendo e processar o &#243;bvio da realidade concreta: o vidro traseiro do carro cedeu estilha&#231;ado sobre o banco traseiro. </p><p><em>Voc&#234; n&#227;o escutou a pr&#243;pria batida?</em> </p><p>Eu estava muito ocupada ouvindo m&#250;sica no &#250;ltimo volume e caindo nas armadilhas no meu processamento lento. Sa&#237; do carro, claro, desesperada, apenas para encontrar o dono do caminh&#227;o encostado no pr&#243;prio ve&#237;culo se divertindo, dando risada do meu feito. N&#227;o fez nem c&#243;cegas no caminh&#227;o. Ufa.</p><p>N&#227;o foi meu primeiro deslize de motorista, n&#227;o foi o &#250;ltimo, mas foi certamente o mais interessante at&#233; aqui. </p><p>Agora eu abaixo o volume para prestar aten&#231;&#227;o ao que estou fazendo. Abaixo o volume para estacionar, abaixo o volume quando chego a uma &#225;rea da cidade que n&#227;o conhe&#231;o t&#227;o bem e que exige que eu preste mais aten&#231;&#227;o ao GPS, abaixo o volume quando a neblina na estrada est&#225; intensa e a visibilidade fica ruim. </p><p>Mas sigo dirigindo, a maior parte do tempo, no volume m&#225;ximo. E cantando.</p><p>*</p><p>A m&#250;sica que tocava nesse dia n&#227;o tem um significado especial para mim por conta do seu conte&#250;do, mas, desde ent&#227;o, sempre que eu a escuto, sou transportada para aquela noite. Ela come&#231;a a tocar e, junto com ela, escuto o vidro se quebrando e mais uma por&#231;&#227;o de outras coisas que eu sentia naquele dia e que, hoje, s&#243; consigo recuperar por meio dela. </p><p>Chutaria que, se n&#227;o todo mundo (<em>todo mundo &#233; muita gente, </em>repete a voz da minha primeira analista na minha cabe&#231;a), ao menos muita gente sabe o que &#233; isso: uma m&#250;sica que come&#231;a a tocar pode ser um filme que volta a passar do lado de dentro.<br><br>*</p><p>Ainda na conex&#227;o <em>m&#250;sica-dire&#231;&#227;o</em>&#8230;</p><p>Vamos para um passado bem recente: enquanto o c&#233;u desabava na cabe&#231;a das pessoas como se noite fosse logo ap&#243;s o almo&#231;o em S&#227;o Paulo, eu estava no meio da estrada sem conseguir enxergar um palmo a minha frente. Foi uma experi&#234;ncia maluca: n&#227;o enxergava as laterais e limites da rodovia, n&#227;o enxergava faixa, demarca&#231;&#227;o de canteiro, muito menos acostamento, entradas ou curvas, nada. Seguia a 20km/h como se estivesse flutuando num vazio, voando entre nuvens, na esperan&#231;a de que algum ente superior garantisse que eu estava de fato andando em linha reta e que saberia a hora de fazer alguma curva e em qual &#226;ngulo. Dessa vez, n&#227;o abaixei o volume&#8230; desliguei o som. </p><p>Meu analista perguntou depois como foi: <em>o m&#225;ximo de aten&#231;&#227;o plena que eu lembro de ter experimentado</em>, disse. E foi exaustivo. </p><p>Na maior parte do tempo, a faixa simplesmente passa batido; e, quando est&#225; apagada, n&#243;s a imaginamos usando de outras refer&#234;ncias, tamb&#233;m visuais, e assim seguimos guiando como se a demarca&#231;&#227;o ali estivesse. Sem esses recursos&#8230; era preciso sil&#234;ncio.</p><p>*</p><p>Mas &#224;s vezes n&#227;o. Talvez agora seja seguro dizer que James Baldwin &#233; meu escritor favorito. Por isso ele volta aqui quinzena sim, quinzena tamb&#233;m. E acho que ele &#233; um dos autores mais musicais de que eu tenho lembran&#231;a.</p><p>*</p><p>Christopher Bollas &#233; um psicanalista que defende uma linha te&#243;rica que n&#227;o &#233; a minha, mas que me ganha e me mant&#233;m presa na leitura pela sedu&#231;&#227;o: o cara escreve bonito e escreve coisas bonitas. Ele oferece uma das met&#225;foras mais lindas que eu j&#225; vi entre te&#243;ricos de psican&#225;lise: a m&#250;sica sustenta sua representa&#231;&#227;o do funcionamento ps&#237;quico inconsciente. Veja, como o aparelho ps&#237;quico n&#227;o &#233; um &#243;rg&#227;o que se possa localizar e examinar (n&#227;o se trata aqui de uma &#8220;anatomia do c&#233;rebro humano"), s&#227;o essas met&#225;foras que nos permitem pensar, imaginar, ilustrar, digamos assim, modos de funcionamento. Lacan adora pegar emprestado modelos da f&#237;sica, ou da l&#243;gica; Bollas pega emprestada uma imagem mental de algo que lhe &#233; amado e familiar: a partitura musical<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a>. Tem suas limita&#231;&#245;es, claro (como toda met&#225;fora, nos diria Susan Sontag), e ele demarca isso muito bem, mas &#233; bel&#237;ssimo e, apenas por isso, j&#225; me encanta e me ganha. </p><p>*</p><p>N&#227;o foi a minha escola liter&#225;ria favorita do Ensino M&#233;dio, mas foi tranquilamente a que eu aprendi com maior prazer: Simbolismo (falo isso rindo de mim mesma pela cole&#231;&#227;o de ironias). Como no meu tempo a gente respondia a quest&#245;es do tipo &#8220;identifique o per&#237;odo e liste X caracter&#237;sticas da escola tal&#8221;, a minha professora querida, a Tia Aline, come&#231;ou a falar da figura de linguagem que mais me marcou ent&#227;o e que figura entre as tais caracter&#237;sticas da escola Simbolista : a sinestesia. Para fazer a introdu&#231;&#227;o e (acho que ela tinha grandes esperan&#231;as) a consolida&#231;&#227;o dessas informa&#231;&#245;es na nossa cabe&#231;a, Aline lan&#231;ou a seguinte pergunta que, n&#227;o tenho d&#250;vidas, todo mundo (olha eu a&#237; de novo) vai saber responder do seu jeito: </p><p><em>Qual o cheiro da sua inf&#226;ncia?</em> </p><p>A minha resposta de bate-pronto: <em>o do travesseiro da minha av&#243;</em>. Era essa a resposta quando eu podia chegar em casa e senti-lo, continua sendo essa a resposta enquanto eu s&#243; posso resgatar o cheiro de mem&#243;ria e n&#227;o tenho d&#250;vida de que ser&#225; sempre essa a minha resposta. &#201; um cheiro que, mesmo distante no tempo, n&#227;o se desfaz dentro de mim. Enquanto o descrevo aqui, o cheiro simplesmente me vem. A quantidade de cenas a que esse cheiro remete poderia compor uma novela inteira e ainda assim n&#227;o daria conta da &#250;nica coisa que eu n&#227;o sou capaz de descrever para ningu&#233;m, que &#233; o cheiro em si. Ele me escapa ao mesmo tempo em que &#233; evidente para mim. </p><p>No Brasil, um dos poemas mais emblem&#225;ticos da escola, e tamb&#233;m um bastante conhecido, &#233; &#8220;Ism&#225;lia&#8221;, de Alphonsus de Guimaraens:</p><blockquote><p>&#8220;Quando Ism&#225;lia enlouqueceu,</p><p>P&#244;s-se na torre a sonhar...</p><p>Viu uma lua no c&#233;u,</p><p>Viu outra lua no mar.</p><p></p><p>No sonho em que se perdeu,</p><p>Banhou-se toda em luar...</p><p>Queria subir ao c&#233;u,</p><p>Queria descer ao mar...</p><p></p><p>E, no desvario seu,</p><p>Na torre p&#244;s-se a cantar...</p><p>Estava perto do c&#233;u,</p><p>Estava longe do mar...</p><p></p><p>E como um anjo pendeu</p><p>As asas para voar...</p><p>Queria a lua do c&#233;u,</p><p>Queria a lua do mar...</p><p></p><p>As asas que Deus lhe deu</p><p>Ruflaram de par em par...</p><p>Sua alma subiu ao c&#233;u,</p><p>Seu corpo desceu ao mar...&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a></p></blockquote><p></p><p>O Emicida foi l&#225; e e fez o qu&#234;? Transformou em outra coisa tamb&#233;m bel&#237;ssima&#8230;m&#250;sica (&#233; s&#233;rio, isso &#233; extraordin&#225;rio, assista!): </p><div id="youtube2-EtN1jBk0ZQg" class="youtube-wrap" data-attrs="{&quot;videoId&quot;:&quot;EtN1jBk0ZQg&quot;,&quot;startTime&quot;:null,&quot;endTime&quot;:null}" data-component-name="Youtube2ToDOM"><div class="youtube-inner"><iframe src="https://www.youtube-nocookie.com/embed/EtN1jBk0ZQg?rel=0&amp;autoplay=0&amp;showinfo=0&amp;enablejsapi=0" frameborder="0" loading="lazy" gesture="media" allow="autoplay; fullscreen" allowautoplay="true" allowfullscreen="true" width="728" height="409"></iframe></div></div><p>*</p><p>&#8220;Solen&#243;ide&#8221;, acho, &#233; um autor mais t&#225;til. Alex Castro disse isso tamb&#233;m na mesa sobre o livro de que ele participou na Flip!: &#233; um romance &#250;mido. Pois &#233;: ao longo da leitura, parece que voc&#234; est&#225; o tempo todo em contato com alguma coisa meio gosmenta, meio gelada. Uma experi&#234;ncia de leitura completamente sensorial.</p><p>A sinestesia &#233; tamb&#233;m musical, mas n&#227;o s&#243;.</p><p>*</p><p>Quando Freud desenhou seu primeiro esquema do aparelho ps&#237;quico, o que chamamos de sua primeira t&#243;pica, numa das pontas est&#225; representado o polo perceptivo. Acho at&#233; isso bonito, que tenhamos uma palavra para dizer que aquilo que se percebe n&#227;o se resume a um sentido, e nem mesmo apenas &#224; soma dos sentidos. </p><p>Voltando a Baldwin: se voc&#234; j&#225; leu &#8220;Terra estranha&#8221;, vai concordar que h&#225; m&#250;sica tocando o tempo inteiro, explicitamente ou n&#227;o&#8230;</p><blockquote><p>&#8220;Havia um pouco de maconha no bar e ele estava meio baratinado. Sentia-se &#243;timo. E, na &#250;ltima parte do show, ficou ainda mais empolgado porque o saxofonista, que esteve estranho a noite toda, fez um solo maravilhoso. Era um garoto mais ou menos da idade de Rufus, de algum lugar maluco como Jersey City ou Syracuse, que em algum momento da vida descobriu que podia falar atrav&#233;s de um saxofone. Ele tinha muito para dizer. Ficou ali de p&#233;, pernas bem abertas, curvado, enchendo de ar o peito em forma de barril, tremendo nos trapos de seus vinte e poucos anos e gritando com o sax <em>Voc&#234; me ama? Voc&#234; me ama? Voc&#234; me ama?</em> E mais uma vez: <em>Voc&#234; me ama? Voc&#234; me ama? Voc&#234; me ama?</em> Essa, pelo menos, era a pergunta que Rufus ouvia, a mesma frase, de modo insuport&#225;vel, infinito e repetido de v&#225;rias maneiras, com toda a for&#231;a que o garoto tinha. O sil&#234;ncio da plateia passou a ser total, com uma aten&#231;&#227;o abruptamente concentrada, cigarros foram apagados, bebidas ficaram sobre as mesas; e em todos os rostos, mesmo nos mais arruinados e nos mais entediados, surgiu uma luz atenta de curiosidade. Eles estavam sendo atacados pelo saxofonista que talvez n&#227;o quisesse mais o amor deles e estivesse meramente atirando contra eles sua indigna&#231;&#227;o com o mesmo orgulho pag&#227;o e cheio de desprezo com que se contorcia. Ainda assim a pergunta era terr&#237;vel e real; o garoto soprava com os pulm&#245;es e as v&#237;sceras para falar de seu breve passado; em algum ponto do passado, nas sarjetas ou em brigas de gangues ou em trepadas grupais; no quarto de cheiro acre, no cobertor duro de esperma, por tr&#225;s da maconha ou da agulha, sob o cheiro de mijo no por&#227;o da casa, ele tinha levado um murro do qual jamais iria se recuperar, e nisso ningu&#233;m queria acreditar. Voc&#234; me ama? Voc&#234; me ama? Voc&#234; me ama? Os caras no palco foram com ele, calmos e a certa dist&#226;ncia, acrescentando, questionando e corroborando, se segurando na medida do poss&#237;vel com uma esp&#233;cie de autocr&#237;tica ir&#244;nica; mas nenhum deles tinha d&#250;vida de que o garoto soprava em nome de todos eles. Quando o show acabou, estavam todos encharcados. Rufus sentiu seu odor e o odor dos homens ao redor, e &#8220;Bom, &#233; isso a&#237;&#8221;, disse o baixista. A plateia gritava pedindo mais, mas eles tocaram a m&#250;sica tema da banda e as luzes se acenderam. E ele tinha tocado a &#250;ltima m&#250;sica de seu &#250;ltimo show.&#8221;</p></blockquote><p></p><blockquote><p>&#8220;Vivaldo n&#227;o disse nada. Seu rosto estava p&#225;lido e furioso, e ele se concentrou em olhar os discos. Por fim colocou um para tocar: James Pete Johnson e Bessie Smith numa vers&#227;o relaxada de &#8220;Backwater Blues&#8221;. <br>&#8220;Bom&#8221;, disse Vivaldo, meio perdido, e sentou de novo. <br>Al&#233;m da vitrola, n&#227;o havia muita coisa no apartamento. Uma lumin&#225;ria feita em casa, prateleiras de livros apoiadas em tijolos, discos, uma cama com um colch&#227;o gasto, a cadeira reclin&#225;vel rachada e a cadeira de encosto reto. Um banco alto diante da escrivaninha de Vivaldo onde ele se balan&#231;ava agora, com seu cabelo preto grosso e enrolado pendendo para a frente, os olhos tristes e os cantos da boca voltados para baixo. Na escrivaninha havia l&#225;pis, pap&#233;is, uma m&#225;quina de escrever e um telefone. Num cantinho ficava a cozinha, onde a l&#226;mpada de teto queimava. A pia estava cheia de pratos sujos, e no alto deles havia uma lata aberta e vazia. Um saco de papel com lixo apoiava-se nas pernas pouco firmes da mesa da cozinha.<br><em>There&#8217;s thousands of people</em>, Bessie cantou, <em>ain&#8217;t got no place to go</em>, e pela primeira vez Rufus come&#231;ou a ouvir, na monotonia tremendamente sutil desse blues, algo que falava &#224; sua mente perturbada. O piano estoico e ir&#244;nico repetia o relato da cantora. Agora que Rufus estava sem ter para onde ir &#8212; &#8217;<em>cause my house fell down and I can&#8217;t live there no mo</em>&#8217;, cantou Bessie &#8212;, ele ouviu o verso e o tom da voz dela e pensou como os outros conseguiram vencer o vazio e o horror com que ele agora se deparava.&#8221;</p></blockquote><p>Bessie Smith toca o tempo todo. E outras m&#250;sicas tamb&#233;m. Voc&#234; pode tentar ler em sil&#234;ncio, mas &#233; imposs&#237;vel.</p><p>* </p><p>O neg&#243;cio &#233; que nem tudo o que &#233; captado pela percep&#231;&#227;o chega ao &#8220;final&#8221; do processo de &#8220;tradu&#231;&#227;o&#8221; (e o contr&#225;rio tamb&#233;m &#233; verdade: nem tudo o que sentimos somos capazes de explicar para um outro), algumas coisas ficam nesse meio de caminho (ou talvez seja apenas um outro caminho) onde montamos nosso armaz&#233;m de conhecimento t&#225;cito. </p><p>N&#227;o se trata exatamente da mesma coisa, mas uma outra boniteza: h&#225;, na psican&#225;lise, a ideia de que algo possa ser uma <a href="https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1806-58212009000300016">mem&#243;ria em sensa&#231;&#227;o.</a></p><p>Fico me perguntando se isso que a gente sabe mas n&#227;o consegue traduzir &#233; o que ainda n&#227;o sabemos bem, o que n&#227;o est&#225; bem elaborado, ou justamente aquilo que, por sabermos t&#227;o bem, num lugar t&#227;o &#237;ntimo, &#233; que n&#227;o cabe nas formas do alfabeto. </p><p>E, como a gente j&#225; sabe que o poeta sempre chega antes da psican&#225;lise nos lugares, vamos de Borges mais uma vez:</p><blockquote><p>&#8220;Por exemplo, se preciso definir poesia, e se me sinto um tanto hesitante, se n&#227;o tenho muita certeza, digo algo como: &#8220;Poesia &#233; a express&#227;o do belo por meio de palavras habilmente entretecidas&#8221;. Essa defini&#231;&#227;o pode ser boa o suficiente para um dicion&#225;rio ou um manual, mas todos sentimos ser bastante fr&#225;gil. Existe algo muito mais importante &#8212; algo que pode nos encorajar a seguir adiante e n&#227;o somente treinar a m&#227;o escrevendo poesia, mas desfrut&#225;-la e sentir que sabemos tudo a seu respeito. </p><p>Isso &#233; o que <em>sabemos</em> ser a poesia. Sabemos t&#227;o bem que n&#227;o podemos defini-la em outras palavras, tal como n&#227;o podemos definir o gosto do caf&#233;, a cor vermelha ou amarela nem o significado da raiva, do amor, do &#243;dio, do p&#244;r-do-sol ou do nosso amor pela p&#225;tria. Essas coisas est&#227;o t&#227;o entranhadas em n&#243;s que s&#243; podem ser expressas por aqueles s&#237;mbolos comuns que partilhamos. Por que precisar&#237;amos ent&#227;o de outras palavras?&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a></p></blockquote><p>Mesmo assim, a gente insiste um tanto em tentar dizer.</p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>&#8220;O momento freudiano&#8221;, Christopher Bollas</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>Foi mais um dos amores liter&#225;rios que eu estampei na parede da livraria. </p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="#footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p>&#8220;Esse Of&#237;cio do Verso&#8221;, Jorge Luis Borges. </p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Narrar histórias, felicidade e cinismo]]></title><description><![CDATA[e, sempre, alguns livros (e ainda poesia)]]></description><link>https://victoriamantoan.substack.com/p/narrar-historias-felicidade-e-cinismo</link><guid isPermaLink="false">https://victoriamantoan.substack.com/p/narrar-historias-felicidade-e-cinismo</guid><dc:creator><![CDATA[Victória Mantoan]]></dc:creator><pubDate>Fri, 26 Sep 2025 16:09:22 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!3iPV!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fcc74d565-daf7-4298-9ed6-499e6015d58d_5472x3648.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Toda semana eu dirijo por 25 minutos at&#233; o consult&#243;rio do meu analista, deito num sof&#225; suficientemente confort&#225;vel para ali permanecer por mais 50 minutos e duro o suficiente para depois disso eu j&#225; querer ir embora e conto alguma hist&#243;ria. Mesmo que n&#227;o seja, &#233; sempre sobre mim. Conto algo que me contaram sobre mim, algo em que acreditei, algo que ouvi sobre terceiros mas peguei para mim, ou alguma hist&#243;ria que, de tanto contar para mim mesma, passei a achar que sempre foi (fui) assim. E boa parte do que fazemos ali &#233; uma especie de sele&#231;&#227;o, edi&#231;&#227;o e reescrita. Vou vendo o que &#233; que dessas hist&#243;rias nunca me serviu ou n&#227;o me serve mais, o que &#233; que precisa de uma boa editada, trocar uma palavra aqui outra ali, o que precisa ser refeito quase que do zero. Mas, no fim das contas, estamos sempre &#224;s voltas &#233; com as hist&#243;rias.</p><p>Quando terminarmos de escrever e editar essa aqui, bom&#8230;</p><p>*</p><p>Estamos fazendo e refazendo o que, at&#233; agora, eu vinha chamando de nosso romance particular, mas uma parte do que tem adiante &#233; para colocar em d&#250;vida se trata-se de fato de um romance. Certamente &#233; uma fic&#231;&#227;o. </p><p>*</p><p>Ent&#227;o, uma hist&#243;ria&#8230;</p><p>Acho que j&#225; contei essa, mas vou contar de novo (e quem sabe melhor): estou sentada num banco de uma livraria seguindo meu ritual completo (fazer uma pilha, encontrar um canto para mim e, sem pressa, ler as primeiras p&#225;ginas de cada t&#237;tulo para separ&#225;-los entre as categorias <em>levarei</em> e <em>n&#227;o levarei</em>). </p><p>Uma mulher de seus 50 anos conversa com o livreiro, ele lhe mostra o pequeno folheto que fizeram (bem bonito, por sinal) com alguns destaques de lan&#231;amentos daquele m&#234;s. Eu lembro perfeitamente, estamos em abril de 2022. Ela olha com aten&#231;&#227;o, mas &#233; dif&#237;cil dizer se com genu&#237;no interesse. Ent&#227;o volta-se ao livreiro e lan&#231;a o pedido imposs&#237;vel: </p><p>&#8211; Voc&#234; poderia me indicar um livro que seja bom mas que n&#227;o seja triste?</p><p>Nunca pensei que um pedido de indica&#231;&#227;o de livro pudesse deixar um ser humano num estado de desola&#231;&#227;o t&#227;o profunda quanto aquele em que vi o mo&#231;o se afundar. Revisei minha pr&#243;pria biblioteca mental (que, vale dizer, n&#227;o &#233; das melhores tamb&#233;m porque a minha mem&#243;ria &#233; por si mesma trist&#237;ssima) e, bom, n&#227;o consegui. Segui meu ritual e, at&#233; que eu terminasse minha visita, n&#227;o tive qualquer ind&#237;cio de que a mulher conseguira obter do livreiro aquilo que procurava. </p><p>* </p><p>Uma segunda hist&#243;ria&#8230;</p><p>Eu carrego a hip&#243;tese de que a principal miss&#227;o de crian&#231;as e da inf&#226;ncia na terra &#233; promover testes emp&#237;ricos de realidade: eles testam se o mundo da p&#233;, testam as leis da f&#237;sica, testam se o espa&#231;o do est&#244;mago aumenta no caso de o almo&#231;o ser bolo de chocolate, testam nosso sono e testam se nossas art&#233;rias coron&#225;rias est&#227;o limpas o suficiente. Testam. Outro dia meu filho mais novo, que gosta excepcionalmente do teste de gravidade e, chuto, est&#225; tentando descobrir qual &#233; a altura m&#225;xima da qual ele pode se lan&#231;ar sem se estrebuchar no ch&#227;o, promoveu mais uma de suas tentativas. Ele subiu no encosto do sof&#225; e me chamou para dizer que era poss&#237;vel passar <s>voando</s> pulando por cima do assento e chegar ao ch&#227;o plen&#237;ssimo (no m&#225;ximo de quatro, tal qual um gato). </p><p>Eu tento me policiar para n&#227;o interromper seus experimentos e, dentro do poss&#237;vel, me manter observando silenciosamente a uma dist&#226;ncia segura e intervir apenas se a integridade f&#237;sica for gravemente amea&#231;ada. Mas nesse dia eu estava lendo e meio distra&#237;da e a&#237; uma daquelas frases que a gente jura que n&#227;o vai repetir com nossas crias (no melhor estilo &#8220;na volta a gente compra&#8221;) simplesmente saiu t&#227;o logo ele me chamou para ver a perip&#233;cia (olha a&#237;) que estava arrumando&#8230;</p><p>&#8220;Voc&#234; t&#225; aprontando, n&#233;, menino?"</p><p>Pronto. Saiu. Falei at&#233; meio rindo, nem brava, nem alto. </p><p>Mas ele se ofendeu. </p><p>Ele, que estava meio de costas para mim (eu estava atr&#225;s do sof&#225;), se virou, sentou, olhou bem nos meus olhos e disse, com todas as trocas de letras de que s&#243; uma crian&#231;a de tr&#234;s anos fof&#237;ssima &#233; capaz: </p><p><strong>&#8220;N&#227;o, mam&#227;e, eu estou me divertindo&#8221;.</strong> </p><p>Levantou, desvirou e pulou: aterrissou de quatro, tal qual um gatinho. </p><p>O mundo continua dando p&#233;. </p><p>Eu suspirei aliviada. Sim, porque ele sobreviveu a mais um teste, mas n&#227;o s&#243;.</p><p>*</p><p>Eu tentei dizer para o meu filho que pular do encosto do sof&#225; &#233; uma hist&#243;ria de perigo. Ele me respondeu que subir no encosto do sof&#225; &#233; uma hist&#243;ria de aventura, e, conseguir pular, uma hist&#243;ria de alegria. </p><p>Suspirei aliviada principalmente porque meu filho, por sorte, n&#227;o comprou a minha vers&#227;o.</p><p>*</p><p>Borges me contou num livro apaixonante (<strong>&#8220;esse of&#237;cio do verso&#8221;</strong>, uma colet&#226;nea de palestras sobre poesia proferidas em Harvard em 67 e 68) que, antigamente, fazer poesia era algo um pouco mais abrangente do que entendemos hoje: </p><blockquote><p>&#8220;3. O NARRAR UMA HIST&#211;RIA</p><p>          Devemos levar em considera&#231;&#227;o distin&#231;&#245;es verbais, j&#225; que representam distin&#231;&#245;es mentais, intelectuais. &#201; pena, por&#233;m, que a palavra &#8220;poeta&#8221; tenha sido fracionada. Pois hoje em dia, quando falamos de um poeta, pensamos apenas em quem profere tais notas l&#237;ricas, &#224; maneira de p&#225;ssaros, como &#8220;With ships the sea was sprinkled far and nigh,/Like stars in heaven&#8221; [De navios o mar estava salpicado por toda parte,/Como estrelas no c&#233;u] (Wordsworth), ou &#8220;Music to hear, why hear&#8217;st thou music sadly?/Sweets with sweets war not, joy delights in joy&#8221; [Ouvir m&#250;sica, por que est&#225;s triste a ouvir m&#250;sica?/ Do&#231;ura com do&#231;ura n&#227;o guerreia, o prazer se deleita no prazer]. Ao passo que <strong>os antigos, quando falavam de um poeta &#8212; um &#8220;fazedor&#8221; &#8212;, pensavam nele n&#227;o somente como quem profere essas agudas notas l&#237;ricas, mas tamb&#233;m como quem narra uma hist&#243;ria. Uma hist&#243;ria na qual todas as vozes da humanidade podem ser encontradas &#8212; n&#227;o somente a l&#237;rica, a pesarosa, a melanc&#243;lica, mas tamb&#233;m as vozes da coragem e da esperan&#231;a.</strong> Ou seja, me refiro ao que suponho ser a mais antiga forma de poesia: a &#233;pica.&#8221;</p></blockquote><p>Mas ele vai al&#233;m e nos lembra que tamb&#233;m ca&#237;mos numa armadilha: </p><blockquote><p>          &#8220;Ao considerarmos o romance e a &#233;pica, somos tentados a pensar que a diferen&#231;a principal est&#225; na diferen&#231;a entre verso e prosa, entre cantar algo e enunciar algo. Mas acho que h&#225; uma outra maior. A diferen&#231;a est&#225; no fato de que o importante na &#233;pica &#233; o her&#243;i &#8212; um homem que &#233; um modelo para todos os homens. Ao passo que a ess&#234;ncia da maioria dos romances, como salientou Mencken, reside na aniquila&#231;&#227;o de um homem, na degenera&#231;&#227;o do car&#225;ter. <br>          Isso nos leva a outra quest&#227;o: o que pensamos da felicidade? O que pensamos da derrota e da vit&#243;ria? <strong>Quando se fala hoje em dia num final feliz, as pessoas consideram-no uma simples concess&#227;o ao p&#250;blico ou uma estrat&#233;gia comercial; consideram-no artificial.</strong> Mas por s&#233;culos os homens puderam acreditar sinceramente na felicidade e na vit&#243;ria, embora percebessem a dignidade intr&#237;nseca da derrota. Por exemplo, quando se escrevia sobre o Velocino de Ouro (uma das velhas hist&#243;rias da humanidade), leitores e ouvintes sabiam desde o in&#237;cio que o tesouro seria encontrado no final. <br>          Bem, <strong>hoje em dia, se algu&#233;m empreende uma aventura, sabemos que terminar&#225; em fracasso</strong>. Quando lemos &#8212; penso num exemplo que admiro &#8212; The Aspern papers, sabemos que os pap&#233;is jamais ser&#227;o encontrados. Quando lemos O castelo de Franz Kafka, sabemos que o homem jamais ingressar&#225; no castelo. <strong>Ou seja, n&#227;o podemos realmente acreditar em felicidade e sucesso. E isso talvez seja uma das pobrezas de nosso tempo.</strong> Suponho que Kafka tenha sentido algo bem parecido quando quis que seus livros fossem destru&#237;dos: queria na verdade escrever um livro feliz e triunfante, e sentiu que n&#227;o podia faz&#234;-lo. Ele poderia t&#234;-lo feito, &#233; claro, mas as pessoas teriam percebido que ele n&#227;o estava dizendo a verdade. <strong>N&#227;o a verdade dos fatos, mas a verdade dos seus sonhos. </strong></p><p>[&#8230;]</p><p>          H&#225; outro fato a ser notado: os poetas parecem esquecer que, outrora, o narrar uma hist&#243;ria era essencial, e o narrar uma hist&#243;ria e o declamar o verso n&#227;o eram pensados como coisas diversas. <strong>Um homem narrava uma hist&#243;ria; cantava-a; e seus ouvintes n&#227;o o tomavam como um homem empenhado em duas tarefas, mas antes como um homem empenhado numa tarefa que tinha dois aspectos</strong>. Ou talvez n&#227;o sentissem que houvesse dois aspectos e considerassem a coisa toda como algo essencial.<br>          Chegamos agora ao nosso tempo e nos deparamos com esta circunst&#226;ncia um tanto esquisita: <strong>tivemos duas guerras mundiais, por&#233;m delas n&#227;o surgiu, de um modo ou de outro, nenhuma &#233;pica</strong> &#8212; exceto talvez os Sete pilares da sabedoria. Nos Sete pilares da sabedoria encontro muitas qualidades &#233;picas. Mas o livro &#233; tolhido pelo fato de que o her&#243;i &#233; o narrador, e tem assim algumas vezes de se rebaixar, se fazer humano, se fazer cr&#237;vel demais. De fato, tem de cair nas <strong>armadilhas de um romancista</strong>.&#8221;</p></blockquote><p>*</p><p>Fiquei maravilhada ao descobrir o que agora parece at&#233; &#243;bvio, descobrir o que todos j&#225; sab&#237;amos mesmo sem saber, que n&#227;o foi sempre que contamos hist&#243;rias pela prosa ou na forma do romance. Talvez, numa an&#225;lise, e, principalmente, numa vida, ainda haja espa&#231;o para fazer poesia, afinal.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!3iPV!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fcc74d565-daf7-4298-9ed6-499e6015d58d_5472x3648.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="/__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!3iPV!, /__u/victoriamantoan.substack.com/w_424, /__u/victoriamantoan.substack.com/c_limit, /__u/victoriamantoan.substack.com/f_webp, /__u/victoriamantoan.substack.com/q_auto:good, /__u/victoriamantoan.substack.com/fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fcc74d565-daf7-4298-9ed6-499e6015d58d_5472x3648.jpeg 424w, /__u/substackcdn.com/image/fetch/$s_!3iPV!, 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Vale dizer aqui que n&#227;o sou especialista em teorias de tradu&#231;&#227;o e nem mesmo sei alem&#227;o. Mas me marcou isso porque h&#225; uma frase de Freud bastante divulgada nas redes sociais que, numa de suas vers&#245;es em portugu&#234;s, diz assim: </p><p><strong>&#8220;[&#8230;] &#233; dif&#237;cil para o psicanalista descobrir algo novo que um poeta j&#225; n&#227;o soubesse antes dele&#8221;</strong></p><p>Eu amo essa ideia, acho bel&#237;ssima. Mas, veja s&#243;, eu disse <em>numa de suas vers&#245;es</em> porque foi assim que a editora Aut&#234;ntica decidiu traduzir o texto do alem&#227;o. Mas, se voc&#234; for para a edi&#231;&#227;o da Companhia das Letras, o poeta, ali, vira &#8220;escritor&#8221;.</p><p>Quantas coisas mais um poeta n&#227;o pode ser?</p><p>*</p><p>Nada disso &#233; simples. O escritor (e o poeta?) est&#225; sempre lidando com o p&#250;blico, fazendo ou n&#227;o fazendo as tais das concess&#245;es, mesmo quando acredita que n&#227;o est&#225; sequer pensando nele. E n&#243;s, na vida, tamb&#233;m estamos o tempo todo nos relacionando com aqueles que nos narraram desde cedo, com os que nos narram agora e com aqueles para quem apresentamos nosso pr&#243;prio teatro de n&#243;s mesmos. E uma das pessoas que, acho, pensou lindamente sobre isso, a partir da ideia do que significa fazer arte e fic&#231;&#227;o, e tamb&#233;m oscilando bastante sobre como enfrentar esses dilemas, foi David Foster Wallace. Vou me permitir destacar um longo trecho dessa cole&#231;&#227;o que eu amo, amo, amo!, que a editora &#194;yin&#233; colocou de p&#233; (<strong>&#8220;Um ant&#237;doto contra a solid&#227;o&#8221;</strong>)&#8230;</p><blockquote><p>&#8220;L.M.: Quase no fim de &#171;Westward the Course of Empire Takes Its Way&#187; aparece uma frase sobre Mark que diz que &#171;Seria necess&#225;rio um arquiteto capaz de odiar o suficiente para poder sentir o suficiente para amar o suficiente para perpetrar o tipo espec&#237;fico de crueldade que somente amantes podem infligir&#187;. &#201; esse tipo de crueldade que voc&#234; sente que falta no trabalho de algu&#233;m como Mark Leyner? </p><p>D.F.W.: Acho que eu ia precisar te perguntar de que tipo de crueldade voc&#234; achou que o narrador estava falando ali. </p><p>L.M.: Ela parece envolver a ideia de que, se os escritores se importam o suficiente com seus leitores &#8212; se amam o suficiente seu p&#250;blico e sua arte &#8212;, eles t&#234;m que ser cru&#233;is em sua pr&#225;tica liter&#225;ria. &#171;Cru&#233;is&#187; como um sargento que treina recrutas &#233; cruel quando decide fazer um grupo de jovens soldados sofrer como o diabo, sabendo que o trauma que voc&#234; est&#225; infligindo a esses caras, emocionalmente, fisicamente, psicologicamente, &#233; apenas parte de um processo que no final vai deix&#225;-los mais fortes, vai preparar esses caras para coisas que eles ainda nem conseguem imaginar. </p><p>D.F.W.: Bom, fora essa ideia de que porra de direito os &#171;artistas&#187; t&#234;m de decidir pelos leitores as coisas para que os leitores t&#234;m que estar preparados, a sua ideia soa bem aristot&#233;lica, n&#227;o &#233;? Assim, qual o sentido de criar fic&#231;&#227;o, para voc&#234;? Ela &#233; essencialmente mim&#233;tica, captando e ordenando uma realidade proteica? Ou ser&#225; que na verdade ela deveria ser terap&#234;utica num sentido aristot&#233;lico? </p><p>L.M.: Concordo com o que voc&#234; disse em &#171;Westward&#187; que a arte s&#233;ria tem que se envolver com toda uma s&#233;rie de experi&#234;ncias; que ela n&#227;o pode ser meramente &#171;metaficcional&#187;, por exemplo, que ela precisa lidar com o mundo externo &#224; p&#225;gina, e de maneiras variadas. Como voc&#234; diria que o seu esfor&#231;o nesse sentido difere daqueles que est&#227;o em jogo na maior parte do que se v&#234; na televis&#227;o ou na fic&#231;&#227;o popular? </p><p>D.F.W.: Isso pode ser uma maneira de come&#231;ar a falar das diferen&#231;as entre os primeiros autores p&#243;s-modernos dos anos cinquenta e sessenta e seus descendentes contempor&#226;neos. Quando voc&#234; leu essa cita&#231;&#227;o de &#171;Westward&#187; agora h&#225; pouco, ela me soou como um resumo disfar&#231;ado das minhas maiores fraquezas como escritor. Uma &#233; o fato de que tenho um afeto grotesco, uma coisa sentimental mesmo, por piadas, por coisas que s&#227;o simplesmente engra&#231;adas, e que eu &#224;s vezes incluo unicamente por esse motivo. Outra &#233; que eu &#224;s vezes tenho um problema com a concis&#227;o, com a coisa de comunicar apenas o que precisa ser dito de um modo &#225;gil e eficiente que n&#227;o chame aten&#231;&#227;o para si pr&#243;prio. Seria pat&#233;tico eu tentar culpar algo externo pelas minhas pr&#243;prias defici&#234;ncias, mas ainda me parece que esses dois problemas t&#234;m suas ra&#237;zes na experi&#234;ncia esquizofr&#234;nica da minha inf&#226;ncia, por gostar de livros e ler muito, de um lado, e por assistir quantidades grotescas de programas de televis&#227;o, do outro. Como eu gostava de ler, provavelmente n&#227;o via tanta televis&#227;o quanto os meus amigos, mas eu ainda tomava a minha megadose di&#225;ria, pode apostar. E acho que &#233; imposs&#237;vel passar tantas horas formativas ali de queixo ca&#237;do e coberto de baba diante da programa&#231;&#227;o da televis&#227;o comercial sem internalizar a ideia de que um dos principais objetivos da arte &#233; simplesmente entreter, fornecer puro prazer. S&#243; que qual &#233; a finalidade desse fornecimento de prazer? Porque &#233; claro que o que a televis&#227;o realmente deseja &#233; que voc&#234; goste dela, porque, se voc&#234; gosta do que est&#225; vendo, voc&#234; n&#227;o muda de canal. A televis&#227;o nem tem vergonha disso; &#233; seu &#250;nico objetivo. E &#224;s vezes quando eu olho para os meus textos eu sinto que absorvi demais esse objetivo. Eu me pego pensando em piadinhas ou tentando malabarismos formais e vejo que nada disso est&#225; a servi&#231;o da pr&#243;pria hist&#243;ria; aquilo est&#225; a servi&#231;o do objetivo bem mais terr&#237;vel de comunicar ao leitor algo como &#171;Oi! Olha eu aqui! Saca s&#243; como eu escrevo bem! Goste de mim!&#187;. <br>          Agora, numa certa medida n&#227;o h&#225; como escapar completamente disso, porque um escritor precisa demonstrar algum tipo de habilidade ou de m&#233;rito para gerar alguma confian&#231;a na leitora. <strong>H&#225; uma estranha e delicada rela&#231;&#227;o do tipo eu-confio-que-voc&#234;-n&#227;o-vai-foder-comigo entre leitor e autor, e as duas partes t&#234;m que sustentar o pacto. Mas h&#225; uma linha imposs&#237;vel de se ignorar entre a demonstra&#231;&#227;o de habilidade e de encanto para conquistar confian&#231;a na hist&#243;ria versus o simples exibicionismo.</strong> <strong>A coisa toda pode se transformar num exerc&#237;cio de tentar fazer a leitora gostar de voc&#234; e te admirar em vez de um exerc&#237;cio de arte criativa.</strong> Acho que a televis&#227;o defende a ideia de que a boa arte &#233; apenas a arte que faz as pessoas estimarem e confiarem no ve&#237;culo que lhes traz a tal arte. Isso parece uma li&#231;&#227;o t&#243;xica para se dar a um futuro artista. E <strong>uma das consequ&#234;ncias &#233; que, se uma artista depende demais da simples ideia de ser estimada, a ponto de o seu fim verdadeiro n&#227;o estar mais na obra, mas na boa opini&#227;o de uma certa plateia, ele vai desenvolver uma tremenda hostilidade em rea&#231;&#227;o a essa plateia, simplesmente porque lhes concedeu todo o poder que era seu. &#201; a conhecida s&#237;ndrome de amor-e-&#243;dio na sedu&#231;&#227;o: &#171;N&#227;o me importa muito o que eu diga, o que me importa &#233; que voc&#234; goste do que digo. Mas como a sua opini&#227;o &#233; o &#250;nico juiz do meu sucesso e do meu valor, voc&#234; tem um poder incr&#237;vel sobre mim, e por causa disso eu sinto medo e &#243;dio de voc&#234;&#187;.</strong> Essa din&#226;mica n&#227;o &#233; exclusiva da arte. Mas muitas vezes acho que posso ver o seu funcionamento em mim e em outros escritores jovens, esse desejo desesperador de agradar, junto com uma esp&#233;cie de hostilidade pela leitora. </p><p>L.M.: No seu pr&#243;prio caso, como essa hostilidade se manifesta? </p><p>D.F.W.: Ah, n&#227;o &#233; sempre, mas <strong>&#224;s vezes ela toma a forma de senten&#231;as que n&#227;o est&#227;o sintaticamente incorretas, mas que s&#227;o fodas de ler. Ou martelar dados e mais dados na cabe&#231;a da leitora. Ou dedicar um monte de energia &#224; cria&#231;&#227;o de expectativas e a&#237; se divertir com o fato de desapontar essa expectativa.</strong> D&#225; para ver isso claramente em algo como o Psicopata americano do Ellis: por um tempo ele alimenta desavergonhadamente o sadismo da plateia, mas no fim fica claro que o objeto real do sadismo &#233; o pr&#243;prio leitor. </p><p>L.M.: Mas pelo menos no caso de Psicopata americano eu senti que havia algo al&#233;m desse simples desejo de causar dor &#8212; ou de que Ellis estava sendo cruel, como voc&#234; disse que os artistas s&#233;rios precisam estar dispostos a ser. </p><p>D.F.W.: Voc&#234; est&#225; simplesmente manifestando o tipo de cinismo que permite que os leitores sejam manipulados pela m&#225; literatura. <strong>Acho que &#233; um tipo de cinismo obscuro no mundo de hoje, um cinismo de que Ellis e outros autores dependem para criar o seu p&#250;blico.</strong> <strong>Olha, se a condi&#231;&#227;o contempor&#226;nea &#233; irremediavelmente fodida, ins&#237;pida, materialista, emocionalmente retardada, sadomasoquista e est&#250;pida, ent&#227;o eu (ou qualquer escritor) posso impunemente ajambrar umas hist&#243;rias com personagens est&#250;pidas, ins&#237;pidas, emocionalmente retardadas, o que &#233; f&#225;cil, porque esse tipo de personagem n&#227;o exige desenvolvimento. Com descri&#231;&#245;es que s&#227;o simplesmente listas de produtos de marcas conhecidas. Em que gente est&#250;pida diz coisas insossas. Se o que sempre distinguiu a m&#225; literatura &#8212; personagens planas, um mundo narrativo feito de clich&#234;s e que deixa de ser reconhecidamente humano etc. &#8212; &#233; tamb&#233;m uma descri&#231;&#227;o do mundo de hoje, ent&#227;o a m&#225; literatura se torna uma engenhosa mimese de um mau mundo. Se os leitores simplesmente acreditam que o mundo &#233; est&#250;pido e raso e p&#233;rfido, ent&#227;o Ellis pode escrever um romance p&#233;rfido, raso e est&#250;pido que se torna um coment&#225;rio mordaz e g&#233;lido a respeito da maldade de tudo. Olha, cara, provavelmente todo mundo aqui ia concordar que estamos vivendo tempos ruins, e tempos est&#250;pidos, mas ser&#225; que a gente precisa de uma fic&#231;&#227;o que n&#227;o faz mais do que dramatizar o quanto tudo &#233; ruim e est&#250;pido? Em tempos sombrios, a defini&#231;&#227;o de boa arte parece que seria a arte que localiza e tenta ressuscitar aqueles elementos do que &#233; humano e m&#225;gico, e que ainda sobrevivem e brilham apesar das trevas. A fic&#231;&#227;o realmente boa poderia ter a vis&#227;o de mundo mais escura que quisesse, mas ela ia encontrar uma maneira de ao mesmo tempo retratar esse mundo de trevas e iluminar as possibilidades de se manter vivo e humano dentro dele. </strong>Voc&#234; pode defender o Psicopata como um resumo performativo dos problemas sociais do fim dos anos oitenta, mas ele n&#227;o &#233; mais que isso. </p><p>L.M.: Ent&#227;o voc&#234; est&#225; dizendo que os escritores da sua gera&#231;&#227;o t&#234;m uma obriga&#231;&#227;o n&#227;o apenas de representar a nossa condi&#231;&#227;o, mas tamb&#233;m de apresentar solu&#231;&#245;es para essas coisas? </p><p>D.F.W.: Acho que n&#227;o estou falando de solu&#231;&#245;es pol&#237;ticas convencionais ou do tipo a&#231;&#227;o social. N&#227;o &#233; disso que trata a fic&#231;&#227;o. <strong>A fic&#231;&#227;o trata do que &#233; ser uma porra de um ser humano. Se voc&#234; trabalha, como quase todo mundo, a partir da premissa de que h&#225; coisas nos Estados Unidos de hoje que tornam especialmente dif&#237;cil ser uma criatura humana de verdade, ent&#227;o talvez metade da tarefa da fic&#231;&#227;o seja dramatizar o que &#233; que torna isso t&#227;o dif&#237;cil. A outra metade &#233; dramatizar o fato de que n&#243;s ainda somos seres humanos, agora. Ou podemos ser.</strong> N&#227;o &#233; que seja o dever da fic&#231;&#227;o edificar ou ensinar, ou nos transformar em bons crist&#227;ozinhos ou republicanos; eu n&#227;o estou tentando me alinhar com Tolst&#243;i ou Gardner. Eu s&#243; acho que uma literatura que n&#227;o esteja explorando o que significa ser humano hoje em dia n&#227;o &#233; boa arte. <strong>A gente tem esse monte de fic&#231;&#227;o &#171;liter&#225;ria&#187; que fica simplesmente cantarolando que estamos nos tornando cada vez menos humanos, que apresenta personagens sem alma e sem amor, personagens que no fundo s&#227;o completamente descrit&#237;veis em termos das marcas das coisas que usam, e n&#243;s todos compramos os livros e ficamos &#171;Nossa, que cr&#237;tica mordaz ao materialismo contempor&#226;neo!&#187;. Mas a gente j&#225; sabe que a cultura dos Estados Unidos &#233; materialista. Esse diagn&#243;stico pode ser feito em coisa de duas linhas. Ele n&#227;o toca ningu&#233;m. O que toca e &#233; artisticamente real &#233;, tomando-se como axiom&#225;tico o fato de que o presente &#233; grosseiramente materialista, como &#233; que n&#243;s, como seres humanos, ainda somos capazes de alegria, de caridade, de conex&#245;es leg&#237;timas, de coisas que n&#227;o t&#234;m pre&#231;o? E ser&#225; que a gente pode fazer essas coisas ficarem mais fortes? Se sim, como, e se n&#227;o, por que n&#227;o?&#8221;</strong></p></blockquote><p>* </p><p><em>como &#233; que n&#243;s, como seres humanos, ainda somos capazes de alegria, de caridade, de conex&#245;es leg&#237;timas, de coisas que n&#227;o t&#234;m pre&#231;o?</em> </p><p>N&#227;o acho que o que Wallace estava propondo fosse muito diferente de uma reflex&#227;o sobre o que significa e como &#233; poss&#237;vel, se &#233; que &#233; poss&#237;vel, apostar na verdade dos sonhos. </p><p>Na literatura, sim, na poesia talvez, na fic&#231;&#227;o, na arte, mas tamb&#233;m na vida.</p><p>*</p><p>Esta semana saiu a lista de semifinalistas do Jabuti, o mais tradicional pr&#234;mio liter&#225;rio do Brasil. Eu o acompanho h&#225; anos e nunca tinha prestado especial aten&#231;&#227;o a isso, mas este ano n&#227;o consigo parar de pensar no fato de que h&#225; uma separa&#231;&#227;o entre as categorias <em>romance de entretenimento</em> e <em>romance liter&#225;rio</em>. N&#227;o &#233; minha especialidade e n&#227;o estou aqui negando seu sentido, mas n&#227;o paro de me perguntar o que &#233; que essa distin&#231;&#227;o diz de n&#243;s, como leitores e narradores, e de nosso tempo. </p><p>* </p><p>Tampouco estou aqui para dizer que felicidade, alegria e prazer sejam sin&#244;nimos e uma e a mesma coisa (e nem que seja o caso de enfiar felicidade, alegria e otimismo goela abaixo das pessoas ou mesmo de ignorar as concess&#245;es que a vida em sociedade nos exige e sair fazendo apenas aquilo que bem entendemos). Mas, nesses tempos em que n&#243;s parecemos ter comprado a valor de face o discurso de que est&#225; todo mundo l&#237;quido, insosso, &#8220;viciado em dopamina&#8221; e que a solu&#231;&#227;o &#233; necessariamente moralizante &#8211; ser muito disciplinado, acordar cedo, fazer exerc&#237;cio f&#237;sico de que n&#227;o se gosta por pura obriga&#231;&#227;o, comer apenas salada, parar de beber, cortar a&#231;&#250;car, retomar a ess&#234;ncia do feminino (socorro), performar dentro de casa pap&#233;is de esposas (e tamb&#233;m maridos) tradicionais (socorro 2), vestir roupas sem estampas e sem cor, obedecer ao pastor etc. etc.&#8211;, tenho voltado cada vez mais a um textinho singelo do Contardo Calligaris (<a href="https://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/2016/09/1813289-as-escolhas-feitas-pelo-prazer-sao-propriamente-malvinistas.shtml">leia aqui, &#233; curto</a>): </p><blockquote><p><em>&#8220;O extraordin&#225;rio n&#227;o &#233; que a gente possa zapear porque acha chato, mas &#233; que esse ato t&#227;o sensato (zapear contra o t&#233;dio) nos envergonhe e que a gente se sinta culpado por isso. As escolhas feitas pelo prazer, que deveriam ser facilmente justific&#225;veis, s&#227;o propriamente malvistas &#8211;pelo homem da rua, por n&#243;s mesmos, pela administra&#231;&#227;o da coisa p&#250;blica, pelas religi&#245;es (nem se fala), pela medicina que gere nossas vidas etc.&#8221;</em></p></blockquote><p>Os exemplos que ele levanta s&#227;o especialmente bons porque seguem sendo tabu at&#233; hoje, inclusive dentro de uma bolha mais progressista (tente dizer em voz alta que voc&#234; n&#227;o gosta de usar camisinha). Se &#233; que n&#227;o s&#227;o debates ainda mais interditados do que quando Contardo falou a respeito. Tem quase dez anos o texto, mas sinto que ele sacou bastante coisa a&#237; de para onde est&#225;vamos indo.</p><p>* </p><p>Mas quem sacou melhor mesmo foi o meu filho, que segue me chamando para ser seu p&#250;blico, que quer ser visto e querido (por mim e pelo mundo), mas que n&#227;o abre m&#227;o, para isso, da alegria e do divertimento. </p><p>Simplesmente porque ele gosta.</p>]]></content:encoded></item></channel></rss>